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O convite do Presidente da Câmara Municipal de Salvaterra de Magos foi um novo desafio, e eu gosto de desafios — obrigada! Uma palavra especial para a Patrícia Leite, que me contagiou com o seu entusiasmo por Salvaterra e pelos falcões, e tanto me inspirou e ajudou. Para a minha neta Carmo, que fez comigo o levantamento da história de cada uma das personagens, e desenhou o infante D. Luís com o seu falcão na luva.

Isabel Stilwell


Mensagem do Presidente No ano em que celebramos os 500 anos do Foral Manuelino, quem melhor que o Infante D. Luís para assumir a personagem principal deste novo livro juvenil publicado pela Câmara Municipal de Salvaterra de Magos?! Isabel Stilwell aceitou o nosso convite e apresenta aos mais novos a história de Salvaterra de Magos através das aventuras do filho de D. Manuel I, numa altura em que Portugal vivia a época dos descobrimentos marítimos. Comemora-se não só este importante acontecimento na História de Salvaterra de Magos, como também o facto de no dia 1 de dezembro de 2016, na Etiópia, em Addis Abeba, Portugal se ter juntado à lista de países onde a Falcoaria é reconhecida pela UNESCO como Património Imaterial da Humanidade, num projeto liderado pela Câmara Municipal de Salvaterra de Magos, em parceria com a Universidade de Évora e com a Associação Portuguesa de Falcoaria. Que este livro vos permita conhecer um pouco melhor a história de Salvaterra de Magos, da prática da Falcoaria no nosso país e os motivos legítimos que levaram este Município em 2014 a registar Salvaterra de Magos como Capital Nacional da Falcoaria. Votos de uma boa leitura. Setembro de 2017 O Presidente da Câmara Municipal de Salvaterra de Magos

Hélder Manuel Esménio


O Príncipe D. Luís e o mistério do mapa roubado Salvaterra de Magos ano de 1515

Isabel Stilwell ilustrações miguel cardoso


Quando esta história aconteceu corria o ano de 1515 e era rei de Portugal, D. Manuel I, que recebeu o cognome de “O Venturoso” (teve sorte, é verdade, mas também fez muito por ela). Do seu casamento com D. Maria, uma princesa espanhola, teve muitos filhos, de que gostava imenso, mas o seu favorito (diz-se!) era o infante D. Luís, o segundo rapaz. Tanto o pai como o filho gostavam muito de Salvaterra de Magos, de falcões e de caça, de aventuras e descobertas, como vais perceber quando virares esta página e começares a ler. 2

CapÍtulo I Olhos e ouvidos de falcão


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O príncipe D. Luís pôs-se em pé na cama, aos saltos, a camisa de noite comprida a chegar-lhe aos pés, «O pai vai dar-me um falcão peregrino para eu treinar; o rei vai oferecer-me um falcão, eu sei que vai», cantarolava. A irmã, D. Isabel, entrou no quarto, mandando-o calar: — Luís, acordas o paço todo, e ainda ficas de castigo. O infante sentou-se, muito quieto. Se o aio ou a mãe ouvissem esta barulheira podiam muito bem levar o pai a mudar de ideias. Podiam pô-lo de castigo, obrigado a escrever vinte vezes a mesma frase na aula de caligrafia, ou a passar a manhã a estudar matemática — na verdade, não se importava muito, gostava de estudar, mas quem é que prefere estudar a ver um falcão voar pelos céus, tão alto a perder de vista, para cair como um fuso sobre a presa? Ou melhor ainda, ser capaz de o treinar a caçar para nós? Ele não era, com certeza. Muito menos no dia em que fazia NOVE anos. — Já me calei, Isabel —, respondeu. D. Isabel era a sua irmã favorita, e embora fosse três anos mais velha do que ele, nunca o tratava como um bebé. Como fazia o irmão João — Sua Alteza, o Príncipe Real, herdeiro do trono de Portugal, sabia tudo isso, mas “os mais poderosos deviam ser os mais humildes”, estava sempre o padre a dizer na missa, e o João era um convencido! Não resistia a armar-se em “sabe tudo”, e fazia constantemente troça dele: dizia que gaguejava a falar — e não gaguejava nada! — e dizia-lhe que montava mal — e não montava nada! —, e pior do que tudo, dizia que era pequeno demais para ter um falcão. Perdia a cabeça quando lhe dizia aquilo, e quando perdia a cabeça ficava tão furioso que não conseguia pensar. E, mesmo sem querer, dava por si a gritar: — O nosso pai não era o irmão mais velho e agora é rei! Com essa era certo João ficava fora de si, e acabavam à pancada, até que vinha alguém separá-los. Nessas alturas, a mãe, que já não era de muitos sorrisos, chamava-o para o repreender, dizendo que em Portugal e em Castela, de onde vinha, muitos irmãos tinham ficado mesmo sem cabeça — zás, decepada pela lâmina de uma espada —, porque o rei ou o herdeiro imaginavam que eles lhes queriam roubar o trono. Será que um dia o João teria coragem de cortar a dele?


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Mas, quando a zaragata chegava aos ouvidos do pai, o rei D. Manuel só ria. Afagava-lhe o cabelo e defendia que não o podiam castigar por dizer a verdade. D. Manuel não se esquecia de que subira ao trono apenas porque o primo caíra do cavalo e morrera, em Santarém, não muito longe de Salvaterra de Magos. Sem mais filhos, o senhor D. João II não tivera outro remédio senão escolher o sobrinho. Nesses momentos, se estivesse a ouvir, a avó Beatriz atalhava a conversa, lembrando que o filho era rei por vontade de Deus, e que Deus sabia escolher muito bem porque Manuel I de Portugal era o melhor de todos os reis. Bastava ver a riqueza e a glória que trouxera ao reino. As caravelas que mandava descobrir mundos e espalhar a fé por todas as gentes voltavam cheias de ouro, sedas como nunca se tinham visto, e as mais preciosas especiarias, como a pimenta que fazia espirrar, ou a canela que os cozinheiros usavam nos bolos que adorava. E, ao recordar tudo isto, D. Luís repetiu, baixinho, em cada palavra a admiração que sentia pelo pai: Manuel, rei de Portugal e dos Algarves, d’Aquém e d’Além Mar em África, Senhor do Comércio, da Conquista e da Navegação da Arábia, Pérsia e Índia. Na verdade, o irmão João não tinha razão nenhuma para lhe cortar a cabeça porque ele, D. Luís, não queria ser rei. O que invejava a João era o falcão peregrino e a possibilidade de um dia ter um gerifalte, que lhe estaria sempre vedado. Mas já seria tão feliz com um peregrino. Ansioso, perguntou: — Isabel, achas que o rei me vai mesmo dar um falcão, ou estava a brincar? A infanta, que se sentara num banquinho em frente à lareira a entrançar o cabelo, virou a cara para o irmão e, com um ar muito sério — não queria que pensasse que estava a troçar dele —, ordenou: — Mostra-me o teu braço direito, e estica também a mão. O príncipe D. Luís arregaçou as mangas e estendeu o braço o mais que pôde. D. Isabel fingiu observá-lo com cuidado: — Já me parece um braço forte —, concedeu. — É o braço da espada, e o meu mestre diz-me que pego nela como um soldado —, disse o infante, orgulhoso.


