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Sim達o Viana Martins

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SIMÃO VIANA MARTINS, 15 NOV 1949, É LICENCIADO EM LETRAS *PORTUGUÊS - INGLÊS E LITERATURA -1985 PELA FFCL. SÃO MARCOS - SÃO PAULO E PÓS GRADUADO EM LÍNGUA PORTUGUESA. - É PROFESSOR

E REVISOR DE TEXTO.

- É SERVIDOR PÚBLICO ESTADUAL DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DE SÃO PAULO, 1994


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Simão Viana Martins

Projeto Gráfico Livre Editora mteles13@gmail.com

Capa Mauro Teles

Revisão Simão Viana Martins simaoviana@globo.com

www.ferrariweb.com Impressão e acabamento

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Martins, Simão Viana Janelas abertas / Simão Viana Martins. -São Paulo : Livre Editora, 2007. 1. Poesia brasileira I. Título.

07-8710

CDD-869.91

Índices para catálogo sistemático: 1. Poesia : Literatura brasileira 869.91

1ª edição São Paulo - 2007

Copyright, © Simão Viana Martins, Todos os direitos desta edição reservados, proibida a reprodução total ou parcial. Os infratores serão punidos na forma da lei.

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Sim達o Viana Martins

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eNZO

LÚCIA À minha mulher Lúcia, a eterna gratidão por ter gerado do nosso amor o nosso maior bem. 4


SimĂŁo

Ao meu filho Enzo, as minhas reminiscĂŞncias de adolescente e de homem maduro que um dia decidiu ser pai do futuro. 5


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Agradecimentos

In Janelas Abertas Aos meus pais – In Memoriam – eternas saudades. Aos meus irmãos, família grande que ao tempo se ajustou à distância de cada um. Ao meu filho Enzo, a inocência pura e a energia constante com que me fizeram maduro. À minha mulher Lúcia, a cumplicidade com que me ensinou ser mais humano e feliz. E a honrosa gratidão por ter gerado do nosso amor o nosso maior bem. Ao meu amigo-irmão Mauro Dianes Moreira pela paciência com que catalogou as reminiscências, juntou-as ao prefácio de Janelas Abertas e me dedicou. A todas essas almas queridas, nada mais sincero do que o meu amor e o meu carinho. Muito obrigado. São Paulo, agosto de 2007 Simão

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índice 11 prefácio 13 DEDICATÓRIA A UM AMIGO 14 PINTE MEUS LÁBIOS 15 AINDA TE DAREI O CÉU 16 HEI, MOÇO! 17 UM DIA ME SENTI POETA 18 EU ME LEMBRO 19 LUA CHEIA 20 DE TANTO ASSIM CULPADO 21 NÃO DEI à SORTE 22 HÁ DIAS QUE NÃO CHOVE 23 MANCHETE 25 AGORA 26 DE VEZ EM QUANDO 27 FAZER ARTE É MUITO FÁCIL 29 POR QUE 30 SOBRE O ESQUECIMENTO 31 NÃO ME FALE 8


32 NÃO ME PRIVE 33 IGUAL TEMPO PASSADO 34 PAULICÉIA 35 CONTO DE NATAL 37 DIÁRIO DE UMA MANHÃ 39 AMANHECE 40 CAVALEIRO 42 QUANDO EU TE CONHECI 43 ESTOU VELHINHO 44 ISSO AÍ É GENTE 45 LEMBRANÇAS 46 “QUARENTANO” 48 DE VEZ EM QUANDO 49 RETRATO 50 DEVANEIO 52 UMA VIDA 54 O MEU DILEMA 56 FLOR CRIS 58 CRISÂNTEMO 59 VIM PARA LONGE DOS TEUS OLHOS 60 POESIA 9


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62 CHOVEU NUM INSTANTE 64 QUANDO EU ANDAVA POR AQUI 65 DOMINGO 67 ESPANTO 69 POEMA MODERNO 70 “VINTE-E-DOIS” 71 “1991” 72 LÁ VAI A MOÇA 74 desejo 75 FASCÍNIO 76 MOTIVAÇÃO 77 PRESENTE 78 DESPROPÓSITO 79 UMA VEZ 80 POEMA DA ESPERANÇA 81 NOVEMBRO 83 GUARDIÃO do novo mundo

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prefácio Foi em 1963 que nos conhecemos. Aí se vão 44 anos de amizade. Na brevidade da vida humana é um tempão. Amizade que como todas as amizades nascem por acaso, fortuitamente, sem nada pensado ou planejado. A família do Simão acabara de chegar de Manaus e passaria os primeiros dias em São Paulo na casa do Sr. Onésimo, um paraense amigo da família, e que já estava aqui há algum tempo. Creio que foi na manhã do dia seguinte à chegada em São Paulo que nos conhecemos. Lembro-me de estar sentado no chão do quintal da minha casa, que era contígua à casa do Sr. Onésimo, quando Simão se aproximou de mim e me perguntou uma coisa qualquer e daí para o jogo de bola foi mais um passo. Assim começou a nossa amizade. Brincamos muito, jogamos muita bola, fomos a muitos “bailinhos”, assim se dizia à época, e cinemas. Estudamos juntos, discutimos o Brasil, “ame-o ou deixe-o”, trabalhamos juntos. Quando éramos adolescentes trabalhamos por um bom período numa óptica localizada à Rua Major Quedinho, 85 onde, aliás, havia dois outros rapazes, amigos comuns e do mesmo bairro: Jorge Skoretzky e Vanderlei. Foi nesse período de adolescência, quando fazíamos o ginásio no Curso Santa Inês, ali na Praça Carlos Gomes, na Liberdade, e mais tarde o colegial na mesma escola, que Simão manifestou interesse pelas letras. Lembro-me vagamente de duas coisas das quais gostava especialmente: a canção Summer Rain, cantada pelo Johnny Rivers, e da qual lhe caiu às mãos uma tradução da letra que gostou muito e um poema do Fernando Pessoa que penso aguçou-lhe especialmente o gosto pela poesia. Volta e meia repetia “... come chocolates pequena suja / Come chocolates...” de algum poema que suponho ser de Pessoa. É nesse período que Simão se apaixona pela primeira vez e acho que desde então nunca mais deixou de se apaixonar. Nesta sua primeira paixão, por uma garota que morava na nossa rua, deu para perceber que Simão seria alguém de viver paixões intensas. Foi um período difícil para ele e para os amigos próximos. Quando as coisas do coração desandavam, passava o dia na “politriz”, máquina 11


