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João Luís Teixeira Fernandes

MURÇA

Câmara Municipal de Murça 2013

História Gentes Tradições


João Luís Teixeira Fernandes

MURÇA História Gentes Tradições

Ensaio Monográfico 5ª edição

Câmara Municipal de Murça 2013


Autor | João Luís Teixeira Fernandes Título | Murça: História, Gentes, Tradições. Edição | Câmara Municipal de Murça, 2013 Tiragem | 1000 exemplaress ISBN | 978-972-97337-4-1 Depósito Legal | 366427/13 Design Gráfico | HLDesign - Vila Real Fotografia António Pinto Fotografia - Porto | Páginas 1, 3, 54, 57, 60, 65, 68, 70/71, 75, 76, 77, 78, 81, 83, 86, 87, 90, 92, 95, 113, 126, 136/137, 139. Pedro Colaço - Vila Real Manuel João Monteiro - Murça Impressão | Penagráfica - Artes Gráficas

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O autor não escreve segundo o Acordo Ortográfico.


Apresentação O ensaio monográfico “MURÇA – História. Gentes. Tradições”, é reeditado na sua 5.ª edição, em formato ligeiramente diferente do original, ao nível do conteúdo, com o objectivo de continuar a dar a conhecer aspectos das vivências sócio-históricas do concelho de Murça. No futuro surgirá, com toda a certeza, uma outra edição melhorada e aumentada, de forma a apresentar aspectos importantes da história e vida sócio-económica do actual Município de Murça. Murça, Outubro de 2013

O Autor João Teixeira Ex-Presidente da Câmara Municipal de Murça (2002-2013)

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Introdução De há muito que era meu desejo efectuar uma recolha de elementos bibliográficos, com vista à elaboração de um trabalho escrito que mostrasse aos naturais de Murça, e a todos aqueles que anseiam conhecer algo sobre estas terras, um pouco da história, das gentes e das tradições deste Concelho, bem como desse a conhecer algo ligado à riqueza etnográfica e ao património cultural. Considero que este ensaio monográfico surge como um fruto nascido nas horas de lazer e de enriquecimento cultural, apresentando-se como a materialização de um sonho acalentado há vários anos. Não foi fácil a sua elaboração, já que por vezes se tornou penoso vencer determinados obstáculos surgidos nos caminhos da investigação. Julgo que este livro tem, entre outros méritos, a utilidade de apresentar um conjunto de elementos definidos da História deste Concelho. Com ele é dado o primeiro passo para a expressão final do projecto que em altura oportuna, será plenamente concretizado, pois outros passos serão dados no sentido de que o mesmo se torne mais esclarecedor. O espírito franco e aberto manifestado através dos responsáveis pela Câmara Municipal de Murça, aos quais presto aqui o maior sentimento de gratidão pela contribuição prestada, é um factor importante para que a obra, agora iniciada, tenha continuidade a breve prazo. Em conjunto, posso equacionar terem sido estes os princípios que contribuíram para que este livro tivesse a aceitação anteriormente esperada. Congratulo-me com o facto, pelo que esta quinta edição surge como forma mais evidente de poder levar os documentos apresentados até junto daqueles que, até agora não os puderam obter. João Luís Teixeira Fernandes

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BRASÃO DA VILA DE MURÇA • ARMAS:

Armas de Prata com uma oliveira verde, frutada, troncada e arrancada de negro acompanhada por dois cachos de uvas de ouro, folhados e vestidos de verde. Em chefe de negro o vulto do monumento denominado por “Porca de Murça”, de prata. Coroa mural de prata de quatro torres. Listel branco com os dizeres “Vila de Murça”, a negro. • BANDEIRA:

Bandeira esquartelada de amarelo e negro. Cordões e Borlas de ouro negro. Lança e haste douradas. • SELO:

Selo circular, tendo ao centro as peças das armas sem indicação dos esmaltes. Em volta, dentro de círculos concêntricos, os dizeres “ Câmara Municipal de Murça”. (x) • BRASÃO DE MURÇA: Foi aprovado pela portaria nº 8382 do Ministério do Interior, de 12/03/1936. (xx)

(x) (xx)

– Grande Enciclopédia Portuguesa-Brasileira, Vol.18, p.187. – AZEVEDO, Correia de, Revista de Trás-os-Montes e Alto Douro:Etimologia e Heráldica Mu-

nicipal dos Concelhos dos Distritos de Vila Real, Bragança e Aveiro, s.1, s.n., 1960.

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A Palavra

MURÇA

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A

origem etimológica da palavra “Murça” está ainda envolta por um certo desconhecimento. Sem pretendermos tecer opiniões muito vinculativas, achamos conveniente deixar aqui expressas outras de maior valor, que nos foram dadas a conhecer por alguns etimologistas. Correia de Azevedo refere que o nome de Murça dado à própria vila, vem de algum mouro chamado Muça que a tivesse povoado, ou que o seu nome lhe fosse dado pelos “Muçauns”, árabes – africanos, que algumas vezes invadiram a Lusitânia, antes da ocupação geral da (x) Península Hispânica pelos mouros entre 713 e 716 . Por outro lado, David Lopes diz que “Murça” é nome próprio entre os hebreus, referindo as formas antigas de Moisés, Musa, Muza (xx) e Muça. Pedro Machado apresenta a palavra “Murça” , como sendo um vocábulo de origem nebulosa, se bem que pertence à abundante família de palavras românicas, entre as quais o castelhano “muceta” que J. Coronias, (Dicionário Critico Etimológico de la Lengua Castellana, S.V.), (xxx) liga ao “b.lat. almucia ou almucium, de origem incierto”. Segundo alguns etimologistas o nome deriva de Ursa, nome antigo que está ligado à lenda da Porca. Pela análise dos forais e outros documentos régios, verifica-se que a palavra aparecia nas várias formas : “Muça”, “Muçam” e “Mussa”. Murcense – (de Murça, top.). Relativo a Murça. Natural ou habi(xxxx) tante de Murça.

(x) – Azevedo, Correia de, op. cit. (xx) – Lopes, David, Nomes árabes de terras portuguesas, José Pedro Machado (org). Lisboa: Sociedade de Língua Portuguesa, 1968. (xxx) – MACHADO, José Pedro, Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, 1ª ed., vol. II, pp.1557-1558. (xxxx) – SILVA, António de Morais , Grande Dicionário da Língua Portuguesa, 10ª ed., ver., cor. e ac., vol. VII. Lisboa: Confluência, 1954, p. 110.

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Geografia

1 – GEOGRAFIA

Relevo. Solo. Clima. Flora.

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RELEVO, SOLO, CLIMA, FLORA

O

Concelho de Murça ocupa uma área aproximada de 171 quilómetros quadrados. Situando-se em pleno centro geográfico da Região de Trás-osMontes e Alto Douro, é limitado a norte pelos concelhos de Vila Pouca de Aguiar e Valpaços, estendendo-se para o sul até ao limite do concelho de Carrazeda de Ansiães, e confina a oeste e a este respectivamente, com os Concelhos de Alijó e Mirandela. Murça, vila alcandorada, morena e vetusta, é sede do respectivo concelho. As distâncias quilométricas entre este aglomerado e aqueles que são considerados os maiores centros urbanos da região, variam muito pouco entre si, já que as mesmas apresentam valores bastantes idênticos. Nesta perspectiva, a sede do concelho dista 35 km de Vila Real, 50 km de Chaves, 25 km de Mirandela, 82 km de Bragança e 55 km de Torre de Moncorvo. A análise conjunta das características do relevo e do solo, das particularidades do clima e a existência de um tipo muito específico de vegetação, levaram a que os agrónomos e técnicos dos serviços de agricultura incluíssem grande do seu espaço territorial numa zona agrária, devidamente definida – Marão / Padrela – e associassem outra porção do seu território num contexto misto, caracterizado por um enquadramento intermédio entre a Zona Agrária da Terra Quente e a Zona Agrária do Baixo e Cima Corgo. No entanto, tendo em consideração não apenas este conjunto de dados, mas as diferentes condições de altitude, exposição ao sol, aos ventos , os contrastes violentos do clima, o próprio revestimento vegetal e as culturas, o concelho de Murça vê-se situado entre outra duas grandes zonas da Região Transmontana : a Terra Quente e a Terra Fria. 11


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A vila de Murça, implantada a meia encosta, a cerca de quinhentos metros de altitude, sente que a área geográfica do concelho, que lhe dá o nome, é dividida por uma linha em diagonal, que, partindo do sentido nordeste a sudoeste, passa pelo centro, que é ela própria, e constitui desta maneira duas zonas geográficas amplamente distintas. A norte, e estendendo-se por um planalto que ronda os 700/800 metros, dominado por alguns montados e entalado nos contrafortes da Serra da Padrela e pelos vales fundos e estreitos de algumas linhas de água, sofrendo simultaneamente a influência dos ventos gélidos da Serra do Alvão, apresenta-se-nos a parte do concelho situado na Terra Fria. Na parte sul, onde a altitude é menor, surgem pequenos montes ondulados, dando colorido à paisagem enriquecida por mais amplos e menos profundos vales, onde dificilmente chegam os ares frios das altas montanhas, surge-nos uma zona integrada na Terra Quente. Esta remota divisão é também aproveitada pelos especialistas da agricultura, pois são estas duas zonas que melhor traduzem o conjunto de todo o tipo de características capazes de definirem uma região em tudo o que se relaciona com a análise do meio natural. O enquadramento geográfico deste concelho permite que o mesmo se sinta influenciado em simultâneo pelos diversos aspectos que caracterizam aquelas duas zonas morfológicas. Num contexto geral e atendendo a que estas terras pertencem a Trás-os-Montes, podemos considerar que, também aqui, a “Paisagem de planalto é grave e sóbria, que as torrentes rasgaram durante milénios de invernadas em barrancos dramáticos no coração de penedia, que os rios são feridas abertas desse corpo sangrento”,(1) sendo também verdade que a paisagem desta terra comunga desse verde e áspero sentimento. Também aqui, e situando-nos no sentimento de Camilo, vemos que no “crespo relevo das suas criações, no sentido dramático da vida, na capacidade intrínseca para transformar o quotidiano em substância épica ou trágica, as gentes de Murça sentem o pulsar do coração através do sabor e odor do vinho velho, da flôr e do saibro, do mel e das estevas, das quais exala a sua própria prosa do quotidiano”. (2) Na zona da Terra Fria, o clima é rude e contrastado, já que o longo inverno é frio e o verão é quente.


Aqui a vegetação atlântica desaparece. Em sua substituição surge o carvalho, o castanheiro, o freixo, e o solo é coberto de carqueja, de tojos e de estevas odoríferas. A mistura desta mesma vegetação com as caducas folhas outonais contribui para que o monte ou matagal sirvam para lenha ou para estrume, enquanto que nos prados naturais, nos lameiros ou espaços verdes, transformados pela mão humana, se criam os bois e as ovelhas. (3) O centeio domina entre as gramináceas, através de um afolhamento bienal, enquanto que a batata, ouro negro da terra indispensável à sobrevivência humana, enraíza nos terrenos de húmus regado. A par destas situações e enregeladas pelas constantes e fortes geadas misturadas com a neve, que frequentemente dá cor à extensa montanha, também vivem aqui aqueles que, no dizer de Miguel Torga “São homens inteiros saibrosos, altos, espaduados, que olham de frente e têm no rosto as mesmas rugas da terra”. (4) Na zona da Terra Quente a rigorosidade do inverno é mais moderada, já que os vales menos profundos se sentem abrigados pelas altas vertentes, mas o estio brota dias tórridos de sol ardente que terminam em noites sufocantes. Aqui sentimos mais perto a vegetação mediterrânica, surgindonos o sobreiro, o olival, a plantação de figueiras, amendoeiras, laranjeiras e acima de tudo, a particularidade da existência da cultura da vinha. No entender de Amorim Girão e numa perspectiva global, a região quente existe no meio de regiões frias, onde o rigor do Verão excessivamente cálido, insuportável para os de fora, é bem conhecido de gentes das terras vizinhas, comforme nos diz a quadra popular:

Eu hei-de ir casar ao vale, Que mo deram por degredo: É uma terra muito quente, Canta lá o cuco cedo. (5) É nesta simbiose de conceitos caracterizadores, que apontamos o pensamento de Barros Ferreira: “ Vivem aqui os homens caprichosos e violentos, como o clima de extremos da região, que só conhecem as transições bruscas, como as nevadas letárgicas das longas invernias para as inclemências das estiagens dos verões caniculares”. (6)

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O concelho de Murça e as suas gentes enquadram-se perfeitamente neste contexto ideológico e nesta autêntica realidade morfológica, pois é através destas ideias conceptuais que somos levados a inserir as freguesias de Canedo, Noura, Palheiros, e Murça, na denominada zona da Terra Quente, e as restantes – Fiolhoso, Vilares, Valondo de Milhais e Jou – na Terra Fria. Perante os dados anteriormente equacionados e pela análise do relevo, é fácil constatar que o meio natural do concelho de Murça não é homogéneo no campo geológico e fisiográfico. Isso mesmo nos é dado observar através da pormenorização e análise de cartas geográficas, tectónicas e hidrogeológicas de Portugal. O seu território é dividido por linhas em diagonal no sentido Noroeste/Sudoeste, ocupando áreas não equivalentes, mas que nos aparecem ligadas às próprias características do relevo, estando de acordo com a divisão atrás explanada: zonas de montanha, zonas intermédias e zonas de menos elevação. A Carta Geológica mostra-nos a existência de rochas eruptivas, hercínicas, em maciços graníticos e granidioríticos, que aparecem em larga escala, através de complexos xistico-grauváquicos, rochas do precâmbico e do paleolítico, indiferenciados, da mesma maneira que se encontram outras ligadas ao paleozóico, ordovício e silúrico, nas respectivas versões de tremadociano, caradociano e valênciano salopiano. No âmbito do quartenário, surgem-nos formações antequartenárias, cobertas em alguns casos por depósitos de reduzida importância, concretamente de 500 a 100 metros no norte e de 0 a 500 metros no sector mais a sul. A Carta Tectónica referencia-nos uma cadeia hercínica onde aparecem rochas magmáticas: granitóides, sintectónicas e tarditectónicas. Por último, ao efectuarmos a análise da Carta Hidrogeológica de Portugal, constata-se que na área compreendida pelo concelho de Murça, existem terrenos de permeabilidade reduzida, facto motivado pelo aparecimento de rochas intrusivas hercínicas, predominantemente graníticas e quartzíticas de base do ordovício. Este ponto de vista está intimamente ligado àquilo que anteriormente referimos, acontecendo o mesmo em relação a outro aspecto, que se prende com a existência de terrenos de permeabilidade muito reduzida em zonas onde surgem os xistos e grauvaques, por ve-


zes quartzitos e raros vulcanitos do paleozólico e precâmbico, em parte fortemente metamorfizados. O mesmo documento faz referência a uma nascente mineral quente a 27º, com águas sulfuradas, paradas, sobre a qual iremos debruçar-nos mais adiante. (7) O território de Murça é também cortado por diversos cursos de água de maior ou menor caudal, como é o caso do Rio Tinhela, que nascendo no termo de Vila Pouca de Aguiar, passa junto a Murça e dirige-se para a sua foz, no Rio Tua, junto à aldeia de Porrais, enquanto que no seu trajecto estabelece a separação entre os concelhos de Murça e Alijó. O Rio Tua é outro importante curso de água que nasce na serra da Sanábria, em Espanha, passa na jovem cidade de Mirandela e muito perto da sua foz, no Rio Douro, banha o concelho de Murça no sector mais a sul, onde estabelece em simultâneo a separação dos concelhos de Murça e Carrazeda de Ansiães. As ribeiras de Mascanho, Valongo, Noura, Varges, Candedo e Sobreira, constituem o grupo dos cursos de água de menores dimensões. Os elementos anteriormente referidos ajudam-nos a compreender melhor os dados relativos aos produtos agrícolas, que têm maior evidência nas diversas zonas do concelho. Neste ponto não podemos deixar de considerar mais uma vez a grande divisão que se nos depara através da existência de uma zona montanhosa, mais fria e de outra mais quente, as quais se caracterizam, como atrás dissemos, pela presença de maiores ou menores elevações. Da área total, apenas 36 Km2 apresentam boa aptidão agrícola, enquanto os restantes, compreendendo zonas de montes e montanhas, são ocupadas por culturas florestais, especialmente o pinheiro, e com a actividade pastoril. A área essencialmente vocacionada para as produções agrícolas é ocupada pelas culturas arbóreas-arbustivas, como sejam a vinha, o olival, o amendoal, os soutos e os pomares; por culturas arvenses de sequeiro, tais como os cereais (trigo e centeio) alternando com leguminosas, e por culturas de regadio, quer as arvenses, quer as arbóreo-arbustíveis, praticando-se estas em áreas bastante reduzidas. A existência das duas zonas com características morfológicas e climáticas distintas condiciona de uma forma bem visível a prática das diversas culturas agrícolas. 15


Assim, na área abrangida pelas freguesias de Murça, Noura e Candedo, ou seja, no sector que se encaminha para sul em direcção ao Rio Tua, é a vinha e a oliveira que surgem de uma forma destacada no meio das outras produções agrícolas de menor preponderância, concretamente a figueira, cerejeira, amendoeira e todas as outras que nos aparecem como produtos agrícolas indispensáveis à sobrevivência do agricultor, condição exclusiva de auto-subsistência, cabendo aqui e em particular destaque os produtos agrícolas. A produção do chamado “vinho de benefício” faz com que esta seja uma zona rica e de importante peso económico na vida do concelho. As terras situadas a norte e nordeste englobam as restantes freguesias, estando estas genericamente inseridas na zona da Terra Fria. Aqui a dureza e aspereza do relevo contribuem para que a produção agrícola seja dominada pelo cultivo do centeio, da batata, do castanheiro e por pequenas plantações de vinha. A actividade pastoril tem aqui forte implantação através da criação de gado bovino e caprino, graças à existência de grandes áreas de montados. No geral, outras culturas, como os pomares, constituem também uma produção agrícola a merecer certa consideração. Os documentos técnicos que analisámos deram-nos a conhecer vestígios que confirmam terem existido em tempos remotos importantes explorações mineiras comprovativas da riqueza do subsolo. Actualmente, para além da extracção de areias em alguns cursos de água, concretamente no Rio Tua, ou de existência de pedreiras de granito em Cortinhas, Fiolhoso e Carva, as actividades ligadas à exploração são inexistentes. No entanto o subsolo é considerado rico em estanho, volfrâmio, quartzo e feldspato, vendo-se, ainda hoje, vestígios de antigas explorações em Porrais, Sobredo, Murça, Vale de Égua, Penabeice, Fiolhoso e Fonte Fria.

ORIGEM E EVOLUÇÃO HISTÓRICA 16


Origem e Evolução Histórica

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TERRAS DE PANÓIAS

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brangendo uma extensa área territorial, que se estendia do Marão ao Rio Tua e do Douro até Murça, a “Terra de Panóias“, designação dada a uma vasta circunscrição pertencente ao sistema administrativo do Norte, que estava dividido em julgados (Mesão Frio, Murça, Panóias, Penaguião e Poiares), herdou este nome de uma antiquíssima povoação fundada pelos Romanos. (8) O então território de Panóias, que actualmente corresponde em linhas gerais aos concelhos de Peso da Régua, Vila Real, Santa Marta de Penaguião, Sabrosa, Alijó, Murça, Vila Pouca de Aguiar e Mirandela (zona de Abreiro e Marmelos), foi berço de civilizações que nos deixaram restos de influências, passíveis de identificar valores etnográfico-culturais dos povos que habitaram nos períodos longínquos do paleolítico, mesolítico, neolítico e, mais tarde, nas épocas romana e árabe. A justificá-lo verifica-se por toda esta área geográfica a existência de inúmeros vestígios arqueológicos, anteriores ao raiar de uma verdadeira época histórica e a realidade das notáveis ruínas arqueológicas, ainda hoje bem visíveis no lugar de Panóias, freguesia de Vale de Nogueiras, concelho de Vila Real. Aqui teria nascido a urbe de Panóias, o maior e o mais importante aglomerado populacional, capital administrativa daquele que foi o grande território da “Terra de Panóias”. Os Romanos impuseram nestas terras os seus sistemas de organização político-administrativa, criando “cividades” por todo o território. Mais tarde, o domínio suevo-visigótico tentou a reconversão destes sistemas, permitindo que surgissem os conventus de Panóias, que mais tarde deram origem à formação de julgados medievais da “tenência” panoiana portuguesa. Neste contexto podemos referir que, em tempos longínquos, um pouco distantes daqueles que nortearam a formação do Reino


de Portugal, o ocidente da Península, mais concretamente o sector norte, viu desenvolver civilizações tribais, que foram deixando vestígios de influências que nos permitem admitir que essa vasta área foi detentora de um sistema administrativo que a dividiu em enormes territórios, destacando-se entre os mais conhecidos, para além da já citada “Terras de Panóias”, os de “Laedra” ou “Laetera”, “Brigancia”, “Vallariza” ou “ Valle Arícia”. (9) Topónimos ainda hoje existentes em grande número, testemunham as civilizações romana, visigótica, sueva, árabe, entre outras. Embora sem objectivarmos a pormenorização de todas estas influências, já que das mesmas iremos ocupar-nos mais adiante, torna-se necessário referenciar, na sequência daquilo que anteriormente foi citado, a existência, nestas terras situadas aquém do grande território Bracarense, dos “Parochial Suevi” como os que mais estavam interligados como os outros já mencionados e existentes neste sector territorial. Encartada entre o Marão e a Padrela , encaixada em declive para o Tua e o Douro, a “Terra de Panóias” foi detentora, desde sempre, de um clima misto, onde surgem as zonas frígidas, tórridas e temperadas. No entanto, o aspecto geral é pitoresco, já que os picos das altas montanhas e escarpados rochedos a par das vistosas colinas e dos planos e encantadores vales lhe dão uma maravilhosa perspectiva perante a faustosa natureza em que estas terras se sentem envolvidas. Hoje a “Terra de Panóias” ainda é assim. O relevo, a paisagem, o clima, a etnografia e a riqueza dos costumes e tradições mantêm-se, permitindo vislumbrar a época em que nasceu e se desenvolveu.

Murça de Panóias Murça de Panóias é um dos topónimos que mais perdurou através dos tempos, não submergindo perante as devassadoras e constantes incursões de povos que nas “Terras de Panóias” pretenderam impor ideias, fazendo perdurar as suas raízes etnográfico-culturais. Murça de Panóias é o nome de uma localidade que hoje é sede de concelho e que outrora era a força viva de um julgado pertencente a essa enorme circunscrição administrativa existente antes e após a formação da nacionalidade portuguesa. 19


É num contexto obscuro e incógnito que nos surge a origem desta terra, perdendo-se nos tempos longínquos as razões para que a mesma se imortalizasse como paraíso daquele território, que investigações históricas a reconhecem como sendo desde há muito um promissor e próspero lugarejo. Nascendo ao lado de um castro densamente povoado pelos Árias, que tiveram como berço histórico “Aquae Flaviae”, Murça de Panóias parece ter surgido da fortaleza inacessível a qualquer ataque inimigo, situando-se essa “povoação-fortaleza” no monte sobranceiro ao escarpado caminho que, surgindo do planalto e descendo ao Tinhela, subia em direcção à montanha do Cadaval. Arquitectos de uma espectacular civilização e culturas, os celtas, povos edificadores destas fortalezas e povoações que historicamente foram denominadas por “castros”, parecem ter sido eles os fundadores desta antiquíssima Murça de Panóias. Por toda a área geográfica, que actualmente compreende o próspero concelho de Murça, são inúmeros os vestígios arqueológicos que o identificam com a cultura das civilizações castrejas.

Influência Celta Se muitos desses documentos estão devidamente identificados e são facilmente visíveis, como acontece com o citado Castro do Cadaval, onde é possível admirar as ruínas das circundantes muralhas de parede dupla, de robustez capaz de suportar as bárbaras e aguerridas invasões inimigas dos constantes povos colonizadores, as habitações construídas em pedra solta, o lagar de azeite e as sepulturas cavadas na rocha, bem como os valiosos achados de que mais adiante iremos falar, os quais são testemunhos da ocupação destes lugares pelas mais diversas civilizações, outros há que justificam uma intervenção cuidadosa de forma a permitirem fornecer elementos que contribuam para analisar de uma maneira concreta as fortes influências que esses povos aqui exerceram. O majestoso monumento monolítico, verdadeiro ídolo de civilizações tribais, esculpido num vigoroso pedregulho granítico, representando um quadrúpede, a Porca de Murça é um achado comprometedor quanto à vivência nestas paragens, em tempos proto-históricos, de povos identificados com essa “cultura castreja”. 20


É nestes monumentos que nos fundamentamos, quando dizemos que esta terra tem a sua origem em tempos que se perdem nos milhares de anos que antecederam a época histórica. Leite de Vasconcelos, através da soberba obra de cariz etnográfico “Religiões da Lusitânia”, mostra-nos a evidência destas hipóteses da mesma que nos dá a conhecer elementos que nos referem a passagem por estas terras de diversas civilizações tribais e detentoras de um sentimento cultural e etnográfico ligado à referida cultura. O mesmo investigador no “Arqueólogo Português”, presta informações quanto à extensão deste tipo de cultura a outras localidades do concelho. Fala-nos do aparecimento de instrumentos pré-históricos, concretamente seis machados de xisto ardosiano, que foram encontrados em propriedades rústicas em Candedo. (10) Na povoação de Sobredo, onde existem vestígios de um “castro”, o mesmo autor refere que, quando os trabalhadores abriam uma vala, encontraram quatro instrumentos de pedra de características muito especiais em relação àqueles que foram encontrados em outros lugares, sendo os mesmos identificados como objectos de corte (machados) e feitos de xisto ardosiano. (11) Ainda neste campo, destaca-se, pela sua importância, a existência de diversos dólmenes ou antas em todo o concelho ou em zonas limítrofes que anteriormente foram pertença destas terras, particularmente na povoação de Jou, onde também foram encontrados diversos instrumentos de corte, especialmente na zona compreendida entre Murça – Jou – Carrazedo de Montenegro. A grande necrópole de Fiolhoso, os castros de Sobreira, Carva e Vilares, as “mamoas” ou “modorras” do Alto do Pópulo e a proximidade da monumental Anta de Vila Chã, outrora pertença deste concelho, são monumentos arqueológicos muito importante para justificarmos o nosso ponto de vista, quanto à riqueza de valores pré-históricos, existentes nestas paragens.

Influência Romana Mas se a celtização ocupou lugar de destaque e a sua cultura foi perdurando e resistindo através dos tempos em virtude da fácil fusão entre os seus progenitores e os indígenas, também é verdade 21


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que as influências exercidas por posteriores ocupantes merecem uma análise profunda e aturada, pois a eles se deve uma quota parte do desenvolvimento sócio-económico destas terras, especialmente nos primórdios da existência de Murça de Panóias, isto porque a ocupação durou alguns séculos. A Romanização, da mesma maneira que exerceu a sua influência por toda a Península, também aqui abriu novas perspectivas no campo administrativo, político-militar e etnográfico-cultural. A prolongada ocupação romana, desde o Séc. II a. C. até ao Séc. VI d.C., fez-se sentir por toda a Lusitânia, especialmente no Norte, onde são férteis os testemunhos justificadores da sua presença. Povos guerreiros – os romanos – detentores de um poderoso e bem equipado exército e empolgados pelo desejo expansionista, visando o aumento do seu império colonial, facilmente se entranharam e assimilaram aqueles que pacatamente aqui iam vivendo. Este povo, possuidor de uma língua de características universais o latim e portadores de uma perfeita organização administrativa, de onde ressalta a criação de grandes centros administrativos, os conventus ligados entre si por importantes vias de comunicação e a criação de estruturas administrativas locais, os municipium transformou de maneira fácil e radical o modus vivendi das gentes da Lusitânia. As populações destas terras não escaparam às garras deste movimento invasor. Ainda hoje são evidentes os documentos que nos falam da presença dos romanos. A ponte romana e a calçada que, vindo talvez de Montenegro, por aqui passava e à saída da referida ponte, na margem direita do Tinhela, se bifurcava continuando e rodeando quer pelo lado esquerdo em direcção a Vila Real, ou pelo lado direito subindo o curso do Tinhela, em direcção a Jales, são documentos que ainda hoje nos mostram como os romanos eram exímios planificadores de vias de comunicação. O lugarejo situado no cimo da montanha era o ponto estratégico no campo militar, já que por ali teriam de passar aqueles que se dirigissem em direcção ao Porto, passando por Panóias, ou em direcção a Braga, passando pela riquíssima exploração aurífera existente em Jales, sendo admissível que a extracção do ouro tivera o seu início na época da Romanização.


Influência Árabe Passaram séculos e, consequentemente, a evolução histórica transformou mentalidades que originaram novas civilizações. O Império Romano entrou em decadência. Outros povos tentaram a ocupação destas promissoras terras. Por aqui passaram em simultâneo os suevos e visigodos e mais tarde os árabes. Os últimos, originários das terras desertas do Norte de África e embrenhados por um espirito de luta de sentimento religioso, iniciaram a investida na Lusitânia, começando por ocupar a parte sul, estendendo-se de seguida até ao Norte. As “ Terras de Panóias” não escaparam à ocupação do poderoso e selvático exército Mulçumano. A ocupação árabe foi predominante na área de Murça de Panóias, e disso nos dão prova a existência da topónimos de origem árabe, concretamente a palavra “ Murça “ (Muça). (12) Para além destes indícios, existem documentos históricos que nos apontam ter sido esta terra resgatada do poder dos moiros no reinado de D. Afonso I, rei de Oviedo, na sequência das aguerridas e mortíferas lutas da época da Reconquista Cristã. Autores diversos referem a importância de Murça no campo administrativo e militar durante a ocupação muçulmana, considerando-se que esta terá sido uma das localidades onde as lutas anteriores à formação da nacionalidade ganharam foros de enorme violência entre cristãos e moiros.

CRI AÇÃ OD Criação do Concelho de Murça

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Criação do concelho de Murça

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INQUIRIÇÕES

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julgado ou concelho de Murça de Panoias foi um dos ins-

tituídos no reinado de D. Sancho II. Foi este monarca que deu a Murça a primeira “Carta de Foral“, emanada em 8 de Maio de 1224. No entanto e através da análise das Inquirições de D. Afonso II levadas a efeito nas Terras de Panóias no ano de 1220, somos persuadidos a admitir, conforme nos afirma Gama Barros, que em Murça, mesmo antes da concessão do primeiro foral, já vigorava um “regime municipal” sem que no entanto existisse encargo a satisfazer com moeda.(13) A existência de “pequenas municipalizações” e a hipótese que se levanta quanto à concessão de documentos régios, muito semelhantes às cartas de foro que mais tarde foram incrementadas de forma genérica e intensiva por todo o território nacional (as quais estipulavam normas que visavam a concessão de direitos, privilégios, regalias e obrigações pelo Rei, em relação às populações e vice-versa, procurando com isto incrementar o povoamento das diversas zonas recém-conquistadas), são factos evidentes, não apenas em Murça e seu termo, mas também em outras localidades que, não sendo outrora pertença deste concelho, dele fazem parte nos nossos dias. Estão nestas circunstâncias as povoações de Vilares e Sobreira, tendo esta sido provavelmente uma pequena municipalização, mesmo antes de 1220. Esta carta teria sido dada por D. Sancho I, já que foi este o monarca que incrementou o repovoamento do distrito panoniano.(14) O mesmo aconteceu no território da povoação de Vilares, onde, através da análise da toponímia, se depreende que existisse um sistema de repovoamento pré-nacional, atestado pelo estabelecimento da algumas famílias por “Vilares”, núcleos per se (não fracções de villa agrária), podendo corresponder a esses Villares os lugares da actual freguesia: Ardosa, Asnela e Fonte Fria.(15) As Inquirições de 1220, levadas a efeito na paróquia de S. Miguel de Tresminas, referem a povoação de Vilares como sendo uma das Villas daquela paróquia. Existiu aqui um conjunto de seis casais (unidades agrárias, que

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eram consideradas pelo fisco) de onde se verifica que, os “villares” deviam ter sido cinco, correspondentes aos lugares actuais: de Ardosa, Asnela e Fonte Frias, um no local da Igreja e outro no da ermida de Santa Maria, destes “villares”. Em ambos os casos não existiam encargos a satisfazer com moeda. No entanto, e pelo que nos é transmitido pelas inquirições, as gentes destes lugares tinham o dever de entregar um certo foro anual à Coroa ou seus legítimos representantes.(16) Mais adiante iremos mencionar elementos pormenorizados sobre as origens e evolução histórica destas povoações.

Forais

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Num período contíguo à reconquista cristã e nos limiares da formação da nacionalidade, as terras da Região Transmontana ficaram na sua grande maioria totalmente despovoadas. Foi então que de imediato os monarcas fundadores, ao constatarem a importância estratégica de certos aglomerados e a necessidade evidente de implementarem o cultivo das terras desertas, decidiram tomar medidas que contrariassem a crescente e degradante situação. É então que surgem os “Forais” ou “Cartas de Foral”, documentos geralmente emanados pelo poder real e através dos quais os monarcas definiam a criação de um concelho e simultaneamente surgiram como sendo “uma lei orgânica local, que fixava os limites do território, garantia o direito de propriedade e determinava os tributos e prestações que os vizinhos deviam pagar ao seu outorgante.” “Eram autênticas cartas de privilégio, não apenas porque impunham um lei escrita, mas também porque defendiam os foros municipais contra todas as opressões e abusos de classe senhorial e dos ofícios régios”.(17) Sendo assim podemos também considerar que as “cartas de foral” concedidos por alguns monarcas teriam sido uma confirmação mais oficializada do tipo de cartas anteriormente outorgadas. Isto porque, e pelo que atrás referimos, quer em relação a Murça, quer relativamente a outras localidades que hoje pertencem a este concelho, as Cartas de Foral, que lhe foram outorgadas oficialmente pelo poder real, deixavam transparecer em certo sentido de con-


firmação da autonomia e soberania que já se haviam vislumbrado em datas anteriores por um tipo de documento muito semelhante àquele que agora lhe era entregue. No âmbito do que anteriormente referenciámos insere-se a “Carta de Foral” ou “Foral” concedida a Murça e Noura por El-Rei D. Sancho II, da mesma maneira que idênticos documentos são outorgados a territórios vizinhos.

