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O Diário do Guigas I

MARIA JOÃO LOPO DE CARVALHO

Falcões Mágicos em Salvaterra ilustrações pedro semeano & susana diniz


FICHA TÉCNICA TÍTULO O Diário do Guigas I – Falcões Mágicos em Salvaterra   AUTORA Maria João Lopo de Carvalho   ILUSTRAÇÕES Pedro Semeano & Susana Diniz   Ilustração da página 39 baseada no desenho do Palácio Real de Salvaterra (desenho original do Arq. Carlos Mardel – BNRJ) que se encontra na tese de doutoramento de Aline Gallasch Hall de Beuvink   DESIGN GRÁFICO AER CREATIVE STUDIO   EDIÇÃO Câmara Municipal de Salvaterra de Magos   PROJETO Câmara Municipal de Salvaterra de Magos   PRODUÇÃO EDITORIAL MODOCROMIA Edições, Lda   IMPRESSÃO Publito, estúdio de artes gráficas, Lda     ISBN: 978-989-8601-94-0 DEPÓSITO LEGAL: 397969/15 TIRAGEM: 2000 exemplares 1.ª Edição: Setembro 2015   Todos os direitos reservados de acordo com a legislação em vigor.


A História do Concelho de Salvaterra de Magos volta pelo segundo ano consecutivo a ser inspiração para um conto infantil, desta vez através das palavras da conceituada escritora Maria João Lopo de Carvalho. Guigas e Henrique viajam entre os primeiros séculos da história da Vila de Salvaterra, a magia oscila entre o passado e o presente, entre túneis e peripécias. Acredito que esta leitura vai ser tão rápida como o voo de um falcão peregrino, de tão fascinante que é a aventura destes dois amigos. Desejo a todos uma ótima leitura, divirtam-se a aprender um pouco mais sobre o nosso Património, e aguardem pelos próximos volumes desta magnífica coleção, que certamente fará história na história do nosso Concelho.

O Presidente da Câmara Municipal Hélder Manuel Esménio


CAPÍTULO I

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Tinha de confessar, estava cheio de medo. Aquela era a maior de todas as desobediências que cometera. Nem queria imaginar o que aconteceria se fosse apanhado. Logo ele que nascera com um pai perito em arranjar castigos originais, daqueles que doem no fundo do coração ou do estômago: um ano sem comer hambúrgueres, cinco dias de inverno a tomar duche gelado, duas semanas seguidas a fazer trabalhos de casa… ou, quem sabe, a comer rabos de lagartixa com maionese à sobremesa… mas aquela viagem ao tempo passado, seguindo a pena perdida do gerifalte branco, falara mais alto. Certo é que a passagem ultra secreta conduzira-os à Falcoaria Real de Salvaterra de Magos. Exatamente ao local que também se chamava “o trabalho do pai”.

— Anda daí ao campo aberto, vou treinar o falcão peregrino, Guigas. O Guigas não se fez rogado. Apesar de estar um dia de calor, aquele calor branco e opaco que torna tudo mais pesado, o Guigas, filho do falcoeiro da Real Falcoaria de Salvaterra, adorava assistir ao treino diário dos falcões. Primeiro, bem agarrados à luva do pai, depois, quando o pai lhes tirava o caparão, aquela espécie de capuz com plumas que lhes tapa os olhos e os ouvidos para que não entrem em stress e não se distraiam na viagem até ao campo, começava o voo. E o que o Guigas mais gostava era de ver o falcão peregrino descer a pique sobre o rol como se fosse um foguetão.


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O falcão peregrino, segundo o pai lhe dissera, era o animal mais rápido do planeta. Pousado mede 50 cm e pesa 600 gramas, pois o pai pesa-o todos os dias antes de cada treino. É lindo! As penas são azuis-acinzentadas com listas escuras, tem uma coroa preta na cabeça e a barriga toda pintalgada. Já a cauda parece ter caído num pote de tinta branca. Quando abre as asas fica enorme: 1,15 metros. Todo ele é feito para voar e… para caçar quando a fome aperta. Nessas alturas chega a atingir os 300 km hora, e a descer do alto voo de 800 metros em direção à recompensa: o pedaço de carne que o pai traz agarrado ao rol seja um pombo, uma perdiz ou um faisão. Mas o Guigas também achava muito fixe assistir aos treinos de baixo voo. Adorava ver os açores e os gaviões a caçarem coelhos e lebres, a perfurarem o arvoredo e as plantas com tal agilidade que até metia impressão. Ao Guigas as perseguições dos açores atrás das presas só lhe lembravam desenhos animados. Aquela manhã de calor teria sido uma manhã normal de sábado em que o pai iria treinar os falcões em campo aberto. Para os falcões não havia fins-de-semana de descanso, nem férias grandes. Todos os dias tinham “aulas de caça”, mas na verdade aquele sábado nada teria de normal, antes pelo contrário…


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O Diário do Guigas  Gosto de escrever tudo, para ninguém ler, é claro, pois quando acabar de escrever esta história vou rasgar as folhas em tirinhas e comê-las todas aos bocadinhos, assim fico com a certeza de que ninguém as lê. Naquele sábado de agosto, em que fui mais uma vez ao trabalho do meu pai vê-lo treinar as aves, pensei que seria apenas mais um dia em que o falcão peregrino faria as suas acrobacias de caça. Porém quando o meu pai, depois do treino, o voltou a pôr no banco do jardim, e desapareceu por instantes dentro da Falcoaria um piar estranho e agudo vindo de uma porta ao lado do pombal, chamou-me a atenção. Como sou o rapaz mais curioso do planeta, toda a gente diz que quando nasci caí numa panela de curiosidade, não resisti e fui ver de onde vinha tal piar arrepiante que me parecia um violino desafinado. Não sei porquê, nunca tinha reparado naquela porta e, a sorte ou o azar ditou, que estivesse aberta. Lá dentro, no que parecia ser uma muda — uma instalação para as aves de caça na mudança das penas — quem ali estava era o gerifalte branco. Naquele compartimento, onde as aves mudam de plumagem entre a primavera e o outono, há uma certa liberdade, as aves não estão presas nas alcandoras como as demais, estão soltas a esvoaçar por ali e até podem tomar banho num pequeno tanque. O gerifalte olhava-me desconfiado, melhor, entre o desconfiado, o embirrento e o aborrecido. Parecia-me grande, devia medir mais de 60 cm de altura e pesaria à volta de 2 kg. Tinha pontinhos castanhos na cauda e nas asas, tão bem desenhados que pareciam letras… Pelo que o meu pai me explicara este tipo de falcões vivia nas montanhas da América do Norte à Sibéria. Era perito em atacar galos selvagens, apanhando-os de surpresa, não lhes dando hipóteses!


