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um

Querido Deus: A minha vida está quase perfeita porque: • Começaram as férias!!!!!!!! Lucy teria colocado mais pontos de exclamação, mas sua gata rechonchuda, Lollipop, a observava do parapeito da janela perto da cama. Movia a cabeça negra para cima e para baixo, acompanhando cada traço e ponto, pronta para atacar. Lucy protegeu o Caderno de listas com o braço esquerdo, enquanto escrevia: • Tia Karen vai viajar pra uma ilha e, portanto, não vai aparecer aqui por um tempo. Beleza!!! • Posso treinar futebol o dia todo se eu quiser. Aliás, é o que eu pre­­ciso fazer pra conseguir uma vaga nos testes do Programa de Desenvolvimento Olímpico. O maior sonho de todo o universo! • O senhor Auggy arranjou um time pra jogar com a gente no nosso campo de futebol daqui a duas semanas. Vai ser um jogo de verdade, com um time completo, e não só o nosso time dividido, o que é sempre chato, porque, pra começar, a gente só tem oito jogadores. Não vejo a hora!!!!!!!!!!!! 9

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Olhos fixos na caneta, Lollipop moveu uma das orelhas. — Nem pense… — Lucy avisou. Tinha aprendido com Verónica como era legal usar pontos de exclamação. Verónica era sua amiga cheia de fru-frus, mas tinha seus pontos fortes. Lucy abriu um sorriso. — Pontos fortes, entendeu Lolli? Pelo jeito, Lollipop não tinha entendido. Ainda no parapeito da janela, ajeitou as patas debaixo do corpo e piscou devagar duas ou três vezes, até cochilar. Lucy acrescentou mais alguns pontos de exclamação antes de continuar. • Posso ver TJ, Dusty e Verónica, Carla Rosa e Mora a qualquer hora do dia, menos na hora do almoço, ou do treino de futebol, ou da igreja. Tá certo que eu já passava o maior tempo com eles antes das férias, mas agora posso ver todo mundo quando eu quiser, o que é superlegal. Só que a Jany ainda não desgrudou da gente. Se ela não fosse irmãzinha do TJ, a gente podia dar um jeito de se livrar dela, mas ela precisa de boas influências e nós somos boas influências. Lucy deu uma espiada na porta do quarto para ver se estava completamente fechada. Quando queria ter uma conversa particular com Deus, escrevia no Caderno de Listas. Papi, Inéz (a nanny que ajudava a cuidar da casa) e sua neta Mora não mexiam no caderno. Ainda assim, sempre que Lucy ia escrever os seus pensamentos mais secretos, pensava duas vezes se valia a pena correr o risco de alguém os descobrir. Decidiu que sim, e acrescentou: Pra dizer a verdade, talvez a Mora não seja uma influência tão boa… Além do mais, Deus já sabia o que ela estava pensando. Lucy havia descoberto que, quando ele queria que ela pensasse algo diferente, ele sempre avisava. Continuou escrevendo: 10

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• A gente pode comprar chocolate em forma de bolas de futebol na loja da Cláudia no meio do dia, ou tomar café da man­hã na lanchonete do Pasco, ou fazer piqueniques no nosso campo de futebol. Tudo isso porque — sabe de uma coisa? — são férias!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Um vulto negro passou pela folha. A caneta de Lucy voou longe e aterrissou no baú de brinquedos amarelo e azul, derrubando a régua que Lucy havia colocado ali para manter a tampa aberta, caso Lollipop precisasse se esconder lá dentro. A tampa fechou com um estalo e Lolli deu um pulo, formando um U invertido antes de saltar e patinar sobre a tampa, as garras todas de fora. A gata lançou um olhar fulminante para Lucy. — Foi culpa sua, bobinha — Lucy respondeu. — Eu abro pra você. Antes que Lucy conseguisse se levantar, Lolli correu para debaixo da cama. Seguiu-se uma briga com Artemis Hamm, a gata caçadora que cochilava ali. — Podem parar, vocês duas! — Lucy, porém, não se arriscou a colocar a mão debaixo da cama. Mais cedo ou mais tarde, uma das gatas sairia de lá com a boca cheia dos pelos da outra e seria o fim da “discussão”. — Que bagunça é essa? — perguntou uma voz do outro lado da porta. Lucy enfiou o Caderno de Listas debaixo do travesseiro. Em­bora Papi não enxergasse, Lucy preferia que seus segredos esti­ves­sem bem escondidos quando outras pessoas entravam no quarto. — Pode entrar, se tiver coragem. Ouviu a risada rouca de Papi antes de o rosto dele aparecer na fresta da porta. Levantou a cabeça para olhar para ele, fazendo o rabo de cavalo deslizar sobre a orelha. — O que aconteceu com o seu cabelo? — Lucy perguntou. 11

