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EDITORIAL

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ESSÊNCIA As mudanças geralmente são vistas com certo temor, mas aqueles que resolveram abraçar o novo entenderam que não há motivos para receios quando se tem essência. Assim como a essência de um perfume é uma mistura de ingredientes responsável por tornar sua fragrância única, a essência de uma pessoa é composta pela mistura de qualidades e características que mudança nenhuma consegue corromper, pois trata-se da identidade inerente a cada indivíduo. Na Revista Foccus, nós acreditamos muito em nossa essência e por isso estamos sempre apostando no novo, pois temos a certeza de estar imprimindo nossa marca em todo e qualquer conteúdo produzido pela nossa equipe. Como você já deve ter percebido, a mudança mais profunda foi realizada quando resolvemos assumir a nossa essência por inteiro e criamos o formato que hoje chega até você, mas não paramos por aí. Assim como nas outras, essa edição está repleta de novidades. No decorrer da leitura você perceberá que as editorias não abordarão mais o mesmo tema e descobrirá que além de propostas diversificadas, cada colunista trabalhará um assunto diferente. E por falar em diferente, tem bastante gente nova

por aqui. Confira na próxima página e descubra o que te espera. Além disso, os colunistas da casa continuam com o DNA opinativo de sempre, mas estão com a perspicácia ainda mais aguçada, pois a liberdade na escolha dos temas resultou em trabalhos surpreendentes. Portanto, abra-se você também para o novo e aproveite a leitura.

FICHA TÉCNICA Editora Chefe: Kilze Teodoro – kilze@foccusrevista.com.br Diretor Executivo: Murilo Borges – murilo@foccusrevista.com.br Projeto Gráfico: Juicebox Publicidade e Propaganda – (64) 3661-1960 Direção de Arte: Andre Rezende, Leonardo Martins e Tiago Batista Capa: Emil Larsson Produção Gráfica: Gráfica Mineiros – (64) 3661-1862 Comercial: Jéssica Dias – (64) 9994-6294 Circulação: Mineiros, Goiânia, Rio Verde, Jataí, Alto Araguaia, Alto Taquari, Chapadão do Céu e Chapadão do Sul Endereço: Avenida Ino Rezende, Qd. 12, Lt. 11, Piso 02, Setor Cruvinel, Mineiros-GO, CEP 75830-000

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COLABORADORES MARÇO/2014

PABLO KOSSA Pablo Kossa é jornalista, produtor cultural e mestre em Comunicação pela UFG.

GUILHERME SANTANA

MARÍLIA BILÚ

PEDRO FAUST

Coveiro por opção. Pai por paixão. Glutão por convicção. santanagui@hotmail.com santanagui.blogspot.com

Professora de inglês, graduanda em História pela Universidade Federal de Goiás, colunista do site GOTOGO e da Revista Foccus.

Goianiense desde o nascimento. Jornalista pela PUC e aficionado por cinema. Redator Publicitário da Agência Casa Interativa e colunista na Revista Foccus.

GUILHERME BORGES

MARIA MARTHA

MICHEL EDERE

Advogado, professor do curso de Direito da Unifimes e colunista da Revista Foccus.

Adora um colorido e o que enche os olhos. Novela mexicana no nome e pequi na veia. Formada em Direito, professora de inglês, pós graduada em Marketing, mas gosta mesmo é da criação. Em cima do muro de nascença.

Nascido no dia 11 de abril de 1980, já com a profissão de ariano definida para o resto da vida, Michel Edere é original de fábrica de Goiânia. Filho de uma crente com um piauiense, estudou muita coisa, aprendeu algumas, esqueceu a maioria e não se formou em nada.

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ED. 82 - MARÇO 2014

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ÍNDICE No Balaio da Maria |

MARIA MARTHA ........................................................................................................................... 06

Senta Que Lá Vem História |

GUILHERME SANTANA ...........................................................................................

PABLO KOSSA .........................................................................................................

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KILZE TEODORO .................................................................................................................................................................

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Tudo ao Mesmo Tempo Agora | CAPA |

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DR. DANILLO IRINEU BRITO ..........................................................................................................

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Para Toda Obra

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Entre Olhares |

MICHEL EDERE ...............................................................................................................................................

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GULHERME BORGES .......................................................................................................................................

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Perfil Profissional |

Erga Omnes |

Popcorn Time |

PEDRO FAUST ..................................................................................................................................................

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Nos Bastidores |

MICHEL EDERE ............................................................................................................................................

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MARÍLIA BILU ..................................................................................................................................................................

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Lado B |

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NO BALAIO DA MARIA

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NA MUDANÇA “Lembra quando você se sentava e dizia que em Goiás não tinha opção, nem de bar, de lugar ou coisas bacanas?” TEXTO POR MARIA MARTHA

Para as boas vindas e o começo do nosso laço, escolhi dois goianos que, cheios de talento e pesquisa, estão transformando o cenário da decoração e oxigenando nossos olhos com tendências das mais variadas formas e modelos, cada um com seu talento, mas com a mesma ideia na cabeça: precisamos de mais e merecemos! Lembra quando você se sentava e dizia que em Goiás não tinha opção, nem de bar, de lugar ou coisas bacanas? Esse tempo foi superado há muito, por ideias modernas, opções coloridas e ginga rara. O talento e atitude desses empreendedores e artistas mostraram os espaços e como podem ser preenchidos, trouxeram tendências da decoração de várias partes do mundo. Incluíram Goiás na rota do design e decoração interessantes, dos espaços bem aproveitados. O arquiteto Ricardo Braudes ganhou relevância com trabalhos modernos, para um público mais consolidado e com uma pegada de aproveitar espaços, ousando na decoração, sem medo de misturar materiais e, trazendo um ar que passa longe da praia, mas que ao mesmo tempo,

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te refresca, o que convenhamos, para o calorzinho (e que calor), pega bem. Mesmo utilizando cores fortes, o ambiente (foto) traz um conceito importante de ser duradouro, você se vê naquele espaço sem querer redecorar por muito tempo, crucial para quem tem que pensar em muitos anos a frente, afinal decoração não se muda a toda hora. Um ponto importante, que se destaca em seu trabalho é também o modo como reaproveita o que o local já possui de disponível e, sem descartar, redesenha e aplica modernidade no antigo. Ponto pra ele que sabe como respeitar a história do local. Rodrigo Menezes, empresário, é o croupier da mudança, ele fareja o talento, com um olho clínico, mas acima de tudo, investe na qualidade. A frente do café Ateliê do Grão dá sempre um jeito de trazer exposições e mostrar as tendências de decoração e arte, mas o que mais chama a atenção é que ele põe a mão na massa.


NO BALAIO DA MARIA

Trouxe uma pegada de Seattle, sem muita informação na decoração, poltronas amplas, espaços bem pensados para um café filosófico com amigos, mas tudo muito limpo e aberto. Ele mesmo quem pintou as cafeteiras e escolheu o toque intimista moderno do lugar. É interessante ver que quando se tem bom gosto e vontade, a coisa flui.

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Enfim, trazer um profissional e um apaixonado pela decoração, demonstra que não existe limite para tornar seu espaço mais agradável, basta ficar de olho nas tendências e de vez em quando pedir uma ajudinha, mas, o bom mesmo, é estar atento ao que nosso Estado tem de melhor, os artistas que enchem nossos olhos.