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de polir, examinando com a lupa o polimento dos bloquinhos, para fazer lentes de contato, assoviando ensimesmado e nada disposto a trocar conversa com quem quer que fosse (a imagem me vem clara à mente). Passaram-se os anos, nossas vidas tomaram rumos diferentes e ficamos um bom tempo apenas com notícias esporádicas um do outro até que um outro amigo comum dos tempos do Curso Santa Inês, Rui, conseguiu localizar e juntar o nosso grupo e desde então temos mantido um contato mais freqüente ou pelo menos temos evitado ficar tanto tempo sem nos falar. Foi num desses contatos que me foi apresentado as provas gráficas de uns textos que resolvera imprimir; coisas antigas, disse-me ele, sem pretensão alguma, gostaria de deixar para meu filho. Li os textos, alguns mais de uma vez, buscando o rítimo e a ênfase certa. Confesso que gostei. Gostei, porque vi nesses textos sentimentos e emoções que pela forma, conteúdo, e nuances do seu estado de espírito, tornou-me bastante fácil identificar alguém que se conhece há tanto tempo. Não sou homem afeito às letras, muito longe disso. Preciso ler um texto com muito mais atenção que alguém que já tenha pendor natural para a poesia, entretanto, conhecendo Simão como eu o conheço, digo que o que eu vi nos seus versos é pura sinceridade. Tenho certeza de que cada verso aqui impresso foi escrito no calor das emoções vividas e expressa um universo muito pessoal. Meu querido amigo, você tem algo para deixar para o seu Enzo! Abraço, Mauro Dianes Moreira São Paulo, 13 agosto 2007

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DEDICATÓRIA A UM AMIGO outubro/2007 Certa vez, um amigo me confessou o desejo de compilar seus velhos textos, mas não tinha coragem de abrir o seu baú. Disse ele: são historinhas e narrativas de quando criança e de adolescente ou são versos incompletos tirados de paixões, de amores não correspondidos ou são grilos de rapazola rebelde-romântico de antigamente, por isso, não valeria a pena incomodá-los entre seus bolores e traças nem comentá-los, porque era alérgico a ácaros, assim como eu. —Talvez tivesse razão! Um dia, desses preguiçosos, resolvi, então, abrir o meu baú, os cadernos e as anotações. Reli os que encontrei. Os menos duros e impiedosos e os mais humanos cataloguei-os neste breviário em homenagem a uma vida que a escolhesse. Mas não fosse necessariamente a do autor, porém, ainda que fosse uma vida paralela, dessas que fizera sorrir ou entristecer olhos que buscaram encanto em cada brilho no infinito da existência, ínterim facultativo para algumas almas desatentas. Nos textos catalogados estão os meus retratos ora visões míticas da realidade, ora observações fiéis de personagens contundentes ora retratos queixosos e angustiados, obscura realidade, momento de quem passa pelo tempo, assiste a vida e deixa registrado um começo de um fim. A essas almas fica o meu agradecimento.

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PINTE MEUS LÁBIOS 15/04/1984

Vermelho Meus cílios realce Azul Sobre meus olhos a sobrancelha afile Cintilante Pinte a minha face pálida Rouge e blush E faça de conta Que eu vivi as ilusões As emoções no teu sonho

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AINDA TE DAREI O CÉU 21/05/1987

Não porque seja infinitamente vazio E eterno e frio o céu É que teus olhos me pedem tanto Que só o céu e o sol Tão impossivelmente Desejados Eu te daria Ai que estou cheio de pensamentos bons! Idéias absurdas Vícios e sentimentos simples Humano Diante dos teus olhos fulgura e queima Minha hipocrisia

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HEI, MOÇO! 24/05/1987

Hei, timoneiro! Pare o mundo agora Eu quero descer! Por favor, moço, não dê nenhum giro a mais Nesse absurdo mundo! Ou, então, mostre-me um outro piso inferior Mas que não seja assim Assim tão duro e sujo Assim, filósofo ignorante!

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UM DIA ME SENTI POETA 05/06/1987

Solitário Virei a tua esquina e Disse aos meus ouvidos Nunca mais teus olhos me Virão surpreso Tão desalentado Nunca mais infeliz Nem saudades Eu terei de ti Enquanto eu durar ao sol

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EU ME LEMBRO 19.06.1987

Desse tempo próspero De alegria e de prazer Desse remoto paraíso trópico Desse longínquo céu de lazer Onde fora o vento um dia Gracejar com o meu lamento Cego eu estava e sem memória De certo eu vivia embriagado Tonto e seduzido Escravizado ao meu destino Triste fado Esse infortúnio ingrato Ainda eu me lembro desse tempo fantástico Glória onde sonhei um derradeiro olhar Manhãs sombrias e preces Um adeus tristonho A lamentar Nada disso eu sei Nada disso eu sei – Foi o teu olhar

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LUA CHEIA 03/07/1987

Oh, lua cheia! Oh, metade de lua cheia! Invernal noite fria! Dez e meia se vão Horas de infortúnios — ilusão Nem brisa sopra a esperança Nem vento mais forte balança Coração distante perfeito Oh, meu amor! – Sonho desfeito

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DE TANTO ASSIM CULPADO 22/07/1987

De tanto amor julgado Morre um homem alienado Nasce o sol Brota a flor O campo seco se transforma Tudo é flor Canto do céu Onde não chega a dor Gira-gira passatempo gigante Entrete a criança desse espanto Canta, repete o encanto Voz é tanta Dor!

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NÃO DEI à SORTE 10/08/1987

Por todo esse tempo Não dei sorte Amor é dar sorte Mas na sorte labirintos Tantos foram os desencantos Que vieram como um raio Que partiu o céu E num espanto Um véu vazou a luz Não vi teus olhos Não dei à sorte

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HÁ DIAS QUE NÃO CHOVE 24/08/1987

Da última vez Não me lembro quando Teus olhos transbordaram lágrimas Foi no verão O sol passara alto Depois tudo invernal Nem me lembro da primavera Outrora outono renascera Nunca mais as estações Teus olhos viram Não deixa de ver o céu Olha as nuvens prenúncios Raios gritam Olha as andorinhas Cantam Triste

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MANCHETE 31.08.1987

O mundo perdeu Drummond Perdeu Lee Marvin Perdeu “pixote” E tão longe ganhou neve Petrificou no sul Seca no norte Morte no sul Rio transbordou Neve entristece o meu congelador Nem mamãe dá conta do resfriado Tosse... Tosse... Tosse e vai Eta mundo danado! Vento sopra a minha dor Vento irriga a minha dor Irrita vento a minha dor Vento do norte americano Vento do sul americano Vento Flórida Florianópolis Vento Curitiba — corre Paraná! Guaíba afoga os pampas e São Chico aos gritos o nordeste farta! Amazonas Solimões Rio Negro Tapajós Ao mar além mar! Aonde é África ancestral Faz-de-bom purifica! Onde é negra a perda a dor petrifica! Ainda hoje — ontem esperança 23


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Eta mundo danado! Ganhaste insumos Vento asiático tufão Mina sul-africana explosão Rima mundo diverso Oriente extremo Catástrofes universais Onde mais não sei notícias toma mundo danado! Estremece engana chama vidas e contesta e castiga Mortais!