A princesa quis saber: — E ouves bem? — Oiço os cascavéis a léguas de distância. Sei sempre para onde foi a ave... — E será que és capaz de falar com elas, como faz o falcoeiro do pai, e fazia o pai dele, antes dele? D. Luís confirmou com vinte acenos da cabeça: — Sou, Isabel, prometo-te que sou, e paciente também. Passo horas na falcoaria, e aqui em Salvaterra de Magos mais ainda. Sigo o mestre falcoeiro e vejo tudo o que faz (é preciso falar baixo, para que não se enervem, sabias?). E quando está a treinar uma ave nova, leva-me com ele para o campo. Põe-lhe o caparão para que não se assuste, no bornal a tiracolo tem sempre viandas, e escolhe sempre um morro mais alto para o ver voar. Eu penso sempre que o falcão não vai regressar, um ponto no céu a perder de vista, mas volta; ou quando apanha uma presa e pousa no chão, vamos lá a correr, e ele entrega-a ao falcoeiro. E, depois, o mestre dá-lhe a recompensa. É assim que aprendem, é assim que fazem. Isabel sorriu-lhe: — Então se o teu braço já está forte, e a tua mão grande, se ouves bem, e ainda por cima sabes falar com as aves, e és paciente, talvez — e disse talvez! — o teu presente de anos seja um falcão! — Vou ensiná-lo a caçar —, cantarolou de novo o infante, desta vez saltando da cama, os olhos a brilharem tanto, tanto, que pareciam mesmo os de uma ave de rapina, capazes de ver a léguas e léguas de distância. — E um dia vou ter um gerifalte, os falcões com que só os reis podem caçar —, rematou. O rosto de D. Isabel ficou sério: — Luís, uma coisa de cada vez. 7


CapÍtulo II O melhor presente de sempre

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Lá fora, este dia 3 de março de 1515 nascera cheio de sol. E o céu estava azul, azul, daquele azul que se vê até ao infinito, tornando ainda mais verdes os campos e transparente o Tejo que corria ali tão perto. Que sorte tinha em celebrar os anos no paço de Salvaterra de Magos, de que gostava tanto — ainda bem que o pai aceitara o convite para vir caçar com D. Nuno Manuel, a quem concedera o senhorio da vila. No terreiro em frente ao paço, o relinchar dos cavalos misturava-se com o ladrar dos cães e as vozes de dezenas de cavaleiros e batedores que se preparavam para a caçada. D. Luís desceu as escadas a correr em direção ao rei, com medo de que o pai se tivesse esquecido da promessa. D. Manuel içou-o nos braços, abraçando-o diante de toda a gente. O infante corou até à raiz dos seus cabelos claros, mas D. Manuel nem reparou e, com voz forte, chamou o mestre falcoeiro. — João de Muge, traz cá o presente do meu filho! Quando o mestre falcoeiro avançou para ele com um falcão peregrino, D. Luís percebeu logo que era uma fêmea muito jovem, ainda nem sequer habituada ao uso do caparão, que cobre as cabeças dos falcões para os sossegar. — Pai, vou poder adestrá-la eu próprio, como sempre quis —, reagiu o infante, feliz. João de Muge sorriu-lhe:


— É ainda muito novinha, apanhada há poucos meses num ninho nuns penhascos altos, aqui pelo meu filho Lopo. Sua Alteza veja como são ainda claras as penas, e como ainda tem muito que crescer. O rei D. Manuel interrompeu-o: — Combinei aqui com o mestre falcoeiro que vais treiná-la com a ajuda do seu filho, que herda do pai todos os segredos da arte. Se não fores capaz, é porque ainda não tens idade para ter um falcão, e tiro-to —, advertiu. Naquele momento, D. Isabel aproximou-se com a rainha, trazendo um saco de couro para usar a tiracolo: — Este boral é o meu presente, e lá dentro está a luva e o rol, que te oferecem os manos mais pequenos. — E de mim vais tomar o apito. Era meu, quando tinha a tua idade e caçava nas terras de Aragão. O som é mágico — os meus falcões respondiam-lhe sempre... O infante calçou a luva na mão esquerda, e falou baixinho à sua ave de rapina: — Vou chamar-te Niasi, como se fosses ainda uma bola de penas que não saiu do ninho, porque vou ser eu a ensinar-te a caçar. Mas não digas o teu nome a ninguém, é um nome secreto que só tu e eu conhecemos. 9


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CapÍtulo III Cuidado! Há espiões na corte

