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Musa Calíope | Revista Eletrônica Internacional Literatura e Poesia

O primeiro número da Revista Eletrônica Internacional Literatura e Poesia Calíope pretende prestar homenagem a Corumbá, MS, Brasil, terra de ilustres poetas e escritores brasileiros. Fundada em 21 de setembro de 1778. Os Editores

El primer número de Revista Electrónica Internacional de Literatura y Poesía Calliope quiere rendir homenaje a Corumbá, MS, Brasil, tierra de poetas y escritores de renombre en Brasil. Fundada el 21 de septiembre de 1778. Los Editores

Vamos mostrar ao Brasil e ao Mundo A Bela Cidade Branca, Em cores e versos mil E obras de gente franca.

Mostremos para Brasil y el Mundo La Bella Ciudad Blanca El color y un mil versos Y las obras de la gente honesta.

Corumbá é um município brasileiro da região Centro-Oeste, localizado no estado de Mato Grosso do Sul. Situada na margem esquerda do rio Paraguai e também na fronteira entre o Brasil, o Paraguai e a Bolívia, Corumbá é considerada o primeiro pólo de desenvolvimento da região, e por abrigar 60% do território pantaneiro, recebeu o apelido Capital do Pantanal, além de ser a principal e mais importante zona urbana da região alagada. Também é o maior município em extensão territorial do estado e o mais populoso centro urbano fronteiriço de todo o Norte e Centro-Oeste do Brasil. Corumbá es un municipio brasileño del estado de Mato Grosso del Sur de la región Centro-Oeste del Brasil, en la margen derecha del río Paraguay. Ubicada muy cerca de la frontera entre Brasil y Bolivia, Corumbá es considerada como el primer polo de desarrollo de la región, y por contener el 50% del territorio del Pantanal recibio el sobrenombre de Capital del Pantanal, además de ser la principal y más importante zona urbana de la región. También conocida como ciudad blanca por el color claro de su tierra, pues está asentada sobre una formación de cal que da el color claro a las tierras locales. Es la tercera ciudad más importante del estado en términos económicos, culturales e poblacionales, después de Campo Grande, la capital del estado, y Dourados.


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Balbino G. de Oliveira Apresentação e Recordação Agradecemos a Deus, Apresento, outra vez, Os simples versos meus, Para alegrar vocês. Eu fiz o primeiro livro E senti bem satisfeito, Serviu-me de incentivo, Pra fazer outro, bem feito Feito com mais acerto E um pouco mais de amor. Conservando o respeito, Que mantém seu valor. Valor desta edição, Considerando um bom livro. Trazendo recordação Do outro que foi bem lido. Lidos os bons pensamentos, Em sentido figurado, Pois trouxe tantos alentos A muitos desanimados. Desanimados da vida, E até, de escrever. Não tinham aquela dita Esperança de vencer. Vencer e viver sonhando Lembrando dos seus passados O futuro vinha chegando E poucos tinham acordado. Acordado de amanhã. Contemplando novo dia. Sentindo aquele afã, Com força e alegria.

Alegria por viver bem Sentindo o bem querer; Fazendo o bem a alguém, Para não retroceder. Retroceder é perigoso, É preciso estar atento; Como alguém piedoso, Esperando o advento. Advento do bom Jesus, Que está se aproximando, Trazendo paz e mais luz, Pra quem está se esforçando. Esforçando no caminho, Bom, como escritor. Semeando, com carinho, Paz, e amor ao leitor. Balbino G. de Oliveira


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Balbino G. de Oliveira Conversando com Leitores Acho francos os meus versos E bem simples a linguagem, Com você também converso Em parte nesta mensagem. Não escondo a intenção De aos Deus Pai agradar, Cumprir a minha missão Em suas obras falar. Falar assim diferente Evitando fazer críticas. Sugerindo a toda gente Invocar Deus na política. Falo bem de Corumbá E um pouco da nossa gente De Ladário e Cuiabá E do Mestre Onipotente. Os dois livros meus retratam Alguns dos filhos de Deus, Que trabalham bem e tratam Dos pobres não irmãos seus. Acho difícil falar Somente as partes boas, Sinto feliz em mostrar As virtudes das pessoas. As virtudes são lembradas Naquilo que nós fomos, E podem ser confirmadas Naquilo que ainda somos.

