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The Heiresses As Herdeiras

SARA SHEPARD


Tradutores Matheus Martins Ivana Manoel Alves L .G. Lua Moreira Andressa Lane

Revisores e Formatadores


Sinopse A única coisa mais perfeita do que um solitário da Saybrook é a família por trás do império de diamantes. Beldades, empresários, debutantes e especialistas, os Saybrooks são o epítope da alta sociedade. Qualquer um mataria para ser um deles. Mas tenha cuidado com o que desejas, porque se você fosse um Saybrook, você ficaria assombrado pelos segredos e atormentado pelos sombrios golpes de sorte. Uma tragédia atinge a família proeminente mais uma vez em uma bela manhã de maio, quando Poppy, de 34 anos, a Saybrook mais notável de todas, atira-se da janela de seu escritório. Todo mundo fica chocado que alguém tão perfeita tenha acabado com sua própria vida — até que suas primas recebem um aviso sinistro: Uma herdeira caiu, faltam quatro. Foi suicídio... ou assassinato? E quem será a próxima: Aster, a bela, mas imprudente garota que nunca trabalhou um dia em sua vida e que está guardando o mais escuro segredo de seu pai. Sua irmã mais velha, Corinne, cujo futuro meticulosamente planejado está prestes a desabar à sua volta. Talvez seja Natasha, a ovelha negra da família, que de repente se deserdou há cinco anos atrás. Ou talvez a perpetuamente solteira Rowan, que tinha mais a ganhar com a morte de sua prima. Um suspense emocionante e muito esperado sobre herdeiras que devem descobrir a verdade sobre sua família obscura antes de perder a única coisa que o dinheiro não pode comprar: suas vidas!


Árvore da Família


Epígrafo Se caímos pela ambição, sangue, ou luxúria, como diamantes seremos cortados com a nossa própria poeira. —JOHN WEBSTER


Prólogo Traduzido por I&E BookStore

V

ocê conhece os Saybrooks. Todo mundo conhece. Talvez você já tenha lido um perfil deles na People ou na Vanity Fair, visto suas fotos nas páginas sociais da Vogue e o Sunday Styles do New York Times. Ao caminhar ao longo de um bloco privilegiado na Quinta Avenida, você ficou tentado a entrar no edifício ornamentado de calcário com o nome da família deles gravado no frontão acima da porta. No mínimo, você fez uma pausa em seus anúncios, nas fotos do rosto deslumbrante de Aster Saybrook emolduradas por uma galáxia de bugigangas, os diamantes tão impecáveis e claros que até mesmo suas imagens brilhantes o deixava tonto. Eles deixam você tonto também, os Saybrook são uma família de beldades, empresários, debutantes, especialistas e vagabundos, o tipo de pessoas para quem as portas se abrem e mesas de restaurante ficam disponíveis. Se você mora em Nova York e acontecer de ter um vislumbre deles fazendo algo normal, como caminhar até o escritório na parte da manhã ou contornando o Reservatório em uma corrida à noite, você se sente como se tivesse acabado de ser tocado por um raio de sol, uma varinha mágica, um golpe de sorte. Eles são meio parecidos comigo, você pensa. Só que eles não são. E tome cuidado com o que deseja, porque se você fosse um Saybrook, você ficaria assombrado pelos segredos tão profundos quanto uma mina e atormentado por uma onda de sorte tão obscura. Você teria que ir a um monte de funerais também. Tão emocionante quanto a vida em família pode ser, eles também têm de lidar com um monte de morte. Dez carros de passeio altamente polidos estão ociosos na frente da Catedral de St. Patrick, na clara manhã de setembro do funeral de Steven Barnett, e pelo menos mais cinco havia estacionado na esquina da Rua Fiftieth. Os degraus da igreja tinham sido varridos, os corrimões exalavam um alto brilho, e até mesmo os pombos tinham encontrado outro lugar para o poleiro. A atividade na calçada do outro lado da rua continuava em ritmo acelerado. Havia tantas pessoas que eles pareciam mover-se em um lenço de seda longo e colorido. Mas quando as portas dos carros de passeio abriram simultaneamente em um balé perfeitamente coreografado, todo o movimento parou e a observação estupefata começou.


Edith, a matriarca venerável da dinastia Saybrook, já estava dentro da igreja, juntamente com seus filhos. Agora era a vez da geração mais jovem sair da escuridão fria de seus carros para o flash de câmeras e as multidões gritando. A primeira a surgir foi Poppy Saybrook, de vinte e nove anos de idade, perfeitamente estilosa em um vestido tubinho preto Ralph Lauren e mostrando um grande anel de noivado de diamantes — um Saybrook, naturalmente. Seu novo noivo, James Kenwood, arrastou-se atrás dela lançando sorrisos despretensiosos para todo mundo no meio da multidão, especialmente para as mulheres. Em seguida foram as primas de Poppy, as irmãs Corinne e Aster. Embora Corinne parecesse impecável em um vestido preto e saltos cinza claro, sua pele estava pálida, e seu equilíbrio parecia um pouco anormal. Dizia-se que seu namorado, Dixon Shackelford, tinha partido seu coração no início do verão. Talvez fosse por isso que ela tinha feito uma transferência de um ano para Hong Kong como uma ligação de negócios dos Saybrook. Falavam que ela estava partindo no dia seguinte. Aster usava um vestido que poderia ter se passado por uma lingerie, com um cabelo loiro despenteado. Com dezoito anos de idade, ela tinha passado o verão modelando na Europa, e não levantou os óculos Dior de seus olhos enquanto abraçava Poppy. Talvez ela tivesse passado a noite chorando. Ou, mais provavelmente, festejando. A porta bateu no canto quando Rowan, de vinte e sete anos de idade, a mais nova advogada da Saybrook local, parou na calçada. Seus dois irmãos, Michael e Palmer, não estavam presentes, eles não tinham aderido aos negócios da família e não conheciam Steven. Rowan olhou para suas primas, então recuou quando ela avistou Poppy e James. Seus olhos azuis e seu nariz estavam vermelhos. Ninguém tinha percebido que Rowan e Steven Barnett eram próximos... ou ela estava chateada com mais alguma coisa? E, finalmente, Natasha Saybrook-Davis, de dezoito anos de idade, correu da parada do metrô na Fifty-Third, com uma confusão selvagem de cachos escuros presos fora de seu rosto, seus lábios torcidos em uma careta grosseira. As outras primas olharam cautelosamente, ninguém sabia ao certo o que dizer. O fato de que Natasha tinha recentemente deserdado a si mesma tinha sido objeto de muita especulação. Por que uma das herdeiras da América desistiria de sua fortuna? Flashes estouraram. Poppy sombreou seu rosto oval de ossos finos com sua bolsa Chanel acolchoada. Aster fechou os olhos, parecendo positivamente verde. Depois de um momento, Poppy, Aster, Corinne e Rowan apertaram as mãos. Esta era a primeira vez que elas estavam juntas desde que Steven foi encontrado nos cardumes da propriedade de verão da sua família em Meriweather, uma ensolarada ilha ao largo da costa de Martha Vineyard, uma semana antes, após a sua festa anual de fim de verão. Este ano eles celebraram a promoção de Poppy como a presidente da empresa.


— Com licença? — disse alguém atrás das quatro mulheres. Elas se viraram e olharam para o rosto corado e ávido de uma repórter. Um cinegrafista em jeans e uma camiseta dos Yankees estava atrás dela. A mulher abriu um grande sorriso. — Amy Seaver, Canal Dez. Quão bem vocês conheciam Steven Barnett? Corinne abaixou a cabeça. Poppy moveu-se sem jeito. Rowan enrolou os punhos. Amy Seaver mal piscou. O cinegrafista se inclinou. — É estranho — a repórter continuou. — Primeiro o seu avô, que dirigia o império dos Saybrook, e agora o seu protegido, o homem que estava espalhando boatos sobre ser o próximo na fila para o cargo... Rowan franziu o cenho. — Se você está tentando conectar as duas mortes, você não deve. Nosso avô tinha noventa e quatro anos. Não é exatamente a mesma coisa. — E Poppy foi nomeada a presidente, não Steven — Corinne saltou, apontando para sua prima. Mason, o pai de Corinne e o diretor executivo da empresa, tinha tomado a decisão de última hora, dizendo que queria “manter as coisas na família”. Foi uma grande surpresa, mas todos sabiam que Poppy estava à altura do desafio. A repórter as acompanhou enquanto elas caminhavam em direção à igreja, Natasha alguns passos atrás do resto das primas. — Sim, mas o Sr. Barnett não remou para Harvard, e surfou em Galápagos? Vocês não acham que é estranho ele ter se afogado em águas rasas? Rowan estendeu a mão aberta em direção à câmera. — Sem comentários — Poppy disse rapidamente, em seguida, empurrou Rowan e as outras em direção à igreja. — Tentem ficar juntas — ela sussurrou. — Você sabe onde ela está querendo chegar, no entanto — Rowan sussurrou. — Eu sei, eu sei — respondeu Poppy. — Mas apenas deixe para lá, ok? Era algo que elas nunca gostavam de pensar — sobre a maldição da família. A mídia inventou o conceito há muito tempo, e oh, como eles adoravam isso — havia até um site feito anonimamente chamado de Abençoados e Amaldiçoados que documentava as calamidades e as desgraças dos Saybrook, e recebia milhares de visitas por dia. Ninguém conseguia o suficiente da lendária família americana que era tão abençoada com a fortuna e a beleza, mas amaldiçoada com uma sequência de mortes súbitas e misteriosas. Quando as meninas eram pequenas, a maldição tinha sido a sua história de fantasmas quando acampavam no quintal de sua família em Meriweather. Tudo começou, elas começavam, com lanternas posicionadas sob o queixo, quando a

tia-avó Louise caiu de uma varanda em uma festa de Ano Novo. Ela caiu vinte andares, segurando seu martini o tempo todo. Depois de Louise, um tio-avô foi


pisoteado em uma partida de pólo. Em seguida, o avião de um primo de segundo grau se perdeu no mar. Sua tia, Grace, agora divorciada e a mais jovem dos filhos de Edith e Alfred, teve um filho que foi sequestrado em seu quintal. Embora Steven Barnett não fosse tecnicamente um Saybrook, parecia que ele era. Alfred, que estava sempre à procura de novos talentos, tinha arrancado Steven direto da Harvard Business School quase quinze anos atrás, impressionado com sua perspicácia empresarial e equilíbrio. Steven era eficiente e brilhante, com uma mente de negócios afiada e um talento especial para relações públicas, capaz de falar sobre qualquer coisa, desde a mais quente bugiganga de diamante, das férias até o futuro da mineração socialmente responsável. Ele subiu de postos de forma rápida, constantemente presente em Alfred, na casa da cidade de Edith ou na praia da ilha da família nos longos fins de semana, tornando-se um conselheiro de confiança e filho honorário. Agora, ele tinha sofrido o mesmo destino de todos os outros Saybrook, reivindicado pela grande nuvem cinza que seguia a sua família. Sim, o seu afogamento nas águas rasas da marina era estranho. Mas o nível de álcool no sangue de Steven tinha sido muito alto, e a polícia tinha considerado um trágico acidente. A repórter finalmente ficou para trás, e as primas continuaram até a catedral. Um organista tocava uma fuga de Bach, e um banco vazio esperava pelas primas perto da frente da igreja. No primeiro banco a esposa de Steven, Betsy, enxugava os olhos cinzentos, apesar de sua dor parecer ensaiada. Seus irmãos sentaram lado a lado, como versões em espelhos de parque de diversões do falecido. Duas mulheres de cabelos vermelhos estavam na frente do caixão com as mãos postas em oração. Uma delas usava uma pulseira de diamantes que as mulheres Saybrook reconheceram imediatamente. — Danielle? — disse Corinne. A mulher se virou, sua expressão mudando. — É tão horrível — ela sussurrou. Aster avançou para longe, mas Corinne puxou Danielle para um abraço. Danielle Gilchrist era filha dos caseiros da propriedade em Meriweather, e ela tinha estado tanto tempo em torno delas quando eram crianças que ela era praticamente da família. Ela e Aster tinham sido as mais próximas — Aster lhe dera a pulseira, embora Aster recusou-se a olhar para ela agora. A mãe de Danielle, Julia, estava ao lado de sua filha, vestida com uma capa preta que mostrava sua figura esbelta. Embora tivesse quase cinquenta anos, com seu físico esbelto e o mesmo cabelo vermelho impressionante da sua filha, ela quase podia se passar por irmã de Danielle. — Eu ainda não posso acreditar que ele se afogou — disse Danielle quando Natasha se aproximou do grupo. Natasha colocou a mão sobre o caixão. — É uma explicação conveniente — ela murmurou, — dado a tudo o que aconteceu naquela noite.


Poppy virou a cabeça. Aster apertou os lábios, parecendo surpresa. Corinne visivelmente empalideceu. Até mesmo Rowan parecia nervosa. Elas não tinham exatamente falado sobre o que elas estavam fazendo na noite que Steven se afogou, muito menos do que tinha acontecido naquele verão. Talvez tivesse havido muitas outras coisas para se discutir, ou talvez elas tivessem evitado isso de propósito. Julia tocou o braço de Danielle. — Vamos lá — disse ela bruscamente. — Vamos deixá-las em paz. O organista começou o compasso de abertura de “So My Sheep May Safely Graze” e todas elas tomaram seus assentos. Apoiando a sua avó, Edith, o padre caminhou lentamente pelo corredor. Ele agarrava sua mão enrugada e cheia de diamantes, embora ela continuasse tentando afastá-lo. Apesar da umidade dentro da igreja, Edith puxou seu casaco de pele de marta ainda mais apertado em torno dela, como se fosse um imobilizador para prender o pescoço no lugar. Ela empurrou seus grandes óculos redondos e escuros mais acima do rosto e sorriu friamente para os enlutados. Quando ela alcançou seu banco, Edith deu a cada uma de suas netas um beijo breve. — Todas vocês estão lindas. Então, ela sentou-se, cruzando as pernas na altura dos tornozelos finos, e cruzou as mãos no colo, como se ela assumisse que todos os olhos estivessem sobre ela. E, provavelmente, estavam. Ela sempre deu a suas netas um conselho:

Vocês, minhas queridas, são as herdeiras. Lembrem-se disso, sempre. Porque ninguém nunca vai esquecer. As meninas eram o futuro dos Diamantes Saybrook, e elas tinham que agir em conformidade. Elas tinham que viver suas vidas com o máximo de decoro, sorrir para as câmeras, falar várias línguas, obter muitos diplomas, cultivar a arte da conversa, e, o mais importante, abster-se de fazer qualquer coisa que possa trazer escândalos sobre a família. E ainda assim elas faziam. Todas elas. Tinha sido um verão de segredos. Segredos que as separaram e as fizeram se manterem firmes — segredos que ainda não tinha dito uma a outra. À medida que olhavam ao redor da catedral, cada uma delas de repente temeu um raio de cima. Elas eram as herdeiras, certo, as princesas brilhantes de uma família que podia ou não ser amaldiçoada. Mas para os padrões de Edith, elas não tinham se comportado como herdeiras de jeito algum. E era só uma questão de tempo antes que o mundo descobrisse.


Cinco Anos Depois


1 Traduzido por Matheus Martins

E

m uma manhã no final de abril, com chuva manchando as vidraças, lavando a sujeira das calçadas e diminuindo o tráfego em cada bloco em Nova York, Corinne Saybrook, de vinte e sete anos de idade, estava descalça em um vestiário, falando em seu celular em um turco rápido e preciso. — Então nós temos permissão para estabelecer o escritório de ligação? — Corinne perguntou a Onur Alper, seu contato na filial turca da Direção Geral de Investimentos Estrangeiros, a quem ela tinha conhecido na última vez que tinha visitado. — Sim, todos os documentos estão em vigor — respondeu o Sr. Alper, com o crepitar da conexão telefônica. — Nós ainda vamos precisar de você para registrar com a administração fiscal, mas a Saybrook Internacional está liberada para criar uma filial de sua empresa na República da Turquia. Parabéns a você e sua empresa, senhorita Saybrook. — Muito obrigada — disse Corinne sem dificuldade, adicionando uma saudação antes de desligar o telefone. Ela sorriu para seus pés, sentindo a satisfação da vitória. O império de joias da sua família era um dos varejistas mais importantes do país, tanto para as massas quanto para os fabulosamente ricos, mas o trabalho de Corinne era torná-lo o número um do mundo. Então ela olhou para si mesma, quase assustada ao ver onde ela estava, e o que ela estava usando. Ela estava vestida com um vestido Monique Lhuillier marfim. O tecido de renda Chantilly agarrava-se a seu corpo, acentuando sua pele de porcelana. A bainha terminava ordenadamente no chão na frente e derramavase em uma cauda longa e romântica na parte de trás. Um colar de diamantes, um empréstimo da coleção particular da família dela, brilhava em sua garganta, as joias frias pesando contra sua pele. Hoje era a prova final para seu vestido de noiva. Corinne já tinha cancelado várias vezes por causa das obrigações do trabalho, mas como o casamento era em um mês, o tempo estava se esgotando. Houve uma batida na porta do vestiário. Poppy, prima e dama de honra de Corinne, enfiou a cabeça dentro, vestida com uma camisa clássica branca, um casaco cáqui, calça preta skinny e um par de botas Hunter vermelho brilhante que só Poppy poderia usar. Poppy tinha crescido em uma fazenda em Berkshire,


gastando tanto tempo escolhendo frutas silvestres e vacas leiteiras quanto aprendendo francês e jogando tênis. — Está tudo bem, querida? Corinne se virou para ela e deu-lhe um sorriso exuberante. — Eu acabei de garantir o escritório de ligação na Turquia — disse ela animadamente. — Isso é maravilhoso. — Os cantos da boca de Poppy se aliviaram em um sorriso. — Embora você tenha permissão para fazer uma pausa, você sabe. — Poppy olhou para o vestido de Corinne e quase desmaiou. — Lindo. Vamos lá. Vamos mostrar as outras. — Mas antes de ela levar Corinne para fora do vestiário, Poppy tocou em seu braço, sua expressão mudando para preocupação. — Eu queria te perguntar uma coisa — ela disse em voz baixa. — Amanhã é primeiro de maio. Como você está... se sentindo? Corinne sentiu seu estômago revirar e desviou o olhar. Ela estava prestes a dizer que estava bem. Mas então ela sentiu uma sensação picante por trás de seus olhos. — Às vezes eu queria ter contado a ele — ela desabafou. — Parece tão egoísta eu não ter contado. Poppy agarrou as mãos de Corinne. — Oh, querida. — Um olhar receoso atravessou seu rosto. — Você sabe que ainda há tempo. Corinne se endireitou e olhou-se no espelho de três vias. A pele dela estava corada, os olhos um pouco dilatados. — Esqueça que eu mencionei isso, ok? Eu não posso nem acreditar que eu disse isso. Ela pegou o celular do banco no canto quando Poppy recolheu sua cauda. Sua mãe, Penelope, e sua planejadora de casamento, Evan Pierce, sentavam-se em um divã de marfim no salão principal. Ambas as mulheres se viraram ao som do farfalhar da saia de Corinne. Penelope levantou-se e caminhou trêmula até o outro lado da sala — ela teve um acidente de esqui em Colorado naquele inverno e ninguém tinha visto o que a atingiu. Foi apenas mais um incidente da maldição Saybrook. A imprensa teve um dia de campo com isso, especialmente porque era de conhecimento comum que o pai de Corinne, Mason, deveria estar no avião particular que tinha caído dois anos antes, matando os pais de Poppy e o piloto. Ele tinha cancelado no último minuto para participar de uma reunião de trabalho. Dois quase acidentes aconteceram com o patriarca Saybrook e sua esposa em poucos anos. Penelope pegou as mãos de Corinne. — Querida. — Ela alisou o cabelo de Corinne, mexeu nas tiras de renda sobre o vestido, e depois recuou. — É simplesmente lindo.


Corinne assentiu, provando o batom de cera que ela tinha acabado de aplicar alguns minutos atrás. Ela não deixou de notar que sua mãe tinha dito que o vestido era lindo, não Corinne. Bettina, costureira da Lhuillier, sorriu com orgulho. — As alterações ficaram perfeitas — ela murmurou. Evan inspecionou o vestido também. — Ficou bom. E bonito — ela disse em sua voz nasal, seu cabelo preto sem corte caindo em suas feições nítidas. Poppy abanou a cabeça. — Você é tão difícil de agradar. Evan deu de ombros, mas Corinne sabia que esse era apenas o melhor elogio que Evan poderia dar. Ela era uma velha colega de quarto de Poppy do internato; Corinne nunca havia falado com ela, mas ela era uma das melhores na indústria de casamentos de Manhattan, fazendo do seu jeito mesmo que ela tivesse que intervir em algumas pedicures ao longo do caminho. Corinne apreciava essa ferocidade. Evan também manteve em segredo todos os detalhes sobre o casamento de Corinne dos repórteres raivosos e dos blogueiros, até mesmo dos gênios anônimos por trás do Abençoados e Amaldiçoados. Bettina afofou a saia de Corinne e encontrou seu olhar no espelho. — Então. Qual é a sensação de ser a noiva do casamento do século? — Sua voz forte e com sotaque estava rica com admiração. Um sorriso ensaiado apareceu no rosto de Corinne. — Por favor. O século apenas começou. — Sim, mas é Dixon Shackelford. — Bettina estremeceu de prazer. Corinne empurrou o cabelo loiro-sujo atrás das orelhas. Ela estava com Dixon desde o seu segundo ano em Yale. Bem, com exceção de um verão, logo após a formatura — mas Corinne sempre tinha gostado de uma história com um final feliz, e ela tinha nitidamente cortado esse interlúdio de sua história pessoal. Sua mãe era britânica, seu pai texano, e o próprio Dixon era o sonho de sua mãe se tornando realidade, um sangue azul em ambos os continentes, herdeiro da fortuna do Petróleo Shackelford, excessivamente afável. Bettina levantou o véu de Corinne de sua caixa azul-escura sobre um aparador próximo. — E agora você será uma princesa! Corinne acenou com a mão. — Não há muita chance disso. A mãe dele é a quarta prima da rainha duas vezes removida. Ou algo assim — disse Corinne, sentindo que tinha que adicionar ou algo assim mesmo que ela soubesse exatamente onde a mãe de Dixon estava na árvore da família real. Bettina pôs as mãos nos quadris.


— Isso faz de você mais princesa do que qualquer uma de nós. Agora, deixe-me ver esse anel de novo. Corinne estendeu a mão. Dixon tinha lhe dado um conjunto de grandes diamantes amarelo-canário em platina — uma homenagem à Corona Diamante, a primeira pedra que seu amado avô, Alfred, tinha adquirido quando ele lutou na Segunda Guerra Mundial. Antes disso, Alfred tinha possuído uma loja de joias incipiente em Boston, mas a aquisição da Corona tinha lançado o negócio em uma nova estratosfera. — Impressionante — Bettina jorrou, olhando para o anel. Em seguida, ela prendeu o véu sobre a cabeça de Corinne. Poppy subiu para ajudar, e juntas elas puxaram o véu sobre os olhos de Corinne e deixaram trilhar na frente de seu rosto. — É assim que Dixon vai vê-la no dia do seu casamento. O dia de seu casamento. O sorriso de Corinne vacilou um pouquinho. Com toda a pompa e a circunstância, Corinne às vezes esquecia que este não era outro evento do comitê de caridade que ela estava organizando, e sim que ela estava realmente se... casando. Antes que ela pudesse deixar a ficha cair, a porta do salão se abriu, trazendo consigo uma rajada de vento e algumas pitadas de chuva. Uma mulher em um casaco preto estava na porta, lutando com um guarda-chuva às avessas. Ela lutou com os raios de metal e o tecido frágil, uma onda fina de fumaça de cigarro aparecendo sobre sua cabeça. — Filho da puta — ela resmungou, finalmente jogando o guarda-chuva acabado na calçada do lado de fora da porta. Em seguida, a mulher, loira, alta e bonita virou-se para encará-las. Corinne sentiu seu estômago revirar. Era sua irmã, Aster. Aster oscilou para dentro em suas botas pretas de doze centímetros. Um cigarro enrolado à mão pendia de seus lábios, o cheiro de tabaco dominando o aroma floral do salão. Seu casaco molhado pingava poças no chão de mogno. Seu vestido fúcsia, também molhado, se agarrava no alto de suas coxas. Embora Aster ainda teria sido marcante mesmo depois de rolar em um contêiner de lixo da cidade, havia círculos sob seus olhos azuis grandes e luminosos e seu cabelo loiro gelo estava emaranhado. Ela estava parecendo desorientada. Corinne se perguntou se sua irmã mais nova tinha acabado de sair da cama de um estranho depois de um de seus típicos bacanais de noite inteira. — Eu estou aqui! — Aster anunciou em um uma voz rouca e pronunciada. Então ela parou no meio da sala, seu olhar parando sobre Corinne. — Uau, mamãe — ela disse. — Esse vestido não devia ser branco. Corinne tentou falar, mas ela não sabia o que dizer. Aster deu uma tragada e exalou fumaça azulada em direção ao teto abobadado. — Boa escolha, por sinal. Amei o look lingerie — você pode pular direto para a noite de núpcias. — Quando ela se inclinou para Corinne para inspecionar a renda, sua respiração cheirava a cigarros, bebidas e Tic Tacs de laranja.


Uma sensação de formigamento acertou o âmago de Corinne, percorrendo todo o caminho até a ponta dos dedos. — Você andou bebendo? — ela sussurrou, olhando para o relógio na parede: 10:30 da manhã. Aster levantou um ombro. — Claro que não! — Ela deu uma guinada para o lado, na tentativa de se sentar, mas errou a grande poltrona de couro completamente, com as pernas desequilibrando debaixo dela. — Opa! — ela exclamou. Bettina e Poppy correram para ajudá-la. — Eu estou bem! Corinne fechou os olhos e tentou manter a calma, mas tudo o que ela sentia era um constrangimento quente e pulsante. Assim que Aster estava de pé novamente, Corinne estendeu o braço para frente e arrancou o cigarro da boca de Aster. — Você não pode fumar aqui — ela retrucou. Bettina interviu. — Está tudo bem — ela disse em uma voz mansa. Mas Corinne deixou cair o cigarro ainda aceso em um copo de água. Ele emitiu um chiado ao apagar, e o único som que se seguiu foi esse. — Na verdade, Aster, eu acho que você deveria ir embora — ela anunciou, com a voz vacilante. Aster piscou, então zombou. — Você me pediu para vir. — Uma hora atrás — disse Corinne friamente. — E agora estamos quase no fim. Aster deu de ombros. — Então eu estou um pouco atrasada. Corinne desviou o olhar para a direita, centrando-se na ponta de cigarro no copo de água. Havia um tom de batom rosa no filtro. Sua garganta se encheu de palavras, mas não era como se ela pudesse dizê-las. Ela olhou para sua mãe pedindo apoio, mas Penelope ficou ali sentada, segurando os joelhos. Poppy apareceu ao lado de Aster e tocou em seu braço. — Talvez você devesse ir, querida — ela disse a Aster em uma voz suave, usando um tom maternal que Corinne nunca conseguiria usar. — Vá dormir. Você vai se sentir muito melhor. Os lábios de Aster ficaram presos em um biquinho, mas ela não resistiu quando Poppy a pegou pelo braço e guiou-a para longe do pedestal. As duas caminharam em direção à porta, e Poppy pegou seu próprio guarda-chuva Burberry da cesta de metal e colocou-o nas mãos de Aster. Em momentos, Aster desapareceu e a porta bateu atrás dela. Poppy andou calmamente e com confiança para o lado de Corinne, sorrindo brilhantemente.


— Vamos lá — disse sua prima, levantando o véu dos olhos de Corinne. Ela a guiou de volta para os vestiários. — Mostre-nos seus vestidos de recepção. Vai ficar tudo bem. — Eu sei — disse Corinne irritada. Então ela olhou para seu vestido. Ela se preocupou com um dos enfeites de pérola saindo no busto. Bettina correu para a frente com uma agulha e linha e rapidamente costurou-o novamente. Uma vez que Corinne estava de volta no vestiário, ela olhou-se no espelho, algo que ela sempre fazia depois de estar lado a lado com Aster. Mesmo em um vestido de noiva, Corinne não poderia competir com a beleza radiante de Aster. Corinne gastou dinheiro suficiente em sua aparência, mas sua longa testa, queixo quadrado e sobrancelhas grossas equacionava a algo mais elegante do que bonito. Seus ombros eram largos como os do seu pai, os seios pequenos como os de sua mãe, as pernas muito grossas e pálidas, mesmo depois de horas de pilates, incontáveis refeições não consumidas e milhares gastos em spray de bronzeamento. Você é uma boa descendência, sua mãe tinha dito a ela quando ela tinha 11 anos de idade. Ela quis dizer isso como um elogio, mas fez Corinne pensar em uma novilha premiada em uma feira de condado. Penelope certamente nunca tinha se referido a Aster como descendente, não importava a quem ela havia puxado. Sempre foi assim. Seus pais sempre inventavam desculpas e mais desculpas para Aster. Corinne usava faca e garfo aos 18 meses, Aster jogava a comida contra a parede na época da pré-escola. Corinne estudava durante o recreio, enquanto Aster comprava respostas dos testes no playground. Mas seus pais sempre olhavam para o outro lado. Mason tinha realmente favorecido Aster, comemorando quando Aster tirou um B, como se ela tivesse que fazer pouco mais do que mostrar-se para a classe para ganhá-lo. Corinne havia preferido a companhia de sua mãe de qualquer maneira, desfrutando de fins de semana longos e femininos de chá no Plaza e viagens de SPA para Elizabeth Arden quando Aster e Mason fizeram uma de suas viagens especiais para Meriweather ou Berkshires. Mas, com a atenção da sua mãe também vinha a sua crítica e instrução. Penelope tinha vindo de dinheiro antigo, feito há cem anos em ferrovias, e ela era muito específica sobre como sua filha devia se comportar. Estudar francês. Participar da Liga Júnior. Vestir-se em linhas

clássicas. Casar bem. Será que eles infundiam algum desses valores em Aster? Corinne duvidava. As duas tinham se dado bem quando crianças — uma das memórias favoritas de Corinne era segurando firmemente a mão de Aster enquanto elas olhavam paralisadas o desfile do Dia de Ação de Graças da Macy da cobertura de um amigo no Central Park West. Elas cresceram separadas à medida que envelheciam, no entanto... Foi quando Aster parou de ouvi-la. Será que seus pais dão a Aster um amplo espaço porque ela era bonita? Será que eles descobriram


que ela conseguiria tudo de qualquer forma, mesmo sendo grosseira e inacabada? Bem, isso não deu certo: quando Aster foi para a faculdade há um ano, ela desistiu e estabeleceu-se na vida de uma socialite. No primeiro ano de espiral descendente de Aster, quando Corinne visitou seus pais em sua casa no Upper East Side, o ar parecia carregado, como se ela tivesse acabado de interromper uma discussão. Eles ainda inventaram desculpas para Aster e financiaram a sua vida, mas estavam claramente estressados, especialmente seu pai, que de repente nem sequer olhava mais para Aster. A única coisa que Corinne podia fazer era seguir o conselho de sua mãe ao pé da letra. Enquanto Aster decolava por capricho para Marrocos ou passava horas no bar Monthlong na Irlanda, Corinne elevava os níveis da Saybrook, conquistando um mercado emergente após o outro. Enquanto Aster nunca teve outro trabalho de modelagem, mal aparecia para os eventos de relações públicas da Saybrook e desperdiçava sua mesada, Corinne havia devidamente investido, adquirido e ficado noiva. Agora, ela se inclinou contra a parede do vestiário e tomou fôlego após fôlego. Seu coração começou a desacelerar. Seus nervos já não pareciam cortantes sob sua pele. Ela sempre ficava excitada demais por causa de Aster, mas na verdade, qual era o ponto disso? Ela olhou para seu primeiro vestido da recepção no cabide, uma bainha longa em cetim marfim e contas. O segundo vestido da recepção de Corinne, um mais curto que ela usaria para dançar, estava pendurado por trás dele. Apenas a visão deles levantou seu espírito. — Você tem certeza sobre esses três vestidos para um casamento? — sua mãe perguntou, levantando uma sobrancelha cética — como uma herdeira do nome e da fortuna da Saybrook, Corinne deveria se envolver em luxo sem parecer brega. Mas a mãe de Dixon tinha feito à mesma coisa, e ela praticamente era uma princesa. Era verdade que Dixon era mais um texano arrogante do que um britânico educado, mas a Petróleo Shackelford era tanto realeza americana como os Diamantes da Saybrook. Eles se tornam um casal sem esforço, e logo em seguida um plano foi posto em prática. Bem, foi Corinne quem tinha instalado o plano, mas Dixon cooperou de bom grado. Uma vez que eles se formassem em Yale, Dixon iria trabalhar no lado da negociação da Petróleo Shackelford em Wall Street. Corinne iria trabalhar na Saybrook. Eles iriam se mudar para apartamentos separados no mesmo prédio de um condomínio, e, em seguida, uma vez que eles estivessem noivos aos vinte e cinco anos, eles iriam se mudar para um apartamento de três quartos. Eles se casariam aos vinte e seis anos, teriam seu primeiro filho aos vinte e nove anos, e seu segundo, aos trinta e um. E então eles passarão os próximos 30 anos construindo suas carreiras e aumentando a família. Além do desvio quando Dixon foi para a Inglaterra, e, bem, o outro incidente — que Corinne tentava nunca pensar a respeito — a vida tinha progredido


exatamente como o planejado. Só que, de alguma forma, sempre que Dixon propunha uma data para o casamento no ano passado, Corinne tinha encontrado motivos para esperar — a propriedade em Meriweather, onde ela insistia que eles tivessem o casamento, estava passando por reformas no verão passado. Aquela era sua temporada menos favorita, e na primavera o tempo estava muito enlameado e imprevisível. Mas não importava. Em um mês, eles finalmente iam se casar. Evan tinha feito todos os arranjos, com a bênção de Corinne. Cada detalhe estava no lugar. Corinne saiu do vestido. Enquanto ela cuidadosamente o pendurava no cabide de cetim, risos soaram do lado de fora. — Corinne, querida? — Evan chamou. — Vem para fora! Vamos fazer um brinde! Corinne puxou o primeiro vestido da recepção do cabide. Seu reflexo no espelho lhe chamou a atenção, mais uma vez, e seu olhar se desviou para a cicatriz abaixo do umbigo. Era algo que ela raramente olhava, a visão ainda era surpreendente depois de todos esses anos. Devagar, com cuidado, seus dedos traçaram a pele enrugada. Ela disse a Dixon — ela disse a todos, na verdade — que era de uma cirurgia de vesícula biliar de emergência quando ela trabalhava em Hong Kong há cinco anos. Foi incrível o quanto as pessoas acreditaram. Ninguém sequer sugeriu que a cicatriz podia ser baixa demais para esse procedimento. Nem mesmo a mãe de Corinne adivinhou que era de outra coisa. Só Poppy sabia a verdade. Pare de pensar sobre isso, uma voz em sua cabeça exigiu. Pare com isso agora. Corinne vestiu o vestido da recepção, calçou os saltos gatinho de cetim, e abriu a porta do vestiário. Sorria, ela disse a si mesma com firmeza enquanto ela caminhava de volta para sua família, lembrando-se de tudo o que ela tinha de ser grata. Ela iria girar em seus vestidos de recepção e deixar todo mundo exclamar oohs e ahhs. Agradeça a todos por terem vindo. Case-se. Não olhe para trás. Ela pegou uma taça de champanhe. — Ao felizes para sempre! — Corinne disse corando. Ela ia se casar com o Príncipe Encantado; todo o seu futuro estava à sua frente. Contanto que seu passado não a alcançasse.


2 Traduzido por Andresa Lane

M

ais tarde naquela noite, Aster Saybrook estava tranquila em um pufe dentro de uma grande tenda estilo beduíno, quando um garçom espiou pelo batente. Ele usava um saiote colorido, tinha postura ereta e inclinou a cabeça um pouco para o lado. — Posso pegar alguma coisa para você, senhorita? — ele perguntou, olhando para Aster como se ela fosse claramente a líder do grupo. — Mais uma garrafa de Veuve para cada um de nós. — Aster acenou para indicar o resto da mesa, suas pulseiras Hermès brilhando sob a luz fraca. — E por falar nisso — acrescentou ela, quando o garçom começou a recuar, — temos uma aposta. Você está usando alguma coisa por baixo deste saiote? O garçom pareceu surpreso, depois se endireitou e maliciosamente balançou a cabeça. O lado de Aster da mesa irrompeu em aplausos. — Parece que esta rodada é por sua conta — disse Aster, cutucando Clarissa Darrow, a morena alta que estava sentada à sua esquerda. Clarissa sorriu e deu de ombros, bemhumorada. Como a mesa irrompeu em conversa, Aster sentou-se e girou a tampa de sua taça de champanhe, olhando em volta para seus melhores amigos. Bem “melhores amigos” pode ser um ligeiro embelezamento; alguns deles Aster só tinha conhecido esta noite. Mas Aster colecionava pessoas como as outras meninas colecionavam sapatos, bolsas ou anéis, embora Aster colecionasse todas essas coisas também. Em frente a ela sentava Javier, um artista cujo show mais recente envolveu cabides, lâmpadas fluorescentes, e fotos de estrelas de Hollywood recortadas da Us Weekly. Havia Orlean, um escritor alto e musculoso da Rolling Stone que Aster tinha conhecido na Europa. Ele era amigo de compras de Aster atualmente, embora Aster suspeitasse que ele gostava de sua companhia principalmente porque as lojas davam-lhe um tratamento especial. Havia Faun, um amigo de Tânger que tinha arrastado Aster através de prédio após prédio em Manhattan em busca de imóveis, sempre reclamando que os closets não eram grandes o suficiente. Tinha Nigel, a mais recente aventura de Aster, o baterista e compositor chefe da banda britânica Lotus Blackbeard. Ela o pegou na semana passada na Gray Lady, e ele tinha passado todas as noites no apartamento dela


desde então. Seus dedos longos e finos tamborilavam na mesa, provavelmente compondo uma nova canção brilhante. E então havia Clarissa, a melhor amiga muito magra de Aster, e talvez amiga-rival, filha de um bilionário de investimentos de alto risco. Aster conheceu Clarissa em Spence na segunda série, mas Clarissa ainda falava com um sotaque britânico afetado. Ela estava sempre pronta para entrar em problemas — ou criar problemas. Aster suspeitava que algumas das fofocas sobre ela escritas na Page Six eram dicas de Clarissa. O garçom reapareceu com seu champanhe, e Aster estendeu sua taça para que ele enchesse. — Um brinde! — ela exclamou enquanto brindava com Clarissa, então finalizaram suas taças em um único gole. — Ao lugar mais quente da cidade. Eles estavam em um restaurante chamado Badawi, que tinha sido esculpido em um antigo armazém no West Twenties e transformado em um estilo árabe glamuroso. Ele foi decorado para parecer um bazar em Marrocos, com lanternas penduradas, tendas coloridas e sofás. Aster tinha começado a noite no Soho House, mas metade das mesas estava vazia, as músicas eram todas do ano passado, e vários convidados pareciam que tinham vindo direto de Nova Jersey. Após consultar o Instagram, o Foursquare e mensagens de texto de alguns de seus amigos da moda, ela e seu grupo haviam chegado aqui. As noites de Aster muitas vezes assumiam esse espírito espontâneo; ela não podia prever no início da noite como seria o final. Tinha sido assim desde o verão que passara na Europa, logo após o colegial. Ela teve algumas grandes histórias para o livro de memórias que ela escreveria — bem, que ela ditaria — algum dia: o momento que ela e seu grupo provisório entraram em um avião particular e voaram para Ibiza; o momento em que juntaram seus dinheiros para comprar um Porsche Carrera e dirigir até o chalé de alguém no norte do Estado às 2:00 da manhã; o momento que ela ficou em uma mansão em Harlem por uma semana e festejou como as pessoas da Era do Jazz. A vez que ela voou no avião de um amigo em torno da área de pouso de Connecticut em um desafio, mesmo que sua última lição tinha sido anos atrás. Ela esquiou nua em um lago gelado no Maine, e fez uma trilha de bicicleta em uma montanha perigosa em Sedona. Recentemente, alguém tinha até se atrevido a cortar sua assinatura: seu cabelo longo e loiro platinado. Aster tinha virado amiga de Patrick, um estilista, e entregou-lhe a tesoura. Ele cortou tudo, deixando a frente com um ângulo torto e exagerado sobre seu olho esquerdo — Aster nunca soube se foi de propósito ou um erro de embriaguez, mas a imprensa amou o novo visual, tanto quanto seu pai odiou. Para Aster, cada emoção precisava ser mais emocionante ainda, tudo que era grande tinha que ficar maior, e todas as músicas tinham que ficar mais altas e mais dançantes. Um psicanalista poderia sugerir que ela tinha problemas com os pais ou estava fazendo isso para chamar a atenção, ou talvez que ela estivesse


fugindo de algo. Mas Aster nunca foi à terapia. Ela não era uma menina triste que se automedicava por beber muito e ficar fora até tarde demais; ela era uma audaciosa que teria muitas histórias interessantes para seus netos. Quando as meninas foram crescendo, os pais de Aster e Corinne as obrigaram a memorizar poesia; aquelas que faziam sentido para Aster eram escritas por mulheres de espírito livre da década de 1920. Ela era uma grande fã de Edna St. Vincent Millay, que supostamente amava festas que tendia a dar em sua fazenda exuberante de mirtilo em Nova York totalmente nua. Minha vela

queima nas duas extremidades; / ela não vai durar a noite toda; / mas ah, meus inimigos, e oh, meus amigos, / dá uma iluminação linda! É isso aí, Edna St. Vincent Millay. O Sr. Graçom-sem-cuecas reapareceu com várias velas de fogos de artifício e uma garrafa de Grey Goose L’Orange. Aster deu gritos de excitação quando ela estendeu a mão para uma vela, agitando-a no ar enquanto algum artista R&B cantava sobre eles nos alto-falantes. Ela pegou seu telefone, com o desejo de convidar mais pessoas. A primeira pessoa que lhe veio à mente foi sua prima Poppy. Tocou uma vez, então a voz sonolenta de sua prima atendeu. — Pops — Aster gritou acima do barulho do clube. — O que você está fazendo agora? — Eu estou em casa. — Poppy bocejou. — O que você está fazendo? Aster estendeu a taça de champanhe para reenchê-la. — Eu não estou em casa. Você vem? Por favor? Quando elas foram crescendo, Aster orgulhava-se de não tentar muito ser como Poppy, como sua irmã Corinne sempre fez. Poppy era sua amiga — como uma irmã mais velha legal que não dava a mínima para suas escolhas. Bem, a maior parte do tempo. Ela tinha dado uma dura em Aster quando ela confessou que seduziu um professor de história europeia na NYU para ter uma nota melhor, em seguida, abandonou a faculdade por completo. Mas Poppy deu a dura porque ela se importava. — Ugh, eu estou derrotada. — Poppy suspirou através do telefone. — Estou em reuniões intermináveis para o resto da década, Briony tem feito isso todas as noites desta semana, e eu estou ficando louca planejando a festa de aniversário para Skylar. Eu sou uma estraga prazeres. Mas por que você não chama a sua irmã? Talvez ela gostasse de ir... Aster soltou uma gargalhada. — Você estava lá hoje, Poppy. Ela provavelmente não vai falar comigo nunca mais. Ela revirou os olhos, lembrando-se da prova do vestido de Corinne naquela manhã. Quem agenda uma prova às 9:30 em um sábado, de qualquer maneira? Ela tinha acordado com um sobressalto, lembrando das três mensagens que sua irmã havia deixado no dia anterior, e se contorceu para fora de debaixo


do braço de Nigel. Ela nem tinha tido tempo para tomar banho ou explicar para onde estava indo, ao invés disso apenas vestiu suas roupas e saiu correndo para fora de seu apartamento, colocando os sapatos. Só no táxi ela percebeu que ainda cheirava a tequila da noite anterior. Pelo menos a chuva podia ajudar com isso, Aster pensou ironicamente enquanto corria para baixo do bloco Lhuillier sob o guarda-chuva de merda que ela tinha comprado de uma bodega da esquina. Mas quando ela entrou no salão, ela viu a expressão no rosto de sua irmã. Corinne não estava feliz que Aster estava lá ou preocupada com sua aparência encharcada. Ela só torceu o nariz da forma que ela sempre faz, como se Aster tivesse arruinado tudo. Poppy soltou um suspiro. — Eu acho que ela só tinha uma ideia de como ela queria que as coisas acontecessem, querida. E você meio que impossibilitou isso. — Bem, ela tem que aprender que às vezes a vida te pede para improvisar — Aster revidou, cruzando os braços sobre o peito. — Você deve tentar ver as coisas à maneira dela — Poppy disse calmamente. Aster zombou. — E que tal ela ver as coisas do meu jeito? Ela alguma vez já fez isso? — Aster já sabia a resposta: Não. Corinne não gostava de coisas que ela não conseguia entender. E ela nunca tinha entendido Aster. Poppy bocejou. — Me desculpe, eu me sinto velha e acabada. Você quer pegar uma bebida no final desta semana? Aster segurava o telefone, tocada. Mesmo quando Poppy estava cheia de trabalhos e obrigações familiares, ela sempre tinha tempo para Aster. Mesmo quando os pais dela morreram naquele acidente de avião bizarro, há dois anos, Poppy tinha vindo para um café da manhã com Aster em seu aniversário, poucos dias depois. Ela sempre foi assim... sólida. Imperturbável. — É claro — disse Aster. — Me avise quando você estiver livre. Ela desligou e tomou mais um gole de champanhe, depois outro. Ela estava se sentindo quente e distintamente tonta; ela drenou quase toda a garrafa. Ela soluçou alto, observando seus amigos e se levantou para dançar. — Você vem? — perguntou a Nigel, estendendo a mão. Aster fechou os olhos por um momento, imaginando como seria cair em sua cama por dias infinitos — sozinha. Para dormir por oito horas, levantar-se em uma hora normal, sair para correr, ficar na fila para o café. Na verdade, fazer uma das atividades de noiva de Corinne amanhã — certamente havia uma marcada — em vez de chegar horrivelmente tarde, apenas para ser expulsa. Chutada para fora, ela pensou com raiva, por sua própria porra de irmã. O que Corinne não sabia era que Aster a tinha protegido todos estes anos. Ela preservava a visão de família perfeita que Corinne tinha. Oh, tinha havido muitas vezes que Aster quase deixou escapar o que ela sabia, mas algo dentro dela a tinha detido, sabendo que iria


quebrar a sua irmã ainda mais do que tinha quebrado Aster. E o que Aster ganhou em agradecimento? Rejeição. Ela agarrou a Veuve e bebeu direto da garrafa, na esperança de silenciar os pensamentos que voavam em torno de sua mente como passarinhos afiados. De repente, ela queria apagar — beber tanto, até esquecer de si mesma, esquecer de tudo, exceto da pista de dança e do som da música. Ela estendeu a mão para Nigel, e ele a puxou para seus pés. A multidão na pista de dança se separou para eles, deixando-lhes espaço no meio da sala. — Você esqueceu a sua bebida! — Clarissa gritou acima do som da música, pressionando mais uma taça em sua mão. Aster bebeu sem perceber o que era, em seguida, fechou os olhos e levantou os braços magros sobre sua cabeça, deixando todas as memórias sujas e comentários farpados serem levados pelo ralo. A única coisa que importava agora era que ela estava se divertindo. Minha vela queima nas duas extremidades. Ela não vai durar a noite toda. Aster pensou desafiadoramente enquanto ela balançava lentamente com a batida. Aster não acreditava na maldição, mas ela sabia que se outro Saybrook morresse jovem, seria ela. Seu imprudente e irresponsável estilo de vida era uma bombarelógio. No fundo, ela se preocupava se não teria muito tempo neste mundo. Mas talvez isso seja bom, pensou Aster, tropeçando para frente nos braços de Nigel. Ela preferia ser o fogo de artifício queimando rápido do que uma brasa queimando lentamente até sumir. Todo mundo sabia que era muito mais divertido desaparecer com um estrondo do que com um gemido.


3 Traduzido por Ivana

N

a tarde de domingo, Rowan Saybrook estava sentada no canto de uma sala de estar em Dakota no Central Park West e assistia doze princesas se conhecendo e cumprimentando umas às outras. Cada uma delas estava enfeitada com um vestido de tafetá, sapatos de cristal e uma tiara. Elas comiam canapés de uma bandeja de prata com graça e equilíbrio. Mas então Jasmine pisou no pé de Ariel. Aurora levantou uma sobrancelha para Sofia a Primeira, declarando que ela não era uma princesa de verdade porque o desenho da Disney só tinha começado há alguns anos atrás. Rowan, pressentindo o desastre, saiu na ponta dos pés para fora da sala e seguiu em direção à cozinha de sua prima Poppy, pegando uma garrafa de cabernet. Era o terceiro aniversário de Skylar, a filha de Poppy, e era provavelmente melhor deixar as princesinhas resolverem as coisas por si mesmas. A cozinha era grande e arejada, com bancadas de mármore novas e armários de cerejeira brasileira. Poppy, vestida com uma camisa de seda e calças skinny que faziam suas pernas parecerem ter um milhão de quilômetros de comprimento, estava no centro da cozinha, arrumando a bandeja de vegetais, que ela havia comprado no mercado da Union Square, que cultivava seus vegetais ali mesmo, com sua bebê de 1 ano e 8 meses, Briony, equilibrada em seu quadril. Ela notou Rowan tomando o vinho. — As crianças te deram ânimo para beber, não é? — Eu nunca entendi a coisa toda de ser princesa — disse Rowan, fechando a garrafa. — Claro que não — a mãe de Rowan, Leona, disse com bom humor, sorrindo para a filha do outro lado da cozinha. — A infância inteira dela consistia em subir nas árvores mais altas do nosso quintal quando ela tinha a idade de Skylar. E às vezes cair delas também. Tia Penelope parou de fazer o prato de comida para o seu marido, Mason, CEO da Saybrook, e riu. — Você conseguia subir mais alto do que a maioria dos meninos, Rowan. Ainda me lembro quando você venceu o seu irmão no curso de cordas; ele ficou de mau humor por dias.


Corinne, que estava encostada no balcão, se aproximou de Rowan e olhou para o vinho. — Você pode me servir uma taça? Preciso disso depois da semana que tive. — Eu ouvi sobre a Turquia — disse Rowan. — Parabéns. — Então, ela baixou a voz. — Eu também ouvi o que aconteceu com Aster. Os olhos de Corinne se estreitaram. — Sim, bem. Eu acho que nós não deveríamos nos surpreender. — Ela olhou ao redor da sala, provavelmente em busca de sua irmã, que estava ali há poucos minutos atrás, mas agora havia saído. — Ela provavelmente já está desmaiada na cama de Poppy agora — ela disse com raiva. — Não se preocupe, eu vou me assegurar para que ela seja pontual no casamento — disse Evan, dando um tempo em sua arrumação. Ela odiava bagunça, especialmente bagunça de criança. — Acredite em mim quando eu digo que eu lidei com coisas piores. — Pior do que os Saybrooks? — murmurou Natasha de seu canto perto da despensa. — Natasha — a mãe de Natasha, tia Candace, repreendeu do outro canto, onde ela estava ajudando Poppy com os canapés. Rowan olhou para Natasha com cautela. Não muito tempo atrás, ela e Natasha tinha sido muito próximas. Rowan era quase dez anos mais velha do que Natasha, mas ela até tinha de boa vontade feito pequenos papéis em peças de Natasha e aplaudiu sinceramente quando Natasha fazia shows de karaokê na varanda de trás em Meriweather. Mas depois que Natasha praticamente se deserdou da família — nunca explicando o porquê disso — ela simplesmente travava Rowan e os outros como irritantes pedestres ocupando toda a calçada da Quinta Avenida. Rowan sabia que suas primas tinham receio de Natasha também. Exceto Poppy, que tinha começado a fazer as pazes com Natasha, há alguns anos, depois que os pais de Poppy morreram. Mas talvez seja porque a tia Candace e o tio Patrick tinham se tornado a família substituta de Poppy após a queda do avião, cuidando dela, de James e das suas meninas com amor, ajudando, e fazendo muito por eles por meses. Felizmente todos ignoraram o comentário de Natasha, até mesmo as mães perfeitas que Poppy conhecia da Episcopal, onde Skylar fazia a pré-escola. Para Rowan, aquelas mães superficiais de Manhattan com seus correspondentes carrinhos Bugaboo eram como uma espécie diferente. Elas comparavam as marcas de suas fraldas de pano orgânico, se gabavam de sua vida perfeita, e avaliavam até as babás de suas amigas. Mas, mais do que adoravam julgar umas às outras, elas pareciam julgar as de fora, as não-mães, mais do que qualquer outra coisa. — O ciúme mascarado pela superioridade — Poppy sempre disse. — Elas


invejam o seu tempo livre, então elas dizem que você é egoísta por não ter filhos para se sentir melhor ao bancar a babá o dia todo. E esse era o charme de Poppy. Ela tinha o seu carrinho Bugaboo e fazia a sua própria comida orgânica para seu bebê, mas ela nunca se comportava como se a maternidade fosse um clube especial e exclusivo. — O que está acontecendo, senhoras? — o marido de Poppy, James, apareceu na porta, vestindo uma camiseta vintage e uma calça jeans bem ajustada, que quando ele levantava os braços, revelava apenas um centímetro de sua cueca boxer da Brooks Brothers. Ele atravessou a cozinha e puxou Poppy para um abraço. Poppy se contorceu para longe e virou-se para a geladeira. — Você pegou o homos da Zabar? — ela perguntou bruscamente. — Eu não consigo achar em lugar nenhum. — Bem aqui. — James estendeu a mão e entregou um pacote. — Perfeito. — Poppy pegou e colocou sobre a mesa, ao lado dos vegetais. — Obrigada, James — Rowan disse, quando Poppy não agradeceu. James lançou para as mães um olhar exagerado e um sorriso irresistível. — Só estou fazendo o meu trabalho. — Então ele agarrou sua esposa mais uma vez e beijou sua bochecha. Poppy se contorceu de novo, e James desapareceu pela porta. Um som saiu da TV de tela plana. James, Mason, e alguns outros pais foram lá assistir o torneio de jogos de Djokovic e Federer. Uma mãe chamada Starla, com seu filho Björned em seu colo, suspirou. — Poppy, ele é um fofo. — Como você mantém outras mulheres longe? — outra mulher chamada Amelia brincou. — Oh, ele usa uma tornozeleira para que eu possa manter o controle nele — Poppy disse distraidamente. — Poppy tem tudo — disse Amelia, em tom um pouco maldoso. — E todas nós deveríamos odiá-la. — Ela batia suas unhas bem cuidadas contra o vidro da janela. Uma competição de biatlo estava acontecendo no Central Park, e centenas de corredores acabavam de alcançar a linha de chegada. — Você sabe o que Bethany disse quando chegamos? — ela murmurou, mudando de assunto. — “Mamãe, posso estar na bissexual no próximo ano?” Eu a olhei e disse: “Você não quer dizer biatlo?” Mas ela disse: “Não, eu quero estar na bissexual!” Poppy sorriu. — Skylar disse babaca para o porteiro. Darcy, uma mãe loira, mudou de posição. Ela tinha um equilíbrio perfeito alcançado com Pilates, que se mantinha mesmo em seus saltos de doze centímetros. — A palavra favorita da minha filha é idiota. — Então ela olhou para Rowan. — E da sua? — Oh, hum...


Antes que Rowan pudesse responder, Poppy agarrou seu braço. — Rowan é a melhor tia do mundo — disse ela em voz alta. — Obrigada — disse Natasha com ironia. — E junto com o título de melhor tia — Poppy corrigiu-se com um sorriso, apertando Rowan mais apertado. — Ela é a consultora sênior dos Saybrook. E foi a primeira em sua classe de Direito na Columbia. De repente Rowan se sentiu como se fosse muito alta e estivesse muito visível, diante de tantos olhares sob tantos ângulos. Poppy tinha boas intenções, mas ao se gabar das qualidades de Rowan também destacou o que ela não era: uma mãe. Sondando para mudar o tema, Rowan se voltou para Natasha. — Então... como está o estúdio? — ela perguntou. Depois que Natasha decidiu que não queria mais ser uma Saybrook, ela mudou-se para o Brooklyn e reinventou a si mesma, montando um estúdio de ioga para a burguesia do bairro. — Está ótimo, obrigada — disse Natasha, baixando seus longos cílios. Ela tinha a pele morena, mais escura do que as outras meninas Saybrook, cabelo liso, escuro e olhos amendoados. — Como vão as coisas com... Charlie, não é? Tia Penelope inclinou-se na bengala que tinha usado desde seu acidente de esqui. A mãe de Rowan pousou o copo de água. — Você está saindo com alguém, Ro? — Oh, nós somos apenas amigos — disse Rowan rapidamente. Tia Candace e tia Penélope trocaram um olhar, como se quisessem dizer: Oh, não. O que há de errado com este? A pele de Rowan arrepiou, e sentindo que viriam mais perguntas à caminho, ela se desculpou, correndo para o corredor. Ela se apressou pelo corredor repleto de Warhols, Picassos, e um retrato dos pais de Poppy feito por Annie Leibovitz, a mãe dela vestia um vestido longo, esvoaçante, com um cinto, o pai parecia estar bronzeado vestindo um jeans e uma camisa pólo, na frente de um celeiro vermelho caindo aos pedaços. Eles sempre tinham sido a tia e tio favorito de Rowan. No ensino médio ela passou vários verões em sua fazenda, tosquiando as ovelhas com Poppy e explorando o sótão cavernoso em seu celeiro remodelado. Tio Lawrence não tinha entrado para o negócio da família, mas ele tinha vários álbuns de fotos antigas da família antes de Vovô Alfred encontrar o Diamante Corona. Rowan e Poppy se maravilhavam vendo as instantâneas de Edith sem sua pele agora toda remodelada. Quando chegou ao banheiro, Rowan correu para dentro e bateu a porta com força. Uma pequena placa de madeira pendurada na maçaneta balançou. “Vá Embora,” ela dizia. Exatamente os mesmos pensamentos de Rowan. Rowan olhou para seu reflexo no espelho. Ela tinha um rosto oval, lábios em forma de arco, uma longa testa, o nariz inclinado, e os olhos azuis, a assinatura Saybrook. Seu corpo alto era ágil e modelado pelas corridas longas e horas na


quadra de tênis. Ela sabia que ela era bonita; muita gente dizia que sim. E ela era tão bem sucedida como disse Poppy — ela se tornou sênior no conselho dos Saybrook apenas cinco anos depois de terminar a faculdade de Direito, e ela era parte ativa em vários conselhos de revisão e instituições de caridade. Ela amava sua família, e ela adorava seus dois cães, Jackson e Bert. Mas ela tinha quase trinta e três anos, e ainda estava por conta própria, sozinha. Era, naturalmente, o mesmo dilema que ela ponderou por anos. Graças aos seus dois irmãos mais velhos, que agora viviam viajando por todo o país e pelo exterior, Rowan não teve problemas com os homens. Ao crescer, ela estava sempre pronta para um jogo de hóquei, e ela batia em Michael e Palmer com a mesma força com que eles batiam nela. E quando ela ficou mais velha, ela e alguns de seus amigos bonitos fizeram muito mais do que apenas assistir futebol. As meninas da sua classe falavam sobre apenas ter relações sexuais quando elas estivessem apaixonadas, mas Rowan pensava que tudo isso que era quase tão ingênuo quanto acreditar que colocar um vestido de cetim te transformaria na Cinderela. Claro que, no momento essas mesmas meninas já namoravam sério, enquanto Rowan ganhava apenas amigos com benefícios. Ela tentou mudar seu jeito, copiando o que viu nas meninas que namoravam firme que ela conhecia, tornando-se mais suave, carente, uma versão mais frágil de si mesma que simplesmente não funcionava. E assim ela se estabeleceu no papel de garota que topa tudo por excelência. Uma pessoa que ia a um clube de strip despreocupadamente. Uma pessoa que andava em pé de igualdade com os caras. Uma garota que não dava a mínima para as sessões de pedicure com as amigas, que não se importava se a pornografia estava passando na tv, que quase parecia que ela não precisava de um namorado. Isso não significava que Rowan não queria o que as outras garotas tinham. Mas agora, ela se sentia velha demais para mudar quem ela era, e ela nem sabia se deveria. Seus pais não tornavam sua vida difícil só porque ela ainda era solteira. A mãe dela, Leona, tinha sido uma liberal em sua vida pré-Saybrook, explorando casamentos abertos e exigindo direitos iguais a ambos os sexos — tudo isso para o constrangimento de Edith. Seu pai, Robert, tratava Rowan da mesma maneira que tratava seus filhos, incentivando-a para ser ambiciosa e bem-sucedida em tudo. E seus irmãos sempre lhe disseram para não se contentar. Era Poppy que ansiosamente empurrava rapazes após rapazes no caminho de Rowan. Embora todos fossem agradáveis e legais e Rowan tivesse permanecido amiga de um bom número deles, nenhum deles exatamente... deu certo. Rowan tinha sentido o amor verdadeiro uma vez antes, e ela não iria se contentar até que ela sentisse de novo. Houve uma batida na porta do banheiro, e Rowan olhou para cima. — Rowan? — Alguém sussurrou. — Você está aí?