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As mesas corridas e longas estavam cobertas de toalhas de seda bordadas a ouro, e as canecas de vinho levantavam-se cheias. Nas duas lareiras da sala ardiam enormes fogueiras, porque as noites ainda estavam frias, e os criados entravam e saíam com troncos gigantes para alimentar o fogo. O cheiro da caça no espeto enchia o ar vindo das cozinhas e abria o apetite dos esfomeados caçadores. Mas como ninguém podia sentar-se até que o rei chegasse, e muito menos começar a comer, bebiam até ao fundo das canecas e enchiam-nas de novo. D. Luís olhava para a cortina que cobria a porta por onde o pai entraria, também com impaciência crescente. Tinha tanto para lhe contar — queria dizer-lhe que hoje o seu falcão saltara pela primeira vez do poleiro para a luva, equilibrando-se nela enquanto comia uma vianda de pombo fresco com que o premiara. Queria contar-lhe que Lopo, o falcoeiro, garantia que era raro um falcão confiar tão depressa... Mas o rei não chegava. Sem que dessem por ele, franqueou a cortina e foi seguindo o rasto de luz e vozes que vinham da câmara do rei. À medida que se aproximava, a voz do pai chegava-lhe forte e animada — o assunto devia ser mesmo importante para que D. Manuel se esquecesse do jantar. Para dizer a verdade, só havia uma ocasião em que o pai não ouvia as horas que a barriga lhe indicava: quando


os capitães dos seus barcos voltavam da Índia, do Brasil ou de África, trazendo-lhe notícias de novas terras descobertas. Depois de meses e meses de viagem, mal punham um pé em terra, acorriam a onde quer que o rei estivesse, para lhe dar novas. Os olhos de D. Luís brilhavam no escuro. Como adorava ouvir as suas histórias, os relatos de homens com quatro olhos e caudas compridas, e de cobras tão grandes, que eram capazes de engolir uma casa. Aproximou-se da porta, e encostou um ouvido, mas uma mão forte no ombro fê-lo dar um salto de susto. — Olha quem aqui está! Como vai Sua Alteza, apanhada a espiar à fechadura? O infante voltou-se, envergonhado, para dar de cara com D. Vasco da Gama, sorridente ao lado de Pedro Álvares Cabral, tão divertido quanto ele. E foi Álvares Cabral que entrou na sala, empurrando suavemente à sua frente o infante. — Senhor D. Manuel, acho que aos nove anos o infante tem já idade para seguir a nossa conversa! O rei deu uma gargalhada, indiferente ao facto de D. Luís se ter tornado da cor de uma romã. — Não temos segredos para ti, Luís, mas estás proibido de repetir seja o que for do que aqui for dito, ouviste? E, apontando para o mapa aberto sobre a mesa, em redor do qual estavam navegadores, cosmógrafos e matemáticos, lembrou: — Há espiões na Corte, ansiosos por uma oportunidade de lançarem mão a estes roteiros das viagens marítimas portuguesas. Pedro Álvares Cabral, que após a grande descoberta do Brasil se acolhera a Santarém para escrever as suas aventuras, debruçou-se sobre o mapa, exclamando: — E então este valeria ouro nas mãos de um espião! Espanha, França, Holanda, Inglaterra, o que não faltaria era quem quisesse comprá-lo, fosse por que preço fosse. D. Manuel concordou com um gesto da mão: — Queremos que saibam que os portugueses já chegaram a muitos lugares que nem se imaginavam, mas não desejamos que lá consigam chegar sem a nossa ajuda. Sem pagarem para lhes aceder.

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O infante entusiasmou-se: — Já aqui está a passagem do Atlântico para o Índico! Onde ficará a terra de Preste João? Ao ouvirem o nome do imperador cristão, que todos conheciam, mas nunca ninguém tinha visto, todos os homens daquela sala começaram a falar. Dizia-se que vivia num reino onde os telhados das casas eram de ouro, e as pedras preciosas cobriam as ruas, e D. Manuel procurava-o incessantemente, como outros antes dele, para que se aliasse aos portugueses na reconquista de Jerusalém, que caíra nas mãos dos infiéis. A porta abriu-se de novo, e entrou mais um capitão acabado de chegar a Salvaterra de Magos: — Vossa Majestade —, disse, dobrando o joelho e beijando a mão do monarca —, o senhor D. Afonso de Albuquerque enviou-lhe da Índia um animal extraordinário. É como um unicórnio, com um corno no meio da testa, mas não é um cavalo... E o corno não é um corno, são pelos sobre pelos, tão fortes que fazem as vezes do marfim. O rei gesticulou de contentamento — como eram longos, os seus braços, pensou o infante, porque mesmo quando estava de pé os dedos das mãos chegavam aos joelhos: — Um novo exemplar para a minha menagerie (D. Luís sabia que era o nome francês para o jardim zoológico real), e depois vou espantar de novo o Papa com um presente que ninguém consegue igualar. Foi só então que D. Luís reparou em Tristão da Cunha, que ainda há menos de um ano levara Hanno a Roma, uma fêmea de elefante que maravilhara o Papa e todos os que a tinham visto. Ainda por cima, o animal ajoelhara-se três vezes perante o Santo Padre e, depois de sugar a água de um balde, espirrara com a tromba os cardeais e bispos ali reunidos. Decididamente, Tristão da Cunha era a pessoa certa para falar da nova besta, pensou D. Luís, escutando-o com atenção: — É um rinoceronte. O novo mensageiro concordou:

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— Exatamente, e aguentou a viagem de barco sem perder a calma. Vem com ele um tratador indiano, Majestade, e desembarcaram junto das obras da Torre, em Belém. — Vamos vê-lo a Lisboa —, decidiu logo ali o rei. E, subitamente lembrando-se das histórias do tempo dos gregos, exclamou: — Vamos ver como defronta um elefante, para que se saiba quem é mais forte e corajoso. Fazendo sinal a todos os que ali estavam, ordenou: — Vamos contar à rainha! Saíram todos em direção ao jantar. Só o mapa ficou sobre a mesa...

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CapÍtulo IV Oh não, o mapa desapareceu

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Tenho sempre esperança de que a carroça que traz as nossas mesas e livros se perca pelo caminho, mas nunca acontece —, disse D. Luís à irmã Isabel, que acabara de se sentar ao seu lado na sala de estudo. Não importava para onde iam, se para Norte, se para Sul, porque os professores e os manuais seguiam-nos para toda a parte, e exceto ao domingo, dia do Senhor, em todos os outros havia lições a partir das oito horas da manhã — português, latim, grego, caligrafia (como era fácil esborratar tudo, quando se escrevia com uma pena molhada num tinteiro), e também as suas favoritas, matemática, astronomia e geografia. Mas hoje o infante só queria sair dali, para continuar a ensinar a Niasi. — Senhor D. Luís —, chamou o professor Tomás de Torres, mas o infante continuava a olhar para fora da janela, sem o ouvir. — Senhor D. Luís, onde está hoje com a cabeça? —, insistiu o professor, numa voz mais grossa, mas teve de ser D. Isabel a beliscar-lhe o braço para que o infante voltasse à Terra. — Desculpe, professor — gaguejou —, mas estava a pensar que comprimento devia ter a correia para treinar a minha ave. Para surpresa de D. Luís, D. Isabel e os irmãos, o professor Tomás, em vez de se zangar, ficou radiante: — Vamos então resolver problemas matemáticos com falcões. Pode começar já com esse — quantas varas

