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ISSN 1645-6386

Nº5 INVERNO 2003

Notícias do Museu

HORÁRIO de Terça a Sexta 10h > 12h e 14h > 18h Sab. | Dom. | Feriados 15h > 19h

PATROCINIO

Auto-Sueco

R. Nova da Alfândega Edifício da Alfândega 4050-430 Porto Tel: 22.340 30 00 Fax: 22.340 30 98 www.amtc.pt amtc@mail.telepac.pt

JORNAL DO MUSEU DOS TRANSPORTES E COMUNICAÇÕES

JMTC

Workshop "Active teaching and learning in the biomolecular sciences"

Decorreu nos dias 27, 28 e 29 de Outubro no espaço "É mesmo ciência?" da exposição "Comunicação do Conhecimento e da Imaginação" o workshop "Active teaching and learning in the biomolecular sciences". Dinamizado pelo Professor Manuel João Costa, docente da Universidade dos Açores, contou com a presença de Rebecca Brent & Richard Felder (North Carolina State University USA) e Bayardo Torres (Universidade de S. Paulo - Brasil) e envolveu cerca de 40 participantes de várias instituições de ensino superior de todo o país. Durante os três dias de trabalho foram abordadas formas diferentes e inovadoras de ensinar a ciência na sala de aula. A envolvente inovadora e interactiva da exposição "Comunicação do Conhecimento e da Imaginação" apresentou-se como o ambiente ideal para a realização deste workshop e para a apresentação de novos métodos de ensinar e comunicar a ciência em Portugal.

Exposição "150 anos do primeiro selo português"

A 9 de Outubro, Dia Mundial dos Correios, decorreu a sessão de inauguração da exposição da Fundação Portuguesa das Comunicações "150 anos do primeiro selo português". Depois de uma itinerância por Lisboa, Viseu e Faro esta exposição esteve patente ao público no Auditório da AMTC até 31 de Dezembro. No acto inaugural, que contou com a presença de representantes da Fundação Portuguesa das Comunicações e CTT - Correios de Portugal, os convidados puderam assistir a um pequeno momento teatral alusivo à história dos Correios em Portugal. A Raínha D. Maria II e o 2º Director Geral dos Correios D. Guilhermino Augusto de Barros contaram ainda com a companhia do Carteiro "Emílio Valente" personagem criada pelo Serviço Educativo do MTC para animar as visitas de grupo à referida exposição.

Trolei-Carro em Coimbra

Circulou pelas ruas da Capital Nacional da Cultura um troleicarro cedido pela STCP à empresa de transportes públicos de Coimbra (STUC) o qual funciona antes de mais como um veículo comunicante da cultura da cidade do Porto. O exterior do veículo foi “vestido” com imagens alusivas a três instituições culturais da cidade: Museu do Carro Eléctrico, Museu de Arte Contemporânea de Serralves e Museu dos Transportes e Comunicações. Uma forma diferente de comunicar cultura que já tem rodas para andar e que se revela bastante oportuna no ano em que Coimbra é palco de importantes eventos culturais.

© STUC

Centro de Formação da AMTC

O Centro de Formação da AMTC desenvolveu no último trimestre de 2003 mais quatro acções que completam o Plano de Formação previsto para este ano. “A importância da voz na prática docente” (turma II), “O conhecimento de si e do outro. Expressão dramática” (turma II), “O ensino experimental das ciências na sala de aula” e “Museu, Escola e Comunidade – a outra face das visitas escolares”, foram as acções que envolveram cerca de sessenta educadores e professores dos ensinos básico e secundário. Ainda no âmbito da actividade do Centro de Formação foi realizada nos dias 27 e 28 de Outubro, em colaboração com o Museu Municipal de Vila Franca de Xira, a acção “A importância da voz nas práticas educativas”. Abordando questões da voz nas actividades de animação desenvolvidas nos museus contou com a participação de quinze técnicos de museus de Vila Franca de Xira e municípios próximos.

Acções de divulgação do MTC

O Museu dos Transportes e Comunicações foi convidado a estar presente em dois certames que se revelaram de extrema importância para a divulgação do seu programa de actividades. Entre 4 e 7 de Outubro integrou a mostra “AutoClássico” na Exponor deslocando para o efeito o automóvel “Marlei” e outros materiais de divulgação (folhetos, filmes, miniaturas) que cativaram a atenção de centenas de visitantes. Nos dias 16 e 17 do mesmo mês e a convite da Associação de Professores de História (APH), o Serviço Educativo e de Animação do MTC dinamizou um espaço de mostra e divulgação do Museu no Instituto Superior de Engenharia do Porto (ISEP), local onde a APH realizou o seu congresso nacional, este ano subordinado ao tema Ciência e Tecnologia.

Estágios

Como já vem sendo hábito o MTC, através do Serviço Educativo e de Animação recebe e dinamiza estágios curriculares. No ano de 2003 a colaboração envolveu duas alunas do Curso de Educação Social da Escola Superior de Educação Paula Frassinetti e uma aluna de “Gestão do Património” da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico do Porto. Enquanto as primeiras construíram um projecto de proximidade com instituições de carácter social da comunidade envolvente (Miragaia e S. Nicolau), a segunda integra a equipa do MTC, colaborando no desenvolvimento de tarefas diárias e prevê a realização de um projecto complementar da programação de 2004 que envolverá grupos de surdos mudos na exposição “O Automóvel no Espaço e no Tempo”.

Oficinas de Natal “Na Pista do Natal”

Nos dias 18 e 19 de Dezembro o Museu foi o espaço para uma aventura ímpar no historial das oficinas do MTC. O convite foi bastante audacioso e contemplou dois dias e uma noite recheados de mistério e alegria. O Natal esteve perdido no Edifício da Alfândega e tornava-se urgente encontrá-lo para que se pudesse comemorá-lo como é a tradição com árvore de Natal, presentes, música e muitas goluseimas. A construção de um livro gigante ilustrou a aventura mas, o que se aguardou com mais expectativa foi mesmo passar a noite no edifício em busca do Natal. Destinada a crianças e jovens entre os 8 e os 14 anos, esta oficina foi coordenada pelo Serviço Educativo e de Animação em colaboração com os animadores da exposição “Comunicação do Conhecimento e da Imaginação”.