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AGORA 19/09/1987

Que esperam a minha morte Parece, ora! Que a vida é eternamente Como um mago exuberante Duro objeto errante Transforma luz alucinante Não me contaram nada da chegada Da partida só assisti as notícias Ida sem retorno abandonado Sem espanto ou lágrima Canto não persiste o desencanto

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DE VEZ EM QUANDO 25/09/1987

Tão longe a distância única engana Sombra vil perdida estrada finda anoitecida Pôr-do-sol noite esquecida De vez em quando acontece Súbito mal entristece coração sem razão padece De vez em quando o céu escurece Nuvens voando envaidecem a noite Vendaval chuva pranto e prece De vez em quando esperança cresce Grito tapado se levanta Triste sono se espanta Escura noite é tarde Logo brilha ouro horizonte E sem prantos amanhece

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FAZER ARTE É MUITO FÁCIL 27.9.1987

Simples Basta pegar um lápis e riscar qualquer traçado Não importa que seja ou não colorido Não dê tal importância para o seu mau jeito Faz sentido tudo Risque para todos os lados numa folha de papel Ou numa tela de pano trabalhada De preferência, faça-se nervoso e habilíssimo Mostre uma suposta desorganização doentia mental E, se ainda alguém preferir rir sem notar o seu talento Rascunho e ou apontamento Faça charme! Mostre-se displicente Crie um hábito incomum Masque tabaco de corda Ou alguma goma-borracha açucarada E cuspa ao chão as amarguras doces Pisque seguidamente aos maus-olhados Exponha-se ao cacoete mais conhecido genial Ou então cite nomes de autores loucos universais Mostre-os como estes lhe são indiferentes a tudo Viu bem como não é difícil! Fazer Arte é brincar de esconde-esconde Em tempo de crianças e na tenra idade São ingênuas as nossas dores! Fazer Arte É tornar a mirar-se ao espelho-mágico 27


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Sem dor e sem medo e sem rugas É criar no presente desconhecido O que não fomos ao passado E talvez não seremos no futuro Fazer Arte é muito mais que isso E sem talento ser mais político Fazer Arte não cabe o meu conceito Às vezes me engana e tropeço Caio e me levanto obeso Vou assim redigindo e compreendendo Vou assim indeferindo

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POR QUE 07/10/1987

Cômodo e solene Compreensivo sem nada entender Por que comportado e incorruptivo Fidalgo sem nada investir Por que nada disso querer perquirir Óbvio bolo parte nenhuma ingerir Porque parte era doce Não degustou Nunca tentou engolir Por que homem pacato alguma vez Nunca tentou se redimir À intriga de homens Gato e rato e raposa Medo espelho de nós Independe a vida e perece A razão e a vontade é tarde E o relógio ponteia O ponteiro ponteia e ponteia E não pára... Não pára?

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SOBRE O ESQUECIMENTO 14/10/1987

Ato e fato vão-se esquecidos Ontem aconteceu Anoiteceu não faz sentido Antes, não faz um dia Era fria noite estarrecia Fio-memória outonal arritmia Susto colapso Síncope dor Ogra não mais nervosa Parecia mistério Ó noite dolorosa! Suposto grilo dor Falso extremo lapso

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NÃO ME FALE 17/10/1987

Dessa dor justo agora — eu não suporto! Não me conte nada desse amor sublime Outrora posto à prova ao fogo ardor Suspeita esperança muito embora Seja plácida a hora de um canto livre Sem rancor — justo agora Eu não suporto! Não me atenha a teus desejos Irresponsabilidades mais nobres Do tempo e das dores nos ares As árvores secam no outono Trazem pro chão árido Ninhos de aves doentis Não me queiram mais infeliz! Pois nada eu nunca fiz Lar doce reino infeliz! Não me conte da tua dor Justo agora — eu não suporto! Ver teus ais embalsamados Ver teu leito difamado Odores horrendos exalados Multidão à margem desgraçada Então infâmia blasfêmia injustiça Martírio... Ó nobre dor! De homens modernos e em vão Vença a minha angústia Egoísta e sem propósito Estou covarde — justo agora Eu não suporto!

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NÃO ME PRIVE 27/10/1987

Desse espanto Dessa dor Dessa febre impetuosa Desse embalo ser Não me poupe dessa desventura Dessa trilha desconexa Nem desse túnel absurdo Desse sagrado manto Anteolhos de Deus De tudo eu já sabia! Faz um século Mas nunca o tempo foi mistério Quanto à dor este hemisfério Não me surpreende mais Faz um século e agora Vi nos teus olhos o futuro Desse adeus

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IGUAL TEMPO PASSADO 05/11/1987

Era passado um ano Um século um erro Igual lembrança de teus olhos Vida igual a forte luz escureceu Hoje não há mais presente Há vulto e futuro ausente Ilusão outrora feito insônia Dor e demência de quem sonha Hoje é ontem tão presente Não há passado nem futuro Descontente é tarde e à noite o sol Ardente caminha o tempo pro poente Igual Era que se pôs silente Sob dura cruz de aço frio Amargo gosto que se diz átomo

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PAULICÉIA 12/11/1987

Cidade grande Aqui vive mundo inteiro Aqui passam pedestres e cafajestes Ligeiro passa metrô, avião e tensão Aqui voam sonhos de riquezas fácil Voam pardais, andorinhas e gaviões e Voam pombos sujos e morcegos silvestres À noite, voam moças bonitas Travestis, gigolôs e camelôs Pernoitam madrugadas meretrizes Confundem-se indigentes Rondas taciturnas e vômitos Escarros e detritos fisiológicos Gritos e gemidos e sussurros Amanhece e manchetes nos jornais E revistas universais Olha o moleque-pivete! Lê manchetes promessas! Vê a Catedral celeste grita! Olha a Sé — Santo! Ouve o sino! Onde bate as esperanças São Paulo não sonha e cresce

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CONTO DE NATAL 21/11/1987

Quem vem a minha casa vê um pé-de-abacateiro Num pedacinho de terra dividida ao meio e flores Separado por um muro contíguo à parede D’outro lado um viveiro Tem dez ou quinze aves Uma ou duas galinhas poedeiras Um galo novo e nove pintinhos Que encantam meu pai Ele os trata como bebês De vez em quando me dou conta Sentado à mesa de um franguinho Que o vi crescer Mamãe não gosta De que eu diga nada assim À parede uma gaiola pendurada Um pássaro verde-amarelo e estranho Lembra-me uma araponga Quando canta que por acaso A vi noutra gaiola pendurada Papai diz que é um filhote de papagaio Vindo da Amazônia do meu irmão Não se sabe quando se têm notícias Ele ainda vai falar Ele ainda vai voltar 35