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Enquanto entrava no quarto com cuidado, Papi passou a mão pela mistura de fios escuros e grisalhos muito curtos. — Fui ao salão da Glória e ela deu um trato nele. É o meu “penteado de verão”. Ficou muito esquisito? — Não. Ficou legal. — Com quem eu me pareço? — Com… — Lucy pensou por um instante. — Sabe aqueles filmes de guerra com caras da tropa de elite da marinha? Você deve ter assistido quando ainda podia… tipo… — É, eu sei. — Então, você parece um daqueles caras. — E isso é legal? — Com certeza. Papi abriu um dos seus sorrisos que iluminavam todo o ambiente. Lucy poderia ter dito que ele se parecia com um cantor de rock famoso e ele não teria como saber se ela estava dizendo a verdade. O fato é que ela achava o pai um sujeito bonitão. Não importava que, às vezes, o olhar dele ficasse meio perdido, como se não soubesse onde se fixar. Papi foi até a cadeira de balanço e sentou-se devagar. Alguém que não o conhecesse e o visse movimentando-se pela casa dificilmente perceberia que ele era cego. O importante era Lucy não mudar nada de lugar. Ela se inclinou e pegou a bola de futebol, escapando por pouco de uma pata escura e malhada que apareceu de repente perto da barra da colcha. — Não tenho nada a ver com a briga de vocês! — O que aconteceu? — Pontos de exclamação. É uma longa história. — Será que eu devo saber? — Não — Lucy respondeu. Dava para ver pela expressão do rosto de Papi que ele não tinha vindo bater papo sobre bri­ ga de gatos. Ela abraçou a bola. 12

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— O que foi? Tem alguma coisa errada? Aconteceu alguma coisa, né? — Quem disse que tem alguma coisa errada? — A tia Karen vem pra cá, né? Puxa! Pensei que ela ia pra alguma ilha e que as nossas férias iam ser sossegadas. Lucy largou a bola no chão, do outro lado da cama. Papi sorriu novamente. — Por que você acha que eu ia falar da tia Karen? — Porque, tipo assim, quase toda vez que baixa esse clima pesado e sério é por causa dela. — Você está cada dia mais parecida com sua mãe. Pega as coisas no ar. — Então é isso — lá se iam as férias perfeitas… Teria de refazer a lista que estava escrevendo. — Mas dessa vez você errou. Tia Karen vai para São Tomé. — Só um santo mesmo para aguentá-la. Papi riu. — São Tome é o nome de uma ilha, Lucy. — Ah… — ela estava se saindo melhor na escola desde que o senhor Auggy havia começado a dar aulas para a sua turma, mas ainda não tinham estudado muita coisa de geografia. — Eu queria falar com você antes de a Inéz chegar. A voz dele ficou séria outra vez, mas Lucy se largou nas al­mo­fadas sobre a cama. Se o assunto não era passar as férias na casa da tia Karen em El Paso, não podia ser nada muito ter­­rível, certo? — Você sabe que a Inéz vai ficar aqui em período integral, cinco dias por semana. — Sei. E não tem problema. Agora a gente se entende bem — Lucy se sentiu generosa. — Eu nem me incomodo mais com a Mora como antes. 13