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SENTA QUE LÁ VEM HISTÓRIA

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MÃE, NÃO VOU À CASA DA TIA ERNESTINA!

“Será que as causas são somente justas, ou justas somente para nós?” TEXTO POR GUILHERME SANTANA

Ao começar a ler essa crônica, talvez você imagine que o seu escritor não sabe o rumo que quer chegar. Nem se quer chegar. Mas não se preocupe. Na medida do possível tento fechar o raciocínio. Conta a história que por volta dos anos 1500, foi alçado a qualidade de Papa, o Cardeal Rodrigo Borgia, que estando empapado, passou a ser chamado Papa Alexandre VI. Para conseguir a eleição de pastor máximo da Santa Igreja Católica Apostólica Romana na época, Rodrigo lançou mão de todos os recursos, principalmente os mais sórdidos. Esse Papa tinha filhos (não me questionem esses dogmas). Um deles era a famosa Lucrécia Borgia que ficou famosa com a alcunha de pior mulher do mundo. E outro filho, Cesare Borgia, que foi a peça fundamental para que o pai conseguisse chegar a Papa, ficou imortalizado na obra “O Príncipe” de Nicolau Maquiavel. Aí chegamos ao ponto que eu queria abordar. Maquiavel e sua teoria. Muitas vezes utilizamos expressões e pensamentos sem saber ao certo de onde vieram e em que circunstâncias

foram proferidas. Todos vocês já devem ter escutado a expressão: “fulano é maquiavélico”. Parecendo com isso que o fulano seria o diabo em pessoa. Estou certo? Pois bem. Diante disso alguém se considera maquiavélico? Senão vejamos. Vamos partir de uma das frases que define o maquiavelismo: “os fins justificam os meios”. Daí podemos traçar um raciocínio lógico. Veja se você se encaixa em uma dessas cenas: Cena 1: eu preciso enforcar aquele feriado para viajar com a namorada e estou sem coragem de falar com meu chefe. Chego de mansinho olho o porta retrato em cima da mesa e pergunto sobre os filhos e a esposa. Digo a ele da importância que a família tem na vida de um homem. Digo também da necessidade das horas de lazer na produtividade de um funcionário. Digo que gostaria de ter uma família linda como a dele. Por fim elogio sua gravata (que está ridiculamente descombinante com a camisa) e numa tacada só, com cara de pessoa zelosa pela manutenção da família, solicito o enforcamento do feriado. Mas olha, foi por uma causa justa. Se eu não fosse, a namorada ia com outro.

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SENTA QUE LÁ VEM HISTÓRIA

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“Os métodos e maneiras que alçamos mão para alcançar nossos objetivos muitas vezes são camuflados na égide de uma boa causa.”

Cena 2: Você precisa comprar um presente de aniversário para um filho de um amigo. Entra no shopping correndo (porque só tem 20 minutos de estacionamento grátis), pega o primeiro brinquedo que vê na sua frente, paga em dinheiro (cartão pode enrolar), fala para a empacotadora agilizar, pois você deixou o forno de casa ligado e sai correndo do shopping aos 19:45 do segundo tempo. Aí para justificar a compra de um quebra cabeça de 200 peças para uma criança de 1 ano, porque não teve tempo de ao menos olhar a indicação etária, você pensa: “um dia ele vai usar”. Ou “criança nem repara nessas coisas”. Ou ainda “tem gente que nem presente vai levar”. Mas olha, foi por uma causa justa. Não tinha trocado para pagar estacionamento. Cena 3: Você está no caixa do supermercado e tem uma senhora da melhor idade na sua frente pagando meia dúzia de coisas. Ela tira a niqueira (artigo que só as senhoras da melhor idade possuem) e começa a contar as moedas lentamente. Você com carne e cerveja dentro do carrinho e o celular tocando o tempo todo porque todos os seus amigos já estão na piscina. Aí você vê que ela ainda não começou a embalar as compras e começa a auxiliá-la com os saquinhos. Muito rapidamente você termina o trabalho e ela lhe agradece como se você fosse o super prestativo. Menino bem criado né? Mas olha, foi por uma causa justa. A churrasqueira já estava acesa.

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Cena 4: Sua mãe te chama, no domingo, para visitar a Tia Ernestina que mora naquele bairro lá onde Judas perdeu as botas. Você se recorda que sua tia faz um doce de casca de laranja que fica quase uma década na prateleira a espera de um otário para consumi-lo. Lembra também que toda vez que você vai visitá-la, ela abre aquele álbum velho e mofado com as fotos da sua mãe quando pequena te fazendo espirrar o resto do dia. Aí num átimo de segundo, você faz uma voz anasalada ao telefone com sua mãe e fala que acha que está gripando e que vai ficar debaixo das cobertas. Sua mãe, como toda mãe, vai se compadecer e lhe recomendar que não pegue friagem e tome canja de galinha. Aí para matar de vez você pede a sua mãe que lhe traga um pedaço daquele doce de casca de laranja delicioso da Tia Ernestina na volta. Mas olha, foi por uma causa justa. Sabia que certos tipos de ácaros podem matar? Resumindo? Penso que no fundo no fundo, todos nós somos um pouco maquiavélicos. Quer seja pensando em nós mesmos, na carreira, na família ou até nas deficiências. Os métodos e maneiras que alçamos mão para alcançar nossos objetivos muitas vezes são camuflados na égide de uma boa causa. Será que as causas são somente justas, ou justas somente para nós? Pensemos.


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Folha de S達o Paulo


TUDO AO MESMO TEMPO AGORA

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COPA DO MUNDO INFLUENCIA AS ELEIÇÕES?

“Depois da alegria da casa própria, é hora de pagar a conta.” TEXTO POR PABLO KOSSA

Respondendo diretamente a questão que suscito no título desse texto, não. Na história recente do Brasil, Copa do Mundo e eleições sempre se deram em anos coincidentes. E por mais que nós, metidos a intelectuais, chamemos o povo de alienado, não há relação direta entre o resultado da Seleção Brasileira dentro de campo com o que a urna revela alguns meses depois. Em 1994, tivemos uma coincidência. O escrete canarinho levantou o caneco nos Estados Unidos após 24 anos de jejum. O candidato da situação Fernando Henrique Cardoso foi eleito com o apoio do então presidente Itamar Franco. Mas não foram os gols de Bebeto e Romário que fizeram o candidato tucano subir a rampa do Planalto. O êxito do Plano Real no controle do dragão da inflação foi o principal responsável. A partir daí, foram só desencontros. Na Copa seguinte, perdemos o mundial para a anfitriã França naquela polêmica final do piripaque do Ronaldo. Saímos de campo humilhados por um inquestionável 3 a 0, fora o show de Zidane. A derrota não influenciou nas eleições. A oposição não conseguiu capitalizar em cima e, tal qual

o Brasil, perdeu de lavada em outubro, com Fernando Henrique sendo reeleito no primeiro turno – a única vez que isso aconteceu em eleições presidenciais brasileiras. Em 2002, a família Felipão levantou a taça na Copa do outro lado do mundo, disputada no Japão e na Coreia do Sul. Nas eleições, José Serra que era situação perdeu para Lula. Ou seja, o governo não conseguiu colar o sucesso dentro de campo no seu candidato. Em 2006, fomos para casa mais cedo no campeonato da Alemanha novamente enfrentando a seleção francesa. Nas eleições, Lula é reeleito em cima de Geraldo Alckmin. No torneio seguinte, o time brasileiro novamente é eliminado. Dessa vez para a Holanda. Contrariando o que o senso comum fala pelas ruas, a candidata da situação Dilma Roussef é eleita em cima de José Serra. Em 2014, algo diferente pode acontecer. Independente do que aconteça dentro das quatro linhas, a parte externa dos estádios pode sim ter reflexos no pleito de outubro. Se tivermos manifestações como