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Quem passa juntinho ao portão da minha casa É chamado à atenção aos latidos de dois cães Vira-latas dóceis e agora também se pode ver Um jabuti de casco sujo Velho e se arrastando e solitário Tento apreciar a sua idade Deve ter mais de trinta e oito À sombra da laje nova Vai papai se embalando Há vida numa rede azul Vindo da Amazônia e da Saudade no peito Num canto do céu nem sei se é o horizonte Escondem-se ogivas de prédios em mata verde Antes da fumaça das fábricas progressistas Longe... Lá vem na rota um avião! E as nuvens se mancham de vermelho-ocre Ao pôr-do-sol alguns pardais vêm buscar o abacateiro florido Que não cresce mais por convicções políticas presidenciais Mamãe nem liga para o horário-de-verão Vem jantar meu filho! “Vem comer desta ilusão”

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DIÁRIO DE UMA MANHÃ 13/01/1988

São mais de três horas da manhã. Hoje é 13 de janeiro de 1988. Minha mãe se sentiu indisposta com fortes dores nas costas. Tive que interná-la às presas. Estou à vigília da lua (somente da lua), comprometido com o mundo. Faz silêncio. O galo canta distante. Ainda insiste num canto triste, madrugando. Talvez, desafiando o mundo também. Meu pai diria que o canto é novo e de esperança. Cá estou com meus anseios, nem triste, nem alegre, apenas costurando enquanto tricotando, especulo os pensamentos. Cada um é uma esquina infinita e tem o tempo incerto que eu terei de passar a noite escura. Vou caminhando, mesmo assim, sem ter lugar nenhum p’ra chegar. O marasmo é a consciência que purga e purga e tem esperança da salvação. A insônia é a senha para me regenerar dos atos que não os cometi, porque dos assumidos nem ao demônio mais escapo. Mesmo sendo cristão, ateu ou outra coisa qualquer. Mas tenho um álibe: toda madrugada gero infortúnios gratuitos. Estou tranqüilo e caminho. Quanto às lágrimas, navego a mar aberto e sem destino. “Todo cais é uma saudade de pedras”. Logo viro o horizonte, o arco da lua (da metade da lua) que me acompanha adentro, às vezes, some entre nuvens de verão. Penso no amanhã. É hoje. Tenho a sensação da eterna morada e da subjetividade que me arrasta p’ra janeiros vindouros sem saber porquê? E agora de onde vem o choro de criança? — Vem do vizinho d’outro lado da rua! As crianças choram quando desconfortadas. Os homens, o homem, eu choro quando confortado e alimentado, mas perdido entre vãs maneiras de me sentir adulto. Absurdo! Tudo é normal e absurdo! Tudo isso é absurdo. 37


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Cessou de chorar a criança. Só ouço grilos. Meus ouvidos são grilos, gatos abandonados e impiedosamente miando, miando, miando. Mas pode ser um-outro triste e também solitárionoturno chorando e miando e mal-nutrido. Estranho animal que ronda e pernoita madrugadas.

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AMANHECE fevereiro/1988

São Paulo nem dormiu Há vida no verão-outono Faz hoje frio Ronco de motores a diesel E gasolina-álcool se dispersa Coloridos transeuntes e modas De diferentes cruzadas santas Aqui do centro alto Piratininga Bem de cima do Viaduto do Chá Vale o céu cimo babilônico Vale os sonhos das fortunas Das sete e trinta da manhã Dos mendigos sem pátrias e dos mestiços E dos mulatos debruçados no parapeito do vale Vale britadeiras e unhas de ferro Ternos e bravata e muitos sorrisos e pressa Vale das morenas — Olha a loira cobiçada! Os passos apressados do boy-city Vale da ruiva co-cidade São Paulo vale outra missa Nem Paris a mereceu Corro os olhos atrás da loira Cidade — morena negra ruiva loira sumiu

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CAVALEIRO 12/02/1988

Continua o clima do universo tempestivamente fiel Rigorosamente absoluto como a eternidade mais nada Vaga noite sem hora certa avulsa e pulsa indiferentemente Descabida ao compasso dos meus pés descalços e sujos e Cansados e mutilados das desilusões Irmão dos meus encantos oculares Ficaram meus sonhos retidos ao mito Perdidos na nitidez patética da emoção Hoje regresso como o inverno regressa da Estação sem ritimo certo e mais frio Ainda assim, recorro a tua magia Corro invencivelmente à beira mar À beira luz, à beira areia branca Espumas flutuantes do mar sem-fim Nada disso me devolve a tempestade Idolatrada de viver — nada disso me recua Mas a amargura empurra a consciência dolorosa Insólito ser Ficamos assim... E entre quatro paredes transparentes Visto como um outro ente inferior das horas mortas Visto como um suposto argonauta desse idôneo abissal Visto como um astronauta desse tempo perene

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Perfeito paladino Dom Quixote Estúpido e leve e incessante Ainda assim não serei o último Nem o primeiro cavaleiro a bradar Arriba! Arriba! Todos nós Cervantes!

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QUANDO EU TE CONHECI 25/02/1988

Vibravas entre deleites desastrosos Era uma pequena nuvem de fumaça Qual espalhava teimosia, chuvas Que de sóis ardia Um pequeno vulcão dividido entre amores Sôfregos e dores que de solidão Às vezes se embebecia Que de sonhos se dormia Outras manhãs Via-te sorrir Tantas vezes horas do dia À noite, momento oportuno d’agonia Uma luz, uma lua misteriosa de néon Um torpor de alma doce Seguia-te entre linhas sinuosas do céu Vibrante melodia o teu clamor Deu-se a madrugada — eu não dormia Murmúrios, queixumes, rara melodia Perfumes de rosas tristes eu bebia E foram assim outros dias Agora, ‘inda é verão, mas esfria Tanto a distância que coração nenhum Permite ou denuncia Razões que ora me venciam Se a chuva é fertilidade Ora! Está chovendo... E o meu canto é um rio complacente Corre rio — o mar é a tua nascente! 42


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ESTOU VELHINHO março/1988

Capengando... Capengando Meu coração contorcendo-se Qualquer dia desses pára Esfria-se e apodrece Minhas mãos tremulando Estranha criatura que perdura Resto imortal Idéia d’aventura No céu a lua eterna brilha Trilhos tortos da infeliz idade! Estou capengando e tropeço Na tola e onisciente criatura Criancinha doce ato de morrer De nascer e de te querer Eterna passageira Ilustre Ser

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ISSO AÍ É GENTE 11/03/1988

Uma espécie não mais muito rara Durante o dia é lua crescente À noite, bem durante a noite É sol cadente ‘inda iluminado Olhos de corujas-nós Eu já ouvi quem dissesse ser um elo Limiar entre o céu e a terra Quem contasse e acreditasse ser a crença Desacreditada de nossos ais Quem ouvisse e visse e não percebesse Fio nenhum em nossos males desiguais E fosse apenas um desigual-igual inacabado Para quem quisesse ver uma amostra Um show relevante Um tributo errante De quanto fomos De quanto somos E ainda sermos nós Isto aí é gente Nós uma noção teimosa que brota do ermo da biologia Este acaso intencionalmente acaso Um vestígio, uma praga, uma apoteose do que fomos Também por acaso somos nós Isso aí é gente-riso Tudo aqui é gente é luz Teus olhos um palco onde Encenas uma dança folclórica Distante e nos tripés os desencantos As lantejoulas brilham Que balançam 44


