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Símbolo da identidade cultural do estado, o frevo tem sua importância renovada com o título de Patrimônio Imaterial da Humanidade

No chamado Bloco da Paz, alunos das escolas municipais desfilam pelo sítio histórico de Olinda, em um dos diversos eventos que acontecem na cidade em tempo de carnaval

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omo de costume, o frevo pede passagem, mas não só nas ruas e durante o carnaval. Além de ter um dia em sua homenagem – comemorado em 9 de fevereiro –, o reconhecimento como Patrimônio Imaterial da Humanidade oficializado em dezembro de 2012, pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco), revigorou as forças de um ritmo que se manifesta na dança e no som, deixando sua marca na história social e no campo das artes. Tais registros podem ser encontrados em textos de pesquisadores e estudiosos em cultura popular. Um exemplo é o livro Frevo, Capoeira e Passo (Editora de Pernambuco, 1985), de Valdemar de Oliveira (1900-1997), no qual o autor sentencia a origem pernambucana do ritmo, embora haja correntes teóricas que mencionem a possibilidade de o frevo ter origem africana. Oliveira escreveu: “Pernambuco possui uma música e uma dança carnavalesca que são coisa sua, original, que se criou no meio do povo, quase espontaneamente, e se cristalizou depois, como urbana... É possível, porém, afirmar que o frevo foi invenção dos compositores de música ligeira, feita para o carnaval, enquanto o passo brotou mesmo do povo, sem regra nem mestre, como por geração espontânea”. A polêmica sobre o surgimento não se perpetua quando tratamos da origem do vocábulo. Registros indicam que uma notícia veiculada na publicação recifense Jornal Pequeno, em coluna publicada no carnaval de 1908, está relacionada à origem da palavra. “Na verdade, foi a citação do trecho

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É na alegria dos passistas que o frevo toma forma. Todo ano, cerca de 1 milhão de pessoas vindas de outras cidades do país e do mundo se encontram para festejar

de uma música que seria tocada no Clube do Feitosa”, comenta a coordenadora de Estudos das Culturas Mário Souto Maior e da Fundação Joaquim Nabuco, no Recife, Rúbia Lóssio. Após a citação, o termo “se integrou ao cotidiano das pessoas. Advindo das palavras ferver, efervescência, e não demorou a cair no gosto popular”. Já sobre quem veio primeiro, a dança ou a música, não existe uma definição. “Houve um entrelaçamento do passo e da música com o cotidiano e a história. O frevo surgiu em Recife e consolidou-se como uma manifestação cultural genuína”, completa Rúbia. Compondo o quadro do passo e da música, existe a divisão entre os seus tipos: o Frevo de Rua, considerado o primeiro a surgir, apenas possui o som, sem letra e canto, privilegiando a dança; o Frevo Canção, responsável pela incorporação de melodias à música, parecido com as marchinhas de carnaval cariocas, com uma introdução harmônica e outra parte cantada; e o Frevo de Bloco, que, além

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da dança e música, dá vida à Frevioca, um carro aberto que percorre as ruas de Recife levando a orquestra que conduz a multidão de foliões. Tendo em vista as particularidades do ritmo, no Recife há a tradicional Escola Municipal de Frevo Maestro Fernando Borges. Fundada em 1996 com o objetivo de preservar e divulgar a cultura pernambucana e seu filho ilustre. A diretora da escola, Anna Miranda, resume a importância da instituição ao dizer que “todo trabalho com dança popular carrega nossa origem e história, nossas influências, assim as pessoas se conhecem e se valorizam, configurando a identidade popular”. A escola conta com cursos de dança que procuram liberar a energia do frevo, ensinando aspectos práticos do ritmo para todas as idades e atuando na formação de quem deseja lecionar. O professor José Valdomiro, que começou a dançar ainda adolescente, atua na área. Para ele, o mais bonito da história é que “o frevo é uma dança de rua, nasceu do povo e para o povo, sem discriminação; todos