VOLVO | ACP | EXPOSIÇÕES | OFICINAS CRIATIVAS | NOTICIAS

Edgar Cardoso Mecanismos do Génio


Nota de abertura 2 |

Volvo e a Segurança Automóvel

EDITORIAL JMTC

Uma associação vale pelos seus membros. A Associação para o Museu dos Transportes e Comunicações orgulha-se dos seus valorosos associados. Neste número do Jornal salientamos um deles, o Automóvel Clube de Portugal, que está a comemorar o seu centenário.

VOLVO JMTC

JORNAL DO MUSEU DOS TRANSPORTES E COMUNICAÇÕES N.º5 INVERNO 2003

Num museu de transportes, como o nosso, o automóvel tem uma posição privilegiada. Não podendo o Museu albergar outras “máquinas transportadoras” de maiores dimensões, nem podendo implantar infra-estruturas pesadas, a exposição permanente “O automóvel no espaço e no tempo” tem sido verdadeiramente a única expressão material de “transportes” no Museu dos Transportes e Comunicações. Contribui o Automóvel Clube de Portugal para esta exposição. Expressamos-lhe aqui o nosso sincero agradecimento.

ISSN 1645-6386

periodicidade

Sazonal. Propriedade da Associação para o Museu dos Transportes e Comunicações coordenação editorial

Suzana Faro redacção

Paula Moura, Adriana Almeida, Carla Coimbra, Lia Oliveira

tiragem

1000 exemplares.

Eng.º Carlos de Brito

Gustaf Larson e Assar Gabrielson, fundadores da Volvo © Volvo / Auto Sueco

imagem da capa

DNA Design sobre uma imagem do arquivo in “SOARES”, Luís Lousada design

DNA Design. impressão

o presidente do conselho de administração

ficha técnica

É um grande clube, o de maior número de associados em Portugal, cuja história, longa história, acompanhou todo o desenvolvimento da sua razão de ser: o automóvel. Desde a época de reduzida utilização, por escassas pessoas, até à verdadeira massificação dos nossos dias. Desde a época de um desporto automóvel de elites até à “Fórmula 1”. Um verdadeiro repositório do “mundo automóvel”, este clube. Mas, mais do que isso, um clube sempre preocupado com as implicações do automóvel na sua circunstância: a mobilidade, a segurança, o ambiente.

Por tudo isto, permita-se que se consagre aqui e agora uma saudação muito especial ao centenário Automóvel Clube de Portugal, nosso associado institucional.

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Sersilito, Empresa Gráfica lda.

AMTC ASSOCIAÇÃO PARAOMUSEU DOSTRANSPORTES ECOMUNICAÇÕES

EVITAR QUE “ ACONTEÇA” Fundada em 1927, a Volvo, uma marca automóvel europeia com grande impacto mundial, símbolo de elegância e conforto, sempre fez questão de centrar a sua imagem na segurança dos automóveis que desenvolve, assumindo-a como um conceito global, um pilar a partir do qual tem lançado as suas linhas de desenvolvimento. Em matéria de segurança, os engenheiros suecos debruçam-se em duas áreas: a Segurança activa, ou seja, as características e equipamentos que possibilitam ao condutor evitar um acidente e a Segurança passiva que se reporta aos níveis de protecção oferecidos aos ocupantes de um automóvel que sofra um acidente. O desenho do

painel de instrumentos, o design dos bancos, o equipamento adequado ao transporte de crianças, os sistemas de travagem, as suspensões ou os sistemas de controlo de tracção são alguns exemplos dos equipamentos e sistemas disponíveis nos automóveis do construtor nórdico... Em mais de 75 anos de existência, e com automóveis capazes de protegerem devidamente os seus ocupantes, a Volvo tem investido e desenvolvido soluções com o objectivo de reduzirem as probabilidades de acidentes. A segurança é, pois, parte integrante de todos os projectos, marcando, de facto, a diferença. Linha de montagem, 1947 © Volvo / Auto Sueco


Cinto de segurança de três pontos de fixação,1959 © Volvo / Auto Sueco

Laboratório de embates, Centro de Segurança da Volvo, Gotemburgo, Suécia © Volvo / Auto Sueco

Publicidade preventiva © ACP

ASSOCIADOS JMTC

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EXISTE UM POUCO DE VOLVO EM TODOS OS AUTOMÓVEIS A invenção do cinto de segurança de três pontos de fixação, em 1959, é inquestionavelmente o elemento de segurança que mais vidas salva em caso de acidente. Assim, é com muito orgulho e com toda a legitimidade que esta marca afirma que existe um pouco de Volvo em todos os automóveis produzidos pelo Mundo inteiro. Para além desta invenção, no que respeita a protecção, há que assinalar também o aparecimento da coluna de direcção deformável em 1973, ou o sistema de protecção contra impactos laterais SIPS, em 1994, com airbags laterais e cortina insuflável, já em 1998. Testemunho desta inequívoca preocupação com a segurança automóvel, e fruto de um investimento elevadíssimo de perto de 75 milhões de euros, a 29 de Março de 2000, em Gotemburgo, na Suécia, a Volvo inaugura aquilo a que muitos apelidam de “templo” de investigação automóvel, o mais avançado centro de investigação de segurança do Mundo! Socorrendo-se das mais avançadas técnicas e investigações tecnológicas, em matéria de segurança, neste edifício inteligente há um objectivo primordial: salvar vidas humanas. Para que tal objectivo se concretize, neste novo Centro de Segurança Volvo (SGV) recria-se todo o tipo de acidentes possíveis através de simulações em computador, testes de componentes, simulações de embates e testes à escala real... tudo apoiado pela mais alta tecnologia, facto que permite partir para os crash-tests já com um grau de certezas considerável. Munido de um dos poucos super-computadores do Mundo, o NEC SX-4, o Centro de Segurança da Volvo está apto a realizar testes de colisão virtuais, testes estes que precedem a construção de protótipos dos modelos a desenvolver por esta marca automóvel, o que possibilita que as carcateristícas de segurança de determinado modelo sejam alvo de alteração ou correcção desde a fase inicial do seu desenvolvimento. O trenó de simulação de embates será outra tecnologia a assinalar. Acelerando a velocidade das carroçarias ou dos seus componentes,

