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A MORTE MATERNA PODE SER EVITADA FAÇA A SUA PARTE

CUNHÃ COLETIVO FEMINISTA


Introdução Preocupada com os recorrentes casos de mortalidade materna no estado da Paraíba, sobretudo de mulheres pobres, a Cunhã assumiu o tema da morte materna como prioritário. Entendendo que a morte de uma mulher em decorrência da gravidez ou do parto é uma questão de direitos humanos e que é um fenômeno evitável em 96% dos casos. (Dossiê da RFS, 2003) Desde 2004, a Cunhã realiza ações que visam contribuir para a diminuição dos índices de morte materna na Paraíba e para a sua prevenção, através de pesquisas, seminários, oficinas e do monitoramento das políticas de saúde da mulher do Sistema Único de Saúde (SUS). Para contribuir com a redução dos índices de mortalidade materna na Paraíba, a organização atua em instâncias como o Conselho Municipal de Saúde e o Comitê Municipal de Prevenção à Mortalidade Materna e Infantil de João Pessoa e a Rede Nacional Feminista de Saúde, Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos. Entre as ações recentes da Cunhã Coletivo Feminista, está o levantamento: Mortalidade Materna na Agenda dos Profissionais de Saúde, realizado entre março e junho de 2008 com profissionais de saúde de Unidades de Saúde da Família e dos Distritos Sanitários de João Pessoa, em bairros onde ocorreram morte materna em 2006, Também foram realizados dois grupos focais com usuárias de Unidades de Saúde da Família que estavam grávidas ou tinham parido a menos de um ano Esta cartilha é um dos resultados do trabalho e visa contribuir de forma educativa para a melhoria da abordagem do profissional de saúde junto às usuárias na assistência ao pré-natal, visando o aumento da adesão, a melhoria do vínculo entre profissional de saúde e usuária e uma gravidez segura e saudável. A MORTE MATERNA PODE SER EVITADA

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A Campanha A partir do levantamento e reconhecendo a complexidade do fenômeno, foi desenvolvida Campanha de Prevenção da Mortalidade Materna, visa contribuir para e redução e prevenção da mortalidade materna e é dirigida a gestores, profissionais e usuárias dos serviços públicos de saúde. Está dividida em três etapas: a primeira tem o objetivo de contribuir para a melhoria da qualidade da assistência ao pré-natal visando à prevenção à morte materna no âmbito da Atenção Básica (2009); a segunda etapa tem o objetivo de contribuir para a melhoria da qualidade da assistência ao parto (2010) e a terceira tem o objetivo de contribuir para a melhoria da qualidade do Atendimento no pósparto (2011).

As informações DE Equipes de Saúde da Família O levantamento teve dois objetivos: 1. verificar a percepção dos profissionais sobre a assistência ao prénatal, incluído dificuldades e êxitos 2. se os Distritos Sanitários (DS), a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) e o Comitê Municipal de Prevenção à Morte Materna (CMPMM) realizaram discussões com os profissionais de saúde sobre as mortes das usuárias e suas causas. Os dados foram levantados através de entrevistas e observação junto a três Distritos Sanitários1 e quatro Unidades de Saúde da Família (USF): Ilha do Bispo, Bela Vista e Funcionários III, Valentina, Costa e Silva e José Américo.

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Para realizar o pré-natal, os profissionais de saúde, enfrentam: • dificuldade de marcar exames e de receber os resultados; • falta de espaços adequados e material pedagógico para realizar prática educativa com as usuárias; • necessidade de capacitação para trabalhos com grupos; • baixo acesso das mulheres à transporte na hora do parto e em casos de emergências de alto risco; • dificuldades de adesão de algumas usuárias ao pré-natal ou às recomendações médicas, sobretudo em casos de extrema pobreza e drogadição; • problemas no encaminhamento para o parto, devido a pouca articulação entre a atenção básica e as maternidades.

