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A história social do Brasil é inseparável da análise contundente deixada pelo intelectual Sérgio Buarque de Holanda

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onsiderado um elo entre duas gerações de pensadores brasileiros, uma modernista – que escreveu ensaios nos anos 1930 – e outra já radicada na Universidade de São Paulo (USP), que se dedicava a teses e estudos acadêmicos, Sérgio Buarque de Holanda compôs uma das mais expressivas visões históricas da formação e do pensamento social brasileiro. Nasceu em São Paulo, em 1902, mas, em 1921, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro. Em 1925, concluiu a graduação em Direito, pela Universidade do Brasil. Entre idas e vindas profissionais, morou em Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo, onde, em 1926, comandou o jornal O Progresso e criou a revista Estética, em parceria com o jornalista Prudente de Morais Neto (1895-1961). Em 1929, segue para Berlim como correspondente do jornal Diários Associados. A estadia alemã foi profícua no contato com a teoria do sociólogo Max Weber (1864-1920) e do historiador Friedrich Meinecke (1862-1954). De volta ao Brasil, em 1936, ocorre o lançamento do seminal Raízes do Brasil (Companhia das Letras, em edição de 1995). “A importância e o papel pioneiro de Raízes do Brasil nesse período reside no fato de que, com Buarque de Holanda, rompia-se discretamente a tradição elitista do nosso pensamento social, analisando a dificuldade da emergência de uma sociedade democrática”, afirma o historiador Marcos Costa.

Buarque de Holanda também trabalhou como jornalista. Na imagem o vemos na redação do Jornal Diario Carioca

Quando jovem, nos anos 1930, envolveu-se com o modernismo e escreveu importantes ensaios de interpretação do país, para depois se firmar como professor universitário de História. O movimento modernista se fez principal referência para Buarque de Holanda, principalmente na escrita de Raízes do Brasil. Chegou a ser nomeado representante no Rio de Janeiro da emblemática revista Klaxon, dedicada à propagação de ideias modernistas. Nessa época, a figura mais importante para o historiador era Mário de Andrade (1893-1945). Desenvolveram relação próxima expressa em correspondências lançadas em livro recentemente (Mário de Andrade e Sérgio Buarque de Holanda – Correspondência, Companhia das Letras, 2012).

De olho em outras raízes Costa explica que, a partir de 1940, inspirado pela sociologia alemã de Georg Simmel (1858-1918) e pela Nova História Francesa de Marc Bloch (18861944) e Lucien Febvre (1878-1956), Buarque de Holanda iniciou um projeto único na historiografia brasileira. “Tratava-se de vasculhar os desvãos da história do Brasil, os personagens secundários, os fatos inusitados e aparentemente sem importância, os costumes, os modos de vida, a cultura, temas e objetos que estavam a anos luz de fazer parte do rol de interesse dos historiadores, do Brasil e do mundo”, afirma.

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Atuante no movimento modernista, o historiador tem em mãos um exemplar da revista Klaxon. Momento registrado em fevereiro de 1982

Os livros publicados nesse período, como Monções (edição esgotada) e Caminhos e Fronteiras (Companhia das Letras, em edição de 1994), e nos anos 1950, como Visão do Paraíso (Companhia das Letras, em edição de 1994), vão investigar o interior do Brasil, onde ocorreu o que o autor chama de uma colonização com a consistência do couro, ou seja, moldando-se e adaptando-se a todas as dificuldades do meio, seja ele físico ou cultural. “Em tempos em que fazer história era se preocupar com aspectos políticos, Buarque de Holanda era tido como um intelectual excêntrico, que só nos anos posteriores seria totalmente compreendido – como tudo que é novo e original – e reconhecido como genial”, acrescenta Costa. “Este reconhecimento viria apenas a partir dos anos 1970, quando a terceira geração dos Annales revolucionou, na França, a forma de fazer história, por meio da valorização da História Cultural em detrimento da História Política que se fazia até então. No Brasil, a História Cultural só frutificaria no final dos anos 1980, e não é por acaso que data desse período o início das reedições de seus livros no país.”

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Construção acadêmica Outra contribuição de Buarque de Holanda é a fundamentação teórica e prática para a construção de diretrizes dentro da universidade, em especial da USP. Antes de participar da experiência brasileira, em 1952, fixou residência na Itália, onde atuou como professor convidado, ministrando Estudos Brasileiros na Universidade de Roma. Antes disso, teve uma passagem rápida como professor da extinta Universidade do Distrito Federal (de 1936 a 1939). Sua entrada como docente na USP se deu em 1958, quando tinha 53 anos.