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TUDO AO MESMO TEMPO AGORA

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na Copa das Confederações, os candidatos de situação podem ter mais dificuldades. Mas isso não se deve ao resultado dentro de campo. Podemos torcer para Neymar e companhia sem medo de sermos chamados pelegos ou oposicionistas ferrenhos. Somos somente torcedores. Por isso, vai para cima deles, Brasil! A casa vai cair Não teve nada que aumentou mais seu valor de mercado do que os imóveis. A valorização de lotes e construções nos últimos anos é de deixar boquiaberto. Mas não pense que essa curva subirá rumo ao infinito. Vivemos um momento específico de muito dinheiro para financiamentos que aqueceu o mercado. Agora que grande parte da população já está com sua dívida de décadas para quitar, as coisas começam a se realinhar. Depois da alegria da casa própria, é hora de pagar a conta. A bolha vai estourar. Se ainda não estourou. Tem um ditado antigo que explica a economia de forma simples e direta: vale quanto pesa. Imóveis estavam valendo mais do que pesavam. Agora a casa vai cair. De Havana para Miami, com escala no Mais Médicos Era previsível a debandada de parte dos médicos cubanos do Mais Médicos. Tanto que o governo cubano tem como política reter 60% dos rendimentos do profissional – eles só recebem essa quantia quando voltarem à ilha. Eles só colocaram nesses termos pois sabiam do risco. Contudo, os abandonos não invalidam a existência do programa: os grotões do Brasil precisam de médicos, falem eles português, espanhol

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ou javanês. O Brasil profundo não tem estrutura de nada. Na saúde não seria diferente. Se o médico brasileiro não quer ir, beleza. É um direito dele. Eu também não gostaria de ir para um Mais Jornalistas. Mas isso não me deixaria em condições de fechar as portas para quem encarasse a falta de estrutura. Mesma coisa para os profissionais da saúde. Imposto demais, serviço de menos Não sou contra o imposto. Acredito em um Estado forte que possa suprir com qualidade (é bom destacar, com qualidade) as demandas mil da sociedade. Das mais elementares (saúde, educação e segurança) às mais sutis (lazer, cultura e esporte). O Estado só existe se existirem impostos. O problema é que a sanha do Governo pelo que está em nosso bolso não corresponde à mesma vontade de prestar um serviço de excelência. Pagamos impostos de Dinamarca e temos serviços de Bolívia. Dessa forma fica inviável. Por isso não aceitamos pagar nem mais um centavo para governo nenhum. Eles que se virem para resolver nossos problemas com a fortuna que já repassamos para eles. São bem pagos justamente para isso, para achar soluções.


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A MADONNA NÃO EXISTE “Os fatos são produtos das nossas interpretações.”

TEXTO POR KILZE TEODORO

Um popular provérbio chinês diz que “todos os fatos têm três versões: a sua, a minha e a verdadeira”. Seguindo esta lógica, podemos crer que nenhuma versão de nossa autoria é totalmente honesta, pois por maior que seja a tentativa de nos mantermos fiéis aos fatos, todas as histórias transmitidas por nós são reflexos de nossas interpretações que, neste caso, referem-se ao modo como enxergamos e vivenciamos os acontecimentos. Para explicar o processo de interpretação citado no parágrafo anterior, vou criar um exemplo hipotético, no qual dois alunos que leram o livro Dom Casmurro, de Machado de Assis, são convidados pela professora para fazer uma explanação sobre a obra para os demais estudantes da turma. Enquanto o primeiro diz que o livro trata-se de um romance sobre adultério, o segundo afirma ter lido um romance sobre ciúmes e obsessão. Ambos possuem argumentos válidos para defender suas interpretações e capazes de deixar a sala dividida entre o ciúme doentio de Bentinho e a desfaçatez de Capitu. A única pessoa que poderia resolver tal impasse seria o próprio autor que,

como sabemos, levou a resposta para o túmulo. A nós, leitores, resta conviver com essa dúvida e com tantas outras de caráter similar que nos acometem constantemente e estão intimamente ligadas ao nosso processo de interpretação que, por sua vez, é muito mais flexível do que imaginamos, pois a vida se encarrega de encurtar distâncias entre certo e errado, bom e ruim, falso e verdadeiro, enquanto aumenta dúvidas e modifica conceitos. Na infância, à medida que a criança vai se desenvolvendo, a maioria dos pais utilizam seus critérios de julgamento para avaliar o comportamento dos filhos, destacando atitudes corretas, erradas, boas e más. E mesmo tentando acertar sempre, muitos se esquecem que somente apontar defeitos e cobrar atitudes corretas não resolve. Na maior parte dos casos, a conversa e a cobrança têm efeitos pequenos comparadas ao exemplo. Por isso, há que se observar como a criança interpreta as situações. Se, por exemplo, uma mãe é muito assertiva ao falar não e costuma usar o recurso da negação com frequência, mas sempre acaba cedendo diante das crises de choro do filho, é bem

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“A frase ‘não existem fatos, apenas interpretações’, de Nietzsche, ilustra bem a análise presente neste texto.”

provável que o filho entenda que chorar é o caminho para conseguir o que deseja, logo não hesitará em lançar mão desse artifício sempre que julgar necessário, pois esse tipo de interpretação acontece de maneira bastante intuitiva e está muito ligado às nossas emoções mais primitivas, que são capazes de influenciar a nossa maneira de encarar os acontecimentos por toda a vida. Tanto é, que o exemplo acima aborda as interpretações e respostas de uma criança diante das negativas da mãe, por isso não ousamos acusá-la como a vilã da história, mas se, neste caso, estivéssemos falando da mesma pessoa em sua fase adulta, respondendo às negativas da vida com violência ou evasão, nossas interpretações seriam completamente diferentes e os já conhecidos conceitos de imaturidade, agressividade e insegurança apareceriam para definir o sujeito em questão, afinal nossos julgamentos não levam o histórico dos outros em consideração e talvez seja por isso que usamos tantos rótulos para definir um indivíduo. Porém, a mesma facilidade que temos para julgar está presente em quem julgamos e por mais sensatos e íntegros – conceitos também flexíveis – que sejamos, algumas vezes encarnamos o papel do vilão e são nestes momentos, que as críticas chovem em nossa direção, que conseguimos olhar com mais empatia para os erros do próximo, pois na tentativa de justificar o nosso comportamento inapropriado,