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O pré-natal na avaliação das mulheres Aspectos positivos As usuárias reconheceram a existência de profissionais que realizam um bom trabalho e valorizam as orientações, o acompanhamento com exames e o controle de peso e de pressão. Apontam o esforço dos/ as profissionais para motivá-las a assumir a responsabilidade com a própria saúde durante a gravidez. Aspectos críticos Também avaliaram os aspectos críticos, como: a demora para marcar e obter o resultado dos exames; o desinteresse e falta de diálogo por parte de médicos/as, dificultando a relação; a insuficiência de orientação e informação. Em dois exames de urgência, o resultado demorou até um mês, trazendo risco às mulheres, e em um caso de infecção urinária, a mulher passou dois meses sem nenhuma prescrição medicamentosa ou tratamento alternativo pelo fato das profissionais não terem o resultado dos exames. “Tive problema sério de infecção urinária, de chegar em casa e tomar banho e ficar com a ducha com agonia, conversei com o médico, ele disse que só podia passar medicação se fosse constatado que estava com infecção urinária.” (Usuária USF) Sentem angústia, medo, incertezas e insegurança quanto à hora do parto - relatando ocorrências de maus tratos sofridas por parentes e amigas - além da falta de garantia de vaga na maternidade para parir.

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A maternidade Voluntária A maternidade deve ser vivida de forma voluntária, sem imposição. A mulher tem direitos reprodutivos, que significa o direito de decidir se quer ser mãe, quando quer, quantos filhos quer ter e com que espaçamento. A gravidez pode ser planejada e assistida com todos os cuidados necessários neste período. A gravidez é um momento importante para a mulher, provoca muitas mudanças no seu corpo, na sua casa e na sua vida. Na maioria das vezes, as mudanças resultam em aumentar em grande parte suas responsabilidades, já que os parceiros não dividem os cuidados com filhos (as), existem poucas creches e apoio institucional, sobrecarregando as mulheres. A maternidade deve ser sempre vivida de forma voluntária.

Mortes maternas, mortes evitáveis Morte Materna - É a morte de uma mulher durante a gestação ou dentro de um período de 42 dias após o término da gestação, independente da duração ou da localização da gravidez, devida a qualquer causa relacionada com ou agravada pela gravidez ou por medidas tomadas em relação a ela, porém não devida à causas acidentais ou incidentais (OMS, 1997).

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De cada 100 mortes maternas, 96 sรฃo evitรกveis e atingem em sua maioria as mulheres pobres e negras.

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Realidade na Paraíba e em João pessoa A mortalidade materna é um problema de saúde pública e a sua ausência um indicador de desenvolvimento. Sua redução foi considerada como uma das prioridades pelas Nações Unidas, em 2000, através do documento assinado por 191 países-membros que assumiram o compromisso de alcançar as oito metas do milênio, intituladas Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. Na Paraíba, a Razão de Morte Materna (RMM), variou de 37,5/100.000 NV, em 2000, para 49,5 óbitos para cada 100.000 NV, em 2003 (Secretaria de Estado da Saúde - SES). Esse aumento está relacionado à qualificação do trabalho do setor de Vigilância Epidemiológica, com a melhoria dos bancos de dados e da notificação no Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM). A qualificação desta mensuração, entre outros fatores, deve-se à ação feminista local e nacional de responsabilização do poder público pela mortalidade materna, sendo considerada uma etapa importante na prevenção e redução da morte materna. Em 2008, o SIM notificou 23 óbitos maternos em todo o estado. Em relação aos dados de João Pessoa, observa-se que, nos últimos anos, não houve redução no número de mortes de mulheres residentes. Segundo informações da SMS e do CMPMM, em 2006, 2007 e 2008 aconteceram 12 mortes maternas, quatro em cada ano2.

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Estas informações foram atualizadas a partir dos dados finais fornecidos pela SMS e CMPMM.

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Principais causas da mortalidade materna 1ª

Doenças hipertensivas Se acompanhadas através de exames de pressão, no pré-natal, podem ser controladas.

Hemorragias Se o hospital estiver equipado (com sangue) e com profissionais qualificados, a hemorragia é controlada e a morte evitada.

Abortos Se existir acesso à contracepção, um atendimento às mulheres que chegam com aborto incompleto e leis que tratem o aborto como um direito, muitas mulheres deixarão de morrer.

Infecções no pós-parto Se houver acompanhamento regular e domiciliar, são evitáveis.