Rowan abriu uma fresta da porta e viu James com seu cabelo castanho encaracolado, olhos claros e sorriso ligeiramente torto. — Não é justo que você comece a se esconder aqui dentro — disse ele severamente. A pele de James cheirava a sabonete de hortelã. Um brilho de uma das varinhas de princesa ficou grudado em sua bochecha. Rowan impediu-se de limpar. — Eu só precisava de um minuto — ela disse a ele. Ele olhou para o corredor. — As princesas te deixaram para baixo? As mais crescidinhas, eu quero dizer? Rowan olhou para as toalhas com monograma penduradas na barra de prata através da parede. Em uma havia as iniciais de Poppy, na outra as de James. — Pode-se dizer que sim. — Você quer que eu dê um jeito de tirar você sair daqui, Saybrook? — perguntou James, seu olhar mudando para um olhar conspiratório. — Nós podemos escapar pela varanda. Usar as gárgulas como uma escada. Ela imaginou os dois escalando a Dakota, indo para a Central Park West, e se misturando com os biatletas. Eles rindo juntos, como nos velhos tempos. James entrou no banheiro. — Há espaço para mais um? — ele perguntou, fechando a porta. — Estou oficialmente farto das princesas também. Rowan fungou. — Por favor. Todos os homens estão assistindo tênis. James inclinou-se contra a pia e fez uma careta. — Alguma vez você já ficou perto de Mason por qualquer período de tempo? Ele é a maior princesa de todas. — Então ele sentou num canto remoto na borda da banheira e apontou para uma pequena TV no canto. — E de qualquer maneira, temos o jogo aqui também. O torneio apareceu na tela. Rowan permaneceu plantada no meio do banheiro, seus braços firmemente em torno de seu torso. Embora ela visse James regularmente, ela não conseguia se lembrar da última vez que tinha estado a sós com ele. Eles tornaram-se amigos na Universidade de Columbia, quando eles viviam no prédio de calouros. O pai de Rowan se ofereceu para lhe comprar um apartamento, mas ela gostou da ideia de ser como todos. Ela passava a maior parte do tempo no quarto de James, jogando videogames e conversando sobre as pessoas que viviam no prédio deles, especialmente as meninas. Eles permaneceram para os programas de pós-graduação na Universidade da Columbia, James para o Negócios Empresariais, ele sempre quis ser um empreendedor e Rowan para Direito. Eles tiveram um encontro em um jantar numa noite de segunda-feira em um restaurante mexicano na Broadway com guacamole picante. Nos fins de semana, eles jogaram sinuca no SoHa, o bar sujo em Amsterdã onde os bartenders faziam os mais potentes chás gelados Long Island. Como de costume, Rowan tinha caído em seu papel como a garota amiga do cara, a garota parceira de James. Muitas vezes Rowan tinha consolado James no


final da noite, quando ela pegava James saindo com alguém novo do banheiro unissex. — Você é um cachorro — Rowan sempre brincava com ele no café da manhã aos domingos de manhã. James apenas dava de ombros e mostrava os dentes. — Au-au. Agora James olhava para a mini-TV sobre a banheira. Estava no terceiro set, o jogo seguia amarrado. — Ok, Saybrook — começou ele, apontando para a tela. — Djokovic ou Federer? Rowan engoliu em seco. Era um jogo antigo que costumavam jogar — um deles escolhia duas pessoas, e o outro teria que escolher com qual deles teria relações sexuais. Às vezes, havia um confronto geek, como Sylvia Plath contra Emily Dickinson, ou Iago de Shakespeare contra Oberon de Sonho de Uma Noite de Verão. Outras vezes, eles brincavam com pessoas de seu dia a dia — Veronica, a secretária peituda, ou Colette, a estudante de intercâmbio francesa. Mais frequentemente do que o normal, James acabava realmente indo para casa com alguma estudante quente de intercâmbio. Às vezes, Rowan pensava que James tinha esquecido a sua velha amizade inteiramente, agora que ele estava casado com Poppy. Embora talvez ele não quisesse se lembrar de parte dela, especialmente a parte sobre todas as meninas. James tinha mudado completamente por Poppy. Poppy era muito bonita e perfeita para qualquer um. Qualquer cara entraria na linha por ela. Rowan olhou para os jogadores de cada lado da quadra. — Federer com certeza — decidiu. — Djokovic é muito arrogante. — Alto, moreno e europeu. Eu gosto. — James inclinou a cabeça para baixo, sua expressão era séria. — Então me diga: quem você tem na rédeas hoje em dia? Rowan fingiu secar um ponto de água invisível da pia. — Eu me nego a responder. Eu já fui perguntada sobre isso vezes demais hoje. James sentou-se na borda da banheira. — Você tem que dar às pessoas uma chance, Saybrook. Na verdade, sair com alguém mais de uma vez. — Eu saio — Rowan insistiu. — Eu sei que sim. — James colocou as mãos em seu colo. — Mas de quem você realmente gostou? Rowan olhou intensamente para a tela da TV, tentando lembrar a última vez que tinha saído com alguém de forma consistente. Alguém que ela realmente tivesse algum sentimento. — Está vendo? Você nem lembra. — James brincou cutucando seu tornozelo com o pé. — Todos eles não podem ser como eu, você sabe — disse ele, abrindo os braços e dando-lhe um sorriso de menino. Rowan congelou. Ele estava brincando, não estava? Seu pulso batia em suas palmas.


Cinco anos atrás, quando eles estavam no SoHa pouco antes dos exames finais, James tinha tomado uma respiração profunda e olhou para Rowan sobre sua cerveja. — Então, Saybrook. Eu estava pensando em conferir este lugar Meriweather, de que você sempre fala. — Oh? — Rowan inclinou a cabeça. — Você gostaria de visitar? Há espaço. — Na verdade... — James brincou com o canudo em sua bebida. — Eu aluguei um lugar no Vinhedo de Martha. Durante todo o verão. — O quê? — Rowan perguntou. O olhar de James parecia entrar dentro dela. — Sim, eu estava pensando que seria bom sairmos juntos fora da faculdade ou dessa jornada de bares. Seus olhos e sorriso eram tão perigosos, a atraindo instantaneamente. Mas Rowan sabia como ele era. Ela tinha visto ele trabalhar sua magia sobre outras mulheres. E, no entanto, quando ele olhou para ela, ela estava tão fraca como todas as outras. Naquela noite, quando ela foi para casa, ela fantasiou sobre os caminhos que a vida ia tomar naquele verão. As refeições que eles iriam cozinhar, as coisas que eles falariam sobre os membros da família que eles encontrassem. E, em seguida... o quê? Depois de horas e horas de conversa e risadas, naquele belo cenário, com as estrelas cintilantes ao seu redor, o que iria acontecer? Ela sabia que não era sábio pensar dessa forma. Ela estava sendo ingênua, como uma das muitas meninas lamentáveis que caíam sob o feitiço de James. Ela estava com medo de seus sentimentos por James, principalmente por causa de quão forte eles eram. Mas exista aquele grande se. Se James se sentia da mesma maneira, também... Ela o levou em uma festa na noite em que ele chegou. Todos os primos, incluindo Natasha, esperavam no hall de entrada para cumprimentá-lo. Poppy caminhou em primeiro lugar e estendeu a mão. — Rowan me contou muito sobre você — ela disse. — Eu sou sua prima, Poppy Saybrook. — Outra Saybrook — James disse, sorrindo aquele sorriso de lobo, os olhos deslizando de cima a baixo. Era a mesma coisa que ele tinha feito para inúmeras meninas na presença de Rowan, mas algo dentro de Rowan cambaleou. Ele não deveria fazer isso ali, com sua prima. Naquela noite, James deu um brinde no pátio, agradecendo a todos por dar-lhe uma recepção calorosa, especialmente sua “melhor amiga, Saybrook”. Toda vez que ela se virava para olhar, ele estava conversando com Poppy, e logo ela percebeu que ele não estava apenas sendo educado. Rowan se escondeu atrás do bar que havia à beira do pátio para se recompor, sentindo uma picada quente infrequente atrás de seus olhos. Ela se sentia tão surpresa. E estúpida. Para piorar a situação, ela sentiu alguém olhando para ela do outro lado do quintal. Era Natasha. Seu olhar correu de Rowan para Poppy e James, como se ela tivesse tudo planejado.


Sabendo que ela estava perdendo o jogo, Rowan correu para um quarto, sentou-se na cama e olhou para o papel de parede cor de diamantes, buscando refúgio, dela mesma e mais ainda de James e Poppy. Lançando a lembrança para longe de sua mente, Rowan voltou-se para James e disse. — Se você continuar dizendo coisas assim, eu vou ter que me esconder de você também. — Ela abriu a porta. — Vamos lá. É melhor se juntar à corte real. Todos tinham se mudado para a sala de jantar. Flâmulas e tiaras brilhantes cercavam o bolo-glacê de camadas em cima da mesa. A mãe de Corinne estava colocando três velas pequenas no centro, e todas as jovens mães estavam ao redor, com seus “oohs” e “aahs”. Aster tinha finalmente aparecido, parecendo cansada, mas ainda mantendo um sorriso. Rowan procurou Poppy com o olhar e encontrou-a de pé no canto com Mason. O rosto de Mason estava vermelho e a boca de Poppy enrugada. Rowan nunca tinha visto eles discutirem, desde que os pais de Poppy morreram, Mason a tinha colocado sob sua asa, assim como Candace e Patrick tinham, tratando-a como uma terceira filha. Eles estavam falando tão acaloradamente que Poppy parecia alheia à festa e ao bolo. Mais importante, ela não pareceu notar que Rowan tinha acabado de sair do banheiro com o seu marido. Mas alguém tinha notado. Natasha estava no final do corredor, a cabeça inclinada, o olhar diretamente no rosto de Rowan. Ela levantou uma sobrancelha, para demonstrar conhecimento de causa, como ela havia feito naquela noite em que Poppy e James se conheceram. Rowan olhou para o lado, observando James beijar sua radiante filha no rosto. Todos eles não podem ser como eu. Mal sabia James o quão verdadeiro aquilo era. Ela conhecia James por quase 15 anos, e ela o amava mais a cada minuto.


4 Traduzido por Ivana

P

oucos dias depois, Aster sentou-se para o temido, mas obrigatório jantar semanal de quarta-feira na casa de seus pais no Upper East Side. A enorme mesa na sala de jantar em estilo barroco estava montada para doze pessoas, com castiçais de prata no centro. As cadeiras de espaldar alto de mogno eram tão grandes e pesadas que poderiam ter servido como tronos para os reis. O gabinete de mogno, uma herança do século XVIII, pegava uma parede inteira e abrigava inestimáveis pratos Sèvres, artefatos trazidos das viagens pelo mundo de seus pais, e um jogo de chá de prata que tinha pertencido a uma rainha. Haviam muitos retratos de parentes mortos, paisagens que mostravam uma caça de raposas sobre os mouros, e uma enorme pintura de Edith e Alfred com seus filhos pequenos, de pé sobre a sua escada. Na ponta estavam Mason e Lawrence, o pai de Poppy, os dois com o cabelo alisado; em seguida, o pai de Rowan, Robert, e a mãe de Natasha, Candace, na parte inferior. Candace, lutava para conter Grace, um bebê rechonchudo e mal humorado. Anos atrás Aster amava aquela sala, e inventava histórias sobre as pessoas nas pinturas e os anteriores proprietários dos artefatos. Ela contava seus contos a seu pai no café da manhã. Ele sempre ouviu atentamente, e riu de todas as histórias. — Talvez você seja uma escritora um dia, Aster — ele dizia a ela. — Muito obrigada, Esme — Penelope Saybrook murmurou enquanto seu chef particular colocava um frango assado banhado em vinho tinto ao lado de um prato de aspargos grelhados e couve de Bruxelas. Como de costume, a mãe de Aster estava reorganizando algumas das guarnições, e acrescentou uma pitada de pimenta no frango. Você não pode fingir que você cozinhou só por que você colocou a pimenta, Aster pensou. — Sim, obrigada, Esme — Corinne ecoou. Dixon, que estava sentado ao seu lado, acenou com a cabeça em agradecimento, e Poppy, que estava ao lado de Mason, sorriu docemente. Desde que os pais de Poppy morreram, ela tinha tido um convite permanente para jantar. Às vezes Aster se perguntava se a recente proximidade de Poppy com Mason resultava de culpa por ter sobrevivido ao acidente aéreo; ele também deveria estar no avião que matou os pais de Poppy. Normalmente Poppy trazia James e as crianças, mas hoje ela veio sozinha. Ela


trouxe com ela uma torta de morango caseira, utilizando os frutos que ela pegou na semana anterior durante uma visita à propriedade rural de sua família em Massachusetts. Só Poppy, que provavelmente trabalhava 23 horas por dia, também poderia encontrar tempo para fazer uma torta. — Você arrasa, Esme! — Aster gritou com entusiasmo, ajustando a alça de sua blusa em forma de bustiê. O pai olhou para ela com desaprovação. Tanto faz — todos usavam bustiês hoje em dia, até a sua avó. Bem, exceto Corinne, que meio que parecia uma avó em um vestido de seda azul sem mangas Wedgwood e brincos de pérolas Mikimoto. Aster olhou para sua irmã do outro lado da mesa. Corinne não tinha sequer olhado em sua direção, no entanto, e Aster certamente não iria fazer o primeiro movimento. Seu olhar, em seguida, se dirigiu para um outro retrato na parede, este tirado cerca de dez anos atrás. Era de si mesma, Corinne, Poppy, e todos os outros primos de primeiro grau, incluindo os irmãos de Rowan e os jovens filhos da tia Grace, Winston e Sullivan, que viviam na Califórnia com a agora divorciada tia Grace. Natasha também estava lá, na frente e no centro. Bastava olhar para Natasha para Aster ficar irritada. A menina agiu como a sua melhor amiga durante anos, monopolizando os holofotes, pedindo-lhes para ir para cada peça da escola que ela estava, inclusive uma vez arrastando Aster para acompanhá-la a uma audição aberta na Broadway quando ambas tinham 14 anos de idade. E então, de repente, ela apenas... não precisava mais deles. Aster ainda não podia acreditar que Natasha estava no casamento de Corinne; Poppy de alguma forma a convenceu. — Isso é sangue? — perguntou a avó de Aster, Edith, puxando seu cachecol de pele de marta mais apertado em torno de seus ombros — ela nunca o tirava, apesar de estar atipicamente quente para maio. Seu cabelo branco estava penteado para trás de seu rosto, mostrando sua boa estrutura óssea, as maçãs do rosto salientes e o nariz empinado minúsculo que Aster tinha felizmente herdado. Jessica, a assistente e enfermeira pessoal que acompanhava Edith em todos os lugares, inclinou-se para examinar o prato. Mason, que estava mais magro, agora que ele estava malhando com um personal trainer, olhou também. — Não, mãe — disse ele, cansado. — É apenas o molho — Poppy acrescentou amavelmente, dando uma mordida. — Está vendo? Humm. Edith considerou por um momento, provavelmente só porque Poppy era sua neta favorita e ela odiava desapontá-la. Finalmente, ela empurrou o prato. — Bem, isso está muito mal cozido para o meu gosto. — Ela olhou acusadoramente para Penelope, assim como ela sempre fazia quando ela encontrava defeito em alguma coisa na casa de sua enteada. Penelope estalou para o chef, que correu para tirar o prato de Edith. — Eu vou querer um ovo cozido em um copo de ovo, por favor — Edith zurrou alto.


Após o frango ir embora, Corinne pigarreou. — Então, eu verifiquei o registro, e um monte de pessoas têm doado para a City Harvest. — Isso é maravilhoso, querida — disse Edith em aprovação. Aster pegou um rolo fresco e mordeu-o. Estava quente e escamoso do forno, e tinha gosto de manteiga. — Eu não posso acreditar que vocês não registraram para os presentes — disse ela entre garfadas. Corinne moveu o queixo para a direita, o seu olhar sobre sua mãe. — Fizemos quase dez mil dólares — ela continuou, como se Aster não tivesse falado. — E eu tenho certeza que vamos conseguir muito mais. — Você poderia ter conseguido algumas coisas incríveis da Bendel, Barneys, ABC Carpet... — continuou Aster. Edith limpou a boca. — É muito respeitável pedir por doações de caridade, Aster. Aster franziu o nariz, imaginando se ela tinha sido trocada ao nascer. Quando ela era pequena, ela costumava ter fantasias que seus pais verdadeiros eram estrelas do rock. Como Keith Richards. Aster tinha visto uma sessão incrível de fotos de sua família em St. Barts na Vanity Fair do mês passado. Eles sabiam como festejar. Ela olhou interrogativamente para Dixon do outro lado da mesa. O noivo de Corinne estava vestindo um terno chato de negócios cinza, mas Aster sempre gostou de Dixon — ele tinha um sotaque bonito do Texas, ele e seus amigos geralmente curtiam boas noitadas, e ele podia transformar qualquer coisa em um jogo de beber. Certamente ele gostaria de presentes. Mas ele apenas deu de ombros. — Eu não me importo com o que fazemos, contanto que nós ainda vamos para a lua de mel. — Onde vocês vão mesmo? — perguntou Aster. Dixon se iluminou. — Safari. Mas também Cidade do Cabo. Eu já tenho ingressos para um jogo de futebol. — Isso soa incrível — disse Poppy calorosamente. O garfo de Corinne raspava ruidosamente no prato. — Eu vou me encontrar com meus contatos na Cidade do Cabo e visitar algumas minas — acrescentou ela, ainda a seus pais. Ela deve ter pego Aster revirando os olhos, porque ela suspirou alto. — O quê? Aster piscou, surpresa com o descontrole no comportamento perfeito de Corinne. — Você vai trabalhar em sua lua de mel? — Exatamente como eu penso — disse Dixon, levantando uma taça. Corinne lhe lançou um olhar. — Não concorde com ela! — Meninas! — Mason vociferou. Ele olhou para Poppy, impotente. — Peço desculpas em nome da minha família. — Oh, pare — disse Poppy, golpeando-o alegremente. Aster sentiu a facada adolescente de ciúme. Poppy sempre foi próxima da família de Aster, mas desde a


morte de seus pais, ela se tornou “a favorita de Mason” — posto que pertenceu a Aster, antigamente. Em seguida, o celular de Aster, que estava posto na mesa ao lado dela, apitou para indicar uma nova mensagem de Clarissa: Estamos indo para o PH-D. Aster cerrou os dentes. Todos eles estavam indo jantar no Catch sem ela, provavelmente para beber o seu martini favorito de lavanda-com-yuzu. Chego lá em uma hora, Aster digitou furiosamente de volta. Hoje é noite temática, Clarissa respondeu. Donas de casa inúteis. Estou

usando meu vestido curto de couro. Aster prendeu a respiração de emoção. Ela vivia para noites temáticas. Ela estava tão animada que ela nem sequer lembrou Clarissa do fato de que o vestido em questão era na verdade dela; Clarissa nunca tinha devolvido. Legal, ela escreveu de volta. Muito louco se eu colocar o meu biquíni? — Aster — disse sua mãe bruscamente. — Não mande SMS no jantar. — Um segundo. — O celular soou novamente. Não, vá em frente! Clarissa escreveu de volta.

Estou pensando em colocar meu biquíni Missoni, calça jeans branca, e cinto. E talvez extensões no cabelo? Aster digitou rapidamente. — Aster. — Mason bateu a mão na mesa. Quando Aster olhou para cima, os olhos do seu pai estavam frios como aço. — Largue. O. Telefone. Aster colocou o telefone de volta na bolsa. Superem isso, ela queria dizer. Todos vocês. Quando Aster era pequena, todo mundo dizia que ela tinha sorte de ser uma herdeira, e que a vida dela seria extraordinária. Ela tinha uma sala de jogos e uma equipe rotativa de babás, e aviões particulares. Mas ser uma herdeira também significava seguir um determinado molde ao qual Aster nunca conseguia aderir. Quando ela tinha oito anos e sua prima de segundo grau Madeleine se casou, Aster tinha sido a dama de honra no casamento. Ela nunca iria esquecer como ela se queixou para a mãe que seus sapatos de verniz branco estavam doendo. — Não posso usar outra coisa? — ela implorou. — Não, Aster — sua mãe tinha sussurrado, seus lábios franzidos em frustração. — Ninguém nunca disse que seria fácil. — Ninguém nunca disse que o que seria fácil? — Aster tinha perguntado, mas Penelope já estava saindo do quarto, revirando os olhos. — Ser uma herdeira, bobinha — Corinne respondeu do outro canto, fazendo piruetas nos sapatos brancos estreitos que não pareciam incomodá-la de jeito nenhum. Tinha sido Mason quem veio em socorro de Aster naquele casamento, puxando-a para o seu colo no jantar e dando a ela uma fatia extra de bolo quando Penelope não estava olhando. — O que sua mãe quis dizer, Aster — ele tentou explicar, — é que ser uma herdeira nem sempre é fácil. Existem partes boas, e existem partes ruins. — Eu tenho que ser uma herdeira? — Aster tinha perguntado.


— Oh, querida — Mason disse, e inclinou-se para beijá-la na testa. — Você é uma Saybrook. Existem partes boas, e existem partes ruins. Aster só não tinha percebido que as partes ruins muitas vezes superavam as boas — e que o seu uma-vez-amado pai viria a ser o pior de tudo. Ela encontrou seus olhos na mesa e sentiu-se encher de raiva. Ele não tinha o direito de estar zangado com ela, não depois do que ele tinha feito a esta família. Não depois de todos estes anos que Aster manteve seu segredo. — Aster, eu preciso falar com você — disse Mason, olhando para ela como se tivesse sido testemunha de seus pensamentos. — Vamos para o meu escritório — ele acrescentou, e se levantou. Aster olhou de soslaio para a mãe, e em seguida para Corinne, Dixon, e Edith, mas todos os quatro desviaram o olhar. O momento parecia estranho, como se todo mundo estivesse rindo de uma piada à qual Aster não conseguia entender. Só Poppy estava olhando para ela, encorajando, acenando na direção do escritório. Aster se levantou de sua cadeira, de repente instável em suas botas de tiras de couro. Esme apareceu da cozinha para retirar os restos de comida. A música clássica que a família de Aster sempre colocava durante o jantar aos poucos desaparecia enquanto ela seguia o pai da sala de jantar para o seu escritório na parte de trás da casa. A sala cheirava a fumaça de charuto e cedro, do jeito que Aster lembrava. Ela não tinha posto os pés naquele lugar há anos, desde que ela e seu pai se afastaram. Ainda havia o mesmo tapete de pele de urso no chão, as mesmas ferramentas de corte e lupas velhas sobre a mesa, e os vários rifles vintage da Segunda Guerra Mundial montados nas paredes. Em uma prateleira havia uma linha de fotografias antigas, incluindo uma de Vovô Alfred em seu uniforme durante a Segunda Guerra Mundial. De pé ao lado dele estava Harold Browne, um amigo que ele tinha feito durante seu tempo lá. Ao lado havia uma imagem que Aster não tinha notado antes, de Mason e outros executivos da Saybrook em um passeio de golfe. Steven Barnett estava ao lado, seu sorriso bonito e amplo. Aster desviou o olhar. Parecia estranho que seu pai tivesse uma foto de Steven em seu escritório depois de tudo que havia acontecido. Mas, enfim, seu pai sempre dava um jeito de separar as coisas. Alinhados em outra parede haviam cabeças de animais empalhadas de suas caçadas favoritas. Um enorme alce, um carneiro com longos chifres, até um elefante Africano, com orelhas ventiladas e um tronco estendido. Haviam bolinhas de vidro no lugar onde antes estariam os seus olhos. Quando criança Aster tinha medo daquele elefante; mas Mason tinha trazido ela uma vez em seu escritório e pediu-lhe para olhar para ele. — É como o elefante do Museu de História Natural — disse ele, segurando-a para encará-lo. — Qual era o nome dele?


— O nome dele é Dumbo — Aster respondeu. — Mas eu ainda não gosto dele. — Para Aster, Dumbo era completamente diferente do elefante do museu — ou do desenho animado. O elefante estava morto porque o pai dela tinha matado ele. Aster olhou para Mason, em seguida, pulou para o sofá de couro estofado. — Então, o que foi? — ela perguntou friamente. Mason acendeu um charuto. — Estou cancelando o seu subsídio. — Como é? — Aster soltou uma risada. — Eu acho que você ainda não viu isso. — Ele colocou o charuto em um cinzeiro e inclinou a tela de computador em sua direção. Havia uma tela já aberta. Aster quase desatou a rir, ela nunca teria imaginado que seu pai leria o site de fofocas. E então ela viu as fotos. A primeira foto era de Poppy conduzindo ela para fora da prova do vestido de Corinne, a maquiagem de Aster estava borrada e seu cabelo um emaranhado. A segunda era de sua dança em Badawi mais tarde naquela noite. A alça do seu vestido tinha caído fora de seu ombro, mostrando um pouco demais enquanto ela olhava para a câmera vagamente. Ela parecia tão perdida como ela se sentia realmente. — Aster Saybrook Está Fora de Controle! — dizia a manchete. Aster sentiu o sangue sair de seu rosto. Esta não era a primeira vez que ela tinha sido destaque em um site estúpido, mas esta era a primeira vez que seu pai a tinha chamado para conversar por causa disso. Seu pai suspirou. — Você arruinou a prova de vestido da sua irmã. Do seu vestido de casamento. E este negócio no clube — vamos, Aster. Você é melhor que isso. Aster piscou com força. — Melhor do que o quê? Seu pai apenas olhou para ela. Ela procurou em seu rosto por um sinal de seu pai ali, do homem que costumava levá-la em seus ombros e dizer a ela que tudo ficaria bem. Tudo o que ela viu refletido foi decepção. — Deanna pode lidar com isso. Ela pode tirar essas fotos de circulação — Aster tentou apaziguar. Deanna era a assessora da família; ela poderia fazer quase qualquer coisa desaparecer. Mason sacudiu a cabeça. — Eu não quero que Deanna resolva isso, não é esse o ponto. Você precisa aprender a ter alguma responsabilidade. — Ele deu outra baforada. — É hora de você arrumar um emprego. Eu falei com HR, e eles estão procurando uma vaga de assistente para você em um dos departamentos. — Um trabalho? — Aster balbuciou. Mason olhou para ela. — Você começa na próxima quarta-feira. — Tipo, em uma semana a partir de agora? — Aster gritou. — Você não tinha o direito de fazer isso!


— Eu tenho todo o direito. Eu sou o único que paga suas contas. — Mason levantou-se, a discussão estava claramente encerrada. — Você tem que crescer algum dia, Aster. E a hora é agora. Lágrimas formaram na frente dos olhos de Aster. — Qual departamento que eu vou trabalhar? — ela perguntou. Não o de Corinne; por favor, não me

deixe trabalhar para Corinne. — Eu não sei — HR está vendo isso — respondeu Mason. — E, francamente, eu não me importo. Aster foi em direção a porta, sentindo lágrimas nos olhos. Ela virou-se para que seu pai pudesse vê-la chorando, mas ele apenas olhou para ela friamente. Esse truque não funcionava mais nele. Ela se imaginou indo para o trabalho na Saybrook, sendo alvo de todo tipo de fofoca por causa de seu sobrenome. Por um momento, Aster pensou em desmascarar seu pai revelando o mentiroso que ele realmente era, voltando para a sala de jantar e anunciando o que ela descobriu sobre ele há cinco anos. Mas, então, a raiva retirou-se dela como o ar deixando um balão. Dizer a verdade sobre Mason não resolveria nada. — Tudo bem — ela retrucou. — Vou aceitar esse trabalho estúpido. Mas estou avisando, eu vou estragar tudo. Ela saiu do escritório, correu para o fundo do corredor, e cruzou a porta da frente, sem dizer adeus a ninguém. Por que ela deveria? Eles provavelmente estavam rindo dela na sala de jantar. Ou dando risinhos irônicos como se fossem boas pessoas. Deus, ela odiava todos eles. Um emprego. Jesus. Ela chamou um táxi e deu ao motorista o endereço dela no centro, em seguida, encostou-se à janela e fechou os olhos. Pela primeira vez, ela sentiu como se a maldição da família fosse real. Porque a partir da próxima semana, Aster estaria vivendo isso.


5 Traduzido por Ivana

N

a noite seguinte, depois do trabalho, Corinne passava por um ponto de táxi na esquina da West Tenth and Bleecker no West Village. A Primavera já dava seus primeiros sinais por toda a cidade. As árvores perfumavam o ar com as novas flores de cerejeira, todos tinham vasos de flores em seus alpendres, uma velha canção de Gwen Stefani, que sempre lembrava de seus passeios ao redor de Meriweather no Jaguar conversível que eles guardavam lá, saía por uma janela aberta alguns metros dali. Enquanto ela andava delicadamente sobre o meio-fio, cuidando para não raspar suas meias calças de nylon e sapatos de camurça, ela colocou o telefone entre a orelha e o ombro. — Eu não acho que Aster tenha noção do que faz — disse Poppy na outra extremidade da linha. — Quero dizer, Corinne, ela está realmente fora de controle. Corinne esperou na calçada até a luz do semáforo mudar, distraidamente observando a multidão do outro lado da rua. Um grupo de rapazes de jeans conversava com uma mulher em um enorme vestido néon, fingindo não perceber um ator famoso que passava nas proximidades. As pessoas ali pareciam tão diferentes de todos no Upper East Side, e ela sempre se sentia como uma turista ali. Seu olhar se focou em uma velha senhora em um suéter rosa brilhante na esquina. Ela estava empurrando um carrinho pequeno e portátil cheio de compras do D’Agostino, um sorriso cheio de dentes brancos em seu rosto. Ela suspirou ao telefone. — Eu acho que Aster vai ficar bem — ela disse para Poppy, mas ela não tinha certeza se acreditava nisso realmente. Ela sentiu então uma inesperada onda de simpatia por Aster: ela até queria que seus pais parassem de bancar a vida ridícula de Aster, mas agora que eles tinham feito algo, o ultimato de seu pai parecia tão dramático. Corinne ficou ferida também por Aster preferir Poppy em vez dela. Mas, no entanto, sua irmã ainda não tinha se desculpado por estragar a prova do vestido — ou pela postagem no Abençoados e Amaldiçoados sobre o drama por trás dos holofotes de seu casamento perfeito. Corinne teria que dar uma breve entrevista ao editor on-line da revista New York, esta manhã, dizendo o quão útil suas primas e irmã tinham sido no processo de planejamento. — Minha irmã realmente sabe como fazer uma festa — ela riu. Problema resolvido, sem a ajuda de Aster. Como sempre.


E era assim que Corinne navegava ao longo da vida; as águas sempre estavam agitadas, mas ela era constante, nunca virando fora do curso. Ela perguntava-se, por vezes, como ela e Aster tinham acabado sendo tão diferentes, o quanto suas reações sempre eram diferentes e o quanto talvez estivesse definido em seu DNA. Desde que ainda era uma criança, Corinne havia sido orientada a ser sempre a melhor amiga, a tirar sempre A, a encontrar o tipo certo de pessoas. A única vez que ela se desviou do caminho ela estava no colégio interno, quando um grupo de meninas mais velhas a tinha alistado para ajudar a roubar uma estátua de cavalo de bronze da mesa do diretor. Era algo que os alunos tentavam todos os anos e, apesar de ser pego poder significar uma ação disciplinar, essas meninas eram as mais determinadas a conseguir. Na verdade, quando seus pais haviam se mudado, sua mãe tinha apontado para algumas dessas mesmas meninas, dizendo que Corinne deveria apresentar-se. Mas quando ela tinha sido pega, sua mãe também lhe disse como ela estava desapontada com Corinne. — Eu esperava mais de você — ela disse. Corinne ainda carregava a memória em sua mente, mesmo agora. Era uma coisa pequena, o que doía muito mais. Às vezes era difícil fazer as escolhas certas, especialmente quando todo mundo estava assistindo. Agora Corinne já podia ver o toldo que ela estava procurando, um restaurante chamado Coxswain. — Ei, Poppy, eu tenho que ir — disse ela, pegando o ritmo. — Eu falo com você mais tarde, ok? — Claro — respondeu Poppy. — Mas escute, talvez você devesse falar com Aster. Ela provavelmente precisa de você agora. — Falo com você em breve. — Corinne deixou cair o telefone de volta em sua bolsa e passou pelas plantas em vasos e estatuetas de ferro forjado na porta do Coxswain. O interior do restaurante era escuro e fresco, a vibe era como estar na sala de estar de alguém. As cadeiras não combinavam, nem as mesas — algumas eram de tampos redondos de ladrilhos, outras eram de madeira, e o bar era feito de mármore lascado. Centenas de remos formavam uma treliça no teto. Cada mesa e cadeira estava ocupada, mas então ela viu Dixon esperando no bar com uma cerveja. Seu paletó estava aberto, sua gravata estava solta, e seu cabelo castanho havia sido empurrado para trás de seu rosto. Sentado ao lado dele havia um garoto com uma camisa oxford tipo Wall Street, a quem ela reconheceu como Avery Dunbar, um dos irmãos da fraternidade de Dixon. Ela suspirou interiormente. Parecia que eles sempre tinham companhia quando eles saíam. Quando Dixon viu Corinne, ele lhe acenou entusiasticamente, seus olhos cinza-verde enrugando nos cantos. Ele saltou de seu banco e beijou sua bochecha, em seguida, fez um gesto para Avery. — Ele estava no bairro. Ama este lugar. Está tudo bem, não é? — Claro — disse Corinne; ela estava muito cansada para se importar. Ela tinha chamado Dixon para jantar sem seus amigos juntos, mas ele pareceu


confuso. — Quanto mais, melhor, certo? — ele disse uma vez. E então — Espera, isso incomoda você? Ela olhou para Avery. — Então você sugeriu este lugar? — Na verdade, Evan Pierce me disse para experimentá-lo — disse Dixon, sinalizando para o barman. Um chardonnay para Corinne apareceu em segundos. — A Gourmet diz que é um restaurante para se dar uma olhada. Ou talvez fosse Bon Appétit. Uma coisa dessas. Avery, que tinha um queixo quadrado e um anel grosso de casamento de platina no dedo, riu. — Olhe para você. Citando a revista Gourmet. Uma garçonete em uma camisa de algodão e jeans apertados de lavagem escura apareceu e disse ao trio que a sua mesa estava pronta. Dixon cambaleou um pouco — Corinne se perguntou há quanto tempo eles estavam bebendo e ambos os homens seguiram atrás da garota para uma mesa no canto. Ela tomou um gole de vinho, enquanto seguia atrás, ouvindo-os comentar sobre um grande lançamento de ações que tinha acontecido durante a negociação naquele dia, e, em seguida, sobre se eles teriam uma casa nos Hamptons, em agosto. Quando eles se acomodaram nas cadeiras em uma pequena mesa de canto redonda, Dixon sorriu. — Poderia ser divertido para fugir nos fins de semana? Após a lua de mel, eu quero dizer? Corinne deu de ombros. — Eu ainda prefiro a Vineyard. Então ela olhou para Dixon, que tinha acabado de pedir outra cerveja. — Espere. Por que você estava conversando com Evan Pierce sobre restaurantes? — Corinne tinha tratado todos os detalhes do casamento, até agora, além do fim de semana de golfe de Dixon. Dixon voltou o seu olhar para a direita. — Oh. Uh, eu tinha uma pergunta sobre as acomodações para os convidados. Para os meus pais, eu quero dizer. Corinne olhou para ele. — Tive uma longa conversa com eles sobre isso na semana passada. — Ela tinha convidado Herman e Gwendolyn Shackelford para ficar na propriedade em Meriweather, onde o jantar de ensaio e o casamento aconteceria, mas eles decidiram ficar em Edgartown dessa vez. Dixon puxou o colarinho. Parecia que ele estava prestes a dizer algo, mas foi interrompido pelo retorno da garçonete, desta vez trazendo três pratos de comida. — Suflê de lagosta — disse ela enquanto colocava os pratos. Corinne franziu o cenho. — Nós não pedimos isso. — A garçonete sorriu misteriosamente. Corinne olhou para Dixon e Avery. — Vocês pediram sem mim? Avery apenas deu de ombros. A garganta de Dixon balançava. — Experimente. Corinne deu de ombros e deu uma mordida. A consistência era cremosa, e a lagosta era fresca e perfeitamente cozinhada. Ela lembrou imediatamente de algo que ela tinha comido em Meriweather. — Incrível — ela murmurou, dando outra mordida.


Dixon olhou para Avery, e seu amigo lhe deu um aceno cúmplice. — Estou feliz de ouvir você dizer isso, porque o chef daqui vai fazer nosso casamento. Corinne pousou o garfo. — Mas já temos um serviço de buffet. O chef do L’Auberge. — Todo mundo queria o novo chef francês na cena culinária de Manhattan. Seus três restaurantes ao redor da cidade já haviam sido premiados com estrelas no guia da Michelin. Evan lhe confirmou mais de um ano atrás. Dixon pigarreou. — Não se desespere, ok? Mas houve um problema. É por isso que Evan me ligou hoje. Ele teve que voltar atrás. — Voltar atrás? — O coração de Corinne acelerou. — Mas nosso casamento é em menos de um mês! — Seus dedos procuraram a bainha da toalha de mesa. Lentamente, ela começou a pegar em um fio solto. — Eu sei — disse Dixon com calma. — Evan também sabe. Como eu disse, ela nos enviou aqui. Todo mundo que veio a este lugar adora. E veja só: o chef costumava trabalhar no vinhedo, ele conhece os pescadores locais, ele conhece todos os bons produtos para produzir, e ele está livre no fim de semana do casamento. Ele e eu já conversamos, e tudo está definido, desde que você esteja de acordo com isso também. — Ele parece ser um cara decente — Avery soltou, e em seguida teve o bom senso de se calar e desculpar-se para ir ao banheiro. Quando Avery tinha ido embora, Dixon olhou nos olhos de Corinne. — Problema resolvido, certo? Certo? — Eu não sei — disse Corinne, sentindo-se dispersa. — Bem, eu garanto. Isso vai ser ótimo. — Dixon entregou à Corinne o garfo. — Agora, pegue outro pedaço de suflê. Corinne fez o que lhe foi dito, mastigando bastante antes de engolir. — Você e Evan sabiam disso o dia todo, e você não me contou? — perguntou ela, magoada. Ela olhou para a cadeira vazia de Avery. Mesmo que ele soubesse, ela imaginou Dixon preparando-o de antemão. Cara, ela vai entrar em pânico. Ajude-

me a acalmá-la. — Ei. — Dixon estendeu a mão e pegou a mão de Corinne. Ela olhou para baixo. Inconscientemente, ela havia arrancado toda uma linha de costura da toalha de mesa; uma longa linha vermelha pendia para o chão. — Evan não queria preocupá-la — disse Dixon suavemente. — E nem eu. Você tem trabalhado tão duro. E realmente, o chef aqui vai ser um sucesso — na verdade, lá está ele agora. — Seu olhar passou por Corinne, em direção à parte de trás do restaurante. — Ele queria se apresentar. Corinne se virou para o bar e viu quando uma figura com uniforme branco de chef caminhava em direção a eles. No início seu rosto estava na sombra, mas, em seguida, ele caminhou para a luz, oferecendo-lhes um sorriso suave. Corinne observou sua ampla estrutura, com o rosto esculpido, o nariz fino e olhos


profundos. Ele tinha cabelos escuros ondulados, alguns pêlos no rosto, e o tipo de sorriso que parecia um pouco brincalhão, como se soubesse algo que você fez. A mandíbula de Corinne caiu. Ela realmente sentiu-se encolher na cadeira. Era um homem que ela não via há anos, mas nunca poderia ter esquecido. O rosto dele estava menos bronzeado, o cabelo mais longo, o corpo um pouco mais tonificado, se isso era mesmo possível. Por um segundo, ela foi transportada de volta para o verão em Meriweather, quando Dixon tinha terminado com ela e ela se sentiu tão perdida, percebendo pela primeira vez que não importava o quanto ela planejasse as coisas, não importava o quão certo era eles ficarem juntos, ela não poderia forçá-lo a querer voltar com ela. Ela tinha saído com Poppy para a cidade, uma noite, para beber muito vinho rosé em um bar com vista para o mar. Quando terminaram a garrafa, outra apareceu, depois outra, tudo grátis; Poppy tinha esse efeito nas pessoas. As horas passaram em um borrão de conversas bobas com os rapazes que paravam para cortejar a sua prima, uma mistura de risos e piadas que nunca seria tão engraçado novamente. Mas quando ela olhou para cima, havia alguém observando-a. Will Coolidge, ele finalmente se apresentou. Mas só quando ele já estava levando-a para a doca, com a visão do Atlântico como cenário enrolando sobre a areia, que ela percebeu que ele estava esperando por ela a noite inteira. Ela tirou os sapatos; a areia estava fria e granulada sob seus pés. Encorajada com o vinho, ela se inclinou em direção à ele e eles se beijaram. Parecia estranho para Corinne beijar alguém depois de somente estar com Dixon por tanto tempo. E o beijo foi tão diferente do de Dixon. Ela queria mais, mas ela se conteve, respirando com dificuldade e olhando para ele. — Eu não faço coisas como esta — ela anunciou. — Nem eu — disse Will. Corinne riu. — Você parece ser exatamente o tipo que faz. Will balançou a cabeça. — Você não sabe quem eu sou. — Você não sabe quem eu sou — ela desafiou. Will olhou para ela. — Sim, eu sei. Todo mundo sabe. — E então ele a beijou novamente. — Olá, senhorita Saybrook. Corinne piscou, de repente de volta na penumbra do restaurante. Sem pensar, ela girou seu anel de casamento em torno do dedo, de modo que o diamante amarelo ficou no interior de sua mão. — O-oi. Depois de tantos anos juntos, Corinne às vezes pensava que Dixon podia ler sua mente. Mas quando ela olhou por cima da mesa, ele apenas sorria cortesmente, alheio ao seu desconforto. — Vocês se conhecem? Will olhou para Corinne, em seguida, desviou o olhar abruptamente, virando seu corpo mais para Dixon. — Sim. Nós nos conhecemos.


— Bem, isso é ainda melhor. — Dixon estendeu a mão para Will. — Muito obrigado por nos ajudar, cara. Você é tudo para nós agora, certo, Corinne? Corinne engasgou. A cicatriz em seu torso começou a coçar. Mas ela não podia ficar sentada, sem dizer nada, então, finalmente, ela olhou para Dixon e sorriu. — Eu não posso acreditar que você manteve isso em segredo. Will olhou fixamente para Corinne. — É incrível o que as pessoas podem manter em segredo, se quiserem — disse ele. E então ele balançou a cabeça e voltou para a cozinha.


6 Traduzido por Matheus Martins

M

ais tarde naquela noite, Rowan se atrapalhou com a tranca para o seu apartamento de cobertura em Horatio, na Avenida Greenwich, que ela possuía desde a graduação da faculdade de direito. Ela caiu no sofá de couro cor de conhaque na sala de estar, a cabeça zumbindo dos dois Maker nas rochas que ela teve com um cara da sua equipe de corrida. Greg estava em grande forma e pode executar uma maratona abaixo de 3:30, mas a sua velocidade de conversação era mais lenta do que a sua avó. Ela pediu a segunda bebida apenas para passar por isso, as palavras de James dando laços através de sua mente o tempo todo: Você tem que dar às pessoas uma chance. Mas ela simplesmente não podia deixar de comparar Greg com James a curto prazo. Poppy sempre disse que mais encontros aumentariam as chances de encontrar alguém legal, mas Rowan temia que mais encontros falhos apenas provariam que ela nunca iria encontrar alguém à altura. Uma grande forma correu para a sala de estar, estalando as garras pelo piso de madeira. — Jacks — Rowan gemeu quando seu cão de montanha Bernese de cem quilos, Jackson, pulou em seu colo. Bert, o Chihuahua, apareceu ao lado e latiu aos seus pés. Rowan colocou Jackson gentilmente de volta para baixo e acariciou a cabeça de Bert. Ambos os animais decolaram para o final do corredor e começaram a latir no quarto. Rowan fechou os olhos, sabendo que eles estavam morrendo para dar uma caminhada. Ela poderia ter pago alguém para fazer isso durante a noite, mas ela gostava de ir sozinha. O Hudson River Park era tão tranquilo durante a noite, e ela podia deixá-los fora de suas coleiras. Mas era quase dez, e ela estava muito cansada. Uma luz brilhou do escritório de Rowan, que estava fora da sala de estar. O monitor do computador ainda estava ligado, provavelmente desde que sua empregada, Bea, estivera ali no início do dia. Mesmo de seu sofá, Rowan poderia dizer que o Abençoados e Amaldiçoados estava na tela. Bea jurou que não havia lido, mas Rowan não era burra. Devia ter sido como passar por um acidente de trânsito — você não pode não parar e olhar.


Rowan levantou, caminhou até seu escritório, e olhou para a tela. Fotos e fofocas sobre os membros de sua família enchiam a página inteira. — Aster Saybrook está fora de controle — dizia a manchete ousada no topo. — A vida desta menina é definitivamente amaldiçoada — disse um comentário abaixo do artigo. — Eu transaria com ela — afirmava um outro; e mais duzentos e seis comentários se seguiam. Abaixo disso, havia um artigo sobre o casamento de Corinne: — Afundar

ou Nadar: Novo Chef do Coxswain Navega Nas Águas do Casamento Meriweather. — Depois havia uma foto do irmão gêmeo de Rowan, Michael, a caminho de sua prática dermatológica em Seattle, e um flagra de seu outro irmão, Palmer, com sua família em sua propriedade na Itália, onde Palmer liderava o marketing da equipe de Fórmula 1 da Ferrari. O site especulava que os irmãos de Rowan não funcionaram para a Saybrook porque Vovô Alfred não achava que eles eram espertos o suficiente, mas isso não era verdade, eles simplesmente não estavam interessados em joias. Havia também um segmento que citava novas evidências do acidente de avião que matou os pais de Poppy dois verões antes. Baboseira. Se os peritos tivessem finalmente encontrado a caixa preta nas profundezas do Atlântico, Rowan e sua família seriam os primeiros a saber, e não esse blog idiota. E, finalmente, na parte inferior, havia uma parte sobre a própria Rowan correndo no parque. — Ro

na Ativa. Ela clicou no link, ampliando a foto. Seu rosto parecia confiante, e suas pernas aparentavam ser fortes e flexíveis. Sempre que ela via fotos de paparazzi de si mesma, ela se sentia como se estivesse olhando para outra pessoa totalmente diferente — alguém mais glamorosa, mais completa do que ela realmente era. Ela fechou o site, desejando que pudesse desligar o fascínio do público com a sua família com a mesma facilidade. A campainha tocou, e os cães voltaram correndo para o foyer. Rowan apressadamente silenciou-os enquanto caminhava até a porta. Um rosto familiar apareceu no olho mágico. — James? — Ei, Saybrook. — O marido de Poppy ofereceu um sorriso de menino, quando ela abriu a porta. Seu cabelo estava despenteado, de forma bagunçadamoderna, e as suas unhas pareciam roídas, algo que ele costumava fazer antes de sua antiga banda, Cavalo e Cenoura, se apresentarem. Rowan olhou por ele para o corredor vazio. — Onde está Poppy? — Na verdade, sou apenas eu. — James trocou seu peso. — Eu vim do trabalho — eu fiquei até agora terminando um lançamento. — Ele era um diretor de criação de uma empresa de tecnologia. — Você se importa se eu entrar por um segundo?


Rowan ficou de lado para que ele pudesse entrar. Jackson saltou e colocou as patas sobre seus ombros. — Oh, Jackson — Rowan repreendeu. — Está tudo bem. — James afagou a cabeça macia do cão. Rowan entrou na sala de estar, e James a seguiu. Ele sentou-se no sofá e olhou em volta. O relógio de pêndulo no canto balançava ruidosamente. — Você redecorou? — Dois anos atrás — Rowan admitiu. — É muito você. Rowan tentou ver seu apartamento através dos olhos dele. Ela tinha várias peças de couro e mesas laterais de metal gasto. Havia uma grande hélice de um velho avião da era Charles Lindbergh na parede, e uma placa de metal antiga de uma marca de cigarros extinta pendurada perto da janela. Comparado com os toques femininos de Poppy e seu lar, o apartamento de Rowan parecia o interior de um bar de charutos. Ela limpou a garganta. — Posso pegar algo para você beber? Eu tenho água, limonada, cerveja... — E quanto a uísque? Ela sustentou seu olhar por um momento, então se agachou para o armário antigo onde ela guardava garrafas, como se fosse tudo completamente normal. Havia uma garrafa meio bebida de Glenfiddich; ela pegou ela e dois copos de cristal. O líquido âmbar queimava suas narinas enquanto ela servia a ambos. Ela entregou um para James. — Então, o que está acontecendo? — perguntou Rowan casualmente. O coração dela, ela percebeu, estava batendo forte, mas ela não tinha certeza exatamente o que ela estava esperando. James inclinou a cabeça. — Um velho amigo não pode vir ver sua amiga? — Ele mudou de posição no sofá. — Eu me diverti bastante na festa de Skylar. Estou com saudades. Algo dentro de Rowan desconjuntou. Ela levantou o copo e o fez tinir no dele. — Bem. Saúde. James brindou de volta. Então, ele levantou a cabeça e limpou a boca. Rowan entregou-lhe a garrafa, e ele derramou mais no copo. Alguns momentos de silêncio se passaram. — Lembra do tempo que fugimos da conta no Plaza? — disse James de repente. Rowan piscou para ele. — Isso foi anos atrás. James fechou os olhos.


— Eu esqueci o meu cartão de crédito. E você ficou tipo, Ei, vamos fugir! Eu nunca ri tanto na minha vida. — Foi ideia sua, não minha — Rowan repreendeu. Um barman, vestido em um smoking e caudas, tinha saído correndo atrás deles. James e Rowan olharam um para o outro, e cada um jurou que o outro tinha pagado. Após o barman sair, com o dinheiro na mão, eles dobraram de tanto rir, imaginando as manchetes no jornal do dia seguinte. — Herdeira Come e Foge Sem Pagar? — disse James agora, pensando claramente a mesma coisa. Rowan bufou. — Ro-Ro Não Tem Nenhum Dinheiro. — Aquele velho consegui se mover rapidamente, no entanto. — James deu mais um gole de uísque. — Apesar de não ser tão rápido como as doses de Jell-O do Alex. Rowan gemeu. — Jesus. Você está tentando me matar? — Alex tinha estado no departamento de filosofia na Universidade de Columbia e pediu para Rowan ir a uma festa que ele estava dando. Apesar do fato de que ele poderia debater os prós e contras de Foucault e Derrida, ele bebeu um lote de doses de Jell-O em menos de um minuto e, em seguida, tentou apalpar Rowan. — Eu não sei por que você saiu com aquele cara — James repreendeu. Porque eu não tive coragem de sair com você, Rowan queria dizer, tomando uma bebida em seu lugar. Ela pensou em voltar mais uma vez à noite que ela deu a festa para ele em Meriweather, quando ela quase tinha dito alguma coisa. Poppy a tinha encontrado no banheiro. — Você está perdendo toda a diversão! — ela disse, explodindo quando Rowan se sentou na beirada da banheira, tentando não chorar. Poppy tinha se inclinado sobre a vaidade para retocar a maquiagem, mas depois ela pareceu sentir a angústia de Rowan. — Você está bem? — ela havia perguntado, piscando forte. — Estou monopolizando James? — Claro que não — Rowan balbuciou. Poppy ficou de joelhos sobre o tapete do banheiro e olhou diretamente nos olhos de Rowan. — Ro. Ele é apenas um amigo? Rowan engoliu em seco. Natasha tinha dito alguma coisa? Era óbvio? Era humilhante, de repente, especialmente porque James claramente não estava interessado nela. Rowan não era o tipo de garota que ele gostava. E ela não era o tipo de garota que ficava em segundo lugar. Uma casca dura se formou ao seu redor, bloqueando seus sentimentos. — Claro que ele é apenas um amigo — disse ela com firmeza, voltando o olhar para Poppy. E foi isso. Ela fez sua escolha.


Agora, ela e James esvaziavam a garrafa de uísque, e Rowan encontrou um pouco de vinho tinto na cozinha. Enquanto ela enchia os copos, eles falaram sobre como eles uma vez caíram na despedida de solteira de uma menina e acabaram em sua limusine. Eles relembraram a banda de James e seus shows mais memoráveis, incluindo o tempo que eles alugaram uma casa de salto inflável para ficar ao lado do palco. — Ah, a cabana do sexo — disse James, apertando as mãos atrás da nuca. — Uma das minhas melhores ideias. — Um olhar distante atravessou seu rosto. — Essa casa do salto era como uma cama de água. Rowan corou. Eles não tinham falado sobre as conquistas de James há anos; ela estava fora de prática. — Eca — disse ela, meio-enojada. James sorriu. — Ela não pensava assim. Até que eu perfurei a coisa. — Você perfurou-a? — Rowan recordou como a casa do salto tinha se inclinado à esquerda no final da noite, uma das torres do castelo ficando flácidos. Como um pênis, tinha sido a piada. — Minhas chaves estavam no bolso — explicou James. — A coisa quase me engoliu. Eu tive que caçar as minhas calças com a bunda de fora. Rowan imaginou James preso dentro da casa do salto sem roupa. Então, ela sentiu uma pontada de culpa. Era uma traição falar sobre as conquistas do passado de James assim? Ela não tinha certeza se Poppy sabia sobre isso — ela nunca tinha perguntado, e Rowan não tinha compartilhado. Rowan não tinha certeza por que ela não tinha dito, exceto que ela pareceria manipuladora, como se ela estivesse esperando que isso fizesse Poppy gostar menos de James. Além disso, ele tinha mudado por causa de Poppy; ela o fazia bem, como ela fazia todo mundo se sentir bem. Um sentimento renovado de euforia bêbada invadiu Rowan, e ela decidiu que ela estava dando muita importância a tudo isso. Ela olhou para James e desabafou: — Eu esqueci que você era assim. — Assim como? — James inclinou a cabeça. — Um grande deflator de casas infláveis? — Bem, sim. Você conta boas histórias. — Bem, eu não me esqueci de que você pode escutá-las — disse James, inclinando-se e colocando a mão sobre sua coxa. Rowan olhou para sua mão, pensando em como ela costumava se maravilhar com seus dedos longos e finos. Ela engoliu em seco e lembrou-se de que ele não a tocaria agora mesmo se ele não estivesse bêbado. Mas então ele se inclinou em direção a ela. Um chiar correu pela espinha de Rowan. Com o canto do olho, ela avistou uma fotografia de si mesma e Poppy sobre a lareira, os seus braços nos ombros uma da outra, os sorrisos de êxtase em seus rostos.


Ela se afastou. — Eu acho que nós estamos desperdiçando tempo. — Eu não acho. — A voz de James de repente estava sóbria. Ele colocou as mãos sobre os joelhos, com uma expressão de dor no rosto. — Rowan... Acho que Poppy vem me traindo. A temperatura subiu alguns graus. — O quê? James passou a mão pelo cabelo. — Ela está tão distante. É como se eu não existisse. — Ele parecia desolado. — Quero dizer, olhe. Eu sei os sinais. Eu já fiz isso com as pessoas. Algo está realmente errado com a gente. Rowan pensou na festa de aniversário de Skylar. Poppy parecia um pouco distante. Ela não tinha notado quando James desapareceu no banheiro, e ela não estava olhando para ele quando eles reapareceram. — Ela está sobrecarregada. Ela tem um trabalho louco, dois filhos pequenos, e a imprensa ainda está falando sobre o acidente de seus pais — disse Rowan, pensando no que tinha lido no Abençoados e Amaldiçoados. — Ela sempre lidou com isso antes. Agora, há momentos depois do trabalho quando ela simplesmente... desaparece — explicou James. — Eu ligo para ela, e ela não atende. E eu já vi ela fazer ligações secretas. Desligando rápido quando eu chego perto. É por isso que eu não posso voltar lá hoje à noite. Eu simplesmente não consigo lidar mais com isso. Eu tinha que dizer isso a alguém. — Ele agarrou a mão de Rowan. — Eu quase disse alguma coisa para você sobre isso na festa da Sky. Você sabe o que está acontecendo? — Claro que não — gritou Rowan. Ela olhou para suas mãos, sua cabeça girando. Os dedos de James se entrelaçaram nos seus. Lentamente, ela os puxou para longe. — Isso é tudo coisa da sua cabeça. Poppy nunca faria isso. — Você ficaria surpresa com o que as pessoas fazem. — Não ela — Rowan insistiu. — E não com você. Você é um pai maravilhoso e um marido incrível. Você é incrível... em geral. A frase ficou suspensa lá. James encontrou seu olhar. Rowan apertou os lábios fechados, horrorizada com o que havia dito. Um sorriso surpreso apareceu no rosto de James. — Você quis dizer isso mesmo, Saybrook? O uísque ficou grosso no céu de sua boca. — Talvez — ela sussurrou. — O que você quis dizer? Ele olhou para ela. Rowan engoliu em seco, uma porta se abrindo. Todas as vezes ela teve que mentir. Aqui, bêbada, às onze horas em uma noite de quintafeira, talvez ela pudesse dizer a verdade. — Eu quis dizer... — ela fechou os olhos e se virou. — Em todos os sentidos.


Os cílios de James baixaram. Então, em um movimento confiante, ele puxou-a para si. Sua boca se fechou em torno da dela. Ele passou as mãos pelos seus cabelos. Ela tocou a parte de trás do seu pescoço. Ela absorveu o cheiro de seu sabonete, seu aperto forte, a destreza com que ele a tocava. Deus, ela se perguntava sobre isso há anos. Toda vez que ele se encontrava com outra garota, cada vez que ele contava a Rowan que ele tinha dormido na cama de outra pessoa, ela se perguntava. Em minutos eles estavam em seu quarto. — Isso não está certo — Rowan murmurou enquanto ele a deitava no colchão. — Sim, está, Saybrook. Esta é provavelmente a coisa mais certa que já fizemos. — Ele beijou seu pescoço. — Eu sabia que você me queria. Eu queria você também. Rowan olhou para ele. — Não, você não queria. — Mas o olhar no rosto de James disse que talvez ele quisesse. James acariciou seu rosto, sua respiração rápida. — Eu acho que até Poppy sabia como nos sentíamos, no fundo. — Ele afundou em um cotovelo. — Você é tão inteligente. E bonita. E legal. — Pare — disse Rowan timidamente, mas ele a puxou de novo antes que ela pudesse dizer qualquer outra coisa. Suas palavras caíram sobre ela, uma e outra vez, até que eles eram o único refrão em sua mente, a única coisa que existia entre eles. Por algumas horas preciosas, ela finalmente conseguiu tudo o que ela sempre quis.

*** Rowan abriu os olhos. Ela estava deitada em cima do edredom de seda dela em uma camisola cor-de-merlot que ela não se lembrava de ter comprado. O ventilador de teto girava sobre sua cabeça; lá fora, ela podia ouvir o silvo suave da cidade acordando. A julgar pela luz fraca que entrava pela janela, provavelmente tinha acabado de amanhecer. Sua cabeça latejava do uísque e do vinho. James estava ao lado dela, inconsciente. Uma figura estava sobre a cama. Tinha olhos vazios, a boca voltada para baixo, um corpo disforme. — Que vergonha — uma voz rouca sussurrou. Rowan se encolheu para trás. Mas quando ela levantou os seus olhos mais uma vez, a figura tinha ido embora. O relógio digital piscava 05:50. Luz do sol entrava pelos altos batentes das janelas.


Rowan soltou um suspiro. Um sonho. Não havia nada no canto, exceto por uma pilha de roupas. Calça jeans. Sua camiseta. E sapatos pretos de homem. — Oh meu Deus — ela sussurrou. James estava aqui. Mas ele não estava na cama, como tinha estado no sonho. Rowan levantou, caminhou até a porta, e escutou. A voz abafada de James flutuava fora da sala de estar. Ele estava de cueca, suas costas fortes e bronzeadas viradas para ela. Seu celular estava no ouvido. — Eu sei, eu sei — ele sussurrou. — Mas eu disse a você, algo aconteceu. — Ele mudou de posição. — Eu te vejo hoje à noite, ok? Rowan tentou escapar em silêncio, mas ela pisou em uma tábua rangente no chão. James virou-se. Seus olhos se arregalaram, e ele apertou o botão DESLIGAR no telefone. — Eu sinto muito — Rowan sussurrou com um nó na garganta. Ele tinha que estar falando com Poppy. Mentindo sobre por que ele não tinha voltado para casa ontem à noite, ela pensou com pesar. Rowan não podia sequer pensar em sua culpa, era tão avassalador. Ela não conseguia olhar para as mãos, sabendo que elas tinham tocado James em todos os lugares. O que ela fez? Ela pensou em como o futuro se desdobraria: ela deixaria escapar para Poppy, com certeza. Não havia nenhuma maneira que ela pudesse enfrentar sua prima, como se nada tivesse acontecido. Poppy poderia perdoar Rowan, mas sempre haveria um abismo entre elas — em cada jantar, durante todas as celebrações de feriados, a cada vez que vissem uma a outra, ambas se lembrariam do que Rowan tinha feito. E então, calmamente, Poppy diria as outras primas, explicando que ela entendia por que isso aconteceu, de qualquer forma — a pobre Rowan tinha estado sozinha por tanto tempo, e James tinha sido seu amigo, e realmente, alguém poderia culpá-la? Ela voltou para o quarto. James deixou cair o telefone no sofá e correu em direção a ela. — Ei. Onde você está indo? Ele tentou envolver seus braços em volta da cintura dela, mas Rowan se afastou, quase sentindo como se o cenário futuro que ela tinha traçado em sua mente já tivesse acontecido. — Oh, Deus, James. O que diabos aconteceu? O que vamos fazer? Ele inclinou-se para trás e olhou fixamente para ela. — Acalme-se. Vai ficar tudo bem. Lágrimas encheram os olhos dela, quentes e salgadas. — Como você pode dizer isso? Nada vai ficar bem. Ele tentou beijá-la, mas ela abaixou a cabeça para o lado de modo que ele acabou beijando sua orelha.