Automóvel Club de Portugal

simulam-se embates permitindo testar o que acontece em situações reais. Analisa-se ao pormenor todos os detalhes do embate, tudo sem que um automóvel seja destruído. Porém, neste Centro de Segurança, o edifício que mais se destaca é, sem dúvida, o laboratório de embates, onde se simula a colisão de dois automóveis, camiões ou autocarros em diferentes ângulos e velocidades, contabilizando-se, anualmente, mais de 400 testes de colisão. Para tal, fundamental é a combinação de duas pistas de embate: uma fixa e outra ajustável que tem capacidade de rodar até 90º. Desta forma, os técnicos podem escolher exactamente qual o ângulo a que querem que se dê o embate. No local onde se verifica o choque são disparados 26 mil Watt de luz para as muitas câmaras

Teste de embates © Volvo / Auto Sueco

fotográficas colocadas em sítios estratégicos – em cima e em baixo de uma superfície vidrada que serve de palco ao “confronto” – e que registam todos os detalhes. Assim, acidentes que ocorrem nas nossas estradas podem ser testados em laboratório, possibilitando uma melhor reflexão sobre o trabalho a desenvolver. Os resultados desta investigação são minuciosamente estudados pelas diferentes equipas responsáveis pelo “nascimento” de novos modelos a serem lançados no mercado. Um outro dado importantíssimo que contribui para o sucesso da segurança automóvel, e que não poderíamos deixar de assinalar, foi a constituição de uma equipa de investigação de acidentes. Sempre que ocorre um acidente com um automóvel Volvo na zona da sede da marca, essa equipa desloca-se ao local recolhendo dados e apreciações que, posteriormente, transmite às equipas que se dedicam ao desenvolvimento dos produtos. São estes alguns dos exemplos que nos permitem afirmar que a segurança é desde o primeiro momento assumida como uma prioridade na filosofia da marca... De facto, evitar que “aconteça”, é já um grande objectivo!

Capa de publicação © ACP

O Automóvel Club de Portugal escolheu o Museu dos Transportes e Comunicações do Porto para a sessão de encerramento das comemorações do seu centenário. Para o maior clube português, esta foi uma forma de homenagear os seus muitos milhares de associados do Norte do país, onde se encontra profundamente implantado. Mas, e para além disso, constituiu uma forma de mais uma vez evidenciar a sua descentralização. O primeiro passo nas comemorações do Centenário do ACP foi igualmente uma demonstração da vontade do Club em estar junto dos seus associados, ao longo de todo o país. Com a centésima edição do Rali Figueira da FozLisboa, em Outubro de 2002, tinha lugar a abertura das comemorações e com plena razão, já que foi aquela competição, disputada pela primeira vez em Outubro de 1902, quem esteve na origem do nascimento, seis meses mais tarde, em Abril de 1903, do então designado Real Automóvel Club de Portugal, atendendo ao apoio que SAR, El-Rei D. Carlos lhe prestou. O ano de 2003 começou, para o ACP, com uma

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iniciativa ligada aos mais novos. A preocupação com a segurança infantil, a bordo dos automóveis, levou o Club a promover, junto de alguns estabelecimentos de ensino, a divulgação de um conjunto de medidas que são determinantes naquele particular, tais como a utilização de sistemas próprios de retenção, as designadas cadeirinhas, utilização de cinto de segurança e cuidados a ter nos veículos com airbags. Esta campanha teve a duração de todo o primeiro semestre escolar e recentemente foi apresentada em Itália, por ocasião de uma iniciativa sobre segurança rodoviária, levada a efeito pelo Automóvel Club de Itália (ACI). Em 15 de Abril, na Sociedade de Geografia de Lisboa teve lugar a sessão solene do Centenário, o momento mais alto das comemorações. Assinalaram-se 100 anos de vida que simbolizam também a história do automóvel em Portugal, como referiu Alberto Romano, Presidente da Direcção. 100 anos que não são um sinal de envelhecimento (nem o seu rosto nem o seu coração tem rugas; é ver como o seu belo emblema brilha de tão luminoso) antes rejuvenesceu, facto excelentíssimo que se deve à prática do seu virtuosismo cívico, como enalteceu na altura o Dr. Miguel Veiga, Presidente da Assembleia Geral do ACP; 100 anos, ainda, que são um desafio, um repto para o futuro, lançado nas palavras do presidente da República, presente na sessão e que, a propósito dos graves índices de sinistralidade, apelou ao Club, no sentido de este, de forma mais visível, forte e prioritária encarar as questões de segurança rodoviária no seu programa de acção. Por tudo isso e por tudo quanto tem feito em prol do automobilismo, o ACP foi, na altura, agraciado pelo Governo com o Colar de Honra ao Mérito Desportivo. No âmbito destas preocupações que ao longo do século de existência estiveram e estão sempre presentes, o ACP organizou em Setembro, o Simpósio subordinado ao tema Mobilidade para Todos, tendo contado com a preciosa colaboração da FIA Foudation. Um evento que reuniu alguns dos principais conhecedores da questão da Mobilidade e que abordou o tema em