Um livro sempre reflete Nossa personalidade Mas é a deus que compete Perfeição e divindade. Fiz painel de “Literatos” Memorizando os “Emeritos”,

Com mensagens e retratos De obras de beneméritos. Há galeria e destaques Que você pode julgar Criticar sem ataques Para ninguém se zangar. A Você que sempre escreve Ou nessa área trabalha Peço que observe E mostre-me toda falha. Eu também vou meditar Em tudo o que escrevi Para melhor praticar Todo o bem que sugeri. Desejo que leia o livro E sinta felicidade; A paz de Cristo vivo E saúde de verdade. Realmente eu gostaria Que os meus livros falassem E mais feliz eu seria Se as minhas palavras curassem. Balbino G. de Oliveira


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Balbino G. de Oliveira Comentário e Reconhecimento

Poetas e visitantes.

Aproveito este momento Para fazer um comentário: Do último lançamento, Que parece um inventário.

Visitantes querem livros, Falando do Pantanal; Das aves e bichos vivos, Deste torrão nacional.

Inventário e experiência Para este grande evento E já sinto a emergência De um outro lançamento.

O bom povo colabora, Depende muito da obra; Do assunto e da hora, Que o tempo soma e cobra.

Há motivo convincente Para futura reedição. Pois ficou bastante gente Fazendo interrogação. Eu darei uma resposta, Fazendo a reedição, Pois já sei que o povo gosta De poesia e gratidão.

Cobrará você também, Que vai Ter a sua obra Procure escrever bem, Melhor que o povo de fora.

Gratidão, até nas cartas, Dos amigos recebidas, Escritas em prosas fartas De almas agradecidas. Agradecidas pela luz, Divina, naquele livro, Inspirada por Jesus Confirmando que está vivo. Vivo para o Trovador, Que não tem muito estudo E que ser um escritor Com Deus pode aprender tudo. Quem tem valor valoriza E incentiva para o bem Toda classe se organiza Façamos assim também. Agradeço á prefeitura Por mandar representante, Valorizando a “Cultura”,

Escrever melhor que eu Que tenho pouco estudo, Mostre o trabalho seu Que poderá vender tudo. Agradeço aos poetas E escritores da cidade, Visitantes e atletas E toda a comunidade. Balbino G. de Oliveira


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Benedito C.G. Lima Porque te Adoro, Corumbá

Fazedor de Sonhos

Contemplando entre as Palmeiras da Avenida os pássaros de pólvora em volteios sinto a magia pantaneira efervescer no ocaso enquanto o caramujo escorrega na folhagem. Gosto dessa hora porque o povo se movimenta na pracinha as crianças brincam de cabra-cega cola-pau ou pegador enquanto os maiores vão de skates ou bicicletas E o pipoqueiro estoura seu milho ouro em branca nuvem.

Vou aperseguido pelas pesadas Badaladas da insônia Traçando o meu destino louquaz: Sou Poeta O verso é minha meta O poema é a minha seta! Já fui Castro Alves Gregório de Matos Fernando Pessoa... Eu morro, mas volto Vou solfejando estóreas Nas quebradas da vida E da morte Descobrindo enigmas Na esfinge da fala. E por isso não tenho dinheiro nem casa Nem casa Sou um Poeta fazedor de sonhos!

Gosto de ficar contemplando o Pantanal As garças alvas alvos flash abracadabra Jacarés disfarces troncos Água-pés, vitórias-régias lá no fundo o pescador pesca a dor sobrevivente numa vida subaquática E assim no lusco-fusco do entremeio das palmeiras diviso no vapor da fuga a magia corumbaense. Por isso que eu te adoro, Corumbá.