— Eu tenho que sair daqui — disse ela, olhando para o relógio. Eram 06:03; ela tinha uma chamada de conferência com o escritório de Cingapura às 7h30. Ela se atreveu a olhar para James. Só de olhar para ele, ela sentiu uma atração inegável na direção dele. — Você deveria ir para casa — ela ordenou. — Resolva as coisas com Poppy. Por favor. James balançou a cabeça. — Eu acho que estamos além disso. Estou falando sério. Eu vou dizer a ela que acabou. Rowan sentiu o sangue de seu rosto drenar. Ele não podia fazer isso. — Ok, então fique aqui e pense. Fique sóbrio. Você vai mudar de ideia. Você vai ver como isso é errado. — Saybrook. — James se adiantou e pegou seu rosto em suas mãos grandes. — Só acalme-se por um minuto, e talvez você vai ver como isso é certo. Vai ser confuso, sim, mas você é minha melhor amiga. Você me conhece melhor do que todos. Eu te amo. Isso devia ter acontecido anos atrás. Ele a puxou para perto e a beijou. Rowan fechou os olhos. Se alguma vez ela se sentiu horrível, duas formas encaixavam muito mal. Ela se esforçou para afastar-se, sentindo seus lábios tóxicos. — Eu tenho que ir — ela murmurou. Era seis e meia quando ela tomou banho, vestiu-se e pegou suas chaves, enquanto James penava na cama. Rowan evitou olhar para James, com medo de outra onda de vergonha — ou desejo. Era mesmo certo deixá-lo ali? Mas se eles saíssem do apartamento juntos, alguém poderia vê-los, o que seria pior. A cabeça de Rowan balançou quando ela parou na Starbucks da esquina. Ela mal percebeu o moedor alto, a música batucando, ou a mulher com o sotaque de Staten Island em frente a ela. Depois de esperar em uma longa fila para tomar um café e um muffin, ela decidiu comer em um pequeno parque perto de seu apartamento. Ela não estava com pressa para chegar ao trabalho e enfrentar sua prima. Quando ela se sentou, os pedestres se movimentando por ela, sua mente revirou sobre o que tinha acontecido. Será que James realmente a amava? E Poppy realmente tinha um caso? Rowan não podia imaginar, mas ela supunha que tudo era possível. Isso não tornava o que Rowan tinha feito mais perdoável, é claro. Mas certamente explicava por que James se virou para ela. Finalmente, quando ela não aguentava mais pensar sobre isso por mais tempo, Rowan levantou-se e dirigiu-se para baixo do Hudson. Vinte minutos depois, ela se virou para Harrison — e parou um pouco. Cavaletes do Departamento de Polícia de Nova York bloqueavam o cruzamento na Harrison e Greenwich. O edifício da Saybrook, uma laje de calcário cinza brilhante e vidro que parecia particularmente bonita contra o céu azul brilhante, se encontrava no


canto. Fitas amarela da polícia cercavam a entrada da frente, e várias ambulâncias e caminhões de bombeiros estavam estacionados de modo torto na frente, as luzes piscando. Rowan caminhou cautelosamente ao longo da calçada, o coração acelerando. A fita da polícia isolava um pequeno retângulo na calçada do lado de fora do edifício; paramédicos estavam sobre algo coberto por um lençol. Ela olhou para cima. Do outro lado da rua, as pessoas estavam em suas varandas, os homens em camisas de manga e as mulheres em vestidos de primavera, as suas mãos sobre a boca, olhando para o chão. Corinne nadou para fora da multidão, com o rosto branco como um fantasma. Ela correu para Rowan e agarrou-lhe o braço. — O que está acontecendo? — gritou Rowan. Corinne olhou para Rowan como se estivesse vendo através dela. Em seguida, ela caiu nos braços de Rowan e começou a soluçar. O relógio da igreja bimbalhava a poucas quadras dali. — Corinne, o que foi? — Rowan olhou para o rosto de sua prima. — O que é isso? Corinne olhou para Rowan com os olhos vermelhos molhados. — É Poppy — disse ela, com a voz rouca e embargada. — Ela está morta.


7 Traduzido por Andresa Lane

—C

orinne — chamou uma voz quando Corinne saiu do carro de seus pais na segunda-feira de manhã. — Você pode comentar sobre o suicídio de sua prima? — Aster, ela tinha um histórico de uso de drogas? — perguntou outra, colocando uma câmera em Aster. — Ela era doente mental? Corinne puxou sua bolsa de cetim preta mais perto de seu corpo, segurou a mão de sua mãe, e correu mais rápido em direção à Igreja de São João do Divino na Avenida Amsterdam. Havia uma banca de jornal no meio-fio; o rosto de Poppy estava espalhado em cada página. “Quilates, Lapidações, Clareza, Calamidade,” dizia uma manchete. “Cidade de Luto por um Perfeito Diamante,” dizia outra. “Uma Queda da Elegância”. Havia uma foto de Poppy em uma festa de gala no Metropolitan, olhando para o espaço, com os olhos grandes, boca franzida e sua mandíbula tensa. Outro jornal mostrava uma foto de forma irregular de Poppy sob o lençol na calçada em frente à sede dos escritórios Saybrook. Corinne não conseguia tirar a manhã da morte de Poppy da sua mente. Ela chegou aos escritórios Saybrook apenas seis minutos depois de Poppy saltar, ainda se recuperando de ver Will Coolidge no dia anterior. Havia uma multidão de pessoas em torno da entrada, e no início ela estava irritada. Mas, então, ela notou um paramédico inclinando-se sobre alguém na calçada. Corinne estava empurrando a multidão quando, de repente, um guarda da Saybrook a agarrou. — Afaste-se, Corinne — disse ele em uma voz firme. Ele era um cara irlandês doce, chamado Colin, que sempre convidava Corinne e Dixon para ir beber com ele e seus amigos no dia do São Patrício. — O que está acontecendo? — Corinne exigiu, seu coração batendo contra suas costelas. Colin olhou para ela. E então murmurou um nome. Poppy. Anos atrás, em um parque de diversões no Cabo, Poppy tinha falado para Corinne sobre ir a um passeio chamado Rotor, um barril que girava e girava, até que, de repente, o chão saía de debaixo de seus pés e as pessoas eram jogadas para os lados por causa da força. Foi assim que ela se sentiu ao ver o corpo de Poppy espalhado pela calçada. Fazia vários dias agora, e todas as manhãs ela esperava


acordar e ver um e-mail de Poppy, ou uma chamada não atendida. Tem que ser um erro, ela não parava de pensar, ao mesmo tempo que se tornava dolorosamente claro que não era. — Rowan! Houve um escândalo nos negócios? — outro repórter gritou para Rowan, que estava atrás de Corinne. — Ela tinha problemas em seu casamento? — Ela estava deprimida com a morte de seus pais? — outro repórter gritou. — Ela deixou um bilhete? O coração de Corinne disparou. A polícia tinha ido no escritório de Poppy, e lá estava, digitado em um documento do Word na tela de seu computador. — Eu simplesmente não aguento mais — dizia. — Eu sinto muito. Adeus. — A prova de que Poppy, a mais tranquila de suas primas, tirou sua própria vida. Assim que todos estavam dentro da arejada catedral de teto alto, longe da imprensa, Corinne foi para Rowan e deu-lhe um grande abraço. Ela parecia muito pálida; Rowan não tinha ido trabalhar durante toda a semana, e agora Corinne se perguntou se estava sendo mais difícil para ela do que para o resto deles. Aster estava ao lado dela, com o olhar no chão. Corinne tocou o braço de sua irmã. — Ei — ela disse suavemente, sua voz embargada. Agora sua briga parecia tão insignificante. Aster olhou para cima. Seus lábios se separaram. Corinne abriu os braços, e Aster caiu neles. — É tão horrível — Aster soluçou no ouvido de Corinne. — Isso não faz sentido. Ela tinha tudo. — Eu sei — Corinne sussurrou. Uma luz colorida entrava pelas janelas com vitrais no interior da catedral. Pessoas de luto paravam em pequenos grupos, alguns verificando seus telefones, outros enxugando os olhos com lenços. Uma grande pia batismal com água benta estava de um lado; várias pessoas mergulhavam seus dedos e faziam o sinal da cruz. A família Saybrook não era religiosa, mas tetos altos de catedral e espaços frescos e escuro sempre fizeram Corinne se sentir calma e em paz. Era menos chamativo do que na igreja São Patrício, onde o velório de Steven Barnett tinha sido cinco anos antes. A memória do funeral do avô de Corinne voltou para ela. Foi no início do que já estava provando ser um horrível verão — Dixon havia anunciado que ele estava indo para Londres para estagiar no Grupo FTSE, e, oh, sim, ele estava terminando com ela. Duas semanas depois, ainda completamente sem rumo, Corinne recebeu a notícia de que seu avô tinha morrido de repente. Ela tinha acabado de ver Alfred em Meriweather alguns dias antes. Ele tinha dado a ela um par de brincos de diamantes de três quilates em formato de lágrima; quando Corinne perguntou qual era a ocasião, ele apenas sorriu e beijou sua bochecha. —


Simplesmente porque você é minha doce menina. — Ela ainda podia sentir o cheiro dele e o aroma de sabão e de charuto de sua pele. Ela ainda podia ouvir sua voz grave. Ela ainda podia sentir o cheiro do limão em sua gin tônica. O caixão de seu avô tinha sido fechado, então Corinne não tinha sido capaz de dar-lhe um beijo de adeus e colocar os brincos sob o travesseiro de cetim. Uma imagem de Corinne chorando tinha aparecido no Abençoados e Amaldiçoados no dia seguinte. Alguém tinha realmente enviado uma imagem do interior da igreja. Agora um porteiro entregou a Corinne um guia e indicou-lhe a direção da porta. Corinne andou, como um zumbi, para a frente, o olhar cintilando sobre o mar de pessoas de luto que se aglomeravam na entrada. Havia pessoas do trabalho, colegas de outros impérios de joias, modelos, atores, músicos e designers. A editora de moda da Vogue encostava-se à parede, ao lado de uma mulher loira de aparência séria em um terno de negócios. Pessoas correram para Corinne, oferecendo palavras de simpatia. Winston e Sullivan, seus primos adolescentes da Califórnia, abraçaram-na com força. Sua mãe, a tia Grace, que quase nunca ia para Nova York, se aproximou de lado, abraçando Rowan apertado. Os irmãos de Rowan, Michael e Palmer, que tinham vindo de avião, puxaram-na para abraços de urso. — É uma tragédia — disse Beatrice, de vinte e cinco anos de idade, prima em segundo grau de Poppy do lado de sua mãe. Suas palavras pareciam especialmente ocas; Corinne se perguntou se era porque Poppy a tinha ignorado para uma promoção há alguns meses. Corinne abraçou mais alguns Saybrook e um editor de acessórios da Vogue. As pessoas passavam por ela, seus rostos se misturavam. Danielle Gilchrist segurou a mão dela. — Eu sinto muito, eu não posso acreditar — ela murmurou. E a mãe de Danielle, Julia, estava ao lado dela, com os olhos cheios de tristeza. Corinne não tinha visto Julia há anos, desde que ela se divorciou do marido, mas parecia que ela não tinha envelhecido um dia. — Meus pêsames — Julia disse a ela. — Chame se você precisar de alguma coisa — murmurou a Sra. Delacourte, a velha babá de Poppy, que devia ter quase oitenta anos. — É tão horrível — cochichou Jessica, assistente pessoal de Edith, antes de fugir para a frente da igreja, onde Edith estava sentada. — Oh, querida — disse Deanna, abraçando Corinne apertado. — Se você estiver bem com isso, deveríamos conversar mais tarde — ela sussurrou no ouvido de Corinne. — Sobre algumas entrevistas. Mas só se você se sentir pronta. — Eu não estou — disse Corinne, se afastando para trás. Essa era Deanna, ela era parte mãe Judia, parte viciada e incansável por trabalho, sempre pensando sobre a reação da mídia. Haveria uma edição especial da People sobre a maldição da família, e a 20/20 iria criar uma história sem uma única fonte. Mas neste momento, Corinne não via sentido em dar entrevistas. Ela já tinha dado uma


breve declaração que ela não tinha ideia do porquê Poppy poderia ter feito uma coisa tão horrível. Ela não tinha mais nada a acrescentar. Em seguida, outra mão tocou as costas de Corinne, e ela olhou para o rosto de Jonathan York, presidente da Gemologique Internationale, uma das maiores concorrentes da Saybrook. Ele também era tio de Corinne por casamento, mas ele e tia Grace haviam se divorciado anos atrás. Jonathan era alto e elegante em seu terno escuro, com cabelo arrumadinho e os olhos azuis de aço. Sua esposa troféu, Lauren, não estava pendurada em seu braço — Corinne tinha ouvido falar que haviam se divorciado recentemente. Ele a surpreendeu, na verdade, estando aqui. Ele era a única pessoa com quem Poppy nunca conseguiu se dar bem. Eles ocasionalmente tiveram de fazer negócios, e mais de uma vez depois de uma chamada com Jonathan, Poppy apareceu no escritório de Corinne perturbada e irritada. — Corinne — disse Jonathan agora, tocando-lhe a mão. — Eu não posso imaginar o que sua família está passando. É uma tragédia. Corinne sorriu firmemente. — Obrigada por sua simpatia. Ela tentou seguir em frente, mas ele segurou a mão dela. — A cura leva tempo — acrescentou ele, com a boca perto de seu ouvido. — O negócio sempre estará lá. Eu gostaria de ter sido capaz de dizer isso a Poppy. Eu sei que ela estava lutando. Ele olhou para ela, pacientemente, como se ela devesse saber do que ele estava falando. Lutando... com o quê? Com a morte de seus pais? E ele estava sugerindo que Corinne ou os Saybrooks de modo geral apenas deixassem os negócios? A Gemologique adoraria isso. Talvez ela devesse apenas encerrar sua participação no mercado com um lacinho perfeito e entregá-lo. Corinne se mudou para o corredor. A maioria de sua família estava na frente da igreja. Edith, Mason e Penelope sentaram-se na primeira fila junto com os pais de Natasha, Candace e Patrick, que estavam chorando. James sentou-se lá também, observando fixamente Briony caminhar até o altar. Uma das babás, Megan, seguiu-a. Skylar sentou educadamente ao lado de James, com um olhar dormente no rosto. Corinne deslizou para o segundo banco, com o coração doendo fisicamente. Ela apertou a mão no peito, entendendo com o coração partido o que aconteceria a seguir; que essas meninas iriam crescer sem a mãe, que ela iria envelhecer sem sua prima, parecia impossível. Corinne lembrava de perambular ao redor da fazenda de família de Poppy, renomeando todos os porcos barrigudos e bois galês dos cercados. Poppy era tão diplomática, permitindo que cada prima se revezasse na escolha de um nome, desde Natasha até Rowan, mas os dela eram sempre os mais bonitos. Corinne ainda podia lembrar um monte deles: Briar Rose. Hadley. Elodie. A mãe de Poppy lhes tinha dado tintas de cartaz e permitiu-


lhes decorar uma parede do celeiro com todos os novos nomes; até onde Corinne sabia, eles ainda estavam lá. Dixon estava esperando por ela no final do banco, com o cabelo penteado para trás de seu rosto. Ele usava um terno preto e sapatos. Enquanto se movia para o lado dele, ele passou o braço em torno do seu ombro e puxou-a com força. — Você está bem? — ele perguntou suavemente. — Não — disse Corinne miseravelmente. Ela olhou para o guia. Havia uma foto de um buquê de rosas brancas fúnebre na capa. Dentro havia uma foto recente de Poppy, algumas mechas de seu cabelo loiro caídas em seu rosto, e por baixo, suas datas de nascimento e morte. A garganta de Corinne parecia que estava pegando fogo. Do outro lado de Dixon, Natasha se inclinou e olhou para Corinne. Seus olhos estavam arregalados, seu cabelo escuro estava despenteado, e as unhas foram mordidas. Melodramáticas lágrimas escorriam pelo seu rosto, e ela parecia como se não tivesse dormido. O mesmo guia estava em seu colo também. — Oi — ela sussurrou. — Oi — Corinne respondeu friamente, olhando para a frente. Depois de anos de ausência, a presença de Natasha parecia uma intrusão. Anos atrás, as duas eram muito próximas, era rotina dançar na areia na praia privada, fingir ensaiar comerciais da Saybrook no sótão, rir sobre os meninos mais velhos que vieram para as festas de família. Filha única, Natasha tinha agarrado a Corinne, confiando que a via como uma irmã mais velha. E Corinne via Natasha como a irmã mais nova que ela desejava que Aster fosse. Mas tudo isso mudou quando Natasha desertou. Ela não queria ter nada a ver com a família, nem mesmo com Corinne. Ela não respondeu as chamadas de Corinne e começou a dizer coisas negativas sobre a família para a imprensa. Corinne tinha levado para o lado pessoal. O que ela tinha feito a Natasha? Ao mesmo tempo, Corinne podia praticamente ouvir Poppy em seu ouvido, dizendo-lhe para dar uma chance a Natasha, persuadindo-a a incluir Natasha em sua festa de casamento, como Poppy tinha feito. — Somos uma família — Poppy insistiu. — Um dia vocês vão se conciliar, e você vai se arrepender de que ela não estava de pé ao seu lado. — É inacreditável. — A voz de Natasha estava embargada. — Umm-hmm — Corinne murmurou. — Eu não posso acreditar que o bilhete... — Natasha continuou. Corinne assentiu levemente. Ele não tinha sequer soado como Poppy. — Ela não falou nada para você? — Natasha persistiu. Corinne olhou para sua prima sobre o colo de Dixon. — Não, Natasha — disse ela, ouvindo o desgosto de sua voz. — Porque se ela tivesse, eu a teria ajudado, e ela ainda estaria aqui.


A música de órgão começou a tocar, e o clero na frente da igreja indicou que todos deveriam se levantar. Corinne o fez, observando como o resto da congregação ao redor dela fazia o mesmo. E então eles começaram o processo de dizer adeus a Saybrook mais perfeita de todas. Duas horas mais tarde, depois de uma recepção no Clube University, Corinne e os outros primos, incluindo Winston, Sullivan, e até mesmo Natasha, saíram de carros na Seventh-Third e Park Avenue e subiram as escadas do Queen Anne, para a mansão renascentista de Edith. A casa com doze metros foi construída em tijolo e mármore, com uma porta azul-pavão. Hoje, porém, Corinne mal percebeu, nem parou para cheirar suas peônias favoritas no jardim da frente, admirar a escadaria no hall de entrada, ou cobiçar o enorme lustre de cristal antigo que, secretamente, ela esperava herdar um dia. A sala oferecia uma visão do chão até a parte de trás da propriedade, que dava para um jardim deslumbrante e uma cascata gloriosa de dois andares, mas Corinne não via nada disso, nem quando ela atravessava o corredor e ia para o grande salão, onde todos estavam reunidos. Megan estava tentando encurralar Skylar e Briony perto da primeira das duas lareiras de mármore do grande salão. James sentou-se ao lado delas em um longo sofá, parecendo atordoado. A mãe de Corinne e os pais de Rowan estavam esmagados ao lado dele, segurando canecas de café. Os pais de Natasha sentaram em frente a eles em um sofá. Uma mulher loura em um terno estava perto da janela, quase engolida pelas enormes cortinas de seda de Edith. — Quem é essa? — Corinne sussurrou para Rowan, percebendo que ela também a tinha visto na igreja. Edith pedira aos Saybrook para se reunir ali, ressaltando que era só a família. — Não tenho ideia — disse Rowan, seu rosto pálido. Corinne, Rowan e Aster se sentaram no sofá oposto aos dos pais de James e de Rowan. Winston e Sullivan encostaram contra a parede, brincando com seus colares estalados e seus cabelos loiros e desgrenhados estilo garotos surfistas. Natasha estava em silêncio em uma cadeira de seda perto da segunda lareira da sala. Ela pegou o celular e estudou a tela, enquanto todo mundo se acomodava. Finalmente Edith levantou-se da poltrona à frente da sala, envolveu seu casaco de pele firmemente em torno dela, e dispensou um de seus empregados, que estava empurrando um carrinho de bebidas de prata. — Eu sei que não sou a única que tem dúvidas sobre a morte de Poppy — disse ela gravemente. — Eu trouxe todos vocês aqui para dizer-lhe que Poppy não se suicidou. Ela foi assassinada. James rapidamente levantou-se e fez sinal para que Megan levasse as crianças de volta para a sala. Tia Grace olhou para Winston e Sullivan e falou para eles saírem da sala também. Por um momento, todo mundo ficou em silêncio. — Mãe — disse Mason debilmente do sofá. — Nós já passamos por isso.


Edith apertou sua mandíbula. — Eu não sou a única que acredita nisso. — Ela se virou para a loira ao lado da janela. — Ela vai provar isso. A estranha deu um passo adiante. Ela era um pouco mais velha do que Corinne, com grandes olhos azuis e uma figura atlética. — Katherine Foley, FBI — ela disse em uma voz confiante. Em seguida, ela enfiou a mão no bolso e revelou um distintivo em forma de escudo. Mason fez uma careta. — Mãe, você não fez isso. Os olhos de Edith brilharam. — Eu certamente fiz. E de qualquer maneira, eu confio na senhorita Foley. Eu a conheço. Todo mundo a olhou. — Você a conhece? — perguntou Aster. — Como? — Mason saltou. — Tenho certeza que eu a conheço, mas... — Edith parecia dispersa. A Agente Foley pigarreou. — Eu receio que a Sra. Saybrook possa ter me confundido com outra pessoa — disse ela delicadamente. — Mas vocês estão nas melhores mãos. Ela puxou uma cadeira Chippendale do canto ao lado de Edith e abriu um laptop. — Edith veio até mim no dia em que Poppy morreu, e eu pedi a minha equipe para dar uma olhada em algumas coisas, incluindo o próprio bilhete. Ela digitou algo no laptop, então virou a tela para enfrentar o círculo. Era o bilhete de Poppy; ao lado havia uma janela de diálogo. — A assinatura eletrônica no arquivo mostra que Poppy escreveu este bilhete às 7:07. No entanto, várias testemunhas disseram que o corpo de Poppy estava no chão às 7:05. Uma câmera de segurança no prédio do outro lado da rua registrou o final de sua queda e o tempo também não bate. James abaixou a xícara de café. — O que isso significa? Edith levantou as palmas das mãos. — Uma mulher não pode escrever uma nota de suicídio depois que ela está morta. Mason parecia cético. — Será que os relógios não estavam dessincronizados? Foley virou o laptop de volta para encará-lo. — Verificamos isso, mas o relógio no computador de Poppy corresponde exatamente ao da câmera de segurança na rua. Temos de cogitar a possibilidade de que alguém escreveu aquele bilhete para fazer a morte de Poppy parecer suicídio. Aster se atirou para a frente. — Espere um minuto. O quê? — Alguém a empurrou? — Rowan perguntou, e por um momento Corinne se perguntou se ela parecia quase aliviada. — Nós não queremos tirar conclusões precipitadas — disse Foley. — Infelizmente, a câmera de segurança do prédio do outro lado da rua não se estendeu alto o suficiente para nos dar uma visão do escritório de Poppy. Não houve testemunhas. O irmão de Rowan, Michael, tocou a testa. — Não há um suspeito?


— Ainda estamos conferindo com quem estava ao redor. Ainda é cedo. — E quanto a autópsia? — perguntou James. — O relatório ainda não está completo, mas não há nada conclusivo de qualquer forma — disse Foley. — Poppy caiu de cerca de 15 metros, e isso é tudo que os resultados mostram. Mas a discrepância entre a sua hora da morte e do tempo do bilhete de suicídio é preocupante. Alguém poderia argumentar que um espectador estava em seu escritório o tempo todo e digitou o bilhete a pedido de Poppy depois que ela pulou. Mas por que essa pessoa não pediria ajuda? As coisas não batem. E por causa disso, estamos abrindo oficialmente uma investigação de assassinato. — Eu sabia que isso não foi um suicídio — disse Edith firmemente. — Mas quem iria ferir a nossa Poppy? — Nós temos que descobrir o que aconteceu exatamente com Poppy na manhã da sua morte. Quem estava no seu escritório? Por que eles estavam lá? Não sabemos se alguém poderia ter estado bravo com Poppy, por qualquer motivo? Alguém dentro da empresa, por exemplo? Ou talvez um rival de negócios? — perguntou Foley. A pele de Corinne se arrepiou. O sorriso bajulador de Jonathan York. Eu sei que ela estava lutando. — Eu não estou assumindo nada — Foley falou rapidamente. — Infelizmente, o escritório do Poppy não tem uma câmera, e a câmera no elevador não mostrou ninguém saindo na hora do assassinato de Poppy. Mas quem quer que fosse poderia ter tomado as escadas, onde não há câmeras. Rowan pigarreou. — Os guardas nos pisos inferiores não iriam notar qualquer um que saísse do escritório de Poppy? — É uma equipe reduzida antes do horário comercial. A maioria das pessoas, incluindo muitos dos guardas e todos os assistentes de Poppy, não estavam no trabalho ainda, então não temos um quadro completo. Nós estamos procurando por dados eletrônicos de cartão magnético usado para entrar no edifício e para certos andares. Vamos entrevistar qualquer um que estava no prédio naquele momento. Corinne franziu o cenho. — E quanto a câmera de vigilância do lobby? Foley puxou o colarinho. — Nós não terminamos de vê-la ainda. Mas vamos combinar as pessoas vistas lá com os dados dos cartões chaves. — E quanto às impressões digitais no teclado de Poppy? — Natasha saltou, sua voz gutural surpreendendo a todos. — Se alguém digitou o bilhete, elas estariam lá, certo? Foley balançou a cabeça como se tivesse antecipado a questão. — Nós testamos o teclado. Mas as únicas impressões digitais são de Poppy. Não tem de mais ninguém. O assassino pode ter usado luvas, no entanto. Isso indicaria que o assassinato foi premeditado, o assassino pode ter planejado matar Poppy antes de


entrar em seu escritório. Não é exatamente uma luva de inverno. — Ela apontou para o céu ensolarado lá fora, em seguida, limpou a garganta. — Com base em tudo isso, eu vou ter de falar com cada um de vocês separadamente. Natasha parecia irritada. — Mas eu nem sequer trabalho na Saybrook. — Corinne mal podia processar tudo o que ela estava ouvindo. Poppy não se matou; ela tinha sido assassinada. Quem quer que tenha feito isso, o fez dentro do escritório Saybrook, e sabia que Poppy estaria no trabalho muito mais cedo. — Você acha que nós somos suspeitos? — Corinne ouviu-se perguntar. — Claro que não — disse Foley, mas ela não parecia querer olhar qualquer um deles nos olhos. — Mas eu preciso saber onde todos estavam naquela manhã, apenas para apuração dos fatos. Eu também quero saber se vocês sabem alguma coisa sobre Poppy que poderia indicar por que alguém iria querer machucá-la. Se ela cometeu erros no trabalho ou se ela se envolveu com drogas, se envolveu com pessoas perigosas que podem ter um motivo para machucá-la. — Poppy? — Rowan balbuciou. — Poppy era... perfeita — ela terminou tristemente. E ela era, Corinne pensou. Ela imaginou Poppy aqui, seu fantasma voando de área de estar para área de estar, agradecendo a todos por terem vindo, lembrando os mais pequenos detalhes da vida de todos — e os nomes dos animais de estimação, planos de verão, o iate que o pai de Natasha estava reconstruindo. — Nunca se sabe — disse Foley. — E eu não quero preocupar todos vocês, mas há também a possibilidade de que este poderia ser um ataque pessoal aos Saybrook. Mason franziu o cenho. — Como assim? Foley pigarreou. — Vocês são uma família proeminente. Um monte de pessoas tem inveja de vocês. Alguém pode querer machucá-los por causa de sua força, sua riqueza, sua influência, ou talvez apenas para derrubá-los. Mason acenou com a mão. — Por favor. — Eu gostaria que levassem isso a sério — advertiu Foley. Ela digitou alguma coisa em seu laptop, então girou a tela ao redor novamente. Um site familiar apareceu. O website. Foley rolou a página para baixo. Abaixo do banner com o nome do site havia uma grande manchete que tomava toda a tela. — Uma Herdeira Caiu — liase. — Restam Quatro. A sala ficou em silêncio. O estômago de Corinne caiu no chão, e sua mente ficou em branco. Os únicos sons eram as batidas do salão de trás, onde as crianças estavam brincando. — Q-quem escreveu isso? — Rowan gaguejou. — Nós não sabemos — disse Foley. — Nós estamos tentando descobrir isso. Nós temos monitorado a última atualização do site, e o endereço de IP é de um computador na Biblioteca Pública de Nova York. Eles não mantém registros


completos de quem utiliza as máquinas, mas nós estamos tentando obter alguma coisa em vídeo das salas para ver se encontramos. Isso poderia ser apenas especulação pública, a ideia de alguém de uma piada de mau gosto. Mas também pode ser muito mais sinistro. — Você está dizendo que nós poderíamos ser as próximas? — Corinne sussurrou. — Eu estou dizendo para levarem isto a sério, e se for uma ameaça, nós vamos mantê-las seguras — disse Foley, e, em seguida, fechou o laptop com um clique sólido. Ela se virou para Edith. — Muito obrigada por me receber em sua casa, Sra. Saybrook. Entrarei em contato. Mason, Penelope, Edith e a mãe de Rowan, Leona, seguiram a Agente para fora. James saiu da sala para verificar seus filhos. Logo as únicas pessoas que ficaram foram as primas. A cabeça de Corinne girou.

Uma herdeira caiu, restam quatro. Finalmente Rowan respirou fundo — Quem iria querer matar Poppy? — Quem iria querer nos matar? — Aster sussurrou. Natasha estava olhando, sem piscar, com o rosto determinado. Na mesma hora, algo que ela disse para as pessoas quando ela desertou cruzou sua mente. Os

Saybrook não são o que parecem. Eu preciso me cercar de gente mais confiável. Natasha finalmente baixou os olhos, mas Corinne ainda estava abalada até os ossos. Ela não podia entender nada disso, mas uma coisa estava clara. Alguém tinha assassinado Poppy. E uma delas poderia ser a próxima.


8 Traduzido por Manoel Alves

P

oucos dias depois, Rowan parou na porta de James, no corredor do Dakota. Quando esteve ali, para o aniversário de Skylar, o ar tinha sido festivo e feliz. Agora alguém tinha deixado um buquê de flores para Poppy na porta. Rowan pegou-os e tocou a campainha. James abriu a porta, com o cabelo revolto e olheiras escuras sob os olhos. Ele usava uma camiseta e jeans escuros, e estava descalço. — Muito obrigado por ter vindo — disse ele. Ele a chamara quinze minutos atrás, em pânico, dizendo que a babá havia tido uma emergência familiar, Briony estava doente, e Skylar precisava de cupcakes para a pré-escola, no dia seguinte. Uma excitação percorreu o corpo dela — de todas as pessoas em sua vida, James a tinha chamado. No mesmo instante, porém, ela se sentiu horrorizada que uma coisa tão mesquinha havia cruzado sua mente, e retornou para a culpa e dor que a consumiu toda a semana. Sua prima estava morta, e Rowan a tinha traído em suas horas finais. Ela não fez contato visual com James quando entrou no apartamento em direção às crianças na sala de estar. Um desenho da Disney estava sendo exibido na tela plana, glitter e colares enchiam a pesada mesa de centro de madeira. Briony estava sentada no chão, olhando com indiferença um brinquedo eletrônico que estava cantando o ABC. Skylar estava no sofá, usando um vestido rosa de cetim, no estilo princesa, e uma tiara de prata, segurando uma varinha mágica de prata. Lágrimas corriam pelo seu rosto. Quando viu Rowan, Skylar correu em sua direção e abraçou cuidadosamente as pernas de Rowan. Mesmo com três anos de idade, já era uma pequena herdeira em treinamento. — Tia Rowan, eu senti sua falta. Rowan a suspendeu. A menininha colocou os braços em volta dos ombros de Rowan firmemente. Outra onda de tristeza tomou conta dela quando ela percebeu que Skylar nunca iria receber um abraço de sua mãe novamente. — O papai te disse que preciso de bolinhos? — disse Skylar quando Rowan a colocou no chão. — É a minha vez! — Que tal ir na Padaria Magnolia? — Rowan sugeriu. — Ou Crumbs? Manchas rosa apareceram no rosto de Skylar. — Mamãe sempre os fazia.


O coração de Rowan congelou. Ela ajoelhou-se ao nível de Skylar e olhou em seus olhos. — Bem, eu vou fazê-los também hoje. Eu sou a melhor cozinheira de cupcakes deste lado do rio Hudson. Ela estendeu a mão para fazer cócegas em Skylar, o que normalmente causaria na menina um ataque de risos, mas desta vez Skylar apenas se contorceu para longe. — Onde está a mamãe? — ela perguntou, na sua voz de três anos de idade alta e inocente. Lágrimas brilharam nos olhos de Rowan. Ela olhou para James, mas ele estava olhando para suas mãos. — Ela teve uma queda muito grave — Rowan se atrapalhou. — Mas ela está sempre te observando. E se você falar com ela, ela estará sempre escutando. O rostinho de Skylar registrou uma mistura incongruente de obediência e confusão. — Meu pai disse que eu poderia pintar minhas unhas, se eu quiser — disse ela depois de um momento. — Bem — Rowan pegou a mão dela. — Eu acho que isso soa bem. Talvez eu pudesse lhe maquiar também. — Você? — James bufou. Rowan lhe lançou um olhar, e ele deu de ombros. — Desculpe. Skylar, Rowan vai lhe maquiar maravilhosamente. Isto pareceu animar Skylar, e ela entrou na cozinha com Rowan. James entrou por último, parando na ilha e olhando para uma caixa fechada de mistura de cupcake. Ele parecia tão desamparado e confuso. Rowan não tinha certeza se já o havia visto daquele jeito, e foi apreendida com o desejo de cuidar dele também. Ela se virou para Briony, que os havia seguido e estava pressionando a bochecha vermelha contra a porta da geladeira de aço inoxidável. — Você está bem, querida? — Rowan disse suavemente, e colheu a menina em seus braços. Briony, como um coala, enrolou suas pernas ao redor de Rowan e começou a chorar. — Parece que ela está com febre — disse Rowan por cima do ombro de James. James assentiu. — Eu lhe dei um Tylenol há dez minutos. Rowan assentiu. — Eu vou segurá-la até que comece a fazer efeito. E fazer cócegas nela! — Ela enfiou os dedos na dobra entre o queixo e o pescoço de Briony até que a menina finalmente abriu um sorriso. No balcão, o telefone de James tocou, notas afiadas de piano berrando pelo apartamento. O aparelho estava pousado mais perto de Rowan, e ela inconscientemente olhou para ele. Um número 917 apareceu na tela. — Você precisa atender? — Rowan lhe perguntou, mudando Briony de braço. James olhou para o número, em seguida, apertou IGNORAR. — Não. Nós estamos no meio de uma emergência de cupcake, afinal de contas — ele disse com um sorriso fraco. — Isso pode esperar. Rowan olhou para a caixa que James estava segurando. — Você está se perdendo nisso? Nós só precisamos de três ingredientes, e um deles é água.


James abriu a geladeira e olhou para dentro. — Minha cabeça não está funcionando direito. — Ele suspirou. — Isso é bom, porque a minha cabeça está exatamente onde deveria estar. — Rowan olhou para Skylar e fingiu ajustar a cabeça em seu pescoço. Skylar ofereceu um sorriso divertido. Rowan pegou a caixa de Duncan Hines novamente. — Tudo bem, papai. Pegue alguns ovos. Você se lembra como eles são, certo? Redondos, brancos? Vindo de galinhas? — Ela olhou para Skylar novamente, dobrado os punhos em suas axilas, fazendo os movimentos de uma galinha. Skylar riu. — Esses? — James tirou um pote de manteiga, juntando-se a brincadeira. — Isso não são ovos — gritou Skylar. James olhou para elas confusamente. — Eu podia jurar que eram ovos. — Em seguida, ele abriu a gaveta mais clara e tirou um pepino. — Isso é um ovo? — Papai! — Skylar gritou, marchando ela mesma para a geladeira. — Isso são ovos! — Sério? — James parecia atônito. — Skylar, você é a garota mais inteligente que já existiu. Rowan escondeu um sorriso e pegou a caixa de James, então, ensinou a menina como quebrar três deles em uma tigela. Uma vez que os cupcakes foram postos em seus pequenos invólucros e estavam assando no forno, ela olhou na geladeira. Estava cheia de coisas empilhadas em Tupperware, caixas para viagem e pacotes Dean & DeLuca — de vizinhos e familiares, ela adivinhou. Ela pegou uma caixa branca e inspecionou o que havia dentro. Três peitos de frango marinados em um purê de batatas de alho. Perfeito. Ela ligou o segundo forno de parede, passou Briony para James e colocou a refeição em uma assadeira. James ficou para trás, mas ela sentia seu olhar sobre ela enquanto ela se movia em torno da cozinha. Ele não atendeu o seu celular quando ele tocou de novo. James puxou uma cadeira e disse: — O que você acha, Sky? Se tia Rowan ficar? — Sim, por favor! — Skylar juntou as mãos, os olhos implorando. Rowan pensou em seu próprio apartamento tranquilo e sentou-se em uma cadeira vazia — a cadeira de Poppy. Foi mais fácil do que Rowan imaginou que seria manter as crianças entretidas. Ela fez o truque de equilibrar a colher com o nariz. James fez várias moedas dos seus bolsos desaparecerem. Rowan cantou “Itsy Bitsy Spider” com a voz do Pato Donald que ela e seu irmão Michael tinham passado horas aperfeiçoando. Ambas as crianças riram alegremente e comeram bem. O forno apitou, e Rowan pegou os biscoitos e, depois de terem esfriado um pouco, os decorou com a ajuda de Skylar.


No momento em que o sol se pôs sobre o Hudson, Briony havia adormecido nos braços de Rowan, no sofá. Rowan gentilmente colocou-a em seu berço, apenas para encontrar Skylar atrás dela, pedindo que lesse um livro chamado Madeline — uma primeira edição, assinada para Adele, a mãe de Poppy, do autor. James colocou Skylar na cama. — Tia Rowan na cama também — Skylar insistiu, e James deu um passo para trás, permitindo que Rowan subisse. Ela colocou as pernas debaixo das cobertas, seu coração quebrando-se sob os lençóis rendados de Skylar, no qual a menina agarrava-se bem forte a uma tartaruga de pelúcia que Poppy tinha comprado para ela em Meriweather no ano passado. — Você está bem, tia Rowan? — perguntou Skylar. Rowan olhou para ela, percebendo que havia lágrimas em seus olhos. Ela estava olhando para uma página do livro, mas não tinha começado a ler. — Estou ótima — disse ela rapidamente, engolindo o soluço. — Estou muito feliz de estar aqui com você. Finalmente Skylar adormeceu. Rowan cuidadosamente colocou sua cabeça no travesseiro, puxou o cobertor para cobrir seus ombros, e, na ponta dos pés, saiu do quarto. James estava esperando no corredor, os braços cruzados sobre o peito. — Obrigado. Rowan baixou os olhos. — Não foi nada. — Ela entrou na cozinha. Havia uma pilha de pratos na pia. — As crianças parecem bem, considerando todas as coisas — disse ela enquanto enchia a pia com água borbulhante. James moveu-se para o lado dela. Rowan podia sentir seu familiar sabonete de hortelã. — Bem, Briony realmente não entende, e eu não tenho certeza quanto Skylar entende, também. Mas ela realmente sente falta de sua mãe. Rowan assentiu. — É claro que ela sente. — E nunca deixaria de sentir. Mesmo aos trinta e dois anos, Rowan ainda ligava para a mãe várias vezes por semana e tentava visitar sua casa de infância em Chappaqua, pelo menos uma vez por mês. Era importante para Leona que a família ficasse em contato, especialmente com seus dois filhos tão longe. Naquela manhã, Leona havia ligado para relatar que sua árvore lilás, no quintal, estava começando a florescer. James afastou-se da pia, enxugando as mãos em uma toalha. — Eu estava procurando no serviço memorial por, você sabe, ele. Qualquer um que parecesse... desconhecido. Rowan suspendeu a cabeça. — Você ainda acha que ela estava tendo um caso? James passou a mão pelo cabelo. — Eu sei que não deveria estar pensando nisso agora, mas eu não consigo parar. Eu só fico imaginando ela sussurrando no telefone. Houveram tantas noites em que ela não voltou para casa. — Ele olhou para fora da janela. — Eu estava pronto para dizer alguma coisa para ela.


Não sobraram pratos para serem lavados, mas Rowan manteve as mãos na água de qualquer maneira. — Você disse algo para o FBI sobre isso? — ela perguntou. Ela tinha falado com Foley ontem. — Sim. Eu pensei que eles deveriam saber. — Oh. — Rowan engoliu em seco. — Você disse a eles... onde você estava naquela manhã? James pegou um prato e o enxugou — Eu não lhes disse onde eu acordei. Eu achei você não quisesse que eles soubessem. Rowan sentiu um nó na garganta. Mantendo os olhos na pia, ela balançou a cabeça levemente. — Sim. — Ela tentou soar forte e não afetada. — Quero dizer, afinal de contas, não é como se... significou alguma coisa. Ela não tinha dito à Foley também, simplesmente disse para a Agente que caminhava para o trabalho quando aconteceu. Ela pode não ter empurrado sua prima, mas Rowan mal se sentia inocente. Uma sirene soou do lado de fora. Rowan estremeceu, preocupada que poderia acordar as meninas, mas não havia sons de seus quartos. James pegou um pequeno pássaro de vidro na janela. Era uma lembrança da lua de mel de James e Poppy na Tailândia — eles haviam encontrado em sua suíte, e Poppy pensou que iria trazer-lhes boa sorte. Ele fez um pequeno ruído na parte de trás de sua garganta. — É tão horrível — disse ele com a voz embargada. — Como isso pode ter acontecido? O peito de Rowan estremeceu. — Eu não sei — ela sussurrou. Um copo de plástico com canudinho em uma cremalheira de metal ao lado da pia de repente tombou. Quando ela olhou para cima de novo, James estava discretamente olhando para ela do outro lado da pia. Ele respirou fundo, e então disse: — Como você está com tudo isso? O olhar de Rowan desviou imediatamente para o chão. — Você não devia pensar em mim em tudo isso. — Não devia? As palavras permaneceram no ar. As possibilidades se espalharam em tantas direções diferentes. Mas quando Rowan olhou em volta, tudo o que ela viu foi Poppy — sua coleção de cardápios de comida para viagem, taças de vinho e livros de receitas orgânicas. Fotos de Poppy, James e as meninas. Listas de compras e lembretes na familiar escrita de Poppy. — Eu deveria ir — ela deixou escapar, atravessando a cozinha em segundos. Ela alcançou a porta e começou a destrancá-la, lutando com o trinco. James, que havia seguido ela, inclinou-se e o fez facilmente. — Muito obrigado por ajudar com as crianças. — Sua voz falhou. Rowan pendurou a bolsa no ombro. — Claro. A qualquer hora. Ele retirou as mãos dos bolsos. Depois de um momento, ela encaminhouse para o corredor ricamente acarpetado. Peça pra eu ficar, ela desejou


silenciosamente, surpresa com a ferocidade de quanto, apesar de tudo, ela queria isso. Mas alguns segundos se passaram, e James não disse uma palavra. — Tudo bem — disse Rowan, sacudindo as mãos. — Vejo vocês em breve, James. — Vejo você em breve — disse ele em voz baixa. O elevador apitou e abriu. James ainda não havia fechado a porta, e Rowan ainda não conseguia fazer a pergunta. E assim que ela lhe deu um pequeno aceno desajeitado, ela entrou no elevador e caminhou até o fundo, em seguida, voltou para o seu apartamento, sozinha.


9 Traduzido por Manoel Alves

N

a quarta-feira de manhã, Aster, usando um vestido curto de renda com mangas sino, saiu de seu carro na Rua Hudson. Homens de ternos sob medida, carregando maletas de crocodilo, passavam ocupados, não lhe dando uma segunda olhada, mesmo que o vestido mostrasse suas pernas torneadas pelo Pilates. Havia no ar algo fresco e estranho, e tudo soava com um senso de propósito desconhecido. Aster percebeu por que tudo parecia não familiar: ela não tinha levantado tão cedo há anos. Todo mundo estava correndo para o trabalho — algo que ela nunca precisou fazer. Até hoje. Ela pisou na calçada, olhando furiosamente para as outras abelhas operárias que vão para seus escritórios. Ela olhou ao redor procurando os repórteres também. A polícia tinha acabado de divulgar os detalhes do assassinato de Poppy para a imprensa naquela manhã, e Aster sabia que não demoraria muito para que o circo começasse. Assassinato. Quando Aster fechava os olhos, ela ficava imaginando a cena grotesca de alguém invadindo o escritório de Poppy e empurrando-a sobre a sacada. Ela tentou não pensar nisso, mas seu cérebro continuava forçando a cena ainda mais, imaginando a espinha de Poppy exposta, quando ela bateu no chão, explodindo seus órgãos, seus belos olhos saindo das órbitas. Uma pessoa tão boa, tão bonita... destruída. Aquela mensagem no site permanecia com ela também. Uma Herdeira Caiu, Restam Quatro. E se alguém estava atrás delas, todas elas? Mas por quê? Por ciúme? E como a polícia não sabia quem estava comandando esse site? Tudo não era hackeável nos dias de hoje? Algo frio roçou o braço de Aster, e ela gritou e virou a tempo de ver alguém em um casacão desaparecer por uma porta de metal em um beco. Seu coração batia em seus ouvidos. Essa pessoa a tocara intencionalmente? Ela estava caminhando em torno de Manhattan com um alvo em suas costas? Quando seu telefone tocou com uma mensagem, ela pulou novamente. Mas era só Clarissa. Boa sorte hoje! ela dizia. Você está bem?


Claro que eu não estou bem, Aster pensou. Que coisa ridícula de perguntar. Mas em vez disso, ela apenas escreveu: Eu estou levando. Era doce da parte de Clarissa conferir como ela estava, pelo menos. Você tem uma pausa para o almoço? Clarissa respondeu. Poderíamos ir

no Pastis? O coração de Aster afundou. Poppy estava planejando levá-la ao Pastis hoje. Talvez, ela digitou de volta, no momento em que seu telefone começou a vibrar com uma chamada recebida. Ela franziu o cenho para o nome na tela — Corinne. Respirando fundo, ela atendeu. — Bem, você está acordada — disse Corinne, em uma voz entrecortada. Aster deu alguns passos em direção ao prédio da Saybrook. — Infelizmente. — Você já está no trabalho? Portanto, este era um lembrete maternal sobre a vinda para o trabalho. — Eu estou do lado de fora — Aster respondeu. — Tudo bem. Era só para ter certeza — disse Corinne, e Aster cerrou os dentes. — Eu deveria avisá-la — Corinne continuou, um outro telefone tocando discretamente em segundo plano. — O clima aqui está um pouco... estranho. — Estranho? — Aster olhou para o edifício de pedra que abrigava os negócios de sua família por quase 70 anos. O local onde Poppy tinha caído ainda estava bloqueado com fita amarela. Alguém tinha deixado flores do lado de fora. Tentando livrar-se da imagem do corpo quebrado de Poppy, ela empurrou as portas duplas — e congelou no lugar. O lobby estava repleto de oficiais do Departamento de Polícia de Nova York e cães policiais. Todo mundo parecia impassível, alerta, e muito nervoso. — Cristo — ela sussurrou ao telefone. — A polícia está mantendo os jornalistas longe do edifício, por enquanto. — A voz de Corinne era solene. — Mas é melhor se preparar para muito mais perguntas. — Ela suspirou. — Boa sorte hoje. — Obrigada — disse Aster, pega de surpresa pelo toque raro de Corinne de bondade. Ela desligou e se dirigiu para as catracas que levavam até o elevador, só para saber que ela não podia passar por eles sem um cartão de identificação. Aster não tinha ideia que seu escritório, que qualquer escritório, era tão seguro. Será que eles realmente achavam que as pessoas iriam tentar esgueirar-se para o trabalho? E como alguém poderia ter invadido ali para matar Poppy? — Está tudo bem, Srta. Saybrook — disse o segurança, examinando o seu cartão para deixá-la passar. — Eu vou fazer uma exceção para você. — Aster deulhe o melhor modelo de sorriso em agradecimento. Ele deve tê-la reconhecido a partir da campanha publicitária que ainda estava estampada em todos os lugares.


Ela entrou no elevador e seguiu até o oitavo andar, onde deveria se encontrar com o RH para que eles pudessem lhe dizer onde ela iria realmente trabalhar. — Aster? Danielle Gilchrist estava no hall de entrada, usando um vestido branco, verde e laranja de aparência cara. Seu cabelo vermelho caía em linha reta e brilhante em suas costas, e um amontoado de pulseiras grossas forravam seus braços. Por um momento, Aster perguntou-se, confusa, o que sua velha amiga estava fazendo ali. Então ela notou a pasta roxa e prata com o logotipo da Saybrook na frente. — Bem-vinda à família Saybrook! — Danielle exclamou. Claro, Aster lembrou instantaneamente. Mason havia conseguido um emprego para Danielle no RH da Saybrook, depois que ela se formou na Universidade de Nova York. O pensamento fez seu estômago revirar. — Eu já estou na família Saybrook — disse Aster, dando um passo para trás. Danielle encolheu-se por um momento, depois se recuperou. — Certo. É apenas uma figura de linguagem. — Ela girou nos calcanhares. — Bem, vamos lá. Poderíamos muito bem começar. Ela abriu a porta para uma grande sala de conferências, com vista para o Hudson. Nas paredes havia fotos de celebridades de Hollywood usando antigos diamantes da Saybrook. Aster permaneceu na porta, finalmente entendendo o que estava acontecendo. — Espere. Você vai me orientar? Danielle assentiu enquanto conectava ao computador e abria um PowerPoint. — Sim, é a política da empresa. Todo mundo tem que passar por orientação. Até mesmo um Saybrook. — Então ela sorriu. — Você estava no Badawi na outra noite, não foi? Eu amo aquele lugar. Aster fechou os olhos. Ela tinha evitado interagir com Danielle por tanto tempo. Ela virava para o outro lado se a via na rua, evitava as festas se Danielle estivesse na lista de convidados. Qualquer coisa para evitar pensar no verão. Mas, de uma só vez, ela foi afogada numa enchente de memórias. — Ei, Aster. — Uma Danielle Gilchrist, de treze anos, caminhou até Aster na praia em Meriweather. Aster sempre conhecera Danielle — ela era filha dos caseiros — mas neste verão ela estava diferente. — Tem algum Robitussin? — Por que eu iria andar com isso por aí? — perguntou Aster arrogantemente. — Porque ele lhe dá uma grande agitação — respondeu Danielle. — Você nunca experimentou? Agora foi a vez de Aster se sentir estúpida. Ela balançou a cabeça. Danielle se virou em direção à costa. Ela era bonita, Aster subitamente percebeu —


alta e magra, com longos cabelos ruivos e ondulados e olhos azuis. — Eu vou roubá-lo da farmácia, eu acho. Quer vir comigo? Elas tomaram Robitussin naquela noite, e Aster sentiu-se bêbada pela primeira vez. Elas sorrateiramente entraram no quarto de Corinne para ler seu diário, que era tão chato como elas pensavam que seria. — Ela é muito... organizada, não é? — perguntou Danielle, olhando ao redor do quarto metódico com um sorriso. Aster deu uma risadinha. — Você quer dizer obsessiva. — Era bom rir de sua irmã. Corinne poderia ser protetora de Aster quando era mais jovem, mas à medida que elas cresciam, ela havia começado constantemente a mandar nela. E não era como se Aster pudesse falar sobre Corinne com qualquer uma de suas primas. Danielle dormiu lá naquela noite, e na manhã seguinte ela estava escrevendo furiosamente em um diário. — O que você está fazendo? — perguntou Aster. — Eu sempre escrevo meus sonhos — disse Danielle em uma voz séria. — E então eu analiso os simbolismos. À medida que o verão avançava, Danielle apresentou Aster à vodca, trotes, a como obter uma identidade falsa através do correio. Elas passavam toda noite sussurrando segredos e piadas sujas e assistindo filmes franceses que faziam Aster corar. Elas foram ao Finchy, o bar do outro lado da ilha, e afirmaram serem irmãs, deixando caras mais velhos e desalinhados flertarem com elas e comprar doses de uísque, que desciam queimando por suas gargantas. Elas mantiveram contato no ano seguinte, enviando mensagens sobre os meninos que haviam beijado e festas as quais haviam comparecido, e os seus grandes planos para viver na Bleecker Street juntas quando completassem dezoito anos. Quando as duas entraram na NYU, se inscreveram para serem companheiras de quarto. Mas então a Saybrook precisou de um novo rosto para a sua marca, e Aster parecia ser a garota certa. Mason ficara entusiasmado com aquilo, o que foi suficiente para convencer Aster que, talvez, este fosse o seu caminho. Uma semana antes de ir à Europa, para as sessões de fotos, ela estava de volta a Meriweather com Danielle, na praia do lado de fora da propriedade. Danielle tomou um gole de vodca de limonada que Aster havia preparado para elas na cozinha de sua família. Então, ela disse: — Minha mãe me disse a coisa mais estranha hoje. Isso me fez pensar duas vezes. — O quê? — perguntou Aster, sem jeito. Ela sempre se sentiu desconfortável falando sobre os pais de Danielle. Eles brigavam constantemente e Aster podia ouvi-los gritando da propriedade, e neste verão as brigas haviam aumentado consideravelmente. Danielle estava certa de que eles estavam se encaminhado para o divórcio. — Só coisas estranhas — disse Danielle, traçando com o dedo do pé um caminho na areia.


— Venha para a Europa comigo — Aster deixou escapar. Por que ela não tinha pensado nisso antes? — Eu vou para Paris, Londres e Milão. Eu pago por tudo, apenas venha. Você poderia passar algum tempo longe daqui por um tempo. Os olhos de Danielle eram difíceis de ler por trás das sombras Gucci que Aster tinha comprado para ela. Ela girou o bracelete de diamantes, que Aster lhe dera como presente de aniversário, em torno do pulso. — Eu não sei. — Vamos — Aster implorou. — Podemos beber sangria na garrafa, flertar com homens europeus, se bronzear em Saint-Tropez... — Ela calou-se quando algo surgiu e um vulto chamou sua atenção. O pai de Aster estava de pé na beira do pátio, olhando para elas. Aster acenou, pensando que seu pai estava olhando para ela. Mas Mason parecia estar olhando além dela. Aster seguiu o olhar de novo e percebeu que na verdade ele não estava olhando para ela — ele estava olhando para Danielle. Ela se virou para a amiga e percebeu que Danielle estava usando nada além de um biquíni. Danielle tinha desatado a parte superior, enquanto elas estavam no bronzeamento, o tecido precariamente agarrado ao peito. Uma sensação de desconforto preencheu Aster. Mas no momento em que ela olhou para cima do pátio, Mason havia ido embora. Agora Danielle limpou a garganta. Aster acordou. O passado não importava mais; fora há muito tempo. — Vamos acabar com isso — disse ela levianamente, entrando na sala de conferências e se sentando. — Faça o que sabe. Danielle jogou a pasta sobre a mesa da sala de reuniões, em seguida, olhou para Aster como se quisesse dizer alguma coisa. Aster incisivamente se virou. Depois de um momento de silêncio constrangedor, Danielle limpou a garganta e começou a recitar um discurso sobre as políticas de funcionários da Saybrook. Em seguida, ela diminuiu as luzes, e um filme veio na tela. Uma música clássica tocava, enquanto as palavras “Saybrook: Um Legado de Família’’ apareciam. — Eu gostaria de levá-la através da ascensão do falecido Alfred Saybrook — a voz de Donald Sutherland entoou. — Seu pai, Monroe, abriu a Joalheria Saybrook & Browne em Boston, Massachusetts, em 1922. Era um estabelecimento local, principalmente negociando ouro. Monroe nunca teve planos de expansão. Então apareceu uma imagem da loja, que o bisavô de Aster abriu perto de Beacon Hill. A loja de 1920 era modesta, com uma cortina antiquada na janela e pequenos diamantes nas vitrines. Aster olhou para Danielle. — Eu já sei de tudo isso. — Seu avô costumava contar este conto o tempo todo. — Desculpe — Danielle murmurou, mas não parou o DVD. — Monroe morreu de tuberculose em 1938 — Sutherland continuou. — Alfred foi obrigado a tomar o seu lugar. — Em seguida, apareceu uma foto de


Alfred na frente da loja. Uma Edith muito jovem, provavelmente adolescente, estava ao lado dele. Mesmo que a foto fosse preta e branca, era claro que ela era loura, e que estava usando batom escuro. — Mas em pouco tempo, a Segunda Guerra Mundial começou, e Alfred bravamente se ofereceu para lutar. Na foto seguinte — a mesma foto que Mason mantinha em seu escritório — Alfred estava em um uniforme militar, ao lado de seu amigo Harold. — Edith manteve a loja funcionando nos Estados Unidos o melhor que pôde, mas os tempos eram difíceis, ninguém queria comprar diamantes durante a guerra. E então as coisas mudaram. Enquanto Alfred estava no exterior, ele encontrou...

Isso. Uma pedra amarela apareceu na tela. Sim, sim, Aster pensou. Não que ela não adorasse o gigante Diamante Corona amarelo canário que seu avô tinha encontrado em um bazar em Paris. Mas ela tinha praticamente saído do útero sabendo sobre ele. O vídeo passou a discutir como o Diamante Corona elevou a empresa a uma nova estratosfera. Alfred abriu uma loja na Quinta Avenida e escritórios no TriBeCa, fazendo crescer o negócio. Logo, os diamantes da Saybrook tornaram-se o lugar para anéis de noivado, alianças de aniversário e pulseiras. Celebridades ostentavam seus diamantes no tapete vermelho. Dignitários compravam joias para suas esposas. Houvera uma famosa foto de Jackie Kennedy usando um pingente Saybrook, em um baile presidencial, e uma citação sua, dizendo que a Saybrook era o único lugar que valia a pena comprar algo precioso. — A morte de Alfred Saybrook abalou a comunidade internacional de joias — disse a narração, mostrando uma foto de Alfred pouco antes de sua morte, cinco anos antes, vestindo seu terno preto, sua marca registrada, e pequenos óculos redondos. — Mas agora, o negócio é mais forte do que nunca, e a Saybrook se sustenta pelos princípios de Alfred de integridade, qualidade e profissionalismo. Em seguida, a tela ficou escura, e as luzes se acenderam. Danielle limpou a garganta. — Hum, eu espero que você tenha achado informativo. Aster olhou para ela. — Você está falando sério? — Eu sinto muito. Está no meu roteiro de RH. — Danielle passou a mão pelo cabelo vermelho longo, sua expressão ilegível. — Olha, eu sei que você não quer estar aqui, mas realmente é uma boa empresa para se trabalhar. E eu sinto muito por Poppy — ela acrescentou. Aster fez um pequeno ruído na parte de trás de sua garganta. — E eu ouvi falar... você sabe. — Os olhos de Danielle dispararam para trás. — Que pode ter sido um assassinato. Normalmente chego no trabalho cedo, mas eu tive uma intoxicação alimentar do dia... que aconteceu. Se eu estivesse aqui, talvez eu tivesse visto alguma coisa. — Quando Aster não respondeu, ela suspirou. — Eu espero que isso não tenha nada a ver com os problemas no trabalho...