perspectivas tais como segurança rodoviária, ambiente e fiscalidade, traçando algumas das linhas gerais entendidas como prioritárias para o desenvolvimento daquele conceito. Tendo contado com a presença do Governo, representado pelo Ministro da Administração Interna e Secretário de Estado do MAI na sessão de abertura, que dessa forma acentuaram a importância da iniciativa, O Simpósio Mobilidade para Todos entra para a história do Centenário do ACP como um dos momentos mais altos das Comemorações, na perspectiva de se estar perante um direito que urge os automoblistas defenderem. Mas o ACP é igualmente um símbolo do desporto Automóvel, já que foi com ele, como vimos, que esta prática tão querida dos portugueses, nasceu e se fortificou. Por isso, a edição de 2003 do Rallye de Portugal se afirmou como uma iniciativa para campeões, tendo sido um festival de velhas glórias do automobilismo, com a presença de nomes conceituados do automobilismo que escreveram algumas das mais brilhantes páginas da competição em Portugal, onde se destacou a figura do finlandês Markku Alen. Num tempo de comemorações, destaque ainda para organização do 18º Concurso Europeu de Educação Rodoviária, uma iniciativa que reuniu, em Lisboa, no Pavilhão das Descobertas os representantes mais jovens de 23 clubes filiados na AIT e que mostraram os seus conhecimentos teóricos e práticos sobre segurança rodoviária, com o triunfo da Macedónia, à frente da Hungria e Eslováquia. Ainda de assinalar neste tempo de aniversário o Estoril Historic Festival, uma iniciativa da editora Talento a que o ACP deu a sua colaboração e que reuniu no Autódromo do Estoril alguns dos mais significativos símbolos do automobilismo de competição. Ainda para a memória deste Centenário fica a edição do livro ACP, Cem anos de História que nos faz viver em paralelo com a vida de uma instituição ímpar a história do automóvel no nosso país ao longo do século XX.

Carlos Morgado ACP


Edgar Cardoso, Mecanismos do Génio 6 |

Quando uma forma estrutural está correcta é plástica

DESTAQUE JMTC

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Engº Edgar Cardoso - in “SOARES”, Luís LousadaEdgar Cardoso engenheiro civil. Porto: Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, 2003.

A ponte da Arrábida ©Instituto de Estradas de Portugal

O facto de ser autor celebrado de obras-primas como as pontes da Arrábida e de S. João sobre o rio Douro, rapidamente transformadas, depois da sua construção, em verdadeiros ícones da cidade e do país, e a relativa projecção nos media de que gozou em vida, nem por isso tornam Edgar Cardoso e a sua obra bem conhecidos do Público. Daí o interesse da presente exposição, Edgar Cardoso, Mecanismos do Génio, resultado de protocolo envolvendo o Museu dos Transportes e Comunicações, a Faculdade de Engenharia e o Gabinete Professor Edgar Cardoso Engenharia. A Exposição ensaia uma abordagem da sua forte e fascinante personalidade e da sua notável obra, resultado de uma actividade profissional de quase seis décadas, intensamente vivida. A Personalidade e a Obra de Edgar Cardoso apresentam-se-nos de facto – na Vida e na Exposição – de distintas formas. Antes de mais a de Engenheiro: é que tendo

sido uma das figuras cimeiras da nossa Engenharia, foi seguramente aquela em que a atitude e a prática melhor traduzem o sentido etimológico da palavra que designa a profissão que abraçou: “Engenheiro é aquele que tem engenho”, dizia o próprio muitas vezes. Em seguida, a de Professor: é que não tendo sido um académico clássico, Edgar Cardoso “fez Escola”: a internacionalmente reconhecida excelência da nossa (actual) engenharia no domínio das pontes a ele em boa parte é devedora, quer através do trabalho concreto de seus antigos alunos e colaboradores, quer porque as obras que nos deixou constituem permanente motivo de inspiração e desafio. Finalmente, a de Inventor: é que o seu génio produziu inovações – de que é paradigma a sua original máquina fotográfica, que aliás inspirou o título e o cartaz da Exposição - muito para além do domínio da Engenharia Civil.

A recriação (parcial) do Gabinete do Professor (era assim que Edgar Cardoso era tratado) no centro do espaço expositivo, idealizado pelo Arquitecto Eduardo Souto Moura, com a sua mágica “varanda” repleta de modelos, permitirá ao visitante (pres)sentir o ambiente de criação onde o Génio concebia e projectava as suas arrojadas pontes e outras estruturas. Como não podia deixar de ser, estas são também objecto de tratamento detalhado na Exposição. Foram para o efeito seleccionadas cerca de 15 obras, que são apresentadas com ênfase quer nos aspectos inovadores das respectivas soluções, quer na sua plástica e integração na paisagem. Obras que fazem parte do imaginário quotidiano de muitos de nós (Arrábida, S. João), mas também outras menos conhecidas, quer porque situadas noutros continentes (Tete, Macau), quer porque, embora estando localizadas bem perto, dificilmente são visíveis nos nossos percursos habituais (como essa jóia escondida que é a ponte da foz do rio Sousa). Esta mostra seleccionada inclui em muitos casos os próprios modelos usados no trabalho de projecto, bem como desenhos originais de grande beleza. A propósito de algumas das obras expostas, são incluídas pequenas “estórias” que ajudam a conhecer a face humana do Projectista. Edgar Cardoso, Mecanismos do Génio, aberta ao público durante seis meses (28 de Fevereiro a 31 de Agosto de 2004), no cenário magnífico que é a Alfândega, com essa obra maior que é a ponte da Arrábida a recortar a vista do Poente, será seguramente um bom motivo para que reganhemos alguma confiança na nossa capacidade realizadora e para que nos reconciliemos com a beleza das obras de Engenharia. Professor Manuel de Matos Fernandes COMISSÁRIO DA EXPOSIÇÃO