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conseguimos enxergar nossas fraquezas e mazelas, como também daqueles a quem julgamos. Ao entender que cometer erros graves não nos faz essencialmente maus, flexibilizamos nossos conceitos mais arraigados e colocamos em cheque nossas verdades até então absolutas. Por isso, ouso dizer que nossos conceitos sobre verdades e valores são plásticos, pois dependem inteiramente do contexto em que estamos inseridos, assim como os fatos são produtos das nossas interpretações. A frase “não existem fatos, apenas interpretações”, do filósofo alemão, Friedrich Nietzsche, ilustra bem a análise presente neste texto, pois ela destaca a plasticidade existente em todas as nossas avaliações sobre a verdade, colocando a realidade sob uma perspectiva interpretativa. Sem precisar me aprofundar nas perspectivas hermenêuticas presentes na afirmação de Nietzsche, posso concluir que até mesmo a verdade é flexível. Portanto, resta saber onde encontrar a versão verdadeira dos fatos descrita no ditado que abre este texto. Para responder essa questão, uso a frase de um autor que não conta com o mesmo prestígio do filósofo citado, como também não compreende o gênero de leitura que consumo, mas seu respaldo profissional


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e os resultados atingidos com seus clientes – atletas e empresários de alto gabarito – não deixam dúvidas sobre a respeitabilidade do seu trabalho. Em seu livro A Semente da Vitória, Nuno Cobra diz que “a verdade não existe. Nós é que fazemos a nossa verdade”. Logo, a minha maneira de interpretar a frase do autor compreende a inexistência de uma verdade universal, pois para existir, a verdade precisa de significado pessoal que, na minha opinião, é um produto direto da interpretação de cada indivíduo. Neste caso, preciso explicar que quando trabalho o conceito da verdade, me refiro também aos fatos e aos acontecimentos, pois mesmo que muitos digam que os fatos acontecem alheios às nossas vontades, para mim eles só existem a partir do momento que ganham significados em nossas vidas. Por

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exemplo, os atentados de 11 de setembro de 2001 contra os Estados Unidos, que chocaram o mundo tanto pelo terror que provocaram, quanto pela série de sentimentos que evocaram, simplesmente não existem para Dona Maria que mora no interior do Piauí. Sem acesso a veículos de comunicação, ela segue à margem das tragédias propagadas pelas grandes mídias. O Obama, a Madonna e o Caetano também não existem, mas a Dilma, sim. Para Dona Maria, ela e seus antecessores sempre significaram a esperança de não ter que andar horas sob sol forte para conseguir água nos meses em que a seca castiga e até, quem sabe, ter carne na mesa no final de semana para oferecer aos netos.

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PERFIL PROFISSIONAL

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DISSECANDO A CIRURGIA PLÁSTICA! Para estrear o novo formato do nosso Perfil Profissional, conversamos com o Cirurgião Plástico Dr. Danillo Irineu Brito Vieira de Freitas, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP). Em um papo descontraído, ele falou sobre sua trajetória acadêmica, expectativas profissionais, necessidades humanas, como também sobre temas importantes na Cirurgia Plástica.

REVISTA FOCCUS: Sabemos que o curso de Medicina é um dos cursos mais concorridos do país, sobretudo nas instituições de ensino federais. Portanto, para abrir nosso bate-papo, peço que você discorra um pouco sobre os motivos que te levaram a escolher a Medicina como profissão, como também sobre os desafios que precisou enfrentar tanto para entrar na faculdade de sua escolha, quanto para se graduar. Medicina realmente é um curso difícil. Tanto para ingressar quanto para sair da faculdade bem formado. Foi com empenho e muito estudo que consegui passar por 3 grandes faculdades deste país. A graduação em medicina pela UFG, a especialização em cirurgia geral na UFU e a especialização em cirurgia plástica pela UFMG. A escolha pela medicina me ocorreu na sétima série, quando estudava a fisiologia do corpo humano. Fiquei fascinado em entender cada vez mais como o nosso organismo funcionava e também sobre as suas doenças. É um curso árduo, mas muito gratificante. REVISTA FOCCUS: Assim como ocorre na maioria das profissões, a medicina

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também proporciona oportunidades de especialização, como você já citou. Em que momento do curso decidiu especializar-se em Cirurgia Plástica e por quais motivos? Primeiramente decidi ser cirurgião ainda no primeiro ano da faculdade, pois adorava anatomia, matéria que é a base de qualquer especialidade cirúrgica. Ao final da faculdade prestei residência médica para cirurgia geral, na qual foram 2 anos de formação intensiva, servindo de pré-requisito para qualquer outra subespecialidade cirúrgica. Nesta época decidi por cirurgia plástica por ser a especialidade com que mais me identifiquei e gostei. Daí foram mais 3 anos de intenso treinamento cirúrgico. Poucos sabem, mas a cirurgia plástica não é feita somente de estética. Na verdade, sua base é a cirurgia reconstrutora/ reparadora. A cirurgia estética foi um desdobramento destas. São cirurgias que desafiam o cirurgião na sua técnica e no seu bom senso, visando sempre ter um bom resultado estético e reparador. Como eu gosto de desafios, esse foi o aliado que me motivou a escolher a cirurgia plástica como especialidade. É uma especialidade


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ampla! Somos capazes de realizar cirurgias na superfície corporal do cabelo a unha do pé. Capazes de tratar um paciente com queimadura grave, uma fratura complexa dos ossos da face ou uma sequela de mastectomia. Assim como também de cuidar do contorno corporal, das rugas ou de um nariz em desarmonia com a face, por exemplo. REVISTA FOCCUS: Você sempre teve a intenção de trabalhar em Mineiros ou a oportunidade de atuar com uma profissional tão experiente e conceituada na área como a Dra. Ivane influenciou o seu retorno? Conte-nos como aconteceu essa parceria. Mineiros é minha cidade natal e sempre esteve dentro das minhas opções. Mas tinha dúvidas se eu continuaria em Belo Horizonte ou iria para Goiânia. Essas dúvidas acabaram quando surgiu o convite da Dra. Ivane para trabalharmos em parceria aqui na Magnificat. É uma grande profissional, experiente, competente e também muito ética. Sendo assim, me senti honrado de fazer parte dessa equipe. Sei que este convite foi devido ela me conhecer bem e saber da minha formação.