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Conheço-os a todos e não é de admirar, pois se a Falcoaria é o trabalho do meu pai, é normal que eu saiba que moram ali 15 aves entre falcões, açores e águias. Sei de cor o dia em que fazem anos — embora a data esteja gravada numa anilha de prata agarrada à pata, tipo cartão de cidadão — conheço-lhes a personalidade, distingo os tímidos dos malandrecos, os convencidos dos simpáticos, os brigões dos gulosos. Mas aquele gerifalte ali escondido na muda era, para mim, uma absoluta novidade. Pelo tamanho parecia-me uma fêmea, é sabido que são maiores do que os machos e, podia jurar que nunca o tinha visto antes, nem nos bancos nem nas alcandoras, como as outras aves. Tinha de me despachar, em breve o meu pai iria dar pela minha falta. Aproximei-me mais e reparei que, por baixo do banco onde estava pousado o gerifalte, alguém tinha deixado cair um pedaço de papel. Foi nessa altura que ouvi o meu pai chamar “GUIGAS!, GUIGAS!” com aquela voz de pai chateado quando anda à procura de um filho demasiado curioso. Peguei no papel, encostei a porta e corri na direção oposta para os lados do pombal. Depois tive de inventar uma boa desculpa: tinha apostado com o Henrique que no pombal havia 310 nichos. Eu tinha a certeza. Aquele pombal era único na Península Ibérica e antigamente servia para guardar os pombos que iam servir de treino aos falcões. Mas o Henrique, que sabia sempre tudo, insistia que quando aqui tinha vindo com a escola só tinha contado 292... Pelos vistos o meu pai acreditou, encolheu os ombros e disse “o costume”, com uma pitada de orgulho por eu saber exatamente o número de nichos que havia no pombal. Avisou-me que não queria correrias no


seu local de trabalho, podia enervar as aves… foi então que tudo começou e, posso dizer, querido diário, que a partir deste dia a minha vida mudou.

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Naquela mesma noite o Guigas não pregou olho. Virou e revirou o papel ao contrário e não havia nada lá escrito. Mas que era estranho era… um papel antigo e já amarelecido, um gerifalte branco de que o pai nunca lhe tinha falado… estaria doente? Isolado das outras aves? Seria só por estar a mudar as penas? Mas porquê um papel e por que raio o falcão o olhava fixamente como se fosse ele, Guigas, a ter sido chamado àquele local secreto? Um papel em branco caído no chão por acaso? Hum, nada fazia sentido... Seriam já três da manhã quando se lembrou do que aprendera nos escuteiros: por vezes as mensagens estavam codificadas em tinta invisível escrita com sumo de limão. Para ter a certeza que o papel era apenas um papel em branco, teria de o passar por uma fonte de calor. Pé ante pé, com a casa toda mergulhada em silêncio o Guigas dirigiu-se à cozinha, pegou num fósforo, acendeu uma vela com muito cuidado para não pegar fogo ao papel e... “pergaminho”. Nem mais nem menos, só aquela palavra: PERGAMINHO


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O Diário do Guigas  É claro que não consigo dormir, é impossível… Um falcão escondido, um papel no chão escrito com tinta invisível e uma mensagem: “pergaminho”. Se foi a pior ou a melhor noite da minha vida, não sei dizer… O que faz um rapaz de dez anos, quando é apanhado neste mistério? Felizmente há “internet” e foi isso o que eu fiz: pesquisei em “Falcoaria Real de Salvaterra”, “gerifalte escondido” mas não me apareceu nada de novo. Depois liguei “pergaminho” a “Salvaterra” e foi aí que ia morrendo de ataque de coração, acho eu, pois o coração subiu tanto e tão rapidamente que me ia saindo pela boca. “Pergaminho desaparecido da carta de foral de Salvaterra de Magos…”


CAPÍTULO II


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O Henrique, para além de ser o melhor amigo do Guigas, era o melhor aluno da turma — sabia tanto de tudo que mais parecia uma Henricopédia. Quando os dois rapazes se encontraram no jardim com as pranchas de skate debaixo do braço e o Guigas lhe contou tudo o que se passara no dia anterior, o Henrique nem hesitou: — Bora lá descobrir esse pergaminho! — Não vai ser fácil, está desaparecido há séculos...


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O Henrique ficou calado e muito sério, haveria de encontrar uma solução. — Mas desde quando é que eu disse que ia ser fácil? Se fosse fácil não tinha graça. Parece mesmo que o gerifalte estava ali para te entregar um recado… será que não há mais pistas por ali perto? — Eu não volto lá, livra! — Então esquece, se não tens coragem para isto deixo de ser teu amigo. Repara Guigas, a história que me contaste é mesmo brutal... tudo indica que foste chamado a uma missão qualquer. — Fui chamado ao local errado na hora errada... — Eu diria ao local certo na hora certa... Assustador… — Muito… — Vá bate aqui — disse o Henrique esticando a palma da mão aberta — tenho um plano!