Aster inclinou a cabeça, perguntando-se o que Danielle queria dizer. Mas ela não queria lhe dever nada, então deixou as coisas como estavam. — Então, aonde eu irei trabalhar mesmo? Danielle olhou para a papelada de Aster. — Grupo de clientes privados — disse ela, dirigindo-a para os elevadores. — É um cargo com a finalidade de fazer negócios com clientes de alta renda líquida à procura de peças de um único tipo. Você estará trabalhando para Elizabeth Cole. — Um olhar estranho cruzou o rosto de Danielle, mas Aster decidiu não perguntar sobre isso, também. A sala dos Clientes Privados era demarcada por portas duplas transparentes. No interior, a música era um pouco mais alta, e havia um carrinho de bar bem abastecido e várias taças de cristal no canto. Legal, Aster pensou, inspecionando as taças. Eles tinham Gim Hendrick, conhaque Delamain e três tipos de vodca. Aster avançou mais e começou a desapertar uma das tampas. Um pouco de álcool iria extravasar a tensão, já que estava sendo uma manhã muito louca. — Nem pense nisso. Uma mulher com cabelo louro-acinzentado, em um terno preto, estreitou os olhos cinzentos, marchando em direção a Aster. Havia algo familiar nela, Aster pensou. Ela provavelmente a conhecia de alguma festa da Saybrook. Ela conhecera a maioria das pessoas pela Saybrook, em algum ponto ou outro. — Acho que vou levar isso também. — Ela arrancou o iPhone da mão de Aster. — Ei! — Aster protestou. — Sem celulares no trabalho. — A mulher começou a voltar para o que deveria ser seu escritório. — Eu também não tolero perfumes excessivamente fortes, sair mais cedo por qualquer motivo, ou roupas como essa. — Ela encarou o vestido de renda de Aster, fixando-se em sua curta bainha. Aster puxou os joelhos juntos. — É um Valentino. A mulher olhou para ela. — Eu sou Elizabeth Cole. A partir de hoje, você trabalhará para mim, e eu não me importo qual seja seu sobrenome. Elizabeth marchou para um grande escritório decorado em branco e cinza, com linhas limpas e ângulos agudos. Três paredes estavam cobertas com fotos dela posando com vários clientes de alto nível, a maioria empresários que Aster não reconheceu, mas também com Steven Tyler e Beyoncé. Dramáticas janelas, que iam do chão ao teto por trás do balcão, exibiam o rio Hudson, que estava cinza agora, sob um céu nublado. Combinava com o humor de Aster perfeitamente. Elizabeth pousou uma pilha de papéis, pegou uma garrafa de café, e apontou para o rosto de Aster. — Café com leite diet, sem espuma, e um muffin sem glúten da padaria na esquina da Greenwich e Harrison. Aster olhou para a caneca. — Você quer que eu pegue um café para você?


A testa de Elizabeth franziu. — Há um monte de meninas qualificadas que realmente querem esta posição. Não socialites com papais que lhes arrumam empregos. Se você não está aqui para trabalhar, por favor, retire-se. Aster não queria nada mais do que ir para casa e passar o resto de sua vida sob o edredom Frette. Mas algo a impedia de se mover. Ela já estava aqui. Ela tinha se levantado cedo, enfrentado as memórias dolorosas de Poppy e a aparição surpresa de Danielle Gilchrist, e ela ainda estava de pé. Ela pensou em Poppy, que tinha tanta certeza que ela teria sucesso. — Você é inteligente, Aster — Poppy tinha dito depois que Mason a demitiu. — Mais esperta do que você pensa. Você pode fazer grandes coisas, eu sei disso. — Eu vou ficar — disse Aster com firmeza. Elizabeth levantou as sobrancelhas e ofereceu um aceno rápido. — Tudo bem. — Então ela se virou, passando por Aster, e caminhou pelo corredor novamente. Na metade do caminho, ela virou para trás e olhou para ela. — Você vem? Aster piscou confusa, segurando a garrafa. — E o seu café? — Depois — Elizabeth estalou. Ela levou Aster para um pequeno cubículo com uma mesa baixa e um computador empoeirado. Um cara alto, magro, com cabelo despenteado e óculos no estilo Clark Kent estava digitando algo e apertando os olhos para o monitor. Aster se perguntou se ela teria que sentar no colo dele. Elizabeth olhou com raiva para ele. — Você não terminou ainda, Mitch? O cara moveu-se para frente na cadeira. — O servidor está agindo estranho de novo. Elizabeth levou a mão à testa, em seguida, olhou para Aster. — Bem, quando ele terminar, eu quero que você comece com isso. — Ela apontou para uma grande pilha de papéis sobre a borda da mesa de Aster. Aster levantou a folha de rosto e olhou para uma página. Era uma lista de nomes, endereços, números de telefone e outras informações pertinentes. — O que é isso? — A nossa lista de clientes. Eu vou precisar que você a digitalize manualmente no Excel. — Ela franziu a testa para o olhar vazio de Aster. — Você sabe como usar o Excel, certo? — É claro que ela sabe — disse o cara da TI rapidamente. Aster virou e olhou para ele. Ela nunca tinha realmente usado o Excel, mas ela sabia que não devia admitir isso agora. Elizabeth marchou de volta para o corredor. — Não vá ao meu escritório quando eu não estiver lá. E nunca me ligue. Só mensagens instantâneas, entendeu? Aster piscou. — Perdão? Elizabeth suspirou. — Mitch, por favor, explique para a herdeira como um computador funciona. — Então ela olhou ameaçadoramente para Aster. —


Meninas como você sempre têm o que merecem, no final — ela acrescentou antes de virar-lhe as costas. Aster estremeceu com o som de sua porta batendo no corredor. — Uau. Ela bancou uma vilã da Disney para cima de você. — Mitch, o cara da TI, se virou e encarou Aster. Ele tinha olhos castanhos, cabelo loiro, e uma protuberância fofa na ponta do nariz. Ao contrário de todos os outros na Saybrook, ele usava tênis Vans e nenhuma gravata. — Espera, eu sei quem é você! — Aster exclamou. — Eu o conheci na festa de Natal do ano passado, não foi? — A festa de Natal da empresa geralmente era chata, mas Aster lembrou que no ano passado ela flertou com um geek bonito. Este geek bonito. — Boa memória. — Os olhos de Mitch se iluminaram. — Bem-vinda à empresa. E — ele fez uma pausa para tossir em seu punho, — eu sinto muito pela sua prima. Ela era muito querida por aqui. — Você a conhecia? — Um pouco. — Mitch deu de ombros. — Ela era legal comigo. Algumas pessoas caçoam os caras da tecnologia. — Ele inclinou a cabeça, desviou o olhar e apontou dramaticamente para a porta do escritório de Elizabeth. Aster folheou os papéis sobre a borda de sua mesa. A pilha era mais grossa do que uma lista telefônica — Eu faço isso antes de levar o café, ou depois? — Definitivamente pegue o café primeiro. Essa inserção de dados no computador levará dias. — Mitch se aproximou. — O Excel é um programa de planilha, por sinal. Não é difícil de entender. Eu posso ajudar, se quiser. — Obrigada — disse Aster, tentando sorrir. Mas ela sentiu lágrimas no canto dos olhos. Ela estava tão fora da sua zona de conforto. — Ei. — Mitch aproximou-se mais. Ele cheirava a detergente e limão. — Você vai ficar bem. Sério, eu posso ajudar com qualquer coisa técnica. Eu sou muito bom com essas coisas — ele acrescentou timidamente. — Eu vou manter isso em mente. — Aster respirou fundo e virou-se para o corredor. — Ok, estou indo pegar o café. — Boa sorte — Mitch disse atrás dela. Aster suspirou. Ela tinha a sensação de que iria precisar. Meia hora e um derramamento de café depois, Aster correu de volta para o edifício Saybrook, até o nono andar. Não havia uma padaria na Greenwich e Harrison, mas Aster tinha encontrado uma na Greenwich e King que parecia ser boa. Ela esperava que fosse a que Elizabeth mencionou. Ela bateu na porta do escritório de Elizabeth e, quando ninguém respondeu, ela timidamente a abriu. O escritório estava vazio. Ela rapidamente colocou o café com leite e o bolo sobre a mesa e, no instante que se virava para sair, uma imagem na estante de Elizabeth chamou sua atenção. Era uma foto


emoldurada de Elizabeth em um vestido de casamento, o que parecia estranho, uma vez que Aster podia jurar que ela não estava usando uma aliança antes. Ela deu um passo à frente para examinar a foto mais de perto. Elizabeth parecia muito mais jovem, sua pele suave e os olhos também. Ao lado dela estava o noivo, um homem alto, de cabelo escuro penteado para trás, um sorriso travesso, e ombros largos. O sangue de Aster se transformou em gelo. Ela conhecia aquele homem. Era Steven Barnett. Era por isso que Elizabeth parecia familiar. Aster sempre soube que Steven era casado, com alguém chamado Betsy... Que era, é claro, um apelido para Elizabeth. Elizabeth — Betsy — certamente fora na festa de fim de ano há cinco anos também. Aquela em que ele tinha morrido. Aquela em que ele foi visto pela última vez sozinho na praia com Aster. — Ahã. O que eu disse sobre vir ao meu escritório quando eu não estiver aqui? Elizabeth estava atrás de Aster na porta, olhando. Aster rapidamente deu um passo atrás. — Hum, eu sinto muito — ela murmurou, e voltou-se desajeitadamente em seu calcanhar, mas não antes de ela ver os olhos de Elizabeth fitando a foto de casamento. Quando ela correu pelo corredor, ela jurou que ouviu Elizabeth emitindo uma risada suavemente atrás dela.


10 Traduzido por Manoel Alves

A

pós o trabalho, alguns dias depois, Corinne se sentou no sofá Luís XIV na sala de estar de seu apartamento no Upper East Side. O sofá era uma peça de época com entalhes nos braços e pernas e com estofamento de pelo de camelo totalmente novo, mas não era totalmente confortável. Ele viera da bisavó de Dixon, que havia estado na nobreza francesa e quem a família chamava de grand-mère. Muitas das outras cadeiras e sofás na sala grande vieram do lado Saybrook, juntamente com um tesouro de lâmpadas Tiffany, gravuras botânicas, uma aquarela Monet, e uma vasta coleção valiosa de porcelana e vidro. Dixon queria uma foto do rancho no Texas de sua família na sala também, mas o decorador de Corinne, Yves, tinha insistido que a pintura iria arruinar o ambiente do século XIX da sala. Evan Pierce se sentou em frente a ela, uma grande pasta de couro no colo. — Então, teremos hortênsias e peônias para o altar — ela repetiu. — Isso mesmo — respondeu Corinne, cruzando as pernas nuas, que pareciam pálidas e com celulite em contraponto das finas e suaves de Evan. — E eu quero adicionar lírios às mesas. — As favoritas de Poppy. — Evan suspirou, colocando uma mecha preta atrás da orelha e escrevendo no livro em sua caligrafia espetada. Apesar da amizade de Poppy e Evan ter sido algo que ela nunca entendeu muito bem, Corinne encontrou conforto em saber que Evan havia sido próxima de Poppy também. Hoje Evan usava um grande anel de platina com uma enorme pedra ônix. Corinne se perguntou quem tinha dado a ela. Ela se perguntou muito sobre Evan, na verdade. Ela imaginou seu apartamento como um set de filmagem do futuro, todas as linhas brancas e duras. E qual era a sensação de estar solteira tantas vezes? Evan namorava muito, tipicamente homens mais velhos com um monte de dinheiro, mas era geralmente Evan que terminava as coisas. E havia algo na maneira que Evan se movia, furtiva como um gato, que fez Corinne achar que ela era uma amante voraz. — E você irá escolher o vinho hoje à noite? — disse Evan, ainda olhando para a sua lista. — O chef do Coxswain irá encontrá-la lá.


O estômago de Corinne deu uma guinada. Evan tinha arranjado uma degustação no St. Regis, onde Will era amigável com o sommelier mestre. — Esse é o plano — disse Corinne tremulamente, depois limpou a garganta. — Na verdade, eu estava querendo saber por que você escolheu o Coxswain. Evan franziu o cenho. — É um restaurante renomado. Eu pensei que você ficaria satisfeita. — Eu estou — disse Corinne rapidamente. — Eu só... Ela parou. Que diabos ela poderia dizer? Eu não quero usar este restaurante porque eu tive um caso secreto há cinco anos com o chef? Não era como se Evan soubesse. Poppy nunca teria dito a ela o que aconteceu. Dixon entrou na sala, de banho tomado do ginásio e com uma toalha branca macia pendurada nos ombros. Sua pele cheirava a produtos masculinos Kiehl, e seu cabelo estava escovado de seu rosto. — Ei, senhoritas encantadoras — ele sussurrou. — Estou de saída — disse Evan, se levantado em um salto. Ela beijou o rosto de Corinne, então o de Dixon, e caminhou em direção ao foyer. Em momentos, a porta da frente bateu. Dixon abriu o console de mídia e pegou o controle remoto de dentro. Após a verificação dos mercados na CNBC, ele mudou para o Campeonato de Pôquer, que era o seu programa favorito desde seus dias de fraternidade. — Então, escuta. Eu realmente sinto muito, mas não posso ir para a degustação de hoje à noite. Corinne olhou para ele. — O quê? Por quê? — Uma das nossas ofertas foi para o sul. Eu tenho que fazer algumas ligações, apagar alguns incêndios. Seus pensamentos se dispersaram como bolas de gude. — Não é possível que outra pessoa faça isso? — Ela queria que Dixon fosse para servir como uma proteção em relação à Will. Ela precisava que ele fosse. Dixon parecia despedaçado. — Querida, me desculpe, mas eu vou reparar isso com você. Qual é o próximo compromisso? Florista? Designer? Eu vou testar o seu vestido para você, se você quiser. — Eu já fiz a minha prova final. — Corinne fez beicinho, não querendo brincar logo em seguida. Ela quase pensou que poderia chorar. Ela não poderia fazer aquilo sozinha. Ela simplesmente não podia. E pior, ela não conseguia nem explicar para Dixon por que ela não podia. Dixon inspecionou o rosto dela. — Qual é o problema? Corinne apertou os lábios com força. Talvez ela pudesse lhe dizer. Isso já havia acontecido há muito tempo; certamente ele tivera os casos dele durante aquele ano, também. Mas dizer-lhe significaria explicar todo o resto?


— Por que você terminou comigo naquele verão? — ela desabafou. Então ela piscou, surpresa que tinha saído de sua boca. Dixon baixou o remoto. — De onde veio isso? Corinne manteve os olhos no tapete. — Bem, eu só estava me perguntando. Nós nunca conversamos sobre isso, e estamos prestes a nos casar. Ela sabia o que estava fazendo. Vê Will tinha mexido em um monte de memórias, a maioria delas desagradáveis. Ela queria encontrar uma maneira de reescrever a história, torcer as coisas até que Dixon fosse o responsável por tudo o que deu errado. Se ele não tivesse terminado comigo, eu nunca teria conhecido

Will. Se ele tivesse respondido meus telefonemas, a minha vida não teria mudado tão descontroladamente de curso. Não era justo. Ela sabia disso. O que ela tinha feito com Will tinha sido sua decisão — incluindo as consequências. Dixon esticou os braços atrás da cabeça. — Eu não sei se vale a pena falar sobre isso, para ser honesto. — Tudo bem — ela disse com altivez, e mergulhou a mão na sua bolsa para pegar sua caderneta de couro Mrs. John L. Strong — ela precisava introduzir os novos compromissos que ela e Evan tinham acabado de discutir. Ela ainda não tinha tido a chance de escrever sobre o teste de hoje, e ela sabia que algo iria cair através das rachaduras se ela não anotasse em breve. Mas a caderneta não estava lá. O olhar de Corinne esquadrinhou a sala — talvez ela tivesse deixado sobre a mesinha no canto? Mas quando ela foi até ela, o livro não estava lá, também. Ela franziu a testa e olhou para Dixon. — Você viu o meu diário? — Você tem um diário? — Dixon parecia divertido. — Margaret esteve aqui esta manhã? — Sua faxineira era meticulosa em colocar tudo em seu devido lugar. Dixon balançou a cabeça. — Eu acho que não. Que estranho — ela nunca perdia as coisas. Mas talvez ela tivesse deixado ele no trabalho. — Eu devo estar perdendo a cabeça — ela murmurou. Dixon deu de ombros. — Eu entendo... — disse ele, com um sorriso brincalhão. Ela deu a Dixon uma olhada cansada. — Vejo você em breve — disse ela, em seguida, foi para o corredor. Mais tarde naquela noite, enquanto a umidade incomum para maio começou a mudar, Corinne passou correndo pelas lojas no Rockefeller Center em direção ao hotel St. Regis. A calçada estava cheia de turistas, um concerto ao ar livre estava ocorrendo em algumas ruas, e o ar cheirava a frutos do mar frescos do restaurante na pista de patinação no Rockefeller. Ela olhou para seu reflexo nas janelas da 30 Rock e franziu a testa. Talvez ela não devesse ter usado uma saia curta. Pelo menos ela tinha vestido um suéter. Em seguida, ela se perguntou se


estava pensando muito sobre tudo isso. Ela não deveria ter se trocado. Ela estava indo para uma degustação de vinhos do seu casamento, não indo a um encontro. — Corinne! Natasha estava do outro lado da J. Crew. Ela estava vestida com calças de ioga, um saco de lona impresso com um tigre pendurado no ombro. Seu cabelo escuro estava preso em um rabo de cavalo, e seu bonito rosto estava livre de maquiagem. Corinne piscou, procurando uma fuga, mas Natasha vinha tão rápido que não deu tempo. — Como você está? — perguntou ela, beijando cada bochecha de Natasha no ar, com sinceridade. — Oh, simplesmente fantástica. Você? — Natasha perguntou, embora ela não tenha esperado pela resposta. — Você está indo para uma degustação de vinhos, certo? — Como é? — disse Corinne. Todo o som sumiu, até mesmo o alto zumbido do baixo que vinha do concerto. — Como você sabe disso? — perguntou Corinne, trêmula. O sorriso ainda estava no rosto de Natasha quando ela pegou o telefone e colocou no Abençoados e Amaldiçoados. — Como uma Herdeira Planeja um Casamento — dizia o título. A primeira imagem era a capa de couro de um diário. Corinne rolou para baixo, seus olhos ampliando-se cada vez mais. Cada imagem era uma página de seu diário. Havia listas de reuniões com a florista e o padeiro; pontos de negócio para um novo escritório em Bangkok; o número do celular da sua esteticista. Havia coisas pessoais também. Como a palavra Lexapro com um ponto de interrogação ao lado — sua terapeuta havia sugerido que ela tentasse por causa da ansiedade. Havia até mesmo listas do que ela comeu em um determinado dia, e uma mensagem que dizia “Treino de Pilates Três Vezes Esta Semana!” escrito em caneta vermelha. E no último dia, hoje, as palavras “Degustação de Vinho, 08:00h” estavam azuis. Corinne quase deixou cair o telefone. Era sua caligrafia, mas ela não tinha escrito as palavras ainda. Como tinham imitado tão perfeitamente a letra dela? Ou como havia dito Dixon: Ela estava realmente perdendo a cabeça? — Está tudo bem? — Natasha observou-a com atenção. A realidade caindo sobre seu rosto. — Oh, meu Deus. Deanna não arranjou que as páginas estivessem nesse site, não foi? Corinne fechou os olhos, odiando que Natasha, de todas as pessoas, estivesse testemunhando a reação dela. — Não — ela admitiu. — Mas está tudo bem. — Esses animais. Eles não se cansam de nós? — Mas havia uma cadência estranha na voz de Natasha, quase como se ela estivesse se divertindo. — De qualquer forma, eu tenho que ir. Divirta-se na degustação! E eu vou vê-la na


próxima semana para a despedida de solteira — ela gritou, sendo arrastada pela multidão. Corinne piscou. Vá para casa, disse uma voz em sua mente. Parecia como um prenúncio sinistro do que estava por vir. Ela deveria apenas ter ficado na cama, puxado as cobertas sobre a cabeça, e esperado para acordar casada. Mas ela virou para o leste, passando pela Quinta Avenida para o St. Regis. Ela respirou fundo quando empurrou as portas duplas douradas no lobby brilhante. Quando ela avistou Will esperando por ela na entrada, ela baixou os olhos e contou os quadrados do tabuleiro de damas no chão enquanto atravessava a sala. Seu coração batia forte. — Desculpe o atraso — disse ela a Will quando se aproximou, tentando não olhar diretamente para ele. Ele parecia tão bonito como sempre. Muito bonito. Will olhou para trás dela. — Onde está o seu noivo? — Ele disse “noivo” da mesma forma que alguém poderia dizer “molestador infantil”. Corinne engoliu em seco. — Teve um imprevisto. — Infelizmente, ela queria acrescentar. — Sem problemas — ele disse a ela suavemente — e um pouco impessoal. Eles começaram a descer um lance de escadas atapetadas, passando pelo Bar King Cole, onde Corinne havia passado horas incontáveis com Dixon e seus amigos, e então para mais abaixo para outro lance de escadas, onde eles entraram em uma pequena sala privada iluminada por centenas de velas tremeluzentes. Cremalheiras do vinho Oak cobriam as paredes em torno deles, e o lugar tinha um cheiro de uvas e azeite e um toque de fumaça de charuto. Havia um bar criado no final da sala; duas cadeiras vazias. Will olhou para Corinne. — Bem-vinda à sua degustação privada. — Ele deslizou para um dos bancos. — Eu acho que já que Dixon não pode fazê-lo, eu vou ajudá-la. Corinne sorriu nervosamente para um homem que saiu de dentro da adega. Ele cumprimentou Will com um abraço feroz e apertou a mão de Corinne. — Andrew Sparks. Eu sou o sommelier do hotel. Ele começou a olhar para o menu, que Will tinha selecionado para Corinne e Dixon, e desapareceu de volta para a adega para pegar algumas garrafas. Seu corpo desapareceu no abismo de vinhos, e Corinne tentou ao máximo evitar que seu pé tremesse. Will olhou para ela. — Estou feliz que você aprovou o menu. Corinne engoliu sem jeito. — Sim. Acho que vai ser muito bom. — Pelo menos, ele não está me congelando, ela pensou. Ela não sabia o que esperar, mas depois de sua frieza no restaurante, talvez isso. Andrew reapareceu e começou a derramar pequenos copos para cada um deles degustar uma variedade de vinhos tintos, brancos, rosés de acordo com cada


prato no menu. Corinne bebeu o primeiro copo, um chardonnay frutado, em seguida, tomou outro gole. Ela podia sentir os olhos de Will sobre ela novamente. Seu olhar deslizou para um copo pequeno no lado da mesa que servia para cuspir os sabores. Mas depois de seu encontro com Natasha — e de enfrentar este passado há muito esquecido — ela precisava de uma bebida. Ela pegou o copo e bebeu rapidamente o resto. — Este é adorável — disse ela, enquanto colocava o copo vazio sobre a mesa, já se sentindo mais leve. Will riu. — Dia longo? — Às vezes parece que tem durado décadas — disse Corinne, surpreendendo a si mesma. Ela perguntou-se como um pensamento tão honesto tinha escapado de seus lábios. Will mudou de posição no banco. — Fiquei triste ao ouvir sobre a sua prima. Nós só nos encontramos algumas vezes, mas eu me lembro que vocês eram próximas. Então. Lá estava ele. Corinne sentiu o nó dentro dela desfraldar no peito. É claro que o verão não era um segredo para qualquer um deles, mas ao ouvi-lo reconhecê-lo, ela de alguma forma sentiu como se um grande peso tivesse sido tirado de seus ombros. Então ela imaginou Poppy, dançando com um dos amigos de Will na noite em que eles se encontraram, nunca se importando com o que alguém pensasse dela, e ainda de alguma forma fazendo com que todos pensassem somente as melhores coisas. — Obrigada — disse ela em voz baixa, um pouco mais calma. Tudo vai ficar bem, ela disse a si mesma. Apenas respire. Apenas enfrente isso. Em seguida, eles testaram um tinto da região de Lagrein, em seguida, um Barolo inebriante, seguido de alguns vinhos de sobremesa. Em pouco tempo, a postura de Corinne não estava tão rígida, e ela não estava enxugando a boca depois de cada gole. Ela olhou para Will, que estava conversando animadamente com Andrew, firmando as suas escolhas finais. Um inesperado sentimento sensual a encheu. De repente, ela quase podia sentir a areia fria entre os dedos dos seus pés, a água salgada revestindo sua pele, a primeira noite que eles se conheceram. E agora, quando ela olhou para os sensuais lábios rosa de Will, ela lembrou-se claramente o que se sentiu quando o beijou. Andrew deu um beijo de boa noite em ambas as faces, e depois os deixou com as garrafas inacabadas. Em pouco tempo eles se serviram de mais um copo. Em seguida, outro. A cabeça de Corinne estava nadando; ela se sentia como se estivesse flutuando. E embora ela soubesse que deveria ir para casa, ela não conseguia que seu corpo levantasse daquele banco. Will se virou para ela e sorriu. — Você trabalha na Saybrook, não é? — Sim — disse Corinne, tentando permanecer equilibrada. — Eu sou a chefe de negócios estrangeiros.


— A chefe. — Will não parecia surpreso. — Claro que você é. Corinne baixou os olhos, sentindo como se ela tivesse sido muito arrogante. — Bem, mas ajuda se o seu sobrenome está no papel timbrado. — Não faça isso. — Ele pegou a mão dela, e a força disso a surpreendeu. — Tenho certeza de que você merece o cargo. Que é bom para você. Já pensou em trabalhar em outro lugar? Corinne piscou. — Eu realmente nunca pensei nisso. — Sério? Nunca? Ela foi transportada de volta para o verão mais uma vez. Não muito tempo depois deles se beijaram na areia, Will tinha encontrado Corinne novamente quando ela estava fazendo compras na cidade. Ele olhou para ela do outro lado da rua, e, em seguida, se aproximou e colocou uma nota em sua mão. — O estaleiro em Carson e Main. Meia-noite — dizia. Tinha sido uma noite quente e pegajosa. Corinne ficara sozinha nas docas, em uma saia longa e sandálias de couro caríssimas. Mas, então, Will apareceu através da névoa e pegou a mão dela, levando-a a um pequeno barco de pesca no meio do estaleiro. Corinne não havia perguntado de quem era o barco; ela ainda não tinha pensado sobre isso. Ela sentou-se no casco. E então, em vez de beijá-la, ele tocou as chaves da casa de Corinne. O chaveiro era do Iate Clube Meriweather. — Você tem um barco? — Só da minha família. — Ele não era apenas um barco, exatamente — era um iate enorme que abrigava doze pessoas — mas ela esperava que ele não soubesse disso. Ele tinha sido tão cuidadoso com seus tênis perto da água, com medo de molhá-los, enquanto Corinne, que estava usando sandálias de quinhentos dólares, esquecera-se completamente. — Claro. Da sua família — disse Will. Corinne percebeu seu olhar. Não era uma surpresa que ele soubesse sobre sua família; o que a surpreendeu, no entanto, foi que ele pareceu se importar. — Eu sinto muito. Eu não quis fazer perguntas sobre a sua família. Eu não quero saber quem eles são. Eu quero saber quem é você. A verdadeira você. A verdadeira você. Foi um conceito que ela não entendera muito bem. Havia os fundamentos óbvios. Eu sou Corinne Saybrook. Eu fui para um colégio

interno em Exeter. Eu tinha uma média de 3,87 em Yale. Eu gosto de jogar hóquei, lacrosse, e andar a cavalo; passo os verões em Meriweather e vou para Portofino ou St. Barts durante as férias de primavera. Eu li todos os livros de Jane Austen duas vezes. Eu acabei de romper com Dixon Shackelford e, a partir do próximo mês, vou trabalhar no departamento de negócios estrangeiros da empresa da minha família. E ela disse tudo aquilo — até mesmo a parte sobre Dixon. Will lhe de um olhar inquisitivo. — Isso soa como um currículo. Você é mais do que isso.


Será que ela era? Mas, de repente ela viu-se dizendo-lhe coisas que ninguém mais sabia. Ela lhe disse que seu professor do primeiro grau tinha algo por ela, por algum motivo — e ela nunca soubera o porquê — ainda assim, Corinne sempre contou aos pais que era animal de estimação do professor. Ela falou sobre como sua mãe costumava fazê-la andar por aí com um livro sobre a cabeça e a fazia ir a todos os eventos de caridade na cidade, mesmo que as outras meninas não fossem muito simpáticas com ela. Ela falou sobre como seu pai parecia preferir Aster. Ela ainda admitiu que havia rumores de que sua irmã estava se metendo em confusão na Europa, e disse-lhe como estava preocupada com ela. Mas com raiva também. Ela não tinha certeza por que ela disse tudo aquilo para Will. Mas ela o fez, e naquela noite um pensamento flutuou em sua mente, espontaneamente. Eu já te amo, algo profundo dentro dela tinha sussurrado. Agora, ela olhou através do bar para Will. Ele ainda estava olhando para ela. — Eu nunca pensei em me ramificar, porque nunca senti que me permitiriam — disse ela, abrindo as comportas confessionais novamente. — Eu sempre fui uma boa menina. Eu sempre fiz o que meus pais pediram. Isso significava trabalhar para a família. Isso significava ir às escolas certas, usar as roupas certas e se casar... — ela parou. — O quê? — Will perguntou, inclinando a cabeça. Corinne olhou para baixo. — Casar bem — ela admitiu. Will olhou para ela, e por um longo tempo ele ficou em silêncio. Em seguida, seus dedos tatearam seu copo. — Me desculpe, eu fui frio com você no outro dia — disse ele, sua voz aprofundando-se no frio. — E isso pode me fazer parecer um idiota, mas você nunca mais terá que lidar comigo novamente depois de hoje à noite, então eu posso muito bem dizer isso. — Seus lábios tremeram por um instante. O coração de Corinne começou a bater forte. — A vida é muito curta para se preocupar em se casar bem. Ela agarrou sua taça de vinho. Ela queria defender Dixon, mas, de repente, Dixon parecia muito longe. Corinne não podia sequer imaginar o seu rosto, a forma de seus olhos, se ele tinha covinhas, o jeito que ele cheirava. Por outro lado, ela fez uma imagem mental de todos os contornos do rosto e do corpo de Will por cinco anos. Ela poderia tê-lo desenhado perfeitamente, se alguém tivesse perguntado. Talvez isso significasse alguma coisa; se você ainda pode desenhar alguém quando ele se foi. Se você lembra dele perfeitamente. Se você fosse o espelho dele, mesmo depois que muito tempo tinha passado... Ela esfregou as palmas das mãos contra os olhos, manchando a maquiagem. O que ela estava pensando? Ela fechou um guardanapo em suas mãos e se levantou. — Eu acho que eu bebi muito. Eu devo estar horrível. Will levantou também. — Você está maravilhosa.


Ele colocou a mão em seu braço. Sua cabeça zumbia. E, de repente, era como se ela tivesse flutuado para fora de seu corpo e estivesse observando de cima, em alguma outra dimensão. Ela imaginou-se sentada na primeira fila de um teatro, Poppy ao lado dela, com as mãos em uma bacia de pipoca, a sua boca aberta, enquanto Corinne estendia a mão para Will, puxando-o para ela. Ele jogou-se nela, sua boca avidamente procurando-a. Batendo um contra o outro, eles saíram da sala privada para uma das adegas, um espaço seco e escuro. Will colocou Corinne para baixo e olhou para ela. Ele abriu a boca, como se quisesse dizer algo, mas ela a cobriu. Ele agarrou o cós da saia dela desesperadamente. A noite no barco voltou para ela mais uma vez. Depois de Corinne ter lhe dito todos os seus segredos, ele a levou em seus braços. Era quase como se algo estivesse inchando dentro dela e se não acontecesse logo, nesse momento, ela iria estourar. Na adega, Will beijou seu pescoço quando ele arrancou o suéter dela, e ela arqueou as costas contra o chão surpreendentemente frio. Ele empurrou a saia em torno de sua cintura. E então eles respiraram um no outro, suas bocas com gosto de vinho. — Oh, meu Deus — Will ficava dizendo, de vez em quando fazendo uma pausa para olhar para ela. Lágrimas formaram-se nos olhos de Corinne, embora ela não estivesse triste. Era só que ela se lembrou de Will fazendo a mesma coisa na primeira vez que eles estavam juntos. Olhando para ela assim, como se não pudesse acreditar que aquilo estava acontecendo. Na primeira noite, o barco tinha sacudido com seus movimentos. Seus sons ecoaram através da baía. Corinne nunca se sentiu particularmente entusiasmada pelo sexo, mas com Will em cima dela, coberta por um dossel de estrelas, algo aconteceu. Algo que a fez se sentir muito diferente. Um alinhamento dos planetas, talvez. Um big bang, criando um universo. E esse era problema. Eles tinham, na verdade, criado algo naquela noite. Eles haviam criado alguém.


11 Traduzido por Matheus Martins

R

owan estava sentada em sua mesa às sete horas na quarta-feira à noite, olhando com os olhos turvos um contrato em sua tela. Ainda estava claro lá fora, as horas ao anoitecer se alongavam mais e mais como se eles estivessem em maio. Alguns telefones tocavam em cubículos do lado de fora de seu escritório. De vez em quando, um assistente jurídico ou um assistente passava, mas as maiorias das pessoas estavam se arrumando para sair. Ela olhou para a tela de novo, prestes a abrir um documento diferente. Mas então o cursor começou a derivar em direção ao canto inferior direito do seu monitor, embora ela não tivesse tocado o mouse. Rowan endireitou-se e virou a cadeira para trás alguns centímetros. Ela observou que a pequena seta lentamente migrou para o ícone do Windows no canto inferior esquerdo. — Olá? — ela gritou, mas para quem ela não tinha certeza. Como aquilo tinha acontecido? Houve uma tosse no corredor, em seguida, um pequeno conjunto de arrastar de passos. — O-olá? — Rowan chamou, se levantando um pouco. O escritório de repente estava muito quieto, muito vazio. — Tem alguém aí? Rowan saltou quando Danielle Gilchrist enfiou a cabeça, o rosto cheio de preocupação. — Oh meu Deus, eu não queria te assustar. Rowan alisou o cabelo dela. — Eu estou bem. O que está acontecendo? — Ela ofereceu um sorriso vacilante, olhando os longos cabelos ruivos de Danielle e seu vestido preto e rosa de lã de aparência moderna. Ela e Danielle trabalhavam juntas de vez em quando — como assessoras jurídicas, Rowan ocasionalmente teve de aconselhá-la sobre contratações e incêndios. Danielle verificou por cima do ombro, em seguida, entrou no cubículo e fechou a porta. — Algo vem, tipo, passando pela minha cabeça. — Sente-se — disse Rowan, apontando para o sofá em frente a sua mesa.


Danielle empoleirou-se em cima de uma almofada e cruzou as mãos no colo, um olhar conflituoso em seu rosto. Alguns momentos se passaram antes que ela falasse. — Eu tenho pensado muito sobre o assassinato de Poppy, e em quem poderia querer machucá-la... e eu tinha esse pensamento. Algo que eu não tenho certeza que o FBI saiba a respeito. Uma onda de choque percorreu Rowan. — O que você quer dizer? Danielle respirou fundo. — Eu costumava ser amiga da assistente de Poppy, Shoshanna. Você se lembra dela, não é? Ela, basicamente, gerenciava a vida de Poppy? Eu a contratei. Ela foi altamente recomendada. — Claro — disse Rowan. Muitas vezes ela entrou no escritório de Poppy quando Shoshanna, uma menina magricela com cabelo preto encaracolado, um rosto comprido e uma predileção por vestidos baby-doll, instruía Poppy sobre uma coisa ou outra. — Ela deixou a empresa há alguns meses atrás, certo? Para a De Beers? — Isso. Ela teve uma grande oferta no departamento RP, melhor do que qualquer um poderia igualar. — Danielle limpou a garganta. — Antes de sair, porém, ela meio que deixou escapar uma coisa sobre Poppy. Fora da janela, um refletor irradiava através do céu. Rowan o olhou por um momento, e então olhou para a tela de seu computador. O cursor não se moveu novamente. — O que Shoshanna disse? — ela perguntou, virando-se para Danielle. — Talvez não seja nada, mas ela mencionou algumas... discrepâncias na agenda de Poppy. Poppy começou a colocar compromissos misteriosos em sua agenda — coisas vagas, como “reunião”, sem dizer com quem era. E quando Shoshanna perguntava — era seu trabalho perguntar — Poppy dizia a ela que tinha tudo sobre controle. Shoshanna disse que ela era meio arrogante quando se tratava disso. — Tudo bem — disse Rowan, tocando a superfície da sua mesa. Nada disso parecia tão estranho para ela. Danielle puxou o lábio inferior em sua boca. — Ou quando ela escrevia coisas como “almoço com James”, mas, em seguida, James ligava durante o almoço, sem saber nada sobre um almoço. Shoshanna tinha que cobrir ela. Rowan se recostou. Isso era estranho. Mas Poppy poderia ter escrito a data errada, ou James podia ter esquecido. Havia um monte de explicações. — Hum. — Shoshanna disse que ela começou a receber chamadas bloqueadas misteriosas, também. E uma vez, Shoshanna tentou pegar o telefone para escrever anotações para Poppy, e Poppy não deixou ela pegá-lo. Ela não explicou de onde


as chamadas vinham ou sobre o que elas eram. Mas eu acho que Shoshanna chegou a algumas conclusões. — Danielle passou a língua em sua bochecha. Rowan procurou seu rosto. Os únicos sons no escritório eram os pequenos zumbidos e cliques do disco rígido de Rowan. Seu cérebro parecia ter dado um curto circuito temporariamente, ficando preto. Finalmente, ela disse: — Você acha que Poppy estava tendo um caso? Danielle apertou os lábios. — Eu não sei. E talvez haja outra explicação. — Ela colocou as mãos em seu colo. Rowan considerou a mulher sentada em frente a ela no sofá, por um segundo imaginando a jovem que dirigia Edith em torno de Meriweather em um carrinho de golfe. Ela tinha sido amiga de Aster, não de Rowan, mas Rowan sempre tinha achado ela divertida. Um verão, quando elas estavam todas sentadas juntas na praia, elas assistiram a um casal mais velho brigando, enquanto caminhavam ao longo da borda da água. O vento tinha levado as palavras verdadeiras do casal, mas Danielle havia adotado um gemido nasal agudo para a mulher e um estrondo catarrento para o homem. — Eu lhe disse para não usar essa Speedo — ela disse em uma voz comprimida. — Você está preocupado com a concorrência? — ela então murmurou, segurando seus braços para fora, ao mesmo tempo que o velho. Rowan conhecia o casal que discutia — os Coopers eram um dos poucos a irem a Meriweather há anos — e Danielle tinha imitado sua voz perfeitamente. A mãe de Danielle, Julia, passou naquele momento em sua corrida matinal. — Seja agradável, Danielle — ela advertiu, com o cabelo vermelho brilhante voando atrás dela. — Você já disse ao FBI? — Rowan perguntou agora. Danielle balançou a cabeça. — Eles não entraram em contato comigo. E, em vez de ir diretamente a eles, eu pensei que eu deveria falar para você primeiro. Especialmente já que eu nem sei se é alguma coisa. Espero que essa seja a coisa certa a fazer. — É claro que é. — Rowan se ajeitou na cadeira. — Você fez o que qualquer um na família faria, e eu aprecio isso. — Ela se ajeitou na cadeira. — Você não tem ideia de quem estava na outra linha nessas chamadas bloqueadas? Danielle balançou a cabeça. — Shoshanna sabe, mas ela não me disse. Rowan olhou para fora da janela. Luzes brilhavam no prédio do outro lado da rua. — Eu me pergunto se Foley olhou a agenda de Poppy. Talvez esses compromissos pudessem ser uma pista sobre o que ela poderia ter visto — ela murmurou mais para si mesma, quase não acreditando nas palavras que saíam de sua boca. Ela tinha assumido que a teoria de James sobre a traição de Poppy era


apenas isso: uma teoria. Um pensamento que justificava a sua própria infidelidade com Rowan. Mas aqui estava outra pessoa ecoando as suspeitas de James. A ideia de Poppy tendo um caso ainda não processava, no entanto. Alguém bateu na porta, e James enfiou a cabeça dentro. — Oh, eu sinto muito. Estou interrompendo? — Oh, oi. — Ela piscou confusa para ele. — Hum, não, claro que não. — Nós estávamos terminando. — Danielle levantou-se e alisou a saia lápis. — Bem, se você precisar de alguma coisa, me ligue, ok? — Ok — disse Rowan, e Danielle saiu da sala. Rowan se voltou para James. — Então... o que você está fazendo aqui? — Estou vindo do trabalho — explicou James. Ele enfiou as mãos nos bolsos da calça jeans de lavagem escura, parecendo de repente envergonhado. — As crianças estão com Megan. Achei que você ainda poderia estar aqui. Eu só... queria ver como você estava indo. Rowan piscou rapidamente, sentindo-se desorientada. — Como foi que você entrou? James deu de ombros. — Minha esposa era a presidente. Eles sempre me deixam entrar. Rowan assentiu. É claro. Ela esfregou os olhos. — Deus, eu sinto muito. É tão tranquilo aqui. É meio assustador. — Ela se perguntou se ele tinha ouvido a conversa que ela acabara de ter com Danielle. Mas ele parecia inocente, um canto de sua boca levantou em um sorriso, revelando a covinha que ela não tinha visto em muito tempo. Ela colocou a cabeça entre as mãos e esfregou seu couro cabeludo. Ela deveria dizer a ele o que Danielle tinha dito? Compromissos trocados, ligações secretas — parecem coisas que apontaria para uma traição. Talvez os sinais de sensoriamento de James estivessem realmente lá. De repente, Rowan sentiu-se ofendida de alguma forma, como se ela fosse a pessoa que tinha sido traída. A mulher que ela considerava sua melhor amiga parecia tão incognoscível como uma estranha em um bar. A raiva de Rowan estava formigando quente na superfície de sua pele. Ela olhou fixamente para uma foto dela e Poppy que estava em sua mesa, desejando de repente virá-la de cabeça para baixo. Lágrimas encheram os olhos dela, e ela se arrependeu imediatamente de seus pensamentos. Sua prima, sua melhor amiga, tinha sido assassinada. Ela não podia ficar brava com ela. — Ei, tudo bem? — James se aproximou e estendeu a mão como se quisesse colocar a mão em seu braço, em seguida, retirou, como se preocupado que ela o recusasse.


— Sim. Tem sido um longo dia — disse ela, piscando para conter as lágrimas. — Então, como estão as crianças? — Briony está se sentindo melhor. — James sentou-se no sofá de Rowan. — E como você está? James olhou para ela pelo que pareceu uma eternidade. — Você quer a verdade? — Claro. Ele tomou uma respiração profunda. — Eu não consigo parar de pensar em você. Rowan apertou os lados da cadeira. Sua boca se contraiu, e ela podia sentir seu rosto ficando vermelho. James levantou-se, atravessou a sala, e foi até a mesa de Rowan. Ele sentou-se na borda, ainda olhando para ela. Rowan estava com medo de se mover, muito menos de falar. Ela sentia-se como duas pessoas: a Rowan que tinha desesperadamente perdido sua prima, sua melhor amiga e a Rowan que tinha dormido com James... e que queria fazê-lo mais uma vez. Em seguida, o telefone dele tocou. Eles pularam. — Você precisa atender isso? — perguntou Rowan. James balançou a cabeça. — Isso não importa. — Mas e se for a babá? Ele acenou para longe. — Não é. — Pode ser importante. Um sorriso apareceu em seu rosto. Ele balançou a cabeça. — Saybrook, você não entendeu? Ninguém é mais importante do que você. A espinha de Rowan formigou, mesmo quando ela protestou. — James, não deveríamos. Ele se aproximou e passou a mão pelo cabelo. — Sim, nós devemos. Ele apertou seus lábios contra os dela, e todo o seu corpo se derreteu nele. James ergueu-a sobre a mesa, e um por um, ele desfez os botões em sua camisa de trabalho azul-cinzenta, expondo o sutiã preto rendado por baixo, beijando-a em todos os lugares. Em segundos seu sutiã e sua camisa estavam retirados, suas mãos acariciando seus seios. — Mais — Rowan gemeu, envolvendo suas pernas em volta dele e desafivelando suas calças. Ele empurrou sua saia até a cintura e em um momento rápido se empurrou dentro dela, os lábios e as mãos explorando todo o seu corpo. Ele começou lento, mas logo ele estava se movendo contra ela com urgência, e ela combinava com seu ritmo, nunca quebrando o contato visual. — Mais — ela disse a ele novamente. — Por favor. Mas tudo acabou muito rapidamente, e em pouco tempo, James estava puxando as calças e amarrando seus cadarços. — Venho amanhã — ele sussurrou em seu ouvido. Ele apertou a mão dela uma vez, deu-lhe um beijo demorado, então fugiu.


Ele fechou a porta levemente, e Rowan olhou em torno de seu escritório, com o coração batendo rápido no silêncio repentino. Um minuto inteiro se passou antes de ela notar seu computador. Ela deve ter acidentalmente clicado no aplicativo iMovie; uma pequena janela mostrava o ponto de vista a partir do topo do monitor de Rowan, onde sua webcam estava. Um relógio de tempo estava correndo, a câmera ainda gravando. Rowan estudou sua imagem na webcam, vendo sua pele corada, seus cabelos despenteados, seus lábios inchados. Ela ficou parada com agitação, os dedos em pânico. Então ela rebobinou o vídeo para o começo. Por alguns momentos, houve apenas uma respiração pesada, mas, em seguida, a cabeça de Rowan mergulhou na visão da câmera. Então apareceu uma parte de seu peito nu, seu torso nu, o pescoço arqueado. Um homem montou em cima dela, com o rosto escondido. — Mais — Rowan exigia com fôlego. — Por favor. As bochechas de Rowan queimaram. Ela pausou, constrangida por sua exibição sem vergonha de paixão. Ela moveu o mouse para o topo da tela e, com um decisivo clique horrorizado, apagou o vídeo para sempre.


12 Traduzido por L. G.

A

ster saiu da última coluna do Excel e recostou-se com um suspiro satisfeito, entrelaçando os dedos atrás de sua cadeira e alongando as costas para estalá-la. Ela não podia acreditar. Após mais de uma semana inteira de entrada de dados, ela finalmente tinha acabado. Não tinha sido fácil — o Excel era terrível, mas lidar com Elizabeth era pior. Cada interação era cheia de tensão. Será que ela sabia sobre Aster e Steven? E quanto? Ela olhou para o relógio: 6:00 em ponto. Ela teria apenas tempo suficiente para correr para casa, jogar algumas roupas dentro de uma mala, e chegar a Teterboro a tempo de sair para o fim de semana de despedida de solteira de Corinne. Normalmente a perspectiva de três dias inteiros cheios de atividades de noiva planejadas por Corinne teria feito Aster revirar os olhos, mas agora ela não queria nada mais do que estar em Meriweather. Ela não podia esperar para se jogar em sua cama de dossel e dormir até a hora que quisesse. Ela mandou por e-mail a planilha para Elizabeth, e em seguida, levantouse e começou a arrumar suas coisas. — Aster! — ela ouviu Elizabeth gritar de seu escritório. Aster rapidamente ajustou seu vestido longo rosa claro — um dos poucos vestidos que ela possuía que se encaixava na regra rigorosa “abaixo do joelho” de Elizabeth — e caminhou para o escritório de sua chefe, tropeçando em uma pilha de papeis no caminho. — Você está indo embora, eu pressuponho — perguntou Elizabeth, sem se importar em olhar para ela. — Sim, e eu estarei fora amanhã — disse Aster, rangendo os dentes. Ela tinha pedido para ter esse tempo de folga durante seu primeiro dia, e tinha sido pré-aprovado pelo RH. Elizabeth sabia disso; ela só estava tentando incitar Aster. Elizabeth suspirou melodramaticamente, como se Aster tirar uma folga no trabalho em uma sexta-feira fosse o pedido mais ridículo que se podia imaginar. — Bem, não saia ainda. Eu quero fazer a nossa lista de afazeres para segunda-feira. Sente-se ali, enquanto eu olho meu e-mail. Aster empoleirou-se na cadeira, segurando seu caderno e uma caneta na mão, enquanto Elizabeth encarava a tela de seu computador. Toda noite elas faziam uma lista de coisas necessárias para Aster fazer no dia seguinte: programar


entregas, ligações a serem retornadas, agendar viagens para convidados importantes. Aster nunca tinha reservado passagens em sua vida. A primeira vez que Elizabeth lhe pediu para fazê-lo, ela tentou mandar uma mensagem de texto para a companhia aérea pelo seu celular. Ela havia aprendido muito nas últimas semanas, ela pensou com uma sensação estranha de orgulho. O olhar de Aster flutuou até a mesa de Elizabeth. Havia uma revista Us Weekly aberta perto de seu telefone, com uma história de página inteira sobre o rapper Ko dobrada. Outra revista mostrava uma foto de Ko e uma garota bonita. Com um sobressalto, Aster percebeu que era Faun, com quem ela tinha procurado apartamento. Ela e Ko estavam namorando? Desde quando? — Você é uma grande fã de Ko? — perguntou Aster. Os olhos de Elizabeth piscaram da sua tela rapidamente. — Nós estamos tentando criar um anel de noivado para o seu “sabor do mês”. — Ela apontou para a foto de Faun na revista, sua boca em uma linha fina. — Eles vieram há algumas semanas atrás, e basicamente disseram: “Nos deslumbre”. Esses são o pior tipo de clientes, aqueles que não têm nenhuma ideia do que eles querem. Eles quase nunca acabam comprando o que nós projetamos. Houve outra batida. Mitch apareceu na porta. — Você se importa se eu der uma olhada em seu computador por um segundo, Elizabeth? — ele questionou. — Eu tenho que executar uma verificação rápida. Vai demorar um minuto, eu prometo. — Tudo bem — Elizabeth retrucou. — Aster, não saia ainda. Mitch entrou na sala, dando a Aster um sorriso simpático. Aster sorriu de volta. Até agora Mitch era a única coisa boa sobre este trabalho. Ele verificava como ela estava todos os dias, mandando piadas e trazendo peixe sueco vermelho — seu favorito — para ajudá-la naquela planilha idiota. Ele tinha sido o único a sentar-se com ela e pacientemente lhe ensinar a usar o Excel e a recuperar o arquivo, quando ela acidentalmente o excluiu. Na vida antiga de Aster, ela já teria realizado uma festa em sua homenagem a essa altura. Elizabeth digitava furiosamente em seu telefone, claramente em seu próprio mundo. Aster olhou para a foto de Faun e Ko na revista Interview. Eles estavam posando para a câmera no Chateau Marmont, um dos lugares favoritos de Aster em LA. — Faun vem de uma família rica — disse ela, pensando em voz alta. — A mãe dela patenteou um novo tipo de técnica de cirurgia plástica que lhes rendeu uma fortuna. Ela só morreu há alguns anos atrás. Faun ainda está devastada. A cabeça de Elizabeth virou de repente. — Onde você leu isso? — Eu não li isso. Ela me disse. — Aster pensou por um momento. — Você sabe, sua mãe teve uma das coleções de joias mais insanas que eu já vi. Você devia tentar usar isso no anel de Faun. Talvez você pudesse fazer uma peça com um


tema vintage que lembre algo da coleção. Eu aposto que você poderia encontrar uma foto antiga na Vogue ou algo assim. Mitch parou de olhar para o que estava fazendo e olhou para cima, com a cabeça inclinada. — Essa é uma ótima ideia. Elizabeth fez um movimento com as mãos. — Atenha-se a entrada de dados, Aster. Deixe a gestão de clientes para os profissionais. — Terminei aqui — Mitch interrompeu, parado atrás do computador. Ele voltou-se para a porta, piscando para Aster na saída. Aster olhou para o relógio enquanto Elizabeth entrava novamente no seu e-mail, tentando não entrar em pânico. Corinne iria enlouquecer se ela tivesse que atrasar o voo. Ou pior, ela deixaria Aster para trás, e Aster teria que pegar um ônibus. — Aster. — A voz de Elizabeth era fria. — Esta planilha não está completa. Aster sentou-se em linha reta. — O quê? — ela perguntou estupidamente. Ela tinha checado cada dado várias vezes; não havia nenhuma maneira que ela houvesse perdido alguma coisa. Elizabeth bateu a unha bem cuidada contra a tela, as linhas ao redor de sua boca crescendo mais profundas. — Eu não vejo as compras passadas em nenhum lugar aqui. Aster olhou para ela sem entender. — Você não me pediu as compras passadas. — Bem, você vai ter que adicioná-las, então — disse Elizabeth. — Você pode fazer isso amanhã. — Eu não vou estar aqui amanhã. Elizabeth olhou para Aster por muito tempo, tanto tempo que Aster não tinha certeza do que ela deveria fazer. — Você acha que pode simplesmente ir e vir quando quiser, não é? — ela finalmente disse. — Eu sinto muito. — Aster tentou não levantar a voz. — Eu estou tentando, eu realmente estou. Prometo resolver isso. É a primeira coisa que farei na segunda-feira. Mas eu já te disse que eu preciso tirar um dia de férias amanhã, então... Elizabeth levantou a mão, cortando-a. — Você acha que você está tentando? Isso é uma piada, minha querida. — Seus olhos brilhavam. — Toda a sua família é assim, mas você é a pior de todos eles. Você acha que não há regras. Vocês fazem o que querem, não importa o que acontece com qualquer outra pessoa ao longo do caminho. — Então por que você trabalha para nós? — Aster revidou. Elizabeth elevou o queixo para o alto. — Isso não é da sua conta. Veias incharam no pescoço da mulher mais velha. E então, de repente, Aster entendeu. Elizabeth não estava falando de trabalho. Ela sabia.


Poucos dias antes de Aster sair para modelar na Europa, ela voltou para Meriweather para ver Danielle. Ela não podia sair para o verão sem dizer adeus a sua melhor amiga. Danielle não sabia que ela estava vindo; seria uma surpresa. O pneu do carro esmagou o cascalho na estrada e parou entre a propriedade de sua família e a casa de hóspedes. Aster fechou a porta do carro silenciosamente atrás dela, segurando um pedaço de bolo crocante Magnolia — o favorito de Danielle — em uma mão e uma garrafa de prosecco na outra. Ela se arrastou pelo caminho, passando pela bicicleta rejeitada de Danielle e um monte de vasos de cerâmica vazios, e estava prestes a irromper pela porta da frente, quando duas formas se moveram em frente da janela. Aster havia parado quando se deu conta: Danielle estava com um cara. Aster tinha começado a avançar e bater de qualquer jeito, Danielle também já havia interrompido sua cota de ficadas, afinal de contas, quando ela ficou estupefata. Danielle estava lá com Mason; os braços do pai de Aster estavam agarrando apertado em volta da ruiva. Aster parou ali, congelada, por um bom tempo. Ela pensou em como seu pai havia olhado para Danielle apenas algumas semanas atrás. Que idiota que ela tinha sido. Ela correu cegamente em direção à casa, soluços altos irrompendo de seu peito. Seu pai e sua melhor amiga. Parecia coisa de algum programa de entrevistas ruim. Como ela poderia enfrentar algum deles novamente? A resposta, Aster decidiu depois de beber uma garrafa de prosecco sozinha e olhar fixamente para a parede da cozinha, foi a de que ela não iria. Aster durou apenas alguns meses em Paris. Todas as suas fotos eram excelentes, mas a maioria dos fotógrafos se recusou a trabalhar com ela novamente. Ela não podia culpá-los, considerando que ela, bêbada, insultou todos eles, chegou chapada em todas as sessões, e quase incendiou um dos estúdios. Quando ela conseguiu voltar aos Estados Unidos no final do verão, ela nem sequer quis ir à festa anual da família no Dia do Trabalho. Ela contou aos pais que ela iria para os Hamptons, ao invés. Para sua surpresa, foi Edith quem ligou e insistiu para que ela fosse. — Aster — sua avó havia ordenado, — eu não me importo com as razões para você não querer vir, você vai estar em Meriweather para a festa de fim de verão. Sem desculpas. Estamos celebrando por Poppy este ano. Venha por ela, pelo menos. — Ok — Aster havia dito, intimidada. Ninguém jamais podia dizer não para Edith. E assim Aster tinha aparecido em Meriweather, seu estômago um nó nervoso de pavor. E se ela pegasse Mason e Danielle juntos novamente? Eles ainda estavam se vendo? Será que alguém sabia?


Aster conseguiu evitar seus pais por grande parte da noite. Mas, eventualmente, Mason e Penelope conseguiram encontrá-la. Eles estavam acompanhados por Steven Barnett, o diretor de criação da Saybrook de longa data e braço direito do Vovô Alfred. Aster se perguntou se ele estava chateado com a promoção de Poppy; antes da morte de seu avô, um monte de gente tinha pensado que ele poderia ser o próximo presidente. Mas ele parecia bastante feliz, sorrindo amplamente e segurando um copo cheio de uísque. — Ora, ora. Olá, Aster — disse Penelope friamente, seus olhos focando no vestido branco muito curto de Aster. Ela sabia o quanto Aster tinha estragado as coisas na Europa. Estava escrito em todo seu rosto. Mason olhou para Aster com uma mistura de confusão, mágoa e raiva. — A conta no George V foi astronômica. — Eu tive alguns encontros — disse Aster rigidamente, cruzando os braços. — Oh, você pode pagar, Mason — disse Steven Barnett, sorrindo para Aster. Suas palavras estavam arrastadas; Aster se perguntou o quão bêbado ele estava. — Só se é jovem apenas uma vez. Mason só olhava para Aster. Ela olhou para trás. — Eu preciso de outra bebida — ela anunciou, e se virou para ir para longe de seus pais, sem uma segunda olhada. — Eu também — disse Steven, e para sua surpresa, ele foi com ela em direção ao bar. — Então — ele disse em voz baixa. — Você pode me dizer a verdade. Você agiu assim em Paris porque estava tentando superar um coração partido? Aster fungou. — Mais ou menos. — Isso era dolorosamente perto da verdade. — Pobre, pobre Aster — Steven murmurou, seu tom leve e provocante. Ele olhou para ela por um longo tempo. Aster sabia que ele estava despindo-a mentalmente — e para sua surpresa, ela meio que gostou. Sem dizer nada, eles se viraram e começaram a se afastar do resto da festa. — E o que foi isso que eu ouvi de você parar de modelar? — perguntou Steven. Aster brincou com o longo colar que estava oscilando em seu decote. — Eu não chamaria isso de parar — disse ela. — Eu chamaria isso de nunca mais ser chamada a modelar novamente. — Tsk. — O hálito de Steven estava quente em seu rosto, e cheirava a uísque e goma de hortelã. — Nós nem sequer tivemos a oportunidade de trabalhar juntos. As notas graves do palco bateram em seus ouvidos. Aster deu-lhe um tapinha de brincadeira, mas ele pegou a mão dela e segurou forte. Seu estômago revirou. Quando ele estendeu a mão e tocou a nuca de Aster, ela estremeceu. Steven fez um gesto com a cabeça para os juncos. — Quer ir ver o meu iate?


— Você diz isso para todas as garotas? — Aster deu uma risadinha. De repente, ela se sentiu imprudente e estúpida, e ela não dava a mínima, da mesma forma como ela se sentiu em Paris depois de fazer uma linha de cocaína. Ela procurou a mão de Steven e a segurou, seguindo-o em direção à praia, como se não estivesse fazendo nada de errado. Ela ouviu alguém suspirar e vacilou por um instante. Poppy estava congelada, com uma bebida na mão, olhando para Aster com uma expressão cautelosa. Mas então Aster pensou em tudo que seu pai havia feito, e descobriu que ela não se importava mais, nem mesmo se Poppy a julgasse. Seu coração batia forte enquanto ela seguia Steven para a praia. Sim, ela decidiu, ela iria ficar com o velho e gostoso Steven Barnett, mesmo sendo terrivelmente inadequado — talvez porque fosse terrivelmente inadequado. Seu pai e Danielle não eram os únicos que poderiam fazer o que quisessem e escapar disso. Agora, no escritório de Elizabeth, Aster fechou os olhos, tentando centrarse. — Nós podemos parar com essa merda — disse ela. — Nós duas sabemos do que se trata. — De qualquer modo — disse Elizabeth, — me ilumine. — A noite com Steven. — Aster olhou para ela. — Você sabe que ele e eu... Elizabeth se inclinou para trás, de repente fria e avaliativa. Ela não parecia surpresa. — Eu sinto muito, ok? Não era sobre o Steven, se isso ajudar. Era mais para irritar o meu pai e... — Jesus Cristo. Pare. Aster olhou para cima. Havia um sorriso estranho no rosto de Elizabeth. — Você acha que eu me importo com isso? Você foi uma das muitas, minha querida. E esses foram apenas os casos que eu sabia, das pessoas ao redor da cidade. Aster olhou para o chão, sem saber o que dizer. — Oh, hum... — Para ser honesta, eu estou feliz que meu marido esteja morto. Sua prima nos fez um favor. Aster olhou para cima. — Espere. O quê? Elizabeth inclinou a cabeça. — Sua prima Poppy nos fez um favor, matando Steven. Aster piscou forte. — Como é? — Ela acabou de dizer que Poppy matou Steven? Aster soltou uma gargalhada. — Isso é loucura. Elizabeth parecia divertida. — Você não sabia? Aster passou a língua sobre os dentes. — Steven Barnett bebeu demais e se afogou. — Oh, isso foi o que os jornais disseram. Mas eu vi aquela vadia louca de pé sobre o meu marido na marina da sua família na noite da festa. Ele estava definitivamente morto... e ela era a única que estava por lá.