Ponte Macau-Taipa © Fundação de Macau

A obra do Professor Edgar Cardoso foi o ponto de partida para definir as ideias que presidiram à concepção do guião da exposição “Edgar Cardoso, Mecanismos do Génio”. Inovador, experimentalista, incansável na procura da solução ideal, Edgar Cardoso notabilizou-se pela concepção e construção de estruturas, principalmente de pontes, que o tornaram num dos engenheiros mais importantes do País e com obra reconhecida além fronteiras. Como projectista e consultor foi autor de cerca de 500 estudos e projectos de estruturas não só em Portugal mas também em Angola, Antiga Índia Portuguesa, Brasil, China, Costa Rica, Guiné, Macau, Moçambique, Nigéria, Timor e Venezuela. Concebeu e acompanhou projectos de novas pontes mas também projectos de recuperação e beneficiação de pontes já existentes. Sendo a cidade do Porto o local onde se encontram implantadas duas das suas mais relevantes obras – a Ponte da Arrábida e a de S. João - o Museu dos Transportes e Comunicações considerou ser da maior pertinência e relevância dedicar uma exposição ao trabalho do Engenheiro Edgar Cardoso aliando-se à Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e ao Gabinete Edgar Cardoso, instituições fundamentais na organização do evento. Assim sendo, o guião da exposição teve como objectivo divulgar o seu trabalho e a importância do seu legado, destacando determinadas características da sua personalidade e talento. Com uma personalidade polémica e carácter forte, defendia de forma intransigente, o que acreditava transformando cada questão num combate. Era frontal, provocador e por vezes agressivo nas palavras. Carismático e mediático, acreditava veementemente no seu trabalho e no Pormenores da Arquitectura da Exposição Fotografia de António Chaves © AMTC

seu conhecimento técnico, não se inibindo de o demonstrar frente às câmaras de televisão. Tendo como base uma perspectiva geral do seu percurso enquanto profissional, tentámos compreender as características que tornaram o seu trabalho emblemático e particularmente admirado, como por exemplo, as inovações técnicas e formais das suas obras, a complexidade do seu processo inventivo, o carácter experimental e intuitivo do seu trabalho e a excepcional qualidade estética das suas pontes. O discurso museológico divide-se em duas fases distintas: na primeira pretende-se efectuar uma abordagem didáctica e contextualizante – onde se tenta compreender os aspectos essenciais da obra de Edgar Cardoso; na segunda parte da exposição pretende-se abordar a questão da criatividade, da concepção e concretização de projectos através de uma abordagem sensorial, recriando-se o gabinete onde trabalhava a equipa do Professor. Este evento pretende confirmar a genialidade de Edgar Cardoso, deixando pistas sobre o seu processo criativo e metodologia de trabalho, tentando compreender como a partir de uma ideia se chega ao projecto e deste se evolui até à obra final. Conforme as palavras do próprio Professor: “A forma final das minhas obras leva anos a conceber e outros tantos a executar. Quando eu tenho que projectar uma ponte, já conheço o que os outros fizeram e o que eu fiz anteriormente. Procuro fazer melhor. Actualizar e adoptar uma solução que eu acho mais avançada” Raquel Romero Magalhães CONCEPÇÃO DO PROJECTO MUSEOLÓGICO


O Automóvel,

© AMTC

elemento vital da nossa sociedade? 8 |

O AUTOMÓVEL JMTC

Ao longo da segunda metade do século XX, em cada país à medida que foi aumentando o seu nível de vida, a presença do automóvel foi-se expandindo nas sociedades mais ricas e desenvolvidas, sendo hoje muitos os países em que o número de automóveis é bem mais de metade do número de pessoas com idade para os conduzir, e havendo algumas regiões em que há mesmo mais automóveis que pessoas para os conduzir. O mesmo tipo de processo de subida gradual continua a decorrer em quase todos os países em desenvolvimento, no essencial reproduzindo as trajectórias antes observadas nos mais ricos. Ao longo desse processo de penetração social do automóvel, ele vai sucessivamente sendo o objecto mais desejado de múltiplas camadas da população, depois, uma vez adquirido, símbolo do status conquistado, em seguida elemento central das opções de lazer, e finalmente presença trivial no modo de vida quotidiano. Nas famílias em que os mais jovens crescem já na presença de múltipla motorização, o acesso e direito de utilização regular do automóvel são, na maioria dos casos, uma expectativa elementar. Por outro lado, são muito poucos os que, tendo as capacidades para o usufruto de um automóvel, dele abdicam sistemática e voluntariamente. Se assim é, apesar dos custos significativos que a sua posse e uso regular acarretam, há que reconhecer que o automóvel deverá proporcionar grandes vantagens aos que nele apoiam a sua mobilidade. Essas vantagens estão muito associadas ao aumento dos graus de liberdade nas nossas actividades, com o alargamento do espaço geográfico e do tempo em que nelas podemos participar. As principais alternativas

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são a mobilidade a pé (ou em bicicleta), que tem um alcance geográfico reduzido, e o transporte colectivo, que só existe ao longo de vectores com alguma concentração de procura, e implica fortes agravamentos de tempo sempre que não há uma ligação directa, para além de ter sempre algumas limitações dos horários disponíveis. Daí que, mesmo quando esperamos um dia simples de ida e regresso entre a casa e o emprego, muitos de nós optamos por levar o carro, porque pode surgir um imprevisto que imponha ir a algum lado, e assim estaremos prevenidos… O automóvel é por isso, antes de tudo o mais, considerado um elemento de expansão do espaço vital (geográfico) dos seus utilizadores, pela mobilidade que proporciona. Mas além disso, a sua configuração fechada e a sua posse duradoura por cada proprietário proporcionam a este um novo espaço vital privativo, ao mesmo tempo símbolo de poder territorial perante os outros e espaço de abrigo e retempero do próprio, quase como se fosse uma fortaleza portátil. Ou seja, à dimensão utilitária acresce uma outra simbólica, de não menos importância. Só um objecto de tão grande e profundo significado para as pessoas poderia manter a sua popularidade tão elevada, e a sua influência política tão forte no plano das decisões de investimento público, apesar dos elevadíssimos custos sociais que provoca, quer em mortos e feridos associados aos acidentes de tráfego, quer nas várias frentes de custos que provoca aos não viajantes, de que os mais directamente sensíveis são a poluição atmosférica e o ruído. É bem verdade que a indústria automóvel e a dos combustíveis têm tido a capacidade de ir reduzindo de forma significativa a intensidade

destes impactes por unidade de movimento, mas o aumento constante da motorização e da mobilidade levam a que o ritmo de redução dos impactes globais seja bastante moderado.

eficiência da mobilidade em transporte colectivo, face à dispersão das residências e consequente aumento radical das distâncias a percorrer a pé até às paragens do transporte colectivo.