Benedito C. G. Lima

Benedito C.G. Lima


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Benedito C.G. Lima Os Elementos

Sobrevivência

Às vezes fico pensando: Quem sou eu na verdade se: O ar é um sopro divino que deu vida ao homem, que carrega mil sonhos, diluídos no vento. Às vezes fico pensando e não encontro explicação, se: A água É de Deus a doce lágrima, É do céu a simples chuva, que o mundo é o choro. A água não é mais do que H2O. Então serei louco? Então por que será que: O fogo é uma chama. Foi do inferno, mas clareia o paraíso; queima, anima e é mistério. O fogo domina o mundo. E a terra é redonda. É uma bola, nela Nascem as flores e os homens, animais e tudo mais. A terra da lua é igual a terra da Terra? ...

Na boca do arco-íris Se esconde o meu sonho e a ilusão desapareceu no flash e a minha alegria fossilizou tristeza e o sabor doce da felicidade acabou-se e a vontade insana de te possuir mirrou-se e o passado voltou ao presente e a semente da vida na fenda do tempo nasceu! E num pulo sensacional atlética palavra atravessou de cabo a rabo a expectativa Meu sonho ilusão alegria felicidade desejo reminiscências

Benedito C. G. Lima

Tudo no cadinho da esperança em se misturando pelo químico da existência é vida nova – hoje já não sou mais eu! Estou amalgamado no arco-íris ideológico deste existir... Benedito C. G. Lima


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Lívia Gaertner Revelada No hálito do vício das Letras, das taças, Dos dias quando não há flerte com inícios, Mas somente a inclinação para o fim, Bem algum que o refaça, que o liberte Dos próprios confins, És mais espelho!

Caco ali, um Caco aqui E me emendar, Remendar, o coração!! Lívia Gaertner

O velho coreto alemão sonda minha solidão

Na retórica volátil do álcool, Palavras que embriagam Se desprendem dos átrios, Rompantes, fogem das celas A fim de esculpir suas garras Na convicção alheia: És mais fera, És mais dela!!

Encurvada num banco de concreto, Na manhã da praça quando tudo por ela passa, Traçando um rastro no meu reduzido horizonte que, outrora foi amplidão: Lívia Gaertner

Boa Sorte A minha sorte é analfabeta Dela não se pode extrair leitura Mas isso não sabe a mulher do tempo E se engana na sua altivez 'gitana', Entregando-me um punhado de ilusões caducas Que, por certo, almejam outras em épocas adultas. A minha sorte é plebéia Não vive encastelada. Ela percorre praças, É mais uma na multidão Está bem mais perto dos mortais, Dos prazeres banais A minha sorte é atriz Reinventa velhos personagens, Adora improvisos. Acha, assim, excitante e original cada ato. Tem o costume também de inserir um

Senhoras pardas com enormes bolsas, Jovens e seus apressados sonhos. Ouço vendedor de picolé anunciando novos sabores, Homem nervoso ao falar no celular; Doidos perdidos em tiques e solilóquios; O antigo balanço rangendo no parque; E lá vem curioso o cão a passear encoleirado; Crianças uniformizadas rumo à escola; Rodas de bicicleta em sincronia; Garis e vassouras recolhendo o que sobrou da madrugada, Talvez o papel de bala fosse de beijo de namorados; Eis que vem chegando um senhor, dois, três, ... Para formar a mesa de dominó E eu seguindo ali Como estátua de herói da Guerra do Paraguai Observando, apenas observando... Lívia Gaertner


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Eliney Gaertner Corumbá Corumbá brotou de chão de ferro e cal, Brotou como brotam as plantas do brejo, Sitiada por sapos, rãs, jacarés sucuris, Em voltas, os patos, os marrecos, Os colhereiros, jaburus... É uma mistura De águas e peixes, De corixos, de salinas, De vazantes e de baías, Sombras de flanboyant E cheiro de tarumã, De perfume de mato E flores de camalote.

Que as nossas palavras possam, Sempre difundir o amor, A concórdia entre os homens, Ser a espada flamejante, A nobre beleza da justiça. E que todas as nossas ações, Seja o espelho fiel, Dos nossos pensamentos e palavras, E que nenhuma vírgula, Possa ser cambiada! Eliney Gaertner

Para orar

De sabor de café Todas as manhãs, Céu salpicado de estrelas, E de baías estreladas De olhos de jacarés. Corumbá é como os bichos: Selvagem e indomável!