Então acho que quem ganha também são os nossos pacientes. Eu a auxiliarei em suas cirurgias maiores, assim como ela também irá auxiliar nas minhas. Como isso diminuiremos o tempo das cirurgias, poderemos trocar experiências e discutir o casos, beneficiando ainda mais o paciente. REVISTA FOCCUS: Fale um pouco sobre os procedimentos estéticos realizados em sua área de atuação. Bem, na parte estética a nossa área de atuação é bastante ampla. Como disse, operamos praticamente toda a superfície corporal. Mas podemos citar primeiramente procedimentos não cirúrgicos como a toxina botulínica (popular botox) para a prevenção de rugas, o laser para manchas e depilação, e o preenchimento de rugas faciais com ácido hialurônico. Já os procedimentos cirúrgicos estéticos mais comuns na plástica são a lipoaspiração, o implante de silicone mamário, a abdominoplastia, a mamoplastia redutora, a mastopexia, a rinoplastia, a correção da orelha em abano, o lifting facial/ritidoplastia (cirurgia

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PERFIL PROFISSIONAL

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“A mídia influencia um pouco sim, mas essa questão de querer alcançar um alto padrão de beleza, assim como são as modelos, é exceção.”

das rugas da face), a blefaroplastia (cirurgia das pálpebras) e a suspensão das sobrancelhas, esta inclusive podendo ser realizada por videocirurgia. REVISTA FOCCUS: O Brasil é um dos países com maior índice de pessoas que realizam cirurgias plásticas no mundo. Sabendo que existem padrões estéticos impostos pela grande mídia e da tendência que boa parte da população apresenta para se adaptar a eles, qual a sua postura quando o objetivo de uma pessoa que o procura encontrase somente em se encaixar nos padrões citados? A mídia influencia um pouco sim, mas essa questão de querer alcançar um alto padrão de beleza, assim como são as modelos, é exceção. Cerca de 10 % das pacientes no consultório de cirurgia plástica tem uma visão dismórfica do seu corpo. Essas, nós somos treinados a identificar e não operar, pois nunca estarão satisfeitas com o seu contorno corporal. Mas no geral, lidamos com pacientes que têm uma ou outra queixa apenas relacionada ao seu corpo, em que uma cirurgia ou procedimento pode corrigir esta queixa e trazer a

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auto-estima de volta a mesma. Saúde, por definição segundo a OMS, é um “completo bem-estar físico, mental e social”. É aí que um procedimento estético se encaixa na medicina. REVISTA FOCCUS: Em quais casos você indica a cirurgia plástica para um paciente e por quais motivos? Nos casos em que a queixa é plausível, ou seja, quando cause realmente uma baixa na auto-estima, um desconforto, problemas conjugais ou mesmo bullying, comum em crianças com orelha em abano por exemplo. A paciente tem que estar saudável e com o peso adequado. Se tiver uma doença leve como a hipertensão ou diabetes, é preciso que a mesma esteja controlada. REVISTA FOCCUS: Até que ponto você considera a cirurgia plástica um procedimento saudável? Existem casos em que ela pode tornar-se prejudicial? Eu diria que seria saudável quando ela gera bem-estar mental e social. Mas mais importante que isso, é quando ela pode ser


DR. DANILLO IRINEU BRITO

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considerada um procedimento seguro. E na minha visão é quando é realizada por um profissional com o adequado treinamento, ou seja, um cirurgião com residência médica em cirurgia plástica e com respaldo da sociedade brasileira de cirurgia plástica (SBCP). Então ela pode se tornar prejudicial quando realizada por profissionais sem as formações adequadas. Para se ter uma ideia, o CRM de São Paulo mostrou que 95% dos processos relacionados a procedimentos estéticos foram realizados por médicos não cirurgiões plásticos: cirurgiões gerais, ginecologistas, ortopedistas, mastologistas, dentre outros. Apenas 5% eram realmente cirurgiões plásticos e vinculados à SBCP.

técnicas reconhecidas mundialmente. Entre elas a redução mamária com cicatriz reduzida em forma de L e também da blefaroplastia ampliada, nesta, através da cirurgia das pálpebras, consegue-se também suspender a região malar da face, suavizando rugas nesta área. Dr. Chiari sempre discursa em congressos nacionais e internacionais divulgando essas técnicas, as quais tive o privilégio de aprender com o mesmo.

REVISTA FOCCUS: Quais os tipos de cirurgia reparadora são mais procurados por seus pacientes? Analisando o contexto, o que leva mais as pessoas até você?

Temos vários desafios. Na parte cirúrgica desenvolver cada vez mais técnicas novas e com melhores resultados, principalmente na cirurgia reconstrutora. Mas talvez o maior desafio relacionado a especialidade e a sua credibilidade, seja a conscientização da população e dos pacientes, de que ao procurar um profissional não qualificado, os riscos de complicações e insatisfação aumentam. A pesquisa do CRM comprova claramente isto. A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica lançou recentemente a seguinte campanha: “Cirurgia Plástica é com Cirurgião Plástico!” Ou seja, a SBCP visa dar mais segurança aos pacientes e evitar que o nome da cirurgia plástica fique em descrédito por conta de outros profissionais não qualificados.

As mais comuns são os nevos, tumores de pele, sequelas de mastectomia por câncer de mama, queimaduras, fraturas do nariz e correção de cicatrizes. Dentro do hospital, em pacientes internados, também é comum tratarmos das úlceras de decúbito (escaras), além das sequelas de traumas complexos em pernas, braços, face e mãos por exemplo. REVISTA FOCCUS: Dentro da sua área existe algum cirurgião que você considera como referência de profissionalismo? Se, sim, o que o diferencia dos demais?

REVISTA FOCCUS: Quais os desafios que os profissionais da sua área enfrentam nos dias atuais? Ainda existem barreiras que precisam ser rompidas no seu campo de atuação?

Sim, além da Dra. Ivane aqui em Mineiros, tenho muita admiração pelos meus professores da UFMG, em especial ao chefe do serviço de cirurgia plástica do Hospital das Clínicas de Belo Horizonte, Dr. Armando Chiari Jr. Ele é autor de

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ED. 82 - MARÇO 2014

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PARA TODA OBRA PARA VER

PARA COMPARTILHAR

A dica do Para Ver desta edição fica por conta do nosso cinéfilo de carteirinha. Vá até a página 32 e confira a coluna Popcorn Time, do nosso novo colunista, Pedro Faust.

WINE NOTES

PARA ler O AMOR NOS TEMPOS DE CÓLERA

De acordo com Gabriel García Marquez, Amor nos Tempos de Cólera é o seu melhor romance, superando até o mesmo o seu célebre “Cem Anos de Solidão”, que é, sem dúvida, um clássico da literatura mundial. Amor nos Tempos de Cólera conta a história do amor platônico do personagem Florentino Ariza (telegrafista, violinista e poeta) por Femina Daza, uma donzela de família respeitável, que o rejeita ao conhecê-lo e casa-se com outro. Porém, o amor de Florentino resiste e segue com ele por toda a vida.

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Este aplicativo é uma ótima pedida para os amantes de vinho ao redor do mundo. Através dele você pode arquivar os vinhos degustados, assim como inserir informações sobre o produtor, a região, o país, a uva e o álcool após fotografar o rótulo. Além disso, ainda pode escolher entre os diferentes aromas, o nível de taninos, acidez e o corpo, como também pode dar uma nota entre 0 e 10. O aplicativo é grátis, mas só é encontrado na versão em inglês.


PARA TODA OBRA

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PARA DAR UM UP VIDA FODONA

ABRA O BICO

Na ativa desde 2006, o blog Vida Fodona, de Alexandre Matias, que a princípio começou como um podcast de entrevistas (para o Blog Trabalho Sujo) transformouse na série de mixtapes mais famosas da internet brasileira.

Para quem acha que a poesia em Goiás só pode ser encontrada nos versos da saudosa Cora Coralina ou nas rimas dos hits sertanejos está muito enganado.