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LEMBRANÇAS 13/05/1988

Eu não sei do tempo que perdi Quanto de ti Sobram-me carinhos Naquele instante e tão vibrante momento Quase morri e prazeres calaram minha boca De contentamento fali de alma e de energia Latente ficou no meu peito honrosa fortuna do amor De certo, não o terei mais Que fazer d’um homem esquecido Amofinado dentre tantas lembranças vesperais Noturnas e matinais? Que fazer da competência enrouquecida? Sei lá! Teus olhos negros Nunca mais O tempo incompreensivo Do amor eterno que virou poesia Nunca mais, ainda é rima clamorosa Estúpida, mistério desigual E, assim se foram Ontem e hoje Nada muda Nada altera rotinas Nada muda tão igual Tão assim, somos suspeitos cegos da ironia Da harmonia que não há: entre mentes Haverá passageiros todo dia 45


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“QUARENTANO” dezembro/1988

Os anos cinqüenta Os anos sessenta Os anos setenta Os anos oitenta Meu Deus! Os anos noventa! Quantos anos! Os anos quarenta estão chegando Estão chegando os quarentanos Estão chegando e passando Meus quarentanos estão ficando Não há verdade absoluta Nem mentira absoluta Há vida sim absoluta Extremos absolutos Vida e morte absolutamente Estão chegando os carneirinhos Os cordeirinhos de Natal chegando O pastor do rebanho vem sorrindo Vêm contentes os cordeirinhos Morrer p’ra Ceia do Natal Aqui não há estrelas-guia Aqui não se conduz ninguém Aqui não se reza Não se diz amém! Aqui não há cânticos religiosos Nem humanísticos Tudo aqui é brincadeira e ninguém Aqui é disfarce perfeito Que pareça brincadeira Até a tua face é brincadeira Nem marcas-rugas dói à lisa tez O teu retrato na parede é um tempo 46


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Brincadeira de criança triste Fiel tempo de tenra brincadeira de papel Lucidez pueril que parece brincadeira Séria espontaneamente séria Brincadeira eterna de papel E, se ainda faltar adeus para esses anos mortos Use um lenço branco-amarelado — ao tempo Acene lacrimejando e depois com um lenço Vermelho as lágrimas seque Os anos noventa! Meu Deus! Os quarentanos!

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DE VEZ EM QUANDO janeiro/1990

Noto uma esperança perdida nos teus olhos de Maria Outras vezes de vez em quando percebo outra esperança Viva nos teus olhos de Maria Os teus olhos são dois faróis no céu iluminando os antros Escuros da vida, de vez em quando, preocupados Com notícias que vêm e separam teus olhos de Maria das incertezas, dentre tantos algures, confundem-se a distância às palavras de Maria De vez em quando floresce a rotina e cresce A monotonia e se faz ausente aos séculos amém D’outro modo vêem os olhos de Maria relâmpagos No céu e renasce da luz mais outra alegria O que se faz quando se perde uma aventura É procurar sem demora nova amargura Triz azul deve existir nos olhos de Maria! A presença faz a vida renascer e brilhar Se se reclama à impaciência É porque se perdeu a magia lucidez Desse espanto o encanto se quebrou E desse nascer-morrer biológico A esperança é viver Maria Divina expectativa deste quê

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RETRATO 23/01/1990

Quando me dei conta já havia passado pelo teu rosto inerte A tua face branca era um templo em gesso suspenso e quieto Carismática era uma flor emudecida A minha dor foi se acostumando a tua dor O teu abrigo agora era o meu abrigo Eu sem ter te vivido Pus-me a pensar Esse tempo que persegue impiedoso Tão capaz e mais infalível do que nunca Algumas vezes as árvores são centenárias Outras vezes orquídeas morrem sem a luz Mas fica a história a dever ao tempo explicação Caçamos a memória estampada no teu rosto Da lógica decadente que restou do teu retrato frio Volto a ti e és uma criança muda Outrora nascente rumo ao mar sem dores Ontem corrias entre as flores no jardim da vida Eras sã e a tua carne uma alegria da terra Hoje é o amanhã que não te espera E este mormaço estúpido que te aquece a alma Exala um odor de cera triste Assim caminhando sem me dar conta Percebo a candura nas parábolas Que contavam das tuas aventuras ricas Outras eram tristes e sem nexo Se não toda tua existência fora um tédio Perfeito o teu retrato sem lembranças Um brilho fosco 49


Simão Viana Martins

DEVANEIO 10/03/1990

Quando você vinha aqui Eu me lembro Quase eu via amanhecer Você vinha sempre à noite Morna e não chovia Você vinha aqui Eu me lembro do banquinho da rua Sentados como uns anjos cúmplices Eu e tu víamos a lua Ah! Como eu me lembro do barquinho Doido não tinha leme nem razão Sumia em correntezas sinuosas Era um vulto branco e agitado Entre dunas num alazão Tu vinhas e sentavas e vias a lua Meu coração! Meu santo alheio Quem diria corpus não Venha ilusão Mas o tempo passou Ontem deu eclipse Escureceu Depois veio a crescente tímida E a nova não nasceu Hoje por que não sei chove 50


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E se não for por tais motivos Qual seja ingrata, prove! Se for cansaço a minha infâmia Ainda assim venha A vida é uma semente Melhor dizendo um passarinho alegre E o vento esse agente do futuro Uma criança brinca Sem saudades

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UMA VIDA 21/04/1990

Um dia eu passei por aqui sorrindo Meus dentes eram brancos e grandes Mas havia quatro espaços vazios Que não me lembro tê-los perdidos Sem protestar Não me demorei muito por aqui Fiquei pouco mais de algumas décadas do que Cristo Havia quem dissesse que eu seria eterno que nem Ele Vejam o absurdo! Morri Hoje ainda recente o meu corpo esfria Vejo quem tem saudades eternas Outras são fingidas e fugidias Deixam marcas duras Mas eu dizia da minha passagem por aqui Dizia até da vaidade e do bom gosto das borboletas Da fina flor do néctar ao amanhecer Dizia dos meus dentes menos cariados e ou Até doídos por maus tratos de incompetentes caros Eu não voltarei mais por aqui Pois, cara é a vida Mas a saudade era nova Quando eu passei por aqui – Sorrias

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Era a vida e a saudade caras Só um adeus do menino bom Ficaram os anéis Neste chão inconcebível Tenho dúvidas! Onde está o eterno imaterial dos olhos Não tenho a quem indagar Percebo mentiras Todas as histórias que me contaram Eram mentiras Ainda bem que eu não acreditei Meus dedos nunca deram aos anéis Daqui deste hipotético teto tudo é mentira Adultas mentiras tão claras Um dia eu passei por aqui – Estavas sorrindo