— O quê? — disse Aster lentamente. Elizabeth apenas olhou para ela, sua expressão grave. Ela realmente falava sério, Aster conseguia dizer. Mas isso não podia ser verdade. Aster lutou para se lembrar daquela noite. Steven a tinha levado até a praia, onde eles se despiram. Ela manteve-se na areia por um longo tempo depois que ele saiu, olhando para as estrelas. Onde estava Poppy durante esse tempo? Seguindo Steven para seu iate? Matando-o? Aster piscou para sua chefe. — Você contou a alguém sobre isso? Elizabeth sacudiu a cabeça. — Eu sou a única que sabe, querida. Eu não acho que sua prima tenha saído contando para todo mundo. E eu tenho certeza que se alguém na sua família sabe, manteve como segredo — do jeito que vocês Saybrooks fazem. — Ela riu maldosamente. — Você perguntou a Poppy sobre isso? Elizabeth bufou. — Poppy e eu não éramos exatamente amigas. Mas como eu disse, Poppy me fez um favor. Fico feliz que ele se foi. Aster estendeu o braço em volta da sala. — Então por que você ainda tem a sua fotografia de casamento levantada? — Algo não batia ali. Um pensamento horrível a atingiu, e ela olhou de volta para Elizabeth, de repente aterrorizada. — Você matou Poppy? — ela sussurrou. — Foi por vingança? Elizabeth revirou os olhos. — Não, Magnum, investigador particular. Eu estava em Los Angeles naquela manhã. E eu não sou uma assassina. — Ela apontou para a fotografia de casamento. — Eu mantive como uma homenagem, eu suponho. Steven era um idiota, mas eu o amei uma vez. E eu amo tudo o que eu herdei. Aster se sentia sem ar. — Tudo bem. Ok. Se o que você disse é verdade, por que você não disse nada a polícia? — Jesus, você é lenta. — Elizabeth pegou um maço de Parliaments de dentro de uma gaveta da mesa e tirou um cigarro. — Eu já te disse que eu estou feliz que ele se foi. Eu só queria que tudo acabasse. As palavras dela enviaram um arrepio pela espinha de Aster. — Parece mais que você pode ter matado Steven, não Poppy. Elizabeth riu. — Eu queria. O que sua prima fez foi brilhante, realmente, eu nunca teria pensado em apenas empurrá-lo na água e fazer com que parecesse um afogamento. — Seus olhos brilhavam. — Meus planos eram sempre um pouco mais... animados. Aster olhou pela janela para o Hudson lá embaixo. — M-mas por que Poppy mataria Steven? — Poppy tinha acabado de ser promovida, afinal de contas. Ela havia conhecido James naquele verão; não muito tempo depois da festa, eles noivaram. Ela tinha tanto para viver... e muito a perder. Elizabeth deu uma longa tragada e soprou um anel de fumaça. — Talvez você não seja a única na família com segredos, minha querida Aster. — Então você está dizendo que Poppy estava encobrindo alguma coisa?


Elizabeth deu de ombros. — Talvez. Eu acho que agora nós nunca saberemos. Aster ficou de pé com as pernas trêmulas. — Eu estou indo agora — ela anunciou. — Tenha um fim de semana divertido com a família — disse Elizabeth, de alguma forma conseguindo fazendo isso soar como um palavrão. — Você pode consertar essa bagunça de planilha na segunda-feira. Ah, e Aster? — ela acrescentou. — Eu manteria a nossa pequena conversa em segredo, se eu fosse você.


13 Traduzido por Lua Moreira

P

ara Corinne, sempre pareceu como se o complexo em Meriweather tivesse surgido através de uma parede grossa de névoa como um castelo de conto de fadas, e não foi diferente quando ela e suas primas retomaram o caminho aquela noite no fim de semana de despedida. A mansão brilhava ao sol poente. O ar cheirava a sal e flores. Narcisos brilhantemente coloridos explodiam de vasos enormes. Alguém tinha pendurado um cartaz sobre a porta da frente que dizia “Feliz Despedida de Solteira, Corinne”. Corinne se sentiu aflita. — Gente, vocês não deveriam ter feito isso. — Na verdade, nós não fizemos. — Aster deu de ombros. — Oh. Aster olhou para Corinne por muito tempo, então levantou sua mochila com monograma sobre o ombro. Algo em Aster parecia fora do comum hoje — havia círculos sob os seus olhos e um olhar cansado no rosto dela, e ela quase não tinha dito nada no voo. Talvez ela estivesse perturbada que eles estavam indo para Meriweather sem Poppy. Ou talvez sua brusca mudança de estilo de vida estava cobrando demais. Corinne queria falar com Aster, mas quem era ela para distribuir conselhos? Ela acabou de dormir com um ex-namorado, semanas antes de seu casamento. No chão da adega do St. Regis, ela acrescentou para si mesma, como se isso fosse o que tornava tudo tão chocante. Ela voltou para casa naquela noite, tropeçando pela Quinta Avenida em seus calcanhares. A calçada estava finalmente começando a esfriar, mas o ar do verão estava pegajoso e quente. Como ela tinha parecido ao porteiro enquanto cambaleava através do lobby? No andar de cima, ela tinha encontrado Dixon dormindo em suas calças cáqui e polo, uma cerveja na mesa de cabeceira, luzes acesas. E se ele estivesse esperando por ela? Mas, enquanto ela se despia e tomava banho, ela não conseguia parar de pensar em Will, em suas mãos em cada parte dela. Ela estremeceu. Não importava o quanto ela esfregava sua pele, ela ainda podia sentir onde ele a tinha tocado. A pior parte era que ela queria que isso acontecesse novamente.


Não, você não quer, ela disse silenciosamente. Ou pelo menos ela pensou que ela tinha dito isso a si mesma — quando ela olhou para cima, Aster, Rowan e Natasha estavam na porta da frente, olhando-a com expectativa, como se estivesse esperando que ela terminasse a frase. Ela sorriu para elas. Se ela continuasse fingindo que nada estava errado, talvez ela pudesse convencer-se de que era verdade. Finja até que você consiga, ela podia ouvir Poppy dizendo a ela em seu primeiro dia de trabalho lá na cidade. Se você estiver confiante, eles vão esquecer

o seu nome e confiar que você sabe o que está fazendo. Diabos, talvez você até mesmo saiba. Ela piscou para Corinne — ambas sabiam que ela era mais do que qualificada para o trabalho dela. Ela era bem viajada e falava várias línguas, mas o ano passado a tinha abalado. Enquanto todos pensavam que ela estava em Hong Kong, ela estava escondida na Virgínia, mantendo o maior segredo de sua vida. Agora Corinne pegou as malas, apertou o código chave na porta da frente e entrou na casa. A sala de estar cheirava a aromatizante de limão e lavanda; mesmo que o imóvel estivesse desocupado principalmente durante o período de entressafra, a família mantinha uma equipe de quatro pessoas durante todo o ano. Havia uma garrafa de vinho esperando em um balde de gelo, e uma bandeja de mármore com queijo e biscoitos apoiados na mesa de café. Houve um miado alto, e Kalvin, o gato da propriedade, se esgueirou para fora de um quarto dos fundos e esfregou-se contra os tornozelos de Corinne. Corinne acariciou seu pêlo laranja e branco, sentindo uma pontada. Poppy tinha encontrado Kalvin anos atrás, no lado da estrada perto da fazenda da família e trazido ele aqui no avião particular de seu pai; elas tinham se dividido em turnos para alimentá-lo com leite e trazê-lo para suas camas. Na verdade, tudo neste lugar — a cadeira de veludo que Poppy tinha se enrolado com um livro, as longas cortinas que Poppy tinha se escondido atrás em jogos de esconde-esconde, a escadaria que Poppy tinha descido no dia de seu casamento — fazia Corinne lembrar da sua prima. Ela olhou ao redor, notando as expressões tristes de Rowan e Aster. Elas provavelmente estavam pensando em Poppy também. — Ok, senhoritas — ela disse a suas primas e irmã, tremulamente orientando a todas para a sala de estar. — As primeiras coisas primeiro. Isso são para vocês. — Ela apontou para um saco que trouxera, cheio de presentes embrulhados. — Isso é tão gentil da sua parte — disse Rowan, com a voz estranhamente melancólica, como se ela fosse explodir em lágrimas. Natasha se afundou em uma poltrona. Tê-la aqui era chocante. Quando elas estiveram juntas, além de funerais? Uma pontada atingiu Corinne, quando ela se lembrou do quão fofa Natasha costumava ser. Um ano, quando Natasha tinha uns sete anos, ela decidiu que queria ser uma patinadora olímpica quando crescesse. Todas elas, até mesmo Poppy, que era muito mais velha então,


colocaram saias fofas, tiraram suas meias, e patinaram no chão de madeira como se fossem suas concorrentes, embora fosse implícito que Natasha iria ganhar. — Um dez perfeito! — As primas haviam gritado para a menina, sufocando-a de beijos. Agora Natasha rasgou o pacote. — Lindo! — ela gritou quando revelou o cachecol pashmina. — Assim como o que nós usamos no casamento de Poppy. — Foi isso o que me deu a ideia — disse Corinne timidamente. Poppy tinha se casado em Meriweather há quatro anos. Elas se sentaram nesta mesma sala antes de seu casamento, e ela havia dado a cada uma delas presentes semelhantes. Era um casamento em dezembro, então esses cachecóis eram forrados de pele. Ela também tinha dado para as meninas casacos de pele e chapéus; todas elas embarcaram em um carro puxado a cavalo para ir à Igreja velha da ilha principal. O terreno tinha estado coberto de neve fresca, intocada, as estrelas brilhavam no céu, e a igreja já tinha sido decorada com bolas de Natal pratas e douradas em todos os lugares, e todo o altar estava cheio de narcisos. Depois de Poppy e James se casarem, elas tinham ido em um segundo passeio de trenó de volta para casa, cantando músicas natalinas. Corinne e Dixon, solidamente juntos até então, tinham se aconchegado perto um do outro para se aquecer. Os olhos de Aster encheram de lágrimas. Rowan deixou cair o cachecol da caixa, com o rosto contorcido de dor. Corinne tentou respirar, mas era como se houvesse uma carga de tijolos em seu peito. Ela olhou para a porta, imaginando Poppy correndo, com exultação, Ha, ha! Foi tudo uma brincadeira! Aster agarrou a garrafa de vinho e serviu quatro taças. Ela pegou uma e segurou-a no ar. — Um brinde a Poppy. Eu não sei o que vamos fazer sem ela. Corinne escolheu uma taça das três restantes. — A Poppy. Todo mundo bebeu em silêncio, o estranho humor ficando em torno delas novamente. Corinne sugou seu estômago, esperando que todas se animassem. Em seguida, o telefone de Natasha, que estava apoiado na mesa de café, tocou. Por instinto, Corinne olhou para baixo. Um familiar número 212 apareceu na tela. Aster estava olhando para o telefone também. — Agente Foley? Natasha pegou o telefone e o silenciou. — Ela quer me interrogar. Eu gostaria que ela tivesse apenas caído. Aster se encolheu. — Você não foi interrogada ainda? Natasha deu de ombros. — Coisas continuam aparecendo. — Mas todas nós já falamos com ela — disse Corinne baixinho, irritada com a atitude desdenhosa de Natasha, como se encontrar o assassino de Poppy fosse apenas um grande inconveniente. Natasha virou o telefone de novo. — Para ser honesta, o FBI parece meio inútil. Vocês não acham? Eles não têm sequer um único suspeito.


Todas trocaram um olhar. — Você não tem certeza disso — disse Rowan. Natasha cruzou os braços sobre o peito. — E quanto a James? — Kalvin pulou no colo de Natasha e começou a se enrolar em suas pernas. — Não se ouve sempre que o marido é o principal suspeito? Talvez James tivesse um motivo. — James não fez isso — disse Rowan, descartando a ideia. — Eu concordo — disse Corinne. James parecia tão dedicado a Poppy, tão orgulhoso de tudo o que ela tinha feito. Uma vez, quando todos estavam em Meriweather, Poppy estava sendo destaque na capa da revista Time. James tinha levantado às seis da manhã para dirigir até a banca de jornal do continente para comprar os primeiros exemplares no dia em que saiu, apesar de a família ter recebido cópias antecipadas no dia anterior. Ele estava tão animado quando entrou de volta na garagem. Aster cruzou os braços sobre o peito. — Vamos falar de outra coisa. — Sim, talvez devêssemos ir para as fotos? — Corinne disse alto. Ela queria escolher algumas fotos da família para exibir no casamento. O casamento. Mesmo na mente de Corinne, ela não podia chamá-lo de seu casamento. — Como você pode ter tanta certeza? — Natasha desafiou, olhando para Rowan. — A menos que... você estivesse com ele? Vergonha passou pelo rosto de Rowan. — De fato, eu estava, ok? — ela deixou escapar. — Ele estava no meu apartamento. Na minha cama. Você está feliz agora? — Rowan escondeu o rosto entre as mãos. — Oh meu Deus — Corinne se ouviu dizer. A sala ficou em silêncio, exceto pelo ronronar de Kalvin. Ela encontrou o olhar de sua irmã; por uma vez, ela parecia tão chocada quanto Corinne se sentia. Ela limpou a garganta e olhou para Rowan. — Quero dizer, como é que isso aconteceu? Com a cabeça ainda abaixada, Rowan explicou como James tinha vindo, convencido de que Poppy estava tendo um caso. — Nós estávamos tão bêbados, e uma coisa levou à outra — disse ela no final. — E quando cheguei ao escritório e Poppy estava morta, eu pensei que era minha culpa. Eu pensei que James disse a ela... e ela pulou. Corinne se lembrou de como Rowan parecia quase aliviada ao saber que Poppy foi assassinada. Ela não podia imaginar a culpa que ela devia carregar em torno dela. E ela não podia julgar Rowan por dormir com James. Não depois do que ela tinha feito. Você devia dizer a elas, Corinne pensou, a ideia piscando em sua cabeça. Os ombros de Rowan se soltaram de cima para baixo. — Eu não sei o que pensar agora. Eu só queria... — ela parou de falar, o seu olhar para as escadas. — Isso vai continuar? — Corinne se atreveu a perguntar. Rowan olhou para ela com os olhos redondos. Ela piscou uma vez, em seguida, olhou para o chão. — Aconteceu de novo — ela admitiu, encolhendo-se


quando ela disse as palavras. — Mas se Poppy estava com outra pessoa, talvez... oh, eu não sei. — Ela balançou a cabeça. Corinne podia ver duas ideias em conflito em sua mente: a de que o que ela tinha feito era errado e imperdoável, mas que se Poppy tinha feito isso primeiro, então talvez... — Você realmente acha que Poppy estava tendo um caso? — perguntou Corinne. Rowan concordou, explicando o motivo da suspeita de James. Ela também disse a elas sobre sua antiga assistente perceber compromissos incomuns em sua agenda. — Ela estava saindo escondida — disse ela. — Contando mentiras. Eu não sei. — Nós temos alguma ideia de quem estava com Poppy? — perguntou Natasha, com a testa franzida. Rowan bebeu o resto de seu vinho. — Nenhum indício. Eu não tinha ideia de nada que estava acontecendo. — Nem eu — Corinne disse. — Definitivamente não — Aster concordou. — Mas dizer que ela estava tendo um caso — Natasha saltou, agarrando os lados da cadeira. — Não é ainda mais um motivo para suspeitar de James? Ele achou que ela estava tendo um caso. Talvez ele mesmo flagrou ela. Poderia haver mais nessa história. Rowan olhou para ela duramente, com a boca pequena. — Ele está dizendo a verdade. — Talvez você só pense assim porque você está com ele agora — argumentou Natasha. — Você tem que olhar para o quadro geral. A voz na cabeça de Corinne ficou mais alta. Você deve dizer a elas. Você

não pode simplesmente sentar-se aqui, e fingir que é perfeita. Rowan sacudiu a cabeça com veemência. — Eu saí de casa antes de James. No momento em que eu cheguei ao escritório, Poppy estava morta. Natasha cruzou os braços sobre o peito. — Bem, alguém o viu ir embora? Rowan deu um salto da cadeira e caminhou até a janela que dava para o mar. — Ele não matou Poppy, ok, Natasha? Ele simplesmente não fez isso. — Mas... Corinne ouviu a voz de novo, e desta vez ela estava aumentando. Diga a elas, ela dizia. Diga, diga, diga. — Eu traí Dixon — ela deixou escapar, apenas para silenciá-las. Todas as cabeças se viraram. A boca de Aster caiu aberta, e seu rosto estava com uma expressão de chocada. Rowan piscou duro, um pouco da cor deixando suas bochechas. As sobrancelhas de Natasha ficaram juntas. — Com quem? — perguntou Rowan, caminhando de volta da janela. Corinne tomou um longo gole do copo à sua frente. — Will Coolidge. — Era uma tortura até mesmo pronunciar seu nome.


Todo mundo ficou olhando fixamente. Foi Natasha quem falou primeiro. — O cara do Coxswain? O nome dele estava em seu jornal. Corinne apertou os dentes. Natasha deve ter realmente estudado aquela postagem no Abençoados e Amaldiçoados para ter encontrado isso. — É isso mesmo — disse ela em voz baixa. — Eu o conheci no verão em que Dixon e eu terminamos. — Ela limpou a garganta. — Só Poppy sabia sobre nós. Ela espiou sua família, um clarão quente de vergonha em seu rosto. Rowan parecia atordoada. Natasha estava com os braços cruzados sobre o peito. E Aster estava piscando rapidamente, como se sua visão estivesse borrada e ela estivesse esperando o mundo endireitar-se novamente. — Agora ele é um chef, fazendo a comida para o nosso casamento. Dixon não pôde ir à degustação de vinhos, e isso simplesmente... — ela parou. Então ela olhou para seu colo, temendo as expressões no rosto de todas. — Eu não sei o que aconteceu. Uma pequena mão tocou seu joelho. Aster estava olhando para ela. — Está tudo bem. Todos nós cometemos erros. Corinne engoliu em seco. — Mas eu não — ela retrucou, com os olhos cheios novamente. Rowan retornou ao seu lugar e bebeu um copo de vinho. — Ok, perdoeme por dizer isso, mas você tem certeza que quer se casar? Tem certeza que Dixon é a pessoa certa para você? — Claro que ele é — respondeu Corinne. — É só pé frio1. Eu tinha que dizer a vocês para tirar isso do meu peito. Mas agora está tudo bem. Acabou. — Ela tentou respirar, mas ainda sentia como se tivesse uma pilha de tijolos em seu peito. Natasha recostou-se no sofá. — Por que você e Will terminaram? A memória caiu sobre ela como uma onda. Foi na noite da festa de fim de verão, na mesma noite em que Steven Barnett morreu. Corinne estava descalça no chão de mármore frio no banheiro do andar de cima de Jack e Jill que dava para o seu quarto e o de Poppy. Todo mundo estava lá embaixo no pátio, celebrando a promoção de Poppy, mas Corinne tinha recuado ao andar de cima para ter privacidade. Ela desembrulhou um teste de gravidez do plástico e olhou para ele por um longo tempo. Sua cabeça tinha estado girando durante todo o dia, seu estômago tinha se revirado com a salada de frango que a cozinheira tinha preparado para o almoço, seus seios pareciam inchados por uma semana, e sua menstruação estava atrasada — muito atrasada. Mais cedo, ela tinha ido de carro a uma farmácia do outro lado da ilha, com a intenção de comprar o teste, mas ela estava tão assustada para levá1

Pé Frio: Em inglês “Cold Feet”, é uma expressão usada quando uma pessoa teme o compromisso do casamento e tem “pé frio” antes da cerimônia de casamento.


lo para o caixa que ela colocou-o no bolso do casaco de cashmere e saiu sem pagar. Em um verão, ela se tornou uma garota que ela não reconhecia. Ela se sentou no vaso sanitário, fez xixi na varinha, e, em seguida, levantou-se, com a varinha de teste na mão. Lentamente o corante completou o resultado. A linha de controle apareceu, e a segunda linha apareceu imediatamente, o corante rosa alegre e brilhante. O coração de Corinne acelerou. Suas orelhas pareciam molhadas e cheias, como sempre acontecia quando ela sentia que ia desmaiar. Seus dedos começaram a tremer. Estúpida, garota

estúpida. Uma onda particularmente alta colidiu contra as rochas, e Corinne olhou para cima. — Eu tinha um plano para a minha vida. E tudo tinha ido sempre de acordo com o meu plano. — Até aquele verão, ela acrescentou para si mesma. — Will não fazia parte do plano. Assim, Dixon e eu voltamos e eu fui para Hong Kong a trabalho. — Ácido encheu a garganta de Corinne, pensando no segredo que ela ainda não podia dizer em voz alta. No que aconteceu em seguida. — Poppy disse a ele que eu estava indo embora. Eu estava muito ocupada para fazer isso eu mesma — ela mentiu. Aster estava olhando para ela. — Eu tenho uma coisa louca para dizer a vocês também. É sobre a minha chefe, Elizabeth. A esposa de Steven Barnett. Ela me disse uma coisa... estranha. Sobre Poppy. — Ela alisou seu vestido. — Elizabeth disse que viu Poppy em pé sobre o corpo de Steven na noite da festa. Ela disse que Poppy o matou. Um choque passou por Corinne. — O quê? Isso é loucura. — Ridículo — Rowan concordou. — Bem, Elizabeth parecia ter certeza. E quando eu perguntei a ela qual era o motivo dela, Elizabeth fez uma referência a algum tipo de segredo na família. Algo que ela achava que Poppy estava escondendo. Ela disse para não contar a ninguém, mas eu achei que vocês deveriam saber. Natasha tossiu alto. Rowan torceu o nariz. — Steven se afogou. Não é nenhum segredo. E Poppy não é uma assassina. — É verdade — disse Corinne, trêmula. Poppy matando alguém? Seria como descobrir Edith afogando cachorros na banheira. Isso simplesmente não era algo que um Saybrook faria. Mas então ela pensou no verão, e no ano que ela ficou longe de sua família. O bebê que ela teve em segredo e deu. A noite que ela passara com Will. Um Saybrook não faria qualquer uma dessas coisas, também. — Talvez tenha sido um acidente — Aster sugeriu. Mas, então, ela franziu a testa. — Poppy teria dito alguma coisa para a polícia, no entanto. Natasha bateu o pé. — E se Poppy matou Steven? E se seu assassinato teve a ver com a morte de Poppy?


Aster inclinou a cabeça. — Como? — Bem... — Natasha pensou por um momento. — E se alguém próximo de Steven viu o que aconteceu? E se essa pessoa queria vingança? — Como quem? — perguntou Rowan. Todas olharam para as outras sem entender. Natasha se levantou. — Eu não sei, mas esta parece ser uma peça de informação muito importante. Precisamos contar a alguém. Corinne sacudiu a cabeça, permanecendo sentada. — Provavelmente não é verdade. Pelo que sabemos, Elizabeth matou Steven. — Ela disse que não matou — Aster saltou, mas então seus olhos deslizaram para a direita. — Mas ela disse que estava feliz que Steven estivesse morto. — Está vendo? Lá vai você — disse Corinne, uma história desabrochando em sua mente. — E se Elizabeth apenas lhe disse isso esperando que você fosse para a polícia com a história? Lembre-se, Poppy tomou o trabalho de Steven — no fundo, Elizabeth ainda pode estar amargurada. Talvez ela culpe Poppy pela morte de Steven — se ele tivesse sido promovido em vez de Poppy, talvez ele não teria bebido tanto naquela noite e caído do barco. Mas ela diz que Poppy na verdade o matou na esperança de manchar sua reputação. Os policiais iriam vazar isso para a mídia, toda a nossa família seria envergonhada, e Poppy seria uma desgraça. Aster inclinou a cabeça. — Você pode imaginar o dia de trabalho que a imprensa teria com isso? Poppy, uma assassina em segredo todos esses anos. — Estou com Aster — disse Corinne. — Nós não vamos arrastar o nome de Poppy para o meio da lama. — Mas e se isso for uma vantagem séria? — gritou Natasha. — E se Steven sabia um segredo que Poppy precisava manter guardado? Rowan estreitou os olhos. — Você parece muito certa sobre esta teoria. Existe algo que você não nos contou? Natasha desviou o olhar rapidamente. — Por que eu saberia de alguma coisa? Aster pôs-se de pé também, e colocou as mãos nos quadris. — Se você está escondendo algo de nós, Natasha, agora é a hora de dizer. — Eu não sei do que você está falando — Natasha rosnou impaciente. — É só que todo mundo enaltecia Poppy demais. Ela não era perfeita. Ela era humana. Olhe o que James disse — ela o estava traindo. Talvez ela estivesse mentindo sobre outras coisas também. Corinne se arrepiou. Natasha estava lá apenas por causa de Poppy. — O que você tem contra ela? — ela perguntou. — Ela era tão boa para você, apesar de eu realmente não saber por quê. Natasha endireitou sua espinha. — Eu só estou tentando fazer com que vocês tirem suas vendas. Vocês são todas como ovelhas. Vocês vão onde vocês


deveriam ir. Vocês pensam o que vocês supostamente deveriam pensar. Mas o que vocês sabem? Às vezes, as coisas não são o que parecem. Rowan bateu os braços nos lados. — O que diabos aconteceu, Natasha? Por que você nos odeia tanto? Nós costumávamos ser próximas, e, tanto quanto eu posso ver, nenhum de nós fez nada com você. Talvez você possa me esclarecer, porque eu estou muito confusa agora. Natasha piscou. Sua boca ficou aberta por muito tempo. Em seguida, ela baixou os olhos. — Não é nada, não é? — Aster exigiu. — Você cortou a si própria por atenção? Isto foi apenas a sua maneira de conseguir mais imprensa para si mesma? Você nunca poderia ficar fora do centro das atenções. Um olhar feroz brilhou nos olhos de Natasha. De repente, Corinne não aguentava mais. — Estamos terminando essa conversa agora — ela disse em voz alta. Aster e Rowan pararam e olharam para ela. — Estamos? — Sim — disse Corinne trêmula, sentindo as lágrimas vindo aos olhos. Todas aquelas confissões horríveis... era demais. — E nós não vamos dizer nada a ninguém — ela acrescentou. — Não até que saibamos algo real. Natasha suspirou. — Tudo bem — ela murmurou, caminhando de volta para o centro da sala e puxando sua taça de vinho da mesa de café. — Mas eu acho que você está cometendo um grande erro. Lá fora, as gaivotas gritavam. Corinne tentou pensar em uma maneira de mudar de assunto, mas o que havia para falar agora? Elas já tinham falado demais. De repente, ela não podia acreditar que ela tinha admitido a elas. Ela não podia acreditar que elas sabiam sobre Will agora. Em duas semanas, elas iriam estar atrás dela no altar, e iriam saber que ela era uma farsa. Eu não posso acreditar que ela está seguindo com isso, elas pensariam. Pobre Dixon. Ela já podia sentir os olhos em julgamento em suas costas. Ela se levantou e reuniu todas as taças de vinho vazias. — Vocês sabem de uma coisa? Eu não acho que este seja o fim de semana certo para uma festa de despedida de jeito nenhum. — O que você quer dizer? — perguntou Aster. — Eu quero dizer que eu quero ir embora. — Corinne marchou para a cozinha e colocou as taças de vinho na pia. Em seguida, ela entrou na sala de estar e pegou a bolsa com monograma gasto pelo tempo que ela sempre trouxe para Meriweather. — Eu acho que todas nós devemos ir embora. — Corinne. — Aster seguiu até a porta. — Acabamos de chegar aqui. Mas Corinne estava decidida. — Nós estamos indo — disse ela, pegando as chaves e abrindo a porta. — Não é assim que eu quero comemorar o meu casamento. Ela saiu na varanda, sugando o ar quente e úmido. Uma tempestade estava rolando, e as árvores cortadas formavam formas escuras contra o céu


nublado. Ramos raspavam através dos tijolos, tão agudos quanto lamentos. Por uma fração de segundo, Corinne pensou ter visto uma sombra. Mas, em seguida, a porta se abriu de novo, e sua irmã, Rowan e Natasha caminharam para a varanda também. No momento em que Corinne olhou para aquela seção de árvores de novo, os ramos estavam imóveis. Ou talvez eles jamais tenham se movido.


14 Traduzido por Andresa Lane

A

ster colocou a bolsa no ombro e seguiu sua irmã para o caminho de cascalho recém varrido. Corinne caminhou decidida para o carro que mantiveram na ilha. — Corinne, por favor — Aster chamou. — Devíamos ficar. Nós ainda podemos nos divertir. Corinne se virou para ela com olhos torturados e vermelhos. — Eu só quero ir embora — disse ela, com a voz baixa. Aster sentiu-se como Alice quando ela atravessou o espelho e o mundo de repente estava de cabeça para baixo. Poppy pode ser uma assassina, Rowan estava dormindo com o marido de Poppy, e a perfeita Corinne havia traído Dixon. Aster não poderia imaginar o quão difícil deve ter sido para a sua irmã admitir em voz alta. Não muito tempo atrás, ela teria se sentido satisfeita que Corinne finalmente tenha rachado. Agora ela só se sentia mal por ela. — Sinto muito — disse ela, sabendo que as palavras não eram suficientes. — Não é culpa sua. — Corinne fez uma pausa para arrumar sua mala de rodinhas, que ela estava puxando atrás de si. — Não. Sinto muito sobre... mim. Eu não estive muito com você ultimamente. Corinne parou e olhou para Aster, com um sorriso surpreso no rosto. Ela abriu a boca algumas vezes, mas as palavras não saíram. — Obrigada — ela disse finalmente. — Mas eu ainda quero sair daqui. — Tudo bem — disse Aster. — Mas quando chegarmos na cidade, nós compraremos batatas fritas. — Quando elas eram pequenas, Mason costumava comprar para as duas meninas batatas fritas gordurosas, envoltas em calda e quatro tipos de queijo. — Contanto que possamos levá-las pra viagem. — Feito. — Aster pegou a mão de sua irmã, e Corinne apertou em resposta, conseguindo dar um sorriso débil. Elas se voltaram para o carro, caminhando em passos lentos. Assim que Corinne apertou o botão de destravar, Natasha parou elas. — Eu posso dirigir — ela se ofereceu para Corinne. — Por favor. Você pode se sentar na parte de trás e descansar.


Corinne olhou para Natasha com cautela, depois deu de ombros e entregou as chaves. Natasha as pegou e foi até o carro. Houve um ping, e ela abriu seu celular para responder a uma mensagem, os dedos voando pela tela. Aster endureceu. Depois de tudo o que tinha acabado de acontecer, tudo o que tinham acabado de confessar e discutir, Natasha estava mandando mensagens de texto? — Com quem você está falando? — ela perguntou. Natasha parou de digitar. — Um cliente. Já que nós estamos indo embora, eu achei que eu poderia arranjar algumas sessões privadas amanhã. Tudo bem? Aster fechou as mãos em punhos nas costas de Natasha. Depois que Corinne tinha sido boa o suficiente para convidá-la, ela tinha causado tantos problemas e agora elas estavam indo embora. E pior ainda, todas elas tinham se aberto... e Natasha apenas ficou lá, como Buda, absorvendo tudo, não revelando nada. Aster ficou no banco de trás com Corinne ao lado dela, enquanto Rowan foi para o banco do passageiro. Aster olhou ansiosamente para a propriedade que se afastava. Ela nem chegou a subir e visitar o seu antigo quarto. Seu olhar se desviou para a casa dos caseiros através do gramado. Parecia vazia, todas as janelas estavam escuras. Ela se perguntou se o pai de Danielle ainda morava lá; a mãe de Danielle, Julia, tinha se mudado no verão que Aster passou na Europa. Aster sempre se perguntou se era porque ela tinha descoberto o caso que Danielle tinha com Mason, ou porque seu casamento havia acabado. O SUV andou o longo caminho, que circulava a praia, passou pelos campos de tênis, e, por fim, ofereceu uma visão do cais privado da família. O Edith Marie, o veleiro da família, era o único barco balançando na água, com seus mastros nus e uma grande lona encerada encobrindo o casco. O resto do cais estava vazio, a água batendo forte na costa. Aster olhou para a faixa de areia. Ela sabia que as outras estavam olhando também. Era onde o corpo de Steven Barnett tinha sido descoberto há cinco anos. Natasha parou o carro por um momento. Ela não disse uma palavra, e nem as outras primas, mas estava claro o que elas estavam pensando. Depois de alguns momentos, ela acelerou novamente e seguiu em frente. A única maneira de ir para a ilha principal era atravessando a ponte de aço que transpassava o estreito canal. A ponte estava vazia quando Natasha se aproximou dela. O céu parecia ficar ainda mais escuro. As ervas altas de ambos os lados da estrada balançavam de um lado para o outro. Névoa rolou para fora da água, envolvendo o carro em finas nuvens. — Acenda os faróis — Aster pediu inquieta. Natasha encontrou o botão para os faróis e continuou a ir para a ponte. — Olha, eu não fui inteiramente sincera lá dentro — ela começou a dizer, com a voz estranhamente alta e ofegante. — Há algo que vocês precisam saber. Aha! Aster pensou, triunfante. — O quê?


Natasha engoliu alto. O motor do carro balançou. — É sobre Poppy. E é sobre... — Cuidado! — Corinne gritou com urgência, apontando para algo no parabrisa. Faróis brilharam na frente delas, de repente muito perto. Um carro estava dirigindo direto para elas na direção oposta, ocupando toda a ponte. A visão de Aster ficou branca enquanto o carro se aproximava. Antes que ela soubesse o que estava acontecendo, Natasha tinha girado o volante para a direita, pisado nos freios e apertado a buzina. O carro derrapou e girou. Houve um baque quando algo as atingiu. Aster sentiu seu corpo ser arremessado para a frente; seu rosto bateu contra a traseira do assento de Natasha. Alguém gritou. Aster se sentiu momentaneamente e inesperadamente sem peso, e de repente, houve um grande estrondo e ela sacudiu para trás. Finalmente o carro parou, e tudo estava estranhamente silencioso.

*** Aster estava no chão do banco de trás, as pernas abertas acima dela. O interior do carro estava escuro. Quando ela olhou pela janela, Aster viu... bolhas. Ela levantou-se, horrorizada. Elas estavam na água, e afundando rapidamente. — Ei! — ela gritou. Estava tão escuro no interior do carro, que tudo o que podia ver eram sombras cinzentas. — Está todo mundo bem? Ninguém respondeu. Quando Aster estendeu a mão, ela sentiu algo pegajoso. Sangue? Seu coração batia rápido, mas ela tentou não entrar em pânico. — Rowan? — ela chorou. — Corinne? Houve um sussurro no banco da frente. — O que aconteceu? — veio a voz de Rowan. — Oh meu Deus — disse Corinne, ao lado de Aster. E então, de forma mais acentuada, — Oh meu Deus! — Onde está Natasha? — Aster gritou, tateando ao redor na escuridão. Couro rangeu quando Rowan se moveu. — Ela está bem aqui — Rowan falou do banco da frente. — Natasha? — ela gritou. — Natasha! Nenhuma resposta. — Ela está... — Corinne parou, trêmula. Aster tateou ao redor, em seguida encontrou o vidro duro e plano das janelas. Ela bateu nelas, mas elas não cederam. Ela sentia a água se acumulando ao redor de seus pés. O carro estava enchendo, a água entrava através de uma fenda no chão. — Merda! — Corinne gritou.


Aster tentou as maçanetas das portas, mas elas não se mexeram. Ela virou ao redor — ou pelo menos o que ela achava que era ao redor — e subiu no assento traseiro, seus dedos procurando cegamente ao longo do tapete. Finalmente, ela tocou em algo rígido, de metal, e pesado. Um ferro de desmontar pneus. — Todo mundo para trás! — ela gritou. — Precisamos quebrar essa janela. Houve batidas na frente quando sua irmã e sua prima subiram em cima dos assentos. Rowan resmungou em voz alta, arrastando Natasha com ela. Mesmo na penumbra, Aster podia ver que a cabeça de Natasha estava para trás em seu pescoço, pendurada. Uma vez que todas estavam na parte de trás, Aster entregou sem nenhuma palavra a chave de roda para Rowan, que era a mais forte. Rowan tomou impulso para trás da cabeça e a golpeou na porta do porta-malas. O vidro apenas rachou. Ela respirou fundo, e atingiu o vidro novamente. Desta vez ele quebrou. Água gelada inundou o carro, forçando-as fortemente para trás. Aster cerrou os dentes e nadou contra o dilúvio, lutando para passar por aquela janela e sair. — Vamos! — ela gritou para suas primas, puxando-as com ela em direção ao buraco. Juntas, elas agarraram a forma inerte de Natasha sob seus braços e desajeitadamente levaram-na para a água escura. Aster segurou firme a panturrilha de sua prima com uma mão e nadou furiosamente com a outra. Seus pulmões pediram imediatamente por ar. Ela tentou abrir os olhos debaixo d’água, mas tudo o que ela viu foi escuridão. Ela sentiu Natasha escorregar de sua mão e agarrou-a tão firmemente quanto pôde ao redor de sua cintura. Rowan e Corinne estavam chutando abaixo dela, cada uma delas segurando um dos braços de Natasha. Finalmente, com seus pulmões em chamas, Aster emergiu à superfície buscando por ar. O ar estava quente em seu rosto. Ondas marulhavam em torno delas. Tossindo, Aster olhou através da noite enluarada para a ponte acima. Havia um grande arranhão onde o carro tinha atravessado as grades laterais. A ponte estava vazia. Rowan apareceu um momento depois, o peso morto de Natasha em seus braços. As três lutaram para arrastar sua prima para a costa e deitá-la na areia. Ela caiu de costas, com os braços estendidos. Havia uma palidez cinzenta estranha em sua pele, e seus lábios estavam azuis. — Ela está viva? — perguntou Corinne histericamente. Rowan montou no corpo de Natasha e ouviu seu peito. — Eu acho que sim. — Seus olhos estavam cheios de medo. — Mas precisamos de uma ambulância.


Corinne procurou em seus bolsos. — Meu celular ainda está... lá. — Ela apontou para as bolhas subindo à superfície da água. O SUV estava completamente imerso agora. — O meu também — Aster sussurrou. — O mesmo aqui. — Rowan parecia que ia explodir em lágrimas. — Natasha — ela gritou para ela. — Natasha, por favor, acorda! — Natasha — Lágrimas escorriam pelo rosto de Aster. — Natasha, por favor. — Os últimos momentos com Natasha invadiram sua mente. Como ela começou a dizer-lhes algo sobre Poppy. — Por favor, acorde — Aster sussurrou. Mas não importava o quão alto elas gritavam, os olhos de sua prima permaneciam firmemente fechados.


15 Traduzido por Matheus Martins

Q

uando Rowan abriu os olhos, ela estava sentada em uma cadeira de vinil laranja. Uma reprise de Friends passava em uma televisão na parede do outro lado da sala. Próximo a ele um relógio marcava 11:30 — da noite, presumivelmente, já que estava escuro lá fora. Suas primas inclinaram-se umas contra as outras em um sofá, usando uniformes que diziam “Propriedade do Hospital Martha Vineyard.” Então ela notou uma mulher em uma cama de hospital a poucos metros de distância, com tubos no nariz e um aparelho de respiração em sua boca. Seus olhos estavam fechados, suas mãos estavam quietas em seus lados, e um monitor registrava seu batimento cardíaco estável. Natasha. Rowan engoliu em seco. Depois que elas subiram à terra, um outro carro finalmente passou na ponte, e elas tinham sinalizado e chamado uma ambulância. Todas as suas roupas estavam encharcadas, então os paramédicos tinham emprestado roupas de hospitais. Corinne esfregou os olhos e pegou uma garrafa de água. — Aconteceu alguma coisa? — ela disse, grogue, olhando para Natasha. — Ela está... — Não. Ela ainda está inconsciente — disse Rowan roboticamente, olhando para sua prima imóvel. Ela parecia em paz, quase como se ela estivesse apenas dormindo. Ainda assim, Rowan não conseguia afastar a sensação de que algo estava muito errado aqui. Quais eram as chances de que no justo momento em que Natasha disse que tinha algo a confessar, um carro as acertou? Tinha mesmo sido um carro? Tudo tinha acontecido tão rápido, Rowan não tinha certeza. Ela achou que tinha visto faróis. Ela tinha certeza de que tinha ouvido uma buzina. E se era a buzina delas? A porta se abriu, e Katherine Foley correu em direção a elas, vestida com uma camiseta cinza do FBI e calças cáqui. Rowan levantou e empurrou o telefone a uma das enfermeiras que foi gentil o suficiente para emprestar-lhe para ligar para sua família.


— Vim assim que soube. — Foley parou na porta. — Seu carro passou por cima de uma ponte? Rowan olhou para suas primas. — Isso mesmo. Foley olhou para Natasha e fez uma careta. — Ela era a motorista? — Sim. — Corinne assentiu. — O que aconteceu? Rowan olhou para os azulejos no chão. — Eu acho que um outro carro estava em nossa pista. Natasha tentou virar, mas ela perdeu o controle. — O que aconteceu com o outro motorista? Rowan olhou para as outras. — Nós não temos nenhuma ideia — disse Aster. — Vocês não reconheceram o veículo? — Tudo é meio que um borrão — Rowan admitiu, percebendo o quão patético isso havia soado. Foley parecia em conflito. Seu olhar viajou de volta para Natasha. Aster pigarreou. — Você sabe onde ela estava na manhã da morte de Poppy? Foley enfiou as mãos nos bolsos. — Eu não sei, na verdade. E agora... — Ela parou e enrolou as mãos sobre as grades na cama de Natasha. — Bem, eu gostaria que ela estivesse acordada para esclarecermos isso. O estômago de Rowan se agitou com a implicação de Foley. Foley olhou para as primas. — Onde vocês estavam indo hoje à noite? Rowan ficou de pé, tomando cuidado para não ficar presa nos fios que serpenteavam do corpo de Natasha para as máquinas. — Para o aeroporto. Estávamos na casa para a festa de despedida de Corinne, mas depois decidimos voltar para a cidade. — Por que vocês terminaram a festa tão cedo? Houve uma longa pausa. — Nós não... — Corinne começou. — Eu não... — Aster disse ao mesmo tempo. De repente, Rowan não podia segurar por mais tempo. — O que você sabe sobre Steven Barnett? Foley se encolheu quando a máquina começou a apitar ruidosamente. Um ícone de coração pequeno indicou que a frequência cardíaca de Natasha tinha mergulhado abaixo de sessenta batidas por minuto. Depois de um momento, ele regulou e se acalmou. — O que tem Steven Barnett? — perguntou Foley, brincando com um botão em sua jaqueta. — Eu pensei que ele estava morto. — Ele está, mas ele queria o trabalho de Poppy — disse Rowan. — Steven era protegido do nosso avô. Eles eram próximos, e ele era muito ambicioso. Havia


rumores sobre ele, não Poppy, tornar-se presidente. E se alguém estava com raiva de Poppy? Foley encostou-se à parede. — Isso foi há cinco anos, no entanto. Não parece provável que alguém próximo a Steven mataria Poppy cinco anos depois de uma promoção perdida. — Nós pensávamos assim também — disse Rowan, olhando para ambas as primas. Aster e Corinne acenaram para ela ir em frente. Depois do que tinha acontecido, elas não poderiam manter o que Elizabeth tinha dito em segredo. — Até que descobrimos que Poppy poderia ter matado ele. A expressão de Foley acalmou. Ela não disse nada, apenas piscou para elas. Aster contou o que Elizabeth tinha lhe dito. Com cada palavra, o rosto de Foley ficava cada vez mais vermelho. — Você tem certeza disso? — ela vociferou. — Não temos certeza sobre nada — Rowan admitiu. — E nós preferimos que você não torne isso público — tanto pelo bem de Poppy como pelo nosso. Praticamente segundos depois que começamos a conversar sobre isso, um carro bateu em nós. Como se alguém quisesse nos calar. — Ela engoliu em seco. — Estou um pouco preocupada até mesmo de confessar isso para você. Foley fez uma careta. — Então você acha que alguém estava ouvindo na casa? Alguém sabia que vocês estavam vindo para Meriweather neste fim de semana? Aster deu de ombros. — Todo mundo. Foley fechou os olhos e apenas ficou em silêncio por um tempo. Rowan trocou um olhar preocupado com as outras. Talvez tenha sido errado ter dito alguma coisa. Finalmente, a agente olhou para cima. — Bem, obrigada por essa teoria. É definitivamente... interessante. — Interessante? — Aster repetiu, parecendo confusa. — E que tal assustadora? Ou perigosa? Ou plausível? — Você vai investigar mais sobre isso, certo? — Rowan protestou. — E se foi por isso que alguém bateu em nós? — Nós ainda não temos certeza de que alguém tentou bater em vocês de propósito. — O olhar de Foley estava disperso, como se seus pensamentos estivessem longe. — Mas eu vou investigar. Tentem descansar um pouco, ok? Entrarei em contato. — Espera! — Rowan gritou. Foley se virou. Rowan queria mais — ouvir o que ela estava pensando, que conclusões ela estava chegando, e o que ela pensava sobre Poppy e Steven — mas ela não sabia bem como fazer as perguntas. — Quanto a imprensa sabe sobre o acidente? — ela perguntou.


Foley enfiou as mãos nos bolsos, o olhar atordoado ainda em seu rosto. — A pessoa que vocês sinalizaram já chamou um repórter local. E, obviamente, as autoridades locais apresentaram um relatório sobre os danos na ponte. Agora ela está bloqueada, e é a única maneira de entrar e sair da ilha. Rowan fechou os olhos. Se havia alguma coisa envolvendo a maldição Saybrook, a imprensa estava lá. — Existe alguma coisa que você possa fazer para manter os jornalistas longe? Foley bateu as unhas contra a grade da cama de Natasha. — Só não comentem nada. E então ela se foi. Por um momento, o único som no quarto era a música tema de “Friends” conforme os créditos rolavam na TV. Finalmente Rowan trocou um olhar perplexo com as outras. — É impressão minha, ou Foley apenas agiu como um zumbi? Os olhos de Corinne estavam redondos. — Foi como se ela tivesse adormecido no meio da conversa. — Eu acho que ela não acreditou em nós sobre Steven — Aster murmurou. Rowan colocou seu dedo em um pequeno buraco na roupa de hospital. — Então, talvez nós estejamos tirando conclusões um pouco precipitadas. É de Poppy que estamos falando. — Então você acha que Elizabeth está fazendo tudo isso? — Aster mordeu uma unha. — Eu não sei. E se Steven ameaçou Poppy, e ela revidou? — Mas eu nem me lembro de vê-los juntos naquela noite — Corinne argumentou. — Exceto bem no início da festa, quando Steven a parabenizou. Rowan fechou os olhos. Ela não tinha certeza se tinha visto Steven naquela noite, no entanto, mas ela tinha visto Poppy bastante. Embora ela tenha saído com seus irmãos e um monte de outros caras naquela noite, jogando boliche de gramado e pôquer, ela parecia ter um radar apurado sempre que Poppy e James nadavam em sua visão periférica. Então ela olhou para Aster. — Você estava... com Steven naquela noite — ela disse delicadamente. Depois do funeral de Steven, Aster confessou que ela tinha ficado com ele. Foi meio que uma maneira de dizer Eu fiquei com esse cara, e então ele apareceu morto. Quão estranho é isso? — Ele estava agindo de forma estranha? Ele falou sobre Poppy? As bochechas de Aster adquiriram um tom vermelho. — Nós não falamos muito, para falar a verdade. Rowan olhou para uma lâmpada fluorescente no teto. — Tudo bem. Se Poppy fez isso, e se isso tem algo a ver com o seu assassinato, quem era próximo de Steven? Quem poderia ter feito isso com ela — e com a gente? Corinne olhou fixamente para frente. — Eu não sei. Uma namorada?


— Quando falei com Elizabeth, ela disse que eu era uma de muitas. Talvez alguma delas tenha realmente se importado com ele. Talvez ela estivesse na festa também — Aster sugeriu. — E quanto ao que Natasha queria nos dizer? — Rowan sussurrou, olhando para a forma silenciosa de Natasha debaixo dos cobertores. A névoa se formando no interior da máscara de respiração quando ela exalava. — O que vocês acham que ela sabia? — E onde vocês acham que ela estava na manhã que Poppy morreu? — Aster sussurrou. Corinne engoliu em seco. — Talvez nós nunca saibamos. Rowan inclinou a cabeça contra a parede. — Ou talvez haja uma maneira de descobrirmos isso por nós mesmas. — Descobrir o que por nós mesmas? — perguntou Corinne. — Bem, pelo menos a teoria de Poppy matar Steven ainda é plausível. Quero dizer, pode haver pessoas que a viram em outro lugar quando Steven morreu. E nós poderíamos tentar descobrir quem mais se preocupava com Steven. Mas, se ela fez isso, talvez ela tivesse dito a alguém. Como o seu pai. Ou Evan. — Ou James, Rowan pensou com uma pontada. As outras pareciam céticas. — Papai pode saber — disse Aster em voz alta. Rowan assentiu. — E eu vou falar com James. Corinne levantou-se e espreguiçou-se. — Acho que eu poderia perguntar a Evan — eu vou vê-la esta semana para passar os detalhes finais do casamento. — Ela se virou para a porta, com os ombros arqueados. — Eu preciso de café. — Eu vou verificar se os pais de Natasha ainda estão aqui. — Aster alisou sua roupa de hospital e olhou para o relógio. — Eu vou ficar aqui, caso ela acorde — disse Rowan. A porta se fechou novamente. Rowan se inclinou para trás na cadeira e ouviu os sons sibilantes das máquinas da intravenosa. Lentamente o líquido escorria de um saco para as veias de Natasha. Seus olhos permaneceram fechados, os cílios nem vibravam. Em algum lugar por trás daqueles olhos fechados, um segredo estava trancado. Algo tão terrível, que alguém pode ter jogado elas para fora de uma ponte por causa disso. Em seguida, o telefone emprestado de Rowan apitou, e ela olhou para a tela. Ela entrou no e-mail através do navegador de Internet e uma nova mensagem chegou. NOVA POSTAGEM NO ABENÇOADOS E AMALDIÇOADOS, liase no e-mail. VOCÊ VAI QUERER VER ISSO! A pele de Rowan arrepiou. Que estranho. Ela nunca tinha configurado para receber alertas do site. Ela clicou no link, de repente cheia de medo. E se fosse uma postagem sobre o acidente? A página apareceu na tela. Mas o topo da história era sobre outra coisa. — “Sexo explícito no local de trabalho”, dizia a legenda.


Um vídeo do QuickTime carregou. Com os dedos trêmulos, Rowan pressionou reproduzir, em seguida, gritou. Lá estava ela em sua mesa, arqueando as costas e gemendo “Sim” e agarrando as costas firmes de um homem. Sua placa de identificação, “Rowan Saybrook, Esq.,” estava claramente à vista, juntamente com o logotipo da Saybrook. James desabava contra ela quando eles terminaram juntos, a câmera nunca pegando seu rosto. Ela parou o vídeo imediatamente. Arrepios irromperam em sua pele. Ela tinha apagado esse vídeo. Ela mesma tinha excluído de seu lixo. Não tinha? Algo parecido com uma risadinha soou do outro lado da sala. Rowan olhou duas vezes para a forma adormecida de Natasha. Suas mãos ainda estavam em seus lados, o cabelo espalhado e os pés apontados para cima. Mas uma coisa havia mudado. Agora havia a sugestão de um sorriso em seu rosto. Parecia que ela estava zombando. Provocando. Oh, suas tolas ingênuas, ela parecia estar dizendo. Como se ela estivesse enganando a todos.


16 Traduzido por Ivana

N

a segunda-feira seguinte, Corinne se sentou no escritório de seu pai, uma grande sala com duas paredes de janelas, um teto abobadado, uma área de lazer separada, e um pequeno banheiro privado, elegantemente decorado. Rowan se sentou ao lado dela, nervosamente balançando sua grossa e musculosa panturrilha esquerda. Aster estava no sofá ao lado de Rowan, olhando para uma xícara de café, e Deanna estava em uma cadeira de couro contra a janela. Mason estava sentado atrás de sua mesa, com o cenho franzido e os lábios apertados. Haviam três latas de Coca Diet vazias ao lado dele. Desde que Mason parou de fumar — além de um ocasional charuto de vez em quando — ele bebia Coca Diet sempre que estava estressado. — Eu nem sei por onde começar — disse ele, apertando a área entre os olhos. — Este acidente não é exatamente o que precisávamos agora. — Ele olhou diretamente para as três. — Uma de vocês vai ter que fazer a entrevista da CNN — Deanna alertou, olhando para um iPad, um BlackBerry e um iPhone em seu colo. — Mas tentem não falar muito, ok? Nós não precisamos dar mais assunto para alimentar rumores sobre a maldição. E não deem muitos detalhes sobre a condição de Natasha. — Eu vou fazer a entrevista — Rowan se ofereceu. O olhar de Mason voltou-se para ela. — Não, você não vai. — Seus olhos brilhavam. — Eu nem sei o que dizer sobre você e esse vídeo. Nos escritórios da Saybrook, Rowan. — Eu sei — murmurou Rowan, olhando para seu colo. Ela parecia mortificada. Corinne estava envergonhada por ela. Ela não tinha visto o vídeo, é claro, mas ela podia imaginar. Deanna virou uma página do seu bloco amarelo. — Na verdade, Mason, talvez seria bom para Rowan ser a nossa porta-voz. Ela podia pedir desculpas pelo vídeo de sexo. Seria uma maneira de humanizar a sua imagem. Talvez esclarecer algumas coisas sobre o homem misterioso — todo mundo está morrendo de vontade de saber.


— Como é? — Rowan gritou, parecendo como se fosse dar um soco em Deanna. Corinne ficou tensa também. Às vezes, sua assessora ia longe demais. — Não, obrigado — disse Mason, suas narinas dilatando. — Aster vai fazer isso. — Eu vou? — Aster pareceu surpresa. — Sim, você vai. — Então Mason olhou para Rowan. — E se eu te pegar trazendo outro homem para o seu escritório de novo, você está ferrada. Entendeu? — É claro — disse Rowan, com o rosto vermelho brilhante de tão corada. — Tudo bem, agora saiam todas da minha frente — disse Mason, fazendo um gesto de enxotar com as mãos. Elas se levantaram e se dirigiram para a porta. — Corinne, você fica — Mason gritou quando ela estava quase fora da sala. Corinne se virou e olhou para seu pai. Ele tinha acabado de abrir uma quarta lata de Coca Diet, e ele girou a cadeira para o outro lado para encarar a janela que dava para o rio Hudson. Alguns caiaques oceânicos estavam na água. O relógio Colgate indicava que já havia passado das 18:00 horas. Corinne deslizou seu anel de noivado para cima e para baixo no dedo, querendo saber do que se tratava. Por uma fração de segundo, ela temeu que Aster houvesse contado sobre Will, mas ela não faria isso, faria? Mason virou-se e olhou para Corinne. — Eu só queria saber como você está suportando. — Eu? — Corinne tocou seu peito. — Por quê? — Seu casamento está próximo. Eu sei que você não precisava deste estresse. — Ele deu um sorriso triste. — Foi por isso que pedi a sua irmã para fazer a entrevista em seu lugar. — Oh. — Corinne tocou a gola da blusa de seda. Ela ouviu seu novo celular vibrar em sua bolsa. A tela branca iluminou o forro de cetim escuro. — Bem, obrigada. — Eu estou orgulhoso de você, você sabe disso. — A voz de Mason estava um pouco embargada. — Resolvendo as dificuldades de seu trabalho, planejando o seu casamento — você é o alicerce de todo mundo. Especialmente agora que Poppy se foi. A garganta de Corinne apertou. Toda a sua vida, o afeto de seu pai tinha sido raro. Mas Corinne ainda precisava dele, e ela precisava de mais do que isto, não só ele simplesmente dizendo que ele reconhecia o quão difícil era suportar tudo junto. — Ob-obrigada — disse ela, tentando sorrir. Seu telefone vibrou novamente. Desta vez, ela olhou para ele. Duas mensagens de texto tinham chegado. Eu preciso te ver, dizia a primeira. Você pode me encontrar? Will. Os pensamentos de Corinne foram interrompidos. Ela não podia ir. Ou talvez ela tivesse que ir.


— Algo importante? — perguntou Mason, olhando para o telefone de Corinne. — Acho que sim — disse ela ao seu pai, ficando de pé rapidamente e correndo para fora da sala antes que ele pudesse perguntar mais. Porque, ela percebeu, ela não estava suportando coisa nenhuma. Ela estava mantendo as coisas separadas... e ela não conseguia nem mesmo ajudar a si mesma. Meia hora depois, Corinne estava do lado de fora de um prédio de apartamentos na Bank Street. Ela olhou para os números dourados na parede, e depois para o nome de Will no diretório. Apenas olhar aquilo já a deixou horrorizada, e ela disparou ao virar da esquina, tentando recuperar o fôlego. Um café chamou sua atenção do outro lado da rua. Ela iria para lá. E iria pensar. E, em seguida, voltaria para onde ela pertencia. Mas suas pernas não se moviam, ou melhor, elas se voltaram para a direção errada, de volta ao prédio. Uma mulher na casa dos vinte anos de idade saiu, e Corinne se afastou do caminho, com medo de ser vista. Seu telefone tocou. Ela olhou para a tela. Dixon. Ela apertou em SILENCIAR. Corinne tinha enviado um SMS dizendo que ela não ia fazer o jantar hoje à noite, mas ela não tinha explicado o porquê. Ela não podia falar com ele agora. Sua culpa seria óbvia em sua voz. Ela passou as mãos ao longo do rosto. Endireitando os ombros, ela virou-se para o painel da campainha e apertou o botão para o apartamento de Will. A porta destrancou, e ela entrou em um vestíbulo com piso ladrilhado, uma lâmpada fluorescente piscando no teto, e uma fila de caixas de correio de metal pequenas ao longo da parede. Mais caixas de correio ficavam também em cima de um radiador. Uma bicicleta com um pneu furado estava encostada contra a parede. Depois de abrir uma outra porta, ela encontrou um conjunto de escadas desgastadas. Ela começou a subir, os degraus rangendo. Algumas portas apareceram no corredor, uma mistura heterogênea de cheiros emanando delas. Ela subiu outro degrau. Ela imaginou o rosto de Dixon, se ele pudesse imaginar que ela estava em um lugar como este. Ela suspirou pensando no julgamento de sua mãe. Ela pensou no que ela disse a suas primas: É só pé frio. Ainda assim, ela continuou subindo. Finalmente ela chegou no quarto andar. Will estava parado na porta. — Você está bem? — ele gritou, puxando-a em sua direção. Corinne se afastou, deixando um espaço entre eles. — O que você quer dizer? Will a encarou. — Eu li que você sofreu um acidente de carro. Eu estava tão preocupado.


Corinne olhou para baixo. Claro. Cada jornal da cidade estava falando sobre o acidente. — Eu estou bem — disse ela rigidamente. — Foi apenas um acidente. — E a sua prima? Ela vai ficar bem? Corinne assentiu fracamente. Não havia inchaço no cérebro de Natasha, o que significava que ela deveria acordar em breve. Então ela também lembrou que alguns pacientes nessa condição nunca recuperavam a consciência. Houve uma longa pausa. Corinne olhou para o corredor acarpetado, olhando para a porta vermelha do outro lado. — Bem, vamos lá — disse Will sem jeito, dando um passo para o lado e gesticulando para Corinne entrar no apartamento. Corinne abaixou a cabeça e o seguiu. Eles entraram numa pequena sala com uma parede de tijolos expostos. Um sofá cinza de aparência moderna estava encostado no canto, rodeado por duas mesas da metade do século. Livros de receitas antigos e de capa dura estavam em uma estante vintage encostada na parede. Um corredor revelava uma quitinete; facas estavam penduradas ao longo de uma faixa magnética na parede, e tachos e panelas penduradas em uma prateleira sobre o fogão. Corinne imaginou que a maioria das pessoas em Manhattan pensaria que Will estava se virando muito bem. Só não as pessoas com quem ela andava. Na parede do fundo havia um letreiro enorme que levava o nome do restaurante local que Will tinha trabalhado em Vineyard, o Sextant. — Oh meu Deus — Corinne deixou escapar, baixando a guarda por um momento. — Esse é o letreiro da estrada? — Oh. — Will sorriu timidamente. — Sim. — Eles permitiram que você o pegasse? — Não exatamente. Eu meio que... o roubei. Embora o Sextant funcionasse desde 1920 e alguma coisa, na única vez que Corinne tinha estado lá, ela estava com Will. Foi a quarta vez que eles saíram juntos, a primeira vez que eles se atreveram a ir a algum lugar em público — embora certamente não seria um lugar que Corinne seria reconhecida. Corinne lembrava de ter perguntando por que os bartenders não tinha varrido a serragem ou os mexilhões no chão, e Will riu e disse, — Aqui costuma ser assim. Agora Will olhou para o letreiro com um olhar distante no rosto. Corinne se perguntou se ele o fazia lembrar dela. Ela gostou da ideia de que ele pensasse nela enquanto ele estava cozinhando. E então, instantaneamente, ela se odiou por ter pensado nisso. Suas emoções estavam tão confusas que ela sentiu as lágrimas picarem seus olhos. Will deu um passo à frente. — O que foi? — Eu não sei — disse Corinne, inclinando em direção à parede. — Estou confusa. E eu menti para você. Will olhou para cima e piscou. — Eu sei.