FORAL DE NOURA E MURÇA DADO POR EL – REI D. SANCHO II 8 DE MAIO DE 1224

Em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo. Amem. Eu, Sancho, pela graça de Deus rei de Portugal, faço-vos carta, povoadores e habitantes de Noura e Murça e dos seus termos, da herdade que ai possuo e cujas demarcações são as seguintes: como parte daquele sítio em que a ribeira de Curros entra no rio Tinhela, toca no ribeiro da Vinhó, segue em obliquo, toca na Pedra Longa e vai ao seixo da fisga; como parte com os espinheiros da plaina do cardo, pela Cabeça do Freixedo, pelo Cavalo, pelas Covelas e por cima da Seita; como parte por Alijó, entra na Foz do Tinhela, pela margem do rio Tua, em viés ; como parte com Abreiro, entra na nascente do Cobro, vai pelo Cadeirão, pelo monte dos Couços, pela praina de Zebras, pelo Sobreiro, águas vertentes, e daí vai ao Cabeço de Seixo, à foz da ribeira de Mascanho, no sopé de curros, pelo Curso de água, e termina onde primeiro começamos. Dou-vos esta herdade que fica dentro destes limites com suas povoações, com todos os seus pertences e com tudo aquilo que tenho préstimo para o homem, para que dela me pagueis ou a quem eu mandar, o foro que passo a especificar : cem maravedis, dos quais pagareis um terço na terceira semana de Maio, outro nos meados de Setembro e outro nos meados de Janeiro. Ficareis por este foro livres de todas as coimas, homicidas e rendas que costumáveis pagar. Por colheita, dar-me-eis ou a quem eu mandar, cem pães, meio trigo, meio centeio, dois porcos que valham um maravedi cada, doze galinhas, três puçais de vinho e seis quarteiros de cevada. Dez desses pães serão de teiga. O Pão e vinho serão medidos pela teiga e quarta de Murça, e a anona também. Pagar-me-eis esta colheita a 27


quem eu mandar uma vez por ano e não mais, e pagareis os referidos maravedis anualmente do modo como ficou escrito, e não mais. O prestameiro e mordomo não terão poder nas vossas povoações, nem nas vossas populações, nem nos vossos termos. Também o meu rico – homem o não terá. Liquidai completamente o dito foro e não mais. Se, porventura, não puderes pagar os maravedis em ouro, pagai-os em dinheiros, tais como correrem na vossa terra. Se quiserdes fazer alguma coisa nas vossas povoações ou nos vossos termos, fazei-a, e que ninguém tenha o poder de vo-lo impedir. Esta “Carta de Foral” é um documento extremamente importante para as gentes do lugar de Murça, pois o mesmo pode e deve ser considerado como sendo um marco histórico na vida do concelho. O dia 8 de Maio de 1224 e este documento marcam a criação do concelho de Murça podendo igualmente referir-se que com estes dados se vislumbra uma determinada autonomia e as consequentes obrigações das populações que o habitavam em relação ao poder soberano. É a partir de então que, à semelhança de outras localidades de “Além-Douro”, Murça passa a dispor da sua própria organização administrativa e autónoma. As populações tomaram assim conhecimento das suas liberdades, garantias, obrigações, privilégios, etc... Este primeiro foral dado a Murça e Noura mostra-nos claramente quais as delimitações geográficas definidoras do território deste concelho. Se até aqui praticamente nenhum documento nos refere o espaço territorial que constituía o termo de Murça e Noura, a partir desta data e pela leitura deste documento podemos constatar qual a área do então recém-criado concelho de Murça e Noura. Mas antes de efectuarmos uma análise pormenorizada desta Carta de Foral, a qual permitiu que Torcato de Sousa Soares incluísse o concelho de Murça no grande grupo dos “concelhos rurais”, consideramos ser oportuno transcrever em nota um extracto do texto da Carta de Foral concedida a Abreiro pelo mesmo monarca, pois assim podemos vislumbrar com maior clareza os limites deste novo concelho, e quais os tributos que as populações eram obrigadas a entregar a El-Rei.(18) 28


O conteúdo desta Carta de Foral surge-nos como um complemento esclarecedor em relação àquele que foi dado a Murça e Noura, já que as disposições estipuladas nesta carta estão inseridas na continuidade daquilo que é imposto pelo Foral de Abreiro. (19) O exímio investigador da História da Administração Pública em Portugal, Henrique de Gama Barros, referindo-se às inquirições levadas a efeito no distrito de Panóias, salienta a existência de cinco concelhos: Favaios, Guiães, Abreiro, Alijó e Murça. Pela leitura do texto das Inquirições de 1220 e seguindo a análise efectuada pelo mesmo autor somos levados a admitir que em Murça já vigorava o regíme municipal, sem que no entanto houvesse algum encargo a satisfazer com moeda. A partir de 1224 com outorgação da Carta de Foral, é então imposta uma “contribuição anual de cem morabitinos (20) em ouro, ou o valor correspondente em morabitinadas de dinheiro que tenham curso na terra”. Este documento substitui todo o tipo de imposições que existiam antes, excepto a collecta (21) que se tornou mais pesada que a imposta pelas Inquirições de 1220, facto que na opinião de Gama Barros é justificado pela área do termo de Murça e Noura ser muito maior. “No mais a carta é um todo semelhante à de Abreiro de 1225, até na referência do direito de padroado que também as inquirições de 1220 nos dizem não ser do rei”.(22) Os moradores de Murça e Noura e seu termo deviam pagar a El-Rei ou a quem ele ordenasse cem morabitinos em ouro, fazendo-se o pagamento em três prestações, das quais seria uma em Maio, outra em Setembro e a outra em Janeiro. Ficavam isentos de calunias (23) e omezios (24) e de todas as outras rendas, que até então ali se costumavam pagar. De collecta deviam dar ao Rei ou a quem ele mandasse, 100 pães de trigo e centeio, 2 porcos, 12 galinhas, 3 almudes de vinho, 6 alqueires de cevada e que a teiga fosse de 10 desses pães. Este foral proibia ao rico-homem e seu prestameiro ou mordomo a entrada no concelho para exercer a sua autoridade. Ainda neste capítulo refira-se que este foral assumiria uma particularidade especial perante a elevada prestação monetária que os moradores deviam pagar à coroa. Por último e analisando os elementos que a carta de foral nos apresenta no que respeita a limitações fronteiriças do novo concelho, podemos constatar facilmente que a sua área era muito reduzi-

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da em relação às dimensões geográficas actuais dos seus confins e em nada se assemelhavam àqueles que Murça e o seu concelho foi tendo no decorrer dos tempos. Mais adiante iremos procurar estabelecer, através de uma tentativa de reconstituição, dados comparativos que nos mostram quais as delimitações geográficas do concelho de Murça através dos tempos, o número de lugares e simultaneamente referir-nos-emos ao evoluir da população. No entanto, e para que possamos enquadrar mais facilmente na interpretação que estamos a efectuar através da análise das cartas de foral dadas a Murça e seu termo, refira-se desde já, que, à data da sua criação, o concelho de Murça confinava com os termos de Alijó, Abreiro, Lamas de Orelhão, Montenegro, Chaves, Tresminas e Perafita. Mais tarde e na continuidade da imposição das directrizes que levaram a proceder a medidas de povoamento com vista a uma melhoria da condições sócio-económicas da população e do país em geral, El-Rei D. Afonso III confirma a autonomia deste concelho através de uma carta de foral, dada em Santarém a 10 de Janeiro de 1268. Este foral evidencia-se como um documento demasiado importante para a vida sócio-económica. Se o anterior definia claramente os limites territoriais do novo concelho, este por sua vez afirma-se como sendo uma autêntica carta de recomendações onde são definidos aspectos ligados à organização político-administrativa, social e económica de Murça e seu termo.

FORAL DE NOURA E MURÇA DADO POR EL – REI D. AFONSO III 10 DE JANEIRO DE 1268

Forale primum duorum oppidorum Murça et Noura, a Sancio

II, vel ejus nomine, concessum, jam alibi (pag. 600) juris publici fecimus. Edimus hic alterum ab Alphonso III datum, quod ex Lib.I Donationum ejusdem regis deprompsimus. Non aliud nobis cognitum manet exemplar. In dei nomine. Nouerint vniuersi presentem cartam inspecturi. Quod ego Alfonsus dei gratia Rex Port.una cum vxore ea Regina 30


domna Beatrice illustris Regis Castelle et Legionis filia et filis et filiabus nostri Infantibus domno Dionisio, domno Blanca, domna Sancia, do et concedo uobis populatoribus de Muรงa et de Noura ipsas villas de Murรงa et de Noura cum suis terminis nous et antiquis ad forum : videlicet quod omnibus uocibus et calumpniis et pro collecta et pro maiordomatu ey pro anuduua, et pro omnibus meis directis tam de pane quam de vino quam de omnibus rebus meisde ipsa terra et pro toto foro regali quod inde debatis facere excepta inde oete quam mihi et omnibus meis debetis facere, et excepta iusticia quam ego aut meus meirynus debemus facere in ipsa terra si per uos deffecerit, detis mihi et omnibus meis successoribus in quolibet anno ad tercias anni centum et quinquaginta morabitinos quales currerin in Panoyas, de visuali moneta,videlicet unam terciam pro prima die Madii, et aliam terciam pro prima die Septembris, et aliam terciam pro prima die Januarii : et usque ad octo diespost unumquemque predictorum terminorum non sit eis eyxeco: et si forte post istos octo dies transactos mihi aut Riquo homini aut prestamario qui tenerit ipsam terram non persolueritis dictos morabitinos ad tercias anni sicut superius dictum est, debetis persoluere mihi aut ipsi Riquo homini aut prestamario ab ipsis octo diebus transactis in antea cotidie unum morabitinum de pena cum tercia predictorum morbitinorum quam tunc debueitis persoluere. Et si ego aut Riqus homo aut prestamarius qui ipsam terram tenuerit pro ipsa tercia predictorum morabitinorum nom miserit post istos octo dies tranactos, uos non debetis solucre solucre morabitinum de supradicta pena , sed tamen persoluatis alios supradictos morabitinos ad tercias anni prout superious est expressum : et similiter si in predictis terminis frontaueritis cum dictis morabitinis quod uultis eos pagare apud ecclesiam de feyra de Costantim presentibus Judice et Tabellione si ibi fueriti aut alter eorum et aliis bonis hominibus de feyra de Constantim, nom persoluatis dictam penam. Et Riqus homo meus et prestamarius non debent uobis intrare nec pausare in uestris villis de Muรงa et de Noura nec in suis terminis nec debet ibi conduytum nec aliquid aliud filiare nec etiam demandare. Et insuper uos non debetis respondere de apustilia : siquis uero contra istud meum factum ueniere temptauerit seu presumpserit, non sit ei licitum, sed pro sola temptatione incurrat iram dei et santissime matis sue, et maledictionem meam habeat in eternum. Quicunque uero hoc factum meum integrum et ilibatum antautum seuauerit, beneditionem dei omnipotentis et matris sue et

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mean habeat in eternum. In cuis rei testimonium do uobis suppradictis populatoribus istam meam patentem cartam mei sigilli munine consignatam. Datum apud Sanctarenam X. Die Januarii Rege mandante per domnum Johannem de auoyono maiordomum Curie, et per donnum Stephanum iohannis Cancellarium, et per Johannem suerii conelium, et per Rodericum garsie de Pauya, et per Nunum martin meyrini meyrinum maiorem, et per Fernandum fernandi cogomino, et per Petrum martini petarinum, et per Alfonsum suerii superiumdicem. Jacobous iohannis notuit. Era MCCCVI. (Port Mon. Histórica- Leges et Consuetudines p. 709-710)

A área do território é confirmada, o sistema administrativo e o relacionamento entre os da terra e os representantes da Coroa são completamente definidos, da mesma maneira que são estipulados de forma concreta e explícita quais os tributos que as populações deveriam pagar ao Rei ou ao seu representante, bem como estipulava as formas de cobrança dos mesmos. No âmbito global dos privilégios, direitos e garantias impunha alterações bastante evidentes em relação aos que estavam expressos no foral outorgado por El-Rei D. Sancho II. Continuando a seguir a análise efectuada por Gama Barros constatamos que esta Carta Foral converte em cento e cinquenta morabitinos o pagamento a efectuar a El-Rei, conforme o que acontecia em Panóias: “Quales currint in Panoyas” e refere os períodos para pagamento das respectivas prestações: “videlicet unam terciam pro prima die Madut et aliam pro prima die Januarii...“ Na conversão dos encargos é incluída a collecta, sendo apenas ressalvado o serviço militar e a justiça, se o concelho não a fizesse. Quanto à forma de arrecadação dos tributos, o foral estipulava que fossem aplicadas multas, subindo a quantia de um morabitino por cada dia que passasse, caso a colectividade não efectuasse os pagamentos nos prazos ordenados, sendo a cobrança, neste caso, executada por agentes do Poder. O mesmo documento estipulava que o Rico – Homem e o Prestameiro estavam proibidos de entrar no território Municipal.(25)

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FORAL DE MURร‡A DADO POR EL โ€“ REI D. DINIS 18 DE ABRIL DE 1304

Em nome de deus amem. Sabham quantos esta carta virem que Eu Don Denis pela grรงa de deus Rey de Portugal e do algarve en senbra com mha Reyna Donna Isabel e com filho Inffante dom Afonso primeiro herdeiro dou e outorgo e fforo aos pobradores de Murรงa essa villa de Muรงa com todos seus termhos novos e antigos que os aiades pera todo senpre desaqui adeante assi como os os ouvestes e husastes ata aqui conuem a ssaber que por todalas vozes e coomhas e por colheita e por moordomado por anuduva e por todolos meus direitos assi de pam come de vino come de todolas outras cousas dessa terra e por todo foro Real que ende devedes fazer tirada ende hoste que a mjm e a todos os meus sucessores devedes fazer e tirada a injustiรงa a qual eu devo fazer en essa terra se per nos faleรงer dedes a mjm e a todos meus sucessores em cada huu ano aas terรงas do ano. Oitoรงentas libras de portugal Couem a ssaber huu terca por primo dia de Mayo e a outra terรงa por primeiro dia de Setembro. E a outra terรงa por primeiro dia de Janeiro. E por oito dias nom seer eixeco. E sse per uenturia depos esses viij dias nom pagardes a mjm as dictas libras aas terรงas do ano assi como de suso dicto he deveres mi pagar desses viij dias traspassados adeante cada dia huu maravedi uelho de pena com a terรงa das dictas libras a qual entom deudes a pagar a mjm o maravedi da sobredicta pena maus enpero devedes pagar as sobreditas libras aas terรงas do ano como de ssuso dicto he. E outrosi se en os dictos termhos frontardes com as dictas que as queirade pagar hy en Muรงa presentes os juizes e o Tabllion se hy forem ou outros homens boons nom paguedes a dicta pena. E nenhuu Ricomem nem prestameiro nom nos deve entrar nem pousar em essa vila de Muรงa nem em sseus termhos nem devem hy condoito nem outra cosa filhar nem demandas E ssobretodo aquesta nom devede Responder daposttilha se alguem contra este meu fecto quiser uijne ou o tentar nom lhy seia outorgado mays soo pola tentaรงom aia ira de deus e a dae sancta Maria as madre e a mha maldiรงon pera todo senpre. E aquele que o aguardar entregamente aia a beenรงom de deus e de as madre e a minha pera todo sempre. Em tesxemuy desta cousa dou a nos so bredictos po33


bradores esta mha carta seelada do meu seelo do chumbo. Fecta a carta em lixboa xbiij dias dAbril el Rey o mandou. Era Millesima Trecentesima quadragesima secundus anos. Conde don Joham Afonso Don Joahne bispo de lixboa Don Martim Gil alferez da Corte Don Stevam bispo de Coimbra Don Meem roderiguez de Briteiros Don Giraldo bispo do Porto Don Joham roderiguez seu irmão Don Egas bispo de Viseu Don fernam perez de baruosa Don vasco bispo de Guarda Don pedro anes portal Don ffernando bispo dEuora Don johanne mendiz de briteiros Don Joahne bispo de Silve Joham perez de Sousa Don Afonso bispo de Lamego Don Martin arcebispo de bragaa (A N T T., D. DINIS, Liv. 3, fl. 3lv e 32)

Em 1304, mais precisamente a 18 de Abril desse ano, El-rei D. Dinis manifesta o seu apoio e apreço aos moradores de Murça e seu termo, através de uma nova carta de foral. Nesta, o Rei Lavrador, soberano defensor e ansioso por tornar cultiváveis todos os moutados do jovem País, confirma, através de um documento régio, a autonomia do concelho, e simultaneamente procede ao reajustamento dos deveres, garantias e obrigações dos seus moradores. A partir de então o tributo a pagar foi fixado em oitocentas libras de Portugal, processando-se o seu pagamento conforme havia sido estipulado no foral de D. Afonso III. Relativamente a outros deveres tudo se processava de acordo como o que também foi mencionado nesse documento. Neste contexto genérico aproveitamos para referir que, no entender de M.J. de Almeida Costa, os forais eram normas de direito público, já que as normas de direito privado surgiam em plano secundário. 34


No entender do mesmo investigador, “os seus preceitos referem-se às seguintes matérias: liberdades e garantias das pessoas e dos bens dos povoadores; impostos e tributos; composições e multas devidas pelos diversos delitos e contravenções; imunidades colectivas; serviço militar; encargos e privilégios de cavaleiros-vilãos; ónus e forma das provas judiciárias; citações, arrestos e fianças; aproveitamento dos terrenos comuns.“ (26) Os primitivos forais deram origem a que fossem criados muitos concelhos, especialmente os chamados concelhos rurais, que, no entender de Torquato de Sousa Soares, tinham uma base económica assente num “contrato enfitêutico”, ou seja, o aforoamento colectivo de uma parcela de território por vezes menor que uma paróquia!. (27) Este tipo de foral deu, consequentemente, origem a muitos concelhos das regiões mais desertas de Trás-os-Montes, onde se pretendia incrementar medidas de carácter económico favoráveis às populações de forma a incentivar o povoamento dessa terras. É, pois, neste enquadramento que assentou, conforme já referimos a criação do concelho de Murça e, simultaneamente, são fundamentadas as razões que provavelmente contribuíram para que Murça e seu termo tivessem usufruído da outorgação de três cartas de foro, de modelo antigo. Mas, com o evoluir do municipalismo e com o progresso e melhoria das condições político-admistrativas, sociais e económicas do País em geral, tornou-se necessário reformular e adaptar às novas realidades este tipo de documentos, pelo que os forais concedidos a partir do Séc. XV, mais propriamente a partir do reinado de D. Manuel I foram sujeitos a uma reforma, tendo alcançado “... um sentido diferente, perdendo o carácter de estatutos político-concelhios, para conservarem o simples aspecto de registos actualizados de isenções e encargos locais.“ (28) Foi pois D. Manuel que, para atender às conveniências do poder real e às reclamações dos povos, resolveu proceder à reforma dos forais. Este monarca, a mesmo tempo que incrementava esta reforma, foi outorgando a todos os concelhos do País as novas cartas de foral. É nesta perspectiva que surge a Carta de Foral que El–Rei D. Manuel concede a Murça, dada em Lisboa a 4 de Maio de 1512. Mas, se temos a certeza de que este soberano outorgou foral novo a Murça, o mesmo já não acontece em relação à Carta de Foral que alguns investigadores dizem ter D. João I dado a este concelho.

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Pinho Leal, no seu Portugal Antigo e Moderno, ao falar da Vila de Murça, diz que se consta que também D. João I lhe deu foral em 1390, mas que o investigador Franklin não o mencionou.(29) A nossa investigação levou-nos a consultar alguns dos documentos existentes no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, pois só assim nos foi viável elaborar este trabalho de investigação. Consequentemente e no que respeita a este assunto, apenas nos foi possível encontra uma cópia de um documento que nos leva a acreditar, tratar-se de uma certidão mandada passar por El-Rei D. João I e na qual é certificada a existência dos diversos documentos respeitantes aos moradores de Murça e seu termo, os quais por sua vez existiam na torre do Castelo da Cidade de Lisboa, local onde estavam depositadas as escrituras do Tombo. Este documento teria sido conferido por um escrivão da Torre do Tombo, em Março de 1769 e pela análise caligráfica, que nos parece ser idêntica, surge como título o seguinte: “Cópia do Foral de Murça”. Isto parece-nos ser erróneo, já que não se trata propriamente de uma carta de foral, mas apenas de uma certidão que aponta a existência dos diversos documentos. A introdução do texto é a seguinte:

“Dom João pela Graça de Deos Rey de Portugal e do Algarve e Senhor de Cepta Aquantos esta carta virem fazemos saber que o concelho, e homens boôs da nossa Villa de Murça nos enviarom que em Torre do nosso Castello da cidade de Lisboa, onde estão as nossas escripturas do Tombo, estavão alguns foraes, e outras escripturas as quaes pertencião pera os moradores dessa Villa de Murça, e que nos enviavão pedir por mercê que lhe mandassemos dar nosso Alvará per a Fernão Lopes, nosso Escrivão dos Livros que tem encarregado das ditas escripturas, em que lhe mandassemos que os buscasse, e de quasquer, que achasse que perteencessem pera os moradores do Julgado de Murça...“

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Consideramos, pois, que a dúvida deve ter surgido por este facto. Limitamo-nos a transcrever aqui apenas esta breve introdução já que o texto é longo e a sua transcrição é feita na íntegra em apêndice.(30) Mas, se na veracidade do foral de D. João I é posta em causa, o mesmo não acontece em relação àquele que foi dado por D. Manuel I.


Mesmo assim, o Foral concedido por este monarca, e pelo que se pode constatar através do texto inserto no Livro de Forais Novos de Trás-os-Montes, podemos ser levados a admitir a existência de um foral dado por D. João I. Se isso aconteceu, o que nos parece não ser verdade, a dúvida poderá ser ainda eventualmente fundamentada pelo facto de o texto de foral de D. Manuel começar assim: “Foral de Murça por El-Rei Don Johan Primeiro.Don Manuel...”

FORAL DE MURÇA DADO POR EL – REI D. MANUEL I 4 DE MAIO DE 1512

Foral de Murça per Rey Don Johan primeiro Don Manuel

Posto que no dicto lugar fossem antigamente impostos muitos derectos assi de jugadas de Pam e vinho como de çeras e lutosas e outras cousas segundo pellas imquirições antiguas que vimos se largamente demostravam os quaaes derectos e cousas foram declaradas pollo Reisdestes reguos nossos antecessores sem embargo das quaaes declarações osmoradores da dita terra e concelho se vieram com o senhorio a concertar doutra maneira e a qual ora paguam a qual aprovamos pre este nossoforal como se per nos fora feita – silicet – todo morador da dita terra pagara em cada hum anno a nos e a nossa socessores dous alqueires de centeo per dia de sancta Maria de Setembro per esta medida corrente dagora e na dita maneira meyo alqueire de trigo e hum almude de vinho desta medida por Sam Martinho e meio destes correntes em dinheiro e nos mês de cada hum anno tres arrates de çerca e no dito mês de Mayo corenta e oito reaes cada pessoa por huum maravedi velho que se soya de pagar pollo foral antigo e do veado ou corço que se matar em çepo ou em corda darm ao senhorio há perna com lo lombo e do porco montes a espadoa e do usso as mãos que se matarem na dicta maneira, item pagara cada hum dos tres taballiães que hy haa quinhentos reaes de pesam cada anno. Os montados seram das aldeas e lugares em cujos limites pacerem e montarem com os quaes se conçertaram como lhe bem parece. Os maninhos sam do concelho se delles pagarem a nos outro tributo. Os maninhos que se ouverem de tomar nam foram danno a 37


seus vizinhos e quando em tal caso duvida ouver sera ustificado pellos juizes e ostiçiaaes da terra. O gado do vento e a pena darma he tal com atrás fica escripto no foal de Vinhaaes. A portagem assi he tal como fica atra escripto no foral de Miranda tirando somente que nam tem privilegio de portagem nem he estremo nem tem alfandega. Dada em a nossa mui nobre e sempre leal cidade de Lixboa quatro dias de Mayo de mil e quinhebtos e doze. Fernam de Pina o sobescripvy. (A N T T.,Livro do Forais Novos de Trás-os-Montes. Fl. 10v., col.1)

Tributos impostos pelo Foral de D. Manuel I:

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– A pena de arma ou de sangue era a condenação ou multa a quem espancasse, ferisse ou assassinasse alguém, ainda que não houvesse derramamento de sangue. Pelo que nos é dado a conhecer, isto processava-se assim como o “Gado do Vento “, conforme o foral de Vinhais, o qual diz A pena darma e do sangue que chamavão indiciais da quall soomente levaria duzentos rreaes e arma perdida e mais nam. E di pera baxo a como se avierem. A quall se levara com estas limitações. S. Que a dita pena se nam levara quando taes pessoas apunharem... [ilegível por estar manchado] ...Nem a pagara moço de quinze anos pera baxo nem molher de qualquer idade. Nem pagara dita pena aquellas pessoas. Que castigando molher e filhos e escravos tirarem sangue nem pagaram a dita pena quem juguando punhades sem armas tirar sangue com bofetadad ou punhada e as ditas penas nem cada hnã dellas nam pagaram isso mesmo que a estar a estremar noutras pessoas em arroido. Tirarem armas posto que com elas tirem sangue. Nem escravo de qualquer idade que com pão ou pedra tirar sangue. (31) – O gado do vento levara da ordenançam com decraraçam que a pessoa a cuja maaõ ou poder por ter o dito gado o voa escrever a dez dias primeeiros seguintes sob pena de lhe ser demendado de Justa. (32) – O pagamento deste tributo regia-se pelo estipulado no Foral de Miranda. Em apêndice é transcrito o respectivo texto.(33)


– Apesar de Murça não ter Castelo que exigisse dos seus vizinhos o imposto de “Adua” ou “Anaduva”, (34) foram no entanto obrigados a efectuar o seu pagamento o mesmo acontecendo com os de Abreiro e Freixiel, tendo o benefício recaído para as obras dos muros e castelo de Ansiães, conforme é dado a conhecer por carta de 19 de Junho de 1384, a qual se encontra inserida no Livro de Chancelaria de D. Manuel I, livro 28 , folha 133v. Este documento é transcrito integralmente em âpendice, conforme o texto que extraímos das “Memórias Arqueológico – Históricas do Distrito de Bragança”, da autoria do Pe. Francisco Manuel Alves, tomo IV, página 212. No entanto, e visando fundamentar o que trás afirmamos , apresentamos aqui um pequeno extrato desse documento: ...E por que o outro sy o dito Concelho soo nompode soportar tamanho encarrego sem ajuda doutros por tal haveriam nos pedir por mercê que lhes desemos por adua pera ajuda das ditas obras e lavores e o fortalezamento da dita villa os ditos lugares de Freixiel e Murça e Abreiro por quanto eram os lugares chãaos e devasos... Refira-se por último que esta carta foi mandada publicar por El–Rei D. João, tendo sido confirmada mais tarde por D. Manuel I. (35)

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Feira de Murรงa

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No dizer do Prof. Amzalak, as feiras são uma das instituições mais curIosas do período medieval, a sua função económica consistia fundamentalmente na localização em prazos e termos determinados de produtores, consumidores e distribuidores, corrigindo assim a falta de comunicações fáceis e rápidas. Quase todas as feiras se realizavam em épocas relacionadas com festas da Igreja... (36) Por sua vez a realização das ”Feiras” levava a que no local houvesse uma trégua que originava a paz da feira, surgindo assim um período, durante o qual não eram permitidas a violência, as disputas, as vinganças e as hostilidades entre as populações vizinhas. Mas recuando um pouco e se considerarmos que as “cartas de foral” contribuíram para a fixação das populações, facto que originava o aumento da produção agrícola e o consequente aumento dos rendimentos quer para as populações quer para a coroa, a verdade é que as trocas comerciais entre o homem do campo e da cidade tomavam-se uma necessidade premente não apenas pelo intercâmbio dos produtos, mas também pelo estabelecimento de contactos entre as populações, factos que em conjunto perspectivavam o aumento do poderio económico-financeiro. As “Feiras” surgem na Idade Média como elementos importantes da organização económica. CARTA DE FEIRA DE MURÇA DADA POR EL-REI D. DINIS 18 DE ABRIL DE 1304

Don Denis pela graça de deus Rey de Portugal e do algarue. A quantos esta carta virem faço saber que eu mando e outorgo ao Pobradores de Murça que façam na dicta vila de Murça na XV dias por andar de cada huu mes de guisa que se nom ffaça em nos dias que os de mirandela e de vila bõa e de monte negro e de chaues fezerem essas feiras e dure essa feira de Murça dous dias cada mes. E mando que todos aqueles que veerem a essa feira per Razom de vender ou de comprar seiam seguros da ida e da vijnda e nom seiam penhorados na feira em esses dous dias que ela durar por nehua divida que deuam saluo por divida que for fecta em na dicta feira. E mando e deffendo que nenhum nom seia ousado que faça mal nem força nem embargo na dicta feira nem aaqueles que a ela veerem e aaquel que ende al fizesse peitaria a mjm os meus encontros de sex

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mil soldos e corregeria a eles en dobro o mal ou a fforça que lhes fezesse. E por tal que nengun tema de vijna a essa feira dei esta mha carta a esses pobradores de Murça. En testemunyo. Dada em lixboa xbiij dias d’ Abril El-Rey o mandou francisqueanes a fezz Era Millesima Tricentesima e quareenta e dous anos. (A.N.T.T. – Chancelaria de D. DINIS)

Apoiadas pelo poder laico e eclesiástico, as feiras contribuiram para que se saísse do entorpecimento e da estagnação económica em que as populações viviam. Por outro lado e no dizer de Virgínia Rau, “as feiras não só contribuíram para a melhoria das relações económicas e jurídicas entre os homens, mas representaram também um papel importante sob o ponto de vista social e cultural”.(37) Era nas feiras que se obtinham notícias do que se passava pelo “mundo”, resultado das colheitas das regiões circunvizinhas e de tantos outros assuntos que, então como hoje, são a base do cavaquear do povo. Tal como em toda a Europa, também em Portugal as feiras começaram a surgir. Se a feira de Ponte de Lima (1129) é considerada como a mais antiga em Portugal, hoje podemos constatar que muitas foram aquelas que se realizaram em todo o país desde o início da nacionalidade. A vila de Murça teve a sua feira mensal desde os meados da Idade Média, já que EI-Rei D. Dinis mandou que se fizesse feira na vila de Murça, através de uma carta outorgada em 18 de Abril de 1304. A feira de Murça foi inserida no grupo das feiras do “tipo de Marialva“, pois a carta determinava que devia começar ”doze dias por andar de cada mês e durar dois dias não devendo fazer-se nos mesmos dias das de Mirandela, Montenegro e Chaves”.(38) Vírgínia Rau refere que esta feira deve ter desaparecido posteriormente, pois em 1394 os povoadores do Julgado de Murça pediram a D.João I que lhes confirmasse a carta de D.Dinis, o que lhes foi concedido a 10 de Junho desse ano. (39) Importa referir que estas feiras eram coutadas de 6000 soldos, tendo segurança e isenção de penhores, desde os dois dias antes de começarem, até dois dias depois de terminarem. 42


A “Feira de Murça” realizava-se uma vez por mês, normalmente no dia 18, e durava dois dias. Alternava com as feiras de Mirandela, Montenegro e Chaves. A sua influência máxima estendia-se por uma área de quarenta quilómetros. As feiras espalhavam-se por toda a província transmontana e nelas se vendiam os mais diversos géneros, tais como hortaliças, frutas (ginjas, pêras, pigarsas, melões, pêssegos, uvas), lenhas, sumagres, etc. O aparecimento de outras formas de comércio tornou-se também evidente. Nos finais do Séc. XVIII, e numa época em que a Feira de Murça já se efectuava no dia 13 de cada mês, existiam na vila e lugares anexos 24 comerciantes. Actualmente a “Feira de Murça” realiza-se nos dias 13 e 28 de cada mês e tem apenas a duração de um dia. Em pleno séc. XX a feira ainda não perdeu muitas tradições populares. Embora os produtos expostos para venda sejam adquiridos a troca de moeda e não pela troca de género por genéro, sendo muitos deles óprios de uma sociedade de consumo, ainda é possivel constatar-se que em alguns casos os artigos destinados a serem vendidos são idênticos àqueles que eram comercializados há centenas de anos. Hoje são poucos aqueles que vão à feira a pé ou montados no cavalo ou no jumento. No entanto as tradições populares vão-se mantendo, já que são muitos aqueles que apenas se deslocam à vila em dia de feira, e aproveitam o acontecimento, não só para fazerem o seu negócio, mas também vêem nisso a oportunidade de poderem contactar com amigos de outras localidades. Ainda há poucos anos a feira era aproveitada pelo aldeão para comer na tasca ou na barraca o peixe que era transportado em carroça da beira-mar até Murça, as batatas assadas com cascas e a oportunidade de saborear o bom vinho no meio da cavaqueira entre os amigos. Mas a “Feira de Murça” ainda é local para a manifestação de valores etnográfico-culturais, que com o avançar da terceira revolução industrial, vão desaparecendo sem que ninguém os tente salvaguardar. Aqui se vendiam as “manhuças” e teias de linho, as toalhas de estopa, o surrobeco, as cestas e canastras de Madeira ou vime, tudo isto obra-prima saída das mãos dos autênticos artesãos da zona da terra fria.

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Compravam-se os chapéus de palha, os piões, as navalhas, os gorros para resguardar as orelhas do gélido frio do Inverno. Da mesma maneira se compravam alfaces, o cebolo, os pimentos e os manjericos. Simultaneamente, no meio da algazarra, do ruído alegre dos pregoeiros, aqui se viam as belas ciganas que com um misto de malandrice e “pedinchice” iam lendo a sina a estes ou aqueles, que acreditando no charlatão, tinham adquirido o óleo milagroso feito de “banha da cobra”. Hoje é um pouco diferente. No entanto as tradições populares continuam a influir na vida colorida e eufórica do “dia de feira”.

OUTRAS FEIRAS CANDEDO – Na década de 30 fazia-se feira em Candedo, no primeiro domingo de cada mês. Mais tarde e nas décadas de 60 e 70, a feira realizava-se no dia quatro de cada mês, sendo importante pelo número e pelos vários tipos de gado aí vendidos. Actualmente, não se realiza. JOU – Realizavam-se duas feiras em cada mês. Uma dia 16, outra dia 27. VILARES – Realizou-se durante muito tempo uma feira mensal. O Jornal “POVO DE MURÇA”, ano 1, nº 3 de 20/02/1911, diz que no dia 14 de Fevereiro de 1911 se realizou a “1ª Feira Mensal” de Vilares, tendo nesse dia havido festa com música e foquetes.

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Limites geogrรกficos

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DIVISÃO ADMINISTRATIVA

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Foral de D. Sancho II dá-nos a conhecer as mais antigas delimitações fronteiriças do Concelho de Murça. Através deste documento podemos constatar com certa evidência a extensão do seu território, da mesma maneira que é possível fundamentar esta investigação através de documentos idênticos concedidos pelos diversos monarcas aos aglomerados populacionais dos concelhos vizinhos. Já referimos anteriormente que o espaço territorial deste termo era inferior em relação àquele que actualmente ocupa, de maneira que a superfície ocupada foi sofrendo variações através dos tempos, conforme era estipulado que este ou aquele lugarejo fosse ou não do Concelho de Murça. Recordando o que atrás foi exposto e pela análise do foral de D. Sancho II, podemos dizer que o termo de Murça se estendia desde a aldeia de Curros, que pertencia então a Montenegro, a partir daqui seguia o Tinhela, estender-se-ia até ao Freixo e Ribalonga, descendo novamente até ao Tinhela pelo lado de Pegarinhos, seguia de novo o curso de agua partindo com o termo de Alijó, entrava na foz do Tinhela em Riba Tua e Candedo. Depois seguia provavelmente pela actual zona de Palheiros, fazendo limite com Lamas de Orelhão e seguida em direcção a Zebras, dirigindo-se até à Ribeira de Mascanho que ficava perto de Curros, partindo então com Montenegro. Tudo isto nos é referido no foral de D. Sancho II: “...vobis mominibus et populatoribus de Noura et de Musa, et de suis terminis, de mea hereditate que habeo terminata scilicet quomodo partitur per illo loco ubi intat currus in tiela, et uadit per uenam de tiela, et feit in ribeirum de uiniola ad infestum, et ferit in petra longa, et uadit ad sayxum de fisga, et qumodo ferit in spinarios de plano de cardo, et per capud de freyxeno et per caballum, et per nudelas et per cima de seita et quomodo partitur cum Ligoo de uedro, et intrat in foz tiniela, ripa de tua ad enfesto, quomodo partitur cum aureiro, et intrat in fonte de colubro, et uadit per cadeiron et per montem de cousos, et per planum de zeuras, et per suoreyro aquas uertentes, et inde ad caput saxi, et uadit ad mascanio ribeyra sopee de curcus...”