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A importância do papel dos profissionais de saúde para evitar mortes maternas O papel dos profissionais de saúde é muito importante durante o prénatal, colaborando para que a gravidez seja saudável, sem complicações para a saúde e para que a mulher fique segura, podendo trabalhar dúvidas e medos, comuns na gravidez. Muitas mortes maternas ocorrem por problemas que aparecem durante a gravidez e não na hora do parto. A atenção humanizada, a escuta da fala das mulheres e práticas educativas de orientação em relação à gravidez e ao parto são fatores fundamentais. Outra questão importante para as mulheres grávidas é saber para qual maternidade se dirigir no momento do parto, com a garantia de vaga. A morte materna pode ser evitada. Faça a sua parte.

Entendendo a resistência das usuárias para adesão ao pré-natal Muitos/as profissionais apontam a resistência das mulheres ao prénatal, mais comum entre as adolescentes, como uma dificuldade e um complicador, pois resulta na chegada tardia das mesmas para iniciar o pré-natal e/ou a descontinuidade do acompanhamento. Às vezes, as mulheres apresentam dificuldade em atender às recomendações médicas, como por exemplo, voltar a USF.

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“Tem até uma grávida aqui que é bastante diabética. Ela não vem fazer o prénatal. A gente marca o dia dela vir, ai, ela não vem. Já teve até internada na CV, foi feita a medicação e tudo mais, ela voltou pra casa, mas não aparece. Mas, isso é algo esporádico.” É preciso entender os fatores que contribuem para a dificuldade de adesão que podem estar relacionada à questões estruturais e/ ou subjetivas, como dificuldades econômicas, gravidez indesejada, relações familiares desgastadas, envolvimento com drogas do parceiro ou da própria mulher, rejeição do parceiro à gravidez, desgaste com os serviços de saúde. Quando existe a usuária grávida resistem em vir ao serviço, a abordagem precisa ser individual e direta, procurando construir um vínculo de confiança entre profissional e usuária..A existência do vínculo entre o profissional de saúde e usuária, a qualidade da transmissão da informação, o convencimento das mulheres quanto às prescrições e a garantia de resolutividade são fatores importantes para se conseguir a adesão. A resistência aponta a necessidade de adaptação da abordagem da profissional de saúde à realidade e às necessidades das mulheres nas consultas de pré-natal e nos grupos educativos de gestantes. A escuta da fala das mulheres e práticas educativas de orientação sobre à gravidez e ao parto são fundamentais para o alcance da resolutividade do atendimento.

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Escutar significa estar aberto/a para apreender o que a outra pessoa está dizendo de forma flexível. Ouvir é diferente de escutar. Muitas vezes ouvimos, mas não escutamos. Estamos tão envolvidas/os com a nossa realidade ou presas/os a nossa forma de pensar que não compreendemos o que a outra pessoa está dizendo a partir de sua própria realidade.

Como melhorar a adesão das mulheres?

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A conexão com a realidade das usuárias é fundamental para a assimilação e adesão à informação. Uma recomendação simples, do ponto de vista médico, de retirar o sal da comida, pode ser difícil de ser adotada por mexer em hábitos alimentares sedimentados, sobretudo, no contexto de pobreza, quando existe carência alimentar e pouca variação de alimentos. Por isso, é preciso considerar o contexto sócio-econômico das mulheres e a falta de condição econômica, com pouco acesso à informação e a serviços, e a baixa qualidade de vida, influindo na resposta da usuária às recomendações dos profissionais de saúde. Converse com a usuária e tente entender quais as dificuldades que ela tem de seguir a orientação dada, assim você pode ajudá-la a encontrar uma alternativa.

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É importante desenvolver uma escuta qualificada É importante ouvir e interagir com as necessidades, dificuldades, dúvidas e angústias da mulher e considerar sua inserção social, cultural, faixa etária, raça, orientação sexual, situação familiar, história de relacionamento com o parceiro e o desejo de ter ou não filhos. Escutar a usuária e dialogar com a sua realidade de vida e sua forma de lidar com a gravidez é importante para conseguir a adesão e um bom vínculo da usuária com o serviço. A escuta qualificada é um termo utilizado por profissionais de saúde que trabalham com o acolhimento na perspectiva de promover a humanização. Envolve também uma questão de direitos e cidadania, resgatando a condição de sujeito histórico da/o usuária/o e não o de mero depositário dos serviços de saúde – denominado de paciente.