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— Perguntei à Inéz se teria algum problema o senhor Auggy também vir aqui pra algumas aulas de reforço. Lucy deu um salto, como os gatos faziam quando se assus­ tavam. — Aulas?! Nas férias?! — Só algumas horas por semana. — Puxa vida, Papi! São férias. Eu preciso treinar um monte para o próximo jogo. Senão o pessoal do Programa de Desenvolvimento Olímpico não vai nem querer me avaliar. Pra mim isso é bem mais importante que estudar! — Você melhorou 100% desde que o senhor Auggy começou a trabalhar com a sua turma na escola… — É… Então por que eu vou ter que ficar de castigo e estudar mais? Não dá pra entender. Queria ser capaz de fazer pontos de exclamação com a voz. — Deixa eu terminar de falar, aí você vai entender. A única pontuação na voz de Papi era um ponto-final que significava: “Melhor ficar quieta se não quiser se meter em encrenca”. Lucy mordeu o lábio inferior. Nessas horas, não era tão ruim que Papi não conseguisse ver a expressão no seu rosto. — Você terminou o ano bem, filha. Mas antes disso a situação estava feia. Isso significa que ainda vai começar o próximo ano atrasada em relação aos outros alunos. — Eu dou um jeito de alcançar o resto da turma. Prometo — disse com voz tensa, como um elástico prestes a arrebentar. — Quando voltar às aulas eu vou estudar, tipo, dez horas por dia. Papi fechou os olhos e ficou quieto. Dava para ver que não adian­taria discutir. Lucy quis se arrastar para debaixo da cama e recomeçar a briga entre as gatas. Um bom arranca-rabo parecia funcionar para Lolli e Artemis quando elas ficavam frustradas. 14

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— Os professores vão esperar que você tenha o mesmo nível de conhecimento que os outros alunos do sétimo ano. De acordo com o senhor Auggy, no momento o seu nível de conhecimento corresponde à metade do sexto ano, o que é ótimo, considerando-se a sua situação no primeiro semestre. Por isso, vamos fazer um trato. Lucy conteve um grunhido. Só vai ser um trato se as duas partes concordarem. — Você vai estudar com o senhor Auggy até alcançar o nível de leitura do sétimo ano. Pode levar as férias inteiras ou pode levar umas duas semanas. Vai depender de você. — E se eu terminar em três dias? — Lucy perguntou, quase soltando fogo pelas ventas. — Sem problemas. Mas, de tempos em tempos, a gente vai verificar como está a sua leitura, só para ter certeza de que você não perdeu a prática. — Não vou perder nada — Lucy respondeu. Esperava que sua voz audível parecesse mais segura que a vozinha que gritava em sua mente: Ficou doida, Lucy? Você não tem capacidade pra isso!. Nem o mundo inteiro tinha pontos de exclamação suficientes para o fim dessa frase. — Tudo bem — Papi disse enquanto se levantava e voltava o olhar irrequieto quase diretamente para os olhos de Lucy. — Questão resolvida. Essa era a forma de ele dizer que a discussão estava encerra­ da. Só restava uma coisa a fazer. Assim que ouviu Papi di­zer “bom dia” para Luke do lado de fora da casa, Lucy foi es­piar pela janela e viu Papi entrar do lado do passageiro no car­ro e ir embora com o assistente que lhe dava carona para a estação de rádio. Lucy enfiou a cabeça para fora da janela e assobiou bem alto entre os dentes. O som agudo cortou o ar da manhã. 15

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TJ acharia o seu sinal meio bobo, mas era o melhor que dava para improvisar numa emergência, mesmo porque TJ provavelmente nem havia acordado ainda. Sem esperar por uma resposta do amigo, que morava na casa caindo aos pedaços do outro lado da rua, Lucy rabiscou num pedaço de papel: Inéz, Fui pro campo de futebol com o TJ. Volto na hora do almoço. Dá pra fazer aqueles seus tamales? São tudo de bom! Lucy