O foral de Abreiro dado por D. Sancho II , em 1225 ao apresentar as delimitações deste termo, refere : “...vobis hominibus populatoribus de Aureiro et de suis terminis de mea terminis de mea hereditate que habeo terminata: scilicet comodo partitur per illum locum qui dicitur foz de colubro quomodo eciam parte cum lamas de º relam et deinde per cima de candeado, et deinde per illam portam de Porrais et deinde ad aquam de tinela, a prono per illa foz de tinela et uadit ubi prius inchoanimus...” (41) O foral de Vila Chã, dado por D. Afonso II em 1217, diz : “...isti sunt termini de vestra villa quomodo dividit cum vilar de maçada, et cum sancto felice, et deinte cum Ligoo et alia parte cum noura et cum muza et cativelos...”(42) As inquirições de D. Afonso III, levadas a efeito nas terras de Panóias em 1258, referm que Valdemir e Sancta Eugénia pertenciam ao concelho de Murça. “...quod hominas de Mussa filiaverunt tartan hereditatem de ligoo quod facerunt ibi unam villam que vocateur Sancta Ougenha...” No entanto o foral que D. Afonso III deu a Alijó em 1269 ainda inclui estas localidades nestes termos. Com o decorrer dos tempos e apesar da outorgação de novas cartas de foral, nada mais nos é dado a conhecer acerca da ampliação da área do termo de Murça.. Refira-se ainda que, a norte, o concelho era delimitado pelos termos de Montenegro e S. Miguel de Tresmires. Somente mais tarde, e através do “Numeramento” levado a efeito em 1530 por D. João III, é possivel constatar com evidência quais os povoados que nessa época eram pertença de Murça. O Archivo Histórico Portuguez de Anselmo Braancamp Freire refere o volume VIII, pág. 273, no Capítulo “ Titulo do Concelho de Panoyas” o seguinte: “O concelho de Murça de Panoyas he del rey Nosso Senhor, com toda juridiçam; direitos e redas leva os Pero Gedez; e he concelho sem cerqua né castello; e vyvê é Murça, cabeça do dito concelho, 74 moradores. - Fiolhoso,24 – Cadaval,10 – Porquos,6 – Caldeboys,3 – Valdomill,6 – Pegarynho,3 – Samta Ogenea,8 – Porrais,7 – Sobreyra,2 – Cmdedo,7 – Mofeveres,5 – Varzeas,5 – Palheyros,3 – Val Lomgo,11 – Carvas, 3 – Noura, 14 – Martí, 4.

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Soma por todos os moradores do dito concelho e aldeas do termo com algus moradores de quimtas e caseas apartadas dos outros,197. A dita soma sam clerygos,2 ; e da dita soma sam vyuvas,28 ; e da dita soma sam molheres solteiras que vyvem sonre,19. Este concelho he é comprido de hú cabo delle ao outro tres légoas e é largo outras tres legoas; e parte e confina com os concelhos seguintes: Parte e confina com a vila de Villa Real, que da cabeça do dito concelho à dita villa seis legoas. Parte e confina mais com o concelho de Jales que he da cabeça de hú concelho à dos outros duas legoas. Parte e confina mais de Chaves, que he da cabeça do dito concelho à dita villa seis legoas. Parte e confina mais com a villa de Lamas dOrelhão, que he da cabeça do dito concelho à dita villa tres legoas. Parte e confina mais com o concelho dAbreyro, que da cabeça do dito concelho À dita villa tres legoas. Parte e confina com a villa d’ Anciães, que he da cabeça do dito concelho à dita villa cinquo legoas. Parte e confina mais com o concelho de Alyjo, que he da cabeça de hu concelho à do outro duas legoas e mea...” (43) “reyro, que he da cabeça do dito concelho à dita villa cinquo legoas. Parte e confina mais com o concelho de Alyjo, que he da cabeça de hu concelho à do outro duas legoas e mea...” (44) O mesmo autor, ao apresentar o recenseamento que nesta data foi mandado fazer em todos os concelhos das terras de Panóias, diz acerca do concelho de Jales : “O concelho de Jalles he concelho chãoo, sem cerquea nem castello; e he del Rey Nosso Senhor com toda Jurdiçam : direitos e rédeas sam Duarte de Lemos; e vyvem ê Alfarella, cabeça do dito concelho, 22 moradores. E nas aldeias do termo os seguintes : Civynas,5 – Riberyrinha,8 – Covas,9 – Grâja,9 – Os Vales,6 – Reboredo,6 – Cadadelha,14 – Campo,14 – Rayz do Mote,19 – Quintãa,33 – Cerdeira,19 – Verea,15 – Barrella,11 – Carva,18 – Moreyra,17 – Vilares,25 – A Igreja de Tres Miras,3 – Ferradall,2 (...) E este concelho e termo delle he é comprido, de hú cabo delle ao outro duas legoas, he é largo outras duas; e parte e confina com estes concelho seguintes: Parte e confina com o concelho de Murça, que he da cabeça de hú concelho à do outro duas legoas. Parte e confina mais com a vila de Chaves que he da cabeça do dito conce-


lho à dita vila cinquo legoas. Parte e confina mais com o concelho dAguiar que he da cabeça de hú concelho à do outro legoa e mea. Parte e confina mais com a villa da Villa Reall que he da cabeça deste dito comceelho de Jales à dita vila coatro legoas...” (44) Por aqui se pode ver que as aldeias de Carva, Cortinhas e Vilares não pertenciam ao termo de Murça e que aquele confinava com este. No capítulo sobre o “Título da Villa de Chaves” verifica-se que as aldeias de Mascanho, Serapicos, Valongo, Toubres, Penabeice, Jou e seus bairros faziam parte do termo da vila de Chaves, enquanto que o mesmo documento referencia que esta confinava com Murça. Também no “Titulo de Lamas de Orelhão e Abreiro” se verificavam as confrontações fronteiriças com o termo do concelho de Murça. Nesta data as aldeias de Sobreira, Porrais, Candedo e Monfebres já não eram pertença do concelho de Abreiro, mas de Murça, enquanto que deste faziam parte Caldebois, Valdemir, Pegarinhos, Santa Eugénia e Pópulo. Mais tarde, por volta de 1706 e conforme nos é dado a conhecer pelo Pe. Carvalho da Costa, através da “ Corografia Portuguesa”, a área tinha sido sensivelmente alargada ao sector norte, já que a ele pertenciam Serapicos, Valongo, que em tempos pertenciam a Chaves, mantendo-se delimitações fronteiriças das outras zonas de forma semelhante aqueles que anteriormente referimos. Nos finais do Séc. XVIII e pelo que nos é dado a saber por Columbano Ribeiro de Castro, o termo de Murça, compreendia os seguintes lugares: Murça, Cadaval, Caldebois, Candedo, Carvas, Castorigo, Estrada, Fiolhoso, Martim, Noura, Palheiros, Paredes, Pegarinhos, Pópulo, Porrais, Raiz, Salgueiros, Santa Eugénia, Seixo, Serapico, Sobreira (metade), Sobredo, Varges, Valongo, Vale de Cunho e Vale de Mil. Através da proposta apresentada por aquele magistrado, materializada pelo plano da “Nova Demarcação e Regulação das Comarcas e Distritos da Província de Trás-os-Montes”, elaborada na mesma época, foram anexados ao termo de Murça os seguintes povoados: Alfarela, Asnela, Avidoza, Barrela, Campos, Carvas, Cidadelhe, Cortinhas, Covas, Fiolhoso, Fonte Fria, Granja, Moreira, Quintã, Raíz do Monte, Revel, Ribeirinha, Roboredo, Serdeira, Servivas, Três Minas, Varges, Vilarinho, Vilares e Vreia. (45) Acrescenta-se que a freguesia de Jou e respectivos lugares pertenciam a Àgua Revés, que por sua vez foi anexada a Chaves, en-

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quanto que a povoação de Sobreira foi anexada, na totalidade, ao termo de Abreiro. Se até aqui Murça era pertença da Comarca de Moncorvo, com esta nova demarcação passou a fazer parte da Comarca de Vila Real. A partir de 1835 e por força do Decreto – Lei que impôs ao País uma nova divisão administrativa, que em muitos casos ainda hoje se mantém, a área pertencente ao concelho de Murça foi reajustada, passando a fazer parte dele as seguintes freguesias e lugares : Candedo (Martim, Monfebres e Porrais), Carva, que anteriormente pertencia ao concelho de Alfarelas de Jales (Vale do Galo, Vale da Galinha e Cortinhas); Fiolhoso (Cadaval); Murça (Noura e Sobredo; Palheiros (Varges, Salgueiro e Paredes); Sobreira, que em 1758 pertencia metade ao extinto concelho de Abreiro; Valongo (Carvas, Serapicos e Ribeirinha); Vilares (Asnela e Fonte Fria), que pertenciam ao extinto concelho de Alfarela de Jales. A freguesia de Jou (Aboleira, Banho, Castelo, Cidadelhe, Cimo de Vila, Toubres, Granja, Mascanho, Novaínho, Penabeice, Rio e Vale de Égua) pertenceu até 1853 ao extinto concelho de Carrazedo de Montenegro, sendo nessa data anexada ao concelho de Valpaços, passando a pertencer em definitivo ao concelho de Murça após a desanexação em 1895. É desde esta data que o concelho de Murça passa a ter uma configuração geográfica e administrativa muito semelhante à actual. No período conturbado da implantação da República, e pelo que nos é dado a saber através dos jornais da época, houve tentativas políticas no sentido de anexar à comarca e concelho de Murça as freguesias de Pegarinhos, Ribalonga e Vila Verde, o que não veio a acontecer, já que um despacho do Ministério do Interior considerou que as mesmas eram pertença inviolável da Comarca e concelho de Alijó. No início dos anos trinta as gentes de Murça viveram de novo momentos de conturbação pelo facto de ser extinta a Comarca de Murça, sendo esta anexada na divisão administrativa da Comarca de Alijó. Na década de quarenta, e, segundo se julga, por motivos de ordem política, é extinta a freguesia de Sobreira, sendo esta anexada a Candedo. Perante este quadro de situações, a partir de então o concelho de Murça passou a ter uma divisão administrativa e judicial muito semelhante à actual.


Após a Revolução de 25 de Abril de 1974 foi de novo restaurada a Comarca de Murça. O termo de Murça é classificado de Concelho Rural de 3ª classe, fazendo parte da divisão administrativa actual, as seguintes freguesias e localidades: Candedo : Martim, Monfebres, Porrais,e Sobreira Carva : Cortinhas Fiolhoso : Cadaval e Levandeira Jou : Toubres, Mascanho, Penabeice e Vale de Égua Murça Noura : Sobredo Palheiros : Paredes, Salgueiro e Varges Valongo de Milhais : Carvas, Ribeirinha e Serapicos Vilares : Asnela e Fonte Fria

Divisão Eclesiástica Nos finais do Séc. XVIII as terras pertencentes ao então concelho de Murça estavam sob a alçada do Arcebispado de Braga, sendo todas juntamente com Murça, que era a Reitoria, curatos anuais da apresentação do D. Prior e Colegiada de Guimarães, que recebia os respectivos rendimentos, num total de 6.800.000 dízimos. Nos meados do Séc. XIX pertencia ao mesmo Arcebispado de Braga, mas sob alçada do distrito administrativo de Vila Real. O cabido da colegiada de Nossa Senhora da Oliveira de Guimarães apresentava em Murça o Reitor que tinha 150$00 réis de rendimento em outras localidades, concretamente em Carva. A apresentação era feita pelo Reitor de S. Miguel de Três Minas e Jou era a apresentação do reitor de S. Pedro dos Vales. Nos limiares do Séc. XX e após ter sido criada a Diocese de Vila Real, as localidades do concelho de Murça ficaram a pertencer a esta diocese.

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População

evolução ao longo dos tempos

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mbora os documentos que analisamos nos refiram que o termo de Murça teria sido povoado por volta do séc. VIII, muito antes da formação da nacionalidade, nada existe de concreto quanto ao número de indivíduos que aqui estiveram radicados. Só a partir das inquirições levadas a efeito na terra de Panóias no reinado de D. Afonso III, é que começam a ser conhecidos alguns dados sobre a população, sem que, no entanto, os mesmos sejam muito concretos, contudo somos levados a admitir que o número de moradores já era significativo. Mas a análise mais concreta que podemos fazer sobre a evolução da população neste concelho, só é possível efectuá-la com rigor a partir dos precisos dados fornecidos pelo “Numeramento” de 1527-1530, resultado do recenseamento geral que D. João III mandou realizar em todas as povoações de Trás-os-Montes. Este documento dá-nos a conhecer não apenas os dados estatísticos sobre a população mas também nos fornece elementos elucidativos sobre a área geográfica e limites, quer deste termo, quer de outros concelhos vizinhos. Embora já tivéssemos indicado anteriormente o nome dos lugares que pertenciam a Murça, consideramos oportuno referi-los de novos, juntamente com a indicação do número dos respectivos moradores. O mesmo acontece com os lugares que eram pertença de outros concelhos, e que hoje fazem parte do concelho de Murça. Sendo assim, o citado documento refere-nos no Capítulo “Título do Concelho de Murça de Panoyas”, os seguintes dados estatísticos : “...E vyvé nas aldeas do termo deste concelho os moradores seguintes: Cadaval, 10 – Porquos, 6 – Caldeboys, 3 – Valdomill, 6 – Pegarynho, 3 – Samta Ogenea, 8 – Porrais, 7 – Sobreyra, 2 – Camdedo, 7 – Mofevres, 5 – Varzeas, 5 – Palheyros, 3 – Val Lomgo, 11 – Carvas, 3 – Noura, 14 – Martí, 4. Soma por todos os moradores do dito concelho e aldeas do termo, com alguns moradores de quimtas e caseas apartadas dos outros,197. E da dita ssoma sam clerygos,2 ; e da dita soma sam vyuvas,28 ; e da dita soma sam molheres solteiras que vyvem sobre, 19...” No “Título do Concelho de Jalles, diz-nos que: “...E nas adeas do termo os seguintes: Civynas, 5 – Rybeirinha, 53


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8 – Grãja, 9 – Vilarelho, 3 – Revell, 8 – Felhagosa, 5 – Os vales , 6 – Reboredo, 6 – Cidadelha, 14 – Campo, 14 – Rayz do mõte, 19 – quintãa, 33 – Cerdeira, 19 – Verea, 15 – Barrela, 11 – Carva,1 8 – Cortinhas, 18 – Moreyra, 17 – Vilares, 25 – A Igreja de Tres Miras, 3 – Ferradal, 2.(...) Por outro lado, no capítulo sobre o “Titulo da Villa de Chaves”, refere: “...E nas aldeas do termo da dita vila há este moradores seguintes a saber : (...) Jou com seus bayrros, 61 – Toubres, 8 – Penavence, 5 – Masquanho, 8 – Vallongo, 9...” (46) Nos finais do Séc. XVIII, mais precisamente em 1796, a mandado do governo do reino, o juiz demarcante da província de Trás-os-Montes, Columbano Ribeiro de Castro, foi encarregado de efectuar na nova divisão das Comarcas da Província de Trás-os-Montes. O trabalho que elaborou, e que nos é dado a conhecer por José M. Amado Mendes, na obra “Trás-os-Montes nos finais do Séc. XVIII“, verificamos que a população de Murça e seu termo tinha aumentado em números muito significativos. O citado documento ainda nos fornece dados preciosos relativos à área geográfica e às ocupações da população. Como atrás referimos, alguns desses povoados não pertenciam ao termo de Murça; no entanto, podemos obter os seguintes elementos demográficos, respeitantes aqueles que eram sua pertença: Murça, 637 habitantes; Cadaval 149; Caldebois 58; Candedo, 186; Carvas, 78; Castorigo, 22; Estrada, 15; Fiolhoso e Martim, 85; Monfebres, 105; Noura, 148; Palheiros, 131; Paredes, 28; Pegarinhos, 342; Pópulo, 22; Porrais, 125; Raíz, 7; Salgueiro, 8; Santa Eugénis, 357; Seixo, 38; Serapicos, 42; Sobreira (metade), 42; Sobredo, 122; Varges, 35; Valongo, 159; Vale de Cunho, 122; Vale de Mil, 28. (47) Para além destes documentos, outros há que nos fornecem elementos importantes acerca do evoluir da população. A propósito referimos como fontes importantes: “Arquivo Histórico Português”; “Dicionário de Portugal“, e mais actualmente, os “Recenseamentos Gerais da População”. Pelo facto de estes mesmos documentos fornecerem apenas dados estatísticos globais por freguesia, limitamo-nos a referenciar esses elementos no gráfico que apresentamos na pág, 59, através do qual é possível verificar de uma forma correcta e global como evoluiu a população no concelho de Murça no decorrer dos tempos.


Ocupações da População

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concelho de Murça é essencialmente rural, pelo que é simples constatar que a actividade com maior implantação é, sem dúvida, a agricultura Os homens de Murça e seu termo dedicaram-se desde os primórdios da sua história à lida dos campos, ao amanho das terras e à criação de gado, sendo estes os modos de vida mais condizentes com as realidades económicas da terra. As cartas de foral dizem-nos que os tributos a pagar ao soberano eram em alguns casos convertidos na entrega de produtos ligados à agro-pecuária. Mais tarde o P.e Carvalho da Costa diz-nos que a vila de Murça gozava de bom clima e saudáveis ares, acrescentando que: ...He abundante de excellente trigo, centeyo, cevada, milho, feijõens, azeite, bom vinho, castanha, muita caça meuda... O mesmo autor refere a existência de explorações de carvão. Avançando no tempo e já nos limiares da revolução industrial, mais precisamente nos finais do séc. XVIII, verificamos através dos dados preciosos fornecidos por Columbano Ribeiro de Castro, que a população deste concelho se dedicava às mais diversas actividades, destacando-se entre elas o sector artesanal. Através desses elementos verifica-se que a população não se dedicava em exclusivo à agro-pecuária, já que aí viviam alfaiates, negociantes, sapateiros, carpinteiros, ferreiros, ferradores, torcedores e fabricantes de sedas, cromheiros, cirurgiões, barbeiros, etc... Acrescente-se que foi a partir dessa época que no concelho de Murça teve enorme importância a criação do bicho-da-seda e o cultivo do linho em grande escala. Num período mais próximo da actualidade, em pleno séc. XX, a população começou a dedicar-se, como hoje ainda acontece, a três grandes actividades: agricultura, comércio e indústria. A agricultura era dominada pelo cultivo de produtos indispensáveis ao sustento do homem e dos animais: batata, cereais, milho, castanha e os diversos produtos hortícolas. Revestia-se de enorme importância, tal qual hoje acontece, o cultivo da vinha, da oliveira e árvores de fruto, particularmente na zona sul do concelho. Sobre este assunto apresentamos adiante dados estatísticos mais concretos, quando falarmos em algumas instituições de carácter cooperativo.


A indústria tem florescido nos últimos anos, como podemos constatar pela existência de várias fábricas de materiais destinados à construção civil (vigas, blocos, materiais pré-esforçados, telha, etc.), fábrica de material plástico (mangueiras, sacos, estores), serralharias de carácter industrial, fábricas de extracção de azeite, fábrica de lixívia e produtos de limpeza doméstica, fabricantes de mobiliário, serrações, fabrica de transformação de produtos alimentares, salsicharias, fábricas de extracção de vinhos e aguardentes, etc. Em uníssono estas geram, consequentemente, uma importante actividade comercial, que tem o seu auge na venda de todos esses produtos e na compra de outros indispensáveis ao desenvolvimento dessas mesmas actividades. Para além disto existe uma grande massa populacional que é dominada pelos indivíduos ligados às profissões liberais, públicas e pelo grande número de estudantes, atendendo a que em Murça existem diversas instituições públicas e privadas, concretamente diversas Escolas Primárias, uma Escola Preparatória e uma Escola Secundária. Anos Freguesias

1530

1862

1864

1890

1900

1911

1920

Candedo

25

1500

1334

1363

1415

1458

1451

Carva

36

414

456

409

391

399

409

Fiolhoso

34

600

606

681

759

795

771

Jou

82

1023

1355

1264

1244

1208

1157

Murça

71

1444

1219

1442

817

1412

1257

Noura

14

596

622

577

817

646

569

Palheiros

10

360

451

444

428

409

422

V. Milheirais

33

562

561

590

598

593

599

Vilares

25

450

506

524

499

498

448

Totais

350

6949

7110

6030

6783

7418

7083

Anos Freguesias

1930

1940

1950

1960

1970

1980

2001

2011

Candedo

1500

1925

1971

2009

1595

1752

1126

1002

Carva

456

546

583

624

345

389

250

269

Fiolhoso

847

971

1102

1191

675

880

603

452

Jou

1173

1485

1720

1779

1345

1284

794

654

Murça

1498

1629

1810

1789

1125

1687

2184

2136

Noura

713

646

734

822

670

825

647

575

Palheiros

536

619

706

736

610

632

432

332

V. Milheirais

654

726

941

864

795

710

442

329

Vilares

412

468

489

550

395

359

268

203

Totais

7789

9015

10056

10364

7505

8518

6752

5952

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Donatรกrios e Condes DONATรRIOS E CONDES DE Murรงa de Murรงa

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A

chamada “Casa de Murça” é da proveniência de Gonçalo Vasques Guedes, que foi escudeiro e vassalo de El-Rei D. João I, de quem recebeu a doação de juro e herdade de várias terras, através da outorgação de uma carta, a 24 de Julho de 1442. Embora desconhecendo-se as razões, o mesmo não conservou por muito tempo essas terras. No entanto o Mestre de Aviz fizera outra doação a Gonçalo Vasques, pela qual lhe doara de juros e herdade as terras de Murça, Água Revés e Torre de D. Chama, facto que está explicado numa carta que D. Duarte outorgou a Pero Vaz Guedes, filho de Gonçalo Vasques, através da qual confirmou a doação que havia sido feita por seu pai, D. João I, a este escudeiro. Embora esta carta tenha sido dada a 6 de Dezembro de 1433(48) é verdade que em 1393 já Gonçalo Vasques e filho Alvaro Guedes tinham comprado herdades e quintas em Murça, e seu termo, só que, e atendendo ao facto de a terra ser reguenga, pediram a garantia da sua posse ao mestre de Aviz, o que aconteceu após terem sido pagos os respectivos tributos.(49) No entanto só ao fim de um largo período de tempo é que essa doação foi tornada efectiva a Simão Guedes, que foi o 5º senhor de Murça, através de uma carta outorgada a 28 de Julho de 1544. Lourenço Guedes, filho de Simão Guedes, sucedeu na casa de seu pai e foi confirmado como 6º senhor de Murça, por carta de 5 de Maio de 1573. Tomando parte na expedição a Alcácer–Quibir, onde veio a morrer, deixou como descendente a filha única, D. Filipa Guedes, a quem o Cardeal D. Henrique concedeu, através de um alvará passado em 23 de Julho de 1579, a herança de mercê de terra de Murça e de outras.

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Embora D. Filipa Guedes tivesse casada com D. Martinho Mascarenhas, a verdade é que não houve descendência. Mais tarde, e no meio desta situação, aparece na ribalta Pero Guedes, que era irmão daquele que foi 6º Senhor de Murça, Lourenço Guedes, homem entusiástico e partidário de Filipe I, tendo por isso ocupado lugares de destaque na política nacional. Esse Pero Guedes deixou um filho primogénito, Simão Guedes, a quem Filipe II, fez mercê de juro e herdade do senhorio das terras de Murça, Água Revés e Torre de D. Chama, através do alvará de lembrança dado em Madrid a 28 de Abril de 1601 e confirmado em Valladolid a 30 de Julho de 1601. Simão Guedes passou a ser o 8º senhor de Murça, que por sua vez morreu sem deixar descendentes. O mesmo Filipe II, tendo em atenção os feitos heróicos de Pero Guedes, morto na Índia, fez mercê destas terras a D. Joana Guedes, filha de Pero Guedes, que havia casado com Luís de Miranda Henriques, que foi estribeiro-mor das referidas terras em três vidas. O alvará foi dado através de uma carta em 3 de Outubro de 1624, tendo por obrigação dar uma pensão anual a D. Guiomar, viúva de Simão Guedes. D. Joana Guedes e seu marido passaram a ser os nonos Senhores de Murça, tendo sido seu sucessor, o filho Pedro Guedes de Miranda, que foi nomeado 10º senhor de Murça. Este foi casado com D. Maria Josefa Mendonça, que era a 10ª Senhora da Quinta da Bacalhoa , tendo deste casamento nascido Luís Guedes de Miranda, que foi 11º Senhor de Murça. O 14º e último Senhor de Murça foi Manuel José Guedes Miranda, que era bisneto de Pedro Guedes de Miranda, tendo falecido sem descendência, a 9 de Outubro de 1825. Perante esta situação foi extinta a primeira linha de descendência de Pedro Guedes de Miranda, pelo que a representação da Casa de Murça passou para os descendentes de sua filha D. Joana de Mendonça e seu marido D. António José de Melo, o qual era irmão de D. Maria Ana Josefa de Bourbon, que casou com D. Miguel de Melo Abreu Soares Vasconcelos, senhor dos morgados de Fonte Boa, Vilar e outros. Foi um neto deste, D. Miguel António de Melo, que sucedeu na Casa de Murça, tendo sido mais tarde nomeado 1º Conde de Murça. 60


Condes de Murça 1º Conde: D. Miguel António de Melo Abreu Soares de Brito Barbosa Palha Vasconcelos Guedes. Era filho de D. João Domingues de Melo e Abreu, um moço fidalgo Comendador da Ordem de Cristo e de D. Joaquina de Noronha, neta dos 3ºs Marqueses de Marialva, nasceu em 25 de Dezembro de 1766 e morreu a 7 de Agosto de 1836. Sucedeu na casa de Murça a seu outro parente, Manuel José Guedes de Miranda, e foi considerado o 14º Senhor de Murça, embora o título de Senhorio nunca tivesse sido confirmado. Depois de ter sido governador e capitão general de Angola e Ilhas dos Açores, membro do Conselho da Fazenda e presidente do Real Erário, foi nomeado 1º Conde de Murça, de juro e herdade, por carta de 11 de Fevereiro de 1826. Moço fidalgo com exercício e par do reino, envolveu-se mais tarde na política, tendo sido Ministro de Estado e Fazenda e interino dos Negócios Estrangeiros. A perspicácia na política e o gosto de escrever contribuíram para que trouxesse a lume vários escritos destacando-se o “ Projecto para Reforma da Lei Fundamental da Monarquia Portuguesa ajustada ao génio...”, sendo este um projecto de constituição, mandado elaborar por El-Rei D. João VI. Mais tarde afastou-se da política e casou em 25 de Outubro de 1815, com sua sobrinha D. Maria José de Albuquerque.(50) 2º Conde: D. José Maria de Melo Abreu Soares de Brito Palha e Vasconcelos Guedes Era filho primogénito do 1º Conde de Murça, nasceu a 4 de Setembro de 1817 e morreu a 8 de Novembro de 1858. Foi o 15º Senhor de Murça, sucedendo em toda a sua casa, a seu pai e foi nomeado 2º Conde de Murça por carta de 1 de Outubro de 1836. Um ano depois recebeu a condecoração de Comendador da Ordem de Cristo e casou com D. Helena Maria da Piedade de Lencastre, filho dos 4ºs marqueses de Abrantes, não tendo havido descendentes deste casamento.(51) 3º Conde: D. João José Maria de Melo Abreu Soares de Vasconcelos Guedes de Brito Barbosa Palha. Era filho dos 1º Condes de Murça, tendo sucedido a seu irmão

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D. José Maria de Melo, o 2º Conde, já que este não teve geração. Nasceu a 20 de Agosto de 1820 e morreu a 10 Julho de 1869. Cavaleiro da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa e da Ordem de Malta, foi sucessor de toda a Casa de Murça e seus vínculos e capitão das Guardas Nacionais. Foi nomeado 3º Conde de Murça, por decreto de 9 de Março de 1859. Anteriormente, em 1855, tinha casado com D. Ana de Sousa Coutinho Monteiro Pais, filha dos 3ºs Condes de Alva e dama da Rainha Coutinho Monteiro Pais, filha dos 3ºs Condes de Alva e dama da Rainha D. Maria Pia, de cuja união matrimonial nasceu uma filha primogénita.(52) 4ª Condessa: D. Mariana das Dores de Melo Abreu Soares de Brito Barbosa Palha Vasconcelos Guedes. A filha primogénita do 3º Conde, nasceu a 26 de Março de 1856, tendo casado, a 8 de Janeiro de 1876, com o 3º Conde de Sabugosa, António Vasco da Silva César e Mendes. Foi nomeada 4ª Condessa de Murça, por decreto de 1 de Março de 1871. Foi dama camarista das rainhas D. Maria e D. Amélia, dama da Ordem das Damas Nobres de Maria Luísa de Espanha, tenho sido condecorada com a cruz “pro ecclesia e Pontífice”. Do seu casamento com o 3º Conde de Sabugosa, distinto escritor e um dos elementos do grupo “Vencidos da vida“, nasceu um filho primogénito, que foi mais tarde 11º Conde de S. Lourenço e um filho secundogénito, D. Jorge José de Melo, que veio suceder no titulo de Conde de Murça.(53) 5ºConde: Jorge José de Melo Nasceu a 5 de Setembro de 1886 e, como segundo filho da 4ª Condessa, foi nomeado 5º Conde de Murça, tendo sido autorizado ao uso de título, já sob o domínio republicano, por D. Manuel II, estando este no exílio. Último representante da hierarquia dos condes de Murça, D. Jorge de Melo casou a 4 de Junho de 1924 com D. Fernanda Falcão de Sommer, de cujo casamento nasceu, em 1926, António Maria de Sommer de Melo.(54)

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Mosteiro

das Freiras Beneditinas

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O

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antigo mosteiro de São Bento de Murça foi fundado no ano de 1587, por duas freiras do Convento de Vairão, que eram senhoras da Casa dos Marqueses de Vila Real. Este mosteiro resultou da conversão de uma albergaria fundada anteriormente na vila de Murça por Simão Guedes, Senhor de Murça, que juntamente com o povo, pediu à Santa Sé autorização para criar o convento. Destinado a dar guarida aos peregrinos, aos doentes e agasalho aos pobres e desamparados, o mesmo funcionou durante vários anos no edifício onde actualmente se encontram instalados aos Paços do Concelho, podendo ainda admirar-se um nicho contendo a imagem em pedra de S. Bento. Leão de S. Tomás, na obra “Benedictina Lusitana”, insere o texto que a seguir transcrevemos, o qual nos dá a conhecer de maneira explícita a fundação do Mosteiro de São Bento de Murça, que ficou ligado à Igreja de St.º André de Murça. O Mofteyro de São Bento de Murça, alem de Chaues na Provincia de Trás-os-Montes, foy fundado por Simão Guedes, fenhor da dita Villa de Murça, o qual edificando nomefmo lugar hum Hofpital para agafalhar pobres, & peregrinos, pareceo depois mellhor aos Padroeyros, & moradores, que no Hofpital fe fundaffe hum Mofteyro de Religiofas de São Bento: & pedindo liçenca à See Apoftolica pera fazerem aquella troca, alcançada licença fundarão o Mofteyro com a renda do Hfpital, & com a mais que lhe acrefcentarão de nouo, que foy muy baftante pera poderem ter, & foftentar muytas Religiofas de São Bento. Mandarão pedir naqelle feu principio Religiofas ao noffo Mofteyro de Vayrão pera regerem, & gouernarem aqulle nouo Mofteyro, & delle lhe mandarão duas Religiofas qualificadas


em fangue, & Religião, que forão Dona Ioanna de Soufa, & Dona Violante de Noronha, q derão tal principio ao dito Mofteyro, no anno de mil & quinhentos & oytenta e fete, que até agora perfeura com grande Religião, & obferuancia da Santa Regra ; que he grande bem & grande ventura, ter bons meftres no principio, como teue Alexandre Magno em ter Ariftoteles por meftres, Elifeo ao grande Elias, S. Thomas a Alberto Magno, o gloriofo São Mauro, ao grande Patriarcha S. Bento. (55) No decorrer da sua existência esta instituição desempenhou um papel importante na assistência social. Em 1834 e por força da aplicação de uma lei que proibiu admitir novas freiras, apenas podendo permanecer nesse convento as que já lá viviam, o que deixou de acontecer quando da morte da última, o mosteiro foi extinto, após o que o imóvel e a grandiosa cerca passaram juntos para o poder do Estado. Posteriormente, parte desse mesmo imóvel foi demolido, sendo o respectivo recheio depositado na Igreja Matriz.

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Murรงa

entre 1835 e 1985

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REVOLUÇÃO LIBERAL Ponto de passagem para o interior transmontano, a Vila de Murça presenciou e viveu acontecimentos que lhe permitem afirmar-se como um dos centros históricos mais importantes da região transmontana. Se desde os tempos mais remotos da história da Lusitânia, passando ao período da formação da nacionalidade e posteriormente durante a longa época medieval, estas terras marcaram a sua presença num contexto nacional, também é certo que no intervalo de tempo entre a dominação filipina e a época das lutas entre absolutistas e liberais, Murça continuou a viver acontecimentos de certa relevância política a nível do país. Neste último período, a vila de Murça foi local de passagem para importantes figuras da vida política portuguesa, pois aqui também surgiram fortes escaramuças entre os partidários de uma e outra facção. Dirigindo-se de Vila Real em direcção a Moncorvo, tendo por objectivo escorraçar o destemido general miguelista, José Cardoso Carvalho, aqui estiveram o Duque da Terceira, seu ajudante Marquês da Fronteira e d’Alorna, a sua ordenança o marquês de Castello Melhor e ainda o Marquês de St.ª Marta, o qual após se ter rendido em Vila Real, veio acompanha-los até Murça. Mas outras personagens fizeram a sua paragem, como foi o caso de João Estevão e Sá-da-Bandeira.

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Foi também durante este período de enorme movimentação política em todo o país e particularmente em Murça que aconteceram as peripécias mais interessantes geradas à volta do monumento monolítico “a Porca“, acerca das quais vamos falar mais adiante.

Período após o 5 de Outubro de 1910

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O movimento de intensa actividade política surgido em Portugal no início do séc. XX, que culminou com o derrube da Monarquia em 1910, disseminou-se de forma eficaz pelos mais diversos aglomerados urbanos e rurais, onde se constituíram pequenos movimentos, acérrimos defensores da Causa Republicana. Analisando os jornais que foram publicados em Murça no período da 1ª República, verificamos que o movimento republicano teve forte implantação nestas terras.


Diversas personalidades de Murça, encabeçaram esse enorme movimento que engrossado pelo número de entusiastas, se transformou num autêntico baluarte defensor dos ideais republicanos. Passados alguns meses sobre a data histórica de cinco de Outubro foi criado o “Centro Republicano Murçaense” e a 19 de Março de 1911, foi eleita a primeira Comissão Municipal Republicana incumbida de dirigir os destinos da Câmara Municipal do Concelho, sendo a mesma constituída pelo Presidente Carlos Augusto Alves Cotello, e pelos vogais, Dr. João d’Azevedo, Francisco Carneiro Lopes, José Guerra e Dr. Alberto Baptista. Como nota de curiosidade toponímica refira-se que esta Comissão Municipal Republicana deliberou em 3 de Abril de 1911 alterar o nome de algumas ruas, tendo como objectivo perpetuar de imediato os acontecimentos recentemente vividos em todo o País, e ansiados há muitos anos.

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Mas reforçar de maneira eficaz a defesa à volta dos valores republicanos não foi uma fácil tarefa. A situação agudizou-se não apenas pela insólita situação originada com o aparecimento da “Pneumónica” em 1918, mas também porque é ainda neste período que surge o chamado movimento da Monarquia do Norte. A “Traulitânea”, nome dado ao período de aguerridas lutas entre os defensores da República e os que ansiavam pelo retorno à Monarquia, foi protagonizada em Murça pelos mais diversos acontecimentos. Destaca-se assim, o estacionamento em Murça, durante largos dias, das forças militares de Vila Real e Amarante e que aqui se alojaram, juntamente com Paiva Couceiro. Armados até aos dentes, trouxeram consigo dezenas de cavalos e o mais diverso material de artilharia, pretendendo assim mostrar o reduzido número dos seus simpatizantes que levariam de vencida a contenda. Os vanguardistas do Movimento Republicano Murçaense abandonaram a vila para os locais mais escondidos espalhados pelas aldeias, onde aguentaram até à retirada dos exércitos, em direcção a Mirandela, local de forte resistência onde foi travada uma luta terrível entre as duas facções rivais. Após este período de forte efervescência a acalmia regressou às hostes republicanas, continuando os seus defensores a clamarem justiça em benefício da melhoria das condições de bem–estar social das gentes destas terras. Foi também durante este período, mais propriamente em 1922, sendo então presidente da Comissão Executiva da Câmara Municipal, Basilio Constantino Breia, que, à semelhança de outras localidades, circularam em Murça vários exemplares de notas em papel-moeda, exclusivo do concelho. Com o aproximar da 2ª República e na sequência dos anos que precederam a Revolução de Abril, Murça foi vivendo ao saber dos ventos que nem sempre lhes foram propícios.