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A experiência com grupos participativos de gestantes Esta experiência pode colaborar, com a escuta das usuárias e a troca de experiência entre elas, fazendo emergir os exemplos da vida cotidiana com linguagem acessível. As informações e o convencimento são transmitidas a partir da fala das mulheres. “Trabalhar a conscientização das mães, de engravidar, de ter cuidado, não só com ela, mas a criança também (ENF).”

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É importante criar uma situação de respeito e empatia entre profissional de saúde e usuárias Um bom exemplo é se referir a mulher pelo seu nome e como mulher. Em mais de um momento do corpo discursivo das entrevistas, percebeu-se que as/os profissionais se referiram às mulheres grávidas no masculino – ele. Quando se refere à mulher na linguagem masculina, a/o profissional além de aumentar a distância da usuária, reproduz um modelo em que os homens são tomados como referência para tudo. Referir-se a usuária como mãe também invisibiliza a mulher que é um ser integral e que tem uma série de outras questões em sua vida, além da maternidade. Esta mulher pode, inclusive, estar rejeitando a gravidez e a maternidade. “Trabalho de prevenção, orientação e desenvolvimento do auto-cuidado. O usuário precisa desenvolver a capacidade de auto-cuidar-se, não colocando a questão da responsabilidade somente no outro ou na medicação. Deve estar alerta ao que o corpo fala, aos sinais e sintomas.” (ENF)

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Não se colocar em posição hierárquica de autoridade diante da usuária e evitar a imposição A concepção autoritária de transmissão do saber não conquista a usuária para aderir às recomendações necessárias a manutenção de sua saúde, no máximo, impõe a obediência. As usuárias são tratadas como crianças desobedientes por alguns profissionais. “não faz o que se manda, são desobedientes, rebeldes e cabeça-dura; não seguem orientações - medicação e alimentação.” (MÉD).

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Entender a resistência de grávidas adolescentes Este comportamento pode estar relacionado à resistência em aceitar a própria gravidez e algumas formas de reação típica desta fase, como rebeldia, revolta, descomprometimento. Para a adolescente, muitas vezes, é difícil lidar com a exigência da responsabilidade de cuidar e educar outra pessoa e ainda .assumir o auto cuidado. Portanto, abordagem junto à usuária adolescente tornase ainda mais cuidadosa, sobretudo, quando a adolescente está negando a gravidez.

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“Tem muita adolescente que não segue como é pra ser. Tem tanto meio de evitar... pra elas ficarem informadas para não tá tanta criança hoje em dia querendo ter outra criança né?” (ACS). “Cabe ao profissional desenvolver essa sensibilidade na gestante, do auto cuidado que a gestante precisa ter. Ela precisa responder, ter esse cuidado com o bebê que ela traz, ela agora é responsável por ela e mais alguém. E muita vezes, ela tá sem nenhuma estrutura...” (ENF).

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Não existe alta do pré-natal. A gestante deve ser atendida até o momento do parto. Ao final da gravidez, a mulher deve ser referenciada para uma maternidade. Isto nem sempre acontece. As/Os profissionais de saúde apontaram a falta de articulação entre a atenção básica e as maternidades, recaindo sobre a mulher e seus familiares à responsabilidade da “escolha” da maternidade na hora do parto. Diante da realidade da falta de garantia de leitos obstétricos na rede pública de serviços, as mulheres sofrem com a peregrinação em busca de vagas. Esta questão sugere a necessidade de definição do fluxo de atendimento, através da referência e contra referência, e do aprimoramento da intersetorialidade das ações. Cartão da Gestante: No cartão são feitas importantes anotações durante as consultas de pré-natal, que informam sobre o desenvolvimento da gravidez, os resultados dos exames e a saúde da mulher. É importante que ela leve este cartão a todo lugar que for e, necessariamente, a todas as consultas de Pré-

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natal, verificando se ele está sendo preenchido. Além disso, a gestante deve apresentá-lo a quem for assistir ao seu parto. É uma carteira de identidade para a gestante! Em 2007, foi aprovada a Lei nº 11.634/07 que dispõe sobre o direito da gestante ao conhecimento e à vinculação à maternidade onde receberá assistência no âmbito do SUS.