Na Biblioteca Municipal de Salvaterra de Magos os dois amigos não tinham tempo a perder. Começaram por pedir à D. Alice todos os livros que dissessem respeito a Salvaterra de Magos, tudo o que ali houvesse desde o princípio dos princípios. — A história começa sempre pelo princípio e um pergaminho há de ser um documento muito antigo — segredou o Henrique que era uma barra a História. — Pois, tu lá sabes…


A D. Alice olhava-os, boquiaberta, por cima dos óculos. Já não era nova, trabalhava ali há mais de vinte anos e os seus olhos cansados já teriam visto muita coisa, mas aqueles dois garotos interessarem-se pela origem de Salvaterra era coisa que a surpreendia. — Vocês não querem parar um pouco? Não se cansam nunca? Estão para aí à volta dos livros desde manhã cedo e já é quase hora do almoço. — Não, D. Alice, não se incomode, pode ir almoçar sossegada que nós ficamos aqui, prometemos que não mexemos em mais nada. — É só para um trabalho de férias, queremos ir adiantando — reforçou o Guigas. — Hum… — resmungou, desconfiada — vocês estão a aprontar alguma coisa, não me metam em sarilhos! Há anos que não aparece aqui ninguém da vossa idade durante as férias grandes a querer livros antigos para um trabalho da escola mas…

É claro que aproveitámos para remexer em todos os livros antigos, escondidos numa das estantes ao fundo da sala. “Salvaterra”. Quererá dizer “salvar a terra”? Pensei que talvez fosse isso e que seríamos nós que iríamos salvar a terra! “Magos”, o Henrique até se riu quando eu disse que “Magos” me lembrava os reis magos… demorámos um tempão a perceber o que queria dizer Salvaterra de Magos, mas de facto não havia quase nada que a biblioteca não tivesse. Aliás tinha tudo menos… o “pergaminho”.

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«Salvaterra: nome tomado de feiticeiros que vieram para esta terra fugidos do Santo Ofício e por isso aqui se sentiam em “terra salva” leu o Henrique naquela sua voz grave de doutor e continuou, “Magos”: Campo ou planície, palavra de origem celta. Veio da palavra irlandesa “magus”. Ao contrário das outras “salvaterras” que se encontram nas zonas fronteiriças entre dois reinos esta Salvaterra não foi murada e nunca teve um castelo.» Feiticeiros, portanto… Eu sabia, porque conhecia bem o Henrique, que ele não iria desistir de procurar o pergaminho, mas também sabia que não podia envolver o meu pai nisto, ou será que ele saberia ajudar-nos? Foi nessa altura que aconteceu o pior… eu explico: o Henrique empoleirou-se numa cadeira para chegar à estante de cima, não sei bem perceber como foi, talvez por ser gordinho e desajeitado desequilibrou-se, agarrou-se a uma das prateleiras e foi tal o tombo que fez pena ver... Em segundos havia um mar de livros por cima do Henrique que se queixava do tornozelo torcido. Eu não sabia se haveria de socorrê-lo ou de arrumar os livros. A D. Alice, não demoraria muito e se nos visse naquele caos a coisa ficava feia. Mas o Henrique, muito branco, apontava para a parede sem dizer uma só palavra. Não havia dúvidas: uma portinhola por detrás da prateleira vazia chamava-nos a atenção... e nela havia uma inscrição: “1 de junho de 1295”. “Dia da Criança!” foi a primeira coisa que me ocorreu. O Henrique abanou a cabeça. “Dia da Criança no séc. XIII no reinado de D. Dinis... hum, não me parece” e num instante confirmou, o que já sabia, num dos computadores: “1 de junho de 1295 — data em que D. Dinis deu carta de foral aos habitantes e povoadores de Salvaterra de Magos — infelizmente este pergaminho original perdeu-se”.


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Eu ardia de curiosidade e quis ir logo ver o que se passava atrás da portinhola secreta onde estava inscrita aquela data, mas o Henrique não me deixou. Queria saber mais antes de dar outro passo em falso. O Henrique era um cromo a História, sabia os nomes e os cognomes de todos os reis por ordem alfabética e mais, nunca trocava uma data. É claro que se pôs logo a dar-me uma aula de História, ajudado pelo “site” que tinha aberto na “internet”: «De D. Dinis o Lavrador, ou o rei Poeta, sei que foi coroado aos 18 anos, em 1279. Era casado desde os 12 anos com a rainha Santa Isabel, filha do rei de Aragão, aquela do milagre das rosas, lembras-te? Dessa lenda eu não me tinha esquecido: Ia a rainha levar pão para os seus pobres, quando o rei desconfiado lhe perguntou: “o que levais aí Senhora minha?” E a rainha corando que nem uma rosa vermelha respondeu: “São rosas Senhor…” depois já se sabe deu-se o milagre. Quando abriu o regaço os pães tinham-se mesmo transformado em rosas.» Mas como de costume o Henrique sabia muito mais do que eu: «D. Dinis teve dois filhos legítimos: D. Constança e o futuro D. Afonso IV. Foi o rei que mais cartas de foral como esta deu. Foram 80 cartas de foral que passou, sempre com a ideia de ocupar as zonas despovoadas por famílias, agricultura e gado. Fora os pântanos que mandou secar, como o de Magos que em 1295 foi doado ao rei pelos representantes do concelho de Santarém. E, diz aqui que D. Dinis se comprometeu a mandar construir uma igreja.» Custava-me a imaginar que Magos antigamente fosse um pântano, desses nojentos com lodo e sapos. Mas o Henrique continuou a ler e a explicar:


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«Sim, as águas paradas atraíam mosquitos em vez de pessoas — mas a 5 km de distância já existia uma povoação chamada Salvaterra. Aos moradores de Salvaterra foi dado o Paul de Magos com a condição de o romperem, pois escoando as águas paradas que se acumulavam no Paul de Magos já seria possível trabalhar os campos. D. Dinis foi esperto. Durante dois anos, quem fosse para ali viver não pagava impostos e, passado esse período só tinha de pagar um terço do pão, do vinho, do linho, dos legumes e do azeite que Deus lhes dera. Mas D. Dinis ficou mais conhecido pelos pinhais que mandou plantar e pelas 42 feiras que autorizou em todo o reino. É claro que não sabes que também foi D. Dinis que mandou abrir a primeira universidade em Lisboa, mais precisamente em Alfama.» O Henrique dava-me sempre de avanço, era uma verdadeira Henricopédia, eu só me lembrava de a setora de História nos ter dito que a partir de D. Dinis todos os documentos e cartas de foral passaram a ser escritos em português, pois até aí eram sempre em latim! “Clap, clap, clap, acertaste!!!” gozou-me o Henrique e continuou de olhos colado ao ecrã, como se fosse ele o professor: «Por alturas de D. Dinis o clima era mais quente no verão e mais ameno no inverno, passou a haver boas colheitas e as pessoas gostavam de morar aqui neste nosso Ribatejo. A organização das ruas, quarteirões e espaços públicos nas vilas novas atraía-as pois, para além de não pagarem tantos impostos tinham liberdade e segurança.» «Depois desta espécie de aula que o Henrique me deu, em que eu fiz um esforço por estar atento, embora os meus olhos não se desviassem um


milímetro da porta secreta, tudo se passou muito depressa. Vimos pela janela que a D. Alice voltava com uma sanduíche a escorrer manteiga e queijo derretido. Em instantes tornámos a arrumar os livros nas prateleiras. Tínhamos as mãos a tremer e o Henrique já nem se lembrava do tornozelo dorido…

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CAPÍTULO III

A custo, baixando a cabeça, pois a portinhola não tinha mais de um metro e pouco de altura, os dois amigos entraram no túnel. Era já de noite quando resolveram ali voltar. Presumindo que a porta da biblioteca estivesse trancada, nessa tarde deixaram uma fresta da janela da biblioteca aberta. Felizmente a D. Alice não deu por nada, era um janelote pequeno ao fundo da sala, mas grande o suficiente para o Guigas, mais franzino do que o Henrique, poder saltar de cabeça como fazia na piscina, e abrir, por dentro, a porta


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da biblioteca. O túnel era baixo e pouco arejado e a travessia teria de ser rápida, mal batessem as 9 h a D. Alice iria abrir a biblioteca ao público e a porta secreta estaria visível… não havia tempo a perder. — Tens coragem, Guigas? Está bué frio, nem parece verão, aponta a lanterna para a frente para ver onde pomos os pés. — Não está frio, é só o medo, o medo faz frio. — Achas?


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— Tenho a certeza, eu também sinto as pernas em geleia. — E se os meus pais descobrem que eu fugi de casa a meio da noite, Guigas? — Apanhas um castigo. — Ui! — Picaste-te? — Não, é o medo. O medo dói. — Espera lá! Não estamos aqui para ter medo, Henrique. Que cena é essa de que o medo faz frio e dói? Parece conversa de raparigas! Vamos lá andar com cautela, vê onde pões os pés e deixa de lado a ideia do medo e da gelatina. A algum lado isto há de ir dar... é só chegar lá ao fundo e… — E voltar. Voltamos logo para trás, não é Guigas? O Guigas parara de repente de caminhar… e de falar. Tropeçara em qualquer coisa. Imóvel como uma estátua apontava com a lanterna para o chão do túnel. — Ei! Para tudo! Olha para aqui! Parece uma pena, uma pena branca. — Não totalmente branca, tem pintas pretas — acrescentou o Henrique, apontando também com a lanterna para a pena. Os dois rapazes baixaram-se para ver melhor, nenhum deles ousava tocar naquela pena. — Parece mesmo uma pena do gerifalte branco, aquele que está na muda… Um arrepio gelado trespassou o Guigas da ponta dos cabelos à ponta dos dedos dos pés.


— Não pode ser, Guigas, jamais um gerifalte teria passado por este local. — Isso não sabes… pode ser outro gerifalte, até pode ser um gerifalte já morto, talvez o avô ou o bisavô desse ou de outro qualquer, deixa-me ver melhor…

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Não sei o que se passou, nem desconfio! Quando finalmente ganhei coragem e peguei na pena perdida do gerifalte, senti uma tontura gigantesca como se o céu e a terra tivessem trocado de lugar. Mais ou menos igual à sensação que tenho quando faço o pino na aula de ginástica ou quando me lanço em mortais na areia da praia. Abri os olhos e primeiro não percebi se era realidade ou sonho, mas ao ouvir um gemido do Henrique seguido de uma pergunta: “estás a ver o mesmo do que eu?” percebi que não era sonho nenhum. Pedi para o Henrique me beliscar — assim ficava com a certeza de que estava acordado — e aquilo doeu mesmo, ainda tenho uma marca no braço. O que se passava à nossa frente não dava para acreditar. Era uma sala cheia de candelabros que lembrava a corte de algum rei, ao centro um homenzinho curvo, ao lado, com um porte altivo, alguém que me parecia um nobre. Perguntei ao Henrique se ele tinha alguma ideia de quem eram aqueles seres que pareciam arrancados ao passado. Estaríamos no teatro? Num estúdio de cinema? Mas o meu amigo abanou a cabeça, e eu ouvia perfeitamente os dentes dele a baterem uns nos outros como um serrote, estava em pânico. Certifiquei-me que trazia a pena comigo, de certeza que aquilo era tudo culpa da pena, só podia ser...


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— Mais alguma coisa, alteza? — Parece-me bem assim, esta vila está criada. Mais uma para o meu rol — e orgulhoso D. Dinis acrescentou — Salvaterra de Magos, gosto bem do nome. — Bonito, muito bonito. Crescei e multiplicai-vos — acrescentou o escrivão da puridade. — Já mandei plantar pinheiros, secar pântanos e cultivar os campos. Muito me irei divertir a cavalgar por estas coutadas e a caçar patos, cisnes, javalis, lebres, veados e porcos de todas as espécies, durante o próximo inverno. Com a ajuda do meu bem amado mestre falcoeiro, João Martins Perdigão, caça não me há de faltar. — Por falar em caça — continuou D. Dinis — alguém já descobriu onde está o tratado desaparecido? Caro mestre falcoeiro, sabeis algo? — Falais do primeiro tratado de Falcoaria, alteza? O que foi escrito por Frederico II de Hohestaufen, rei da Sicília? Lamento, alteza, mas como sabeis no ano passado esse belo tratado desapareceu, deve ter caído nas mãos do inimigo. Alegrai-vos! Disse-me um mensageiro que já está em preparação uma cópia, a pedido do filho do rei, o príncipe Manfredo — e, assim dizendo, João Martins Perdigão, rasgou uma profunda vénia. D. Dinis, roxo de fúria, deu um murro na mesa, fazendo saltar o pote de tinta. — Imperdoável, João Perdigão, imperdoável, o que vão saber os meus netos desta arte de caça tão antiga, se tal tratado desapa-