Período após o 25 de Abril de 1974 Fazer a história de acontecimentos recentes, nomeadamente quando os mesmos estão ligados a factos conjunturais de formas de desenvolvimento no campo sócio-económico e cultural, é algo que se torna difícil ou impossível de concretizar. 70


É evidente que o Concelho de Murça só começou a sair do letárgico subdesenvolvimento no início da década de setenta do séc. XX. Sob a orientação de Joaquim Ferreira Torres, Murça lavou a “cara” e “uma lufada de ar fresco” pareceu surgir por todo o concelho. Entrados no período democrático e perante a nova dinâmica incutida ao poder local, o concelho de Murça notou ter chegado a hora de desenvolvimento e do progresso. Atendendo a que este é de facto o ponto mais difícil de caracterizar, já que muitas ambiguidades poderiam surgir de forma não intencional, e pelo facto de todos nós termos presenciado os pormenores surgidos no dia a dia que vai passando, apenas pretendemos concluir deixando expressos “in perpetuam memoriam”, os nomes dos Presidentes de Câmara Municipal de Murça, eleitos ou não após o 25 de Abril, de acordo com ordem cronológica : Joaquim Ferreira Torres, Domingos Gomes Martins, Belmiro Manuel Morais, Cândido Abel Borges, António Gerra Constantino Pereira, Alexandre Teixeira e Belmiro Manuel Morais Vilela e José Gomes.

Capela de Misericórdia

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Patrim贸nio

Art铆stico e Monumental

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A “Capela da Misericórdia”, classificada actualmente como monumento de interesse público, é um dos imóveis de maior interesse monumental e arquitectónico existente na Vila de Murça. Construída no ano de 1692, nos alvores da instalação da Misericórdia de Murça, esta capela pertenceu à casa dos Melos, primeiros condes de Murça. Encaixada entre duas construções de arquitectura em nada condizente com aquela que representa a beleza do referido imóvel, apresenta ainda hoje uma sumptuosa fachada, onde são evidentes as características determinantes da arquitectura barroca. A ligação ao estilo barroco é notória, graças à presença de colunas redondas encrustadas com diversas figuras salomónicas, onde aparecem figuras estilizadas de animais e plantas, sendo evidente uma concentração extrema e pesada dessas mesmas imagens. A robusta e majestosa porta principal é encimada por um brasão onde assenta a coroa real, denotando através da sua análise a existência de uma diagonal, indício de que está ligado à heráldica dos Melos, enquanto que numa noutra diagonal estão transcritas as palavras “AVÉ MARIA”. Na parte mais superior, e a ladear o nicho onde se encontra uma imagem em granito alusiva a Nª Srª da Conceição, exemplar preciosamente trabalhado, encontram-se duas inscrições latinas, onde ainda é fácil ler : “SAPIENTIA AEDIFICANT SIBI DOMUM ET EXCIDITUM COLUNNAS SEPTEM “. “QUAM TERRIBILIS EST LOCUS EST: HIC EST DOMUS DEI ET PORTA COELI”. 74


O interior confirma-nos a sua ligação à arquitectura barroca do mesmo modo que o Retábulo do Altar-Mor nos estabelece a ligação com o estilo barroco-jesuítico, aparecendo ainda alguns pormenores na ornamentação que nos ligam ao estilo Manuelino. Na pesada nave surgem o presbitério e dois altares laterais de talha dourada juntamente com o acolhedor Coro dos Frades. O tecto abobadado mostra-nos uma deteriorada pintura a fresco, onde é dominante a figura do Rei David, já que nos surge como constante de salmos ao som da melodiosa harpa. O facto de se apresentar alinhada na lista dos imóveis de interesse público, não tem merecido foros de qualquer tipo de regalias voltadas para a sua conservação. A evidente deterioração e os actos de vandalismo têm contribuído para que os oportunistas do alheio de vez em quando a desfalquem de alguns dos seus valores. O desaparecimento do maravilhoso Cristo em marfim, que estava colocado por cima do Altar-Mor e que desapareceu misteriosamente, sendo mais tarde substituído por outro esculpido em madeira, é uma das notas trágicas na vida deste monumento. (56)

Igreja Paroquial de Murça A Igreja Paroquial de Murça, no entender de Correia de Azevedo,“ é um templo sem qualquer particularidade arquitectónica”. (57) De facto, no exterior não se vislumbram traços arquitectónicos de particular importância, o mesmo acontecendo de uma maneira geral no interior. No entanto Reinaldo dos Santos considera a existência de alguns elementos arquitectónicos anteriores ao Séc. XVII, como é exemplo a pia de água benta, reflexo de um estilo manuelino tardio. Relativamente à sua antiguidade, somos levados a admitir que a sua construção teve lugar no ano de 1707, se consideramos ser verídica a inscrição numérica existente na parte superior da fachada principal.

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No entanto, e pelo que nos foi dado a conhecer, esta primitiva capela teria sido destruída por um incêndio, sendo posteriormente reconstruída e ampliada por volta do ano de 1734, altura em que se converteu na actual Igreja Matriz. No entanto nem tudo é desprezível, pois é verdadeiramente apreciável o “tríptico” aí existente e ao qual o exímio investigador de arte, atrás referido, dedicou particular atenção ao efectuar uma análise profunda e cuidadosa, quer das respectivas pinturas, quer dos documentos existentes actualmente no Arquivo Municipal de Guimarães, e outrora pertença da Colegiada de Guimarães.

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O trípico é composto por pinturas separadas : duas no corpo da igreja do lado direito e uma no corpo do lado do púlpito. Reinaldo dos Santos considera que essas pinturas, em tempos recentes restauradas numa oficina de pintura em Lisboa, devem ser posteriores a 1550, se atendermos ao documento da colegiada de Guimarães, situada entre 1564 e 1566. No seu entender, o autor dessas pinturas teria sido um pintor


de nível nacional, mas oriundo de terras transmontanas, cujo nome seria “Pedro de França”. Embora estas tábuas apareçam nesta Igreja e de construção posterior, isso poderá dever-se ao facto de as mesmas terem sido traduzidas dum convento Beneditino, o qual é plausível, já que esta congregação teve em Murça convento de freiras. Perante a importância e riqueza artística deste famoso trípico, ousamos transcrever, com a devida vénia, o conteúdo dos referidos documentos identificadores do verdadeiro autor das suas pinturas, bem como os elementos descritivos, os quais e em conjunto nos foram dados a conhecer por Reinaldo Santos: “Calvário”- “ Tábua de castanho de 1.35m de altura, por 1.17m de largura. Apresenta a composição habitual do Cristo Crucificado com Virgem de pé envolvida num manto azul, sobre uma túnica parda, o S. João de manto vermelho sobre a túnica salmão e a Madalena ajoelhada, envolta num manto amarelo. Na côr dominam os tons frios em que sobressai o azul esverdeado do céu com laivos amarelos e alaranjados em volta da cruz e nos horizontes da paisagem. O desenho é, como já dissemos, um pouco duro e a modelação sugere por vezes a escultura em madeira. Nas mãos, as pregas digitais estão fortemente vincadas e as carnes são dadas em meias tintas, rosa e creme, sempre de tons frios. Os maneirismos do desenho, da boca e dos olhos, lembra os mestres alemães e certos maneirismos de Matias Grunewald. Enfim, o desenho e recorte dos terrenos de tom sépia, estão fora das tradições da nossa pintura e são ainda reflexos da gravura alemã. A Madalena, de perfil agudo, o olhos estreito e alongado, boca em crescente, traduz os maneirismos já encontrados no S. João. Tem ao lado um vaso de perfumes da Renascença Alemã. “S. Francisco recebendo os estigmas” – Madeira de castanho; 1.40m de altura por 0.57 de largura, ou seja cerca de metade da largura do painel do Calvário. No santo de joelhos, mãos abertas recebendo os estigmas, reaparecendo mais acentuadas ainda os caracteres atrás descritos. No céu os mesmos tons azuis, esverdeados e amarelos em ondas concêntricas; nas mãos, na boca e nos olhos os mesmos maneirismos de S. João. Nos terrenos do primeiro plano os mesmos especiais de desenho. Ao alto o crucifixo a sépia, mostra mais uma vez que a visão cronomática deste pintor gira em volta do azul, esverdeado, amarelo e sépia, sempre em tons frios.

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O Bispo (S. Martinho) – Madeira de castanho; 1.40m de altura por 0.57m de largura – O bispo, de capa e báculo, recorta-se sob um fundo de arvoredo cujo maneirismo sugere como nos disse Altdofer, verdura aliás oculta antes do restauro. A cabeça dá a mesma sugestão de escultura em madeira e no céu, como no terreno sépio, os mesmos caracteres mais de uma vez acentuados. Os ornatos da orla da casula, como os próprios báculo, são da Renascença. Entretanto documentos existentes no Arquivo Municipal de Guimarães e citados pelo referido autor dão-nos a conhecer “documentos-recebidos” assinados por Pedro de França, os quais dizem respeito ao pagamento de despesas dessas pinturas : “Título do caderno “: “Título do recebimento que se começou no ano de 1563 anos/por dia de S. João Bautista”. Documento nº 15 : Recebi do cónego Baltasar Amriques mil e quinhentos rs de começo de paga retabolo qei pintar de Murça oje 4 dagosto de 1564 anos”. (a)Pedro de França Nota à margem : “O Pe Bedeiro lhe deu mais mil y dozentos rs qlhe ão de leuar em conta”. Idem : “ Recebi do conego Baltasar Amriques eu Pero de França trezetos rs qme ficou devendo o cabido de tres mil rs de hua parte do retabolo q pintei para Murça dos quaes me dou p pago oje XXI de novembro”. (a)Pedro de França Idem : “ Diogo eu Pero de França q he verdade q sou pago e satisfeito das obras de Murça q fui fazer de mandado dos snrs do cabido de Guimarães e por verdade assinei aqi era de myl lxb anos (1565)”. (a)Pedro de França (58)

Pelourinho

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Originários do período medieval, os pelourinhos construídos em granito pelas mãos de habilidosos pedreiros, afirmam-se como distintivos de jurisdição do concelho e da sua autonomia municipal. Em seu redor era muitas vezes feita justiça, pois em frequentes situações os criminosos e delinquentes eram amarrados à sua colu-


na, sendo aí aplicados os castigos corporais de harmonia com a gravidade dos delitos cometidos ou os costumes da época. Segundo Ruy d’Abreu Torres “os pelourinhos também chamados picotas localizavam-se sempre no interior dos centros urbanos normalmente em frente do edíficio Câmara”. (59) É neste contexto que nos surge a caracterização e a localização do Pelourinho de Murça. Edificado em tempos longínquos, no reinado de El-Rei D Manuel I, este Pelourinho, hoje classificado como monumento nacional, reveste-se de uma rara beleza no contexto dos pelourinhos nacionais. Situado na praça mais importante da vila, tendo ao fundo como cenário um maravilhoso edifício onde em tempos estiveram instalados a Câmara Municipal e o Tribunal Judicial, ainda hoje é enquadrado pelos belos exemplares de casas senhoriais, igreja paroquial e pelo edifício onde actualmente se encontram instalados os Paços do Concelho, outrora antigo convento de freiras beneditinas. Verdadeiro exemplar de estilo gótico, o pelourinho de Murça assenta numa “plataforma” constituída por sete graníticos degraus em forma piramidal, sob o qual emerge a importante “coluna” com feitio de cordão, que por sua vez é encimada por um “capitel” assente sobre quatro degraus quadrados no qual são bem visíveis as armas reais de D Manuel I. Sobre este mesmo capitel assenta um triplo remate, constituído por três pequenas colunas de feitio idêntico ao da coluna principal. Nesta ainda é visível a argola em ferro que servia para prender aqueles ou aquelas que nestas paragens iam cometendo as mais diversas atrocidades. Os mais velhos ainda têm na memória a existência de um freio que, segundo a tradição popular, servia para ser colocado na boca às mulheres de má língua e consequentemente servia para que as mesmas fossem presas aos pelourinhos, sendo mesmo nesse lugar feita a necessária e respectiva justiça da época.

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Ponte Nova e Ponte do Ratiço Estas duas pontes situam-se em locais equidistantes da vila de Murça, mas geograficamente opostos, já que a primeira se situa a poente e a outra a nascente. Ambas estabelecem ligações entre as margens de caudalosos cursos de água e fazem parte do traçado da actual Estrada Nacional Nº 15 que, saindo do Porto, se dirige a Vila Real, Murça, Mirandela até Bragança. A Ponte Nova, possuidora de um só arco, é um belo exemplar da época do Fontismo, sendo totalmente construída em pedra, tornando-se um importante monumento da arquitectura civil perante os atrevidos trinta e três metros de altura. A Ponte do Ratiço, embora seja construída integralmente em pedra, é mais pequena e de características arquitectónicas diferentes. É à saída desta que existe a bifurcação da Estrada Nacional nº 15 para a Estrada Nacional nº 314, via de infiltração na Zona da Terra Quente do concelho. Importa ainda acrescentar que para a primeira é referenciada a data de 1872 como ano da sua construção, enquanto que para a segunda é indicado o ano de 1880. Em ambos os casos podemos acrescentar que são dois marcos importantes na rede viária regional e nacional.

Ponte Romana Encravada no profundo curso de água – Rio Tinhela – entre o altaneiro monte do Cadaval na margem direita, e a vertiginosa encosta na margem esquerda perante o olhar compladecente do milénario “castro” situado no cimo das célebres “curvas de Murça”, encontra-se um sumptuoso e exemplar monumento provavelmente ligado à arquitectura romana – a chamada “ponte velha” ou “ponte romana”. Esta foi, até aos finais do Séc. XIX, o único ponto de passagem entre as duas margens do Rio Tinhela e o local de passagem obrigatória para todos aqueles que a pé, a cavalo ou de liteira se dirigiam em direcção a Vila Real e ao Porto. Se para alguns esta ponte apenas remonta aos tempos dos “Filipes”, por razões que adiante referiremos, a verdade é que a sua 80


construção parece perder-se nos tempos longínquos dos exímios arquitectos das vias militares romanas, na altura em que o invasor romano viveu nestas paragens. Os troços de via romana, ainda hoje visivelmente bem conservados, existentes de um e outro lado de ambas as margens e o “Castro do Cadaval” situado no monte que lhe é sobranceiro são a certeza de que por aqui passava uma via romana que por sua vez se bifurcava neste lugar ora em direcção ao Alto do Pópulo, ora em direcção às riquíssimas minas de Jales. A estes podemos juntar traços arquitectónicos definidores da sua provável edificação na época da romanização. Paralelamente podemos ainda hoje constatar facilmente a existência de elementos que a identificam com a época da dominação espanhola. No entanto somos levados a crer que todos eles dizem respeito apenas a uma possível reconstrução nesse mesmo período, da mesma maneira que nos mostram a importância da situação neste lugar. Referimos a este propósito e apenas imbuídos pelo desejo de informarmos que, de facto, existem na entrada do lado norte insculpidas numa enorme pedra as cinco quinas em cruz, sete castelos tendo à sua volta uma esfera ao lado da qual existe uma pedra com as letras: O L C O T e nesse mesmo conjunto uma enorme cruz voltada para poente.

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Ainda nesse mesmo local podem ver-se as letras: M O M A S B S M, bem como as letras : R V , ao lado das quais existe a data de 1841, sendo esta com certeza a data de mais um restauro. A acrescentar a estes elementos, salientamos ainda a existência de um marco de granito, situado a uns cinquenta metros da saída da ponte, na margem direita, precisamente onde é feita a bifurcação atrás referida, e no qual está insculpida a data de 1818, indicando para sul a estrada de Vila Real ao Porto e Douro, e para o outro lado a estrada para Vila Pouca e Braga. Importa também referir que, próximo da foz do Tinhela, mais precisamente no termo da aldeia de Porrais e no local onde se situam as Caldas de Sta Maria Madalena de Carlão, existe ainda hoje outra ponte que de igual maneira parece remontar à época romana.

Outros imóveis de interesse arquitectónico Casa dos Morgadinhos Construída no Séc. XVI, pertenceu aos Morgados de Murça. Possui uma janela de ângulo geminado, de feitura simples. Situa-se na Rua da Independência e pertence actualmente a Alfredo Gonçalves Pinheiro.

Casa dos Condes de Murça Fica situada na Praça Cinco de Outubro em frente ao Pelourinho e ostenta o brasão dos Condes de Murça. Pertence actualmente à família Alberto Rodrigues Adrego.

Casa das Laranjeiras Situada junto aos Bombeiros Voluntários, na Rua Alfredo Pinto Laranjeira e pertenceu ao Visconde de Morais Cardoso. Actualmente pertence a Basílio Guerra.

Casa do Seixo e Capela de Santa Iria

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Apresenta uma arquitectura ligado ao estilo Joanino. Foi construída nos fins do Séc. XVII. Tem anexo uma capela dedicada a Santa Rita, a qual foi fundada em 1815 por D. José Pires de Castro, trisavô da Marquesa de Vale Flor. Na fachada principal entre a porta e o campanário pode ainda ler-se:


“O S JOÃO PIRES DE CASTRO MANUEL PIRES DE CASTRO E MARIA CAETANA PIRES FUNDARÃO ESTA CAPELA NO ANNO MDCCCXV MANDARAM GRAVAR ESTA INSCRIÇÃO A MEMORIA DE SEUS VISAVÓS LI AUGUSTO PINTO COMENDADOR CONEGO FRANCISCO ANTÓNIO MARCO-LINO D ELISA AMÉLIA D MARIA JOAQUINA ELIAS DO CARMO E OS FILHOS D’ESTE EM 1896” A Capela foi restaurada em 1951 por David de Abreu, um pintor de Braga. No interior pode ver-se uma bonita imagem de Santa Rita, que se pensa ser da época da fundação da capela, tendo no entanto sido restaurada naquela data. Existe ainda um “Missal Romano” impresso em Lisboa na Tipografia Régia, no ano de 1808. A casa do Seixo e a Capela pertencem actualmente a António Luis Breia, embora esta esteja aberta ao público para prática do culto religioso.

Casa de Frei Inácio Cardoso Fica situada na Rua Marquez de Vale-Flor. É o edificio onde esteve instalada a Escola Preparatória.

Casa de Manuel Seixas Veloso Fica situada na Rua Central. É considerada por alguns especialistas, como sendo uma das mais belas casa de Murça, em estilo Renascença, possivelmente construída no último quartel do Séc. XV.

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Figuras ilustres

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D. DIOGO DE MURÇA Célebre letrado do Séc. XVI, este egrégio Murçaense era filho de um dos donatários das terras de Murça, Gonçalo Vaz Guedes e de D. Maria Pinto. Foi frade da Ordem de S. Jerónimo, tendo feito a sua profissão de Celibatário no Convento de Penha Longa. Mais tarde foi para Paris, onde estudou com D. Frei de Barros, primo do distinto historiador João de Barros e primeiro bispo de Leiria, as disciplinas de Humanidade e Artes, tendo ainda frequentado a Universidade de Lovaina de 1529 a 1531, onde obteve o doutoramento em Teologia. Frei Diogo de Murça, após ter regressado a Portugal, tornou-se um lente prestigiado de tal maneira que D. João III o nomeou Reitor da Universidade de Coimbra, tendo sido ele que, ao procurar executar o melhor possivel as directrizes e planos propostos por aquele monarca, conseguiu reunir a Universidade num único local e concentrou os poderes da direcção da Universidade no Reitor, facto que foi sancionado por cartas de D. João III, a 22 de Outubro de 1544. Foi este Reitor da Universidade de Coimbra que propôs ao monarca D. João III a reorganização da universidade, impondo que fosse efectuada com urgência a reforma dos “estudos menores” e fazendo sentir-lhe a deficiência existente no ensino dos princípios da latinidade. O facto de ser Reitor da Universidade valeu-lhe usufruir de alguns contributos da diocese, pelo que recebia mil cruzados das suas rendas. Frei Diogo de Murça fundou também o Colégio de S. Bento de Coimbra, foi administrador do Mosteiro de S. Miguel de Refoios de

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Bastos de onde tirou parte da côngrua para edificar dois colégios em Coimbra, um da Ordem de S. Jerónimo e outro que atrás referimos, pertencente à Ordem de S. Bento. Foi ainda Director do Convento de Santa Marinha da Costa, junto de Guimarães, onde fora educado D. Duarte, filho de El-Rei D. João III. Por último refira-se que Frei Diogo de Murça foi também um dos intelectuais que mais contribuiu para a criação das grandes Bibliotecas de Portugal. As gentes de Murça não esqueceram este ilustre filho. A toponímia Murçaense insere o seu nome em uma das ruas mais importantes da vila, enquanto que a maior homenagem, que poderia ter sido prestada a este intelectual, foi materializada através da atribuição do seu nome e título de patrono à Escola Preparatória e Secundária de Murça. Neste estabelecimento de ensino pode admirar-se a pedra que contém o seu brasão, enquanto que a casa onde teria nascido e habitado já não existe, pois no mesmo local foi construída uma habitação moderna. (60)

Gaspar Cardoso de Sequeira Célebre matemático do Séc. XVI, nasceu em Murça no último quartel desse século. Embora pouco se saiba acerca da sua morte, pensa-se que terá morrido depois de 1631. Mestre em Artes pela Universidade de Alcalá, foi Professor de Matemáticas em Lisboa, Coimbra e outras cidades de Portugal e Espanha. Dedicou-se também também à arte de escrever, tendo nesse campo publicado diversas obras de carácter filosófico–científico, entre as quais se destacam: “Prognóstico Lunário para o ano de 1605, com algumas anotações sobre o cabo” ; “Tesouro de Prudentes”, que inclui quatro livros sobre temas diversos, tais como a Medicina, Cirurgia, Astronomia e Aritmética. Publicou ainda o “Prognóstico geral e lunário perpétuo, assim das Luas Novas e Cheias como Quartos Minguantes e Crescentes” e “Primeira e segundas partes de segredos da Natureza tirados de regras philosóphicas, não menos uteis que curiosos”. Recentemente a Câmara Municipal de Murça adquiriu um precisos exemplar da obra : “Tesouro de Prudentes”. (61) 86


Dr. Constantino Botelho de Lacerda Lobo Filho de Manuel António Botelho, nasceu em Murça no ano de 1754, tendo falecido entre 1820 e 1822. Aluno distinto do Curso de Filosofia da Universidade de Coimbra, onde obteve, em 1781, o grau de Doutor e Lente de Filosofia, foi um exímio investigador cientifíco no campo da Fisíca e da Agricultura. Foi sócio efectivo da Academia Real das Ciências de Lisboa, e tornou-se notável por ter descoberto uma nova maneira de aplicar a força a vapor ao movimento das máquinas. Perante a não existência de fundos necessários à efectuação de experiências sobre esta invenção, a mesma foi-lhe roubada pelo sábio francês Versy, que mais tarde em França a explorou devidamente. Homem estudioso e aplicado às ciências escreveu um elevado número de “ Memórias “ de caracter científico que apareceram em diversos jornais e publicações de carácter científico: “Memória sobre a forma de supprir a falta de estrumes animais”, “Memória sobre a história das marinhas em Portugal”, “Memória sobre a Agricultura na provincia de Entre Douro e Minho”, “ Memória sobre um novo modo de applicar ao movimento das máchinas, a força do vapor d’agua fervendo”, etc.(62)

D. Inácio Morais Cardoso (Cardeal Patriarca) Nasceu em Murça a 20 de Dezembro de 1811. Terminado o curso de Teologia na Universidade de Coimbra, foi para o patriarcado onde exerceu os cargos de tesoureiro da Igreja da Misericórdia de Lisboa, capelão e confessor de D. Pedro V, tesoureiro- mor da Real Capela das Necessidades, cónego da Sé Patriacal e examinador pró-sinodal. Em 1863 foi apresentado Bispo do Algarve, tendo sido sagrado em 14 de Fevereiro de 1864. Passados seis dias tomou posse como seu procurador, o deão Joaquim Manuel Rasquinho, a quem nomeou provisor e vigário geral. Em 23 de Março de 1864, fez a sua entrada solene na vila de Murça. A 16 de Maio de 1871 é confirmado Cardeal Patriaca de Lisboa, concretizando-se a nomeação a 22 de Dezembro de 1873. Homem corajoso e frontal, D. Inácio de Morais Cardoso expediu a 16 de Abril de 1871 uma carta pastoral, através da qual 87


protestou contra a conquista de Roma pelos Italianos. Esta pastoral levou a que os jornais da época, influenciados pela maçonaria, propusessem que D. Inácio fosse processado e exautorado da régia, apresentação do patriacado. D. Inácio foi o representante da Igreja portuguesa no conclave que elegeu o Papa Leão XIII. (63)

Dr. Basílio Cabral Queiroz Nasceu em Murça nos limiares do Séc. XIX. Foi um dos “bravos” da praia de Mindelo, estando incluído entre os sete mil e quinhentos homens que aí desembarcaram para esmagar o regime de opressão miguelista. Licenciado em direito, brevemente se tornou um notável jurisconsulto que mais tarde assumiu a presidência do Supremo Tribunal.

General Alexandre José Malheiro

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Nasceu em Martim a 23 de Outubro de 1870 e faleceu em Lisboa no dia 8 de Setembro de 1948. Após ter assentado praça no Exército em 1889, facilmente se ambientou à disciplina militar, tendo sido promovido de imediato e em períodos subsequentes, aos postos de Alferes, Tenente, Capitão, Major, Tenente Coronel, ascendendo ao grau máximo da hierarquia militar: o generalato em 1932. Quase no início da sua carreira militar e ocupando na altura o posto de 2º Comandante da 6ª Brigada do Corpo Expedicionário Português em França, tomou parte na Batalha de 9 de Abril, onde foi feito prisioneiro dos Alemães, sendo apenas libertado com o armistício. A sua valentia e dedicação ao serviço militar vale-


ram-lhe algumas condecorações : “Medalha de Vitória e oficialato de Santiago e Grã-Cruz da Ordem de Avis “. Mas Alexandre Malheiro foi também um amante das Letras, pelo que foi distinto escritor. Entre outras, publicou as seguintes obras : “Crónicas do Bié” ; “O Fidalgo do Morgado “; ”Longe da Vista“ ; “Fidalguinha da Levada“; “O homem dos 50 Anos” e “O Primo Mário”. (64)

Alfredo Augusto Pinto Distinto publicista, jornalista e funcionário público, nasceu em Murça em 1881 e faleceu em Lisboa em 1 de Março de 1956. Dedicado à política desde muito cedo, pertenceu à geração que preparou a República e a prestigiou na sua acção construtiva. Nesta intensa actividade, Alfredo Pinto, foi Secretário do Interior em 1913, Chefe do Gabinete do Presidente do Ministério, Dr. Bernardino Machado, em 1914, tendo exercido nos anos imediatos o cargo de Chefe de Gabinete de vários ministros, acumulando simultaneamente o cargo de provedor da Assistência Pública. Mais tarde foi nomeado Director do Instituto Nacional do Trabalho, cargo que desempenhou com notável dedicação, tendo contribuido para o desenvolvimento prestigiante de diversas instituições ligadas à previdência e ao auxilio mútuo. É testemunho deste seu apego e exemplaridade o facto de ter sido considerado Sócio Honorário de diversas instituições desse género: Lutuosa de Portugal, Montepio do Professorado, Associação Mutualista da Póvoa de Varzim, etc. Como jornalista foi colaborador e articulista em diversos jornais, concretamente em “O Primeiro de Janeiro”, “A Capital”, “Diário de Lisboa “, tendo sido chefe de redacção do jornal “O Mundo”. No decorrer do período útil e necessário às nossas pesquisas documentais tivemos conhecimento que este filho de Murça legou o seu valioso espólio bibliográfico à Biblioteca Municipal da Póvoa de Varzim. (65)

Dr. Basílio Constantino Sampaio Natural de Murça, Basílio Sampaio, após ter concluido os seus estudos universitários, decidiu-se pela carreira diplomática. Para o facto frequentou durante alguns anos um estágio no Ministério dos Negócios Estrangeiros.

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Mas algo imprevisto aconteceu, já que, e não se sabendo porquê, livremente optou pelo seu abandono. Consequentemente aquele que parecia ser um promissor diplomata deste País, radicou-se em definitivo na sua terra natal, onde constituiu uma importante casa agrícola.

Aníbal Augusto Milhais - “Herói Milhões” Aníbal Augusto Milhais, o “Herói Milhões”, nasceu a 9 de Julho de 1895 em Valongo, concelho de Murça, e morreu a 3 de Junho de 1970. Filho de simples e honestos agricultores para quem o amanho das terras era o único meio de subsistência, Aníbal Milhais mostrou desde tenra idade ser humilde, mas rijo transmontano. Perante a obrigação de cumprir o serviço militar, foi assentar praça em Bragança, passando de imediato para o regimento de Infantaria 9, em Chaves, onde mostrou ser exímio especialista no manejo de metralhadoras, evidenciando-se simultaneamente como aguerrido e cumpridor nos trabalhos mais arriscados. A participação de soldados portugueses nas frentes de batalha em França, durante a 1ª Grande Guerra Mundial, contribui para que a sorte ou o infortúnio lhe batesse à porta, pois ele também teve que embarcar para o campo de batalha no dia 23 de Maio de 1917, tendo sido integrado na 3ª Companhia do 1º Batalhão que rumou a terras gaulesas. A partir de então, e perante as constantes batalhas fraticidas e os ensurdecedores bombardeamentos de metralhadoras e canhões, Aníbal Milhais sentiu a vida em perigo, enquanto a seu lado iam tombando nas trincheiras os corpos de companheiros que junta90


mente lutavam em “terras de ninguém”. É neste tétrico ambiente que surge a manhã duvidosa de 9 de Abril de 1918. Após a infantaria alemã ter inundado de fogo e sangue os verdejantes campos de LA LYS, motivo para que a tenacidade e a loucura se instalasse nas hostes aliadas, o Milhais, possuidor de um perspicaz sentido de inacreditável perícia, conseguiu sobreviver no meio do moribundo batalhão lusitano. Valeu-lhe a sua bravura e coragem para que de metralhadora ao ombro, conseguisse dizimar em pleno vale, milhares de inimigos, protegendo simultâneamente a retirada de muitos e desfalecidos companheiros. Ainda não totalmente satisfeito com o seu acto de valentia, Aníbal Milhais manteve-se de vigia durante cinco dias, à entrada de um canal, em Huit Maisons. Embora isto nos pareça uma “história de guerra de crianças”, o certo é que tudo isso é amplamente confirmado através do louvor que lhe foi prestado diante do seu pelotão, sendo o mesmo confirmado pelo texto inserido na OS n.º 186 do BI, de 15 de Julho de 1918. “Sendo número um da guarnição da sua metralhadora, revelou extraordinária bravura e coragem, efectuando o exemplo vivo da valentia e realizando voluntariamente a defesa do seu pelotão. Em Huite Maisons atacou com grande vigor o avanço inimigo, não abandonando o posto senão quando os portugueses e escoceses já tinham retirado, salvando alguns destes de caírem nas mãos do inimigo, pois protegeu a retirada de todos manejando a sua metralhadora com valor, lealdade e mérito indiferente à artilharia e metralhadoras inimigas”. Foi perante esta tal bravura que o seu comandante Ferreira do Amaral, o abraçou exclamando: “ Tens o nome de Milhais mas vales Milhões”. Foi esta simples frase que o imortalizou na memória dos portugueses com os nomes de “Soldado Milhões” e “Herói Milhões”. Ainda em pleno campo de batalha, o bravo “Soldado Milhões” foi condecorado com algumas com algumas das mais altas condecorações que então eram atribuídas aos maiores defensores da Pátria. Regressando a Portugal e durante longos tempos jamais pararam as manifestações de carinho e reconhecimento, enquanto que a grande maioria das cidades portuguesas o quiseram honrar publicamente.

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Essas manifestações de apreço foram amplamente noticiadas nos diversos orgãos de comunicação social de Portugal e do Brasil, conforme é possível constatar através da leitura de jornais da época, os quais por sua vez nos dão a conhecer como este herói da Pátria foi inúmeras vezes convidado a participar em sessões solenes de varia índole realizadas nos mais diversos pontos do país. Nos jornais brasileiros, “Pátria Portugueza” (1925); “Noite” (1928) e os portugueses, “Jornal de Notícias” (1930); “Diário de Lisboa” (1924); “O Século” (1959), entre outros, dão-nos conta de como isso aconteceu. De entre as mais diversas condecorações que a sua familia ainda hoje conserva com amor e carinho, as quais provavelmente poderão um dia ser entregues ao futuro e desejável Museu das Terras de Murça, sobressaem a “Torre-e-Espada” que lhe foi entregue pelo General Gomes da Costa, a “Cruz de Guerra de 1ª Classe “ e a “ Cruz de Leopoldo da Bélgica “. Embora o feito tivesse surgido após a sua morte, a verdade é que o “Herói Milhões” está perpetuado na sua querida vila de Murça através da edificação de um simples busto colocado numa área ajardinada, que recebeu o seu próprio nome. Que este simples Murçaense sirva de exemplo aos jovens que dia a dia vão brotando das entranhas das terras de Murça!...(65)

Américo Constantino Breia

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O Comendador Américo Américo Constantino Breia nasceu em Murça a 15 de Novembro de 1893, tendo falecido em 28 de Novembro de 1957. Emigrante no Brasil desde tenra idade, aí fez grande fortuna, tendo fundado a firma “Seabra e Companhia”. Mais tarde regressou a Portugal, na década de 30, tendo construído uma bela casa, de estilo arquitéctónico, com o projecto assinado pelo arquitecto Natal Paladini, a qual se transformou num ex-libris da construção civil, em Murça. O título de Comendador, foi-lhe entregue pelo Presidente da Républica, Marechal Carmona, sendo o mesmo bem merecido, face aos importantes e vultuosos donativos dados ao Hospital da Misericórdia e aos Bombeiros Voluntários. O nome deste ilustre Murçaense está imortalizado numa das ruas principais da vila de Murça.


Dr. Manuel Morais da Fonseca O ilustre Médico, Dr Manuel Morais da Fonseca, nasceu em Murça a 20 de Agosto de 1894 e faleceu em 2 de Maio de 1947. Licenciado em Medicina pela Universidade de Lisboa, do seu matrimónio nasceram os filhos : António Correia da Fonseca e Brigida Morais Cardoso Fonseca. Exerceu a sua actividade como Médico e Sub-delegado de Saúde, durante vários anos, na vila de Murça, tendo sido considerado como um Médico de elevado sentimento altruísta, designado pelo seu bem-fazer, como o “médico dos pobres”, ele que não olhava a distâncias, aos rigores dos invernos e dos caminhos, a todos prestava assistência médica de forma gratuita.

Escola Primária - Murça

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Jornais de Murça

1 – GEOGRAFIA

Relevo. Solo. Clima. Flora.