Através do canal Vida Fodona você pode ouvir o programa de sua escolha, como também pode baixar o MP3 direto de cada post e salvá-lo onde quiser em seu computador. Além disso, você pode receber a programação Via RSS com o código colado ao próprio player utilizado para ouvir MP3, pois desta forma sempre que o conteúdo for atualizado, ele começa a ser baixado automaticamente pelo seu computador.

Publicitário por opção e poeta nas horas vagas, o goiano Lucas Brandão alimenta o seu blog com muita poesia, através de como ele mesmo diz - histórias em prosa, verso e imagem. Acesse o endereço abraobico.com.br e aprecie.

Acesse o endereço fubap.org/vidafodona/ e escolha entre mais de 400 programas disponíveis até agora.

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PARA TODA OBRA

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PARA APRECIAR

PARA OUVIR

GÊNESIS

QUEM É QUEM

O livro do fotógrafo brasileiro internacionalmente reconhecido e respeitado, Sebastião Salgado, disponibiliza fotos do projeto Gênesis distribuídas em 5 capítulos organizados geograficamente: Planeta do Sul, Santuários, África, Espaços do Norte, Amazônia e Pantanal.

A dica de música desta edição partiu do nosso colunista Michel Edere, vocalista da banda Chimpanzés de Gaveta.

O fotógrafo retrata ricamente as espécies animais dos locais citados, assim como pessoas da Idade da Pedra Korowai de Papa Ocidental, passando pelos Icebergs da Antárdida, os vulcões da África Central, dentre outros arquivos surpreendentes. Sebastião Salgado afirma que o projeto Gênesis é sua “carta de amor ao planeta” e quem conferiu o trabalho acredita, pois parece ter o dedo de Deus em cada imagem produzida.

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Ele indicou o álbum “Quem é Quem”, de João Donato, que data de 1983 e traz títulos como “Chorou, Chorou”, “ Até Quem Sabe”, “Cadê Joel”, como também uma música do mestre Dorival Caymmi, “ Cala Boca, Menino”, inédita até então. O disco, que tem qualidade indiscutível, foi considerado um dos 100 melhores de todos os tempos pela Revista Rolling Stone e teve um programa inteiramente dedicado a ele pelo Canal Brasil.


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IMAGEM


ENTRE OLHARES

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SENHORAS E SENHORES AQUI DESCRENTES TEXTO POR MICHEL EDERE

Senhoras e senhores, Não sei se é do conhecimento de todos Mas aquele homem De rosto sisudo e barba crespa Também necessita de cuidado. Eu sei Vocês são incrédulos Jamais pensariam Que aquele lá De outro caminho Poderia se sentir sozinho. Dizem que têm 3 amigos Destes, dois moram longe. Dizem que tem tempo Não vê sua mãe. E aos sábados Encontra com teu velho ao telefone. Eles já se bateram É o que dizem. Mas da verdade alheia A essência é confiscada, Ficam só as beiradas. Senhores, é preciso dizer Além de toda essa dureza Existe poesia em suas mãos. Ele já foi lúdico Já acreditou em metáforas.

Ele poderia lhes abraçar Mas como existe um padrão Ele continua apontando as retinas, Continua em silêncio nas filas E se tem alguém Não entra no elevador. Senhoras, é preciso rever Aquele homem de quem pensam mal Esconde carinho. Sua camisa para dançar está guardada, Já saiu com ela uma vez Por baixo do velho uniforme. Arriscou um sorriso Depois de um gole Uma vez Quando desprevenido Viu flores E achou que uma de vocês mereciam. Senhoras e senhores, Meus amigos aqui descrentes, Mesmo que digam baixo Ele tem seu jeito Ele consegue ler nos lábios E enquanto vocês dormem Ele escreve hoje Para lhes dizer todos os dias: - Eu estou aqui.

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ERGA OMNES

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O DIREITO E A JUSTIÇA “Todo aquele que busca um direito, busca também a justiça?”

TEXTO POR GUILHERME BORGES

Aproveitando os holofotes voltados ao Judiciário, falemos um pouco a respeito de Direito e Justiça.

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Com efeito, nunca antes na história desse país, o Poder Judiciário atraiu tanto a atenção da sociedade. Somente no ano de 2012, foram identificados mais de 20.000.000 (vinte milhões) novos casos na Justiça Estadual brasileira. Somente no Tribunal de Justiça de Goiás, chegou-se a uma taxa de congestionamento de 68%, com uma carga de trabalho de quase 3.000 (três mil) processos para cada magistrado.

Atualmente, é muito comum ouvir a expressão “vou buscar os meus direitos”. Mas esses direitos quase sempre se traduzem em questiúnculas, situações rotineiras em uma sociedade globalizada em constante desenvolvimento. Situação recorrente é a banalização do sentimento de injustiça, ocasionando a criação da “indústria do dano moral”: esperei por mais de 20 minutos na fila do banco? Dano moral; meu celular não dá sinal? Dano moral; a entrega de uma encomenda atrasou um dia? Dano moral; o ônibus não parou quando acenei? Dano moral...

E é justamente essa procura exacerbada pelo Judiciário que inspirou esta breve reflexão: todo aquele que busca um direito, busca também a justiça?

É por essa razão que o povo brasileiro vive uma crise de litigância. O judiciário virou lugar comum onde todos buscam por tudo e por nada.

Eduardo J. Couture, ao dispor sobre os “mandamentos do advogado”, ensinou que “Teu dever é lutar pelo Direito, mas, se um dia encontrares o Direito em conflito com a Justiça, luta pela Justiça”. Logo, Direito e Justiça não se confundem. De fato, toda justiça é consonante com o direito, mas nem todo o direito é justo.

É certo que a própria Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 traz como princípio fundamental expresso o acesso à justiça. Mas cabe ao cidadão ponderar se a provocação do Judiciário realmente irá garantir essa justiça. E, afinal, o que é justiça?


ERGA OMNES

Segundo leciona Miguel Reale, a justiça compreende a constante coordenação racional das relações intersubjetivas, para que cada homem possa realizar livremente seus valores potenciais visando a atingir a plenitude de seu ser pessoal, em sintonia com os da coletividade. Em uma acepção mais clara e objetiva, justiça é a satisfação das necessidades naturais do ser humano, levando-se em conta critérios de necessidade, merecimento e igualdade perante a sociedade. Já o direito, precipuamente, é a ferramenta que estabelece a solução dos conflitos da vida social. Diante desses conceitos, é de se questionar a enxurrada de ações propostas diariamente com o único objetivo de obter alguma vantagem financeira. De fato, muitos cidadãos buscam o judiciário atrás da possibilidade de lucro fácil, torcendo por sofrer algum aborrecimento contra uma grande empresa para fazer um extra. A função do judiciário não é simplesmente aplicar o direito ao caso concreto, mas também buscar a justiça. Desse modo, não é sensato, e muito menos justo, acionar

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o judiciário devido à ocorrência de um fato rotineiro ou considerado comum na sociedade atual. Ainda mais considerando o alto custo para se mover um processo na justiça brasileira. Segundo estudos estatísticos realizados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), em parceria com o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o custo médio de cada processo na Justiça Federal de 1º grau, considerando despesas com estrutura, material e mão de obra, é de aproximadamente R$ 2.000,00 (dois mil reais). Valor esse que, em parte, é custeado pelo próprio cidadão, por meio do pagamento de tributos. Portanto, às vezes, é muito melhor, mais rápido e mais barato, a aplicação do bom e velho “bom senso”. Mas que fique claro, bom senso não significa “deixa pra lá”, mas sim a habilidade de adequar regras e costumes a determinado caso, utilizandose da sabedoria e razoabilidade. Desse modo, caro leitor, antes de propor a sua ação, pense duas vezes, e analise seu problema à luz do bom senso. Só então, caso julgue necessário e razoável, procure o judiciário. Assim, poderá realmente dizer que buscou a efetivação não só de um direito, mas também da justiça.