Não te dirijas às igrejas, Procure o Templo Maior, Onde os astros cintilam, Num louvor constante ao Amor. Não te enganes, porém, Procure-O dentro de você, Se não O encontrar ainda, Procure na inocência.

Uma estrela de rara beleza... Uma pedra preciosa, Encravada em barranca branca, Refletindo a luz do sol. Teu povo traz na pele morena, O fulgor do sol pantaneiro, A pureza no olhar calmo e tranqüilo, Das águas desse lugar. Eliney Gaertner

Que assim seja Que os nossos pensamentos possam, Sempre irradiar a paz; Seja como a pureza transparente No semblante das crianças, A força criadora e imaginativa, A alva beleza da poesia.

Vá a uma igreja, E procures servir àqueles de fora, Que te estendem as mãos, Nos batentes das igrejas imponentes, Procurando conforto e ajuda. Podes ainda procurar, Nas noites frias e silenciosas das ruas, Nos mendigos, bêbados, prostitutas, injustiçados; Procure-O na humilhação dos pobres. Se não O encontrar mesmo assim, Deixe que o tempo te molde a forma, Que a pedra bruta se transforme, Em arte e luz do Criador! Eliney Gaertner


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Angelo Riccell Piovischini Voluntas Quero borrar o mundo com minhas palavras sujas de terra e com os rabiscos da minha alma parirme inexato! Quero perder-me na inexatidão do que escrevo e na imperfeição dos meus versos cantar, cantar e cantar até que rouco me silencie em torpor Quero rebrotar, sobre ponta da caneta em riste sobre o papel, os meus sentidos, minha linguagem nunca minha. Quero soletrar o mundo com o canto das minhas palavras e ser e ser e ser! [a poesia é o que me sustenta. mesmo quando inútil e muda a tantos] Angelo Riccell Piovischini

Revolta Renego minha condição de poeta Não tenho carro, nem casa, Nem nada Que me faça pleno agora Se o ônibus espero Às horas me perco golfando enfado e raiva e desprezo Não tenho nada da mangiare se chego A não ser as línguas que arranho com palavras soltas E aí a meia noite entra: louca! O que é ser poeta? Brincar de palavras e Parir sentidos? Quem me dará de comer? Deus? a poesia? Não suporto esta condição medíocre

Tenho asco dessa pobreza Envergonho-me do rosto esquálido Só loucos são poetas Trouxas da vida em risco, Aberta em ferida e verdade doída: doida! Enojo-me de ser pobre poeta Poeta pobre valeta Estou farto de tão pouca esperança haver Sou pobre, sou poeta Quem, quem mesmo haverá de me dar de comer? Angelo Riccell Piovischini

Questão Nenhum caminho aos poetas Loucos bardos Se esbarram na sinfonia de assobios E logo sobre o chão se lançam Catando palavras e sentidos Tontos os poetas Tortos seus cabedais Tan(a)tos o que os perfaz Vivem de vã promessa Promessa de serenata Sem violão Vivem de escuros ensurdecedores Vazios Poetas, que buscamos? O oco das horas Ou o mundo em chamas e nós? Angelo Riccell Piovischini


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Stael Moura da Paixão Ferreira

