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A GEOGRAFIA DE YVES SAINT LAURENT Orã, Paris, Nova York, Marrakech... Mesmo avesso a grandes viagens, o estilista conheceu lugares que influenciaram definitivamente o seu trabalho e se tornaram cenário de encontros, amizades e memórias afetivas Há três letras que, quando lidas ou faladas juntas, exprimem um correspondente inseparável da moda. É assim com YSL, como ficou conhecido tudo o que envolve o estilista Yves Henri Donat Mathieu Saint Laurent, ou simplesmente, Yves Saint Laurent (1936-2008). Em janeiro último, estreou na França a cinebiografia do estilista, com direção de Jalil Lespert e previsão de chegar às telas brasileiras neste mês. Em cena, Pierre Niney revive a trajetória bem-sucedida e turbulenta do criador, o que rendeu, além do burburinho, comentários elogiosos de Pierre Bergé, companheiro de Saint Laurent por mais de 50 anos. Aliás, a relação entre os dois foi tema de outro filme, Amor louco, documentário de Pierre Thoretton que chegou aos cinemas em 2010. Mas há, além do talento como estilista, um aspecto nem sempre analisado em torno da vida de YSL: a interferência e influência de determinadas viagens e países nas suas coleções de moda. Do ponto de partida Orã, cidade litorânea da Argélia, terra natal do artista e ainda sob o domínio francês quando ele nasceu – a independência só aconteceria em 1962; passando por Paris, para onde migrou em 1954; a primeira viagem à vanguardista Tóquio; a cosmopolita Nova York; e a marroquina Marrakech, onde ele teria renascido.

TÓQUIO, NOVA YORK, O FILME PERDIDO E ANDY WARHOL


Foi em 1963, dois anos depois de abrir sua própria maison, que Saint Laurent embarcou rumo a Tóquio para apresentar sua coleção primavera-verão. Nos dias passados no país, o estilista foi conduzido pela herdeira das lojas de departamentos Seibu-Saison, Kuniko Tsutsumi, até a cidade de Kyoto, onde conheceu templos zen. “A crônica da viagem foi registrada pelo japonês Mishima – em um texto chamado A escola da carne –, que se espanta com a fragilidade de Yves, ao escrever que ele é tão frágil quanto um passarinho”, comenta Marie-Dominique em seu livro Saint Laurent – A arte da elegância. Mas foi cinco anos depois, em 1968, que o artista internacionalizou de vez seu nome. Na companhia da modelo francesa – e sua musa – Betty Catroux, que conheceu em 1960 e foi sua amiga por mais de 40 anos, ele foi a Nova York para a inauguração da Yves Saint Laurent Rive Gauche, na Madison Avenue, fascinando os fashionistas e levando estudantes de moda e modelos a se espremer para acompanhar a chegada do criador. Esse frisson em torno do estilista perdura e é justificável, na opinião de Renata Piza, redatora-chefe da revista Elle Brasil. “Ele desafiou padrões, colocou as mulheres em smokings, levou sua loja para a Rive Gauche, o lado ‘errado’ do rio Sena, em Paris. Era um visionário, e colocar tudo isso em perspectiva nos faz ver suas criações como manifestos culturais, não só pedaços de pano.” Mas Nova York também guarda um capítulo à parte nas viagens de YSL. Colecionador do trabalho da fotógrafa e cineasta francesa Martine Barrat, radicada nos Estados Unidos e acostumada a retratar personalidades como Martin Scorsese, Alain Resnais e Bob Marley – além de um ensaio do escritor Jorge Amado –, foi ela quem decidiu produzir Woman is Sweeter, filme sobre YSL rodado em Marrakech, Nova York e Paris. No livro Saint Laurent – A arte da elegância, a autora diz que a produção é “uma fantasia hippie que traduz maravilhosamente bem a atmosfera nostálgica e difusa dos anos 1970”. A trilha sonora foi feita pela banda de soul de Galt MacDermot, compositor do musical Hair. Nas imagens rodadas na França, há uma cena reveladora: Saint Laurent desafia a tradição da moda vestindo sobre a pele nua o avental branco de costura. O filme nunca foi lançado ou distribuído.


Naquela mesma época, junto com Betty Catroux, mais uma vez, o artista passa um tempo com Andy Warhol na mítica Factory, quando conhece então a noite nova-iorquina. Embora apreciasse a companhia dele, YSL não falava muito bem inglês e o artista pop, por sua vez, não sabia nada de francês. Eles viriam a se encontrar novamente no outono dos anos 1970, na capital francesa, onde Warhol finalizava seu filme, O amor. A afinidade com movimentos artísticos pode ser sentida em boa parte das criações do estilista. Por exemplo, a coleção pop art, baseada em Warhol, Tom Wesselmann, entre outros representantes dessa estética surgida a partir dos anos 1950 na Inglaterra e que se consolida nos Estados Unidos nos anos 1960. Na opinião do editor de moda Eduardo Viveiros, é nítida a vontade de Yves, principalmente no final dos anos 1970, de explorar temas de outras culturas. “Seu interesse era mais estético do que antropológico. Era um instinto de fugir da armadilha da indústria do prêt-à-porter que ele mesmo alimentara no começo da marca, atrás de uma quebra de paradigma, de novos jeitos de decorar suas mulheres, menos óbvio e rasteiro, mais escapista.”