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receu? Pois bem — ordenou cofiando a barba — ponham-se já a escrever em português tudo o que se sabe sobre Falcoaria. Inspirem-se nos meus belos e astutos falcões — Tobias e Excalibur — têm-me feito chegar dezenas de queixas de pessoas que perderam os seus falcões. Quem os achou não os devolveu. Deixai bem claro que todos os que se apropriem indevidamente dos falcões alheios devem ser castigados. Quem encontre aves de caça perdidas deve apregoar pela vila tal achado, ou então forca! Não sei o que seria de mim se algum dia me desaparecesse o Tobais ou o Excalibur… O Guigas e o Henrique entreolharam-se aflitos. Se o rei os descobrisse, escondidos atrás do reposteiro com uma pena de gerifalte na mão, acharia que tinham roubado um falcão alheio e… forca. — E mais! Decreto que os falcões sejam um privilégio da nobreza e que sirvam como presentes de casamento, dotes e pagamentos de resgate aos prisioneiros de guerra, uma espécie de moeda de troca. E valiosa! Inclinou a pena assinou «El Rei de Portugal, D. Dinis» Espreitando por detrás do pesado reposteiro os dois amigos não queriam acreditar. Estavam na corte de El Rei D. Dinis no preciso dia 1 de junho de 1295 e aquilo que ali se passava era, nem mais nem menos, do que a assinatura da mais antiga carta de foral de Salvaterra de Magos. — Estás a ver o mesmo do que eu? — Gui-gui-guigas — gaguejou o Henrique num fio de voz — estamos fritos, voltámos ao século XIII.


— Parece-me que sim, mas sei tanto como tu, achas que pode ser um holograma ou um jogo? Tenho uns assim na playstation. — Nãooooooooooooo, é real. Larga a pena a ver o que acontece. — Não... não quero ficar aqui para sempre. Num gesto irrefletido, como que a querer livrar-se da mão do amigo que tentava alcançar a pena, o Guigas ergueu o braço, fazendo com que a pena apontasse na direção do rei.

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O Diário do Guigas  Que cena brutal! No momento em que a pena apontou para o rei, mais propriamente para o pergaminho, a carta de foral ergueu-se e voou na nossa direção ficando escarrapachada mesmo em cima da cabeça do Henrique. Não fosse tão perigoso até dava vontade de rir. Lá ao fundo, numa espécie de estrado, o rei esbracejava aos urros. “Como pode ter desaparecido o pergaminho onde acabei de assinar?” Mas era verdade, a pena devolvera-nos o pergaminho: a carta de foral desaparecida tal como me avisara a mensagem que eu encontrara na muda


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do gerifalte. Demos-lhe uma olhadela rápida pois tudo o que queríamos era fugir dali e levar para a biblioteca aquele achado desaparecido há tantos séculos. O pergaminho vinha numa escrita gótica abrindo com uma letra maiúscula vermelha. Seguia-se um texto de gatafunhos todos iguais, que assim de repente não conseguimos ler. Na parte inferior havia quatro colunas com assinaturas e, numa dobra, um bocado de seda pendurada com um selo régio de chumbo. Certo é que nós devíamos estar invisíveis ou coisa do género pois ninguém parecia dar pela nossa presença. Mas foi coisa de instantes. Largámos os dois a correr com a pena na mão e à medida que íamos cruzando aquele enorme salão régio as paredes iam-se aproximando e estreitando e percebi, pelo eco dos meus passos, que estava de regresso ao túnel. Olhei para trás para me certificar que o Henrique trazia consigo a carta de foral, tinha a certeza que o presidente da câmara de Salvaterra de Magos iria ficar radiante com a nossa descoberta. Mas quando olhei para trás, o aterrorizado Henrique, vinha de mãos a abanar. Eu tinha a pena mas ele perdera o foral… Diante de nós a portinhola aberta e a biblioteca vazia. Eram 8h59, daí a um minuto chegaria a sempre pontual bibliotecária.


CAPÍTULO IV


Tanto o Guigas como o Henrique não queriam deixar a história a meio. Somando a curiosidade do Guigas ao saber enciclopédico do Henrique bastou um piscar de olhos para chegarem a um entendimento. Arranjariam um pretexto para voltar à biblioteca municipal e tornar àquele túnel. Ainda para mais a pena do gerifalte estava com eles e, pelos vistos, era uma pena dotada de super poderes.

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Tínhamos tudo planeado, ficaríamos na biblioteca, mais uma vez à hora de almoço aproveitando a saída da D. Alice para a tasquinha em frente onde se iria deliciar com um prato de enguias fritas e arroz de feijão. Mas as contas saíram-nos furadas. A D. Alice, nessa quarta-feira resolveu ficar a catalogar um caixote de livros novos que tinham acabado de chegar… quem me conhece sabe que não sou de desistir e muito menos o Henrique, pelo que se me acendeu uma luz no cérebro e resolvi ir tornar a visitar o já famoso gerifalte branco. Corremos para a Falcoaria Real de Salvaterra, o meu pai estava no campo a treinar o açor, o que calhou mesmo bem. Fomos diretos ao pombal e notámos que a porta da muda continuava encostada, mais um golpe de sorte ou um golpe de asa para ser mais preciso. O Henrique não acreditava que aquela visita tivesse algum sucesso mas eu estava confiante, fora ali que encontrara o papel com a mensagem cifrada “pergaminho”, poderia ser que desta vez encontrasse algo mais…