Monumento em homenagem aos Vitivinicultores

94Escultor: Helder de Carvalho


O

Movimento Republicano originou por toda a parte a proliferação dos mais diversos e variados orgãos apoiantes e difusores de ideias e directrizes que se afirmaram como veículos defensores de um novo e importante movimento cultural. Murça é uma das localidades do rejuvenescido Portugal, onde se constata a existência de alguns desses orgãos informativos no período correspondente à 1ª República (1910-1926). Os jornais então vindos a lume constituem um importante tesouro cultural, já que, através deles, nós podemos tomar conhecimento de factos concretos e evidentes que nessa época tiveram lugar, não apenas no âmbito local mas regional. A concretização do plano que visa a criação de uma Biblioteca e Museu Municipal pela parte da autarquia Murçaense poderá levar esse património, provavelmente disperso nesta e naquela habitação ou amontoado no fundo das gavetas, possa vir a ser descoberto e livremente entregue nesse centro cultural, permitindo que todos os amantes da investigação possam facilmente encontrar elementos preciosos sobre o modus vivendi das gentes de Murça naquela época. Uma breve investigação levou-nos ao encontro de alguns desses documentos sobre os quais vamos tecer algumas considerações. 95


“O Povo de Murça” Quinzenário Republicano Director Político – Carlos Botelho Redactor Gerente – Maximiano Seixas Editor – António Pereira Redacção e Administração – Rua do Correio – Murça Composição e Impressão – Imprensa Moderna – Vila Real Periodicidade – Quinzenário Início da Publicação – 31 de Janeiro de 1911 Escolhida a memorável data de 31 de Janeiro para o seu lançamento, “O Povo de Murça” pretendeu ser um acérrimo defensor das ideias republicanas. Identifica-se com o próprio povo de Murça e as suas ideias, na medida em que também ele é Republicano. Considera que os habitantes de Murça sentiram a agitação, comoveram-se e manifestaram-se, prova evidente de que entenderam ser seu dever lutar pela Pátria. O “Povo de Murça” surge para lhes dar ânimo , enaltecendo em simultâneo os movimentos vividos em prol da liberdade, da justiça, do amor e da fraternidade, que por sua vez são atribuídos intrinsecamente ligados ao espírito do movimento libertador republicano. Este é o pensamento com que ficamos ao analisarmos o seu primeiro número, enquanto que no número dois já se vislumbra o desejo de que este mesmo orgão sirva para informar e esclarecer as obscuras e ofuscadas mentalidades, que até então viveram sob a opressão e o despotismo da imbecil e ultrapassada monarquia. O “Povo de Murça” tinha como colaboradores um grupo de bairristas Murçaenses, todos eles fortemente imbuídos de ideias republicanas : Dr. Basílio C. D’Almeida Sampaio, Dr. João Fernandes d’Azevedo, Antonio Cabral Lacerda, Antonio Correia da Fonseca, Artur Maria Afonso, Amândio Pinto de Almeida e José Batista Lobo. A publicação deste jornal terminou no decorrer do mesmo ano em que se havia iniciado.

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“Ecos de Murça” Quinzenário republicano, Literário e Noticioso Editor – Manuel Veloso Redactor, Administrador e Proprietário – A. d’Almeida Redacção e Administração – Rua do Correio – Murça Composição e Impressão – Tipografia Neves - Mirandela Periodicidade – Quinzenário Início da Publicação – 15 de Janeiro de 1912 “Ecos de Murça” apresentou-se à população de Murça como um orgão predisposto a lutar pelos interesses do concelho. Imbuído de um forte espírito comungador de ideias republicanas afirma-se, pela voz de editorialista, como sendo um digno substituto do periódico, “Povo de Murça”, que, por razões não muito esclarecidas, apenas teve alguns meses de vida. Considerando ser um combatente pela defesa da liberdade, igualdade e fraternidade entre todos os cidadãos, “Ecos de Murça”, surge também como orgão de informação que tinha por objectivo primordial lutar pelo progresso de uma fértil e carinhosa —Murça —, cansada de esperar pelos serviços e promessas que nunca mais eram concretizadas. Assim continuaram a ser as suas directrizes já que no esfolhear dos seus inúmeros exemplares se constata o apoio à união em torno de um movimento capaz de tirar esta terra e suas gentes do obscurantismo edificado durante séculos de dominação monárquica. Mais tarde e após ter aparecido com outra imagem gráfica, mais propriamente com a mudança do seu frontispício, surge-nos A. Pereira como editor, sendo administrador Antonio M. Pinto.

“O Morcego” Director – José Alves de Freitas Director e Proprietário - Bernardino d’Oliveira Editor – Manuel Moutinho Composto e Impresso – Imprensa Moderna – Vila Real Periodicidade – Quinzenário Início da Publicação – 2 de Maio de 1916 Pelo que nos foi dado a conhecer, “O Morcego” surge como 97


um orgão imbuído de um espírito satírico, mas onde a crítica visa contribuir para a edificação de um futuro melhor que o passado. Mais parecendo um veículo transmissor de pensamentos e ideias mitológicas, perante o argumento animal no qual ele foi simbolizado, e já que os seus artigos são assinados pelos entes superiores do universo mitológico, “O Morcego” parece alertar-nos para uma intervenção política que de uma vez por todas crie novas mentalidades capazes de modificar o comportamento humano, tornando o indivíduo mais responsável, incutindo-lhe novo sentido de personalidade e integridade moral.

“A Ideia” Director – José Alves de Freitas Editor – Carolino Constantino Dias Redactor e Administrador – Jose Luís de Cabral Lacerda Redacção e Administração – Murça Composição e Impressão – Imprensa Moderna , Vila Real Periodicidade – Quinzenário Início da Publicação – 21 de Outubro de 1926 Analisando os primeiros números, “A Ideia” parece surgir imbuído de um espírito místico-filosófico, já que o editorial do primeiro número, saído da pena de Jorge Lacerda, nos parece transmitir esse pensamento definidor. “A Ideia” foi um jornal de curta duração. Surgiu como um plano idealista, capaz de concretizar desejos e vontades dessa “Ideia”, que tinha como objectivo primordial lutar pelo engrandecimento moral e material de uma terra que no entender do mesmo editorialista, continuava a ser berço de muitos homens e mulheres impregnados de um espírito bairrista, muitos dos quais já tinham partido para o Além, abraçados eternamente ao símbolo do amor e da liberdade. A razão do seu aparecimento parece estar explícita nas últimas linhas do editorial do primeiro número : “Lutar por este pequeno torrão que se chama Murça, e fazê-lo pelas terras inteiras ! Lutar por este povo, pelos seus filhos, é combater por toda a Humanidade”. 98


“A Voz de Murça” Director – Jose Alves de Freitas Editor – Carolino Constantino Dias Redactor, Administrador e Proprietário – Jorge Luís Cabral de Lacerda Redacção e Administração – Murça Compsoto e Impresso – Tipografia Empresa de Publicidade – Marco de Canavezes Início da Publicação – 15 de Outubro de 1926 (?) Este periódico parece ter surgido paralelamente com “A Ideia”, isto porque, embora só tivessemos a oportunidade de analisar alguns dos seus exemplares a partir do número cinco, somos levados a concluir que a sua publicação teria sido iniciada para ambos no mesmo mês. No entanto, e pela análise que efectuamos a um exemplar desse número, o editorialista, que simultaneamente era proprietario, refere-nos que “A Voz de Murça” surge dentro do espírito de “A Ideia”, já que este, por diversas vicissitudes ocasionais, deixou de ser publicado. Perante o seu desaparecimento, surge “outra ideia“ que foi materializada na “Voz de Murça“ de maneira que a sua voz “possa, clara vibrante e livre, ecoar perto ou por longínquas paragens, introduzindo-se em todos os lares como fiel intérprete de todos aqueles que lhe sejam queridos e sempre lembrados.” “A Voz de Murça” propõe defender a mesma causa por que lutou “A Ideia” e todos os outros jornais anteriormente citados. “A Voz de Murça” viveu os períodos conturbados do fim da 1ª República. Muitos dos seus números foram visados pela censura. Este jornal lutou e procurou levar até junto do poder central, através das diversas “cartas abertas” escritas pelo destemido Jorge de Lacerda, o descontentamento da população de Murça face à extinção da respectiva comarca e a sua anexação à comarca de Alijó. Através das suas páginas procurou mostrar como esta terra fértil e rica continuava voltada ao abandono pelos departamentos ministeriais. Este mesmo periódico terá sido o último orgão de comunicação social escrito a ser publicado no Concelho de Murça. 99


Potencialidades TurĂ­sticas

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A

situação geográfica, as características do relevo, o riquíssimo património natural, etnográfico e cultural, perante uma latente vivacidade dos costumes e tradições que ainda estabelecem uma estreita ligação entre o presente e o passado, são atributos suficientes para podermos afirmar que o Concelho de Murça tem algo de importante para oferecer a todos aqueles que o visitam. Perspectivando o turismo, não apenas como lazer, mas como uma forma de cultura, podemos afirmar que existem nestas terras os condimentos indispensáveis para que o visitante possa simultaneamente deleitar-se e enriquecer a sua capacidade de absorção dos valores etnográfico-culturais aqui existentes. Vindo do Norte ou do Sul, do Interior ou do Litoral, torna-se obrigatória a paragem em Murça, pois assim ficamos certos de que apreciamos uma das realidades mais evidentes no contexto geral da paradisíaca paisagem transmontana.. Seguindo o traçado da Estrada Nacional nº15, que saindo da cidade Invicta e após a passagem por Amarante, se entranha na montanhosa região transmontana através de um caminhar ondulante de sobe e desce, constata-se a existência de um planalto montanhoso - Alto de Pópulo - a partir do qual é possivel vislumbrar de uma forma inacreditável um maravilhoso enlevo panorâmico, verdadeira janela imaginária aberta, quanto a vista humana possa alcançar. Ao longe e após ter sido prestada a devida homenagem ao vale profundo onde correm as águas sussurrantes do Tinhela, tendo ficado para trás maravilhosas e ondulantes “curvas de Murça”, deparamos com a simpática e acolhedora vila de Murça. Raínha sentada no trono, Murça, sente-se acarinhada e rodeada por pajens em posição altaneira que, ao surgir o perigo, facilmente acorrem em sua defesa.

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O miradouro, o Monte de S. Domingos e, mais ao longe, a Serra da Garraia, genuíno parque natural ladeado por autênticas aldeias serranas, abençoadas pelo olhar imponente da Virgem de Sta Comba, que não se deixou apanhar pelo enfurecido rei de Orelhão, são documentos de um importante património natural que espontâneamente emolduram e lhe oferecem uma vida colorida. A primavera multicolor onde a esteva, a carqueja, a giesta e o rosmaninho lhe oferecem um traje de cerimónia é um presente alegre e radiante adequado a uma terra hospitaleira. Deixando a “capital” do concelho e seguindo em direcção a Chaves, facilmente nos deliciamos com o orífero e saudável cheiro a pinho entremeado pela paisagem florida e um amarelo garrido das soalheiras tardes de Maio. E no profundo do vale onde a água límpida permite que a fada mais bela se espelhe, para pentear os suaves e dourados cabelos, surgem-nos os pitorescos povoados de Mascanho e Penabeice. Mas se o pinho e a giesta são a matiz destas paragens, também é verdade que, ao descermos calmamente para o rio Tua, encontramos a perfumada carqueja e um oculto e penetrante cheiro a rosmaninho, que pouco a pouco vamos encontrando nos socalcos ondulantes onde os bardos e valados da vinhateira planta contribuem para que esta seja a mais bela e mais rica zona deste paradisíaco concelho de Murça. Noura, Martim, Candedo, Porrais e Sobreira são aglomerados onde as ramadas verdejantes dos vinhedos e o verde azeitona dos olivais não permitem que ser humano algum passe sem ter a oportunidade de levar consigo a ideia de que estas terras são de união entre Trás-os-Montes e Alto Douro. Anteriormente frisamos o contraste entre a montanha e o vale, as suas virtudes e desalentos. Agora, e perante esta simbiose, deparamos com a riqueza piscícola e venatório existentes nestas paragens. Autêntica praia fluvial, as margens do rio Tua, desde a aldeia de Sobreira até à foz do Tinhela, são locais aprazíveis nas tardes cálidas e noites luarentas de um estio abafador. Paralelamente apresentam-se como locais atraentes para os amantes do desporto piscatório, já que durante todo o ano é possível pescar a boga, a enguia, o barbo, a truta, o escalo e o milenário mexilhão. Mas se aqui a sobrevivência depende até certo ponto do peixe, nas


elevações, no monte, na floresta, o homem tem a possibilidade de sobreviver à custa dos mamíferos ou de aves, pois aí vivem, para além dos carnívoros, os herbívoros, como as lebres, e os coelhos, e os granívoros como as perdizes, as rolas, as codornizes e os tordos. Desta maneira a caça e a pesca assumem um cariz dualista de lazer e de sobrevivência para todos aqueles que aqui vivem ou por aqui vão passando. Em muitos casos as atracções turísticas de uma determinda região têm uma certa ligação com a existência de complexos termais. Neste contexto podemos afirmar que o concelho de Murça oferece ao visitante e ao viandante uma importante e particular riqueza natural se atendermos à existência no seu termo de um ignorado e talvez inacreditável potencial minero-medicinal conhecido por “CALDAS DE ST.ª MARIA MADALENA“ ou “CALDAS DE CARLÃO”. Sem pretendermos ser juízes de uma causa que na situação actual não beneficia gregos nem troianos, consideramos ser extremanente importante deixar aqui alguns aspectos acerca destas termas.

“Caldas de St.a Maria Madalena” ou “Caldas de Carlão” Situadas na freguesia de Candedo, mais propriamente no termo da aldeia de Porrais, encravadas nas vertentes inclinadas que constituem a margem esquerda do profundo e estreito rio Tinhela, a poucas centenas de metros da sua foz, as Caldas de Santa Maria Madalena ou Caldas de Carlão, têm-se afirmado ao longo dos tempos pelas suas águas minero-medicinais de elevado poder terapêutico. Estagnadas no tempo perante a passividade vivida à volta das melhorias no que respeita às condições de acolhimento para as centenas de aquístas que anualmente procuram as suas milagrosas águas sulfúreas, estas caldas continuam a suportar as consequências originadas pelos permanentes desentendimentos entre os responsáveis pelo bem-estar das populações e o egoísmo entranhado daqueles que se afirmam serem os seus usufrutuários. A polémica instalada pelos defensores teóricos desta ou daquela denominação toponímica, parece ser aproveitada por aqueles que apenas mais não fazem que continuarem a destruir e a degradar um património que, bem conservado, iria beneficiar o cidadão anónimo. Elementos de investigação histórica mostram-nos que estas termas foram exploradas e as suas águas aproveitadas pelos diversos

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povos da época pré-histórica. Os romanos teriam feito o seu aproveitamento terapêutico, se atendermos à análise de vestígios encontrados nas imediações. Documentos escritos numa época mais próxima entre as quais se destacam as “Memórias Paroquiais” do Padre Luis Cardoso, e a obra “Instruções, Cautelas e Práticas” do Dr. Francisco Tavares, médico de D. Maria I, referem-nos algumas das características das águas desta estância termal, apresentando dados sobre os locais de onde as mesmas vão brotando. Pinho Leal e, mais próximo de nós, Miguel Torga, bem como os médicos investigadores Dr. José Pereira Salgado, Professor da Universidade do Porto, e Dr. José Bulas Cruz, apresentaram-nos trabalhos de investigação sobres as origens históricas destas caldas e estudos de pesquisa sobre o valor terapêutico das suas águas. Consequentemente estes estudos mostram-nos a forma como a existência destas termas tem condicionado a manutenção dos valores etnográfico-culturais entre estas e os vistantes. O Dr. José Bulas Cruz, através de um magnífico trabalho publicado em 1942, refere-nos a existência de um conjunto de quatro nascentes principais : a do Banho ou a Bica de Cima; a do Rio; a dos Olhos e a da Vinha. Paralelamente acrescenta que a nascente principal tem um caudal de 36.000 litros/dia, enquanto que as outras fontes brotam diariamente em média 5.000 litros/dia. Para que se possa avaliar a importância terapêutica destas águas minero-medicinais, ousamos transcrever alguns dados elucidativos que o distinto Professor de Química da Faculdade de Engenharia e Ciências da Universidade do Porto, nos deu a conhecer sobre a sua composição e acção fisiológica e terapêutica.

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Composição: Águas perfeitamente límpidas com cheiro e sabor próprios e características das águas sulfúreas nas quais a temperatura se mantem inalterável nos vários períodos do ano. Apresentam pequeníssimas bolhas gasosas e a sua reacção é nitidamente alcalina. Apresentam os mais diversos aniões (sulfidratados, carbonatos e clorectos) e catiões (ferro, cálcio, magnésio, potássio e amónio). Relativamente à sua divisa hidrológica, apresentam-se como sendo águas hipo-termais, hipo-salinas, sulfidratas, sódias carbonatas, alcalinas e radioactivas.


Propriedades terapêuticas: Podemos referir que estas águas são indicadas para as mais diversas doenças de pele (eczemas, acne, seborreia, sífilis, prúrigo, etc.), doenças do aparelho respiratório (rinites, laringites e bronquites), doenças de senhora (metrites, salpingites); doenças do aparelho digestivo (dispepsias, enterecolites e fermentações intestinais), reumatismo articular agudo e sífilis. Perante os citados elementos precisosos que justificam a importancia desta estância termal, urge dar continuidade ao plano urbanístico e hoteleiro, há alguns anos iniciado pelo então Presidente da Câmara Municipal de Murça, Joaquim Ferreira Torres, para que, de uma vez para sempre, Murça possa atraír a estas terras aqueles que para bem da saúde necessitam de utilizar estas águas medicinais.(66)

Gastronomia Ao falarmos dos costumes e tradições de Murça não podemos deixar de referir a arte de cozinhar, que nestas terras se reveste de particular interesse, nomeadamente no que diz respeito à “doçaria”. As “queijadas”, o “toucinho do céu” e as “cavacas”, são especialidades confeccionadas de forma artesanal que atraem o mais distraído visitante. Originários da gastronomia conventual, estes doces são, de facto, uma herança das freiras beneditina, que durante séculos estiveram instaladas num mosteiro existente nesta vila até finais do séc. XIX. O segredo de fabrico foi granjeado pela exímia D. Serafina Rosa Alves, empregada doméstica naquele convento, sendo ainda hoje religiosamente guardado pela sua neta D. Hermínia Alves, actual proprietária da “Casa das Queijadas”. Passadas dezenas de anos, estas especialidades continuam a ser fabricadas em fornos escaldantes, após ter sido ateado o fogo a alguns molhos de carquejas ou giestas. É a pureza e perfeição de um primoroso fabrico que continua a ser mantido!... Para que o visitante ou o amante da gastronomia não passe em Murça sem provar estas iguarias, aqui deixamos alguns dados importantes relativos ao fabrico desta maravilhosa doçaria, sem que no entanto estejamos a desvendar os respectivos segredos. 105


Toucinho do Céu Ingredientes: Chila, grão de amêndoa (moído), ovos, massa de farinha e açúcar. Depois de cozinhado é polvilhado com farinha doce. Apresenta uma côr amarelada, é bastante húmido e doce. (67)

Queijadas Ingredientes: Chila, grão de amêndoa (moído), ovos , farinha e açúcar. Embora o seu nome pareça estar ligado a “queijo”, a verdade é que este não faz parte dos seus ingredientes, sendo neste aspecto diferente das “queijadas de Sintra”.

Cavacas Ingredientes: Farinha, ovos, açúcar Como curiosidade refira-se que a D. Serafina Rosa herdou ainda as freiras beneditinas o segredo dos “Bolinhos de Amêndoa”, os quais a D. Hermínia nunca se atreveu a confeccionar.

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Neste capítulo dedicado à gastronomia urge referir ainda a boa qualidade de salsicharia murcense: Presunto, linguiça, salpicão e alheiras. (67)


Freguesias e Aldeias

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FREGUESIA DE CANDEDO

Anexas: Candedo, Monfebres, Martim, Porrais e Sobreira. CANDEDO| Num período mais próximo de formação da Nacionalidade, o aglomerado de Candedo pertenceu ao termo de Abreiro, o qual se estendia até aos limites situados a norte da actual freguesia. Mais tarde foi integrado no termo de Murça tendo sido seus donatários os senhores das terras de Murça. No século XVII, a antiga freguesia de Sta Maria Madalena de Candedo era curato anual da apresentação do Prior e Colegiada de Guimarães, pertencendo à antiga Comarca de Moncorvo, passando mais tarde a reitoria. Pertenceu ainda ao Arcebispado de Braga, e seguidamente à Diocese de Lamego, antes de ser criada a Diocese de Vila Real. Candedo é sede da freguesia mais populosa e da maior potencial económico do Concelho de Murça, pois é no seu termo que se produz o “vinho de benefício” e a grande parte da produção olivícola. Existe na localidade uma das maiores igrejas do concelho, onde se realiza uma festa anual, a 29 de Junho, dia de S. Pedro. As actividades recreativas e culturais mantêm-se em evidência face à existência de uma próspera Associação Recreativa e Cultural que congrega um Grupo Desportivo e um Grupo Folclórico e publica um pequeno jornal - “O Candedense”. No campo arqueológico existem vestígios de construções castrejas na serra dos Eivados.

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MARTIM| Situa-se num pequeno montado em declive para a margem esquerda do rio Tinhela, onde a paisagem é dominada por inúmeros e produtivos vinhedos. Existe uma capela, com S. Pedro por patrono, realizando-se festa anual no dia 29 de Junho.

MONFEBRES| Este topónimo parece ter a sua origem numa palavra árabe. É um aglomerado mais pequeno da freguesia, sendo no entanto o mais característico e típico face ao seu enquadramento rural. Existe uma capela, sendo seu patrono Nª Srª das Neves.

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PORRAIS| Julga-se que o nome teve a sua origem, o mesmo acontecendo com o povoado, na existência daquele que foi denominado por “Castelo da Porreira”. Este teria sido habitado, na época castreja, conforme nos é dado a conhecer pelas ruínas que ainda hoje são perceptíveis no lugar que se chama “Torre” ou “Castelo” e “Porreira”. O foral que D Sancho II deu a Abreiro no ano de 1225 refere a existência de Porrais,

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como fazendo parte do seu termo. Existe uma capela onde se realiza anualmente uma festa no segundo domingo de Agosto em honra dos padroeiros St.ª Barbara e S. Cornélio. Situa-se num inclinado monte, onde os terrenos de cultivo estão preenchidos na grande maioria por vinhedos pendurados em socalcos inclinados e sinuosos que oferecem uma aspecto paisagístico muito semelhante à região duriense. Como atrás referimos, é no seu termo que brotam as águas sulfúreas, a que os habitantes da periferia chamam “Caldas de Santa Maria Madalena”. SOBREIRA | Encravada entre o inclinado monte de forma cónica, em cujo cume teria existido em tempos remotos um povoado castrejo, o qual ainda hoje é denominado por “Castelo”, e o caudoloso rio Tua, que faz a separação dos Concelhos de Murça e Carrazeda de Ansiães, a povoação de Sobreira surge actualmente como um dos aglomerados mais pequenos da freguesia de Candedo. No entanto, se nos voltarmos para o passado, constata-se que a povoação de Sobreira insere nos seus anais históricos elementos demasiado evidentes que nos permitem afirmar ter sido um importante povoado, quer no período anterior à formação da nacionalidade, quer mesmo durante o espaço de tempo que mediou entre essas épocas e a Alta Idade Média.


Recuando no tempo e pelo que nos é dado a conhecer pelas Inquirições de 1220, verificamos que o antigo povoado de Sobreira, cujo topónimo poderia estar intimamente ligado à existência de um sobreiro de grandes dimensões, teve um sistema de “pequena municipalização “ mesmo antes de ter sido dado foral a Abreiro por El- Rei D Sancho II em 1225. A partir de então verifica-se que o seu termo está inserido no de Abreiro, já que o texto dessa Carta de Foral refere as limitações geográficas do novo concelho : “Facio vobis hominibus popullatoribus et habitantibus de Aureiro et suis terminis de mea hereditate que habeo terminata ; scilicet partitus per illam locum qui dicitur foz de Colobro quomodo eciam parte cum lamas de Orelham et deinde per cima de Candoedo et deinde per illam de Porrias et deinde ad quam de Tinela, a prono per illam foz de Tinela et urbi prius inchoanimus.” A história desta localidade coincide com a antiga vila de Abreiro, desde o início mais remoto do repovoamento até à altura em que passa a depender do senhorio hospitalário.

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Inicialmente afirmou-se como reguengo simples, o que não veio a acontecer após o aforamento. No entanto as obrigações passaram a ser as mesmas e iguais para todo o território, sendo obrigação dos seus moradores dar o seguinte foro anual, juntamente com os de Abreiro : “uma teiga de pão, um dinheiro, um pão de “trigo” outro de “centeio” ao rico homem de Panoia, quando lá viesse, dar-se-ia “colheita” de um porco, de um maravedi, cabritos e galinhas quias houvesse, e ainda pão, vinho, cevada que ele houvesse mistar em uma hora; ao juiz da terra dava-se “adubo de coquina”, além disto , deverá dar-se pousada ao rico-homem ou seu meirinho se aí fossem e peitava-se a “voz e coima”. Estes dados revelam-nos a importante vida histórica deste povoado entre os sécs. XII e XIII. Um pouco mais tarde surgem acontecimentos que a engrandecem ainda mais, tornando-a espaço privilegiado para a introdução de práticas agrícolas e lugar saudável para viver. A formação deste lugarejo está intimamente ligado a uma concessão feita à Ordem do Hospital por alguém que decidiu tornar-se membro dessa mesma ordem. Assim a Comenda de Abreiro passou a englobar os povoados de Barcel, Navalho e Sobreira, aparecendo este como independente. Posteriormente foi instituída a antiga paróquia de S. Brás de Sobreira, numa ermida dedicada àquele santo e que pelo seu elevado


número de habitantes foi anexada à Abreiro. No Séc. XVIII o pároco de Sobreira era da apresentação do Comendador de Abreiro e do Prior da Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira de Guimarães, sendo a dependência em regime alternativo. No último quartel desse século e pelo que nos é dado a conhecer por Columbano Ribeiro de Castro, a povoação de Sobreira pertencia metade ao extinto concelho de Abreiro e a outra ao concelho de Murça, estando possivelmente esse facto ligado a aspectos logísticos da administração pública. Com a aplicação da nova reforma administrativa levada a efeito em 1835, este povoado passa a pertencer ao concelho de Murça como freguesia independente. Esta situação manteve-se até aos anos quarenta do nosso século, altura em que, e, segundo se crê, por motivos de ordem política, face às desinteligências surgidas entre os moradores e o então Presidente da Câmara Municipal, este tentou e conseguiu a médio prazo extinguir a freguesia de Sobreira, anexando-a à freguesia de Candedo. Desde longa data a exploração das terras em Sobreira regeu-se quase sempre por um sistema centralizado em duas ou três famílias, as quais ainda perto dos nossos dias eram detentores de grande parte do território. Estão nesse caso a familia Vaz e a dos Pinheiros. Sem pretendermos vangloriarmo-nos, já que o autor destas páginas tem aqui as suas origens, é evidente que a aldeia de Sobreira se apresenta ainda hoje como um centro produtor por excelência

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do genuíno vinho de benefício e do espiritual e dourado azeite, que em conjunto são as duas pedras basilares no forte poder económico da zona da Terra Quente. A videira é plantada nos inclinados montes sobranceiros ao Rio Tua, enquanto que a secular oliveira, dispersa por “terras de ninguém”, é o espelho da vida árdua mas salutar, destas gentes de rostos enrugados que, ao mesmo tempo lutam para que uma vida mais fácil e menos dura seja dada aos seus descendentes. As tradições plenas de sensatez popular vão-se mantendo. O bairrismo alegra as suas gentes. Sobreira apresenta-se como um dos povoados mais característicos do concelho de Murça. Situada no sector sul, onde é possível chegar através de uma sinuosa e estreita via municipal, após terem sido percorridos cerca de duas dezenas de quilómetros, o seu termo oferece ao visitante uma beleza paisagística indiscutível, sendo ponto máximo as acolhedoras margens refrescantes do sossegado Rio Tua. Este, depois de se ter espraiado na princesa do Tua, encontra nestas paragens o necessário sossego, após o barulhento bater das águas entre fragas, tornando-se um local aprazível e idílico, quer para os amantes dos desportos naúticos e da pesca, quer para aqueles que, aproveitando os ramalhosos amieiros e salgueiros, aqui se devotam aos momentos dos prazeres da vida humana. Olhando para o monte vê-se o castelo, vislumbra-se a fraga impossível de rasgar e que o misterioso destino parece não deixar acontecer, caso contrário o veneno mortífero saído das suas entranhas iria matar aqueles que pacatamente aqui vão vivendo. O lendário “Buraco dos Mouros”, autêntico labirinto acolhedor de raposas e lobos, o “Forno da Tia Adélia”, modelo único existente no Tua, são alguns dados curiosos que, da etnografia à imaginária crendice popular, podemos saborear neste jardim à beira mar plantado. Que digam o pai Leonardo e a Mãe Antónia, como era difícil a vida nestas terras!... Hoje também há espinhos, mas é bem certo que estas gentes mostram no rosto a alegria de aqui viverem, sentido-se felizes porque a vida de hoje é mais compensadora que a de antigamente. (68)

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FREGUESIA DE CARVA

Anexas: Carva e Cortinhas.

CARVA| Situada a norte do concelho de Murça, na zona da Terra Fria, encravada entre as serras de Escarão e da Barrela, a povoação de Carva não é apenas mais uma das aldeias típicas deste concelho, mas pode ser considerada como a mais “serrana”, onde orgulhosamente se mantêm vivas simples e puras as tradições vividas ao longo dos tempos pelas suas gentes, particularmente aquelas que se relacionam com o amanho das terras e o modus vivendi do quotidiano. Ainda hoje é possivel ouvir as “serranas” cantigas populares saídas da voz forte e melodiosa dos homens rudes e másculos detentores de um rosto onde se espelha a vida árdua de décadas passadas, altura em que os homens e mulheres desciam ao vale, para, nas segadas e vindimas, amealharem economias indispensáveis à sobrevivência durante os restantes meses do ano. As longas e difíceis caminhadas em direcção ao Douro ou à Terra Quente e a dureza do trabalho do dia a dia eram suavizadas pelas desgarradas, durante as quais novos e velhos soltavam essas agradáveis cantigas que a tradição popular não quer deixar morrer. Carva é uma povoação antiga. As suas origens perdem-se nos limiares dos primeiros tempos da nacionalidade, já que as Inquirições de 1220 referem a existência de uma “pequena municipalização”, e 115


consequentemente D. Afonso III, reconhecendo a sua importância como aglomerado, dá-lhe carta de foral a 6 de Agosto de 1268. Na Alta Idade Média, a antiga freguesia de S. Sebastião de Carva foi vigararia da apresentação do Reitor de S Miguel de Tresminas e Comenda da Ordem de Cristo, pertencendo ao antigo concelho de Jales e à antiga comarca de Moncorvo. Nos finais do século passado pertenceu à diocese de Braga, ainda integrada no referido concelho, passando mais tarde para a diocese de Vila Real, após ter sido agrupada ao concelho de Murça. A toponímia deste povoado reveste-se de certa importância, se tivermos presente a divisão que ainda hoje se mantém, fruto de um bairrismo humano, e que, em tempos longíquos, no meio de rivalidades entre os seus habitantes, obrigou a que a área geográfica pertencente ao aglomerado fosse dividida em quatro bairros: Carva, Carvinha, Galo e Galinha. Ligado a tudo isto podemos considerar actual a caracterização que Américo Costa faz das suas gentes no seu dicionário corográfico: “O povo é bom, moralmente e politicamente muito conservador“. Possuidora de uma mentalidade profundamente tradicional, a população desta aldeia ocupa-se diariamente do amanho das terras, cultivando essencialmente o centeio, a batata, e dedicando-se em paralelo à criação de gado bovino e caprino. Reveste-se ainda de particular importância a prática da apicultura, produzindo-se aqui o melhor mel da região. O culto religioso é praticado em duas capelas (St.ª Bárbara e S. Sebastião), realizando-se uma festa anual a 2 de Setembro em honra do patrono St.ª Bárbara, que é organizada juntamente com a aldeia de Cortinhas. CORTINHAS| Pequeno aglomerado onde predomina o cultivo do centeio e a cultura do castanheiro, e onde se pratica também a criação de gado bovino e caprino. Existe uma capela, cujo orago é St.º António, podendo verificar-se a existência de um espigueiro e um relógio de sol.

FREGUESIA DE FIOLHOSO Anexas: Cadaval e Lavandeira. 116

FIOLHOSO| Situa-se na serra do mesmo nome, limite do concelho de Alijó, o qual se deixa cair abruptamente em direcção ao


profundo vale do Tinhela, na sua margem direita, onde as inúmeras quedas de água, em forma de cascata, dão uma beleza ruidosa à paisagem. É no seu termo que existe uma importante necrópole da época dos castros, enquanto que numa propriedade rústica foi encontrado em tempos não muito distantes um pote de barro, contendo diversas e valiosas moedas da época romana. A antiga freguesia de Nossa Senhora da Purificação foi curato anual da apresentação de D. Prior e cabido da Colegiada de Guimarães, tendo mais tarde passado a reitoria. Relativamente ao património monumental, alguns autores referem a existência de um pelourinho do qual apenas parecem existir alguns fragmentos, pois o mesmo foi derrubado e jamais reconstruído, embora tenha sido classificado de monumento de interesse público. Américo Costa refere a existência de duas fontes com certo interesse, às quais o povo chama de “Fonte da Pipa”, onde a água é extremamente gelada, e a “Fonte da Barrosa”, próxima das ruínas de um antigo castelo, e que serve para regar a fértil veiga de Fiolhoso, onde outrora se cultivava o linho utilizado na confecção de vestuário e hoje

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se produzem batatas, frutas e hortaliças, existindo ainda no seu termo enorme quantidade de castanheiros. CADAVAL| Pelo que ficou dito anteriormente, quando falámos das origens históricas da Vila e Concelho de Murça, somos levados a deduzir que a povoação de Cadaval é uma das mais antigas, já que o seu nascimento deve estar ligado à povoação castreja existente nas imediações. Pensa-se que Cadaval (Cativellos ?) teve carta de foral, dada por El-Rei D Afonso III em 1253 e cujo presumível texto transcrevemos em apêndice. Para além do que foi dito, refira-se a existência de uma pequena escultura “O Capitão”, no largo principal da aldeia, pequeníssmo monumento muito querido e prezado pelos seus habitantes.

A festa anual em honra de St.ª Barbara realiza-se no segundo domingo de Agosto.

FREGUESIA DE JOU

Anexas: Aboleira, Banho, Castelo, Cimo de Vila, Freiria, Granja, Novaínho, Rio, Mascanho, Penabeice, Toubres e Vale de Égua. 118

JOU| Situada num planalto onde tem ponto de passagem a


estrada nacional que estabelece a ligação entre Murça e a cidade de Chaves, Jou pertenceu, até à reforma administrativa de 1835, ao extinto concelho de Carrazedo de Montenegro, e a partir de então foi integrado no concelho de Valpaços, do qual foi desanexado por decreto real de 26 de Setembro de 1895, passando em definitivo para o concelho de Murça. Esta povoação, juntamente com os seus populosos bairros (Aboleira, Banho, Castelo, Cidade, Cimo de Vila, Novaínho e Rio) é considerada a maior do concelho. A antiga freguesia de St.ª André de Jou era curato anexo à reitoria de S. Pedro de Vales, da apresentação do Reitor de termo de Chaves, tendo mais tarde passado a vigararia e freguesia independente. No campo histórico-cultural referimos as ruínas de um antigo castelo e de uma necrópole que constituem um importante conjunto arqueológico. Em Jou existe uma banda filarmónica, Misericórdia, Bombeiros Voluntários, grupo folclórico e um importante grupo desportivo. Além da Igreja Matriz há ainda um pequeno Santuário com uma capela onde anualmente, no último domingo de Agosto, se realiza uma importante festa em honra de St.ª Isabel. (71)

FREGUESIA DE NOURA Anexas: Noura e Sobredo.

NOURA| Há quem lhe chame “Noira” e “Noura”.

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Américo Costa sugere que este nome pode ser corrupção do nome árabe “Naira” que se entende que a apelidavam de ANOURA/ ANOURIA, que parece conter o elemento pré-romano “briga” (Bria). Situada no cimo de uma encosta onde é possível reconhecer as ruínas de um antigo povoado castrejo, a povoação de Noura é concerteza bastante antiga. A sua existência como povoado importante deve-se ao facto de ter aparecido integrada no termo de Murça na altura em que D. Sancho II lhe concedeu carta foral a 8 de Maio de 1224, o mesmo acontecendo com D. Afonso III a 10 de Janeiro de 1268. Tendo por orago N.ª Sr.ª da Anunciação, a antiga freguesia de Noura era curato da apresentação do Prior e Colegiada de Guimarães, passando mais tarde a vigararia. Noura é caracterizada como sendo um aglomerado de certo interesse urbanístico, onde as habitações se estendem de um e de outro lado de uma enorme e quase única rua, que mais parece a sua coluna dorsal. O património etnográfico-cultural abranje uma Igreja e Capela, habitações com interesse arquitéctonico rural, fornos de cozer o pão, azenhas, lagares e moinhos, entre estes um muito conhecido como o “Moinho de Mourão”. A população dedica-se à agricultura, notando-se uma enorme expansão do cultivo da vinha, olivais, pomares e as mais diversas culturas frutícolas e hortícolas. Em Noura foi recentemente criada uma Associação Recreativa e Cultural que insere um grupo desportivo.