Deixou o bilhete na mesa da cozinha, entre o saleiro e pimenteiro em forma de chapéus mexicanos. Talvez Inéz não ficasse muito contente de Lucy sair antes de ela chegar, mas se amoleceria com o elogio à sua comida. Lucy jogou a mochila sobre o ombro e, quando chegou à bicicleta que estava encostada no sabugueiro mexicano do quintal, ouviu Carranca rosnar do lado de fora do portão. Is­ so queria dizer que TJ estava lá, esperando. Ele nunca ousava passar pelo gato rabugento. Não era fã de gatos, especialmente de Carranca. Enquanto Lucy levava a bicicleta para fora, esfregou com o pé o alto da cabeça malhada de Carranca. TJ já estava montado na bicicleta dele, o cabelo preto de apache amarrado num rabo de cavalo na nuca e achatado debaixo do boné virado para trás. Dava para ver as dobras da fronha ainda estampadas no lado do seu rosto. — E aí? — ele disse. — Perrengue — Lucy respondeu. — Tia Karen? — Não. Meu pai. Ele lançou um olhar demorado para ela enquanto pedalava para acompanhá-la. 16

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— É, eu sei. Vai entender… — Lucy disse. — Ele é legal. — Hoje, nem tanto — Lucy fez a curva fechada para entrar na rua Calabaza, no sentido contrário à serra Sacramento, cujos montes se levantavam atrás deles como se fossem seus guardiões. — Vou precisar estudar nas férias — ela gritou por sobre o ombro. — Fala sério! — Sério! TJ emparelhou sua bicicleta com a de Lucy, os olhos azuis se concentrando como os de um falcão. — Se eu fosse você, fugia. Essa era a reação automática de TJ a qualquer problema familiar, o que, aliás, tinha de sobra. Lucy sacudiu a cabeça. — O que você vai fazer? — ele perguntou. — O que ele mandou. Não tem outro jeito. Mas eu não preciso curtir. — Quer jogar futebol? — Tá me estranhando? Claro que sim! Os dois pararam antes do cruzamento com a Rodovia 54. Lucy sorriu, os olhos quase fechados pela claridade. Ela, TJ e o campo de futebol. Com uma combinação dessas, quem sabe o dia melhorasse? O ar ainda estava fresco, entretecido com raios de Sol. TJ, que ia à frente, atravessou a rodovia e depois a ponte sobre a vala por onde passava um fiozinho de água de irrigação. Lucy ouviu um trovão a distância, mas não deu bola. O céu era tão imenso no sul do Novo México que dava para ouvir trovões e ver raios que pareciam estar a milhões de quilômetros, até mesmo sobre as paredes de rocha que os rodeavam ao longe. Mas chuva era coisa tão rara que Lucy e Papi nem tinham guarda-chuva. 17