— Sobre este fim de semana. O acidente. Eu não estou bem. — Então Corinne inclinou a cabeça. — Espere. Como você sabia que eu menti? Will levantou um ombro. — Eu senti — disse ele, sua voz não muito firme. — Você quer me falar sobre isso? Corinne sacudiu a cabeça, se perguntando se não deveria ter falado do acidente. Tudo que saia da sua boca estava errado. Will sentou-se no sofá. — Eu ouvi dizer que o carro começou a afundar. Os olhos de Corinne se encheram de lágrimas. — Tudo aconteceu muito rápido. Graças a Deus minha irmã estava lá. Ela assumiu o comando. — E então ela contou a ele que nadaram para a margem, correndo para encontrar um carro que passou naquela hora, as ambulâncias vindo e levando-as para longe. Will ouviu pacientemente, seu olhar nunca deixando seu rosto. Ele limpou a garganta. — Há todos os tipos de conversas malucas, você sabe. Depois do que aconteceu com Poppy... e aquele site. Algumas pessoas temem que alguém esteja atrás de todas vocês. Corinne se encolheu. — Eu não quero mais falar sobre isso — ela decidiu. — Você está segura agora. — Will estendeu a mão. — Eu vou mantê-la segura. Ele disse aquilo tão ternamente, que Corinne de repente lembrou-se do verão, como ela olhou para ele — ele era alto, muito mais alto do que Dixon — e como ela se sentia segura em seus braços. E ela viu agora como aquela ternura faria dele um bom pai. Poderia tê-lo feito um bom pai, ela se corrigiu. Era como acordar de um sonho. Meu Deus, você não tem que dizer a ele, ela pensou. Ela tinha que sair dali. Já era ruim o suficiente ter traído Dixon, mas havia muito mais do que isso. Ela tinha traído Will também. Ela queria mais do que nunca conversar com Poppy, para perguntar-lhe o que fazer. Poppy era a única pessoa no mundo que sabia tudo sobre ela — a parte que amava Dixon, que sabia que ela poderia ser feliz com ele, seu futuro previsível e agradável. A parte que tinha se envolvido com Will, que por um breve momento imaginou uma vida que era completamente desconhecida. E a parte dela que ela tinha deixado para trás, na Virgínia, o bebê que ela nunca tinha tido a oportunidade de conhecer. Ela queria dizer para Will tudo isso; ela queria que ele entendesse o emaranhado complicado que era sua vida. Mas ela também queria ir embora, e voltar para seu lindo apartamento de três quartos, onde cada quarto era climatizado e tudo existia em tons de cinza e pastel. Mas quando ela olhou para cima novamente, o rosto de Will estava se movendo em direção ao dela. Só um beijo, Corinne disse a si mesma. Apenas um beijo de despedida. — Não deveríamos fazer isso — ela murmurou, mas ela deixou ele puxar seu vestido por cima da sua cabeça. — Não, nós não deveríamos — Will concordou, guiando-a em direção ao seu quarto.


A cama de Will cheirava a sabão e açúcar. Ele subiu em cima de Corinne e começou a beijar cada centímetro de seu corpo. Ela fechou os olhos e tentou adormecer, mas ela estremeceu quando as mãos ásperas de Will se moveram ao longo de sua pele nua. Ele foi rápido com ela, lascivo e louco, desesperado e carente. Ele não tocou sua cicatriz da cesariana. E o mais importante, ele não perguntou sobre isso, também. Ela tentou não pensar em Dixon e no escuro segredo trancado em seu interior. Mas em pouco tempo, ela não conseguia mais nem pensar. Tudo desapareceu; apenas o físico ficou. Corinne deslizou seus pés contra os lençóis, suas pernas estavam trêmulas. Era como se Will entendesse inerentemente, sem ela ter que dizer uma palavra, o que a fazia se sentir melhor. Isso o havia separado dos outros namorados que ela teve quando era jovem — todos eles a irritavam com muitas perguntas, riam quando não deveriam. E Will — bem, ele apenas sabia.

*** Corinne abriu os olhos para descobrir que estava escuro lá fora. Ela provavelmente devia ter cochilado. A cama estava vazia, e ela ouviu panelas e frigideiras batendo na cozinha. Ela ficou lá por um momento, pensando sobre o que ela tinha feito. O que ela tinha feito mais uma vez, ela lembrou-se. Mas em vez de sentir a vergonha e a culpa que ela sentiu da última vez, ela se sentia relaxada. Ela se sentia como se estivesse brilhando. Levantando-se, ela vestiu suas roupas e caminhou na direção dos barulhos. Will estava de cueca e pés descalços segurando uma panela no fogão. Seu cabelo estava despenteado, sua pele corada, e havia um olhar de concentração em seu rosto quando ele virou algo na panela. Quando ele a notou na porta, ele sorriu. — Eu fiz um lanche. — Ele deslizou um sanduíche no prato. — Sanduíche com queijo e azeite. — Você não tinha que fazer isso — disse Corinne suavemente, aceitando o prato. E embora ela soubesse que azeite, queijo brie, e pão eram, provavelmente, a pior coisa que ela podia fazer pelo seu corpo, ela mordeu o sanduíche e delirou. — Oh meu Deus. Isso é muito bom. — Fique comigo, e eu vou fazer para você um desses todos os dias — disse Will quando ele se sentou em uma banqueta ao lado dela. — E eu vou pesar 100 quilos. — Então eu vou te fazer um a cada dois dias. — Will tocou-lhe o queixo, girando a cabeça para que ela olhasse para ele. — Você sabe que não é assim tão fácil.


— Nem me fale. — Ele suspirou. Will levantou-se do banco, foi até uma mesa bagunçada embutida no canto da cozinha, e arrancou um pedaço de papel do topo da pilha. — Isso é para você. Corinne enxugou os dedos sujos em um guardanapo e estudou o papel. — Nota Fiscal — lia-se no topo, ao lado do logotipo do Coxswain. — Clientes: Dixon Shackelford e Corinne Saybrook. Descrição do evento: Jantar de ensaio (175 convidados) e casamento (260 convidados) na casa da família Saybrook em Meriweather, Massachusetts. Um nó duro se formou em seu peito. Era quase perverso ver os nomes dela, de Dixon e de Will no mesmo pedaço de papel. Ela queria embaralhar os nomes, fazendo Will ser o noivo e Dixon o ajudante contratado. Will mordeu sua metade do sanduíche. — Você realmente vai seguir com isso? Os olhos de Corinne queimavam com lágrimas iminentes. — Eu não sei. — Você o ama? Um nó se formou em sua garganta. — Não se trata disso. — O casamento não se trata de amor? Isso é novo para mim. Sua voz estava extraordinariamente severa. Corinne concentrou-se no prato branco sobre o qual o sanduíche estava. Ela amava Dixon, mas amava o suficiente? Era o tipo de amor com o qual você poderia construir uma vida junto com a pessoa? Era o tipo de amor que durava para sempre? — É complicado. — Ela riu, um pouco amargamente. — Quero dizer, obviamente — disse ela, olhando ao redor. Will caminhou para o fogão. — Eu simplesmente não entendo. Se você o ama, por que você está aqui? — Eu sei. É só... — Ela suspirou e olhou para fora da janela. — Isso destruiria a minha família. — Ela pensou na voz embargada de seu pai mais cedo. Eu estou orgulhoso de você. — E é quem eu sou também — ela acrescentou. — Isso é o que eu devo fazer. Esta é a pessoa com quem eu devo me casar. Will arqueou as sobrancelhas. — Não é a Idade das Trevas, Corinne. Os casamentos não são mais arranjados. — Will cruzou os braços sobre o peito. — Há algo mais, não é? O silêncio prolongou-se entre eles. Corinne desviou o olhar primeiro. — Não — ela mentiu, o segredo revirando em seu interior. Ela queria dizer a ele, mas como ela começaria? Eu estava grávida naquele verão. Nós temos um bebê em

algum lugar. Você é um pai. Ele se aproximou. — Você não quer viver uma vida honesta? Você não quer ser quem você é de verdade? Ela encolheu os ombros, tentando se esconder. — Eu não posso lhe dar a resposta que você quer agora. Preciso de mais tempo. — Você não tem mais muito tempo.


Algo na cozinha quebrou. Foi só depois que o prato estava em pedaços no chão, que Corinne percebeu que Will tinha quebrado ele. Ele ficou lá, com o peito arfando, os ombros, os bíceps e os músculos do peito tensos. Corinne olhou para seus pés. — Você está me assustando — disse ela, de repente nervosa. Will olhou para ela, seu queixo duro. — Por que você não consegue entender que você não é a única com emoções? — Sua voz falhou. — Que você não é a única pessoa nessa equação? — Você está me fazendo parecer tão egoísta. — Ela virou-se para a porta de entrada, piscando para conter as lágrimas, enquanto olhava para os sapatos. — É isso que você acha? Will não respondeu. Corinne pegou seus saltos gatinho Jimmy Choo e começou a colocá-los, sua garganta estava apertada. Ela não conseguia encaixar seu calcanhar na correia do sapato, então ela a deixou desatacada, tão desordenada como ela se sentia. — Eu vou embora — ela murmurou. Will começou a caminhar até a porta, mas Corinne caminhou a alguns passos à frente, recusando-se a olhar para ele. Will limpou a garganta. — Corinne, pare. Eu sinto muito. Eu quero ficar com você. E eu acho que você quer ficar comigo. Deveria ser tão simples. Corinne parou e se virou. Ele estava na porta, com um olhar torturado em seu rosto. — Bem, não é — ela sussurrou, e começou a descer as escadas.


17 Traduzido por Ivana

D

epois de uma entrevista nos estúdios da CNN New York, Aster voltou para seu minúsculo escritório dos Saybrook, e estava olhando para uma pasta enorme em sua mesa que listava todas as pedras da Saybrook ainda armazenadas na empresa. A pasta estava categorizada por cores e, em seguida, por quilates e depois por outras categorias, como onde o diamante foi encontrado e se ele foi cortado. Elizabeth havia lhe pedido para acrescentar toda a informação e fazer o upload das imagens para um servidor na nuvem, seja lá o que isso significasse. Mas Aster precisava de um momento para respirar. Ela conseguiu se conter bem durante a própria entrevista — na verdade, ela pensou, ela tinha feito um trabalho fantástico, mas falar sobre Poppy a afetou mais do que ela imaginava. Depois disso, ela começou a chorar no caminho para o banheiro. Ela se abaixou em um dos compartimentos do banheiro e silenciosamente chorou por um minuto, depois ela cuidadosamente refez a maquiagem pesada e forte que ela havia usado ao aparecer na TV antes de se despedir e sair do estúdio. Aster sabia que não devia deixar ninguém vê-la chorar. Seu telefone tocou, e ela olhou para baixo. Nova postagem no Abençoados e Amaldiçoados, dizia a mensagem. Mitch a tinha ajudado a se inscrever para poder receber estes alertas de fofocas há algumas semanas. Talvez fosse masoquista acompanhar quase em tempo real como alguém jogava no ar a roupa suja dos Saybrooks por toda a Internet, mas Aster achava que era melhor saber o que estava sendo dito do que ser pega de surpresa. Ela respirou fundo para preparar-se, em seguida, clicou no link. Como esperado, uma nova postagem estava carregando. Duas imagens foram posicionadas lado a lado sobre a tela. À esquerda, uma foto de uma figura em uma calçada lotada de Manhattan, uma mecha de cabelo loiro espreitando para fora de uma lona, um elegante escarpim de pele de cobra emergindo de outro canto. Aster arfou. Poppy. A outra foto era de Natasha deitada em uma cama de hospital. Tubos saíam de seu nariz. O cabelo escuro e encaracolado emoldurava seu rosto oval, e um sorriso misterioso aparecia em seus lábios. A boca de Aster caiu aberta. Como alguém havia chegado perto o suficiente para tirar uma foto de Natasha?


— Duas Herdeiras Caíram, Faltam Três — dizia a manchete em letras vermelhas brilhantes. Aster imediatamente discou para Foley, mas ela não atendeu. Tentando manter a calma, ela rolou o texto para baixo e leu os comentários sob a postagem. Alguns deles condenavam o escritor do título da notícia e exigiam que o administrador do site tirasse aquilo. Outros diziam, — Vocês não suportam nem uma piada? — Outros ainda escreveram que Aster e suas primas mereciam aquilo. — Vadias arrogante — estava escrito em uma postagem anônima. — O que vai, volta. O telefone de Aster tocou, assustando-a. O site tinha minimizado, e o nome de Clarissa aparecia na tela. Aster sentiu uma onda de satisfação, ela não tinha visto Clarissa desde antes da morte de Poppy, mas é claro que sua amiga ligaria para Aster quando estivesse em grande necessidade. — Eu suponho que você me viu na CNN? — perguntou Aster em vez de dizer alô, ainda sentindo-se trêmula pelo que havia lido. — Por que você estava na CNN? — A voz de Clarissa estava rouca, do jeito que sempre ficava quando ela fumava muitos cigarros. Aster se perguntou onde ela estava na noite passada. Alguns dos lugares de sempre, ou um novo clube do qual Aster não tinha sequer ouvido falar? — Porque alguém tentou me matar? — disse Aster lentamente, tremendo ao som disso. — Há um serial killer louco deixando mensagens em um site de fofocas sobre a minha família. — Você não deveria ler esse site — disse Clarissa. — Você sabe que é tudo mentira. Só que não contaram mentira nenhuma ultimamente, Aster pensou. — De qualquer forma. — Clarissa bocejou. — Você vem hoje à noite, ou não? Aster segurava o telefone com força, surpresa por Clarissa ter mudado o assunto sobre ela. Ser perseguida por um assassino não era uma grande coisa? — Hum, para onde? Clarissa zombou. — Para a Boom Boom, é claro! Jake vai estar lá. Aster acessou o Abençoados e Amaldiçoados em seu computador. As fotos de Poppy e Natasha ainda estavam na frente e no centro; ela minimizou a janela. — Jake? — Gyllenhaal? Aster, eu te enviei as imagens dos SMS dele. Você não viu? — Clarissa estava soando cada vez mais descontente. Ela contou uma história sobre como ela tinha trocado mensagens com Jake e que eles iam se encontrar lá às doze e trinta. — Eu adoraria, — disse Aster, — mas como eu disse, a minha vida está mais ou menos em perigo. Eu provavelmente deveria ficar em casa, quieta.


Clarissa bufou. — Você parece uma Kim Kardashian super dramática, querida. As pessoas que postam coisas nesse site fazem isso por diversão. E você sabe disso porque você é uma delas? Aster sentiu uma pontada de irritação. Então ela notou uma figura passando no corredor. — Eu tenho que ir. Eu te ligo mais tarde — ela disse à Clarissa, e desligou. — Mitch! — ela gritou. Ele virouse para ela, seu rosto se iluminando. — Oi — ele disse suavemente. — Como você está se sentindo? — Eu estou bem — disse Aster. Mitch não tinha se barbeado naquela manhã; a barba realçava o quão angulado seu queixo era. Ele não estava usando os óculos, também. Aster nunca tinha percebido o quanto seus cílios eram longos, maiores do que ela já tinha visto em um cara. Mitch olhou para ela, inspecionando seu rosto. — Sabe, eu não estaria bem se eu passasse por tudo o que você passou neste fim de semana. — Ele olhou para o corredor. — Elizabeth disse alguma coisa sobre isso? — ele sussurrou. Aster balançou a cabeça. — Nem uma palavra. Ela estava chateada, na verdade, que eu tinha que fazer uma entrevista hoje. — A porta de Elizabeth havia permanecido bem fechada quando ela retornou ao trabalho, mas ela enviou para Aster um e-mail com uma lista de coisas para fazer, tudo em letras maiúsculas. — Ela acha tudo isso uma grande inconveniência. Mitch fungou. — Eu diria que ela é o tipo de pessoa que gostaria de empurrar o seu carro para fora da ponte, mas então ela não teria ninguém para fazer o seu trabalho ridículo. Aster já tinha considerado essa mesma ideia. Elizabeth odiava claramente todos os Saybrooks — talvez ela tivesse matado Poppy também, e quem sabe o resto das primas na sequência. Mas ela olhou a agenda de Elizabeth esta manhã antes da entrevista; e ela realmente tinha estado fora na manhã em que Poppy foi assassinada. Havia até mesmo comprovantes do Four Seasons de Los Angeles e Katsuya para provar isso. Quando Aster olhou para cima, Mitch ainda estava encarando-a. Ele balançou a cabeça. — Honestamente, eu não sei como você pode estar aqui agora. Se você precisar de alguma coisa hoje, me ligue, ok? Eu posso te trazer um café, pra variar — ele acrescentou ironicamente. Aster riu. — Obrigada — disse ela, e em seguida, olhou para a tela de seu computador novamente. — Quer descobrir quem gerencia o Abençoados e Amaldiçoados para mim? Mitch franziu o cenho. — O FBI não está fazendo isso? — Sim, está. — Mas não parecia que eles estavam trabalhando muito duro. Aster pressionou os dedos contra as têmporas. Sua cabeça latejava, provavelmente porque ela não tinha conseguido ter uma boa noite de sono desde o assassinato de Poppy. Nas últimas noites, sua mente tinha feito horas extras enquanto ela lutava pensando em quem poderia estar atrás delas. Natasha, talvez —


ela odiava tanto sua família que talvez ela quisesse pegá-las uma por uma, só que o seu mais recente plano tinha saído pela culatra e ela mesma que se feriu ao invés. Ou uma namorada aleatória de Steven? Talvez Elizabeth. Talvez alguém que Aster nem sequer conhecesse. E será que Poppy tinha um segredo? Por que Natasha era a única que sabia sobre isso? — Mitch? — ela perguntou, tendo uma ideia. — Alguma vez você já olhou os e-mails da empresa? — Eu não tenho certeza se eu deveria responder isso com sinceridade. — Eu não vou colocar você em problemas. Estou apenas curiosa sobre Poppy. — Ela limpou a garganta. — Eu meio que descobri que ela tinha... algumas lutas. — Foi a mesma palavra Jonathan York tinha usado com Corinne no funeral de Poppy. — E talvez um segredo. Mitch franziu o cenho. — Você quer dizer a coisa das joias? — Que coisa das joias? Mitch parecia em conflito, então deslizou para a frente em sua cadeira. — Eu pensei que era isso que você quis dizer. Há alguns meses, o RH estava preocupado que Poppy estivesse... pegando coisas. Aster hesitou. — Pegando coisas? O que você quer dizer? — Eu vi isso no e-mail. Eu acho que ela pegou e saiu com algumas peças para mostrar aos clientes e nunca devolveu. As pessoas estavam preocupadas que ela... as tivesse roubado, eu acho. E então talvez vendido elas. Aster riu, incrédula. — Por que Poppy precisaria de dinheiro? Mitch deu de ombros. — Eu não sei. De acordo com os e-mails, as joias nunca foram devolvidas. — Então ela estava em apuros? — perguntou Aster, sua mente se movendo lentamente. Mitch olhou para o teto. — Eu acho que isso acabou passando. Mas eu não tenho ideia de como isso foi resolvido. — Jesus. — A mente de Aster ficou ainda mais confusa agora. Quem era essa nova Poppy, e porque Aster nunca a tinha conhecido? Ela se perguntou se Rowan sabia sobre as acusações de roubo. Provavelmente não, ela teria mencionado. — Eu odeio isso — ela sussurrou, sentindo-se sobrecarregada. — Ei — Mitch murmurou. — Está tudo bem. Tudo vai ficar bem. — Ele estendeu a mão como se fosse tocar o seu ombro, depois pareceu pensar melhor e deixou sua mão cair para o lado. O silêncio estendeu-se entre eles. Finalmente Aster virou e começou a clicar aleatoriamente em seu computador. — É melhor você sair daqui, ou Elizabeth vai empurrar nós dois de uma ponte. — Certo. — Mitch parecia um pouco desapontado. — Vejo você mais tarde, Aster. — Ele se virou e caminhou para o corredor. Seu sapato estava desamarrado,


e ele tropeçou nos cadarços, então se virou e deu de ombros. Aster balançou a cabeça, sorrindo. Seu telefone tocou, e ela pulou. O nome de seu pai apareceu no identificador de chamadas. — Pai — disse Aster, trêmula. — O que foi? — Tem algo que eu preciso falar com você. — Mason parecia muito sério. — Agora? — Aster indagou. Ele ia repreendê-la por causa da entrevista na CNN? O que ela tinha feito de errado desta vez? — Você pode vir ao meu escritório? Aster espiou o corredor. — Eu não tenho certeza se Elizabeth vai gostar disso. — Eu resolvo com ela. Desça agora. Ele desligou antes que Aster pudesse responder. Ela levantou-se e alisou o vestido azul que ficava bem diante da câmera e levantou a cabeça. Talvez esta fosse uma boa oportunidade, na verdade. Ela podia perguntar a ele sobre Steven. Ela voltou a pensar naquela noite, na festa no fim de verão, há cinco anos. Tinha sido um caminho sem volta. Se ela tivesse escolhido diferente naquela noite, ela e seu pai poderiam ter salvado as coisas. Mas, em vez disso, Aster tinha seguido Steven para longe do grupo, alimentada pela adrenalina e pela raiva. Esta era a vingança perfeita contra seu pai. Se ele podia arruinar seu relacionamento com sua melhor amiga, então ela poderia destruir um dos dele também. Quanto a Danielle, tudo o que Aster sentiu foi ódio. Ela tinha jogado fora a amizade delas para estar com o pai de Aster. Ela e Steven andaram por entre os juncos e desceram para a praia. Embora Steven tivesse dito que queria mostrar para Aster seu iate, tão logo eles estavam fora de vista, ele a agarrou pela cintura e puxou-a para perto dele. Eles se deitaram, e as mãos dele viajaram por todo o corpo dela. Em poucos minutos ele abriu o zíper do vestido que ela usava e jogou-o na areia. O vento frio beijou a pele nua de Aster. Ela abriu os botões da camisa dele e afrouxou a faixa do smoking. — Oh meu Deus — ele respirou no ouvido de Aster. — Você está tão molhada. — Aster não sentiu aquilo como algo sujo, então em resposta ela apenas abriu o zíper de suas calças e puxou-a para baixo. A lua tinha subido mais alto no céu. Aster fechou os olhos e puxou Steven para mais perto dela, deixando a raiva abastecer seus movimentos no lugar do desejo. Sua boca era quente, e tinha gosto de uísque e sal. Em um momento ela pensou sentir cheiro de charuto, mas então o vento mudou de direção e o cheiro sumiu. Ela não ouviu o pai chegar até que ele estava quase diretamente sobre ela. Steven saltou para longe, puxando as calças. Mason estava lá como um bloco de madeira, sólido e firme, com os braços ao lado do corpo. Seus olhos brilhavam. Seu corpo tremia de raiva.


— O que há de errado com você? — ele rosnou para Aster. Ela sentou-se, puxando o vestido de volta e cruzando os braços sobre o peito, sentindo-se mais estável do que ela jamais havia se sentido em um longo tempo. — Se você pode foder a minha amiga — ela disse em uma voz forte, — então eu posso foder o seu.

Bip. Aster virou a cabeça de volta para a tela de seu computador. O Abençoados e Amaldiçoados havia sido atualizado, uma nova postagem aparecia acima das fotos de Poppy e Natasha. Era uma foto dela, ela percebeu, chorando quando ela entrava no banheiro do Time Warner Center. Seus olhos estavam fechados, a maquiagem borrada, enquanto as lágrimas corriam pelo seu rosto. “Chorando Como um Rio,” dizia a manchete. Seu coração pulou acelerado. Ela não tinha notado ninguém no corredor com ela após a entrevista. Como o site conseguiu aquela foto? Ela estremeceu e fechou a janela, em seguida, virou-se e dirigiu-se para o elevador. Fosse o que fosse que o seu pai tinha a dizer não podia ser mais assustador do que isso. Aster subiu dois andares para onde os executivos e advogados dos escritórios estavam. Ela virou-se para a direita, em direção ao grande escritório de canto. — Olá — ela chamou suavemente, enfiando a cabeça dentro. O escritório do pai dela estava vazio, a cadeira virada para a janela. Aster entrou e inspecionou sua mesa. Não havia nenhum bilhete dizendo que ele voltaria logo. Ela sentiu um dardo familiar de aborrecimento. Isso era tão a cara dele — chamá-la ali, só para fazê-la esperar. Uma página da web com o logotipo do banco Chase estava aberta na tela do computador. Aster começou a olhar para longe, então parou quando viu quantos zeros estavam lá. Era a confirmação do recebimento de uma liquidação de ações da empresa: — 100,000 ações — dizia. — No valor de US$ 10 milhões. — A boca de Aster fez um pequeno O, e ela se inclinou um pouco mais perto. A transação era de cinco anos atrás. Ela perguntou por que seu pai estava olhando para isso agora, e o que significava aquilo. Por que Mason queria livrar-se de tantas ações de uma só vez? — Aster. Seu pai estava na porta. — Oh, oi — disse Aster, dando a volta para o sofá e sentando-se. Outra figura saiu de trás dele — Jonathan York, seu antigo tio. Ele estava vestindo um terno bem cortado cinza e sapatos brilhantes, e um grande relógio de ouro em seu pulso esquerdo. Havia um sorriso desconcertante e presunçoso em seu rosto. — Oh, oi, Jonathan — disse Aster, dando-lhe um pequeno sorriso. Quando ele era oficialmente um Saybrook, ela nunca soube como lidar com ele. A família


era cheia de pessoas de personalidades fortes, mas havia algo nele — seu silêncio, seus ombros desmedidos, seu olhar penetrante — que a colocava em alerta. Diziase que ele e sua tia Grace se divorciaram porque ele era muito controlador. — Jonathan estava de saída. — Mason voltou-se para apertar sua mão. — Eu te ligo amanhã. — E, em seguida, oferecendo um rígido aceno de cabeça, Jonathan tinha ido embora. Mason entrou em seu escritório e fechou a porta. — O que ele estava fazendo aqui? — perguntou Aster. — Oh, causando problemas, como de costume — disse Mason rapidamente, passando por ela para chegar à sua mesa. Ele girou a cadeira para trás e se sentou. Quando ele olhou para a tela de seu computador, um olhar cauteloso brilhou em seu rosto, e ele olhou atentamente para Aster. Ela manteve o rosto inexpressivo. Então Mason estendeu a mão e fechou o monitor. — Então. — Mason abriu uma Coca Diet. Ele tomou um longo gole e engoliu em seco. — Você fez um bom trabalho na CNN. — Eu fiz? — Sim, você fez. Deanna e eu estamos ambos satisfeitos. Assim como sua avó. Agradecemos a você por fazer isso no último momento. Aster puxou o colar, incomodada por não estar acostumada a elogios. — Sem problema — disse ela em voz baixa. Mason tamborilou com os dedos sobre a mesa. — Eu também queria agradecer-lhe a sua boa ideia, sobre o anel de noivado para Ko e Faun. Aster franziu o cenho. — Como é? — Fazer um anel como o que a mãe de Faun tinha. Elizabeth me contou esta manhã. — Elizabeth usou essa ideia? Ela me disse que era estúpida. Mason tossiu. — Bem, ela apresentou-me hoje mais cedo. Ela tentou levar o crédito também, mas Mitch Erikson estava aqui, trabalhando no meu computador, e ele começou a falar que tinha sido sua ideia desde o princípio. Perguntei para Elizabeth se era verdade, e ela admitiu que era. Elizabeth tinha ficado ofuscada? Mitch se levantou para defendê-la diante do pai dela? Aster sorriu com o pensamento. Mason se inclinou para frente, suas feições se suavizaram. — Eu gostaria que você trabalhasse mais diretamente com os clientes. Aparentemente, a sua experiência pessoal faz de você uma consultora perfeita para alguns de seus desejos e necessidades. Talvez os últimos anos não tenham sido um desperdício, afinal de contas. Aster olhou para ele. — Você está me promovendo por causa da minha vida festeira? Mason pareceu triste. — Eu prefiro não colocar dessa maneira. — Eu só... eu não esperava isso.


— De nada — disse Mason. Eles olharam um para o outro em silêncio. Aster odiava aquilo, mas ela sentia falta do seu pai. Falta de seu pai para animá-la, acreditar nela, incentivá-la. — Aster, eu sou seu maior fã — ele costumava dizer. — Nunca se esqueça disso. Mas, então, ela lembrou dele abraçando Danielle, dormindo com sua melhor amiga e pensando que ele poderia esconder aquilo dela, e a janela que ela tinha aberto dentro dela se fechou novamente. Ela limpou a garganta. — Eu tenho uma pergunta. — Mason assentiu e Aster seguiu em frente. — Você sabe se Steven Barnett teve uma namorada séria antes de morrer? Mason encolheu. Seus dedos correram para o mouse. — O que isso tem a ver com alguma coisa? — Quero dizer, Elizabeth é minha chefe — disse Aster rapidamente. Ela olhou para ele incisivamente, à espera de uma reação. — De qualquer forma, ela fez uma referência a ele — Aster continuou. — Eu só estava me perguntando. — Eu tento não ouvir fofocas pessoais — disse Mason bruscamente. — Steven fez um monte de coisas que eu não aprovo. — Mas Vovô Alfred não foi buscá-lo assim que ele saiu da faculdade de administração? Ele sempre deu a Steven todo o crédito pelo negócio ser tão bem sucedido. — Sim, bem. — Mason arrumava os papéis sobre o lado de sua mesa. — Nem todos nós pensávamos em Steven como seu avô pensava. Aster não se atreveu a levar o assunto adiante. Mas já que o clima já havia mudado, ela achou que poderia muito bem continuar. — Poppy roubou joias? Mason recuou com raiva. — Onde você ouviu isso? — ele exigiu. — Foi naquele site? — Não. É verdade? Os dedos de Mason se enrolaram em um punho tão apertado que as veias saltavam na parte de trás de sua mão. Ele respirava com dificuldade, com os olhos baixos. — Isso já foi resolvido. Ela franziu o cenho. — O que significa isso? — Isso significa, pare de perguntar sobre isso. — Por que Poppy fez algo assim? Será que Foley sabe sobre isso? Mason levantou de sua mesa. Aster pressionou sua coluna na almofada e deu um pequeno grito. — O que eu acabei de dizer? — ele exigiu. — Eu sinto muito. — Aster respirou tremulamente. — Eu só... — Eu lhe disse para parar de perguntar sobre isso! — Mason berrou. — Ok — Aster sussurrou, curvando em si mesma. As narinas dele queimavam. Parecia que ele ia dizer outra coisa, mas foi interrompido pelo telefone em sua mesa. — Eu preciso atender isso — disse ele, dando um pequeno aceno com a mão, como se dissesse, Você está dispensada.


Aster levantou-se e correu em direção à porta, pisando duro atrás dela.


18 Traduzido por Ivana

N

a sexta-feira, Rowan parou do lado de fora do Scarpetta no Distrito Meatpacking. Esse costumava ser um dos restaurantes favoritos de Poppy. Antes de Poppy casar com James, ela e Rowan iam ali depois do trabalho e bebiam vinho tinto que os homens no bar invariavelmente costumavam comprar para elas. — Deixe-os pagar — Poppy sempre dizia, jogando seu cabelo loiro por cima do ombro. — Isso faz eles se sentirem necessários — e é um pequeno preço a pagar para falar com alguém tão impressionante como você é, Ro. — Agora, só de ver o toldo, Rowan se encheu com nostalgia e tristeza. Mas essa emoção foi varrida rapidamente enquanto ela sentia o olhar de alguém em suas costas. Ela virou-se e dois homens, vários anos mais jovem, viraram a cabeça rapidamente, fingindo que não estavam olhando. A luz do semáforo mudou, e eles atravessaram a rua. — Vídeo de Sexo — Rowan ouviu um deles dizer. Ela suspirou. Todos em Nova York agora sabiam como ela era durante o sexo. Advogados pessoais de Deanna e da família tinham enviado vários e-mails ameaçadores ao Abençoados e Amaldiçoados, e a postagem finalmente tinha sido retirada. Mas eles ainda não sabiam quem estava editando o site ridículo — ou quem estava lhe dando informações. O vídeo foi como um grande X em sua alma. Seus irmãos tinham chamado ela para conversar sobre isso, fazendo perguntas embaraçosas e preocupadas. Sua mãe, a feminista, tinha conduzido até a cidade apenas para ver Rowan. Entre grão de bico e salada de quinoa no Café Peacefood, Leona tinha doutrinado Rowan sobre como ela tinha trinta e dois anos de idade agora e deveria ser um pouco mais cuidadosa com seus envolvimentos românticos, para não mencionar que, se ela não estivesse trabalhando para a empresa da família, ela poderia ter sido demitida. Até mesmo James tinha surtado, embora Rowan tenha garantido mais de uma vez que ninguém sabia que era ele. Toda a situação era humilhante. Seu telefone tocou, o volume estava tão baixo que Rowan quase não ouviu seu toque em meio aos sons do tráfego da Rua Fourteenth. Rowan verificou a tela


e viu um número 212. Quando ela atendeu, a voz de uma mulher jovem disse, — Rowan Saybrook? Aqui é Shoshanna Aaron. Estou retornando a sua chamada. — Oi — disse Rowan enfaticamente, colocando as mãos em torno do telefone. — Muito obrigada por falar comigo. Um ônibus passou, abafando a voz de Rowan por um momento, mas depois ela lançou-se no discurso que tinha ensaiado. — Eu não vou tomar muito do seu tempo. Eu sou a assessora jurídica da Saybrook, fiquei sabendo que você poderia ter informações pertinentes sobre Poppy. Papéis se amassavam do outro lado da linha. — O que você quer dizer? Rowan imaginou a velha assistente de Poppy. Cabelo escuro e longo, pele morena, um rosto bonito, um relógio incrustado de diamantes da Chopard, certamente pago por seu pai e não pelo seu salário de assistente. Ela havia estudado bem a cultura das joias, sempre andando com um bando de meninas para o almoço ou happy hour. — Eu falei com Danielle Gilchrist recentemente, e ela me disse que notou Poppy agindo estranhamente antes de você ir para a De Beers. Houve uma longa pausa. — Eu realmente sinto muito por Poppy — começou Shoshanna. — Eu me sinto tão culpada de dizer algo ruim sobre ela, sabe? — Eu sei — disse Rowan rapidamente. — Isso não vai acabar nos noticiários, tampouco. Estou apenas curiosa sobre o que exatamente aconteceu. — Bem, ela estava agindo de forma estranha — disse Shoshanna, inquieta. — Ela me pediu para sair durante várias ligações. Ela tinha compromissos agendados, mas não dizia com quem ou para onde estava indo. Era difícil de explicar para Mason e para os outros executivos por que ela não iria participar das reuniões em que eu sabia que ela tinha que estar. Mas o que realmente me fez pensar foi a suíte que ela reservou no Mandarin. — O que você quer dizer? — Eu recebi uma ligação do hotel confirmando a reserva de Poppy para uma das suítes em uma quarta-feira. Não estava em sua agenda, então eu pensei que era um erro. Eu estava dizendo a eles para cancelar quando Poppy interrompeu na outra linha. — Shoshanna, eu resolvo isso — ela disse, e então disse a pessoa da reserva que ela iria usar o seu cartão privado. — Shoshanna tossiu sem jeito. — Então eu saí da linha. Mas parecia mais ou menos... óbvio, sabe? Rowan fechou os olhos. — Mas você nunca pegou um nome? Nunca... viu alguém? — Oh, não. Nada disso. — Um telefone tocou no lado de Shoshanna. — O que significa que pode não ser nada. Quer dizer, eu tenho certeza que não é nada. — Ela engoliu em seco. — Poppy era realmente uma boa chefe. Eu não quero que você pense que eu já, eu não sei — vendi essas informações.


— Claro que não — disse Rowan, embora ela ainda não tivesse pensado nisso. Ela agradeceu a Shoshanna, depois desligou e entrou no restaurante em transe. Lá estava, provavelmente, a maior prova que Rowan poderia ter de que Poppy não era quem Rowan tinha pensado que ela fosse. Mas tão doloroso como a revelação de Shoshanna era, também era libertador. Ficar longe de James significava estar sendo fiel a um fantasma que não tinha sido fiel a James. Poppy tinha seguido em frente e encontrou o amor em outro lugar, e agora talvez James e Rowan poderiam encontrar também. Corinne acenou para ela de uma mesa nos fundos, e Rowan acenou de volta e passou através da sala de jantar para chegar até ela. Um iPad carregado com fotos estava na frente de sua prima; Corinne estava buscando por fotografias para mostrar em seu casamento. Quando Corinne viu a expressão de Rowan, ela inclinou a cabeça. — Aconteceu alguma coisa? Rowan explicou sua conversa com Shoshanna. — Então, talvez Poppy e quem quer que seja o cara tenham se reunido em uma suíte no Mandarin — ela concluiu. — Hum — disse Corinne baixinho, embora ela não demonstrasse ter acreditado muito. — Eu me pergunto quem poderia ser. — Não tenho ideia — disse Rowan. — Você vai dizer a James? — Eu já lhe disse o que Danielle contou. — Rowan correu o dedo ao longo de um sulco na mesa de madeira. Ela finalmente mencionou sua conversa com Danielle quando ela dormiu na casa dele na noite passada. — Bem, isso prova algo, então — ela disse. James queria deixar isso de lado; deixe as mentiras para lá, ele disse. Eles tinham um ao outro agora. Mas Rowan não podia deixar pra lá. E se o assunto tivesse algo a ver com a morte de Poppy? Uma garçonete colocou dois copos com o malbec favorito de Corinne e Rowan em cima da mesa, tirando Rowan de seus pensamentos. — Então. Como está a seleção de fotos? — Ah — disse Corinne miseravelmente, folheando algumas imagens. — E quanto a esta? — Rowan apontou para uma fotografia de Corinne e Dixon alguns anos depois que eles se conheceram na Universidade de Yale. Eles estavam em uma festa em Kentucky Derby — Corinne estava usando um chapéu enorme, e Dixon estava bebendo de uma taça de prata. — É muito bonita — acrescentou Rowan. Corinne sacudiu a cabeça. — Eu estou terrível nessa. Ela passou para outra foto perfeitamente boa, rejeitando-a também. Em seguida, outra. Finalmente, ela deixou escapar um longo suspiro e passou os dedos


pelo cabelo. Rowan pensou sobre o que Corinne tinha confessado na casa de praia. Rowan pôs as mãos em cima do iPad e deu a sua prima um olhar longo e sério. — Querida. O que você vai fazer? Corinne deu um suspiro e depois deixou cair a testa na mesa. Seu cabelo estava repartido em uma linha que dividia sua cabeça em dois lados. — Eu vou me casar — disse ela em uma voz abafada. — Você quer se casar? — Claro. — As pessoas vão te perdoar se você não fizer isso, sabe. Corinne olhou para cima, sua boca torcida. — O que você acha que Poppy faria? Rowan traçou seu dedo ao redor da parte superior do copo de vinho. — Eu honestamente não sei — disse ela em uma voz distante. — Eu me sinto como se ela fosse uma estranha agora. — Eu sei. — Corinne engoliu em seco. — Primeiro nós perdemos Poppy... e então perdemos o que pensávamos que Poppy era. Eu sinto que tenho de rever toda a minha história com ela. — Um olhar torturado atravessou seu rosto, mas então ela suspirou e pareceu deixá-lo ir. Ela olhou para o iPad de novo e sorriu tristemente para algo na tela. — Oh. Rowan olhou para baixo também. A foto seguinte era de James. Ele estava sozinho no pátio em Meriweather, vestindo um blazer. Rowan lembrava daquele blazer — logo depois que ele tinha reservado a casa naquele verão, ele chegou em seu apartamento na cidade com uma sacola da Brooks Brothers. — As pessoas realmente se vestem assim lá? Ou eu vou parecer um idiota? Rowan tinha bufado. — Você está me pedindo conselhos de moda? James riu. — Bom ponto, Saybrook. Você é tão desesperada como eu. — Mas ele lhe lançou um olhar amistoso, como se dissesse, Nós estamos nisso juntos. Ela pegou o telefone de sua bolsa e verificou a tela. Ela enviou um SMS para James mais cedo dizendo Eu sinto sua falta, mas ele não tinha respondido. Haveria uma reunião de pais e professores de Skylar esta noite, e ela queria saber como ele estava lidando. — Você sabe, eu realmente estou feliz por você — Corinne murmurou baixinho. Rowan olhou para cima e tocou a mão de sua prima. — Obrigada. Mas você não tem que estar. Eu sei que é estranho. Corinne deu de ombros. — No grande esquema das coisas, depois de tudo o que aprendemos, isso não é nada. — Ela tocou a haste de sua taça de vinho. — Não houveram mais postagens sobre... o vídeo on-line?


Rowan sacudiu a cabeça. — Não, mas eu ainda não entendo quem poderia ter conseguido isso do meu computador — disse ela, preocupada. Corinne assentiu. — Você acha que foi alguém no trabalho? — Talvez — disse Rowan. — Mas... — Então ela parou, notando algo do lado de fora. Um homem que parecia exatamente com James estava caminhando por ali. Mesma altura, mesma constituição física, mesma cor de cabelo. Mas a escola de Skylar era no caminho oposto. Então ela deve ter se enganado. Mas então ela o viu novamente nas janelas ao longo da parede oeste do edifício. Era definitivamente James. Sua cabeça estava abaixada, e ele estava digitando algo em seu telefone. Por instinto, Rowan olhou para seu próprio telefone, antecipando um SMS, mas nenhum chegou. — O que foi? — perguntou Corinne, notando que Rowan tinha inclinado para a frente para ter uma visão melhor. James tinha parado e estava olhando para algo do outro lado da rua. Ele deu alguns passos para a frente, aparentemente em direção a alguém. Havia um sorriso em seu rosto. A pele de Rowan arrepiou. Ela reconheceu aquele sorriso. Ela se levantou da mesa, batendo o joelho no fundo da mesa. — Onde você está indo? — Corinne gritou. — Eu volto em um segundo — Rowan gritou por cima do ombro. Ela só iria sair pela porta e ver quem era. Pelo que ela sabia, poderia ser Skylar; talvez ela tivesse entendido mal alguma coisa. Ela passou pelo bar e saiu pelas portas duplas para a rua, quase derrubando um homem de negócios que ia na outra direção. Seus saltos batiam forte na calçada enquanto ela caminhava até a esquina e olhava para a rua, mas James não estava mais lá. Rowan hesitou, então caminhou alguns passos até a rua; talvez ele tivesse virado em alguma esquina. Ela examinou pelas lojas na avenida: uma delicatessen suja, uma farmácia Duane Reade, e uma dessas lojas de quadros de Nova York que vendiam as mesmas cinco obras de Monet. E então, lá estava ele, de pé na entrada do Dream Downtown. Uma mulher de cabelo escuro em um vestido sem mangas segurava a mão dele, e os dois caminharam em direção às portas giratórias. O estômago de Rowan capotou. Quando a mulher inclinou a cabeça na direção dele e afastou uma mecha de cabelo de seu rosto, Rowan percebeu que ela conhecia muito bem aquela mulher. Era Evan Pierce. A organizadora do casamento de Corinne. Amiga de Poppy. Rowan foi de repente para o lado deles sem sequer se dar conta de como chegou lá. Evan olhou primeiro. — Oh! — ela disse agradavelmente. — Olá, Rowan. James parou ao ouvir o som de seu nome. Ele largou a mão de Evan, mas não se afastou dela. — Rowan — ele disse, com a voz tensa. — Merda. Eles pararam em frente da porta giratória; um fluxo de pessoas teve de se que espremer em torno deles para entrar no edifício. Mas Rowan não podia se


mover para fora do caminho. — Você não está com Skylar — foi a única coisa que ela conseguia pensar para dizer. Ela odiava o quão fraca sua voz soou. James deu um passo adiante. — Eu sei. Mas eu posso explicar. Rowan se afastou de seu toque. Evan cruzou os braços sobre o peito, estudando James, intrigada. — Está tudo bem? Mas Rowan manteve seu olhar em James. — Ok, então. Explique. — Talvez eles estivessem ali para uma reunião de negócios. Talvez Evan quisesse criar um aplicativo de planejamento de casamento. Talvez... Os olhos de James se lançaram para trás com culpa. Ele mudou de posição e passou a mão pelo cabelo. O coração de Rowan afundou. Ela reconheceu este olhar também. Ela tinha passado por isso inúmeras vezes quando James trazia uma garota para uma festa e saia com outra. Mas ela nunca pensou que ele iria fazer a mesma coisa com ela. — Jesus — ela gritou, sentindo uma casca dura se formando em torno dela. Então ela se virou em direção à rua, de repente desesperada para escapar. — Rowan! — James gritou, correndo atrás dela. — Espere! Por favor! Sua caminhada se tornou uma corrida. Ela correu até o fim da rua, com os olhos borrados com lágrimas vergonhosas. Idiota, uma voz dentro dela ecoava. E ela pensou que James havia mudado. Era revoltante o quão surpreendida ela se sentiu, quando na verdade, ela deveria ter sentido isso ocorrendo a quilômetros de distância. — Rowan! — a voz de James avançou pela rua. Ela caminhou pelo centro da cidade, concentrando-se em um ponto à frente e nada mais. Se ela parasse de andar, ela pensou, ela poderia desabar. Se ela parasse de andar, ela poderia começar a pensar sobre o que tinha acontecido. E ela poderia desmoronar. — Rowan! — James gritou, a meio quarteirão de distância. — Rowan, volte aqui! Suas palavras caíram sobre ela. Ela pensou em um milhão de coisas horríveis que ela poderia dizer a ele, mas ela não podia se imaginar nem mesmo olhando para ele naquele momento. Então ela pegou o ritmo, saindo da avenida e correndo em ziguezague por uma rua lateral. Dois pequenos quarteirões mais tarde, ela percebeu que a voz de James havia cessado. Ela olhou por cima do ombro, e James tinha desaparecido. Ela estava cheia em parte com satisfação e em parte com aversão. Ele não tinha sequer se preocupado em segui-la. Ela virou uma esquina para uma rua que ela não reconhecia. Matadouros abandonados pairavam acima dela como carcaças de ferro velho. Rowan ouviu sons de tráfego, mas sua cabeça estava girando tão loucamente que ela não poderia dizer para qual caminho a Avenida Tenth ficava. Seu coração começou a bater acelerado. Como é que ela não tinha ideia de onde estava em sua própria cidade natal?


Ela correu, seus calcanhares torcendo, seus braços amortecidos. Quando ela desceu de um meio-fio, seu tornozelo virou. Ela sentiu seu corpo no ar e gritou. Seu joelho bateu na rua de tijolo primeiro, e depois o cotovelo. Uma dor quente atravessou seu corpo, e ela levantou tão rápido quanto podia. Mas então ela sentiu uma onda de vento a esquerda, e uma buzina soou em seu ouvido. Os faróis estavam mirando para ela e ela virou a cabeça. — Rowan! — alguém gritou atrás dela, e ela sentiu uma força puxando-a para trás. Ela tropeçou em cima do meio-fio novamente enquanto um táxi passava rapidamente, e o motorista ainda apertou sua buzina. — Oh meu Deus! — Corinne gritou, girando em torno de Rowan e olhando em seus olhos. Ela puxou Rowan para perto e jogou os braços ao redor dela. — Esse carro veio do nada — Rowan sussurrou, sentindo seu coração bater contra sua caixa torácica. Ela olhou para a rua vazia. As lanternas traseiras do táxi desapareceram em um canto. Graças a Deus sua prima estava lá. Rowan começou a soluçar baixinho. Corinne poderia ter sido capaz de salvá-la de uma colisão frontal, mas quem iria salvá-la da queda livre de um coração partido?


19 Traduzido por Matheus Martins

C

orinne atravessou as portas do seu prédio. — Senhorita Saybrook! — seu porteiro a chamou. Corinne virou cautelosamente. Ele estava segurando uma pasta de arquivo grande em sua mão. — Para você. De uma ruiva. Corinne avançou e pegou dele, dizendo obrigada. “Turquia—Novas Contratações” dizia em uma letra arredondada na frente. Ela desfez o fecho e tirou alguns currículos gordos. Havia um Post-it rosa no topo. — Desculpe te chatear com o trabalho, mas eu preciso disso aprovado para amanhã. Obrigada, Danielle. — Ela está solteira? — Markus perguntou depois que ela caminhou para o elevador. Corinne enfiou os arquivos em sua bolsa. — Eu acho que não — ela falou por cima do ombro. Ela lembrou-se de Danielle trazendo um homem atraente chamado Brett Verdoorn para a festa de Natal do ano passado. Ela abriu seu apartamento e jogou as chaves na enorme ilha de mármore da cozinha. Dixon, ainda em seu terno de trabalho e mocassins, estava sentado na sala, a TV piscando contra o seu rosto. Quatro jogadores estavam sentados em uma mesa de pôquer, comprando cartas com o distribuidor. Corinne fechou as gavetas e portas dos armários da cozinha, suspirando alto quando percebeu que Dixon havia deixado uma tigela suja de sorvete derretido na pia de porcelana — ele não podia nem lavar um prato? Ela abriu a geladeira e a fechou de novo, odiando seu conteúdo. Ela tirou os sapatos e não se importou quando eles foram deslizando pelo chão de mármore. — Ei, querida — ele gritou agradavelmente, então passou um braço sobre o sofá e inclinou o pescoço para trás para obter uma visão dela. — Onde você estava? Mais coisas do casamento? Corinne se sentou ao lado dele, irritada que ele não parecia sentir sua aflição. — Eu acabei de ver uma coisa horrível — ela falou. Dixon cruzou os braços sobre o peito. — Algo em um site? — Não. Pior. — Corinne disse a ele sobre encontrar James com Evan. — Eu só espero que Rowan esteja bem. Ela não está atendendo.


— Espere, espere. Evan Pierce? Puta merda. — Dixon começou a desapertar as abotoaduras. — Quero dizer, isso é foda. Mas por que Rowan se importa mais do que o resto de vocês? Corinne mordeu o interior de sua bochecha. Às vezes, ela esquecia o quanto ela não disse a Dixon. — Eles estavam juntos. A boca de Dixon caiu aberta. — Espere um minuto. James é o cara no vídeo? — Ele pegou seu gim tônica sobre a mesa lateral ao lado do sofá. Uma fatia de limão balançava alegremente em cima. — Quero dizer, isso não é meio estranho? Dar em cima do marido de sua prima morta? — Ele levantou uma sobrancelha para Corinne. — Dixon. James é o único culpado nisso — disse Corinne. — Eles estavam consentindo como adultos — Rowan não estava dando em cima de ninguém. Dixon riu. — Ela com certeza parecia no comando naquele vídeo. — Ela é minha prima, Dixon. Você assistiu mesmo aquilo? Dixon deu de ombros, bem-humorado. — Eu e o resto da América. Corinne fechou os olhos, se esforçando para deixar o comentário passar. — Ele está dormindo com outra pessoa. A melhor amiga de Poppy... e nossa planejadora de casamento. — Ela esfregou as têmporas, de repente percebendo uma coisa. — Isso significa que eu deveria demiti-la? Eu provavelmente deveria, não deveria? — Ei, ei, ei. — Dixon levantou a palma da mão. — Nós não vamos demitir Evan. O casamento é na próxima semana. Corinne levantou-se e caminhou até a grande lareira na parte de trás da sala. Ela não sabia por que estava tão indignada. Ela traiu Dixon. Ela, de todas as pessoas, sabia como era fácil de fazer. Como isso poderia simplesmente acontecer. — Você está agindo como se ninguém tivesse feito nada de errado, exceto Rowan. E quanto a James? Pelo menos me diga que o que ele fez é terrível. Pelo menos me dê isso. — Mesmo quando ela ouviu as palavras saindo de sua boca, ela sentiu como se estivesse em um jogo, fazendo o papel de Corinne Saybrook. Dixon tomou um gole de seu coquetel. — James não foi sempre um galinha? Caras como ele nunca mudam. Seu olhar voltou para o pôquer quando um dos jogadores — um garoto aparentemente convencido em um moletom — ganhou uma rodada e pegou um monte de fichas. Corinne apertou as mãos contra a lareira de mármore frio e tentou respirar, mas havia um fogo queimando em seu peito. — Então é assim que você raciocina? — ela perguntou com a voz trêmula. — Rowan deveria ter pensado melhor, por isso é culpa dela. Dixon colocou a taça de volta para baixo. — Por que você está querendo brigar comigo? — Eu não estou. Eu só...


— Espere, espere. — Dixon levantou a mão, apontando para algo na tela. Os jogadores estavam dando novos lances. Corinne engoliu um grito e saiu da sala. Ela contou até cinco, mas Dixon não a seguiu. Ela sentou-se em uma das cadeiras de espaldar alto e colocou as mãos no colo. Mas a cadeira não era confortável. A multidão aplaudiu na TV no outro cômodo. Dixon aplaudiu exuberantemente. Corinne sabia o que iria acontecer: em poucos minutos, ele iria vir aqui e dizer, — Ei, vamos sair — em uma tentativa de acalmá-la. E então eles iriam a algum lugar barulhento e caro, e eles não iriam falar sobre a discussão, porque eles nunca falavam sobre suas discussões, assim como eles nunca conversavam sobre alguma coisa realmente. De repente, isso a atingiu: o tempo todo que eles estavam namorando, ela estava esperando que ele tornasse aquilo sério. Não sério como eu-quero-casarcom-você, mas sério em sua própria pele. Amadurecer o suficiente para ter discussões reais. Adulto o suficiente para querer passar toda uma noite a sós com ela, em vez de convidar todo mundo, como se eles ainda estivessem na faculdade. Quanto mais, melhor? Talvez fosse porque ele não tivesse nada para lhe dizer. E talvez ela concordava com ele porque ela não tinha nada a dizer a ele, também. Ela se levantou e apertou as mãos na janela como um prisioneiro em uma cela, observando os semáforos na Quinta Avenida mudarem de vermelho para verde, para amarelo, para vermelho, para verde, para amarelo, as pequenas mãos de não-ultrapasse piscando num ritmo perfeito. Era lindo, na verdade. Uma minissinfonia de luzes abaixo de sua janela, e ela nunca tinha notado isso antes.

Você não quer viver uma vida honesta? O rosto de Will apareceu diante dela, e subitamente, ela achou que podia. Ela sentia-se mais forte, de repente, como se ela pudesse romper com o molde do que ela deveria ser. Poppy tinha quebrado esse molde, ao que parecia — assim como Rowan, Aster e certamente Natasha. Parecia como se todas elas tivessem quebrado um contrato importante que cada mulher Saybrook deveria defender. Elas deveriam ser fieis e íntegras. Elas deveriam dar o exemplo. Por que ela tinha que carregar a tocha por todas elas? De repente, não parecia justo. E talvez Rowan estivesse certa: a sua família iria perdoá-la por romper com Dixon. Talvez não amanhã, mas o fariam — eventualmente. Ela era forte o suficiente, ela percebeu, para enfrentar a tempestade. Porque ela teria Will. Mas viver uma vida honesta significava confessar tudo, também. Corinne respirou fundo, ousando considerar o que isso significava. Ela imaginou o rosto de Will quando ela lhe contasse toda a verdade. Imaginou as perguntas que ele faria. Ela imaginou o que ele diria — ou não diria. Ela tinha de reconhecer que ele poderia não querer falar com ela novamente. Mas se ela queria que eles tivessem uma chance, ela teria que revelar tudo.


Ela s贸 tinha que fazer uma coisa primeiro.


20 Traduzido por Matheus Martins

S

ábado de manhã, Áster entrou no saguão do prédio de Elizabeth, usando um chapéu floppy, um cafetã cor de areia e sandálias douradas. Estava um dia escaldante, e Clarissa a convidara para a SoHo House mais tarde. Aster continuou tentando reunir alguma excitação sobre ir — normalmente ela amava as tardes de verão na SoHo House, sentada à beira da piscina no último andar bebendo rosé gelado. Mas ela ainda estava irritada com a completa indiferença de Clarissa com o que estava acontecendo com a sua família. Alguém tinha matado Poppy e tentou matar o resto delas, e ela deveria se sentar lá e falar sobre Jake Gyllenhaal e se ele gostava de loiras ou morenas? Respirando fundo, ela deu seu nome para o porteiro e disse que estava aqui para ver Elizabeth. — Ela está esperando por você? — ele perguntou. — Eu sou assistente dela. — Aster deslocou-se nervosamente, perguntando se isso era uma má ideia. E se Elizabeth não estivesse em casa? Mas, depois de se agitar e revirar toda a noite passada, assombrada por pesadelos sobre o site estúpido e suas manchetes, Aster tinha acordado determinada a obter algumas respostas. O porteiro pegou o telefone, e depois de um momento, ele deu um aceno de cabeça para Aster. — Você pode subir. Respirando fundo, Aster entrou no elevador e esperou todo o caminho até o apartamento, olhando para o seu reflexo nos espelhos na parede inteira que ladeava o elevador. Algo brilhou em sua visão periférica, mas quando ela se virou, o elevador estava vazio. Ela alisou seu cabelo. Ela precisava parar de ficar tão nervosa. As portas se abriram, e Aster entrou timidamente no interior. Ela tinha deixado inúmeros pacotes para Elizabeth no lobby, mas nunca tinha estado realmente no apartamento antes. Havia uma cozinha em design gourmet à esquerda de Aster, feita em pedra exótica e madeira escura. Havia uma sala de estar cheia de móveis angulares de aparência moderna e um fogão de bronze intimidante pendendo do teto como uma língua. Vistas deslumbrantes da cidade


saudavam das enormes janelas. Em uma parede havia uma grande exposição de fotografias de Elizabeth e Steven juntos: os dois andando pela nave da igreja no dia do casamento, em frente à Torre Eiffel e em trajes de banho em uma praia tropical. Sobre a lareira havia a mesma fotografia de casamento que Elizabeth mantinha em seu escritório. Elizabeth saiu de um de seus quartos, vestida com um robe de seda longo e chinelos Louis Vuitton, e com uma toalha de banho enrolada na cabeça. Aster corou. — Oh, eu sinto muito. Eu deveria ter ligado antes. — Sim, você deveria — disse Elizabeth. — Eu só estava me dando um tratamento facial. Mas já que você está aqui, você pode me dizer por que você veio. Esse chapéu é horrível, por sinal — ela acrescentou, voltando para o quarto. É um Hermès, Aster queria dizer. Mas em vez disso, ela apenas tirou o chapéu e colocou-o cuidadosamente sobre o balcão da cozinha. Ela seguiu Elizabeth para o quarto enorme, onde uma cama king-size extragrande feita toda em branco presidia o espaço. Perto da janela havia três cadeiras de cor hortelã-verde e uma mesa lateral antiga. Havia um carrinho cheio de produtos de pele pousado em um tapete Oriental, assim como uma grande máquina com o que parecia uma mangueira de vácuo saindo de uma grande caixa branca. Elizabeth se estabeleceu na cadeira, esguichou loção nas mãos, e começou a massageá-la em seu rosto. — Então, o que você quer esta manhã, Aster? — ela perguntou. — Você está aqui para pedir demissão? Aster olhou para fora das janelas do chão ao teto. Ela podia ver diretamente os apartamentos através do pátio. Qualquer um poderia olhar e vê-la, e ver Elizabeth também. Aster empoleirou-se à beira da cadeira em frente a sua chefe. — Desculpe desapontá-la, mas não. Eu estava na verdade pensando se você poderia responder uma pergunta para mim. Sobre... seu marido. Elizabeth levantou uma sobrancelha, mas não disse nada. Aster tomou isso como permissão para continuar. — Eu queria saber se ele poderia ter tido um caso com alguém na mesma... na mesma época que ele esteve comigo. — Ela olhou para o tapete. — Sabe, o ciúme não combina com você — Elizabeth repreendeu. Aster ignorou a investida. — Eu só... com tudo isso ligado a investigação do assassinato de Poppy, eu pensei que poderia ser importante. E se quem a matou era alguém próximo de Steven? E matou Poppy por vingança? — Se alguém queria vingança pela morte de Steven, por que eles iriam esperar cinco anos para empurrar Poppy pela janela? — perguntou Elizabeth. A máquina apitou, e ela moveu o bastão facial em sua testa quando começou a zumbir. — Alguém poderia ter feito isso no dia seguinte.


— Eu sei que não faz sentido. Mas talvez essa pessoa não tivesse certeza que Poppy matou ele. Talvez ela tenha encontrado uma peça final do quebracabeça ou algo assim. Talvez você tenha dito a outra pessoa o que você viu? Uma buzina soou fora da janela. Elizabeth fez um gesto para a máquina facial. — Microdermoabrasão. — Ela suspirou. — Facas minúsculas estão queimando todas as minhas células mortas da pele. Eu adoro pensar nisso assim. — Olha, você sabe alguma coisa ou não? — Aster perguntou, tão impaciente quanto ela ousava. Elizabeth apertou os lábios. — A única coisa que posso dizer é que o meu marido tinha uma queda por garotas de idade universitária da cidade. Elas olhavam para ele como se ele fosse um deus. Ele adorava isso. Às vezes, eu encontrei coisas que elas deixavam pra trás — etiquetas com nomes de lanchonetes, batons de farmácias, um apito de salva-vidas, até mesmo um holerite uma vez. Entrei na loja de chocolates na Main Street, e essa coisinha loira caminhou para os fundos. Foi quando eu soube que Steven tinha ficado com ela também. Aster olhou para as fotos de Steven sobre a lareira. Ele parecia estar sorrindo para elas. A ideia de que ela esteve com ele de repente a fez ter náuseas. — E você nunca disse nada a ele? — ela perguntou. — Por que eu deveria me importar? Antes elas do que eu. — Elizabeth olhou atentamente para Aster. — Steven não tinha um saco muito grande, como você sabe — ela acrescentou incisivamente. Aster corou. — Ninguém merece ser enganada. Elizabeth virou a mangueira de volta e vasculhou o queixo. — Isso é muito profundo, vindo de você. — Ela suspirou. — Além disso, tínhamos feito um acordo pré-nupcial. A maneira como Poppy fez foi muito mais limpa. — Nós não sabemos com certeza se Poppy o matou. Elizabeth bufou. — Sim, querida. Nós sabemos. O sol saiu de uma nuvem, enviando um raio de luz através das janelas. — Você disse alguma coisa antes sobre Poppy ter um segredo. Você acha que isso é verdade? Elizabeth sorriu conscientemente. — Steven costumava dizer que as Saybrooks nascem mentirosas. — Você sabe o que ele quis dizer com isso? Especificamente, eu quero dizer? Elizabeth olhou para ela por um longo tempo. Aster vacilou, antecipando um grande golpe, mas Elizabeth simplesmente se levantou e tirou a toalha da cabeça. Sua pele brilhava. Seus cabelos molhados escorriam de seus ombros. Ela pegou um copo de água na mesa e tomou um longo gole, lentamente.