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deve medir a correia com que a ave é presa? Uma avessada? — Uma avessada deve ter um pouco mais de uma braça —, respondeu pronto o infante — Mas agora vamos complicar a questão: como é que podemos descobrir a que altura se faz o voo de um falcão peregrino? D. Luís não sabia, mas a infanta Isabel pôs o dedo no ar: — Se atássemos um fio à pata da ave, deixando-o desenrolar-se à medida que sobe, conseguíamos saber. D. Luís acrescentou: — E a seguir medíamos o fio com a vara, o que tinha sido usado ou o que ficara no fiador, e tínhamos a altura exata. — E excitado, implorou: — Podemos ir experimentar, professor? Deixe, deixe lá... Os olhos do professor Tomás brilhavam tanto como os dos seus alunos: — Hoje não, porque têm de me dar tempo para preparar todo o material de que precisamos, e ainda de pedir ao mestre falcoeiro que venha connosco com um dos seus falcões peregrinos, mas amanhã prometo-vos que a aula será lá fora. Agora, peguem na pena e vamos enunciar mais alguns problemas, para os resolvermos amanhã. Senhora D. Isabel, sabe a que velocidade voa um falcão peregrino? D. Luís interrompeu, e num tom trocista disse: — A minha irmã é uma princesa, e as damas só podem ter um esmerilhão.


— Que pelo menos está muito mais bem treinado do que o teu peregrino —, respondeu zangada a princesa. O professor Tomás franziu o nariz: — Senhor D. Luís, nem parece coisa sua, sobretudo depois da sua irmã ter sido a primeira a arquitetar a experiência que vamos amanhã fazer. Além disso, não se esqueça de que a fêmea é melhor caçadora do que o macho — daí chamarem-lhes «primas», que vem de primeiras... — És mesmo um «treçó» —, respondeu a infanta, porque era o nome dado aos machos, sempre mais pequenos e mais fracos. O professor Tomás fingiu não ter ouvido e, olhando encorajadoramente para a princesa, repetiu a questão: — Senhora D. Isabel, a que velocidade voa um falcão peregrino? A infanta respondeu imediatamente: — O voo regular faz-se a cerca de 22,5 léguas por hora, mas quando desce a pique sobre a presa chega às 48 léguas. — Não há nenhuma ave nobre mais rápida do que um peregrino —, acrescentou D. Luís, orgulhoso. — E quantas varas tem uma légua? —, disparou o professor. — Seis mil varas —, respondeu logo D. Luís, que não queria ficar atrás da irmã. — E quantas braças? —, perguntou de novo o mestre Tomás. — Três mil —, respondeu D. Isabel. — Muito bem. Então vamos tornar isto ainda mais difícil. Quanto tempo demoraria um falcão peregrino a voar de Salvaterra de Magos a Santarém? D. Luís sacudiu a cabeça, desanimado: — Os falcões não vão por estrada, e não sei a distância em linha reta. O professor ajudou-os: — É um exercício para treinar a vossa inteligência, não tem de ser absolutamente rigoroso. Sabem quantas léguas são pelo caminho que normalmente tomamos?

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D. Luís quase saltou da cadeira: — Cinco léguas e meia, e por isso... Mas a resposta nunca chegou ao fim, porque a voz alterada do rei D. Manuel ouvia-se cada vez mais perto e, de repente, a porta da sala de estudo abriu-se com um estrondo, e o rei entrou com o rosto vermelho de fúria: — Luís, mexeste no mapa? O infante ficou mais lívido do que a cal: — É claro que não, pai, não lhe toquei. Estava na mesa quando saímos todos para o jantar. O rei levantou os longos braços, em desespero: — Mas já lá não está! Desapareceu. Já se procurou em todo o lado, e não há rasto dele... — Porque é que o pai julgava que eu lhe tinha mexido? —, perguntou o infante, magoado por o rei ter pensado que ele era capaz de andar a brincar com uma coisa tão preciosa. — Desculpa, meu filho, mas era mais uma esperança, sabes? Se o tivesses ido buscar, para resolver alguma dúvida aqui com o mestre Tomás, pelo menos não estava agora nas mãos do inimigo. E, virando as costas, voltou a sair. O professor não perguntou mais nada. Se eram segredos do reino, não podiam ser divulgados, mas o infante segredou à irmã: — Isabel, o pai acusou-me, agora tenho de ser eu a encontrar o mapa.


Ninguém o encontrou, por muitas voltas dadas ao paço, por muito que os soldados do rei interrogassem os senhores e as senhoras da Corte, os criados e as gentes de Salvaterra. Como pista só havia a descrição de uma velha lavadeira que garantira que vira um vulto, envolto num manto negro, a sair do paço, mas que se desfizera no ar com um estrondo. «Obra de Magos», dissera alguém, mas o rei, irritado, retorquira: — Estes magos sei eu bem ao serviço de quem estão —, e todos sabiam que se referia aos holandeses. — Delírio de uma louca, vai aparecer —, acalmara a rainha, mas D. Luís pensou: seria possível que os Magos de Salvaterra tivessem alguma coisa a ver com isto? Tinha de descobrir.

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CapĂ?tulo V Nos bastidores de um torneio