Mas hoje, o que mais incomoda qualquer automobilista é o facto de haver tantos outros automobilistas que com ele competem pela ocupação dos mesmos espaços às mesmas horas, seja para circular, seja para estacionar o carro.

Mas não só no espaço nos temos vindo a adaptar ao automóvel, também na organização do tempo: os horários de trabalho e de atendimento em muitos serviços – e portanto de funcionamento da sociedade - têm vindo a ser espraiados por forma a permitir distribuir no tempo o número de automóveis que já não cabia nos espaços disponíveis e nos tempos tradicionais.

A resolução destes problemas começou por ser tentada com soluções de alargamento das vias, mas rapidamente se percebeu que isso seria insuficiente, e acabou por suceder que fomos sucessivamente adaptando o espaço – nas suas várias naturezas e escalas – por forma a melhor acomodar o automóvel. No domínio privado, as casas passaram a ter mais um “quarto”, correspondente ao estacionamento do automóvel; na cidade compacta clássica passa a haver edifícios de recolha (estacionamento) ou tratamento (oficinas e estações de serviço) de automóveis a par com edifícios de habitação, emprego ou prestação de serviços às pessoas, por forma a libertar uma maior parte do espaço público para a circulação. Visto a uma escala um pouco mais distante, é interessante notar a progressiva mudança de configuração das redes viárias, seguindo as passadas dos edifícios no sentido das soluções em vários níveis, e a própria mudança do desenho das cidades, que passam a ter expressões muito mais espalhadas, por forma a facilitar a mobilidade em automóvel. Como é reconhecido, algumas destas soluções têm acabado por inviabilizar a vida urbana a pé – pela concentração geográfica e deslocalização para fora dos bairros de alguns equipamentos colectivos - e dificultado muito (ainda mais) a

Ou seja, enquanto de início o automóvel foi um instrumento que facilitou a exploração e o usufruto do território, hoje são os objectos desse território que se vêm adaptando às exigências do automóvel, ou melhor, do exército de automóveis que os invade e envolve. Assim, o automóvel foi-se tornando um elemento vital, não só à escala das pessoas mas da sociedade e do próprio território, na medida em que muito da nossa organização social e da ocupação do território não pode ser entendido a não ser em função do automóvel. A força do automóvel é tal que, não só as pessoas e a sociedade se servem dele, mas também e em sentido contrário, ele “impõe” modificações ao hospedeiro por forma a melhor exercer a sua função, no que acaba por constituir uma situação semelhante à que ocorre na natureza com as ligações de simbiose entre seres vivos. Essa é já hoje uma situação de facto, e muitas das tensões urbanísticas que existem têm a ver sobretudo com a resistência dos tecidos urbanos clássicos a esta pressão de reformatação no sentido do melhor acolhimento do automóvel

em toda a parte. As autoridades vão fazendo esforços intermitentes no sentido de reduzir as vantagens competitivas do automóvel sobre os outros modos de transportes, seja pela melhoria da qualidade e conforto destes, seja (mais raramente) pelo aumento dos custos associados àquele. Nestas frentes os sucessos têm sido bastante limitados, podendo talvez ser mais correcto classificar os resultados como de abrandamento da velocidade da invasão do que de contenção dos avanços ou mesmo de imposição de um retrocesso. Por força da situação económica, estamos em Portugal num momento em que as vendas de automóveis novos têm vindo a descer face aos máximos de 1998 e 1999, mas em que o parque em circulação continua a aumentar por causa do muito reduzido volume de abates à circulação que se vai fazendo. A pressão sobre os meios urbanos continua por isso a aumentar, havendo no entanto sinais de que começa a despontar a coragem de alguns políticos para a adopção de medidas de contenção da apropriação do espaço urbano pelo automóvel. Sendo claro que muitas pessoas se habituaram já à flexibilidade e comodidade proporcionadas pelo automóvel, essas medidas não deixarão de ser entendidas como um ataque a direitos adquiridos, situação em que nos mostramos sempre muito aguerridos. Por isso, e recordando que a esse papel utilitário se junta o papel simbólico do automóvel para cada um dos seus utilizadores, entendo que o caminho para o redimensionamento da utilização do automóvel na mobilidade urbana passa por soluções que estimulem a sua utilização

alternada com a de outros modos de transporte, evitando o paradigma comportamental hoje dominante que é o da repartição da sociedade em dois grupos cativos de soluções de mobilidade diferentes, um do transporte individual e outro do transporte colectivo. Tal como devemos saber alternar a nossa dieta entre carne e peixe, sempre com muitos vegetais e fibra, também deveremos aprender a alternar as nossas soluções de mobilidade entre o automóvel e o transporte colectivo, sempre complementados com boas doses de marcha a pé. Para isso, há também um esforço significativo a fazer do lado do transporte colectivo, nomeadamente no plano tarifário – por exemplo títulos válidos para vários dias não consecutivos, e não apenas para um mês inteiro – e no plano da informação, com a capacidade de produção simples e expedita de itinerários e horários “à medida” e não apenas a distribuição de plantas da rede e horários de produção. Há portanto que reconhecer que o automóvel soube tornar-se um elemento vital na nossa sociedade, mas também que saber gerir a sua participação nos processos vitais próprios deste organismo tão complexo, para que ele não se transforme num vírus que acaba por descaracterizar o corpo em que se instala e o suga até à inanição, indo depois instalar-se num próximo hospedeiro. Ainda vamos a tempo, mas devemos reconhecer o risco e tomar as medidas necessárias para o conter.