— Sabe, agora que você mencionou, havia uma garota que parecia que faria qualquer coisa por ele — disse ela. — Você sabe onde ela trabalhava? Ou seu nome, talvez? Elizabeth fechou a toalha na mão. — Eu nunca perguntei. Mas eu não perderia meu tempo se fosse você, querida — eu não acho que a ex-namorada desprezível do meu marido matou sua prima. Pessoalmente, eu acho que foi um trabalho de dentro. — Dentro... de onde? Elizabeth sorriu levemente. — Dentro da família. — Ela então pegou delicadamente o braço de Aster e levou-a até a porta. — Hora de ir agora. — O que você quis dizer? — Aster perguntou, aproveitando que a porta ainda estava aberta. — Por que você disse isso? Elizabeth praticamente empurrou-a para fora. — Meu psiquiatra chegará em poucos minutos. — Ela jogou o chapéu de Aster em seu peito. — Meu conselho, querida? Vá perguntar ao seu pai. — Ela piscou. — Você não pode ser a garota do papai para sempre.


21 Traduzido por Lua Moreira

S

egunda-feira, Rowan distraidamente esbarrou o joelho machucado em um cubículo construído recentemente e, em seguida, caiu em prantos. Nem sequer machucou tanto; pareceu apenas outro acidente em uma série de muito, muito azar. — Deus, isso é tão assustador — Jessica, uma das assistentes jurídicas, sussurrou enquanto Rowan se arrastava ao seu escritório. — Duas Saybrooks em duas semanas. — Natasha ainda não acordou — Callie, uma segunda assistente, continuou. — Elas são totalmente amaldiçoadas. — Ela ainda está no hospital em Massachusetts? — Jessica mexeu o café, a colher tilintando contra a cerâmica. — Não, eu ouvi que eles a transferiram para algum lugar da cidade. Lenox Hill, talvez? Beth Israel, Rowan queria corrigi-la quando ela se sentou em sua mesa. Natasha tinha sido transferida para lá alguns dias antes, para que estivesse mais perto de sua família. Rowan a tinha visitado ontem, sentando ao lado da cama e olhando para o rosto plácido de Natasha. Algumas vezes as pálpebras mexiam, e ela virava a cabeça um pouco, como se estivesse acordando de um sonho. Rowan se levantava com ansiedade. Ela vai acordar, e eu vou arrancar a verdade dela, ela tinha pensado. Mas, então, as feições de Natasha se acalmaram e ela pareceu escorregar de volta para o escuro, bem incognoscível, com seu segredo trancado. Rowan colocou a cabeça entre as mãos. Não era apenas com Natasha que ela estava chateada. Era algo muito mais trivial: coração partido. Mas era ridículo. Claro que James a tinha traído. Ela tinha um lugar na primeira fila para suas traições dezenas de vezes. Ela sempre ria daquelas meninas idiotas que achavam que havia algo real entre eles. Mas ela era a garota mais estúpida de todas. Ela pensou que ele tinha mudado, que Poppy tinha mudado ele. Mas ele traiu Poppy com ela. O que mais ele tinha feito? Respirando fundo, ela rolou sua cadeira para trás, abriu uma gaveta de arquivo, e encontrou uma pasta marcada com “Saybrook-Kenwood.” Dentro havia o acordo pré-nupcial entre Poppy e James que ela ajudou a elaborar anos atrás.


Ela folheou-o lentamente. Como previsto, James não iria receber nada do espólio de Poppy se eles se divorciassem. Nem um centavo de seu enorme fundo fiduciário. Nem um dólar de seus ganhos consideráveis como presidente da Saybrook. Rowan tinha discutido com Poppy sobre isso quando estavam fazendo o acordo pré-nupcial juntos. — Isto é excessivamente brutal — ela advertiu Poppy. Ainda assim, Poppy foi firme: a família tinha trabalhado muito duro para qualquer parte de sua fortuna simplesmente ser doada. Rowan tinha sido a portadora das más notícias para James, mas ele tinha lidado muito bem. — Eu não estou com Poppy pelo seu dinheiro — ele disse simplesmente. Mas se Poppy morresse — quando Poppy morresse — ele teria tudo. Não era impensável que um marido traidor iria querer construir uma nova vida para si mesmo. Não era improvável que alguém fizesse qualquer coisa para tornar isso uma realidade, tampouco. Será que James faria? Rowan esfregou os olhos. É claro que ele não faria. Além disso, James tinha um álibi: o apartamento de Rowan. Ela saiu antes dele, e no momento em que ela chegou ao centro, Poppy já tinha caído. O ar-condicionado zumbia, soprando um pedaço de papel para fora da abertura. Rowan abriu seu e-mail e tentou trabalhar, mas sua mente ainda estava zumbindo. Ela se sentia insatisfeita. Ela voltou para a primeira manhã que ela e James estavam juntos. E se James não tivesse permanecido em seu apartamento, como ela pensava? E se ele tinha escapado quando ela não estava olhando? Ela parou para comprar café naquela manhã. Esperou um longo tempo na fila, e então comeu no parque. Ele poderia ter saído sem que ela visse. James poderia ter levantado assim que ela saiu, vestido as roupas, e chegado a Saybrook a tempo. Era possível. Horrível, impensável, mas possível. Ela pegou o telefone em sua mesa e discou o número de seu apartamento, com o coração batendo contra suas costelas. Harvey, seu porteiro, respondeu em uma voz animada, e depois que Rowan se identificou, ela perguntou, — Eu estou querendo saber se você poderia olhar quando alguém saiu do meu apartamento em um determinado dia. Você mantém as fitas de vigilância, não é? — É claro — disse Harvey. — Que dia que você gostaria que eu verificasse? Rowan deu a data da morte de Poppy. Se Harvey sabia o seu significado, ele não deu nenhum indício. — E quem estamos procurando, e por volta de que horas? — ele questionou. — Um homem alto, cerca de trinta anos — Rowan disse a ele. — Cabelo ondulado, meio comprido. Camisa listrada. Jeans escuro. Em algum momento da manhã, depois das seis e meia.


Harvey disse que iria procurar por ele e que telefonaria de volta, pedindo um número para que ele pudesse ligar. Ela deu seu celular. Então ela desligou, pressionando o receptor profundamente no gancho, sua mente paralisada. — Toc toc? Rowan disparou para cima. James estava na porta. — O-o que você está fazendo aqui? — ela gaguejou, saltando de forma tão abrupta que derrubou uma caneca de café vazia. James inclinou-se para pegá-la, uma vez que rolou pelo tapete. — Eu quero explicar. Rowan pensou na conversa por telefone que ela tinha acabado de ter e estava ciente do acordo pré-nupcial em seu colo. Em seguida, outra coisa veio-lhe à mente: Minha esposa era a presidente, James tinha dito a última vez que ele tinha inesperadamente aparecido no escritório dela. Eles apenas acenaram para eu entrar. Teriam acenado para ele na manhã em que Poppy morreu também? O nome dele não estaria em uma folha de assinatura. Não haveria nenhuma evidência de ele ter entrado no edifício. — Na verdade, eu acho que você deveria sair — ela disse duramente, tentando mascarar a instabilidade que ela sentia. James se jogou no sofá. — Saybrook. — Não me chame assim — Rowan quase gritou, cobrindo os olhos. — Pelo menos não agora. — Rowan, eu cometi um erro. — Ele se inclinou para a frente. — Eu quero ficar com você. Realmente e verdadeiramente. É você quem eu quero. Sua voz falhou. Rowan estudou-o com mais cuidado. Seu cabelo estava despenteado, sua pele estava pálida, as linhas ao redor da sua boca pronunciadas. Isso lhe deu uma pontada de culpa, mas depois ela endureceu. Ele merecia se sentir terrível. E por tudo o que ela sabia, era apenas fingimento. — A coisa com Evan... foi ao acaso — James continuou quando Rowan não respondeu. — Ela veio ao apartamento na outra noite para pegar um casaco que ela tinha deixado lá. Começamos a conversar, tinha um par de bebidas, e... — Ele estufou as bochechas e respirou. — Eu não sei como isso aconteceu. E eu nunca quis que isso acontecesse uma segunda vez. — Você deve ter meio que desejado que isso acontecesse — disse Rowan, antes que pudesse se conter. — Porque você e Evan estavam entrando em um hotel, James. Eu não sou uma idiota. James se levantou e caminhou em direção a ela. Ele se inclinou e colocou a mão sobre a mesa. — Diga-me que o que tínhamos não significou nada. Rowan fez o possível para desviar o olhar. — Eu não quero falar sobre isso agora.


— Bem, eu falo. — A voz de James estava mais alta agora. — Eu sou louco por você, Saybrook. Eu sei que você é louca por mim. — Ele se inclinou para frente, com os olhos arregalados. — Eu já perdi Poppy. Eu não posso te perder. — Por favor. — Rowan se inclinou para longe dele. — Eu preciso que você vá embora. James deu um passo em torno de sua mesa, em direção a sua cadeira. Em pânico, Rowan girou a cadeira de modo que ele não pudesse ver os papéis, cobrindo o topo da página com a mão. — Não se afaste de mim — ele suplicou, pegando a parte de trás da cadeira e virando-a de frente para ele. Os papéis caíram com a força repentina; Rowan se esforçou para mantêlos no colo, mas alguns deslizaram para o chão. James inclinou a cabeça, seu olhar flutuando em direção ao tapete. O nome dele estava no topo da página. Em negrito. Um momento passou. O relógio Nelson no canto em forma de estrela tiquetaqueava muito alto. Rowan quase pôde detectar o momento exato em que James percebeu o que ela estava escondendo. — O que você está fazendo com isso? — disse James em uma voz firme que Rowan nunca tinha ouvido antes. — Nada — disse Rowan rapidamente, pegando e empurrando os papéis para trás. Ele se atirou para a frente para pegar os papéis. Bloqueando-o com seu corpo, Rowan empurrou-os em uma gaveta da mesa e a fechou com força. A testa de James franziu. Ele se inclinou sobre ela para puxar a maçaneta, metade de seu peso sobre ela. — Ei! — Rowan gritou, empurrando-o. — Isso é confidencial! James se inclinou para ela novamente, seus olhos brilhando. — Eu pensei que éramos mais próximos do que isso. — Nós não somos mais um nós — Rowan disse com firmeza, empurrandoo de cima dela mais uma vez. — Como eu disse antes, James. Vá embora. Lentamente, James se levantou, sem tirar os olhos de cima dela. Sua mandíbula estava apertada, e suas narinas alargadas. Havia algo contido e tenso sobre ele, como se ele fosse uma cobra pronta para atacar. Terror deslizou sobre ela. Talvez ele tenha vindo aqui para testar as águas. E agora, com ela pegando o acordo pré-nupcial, agindo de modo estranho, ele sabia que ela suspeitava dele. Rowan pensou na varanda fora de seu escritório, o mesmo que a algum tempo fora de Poppy. Tudo o que a separava do destino de Poppy era a fina porta de correr de vidro atrás dela, o muro baixo do terraço, e então a longa queda para a rua. A porta estava trancada? Ela não conseguia se lembrar. James deu um passo mais perto de Rowan. Rowan rolou para trás, acertando sua mesa. James deu mais um passo, prendendo-a. — Rowan, Rowan, Rowan — disse James calmamente, seu hálito quente em seu rosto. Ele estendeu a mão e tocou-lhe o rosto. Rowan recuou e fechou os


olhos, sentindo seus dedos passarem pela sua pele. Seu queixo começou a tremer. Ele não seria tão estúpido a ponto de machucá-la agora. Havia gente do lado de fora do escritório. Mas e se ele estivesse louco? E se ele queria vingança, mesmo que isso significasse que ele seria pego também? — Você vai me fazer parecer um idiota traidor para que todos tenham um bode expiatório fácil, não é? — James sussurrou com raiva. — Você é louco. — A voz de Rowan soou forçada, não como a dela própria. — Eu vou chamar a segurança. — Seus dedos avançaram em direção ao telefone. — Não, você não vai. — James prendeu seu pulso contra a mesa com a palma da sua mão. Rowan tentou chegar até o telefone com a outra mão, mas James a pegou também. Ele a prendeu em uma posição tipo Twister, uma mão cruzada sobre a outra. Suas unhas cravaram na pele dela. — Por favor — ela sussurrou, tentando se soltar. Todo o seu corpo começou a tremer. — Isso dói. Pare. — Está tudo bem por aqui? Rowan olhou para cima. James saltou para longe dela, com as mãos ao lado do corpo. Danielle Gilchrist estava na porta, com uma pasta debaixo do braço. Sua cabeça estava inclinada, e havia um vinco em sua testa. Seu olhar passou de James para Rowan. Rowan estava bem ciente do quão profundo os dois estavam respirando. — Eu estava de saída — disse James, pisando através do escritório e passando por Danielle. Danielle assistiu James caminhar rapidamente pelo corredor e, em seguida, olhou para Rowan, com uma expressão preocupada no rosto. — Você precisa de mim para chamar a segurança? — ela perguntou em voz baixa. Rowan passou a mão sobre a parte de trás de seu pescoço. Estava suado. Ela tinha certeza de que seu rosto estava corado também, e seu coração ainda estava batendo forte. — Apenas certifique-se que ele foi embora — ela murmurou. Danielle balançou a cabeça lentamente. Um entendimento pareceu passar entre elas, e então ela se virou na direção que James tinha ido. Um momento depois, o celular de Rowan vibrou, assustando-a. Engolindo em seco, ela puxou-o de sua bolsa. Na tela havia um número familiar. — Harvey? — ela perguntou hesitantemente. — Sim — respondeu-lhe o porteiro. — Só avisando que eu procurei pela fita. Eu tenho uma gravação de quando seu amigo foi embora. Rowan olhou nervosamente para a porta de seu escritório. — A que horas? — Seis e quarenta da manhã. Os joelhos de Rowan dobraram. Ela deve ter murmurado “Obrigada”; ela realmente não lembrava. Seis e quarenta. Apenas dez minutos depois que ela saiu.


E com tempo de sobra para chegar ao centro da cidade antes que Poppy morresse.


22 Traduzido por Matheus Martins

—A

Virginia é para os amantes! — uma aeromoça alegre disse enquanto Corinne abria caminho para fora de um avião de porte médio naquela mesma manhã. — Obrigada por voar conosco! Corinne assentiu e deu um passo para o desembarque. O ar estava mais quente e mais úmido do que tinha estado em Manhattan, e o cenário ao redor dela era genérico e utilitário, cheio de estacionamentos e sinalização. Ela caminhou em direção à saída do aeroporto, não necessitando reivindicar bagagens. O lado de fora da estrada de chegada estava vazio. Finalmente uma minivan branca e limpa com “Norfolk Táxis” estampado em sua lateral chegou. Um homem mais velho e amigável em uma camisa havaiana sorriu para ela. — Para onde? Corinne olhou para o pedaço de papel amassado que ela agarrou durante toda a viagem de avião. — Estrada Waterlily, número 1840 — ela leu. Era um endereço que ela tinha recebido há muito tempo, a única coisa além de sua cicatriz para lembrá-la do que tinha acontecido. Corinne ficou surpresa que ela ainda tivesse isso por tanto tempo. Talvez, no fundo, ela sabia que um dia iria precisar. O taxista empurrou a porta de Corinne para fechá-la e manobrou em torno de um ônibus da Hertz Aluguel de Carros. Ele seguiu as indicações para a saída do aeroporto e, em seguida, seguiu para a estrada principal. Quase imediatamente, havia uma pequena tenda ao lado da estrada. — Morangos frescos, melões, brócolis — dizia um cartaz escrito em papelão. E um segundo proclamava, — Fogos de artifício! Observando o cenário verde passar por sua janela, aquela fatídica noite voltou à mente de Corinne mais uma vez. Após o teste confirmar que ela estava grávida, ela levantou-se, enrolou o bastão em um papel higiênico, e escondeu-o no fundo de sua bolsa, prometendo jogá-lo fora muito longe dali. Em seguida, ela espiou pela janela para os convidados e tentou imaginar Will misturando-se com a sua família. Era tão inconcebível; ela podia imaginá-lo apenas como um garçom, ou talvez um hóspede que estava claramente fora do lugar, como Danielle


Gilchrist e sua mãe, duas ruivas que estavam na borda do grupo, bebendo vinho branco sem jeito. Todo aquele verão, ela se sentiu-se como outra pessoa, como se uma pessoa diferente tivesse tomado todo o seu corpo, fazendo-a fazer coisas que ela nunca faria normalmente. E agora ela precisava desfazê-las. Meia hora depois, ela se atreveu a entrar na festa, a náusea que ela finalmente entendia ondulando através de seu estômago. Ela viu Poppy do outro lado da sala conversando com algumas pessoas da GIA e caminhou em direção a ela. Poppy deve ter percebido que algo estava errado, porque ela se desculpou e seguiu Corinne para a despensa da cozinha. — O que foi? — disse ela, preocupada, firmando-se entre as prateleiras de manteiga de amendoim e toalhas de papel. — Você não pode dizer a ninguém o que estou prestes a lhe dizer — disse Corinne, depois de fechar a porta. A pequena sala estava escura. — Tudo bem. — Poppy pegou as mãos de Corinne seriamente, e quando Corinne não conseguiu dizer as palavras, ela a abraçou. — Seja o que for, vai ficar tudo bem. — Eu estou grávida — Corinne sussurrou, mal capaz de dizer as palavras. — Mas eu tenho um plano — ela acrescentou rapidamente. — Eu estou indo alugar um lugar em outro estado. Vou a um médico, e eu vou ficar lá até que esteja acabado. Poppy limpou delicadamente as lágrimas do rosto de Corinne. — Querida, você nem sequer pensou nisso. — Sim, eu pensei. Eu não posso ter um... — Ela não conseguiu dizer a palavra. Bebê. — Mas eu não posso não tê-lo também. — Você vai querer a sua mãe lá. A última coisa que ela queria era sua mãe. — Você não entende? — ela sussurrou. — Eu tenho que sair daqui, e eu não posso deixar que alguém saiba sobre isso... Eu não posso deixar que me vejam assim. Isso vai arruinar a minha vida inteira. Poppy puxou o lábio inferior para dentro de sua boca. — Você está sendo tão dura consigo mesma. — Ela olhou para o teto. — E não é como se você fosse se esconder por um mês, você sabe — você vai ficar lá por nove meses. Talvez um ano, dependendo da sua recuperação. Como você vai explicar isso para as pessoas? — Eu já pensei nisso também — disse Corinne, trêmula. A ideia tinha chegado a ela tão rapidamente, como se um lugar escuro em sua mente estivesse se preparando para este dia. — Você pode dizer a todos que me mandaram para Hong Kong como a minha primeira ordem de negócios em desenvolvimento estrangeiro. Você é a presidente agora — você pode fazer isso, não pode?


— E se alguém quiser visitá-la lá? E se alguém te pegar? Eu vou ser responsabilizada também, Corinne. — Ninguém vai nos pegar — disse Corinne desesperadamente. — Apenas... por favor. Eu preciso sair daqui. Eu preciso que você faça isso por mim. Os olhos de Poppy abaixaram. Ela olhou para o chão de ladrilhos por muito tempo. — Mas esse seria o primeiro bisneto Saybrook. Corinne olhou fixamente para uma prateleira cheia de latas de sopa, com um nó doloroso na garganta. Ela tentou fingir que Poppy não tinha acabado de dizer isso. Em volta delas havia os sons jocosos da festa: garfos tilintando contra pratos, o som de um baixo, a voz de sua avó erguendo-se sobre a dos outros convidados. — Eu não sei mais o que fazer — ela sussurrou. — Eu não sei mais a quem recorrer. Poppy assentiu levemente. — Tudo bem — disse ela, em voz baixa. — Eu só espero que você não esteja cometendo um erro. — Eu não estou — disse Corinne vigorosamente. — Eu sei que é pedir demais. Mas você é a única pessoa em quem eu posso confiar. Poppy colocou as mãos sobre os olhos e ficou assim durante o que pareceu um longo tempo. — Tudo bem — ela disse finalmente. — Eu vou falar sobre Hong Kong aos seus pais esta noite. Corinne pigarreou. — Você pode fazer mais uma coisa? Você pode dizer ao Will que eu... fui embora? Certifique-se de fazê-lo entender. — Não havia nenhuma maneira que ela mesma pudesse dizer a Will que ela estava indo. O segredo estaria estampado em seu rosto, ou ela deixaria escapar quando ele perguntasse por que ela estava terminando com ele. — Ok. — Corinne espiou Poppy. Ela estava tentando, Corinne sabia, não julgá-la. E por isso, Corinne a amava com todo seu coração. Pouco tempo depois dessa conversa, ela recebeu um telefonema. Ela olhou para a tela, espantada ao ver o nome de Dixon na tela de identificação de chamadas. Ele não tinha ligado para ela há meses; ele entrar em contato justo naquele dia parecia predestinado. — Alô? — ela respondeu hesitantemente, esperando que sua voz não soasse cheia de lágrimas. — Corinne. — A voz de Dixon estava um pouco rouca. — Oi. Houve uma pequena conversa — Dixon mencionou que ele tinha voltado de Londres, Corinne disse que Poppy era agora a presidente da Saybrook. A próxima coisa que ela se lembrava era de Dixon respirando fundo. — Então, suas mensagens. Eu acabei de recebê-las. Meu correio de voz não funciona no exterior.


— Oh. — A mente de Corinne ficou em branco. Ela tentou se lembrar de quando ela tinha deixado essas mensagens. Antes de Will, tudo parecia ter sido há várias vidas atrás. — Eu não... — disse Dixon hesitantemente. — Eu senti sua falta... — ele parou e tossiu. — Estou em Corpus agora, mas talvez pudéssemos... eu não sei... — Eu também senti sua falta — disse Corinne. E ela sentia falta dele. Ela sentia falta como era fácil estar com ele. E ela o amava. Ela adorava que os dois nunca precisassem se esconder por aí, que eles preenchessem os vazios um do outro. Ela podia ver o futuro que ela já havia planejado com ele ao alcance novamente. Tudo o que ela tinha a fazer era agarrá-lo, deixar este ano passar, nunca olhar para trás. Sim, ela voltaria para Dixon. O verão tinha sido cheio de erros, mas isso iria consertar alguns desses erros. — Ok, ótimo — disse Dixon com facilidade. Corinne poderia dizer em sua voz que ele estava sorrindo. — Vou visitá-la em breve, então. — Na verdade, isso não vai ser possível — disse Corinne rapidamente. — Eu estou indo para Hong Kong. — Oh. — Dixon parecia surpreso. — Por quanto tempo? — Quase um ano — respondeu Corinne. E então ela disse-lhe que ele não deveria visitá-la, tampouco — ela ficaria ocupada dia e noite. Ela sabia que parecia que este era o seu castigo por acabar com tudo durante todo o verão. Bom, deixeo acreditar nisso. Os e-mails que ela escreveu para Dixon ao longo dos próximos nove meses foram alguns dos mais sinceros que Corinne já tinha escrito. As respostas de Dixon eram mais leves, mas ele esperou até ela voltar. Nem uma vez sequer ela insinuou o que realmente estava passando. Nem uma vez sequer Dixon havia adivinhado — mas, no entanto, ele não saberia nem em um milhão de anos. E quanto a Will? Um dia depois de chegar na Virgínia e estabelecer-se na casa de praia que ela tinha alugado, ela tinha ligado para Poppy para checar. — Você disse a Will que eu fui embora? — ela perguntou. — Sim, eu disse — foi tudo o que Poppy havia dito. — Senhorita? Corinne abriu os olhos. O táxi tinha parado em frente a uma agradável e bem conservada casa de dois andares em uma rua tranquila. Havia cortinas de renda penduradas nas janelas. Uma cesta de basquete fora fixada em cima da garagem. A porta da frente estava aberta; através da tela Corinne podia ver um amontoado de bonecas, Legos e outros brinquedos de criança na escada. Seu coração deu uma guinada. — Nós chegamos — disse o motorista para Corinne. Corinne empurrou algumas notas de vinte em sua mão e assistiu ele ir embora. Pânico tomou conta dela quando ele virou no cruzamento e desapareceu.


Talvez ela devesse ter dito a ele para esperar. E se fosse a casa errada? E se ela não pudesse seguir em frente com isso? Que diabos ela iria dizer? Ela enfrentou a casa novamente, respirou fundo e subiu os degraus de concreto para a porta da frente. Havia uma pequena placa de madeira onde se lia “Os Griers” pousada em uma pequena mesa de plástico ao ar livre na pequena varanda. Antes que perdesse a coragem, Corinne estendeu a mão e bateu na porta de tela metálica. De dentro da casa flutuava os sons de um programa de entrevistas da tarde e uma torneira de cozinha aberta. Havia passos vindo do nível inferior. De repente, uma jovem descalça apareceu na porta e a abriu ruidosamente, revelando um pequeno patamar e dois conjuntos de escadas, um que ia até a cozinha e a sala, o outro descendo para um porão. — Quem é você? — perguntou a menina. Os grandes olhos azuis de Corinne olharam de volta para ela. Lá estava sua boca pequena, e as orelhas redondas e as sardas de Will. Seu nariz de botão e o queixo quadrado. A menina tinha as mãos pequenas de Corinne e os pés longos, até o segundo dedo do pé um pouco maior. Seu cabelo loiro estava pendurado pelas costas num emaranhado de cachos, da mesma forma que Aster estava acostumada a usar. Uma mistura de tristeza e culpa percorreu Corinne. Houve tantas vezes em que ela se perguntou como sua filha seria e aqui estava ela, uma mistura perfeita dela mesma e de Will. Eu te dei. Eu te dei. Eu te dei, uma voz dizia em coro em sua cabeça. Corinne tentou sorrir. — A... a sua mãe está em casa? A menina girou no meio do caminho. — Mamãe! — ela gritou subindo as escadas. O som da torneira da cozinha cessou, e uma mulher apareceu no topo da escada. Ela olhou para Corinne, então caminhou lentamente em direção à tela. Ela usava um moletom azul marinho, e tinha um pequeno rosto em forma de coração, que não parecia em nada com sua filha. Ela colocou um braço em volta da menina e abriu a porta. — Posso ajudar? — Eu sou Corinne Saybrook — disse Corinne, oferecendo-lhe a mão. A mulher apenas olhou para ela. — Sadie Grier. — E esta é? — Corinne olhou para a menina. Sadie olhou para Corinne cautelosamente. Em seguida, ela colocou as mãos nos ombros da menina. — Michaela, por que você não vai lá para baixo desenhar? Mamãe vai descer em breve, ok? — Ok. — Michaela deu de ombros e deslizou para baixo das escadas para o nível mais baixo. O estômago de Corinne afundou. Sua própria filha tinha olhado indiferente para ela. Ela não tinha qualquer ligação com essa garota; outra


mulher era sua mãe. Seu bebê não a amava, não a conhecia, não sentia nada por ela. Ela era apenas uma estranha na porta. Sadie se virou para Corinne. — Eu sei quem você é. E eu não quero ser rude, mas não tínhamos resolvido isso? — Ela olhou para as escadas. — Eu sei que vocês se arrependem do que fizeram, mas vocês não podem continuar vindo aqui, interrompendo nossas vidas. Ela é jovem demais para entender. Nós somos os pais dela agora. Você e seu namorado fizeram suas escolhas. Corinne recuou. — Do que você está falando? Sadie estreitou os olhos. — Estou muito grata pelo que você fez, mas vocês têm que nos deixar em paz. Corinne sacudiu a cabeça, sem entender. — Seu namorado esteve aqui no mês passado. No aniversário de Michaela. Ele fez tantas perguntas. E ele foi tão agressivo. Tivemos que explicar para Michaela que não éramos seus pais verdadeiros. Como você acha que a fizemos se sentir? — Espere um minuto. — Corinne apertou o corrimão da escada da varanda. — O meu namorado? — Cara alto. Cabelo encaracolado. Sardas iguais as de Michaela. Obviamente o pai dela. De repente, ela sentiu-se mal. — Mas isso é impossível. Eu nunca contei a Will sobre ela. Sadie franziu a testa. — Bem, eu acho que alguém contou. — Ele lhe disse quem? Sadie levantou as mãos. — Isso é para vocês resolverem. — Ela assentiu com a cabeça em direção à porta da frente. — Mas parem, ok? Isso está nos assustando. — Assustando você? — Mamãe? A cabeça de Sadie virou-se para o porão. — Eu estarei aí em um segundo, querida. Corinne tentou dar outra olhada em sua linda filha. — Eu vim de tão longe — disse ela com a voz embargada. — Eu posso pelo menos falar com ela? Sadie balançou a cabeça, sua expressão firme. — Nós somos os pais dela agora. Sinto muito. E então ela fechou a porta. Corinne ficou na varanda e a encarou sem expressão. Um caminhão de lixo passou, a sua forma virando na próxima esquina. Um lixo derrubado rolou rua abaixo. Corinne apertou a mão ao peito, sentindo como se fosse vomitar. Will sabia. Mas como? Ninguém sabia que ela tinha se escondido aqui ou que ela teve um bebê. Nem seus pais, nem Edith, nem um único amigo. Apenas Poppy. Uma conversa pouco antes de Poppy morrer vibrou em seus pensamentos.


Naquele dia, na prova de seu vestido. Poppy a tinha puxado de lado: — Amanhã é primeiro de maio. Como você está... se sentindo? — E Corinne havia dito que se sentia tão egoísta por nunca ter dito. Poppy tinha dito, — Ainda há tempo. E se Poppy sabia que Will estava em Manhattan? Ela poderia ter encontrado ele no Coxswain. Ela e Evan poderiam ter ido lá juntas, na verdade. Corinne apertou a mão ao peito novamente, sentindo seu coração batendo com força contra suas costelas. E se Poppy tivesse dito tudo a Will? Ela deve ter pensado que estava fazendo uma boa ação. Sadie disse que Will tinha visitado um mês atrás, no aniversário de Michaela. 1 de maio. Corinne havia bloqueado os pensamentos sobre sua filha nessa data. Então, nessa semana, ela e Dixon tinham ido ao Coxswain. Ela tinha visto Will pela primeira vez. Na manhã seguinte, Poppy estava morta. Pare de nos assustar. Corinne pensou na grande estrutura de Will. Sua língua afiada da outra noite. O prato quebrado. Qualquer homem ficaria furioso sobre um enorme segredo sendo escondido dele por tanto tempo. Qualquer homem poderia ficar um pouco assustador, um pouco maluco. E se Will tivesse assustado outras pessoas além de Sadie? E se ele tivesse assustado a mensageira? Corinne puxou tremulamente seu telefone para chamar o táxi para levá-la para longe deste lugar. Ela agarrou o telefone com as duas mãos. Imagens horríveis do que poderia ter acontecido passaram rapidamente através de sua mente, e ela sentiu lágrimas vindo aos seus olhos. — E se alguém te pegar? — Poppy tinha dito. — Eu vou ser responsabilizada também, Corinne. Talvez Poppy tivesse sido. A culpa que ela sentiu de repente foi avassaladora. Se Corinne não tivesse pedido para Poppy cobri-la, se ela não tivesse cometido o erro, em primeiro lugar, sua prima não estaria morta agora. Corinne estudou o telefone, em seguida, abriu uma nova mensagem e começou a escrever para Will, com o coração na garganta.

Eu vou continuar com o casamento. Adeus.


23 Traduzido por I&E BookStore

N

a noite seguinte, a governanta que os pais de Aster contrataram, Livia, a deixou entrar na casa para o jantar. — Ela virá em um momento, querida — Livia murmurou, antes de voltar para a cozinha. O estômago de Aster estava agitado enquanto ela caminhava ao redor da sala da frente. Pinturas de gerações de Saybrooks olharam para ela. No canto estava Edith; o artista tinha capturado perfeitamente seu sorriso descontente. Ao lado dela estava Alfred, com suas grandes mãos cruzadas em seu peito. Aster sentiu uma pontada de tristeza ao pensar em seu avô; ela sentia falta dele. E no centro da parede havia uma pintura da família em que todos eles estavam, os irmãos de seu pai e seus cônjuges alinhados ao longo da varanda, todos os primos sentados no gramado em Meriweather. Aster olhou cada rosto, de um por um, o seu olhar finalmente parando em seu pai. Mason estava na parte de trás, com a mão no ombro de Edith, com um sorriso de satisfação no rosto. Ela podia ouvir a voz de Elizabeth. Eu acho que é um trabalho interno. Como, de dentro da família. E, em seguida... Pergunte ao seu pai. Por que ela disse isso? O que Mason tinha contra Poppy? — Aster? Aster pulou e olhou para cima. Danielle Gilchrist estava na porta, vestida com um vestido justo vermelho-cereja e carregando uma grande bolsa amarela. Seu cabelo vermelho derramava-se por suas costas, e ela tinha um par de óculos de sol aviador apoiados em sua testa. — O que você está fazendo aqui? — Aster estalou. Danielle sorriu timidamente. — Sua mãe me convidou. — Sim, eu convidei! — Penelope falou, aparecendo do fundo do corredor. — Bem-vinda, Danielle! — Ela se inclinou e beijou as bochechas de Danielle, depois olhou para Aster. — Eu encontrei com ela no Pilates. Nós temos o mesmo instrutor. — Ela deslizou através da sala e ajustou algumas flores no vaso enorme no meio da mesa. — De qualquer forma, eu disse a Danielle que ela tinha que vir ao jantar para que pudéssemos pôr a conversa em dia. Um sentimento azedo encheu a boca de Aster. Pôr a conversa em dia? Sua mãe tinha sido tão cautelosa com Danielle quando as meninas eram mais


jovens. — Ela é uma má influência para Aster — ela ouviu Penelope dizer a Mason uma vez. Mas agora que Danielle trabalhava na Saybrook, agora que ela possuía um par de Louboutins e uma bolsa Chanel — e como ela tinha pago por essas coisas? Aster se perguntou. Certamente não com seu salário do RH — agora ela era aceitável? Aster cerrou os punhos. Chocava-lhe que Penelope nunca descobriu o que aconteceu há tantos anos atrás. Ela tinha sido tão cega; Danielle estava bem ali. Por um momento Aster pensou em ir embora, a raiva em guerra com o desejo de descobrir a verdade sobre seu pai e Poppy. Suspirando, ela entrou na sala de jantar e caiu em uma cadeira. Vamos acabar logo com isso, ela pensou. Então ela percebeu que havia apenas quatro lugares na mesa. Edith já estava sentada em um deles, e o lugar que Poppy costumava ocupar estava deliberadamente vazio. Aster desviou o olhar. — O papai não está aqui esta noite? — ela perguntou. Penelope sacudiu a cabeça. — Ele tem uma reunião. Aster assentiu. Talvez tenha sido melhor assim. A última coisa que ela queria era ver Mason e Danielle no mesmo lugar juntos. — E quanto a Corinne? — ela perguntou, de repente ansiando por sua irmã mais velha. Ela tentou ligar para Corinne hoje cedo para contar a ela sobre o que aconteceu em Elizabeth, mas ela não atendeu. — Eu não soube de Corinne o dia todo. — Penelope sentou-se e serviu-se de um copo de vinho. — Eu imagino que ela esteja ocupada com os últimos preparativos do casamento. — Só falta uma semana — Edith entrou na conversa. — Vocês devem estar tão animadas! — exclamou Danielle. Aster torceu um guardanapo de pano em suas mãos, tentando não rolar os olhos. Como se você se importasse com a minha família, ela pensou amargamente. Seu telefone apitou, e ela olhou para ele, grata pela distração. Acho que não vou vê-la na Boom Boom hoje à noite, não é? Clarissa tinha mandado uma mensagem. Nigel está aqui, a propósito. Só pra você saber. Aster quase riu. Ela não poderia se importar menos com Nigel; ela honestamente tinha esquecido que ele existia. Ela não tinha pensado nele nenhuma vez desde que saiu do seu apartamento na manhã que Poppy morreu. É engraçado, ela pensou, deslizando seu telefone de volta em sua bolsa sem responder. Toda aquela cena parecia a mundos de distância. Esme passou com pratos de cordeiro assado e raízes comestíveis. Edith inspecionou, como de costume, e empurrou o prato. — Então, Danielle, o que você está fazendo ultimamente? — perguntou Penelope, claramente ignorando Aster.


Danielle sorriu docemente. — O trabalho tem me mantido muito ocupada — disse ela quando começou a cortar seu cordeiro. — Estamos contratando um monte de pessoal extra para cobrir as linhas de primavera. — E você tem um namorado, certo? — perguntou Penelope. — Qual é o nome dele? — Brett Verdoorn — disse Danielle, orgulhosamente. — Ele é dono de uma empresa de relações públicas chamada Lucid. — Que maravilhoso. Ele mesmo é o dono da companhia? — Isso mesmo — Danielle sorriu com afetação. — Brett quem? — Edith resmungou, virando seu ouvido bom para Danielle, e Danielle repetiu o sobrenome dele. Edith deu de ombros. — Nunca ouvi falar dele. Dez pontos para a vovó Edith, Aster pensou, escondendo um sorriso. — E a sua família? — perguntou Penelope. — Como está sua mãe? — Hum, muito bem. — Danielle colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha. — Ela voltou com o meu pai, na verdade. Eles estão tentando resolver as coisas. Aster parou com o garfo a meio caminho da boca. — Sério? — ela perguntou ceticamente, lembrando das brigas épicas de Julia e Greg. Danielle sorriu. — Eu sei — eu fiquei surpresa ao ouvir isso também. Eu acho que o tempo cura todas as feridas. — Estou feliz por eles. Espero que eles possam fazer dar certo — Penelope murmurou. Aster olhou para seu prato, irritada consigo mesma por cair na isca de Danielle. O tempo não cura todas as feridas. Não no seu caso, de qualquer maneira. O que Danielle tinha feito era imperdoável. As palavras de Elizabeth vibraram em sua mente novamente. Pergunte ao seu pai. Aster pensou em Poppy e Mason, brigando na festa de aniversário de Skylar logo antes da morte de Poppy. Era sobre Poppy ter roubado joias? Ou algo mais? De repente, Aster não podia esperar mais nenhum momento. Ela deixou cair o guardanapo na mesa e levantou-se. — Com licença — ela disse, como se ela estivesse indo usar o banheiro. Ela correu para o corredor, passando pelo banheiro, e parou na porta do escritório de seu pai. Olhando rapidamente para a direita e para a esquerda, ela empurrou a porta do escritório de Mason com o seu dedo do pé. A luz estava apagada, mas a tela do computador brilhava. Ela passou por Dumbo, o elefante, e sentou-se na mesa de Mason. Havia um ícone para o sistema de e-mail da empresa Saybrook na tela; Aster clicou nele. Mason tinha configurado o computador para registrá-lo automaticamente. Seus emails do trabalho carregaram instantaneamente no Outlook.


— Poppy — ela digitou na caixa de pesquisa. Centenas de e-mails de Poppy apareceram. Aster passou através deles rapidamente, mas nenhum deles parecia indevido. Todos eles eram sobre reuniões, estratégias de marketing, novos clientes — realmente coisas de trabalho. Nada sobre joias roubadas. Nada sobre segredos. Aster mordeu o lábio. Então ela notou outro ícone na área de trabalho, para uma conta do Gmail. Ela clicou sobre ele, mas o computador solicitou uma senha. Aster fechou os olhos, tentando imaginar qual a senha de Mason poderia ser, mas ela não tinha ideia. Ela simplesmente não conhecia mais tão bem o seu pai. Ela cavou em sua bolsa e encontrou o seu telefone, apenas para perceber que ela não tinha o número do celular de Mitch. Ela tentou ligar para ele no escritório e cruzou os dedos enquanto tocava duas vezes, três, quatro vezes... Justo quando estava prestes a ir para o correio de voz, ele atendeu. — O que você ainda está fazendo no trabalho? — perguntou Aster, momentaneamente distraída. — Aster? — Mitch balbuciou. — Hum... bem, eu poderia estar usando os servidores do trabalho para participar de um grande torneio de Word of Warcraft on-line. — Aster quase podia ver suas orelhas avermelharem através do telefone. Ela sorriu. — Eu estava pensando se você poderia me ajudar com uma coisa — ela sussurrou. — Onde você está? — Mitch sussurrou de brincadeira de volta. — Na igreja? — Eu não posso explicar agora — disse Aster apressadamente. — Mas eu preciso saber se você pode me ajudar a hackear o e-mail pessoal de alguém. Houve uma pausa. — Você realmente quer ler os e-mails de Elizabeth? — Não os de Elizabeth. Os do meu pai. Mitch fez um barulho na parte de trás da garganta. — Aster, eu não... — Você não vai entrar em apuros. Eu só preciso descobrir algo bem rápido, e eu tenho medo de lhe perguntar. Ele é um pouco intimidante. — Uh, é. — Mitch riu conscientemente. — E é exatamente por isso que eu não quero fazer isso. — Por favor. Eu vou compensar isso com você. — Aster olhou para cima, ouvindo um barulho vindo da cozinha. Era apenas o cozinheiro lavando pratos. — Qualquer coisa que você quiser. — Qualquer coisa? — Mitch repetiu. — Que tal um encontro? — Feito — disse Aster, surpresa com a rapidez com que ela concordou. Então ela teve uma ideia. — Na verdade, eu posso fazer melhor. Você seria meu acompanhante no casamento da minha irmã? — Sério? — Mitch pareceu surpreso. — Quero dizer, eu só estava esperando ir em um bar na esquina ou algo assim.


— Vamos — Aster seduziu. — Haverá dança, e o melhor bolo que você já provou, e você vai poder tirar sarro de mim em meu embaraçoso vestido de dama de honra... — Você me ganhou com o bolo — Mitch provocou, e então ficou sério. — Mas, por favor, Aster. Seja o que for que está acontecendo com o seu pai, apenas me prometa que você não vai fazer nada estúpido. — Eu prometo — disse Aster. — Você está perto do computador dele? — perguntou Mitch. — Eu estou sentada na frente dele. — Tudo bem. Vou enviar um e-mail para você com um URL. Digite-o no navegador de Mason corretamente, e então faça o download do aplicativo. Aster entrou em seu e-mail da Saybrook. Como esperado, Mitch tinha enviado um URL. Ele também tinha mandado um e-mail para ela com algo chamado de aplicativo key logger, que ela precisava instalar na máquina de Mason; isso daria a Aster acesso a qualquer coisa que Mason já tinha digitado — inclusive suas senhas. Ela baixou os dois e os instalou no computador de Mason. Uma série de letras veio à tona, incluindo a senha de Mason do Gmail: Dumbo. Aster sentiu uma pontada de culpa. Ela digitou a senha no Gmail, e como previsto, o e-mail pessoal de Mason começou a carregar. Aster inclinou para frente, olhando para a tela. — Funcionou — ela sussurrou. — Eu lhe disse que funcionaria. — Mitch pigarreou. — Agora desinstale os programas imediatamente. Eu não quero que o seu pai os veja em sua máquina. Mitch guiou Aster sobre como remover o programa e, em seguida, disse que ele tinha que ir. — Eu não vou esquecer isso — disse Aster significativamente. — É melhor que não — brincou Mitch. — Espero dançar muito no casamento. — Certo. — Aster gemeu, mas ela estava sorrindo. — Vejo você amanhã. Divirta-se com essa coisa de torneio on-line. Ela desligou e olhou para a tela do computador de seu pai. Havia tantos emails — atualizações dos clubes de campo e filiações universitárias que ele pertencia, bem como atualizações de viagens, recibos de compra e e-mails pessoais de amigos. Nada sobre joias roubadas. Por um capricho, ela voltou para cerca de cinco anos atrás, para o verão que Poppy foi nomeada presidente e Steven morreu. Seu olhar capturou um registro de transação, a liquidação de um grande número de ações. Aster pausou. Era a mesma transação que ela tinha visto no computador de seu pai no outro dia. Ela clicou no e-mail; ele listava alguns detalhes da transação, mas nada sobre para onde o dinheiro tinha ido. O que Mason tinha feito com todo esse dinheiro? Então Aster viu um segundo recibo de uma transação no mesmo dia,


este de US$ 1 milhão. Não havia nada listado sobre a conta bancária, exceto as iniciais GSB. Quem era? Aster vasculhou seu cérebro, mas ela não tinha ideia. Com as mãos trêmulas, ela voltou para a caixa de entrada e digitou o nome de Poppy. Nada. Pense, Aster. Então ela verificou a pasta de Excluídos — e um e-mail apareceu. Mentir foi a primeira palavra que ela viu. Precisamos confessar tudo, Poppy escreveu. Especialmente sobre o

dinheiro. Estou cansada de mentir. Sobre o meu cadáver. Ou do seu, Mason tinha respondido. É sério, Poppy, pare de pressionar ou você vai se arrepender. Aster olhou para cima, diretamente para os olhos do elefante. Confessar o quê? E que dinheiro? Fosse o que fosse, parecia que era algo que Mason tinha feito — não Poppy. Então, talvez não fosse sobre as joias desaparecidas em tudo. Talvez tenha sido algo maior. O que será que Poppy estava tentando convencer Mason a contar? E até que ponto Mason tinha ido para mantê-la quieta? Seus pensamentos caíram como dominós. Ela levantou-se, sentindo-se tonta. Não. Ela estava exagerando. Elizabeth não podia estar certa. Aster fechou os olhos, não querendo considerar a possibilidade. Sua mente voltou mais uma vez para aquela noite na praia com Steven. A brisa quente beijando sua pele nua, os sons da festa à distância, e a maneira como o coração de Aster tinha batido quando ela se virou e viu seu pai olhando. Steven tinha se atirado para os arbustos para pegar suas roupas; ele poderia estar ouvindo, mas Aster não se importava. — Se você pode foder a minha amiga, então eu posso foder o seu — ela estalou. O rosto de Mason tinha nublado com confusão. — O que diabos você está falando? — ele gritou. — Não se faça de bobo. — A voz de Aster subiu sobre o som das ondas. — Eu vi você e Danielle juntos. Eu sei o que vocês andam fazendo. O rosto de Mason empalideceu. Ele olhou na direção que Steven tinha ido, então agarrou o pulso de Aster, com força. — Isso não é da sua conta — ele disse em seu ouvido. — É sim. Ela é minha melhor amiga. Como você pôde? Ela tentou se afastar, mas Mason apertou-lhe o pulso com mais força. Aster sentiu seu pulso pulsar sob a pele. — Se você sabe o que é bom para você, você vai se virar, voltar para a festa, e não vai dizer nada — seu pai disse com uma voz assustadoramente calma. — Se você proferir sequer uma palavra sobre isto a alguém, você vai se arrepender. — Eu não tenho medo de você — Aster avisou. Os olhos de Mason brilharam. — Bem, você deveria ter. Ele deu-lhe um empurrão. Aster gritou, girando pela areia. Seu calcanhar ficou preso em um torrão e voou diretamente para seu pé. Ela se deitou onde


estava, esperando que seu pai a ajudasse e pedisse desculpas profusamente, mas quando ela se virou, ele tinha ido embora. Foi só na manhã seguinte que Aster ouviu a comoção. — Aster — Corinne havia dito, aparecendo em sua porta. Aster piscou para o relógio; era apenas seis horas. — Venha depressa. — Ela não se preocupou em colocar um sutiã, apenas correu escada abaixo em sua camiseta do Black Dog e shorts grandes, seguindo Corinne em direção à marina. Seus pais, Poppy, e vários outros convidados e empregados já estavam lá embaixo, reunidos em torno dos grandes barcos ancorados nos estaleiros. — Afastem-se — tio Jonathan estava dizendo, tentando gerir a multidão. À luz cinzenta do amanhecer, o rescaldo da festa mostrava toda a sua feiura — as tendas brancas tristemente deflacionadas, o chão cheio de guardanapos de papel que tinham virado mingau na grama orvalhada. Todo mundo estava de pé em uma moita na beira da água, mas Aster conseguiu passar através deles. Quando ela viu o que eles estavam olhando, ela gritou. Um corpo jazia com o rosto na água. Ondas rodavam sobre sua cabeça, e os seus braços estavam espalhados em seus lados. Aster reconheceu seu sapato oxford rosa e a calça de linho branca, que estava agora translúcida, revelando as boxers brancas abaixo. Era Steven. Aster tinha começado a chorar em choque. Ele tinha estado tão vivo poucas horas antes. Ela sentiu a presença de suas primas em volta dela, Poppy e Rowan e o rosto de Corinne borrou em sua visão. Mason estava furioso do outro lado, falando em seu telefone em voz baixa, em um tom abafado. Aster desviou o olhar, acometida por um pensamento repentino e terrível: seu pai tinha feito isso. Ele estava tão furioso que Steven tinha ficado com ela que ele o tinha matado. Ela não tinha certeza por quanto tempo ela se agarrou a essa noção — algumas horas, no máximo, porque nessa tarde, a polícia havia questionado a todos. Aparentemente, ninguém tinha estado perto das docas naquela noite. Mas uma coisa permaneceu clara: Aster tinha achado concebível que seu pai era um assassino. Algumas pessoas não tinham instinto assassino, mas ela sentia profundamente dentro de si que Mason tinha. — O que você está fazendo aqui? O pai de Aster estava na porta. Ele estava com um casacão, e estava segurando uma maleta nas mãos de tal forma que parecia que ele poderia jogá-la nela. Seus ombros estavam rígidos de raiva. Aster levantou-se rápido, saindo de seu Gmail. — Hum, meu iPhone não estava funcionando e havia uma emergência de trabalho. Elizabeth é uma vadia — ela acrescentou como um extra, contornando ao redor dele. Ela estava tão desesperada para escapar que ela bateu o pé com força contra o batente da porta. Estremecendo, ela continuou andando pelo corredor e passou pela sala de jantar.


Danielle e Penelope pararam de comer, com os olhos arregalados. — Aster? — Penelope chamou, mas Aster não lhe respondeu. Ela correu para fora da casa o mais rápido que podia. Assim que ela estava na calçada, ela se atrapalhou para discar o número de Corinne. Sua irmã atendeu no segundo toque. — Onde você estava? — gritou Aster. — Apenas... por aí — Corinne falou. — Você pode me encontrar na escada do escritório do FBI em meia hora? — disse Aster rapidamente. — Eu vou ligar para Rowan, ela também precisa estar lá. Acho que descobri alguma coisa. — Eu estarei lá — respondeu Corinne. — Eu tenho algo para dizer a vocês também.


24 Traduzido por Matheus Martins

M

eia hora depois, Rowan estava com as mãos nos quadris sobre as escadas do escritório do FBI em Manhattan. Eram quase sete e meia, e as ruas estavam entupidas com as pessoas indo para casa do trabalho, suas pastas balançando, celulares colados a seus ouvidos. Cada som fazia o coração de Rowan saltar: o metrô resmungando sob seus pés, o barulho do ônibus da cidade passando, um trecho de uma música de salsa saindo pela janela aberta de um carro. Ela procurou freneticamente as suas primas, esperando que elas chegassem logo. Agora que ela sabia o que James tinha feito, ela queria dizer a Agente Foley antes que algo mais terrível acontecesse. Aster e Corinne chegaram quase ao mesmo tempo de duas direções diferentes. — Eu sei quem matou Poppy — disse Aster, logo que elas estavam todas juntas. Corinne piscou para ela. — Eu também. A mandíbula de Aster caiu. — Você sabe que o papai fez isso? — Mason? — Rowan gritou, olhando de uma para outra. Aster assentiu tristemente. — Eu acho que ele estava tentando encobrir algo — Poppy sabia sobre isso e queria que ele confessasse. Ele queria Poppy fora da empresa, e ele empurrou-a para fora — literalmente. Corinne franziu o nariz. — Encobrir o quê? — Eu não sei. Algo sobre dinheiro e o trabalho. Corinne franziu o cenho. — O papai nunca faria isso. Aster pareceu em conflito. — Você realmente não o conhece, Corinne. Porque o papai... bem, ele teve um caso com Danielle Gilchrist anos atrás. Eu os vi. — Espera, o quê? — Rowan explodiu. — Danielle Gilchrist? — Corinne repetiu, sua pele empalidecendo. Aster calmamente contou exatamente o que ela tinha visto anos atrás — e, em seguida, o que ela tinha encontrado no e-mail de Mason. Rowan olhou para Aster, não compreendendo bem. O rosto de Corinne ficava cada vez mais pálido. — Eu não posso acreditar — ela sussurrou.


— Eu sinto muito — disse Aster, olhando para Corinne com culpa. — Eu não queria te dizer. Eu não queria arruinar a sua imagem da nossa família. Corinne colocou o queixo no peito. — A mamãe sabe? Aster baixou o olhar. — Eu não podia suportar dizer a ela. Alguns pombos pousaram perto de um pedaço de pretzel descartado e começaram a brigar por ele. Corinne fungou, então respirou fundo. — Apesar de tudo isso, eu não tenho certeza que o papai fez isso — disse ela levemente após Aster ter terminado. — Eu acho que foi Will. Aster piscou para ela. — O cara que você... — Ela parou. — Por quê? Agora foi a vez de Corinne parecer atormentada. — Eu não disse tudo a vocês sobre o meu tempo com Will todos aqueles anos atrás. — Ela engoliu em seco e, em seguida, explicou a razão real por ela ter desaparecido misteriosamente durante tantos meses daquele ano seguinte. Quando ela pronunciou a palavra gravidez e se escondendo, Rowan sentiu como se seu cérebro pudesse estourar. E então, quando ela explicou que ela tinha colocado o bebê para adoção, o coração de Rowan se partiu. Corinne teve uma criança, uma filha. Corinne falou apressadamente. — Eu acho que Poppy disse a Will a verdade sobre o que aconteceu... e Will ficou furioso — explicou Corinne. — Vocês conheciam Poppy — ela provavelmente disse que ela tomou a decisão de me mandar embora, para salvar minha reputação. Talvez ele a tenha culpado. Lágrimas correram pelo rosto de Corinne. Ela olhou para Aster, que estava na calçada, parecendo igualmente atordoada. Corinne deixou escapar um suspiro, as mãos enroladas em torno de sua cintura. Rowan foi até Corinne e gentilmente abraçou seus ombros. — Eu odeio que você tenha passado por isso sozinha. — Sua garganta apertou quando ela pensou em sua prima mais nova escondendo-se, afastada por tantos meses, não dizendo a ninguém o seu segredo por anos. O peso deve ter sido insuportável. Depois de um momento, Aster correu para a irmã dela e abraçou-a também. — Você vai ficar bem — disse ela suavemente. — Eu prometo. Quando elas se separaram, Rowan olhou para elas. — Eu ia dizer a Foley que James fez isso. Corinne enxugou as lágrimas. — Mas James estava em sua casa quando aconteceu. — Não, ele não estava — disse Rowan, explicando que o porteiro tinha visto ele sair, enquanto ela estava na fila do café. — Eu nunca perguntei a James onde ele estava. Então, eu realmente não tenho ideia. E ela certamente não tinha perguntado a ele agora, também. Desde o incidente em seu escritório hoje cedo, ela esteve em estado de alerta, esperando que ele a agarrasse quando ela saísse do elevador da Saybrook ou que ele estivesse


esperando por ela quando ela fosse para casa. E era por isso que ela não tinha ido para casa. Ela colocou as mãos nos quadris e assistiu o tráfego. Um cara pedalando um riquixá deu a volta na avenida. Dois turistas parecendo impressionados estavam sentados na parte de trás. Então Aster se virou e encarou o edifício. — Vamos. Talvez Foley já saiba quais desses caras podem ter feito isso. Elas se apressaram ao subir os degraus. Depois de passar rapidamente suas bolsas pelo detector de metais e abrir seus braços para os scanners, as três entraram no elevador para o andar de Foley. O escritório ainda zumbia com a atividade, apesar da hora — telefones tocando, pessoas correndo de um lado para o outro, uma impressora cuspindo papéis em uma pilha grande e organizada. A segurança pareceu surpresa ao ver as três Saybrooks no saguão. Ela fez uma chamada para o escritório de Foley e, em seguida, anunciou, — Ela ainda está aqui. Ela vai vê-las agora. Todas caminharam por um corredor longo e cinza para um escritório onde Foley estava sentada atrás de uma mesa cheia, olhando alguma coisa na tela do computador. Seu cabelo estava preso em um coque, seus olhos pareciam cansados, e seu batom estava um pouco borrado. Quando ela viu as três, ela se levantou. — Entrem — disse ela apressadamente, apontando para dentro. As três mulheres entraram e se sentaram em um sofá de tweed. A sala era decorada com flores e estampas de arte peculiares. Havia um par de chifres de veado pintado de rosa pendurado em uma parede alta. As persianas de metal genérico, padrão dos outros escritórios, tinham sido trocadas por de madeira, como se estivessem em uma fazenda mexicana. Finalmente Aster pigarreou. — Cada uma de nós tem pensamentos sobre quem matou Poppy. Foley cruzou as mãos sobre a mesa. — Isso ainda é sobre Steven Barnett? Elas balançaram a cabeça e, uma por uma, disseram suas teorias. Conforme Rowan ouvia suas primas falarem, suas mãos tremiam. Seus suspeitos pareciam tão plausíveis quanto James parecia ser. Era difícil acreditar que três pessoas separadas poderiam querer matar Poppy. E ela se viu frustrada com Poppy mais uma vez pelos segredos que ela guardava. Por nunca ter dito nada a elas. Ela deveria ser a melhor amiga de Rowan. A testa de Foley vincou no momento em que elas terminaram de contar. — Vocês acham que isso tem alguma coisa a ver com a pessoa que nos atingiu em Meriweather? — perguntou Aster, voltando-se para suas primas. — Eu não sei — disse Rowan, não tendo considerado isso antes. Ela tentou imaginar James empurrando todas elas ponte abaixo, e seus olhos arderam com lágrimas não derramadas.


Foley girou em sua cadeira para encarar uma pequena janela com vista para um conjunto de edifícios cinzentos. — Bem, nada que vocês me disseram é útil, infelizmente. Eu entrevistei todas essas pessoas, e todos eles têm álibis sólidos. Corinne cravou as unhas no sofá. — Will? Como você sabia que deveria entrevistar ele? Havia um vestígio de um sorriso no rosto de Foley. — Porque eu sou uma agente do FBI, Corinne. Eu faço o meu dever de casa. Eu tenho seguido você. Eu sei que você está passando um tempo com ele. Eu não sabia qual a ligação disso com Poppy, mas eu sabia que ele morava em Meriweather, e eu pensei que poderia haver uma ligação. Falei com o Sr. Coolidge eu mesma; dezenas de pessoas podiam atestar que ele estava no mercado da Union Square naquela manhã. O rosto de Corinne empalideceu. — Você estava me seguindo? — Eu tinha que fazer isso. É o meu trabalho mantê-la a salvo. — Alguém na família sabe sobre... ele? Foley ajeitou alguns papéis. — Não. Embora eu tenha que dizer, eu estou ficando um pouco cansada de cobrir as coisas para vocês. — Ela olhou para Rowan. Rowan sentiu uma rajada desconfortável de emoção que ela não conseguia identificar, no tom de voz de Foley. Ela se inclinou para frente. — E quanto ao James? Eu falei com o meu porteiro. James saiu assim que eu saí na manhã que Poppy morreu — ele poderia ter chegado ao escritório e empurrado Poppy nesse tempo. — Eu falei com James também — disse Foley, sacudindo a cabeça. — Ele também tem um álibi para esse dia. — Sim, meu apartamento. Foley fez uma careta. — Na verdade, não no seu apartamento. Ele estava em outro lugar. — Onde? — Rowan exigiu. Foley não disse nada por um momento, olhando para as três. Finalmente ela suspirou. — Ele estava com uma mulher chamada Amelia Morrow. O cérebro de Rowan ficou disperso. Ela conhecia aquele nome... por quê? Em seguida, a memória veio a ela: a festa de aniversário da filha de Poppy. A mãe cuja filha tinha chamado os biatletas de “bissexuais”. — Oh meu Deus — ela sussurrou, levando uma mão à boca. Ele tinha ido da cama de uma mulher para a de outra? Poppy sabia? Foley olhou para Aster. — E antes mesmo de você dizer, seu pai não matou Poppy também. Ele estava se preparando para a chamada de Singapura naquela manhã, e dezenas de pessoas o viram. Eu não sei o que o e-mail entre Mason e Poppy queria dizer — isso era coisa deles. Também não sei sobre essa


transação. Isso é para um auditor descobrir. — Ela se recostou na cadeira e olhou severamente para elas. — Eu aprecio o quanto vocês se importam, senhoritas, mas a partir de agora, deixem o trabalho da polícia para mim, ok? Em seguida, ela levantou-se, o que parecia ser um sinal claro para as outras saírem. Rowan abriu e fechou a boca, sentindo-se menosprezada e diminuída, mas ela não sabia mais o que dizer. Ela caminhou entorpecida e silenciosamente pelo corredor como uma cachorra repreendida. Foley andou por todo o caminho até o elevador, com o telefone na mão. Quando ela apertou o botão para baixo, Rowan pigarreou. — Se não foi nenhuma das pessoas que nós pensamos, você sabe quem pode ter sido? — ela perguntou desesperadamente. — Há algum suspeito? O olhar de Foley não levantou de seu telefone. — Quando eu souber alguma coisa, vocês saberão. — Isso quer dizer que você não sabe de nada? — gritou Aster. — E quanto a Natasha? Você encontrou alguma coisa sobre onde ela estava naquela manhã? — Você já tinha entrevistado essas pessoas? — Rowan exigiu. — Danielle Gilchrist me disse que nunca entraram em contato com ela. — Eu falei com Danielle no telefone. Ela não sabia nada de útil — Foley respondeu em um tom grosseiro. — Sério, gente, deixe-nos fazer o nosso trabalho. — Houve um ding, e as portas do elevador abriram. Foley praticamente empurrouas para dentro. Elas desceram em silêncio. Aster fez uma careta para as portas fechadas. — Ela não tinha que ser tão rude. Corinne puxou sua gola. — Eu não posso acreditar que eles estavam me seguindo. — Eles provavelmente devem ter seguido todas nós — disse Rowan friamente. Seu rosto queimou com a ideia de agentes assistindo enquanto ela invadia o apartamento de James e fingia ser uma mãe para os filhos de James. Eles provavelmente tinham visto ela descobrir sobre Evan também — aliás, eles provavelmente sabiam sobre Evan muito antes dela descobrir. Parecia como mais uma das invasões dos repórteres ou dos fofoqueiros da Abençoados e Amaldiçoados, provavelmente porque Foley deveria estar do lado deles. Um caminhão de lixo passou, trazendo consigo o mau cheiro de lixo todo misturado. — Bem, eu acho que estamos de volta à estaca zero — disse Rowan friamente, voltando-se para suas primas. Corinne e Aster assentiram. E então elas se separaram, Rowan deslizando para seu carro. — Leve-me para casa — ela murmurou para o motorista. Ela supunha que não havia nenhum risco agora de James estar à espreita procurando por ela. Ele era um traidor, não um assassino.