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O Guigas, sem largar a pena branca, ia tendo uma grande deceção: nada de interessante para além de um gerifalte pousado no banco que os voltou a olhar desta vez com uma expressão que o Guigas classificou de “cusca”. Porém, nada os fez desistir de procurar pelo chão algum sinal. Deram voltas e voltas à muda sem nada descobrirem de relevante: a água no tanquezinho, o chão com algumas ervas, os caparões presos numa espécie de cabide atrás da porta, até que um grito do Henrique e um dedo apontado em direção à ave fez estremecer as paredes. — Olhaaaaaaaaa!!!! — O quê? Diz depressa, Henrique, o que é que tem o gerifalte? — Lê! — Mas leio onde? — Na asa esquerda, não vês, trol? Os dois rapazes aproximaram-se tanto que quase ficaram com os olhos colados à ave. As pintas pretas na asa do gerifalte pareciam letras, letras curvas de pequenas dimensões. — Estás a ler o mesmo do que eu? — Insistiu o Henrique. — P-A-Ç-O — lê-se perfeitamente. — Paço? O que será que o gerifalte nos quer dizer com “Paço”? — Assustador, o Paço Real já não existe, só a Capela. — Fogo!!! Quer isto dizer que temos de ir ao Paço, ou ao que resta dele? Já que não conseguimos entrar no túnel pela biblioteca, vamos ao outro lado. — Sim, onde estivemos com o D. Dinis. — Cala-te, Guigas, se nos ouvem acham que endoidecemos e mandam-nos para o hospital dos malucos.


Mas não estava ninguém por perto e o gerifalte tinha estranhamente mudado de expressão. Fechava e abria os olhos batia as asas com força e não parava quieto. Quando os dois rapazes tornaram a encostar a porta da muda, apressados para irem até à Capela Real, o gerifalte esboçou um leve sorriso de satisfação como quem diz “missão cumprida”.

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O Diário do Guigas  Mal posso acreditar que estou novamente em casa a escrever isto e que estou vivo da silva embora o meu coração esteja mais vivo do que eu. Vou tentar contar tim-tim por tim-tim tudo o que se passou: o Henrique e eu desatámos a correr até ao local onde no século XIV fora o Paço Real. Com incêndios, tremores de terra etc e tal, o paço já não existe, só a Capela. Mas naquele dia, ainda existia, pelo menos nós estivemos lá e não eramos só nós. Eu explico: Íamos nós a correr com a pena na mão quando de repente o chão nos engoliu, literalmente, como se fôssemos atirados pelo ar em 12 cambalhotas para trás. Eu até fiquei enjoado com as piruetas que fui forçado a dar. Caí numa superfície mole, percebi que era um tapete e ao meu lado branco como a neve estava o Henrique.


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A infanta-menina D. Beatriz de Portugal e D. Juan de Castela estavam sentados em duas cadeiras de espaldar assentes sobre o estrado real. Um dos nobres ali presentes lia em voz alta: “Eu, Dona Beatriz, infanta de Portugal, filha legítima, herdeira do mui alto príncipe Dom Fernando, Rei de Portugal e do Algarve, e da mui nobre senhora Dona Leonor, Rainha dos ditos reinos, hoje, dia 2 de abril de 1383 aos dez anos de idade e com expresso consentimento dos ditos Rei e Rainha, meu pai e mãe, recebo por esposo e por marido legítimo Don Juan, Rei de Castela e de Leão, segundo manda a Santa Madre Igreja”. Beatriz estava enfeitada de flores e com um longo vestido vermelho de cauda. Sempre que dirigia o olhar na direção da janela por onde os dois amigos tinham aparecido do nada, sorria-lhes devagarinho e até lhes piscara o olho como se fosse a coisa mais natural do mundo, dois rapazinhos do séc. XXI estarem ali presentes a assistirem ao famoso “Tratado de Salvaterra”. O Guigas quase conseguia ler o pensamento de Beatriz, pois a infanta tinha os olhos tão transparentes que mais pareciam um espelho da sua alma: “isto não passa de uma ordem de meus pais a quem devo extrema obediência. Não fujam que eu já vos explico tudo”.

— Quem são vocês? Ei, sim, estou a falar convosco, estão a ouvir? Moços, respondam-me! Eu sou a futura rainha de Portugal, chamo-me Beatriz.


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— Hum, quem? Beatriz conheço só uma e não é nada parecida contigo, mas onde é que estamos? — perguntou o Guigas. — Deixem de ser parvos. Estão no Paço Real de Salvaterra e eu estava ali quase a assinar o casamento com o Rei de Castela quando um estrondo enorme me chamou a atenção. Arranjei uma desculpa e vim aqui junto desta janela por onde vocês entraram. O Guigas sacudiu a cabeça com muita força. Aquela história não fazia sentido. O local era bastante diferente do salão onde o rei D. Dinis tinha assinado a carta de foral. O Henrique fez-lhe um sinal com a mão para que estivesse calado e deixasse a rapariga falar. — Tive uma ideia! Vocês levam-me daqui, ajudam-me a fugir, boa? Não quero nada casar-me com aquele velho, eu só tenho 10 anos e ele mais de trinta… se vocês os dois me salvarem eu dou-vos muitos privilégios e riquezas e até vos posso dar um falcão, o melhor e mais rápido falcão da minha Casa. Tanto o Guigas como o Henrique estavam mudos, não pertencendo eles àquela época, como poderiam ajudar esta princesa? — Esperem, não se pirem ainda, tenho um plano! Jurei obediência a meus pais mas… estão a ver além aquele cavalo, subimos os três ali para cima. Tu — disse apontando para o Guigas — és giro, muito giro! E sem fazer cerimónia depositou um beijo terno na bochecha do Guigas que o fez corar até à raiz dos cabelos. — Quer... quer... quer dizer, que tu és mesmo a princesa Beatriz, filha de D. Fernando e D. Leonor Teles e que te vais casar com o rei de Espanha para ficares dona disto tudo? — perguntou o Henrique.


E sem que o Guigas tivesse tido tempo de reagir, a princesa Beatriz com um pulo de gazela elevou-se no ar e arrancou-lhe a pena da mão.