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— Vamos a Lisboa ver o rinoceronte, senhor D. Manuel? Mas a sua maior preocupação não era o mapa desaparecido? —, queixou-se a rainha D. Maria, que não tinha vontade nenhuma de deixar a tranquilidade daquele paço. Sempre que conseguia estar sossegada, tanto quanto uma mãe de oito filhos e à espera do nono pode estar, era preciso mudar de lugar, empacotar tudo em arcas, tirar as tapeçarias que cobriam as paredes e os tapetes do chão, e até levar os colchões e as panelas. Além disso, sentia-se mesmo bem em Salvaterra de Magos, que reunia todas as vantagens — era rodeada destas lezírias férteis de que tanto gostava, o que não faltava era caça nas coutadas reais, era suficientemente perto da capital para que os ministros do rei lá chegassem sem dificuldade, e longe da confusão do paço da Ribeira, dos cheiros e das doenças que em Lisboa se espalhavam como um incêndio, sobretudo agora que o comércio crescia e se juntavam ali gentes vindas de todo o mundo. D. Luís pôs-se do lado da mãe. Como é que podia sair de Salvaterra de Magos no momento exato em que o mestre Tomás lhe ia dar aulas no campo aberto, e a Niasi estava quase pronta para a libertarem dos piós, as correias que prendiam as patas à luva, e ensaiar chamá-la com o apito da mãe? Lopo prometera continuar o treino, mas o comentário do príncipe D. João corroera-o por dentro. «O teu querido falcãozinho vai responder melhor à voz do filho do falcoeiro do que à tua», resmungara, pondo o dedo na ferida — não conseguia mesmo afastar do coração o medo de que fosse assim mesmo. Simplesmente, o rei D. Manuel quando metia uma ideia na cabeça não desistia dela nem por mais uma, e dias depois embarcaram todos na galé real. D. Luís ainda pediu para que o deixassem ficar, mas nada feito, os pais queriam-nos sempre todos juntos! Instantes antes de largarem do cais, o mestre falcoeiro metera-lhe no bornal um livro pesado. — É um tratado de falcoaria, Vossa Alteza. Aproveite este tempo para aprender mais sobre o adestramento. Vai ver que assim, em vez de perder tempo, ganha... E foi assim que a nuvem preta que sentia sobre si se foi dissipando, até porque, valha a verdade, não havia amuo que resistisse ao prazer de sentir a brisa fresca no rosto, de ver correr nas margens os veados e os javalis, de virar os olhos para o céu e seguir a viagem dos patos selvagens e dos açores, ao som dos remos na água. Niasi não o esqueceria.

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Mas quem quase se esqueceu de Niasi, e até do mapa roubado, foi D. Luís, tal o entusiasmo nos preparativos para o grande confronto entre o elefante e o rinoceronte. Aliás, tal era a alegria geral, que até o príncipe D. João se esquecera também das embirrações do costume. — Luís, o pai mandou que o rinoceronte ficasse aqui no paço da Ribeira, e já estão lá fora a preparar o terreiro do combate —, contou D. Isabel, e D. João acrescentou: — O elefante está na menagerie do Palácio de Estaus. Fomos vê-lo de manhã com o pai. É ainda muito novinho, mal tem os dentes de fora, mas o tratador indiano diz que é forte como um touro. D. Luís abanou a cabeça, envergonhado: — Confesso que nem olhei para ele com cuidado, estava tão entretido a ver os novos gerifaltes que chegaram da Holanda. O pai diz que os vamos levar connosco para Salvaterra de Magos, já lá deviam estar se não fosse esta vinda inesperada a Lisboa. D. João impacientou-se: — Deixa lá os falcões, Luís. Vamos antes ver o terreiro da luta. Queres fazer apostas? D. Isabel zangou-se: — Sabes bem que a mãe nos proíbe que apostemos, seja no que for. Mas os dois irmãos ignoraram-na: — Ganha o rinoceronte —, disse D. Luís —, e dás-me a tua melhor luva de falcoaria. — Ganha o elefante —, escolheu D. João —, e tu entregas-me o manual que João de Muge te ofereceu. E apertaram as mãos para selar a aposta.


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O terreiro estava dividido em duas partes, separadas por uma cortina pesada e espessa, que só se levantaria por ordem do rei. D. Manuel e D. Maria, rodeados dos filhos e de toda a Corte, sentaram-se num trono alto, coberto por um pano de ouro, que brilhava ao sol. Vestiam todos os seus melhores fatos, cobertos de joias, como se fossem a um baile. Só que quando o rei fez sinal para que o «duelo» começasse, nada aconteceu como esperado. O rinoceronte avançou lentamente na direção do elefante, que, aterrorizado, largou a fugir, espalhando o pânico entre a multidão que viera à Ribeira procurar espreitar o espetáculo. Por desistência do inimigo, ganhou o animal de um corno, que todos exclamavam ter saído de um bestiário de animais maravilhosos. — Pobre bicho —, queixou-se D. Isabel, quando soube que o elefante fora apanhado já no Rossio, e devolvido trémulo e assustado à sua cerca no jardim zoológico do rei. Quem não se conformava a ter perdido a aposta era D. João: — Em condições normais teria ganho o elefante —, insistia —, mas... E o irmão e a irmã repetiam em coro: — ... mas os dentes ainda eram demasiado pequenos! — Isso mesmo —, disse, irritado, D. João. — Agora, o que vai acontecer ao rinoceronte? —, perguntou a infanta D. Isabel. E foi o pai que lhe respondeu:


— Vou mandar fazer-lhe um colete de prata, cravejado de pedras preciosas, cobri-lo de sedas, e embarcá-lo em Lisboa para uma nova embaixada a Roma. O Santo Padre vai ficar maravilhado e, mais uma vez, toda a gente vai falar dos portugueses... — E nós podemos voltar a Salvaterra de Magos? —, perguntou D. Luís. O rei deu-lhe uma palmadinha amigável na cara: — Vamos lá ver o que já faz esse teu peregrino. D. Luís voltou-se então para D. João, e com um sorriso vitorioso comentou: — A partir de amanhã vou ter uma luva nova do melhor couro! D. João baixou os olhos para esconder a fúria. Mais valia silenciar depressa o irmão, cumprindo o prometido, do que arriscar-se a que a mãe viesse a saber que andara a fazer apostas.

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CapĂ?tulo VI Niasi e o mago de Salvaterra