José Manuel Viegas CESUR - Instituto Superior Técnico; e TIS.pt, Consultores em Transportes, Inovação e Sistemas, S.A.


Para o dia nascer mais feliz outra vez 10 |

COMUNICAÇÕES JMTC

Na exposição "Comunicação do Conhecimento e da Imaginação" mora o núcleo "Imaginação Corporal“. "Mas o que será que se pode fazer aqui?” perguntam muitos visitantes olhando em volta para verificar alguma pista, encontrar os instrumentos ou meios de comunicação disponíveis ali. A pergunta é então lançada no ar: “Com que meio de comunicação trabalhamos neste espaço?” Perante o olhar questionador são lançadas algumas pistas: música, palavra, voz, imagens, texto, dança, teatro…são alguns dos instrumentos de trabalho a colocar em acção. Um conjunto de vozes discordantes invade o espaço vazio, onde tudo terá lugar dentro de momentos. O que quase nunca respondem de imediato é que o nosso corpo é o objecto daquela actividade, o meio de comunicação com que trabalhamos naqueles sessenta e tais minutos de conhecimento. Será possível mudar a atitude de um indíviduo numa ou duas horas de exercitação do corpo? Se pensarmos que algumas daquelas pessoas que agora ali estão nunca antes pensaram ser o corpo um meio de comunicação, a dúvida instala-se e o desafio é ainda maior. Talvez seja aquele espaço uma porta para a aventura do desconhecido. Quantas vezes deixamos de projectar as nossas emoções, porque somos obrigados desde cedo a dizer não quando queremos dizer sim, a adequar a postura diante de desconhecidos ou quando temos que enfrentar situações mais formais, as quais não dominamos? Ou ainda quando somos obrigados a engolir o choro, as palavras que nos vêm à boca, os soluços, os espirros, tudo para não incomodar o vizinho, o outro que nos espreita, o nosso superego? E assim, a emoção fica presa, encerrada no fundo de cada ser humano. Quando crescemos, apresentamos uma aparência que não é nada líquida, pelo contrário, enrijecemos o olhar, os lábios, o sobrolho, os braços, as pernas, todo o corpo e acabamos por exprimir as emoções de forma convencional: dizer sim e não com acenos de cabeça, desviar o olhar e morder os lábios em sinal de timidez, cruzar os braços quando estamos menos receptivos ou abri-los

Oficinas Criativas conquistam novos públicos

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para demonstrar o oposto. São gestos. Gestos infinitamente reproduzidos quase sem darmos conta da sua rigidez e indiferença. São sinais. Sinais que semeiam dúvidas quanto aos seus significados: timidez? Medo do ridículo? Insegurança face ao desconhecido? Receio de arriscar e dar liberdade à imaginação? O que talvez seja necessário é uma abertura espiritual para criar novos signos e novos significados. Pensar o corpo de uma maneira mais introspectiva, mais pessoal e menos colectiva. Olhar para nós mesmos como indivíduos e, diante do espelho da nossa consciência, reflectir com as mãos, com os pés, com a cabeça e as demais partes do corpo, que não pensam, sem dúvida, mas podem agir, mover-se e dominar-nos quando estimulados, sem que com isso percamos os sentidos. A autonomia dos gestos confirma que estamos vivos e temos um corpo que fala. E fala muito o nosso corpo. Fala das nossas experiências, dos nossos conflitos, das nossas vergonhas, dos medos, dos bloqueios, da alegria de viver, das pessoas que amamos, do outro que connosco partilha os bons e maus momentos da nossa vida. Romper com os gestos quotidianos e trazer à tona outras emoções através do nosso corpo é quase um desafio intransponível. Porque é preciso "desnudarmos" diante do outro, perder a vergonha, driblar a timidez, descobrir-se e descobrir o outro num mundo cheio de novas e diferentes sensações. É desta forma que no período de tempo em que decorrem as actividades no espaço da Imaginação Corporal descobrimos o nosso corpo. Será que todos os participantes têm disso consciência? Talvez sim ou talvez não. Mas temos a certeza que saem mais felizes, mais leves, com um “bichinho” lá dentro, que uma ou outra vez, se vai mexer e fazer relembrar alguma emoção íntima que nem sabemos ao certo de onde vem. E assim, depois de nos descobrirmos como indivíduos, certamente agiremos melhor como partes de uma colectividade, para podermos mostrar os nossos sentimentos de uma forma mais humana e menos comprometida com as

regras, os tabus e as convenções sociais. Vista a actividade nesta perspectiva, poderá parecer uma grande pretensão querer mudar a atitude de um indivíduo num espaço de tempo tão curto. Mas, na verdade, essa mudança é constante, ocorre aos poucos e diariamente, basta que para isso uma pessoa entre em "contacto consigo mesma". E lá, no espaço da Imaginação Corporal, isto acontece. Sem dor e sem conflito, da forma mais lúdica e mais "prazeirosa" possível. Para proporcionar este "contacto", usamos a música, a palavra, a voz, os gestos, a dança, o teatro, enfim, todos os meios de expressão que estão ao dispor do nosso corpo para moldarmos o nosso espírito e comunicarmos com o mundo sem complexos, resistências ou medo de demonstrar as nossas emoções. Depois de mais de um ano de actividade podemos constatar que esta experiência produz modos de estar que variam de pessoa para pessoa: as crianças estão sempre mais disponíveis, os adolescentes desconfiados e misteriosos e os adultos, na maioria das vezes, revelam-se de duas maneiras: ora verdadeiras crianças cheias de expectativas e motivações pessoais, ora bastante reticentes e com medo de arriscar uma experiência menos racional e mais emocional. Podemos assegurar que a maior satisfação que o trabalho nos tem permitido é constatar em cada momento uma atitude de encantamento, que é bastante reveladora da importância daqueles breves instantes de desvendamento para a transformação no íntimo de cada pessoa. Certo dia, uma frase dita por um menino de mais ou menos onze anos, tomou-nos inteiramente de surpresa e espanto. As suas palavras tornaramse inesquecíveis e mostraram, com ingenuidade, todo o brilho da descoberta e da satisfação pessoal e fizeram-nos mesmo resgatar algo da nossa memória mais remota e íntima. Disse ele, em tom de lamento, no final da sessão: “Ah! Porque é que o dia não nasce outra vez?!” Lia Oliveira é licenciada em Comunicação Social e dedica-se ao teatro há onze anos. Anima o Espaço da Imaginação Corporal desde Maio de 2003.