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ZONA DE FRONTEIRA: PALCO DE ENTRELAÇOS E TESSITURAS LITERÁRIAS Sabe-se que a integração política, econômica e cultural entre países latinoamericanos sempre despertou interesse, além de ser meta nas relações internacionais. Entretanto, ao que se refere ao estudo de interfluxos da produção literária fronteiriça, de modo geral, parece-nos ainda muito tímido. Comumente assistimos a discussões em torno da literatura, mas ao que se refere a literatura fronteiriça, pouco se tem abordado, considerando que, nos estudos contemporâneos, as relações entre o saber literário e os outros saberes são particularmente complexas e vão requerer do crítico certos entendimentos geopolíticos que permitam estabelecer aberturas interpretativas para, o que, aqui, de antemão, definiremos como uma “primeira aproximação”. De qualquer modo, abordar literatura de fronteira, em especial a literatura desta fronteira Brasil-Bolívia, é emergir em estudos identitários, frutos de fluxos constantes que as atravessam, para desvendar as personagens, muitas vezes, derivadas de conflitos de classe, e de tensões étnicas. Claro é que as fronteiras e os limites entre o saber contido na literatura de fronteira, em suas relações com as teorias disponíveis e aquelas a serem ainda pensadas, não deixam de ser circunscritos pela velha relação entre as correntes textualistas e as influências contextuais percebidas no âmbito de uma obra literária. Contudo, no caso da produção ficcional produzida nesta zona fronteiriça, convém destacar alguns aspectos relevantes, que lhes são peculiares. Num primeiro momento, percebemos que os estudos que relacionam a literatura fronteiriça BrasilBolívia devem ser norteados por duas concepções: a da história cultural e da história social de cada região. Assim, a literatura da fronteira brasileira apresenta-se, evolutivamente, desde o nativismo, em que o sentimento de amor pelo país era feito pela exaltação da natureza pátria, como em Pedro de Medeiros, D. Aquino Corrêa e Carlos Vandoni de Barros, associado ao próprio patriotismo, amor pela nação, por meio dos artistas memorialistas, dos regionalistas, como Otávio Gonçalves Gomes, Renato Báez e José de Mesquita, até os neo-nacionalistas, que, paradoxalmente, ofuscam e refletem profundas crises sociais, financeiras e econômicas e, repletos de coloquialidades desarticuladas, sem arcaísmos, sem erudições, como Ulisses Serra, Manoel de Barros e Lobivar Matos, refletem a montanha de preconceitos arcaicosos no âmbito desse espírito nacional de fronteira. Ora numa poesia tipicamente modernista, com linguagem simples e de fácil compreensão, sem métricas, sem rimas, sem exaltações, ora pela própria descontrução da linguagem, do niilismo, e da descontextualização, características da poesia pós-moderna e que significam revolução, corte, ruptura, reflexo de um mundo em caos, ou seja, a redução de tudo a nada, numa descrença absoluta, a literatura desta fronteira segue tecendo marcas peculiares que refletem sua identidade nacional fronteiriça. Assim, por meio do estudo desse território, lugar de todas as relações, e, é claro, das territorialidades, surge a compreensão do sentimento nacionalista de fronteira que, por sua vez, é gênese da essência literária nacional fronteiriça, incorporada ao localismo, economia, política, etnia e cultura. Em relação a literatura da fronteira boliviana, não se deve delimitar ao departamento de Santa Cruz, apenas pelas cidades de Puerto Suarez e Puerto Quijarro, pois, apesar de serem ricas em cultura, pouco se pode encontrar em literatura escrita. As tradições são preservadas, em parte, pela tradição oral. Nisto se confirma a dificuldade histórica em adentrar nos estudos literários da região. Contudo, sabe-se que ela

Profª. Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS/ CPAN). Articulista literária. Pesquisadora: Literatura e Ensino de Línguas. Email: staelmoura@hotmail.com