As usuárias consideraram que uma consulta de qualidade é ter garantido o agendamento da consulta e dos exames; evitando a espera, além de ser examinada, diagnosticada e de conversar com o profissional de saúde.

Estratégias das mulheres para serem melhor atendidas Escolha da USF onde vai realizar o pré-natal Os profissionais se preocupam porque as mulheres mudam de serviço, mudam de bairro e de cidade, interrompendo o pré-natal e desorganizando a lógica da estratégia de saúde da família, concorrendo para a chegada tardia de algumas mulheres ao pré-natal.

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É preciso entender que muitas mulheres se mudam em busca de apoio de familiares para nascimento do filho e como uma alternativa para melhorar o atendimento. Elas mudam de bairro, ou dizem ter mudado, para ter um atendimento mais humanizado ou mais ágil noutra unidade. Entre as mulheres entrevistadas, todas as que migraram de uma USF para outra, estava expressando a sua insatisfação com o atendimento, com a falta de resolutividade e a com desumanização. “Aí foi quando uma colega minha me disse: não mulher, vamos fazer o seguinte: eu moro aqui do outro lado, vem passar uns dias aqui em casa, eu já tenho cadastro no PSF, aí você fica indo para lá que é melhor.” (Usuária) “Aí foi quando uma colega minha me disse: `não mulher, vamos fazer o seguinte: eu moro aqui do outro lado, vem passar uns dias aqui em casa, eu já tenho cadastro no PSF, aí você fica indo para lá que é melhor.” (Usuária) Migração para realização do pré-natal em maternidades Motivadas pelo desejo de conseguir uma laqueadura, algumas mulheres não realizam o pré-natal na USF ou desistem em busca de uma maternidade: “as gestantes daqui fazem mais o pré-natal fora; elas fazem nas maternidades para conseguir laqueadura. Estão fazendo aqui porque a ordem é pra fazer na Unidade.” (ACS). Esta situação revela a desarticulação entre as ações de planejamento familiar e a decisão pela laqueadura. A Lei nº 9.263/96 define que o planejamento familiar é direito de todo cidadão, definindo critérios e normas para a prática da esterilização cirúrgica, como: ser maior de 25

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anos de idade e/ou ter pelo menos, dois filhos vivos, além disso deve ser observado um prazo mínimo de 60 dias entre a manifestação da vontade da usuária e o ato cirúrgico. Esta restrição visa garantir que a decisão pela esterilização cirúrgica seja tomada após o acesso aos métodos contraceptivos reversíveis e a “aconselhamento da equipe multidisciplinar” (1996). Por isso, é proibida a realização da laqueadura tubária durante os períodos do parto e aborto.

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As mulheres têm direitos garantidos na gravidez • Atendimento preferencial ou prioridade nas filas, nos serviços públicos, nos bancos e nos transportes públicos. • Auxílio financeiro para a mulher grávida que é pobre, através de programas sociais, com o propósito de promover condições de saúde e nutrição às gestantes, às mães que estiveram amamentando e às crianças de 6 (seis) meses a 6 (seis) anos e onze meses de idade.

Direito nas Consultas de Pré-Natal • De ser atendida sem discriminação, com respeito e dignidade, pela equipe de profissionais dos serviços de saúde. O lugar onde vai ser atendida deve ser arejado e limpo, tendo à sua disposição água de beber e banheiro. • De receber orientações sobre gravidez, parto, pós-parto e cuidados com a criança. E sobre: alimentação, cuidados com o corpo e com a saúde durante a gestação, sobre amamentação e planejamento familiar e conversar sobre o sexo na gravidez. • De realizar, no mínimo, seis consultas durante o Pré-Natal, sendo que no oitavo mês a grávida deve ir à USF de 15 em 15 dias. Durante o último mês, até que aconteça o parto, ela deve ser acompanhada uma vez por semana.