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O MEU DILEMA 23/04/1990

As minhas histórias têm sido curtas, mas prolixas Meus assuntos preferidos têm acabado sozinhos Isso porque não tenho tido paciência para Chegar ao fim de qualquer conversa Que me proponha a tê-la com amigos Todos os meus enredos têm o espaço do sufite E se insisto me empolgo e sou demais repetitivo Torno-me ridículo e cansativo e insuportável É assim o meu dilema Fico rondando e embalando as mesmas idéias e me canso Note o meu tema pobre Tenha pena da minha pouca inteligência Talvez seja atávica Ainda assim, todos os homens ditos grandiosos nas idéias São para mim homens com as suas histórias mal contadas Pois, não absolvo sequer uma linha simples de um raciocínio À evidência quando muito consigo perceber uma frase Poética sem ser criativa e ainda que me custe a noite mal dormida Sem contar a falta da gramática que disfarço a vocábulos mais simples Puxa! Veja só! Lamentar não é difícil! A compreensão do mundo fica até mais simples a uma inteligência medíocre Veja o absurdo da minha arrogância tingida de humildade neofascista Note o que eu não sou nem poderia ser n’algum dia coisa nenhuma Lendo e ou tentando ler ou criando versos ou sem mesmo perceber tais coisas Perceba! Encerrei a minha história logo no começo Estou ainda no início da folha 54


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A concentração me foge e sinto pena de mim Procuro ser eu mesmo Contudo a dificuldade de sê-lo Derrama de um pote cheio d’água Porque não ter servido à sede As minhas insinuações não saíram deste quartel De recrutas tontos e visionários e estratégicos Vanguardistas mudos que não lutaram O que tenho agora para dizer não é mais história É apenas um preenchimento de linhas mais inúteis Como quem cata aqui e ali e tira dos intervalos do tempo Resto de palavras que sobraram entre bocas cansadas Não sou mesmo um idiota? Qual outro adjetivo me daria? — não me diga! – Tolo! Tanto que eu o guardei para os outros distintos Paro com essa besteira, já! Nada de mim interessa a ninguém e versos Além do mais, olha o tempo lá fora! É madrugada! O silêncio é um segredo só dos mortos sem adjetivos Não é mais domingo na terra. Já passaram das duas da manhã Hoje é dia útil. Novos planos para a semana são recomendáveis O governo anda bandido e continua fanfarrão Quem sabe, eu ainda o perdoe pelo que me fez A minha poupança me custou meses e perdas Quanto à dívida, eu não sei esperar, Mas a minha saúde dói Os médicos (dizem-se doutores) são brasis

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FLOR CRIS 17/05/1990

Pronto! Aqui é São Paulo, Bela flor! Dá-me a tua mão menina Seguro-a e do teu beijo A saudade não conta Coração Aqui é o marco da civilização Partiremos então para o mundo Seguiremos nas asas d’avezita branca Vamos para o Oriente longínquo das danças Miragens dos oásis e das múmias inesquecíveis Então nos mandamos para o Ocidente Para os acidentes dos nossos pés descalços Os nossos beijos úmidos e condecorados D’emoções! Vamos meu bem! P’ra nossas vidas não marcadas Ainda, tudo é novo! E o teu beijo — meu sono despertou Vamos menina pisar São Paulo Este é santo é indolor Dá-me a tua mão Teu doce beijo! Vamos por aí, meu coração! Olha! Vê a Santa-Sé Não há missa. Há cânticos! Corramos! O metrô p’ra norte Vamos p’ra leste — oeste Vamos, menina, p’ra sul!

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Eu te dou meu beijo-ardente E os teus olhos minha luz Eu te dou meu sangue-fogo E teu modo-menina é meu abrigo Vamos pisar-sair-correr! Vamos, menina, passear Vê São Paulo Flor Cris Flor – Somos nós!

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CRISÂNTEMO 06/06/1990

Feliz aniversário! Sete de junho de tantos vindouros Bela flor encantada Estrela candente Sol que nasce e desce todo dia Feliz aniversário Meu amor! Parabéns! Manhãs tantas virão inesquecidas Primaveris tardes ficarão agradecidas amanhã Quando o sol não tiver mais os teus olhos Dezoito anos vencidos ficarão eternos Olho pro céu e vejo a lua à magia das cores! É alta é cheia e brilha os olhos claros querida! E as estrelinhas ‘inda enciumadas Cantam o hino a toda hora Parabéns p’ra você!

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VIM PARA LONGE DOS TEUS OLHOS B H, 30/06/1990

Aqui d’outro lado do inferno Há o mesmo vento que balança os teus cabelos loiros Há o mesmo sol que arde de Guarulhos à cidade grande À noite tem a lua já quase cheia E as estrelinhas são as mesmas invejosas Mas para compensar tudo À tardinha, têm os passarinhos coloridos Têm as brincadeiras de meninas, as amarelinhas Tem o teu sorriso nos dentes brancos Das meninas livres bem loirinhas Às vezes, este inferno-céu É o mesmo daí indiferente O calor é igualzinho as sensações As brisas eu sinto aqui O coração acelerado Quando te tenho em lembranças lindas Oh, menina, este inverno Não faz a distância que nos separa tanto É frio e me recolhe cedo a esperança Este inverno — terno inverno É um céu de anjos Que me conduzem à luz Que me alimenta a calma P’ra quando te ver Bendita alma! 59


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POESIA B H, 30/06/1990

Tu que dizes Saber fazer poesia Como é então o teu verso? É livre é branco ou amarelo? É romântico e tem as cores do arco-íris? É claro como as cores dos teus olhos, menina? Como é o teu verso? O teu canto, como é? Ah, já sei... O teu verso é livre! Porque a liberdade é uma menina travessa e bonita É um balão-de-junho verde-amarelo e São João Não é assim o teu verso? Se ainda não acertei Não tem importância nenhuma Os versos não têm importância nenhuma Algumas pessoas dão importância para os versos São almas doentes e tristes E os versos são placebos tardios Que mentem e não curam um câncer Quando muito, agrupados em coletâneas antigas Trazem traças e bolores para alérgicos. Eu! O teu verso não é isso! É? Acertei... Não acertei? Diga-me então menina Como é o teu verso Que cores vêem os teus olhos As tuas dores as tuas esperança E o teu sonho Quem são os teus amores?