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A festa anual, em honra de St.ª Bárbara, realizava-se no penúltimo domingo de Agosto. (72)

FREGUESIA DE PALHEIROS

Anexas: Paredes, Salgueiros e Varges PALHEIROS| Situada nas fraldas da serra da Garraia, importante reserva florestal, a povoação de Palheiros apresenta-se plena de um tipicismo invulgar, onde ainda aparecem com frequência as mêdas de palha (palheiros), talvez origem do seu próprio nome. A antiga freguesia de S. Paulo de Palheiros era curato de apresentação do Prior e Colegiada de Guimarães, tendo mais tarde passado a vigararia. No seu termo há importantes vestígios de ruínas de um castelo chamado de “Castro” e uma ermida transformada num Santuário religioso de S. Bartolomeu. Nesta pequena aldeia realizam-se anualmente três festas: 29 de Junho (S. Pedro); 17 de Julho (Santo Cristo); 24 de Agosto (S. Bartolomeu). A ocupação da população está voltada essencialmente para o cultivo do centeio, vinha e criação de gado.

PAREDES E SALGUEIROS| São dois pequenos aglomerados que ficam encaixados nos inclinados e fundos vales dos contrafortes da Serra da Garraia, onde as populações se dedicam quase em exclusivo à criação de gado caprino, ovino e bovino.

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VARGES| Pequena povoação situada no limite geográfico do concelho de Murça e Mirandela, podendo considerar-se ter sido um povoado da época castreja. Aqui aparecem os amendoais dispersos pelos montados, onde facilmente se encontram coelhos, lebres e perdizes. (73)

FREGUESIA DE VALONGO DE MILHAIS Anexos: Valongo dos Milhais, Carvas, Ribeirinha e Serapicos.

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VALONGO DE MILHAIS| O conjunto rural formado por Valongo e seu termo, existindo antes da formação da nacionalidade, admitindo-se o seu aparecimento como um produto do repovoamento de Murça através do foral de 1224. O culto prestado a S. Gonçalo leva os investigadores a pensar que nos primórdios da Monarquia a Colegiada de Guimarães era possuidora de bens deste termo, tendo venerado aquele santo, podendo isto mesmo estar ligado a qualquer doação feita no período medieval ao mosteiro da Condessa Mumatona. No entanto, a antiga freguesia de S. Gonçalo de Valongo era curato da apresentação do Prior da Colegiada de Guimarães, tendo mais tarde passado a reitoria. O topónimo “Valongo de Milhais” deve-se ao facto de aí ter nascido o distinto herói da 1.ª Grande Guerra Mundial, o Soldado Aníbal Augusto Milhais, apelidado de “Milhões”, pelos seus feitos militares, conforme atrás referimos.


Através de uma homenagem que o governo português lhe quis prestar, tendo a mesma sido consumada e perpetuada através da lei nº 1618 de 05/07/1924, a localidade do seu nascimento passou a chamar-se “Valongo de Milhais”. No seu termo existem minas de volfrâmio e estanho, que se encontram paralizadas. CARVAS| Situa-se num monte sobranceiro à margem esquerda do Rio Tinhela, a norte da sede do Concelho. Este topónimo, que se pensa ser de influência árabe, poderá ter a sua origem na palavra “Alcarva”. RIBEIRINHA E SERAPICOS| São dois povoados que se situam geográficamente em posições opostas. O primeiro está encaixado no fundo de um vale existente a sul da sede de freguesia e nas vertentes de S. Domingos, em situação oposta à localização da vila de Murça, enquanto que o segundo se situa a norte, numa zona de planalto. (74)

FREGUESIA DE VILARES

Anexas: Vilares, Asnela, e Fontes Fria. VILARES| Investigadores de toponímia portuguesa consideram que o nome dado à povoação de Vilares poderá estar ligado ao sistema de repovoamento pré-nacional, pelo facto de existirem nesse termo os “villares” constituidos por famílias, podendo os mesmos corresponder a lugares da actual freguesia. 123


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No entanto crê-se também que o topónimo Vilares, que actualmente indica o nome desta povoação, terá a sua origem numa ermida desses “vilares”, facto que teria contribuído para que fosse dado esse nome à freguesia, que poderia ainda corresponder à reunião desses “villares”. Américo Costa refere que a povoação de Vilares recebeu carta de foral dada por D Afonso III, a 10 de Fevereiro de 1267, sendo provável que o termo englobasse nessa época seis casais (Vilares, Ardosa, Asnela, Fonte Fria e dois existentes na ermida de St.ª Maria). O mesmo autor considera que a antiga freguesia de Nª Srª das Neves de Vilares pertenceu ao extinto concelho de Alfarela de Jales, tendo sido vigararia da apresentação “ad mutum” do reitor de S. Miguel de Tresminas, passando mais tarde a reitoria. Apesar de haver referência sobre o nome dado a esta paróquia, crê-se que antes do séc. XIV, teria existido com o nome de St.ª Maria de Vilares, considerando-se em simultâneo que a mesma estava inserida numa área geográfica onde estavam bem vincadas as influências exercidas pela romanização. Este pormenor é ainda hoje facilmente constatado, já que a povoação de Vilares se situa numa riquísssima zona arqueológica onde são evidentes os vestígios que se identificam com a presença das civilizações castrejas. Paralelamente o termo Vilares apresenta características e valores etnográfico-culturais de relevante importância. Lendas e tradições, que ainda são facilmente perceptíveis no espírito do cidadão comum, dizem-nos que teriam passado por esses lugares os diver-


sos povos colonizadores da Lusitânia. A Igreja Paroquial, as antiquíssimas construções, a toponímia local (Largo do Caleiro, Eira da Rainha), identificam aspectos da vida comunitária que aí tiveram sua existência, e que até aos nossos dias se vão mantendo no meio do povo. Ainda hoje existem em Vilares quatro “relógios de sol“ expressando cada um deles a mais simpática figura humana (o capitão, o guerreiro...). Mas, a enriquecer este majestoso e invulgar património, refira-se a existência de dezenas de “Pisões” na ribeira que da aldeia desce a passos largos para o Tinhela, os quais em tempos não muito longínquos eram utilizados para pisoar os “bureis”, utilizados na confecção de vestuário usado pela população, para se livrar do rigor dos dias frios de Inverno. A agricultura em Vilares é dominada pela produção da castanha, pelo cultivo do centeio, de diversas gramíneas e de batata. Mas os seus habitantes consideram que a maior parte do rendimento está ligada à criação do gado bovino e caprino. ASNELA E FONTE FRIA| São ainda hoje pequenos lugares interessantes pelo seu tipicismo ligado ao enquadramento rural, onde a população se dedica ao cultivo dos mesmos produtos e aos afazeres quotidianos que atrás referimos. INSTITUIÇÕ

ES E COLECTIVIDADES

CONCELHO DE Murça :

INSTITUIÇÕES E COLECTIVIDADES

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Instituições e Colectividades

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Hospital da Misericórdia Embora existam alguns elementos que nos permitam referir que as origens da antiga Misericórdia de Murça se perdem nos limiares do Séc. XVIII, a verdade é que dados comprometedores nos indicam que a sua fundação aconteceu no dia 30 de Julho de 1923. Foi a partir de então que a Irmandade da Santa Casa da Misericórdia de Murça decidiu fundar o Hospital do Concelho, procurando desta forma dar cumprimento ao estipulado nos seus estatutos, pois nos seus artigos era indicado como sendo um dever da Irmandade, acudir às necessidades dos pobres e tratar dos enfermos. Em 1928, este Hospital foi instalado inicialmente num modesto imóvel que o benemérito Domingos Augusto Sila tinha oferecido para sede da Misericórdia de Murça. Passados alguns anos outro grande benemérito, o Marquês de Vale Flôr, decidiu entregar por doação à Irmandade a sua residência particular e a cerca que lhe era contígua. Com a mudança do Hospital para as novas instalações, a sua acção em prol do bem comum começou a ganhar foros de notável assistência na doença, especialmente para aqueles que economicamente eram mais desfavorecidos. Mas as manifestações de solidariedade não se fizeram esperar, pois de imediato outro ilustre Murcense fez a entrega da avultada quantia de quatrocentos e setenta mil escudos, que juntamente com outras surgidas do cidadão anónimo, permitiram que fossem iniciadas as obras de adaptação do primitivo imóvel. Neste movimento de generosidade teve papel fundamental o prestante filho de Murça, Alfredo Pinto, que, residindo na capital, não quis esquecer a sua terra natal, contribuindo para o efeito com a sua influência pessoal junto de instituições públicas no sentido de conseguir apoios para a conclusão das obras então iniciadas. Consequentemente, após a sua conclusão, o renovado hospital foi solenemente inaugurado em 31 de Julho de 1936, pelo General Óscar Fragoso Carmona, então como Presidente da República Portuguesa. Lutando durante anos com as maiores dificuldades económicas, técnicas e humanas, este Hospital foi, como tantos outros deste país, colocado sob a alçada da administração do Estado, em Maio de 1978.

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Actualmente e após a promulgação de um decreto que devolveu às Misericórdias os seus bens, o Hospital de Murça é novamente gerido pela Direcção da Irmandade da Santa Casa da Misericórdia de Murça.

Banda Marcial de Murça

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A Banda Marcial de Murça é considerada uma das filarmónicas mais antigas do País. Fundada em 1871 por um oficial francês, que, segundo a tradição, terá fugido da sua terra natal, após a Alemanha ter alcançado uma vitória sobre a França, vindo então a radicar-se em Murça. Constituída desde o início por elementos recrutados da massa laboriosa, a Banda de Murça, teve posteriormente como dedicado regente o destemido Sargento Pelotas, herói da 1ª Grande Guerra e natural de Vila Real, e que em Murça recebeu durante anos os maiores carinhos pela obra que procurou realizar. Mais tarde Manuel Cramês teria sido uma pedra basilar no agrupamento das flautas. Mas teria sido o mestre Manuel Pereira, que juntamente com os seus filhos, edificaram com firmeza esta secular Banda de Música, tornando-se conhecida e apreciada por todos aqueles que, nos diversos pontos da região, a procuravam para se deleitarem com as suas melodiosas interpretações. Mais perto de nós, foi Albano Pereira, fiel seguidor de seu pai,


que pela sua personalizada figura humana, marchando a frente do grupo, fez com que todos reconhecessem o valor desta filarmónica. Ponto de atracção para jovens e adultos, a Banda Marcial de Murça é hoje um embrião de futuros artistas de música instrumental. Possuidora de um maravilhoso espaço imobiliário, recentemente construído (1983), esta Banda de Música é um pilar fundamental na vida cultural de Murça.

Adega Cooperativa de Murça Numa região onde o vinho se apresenta como um produto agrícola possuidor de qualidades organoléticas extraordinárias, e constituindo uma potencial riqueza do concelho, considerou-se ser indispensável a fundação de uma Adega Cooperativa. Tendo como pioneiro o falecido, mas ilustre murçaense Prof. Francisco Barros Carneiro Lopes, a Adega Cooperativa de Murça foi fundada em 1956. Os objectivos desta iniciativa estavam voltados fundamentalmente para a comercialização dos vinhos de forma directa, sem que o escoamento do produto fosse efectuado pelo intermediário, que até então, em nada beneficiava o agricultor. Hoje os propósitos voltam-se também para a prestação dos mais diversos serviços aos associados, através do fornecimento directo de produtos e máquinas indespensáveis à agricultura. Actualmente a Adega Cooperativa de Murça é uma das maiores da região duriense, possuindo equipamento sofisticado e moderno quer no

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tratamento do vinho e derivados, quer nos sistemas de engarrafamento. As vendas efectuam-se à escala nacional, através da distribuição de vinhos maduros, tinto, branco e rosé, reservas especiais e aguardentes bagaceiras.

Cooperativa Agrícola dos Olivicultores de Murça A Cooperativa Agricola dos Olivicultores de Murça foi oficialmente constituída através de assinatura de uma escritura pública, em 21 de Julho de 1956. A fundação desta Cooperativa de Olivicultores, que actualmente tem 1150 sócios inscritos, deve-se ao dinamismo incutido na altura pelo então Pároco da Vila de Murça, o Padre Adriano Alves, tendo sido António Pinto Aires o Presidente da Direcção, que de imediato foi eleita. É objectivo primordial desta Cooperativa transformar e vender o precioso azeite, de que o concelho de Murça é rico, bem como, efectuar o aproveitamento, valorização e colocação dos produtos provenientes da exploração olivícola dos seus associados.

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Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Murça A Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Murça foi fundada a 8 de Dezembro de 1928. A sua criação ficou a dever-se à dinâmica “Comissão de Fundadores”, constituída por Dr. Manuel Moutinho, Dr. Manuel Morais Fonseca, José Castro Júnior. Foi este grupo de altruístas Murcenses, cheios de entusiasmo, boa vontade e do mais estremecido bairrismo, que auxiliados pela Comissão Administrativa da Câmara Municipal ousaram adquirir o material indispensavel ao combate de incêndios: bomba braçal juntamente com o carro e respectivos acessórios, e diversos capacetes de sola. A corporação dos Bombeiros Voluntários de Murça foi inicialmente instalada num armazém situado no rés-do-chão do actual edifício dos Paços de Concelho, sendo nessa altura o corpo activo constituído pelos seguintes elementos: Comandante Dr. Manuel Moutinho, 2º Comandante António Abel Carneiro Lopes, Alexandre Paredes, Manuel Sousa Fernandes, Adérito Pereira, Alexandre Sol, Manuel Teixeira, José Tobias, Jose Manuel Alves, Guilhermino Alves, Julio Rei, Manuel Nunes, Francisco Pereira, Delucídio, José Luis Pereira, Jaime Dias, Bessa Ribeiro, José Lavinas e Alfredo Jesus. Mais tarde o quartel mudou para os baixos da casa do Sr. António Medeiros, onde existia uma capela, passando posteriormente para uma dependência do edifício do Hospital, onde se manteve

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até aos anos cinquenta, altura em que foi instalado num edifício de rés-do-chão existente no local onde foi edificado o actual quartel. Com o início das obras de construção da actual sede e até à inauguração verificada a 29 de Julho de 1973, a corporação esteve novamente aquartelada no edifício anexo ao Hospital. Ao longo dos anos da sua existência, os Bombeiros Voluntários de Murça sentiram o movimento de solidariedade gerado à sua volta, o qual visou o engrandecimento da notável Associação Humanitária. O Comendador Américo Breia foi um um elementos preponderantes desse movimento ao oferecer duas viaturas à Corporação, enquanto que a benemérita D. Adelaide Queirós e a família Ferreira Torres tomaram parte de igual modo nessas manifestações de solidariedade. Mas se as ofertas materiais foram importantes, também é justo evidenciar a garra e desprendimento humano sentido por todos aqueles que assumiram ao longo dos tempos os destinos da Corporação, destacando-se entre eles, Firmino Fonseca, a quem a Vila de Murça quis perpetuar atribuindo para o efeito o seu nome ao actual quartel. Apontando através de uma ordem cronológica os comandantes desta Associação Humanitária, referimos que esses foram os seguintes: Dr. Manuel Moutinho, Adelino Fonseca, Graciano Gouveia e Abílio Alves. Francisco António Lousa Saraiva é o actual Comandante do Corpo Activo, sendo constituído por cinquenta e cinco homens. A frota de viaturas compreende quatro ambulâncias, um auto-tanque, um pronto-socorro (pesado), um pronto-socorro (ligeiro), dois jeeps e um carro de combate a incêndios (antigo). A Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Murça, ao estar instalada em edifício próprio, possuidor das melhores condições de funcionalidade, tem proporcionado às gentes do Concelho de Murça, um eficiente serviço no campo de assistência, procurando em simultâneo desempenhar um papel importante no campo recreativo e cultural, já que nas suas instalações se realizam periodicamente sessões de cinema, teatro, bailes, existindo ainda um grupo desportivo constituído pelos próprios bombeiros. Aproveitando esta página, pretendo deixar aqui expresso a minha sincera homenagem a todos aqueles que voluntariamente vão dando um pouco das suas forças em prol desta prestimosa Associação Humanitária. Fica a gratidão pelas constantes e dolorosas viagens, sentidas


por homens e viaturas, ao transportarem os necessitados de assistência médica ou hospitalar em locais distantes de Murça.

Centro de Gestão da Empresa Agrícola do Vale da Porca Esta Centro de Gestão da Empresa Agrícola nasceu em Murça a 22 de Setembro de 1995, com 20 sócios fundadores. Desde então, o C.G.E.A. do Vale da Porca tem apoiado os empresários que a ele se associem, servindo como mediador nas relações entre estes e as instituições públicas como o IFADAP/INGA, a DRATM, DGPC, IVV, Centro de estudos Vitivinícolas do Alto Douro, Casa do Douro, IVDP, Cooperativas locais, etc. Hoje, o centro de gestão tem 331 empresas associadas. As suas actividades são essencialmente: Elaboração de projectos agrícolas, formação profissional, contabilidade e apoio técnico no âmbito da protecção e da produção integrada na cultura da vinha e da oliveira.

Escola Profissional de Murça Nasceu em Murça em 1993, ao abrigo de um contrato programa celebrado entre a Câmara Municipal de Murça, a Santa Casa da Misericórdia de Murça e o Ministério da Educação. Iniciou a sua actividade de imediato, no ano lectivo de 1993/1994. Tendo evoluído ao longo dos anos, tem hoje capacidade para 14 cursos em áreas como a gestão, os serviços comerciais, a informação, a informática, o turismo e o ambiente, a contabilidade, o desenho técnico, etc. Em 2005, com cerca de 28 professores/monitores, teve mais de uma centena de formandos a leccionar.

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A “Porca de Murça”

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Descrição Física As crónicas jornalísticas e os textos literários publicados desde longa data, ao referirem-se à Vila de Murça, incluem sempre algumas linhas dedicadas à “Porca de Murça”, narrando a sua história ou a sua lenda, fornecendo dados físicos que permitem descrever a sua “fisionomia”. Alguns autores têm procurado fornecer dados concretos sobre o seu verdadeiro nome, em paralelo com elementos relativos à descrição física.

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A este propósito o Prof. Santos Júnior afirma que é um berrão, ao qual foi dada uma atribuição errada de fêmea e que a tradição popular o imortalizou com o nome de “Porca de Murça”. Relativamente ao aspecto físico, escrevia o Prof. Leite de Vasconcelos no seu livro “De Terra em Terra”, vol.1, p. 54 (1884), que ao passar na vila de Murça, foi ver a “Porca de Murça”, e acrescenta: “Lá estava o mostrengo quadrúpede enorme, de mais de um metro de comprido, na sua imobilidade secular, sentinela robusta do tempo vizinho, nobreza da vila, alvo de todas as deferências e também de


todas as injúrias, pois se alguém que não preza a honra se diz que é honrado como a Porca de Murça. Dá-nos este quadúpede um documento de crença dos nossos avós Lusitanos.”. Um século mais tarde o Prof. Santos Júnior, na sua obra “Berrões proto-históricos do nordeste de Portugal”, refere : “A Porca de Murça é um esplêndido berrão de granito. Foi colocada em cima de um robusto plinto de pedra, a meio da Praça 31 de Janeiro, da vila de Murça, perto da Igreja Paroquial.”. (76) Analisando os elementos apresentados por este antropólogo e perante o que recolhemos “in loco” podemos referir que o quadrúpede tem de comprimento 1,70 m, a largura das patas posteriores é de 34 cm e a das anteriores de 25 cm, e 55 cm entre umas e outras. Altura no aprumo das patas posteriores 92 cm e no das anteriores 95 cm. Perímetros: nas virilha 2.05 m; a meio da barriga 2.11 m; nas axilas 2,10 m; do pescoço 1,70 m e da ponta do focinho 87 cm. Para além destes elementos geométricos, é importante referir que a mesma está feita em granito de grão grosso, com muitos grãos de quartzo, apresentando pequenas quantidades de mica branca. Está colocada em cima de um plinto de granito, vendo-se à frente das patas posteriores resto de pedra da base ou peanha. As orelhas são simuladas pelo saliente correspondente à nuca, estendo-se para os lados. Tem grandes olhos em covinhas cónicas, sendo a testa curta, acentuada e inclinada, seguindo-se um focinho grosso e curto, mas que não tem boca marcada. Do lado direito, na metade inferior da barriga tem uma grande buraca. A traseira tem 91 cm de altura com 50 cm de largura. Tem ânus e persiste na maior parte da saliência o testículo esquerdo, tendo o direito sido destruído por picotado. No dorso tem espinhaço, embora não seja muito saliente, que se espraia na altura do pescoço formando saliências, que devem, como já dissemos, corresponder à orelhas.

Enquadramento geográfico-histórico Na área geográfica que se estende pelo centro da Península Ibérica, abrangendo sobretudo a actual região de Trás-os-Montes proliferam esculturas zoomórficas, enormes monolitos graníticos,

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representando quadrúpedes, que na sua maioria são conhecidos por “Porcos” ou “Porcas”, conforme a interpretação do sexo, às quais, dentro do campo arqueológico, é atribuido o nome de “berrões”. (77) Essas enigmáticas esculturas de pedra rude não se prendem em exclusivo à representação desses animais domésticos, mas representam, em muitos casos, espécies zoológicas diversas, especialmente as existentes em Espanha, onde lhes é atribuido o nome de carneiros, javalis, touros, ursos, etc. Se entre nós a palavra “berrão”, ganhou foros de maior vulgaridade, naquele país foram as palavras “toro” ou “verraco” que mais se popularizaram. Os inventários arqueológicos relatam-nos a existência de várias dezenas deste tipo de monumentos dispersos por toda a península, dos quais quarenta e nove se situam no nordeste de Portugal. (78) De entre esses, foram a “Porca de Murça” em Portugal e os “Toros de Guisando”, em Espanha, que mais se afirmaram no sentimento do povo, pelo que isto poderá servir de justificação no que diz respeito à maior vulgaridade das palavras “berrão” e “toro”. A existência de tão grande número de quadrúpedes de pedra, dispersos pela área geográfica acima referida, leva-nos a acreditar que aqui teria vivido algum povo de antanho, ao qual os arqueólogos tentam atribuir esses enigmáticos achados. A preocupação tem sido grande, por parte de arqueólogos quer portugueses, quer espanhóis, relativamente à determinação da época e das razões que levaram à existência deste tipo de monumentos de pedra, tendo esses investigadores decidido enquadrá-los naquilo que denominaram por “cultura dos berrões”. Na interpretação do Prof. Santos Júnior, esta é uma cultura proto-histórica peninsular, caracterizada pelas estátuas zoomórficas de pedra, chamadas em Portugal, “berrões”. (79) No entanto, a par destes dados, surge-nos a incerteza quanto à cronologia da proto-história na Península Ibérica, da mesma maneira que é ainda pouco conhecida a origem dos povos que a ocuparam durante esse período, não se conhecendo devidamente quais foram aqueles que aqui viveram ao longo do período pré-histórico. Pelo que nos é referido pelo escritor Jaime Brasil, pensa-se que os primeiros teriam sido os Iberos e que outros teriam sido os Lígures, mas aqueles que deixaram mais memórias foram, de facto, os Celtas, os quais teriam entrado na Península por volta dos anos 900 a 600 a.C..


Com o decorrer dos tempos esses povos Célticos acabaram por se fundir com os Iberos e os Lígures, constituindo um só povo, os Celtiberos, que dominaram todo o território até ao começo da época histórica. Da recolha de tradições dos povos que aqui viveram e dos contactos estabelecidos com Cartagineses e Romanos, na altura em que estes quiseram invadir a Península, bem como o sucedido em relação aos Fenícios e Gregos, os Celtiberos receberam ensinamentos e influências artísticas. A sua contínua independência valeu-lhes a possibilidade de desenvolverem a sua própria civilização, caracterizada pela construção dos castros, citânias e cividades, cujos vestígios chegaram até nós, permitindo assim avaliar os começos da sua civilização. A área onde mais se fez sentir a ocupação destes povos, coincide praticamente com aquela que já referimos e na qual os arqueólogos pensam ter existido a “cultura dos berrões”. É nesse contexto que parece enquadrar-se a afirmação de Santos Júnior ao referir que “a cultura dos berrões é essencialmente castreja”, acrescentando que de um modo geral os arqueólogos que se têm debruçado sobre esta matéria admitem que a cultura dos berrões se desenrolou essencialmente desde o séc. VI a. C. até à romanização de Augusto”.(80) O mesmo investigador dia ainda que “o séc. VI a. C. foi tomado como padrão inicial da cultura dos berrões, por ter sido nesse século a grande invasão Celta da Península, e por os Celtas terem sido considerados os introdutores do porco como animal doméstico.”(81) Mas se isto parece contribuir para desvendar a incógnita sobre quem teria esculpido essas esculturas monolíticas, a verdade é que o campo das investigações não foi fechado, pelo que outras opiniões não muito divergentes se levantam e pelas quais nos é dado quase possível concluir que essa civilização celta, apesar de devidamente localizada, englobava várias tribos, de entre as quais teriam saído os escultores de tais estátuas. Leite de Vasconcelos, fundamentando a distribuição desses quadrúpedes de pedra pelo centro e norte de Espanha, atribui essas estátuas às tribos Vettones, Vccaeci, Carpetani e Vardull. Relativamente a Portugal, refere que as mesmas pertenciam “aos Seurri, tribo que parece que compreendia no seu território o aro de Moncorvo”, admitindo que mais para norte, na região de

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Bragança, teriam vivido a tribo de Zœlae, tendo esses cinzeladores dos berrões aparecido nesta região do nordeste transmontano. O mesmo etnólogo considera que isto é produto de um sentimento comum, existente nos castrejos do nordeste de Portugal, o qual como veremos adiante, estava envolto num sentimento de natureza superior e de ordem espiritual. (82) O historiador espanhol Gomez Moreno, considera que existiu um povo lígure, situado entre os Celtas galaicos e os Celtiberos, cuja área se identifica com a da cultura dos “verracos”, e se estende desde o Cantábrico até um pouco ao sul do Tejo, sendo esse povo o autor das estátuas zoomórficas pré-romanas. O mesmo historiador admite, no entanto, uma idêntica cultura no meio do povo celta. Esta diversidade de opiniões levam a interrogar-nos se os berrões de pedra seriam obra de estatuários Celtas, ou teriam sido esculpidos por outros anteriores a estes. O Prof. Santos Júnior, referindo-se ao célebre poema ”Ora Marítima“ de Avicena, considera que, pela descrição etnológica das civilizações pré-célticas que habitavam o noroeste peninsular, se dá como certo o facto de terem vivido na costa ocidental, a norte do Tejo, algumas tribos que constituíam o grupo dos Lusitanos. Mais a norte e como vizinhos destes, teriam vivido outro pré-céltico que dava pelo nome de “draganos”. (83) É neste contexto que surge a análise efectuada pelo grande arqueólogo espanhol Bosch-Gimpera, que no seu trabalho “Los Celtas em Portugal y sus camiños” considera que os “draganos” seriam vizinhos dos Lusitanos, pelo que deveriam estar situados na actual região de Trás-os-Montes. Santos Júnior diz que “Bosch-Gimpera considera os draganos como um ramo ou tribo parcial dos astures”. (84) Filia também no grupo astur os Zœlae, próximos dos draganos, que situa mais a norte na região de Castro de Avelãs e Bragança. (85) No entender de Bosh-Gimpera a região transmontana seria habitada no séc. VI a.C., por draganos. Mais tarde a região deveria ter sido ocupada por algumas tribos dos Celtas, sem que estes se tivessem instalado nas zonas interiores transmontanas mais ásperas, inóspitas e afastadas dos grandes caminhos, mas, pelo contrário, habitavam os lugares mais hospitaleiros. 140


De isto se pode concluir que os draganos teriam resistido às influências celtas, facto que lhes permitiu continuar a usufruir da sua própria cultura, pelo que é de considerar que os berrões de pedra de Trás-os-Montes seriam de origem pré-céltica. Esta hipótese é fundamentada no facto de haver referências sobre a existência do porco animal doméstico nesta região antes da invasão céltica e, consequentemente, esses escultores de estátuas seriam precisamente os draganos. O arqueólogo Oswaldo Menghin apoia esta teoria tecendo considerações sobre graus culturais intimamente ligados com outras civilizações mais próximas, concretamente do neolítico, onde se verificaram enormes progressos no campo da arte e da técnica, O próprio Menhin é de opinião que a criação dos porcos é uma cultura primitiva de agricultores e que a mesma foi irradiada para a Europa através do Norte de África por volta do ano 3.500 a.C.. Estas hipóteses fundamentam a teoria de que, quando os Celtas chegaram à Península, já aqui existia o porco como animal doméstico. Este enorme leque de opiniões, embora levanta o véu sobre as razões da existência desses enigmáticos monumentos, são simultaneamente provas concludentes de como os “berrões peninsulares” têm preocupado os arqueólogos dos dois países Ibéricos, embrenhados na ansiedade de descortinar, de uma vez por todas, as suas origens históricas, Paralelamente as dificuldades aumentam, já que se toma difícil determinar a localização exacta onde os mesmos teriam aparecido e a relação com os locais onde se encontram. Actualmente os berrões transmontanos e concretamente a “Porca de Murça” encontram-se em locais completamente diferentes daqueles onde teriam sido encontrados, levantando-se apenas hipóteses quanto ao seu primitivo paradeiro. Relativamente a este aspecto considera-se que apenas existe uma excepção e caso isolado em Portugal. Santos Júnior refere que apenas o grande porco de granito encontrado na Cortinha do Poio, na aldeia de Picote, Miranda do Douro, teria sido o único encontrado “in situ”. (86) No que diz respeito à “Porca de Murça”, e como é do conhecimento geral, ela foi em tempos mais próximos, mudada várias vezes, já que a situação mais antiga que é conhecida diz respeito à sua localização junto ao pelourinho, em frente à igreja matriz.

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Isto poderia levar-nos a pensar que a mesma estava intimamente ligada às tradições daquele histórico monumento, facto que não merece a devida credibilidade, já que o significado deste nada tinha a ver com a Porca, e as suas origens são claramente diferentes. Neste contexto podemos afirmar que a Porca teria sido levada para esse lugar, pois o mesmo era ponto de reunião de populares e o de maior importância na localidade. Admite-se, no entanto, que o local primitivo onde a Porca teria as suas origens, seria o castro do Cadaval, importante estação existente a poucos quilómetros da vila de Murça e onde ainda hoje se encontram facilmente vestígios de civilizações que outrora habitaram estas terras. Por último esclareça-se ainda que Leite de Vasconcelos, ao referir-se ao aparecimento de outros berrões na parte mais ocidental da Península, concretamente na região do Nordeste português, diz que o facto se deve à fuga para essas regiões de povos pertencentes às tribos esculpidoras que, ao fugirem às invasões levadas a efeito nas regiões transmontanas, transportavam consigo os seus ídolos. (87)

A Lenda

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As “lendas” aparecem normalmente ligadas a uma narrativa fabulosa ou mítica, concernente a qualquer personagem quase sempre histórica. Essa narrativa, normalmente ligada a escritores sobre a história e as crenças dos povos, volta-se em muitos dos casos, para aspectos sobrenaturais e irracionais que envolvem a mitologia. Por vezes, e perante o desconhecimento de dados concretos sobre aquilo que a narrativa escrita pretende explicitar, surgem os contos e as lendas que a imaginação popular vai construindo e desenvolvendo, mas que, pouco a pouco, vão correndo através da tradição oral, apresentando-se, em muitos dos casos com pretensões a autênticos, documentos de factos ou individualidades históricas ou mitológicas, com raízes profundamente longínquas. A “Porca de Murça”, talvez pelo seu aspecto mitológico não escapou à capacidade criadora das civilizações, pelo que a incógnita ligada às razões da sua existência e significado e que foi perdurando através dos tempos, lhe valeu a criação da sua própria lenda. Ainda hoje o cidadão comum considera como inquestionável a “lenda” que, nos finais do séc. XVII, o Padre Carvalho da Costa recolheu e escreveu na sua “Chorografia Portuguesa”, ao tratar da


vila de Murça de Panóias: “Está nesta Villa defronte da praça della em pedra grande a forma de hum Usso, cujo significação (dizem seus moradores) he ser tão antiga a Casa dos Danatários desta Villa antes que os Mouros tivessem o vencimento da batalha, que ganharão a El-Rei D, Rodrigo nos campos de Guadalete no anno de 714. & montanhas de Burgos, se fizerão os Mouros em oito mezes senhores de toda a Espanha; passados muitos annos os progenitores desta Casa tomarão a ganhar esta Villa, & as duas, que mais tem nesta Comarca, (que dizem seus antepassados tinhão) aos Mouros, & segundo a tradição no tempo del Rey Dom Affonso o Primeiro de Castella no anno de 757. & achando a terra povoada de Ussos, que destruirão as colmeas, fizerão delles montarias, & os matárão, em cujo reconhecimento os moradores, além dos foros de pão, vinho & dinheiro atrás referidos lhe pagarão os tres arrateis de cera em satisfação do benefício recebido: depois levantavão gente à sua custa para as guerras, & se lhes fazia seu assento ao pé deste Usso, com que ganhárão nove Castellos, que tem termo, povoados, & sustentados pelos Mouros naquele tempo” . Por aqui se vê como a tradição oral confunde a “Porca de Murça” com um urso e que à mesma é atribuído o sexo masculino. Leite de Vasconcelos, ao debruçar-se sobre a lenda, refere que “a imaginação da gente da localidade tinha trabalhado bastante para explicar o estranho quadrúpede de pedra que se via em Murça “.(88) E acrescenta: ”em toda a parte, dentro e fora do país, o povo dá explicações mais ou menos fantásticas dos monumentos notáveis e incompreensíveis”. (89) É dentro desta idéia que surgem outras lendas sobre idênticos monumentos, de que é exemplo concreto a lenda existente sobre a berroa de Torre de D. Chama. Mas a lenda sobre a “Porca de Murça” é recolhida e analizada por outros historiadores, como é o caso de J.A. de Almeida, no “Dicionário Abreviado da Chorografia de Portugal” (Tomo I, 1866, p.325), que, ao referir-se à mesma, escreveu que a Vila de Murça tem um urso em frente da praça, em memória de muitos que mataram no ano de 757”. Por seu lado, Pinho Leal, no “Portugal Antigo e Moderno” (vol. V, p.571), ao referir-se à estátua zoomórfica existente na praça da vila de Murça, pormenoriza a mesma lenda, dizendo: “No meio da

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praça da villa, e em frente à Câmara, vê-se um mono de pedra, que tanto pode ser um porco como um urso, hipópótamo ou elefante. É a porca de Murça. Segundo a lenda, era no séc. VIII esta povoação e seu termo assolados por grande quantidade de ursos e javalis. Os senhores da villa, secundados pelo povo, tantas montarias fizeram, que ou extinguiram tão damninhas feras, ou as escorraçaram para muito longe. Mas, entre esta multidão de quadrúpedes, havia uma porca (outros dizem uma ursa) que se tinha tornado o terror dos povos, pela sua monstruosa corpulência, pela sua ferocidade, e por tão matreira, que nunca podia ter sido morta pelos caçadores. Em 757 o senhor de Murça cavalheiro de ”grandes forças e não menor coragem, decidiu matar a porca, e taes manhas empregou que o conseguiu, libertando a terra de tão incommodo hospede. Em memoria desta façanha se construiu o tal monumento, alcunhado “a Porca de Murça”, e os habitants da terra se comprometteram, por si e seus sucessores, a darem ao senhor em reconhecimento de tão grande benefício para elle e seus herdeiros, até ao fim do mundo, cada fogo tres arrateis de cera annualmente, sendo pago esta foro mesmo junto da porca.”