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• De serem examinadas: verificação de peso, pressão arterial, estado nutricional, pele, dentes, tamanho do útero, batidas cardíacas do feto, exames para verificar presença de edemas, anemia, entre outros. Tudo com o acompanhamento médico. De fazer exames de laboratório, como: • Exame de Sangue: para ver o tipo de sangue, se está com anemia, se tem diabetes, se contraiu alguma DST (sífilis, hepatite C, HIV) • Exame de Urina: para identificar existência de infecção, se não está perdendo sangue pela urina ou se tem a presença de Albumina (indicativo de Pré-Eclampsia/Eclampsia). • De fazer a ultra-sonografia e o preventivo de câncer de cólo de útero e de mama. • De receber a vacinação necessária (contra tétano e outras doenças). • De receber toda a medicação necessária durante a gravidez, como é o caso do suplemento de ferro, e outras medicações para as mulheres portadoras de HIV/AIDS e de DSTs. • De realizar o exame para identificar o vírus do HIV/AIDS, durante o Pré-Natal, e, caso o resultado dê positivo, ela pode iniciar o tratamento, na gravidez. A mulher deve ser muito bem informada sobre a importância do teste, e saber que o resultado só pode ser entregue a ela mesma, pois o teste Anti-HIV é confidencial.

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• De fazer o Teste Rápido durante o trabalho de parto, no hospital ou maternidade, com todo o cuidado, respeito e carinho que o momento exige, caso não tenha feito o teste Anti-HIV no Pré-natal. • De ter o acompanhamento de uma pessoa de sua confiança nas consultas do pré-natal, no parto e no pós-parto, que pode ser o marido, a amiga, a mãe ou a parteira. • De fazer a ultra-sonografia e o preventivo de câncer de cólo de útero e de mama. • De receber a vacinação necessária (contra tétano e outras doenças). • De receber toda a medicação necessária durante a gravidez, como é o caso do suplemento de ferro, e outras medicações para as mulheres portadoras de HIV/AIDS e de DSTs. • De realizar o exame para identificar o vírus do HIV/AIDS, durante o Pré-Natal, e, caso o resultado dê positivo, ela pode iniciar o tratamento, na gravidez. A mulher deve ser muito bem informada sobre a importância do teste, e saber que o resultado só pode ser entregue a ela mesma, pois o teste Anti-HIV é confidencial. • De fazer o Teste Rápido durante o trabalho de parto, no hospital ou maternidade, com todo o cuidado, respeito e carinho que o momento exige, caso não tenha feito o teste Anti-HIV no Pré-natal. • De ter o acompanhamento de uma pessoa de sua confiança nas consultas do pré-natal, no parto e no pós-parto, que pode ser o marido, a amiga, a mãe ou a parteira.

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O Marido da mulher ou o Companheiro da mulher tem Direito a • Participar do pré-natal, se a mulher quiser e permitir; • Ter suas dúvidas esclarecidas sobre a gravidez, sobre o relacionamento com a mulher e sobre os cuidados com a criança; • Ser informado sobre como a gravidez está evoluindo e sobre qualquer problema que possa aparecer. • Ser informado sobre os métodos de Planejamento Familiar. Todos esses direitos devem ser assegurados pela Secretaria de Saúde do município.

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Edição Anadilza Ferreira, Gilberta Soares Maria Lúcia Lira

Equipe administrativa Ionaldo Macedo da Costa, Kátia Leal, Maria das Neves Ferreira, Maria do Socorro Oliveira

Coordenação da publicação Kristina Lima - MT 31519/99

EDIçÃO GRÁFICO-EDITORIAL

Coordenação Executiva Gilberta Santos Soares, Malu Oliveira, Soraia Jordão Almeida e Kristina

Corpo técnico Anadilza Ferreira, Cristiane Cavalcanti, Luciana Cândido Barbosa, Maria Lúcia Lira Lima

REALIZAÇÃO

APOIO

CUNHÃ COLETIVO FEMINISTA Av. João Machado, 510 – Centro 58013-520 – João Pessoa – Paraíba Telefone: 55 83 3241-5916 cunhan@cunhanfeminista.org.br | www.cunhanfeminista.org.br

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