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— Hum hum, foi isso que me disseram… Mas como sou caprichosa prefiro fugir convosco do que me casar com o velho. — Tu falas como nós, quer dizer, usas um português todo moderno. Duvido muito que no século XIV se falasse assim… mas sabes, posso adiantar-te, não vais ser dona de nada, porque em Aljubarrota os espanhóis vão bazar depois de perderem a batalha e quem vai ganhar somos nós, os portugueses — Avisou o Guigas. Na cara da princesa desenhou-se um “?” — Aljubarrota, que cena é essa? — Esquece… — desabafou o Guigas desapontado — não sei como hei de explicar-te o que ainda não aconteceu. — O que é que tens aí na mão? — perguntou a Infanta olhando espantada para o braço esticado do Guigas — Parece-me uma pena de gerifalte. Dá-me cá! É muito feio arrancar penas aos falcões, sabes disso? Se o meu pai te apanha esmaga-te os ossos um a um. Por acaso El Rei D. Fernando é bué aficionado à Falcoaria. Aquele além ao fundo, com cara de águia teimosa, estão a ver? É o falcoeiro do meu pai, chama-se Pero Menino e anda a escrever um Livro de Falcoaria, assim uma espécie de um livro de doenças, ele adora batizar as doenças todas, e por sinal vai adorar ter esta pena, dá cá!


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O Diário do Guigas  Foi a sensação mais horrível que já tive. Eu e o Henrique fomos enrolados por um furacão de ar quente. No instante em que a princesa Beatriz pegou na pena levantou-se um autêntico vendaval no Paço Real. Começou por um sopro forte nos reposteiros, tão forte que sem nada o fazer prever levou-nos pelos ares a alta velocidade parecendo que me desconjuntava todos os ossos. Pensei “já foste”, acabou tudo, vou morrer. Mas a coisa demorou no máximo um minuto. Quando dei por mim estava à entrada da Capela Real. Tinha a roupa rasgada e o cabelo num novelo despenteado, o Henrique não estava melhor. Olhámos um para o outro em pânico. “Estás vivo?”, perguntei eu. “Parece que sim” “Onde é que ela está?” insisti olhando à minha volta. Mas o Henrique desconversou “Quem, a miúda? Deve ter ficado no século XIV” “Era linda…” confessei. Porém o Henrique não era da mesma opinião: “Não gostei nada do penteado em canudos e com uma franja ridícula, achei nojento…” Ainda lhe ralhei: “Para de ser parvo, estávamos noutra época, meu… coitadinha, ser obrigada a casar com um velho!” “Coitadinha o tanas, gamou-nos a pena…” Nessa altura, não sei por que carga de água, desabafei: “Que pena…” queixei-me eu “tenho mais pena de ter perdido aquela miúda do que a pena com poderes que o Gerifalte perdeu”. Pareceu magia, mas querido diário, acredites ou não, a terceira vez que eu disse a palavra “pena” um segundo redemoinho levantou-se no ar. Pensámos que íamos ser outra vez transportados sei lá para onde porém, num movimento leve, flutuando devagar para cá e para lá uma pena branca veio pousar devagarinho na cabeça do Henrique.


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CAPÍTULO V

O Diário do Guigas  Estávamos na Capela Real e mal tivemos tempo de deitar mãos à pena. Para onde quer que o Henrique se dirigisse as coisas à frente dele subiam no ar levitavam como se estivessem a ser puxadas por fios invisíveis. Tal como acontecera com o pergaminho, aqui o efeito da pena era ainda mais evidente... quadros, imagens, velas, tudo a flutuar por cima da nossa cabeça. “E agora o que é que se está aqui a passar, são almas do outro mundo?” O Henrique estava aterrorizado e não era caso para menos, nem sequer sabíamos em que século estávamos.


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“Tu sabes ‘quando’ é que estamos, Henrique? Perguntei eu já sem me importar acerca do ‘onde’ — tinha a certeza de já ter entrado naquela Capela Real muitas vezes — não sabia era em que tempo estava. “Na-na-não sei ao certo, mas esta Capela Real foi construída bem depois do tempo de D. Beatriz, já cá viemos com a escola.” O Henrique gaguejava por todos os lados, mas ainda assim conseguiu dizer o que se calhar nunca deveria ter dito: “Só sei que a igreja matriz é muito mais antiga, vem do tempo de D. Dinis. Ele prometeu que a construía”.

Foi nessa altura que tudo se precipitou. A própria pena pousada na cabeça do Henrique elevou-se no ar e puxou-os aos dois com tal força que parecia um íman. Os dois rapazes, de rojo, aos trambolhões, esperneavam e davam coices, mas nada conseguia travar aquela poderosa força magnética. — Deeeee-es-es-es-culpa — gaguejou o Henrique — tenho a certeza que nunca devia ter dito as palavras “igreja matriz” E estava certo. Foi aquela “senha” que os arrastou. A pena mágica do gerifalte levou-os precisamente para a igreja matriz. Não exatamente para a igreja mas para a antecâmara onde D. Fernando — o Infante Santo, filho de D João I — sentado numa cadeira alta — os olhava com ar de “carrasco”. — Ei, larguem a minha pena, quem são vocês donzéis esquisitos? E porque razão me querem roubar a pena com que lavro os meus desejos?


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O Guigas e o Henrique emudeceram, não tinham pinta de sangue no rosto e a voz sumira-se-lhes de vez. O infante tinha razão. Por alguma arte mágica os dois amigos estavam agarrados a uma das extremidades da pena com que o Infante Santo tentava escrever algo num livro gigante encadernado a pele de veado. Recuaram, assustados, largando imediatamente a pena. — Desculpe, não queríamos roubar nada, pedimos imensa desculpa. — adiantou-se o Henrique recuperando a voz. — Sabem o que acontece aos larápios como vocês? — Nós não somos larápios — desmentiu o Henrique que sabia muito bem que larápios queria dizer ladrões. — Mas essa pena… — Por uma pena não vão para a forca, mas como são tamanhinhos por esta escapam. O infante ergueu a pena no ar e, involuntariamente os dois rapazes, puseram-se a seguir o movimento dos objetos. Será que também flutuavam? — E se vendesse também tudo o que há aqui na igreja matriz, um dos santos por exemplo? Esta igreja foi mandada construir faz tempo, se a memória não me engana, em 1296 pelo bispo de Lisboa e fica aqui mesmo no centro da vila. Tem cinco altares — três do lado direito dedicados a S. Miguel, Sta Ana e S. João Baptista e dois do lado esquerdo dedicados a Nossa Senhora do Rosário e da Assunção — o teto está todo pintado com imagens de S. Paulo — padroeiro desta terra. O povo não me perdoaria se vendesse um santinho que fosse desta casa de Deus… — e coçando a ponta do nariz onde pousara uma mosca, prosseguiu — sabem do que me ocupo hoje?