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Uma vez quis saber de ti Perguntei p’ro sol À noite p’ra lua E me disseram que tu eras Assim bonita e tanta esperança Um porvir sorrindo – Uma criança

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CHOVEU NUM INSTANTE B H, 06/07/1990

De onde vêm estas águas tantas Estas nuvens tão carregadas Escuras e aborrecidas Porque não há mares por aqui tão perto Nem os rios grandes da minha infância Lembranças Por aqui há rios pequeninos E maiores são mais distantes Ou são rotas estreitas onde Navegam restos orgânicos de vidas Rotas e esgoto poluído Restos de gente Assim tão triste e de repente Por aqui não haveria de chover tanto Ah, Belo Horizonte! Pode ser que esta chuva Sejam lágrimas saudosas (dos teus olhos, menina!) Que mandaste daí Prêmio oportuno a minha angústia Pode ser o teu castigo a minha desventura Pode ser o fado-consciência O teu olhar cismado O vento que sopra Frio! 62


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As luzes mercúrio ou néon Os hotéis têm mais estrela A lua grita em mares negros! É cheia quando aparece É negro o céu que me envaidece Sinto frio e saudades Não há preces por aqui Cânticos são trovões distantes E este hino a todo instante Que não cansa! Não pára É muito o desencanto O teu calor — Belo Horizonte O meu engano!

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QUANDO EU ANDAVA POR AQUI 11/07/1990

Nem sempre eu te via Eras ausente – Eu descontente Não fazia muito sol Era inverno Vento triste Ares densos Um inferno, alma vivia Ruídos de motores e diesel Gritos de dores sem ecos Lágrimas de olhos inocentes E caduquice precoce Homens sem velhice Nas fachadas gritos Muito grito E apelo Muito apelo Um outdoor vistoso Um corpo de mulher bonito Um rosto de mulher bonito (A tua face linda) Olhos e sedução Homens sorrindo Querendo... Sorrindo Nascendo e querendo... Homens vivendo de ilusão 64


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DOMINGO 15/07/1990

Dia de igreja Já houve reuniões familiares e brigas costumeiras Grupos de amigos já se encontraram em torno da carne E disseram de futebol e das moças andantes E disseram de olhares quentes e ternos da sexta-feira E do sábado disseram de suas conquistas amorosas E das futuras vantagens e prevaricações Porque a derrota não cabe aos faladores Dizem sempre que nada perderam Eu conheço uma família exemplar O marido cedo se levanta Beija a esposa e depois os filhos saudáveis Toma o café da manhã junto à família Lustra que lustra o automóvel Pede o sol ao inverno Teria ido ao trabalho ao parque de diversão? Teria ido ao zoológico ao litoral mais distante? Não sei para onde teria ido o meu amigo Se não houver a volta Algum jornal dará notícias amanhã Mas só amanhã os jornais darão detalhes do domingo Hoje neste instante não é mais domingo de Cristo A religião sabe disso Porque houvesse Deus desconte Quem sabe, não recomeçaria tudo de novo As ladainhas seriam inéditas Afinal seriam inéditas? 65


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Então quando chegar o domingo próximo Estaremos outros novos reunidos e ninguém Marcará, quem sabe, as nossas queixas e Não seremos suspeitos ou desacreditados Nem mal ouvidos Seremos felizes e tudo Afinal

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ESPANTO 28/08/1990

Eu estava diante do espelho Bonita e bem humorada Meus lábios vermelhos Bonitos e ardentes Meu sorriso malicioso (Meus dentes) Eu havia renovado meu guarda-roupa Pus-lhe roupas novas Troquei-o de lugar Fi-lo estratégico Fi-lo ousado Passou por mim um anjo torto Que parou frente ao espelho Mirou-se e piscou-se Viu-se encantado e Quebrou-se Apagaram-se as luzes Caíram meus cílios longos Meu ruge se derreteu e Manchou o meu rosto pálido Fui estúpida e chorei sem pudor Bateram-me à porta Tantas vezes insistiram-me Tive pena — nua de mim Meus sapatos virados Riram-me e riram-me — bonita! 67


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Quando me tornou a luz Minhas peças eram novas Meus olhos azuis — felina Meus dentes — marfins Meu ruge e baton por fim

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POEMA MODERNO dezembro/1990

Quando eu entrei no teu quarto Só havia um rádio falante As cortinas das janelas solitárias balançavam Não havia vento lá fora A televisão esquecera ligada Do espelho da estante a tua emoção ecoava Gritava o silêncio dos teus retratos coloridos Dos teus ídolos a tua moda do teu medo Junto à parede um sofá de-três-almas Uma menina muda e assustada Um copo vazio e pontas de cigarros Exprimidos num cinzeiro para-alérgicos Havia outras marcas em copos sujos Sobre o vidro da tua mesa palitos imundos Sentei-me no sofá sem-almas Passei os olhos ao teto escuro do céu Cerquei-me do teu corpo-frio e inerte Manchado de sangue Ainda choravas e choravas O teu silêncio chorava Patético teus olhos brilhavam

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“VINTE-E-DOIS” 22/12/1990

Já faz algum tempo que eu não faço música Que eu não tiro nenhum tom mais alegre Ou menos triste e angustiante Também não é p’ra menos! Eu nunca compus música Eu nunca fiz versos Eu nunca cantei modinhas Nada mais ou menos doce n’algum dia cantei Sequer faz tempo que eu não li uma história de ficção Romance nem um conto banal ou novela em vídeo Assisti sequer ou atentei à poesia Também não é p’ra menos! Eu nunca fui leitor de nada Escritor ou poeta sensitivo Doido Veja só! Lembro-me já ter sido medíocre Uma vez fui analfabeto e fiquei Andei nu e virei adulto e menti Vagando dei fé da minha ignorância Havia outros tantos também ignorantes Semi-analfabetos adultos Iguaizinhos a mim

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“1991” 31/12/1990

Abri minha janela — lá estava a meia-lua Um pouco mais outro diria verão A lua estava metade se via da minha janela — Outro diria emoção! Meus planos para amanhã são mais de noventa-e-um Meus sonhos para amanhã são mais de noventa-e-um Minhas realizações para amanhã são mais de noventa-e-um (...) Portanto, não me indague nada Hoje, eu não prometo nada Não me cobre nada O meu destino, se existir destino, é estar livre O meu destino é viver Abrir a janela do meu quarto E ver a lua, o brilho da lua! Hoje é lua cheia e fogos de artifícios Abrir a janela e ver as luas pipocando e cheias! A lua é fogo de lágrimas douradas Há cores no céu e luzes caindo em prantos Arrependidas... Brilhando Teus olhos meu destino e artifícios Suspiros e murmúrios e beijo de cores Os teus olhos... A lua cheia A esperança sorrindo O teu sorriso e o meu sorriso A lua e os teus olhos Uma certeza Tudo brilha então Feliz-1991! 71


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LÁ, VAI A MOÇA 09/10/1991

Lá, vai a moça das luas Dos sóis Dos cabelos pretos Presos em rabo-de-cavalo Do batom vermelho Do ruge corado Lá, vai a moça do conjuntinho inusitado Da blusa branca ou bege decotada Dos seios desenhados Da saia colada imaginado Vermelho e vou-me embora Lá, vai a moça Das pernas medianas De vinco músculos brilhantes Dos sapatos pretos à Luis XV De vernis copal São dez e quinze Passam as luas Passam os sóis Passam as estrelinhas Passam as entrelinhas Desfilam os automóveis pelo céu Passa a menina do colégio Passa o moço do colégio Passa todo mundo do colégio Passa a moça no automóvel Disse qualquer coisa à janela Ela sorria...! 72


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Passam os meus olhos Passa ninguĂŠm Passa a vida toda Passa a vida alĂŠm em Liberdade Muita gente brinca de se querer

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desejo julho/1992 (S.E.H.)