Nas últimas décadas os museus fizeram um enorme esforço no sentido de acompanharem de perto as transformações que a um ritmo, quase alucinante, têm modificado as sociedades contemporâneas. Para o efeito modernizaram-se aos mais diversos níveis de forma a corresponderem às crescentes exigências e necessidades dos diferentes públicos. A arquitectura, a organização e gestão, as formas de comunicação adaptaram-se e possibilitam agora maior conforto para os visitantes (espaços de recepção e acolhimento mais humanizados, lojas, cafetarias e restaurantes, bibliotecas, centros interpretativos com recursos vários e de livre acesso) e novas formas de relacionamento com o público que se procuram inovadoras, interactivas e muito mais afectivas. Podemos mesmo dizer que deixamos de contar o público porque agora ele conta, ou seja, privilegia-se uma relação de qualidade muito mais do que uma grande quantidade de público. É neste contexto que o Museu dos Transportes e Comunicações, através do seu Serviço Educativo e de Animação, tem promovido um conjunto de iniciativas diversas para conquistar e fidelizar públicos diferentes daqueles que mais visitam o museu e que são os grupos escolares do ensino básico e secundário. Para além das exposições permanentes e temporárias, apresentam-se ao longo do ano outras formas de comunicação que contribuem para o cumprimento de uma das funções primordiais do museu - a formação de "velhos" e novos públicos. Oficinas de Verão e Natal, teatro, performances, concertos, actividades para famílias, acções de formação para professores e técnicos culturais, estágios curriculares, parcerias com instituições educativas e culturais da cidade e da região são disso exemplo.

Durante o ano de 2003 partimos para a aventura de organizar e realizar um programa de oficinas criativas para crianças, jovens e adultos com carácter de continuidade que procuram não só oferecer propostas culturais diversificadas e enquadradas nas temáticas do museu, mas também criar relações de convivência com outros públicos possibilitando-lhes desta forma outras experiências criativas. A exposição "Comunicação do Conhecimento e da Imaginação" revelou-se o espaço ideal para alojar esta iniciativa visto as suas oficinas reunirem todas as condições para aí se desenvolverem actividades mais amplas e diversificadas do que as que são desenvolvidas com as visitas em grupo. Para os mais novos (7-14 anos), as propostas passam pelas oficinas de Cinema "Atelier do Imaginário" (orientação de João Rodrigo Matos) que desafia os mais novos para a descoberta da linguagem audiovisual através de sessões práticas com uma forte componente lúdica e a Oficina de Ciência "A ciência na palma da mão" (orientação de Luísa Ayres). Aqui, um conjunto de experiências simples e divertidas conduzem os participantes pelos misteriosos mundos do conhecimento científico. É possível furar um balão sem que ele rebente? O que são as células? O ADN poderá ser visto a "olho nú"? São algumas das questões que procurarão respostas nesta oficina que decorrerrá no espaço "É mesmo ciência?". A partir dos 16/18 anos as propostas multiplicam-se e encontramos as oficinas de DJ's, Teatro, Cinema, Tango e Yoga com orientação dos Djs Pedro Mesquita e Dj Dinis, Adelina Carvalho, João Rodrigo Matos, Maria Solero e Joana Pereira respectivamente. "Os DJ's - história, estilos e técnicas" procura conhecer a história da música da dança e as técnicas utilizadas pelos DJ's. "Teatremos" é uma viagem ao tempo em que "brincar ao faz de conta" fazia parte das brincadeiras de todos nós e pretende recuperar o prazer que é contar uma estória de forma rica e dinâmica. A oficina "Introdução à linguagem audiovisual" faz uma introdução à linguagem audiovisual como forma de expressão e às novas tecnologias digitais. A produção de uma curtametragem em vídeo fará as delícias dos mais fiéis apreciadores da sétima arte. Quanto ao "Tango - uma descoberta apaixonante" será uma autêntica viagem de descoberta em torno

de uma herança cultural com mais de um século de existência. Um "diálogo" entre homem e mulher construído a partir da música é a forma como se apresenta este ritmo com profundas raízes nesse longínquo e contrastante país que é a Argentina. Após uma insistente campanha de divulgação, que despertou o interesse de vários orgãos de comunicação social (Jornal de Notícias, NTV, Público), as inscrições multiplicaram-se estando já a decorrer a bom ritmo, desde Outubro, a oficina de cinema "Introdução à linguagem audiovisual" com a participação de 25 elementos. Durante o mês de Janeiro de 2004 deu-se início às restantes oficinas. As Oficinas Criativas constituem, deste modo, uma maneira diferente e alternativa de conhecer o museu e de com ele estabelecer relações mais próximas e prolongadas no tempo. Com estas propostas o Museu dos Transportes e Comunicações assume-se, cada vez mais, como um corpo vivo e aberto à participação de todos, um espaço de fruição, criativo e interveniente ao nível da formação de (novos) públicos. Tal como o jornalista José Reis escreveu no seu artigo "Vida no Museu dos Transportes cruza todos os tempos e idades" (JN 19-11-2003) "...este é um museu à procura de si nas pessoas, naquilo que as pessoas terão para lhe dar e para receber." Adriana Almeida – Responsável pelo Serviço Educativo e de Animação do MTC.

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Jornal do Museu dos Transportes e Comunicações