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POPCORN TIME

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HQ'S CONTINUAM INVADINDO O CINEMA Uma história com passado, presente e bastante futuro.

TEXTO POR PEDRO FAUST

Desde que foi adquirida pela Walt Disney Company em 2009, a Marvel Entertainment começou a produzir um filme atrás do outro. O primeiro deles depois dessa transação foi X-Men Origens: Wolverine, que contava um pouco de como surgiu um dos mais icônicos personagens das histórias em quadrinhos. E a partir daí eles não pararam mais. Foram mais de 10 filmes até o ano passado e esse ano a expectativa cresce ainda mais com outros 4 projetos. O primeiro deles é Capitão América - O Soldado Invernal, que deve estrear em Abril e traz Chris Evans novamente no papel principal, só que dessa vez ele vai contar com a ajuda de Scarlett Johansson (Viúva Negra) e Anthony Mackie (O Falcão). O filme mostra como o herói patriota se junta a S.H.I.E.L.D para assumir a tarefa de proteger o mundo contra os mais perigosos vilões. Logo em seguida, no mês de Maio, chega a sequência de O Espetacular HomemAranha. No segundo filme da nova saga, Peter Parker vai ter que enfrentar 3 vilões (Duende Verde, Rino e Electro) e ainda tentar salvar a vida de Gwen Stacy. No

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mesmo mês deve estrear um dos mais esperados filmes do ano: X-Men - Dias de um Futuro Esquecido, que vai contar uma história de viagem no tempo dos mutantes mais queridos pelos fãs de quadrinhos. Aparecerão alguns novos personagens não muito conhecidos pelo grande público. Já em agosto, os Guardiões da Galáxia chegam para mostrar super heróis novos para a maioria do público em geral. É uma história criada em 1969 para os quadrinhos, só que não foi muito divulgada até agora. São cinco personagens (Star Lord, Drax, Gamora, Rocket Raccoon e Groot) que se encontram em uma prisão no espaço e tentam escapar em busca de um interesse em comum. E a Marvel não vai parar por aí não. Estão previstos outros 3 filmes para 2015, que são: Vingadores - A Era de Ultron, O Homem Formiga e Quarteto Fantástico, e mais uns 6 filmes até 2018. É uma fábrica de histórias que não para de crescer. E isso tem um porquê, os fãs de quadrinhos e cinema crescem em número a cada ano que passa e eventos como a Comic-Con ganham mais adeptos e pela primeira vez deve sair dos Estados Unidos e ter uma


POPCORN TIME

edição aqui no Brasil, em São Paulo, no final do ano. A DC Comics, rival da Marvel está começando a investir pesado também em suas franquias, e a primeira delas é a sequência de Homem de Aço, que vai chamar Superman versus Batman, com Henry Cavill e Ben Affleck nos respectivos papéis. Um filme da Mulher Maravilha e um da Liga da Justiça são apenas rumores, mas que podem tranquilamente se transformarem em novos filmes. Lembrando que alguns ótimos desenhistas destas duas empresas são aqui do Brasil, como Mike Deodato e Joe Madureira, o que facilita quando o assunto é cativar o público. E parece que os brasileiros estão realmente tomando gosto pelos super heróis e até por alguns vilões como Loki (irmão de Thor).

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Para mim, particularmente, que sempre fui fã de HQ’s e principalmente de X-Men, essas notícias são muito bem vindas. A minha maior expectativa é em relação ao Dias de um Futuro Esquecido, filme dos heróis citados agora mesmo. Espero que o filme seja do tipo que a gente sai do cinema querendo mais. E uma outra boa notícia para os geeks e nerds de plantão é que nesse ano ainda teremos remakes de Robocop, que já estreou nos cinemas e de Godzilla, que deve chegar por aqui em Junho. No próximo mês falarei um pouco mais sobre cada um deles e trarei novas notícias sobre o mundo das telonas e assuntos afins. Espero que tenham gostado e em abril tem mais.

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NOS BASTIDORES

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VOCÊ JÁ SABE “Enquanto eu, aqui trancando, rendido, vendido e quem sabe acomodado (na falsa segurança do meu lar) te escrevo, na rua tem gente ajoelhada.” TEXTO POR MICHEL EDERE

Enquanto você assiste TV, na rua tem gente ajoelhada. Enquanto você coloca água em cima da mesma TV para o pastor da Record abençoar, na rua tem gente ajoelhada. Enquanto você flagra aquele novo casal do BBB, mais uma vez também na TV, na rua tem gente ajoelhada. Enquanto eu, aqui trancando, rendido, vendido e quem sabe acomodado (na falsa segurança do meu lar) te escrevo, na rua tem gente ajoelhada. Além das janelas e portas, por incrível que pareça, tem gente. Gente além do espelho do banheiro. Mas isso você já sabe, você só não os reconhece. Assim como outros, que além de não os reconhecer, os pintam como se outra coisa eles fossem. Tem tempo, pessoas como eu, escrevem sobre essas coisas. Queremos mudar o que foi instituído pelos covardes como verdade absoluta, imutável, soberana, amém. Em casa recebemos encomendas de uma imprensa vendida. E outra menor, publica obscura uma verdade que muitas vezes são brecadas por cassetetes. “Senta no chão! Senta no chão caralho!”. Isso vindo de um policial, coagindo a pessoa, ou

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mesmo a informação, ou uma razão, parece um escarro. Um escarro de um velho que tem um sorriso de lado, meio enojado quando alguém lhe afronta. Mas a mão está sempre molhada. E não é de suor. Você já sabe disso tudo. O que já disse, o que direi a seguir. Você já sabe de tudo. Já sabia antes. Eu sei. E porque então continuamos carregando esta lata d’água na cabeça? Como podemos nos distanciar de toda essa desgraça que é nossa? Ela está entranhada no que comemos e vestimos. A informação só vai chegar até você se você realmente quiser. E caso chegue sem querer, que impacto terá? Você só recebe e não pergunta. Repete frases e adágios, seguindo lento um caminho retrógado e não se pergunta qual será o próximo osso quebrado. E por que quebram os ossos? Amigo, teu futebol está falido. Teu time é vendido, assim como é vendido teu ídolo camisa nove. Que quando marcava gols, tinha visão de jogo, e hoje neste outro, está no cabresto. Amigo, teu shopping é racista, assim como você. Mas disfarça, colocando todo mundo junto na fila do McDonald’s.