Para o pesquisador do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB-USP) e autor de Urdidura do Vivido: Visão do Paraíso e a Obra de Sérgio Buarque de Holanda nos Anos 1950 (Edusp, 2008), Thiago Lima Nicodemo, a ideia de construir uma universidade está ligada a dar autonomia para as áreas do conhecimento, sobretudo condições para o desenvolvimento profissional. “Essa é uma das diretrizes do próprio modernismo, presente na vida de Mário de Andrade (1893-1945), por exemplo, que tentou dar condições para que os escritores pudessem se tornar profissionais especializados”, explica. “Buarque de Holanda pega tal diretriz modernista e a aplica à universidade, pois pensava que nela poderia haver autonomia para pensar todas as disciplinas, tendo papel importante no desenvolvimento profissional de duas delas, a própria História e a Crítica Literária, que em sua visão deveria ser especializada e não genérica, conectada com o que estava sendo produzido de vanguarda no Brasil e no exterior.” Essa ideia foi implementada fortemente nos estudos historiográficos. Outra colaboração para o processo de institucionalização da universidade foi a preocupação com a criação de acervo e arquivos de museus. “As reuniões para criação do MAC [Museu de Arte Contemporânea] aconteceram em sua casa. Foi ele quem sugeriu o nome”, afirma Nicodemo. “No mesmo ano, em 1963, idealizou o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), uma instituição de pesquisa avançada e interdisciplinar, uma potencialidade pouco explorada até hoje. Ele tem o mérito de fixação de um projeto que saiu da universidade e alcançou a esfera pública brasileira.”

Encontro de teorias Gilberto Freyre, Caio Prado Júnior e Sérgio Buarque de Holanda foram intelectuais de uma geração que buscou explicar o Brasil e suas contradições No contexto dos anos 1930 foram publicados livros que se tornaram clássicos do pensamento sobre o Brasil. “Eles correspondem à reflexão acerca da história do país na primeira metade daquele século, quando certa mentalidade de radicalismo intelectual e análise social eclodem e, apesar de tudo, não foi abafada pelo Estado Novo em 1937”, define o historiador Marcos Costa. É o caso da obra Casa Grande e Senzala (1933), de Gilberto Freyre (1900-1987), que aparece no cenário nacional como uma referência que suscitou o espírito crítico em obras posteriores. Outros exemplos são Evolução Política do Brasil, publicado em 1933, ensaio que apresenta uma interpretação da sociedade brasileira da década de 1930 e que é pontuado pelos conceitos de modernização e urbanização, além de se destacar como um estudo marxista da nossa história, e Formação do Brasil Contemporâneo (1942), clássico do pensamento social brasileiro, que analisa o processo histórico pelo qual o país foi originado, tendo como base as relações entre colônia e nação, ambos de Caio Prado Júnior (1907-1990). Completa o conjunto Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda (1936), que põe em dúvida o papel das elites, criticando as soluções autoritárias do passado e do presente. Um conceito desenvolvido em suas páginas e vital de discussões até hoje é a ideia de cordialidade. Nesse capítulo do livro, lemos que a sociedade brasileira é pautada pela ideia de um homem cordial, ou que esse homem é uma espécie de metáfora da sociedade, de como ela funcionava. “Cordial não vem desse sentido de amizade ou gentile-

za, mas do sentido do coração, no sentido etimológico, as relações estabelecidas no Brasil tendiam para relações familiares”, afirma o pesquisador Thiago Nicodemo, autor de Urdidura do Vivido: Visão do Paraíso e a Obra de Sérgio Buarque de Holanda nos Anos 1950. “Então, boa parte do sistema que pautava a nossa esfera pública e as instituições era infiltrada por um jeito cordial, ou seja, pautada por relações pessoais de padrão familiar, tudo isso remontado à família patriarcal. É impossível ter democracia enquanto os laços de cordialidade estabelecidos pela família patriarcal existirem, o que é muito atual, porque abrimos o jornal e sentimos essa presença.” Segundo Costa, esses livros contribuíram para o conhecimento da realidade brasileira por utilizar métodos novos, embora de diferentes formas, e reagir a um mesmo clima intelectual e político. “Os autores transformaram as interpretações historiográficas e, a partir daí, refletiram sobre o Brasil e a formação de sua sociedade e cultura”, explica. Nicodemo esclarece ainda que Sérgio Buarque, Caio Prado e Gilberto Freyre se direcionam ao período colonial, “identificando linhas de força que são dadas no passado brasileiro, procurando entender como essas linhas influenciam retrospectivamente o presente”. Uma espécie de projeção retrospectiva, comum a todos. Em síntese, procuram entender como características estruturais e sistêmicas do passado colonial ajudam a entender o país onde estamos, mas não só entender e, sim, mudar. “Querem uma modernização do país, dada como perspectiva”, observa. 25