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Não é de vender a igreja, é maior do que isso, quero é vender esta terra. Estou eu sossegado a tratar do negócio quando vocês me vêm tentar roubar a pena. — Vender esta terra? Vender Salvaterra? — gritou o Guigas em pânico. — Ora nem mais, moço esperto. Quero vendê-la ao Senhor Rodrigo Afonso. — Não sabia que as terras se vendiam... Uma gargalhada sonora e rouca foi tudo o que os rapazes tiveram por resposta. Mas logo o chanceler veio explicar: — É verdade, moços intrusos, e agora desandem daqui que a igreja é local sagrado e o infante D. Fernando está só a terminar esta escritura. — Deixai-os ficar, Fernão — veio o Infante em defesa dos rapazes — pois já agora levam daqui uma lição: o meu pai, como recompensa da ajuda em Aljubarrota, deu a Afonso Esteves almirante-mor e chanceler da vila de Salvaterra, os campos de Sacarabotão e a lezíria do Romão. Posso-vos dizer que este Senhorio era bem maior do que o do tempo de D. Dinis. Mas a vida e as terras dão muitas voltas e na verdade a 20 de Agosto de 1429, Salvaterra volta à corte, pois de meu pai, El Rei D. João I, herdei a vila que agora quero vender a Rodrigo Afonso. É uma terra boa e rica: tem cortiça, colmeias, pocilgões, carne e peles, sobreiros e carvalhos. Há por aqui muitos fornos, vimes e carpintarias e até a feira franca que o meu irmão, el rei D. Duarte, me autorizou.


— Pois sim, Infante, mas se pudesse não a vender era fixe, nós gostamos muito dela. D. Fernando ergueu os olhos do pergaminho, tornou a coçar o nariz e acrescentou — vocês parecem-me uns mendigos … nem sei porque vos dou eu o meu tempo. — Nós o seu tempo não queremos, infante, mas se nos pudesse emprestar a pena…

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O Diário do Guigas  Mais uma vez ao dizer a palavra pena esta escapou-se da mão do infante e foi pousar no chão. Eu não resisti e baixei-me para apanhá-la. Sabia que aquela pena tinha poderes. Ao fazê-lo, vi abrir-se uma brecha no chão mesmo à minha frente. Lancei-me por ali abaixo sem pensar duas vezes, queria era fugir o mais depressa possível. O meu amigo bem me gritava “espera, Guigas, não vás tão rápido, ainda nos perdemos!” Mas aquele túnel tinha algo que me parecia familiar. Podia garantir que já ali tinha estado e apressei o passo, agarrado à pena, para que desta vez não me escapasse. Atrás de mim vinha um ofegante Henrique que foi forçado a parar dobrado em ângulo reto e agarrado à barriga.» “Dores de burro?” Perguntei eu ao vê-lo tão aflito. “Claro, achas que eu corro à tua velocidade? Puxa, escapámos de boa. Por amor de Deus não largues a pena… que mais nos irá acontecer?”


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Pedi-lhe que ligasse a Henricopédia e me dissesse o que se passou com o futuro de Salvaterra. Se o infante D. Fernando sempre a conseguiu vender a estranhos… Mas o Henrique era realmente um cromo, sorriu e descansou-me: “Não, podemos ficar tranquilos. Em 1455, D. Afonso V, filho de D. Duarte e sobrinho do nosso Infante, vai assinar nova carta de foral. Salvaterra continua na corte, mas o pobre do nosso amigo Infante D. Fernando morre em 1433 sem assistir à nova assinatura da carta de foral. Coitado, foi feito refém em Fez no norte de África, daí chamar-se Infante Santo.” “Mas o que é que tu não sabes, Henrique?” Perguntei eu, já a adivinhar a resposta. “Não sei onde é que isto vai dar nem o que nos vai acontecer a seguir, mas tudo o que quero é voltar ao século XXI, estou farto de penas mágicas, cheiro a mofo e aventuras subterrâneas…” E eu estou farto de ter saudades da... — descaí-me eu e, é claro, o Henrique não perdoou: “Da princesa Beatriz? Que trol, ela morreu há mais de 500 anos…” Eu, feito parvo, uma vez que não sou dado a cenas de paixões e de amores impossíveis com as raparigas lamechas da minha turma ainda respondi: “Desde que a vi, fiquei com uma certeza, Beatriz não morreu, nem morrerá”.


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Sacudiu-se do pó e… Tinha de confessar, estava cheio de medo. Aquela era a maior de todas as desobediências que cometera. Nem queria imaginar o que aconteceria se fosse apanhado. Logo ele que nascera com um pai perito em arranjar castigos originais, daqueles que doem no fundo do coração ou do estômago: um ano sem comer hambúrgueres, cinco dias de inverno a tomar duche gelado, duas semanas seguidas a fazer trabalhos de casa… ou, quem sabe, a comer rabos de lagartixa com maionese à sobremesa… mas aquela viagem ao tempo passado, seguindo a pena perdida do gerifalte branco, falara mais alto. Certo é que a passagem ultra secreta conduzira-os à Falcoaria Real de Salvaterra de Magos. Exatamente ao local que também se chamava “o trabalho do pai”. Desta vez trazia a pena consigo.

A aventura continua no volume II de O Diário de Guigas, não percas!


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