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Nossa sociedade está vendida. O que queremos está atrelado a uma rede tão grande de mazelas que se tomarmos conta disso, a novela que um dia já foi das oito, realmente tomará a forma que ela tem. Alguns mais sensíveis podem cometer loucuras ao saber que a política é sádica, a sociedade estupra, a religião camufla e a polícia é um escarro que impede a passagem. Os mais sensíveis, podem cometer a loucura de ir pra rua, de questionar, de quebrar o teu banco. Como quando você quebra um quadro ou um prato de raiva.

“Doce rotina do lar”. E você pode dizer: “mas o prato ou o quadro são meus”. E os bancos? Já quebrados financeiramente e que vivem de dinheiro público são de quem? As ruas onde se quebram pessoas com a desculpa da ordem, são de quem? Amigo, o velho está fodido. A criança está fodida. O preto está fodido. O índio nem se fala. Você que se engana com as coisas da vida, que de vida não tem nada, está fodido. E não disfarça não. Os motivos você está cansado de saber. “Senta no chão! Senta no chão caralho!”.

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LADO B

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MUITO PESCOÇO PRA POUCO POSTE “Antes de olhar para o problema, precisamos olhar para a causa do problema.”

TEXTO POR MARÍLIA BILU

Sete de janeiro de 2014, complexo penitenciário de Pedrinhas, São Luís do Maranhão. “Tem que ajeitar o foco”, são as palavras do cinegrafista amador, detento nesse estabelecimento, ao filmar 3 líderes rivais decapitados e mutilados, envoltos em uma poça de sangue que invade o presídio.

Paira sobre o brasileiro uma eterna guerra entre o intitulado “cidadão de bem”, trabalhador e honesto, contra o bandido, câncer da sociedade, responsável por todas as mazelas sociais, que entre idas e vindas, sempre é alvo do antigo e famoso clichê, que não perde a contemporaneidade “bandido bom é bandido morto”.

“O problema é que o Maranhão está cada vez mais rico”, justifica Roseana Sarney, Governadora do Estado, ao falar sobre a barbárie ocorrida dentro do presídio, momentos antes de licitar a compra de lagosta, camarão, salmão e sorvete.

Acontece que o problema de violência extrema no nosso país vai muito além do que a maioria consegue enxergar. Os índices de criminalidade crescem cada vez mais, as prisões já superlotadas, sem melhora estrutural alguma, recebem diariamente cada vez mais carcereiros, que se vêem em um lugar onde os direitos humanos nunca foram convidados a entrar, e dali passam longe, muito longe.

Primeiro de Fevereiro de 2014, Avenida Rui Barbosa, Flamengo, Rio de Janeiro. Adolescente acusado de furto é espancado e preso a um poste pelo pescoço por uma trava de bicicleta, nu, deixado ali por horas. Quatro de fevereiro de 2014. Uma jornalista do SBT, entre tantos devaneios, diz em relação ao ocorrido no Rio de Janeiro: “Aos defensores dos direitos humanos que se apiedaram do “marginalzinho” amarrado ao poste, façam um favor ao Brasil, adotem um bandido.”

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A criminalidade ainda é vista como consequência de uma política omissa que carece de leis que repreendam mais pessoas e mais ações. Acontece que o Estado é omisso e, com tantas leis proibitivas, tantos crimes previstos no ordenamento jurídico, não consegue colocar em prática o que já existe e não consegue coibir as atitudes que atentam contra a ordem social e acaba se


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escondendo na ideia de que o problema é que as leis não são duras o suficiente.

de “cidadãos do bem” e passar por cima deles é passar por cima da nossa história.

Na ausência de um Estado efetivo, na busca pela garantia de seus direitos, algumas pessoas acabaram por fazer justiça pelas próprias mãos. Mas o que elas não conseguem ver, é que amarrar um adolescente ao poste para dar uma lição e ensinar que furtar e roubar é errado, não ensina, não educa e, principalmente, não resolve o problema.

Antes de olhar para o problema, precisamos olhar para a causa do problema. Uma pessoa à margem da sociedade está ali porque antes de o Estado ser omisso na repressão, foi omisso na garantia das necessidades básicas do cidadão. Crescemos com oportunidades diferentes e muitos sem oportunidade alguma. “Mas existe tanto pobre honesto”. Sim, existem milhares, inclusive a maioria deles, agora, não reconhecer que as suas escolhas são limitadas é não querer ver a realidade.

Há uma inversão de valores muito perigosa: o menino foi repreendido por furtar e, por isso, foi cruelmente torturado e humilhado. O patrimônio passou a ser mais importante do que a integridade física e a dignidade. E os que dizem: “direitos humanos para humanos direitos”, não sabem o perigo que aí se encontra. Os valores mudam, as ideias mudam, a sociedade muda, mas o que não muda é que as pessoas têm direitos, e que não podem abrir mão deles em momento algum. Existem direitos que foram conquistados com muita luta, muito suor e muito sangue

A classe média que se vê revoltada com o que anda acontecendo, se vê indefesa com a ausência de um Estado que não garante seus direitos e a partir daí começa a ir atrás deles sozinha. Mas isso acaba indo ao encontro com suas ideias e legitimando a atitude de “bandidos” que roubam, pois se pensarmos que furtar e roubar é uma maneira de diminuir a desigualdade causada pelas injustiças sociais e pela omissão das autoridades, os bandidos estão fazendo também justiça pelas próprias mãos. Cada um defendendo a sua classe e suprindo o que lhe foi negado.

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“E se fosse com você? E se estuprassem sua filha? O que você faria?”

“E se fosse com você? E se estuprassem a sua filha? O que você faria?” É preciso antes de mais nada um bom senso. Claro que em situações como essa o ser humano, como humano que é, perde a cabeça e acaba agindo no impulso, mas isso não justifica a propagação da violência pela violência. É preciso deixar de lado a ideia de que justiça é o mesmo que vingança. Existe um problema sério que precisa ser pensando em como será solucionado e incitar a violência e a prática de crimes não resolve esse problema. A lei existe e o Estado precisa cumprir seu papel, mas na sua ausência, não é a sociedade que deve sair por aí suprindo essa ausência. É preciso cautela, pois ideias como “pagamos muitos impostos”, “a Justiça é morosa”, “vivemos no País da impunidade”, “a lei só protege bandidos” acabam levando a ideia de que uma orelha decepada se torna menos grave que um suposto crime contra o patrimônio. E nesse andar da carruagem a democracia vai por água abaixo.

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E é preciso muito cuidado pois toda ação gera uma reação e se partirmos do “olho por olho e dente por dente”, quem decidirá sobre o que deve ser reprimido? Uns farão justiça contra quem rouba, outros com quem sonegar imposto, outros com quem vende produto pirata, outros com quem desmata a natureza, outros com quem baixa filme e música na internet sem licença, e por aí vai. A bola de neve estará formada, e desse jeito faltará poste e tranca para prender tanta gente. “Primeiro levaram os negros Mas não me importei com isso Eu não era negro Em seguida levaram alguns operários Mas não me importei com isso Eu também não era operário Depois prenderam os miseráveis Mas não me importei com isso Porque eu não sou miserável Depois agarraram uns desempregados Mas como tenho meu emprego Também não me importei Agora estão me levando Mas já é tarde. Como eu não me importei com ninguém Ninguém se importa comigo.” Bertolt Brecht


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