Reminiscências familiares Nicodemo aponta que podemos ver no filho do historiador, o compositor e escritor Chico Buarque, uma ligação evidente com o pensamento do pai. Chico Buarque é um dos sete filhos que Buarque de Holanda teve com a pintora e pianista Maria Amélia Buarque de Holanda (1910-2010) – os demais são Álvaro, Maria do Carmo, Sérgio, e os músicos Ana de Holanda, Cristina Buarque e Miúcha. “Se olharmos para como o Chico se comporta hoje, podemos entender muito de como o seu pai teria visto o Brasil se estivesse vivo. Por exemplo, o Chico ainda apoia o projeto político do Partido dos Trabalhadores (PT) – que teve, em 1980, seu pai com um dos fundadores –, mas ao mesmo tempo é reservado e tem uma tendência de se expor cada vez menos na mídia”, diz. “E sua produção tanto musical quanto literária tem a ver com a decepção de que o projeto idealizado pelo pai e outros pensadores, que floresceu com o outono da ditadura, não caminhou para onde eles esperavam. Os desafios ainda estão postos e nós não sabemos ainda como resolvê-los.” Os gênios costumam estar à frente de seu tempo, mas Sérgio Buarque de Holanda merece essa qualificação por conseguir compreender o que estava exposto em seu tempo, “e tão bem que conseguiu olhar para o futuro, entendendo o mundo no qual vivia de forma muito aguda. E olha que fazia isso já nos anos 1930”, observa Nicodemo. Antes de morrer, em 1982, Sérgio Buarque de Holanda recebeu, em 1980, o Prêmio Juca Pato, da União Brasileira de Escritores e o Prêmio Jabuti de Literatura, da Câmara Brasileira do Livro.

Buarque de Holanda ingressou tardiamente na academia. Na imagem o vemos durante a defesa de tese na Universidade de São Paulo, em 1958

Gigantes no palco Texto de Bertold Brecht dialoga com livro de Sérgio Buarque de Holanda em espetáculo da Cia. do Latão E se O Senhor Puntila e Seu Criado Matti, peça do dramaturgo alemão Bertold Brecht (1898-1956), encontrasse Raízes do Brasil, do historiador brasileiro Sérgio Buarque de Holanda? É essa experiência instigante que foi colocada em prática pela Cia. do Latão entre os meses de novembro e dezembro de 2013 no teatro do Sesc Belenzinho. Os pensamentos de ambos serviram de referência para a Companhia explorar as relações de trabalho, tema já abordado por eles em peças anteriores, como A Comédia do Trabalho (1990) e Auto dos Bons Tratos (2002). “O Patrão Cordial (foto) é fiel à estrutura da peça de Brecht, mas modifica o modo como a relação central é distanciada. Incluímos na peça figuras clássicas da sociabilidade brasileira, como o agregado da família, modificamos as histórias dos trabalhadores. O ponto mais importante é a incorporação do passado escravista às relações. O Puntila de Brecht aparece, assim, associado a uma ‘ética de fundo emotivo’, manipulada de cima para baixo, para anular o espaço do outro. Foi, salvo engano, Anatol Rosenfeld (1912-1973) quem notou pela primeira vez o brasileirismo da peça de Brecht, quando intitulou seu artigo de “A Cordialidade Puntiliana”, descreve o diretor da peça, Sérgio de Carvalho. Para ele, o importante na montagem foi buscar uma atitude realista, de interesse pela ficção, por suas contradições, até mesmo quando a estrutura dramática se aproxima da farsa. Em especial sobre a obra de Buarque de Holanda, Carvalho menciona sua admiração pela qualidade literária do texto. “Ele é um dos maiores prosadores do modernismo! Admiro mesmo num livro como Raízes do Brasil – que arriscadamente se aproxima da procura de um ‘tipo ideal’ – sua percepção fina sobre a historicidade dos símbolos e formas do imaginário.”

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Perfil Sérgio Buarque de Holanda  

Texto publicado na Revista do Sesc em janeiro de 2014

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