Significado Etnográfico e Religioso

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As escavações arqueológicas levadas a efeito fornecem-nos documentos que, devidamente analisados, nos mostram que os povos e civilizações existentes nos locais mais diversificados do planeta Terra e pertencentes aos tempos mais remotos da história da humanidade, tinham a religião como sendo algo indispensável à sua vida diária. Consequentemente verifica-se através desses documentos que todas as civilizações tinham o seu culto religioso e os seus deuses específicos, muitos deles, como é fácil de constatar, andavam ligados ora a seres sobrenaturais ou extra-terrestres, ora aos elementos que os rodeavam, concretamente o ar, o fogo, a água, os montes, etc,. Esses deuses apareciam normalmente figurados em símbolos ou em relevo nos monumentos, sendo muitos deles considerados deuses de enorme importância. Mas, como se tornava difícil em muitos casos representar em imagens divindades consideradas sobrenaturais, tornou-se necessário criar outras concretas, chamadas deusas menores, aqueles que


muitas vezes representavam deuses locais, familiares, animais e plantas, que facilmente eram representados em materiais de uso comum. Em muitos casos essas divindades eram exactamente os animais, que viviam em comum com o próprio homem. Isto é de fácil percepção, já que os vestígios encontrados nos fornecem provas evidentes de tudo isso. Sem pretendermos colocar em paralelo a religiosidade e os cultos de hoje com aqueles que foram vividos pelas civilizações de há milhares de anos, verificamos que, em povos do pleno séc. XX alguns animais merecem o devido respeito no campo religioso, podendo-se apontar concretamente o culto pelo gado bovino entre os Hindus e o respeito que os Mulçumanos têm ao próprio porco. Concretamente, e perante o que já foi dito, temos que admitir que esses povos da época castreja, ou mesmo os anteriores, votavam o seu culto a esse tipo de deuses e divindades. Escavações levadas a efeito nos castros e a análise dos seus achados isolados fornecem-nos provas concludentes quanto à existência de um culto próprio dessas civilizações castrejas. Perante a enorme quantidade de berrões existentes no nordeste transmontano somos levados a acreditar que muitos desses importantes monumentos, entre os quais se enquadra a “Porca de Murça”, são verdadeiras estátuas votivas, pelo que temos de admitir a existência de um velho culto zoolátrico, no qual determinados animais eram considerados sagrados. Vários estudos arqueológicos não só fornecem estes dados, como ainda se tornam conclusivos ao considerarem que a modelação de tais estátuas não teria significado, caso as mesmas não estivessem ligadas a algo de comum e de sobrenatural. No entanto as opiniões divergem quanto ao significado exacto dessas estátuas zoomórficas. O Prof. Santos Júnior afirma que “devem ter um significado transcendental de culto e possivelmente de adoração ao animal esculpido”. (90) O grande investigador Leite de Vasconcelos, através da magnífica obra “Religiões da Lusitânia”, relaciona os berrões com as ideias religiosas dos antigos habitantes da Península Ibérica, considerando que são monumentos religiosos proto-históricos, datando mesmo de tempos pré-históricos. O mesmo admite um significado votivo, indicando vestígios de

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necrolatria entre os lusitanos nos tempos proto-históricos, da mesma maneira que considera terem sido divindades tutelares e guardas de túmulos. Leite de Vasconcelos admite ainda que os mesmos estejam voltados para o significado votivo, mas refere acima de tudo que estes monumentos pré-romanos estavam muito possivelmente relacionados com o culto dos mortos. (91) Sem pretendermos analisar com profundidade o significado dos quadrúpedes de pedra existentes em Espanha, mas atendendo a que eles estão intrinsecamente ligados pelas tradições que representam aos existentes em Portugal, o mesmo historiador refere que a análise efectuada às inscrições encontradas em alguns desses monumentos, concretamente nos “Toros de Guisando”, mostra que os respectivos quadrúpedes pousavam sobre os sepulcros”. Leite de Vasconcelos não generaliza tão amplamente a sua opinião, pois admite que outros não estejam ligados a esse culto, mas considera que isso é um motivo suficientemente importante para afirmar que os mesmos estariam relacionados com o culto dos mortos. Fundamentando melhor esta opinião, refere o aparecimento de alguns cemitérios com estátuas quadrúpedes, o que torna evidente a ideia de que muitos deles teriam por função cobrir as sepulturas de grandes senhores, ou então serviriam de guarda a esses túmulos. Por sua vez o arqueólogo alemão Hubner, embora admita que muitas dessas estátuas seriam votivas, refere que alguns desses monumentos tinham inscrições latinas da época romana, pelo que é de concluir que os mesmos deviam ser monumentos sepulcrais. Esta tomada de posição vem de encontro ao pensamento de Leite de Vasconcelos. Outros investigadores modernos ora admitem o seu aspecto puramente votivo, ora consideram que os mesmos dizem respeito à necrolatria. É dentro desta perspectiva que surgem as opiniões dos arqueólogos espanhóis Gomez Moreno, Padre César Moran e o francês Pierre Paris. Face ao problema da interpretação do significado dos berrões, surgem ainda pontos de vista, como acontece com Dom Vicente Paredes, autor da “História dos Framontanos”, que considera as estátuas de quadrúpedes, especialmente aqueles que representam touros, como sendo resto de uma demarcação inculcadora dos caminhos pastoris seguidos pelos pecuários-cultores, ou seja, marcos


a assinalarem os caminhos para a transumância, nas deslocações dos gados em direcções apropriadas para as pastagens. Ainda dentro desta perspectiva, Dom Aureliano Fernandez Guerra y Orbe, diz julgar que os bezerros, berrões, etc, eram deuses “tennini”, ou seja, marcos limitativos de territórios adstritos às tribos ibéricas, considerando estarem essas pedras terminais a definir os extremos das várias regiões tribais. (92) O Abade de Baçal defende a tese do culto totémico, considerando os berrões divindades funerárias, resto de um culto outrora vigente na região transmontana. O Prof. Santos Júnior, no capítulo das “conclusões”, referindo-se a este ponto de vista, diz que “o culto de certos animais é bem possível seja reminiscência do totismo milenário”. No entanto acrescenta que, “entre os animais totémicos tem sido considerado o porco, que no entanto pelo que respeita aos berrões de Trás-os-Montes, não me parece hipótese a considerar”.(93) Este ponto de vista parece não merecer grande credibilidade, relativamente aos nossos berrões, pelo que a conclusão mais evidente quanto ao significado dessas estátuas zoomórficas, entre as quais é incluída a ”Porca de Murça”, se volta para a certeza de que ora seriam votivas, ora estariam ligadas ao culto dos mortos.

A “Porca” na vida de Murça A incógnita, a monumentalidade e a diversidade de opiniões sobre as origens de semelhante achado e o paralelismo com a enraizada lenda, como sendo justificativa da sua existência, têm contribuído para que a “Porca de Murça” seja uma figura carismática no contexto das inúmeras e semelhantes estátuas dispersas pelo nordeste transmontano. Mas isto só por si não seria suficiente para que a mesma fosse amplamente conhecida, não apenas a nível nacional, mas mesmo internacional. Acontecimentos gerados à sua volta, originando por vezes situações caricatas intimamente ligadas às vivências quotidianas da própria população, são talvez as razões mais fortes que justificam o aumento da popularidade e seu dimensionamento tão generalizado. Se outrora a Porca esteve durante anos abandonada no terreiro ao lado do Pelourinho, hoje ocupa lugar de destaque na praça mais

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importante da vila, tornando-se um verdadeiro ex-libris da simpática vila de Murça. Mas antes que o pedestal onde hoje está entronizada lhe possibilitasse um lugar de imponência, outros factos se sucederam. As lutas liberais, o declinar da monarquia, o reacender de lutas entre as forças partidárias recém-constituídas, deram azo a que a Porca fosse envolvida na contenda, sem que ela tivesse culpa do que ia acontecendo. Foi por esta ocasião que a “Porca de Murça” saltou para a cena política nacional, tomando-se objecto de comparação com a governação do país e simultaneamente ganhava honras de primeiras páginas através dos editoriais publicados em jornais diários de dimensão nacional. Efectivamente nessa época os políticos pintavam a porca ora de vermelho ora de azul, conforme estavam no poder os progressistas ou os regeneradores. Foi aproveitando estes acontecimentos sucedidos em Murça, que o jornal lisbonense “As Novidades”, do dia 15 de Novembro de 1893, apresentou aos seus leitores um editorial cujo título era: “A Porca de Murça”. Tendo por objectivo criticar a administração do estado, em especial o sector das finanças, afirmando que os governantes apenas se preocupavam com o desejo de “ficar” e de “subir” neste ou naquele cargo ministerial, o que levava a apelidá-la de “Porca da governamentação do governo” de então, o mesmo editorial dizia a propósito desta situação e do que anteriormente se tinha passado em Murça. “À entrada da vila de Murça vê-se num pedregulho de granito de corte grosseiro, esculpido, um mostrengo que se convencionou ser porca, que anda nas tradições populares da terra. Os dois grupos políticos locais, progressista e regenerador tinham escolhido a pedra para fixar a sucessiva preponderância do seu domínio, aquando os progressistas estavam em cima a porca era imediatamente repintada de azul, assim andou a bácora por muitos anos, até que os episódios recentes criaram as situações incertas dos últimos tempos. Desde que isso sucedeu nunca o pincel dos políticos locais cobriu o granito do abandonado animalego! As chuvas de três invernos penetram a capa oleosa; o sol de três estios lambeu a crosta das tintas. A porca está agora... uma porcaria! não tem a côr definida.


Está às riscas. É pois uma porca extra-partidária. Desde que a porca ficou assim extra-partidária, em Murça todos declaram que estão prontos a conservá-la, mas todos evitam dar-lhe a mão de tinta conservadora“. Isto serviu para que o editorialista afirmasse, que os políticos se preocupavam mais com a escolha da tinta que iria cobrir a porca, que com as questões que se prendiam com a política financeira nacionalista. Mas tradições de cariz popular que giram à volta da Porca, relativamente a acontecimentos que em Murça tiveram e vão tendo lugar, não terminam com esta narração. Martins Sarmento, através de uma carta que dirigiu em 1880 ao Prof. Leite de Vasconcelos, comunica-lhe que o informaram de que em certos casos de crime, a mudança da porca que ainda mostrava restos de pintura vermelha, dava sinal de culpabilidade ou inocência do réu. Factos idênticos provam com toda a certeza, que esta é de facto uma tradição antiga e quantos aqueles que aí se teriam dirigido para saberem quem tinha sido condenado, já que a história também nos conta que era constante a existência de condenados. Também se diz ainda hoje em Murça que há cerca de 60 anos, quando saiu de Murça o Tribunal Judicial da Comarca, um grupo de habitantes pintou a porca de negro como sinal de luto. Mas a mistura continha pós pretos misturados em água de cal e, na manhã seguinte, o espanto foi enorme pois a porca estava pintada de branco, já que a água foi escorrendo e juntamente com ela o pó preto, que devido às propriedades químicas, não aderiu ao granito. Na actualidade e embora em Murça se não venere a porca, os seus habitantes sentem bairrismo e orgulho por possuirem este ex-libris de pedra. Se as questiúnculas políticas, quezílias familiares, desavenças sociais criam divisão entre a população, a união surge espontaneamente, sempre que algo de estranho e provocatório venha a lume e seja relacionado com a porca. São milhares os forasteiros, turistas nacionais e estrangeiros, que ao demandarem estas terras transmontanas, incluem no seu roteiro a visita a Murça, em muitos casos para conhecerem a Porca e tirarem uma fotografia que recorde o feliz momento. Mas é nestas situações que muitas vezes ”a porca torce o rabo”!...

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Isto porque há muito boa gente que gostaria de se sentar no “gorducho” lombo do animal, só que, são vários aqueles que acabam por se estatelar no pedregoso terreiro, pois os habitantes de Murça não permitem a “ofensa”, sendo muitos aqueles que acorrem de forma espontânea, mas contundente, dando de imediato a saber que o acto não é permitido. Muitos gostariam de saber o porquê da proibição, só que antes de pensarem na concretização do impulsivo desejo, devem lembrar-se que a tradição mais pura é aquela que ao longo dos tempos vai saindo espontaneamente, de forma a não morrer, de dentro da alma pura das laboriosas e não desleixadas gentes desta terra. A narração jamais terminaria, pois os acontecimentos seriam suficientes para que esta bela história fosse infindável. Mas consideramos que tão importante como o desejo de conhecer o porquê da existência da “Porca de Murça”, deve ser também a esperança que cada um deverá incutir em si, para que vá conhecer as valiosas e inexauríveis tradições culturais das antiquíssimas terras de Murça de Panóias.

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APÊNDICE

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DOCUMENTO Nº 1 Inquirições de D Afonso II – 1220 (Murça) De Sancto Jaccobo de Muza, Menendus Gunsalvi abbas, Suerius Gunsalvi, Petrus Menediz, Garcia Petri, Martinus Dominici, Fernandus Petri, Gomecius Garcie, Don Fagundo, Fernandus Johannis, Petrus Dominici, Petrus Pelagiz, Gomecius Dominici, jurati dixerunt quod per suam cartam quam habent in ista villa habent facere de foro quod omnes singulas ceras de una libra et dimida, et iij. pelles coniliorum, et singulas taligas de cabada, et singulas quartas de vino, et singulos panes de uno alqueire, medium tricitum medium centeo, et pro luctosa x. modios. Et debent ire in mandantum ad Maiordomum ex Muza usque ad Sanctum Laurencium, et usquead Jales, et usque ad Leedram et usque ad Avreirum. Et vadunt ad intorviscatam . Et debent custodire castellum in tempore de guerra. Et debent ire ad apelido ita quod in ipso die reddant ad domos suas. Et dant Prestamario et Maiordomo uno die vitam. Et debent esse duo Maiordomi de concilio in quocunque anno, et in fine sui anni debent dare singulos morabitinos. Et debent dare montadigum de venato qui ceciderit in madeiro et in corda, et de urso manus, et de porco et de porca spatulum,et de cerva ernam, cum suo lumbo. Et pectant vocem et calumpniam secumdum suam cartam. Et excepta carta dant vitam Domino terre, scilicet, j. porco qui valeatj. mrabitinum, et lx. panes, et iij. puzales de vino, j. modium de ceveda, viij. galinas. Homines de Lamas de Oreliam filiant de termino de mUza et de Noura de Daila usque ad fontem de Lamas, et inde ad focem de Calobro. Et Hospitale Habet j. casale ibi, et solebant inde facere forum sicut sui vicini, et modo faciunt. (Port. Mon. Histórica - Leges et consuetudines p. 124-124)

DOCUMENTO Nº 2 Inquirições de D. Afonso II – 1220 (S.M. de Tresminas)

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De Sancto Michaele de Transmiriz Petrus Salvadoris, Martinus Martiniz, Johannes Arias, Petrus Petri, Petrus Diaz, Petrus Cidadelia, Menendus Menendiz, Menendus Diaz, Pelagius Vermuiz, jurati dixerunt quod habet dominus Rex in Vilares vj. casalia, et dant ei de jugada ij.ij. modios panis, et singulas spatulas cum singulis, et iiij. or iiij. or panes duos triticos et duos centeos, et pro Sancto Michaele


ij.ij. solidos de Leoneses. Et de MOreira habet dominus Rex inde totam medietatem, et sunt in tota villa x. casalia populata, et dant inde quartam in ratione, et de ista levat Rex medietatem et domnus Garcia Menendiz archi diaconus aliam medietatem; et de duobus solis casalibus dant regi directuras, scilicet, singulas saptulas cum ij.ij panes centeos, et pro Sancto Michaele ij,ij solidos de Leoneses, et si fuerit homo inde quitam in ratione, et solehant dare quartam; et pro Sancto Michaele ij.ij solidos Leoneses. Et de villa de Juxta Montem similiter est inde medietas Regis, et sunt ibi xij. casalia, et sunt inde vj. herema, et de medietate domini Regis dant illi sextam panis , et de ipsis vj. casalibus populatis dant Regi tales directuras sicut de supradictes, et solebat Rex directuras levare de totis xij. casalibus istis quando erant populata. Habet ibi eciam dominus Rex terrenos regalengos, de quibus dent modo quintam, et solebant dare quartam, et de villa de Quinta simi’iter habet dominus Rex medietatem, et sunt ibi iiij. or casalia et modo dan’t quintam et solebant dare quartam, et dant tales directuras sicut supradicta, et de magis ij.ij. pelles si fuerint ad montem, et solebant dare v.v. pelles. Et de villa de Cividadelia similiter habet dominus Rex medietatem, et sunt ibi ix. casalia, et dant inde quintam, et in locis quartam, et in locis quartam, et non dant Regi directuras ergo de uno medio casali j. spatulum, ij. panes, ij. solidos de Leoneses: et de allis casalibus que remanent habet Hospitalis medium casalis, et milites de Sancto Felice de Panóias ij. casalia, et Johannes . Varela ij. casalia, et archidiaconnus domnus Garcia iiij. casalia. Et de sancta Maria de Jales est medietas Regis, et sunt ibi. casalia, et dant in ratione quintam, et non dant Regi directuras ergo de tribus solis casalibuis, et dant tales directuras sicut supradieta, ergo si fuerint ad mointem per nivem non dabunt ergo singulas pelles. (Port Mon. Histórica - Leges et consuetudines p.41 - 42)

DOCUMENTO Nº 3 Inquirições de D. Afonso III – 1250 (Murça) Incipit Judicatus de Mussa xij. die Nouenbris - Incipit porrochia Sancti Jacobi de Mussa - Ermigius Stephani prelatus eiusdem ecclesie iuratis et interrogatus dixit quod seit quod ecclesia et villa de Musa sunt Donni Regis et sunt incartate et homines de ipsa villa abadant ipsam ecclesiam.

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Petrus Petri porcionarius eiusdem ecclesie iuratus et interrogatus de iure patronatus dixit sicut Ermingius Stephai et dixit magis quod scit quod in tenpore Regis Donnj Sancij fratis istius quando erat rouba hominis de Mussa que dicitur Feoloso ut defenderet ipsos homines de Mussa et sunt modo ix. casalia in ipsa villa de Feoloso et dixit quod illi qui habebant qui non in ipsa villa de feoloso defenderunt ipsis hominibus ut non darent ipsam villam predicto Pelagio Suerij et quod scit quod ipsi homines fecerunt queixume Donno Reggi de ipsa villa de Feoloso et Domnus Rex mandauit eos intregare per suum portarium ipsam villam et postea filiaut eam Pelagius Suerij et non facit inde forum Donno Regi et dixit quod quidam clericus nomine Fernandus Petri perpositus de ecclesia de Transmiris comparauti de heraditate regalenga de Mussa in tenpore Regis Donnj S (ancii) fratris istius et quando decesit leixauit ipsam hereditatem ecclesie de Trasrairis et non facit de ea forum Donno Regi et dixit quod ecclesia de Trasmiris tenet aliam hereditatem regalengam de Mussa quam sibi mandauerunt homines de ipsa villa pro sius animis in tenpore Regis Donnj S (ancii) fratris istius et de suis antesessoribus et non facit inde forum illi qui remanerunt in erancia de illis qui mandauerunt predictaem supradicte ecclesie et dixit quod scit quod Ospitale tenet de de ipsa hereditate de Mussa quam sibi mandauerunt homines de ipsa villa pro suis animis interrogatus ex quo tenpore tenet eam dixit quod nesciebat et non facit de ea forum Regi sed faciunt inde forum illi qui remanerunt in erancia de illis qui mandauerunt predictam heriditatem Ospitali et scit quod Petrus Rodericj abbas de Guyanes comparauit hereditatem regalengam de Musa in loco qui dicitur Parrjaes super defendimentum de Concilio ipsius ville de Musa in tenpore Regis Donni S (ancii) fratris istius et de suis antesessoribus et non facit inde forum sed faciunt inde forum sed faciunt inde forum illi qui remanerunt in erancia de illis qui mandauerunt hereditatem predicte ecclesie de Mussa et ipsa hereditas iacet in Souereiro et in Candeedo et dixit quod scit quod homines de Anssianis dederunt unam uillam regalenga de termino de Ansianis Donno Ffernando Lupi que uocatur Paramios et modo tenet eam Martim Moreira miles et nichil inde habet Donnus Rex et dixit quod scit quod supradicit homines de Ansianis dederunt aliam villam regalengam que uocator Paradela Roderico Stephani milit et non facit de ea forum Donno Regi et scit quod supradicti hominess dederunt aliam villam Johannj Ualasci regalengam et nom facit de


ea forum Donno Regi et dixit quod quidam clericus Petrus Pelagif comparauit de ipsa hereditate regalenga de Mussa i. casalium quod erat regalengum et non facit eo forum Donno Regi et scit quod predictus Anriques Stephani tenet de hereditate regalenga de ecclesia de Mussa ad forum et scit quod Ermigius Stephani tenet hereditatem in Rippa de Tua de villa de Aureiro que est regalenga Donni Regis et filiauit eam in tenpore Regis Donnj Regis Donnj s (ancii) fratris istius et non facit de ea forum Regi et scit quod ecclesia de Trasmiris inpatrauit hereditatem de uno milite Gonsaluo lohannis in Sancto Felice in tenpore Regis Donnj S (ancii) fratris istius et audiuit dicere hominibus qui sciebant quod illa hereditas fuit regalenga et modo facit forum Donno Regi. Michael Menendi Judex de Mussa et interrogatus dixit sicut Petrus Petri. Donnus Luppus de Mussa iuratos et interrogatus dixit sicut Petrus petri et dixit magis quod quando uolebant facere populam de Ponte in Panonijis quod omnes homines de Panoniis et de Jalles renunciauerunt cartas per quas tenebant regalenga incartata et modo tenent eas et et scit quod in Moreira habenat i. Tarasia i. casalium quod erat forarium Donni Regis eendj in ipso casali seruisaya et scit quod archidiaconus comparauit ipsam casale in tenpore Regis Donj A (lfonsi) patris istius et dirripauit domos de ipso casali quare erat forarium et modo tenet eam ecclesia de Trasmiris et nichil inde habet Donnus Rex. Petrus Fernandej sapatarius de Mussa iuratos et interrogatus dixit sicut Petri et dixit magis quod omnes homines de Panonijs. Renunciaruent cartas quas tenebant de regalangis quando uolebant facere populam de Panonijs in Ponte et postea Donnus Rex concedithminibus de Mussa suam cartam et nom concedit alias cartas alijs hominibus de Pananijs et modo tenent eas et scit quod quidam mancipius de Mussa mandauit unum molinum regalengum ecclesie de Musa in tenpore Regis Donnj S (ancci) fratis istius et facit inde forum Regi. Martinus Gonsalui porcionarius eiusdem ecclesie iuratus et interrogatus dixit sicut Petrus Fernandj. Martinus Ga(r)sie de Mussa iuratis et interrogatus de iure patronatrus dixit sicut Ermigius Stephanj et dixi magis quod ecclesia de Mussa tenet hereditatem regalengam de Mussa quam inpetrauit de hominibus in tenpore Regis Donnj S (ancii) fratris istius et de

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suis antesessoribus et non facit inde forum et dixit quod scit quod clericj ipsius ecclesie ipsius ecclesie nolunt soterrate homines si non mandant de ipsa hereditate regalenga predicte ecclise de Mussa et scit quod ipsa ecclesia tenet Villam Bonam et Soureiro que fuerent reglenga et ipsa duas villas leixauit predictem ecclesie abbas Donnus Menendus in tenpore Regis Donnj A(lfonsi) patris istius et non facit inde forum Donno Regi et predictus abbas habuil illas duas villas de herdamento de suo patre qui habitabat in ipso regalengo de Mussa et dixit quod predicta ecclesia de Mussa tenet uillam de Candaedo que est regalenga et homines de Mussa dederunt ipsam villam predicte ecclesie in tenpore Regis Donnj S (ancii) fratis istius per rogamentum de ermigo Stephanj et modo non faciunt inde forum Donno Regi et scit quod Pelagius Suerij tenet villam de Feolloso que erat regalenga Donni Regis et non facit de ea forum Regi interrogatus inde habuit eam dixit quod scit quod de hominibus de Mussa dderunt sibi eam et non facit inde forum Donno Regi in tenpore Regis qui modo obijit et scit quod Petrus Rodericj abbas de Guyanis comparauit hereditatem de Mussa in Feoloso et non facit inde forum interrogatus in quo tenpore comparauit ipsum regalengum dixit quod nescietbat et dixit quod Petrus Pelagij clericus de Mussa comparauit unum casale in ipsa villa regalengum in tenpore Regis Donnj S (ancii) fratris istius et facit inde forum Donno Regi et scit quod Ospitale tenet ij. casalia regalenga Donni Regis de Mussa que sibi leixauerunt ij. homines qui ibi babitabant et erant sui confrarij et unum de istis casalibus habet ex tenpore regis Donnj A (lfonsi) patris istius et habuit alium de prima populacione de terra et faciant de istis duobus casalibus Donno Regi forum et scit quod ecclesia de Trasmiris inpetrauit hereditatem in Sancto Felice de Gonsaluo lohannis milite scilicet x. casalia in diebus Regis Donnj S (ancii) fratris istius et scit quod magis de ista hereditate fuit regalenga et scit quando faciebant populam de Panonijs de Ponte quod omnes homines de Panonijs et de Jalles renunciauerunt cartas quas tenebant de legalengo saluo carta de Mussa quod non renuciauerunt eam et modo tenet ipsas cartas et scit quod Sautum Royum fuit regalengo quia tenet eum Roderico Stephanj et modo nichil inde habet Rex et dixit quod audiuit dicere hominibus qui sciebant quod tercia de Sancto Felice erat Donni Regis et modo nichil inde habet propter milites qui tenant eam interrogatus qui milites dixit quod nesciebat et scit quod tota hereditas quam modo habet ecclesia de Trasmiris


in Petra Fita quod fuit tota regalenga et scit quod statt in termino de Catiuelis que est Donni Regis ergo vallis de Petro Nuniz quod nescit si fuit regalengum et stst prope ipsa uilla de Petra Fita et scit quod ecclesia de Trasmiris habet Petram Fitam de archidiacomo Donno Garsia Menendj interrogatus unde habuit eam predictus archidiaconus dixit quod nesciebat et dixit quod audiuit dicere hominibus qui sciebant quod predictum vallem de Petro Niniz fuit regalengum et quod ipse Petrus Nuniz leixauit ipsum vallem predictem ecclesie de Trasmariz interrogatus in quo nasciebat et scit quod Furmestas maiores et minores et vallis de Eyroo que sunt in termino de Panonjs quod fuerent Donni Regis et modo tenet totum ecclesia de trasmiris et nichil inde habet Donnus Rex. Interrogatus vnde habuit ecclesia de Trasmiris ipsa regalenga et ex quo tenpore dixit quod nesciebat et scit quod tercia de Santo Felice fuit una foraria Donni Regis et uenditit eam Maria Cortissa in villa de Francelos quod erat tota foraria Regis et quod ipsa Maria Cortissa uendidit eam archidiacono Donno G (arsie) et modo nichil inde habet Donnus Rex interrogatus in quo tenpore comparauit ipsam hereditatem dixit quod nesciebat et modo tenet ipsam hereditatem ecclesia de Transmiris et nichil inde habet Donnus Rex et scit quod Nunus Martinj de Chasim tenet duo casalia in Gulfeyres et erant regalenga Donni Regis et dederat sibi ea concilium de Lamis de Orelam in tenpore Regis qui modo obijit quod Donni Regis et modo non fact inde forum Domino Regi. Andreas Gomecij de Mussa iuratus et interrogatus dixit quod scit quod clericj de ecclesia de Mussa nolunt soterrare de ipsa villa ante non mandauerint ecclesia sui heredes magis quam est defuntus posuit in sua manda et scit quod ipsi clericj noluerunt suum patrem soterrate et ante habuit eis dare super suam mandam ij. modios inter panem et uinum et hoc est magnum eixerdamentum Donni Regis. Martinus Gomecij de Mussa iuratus et interrogatus dixit sicut Petrus Petri porcionarius preter terminum de Ancianis quod nichil inde scit. Johanes Gonsaluj de Mussa iuratus et interrogatus dixit quod scit quod quidam manipius nomine Martinus Gomecij mandauit ecclesie de Mussa i. molinum regalengum in tempore istius Regis et non facit inde forum domino Regi. Donnus Andree de Seixo iuratus et interrogatus dixit sicut Petrus Petri portionario et dixit magis quod scit quod archidiachonus donnus Garsia Menendej comparauit duo casalia regalenga in Pa-

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nonijs in funfo de villa Saucti Laurentij in tempore patris istius Regis et quando decessit mandauit cuidam ordinj interrogatus cuj ordinj dixit quod nesciebat. Petrus Domicj de Carnis iuartus et interrogatus dixit quod scit quod homines Pelagij Suerij de Feoloso filiant de hereditate regalenga domni Regis de Villares interrogatus Fontem Frigidam et Feoloso et non faciunt inde forum domino Regi. Dominicus Garsie de Sancta Ougeya iuratus et interrogatus dixit quod scit quod terminj de vilar de Massada non debent passare cautum ultra et modo Ermigius Stephanj pasat ipsum cautum et filiat de ipsa hereditate regalenga Donni Regis de Catiulis et non facit inde forum Donno Regi et dixit quod scit quod habitabit in ipsa villa de Villar de Massada bene habentur xxx.annjet semper audiut dicere sciebant quod de terminis de Villar de Massada usque ultra quod erant termij de villa de Cautiuelis que est regalenga Donni Regis quod sicut diuidit per molinos que modo sunt de villa de Francelos et deinde uadit ad petram accutam et inde ad fontem trauesam de Ripa Longa et inde ad Freixenos de Catiuelis de istis diuisionibus ad sursum erat totum Dnni regis et de hominibos forarisjs Donni Regis qui morabantur in fogarijs Santi Larencij et filiaut totum hoc archidiaconus Donnus Garsia Menendj et nichil inde habet Donnus Rex interrogatus in quo tenpore filiauit totum dixit quod nesciebat et scit quod Ermigius Stphanj tenet modo totum istud et non facit inde forum Donno Regi et scit quod homines de Ligoo dederunt in istis duobus annis Roderico Stephanj militj unam piscariaiu de villa de Ligoo que est Donni Regis et non facit de ca forum Donno Regi. (Port Mon. Histórica - Leges et consuetudines p. 1295-1298)

DOCUMENTO Nº 4 - Foral de Cativelos (Cadaval) Dado por El -Rei D. Afonso III – 1253

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(Hoc forale in Liber F Donationum sive Registorum Alphonsi II invenitur, Lectiones varias ex Lib. II ipisius regis descripsimis) In dei nomine amen. Ego Alphonsus dei gratia Rex Port. et Comes Bolon. do et concedo uobis sex populatoribus do cativelos ipsam meam hereditatem de Cativelos cuius sunt termini quomodo dvidit per uilar per pousadorio de cima Couro (couto) et inde per lagenam de filiis de Pelagio eytaz et per crux (crucem) de portela de fenales (feanes) de susanos (susanis) et inde cum vilar e sae aa ca-


beza dos Lebetanoos (et exiit ad cabezam de lobetanos) et inde ad Carualim de Crux (cruce) et intrat aqua ad fontem de Comares (dos camoraes) et inde per comeeiram (cumeeyram) aqua vertente cum sauto descaran (de astaron) et inde ad sursum (infestum) ad Carualiam soa (solam) et inde tornat per carreiram de jales (gales) ad fontem de cardo , et inde ad Lageeda (langeedam), et inde ad petram de aquila et inde per cinam de (das) mamoas aqua vertente cim Muza et per cimam de valle de equa et inde ad cabezam muradam (muratam) DE CIMA DE RIPA LONGA, ET INDE UBI INTRAT aqua dos (de) freixeno in ripa dozcar (de uzcar) et inde ad geya (geira) et inde ad pausadeyro (pausadorium), et omnes sucessores vestri detis detis mihi et omnibus meis successoribus anuatim pro iugada sex modios de pane terciam milli, et terciam partem centeni, et terciam ordei : et istam jugdam detis meo mordomo a die sancte Marie de Augusto usque ad sanctum ;ichaelem et si pro ipsa iugada ipe non venerit ad ipsum tempus non respondeatis de illa et non pectetis nisi tres calumpnias scilicet homicidium et rausum et detis pro homicidio quinque morabitinos et pro rauso quinque morabitinos, et qui furtum fecerit quale illud fecerit tale pectet et duplet ipsam domino terre. Si feceritis istas tres calumpnias in termino de Panoniis respondeatis de illis per uestram cartam et sint inquisite per bonos homines, et non respondeatis de allis calumpniis nisi de tribus supradictis. Si occideritis venatum detis de urso manus, et de porco montes et de porca lumbum. Maiordomus et portarium qui filiet portagium et vicarius non sint ausi intrare in uestam villam per rixam nec in totum uestrum terminum, et si ibi intauerit uel uobis male fecerit pectet mille solidos , et non detis portagium in toto termino de panoniis et ponatis uicarium inter per quem ego et uos habeamos nostrum directum, et non uadatis in carreiram neque in apelido, nisi ubi ego inere (mecum). Et detis mihi pro colecta unum arietem de uno anno et sex taeygas de pane in ceuada in nono et singulas pelles de conellis a festo Natalis usque ad Entruido et detis instum panem per taeygam de Constatntim . et non respondeatis de apostilia nisi per inquisitionen nonorum hominum et non detis luctuosam . fiadura inter uos sit una cera . et sitis vicarii per singulos annos per capita . et se supradictis tribus collectis detis mihi medietatem . et si ibi aliquis ex uobis habuerit bestiam in que uadat pro sale uel pro aliquis causa et si ibi necessaria fuerit nullus sit ausus accipere ipsam . et uos populatores collatis uobiscum omnes quantos nobis placuerit et non

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detis nisi istud forum de sex quairellis . Habeatis uos et omnis uestra pos teritas supradictam hereditatem cum terminis supradicts et detis inde mihi anuatim et omnibus meis sucessoribus supradictum forum et non magis . et faciatis de ipsa hereditate quicquid uestre placuerit uoluntati pro adssemper tamen non possits eam mandare Ecclesie nec donare neque apignorare militi nec homini de Ordine nec alicui alii nisi villanis qui mihi inde et omnibus meis successoribus faciant supradictum forum. In cuis rei testimonium do uobis istam meam cartam apertam meo sigillo sigillatam. Datam in Muza Kalendas Maii per donum E. Martini maiordomum curie et per Cancelarium et per V. didaci et R. petri super iudices et per Iulianum gonsalviz iudicem de pannoniis qui qui supradictum forum possuit cum hominubus supradicts. Era M. a CC. LXXXX. a prima. (Port Mon. Histórica - Leges et consuetudines)

DOCUMENTO Nº 5 Doação de Murça, Brunhais, Água Revés e Torre de D. Chama a Gonçalo Guedes em 1433