podem dançar. É isso que procuro evidenciar em minhas aulas”. Outra ação importante na intenção de preservar e disseminar o ritmo originalmente brasileiro é a inauguração no primeiro semestre de 2013 do Paço do Frevo – vinculado à prefeitura de Recife. Trata-se de um complexo de difusão e preservação cultural, que contará com atividades destinadas à população e um espaço para pesquisa e capacitação profissional. O conjunto dessas atitudes estimula a assimilação nacional do frevo, para que seja conhecido e apreciado atemporalmente, não apenas no carnaval. Tal movimento retrata um momento de melhoria que sensibiliza as pessoas em relação à cultura brasileira. “Isso nos faz pensar na melhor forma de oferecer à população o conhecimento e a beleza do frevo. A ideia é formar pessoas para o trabalho, mais passistas, músicos e orquestras que possam entrar em contato com o frevo em várias áreas do conhecimento. É o momento de ferver esse sentimento nas pessoas”, acrescenta Anna, que também esteve envolvida no projeto do Paço do Frevo.

Memória musical O frevo pernambucano também é prodigioso devido ao trabalho de seus compositores. Confira alguns nomes que integram essa bagagem cultural Lídio Francisco da Silva, o Lídio Macacão (1892-1961): Compôs importantes frevos, como Três da Tarde; Música, Mulheres e Flores; e Campeão de 26, este último para o clube Vassourinhas de Olinda.

Lourenço da Fonseca Barbosa, o Capiba (1904-1997): Um dos mais conhecidos compositores de frevo do país. Autor das composições É de Amargar e Madeira que Cupim Não Rói.

Edgard Moraes (1904-1973): Foi diretor de blocos importantes no Recife, como Pirilampos e Um Dia de Carnaval. Autor dos frevos Velhos Carnavais e Valores do Passado.

Clídio Nigro (1909-1982): Dedicou-se à composição de frevos para clubes e blocos de carnaval do Recife a partir dos anos de 1940. Entre eles, Regresso e o frevo de rua Cinquentenário de Vassourinhas de Olinda, em homenagem ao clube homônimo.

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Embalo da folia Durante o mês de fevereiro o Sesc organizou uma programação dedicada ao carnaval e o frevo também faz parte da festa O carnaval preenche o calendário dos brasileiros durante a primeira quinzena de fevereiro e, por isso, as unidades do Sesc apresentam atividades para todas as idades e gostos. Nessa proposta, o Sesc Belenzinho criou o Mil Brasis. Para o frevo, há o espetáculo de improvisação Glocalidades de Pernambuco, com o Núcleo Pé de Zamba e direção de Andrea Soares. Segundo a técnica de programação da unidade, Aline Medeiros de Souza, a intenção é “valorizar e fazer circular algumas das manifestações populares presentes em todo o Brasil, tanto por meio de artistas e grupos tradicionais quanto mostrar como certos artistas e pesquisadores contemporâneos têm se apropriado dessas manifestações a partir de suas próprias referências”. Mas os confetes estão espalhados por outras unidades. O Sesc Osasco programou o Muitos Carnavais, com oficinas e atrações de música brasileira. O Sesc Santo Amaro, Consolação e Pompeia abrem espaço para um carnaval cheio de estilo. O primeiro apresenta Folia Sem Fronteiras: Carnaval Latino, destacando a produção nacional e argentina; a unidade da Consolação viaja até um dos carnavais mais antigos do mundo e traz Um Carnaval em Veneza, com apresentações musicais e teatrais, reproduzindo a tradicional comemoração italiana. Já o Sesc Pompeia agrada de crianças a roqueiros. Pompeia Brincante tem como destaque os bailes comandados pelo grupo Furunfunfum com a banda Sopro Brasileiro e o CORTEJOFOLIA, que tomará o espaço do Pompeia com um repertório pop rock em ritmo de carnaval. Nas palavras do Assistente da Gerência de Ação Cultural, Henrique Rubin, “a programação desenvolvida pelo Sesc no carnaval tem como objetivo estimular o contato com as diferentes manifestações da cultura popular, promover encontros e contemplar os diversos perfis e faixas etárias de seu público frequentador”. Para conferir a programação completa, consulte o Em Cartaz.

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