SOM, IMAGEM E MARROCOS Sem dúvida, a cidade marroquina de Marrakech é parte indissociável de Yves Saint Laurent, muito mais do que outras pelas quais passou. “Marrakech tem a mesma importância para o mito de Yves Saint Laurent que Saint-Tropez para Brigitte Bardot”, compara Marie-Dominique. “Em 1967, o Marrocos é o novo destino do jet set hippie, seduzido pelos relatos de viagem de escritores da Geração Beat, como Allen Ginsberg e Jack Kerouac, que descobrem o país graças ao amigo Paul Bowles, autor do livro A Hundred Camels in the Courtyard, de 1961”, completa. Yves e Bergé conheceram o país africano no verão de 1967, devido ao convite da amiga Clara Saint. No primeiro momento, os dois demonstram relutância com a sugestão, mas acabam seduzidos pela região. Aproveitam para conhecer a Tunísia e, ao voltar, com nove dias de Marrakech, compram uma propriedade, chamada de A Casa da Serpente. A cidade provocou o renascimento do estilista. Marie-Dominique acredita que foi uma espécie de reencontro com os aromas da infância, “um retorno ao paraíso perdido sem o drama que lavara de


sangue a Argélia. Era um moleque quando sucedera Dior e, três anos depois, abrira a própria maison. Nunca pertencera a si mesmo. Marrakech lhe deu essa possibilidade”. No país, ele também comprou, com seu companheiro, a Villa Mabrouka, casa localizada na cidade de Tânger, próxima ao mar, e mais conhecida como Casa da Sorte. Era um refúgio para o estilista, que, em 1980, adquiriu outro recanto: o Jardim Majorelle, antiga propriedade do pintor francês Jacques Majorelle. Exuberante, o jardim esteve aberto para visitação a partir de 1947, mas nos anos 1980 estava praticamente abandonado. Foi quando Yves e Pierre criaram a Association pour la Sauvegarde et le Rayonnement du Jardin Majorelle, restaurando todo o espaço e valendo-se de parte da casa e ateliê do pintor para uso privado. A residência, com nome alterado por eles para Villa Oasis, tem o azul-cobalto presente em suas paredes externas, que muito marcou as criações do estilista. A relação com o Marrocos foi tão intensa que, ao morrer, em 2008, Pierre Bergé cumpriu os desejos de seu companheiro e jogou as cinzas de Yves Saint Laurent no Jardim Majorelle. Dois anos depois, a rua que dá acesso ao local foi rebatizada com seu nome.

A GÊNESE DE UMA IDEIA Quando criança, Yves Saint Laurent tinha uma característica que saltava aos olhos: a imaginação. Era muito inteligente e usava a timidez como um recurso a ser aproveitado, e não um problema a ser resolvido. Costumava vestir a mãe com véus e a descrevia como deslumbrante. Teve a imaginação como um alicerce de sua infância, guiando-a conforme suas aspirações e gostos.O passar do tempo não acinzentou tal traço. As coleções de Saint Laurent são lembradas por inspirações diversas e de diferentes continentes, da Rússia à África. O editor de moda Eduardo Viveiros explica que as viagens intelectuais feitas pelo estilista não refletiam, necessariamente, uma urgência de estar lá, mas uma interpretação ao seu modo da estética folclórica desses lugares. “Quando se fala de um criador desse nível, é até uma alternativa mais interessante deixar a imaginação fluir a partir de referências, fotos, escritos em vez de recorrer à pesquisa in loco”, justifica. Produzir a partir de referências presenciais ou intelectuais é modo intrínseco de qualquer tipo de criação e, na moda, não é diferente, pontua Renata Piza. Saint Laurent apostava no trabalho intelectual, partindo de livros, fotos e feeling para criar coleções inspiradas em culturas distintas. “O mais incrível é que ainda que trabalhasse a partir de estereótipos locais, como as camponesas russas, o resultado final não era


clichê, ao contrário. No caso da África, sua peça mais emblemática é a saharienne, que resiste desde 1969. Embora seja inspirada no traje dos caçadores, ela nos remete à aventura africana sem ter que usar artifícios comuns quando se trata do continente, como as estampas étnicas ou o animal print”, exemplifica Renata.


A geografia de Yves Saint Laurent