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D. Luís fingiu despir-se, fingiu que vestia a camisa de dormir, fingiu que se metia na cama, e fingiu que dormia, mas não adormeceu nada. Era preciso esperar que o paço estivesse seguro para que pudesse escapar-se dali em segurança. A família real chegara ao paço de Salvaterra de Magos já ao fim do dia, e não o deixarm ir ver o seu falcão. Que era a mesma coisa vê-lo naquele dia ou no outro, tinham dito, e o irmão João, ainda zangado com a luva que fora obrigado a entregar-lhe, encontrara maneira de tornar a proibição mais proibição. «Amanhã temos lições de manhã cedo, e o Luís ainda não fez os trabalhos para casa», dissera, e nem os olhares assassinos de D. Isabel o calaram. Felizmente estava lua cheia, suspirou, quando finalmente decidiu saltar da cama e pôr-se ao caminho. Conseguiu evitar os guardas e os criados que velavam o sono dos reis, mas já no terreiro tropeçou num alguidar, e o barulho pareceu-lhe ensurdecedor. Por sorte, ninguém pareceu dar por ele. Esgueirando-se pela sombra, aproximou-se do quarto onde dormia Lopo, mesmo ao lado da falcoaria, e atirou umas pedrinhas à janela. Como se estivesse à espera dele, o filho de João de Muge fez-lhe sinal de que já descia. — Será que conseguimos entrar na falcoaria sem que as aves se agitem e façam barulho? —, perguntou o infante, sabendo que os falcoeiros que as guardavam tinham ouvidos apurados. Mas Lopo crescera entre falcões, conhecia-os como as palmas das suas mãos, e embora os sacres se tivessem agitado, e o bufo-real os olhasse com uma intensidade que fazia calafrios, a maioria das aves mantivera-se sossegada. — Temos é de evitar passar daquele lado, porque o falcoeiro holandês e o ajudante estão lá a dormir com os gerifaltes que chegaram da Holanda; depois da viagem Tejo acima, chegaram aqui muito agitados —, explicou Lopo, com cuidado, para manter a voz baixa. — Mas onde está a..., quer dizer, onde está o meu peregrino? —, disse D. Luís, que sem querer quase revelara o nome secreto da sua ave. — Deixei-a no telheiro, desconfiava que o senhor D. Luís não resistiria a vir vê-la ainda hoje. D. Luís sorriu-lhe, grato.

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— Achas que podemos libertá-la, treinando-a com o rol? —, perguntou o infante, quando já se tinham afastado para campo aberto. Lopo hesitou, — Talvez seja melhor habituarem-se de novo um ao outro por uns dias —, disse, mas o infante já tinha tirado do bornal uma pequena bola de couro em que estavam cosidas as penas de um pombo, para simular uma presa real. Primeiro, repetiram muitas vezes os ensaios iniciais, do banco para a luva, depois pôr e tirar o caparão e, por fim, a recompensa: — É mesmo esperta esta minha ave, e parece-me que se afeiçoou mesmo a mim —, dizia o infante. Lopo pensou em repetir-lhe o que ouvia constantemente ao mestre falcoeiro — «nunca te esqueças de que são animais selvagens, aves nobres, não se domesticam, mas tratadas com respeito, respeitam também» —, mas desistiu. Não queria ser desmancha-prazeres e, bem vistas as coisas, talvez os adultos soubessem menos do que os mais novos sobre estas coisas... Quando finalmente o dia clareou, D. Luís decidiu-se: — É agora, Lopo, é agora que a vou largar. E antes que o jovem falcoeiro pudesse evitá-lo, o infante soltou a ave, que voou cada vez mais alto, desaparecendo no céu rosado da manhã. O rosto do infante ficou lívido. — Para onde foi ela? Porque é que não volta? —, exclamou. Lopo estava tão aflito quanto ele. Se perdessem a ave, o pai e o rei atiravam-no de certeza para dentro de uma masmorra, deixando-o por lá a apodrecer. Sabia bem que D. Manuel conseguia ser duro e implacável. — Senhor D. Luís, sopre o apito —, implorou-lhe. Mas nem o apito da rainha trazia Niasi de volta. Se tivesse ido para a floresta não a apanhariam nunca. Lopo gritou: — Foi naquela direção, o campanário de S. Paulo, é a nossa única esperança. Correram os dois em direção à igreja, e de repente os olhos de rapina de Lopo viram-na.

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— Vê aquela pinta ali? Aposto que é ela, lá em cima, junto do sino. Um peso saiu do peito do infante. — Ainda aí tens viandas? Ela vai ter fome depois disto. Lopo suspeitava que não, tinham-na alimentado vezes demais durante o treino inicial, daí ela não ter pressa nenhuma em voltar para a recompensa, mas o importante agora era conseguir subir à torre sem a assustar. Talvez, próximos dela, a sua voz fosse capaz de a levar a voltar para a luva. Só que quando se aproximavam do lugar, viram um vulto de capa negra a esgueirar-se pela porta que dava acesso à torre. — Um Mago de Salvaterra —, exclamou assustado Lopo, mas D. Luís raciocinou depressa e puxando o falcoeiro para que se escondessem atrás de uma árvore, disse-lhe: — E se for um ladrão disfarçado de mago para assustar os supersticiosos? Lopo, será o espião que roubou o mapa ao meu pai? — Mas porque voltaria a Salvaterra?, por esta altura já podia estar a léguas de distância daqui, noutro reino até. — Talvez porque tenha sido obrigado a esperar, talvez estivesse obrigado a acompanhar o rei a Lisboa, talvez seja alguém que lhe é próximo... Lopo estremeceu. A ideia de que alguém próximo do rei fosse capaz de tamanha traição era terrível. O barulho de pés a correrem velozmente sobre as folhas secas do chão, obrigou-os ao silêncio. — Lopo, é um segundo homem que vem ter com o mago! Com os teus olhos de falcoeiro, tenta ver se o reconheces —, pediu o infante. Lopo franziu de novo os olhos, e exclamou: — Não acredito! É o ajudante do mestre falcoeiro que trouxe... D. Luís terminou a frase: — Os gerifaltes da Holanda! Está tudo explicado. Um espião na Corte roubou o mapa e vai agora vendê-lo a um espião holandês. Agiu naquele dia porque julgava que os falcões viriam diretamente para Salvaterra, mas depois o rei decidiu ir a Lisboa e ficou tudo adiado.