Eu te desejo Te quero Te amo Te adoro Vinte quatro horas É um tempo escasso Para sonhar contigo E chamar-te de querida Meu Deus Das dores contíguas Do amor Do ardor Da dor!

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FASCÍNIO 13/08/1992 (SFA) Você Passou a ser-magia Que reluz néon Que me deixou Encantado Daí Estou assim Perdido Noite-é-dia Você - poesia!

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MOTIVAÇÃO 29/10/1992

Não sou homem a andar sorrindo Sou homem a pensar sozinho A passar sorrindo Hipócrita Apesar de De vez em quando Eu me esqueço Adormeço Feito anjo Estúpido Sorrindo Hipócrita Sorrindo Sorrindo ou não Faz parte de ti Faz parte mim?

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PRESENTE 05/11/1992

Eu conheço muita gente feliz Que diz ser de alguma coisa Alguns são socialistas e ou comunistas Efêmeros capitalistas católicos Maometistas ou judeus irritados Budistas ou xintoístas serenos à vida Evangelistas ou sabichões velhacos Muita gente se diz peefelista ou ainda arenista Pedetista e ou udenista oportunista Petista e ou muristas das fábricas do abcd Outros são dentistas e ou doutoristas do acaso Eu conheço muita gente favelada Que tem muita fé e muita crença Desgraça! Infelizes rotos se depurando Eu não sou nada Nem sequer sei do mundo Sou do planeta oriundo Do mundo de Deus Assim, sou dos teus olhos Sonho, boca e lábios Do teu desejo Sexo! Da tua fome Carne e água Do teu deleite risos e prantos Sou dos teus ais do teu amor!

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DESPROPÓSITO 25/06/1993 (G.B.F.)

Nunca quis de forma alguma Subestimar a tua sensibilidade Aprendi a lição Aliás ando assimilando lições Por mais essa te agradeço E me desculpo A noite da sexta-feira é bonita Exceção quando a lua não brilha E uma dor efêmera encobre Lá no céu a minha estrela

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UMA VEZ 30/06/1993 (G.B.F.)

No início do ano letivo Pegaste a minha caneta Nunca mais me devolveste Tudo bem! Era feia e pesada Mas era minha Dei por perdida Comprei outra colorida Bonita e tem as nuances da tua pele Nem consigo descrevê-la Tem um quê natural é delgada Tem a tua silhueta

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POEMA DA ESPERANÇA 29/12/1993 Amanhã será o dia da esperança Todas as culpas serão vinculadas Às energias do bom senso Mas só amanhã acabará o infortúnio A vida renascerá a cada gesto natural A cada instante à luz do sol A cada piscar d’olhos teu Amanhã já começou O bom senso a tua palavra Que se renova a todo amanhecer A vida essa que nasce sem nos ver Brota o teu sorriso rumo às coisas do universo Amanhã é hoje que reluz nos cantos da terra escura Que define a forma mais constante Somos testemunhas oculares dos nossos desejos Testemunhas cúmplices da nossa completude Nesta história somos filhos amigos À virtualidade de Deus Somos a esperança eterna em Jesus E sobre nossa culpa Amém!

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NOVEMBRO 29/11/1993 (Altamira)

Duas e meia da manhã Alguém está sonhando Alguém está sorrindo Os cães latindo Os grilos zunindo Lá dentro da biologia O sangue A pressão arterial Coração! Duas e trinta e cinco da manhã Alguém está amando Aos gritos aos gemidos O perfume da mulher O cheiro da mulher Sexo! Duas e quarenta da manhã Alguém está chorando A manhã vai alta sem leme Homens se despem Mulheres se despem A vida se despe assim Original! Duas e quarenta e três Lá dentro o músculo cansa Duas e quarenta e seis Alguém está assustado Os cães intimam uma pequena A vida e a nossa vida passam

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Simão Viana Martins

Duas e cinqüenta da manhã Sugere a biologia noturna das horas O perfume dos teus cabelos negros O vermelho da tua boca manchada O sorriso O movimento quente e cansado Dos teus lábios mornos O desejo e o gozo da vida O cheiro no teu corpo cala! Três horas e sóis da manhã Teus olhos cansados Cumpra-se o sono Vão-se as horas Dormimos aos suspiros À ressonância eterna Dos que se dão

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GUARDIÃO do novo mundo 12/04/1995

Lá no cimo do edifício no topo do arranha-céu Tem um corvo se espreguiçando e arisco Outros o sobrevoam é risco Quem sabe estejam observando carniça Carniça humana? Porque daqui do 19° andar Fórum das coisas dos animais Não vejo outra coisa passar Senão miragem de carniça humana Alguns homens vestidos de ternos escuros Eu noto e arde o sol de verão em amarelo Outros rotos às sombras de concretos e sujos Mulheres vêm e vão à salto alto Noto Outras rotas meninas e meninos Fogem do agouro dos abutres O corvo espera só da morte seco O sol não espera e seca O tempo desses meses secos arde Tantos ares a metros do chão Teus olhos não percebem a fome Teus ouvidos são horas ao sino da Sé Teus gemidos são ais mudos Tudo está mudo Gritam o corvo do céu Atento grasna A paciência divina Até secar 83


Este livro foi impresso, em novembro de 2007, pela Ferrari Editora e Artes Grรกficas, sobre papel off-set 75g/m2. Livro composto em Formata, BlueCake e Viner Hand ITC.


FOI EM 1963 QUE NOS CONHECEMOS. AÍ SE VÃO 44 ANOS DE AMIZADE. NA BREVIDADE DA VIDA HUMANA É UM TEMPÃO. AMIZADE QUE COMO TODAS AS AMIZADES NASCEM POR ACASO, FORTUITAMENTE, SEM NADA PENSADO OU PLANEJADO. A FAMÍLIA DO SIMÃO ACABARA DE CHEGAR DE MANAUS E PASSARIA OS PRIMEIROS

DIAS EM SÃO PAULO NA CASA DO

SR. ONÉSIMO, UM PARAENSE AMIGO DA FAMÍLIA, E QUE JÁ ESTAVA AQUI HÁ ALGUM TEMPO.

Abraço, Mauro Dianes Moreira São Paulo, 13 agosto 2007


Quem vem a minha casa vê um pé-de-abacateiro Num pedacinho de terra dividida ao meio e flores Separado por um muro contíguo à parede D’outro lado um viveiro Tem dez ou quinze aves Uma ou duas galinhas poedeiras Um galo novo e nove pintinhos Que encantam meu pai Ele os trata como bebês Simão Viana Martins


Janelas Abertas