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“Gonçalo Guedes. Doaçam da terra de Murça e brunhaes e dagoa Reus e da torre de dona chama que foy de pero Vaz Guedes”. - Dom manuel etc. a quantos esta nossa carta uirem fazemos saber que por parte de gonçallo guedes fidalgo de nossa casa nos foy apresentada huua carta del Rey dom afonso meu tyo cuja alma deos aja da qual ho theor tal he : - Dom Afonso per graça de deos Rey de Portugal e do algarue Senhor de ceyta. A quantos esta carta veren fazemos saber que da parte de pero vaz gudes nos foy mostrada hua carta do muy virtuoso e de muy grandes virtudes El Rey meu senhor e padre cuja alma deos aja da qual ho theor tal he : - Dom duarte polla graça de deos Rey de Portugal e do algarue Senhor de ceyta. A quantos esta carta virem fazemos saber que pero vaazquez escudeiro criado do muy virtuoso e de grandes uirtrudes El Rey meu senhor e padre cuja alma deos aja mostrou per ante nos huaua carta que ditto Senhor ouue em scendo meestre da caualaria da ordem dauis e Regedor e defenssor dos dittos Reynos polla qual parece que ho dito Senhor dera a gonçallo vaazquez quedez seu padre e lhe fizera liure e pura doaçam antre os uiuos ualedoyra pera sempre pera elle pera todos seus erdeiros soccessores que depois elle uierom per linha dereita da terra de Murça e de brunhaes e dagoa reuez e


de torre de dona chama cõ todas suas Rendas dereitos e pertenças que aos dittos lugares pertencem de dereito e a elle pertencia dauer E que lhe dauua de mero e mixto inpero com todad sua jurdiçam ciuel e crime. reseruando pera elle correiçam alçada segundo todo esto e outras cousas mais compridamente na ditta carta do ditto Senhor sam cõtheudas. E ora o ditto pero vaazquez nos pedio que lhe cõfirmassemos a ditta carta polla guysa que ella he contheudo E nos uisto seu Requerimento e ditta carta como nam era cõfirmada pollo dito Senhor depois que foy Rey e as dittas terras por ello ficua deuolutas a nos porem no de nossa liure vontade certa sciencia poder absoluto lhe fazemos mercee liure pura doaçam pera sempre de juro e herdade mero mixto Imperio das ditas terras na ditta doaçam do ditto Senhor cõtheudas asy e polla grysa que em ella he c~theudo. Queremos e mandamos que a sua morte as dittas terras com seus dereitos fiquem a gonçallo guedez seu filho e de briolanja afomso molher solteira se aa sua morte nam teuer filho ou neto lidemo. ca seo teuer queremos que este erde e outrem nam posto que nam seja legitimo matrimonio por quanto nos dispensamos com elle e lhe demos nossa carta de legitimaçam que possa erdar e que o ditto gonçallo guedez seu filho aja as terras como ditto he pera elle e seus filhos e netos e aquelles que delle descenderem per linha dereita e nam uenham a irmão nem a irmnaa nem filha nem a outro diuedi de travessa. E se o dito gonçallo gudez seu filho morrer sem filho ou neto ou erdeiro descendente per linha dereita como ditto he emtam as dittas terras sejam tornadas a coroa de nossos regnos. E porem mandamos aos veedores de nossa fazenda e contadores e almoxarifes Juizes e Justiças e outras quaes quer que esto ouuerem de uer a que esta nossa carta for mostrada que lhe leixem auer as dittas e dereitos dellas asy e pella guysa que na ditta doaçam e em esta nossa confirmaçam he contheudo por quanto asy he nossa merece. E em testemunho dello lhe mandamos dar esta nossa carta asynada per nos e aseellada do nosso seello de chubo. Dante em santarem seis dias de dezembro El Rey ho mandou. martim gil a fez era do nascimento de nosso senhor Jseu Xpõ de mil e IIIIcXXXIII annos (1433) - E ora nos emuiou pedir que lhe confirmassemos a ditta carta e nos uisto seu Requerimento querendo lhe fazer graça e mercee. Teemos por bem e confirmarmos lha say e polla guysa que em ella he contheudo. E porem mandamos aos veedores da nossa fazenda e contadores e almoxarifes e a outros quaes quer nossos

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officiaes e possoas a que esto pertencer e esta nossa carta for mostrada que lha cumpram e goardem e façam comprir e goardar como neella faz mençam. Dada em euora bIIJ de Janeiro gonçalleanes a fez (anno) de mil IIIJ q.ta (8 de janeiro de 1450) - Pedindonos ho ditto gonçallo guedez que lhe cõfirmassemos a ditta carta e uisto per nos seu Requerimento E querendo lhe fazer graça e merçee teemos por bem e confirmamos lha asy e per a guysa a maneira que se com ella contem e asy mandamos que se cumpra e goarda inteiramente sem lhe nysso seer posta outra duuida ne embargo alguu por que asy he nossa mercee. Dada em torres uedras a oyto dias de Setembro. Vicente pirez a fez Anno do nacimento de nosso Senhor Jse Xpõ de mil III qR nj annos 1496. (Liv. 3 de ALÉM - DOURO, FLS. 193 B IN : “SALES , ERNESTO”, ob. cit.,p.378)

DOCUMENTO Nº 6

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São obrigados os de Freixiel, Abreiro e Murça a concorrerem para o levantamento dos muros e torres de Anciães. 19 de Junho de 1384. Dom Manuell etc. A quamtos esta nossa carta virem fazemos saber que por parte do Concelho d’Amciães nos foy hapresentada hua carta del Rey Dom Johan que tall he - Dom Joham pella grça de deus filho do muy nobre Rey Dom Pedro mestre de caualaria da ordem dAvys Regedor e defensor dos Regnos de Portugal e do ALgarve e vos Juizes de Freixeel e d’Abreiro e de Murça e a todallas outras nossa Justiças a que esta carta for mostrada e a outros quaesquer a que ho conhecimento desto pertemcer saude sabede que ho Concelho e homes boõs dAmciães nos emviaram dizer que a dita vila de Amciães he cercada a mor perte della de pedra miuda E que ora acercam de camto talhado e de torres e a querem afortelezar pela guisa que compre o nosso seruiço E que pera esto todo eles nom ha ajuda de nenhua parte salvo as meas terças das egrejas da dita villa em as quaes terças dizem que nom a momtam mais em cada huu anno de çem libras as quaes terças dizem que lhes foram dadas per el Rey Dom Pero noso padre a que deus perdoe pera repairamento da ditta villa E por que o talemte delles todos he por nos seruir bem verdadeiramente e por se a ditta villa mais a présa a fortelezar de pedra talhada e de torres como dito he E por que o outro sy o dito Concelho soo nom pode soportar tamanho emcarrego sem ajuda doutros por tal emviaram nos pedir por merçe que lhes desemos


por adua pera ajuda das ditas obras e lauores e a fortalezamento da dita villa os ditos lugares de Freixiel e Murça e Abreiro por quamto eram lugares chaaos e devasos E outrosy quamdo vem tempo de mester se aclhem a dita villa com seus mamtimentos E nos vemdo o que nos dizer e pedir emviaram E queremdo lhes fazer graça e merce E porque compre muyto a nosso seruiço temos por bem e damos lhes os ditos lugares por adua que per dinheiros e per adua sirvam nos ditos lauores e obras que asi fazem e ham de fazer em a dita villa dAmciaães ataa que sejam acabados e mamdamos a vos Juizes e Justiças que costramges os moradores dos ditos lugares que per adua e per dinheiros siruam e paguem em as ditas obras e lauores o que a cada huu a momtar de pagar segumdo os bees que cada huu ouver de guisa que sejam todos iguallados como devem com os da dita vila dAmciaes e seede bem certos que se o comtrairo dello fazerdes que nos vollo faremos pagar todo de vosas Outrosy mamdamos aos Juizes dAmciaes que façam em a dita villa huu sacados pera tirar os dinheiros que se asy ouverem de sacar pera os ditos lauores e obras e os Juizes de cada huu dos ditos lugares façam outro sacador que com o dad dita vila os ditos dinheiros pera os ditos lavores e obras os quaes vos mandamos que Reçebam Avamgelhos E tirados asy os ditos dinheiros fazede poer em esa vila senhas arcas de cada huu dos ditos lugares em as quaes sejam postos todolos os dinheiros que asy forem tirados pera os ditos lavores e obras das quaes arcas os ascadores dos ditos lugares cada huu tenha sua chaves e vos de guisa fazede despemder esses dinheiros que asy forem tirados pera as ditas obras e lauores que nos nom achemos hy all depois senom seese bem certos que nos vos faremos pagar os ditos dinheiros a eses homes que nos pagarem em dobro e no tornaremos por ello a vos como nossa merce for unde e huns e outros al nom façads Damte na muy nobre cidade de Lixboa a xix dias de Junho o mestre o mandou per Joham Affonso bacharel em degredos seu vassallo e do seu desembargo Vasco Pirez a fez era de mjill iiijc annos. Pedimdo nos o dito Conçelho d’Amciães que me comfirmassemos a dita Carta E nos visto seu Requerimento E querendo lhe fazer graça e merce Temos por bem e lha comfirmamos asy como se ella comtem. E asy mamdamos que se cumpra imteiramente dada em Evora a xxxj dias diagosto Vasco Pirez a fez anno do naçimento de Nosso Senhor Jhesu Christo de mjill iiijc noventa bij años. (A.N.T.T: Chancelaria de D. Manuel I, Liv.28 fl.133 / Transcrito de ALVES.F.M. (Abade de Baçal, op.cit.)

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DOCUMENTO Nº 7 Foral de Abreiro dado por El-Rei S. Sancho II – 1225 -�Hec est carta de aureiro et non tenebat sigillum. In nomine nomini nostri ihesu christi. Amen. Ego Sancius dei gratia Rex Portugalensia facio cartam vobis hominibus populatoribus de Aureiro (Abreiro) et de suis terminis de mea hereditate que habeo terminata : scilicet comodo partitur per illum locum qui dicitur foz de colubro quomodo eciam parte cum lamas de O. relam et deinde per cima de candaedo, et deinde per illam portam de Porrais et deinde ad aquam de tinela, a prono per illa foz de tinela et uadit ubi prius inchoanimus. Do vobis ipsam hereditatem que et infra isitis terminis cum suis villis, et cum omnibus, suis pertinenciis et cum quanto est ad prestitum hominis, vt faciatis inde michi forum nominatum, uel cui ego mandauero, scilicet, XX marabitinos date inde terciam partem in quolibet anno ad kalendas Jhanuarias,. Secundam partem , uero , ad kalendas Mail terciam aliam partem ad kalendas Septembrias. et sitis per istos morabitinos homines et mulieres de omnibus callunis et de omnibus omicidiis et de omnibus totis rendis quorum redere solebatis. De collecta eciam michil detis. Istam rendam detis michi unam uicem in anno et plus non sicut suparius dictum est. Prestameiro et maiordomo non habeant potestatem in villis uestris neque in populacionibus uestris neque in terminis uestris, et meus Riqus homo similiter. Et uos conplete iam dictum forum et plus non. Si forte iam dictos marabutinos non poteritis dare in aurum , detis marabitinatas denariorum quales currerint in uestram terram. Quidquid volueritis facere in uestris villis aut in suis terminis ad utilitatem uestram faciatis, et nullu habeat potestatem nos inpediendi : vestram ecclesian de Concillio : habeatis et omnis posteritas uestra iam dictam hereditatem cum omnibus suis pertinencillis in finem seculorum. Si aliquis homo nobis iniuriam fecerit in uestris villis, uel in uestris terminis duplet nobis quantum quiesierit, ad cui uocem uestram dederitis mile solidos componat : Et dapnum quod uobis feceti in duplum sanet. Siquis uenerit ex parte mea qui hanc cartam vobis in conuulssam et inuiolatam seruauerit habeat benedictionem dei amen, et uiuat in secula seculorum. Facta carta mense Septembris, Vo Idus Kalendarum Septembrium. In Era Ma CCoLXXXaIIIa Ego Sancius dei gratia Rex Port. amore dei et Sancte Marie hanc cartam roboro meis manibus et confirmo. Dominus Fernandus fer164


nandi confirmat. Si meus Riqus homo uel suus prestameiro uel suus maiordomus uel aliquis homo hanc cartam uiolauerit, sit malebitus et cum diabolo missus. Amen. Amen. Amen. Notum sit omnibus qui istam cartam uiderint quod Ego domnus Alfonsus rex Port. et comes Bolon. istam cartam cum meis propriis manibus soboraui in Colimbria. Era MaCCaLXXXa et super hoc mando quod non dent aliam marabitinadam, nisi qui ambulauerit in ipsa villa de Aureiro aut de Ligoo aut de Muxa: et qui paccauerint non sint pignorati pro allis uicinis. Donus Gil ualasquir confirmar . Domnus martinus iohannis confirmat - Domnus Gonsalus menendi confirmat. - Archiepiscopus bracarensis Stephnus confirmat. - Episcopus Port. damnus Martinus confirmat. - Episcopus Lamecensis domnus Pelagius confirmat. - Judex de Panoniis Fernandus gonsalui test. - Fernandus iohanis portarius test. - Menendus gunsali prelatus sanct Ecclesia de mussa test. - Garsias notuit. - Era de alia carta, quam homines de Aureiro habetant ante de foro ipssius ville, Era MaCCaLXaIIIa Este foral foi dado por D. Sancho II em 1225, e confirmado por D. Afonso III em 1250. (Port. Mon. Hist贸rica - Leges et consuetudines Vol. I, pp.604-605)

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I - Instrumentos Pré-Históricos “Murça nos últimos tempos, graças à boa vontade e muita amizade do meu patrício José Caetano Gomes Teixeira, tem-me oferecido alguns instrumentos de pedra, que tenho oferecido ao Sr. Dr. José Leite de Vasconcelos para o Museu Etnológico. A última aquisição foi de seis machados de schisto ardosiano, apparecidos em propriedades rusticas da povoação do Candedo pertencentes ao meu referido amigo. São grossos, pouco elegantes, quasi todos da forma de pyramide quadrangular, truncada e por polir em grande parte da superficie. O que vae representado na fig. 1.ª tem 0.12m de comprimento, 0.45m no ponto mais largo e de 0.03m na maior espessura, com dois gumes, uma na base, outro no vertice, formado pelo desengrossamento das faces retilineas, muito bem conservado o do vertice, e quasi rombo, em consequencia de fracturas, o da base. Pode considerar-se o instrumento como uma pyramide de secção rectangular, truncado no vertice com os angulos, formados pelo encontro das faces com os bordos, agudos, regularmente alisado em toda a sua superficie. Um d’elles que se encontra partido pelo meio no sentido longitudinal, tem o gume em forma de quilha de navio, circunstancia digna de notar-se, e a face que resta convexa, e é o menos grosseiro de todos.”

II - Peso de Pedra

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“É um disco quasi circular, com uma das faces planas, em que se notra um circulo ponteado, 12 pontos, perto de um orificio circular, que atravessa em todas a espessura o objecto, e fora d’este e concentricos outro pontos, que nao constituem porém outro circulo, completo como o primeiro. As duas faces ligam-se ao bordo por meio de angulos abatidos pelo desengrossamento das faces, e a tal ponto que aquelle é redondo em algumas partes da sua extensão e noutras quasi. O buraco é muito liso em toda a sua superficie, não tem a menor falha do lado da face plana, o que nao dá na face convexa, em que mostra uma depressão igual a metade de um feijão cortado transversalmente, com a parte mais profunda dirigida para o centro de perfuração.


Não indico dimensões porque todas ellas constam da gravura que representa o objectivo em tamanho natural. Pela forma, cor e perfeição, vê-se que esta deve ter sido feita ao mesmo tempo que o buraco central, que tem os lados equidistantes do centro do disco e as aberturas em ambas as faces de raio quasi igual, o que não acontece no meio do disco em que é sensivelmente mais curto aquelle. Observado o buraco de uma face e da outra não resta duvida que a perfuração foi effectuada em dois tempos, atacando-se o disco por cada uma das faces, e que aqulle se pode considerar como formado pelo encontro de duas pyramides conicas trucadas, que unissem pelas superficies cortadas e com as bases para fora. É o primeiro objecto d’esta especie que me veio à mao e me parece poder calssificar-se como peso de fuso, a não querer considera-lo peso para redes de pesca rudimentamente ordenado”. (in: “O Archeologo Português”)

Dólmens no Concelho de Murça “Na povoação do Sobredo, freguesia de Noura, em uma plantação de bacellos do proprietário José Caetano Gomes Teixeira, quando abriam uma vallada, encontram os trabalhadores quatro instrumentos de pedra, dos quaes tres apresentam forma inteiramente differente da de todos os que tem apparecido noutros pontos do districto. 1º Um instrumento de schisto ardosiano, de forma conica bastante irregular, com uma concavidade muito pronunciada de um lado e uma convexidade no lado oposto, terminando na base por um gume cortante de forma convexa, formado pelo desengrossamento do tronco da pyramide, tendo de comprimento o instrumento 0.20cm, de largura na parte mais larga 0.05cm e de espessura 0.25cm, e o vertice de forma de uma pyramide triangular com o apice quebrado. Pela configuração parece que se serviam d’elle segurando-o com a mão, e não por meio de gastalho. 2º Um instrumento de schisto ardosiado de configuração muito semelhante do no1 , mas differindo d’este principalmente em ter o vertice rombo, não ser polido senão no gume, e dimensões menores: 0.12cm de comprimento, 0.04cm de largura e 0.35cm de espessura. Pela configuração parece que tanto este instrumento como o outro eram proprios para prestarem serviços sem auxilio de qualquer cabo ou gastalho.

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3.º Um machado de schisto ardosiano, espalmado , de quatro faces rhomboides perfeitamente polidas, terminando a base e vertice em gume, um pouco convexo, tendo de comprimento 0.12cm de maior largura 0.05cm e de maior espessura 0.035cm. Esta forma de instrumentos é rara nos machados encontrados nos concelhos de Villa Pouca e Alijó, mas identica á de alguns que me foram offerecidos pelo meu bom amigo Pe. Adriano Guerra, de Moncorvo, e encontrados na lousa (Fig. 3.a). 4.º Um instrumento de schisto, como os tres descritos, mal polido de 0.17 cm de comprimento, 0.05cm na maior largura e de 0.045cm na maior espessura, de forma semelhante á dos noos 1.º e 2.º, terminado em ponta aguda, e de base de forma convexa, que me parece poder denominar-se picão por lhe achar semelhança, e grande, com o instrumento figurado numa estampa do vol. II da obra de Estácio da Veiga. Este instrumento, de forma mais ou menos roliça como as dos noos 1.º e 2.º, apresenta como elles uma face sensivelmente convexa uma curvatura pronunciada na oposta, indicando esta configuração que estes instrumentos eram manejados sem o auxilio de qualquer outro meio e que nos noos 1.º e 4.º podia ser aproveitado tanto a base como o vértice, que termina numa ponte aguda no do n.º 4. A extremidade oposta à base do instrumento n.º 2 é arredondada. Todos estes tres instrumentos tem grande semelhança com as pontas de um bezerro. Da mesma configuração d’estes instrumentos, que foram os primeiros que vi em Trás-os-Montes, possuía o meu amigo Abbade de S. Pedro, d’esta villa, dois instrumentos encontrados em Jou, concelho de Murça, por um lavrador na occasião em que lavrara um campo para semear centeio. Achou-os quasi ao mesmo tempo que appareceram os meus. Os de Jou são de dimensões um pouco maiores do que os dos que obtive. A propósito d’estes instrumentos aproveito a ocasião para chamar a atenção para alguns dólmens que informam existirem em Zebras, freguesia de Jou, e de muitos outros, situados a pequena distancia da estrada municipal de Carrazedo- Montenegro a Jou, do lado esquerdo, seguindo-se de Carrazedo para Jou“. (in “Archéologo Português”). 168


NOTAS: (1) - CORTESÃO, Jaime, Portugal, a Terra e o Homem, s.11. Artis, 1966, p. 80. (2) - CORTESÃO, Jaime - op. cit., p. 89. (3) - PORTUGAL: Breviário da Pátria para os Portugueses ausentes. Lisboa: SNI, 1946, p. 13 e seg. (4) - GIRÃO, A. de Amorim - Geografia de Portugal, Porto: Portucalense, 1941, p. 389. (5) - Idem. (6) - Idem. (7) - Carta Geológica de Portugal; Carta Tectónica de Portugal; Carta Hidrológica; Carta das Nascentes de Portugal. (8) - Grande Enciclopédia Portuguesa- Brasileira. Lisboa : Enciclopédia Editora, 1978, vol. 20 , p. 189. (9) - NETO, Joaquim Maria - O Leste do Território Bracarense. s.1., s.n., 1975, p..25 e seg. (10) - Descrição dos objectos (Candedo). (12) - Vide pag. 8, palavra “Murça”. (13) - BARROS , Henrique de Gama - História da Administração Pública em Portugal nos séculos XII a XV, 2.ª ed., vol.3, Lisboa, Sá da Costa, 1945, p. 37. (14) - Grande Enciclopédia Portuguesa, vol.29, p. 40. (15) - Idem, vol. 35, p. 879. (16) - POTUGALIAE MONUMENTA HISTORICA - Inquisitiones, pp. 122-124. (17) - SERRÃO , Joaquim Veríssimo - História de Portugal, 3.ª ed., Lisboa, Verbo, p. 185. (18) - SOARES , Torquato de Sousa - Concelhos, in “Dicionário de História de Portugal”, Lisboa: Iniciativas Editoriais, 1971, pp. 651-653. (19) - Ver “Foral de Abreiro “ - Apêndice p.166. (20) - “MORABITINOS” - Antiga moeda árabe usada em Portugal cujo valor rondava os 27 réis. (21) - COLECTA” - Imposição ou cargo de hospedagem ou a esse título, que se pagava ao rei ou senhor territorial, quando vinha ao lugar, uma vez cada ano. (22) - BARROS, Henrique da Gama, op.cit., vol.V, p. 37. (23) - “CALUMNIAS” - Multa criminal exigida por autoridade régia e pertencente ao fisco. (24) - “OMEZIOS” - Assassínios. (25) - BARROS, Henrique da Gama. op.cit., vol V, p. 37. (26) - COSTA, Mário Júlio de Almeida e - Forais, in “Dicionário da História de Portugal“ Joel Serrão (org), Lisboa: Iniciativas Editoriais, 1971, vol.II, p. 279-281. (27) - SOARES, Torquato de Sousa. op.cit., p. 651-653. (28) - COSTA, Mário Julio de Almeida, op.cit., p. 279-281. (29) - LEAL, Augusto Soares d’Azevedo Barbosa de Pinho, op.cit. (30) - Ver Apêndice. (31) - ALVES, Francisco Manuel (Abade de Baçal) - Memórias Arqueológicas - históricas do distrito de Bragança, vol. IV, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1911-1918, p. 236. (32) - Idem , p. 327. (33) - Apêndice, p.132-138. (34) - “ADUA” ou “ANADUVA” - imposto para reparação de muralhas a expensas dos vassalos. (35) - Ver Apêndice. (36) - RAU, Virgínia - Feiras in “Dicionário da História de Portugal “ Joel Serrão (org), Lisboa: Iniciativas Editoriais, 1971, vol II , pp. 195-198. (37) - RAU, Virgínia. op.cit. , p. 113. (38) - RAU , Virgínia, op.cit. , p. 113. (39) - Idem. (40) - Ver “Foral” de D. Sancho II, p. 24. (41) - SALES, Ernesto Augusto Pereira, op.cit., vol.II, p. 208. (42) - Port. Mon. Historica - Leges et consuetudines, vol I , p.574. (43) - FREIRE, Anselmo Braancamp - Archivo Historico Portugues, vol. VIII, Lisboa: Tipografia Calçada do Cabral, 1909, n.º7, p. 273. (44) - Idem, p. 273. (45) - MENDES , José Maria Amado - Trás-os-Montes nos fins do século XVIII segundo um manuscrito de 1796, Coimbra INIC, 1981, p. 625.

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(46) - FREIRE, Anselmo Braamcamp, op.cit., p. 273. (47) - MENDES, José Maria Amando, op.cit., p. 507.(48) - A N T T , Liv. 3º de Além Douro, fl. 193 V. (49) - Ver em Apêndice. (50) - FREIRE, Anselmo Braamcamp - Brasoes da Sala de Sintra , 2.ª ed, vol. I. Coimbra, Imprensa da Universidade, 1921, pp. 468-470. (51) - Idem. (52) - Idem. (53) - Idem. (54) - Idem. (55) - S TOMAS , Leão de - Beneditina Lusitana (edição crítica de Jose Matoso) - tomo 2, Lisboa , Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1974, pp. 394-395. (55.1) - ANDRADE , Ernesto de Campos - Memorias do Marques de Fronteira e d’Alorna : D Jose Trazismundo Mascarenhas Barreto. Coimbra, Imprensa da Universidade, 1939, p.63. (55.2) - As mudanças foram as seguintes : Praças Lopo Vaz Praça Cinco de Outubro Largo Teixeira de Sousa Largo 31 de Janeiro Av. Teixeira de Sousa Avenida da República Rua Azevedo Castelo Branco Rua Primeiro de Dezembro Rua de S. João Rua da Independência Rua de S. Sebastião Rua da Liberdade

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(56) - PINTO, Alfredo ; FONSECA, António Correia da - (O Concelho de Murça), s01, s.n., 1937. AZEVEDO, Correia de - Patrimonio Artistico da Região Duriense, s.1, s.n., 1972 (57) - AZEVEDO , Correia de - op.cit., p.107. (58) - SANTOS , Reinaldo dos - O Trípico de Murça do Pintor Pedro de França, in “Boletim da Academia Nacional de Belas Artes”, tomo XI, 19432, pp. 74-78. (59) - TORRES, Ruy d’Abreu - Pelourinhos, in “Dicionário de História de Portugal “ / Joel Serrão (org.) , Lisboa, Iniciativas Editoriais, 1971, pp. 345-346. (60) - ALMEIDA, Fortunato de - História da Igreja em Portugal (ed. prep. e cor. Damião Peres), vol.III, Lisboa, Livraria Civilização, 1970, pp. 99, 133, 167, 598 e 634. (61) - SILVA, Inocêncio F. da - Dicionário Bibliográfico Português, tomo III, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1913, p. 124. (62) - SILVA, Inocêncio F. da, op.cit., tomo II, p.96; Enciclopédia Portuguesa - Brasileira, vol. 15, p. 354. (63) - ALMEIDA , Fortunato de, op.cit. vol.III, p. 558. (64) - Enciclopédia Portuguesa- Brasileira, vol. 16, p.20. (65) - Enciclopédia Portuguesa - Brasileira, vol. 21, p.788. (65.1) - Agradeço a colaboração da Ex.ma. Família. (66) - SERENO, M. - Caldas de Carlão: Mas Porquê ?, Mirandela, Tip. Além-Douro, 1974. (67) - Uma notícia publicada no Jornal “Voz de Murça”, em 17/02/1927 dizia o seguinte : “D. Serafina Rosa Alves, fabrica com toda a perfeição e limpeza o primoroso “Toucinho do Céu”, especialidade de Murça bem conhecida em todo o país. O Kilo a 25$00, barateza sem rival”. (68) - Notas bibliográficas sobre aldeias : OLIVEIRA , João Justino Baptista - Chorografia Moderna do Reino de Portugal , s.n., 1874. COSTA, Américo - Dicionário Corográfico de Portugal, vol. IV, VI,VII,VIII,XII, 1934-1948. Enciclopédia Portuguesa-Brasileira. (69) - Notas bibliográficas sobre estas aldeias : Enciclopédia Portuguesa-Brasileira BAPTISTA, João Maria, op.cit. COSTA, Américo , op.cit. (70) - Notas bibliográficas sobre estas aldeias : Enciclopédia Portuguesa-Brasileira BAPTISTA , João Maria, op.cit. COSTA, Américo, op.cit. (71) - COSTA, Américo, op.cit. (72) - Enciclopédia Portuguesa-Brasileira


COSTA, Américo , op.cit. (73) - Notas bibliográficas sobre estas aldeias : COSTA, Américo, op.cit. (74) - Notas bibliográficas sobre estas aldeias Enciclopédia Portuguesa-Brasileira COSTA, Américo, op.cit. (75) - Enciclopédia Portuguesa - Brasileira COSTA, Américo , op.cit. (75.1) - Informações prestadas pelo amigo Prof. Francisco Morais, p.103. (76) - JÚNIOR, Santos - Berrões proto-históricos no Nordeste de Portugal. Lisboa, Direcção-Geral dos Assuntos Culturais, 1975, p.14. (77) - Palavra berrão - verrão. (78) - De entre esse referimos a “Porca de Torre de D Chama “, A “Porca do Pelourinho de Bragança”, o “Berrão de Picote”. (79) - JÚNIOR , Santos, op.cit., p. 5. (80) - JÚNIOR, Santos , op.cit., p. 156. (81) - Idem. (82) - VASCONCELOS , J. Leite de - Religiões da Lusitana na parte que principalmente se refere a Portugal. Lisboa, Imprensa Nacional, 1981, p.42, (Edição fac-similada). (83) - Júnior , Santos, op.cit., p.159. (84) - Idem. (85) - Júnior , Santos, op.cit., p.159. (86) - Júnior, Santos, op.cit., p.6. (87) - VASCONCELOS, J. Leite de, op.cit., Vol.II. (88) - VASCONCELOS, J. Leite de, op.cit., Vol. III , p.17. (89) - Idem. (90) - JÚNIOR, Santos , op.cit., p.149 (91) - VASCONCELOS, J Leite de , op.cit., Vol. III, p.16. (92) - JÚNIOR, Santos , op.cit., p. 151. (93) - JÚNIOR, Santos, op.cit., p. 162.

BIBLIOGRAFIA ALMEIDA, Fortunato de - História da Igreja em Portugal / ed. Prep. e cor. por Damião Peres. Porto. Lv Civilização, 1970. ALVES, Francisco Manuel (Abade de Baçal) - Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança. Coimbra, Imprensa da Universidade, 1911-1918. AZEVEDO, Rogério dos Santos de - Onomástico Ibérico (Tentativa Etimológica) Porto, (s.1), 1958. BAPTISTA, João Maria ; OLIVEIRA, João Justino Baptista de , Chorografia Moderna do Reino de Portugal, 1894. BARROS, Henrique da Gama - História da Administração Pública em Portugal nos Século XII a XV , 2.ª Ed. Lisboa, Sá Costa, 1945.

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NEIVA, Manuel Albino Penteado; COUTINHO, Manuel Alves - Estatutária Zoomórfica de Gemeses - Esposende: Um Touro Proto-Histórico. Esposende (s.n.) 1982 Separata. do Número 1 - Boletim Cultural de Esposende. NETO, Joaquim Maria - O Leste do território Bracarense, (s.1), (s.n.), 1975. PINTO, Alfredo ; FONSECA, Antonio Correia da - O Concelho de Murça. (s.1) (s.n.) 1937. PORTUGAL: Breviário da Pátria para os Portugueses Ausentes . Lisboa, SNI, 1946. PORTUGAL: Direcção-Geral do Planeamento Urbanístico - Plano de Ordenamento do Concelho de Murça : Apontamentos. (Porto), Direcção- Geral P1. Urb.1981. SALES, Ernesto Augusto Pereira, Apontamentos Históricos, Mirandela, Câmara Municipal, 1983. SANTOS, Reinaldo dos - O Triptico de Murça do Pintor Pedro de França in “Boletim da Academia Nacional de Belas Artes“ Tomo XI, 1978. SERENO, M. - Caldas de Carlão: Mas Porquê ? Mirandela, Tip. Além-Douro, 1974. SERRÃO, Joaquim Veríssimo - História de Portugal , 3a ed., Lisboa, Verbo, 19. SERRÃO, Joel - Dicionário de História de Portugal, (Lisboa), Iniciativas Editoriais, 1971. SILA, António de Morais - Grande Dicionário da Língua Portuguesa, 10.ª ed. Rev. corr, aum. e al. por Augusto Moreno, Cardoso Júnior e José Pedro Machado. Lisboa, Ed. Confluência, 1954. SILVA, Inocêncio F. da - Dicionário Bibliográfico Português. Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1913. VASCONCELOS, José Leite de - O Archeologo Português. VASCONCELOS , José Leite de - Opúsculos. Lisboa, INCM, 1938. VASCONCELOS, José Leite de - Religiões da Lusitania. Lisboa: INCM, 1991. VASCONCELOS, José Leite de - De Terra a Terra - Excursões arqueológicos etnográficos através de Portugal. Lisboa, INCM, 1927. 173


SIGLAS A N T T - Arquivo Nacional da Torre do Tombo B G U C - Biblioteca Geral da Universidade - Coimbra B P M P - Biblioteca Pública Municipal - Porto B M S P - Biblioteca Municipal Sarmento Pimentel - Mirandela B P M B - Biblioteca Pública Municipal - Braga

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ÍNDICE APRESENTAÇÃO..............................................................................................3 INTRODUÇÃO........................................................................................5 Brasão da Vila de Murça............................................................................7 GEOGRAFIA..........................................................................................10 Relevo, Solo, Clima, Flora........................................................................11 ORIGEM E EVOLUÇÃO HISTÓRICA....................................................17 Terra de Panóias ......................................................................................18 Murça de Panóias.....................................................................................19 Influência Celta.........................................................................................20 Influência Romana....................................................................................21 Influencia Árabe........................................................................................23 CRIAÇÃO DO CONCELHO DE MURÇA..............................................24 Inquirições.................................................................................................25 Forais..........................................................................................................26 - D. Sancho II......................................................................................27 - D. Afonso III.....................................................................................30 - D. Dinis..............................................................................................33 - D. Manuel I.......................................................................................37 Tributos impostos pelo Foral de D. Manuel I........................................38 FEIRA DE MURÇA.................................................................................40 Carta da Feira de Murça por D. Dinis....................................................41 Outras Feiras.............................................................................................44 LIMITES GEOGRÁFICOS.......................................................................45 Divisão Administrativa.............................................................................47 Divisão Eclesiástica...................................................................................51 POPULAÇÃO: EVOLUÇÃO AO LONGO DOS TEMPOS.....................52 OCUPAÇÕES DA POPULAÇÃO............................................................55 DONATÁRIOS E CONDES DE MURÇA................................................58 Condes de Murça.....................................................................................61 MOSTEIRO DAS FREIRAS BENEDITINAS.............................................63 MURÇA ENTRE 1835 E 1985................................................................66 Revolução Liberal.....................................................................................67 Período após o 5 de Outubro de 1910..................................................68 Período após o 25 de Abril de 1974......................................................70 PATRIMÓNIO ARTÍSTICO E MONUMENTAL......................................72 Capela da Misericórdia............................................................................74 Igreja Paroquial de Murça.......................................................................75 Pelourinho.................................................................................................78 Ponte Nova e Ponte do Ratiço................................................................80 Ponte Romana...........................................................................................80 Outros imóveis de interesse arquitectónico..........................................82 FIGURAS ILUSTRES..............................................................................84

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D. Diogo de Murça...................................................................................85 Gaspar Cardoso de Sequeira...................................................................86 Dr. Constantino Botelho de Lacerda Lobo............................................87 D. Inácio Morais Cardoso (Cardeal Patriarca).......................................87 Dr. Basílio Cabral Queirós.......................................................................88 General Alexandre Malheiro...................................................................88 Alfredo Augusto Pinto..............................................................................89 Dr. Basílio Constantino Sampaio............................................................89 Aníbal Augusto Milhais - “Herói Milhões”.............................................90 Américo Constantino Breia......................................................................92 Dr. Manuel Morais da Fonseca...............................................................93 JORNAIS DE MURÇA............................................................................94 “O Povo de Murça”..................................................................................96 “Ecos de Murça”........................................................................................97 “O Morcego”.............................................................................................97 “A ideia”.....................................................................................................98 “A Voz de Murça”.....................................................................................99 POTÊNCIALIDADES TURÍSTICAS.......................................................100 Caldas de St.ª Maria Madalena ou Caldas de Carlão.........................103 Gastronomia............................................................................................105 FREGUESIAS E ALDEIAS......................................................................107 Freguesia de Candedo............................................................................108 Freguesia de Carva..................................................................................115 Freguesia de Fiolhoso..............................................................................116 Freguesia de Jou......................................................................................118 Freguesia de Noura.................................................................................119 Freguesia de Palheiros............................................................................121 Freguesia de Valongo de Milhais...........................................................122 Freguesia de Vilares................................................................................123 INSTITUIÇÕES E COLECTIVIDADES..................................................126 Hospital da Misericórdia........................................................................127 Banda Marcial de Murça........................................................................128 Adega Cooperativa de Murça................................................................129 Cooperativa Agrícola dos Olivicultores de Murça..............................130 Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Murça.......131 Centro de Gestão da Empresa Agrícola do Vale da Porca.................133 Escola Profissional de Murça.................................................................133 A “PORCA DE MURÇA”......................................................................134 Descrição física.......................................................................................136 Enquadramento geográfico-histórico....................................................137 A lenda.....................................................................................................142 Significado etnográfico e religioso........................................................144 A Porca na vida de Murça.....................................................................147 APÊNDICE...........................................................................................151 NOTAS.................................................................................................169 BIBLIOGRAFIA....................................................................................171


Câmara Municipal de Murça 2013

Murca: Histo¦üria, Gentes e Tradicições  
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