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Deve ter escondido o mapa aqui na torre, onde ninguém se lembraria de o procurar. Lopo concordou: — É o crime perfeito, senhor D. Luís. Depois disso, deixam as aves e voltam para a Holanda com o mapa, ninguém ia desconfiar. Mas não acredito que o mestre falcoeiro saiba disso, este ajudante é que é com certeza um falso aprendiz. — Agora o importante é apanhá-los —, lembrou D. Luís. — Trancamos a porta cá de baixo por fora, de maneira que não possam sair, e chamamos a guarda do rei. — Lopo, mas assim perdíamos a minha... o meu peregrino, e isso não pode acontecer. — Talvez já esteja com mais fome e responda ao apito —, sugeriu o filho do falcoeiro. Mas D. Luís estava determinado a não arriscar. — Corre, vamos trancar a porta, e depois entramos por uma outra, que vai dar a um patamar mais acima. — E, sem olhar para trás, desatou a correr, com Lopo no encalço. Os ladrões de mapas tinham deixado a chave na fechadura, e D. Luís rodou-a e pô-la no bolso. Depois, forçaram os dois a porta da sacristia, onde pararam, ofegantes. As vozes dos ladrões vinham de perto, e D. Luís ouviu também os guizos que a sua ave tinha presos na pata. — Lopo, oiço as cascáveis, vamos subir sem fazer barulho. Pé ante pé, os dois treparam até junto do enorme sino, a esfera armilar gravada no ferro, a «assinatura» com que D. Manuel I, rei de Portugal, marcava todas as obras que mandava fazer, aquém e além mar. O filho do falcoeiro aproximou-se do falcão, falando baixinho, mas a ave saltou para um ponto mais alto, olhando-o altivamente. — Deixa-me tentar, Lopo —, disse o infante, e aproximando-se sussurrou «Niasi, Niasi», esticando o braço esquerdo, com a luva calçada. Para espanto de Lopo, o falcão pareceu deixar-se encantar pela voz do dono e por aquele nome mágico que o príncipe entoava como uma oração, voando para o seu braço. Devagarinho, para não a assustar, D. Luís atou os piós às patas, enquanto fazia sinal a Lopo para que se aproximasse com o caparão.

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— Desça com ela, senhor D. Luís, que eu fecho de seguida o alçapão e depois a festa vai começar — estes dois bandidos vão arrepender-se da traição. — Lopo, não toques logo o sino, dá-me tempo de devolver a ave à falcoaria, antes do alerta. Conta até cem, não é preciso mais, porque eu e ela vamos tão depressa como se voássemos... E Lopo esperou, ignorando os pontapés e os murros com que os homens procuravam derrubar a porta, e quando lá de cima viu D. Luís a regressar, repicou os sinos como nunca ninguém o fizera. O povo e os soldados chegaram em instantes, e D. Luís apontou aos guardas do rei a porta da torre: — Prendam-nos, mas cuidado — um deles traz escondido na capa o mapa que pertence ao rei de Portugal.

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Nessa noite, D. Manuel ordenou que se celebrasse o retorno do mapa secreto: fogo de artifício encheu os céus e vinho correu das pipas, enchendo as canecas das gentes de Salvaterra de Magos. — Luís, ainda me vais ter de explicar melhor o que fazia na igreja de São Paulo àquelas horas da madrugada —, disse-lhe o pai, piscando-lhe o olho. E, sorrindo para o príncipe, anunciou: — Podes pedir-me o que quiseres como recompensa. D. Luís sorriu-lhe: — Quero Salvaterra de Magos. Um dia quero aqui fazer o paço mais bonito e a melhor falcoaria do reino. O rei afagou-lhe o cabelo: — Senhor D. Luís, Salvaterra de Magos vai ser tua. E foi nessa altura que, para espanto do infante, o príncipe D. João aproximou-se e disse: — Perdíamos muito se aquele mapa tivesse ido parar a mãos estrangeiras. Foste muito esperto e corajoso, Luís. Espero vir muitas vezes caçar ao teu paço! D. Luís agradeceu: — Nessa altura, já vais caçar com um gerifalte —, concedeu. E rindo, acrescentou: — Mas a tua melhor luva de couro será sempre minha. D. Isabel, que se chegara perto, deu uma gargalhada: — Não há ninguém que vos meta juízo nessas cabeças. E não houve.


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EpÍlogo

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A promessa foi cumprida. A 20 de agosto de 1517, o rei D. Manuel concedeu um novo foral a Salvaterra de Magos, e, no ano de 1542, foi o irmão João — então D. João III, por morte do pai — que entregou a D. Luís o senhorio da vila. O infante também pôs então em prática os seus planos, contratando o mestre Miguel Arruda para restaurar e ampliar o paço e os jardins, construir a Capela Real, que ainda hoje pode ser visitada, e uma magnífica falcoaria, que antecedeu aquela que resistiu até nós. Gastou nas obras mais de cinquenta mil cruzados, o que, se fizeres as contas, vais ver que é uma fortuna milionária. E embora mantivesse sempre uma relação complicada com o irmão mais velho, convidou-o muitas vezes para as grandes caçadas que aqui aconteciam nas suas tapadas. Sempre com os melhores falcões. Dizem que D. Luís foi o filho favorito de D. Manuel, o rei concedeu-lhe o título de Duque de Beja quando ele tinha 15 anos, e também o nomeou Condestável de Portugal, que queria dizer chefe das forças armadas. Continuou sempre a gostar muito de aritmética, geometria e astronomia, e foi aluno de Pedro Nunes, um matemático muito famoso, pouco mais velho do que ele. Aliás, Pedro Nunes dedicou-lhe vários dos seus livros, dizendo que D. Luís era tão bom tanto na Cosmografia como a usar e ler os instrumentos de navegação, que até tinha medo de já não ter nada para lhe ensinar. D. Luís era também muito bom nas batalhas navais, e comandou um galeão chamado Botafogo. Uma vez, quando os barcos não conseguiam entrar num porto chamado La Goleta, porque estava fechado com correntes muito fortes para não os deixar entrar, o nosso príncipe inventou uma maneira de as partir com a força das marés e dos ventos. Esteve para casar várias vezes com princesas europeias escolhidas pelo pai, mas acabou por casar em segredo em Évora, tendo um filho que ficou conhecido como D. António Prior do Crato, que também brincou e aprendeu a caçar no paço de Salvaterra de Magos. Quem sabe se o seu primeiro falcão não foi Niasi.


D. Luís passou muitos anos da sua vida em três quartos no piso térreo do convento de Jenicó, que fundou próximo de Salvaterra de Magos. Dali, supervisionava as obras do paço, que queria perfeito, e nunca chegou a ver acabado. Tinha muitas saudades da irmã Isabel, que em 1525 casou com o seu primo Carlos I, rei de Espanha, duque de Borgonha, e que foi ficando rei de cada vez mais sítios e cada vez mais poderoso. Por fim, morreu em Lisboa, no dia 27 de novembro de 1555, com 49 anos. Salvaterra de Magos nunca o esqueceu, e a capela real e os falcões aqui estão para que também nós nunca deixemos de lhe prestar homenagem, o que quer dizer lembrar quem foi e agradecer-lhe o que nos deixou.