Musa Calíope | Revista Eletrônica Internacional Literatura e Poesia

Stael Moura da Paixão Ferreira originou-se, verdadeiramente, pela “Guerra del Chaco” (1932-1935), e pela Revolução de 1952 que destacaram aspectos particulares no indigenismo local. Assim, teve seu maior desenvolvimento no último século, conforme afirma Gabriel René Moreno, importante crítico literário boliviano, que registra ser “a partir la Guerra que se produce um movimento cultural generalizado”. Entretanto, até o fim do século XIX, a literatura boliviana se reduzia a alguns ensaios escritos, em sua maioria, escritos “por los hombres de estado”. Além disso, na Bolívia, o acesso a educação escolar sempre foi privilégio dos “blancos”, ou quando muito, dos “cholos”, ficando a maior parte da população, os índios, excluídos do sistema escolar. Logo, não se poderia esperar que a literatura tivesse grandes manifestações fora dos círculos do poder. Entre as obras de autores bolivianos, entretanto, destacamos “Juan de la Rosa. Memoria del último soldado de la independencia” de Nataniel Aguirre, grande escritor de novelas históricas, que tem por tema “las guerras de la Independencia”, e apresenta-se, então, como um relato testemunhal. Seguidamente, salientaremos “Raza de Bronce”, um “alegato” realista, sem lugar para idealizações e eufemismos, em favor do índio explorado e reprimido pelos latifundiários, no qual apresenta vocábulos de origem aimará, posteriormente explicitados na própria obra, e “Pueblo Enfermo” obra que atribui ao mestiço a culpa de todos os males do país, ambas de Alcides Arguedas. Salienta-se que os ideais bolivarianos de unidade continental aparecem reafirmados como devaneios oníricos, pois esse ódio ao mestiço, “usurpador de los privilegios”, também é encontrado em outros autores indigenistas bolivianos, admiradores de “la pureza de la raza”. Percebe-se que essas obras refletem o desejo dos autores bolivianos de conduzir os leitores a um plano extra-literário, camuflando a recriação e a interpretação muito particular desse universo desigual. A denúncia da exploração dos índios, no campo literário fronteiriço da Bolívia, expressa uma fermentação social profunda ao mesmo tempo em que ajuda a repensar movimentos e lutas sociais, ou seja, os problemas humanos dos grupos desprotegidos. Desta maneira, a linguagem usada nas obras é um elemento importante na tentativa de apreensão da realidade. Em grande parte das narrativas, utiliza-se a linguagem que mais se aproxima da falada pelas camadas médias e populares e que se afasta do formal, em busca daquela que representa com fidelidade a índole mais profunda. Salientamos, aqui, que essas reflexões iniciais, ainda que embrionárias, visam a retratar paradoxos e encontros característicos da evolução literária nesta fronteira, sabendo que as fronteiras entre países são espaços de trocas e de fragmentações culturais e a orientação axiológica do escritor determina o seu corpus literário. Todavia, compreender o alcance literário fronteiriço é ir mais além, e perceber os entrelaços da diferença e na diferença fronteiriça, o que, certamente, pode ser uma das chaves para se desvendar o universo literário da fronteira Brasil-Bolívia, ou seja, a gênese literária nacionalista de ambas.

Profª. Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS/ CPAN). Articulista literária. Pesquisadora: Literatura e Ensino de Línguas. Email: staelmoura@hotmail.com


Calíope, a da Bela Voz, em grego Êáëëéüpç, foi uma das nove musas da mitologia grega. Filha de Zeus e Mnemósine. Foi a musa da epopéia, da poesia épica, da ciência em geral e da eloquência e a mais velha e sábia das musas, e é considerada por vezes a rainha destas. É representada sob a figura de uma donzela de ar majestoso, coroada de louros e ornada de grinaldas, sentada em atitude de meditação, com a cabeça apoiada numa das mãos e um livro na outra, tendo, junto de si, mais três livros: a Ilíada, a Odisseia e a Eneida. Em outras representações, traz como atributo um rolo de pergaminho e uma pena

En la mitología griega, Calíope (en griego antiguo Ê á ë ë é ü pç Kalliópê, 'la de la bella voz') es la musa de la poesía épica y la elocuencia. Se le representa con las características de una muchacha de aire majestuoso, llevando una corona dorada, emblema que según Hesíodo indica su supremacía sobre las demás musas. Se adorna con guirnaldas, llevando una trompeta en una mano y un poema épico en la otra. Como las demás musas, Calíope es hija de Zeus y Mnemósine (la Memoria).

Editores Nacionais/Nacionales (Brasil) Balbino Gonçalves de Oliveira Benedito C. G. Lima Eliney Gaertner Livia Gaertner Roberto Aguilar Rosana Nunes

Editores Internacionais/Internacionales Víctor Manuel Guzmán Villena (Equador/Ecuador)

Contatos/Contactos: Revista.MusaCaliope@yahoo.com.br

Revista Musa Calíope - Edição 1  

O primeiro número da Revista Eletrônica Internacional Literatura e Poesia Calíope pretende prestar homenagem a Corumbá , MS, Brasil, terra d...

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