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Além do mais, ela e TJ não deixariam de jogar só por causa de uns pingos. O sorriso de Lucy cresceu quando eles terminaram a curva da estrada de terra e passaram voando debaixo da placa vermelha, branca e azul na qual as mães de Dusty e Verónica haviam pintado: “Campo de Futebol de Los Sueños: Sede do Los Sueños Dreams”. Lucy já havia colocado a bicicleta atrás da arquibancada e tirado a bola da mochila antes mesmo de TJ descer da bicicleta. — Mano a mano! — Lucy gritou. — Aposto que você não faz gol em mim, TJ! — Aposto que você não me segura! Começaram a jogar na pequena área, usando a marca de pênalti como segundo gol. Driblaram de lá para cá até ficarem zonzos. Nenhum dos dois marcou, até que Lucy, com uma finta perfeita, gingando para um lado e tocando a bola para o outro, passou por TJ e pela linha do gol. Jogou a cabeça para trás, para soltar um grito de vitória, mas parou, boquiaberta. Nuvens mais escuras que Lollipop tinham se ajuntado no céu e, enquanto Lucy olhava, pasma, uma delas cuspiu meia dúzia de raios que estalaram pelos fios acima da lanchonete. O trovão rugiu nos seus ouvidos e grudou seus pés no chão. — Corre! — TJ gritou e, agarrando-a pela manga, puxou-a para fora do campo. Ainda não tinham chegado às bicicletas quando o céu se iluminou outra vez e os trovões ressoaram tão alto que Lucy não conseguiu ouvir o que TJ estava berrando. Antes que ela alcançasse o guidão, TJ a empurrou para debaixo da arquibancada. No mesmo instante, a chuva começou a cair com tanta força que os pingos mais pareciam agulhas. — Caramba! TJ virou o boné para frente, mas, mesmo debaixo da arqui­ bancada, a chuva escorria sobre a aba, caindo na bermuda e 18

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grudando-a às pernas dele. Lucy sacudiu a cabeça, tentando tirar a água que escorria nos olhos e acertou em cheio no rosto de TJ com o rabo de cavalo. O garoto nem se moveu. — Não vi a tempestade chegando — Lucy disse. — Melhor a gente ficar aqui mesmo e esperar passar, né? TJ deu de ombros e olhou para a chuva, que agora descia em cascata. — Acho que sim. Dez minutos depois, um lago havia se formado entre eles e a cerca, e a tempestade não dava sinal de parar. TJ sacudiu a cabeça. — Melhor a gente dar o fora. Lucy tentou correr, mas, a cada dois passos que avançava, o vento e a chuva a empurravam um passo para trás. — Deixa as bikes! — TJ gritou. — A gente pega depois. Enganchou o seu braço no de Lucy e a puxou para contornar a poça gigante que, a essa altura, tinha coberto quase toda a área atrás da arquibancada. Passaram por dentro de outra poça que havia se formado do lado de fora da cerca e Lucy teve que encostar o queixo no peito para não deixar os pingos ardidos entrarem nos olhos. Quando TJ parou, ela olhou por sobre o ombro dele e por pouco não cravou os dentes ali para conter o desespero. A estrada de terra havia se transformado num rio que corria diante deles como se estivesse atrasado para algum compromisso importante. Lucy sentiu a água passar com força por cima dos pés e puxá-los. — Segura! — TJ berrou. Lucy agarrou o braço de TJ, apertando os dedos em volta da camiseta encharcada, enquanto ele caminhava com dificuldade, atravessando a minicorredeira que aumentava a cada minuto. Garrafas de plástico e latas amassadas passavam trombando 19

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umas nas outras. Lucy tentou afugentar a ideia de que ela e TJ pudessem cair na água e ser arrastados pela correnteza sabe-se lá para onde. Pisou exatamente no mesmo lugar que TJ tinha pisado, mas, ainda assim, escorregou na lama e caiu de joelhos. A água tentou levá-la embora. TJ parou e se abaixou. — Sobe nas minhas costas! — Você não vai me aguentar! — Lucy gritou, mas suas palavras se perderam no estrondo de mais um trovão. — Sobe logo! — TJ insistiu. Lucy obedeceu e pôs os braços em volta do pescoço de TJ, enquanto ele atravessava a ponte aos escorregões. O fiozinho de água da vala de irrigação agora era uma torrente que transbordava pelas bordas e espirrava do lado de baixo da ponte enquanto TJ corria, inclinado, e Lucy se segurava como podia para não cair. O terreno era mais alto do outro lado da ponte, e ali a água só cobria os calcanhares. Lucy desceu das costas de TJ no mesmo instante em que o ar estalou novamente. Dessa vez, porém, não foi um trovão. Apavorada, Lucy olhou para trás no exato momento em que a ponte desmoronava.

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