Os problemas com as medidas de hoje Léguas, varas, braças eram medidas antigas que depois substituímos pelo sistema métrico. No século XVI, começaram a surgir os primeiros relógios como nós os conhecemos, mas já havia relógios de sol, ampulhetas e outros mecanismos de medir o tempo. Apesar de serem mais perfeitas as formas de medição, os minutos e sobretudo os segundos não se conseguiam contabilizar. Se quiseres, podes resolver os problemas que o professor Tomás colocou a D. Luís e D. Isabel, usando esta tabela de equivalências (aproximadas): 1 braça = 2.2 m, portanto 900 braças = 1800 varas = 2.2 x 900 = 1980 m = 1.98 km

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DICIONÁRIO Avessada Uma tira de cabedal com cerca de um metro que permite colocar a ave no banco ou na alcândora.

Fiador Uma corda comprida com cerca de 30 metros ou mais, utilizada nos treinos dos falcões antes do falcoeiro os deixar em completa liberdade.

Bornal Parecido com a vossa mochila da escola. Utilizado normalmente a tiracolo, serve para o falcoeiro transportar utensílios de falcoaria e a comida com que vai recompensar os falcões após o voo.

Bufo-real (Bubo bubo) É a maior ave de rapina noturna existente em Portugal. O voo destas aves é absolutamente silencioso, têm olhos cor-de-laranja e dois penachos na cabeça que fazem lembrar “orelhas”, e a visão e audição muito apuradas.

Caparão 46

É uma espécie de capacete que se coloca na cabeça dos falcões e que lhes retira toda a visão, de forma a que fiquem calmos e tranquilos. Absolutamente confortáveis, os caparões são utilizados sobretudo durante o transporte das aves e retirados momentos antes do voo.


Coutadas Reais Dividiam-se em “Coutadas de Caça” e “Coutadas da Mata”. As primeiras eram de utilização exclusiva do rei e dos seus convidados, as últimas serviam para retirar madeira para a armada e arsenais da coroa. Em Salvaterra de Magos era o Monteiro-mor do Reino que estava responsável por fazer cumprir as ordens do rei relativamente aos assuntos das coutadas.

Esmerilhão (Falco columbaris) Em Portugal é o mais pequeno falcão de caça, as fêmeas têm cerca de 300 gramas e os machos cerca de 120 gramas. Comem pequenos pássaros, répteis e insetos. Estes falcões constroem o ninho no chão.

Falcoaria É a arte de cuidar e treinar aves de presa para a caça. Uma prática reconhecida pela UNESCO como Património Imaterial da Humanidade.

Gerifalte (Falco rusticolus) Provenientes do Ártico, são de todas as espécies de falcões, a que apresenta maior tamanho. Consideradas pelos falcoeiros como os melhores falcões para caçar. Caçam presas como patos, perdizes, faisões, entre outras. No tempo de D. Manuel I, só os réus ou os príncipes podiam caçar com eles.

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Légua Utilizada como unidade de medida de itenerários.

Luva de falcoaria Feita em cabedal de forma a proteger a mão do falcoeiro das garras afiadas das aves. Por norma são utilizadas na mão esquerda, a não ser que o falcoeiro seja canhoto, deixando a direita disponível para realizar as outras tarefas.

Mestre falcoeiro Era a quem estava confiada a gestão e direcção diária da Falcoaria do rei. Geralmente ocupavam funções importantes na sociedade.

Falcão Peregrino (Falco peregrinus) Alguns autores chamam-lhe o “príncipe das aves de caça”. Em voo picado consegue atingir mais de 300 km/hora e é, por isso, considerado o animal mais rápido do mundo. O nome de “peregrino” tem origem dos seus hábitos nómadas e nas frequentes “peregrinações” que fazem enquanto juvenis. Existem subespécies de falcões peregrino em todos os continentes, à exceção da Antártida.

Piós

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Correias de cabedal fininhas, com cerca 15 a 20 cm. Colocando uma em cada pata do falcão, é possivel segurar a ave na luva ou fazer com que fique pousada nos bancos ou nas alcândoras. Para que sejam confortáveis ambas as correias devem ter o mesmo tamanho e fabricadas em pele macia.


Prima (falcão) Nas aves de presa as fêmeas são conhecidas por “primas”, pelo facto de serem maiores e as “primeiras” escolhas para a caça.

Rol O rol é uma falsa presa, que tem uma correia com cerca de dois metros que o falcoeiro faz girar de forma a treinar o falcão, que o vai capturar pensando tratar-se de uma presa verdadeira.

Sacre (Falco cherrug) É um falcão do deserto e das estepes da Europa Oriental, Ásia Central e Médio Oriente. Não são tão agéis nem tão rápidos como os falões peregrinos, mas em contrapartida têm mais persistência e resistência. Por serem um pouco mais lentos e pesados, desenvolveram, uma técnica de caça própria, atacando as presas de surpresa num voo rasante.

Treçó Nome atribuído aos machos que, por norma, têm um terço do tamanho das fêmeas, a quem se dá o nome de “Primas”

Vianda Nome dado à carne que o falcoeiro oferece às aves. 49


FICHA TÉCNICA TÍTULO O Príncipe D. Luís e o Mistério do Mapa Roubado AUTORA Isabel Stilwell ILUSTRAÇÕES Miguel Cardoso DESIGN GRÁFICO Terra das Ideias EDIÇÃO e PROJETO Câmara Municipal de Salvaterra de Magos REVISÃO DE TEXTO Leonor Cadório REVISÃO Modocromia Editora, Lda IMPRESSÃO Palmigráfica - Artes Gráficas, Lda. ISBN 978-989-99949-1-1 DEPÓSITO LEGAL 431288/17 TIRAGEM 2000 exemplares 1.ª Edição - Setembro de 2017 Todos os direitos reservados de acordo com a legislação em vigor.


Outros livros infantis já editados pela Câmara Municipal de Salvaterra de Magos

2014

2015

Poderão ser consultados em www.cm-salvaterrademagos.pt

2016


Profile for Município Salvaterra de Magos

Livro infantil "O Príncipe D. Luís e o mistério do mapa roubado"  

4º Livro Infantil lançado pela Câmara Municipal de Salvaterra de Magos

Livro infantil "O Príncipe D. Luís e o mistério do mapa roubado"  

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