Mas o fato de que ele tinha sido absorvido fez ela ter mais medo do que nunca. Era como se alguĂŠm pudesse estar um passo alĂŠm delas. Qualquer um poderia estar assistindo. Qualquer uma delas poderia ser a prĂłxima.


25 Traduzido por L. G.

N

a sexta-feira à noite, Corinne estava em seu antigo quarto na casa em Meriweather, olhando em um antigo espelho de corpo inteiro suas pernas finas e compridas. Faltava apenas meia hora para começar o jantar de ensaio de seu casamento. Seu vestido de cetim com uma estampa floral e as costas abertas assentava perfeitamente. Uma estilista tinha arrumado seu cabelo em cachos soltos, e sua maquiagem estava perfeita, disfarçando a marca que havia se formado em seu rosto depois de passar dias chorando. Seus olhos pareciam maiores e já não estavam vermelhos; sua cintura parecia menor, provavelmente por estar muito estressada para comer. — Querida, você está maravilhosa — disse sua mãe suavemente, parando um momento para tirar um fio de cabelo do rosto de Corinne. Em seguida, ela franziu a testa. — Por que você não está sorrindo? Corinne desviou o olhar, odiando que seus sentimentos estivessem tão transparentes. Ela tinha repetido sua conversa com Sadie Grier uma centena de vezes. A ideia de que Corinne pudesse ter tido algo a ver com o assassinato de Poppy — que ela a tivesse colocado em perigo e que Will tivesse enlouquecido — tinha abalado ela, mesmo que isso não fosse verdade. E ainda havia o sofrimento de ver Michaela, a filha que ela nunca nem ao menos havia segurado. Ainda por cima, essa nova informação sobre seu pai e Danielle parecia demais para suportar. A garota ruiva, magra, com a boca sarcástica e a mente de aço. A melhor amiga de Aster. O estômago de Corinne embrulhou só de pensar nisso. Ela mal conseguiu olhar para o pai dela nos olhos esta tarde quando ele carregava uma caixa de champanhe. Ela se sentia culpada demais por ter sido tão insensível com Aster por tantos anos — agora a rebelião descarada de Aster contra sua família fazia sentido. Era como se o mundo tivesse mudado durante a noite, mas Corinne não. Na verdade, isso a fez se sentir desesperada por algo sólido. Sem mais surpresas, sem mais bagunças. Ela ia se casar. Ela tinha que fazer isso. Era como se ela estivesse na fila para sair de uma garagem; se ela desse marcha ré agora, seus pneus iriam passar por cima de coisas afiadas, causando danos irreparáveis. Afinal, as pessoas já tinham se reunido no andar de baixo, ela podia ouvi-los murmurando felizes no


salão e no gramado. O dia tinha amanhecido perfeito, quente e ensolarado, e se ela olhasse para fora, ela veria a grande tenda montada para a recepção e os assentos dispostos para a cerimônia. Dixon estava em algum lugar lá embaixo, misturando-se com os convidados e, a julgar pelo cheiro de lagosta, creme de leite e legumes refogados, Will provavelmente estava aqui também. Will. Uma dor atravessou Corinne. Depois da mensagem que ela tinha enviado, ele não tinha respondido. Embora talvez tivesse sido melhor assim. — Estou nervosa — Corinne respondeu finalmente, piscando com força para não chorar. — Por quê? — Penelope acenou com a mão com desdém. — Todos os detalhes estão no lugar. — Eu sei — disse Corinne, com o queixo tremendo. — Você tem certeza que não é outra coisa? As palavras de Poppy de muito tempo atrás flutuaram de volta para ela: Você está sendo tão dura consigo mesma, Corinne. E de Rowan: Todo mundo vai te perdoar se você não for em frente com isso. Ela tinha subestimado a sua mãe? Talvez ela se simpatizasse. Talvez ela não fosse tão rígida e regrada como Corinne pensava. Então Penelope deitou a cabeça no ombro de Corinne. — É Poppy, não é? Todos nós sentimos falta dela. Mas eu estou tão orgulhosa de você, querida. Você tem sido tão forte. Um exemplo brilhante. — Ela se inclinou e beijou a testa de Corinne. Corinne estremeceu com a sensação dos lábios finos como papel de sua mãe em sua pele. Não muito tempo atrás, era para ouvir essas palavras que ela se esforçava tanto. Mas agora elas pareciam um pouco ridículas. Um exemplo brilhante? Sério? — Mãe, você pode me dar um minuto? — disse ela, oferecendo à mãe o que ela esperava que fosse um sorriso nervoso, típico de uma noiva. — Claro, querida. — Os dedos de Penelope se arrastaram ao longo do braço de Corinne quando ela deslizou para fora da sala. Corinne a ouviu descer as escadas e, em seguida, sentou-se na cama. Este era o lugar onde ela dormia quando ela era menina, e ele ainda estava cheio de suas coisas favoritas: a casa de bonecas vitoriana no canto, as estatuetas de porcelana de bailarinas e princesas nas prateleiras, os organizadores de plástico de sua mãe cheio de bijuterias velhas, com que ela enfeitava suas bonecas antes de fazê-las se casarem. A memória girou em sua mente, pura e nítida: o verão em que ela estava com Will, ela tinha permanecido nesta mesma cama, olhando para o teto, revivendo seus momentos juntos. Sentindo-se tão viva, com o coração batendo rápido, sua respiração rápida. Ela lembrou-se de ligar para ele uma vez, sussurrando, — Eu gostaria que você pudesse vir.


— Eu vou se você deixar — Will havia respondido. — Eu vou subir pela sua janela. — Mas é no terceiro andar — Corinne havia protestado. — E daí? — Will tinha rido. — Eu vou subir em uma árvore. Vou escalar o lado da casa. Eu vou chegar em você de alguma forma. Uma nova rodada de lágrimas arrepiou os olhos de Corinne. Will a queria, realmente a queria. Mas agora tudo estava arruinado. Houve uma batida na porta, e Corinne olhou para ela, esperando que sua mãe houvesse retornado. Mas alguém entrou em seu lugar. Will, que usava um avental branco de cozinheiro chefe e um boné de beisebol do Boston Red Sox, caminhou com cuidado para o quarto e se sentou em uma cadeira de madeira perto da janela. — Eu vou demorar apenas um minuto — disse ele, mantendo os olhos no chão. — Eu só queria te encontrar antes de... você sabe. — Então, ele olhou para ela. — Você pode pelo menos explicar? Por um breve momento, Corinne sentiu-se tão culpada quanto ela havia sentido durante todos esses anos, quando ela tinha deixado Will sem lhe dizer nada. Mas em seguida ela se lembrou: ele era um mentiroso também. Ambos tinham escondido alguma coisa. — Eu sei que você sabe — ela resmungou. E então, com uma voz mais forte: — Eu sei que você sabe sobre o bebê. A cor rosa encheu suas bochechas. — Oh — ele disse em uma voz grave. — Eu fui vê-la. Pela primeira vez. Eu queria vê-la antes de lhe contar sobre ela. E a mãe dela me disse que você já tinha estado lá. Que você sabia. — Um caroço cresceu em sua garganta. — Por que você não me contou? Por que você não disse que a viu? — Por que você não me contou? — Ele balançou a cabeça. — Eu estava tão confuso naquele verão. Você... desapareceu. E depois que você enviou a sua prima, que eu nem ao menos conhecia... — Ele fechou os olhos. — Eu pensei que o que nós tínhamos tinha significado mais do que isso — E significou — Corinne falou, mortificada. — Eu não deveria ter ido embora. Ela ouviu um rangido nas escadas e olhou para o corredor. Sua mãe estava longe de ser vista. Ela voltou para o quarto e olhou para Will. — Então, quando é que Poppy lhe disse? Will franziu a testa. — Poppy? Na verdade, primeiro eu pensei que você tivesse enviado a carta — não estava assinada. Mas explicava tudo, e tinha o nome e o endereço de Michaela. Eu não acho que eu realmente acreditei até que eu fui lá e vi. — Ele fez uma pausa. — Ela se parece com a gente, Corinne. Por que Poppy deixaria uma carta anônima? Corinne olhou para baixo. — Você os assustou, aparentemente. Tanto é que a mãe de Michaela basicamente me chutou para fora antes que eu pudesse vê-la.


Will franziu a testa. — Foi isso o que ela disse? Eu não assustei ninguém. Eu só... — ele parou, suspirando. — Eu estava tão surpreso com a ideia de uma filha. E eu quero dizer, você a viu, não é? Ela é perfeita. — Eu sei — disse Corinne fracamente, o rosto de Michaela claro em sua mente. — Mas eu não fiz nada para assustá-los. Eu não sei do que ela está falando. — Ele fez uma careta. — Jesus, Corinne. Se você tivesse lidado com isso como uma pessoa normal, talvez nós pudéssemos vê-la. Ela poderia ser nossa. Lágrimas rolavam pelo rosto de Corinne, provavelmente fazendo rios em sua maquiagem. — O que eu deveria fazer? Eu não tive escolha. Will a encarou loucamente. — Talvez eu não seja Dixon Shackelford, e talvez eu não seja quem você esteve esperando, mas você ainda poderia ter feito a coisa certa. Você tirou uma filha de mim. Uma neta de toda a sua família. Você mentiu para eles tanto quanto para mim. Você realmente tem tanto medo deles assim? — Eu não sei do que eu tenho medo! — Corinne deixou escapar, sua voz ecoando pela sala cavernosa. — De cometer um erro, eu acho! De todos... me julgando. Você tem alguma ideia de como é isso? Você tem alguma ideia de como é difícil manter esta imagem para toda a sua família? Will piscou em sua direção. — Por que você tem que fazer isso sozinha? — Eu não sei! — Corinne soltou, sentindo-se desequilibrada. Ela cobriu o rosto com as mãos. — É isso o que eu venho percebendo. Eu pensei que todas nós, minhas primas e eu, eu pensei que todas nós estivéssemos tentando ser perfeitas, boas e... exemplos. Mas acontece que eu era a única. Ou então eu sou a única pessoa que se abate tanto quando estraga tudo. — Ela olhou para Will com os olhos lacrimejantes. — É que a busca da perfeição é quem eu sou — ela admitiu. — É tudo o que sei. Eu não sei quem eu seria se não fosse assim. A confissão soou boba na luz do dia. Corinne fechou os olhos e ouviu o quarteto de cordas aquecendo no jardim. Ela imaginou Dixon e seus padrinhos, meninos dentuços e bronzeados do colégio interno como ele, se divertindo na ala dos homens. Ela olhou para Will, de repente exausta. — Eu gostaria de poder voltar no tempo. Eu queria ter ouvido Poppy — ela não queria que eu me escondesse, ela queria que eu enfrentasse as coisas. Will suspirou. — Eu também gostaria. E acredite em mim, desde que eu descobri, houve dias em que eu acordei odiando você, o que é bastante complicado, pois eu continuo acordando amando você também. Amor. Lá estava, pendurado no ar. Um enorme peso pressionou contra o peito de Corinne. — Todo mundo já está aqui. Eles estão me esperando.


Ele se aproximou dela. — E daí? Eu saio escondido com você pelos fundos, se for preciso. Corinne, eu te amo e eu quero estar com você, não importa as consequências. Os olhos de Corinne se encheram de lágrimas. Mesmo depois de tudo o que ela tinha feito, o segredo horrível que ela manteve, as mentiras terríveis que ela tinha dito, ele ainda queria estar com ela. Ele é tão bom, ela pensou. Eu não o

mereço. Ela se afastou dele. — Eu acho que é tarde demais. — O que você quer dizer? Corinne se inclinou sobre a cama, com lágrimas borrando sua visão. — Como podemos confiar um no outro depois disso? — Nós vamos ganhar essa confiança. — Will tocou suas costas. — Nós vamos trabalhar nisso, dia após dia. Corinne se virou para encará-lo. Ele parecia tão lindo e comovente que ela de repente agarrou o seu rosto com as duas mãos e o beijou na boca com força. Will se inclinou para ela, colocando as mãos sobre os seus ombros. Toda lembrança de seus beijos correu de volta para ela em uma onda espumante. Todo o seu corpo começou a tremer, das pontas dos dedos dos pés, correndo por sua espinha até a cabeça. Estamos fazendo isso? Ela não tinha ideia. Um tornado tinha acabado de atingir toda a sua vida, arrancando fazendas, vacas e carros. Ela estava enterrada sob os escombros. Ela não conseguia respirar. Ela se descobriu querendo puxá-lo para a cama e deixá-lo arrancar o seu vestido, arrancando os botões delicados um por um. Tudo o que ela disse a ele era tão cru, verdadeiro e honesto, mais sincero do que qualquer coisa que ela já tinha dito ou feito. Ela pressionou mais na boca de Will, beijando profundamente. Ela queria que isso nunca acabasse. — Corinne, querida? — Sua mãe chamou do pé da escada. — O fotógrafo está pronto para você. Corinne atirou Will para longe. — Eu desço em um segundo — ela gritou, com o coração acelerado. Sua boca parecia inchada, a pele suja, o rosto em chamas. — Eu tenho que ir. Ela passou por Will e cambaleou pelo corredor como se estivesse bêbada, a marca do beijo pulsando em seus lábios. Mas ao invés de descer a escada principal da sala de jantar, ela fugiu pela escada dos fundos. Estava escuro e cheirava a poeira. Ela colocou os dedos em torno do antigo corrimão de madeira e desceu às pressas, mas com cuidado, tentando não rasgar seu vestido. As escadas levavam logo atrás da cozinha; panelas soaram atrás de portas francesas fechadas. A porta lateral levou para um caminho obscurecido do pátio; Corinne correu para ele, não querendo que ninguém a visse agora. Nem a sua família, nem o fotógrafo, e certamente nem Dixon.


Ela navegou por todo o caminho de pedra até a praia. A areia estava vazia quando ela chegou lá, o céu de um azul perfeito. Um avião monomotor girava em cima, aparentemente ali apenas para o seu dia especial. Ela olhou para as ondas, desejando-as de uma forma que ela nunca havia feito antes.

Eu fui perfeita durante toda a minha vida. Tenho medo de não ser. Nós vamos ganhar essa confiança. Nós vamos trabalhar nisso, dia após dia. O beijo latejava em seus lábios. Ela olhou para trás, verificando mais uma vez que ninguém estava olhando. Então ela se virou e correu o mais rápido que pôde em direção à água. Sem hesitar, ela tirou o vestido e os sapatos e entrou na água com apenas suas roupas de baixo, mais nua do que jamais esteve.


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A

ster estava um pouco nervosa, voltando para Meriweather após o desastre que foi a despedida de solteira de Corinne. Mas ela tinha que ajudar Evan — mesmo que ela fosse uma vadia traidora por dormir com James, ela tinha feito um trabalho fantástico. Todo o mobiliário grande da sala de estar era em azul e branco, as rodas de barco e as esculturas entalhadas estavam perfeitamente organizados em volta das mesas elegantes e cadeiras que agora enchiam o espaço. As janelas tinham sido abertas, as pesadas cortinas de brocado bloqueavam a luz, as tiras de gaze e o enorme lustre Baccarat foram retirados e substituídos por uma escultura de arame fino que carregava centenas de velas votivas. A sala cheirava a gardênias, uma banda de jazz tocava no canto, e a linha até o bar era de três metros. — Aqui estamos — disse Mitch, caminhando até Aster e entregando um copo de cobre. — Um Moscow Mule, com limão extra. — Você é o melhor — disse Aster, brindando seu copo com o dele. Depois de ver Mitch tantas vezes em camisetas e calça jeans, ela ficou surpresa com a forma adulta e polida que ele aparentava em um terno. Ele havia mudado o seu corte de cabelo — só para ela? ela se perguntou — ele estava bem barbeado, e a roupa realçava seus ombros e acentuava sua cintura fina. Aster gostou muito de perceber que ele se manteve espreitando com cuidado suas pernas, que pareciam especialmente longas em seu vestido Versace. — Deixe-me te mostrar tudo — disse ela, tomando o braço dele para leválo para o corredor. Ela mostrou-lhe os antigos artefatos marítimos que seu avô costumava colecionar. — Ele sempre tentava encontrar coisas como esta em mercados de pulga. Ele tinha uma sorte insana, encontrando coisas que todos os outros pensavam que eram inúteis. Nós sempre dizíamos que ele deveria ir no Antiques Roadshow 2. — Sua voz falhou um pouco com a lembrança de seu avô. Ela desejou que ele pudesse estar ali esta noite, por Corinne. 2

Antiques Roadshow: É um programa de televisão britânico no qual avaliadores de antiguidades viajam para várias regiões do Reino Unido (e, ocasionalmente, em outros países) para avaliar antiguidades trazidas pela população local. Ele está em exibição desde 1979. Há também versões internacionais do programa.


— Parece que ele era um cara muito especial — disse Mitch baixinho, pegando sua mão. Aster entrelaçou os dedos com os dele. — Aqui está uma foto dele — disse ela, apontando para uma foto antiga de Alfred e seu amigo Harold na frente da loja principal da Saybrook em Nova York, usando chapéus combinando e óculos de aros de arame. — Ele parece exatamente como no vídeo de doutrinação — Mitch brincou. Então ele olhou através da multidão. — Então, onde está a noiva? Aster franziu o cenho. — Eu não sei. — Ela não tinha visto Corinne desde aquela tarde. Edith estava no canto, conversando com os Morgans, uma família que morava na mesma rua e tinha feito uma fortuna com gás natural. Dixon estava conversando com algumas pessoas de sua empresa de investimentos; seu pai estava ao lado dele, e parecia estranhamente como um Dixon mais velho, só que mais grisalho. Mason e Penelope apertavam as mãos com força, conversando com os pais de Natasha no canto. O olhar de Aster permaneceu em seu pai. Ele pode ter tido um álibi para o assassinato de Poppy, mas ele ainda tinha um monte de segredos. — Aster — alguém chamou do outro lado da sala. Uma figura saiu do meio da multidão, e Clarissa abordou-a em um abraço. — Como você está, sua vadia louca? — Ela deu um passo para trás e deu uma olhada em Aster. — Você está tão linda hoje à noite. Eu te odeio um pouco. E eu particularmente te odeio por furar comigo na Soho House na semana passada. Além disso, você perdeu uma grande noite na Boom Boom. Clarissa parecia mais magra e festeira do que nunca. Seu cabelo escuro caía pelas costas em cachos longos, e ela usava um vestido frisado que mal cobria o topo de suas coxas. Por um segundo, Aster pensou que Clarissa tinha invadido a festa, mas depois ela lembrou-se que a tinha convidado. — Desculpe — disse Aster fracamente, percebendo que ela nunca respondeu o SMS que Clarissa mandou no jantar naquela noite. Esse foi o mesmo dia que ela tinha invadido o e-mail de seu pai e ido para o FBI com Corinne e Rowan. — Uma certa coisa veio à tona. Clarissa colocou as mãos nos quadris e olhou ao redor da sala enorme. — Portanto, este é o lugar onde você gastou seus verões? — Ela torceu o nariz. — Sim. Por que? — perguntou Aster, sentindo-se na defensiva. — Oh, por nada. — Clarissa sorriu docemente. — Parece apenas... Eu não sei. Mais ou menos como a casa da Família Addams. — Ela passou um braço em volta dos ombros de Aster. — Você acha que há alguma maneira de nós podermos chamar um jato particular da sua família e fugir para fora desta coisa mais cedo? Há uma festa incrível esta noite no sótão de um executivo de uma gravadora em Tribeca. E adivinha quem vai estar lá? Nigel! E ele está solteiro novamente! — Ela bateu no quadril de Aster e piscou.


Mitch pigarreou. — Uh, quem é Nigel? Aster nervosamente agarrou sua mão. — Mitch, este é minha amiga, Clarissa. — Melhor amiga — corrigiu Clarissa. — Nós nos conhecemos há muito tempo — Aster admitiu. — Clarissa, Mitch. Clarissa olhou para Mitch de cima a baixo. Um pequeno sorriso apareceu em seu rosto. — Qual é o seu sobrenome? — Erikson — respondeu Mitch. — Dos Darien Eriksons? — perguntou Clarissa. Mitch olhou para Aster buscando ajuda. — Eu tenho uma tia-avó que vive em Stamford? — ele ofereceu. Clarissa olhou para Aster, dando-lhe um olhar que dizia você tá falando serio? Aster mordeu o lábio. Então, Mitch não se encaixava exatamente no tipo de caras com que Aster normalmente saía. Mas talvez isso fosse uma coisa boa. Então Clarissa arregalou os olhos para alguém do outro lado da sala. — Puta merda, é o Ryan! — Ela apontou para um dos amigos de Dixon, então se inclinou para Aster. — Lembra quando eu fiquei com ele no Lot 61? E com isso, ela se foi. A banda de jazz tocava uma batida empolgante. Aster olhou para Mitch, que estava calmamente tomando seu Moscow Mule. — Desculpe — disse ela. — Clarissa é meio... intensa. Mitch levantou uma sobrancelha. — Ela é sua melhor amiga? Antes que ela pudesse responder, Edith deu um passo adiante em seu campo de visão. — Ora, olha quem está aqui! — sua avó falou. Aster virou, esperando Corinne aparecer no topo das escadas. Mas Edith — usando seu habitual cachecol de pele de marta — tinha corrido para a porta da frente. Ela colocou as mãos nos ombros de uma loira e conduziu-a para dentro. Demorou um momento para Aster perceber que a convidada recém-chegada era Katherine Foley, vestida não com sua saia preta costumeira, mas com um lindo vestido de festa de cor champanhe e saltos gatinho. Aster correu para a agente. — Aconteceu alguma coisa com o caso de Poppy? — ela perguntou. — Você achou o assassino? Edith fez uma careta. — Meu Deus, Aster. A senhorita Foley está aqui porque eu a convidei. Aster tentou o seu melhor para sorrir para Foley, murmurando um pedido de desculpas. — Olá, Aster — disse Foley. Seu tom de voz era tão condescendente como tinha sido no outro dia na estação. Alguém tocou o cotovelo de Aster, e ela virou-se mais uma vez, sentindose arrastada em muitas direções. Desta vez, Rowan estava atrás dela, parecendo feminina e suave em um vestido cinza claro. Aster congelou, vendo a expressão de


pânico no rosto de Rowan. — O que foi? — Ela sabia que Evan estava em algum lugar. Talvez James também. Se eles fizeram mais alguma coisa para magoar Rowan... — Não faça uma cena, mas nós temos um incidente na praia — Rowan murmurou entre dentes, apontando com o queixo em direção às grandes janelas na parte de trás da casa. — Corinne entrou no mar. — O que você quer dizer com entrou no mar? — Aster espiou por cima do ombro. Mitch estava ouvindo, seu rosto cheio de preocupação. Aster sentiu uma pontada momentânea de gratidão por ele ser um cara tão bom, e saber que ele não iria postar isso no Abençoados e Amaldiçoados como a maioria das pessoas fariam. — Ela simplesmente está lá de pé, na água, quase nua — Rowan balbuciou. — Lá fora, onde qualquer um pode ver. O que está acontecendo? Aster estremeceu. Ela sabia exatamente o que estava acontecendo. — Eu vou resolver isso — Aster prometeu a Rowan. — Você vai buscar Corinne. — Então ela pegou a mão de Mitch e disparou contra a multidão. — E você vai me ajudar. — A sua irmã está bem? — perguntou Mitch, tropeçando para acompanhar Aster. Aster correu, passando por uma mesa de canapés. — Minha irmã está um pouco insegura sobre se casar — ela sussurrou. Ela correu para Evan, que estava na frente da sala, falando com alguns convidados. Aster queria manter um olhar complacente no rosto, mas ela estava mesmo morrendo de vontade de estapeá-la para tirar aquele olhar presumido da cara dela. James já esteve com toneladas de mulheres, ela estava morrendo de vontade de dizer. Você não é nada especial. Evan olhou e levantou uma sobrancelha para Aster. — Por que não propomos um brinde — a Poppy? — Aster sugeriu. As sobrancelhas de Evan franziram. — Isso não parece adequado. — Pelo contrário — disse Aster, se esticando em cima de seus 1,75 m de altura, — é totalmente apropriado. Poppy deveria ser a dama de honra esta noite. Ela merece ser lembrada. — Vendo a hesitação de Evan, Aster a pressionou. Ela imaginou Rowan persuadindo Corinne perto da água. — Vamos lá. Vamos reunir todos aqui. Evan apertou os lábios juntos, então deu de ombros. — Acho que todo mundo está ficando um pouco inquieto. — Obrigada. — Aster sorriu docemente. Ela tilintou uma colher contra um copo de vidro, e os convidados se acalmaram. — Eu gostaria de propor um brinde — ela disse. — O primeiro é para a minha linda prima Poppy, que perdemos há pouco tempo. Alguém gostaria de dizer algumas palavras? — Ela ficou surpresa quando a primeira pessoa a se aproximar da frente foi seu pai. Mason pigarreou, então olhou para a multidão.


— Como vocês sabem, a nossa família sofreu algumas tragédias recentemente. — Ele tossiu e girou seu uísque. — As tragédias abalaram a todos nós. Eu não falei no memorial de Poppy, principalmente porque eu não sabia como falar. E embora eu não queira estragar a celebração deste fim de semana com a tragédia de sua morte, eu quero dizer o quão devastado todos estamos por tê-la perdido. Não é suficiente dizer que Poppy foi embora antes do tempo. Não é suficiente dizer que sinto falta dela, tampouco. Há um buraco enorme em nossas vidas, que nunca será reparado. A única coisa que me manteve são desde que a perdi é a minha linda família — minha esposa, Penelope, e minhas duas filhas preciosas, Corinne e Aster. — Ele olhou para Aster, e em seguida, para sua mãe. — Eu amo vocês garotas, com todo o meu coração. Um suspiro se elevou por toda a multidão. Aster piscou, chocada. Ela nunca tinha visto seu pai mostrar tanta emoção. Lágrimas corriam nos cantos dos seus olhos. Mason respirou fundo. — Eu espero que haja justiça neste mundo — disse ele, olhando para o seu público, agora extasiado. — Poppy não merecia o destino que teve. E eu quero ter certeza de que ninguém mais passará por isso. Então, eu quero fazer um brinde a Poppy e a minha outra sobrinha linda, Natasha SaybrookDavis, cujos pais viajaram até aqui, mesmo com sua filha ainda no hospital. A Poppy e Natasha. Ele ergueu a taça, e todo mundo copiou. Tinidos soaram por toda a sala. Aster olhou para Mitch e tocou seu copo no dele. Ele balançou a cabeça em descrença. — O FBI ainda não descobriu nada? Aster olhou para Foley, que estava nas sombras, bebendo água com gás. — Eu acho que não — ela murmurou. — É uma loucura, dado o número de varreduras que fazem e o nível de segurança daquele prédio — ele continuou. — Quero dizer, eu tenho medo de roubar um lápis do almoxarifado, há tantas câmeras em mim. Aster assentiu, pensativa. — Eu pensei que eles teriam pego alguma coisa também, embora eu acho que o escritório de Poppy é um pouco fora da faixa de onde as câmeras estão. E eles disseram que a fita de vigilância do lobby não mostrou nada suspeito. Mas não é como se o assassino tivesse aparecido de repente dentro do escritório. Ele ou ela tem que estar em algum lugar. Mitch olhou para ela com curiosidade. — Você acabou de fazer uma referência a Harry Potter? — Talvez. — Ela encolheu os ombros, sentindo uma vibração em seu estômago que ela ignorou. — Eu só gostaria de poder ver a fita de vigilância. Talvez ela perdeu alguma coisa. — Ela apontou um polegar em direção à Foley. — Você sabe que há um arquivo de backup, certo? — perguntou Mitch. — Arquivo de backup? — Aster repetiu.


— Há sempre um backup na nuvem — explicou Mitch. — Dessa forma, se algo acontecer com o servidor, há uma rede de segurança. Em teoria, você pode olhar isso. A respiração de Aster ficou mais rápida. — Eu poderia? Como? Mitch bebeu o resto de sua bebida e colocou na bandeja de um garçom que passava. — Não é difícil. Quer dizer, eu provavelmente poderia acessar os arquivos através do servidor. — Sério? — perguntou Aster. — É claro — disse Mitch, sem hesitação. — Meu laptop não está aqui, no entanto. Está no meu hotel. — Você pode fazer isso agora? Mitch balançou as chaves no seu bolso, parecendo devastado. — O único problema é que, se eu for agora, eu provavelmente vou perder o resto do jantar. — Isso é mais importante — disse Aster rapidamente. — Quero dizer, se você não se importar, isso é... — Claro que eu não me importo. — Mitch arrastou os pés. — E, eu quero dizer, se você decidir voltar para a cidade, com a sua amiga, está tudo bem também. Para ver Nigel. Aster fitou-o por alguns instantes antes de perceber que ele estava falando de Clarissa, e seu pedido por um jato para voltar a Manhattan naquela noite. Não muito tempo atrás, era exatamente o que Aster teria feito: farras num loft seriam muito mais divertidas do que o jantar. Mas agora ela não podia nem pensar em fazer isso com Corinne — ou com qualquer outra pessoa da sua família. Ela não queria mais Nigel ou qualquer um dos outros caras de fala mansa dessas festas que se gabavam por ficar com uma herdeira Saybrook. Ela queria que aquele nerd alto e adorável na frente dela, com os seus torneios de World of Warcraft e o seu olhar dolorosamente esperançoso em seus olhos castanhos. Ela olhou ao redor da sala. Clarissa estava de pé perto das portas francesas que levavam ao pátio; quando ela notou Aster olhando, ela acenou. Em vez de acenar de volta, Aster deslizou sua mão nas de Mitch. E então ela o puxou ainda mais perto, envolveu seu outro braço em volta de sua cintura, e o beijou. Mitch hesitou por um momento, depois abriu a boca para beijá-la de volta. Aster inclinou-se para o beijo, envolvendo ambas as mãos em torno de sua cintura e brincando com a bainha de sua camisa. No último instante Mitch se afastou, soltando suavemente seus braços ao redor dele. — Tudo bem — disse ele, sua respiração um pouco irregular. — O que foi isso? — Por ser você — disse Aster. Ela enfiou a mão no bolso, pegou as chaves e entregou a ele. — Agora vai. Eu prometo que vou estar esperando quando você voltar.


Mitch assentiu, com um olhar sonhador ainda em seu rosto, e passou através da multidão para a porta da frente. Aster se encostou na parede, ouvindo mais brindes. Ela podia sentir o olhar de Clarissa sobre ela, mas pela primeira vez ela não se importava com o que Clarissa pensava. Seus pensamentos estavam em outro lugar. Em Mitch... e naquele arquivo. O assassinato de Poppy poderia finalmente ser resolvido — naquela noite.


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o momento em que Rowan chegou no mar, Corinne já havia saído da água e estava sentada na praia. — Olá — disse ela agradavelmente para Rowan enquanto ela ia ao seu encontro. — Você está bem? — Rowan gritou, entregando-lhe uma toalha de praia. Corinne envolveu a toalha ao redor de seu corpo e roboticamente secou suas pernas. Seu cabelo e maquiagem ainda estavam impecáveis. — Eu só precisava de um momento. Mas eu estou bem agora. Ela recolheu seu vestido da areia, caminhou para dentro da casa, e subiu as escadas de volta para seu quarto. Rowan a seguiu nervosamente. — Isso é por causa de Will? — ela perguntou. — Ou de Dixon? Porque ainda há tempo, Corinne. Você não tem que seguir em frente com isso. Corinne se inclinou sobre a mala e pegou um novo sutiã e calcinha. Ela abotoou de volta o vestido que ela estava usando antes, um sorriso estranho aparecendo em seu rosto. — Eu disse que estou bem. Ela manteve o sorriso em seu rosto enquanto ela dava um ajuste final em seu cabelo e descia as escadas para a festa. A sala cheirava a uma mistura de charutos, sal do mar e suflê de lagosta. — Finalmente! — Rowan ouviu Mason dizendo abaixo, e todo mundo explodiu em aplausos. Corinne passou através do grupo, beijando as bochechas e apertando as mãos, tomando um momento extra para dar a sua avó um grande abraço. Então ela foi em direção à Dixon, que estava sentado em uma mesa com os pais. Ele se levantou para cumprimentá-la, e ela deu-lhe um beijo longo e apaixonado na boca. Todo mundo gritou. Rowan permaneceu nas escadas, sem saber da decisão de sua prima. Corinne estava tentando provar alguma coisa? E a quem — a todos os outros, ou a si mesma? — Por que você demorou tanto? — Rowan ouviu Dixon provocar Corinne quando ele se inclinou para outro beijo rápido. Corinne sorriu timidamente. — A noiva precisa de tempo para ficar perfeita para o seu marido. Rowan engoliu o nó em sua garganta e olhou ao redor do resto da sala, analisando os rostos. As amigas de Corinne de Yale estavam sentadas em uma


mesa, algumas delas com crianças pequenas. Outro grupo de crianças brincava com os navios em garrafas do Vovô Alfred, que estavam alinhadas em uma prateleira perto das janelas. Tia Grace estava perto dos canapés com o pai de Natasha, Patrick. Tio Jonathan — Corinne teve de convidá-lo por razões de negócios — estava no lado oposto da sala, deliberadamente evitando o contato com sua ex-esposa. Os filhos de Grace e Jonathan, Winston e Sullivan, estavam conversando com alguns amigos de Dixon, tentando beber alguns goles de uísque. Os irmãos de Rowan, que tinham voado na noite passada, brincavam com seus pais junto à lareira. Um bando de primos de segundo grau estavam perto das janelas do chão ao teto, que davam para a praia. Edith gargalhou alto de algo que Mason disse. Rowan viu Danielle Gilchrist e seu namorado, Brett, apertando a mão de Corinne e desejando-lhe tudo de bom. Em seguida, ela viu uma menina de vestido listrado vir na direção de Rowan, a faixa cor-de-rosa do vestido dela balançando atrás. — Tia Rowan! — ela gritou, correndo para as pernas de Rowan. Skylar olhou para Rowan, com grandes olhos azuis. — Onde você esteve? Sinto saudades de você! — Oh, querida, eu sinto sua falta também — disse Rowan, curvando-se para abraçá-la. — Você está linda! — Então, ela sentiu alguém chegando atrás de Skylar, e se levantou. E ali, com as mãos enfiadas nos bolsos, estava James. A garganta de Rowan apertou. Ela deu um tapinha na cabeça de Skylar rapidamente, e depois se afastou. — Uh, eu tenho que ir fazer uma coisa para sua tia Corinne, querida. Eu volto logo, ok? — Ok! — disse Skylar, correndo em direção à Aster. Rowan caminhou por um longo corredor em direção à parte de trás da casa e abriu a porta para a varanda, com vista para o mar. Ela cambaleou até a grade e segurou-a firmemente, respirando profundamente. Isso não importa, ela tentou dizer a si mesma. Mas importava sim. Não muito tempo atrás, ela e James deveriam ter chegado neste casamento juntos. Eles discutiram como eles iriam explicar à família que estavam juntos, que eles estavam levando as coisas devagar, para não confundir suas filhas ou denegrir o que o casamento de James e Poppy tinha sido. Que idiota ela tinha sido. A porta rangeu, em seguida, bateu. Rowan sabia que James estava ali, sem nem mesmo ter que olhar. Seus passos se aproximavam, e, em seguida, lá estava ele, de pé no parapeito ao lado dela. — Por favor, vá embora — disse ela, em voz baixa. — Rowan. — A voz de James fraquejou. — Eu sinto muito. Eu sei que eu fui um louco no outro dia. Desde que Poppy morreu... eu estive meio maluco. Rowan ficou ali em silêncio, abraçando apertado o próprio corpo. James bebeu seu coquetel com aroma de gengibre. — Se você está se perguntando sobre Evan, eu ainda nem falei com ela a noite toda.


— Eu não estava pensando em Evan. — Rowan olhou para o mar cinza à distância. — Para ser honesta, James, eu estava pensando em você. Ela virou-se e olhou para seus olhos injetados de sangue, seu rosto abatido e o quão magro ele estava. — Foley me contou sobre seu álibi, na manhã em que Poppy morreu. Você saiu da minha casa para se encontrar com uma mulher chamada Amelia Morrow. Ela é mais uma das amigas de Poppy, não é? A pele de James empalideceu. Ele olhou para baixo. — Sim. — Poppy sabia sobre ela? Seus ombros caíram. — Eu não sei. Talvez. Provavelmente. Ela levou as mãos ao rosto. — Você fez isso com ela... muitas vezes? James riu amargamente. — Você realmente quer saber? — Por que, James? — gritou Rowan. — O que há de errado com você? Suas mãos se atrapalharam com sua bebida. Ele virou o copo, mesmo que o copo já estivesse vazio. — Você me conhece. É realmente difícil dizer não a alguém no bar no final da noite. Ou no trabalho. Ou em uma viagem de negócios. Eu sempre fui assim. Eu simplesmente não posso fazer nada. Calor subiu para o rosto de Rowan. — Você tem o livre arbítrio, você sabe. Você pode controlar a si mesmo se você realmente quiser. Se alguém importar o suficiente. — Ela fechou os olhos. — Então eu fui apenas uma garota no bar também? E Poppy? — Não — disse James enfaticamente. Parecia que ele estava prestes a pegar a mão de Rowan, mas depois ele pensou melhor. — Foi real com você. Era sempre verdadeiro com você. E foi real com Poppy. — Ele respirou fundo. — Eu não merecia Poppy. E eu não mereço você, também. — Você está certo — disse Rowan rigidamente, dobrando em seus ombros. — Você não merece. Ela respirou fundo, sentindo-se desmoronar. Ela deveria odiá-lo, mas em vez disso ela só se sentia... vazia. Ela se agarrou a uma fantasia do homem que ela acreditava que James era — um mulherengo que tinha mudado quando conheceu a mulher certa — e perder isso foi tão doloroso como perder o próprio James. Ela virou a cabeça em direção às nuvens rosadas no céu, com uma certeza dentro dela: Poppy sabia que James a traía. E ela ficou com ele de qualquer maneira. Foi a descoberta mais chocante que Rowan tinha feito nas últimas semanas, de alguma forma ainda mais chocante do que o pensamento de que Poppy poderia ter matado Steven Barnett. Poppy era o tipo de mulher que vivia propositadamente. Ela estava em completo controle — e ela sempre tinha estado. Por que ela iria ficar com um homem que a traía várias vezes? Ela poderia ter tido qualquer pessoa no mundo, e ainda assim Poppy tinha olhado para o outro lado. E se ela achava que ela merecia isso? Foi por isso que ela não tinha confiado em Rowan ou nas outras? Foi por isso que ela fingiu ter um casamento perfeito? De repente, Rowan sentiu-se


estrangulada por todas as mentiras. Corinne e seu sorriso falso quando ela beijou o noivo que ela não ama verdadeiramente. Mason e Danielle com o seu caso secreto. E Rowan certamente não podia retirar-se dessa contagem. E o que dizer de Poppy? Quem tinha sido ela realmente? Será que Rowan saberia? Espontaneamente, uma memória flutuou à tona em sua mente. Na festa de fim de verão, quando Steven morreu, a banda tocou “Nothing Compares 2 U,” a música que Poppy sempre amou. Ela correu para James e passou os braços ao redor dele, aninhando em seu ombro. Eles balançaram durante a música inteira, abraçando-se apertado. Rowan tinha ficado num canto, a inveja pulsando dentro dela como um segundo coração. Um soluço tinha escapado de seus lábios, e ela olhou ao redor, esperando que ninguém tivesse visto. Só Danielle Gilchrist estava por perto. Ela estava bonita e de faces rosadas naquela noite, e quando ela viu a expressão de Rowan, ela entregou a Rowan seu copo cheio de vinho. — Não é justo, não é? — Danielle disse baixinho, com um sorriso triste. — Tudo cai dos céus para ela, enquanto o resto de nós tem que lutar. Rowan assentiu. Ela estava com tanto ciúmes de Poppy naquele momento. Sua prima fazia as coisas parecem tão... sem esforço. Rowan teria matado por apenas um pouco daquela graça. Por um pouco dessa sorte. Mas era real a vida perfeita e sem esforço de Poppy? Ou era apenas uma ilusão que ela cuidadosamente cultivou e manteve? James suspirou ao seu lado, e Rowan olhou para ele. — Então isso significa que não há mais jeito entre você e eu... — Ele parou de falar, as sobrancelhas levantadas. Havia um olhar tímido, mas esperançoso em seus olhos. — Eu vou tentar mudar, Rowan. Vou tentar tão duro quanto eu puder. Rowan queria acreditar nele. Mas James tinha dito por ele mesmo: ele era quem ele era, e ele não podia mudar a si mesmo. Ela via isso agora. Ela poderia perdoar e, em seguida, fingir que não era nada quando ela descobrisse batom manchado em seu colarinho ou uma mensagem suspeita em seu telefone. Talvez foi isso o que Poppy tinha feito. Mas Rowan não era Poppy. Ela tinha uma escolha, e ela não queria fingir. Ela tocou o topo da sua mão. — Sinto muito, James — ela disse suavemente. — Mas eu acho que eu vou ter que deixá-lo ir. E então, só assim, ela finalmente se foi.


28 Traduzido por Ivana

O

solário da casa de Meriweather sempre tinha sido o lugar favorito de Corinne para passar o tempo, provavelmente porque o lugar foi utilizado principalmente por seus pais. Edith reclamava que cheirava a mofo e sal e estava cheio de bichos, mas Corinne adorava. Isso a lembrava das longas noites nos sofás de vime antigo ligeiramente úmidos, as velas de citronela acesas por toda parte, os diversos balanços e cadeiras rangendo, e os sons barulhentos das ondas em seus ouvidos. Ela e suas primas costumavam contar seus segredos naquele cômodo pequeno e úmido — sobre meninos, brigas com os pais, seus sonhos. Naquela época, seus futuros pareciam tão ilimitados quanto suas fortunas. É estranho pensar nisso agora, Corinne pensou enquanto ela estava deitada no balanço da varanda tarde da noite, com a cabeça no ombro de Rowan. Através dos anos, ela se fechou, pouco a pouco. Agora era como se alguém estivesse colocando uma tampa na caixa definitivamente. — Foi realmente um bom jantar de ensaio — disse Aster, que havia colocado calças de ioga e uma camiseta comprida e gasta. — Grande banda. — Sim, todo mundo passou um bom tempo dançando — disse Corinne levemente. — Especialmente as crianças. — Sky parecia realmente feliz — disse Rowan. A menina tinha ficado na pista de dança a noite toda, finalmente dormindo no ombro de James enquanto ele a levava para cima. Todo mundo tinha sorrido ao ver Skylar feliz, mas ainda havia uma tristeza lá também. Ela não tinha mais os pais de Poppy. Ela já não tinha uma mãe. E o que dizer de um pai? James estava aqui esta noite, mas ele parecia totalmente vago. — Os homens são uns idiotas — Aster murmurou, como se estivesse lendo seus pensamentos. Corinne queria concordar, mas tudo o que ela sentia era tristeza. Dixon não era um idiota. Will não era um idiota. Mas as coisas eram assim. Ela iria se casar amanhã. Qualquer outra coisa seria demais. Muito difícil. Ela sentiu como se estivesse olhando para uma estrada longa e reta; sem reviravoltas, sem curvas inesperadas. Ela perguntou-se como algo poderia trazer alívio e pesar ao mesmo tempo.


O telefone de Aster tocou, um som rangente contra o bater suave das ondas e dos grilos cantarolando. Ela sentou-se e olhou para a tela. — Eu já volto — ela sussurrou. A porta bateu, e seus passos rangeram através do piso de madeira para a frente da casa. Corinne olhou para o lugar, que tinha uma equipe de limpeza limpando tudo após o jantar de ensaio. Nem uma única taça permaneceu sobre qualquer mesa lateral; o chão tinha sido varrido e as mesas de jantar e cadeiras foram retiradas e dobradas para serem reutilizadas amanhã, na tenda do lado de fora. A única indicação de que haveria um casamento no dia seguinte era uma coleção de fotos com moldura de prata de Corinne e Dixon sobre a lareira. Amanhã, essas imagens cumprimentariam os convidados enquanto eles caminhassem para o quintal. Corinne mal lembrava das fotos que ela e suas primas tinham escolhido. Ela caminhou até lá para olhar para elas, carregando as fotos de volta ao solário. A maior delas era dela e de Dixon em New Haven, em seu primeiro ano em Yale. Ela estava nas costas de Dixon, as pernas abertas para fora, brincando. Dixon tinha acabado de dar uma entrevista para a sociedade secreta Skull and Bones, Corinne lembrou, e ele tinha ficado emocionado porque os caras que o tinham entrevistado haviam deixado claro que ele era um dos favoritos para se juntar ao grupo. Ambos estavam radiantes. Corinne não se lembrava de ser tão feliz. Outra, no canto esquerdo, foi tirada em uma festa no quintal desta casa com vista para o mar. Haviam fotos individuais deles — uma foto de Corinne bebê em um vestido de algodão, uma de Dixon em um cavalo, Corinne novamente no pátio em mais uma festa, com o olhar fixo em algo fora de vista. Corinne olhou para aquela foto em especial, reconhecendo o vestido floral Lilly Pulitzer que ela usava. Ela tinha usado esse vestido apenas uma vez: na noite que ela descobriu que estava grávida. Corinne era a única pessoa em foco; um enxame de outros convidados da festa passava em torno dela em segundo plano. Mason conversava com Penelope. Steven, embaçado, inclinava a cabeça para trás e ria. Uma garçonete loira servia uma bebida em uma bandeja com o braço estendido. Um casal se beijava em segundo plano. Ela mostrou para Rowan. — Quem escolheu essa foto? Rowan olhou duramente. — Não sei. Por quê? — É da noite que Steven morreu — Corinne apontou. — Hmm. — Rowan pensou por um longo tempo. — Bem, você certamente parece feliz. As aparências enganam, Corinne pensou. Especialmente naquela noite.


Os passos de Aster se aproximavam, e então ela apareceu na porta. Seu rosto estava vermelho, ela estava respirando com dificuldade, e ela carregava um iPad na mão direita. — Eu tenho algo para mostrar a vocês. Ela entrou na varanda e sentou-se. — Então, o meu acompanhante, Mitch, conseguiu acessar o vídeo de vigilância da manhã em que Poppy morreu. Está nisso aqui agora. Rowan enxugou os olhos. — Espera. Foley disse que o vídeo não deu em nada. Aster deu de ombros. — E daí? Talvez Foley não soubesse o que procurar. — Ela olhou para elas. — E se isso nos mostrar tudo? Corinne inclinou para frente, com o coração de repente batendo com a possibilidade. — Abra! — Vai logo. — Rowan sentou. Aster colocou o iPad em uma mesa de café de vime, em seguida, tocou um ícone de um aplicativo rotulado Câmera Remota. Um vídeo no QuickTime apareceu. Um relógio no canto inferior direito da tela dizia que o vídeo era de 6:30 da manhã de sexta-feira, 6 de maio — a data da morte de Poppy. A tela era dividida em quatro imagens de câmera separadas, cada uma de um ponto de vista diferente do edifício Saybrook. Uma delas era de uma porta lateral que ia direto para um elevador. Outra dava em uma entrada lateral da rua para os trabalhadores da manutenção. A terceira dava para a entrada principal, onde os funcionários passavam suas identificações através de uma catraca ou registravam-se com um guarda. O quarto quadrante era um conjunto de escadas de emergência que levavam para a rua. Elas continuaram assistindo, a imagem em preto e branco e, ocasionalmente, tremendo com a estática. Em alguns momentos, elas viram Poppy caminhando pela entrada principal. Todo mundo pulou. Corinne colocou a mão sobre sua boca. Era como ver um fantasma. Poppy deu à segurança um olhar distraído e entrou pela catraca. Corinne tocou o rosto de Poppy na tela. Rowan se inclinou para frente. — Ela parece... bem. — Sua voz estava embargada. — Ocupada — Aster concordou. Havia lágrimas em seus olhos. — Mas não assustada. — Ela não sabia que iria morrer — Corinne sussurrou. Poppy entrou no elevador, apertou o botão para o seu andar, e desapareceu através das portas. Corinne engoliu em seco. Lá vai ela, ela pensou. Poppy nunca mais desceria por esse elevador. Ela recostou-se para assistir, com o coração ainda batendo acelerado. Rowan agarrou seus joelhos. Aster não piscou. Ninguém passou pelo saguão por um tempo, embora um funcionário da manutenção entrasse pela entrada lateral e


algumas mulheres de aparência despretensiosa apertavam o botão para baixo no elevador lateral para o refeitório do porão. O pai de Corinne e Aster apareceram no vídeo que mostrava a entrada principal. Algumas outras pessoas que Corinne não reconheceu passaram também, mas eles eram empregados de outras empresas no prédio, indo para a outra margem do elevador. Uma mulher parou na porta do elevador, também pressionando o botão para baixo para o refeitório. Finalmente uma outra mulher entrou. Mesmo que a imagem fosse em preto e branco, Corinne reconheceu o perfil de Danielle Gilchrist e aquele vestido brega. — Danielle chegou cedo no trabalho — ela comentou, observando enquanto o elevador apitava e Danielle entrava nele. — Puxa saco — Aster murmurou. — Oh meu Deus — disse Rowan. Ela estava apontando para algo na entrada principal. Outro rosto familiar passou, mas a princípio Corinne não conseguiu reconhecer. Então, algo em seu cérebro captou algo — essa pessoa não deveria estar no edifício. Ainda não, de qualquer maneira. — Essa é... — Rowan apontou um dedo trêmulo para a tela. — Acho que sim — Aster sussurrou. Corinne parou a fita e deslizou seu dedo ao longo da barra de tempo, rebobinando para que ela pudesse olhar de novo. A figura empurrou as portas giratórias e assentiu para o guarda de segurança. O guarda pareceu confuso, mas então ele se distraiu com outro cliente entrando, e a mulher entrou, sem dar baixa na entrada. Corinne se inclinou para perto, com o coração batendo forte. Todos os tipos de alarmes soaram em sua cabeça. Era quem ela pensava que era, certo. Uma jovem de cabelos claros em um terninho com saia preta. Boca reta. Testa franzida. Sua postura rígida de mulher de negócios, determinação de aço. Era Katherine Foley. Corinne se recostou, manchas formando na frente de seus olhos. — Eu não entendo. Mas então algo estalou nela. Ela pegou de Rowan a foto dela, da noite que Steven morreu. Ela se concentrou em duas das figuras no fundo, ambas um pouco fora de foco. Uma delas era Steven Barnett. Seu rosto estava de perfil, a mão estendida para aceitar uma bebida de uma garçonete loira. Agora que ela olhava mais de perto, havia um olhar secreto e conspiratório entre Steven e a garçonete; um pequeno momento compartilhado que ninguém mais viu. Corinne tinha acabado de ver o mesmo cabelo loiro. — O que foi? — perguntou Rowan, se levantando. Corinne correu e acendeu a luz. A sala se encheu com fluorescência, e todas apertaram os olhos. — Olhem — ela gritou, colocando a imagem na mesa ao lado do iPad.


Ela comparou a imagem borrada na foto com o rosto congelado na tela do iPad. Os rostos eram os mesmos. — Oh meu Deus — Aster sussurrou. E Rowan afundou de volta na cadeira. Katherine Foley tinha estado em Meriweather antes. Ela estava lá na noite em que Steven foi morto. E ela estava lá na manhã que Poppy morreu. Talvez elas estivessem procurando nos lugares errados. Talvez Katherine tenha estado no foco o tempo todo.


29 Traduzido por Matheus Martins

A

s primas ficaram em silêncio pelo que pareceu eras. A respiração de Rowan tremia quando ela inspirava e expirava. O peso do que elas tinham acabado de descobrir lentamente entrou em suas cabeças. Ela olhou novamente para as duas imagens, uma da câmera de vigilância e uma da festa cinco anos atrás, servindo a Steven Barnett uma bebida. Sorrindo para Steven Barnett, como se compartilhassem um segredo. — Foley esteve naquela festa — Corinne sussurrou, caindo para trás no assento. — Ela nos conhecia. — Ela nunca deixou transparecer o que ela fez, no entanto — Rowan murmurou. — Por quê? Aster ficou de pé, olhando para a foto de Katherine da festa novamente. — Elizabeth me disse que Steven Barnett tinha uma coisa com as meninas em torno da cidade. Ela ainda disse que havia uma garota em particular, com cabelos loiros. — Ela apontou para o rosto de Katherine Foley. — Olhe para o jeito que eles estão olhando para o outro. Corinne passeou ao redor da sala rapidamente como um brinquedo de corda enrolado com muita força. — Talvez Katherine estivesse apaixonada por Steven? — É possível, não é? — disse Aster. — Talvez ela tenha ficado devastada quando ele morreu — mas talvez ela não saiba quem fez isso. Talvez ela de alguma forma descobriu recentemente que tinha sido Poppy... e ela teve sua vingança. Rowan balançou a cabeça lentamente. — E pegou esse caso para que ela pudesse controlá-lo. Quando ela disse que a fita de vigilância não mostrara nenhum suspeito, nós acreditamos nela sem questioná-la, porque ela é do FBI. Mas ela convenientemente deixou de fora o fato de que ela estava nisso. Aster colocou a mão sobre sua boca. — E pensem na rapidez com que ela chegou ao hospital na noite da nossa queda. E se ela estava na casa? E se ela nos ouviu falar sobre Steven e estava preocupada que estávamos chegando muito perto da verdade? — E lembram o quão estranha Foley ficou depois que mencionamos que Poppy tinha matado Steven? — acrescentou Rowan.


— Ela poderia ter grampeado a casa — e invadido nossas casas — Corinne sussurrou, com os olhos arregalados. — Ela teve acesso a Saybrook, Rowan. Você acha que ela roubou o vídeo do seu computador? — Talvez — disse Rowan, de repente pensando no cursor se movendo em seu computador de trabalho. — Ou ela pode ter encontrado uma maneira de acessar remotamente minha máquina. — Mas eu não entendo por que — Aster sussurrou, seu olhar deslizando de um lado para o outro. — Não temos nada a ver com a morte de Steven. Rowan inclinou a cabeça. — Não, nós não temos. Mas talvez ela pense que temos. Éramos tão próximas de Poppy. Ela poderia ter pensado que Poppy nos contou tudo. — Ou ela pode estar tentando encobrir o assassinato de Poppy — Corinne sugeriu. — Colocando a culpa em outra pessoa. Todas trocaram um olhar assustado. Aster saltou de pé. — Temos que contar a alguém. — Quem? — perguntou Corinne. — Não para o FBI — ela é o FBI. Rowan levantou do sofá. — Vamos ao departamento de Boston. Tem que ter alguém acima do posto dela — alguém que nos leve a sério. — Ela colocou seus pés em suas sandálias. — Devíamos ir. Foley pode estar nos ouvindo agora. — Ela olhou para Corinne. — Você pode ficar aqui se quiser. Descansar para amanhã. — Você está brincando? — Corinne colocou um casaco de lã sobre os ombros. — Eu não vou deixar vocês sozinhas nessa. — Ela acendeu uma luz na sala principal e encontrou as chaves do seu SUV. — Vamos. Elas saíram pela porta da frente e entraram na noite fria. O ar estava pesado com o cheiro de água salgada, e a noite estava sem lua e com neblina. A única luz era a da varanda e uma única luz na casa dos empregados. Rowan correu para o SUV na garagem, sentindo que se não saísse dali neste momento, algo terrível pudesse acontecer com elas. Sua cabeça zumbia com o terror do que elas tinham acabado de descobrir. Ela pensou em todas as vezes que ela tinha estado na presença de Foley. Ela tinha estado em seus escritórios, suas casas. Edith tinha até convidado ela para o casamento de Corinne. Rowan abriu a porta do Range Rover e virou para o banco do motorista. Corinne deslizou ao lado dela, enquanto Aster subia na traseira. Mas quando Rowan colocou a chave na ignição e girou-a, nada aconteceu. Franzindo a testa, ela tentou de novo. Ainda nada. — O que há de errado? — Aster sussurrou. — Eu não sei. — Rowan tentou ligar os faróis, mas a garagem permaneceu escura. — Talvez seja a bateria. — Você tem que estar de brincadeira. — As mãos de Aster caíram molemente no colo. Em seguida, seus olhos se arregalaram. — E se ela drenou a bateria de propósito?


Rowan estendeu a mão e trancou as portas, de repente com medo de voltar para casa. — O que vamos fazer? — Sua voz gritou em pânico. — Nós temos que sair daqui! De repente, houve uma batida forte na janela do carro. Todo mundo gritou para a figura sombria quase invisível por trás do vidro fumê. Foley, foi o pensamento singular de Rowan. — Olá? Lágrimas correram pelo rosto de Rowan enquanto ela tentava a ignição novamente e novamente. — Olá? — a voz chamou mais uma vez. — Corinne? Rowan? Aster? Rowan piscou. Sobre o coração batendo forte, de repente ela percebeu que não era a voz de Foley em absoluto. Ela tirou a chave da ignição. — Quem está aí? — É a Julia. — Mãe? — chamou uma voz fora do carro. Houveram passos. — Rowan? — a voz chamou. — É Danielle. Rowan clicou seu telefone no modo lanterna. Duas ruivas entraram na luz. Danielle e Julia Gilchrist. Rowan trocou um olhar com as outras, em seguida, abriu a janela. Danielle estava em uma camiseta, e seu cabelo estava bagunçado com o sono. Julia usava calças de ioga e um moletom Sherpa. Ambas as mulheres olharam para elas preocupadamente. — Vocês estão bem? — perguntou Julia. Rowan sacudiu a cabeça. — N-não. — Nosso carro não quer ligar — Corinne desabafou. — Talvez ele precise de um empurrão? — Danielle ofereceu. — Ou podemos apenas levar vocês para algum lugar — disse Julia, incerta. — Sim, por favor — disse Aster, atirando-se para fora do carro. — Se você não se importar. — É claro. — Julia fez um gesto em direção à casa dos empregados. O Subaru estava pousado sob o pórtico da entrada coberta. — Deixe-me pegar minha bolsa. As outras primas saíram do carro e correram em frente à entrada. Um vento forte bateu contra o rosto de Rowan, e ela ouviu um estrondo ao longe. Enquanto subiam no veículo, faróis apareceram na outra extremidade da garagem. O coração de Rowan apertou. Ela inclinou-se no banco da frente e tocou o ombro de Julia. — Nós temos que sair daqui — disse ela, nervosa. — Agora.


30 Traduzido por Ivana

A

ster se amontoou no banco de trás com suas primas. — Dirija — ela ordenou à Danielle. — Por favor. Danielle deu a Aster um olhar circunspecto, e então ligou o motor. Julia saltou para o banco do passageiro e fechou a porta, enquanto Danielle pisou no acelerador e o carro se impulsionou para frente. O Subaru passou por um outro veículo indo em direção à casa. Aster olhou para a janela da frente, mas ela não conseguiu ver quem estava dirigindo. Alguns dos amigos de Dixon tinham ido a um bar local para celebrar; talvez alguém estivesse trazendo-os de volta? Ou talvez fosse Foley. — Mais rápido — Aster pediu a Danielle. — Ok, ok — disse Danielle. A noite estava calma e silenciosa. Uma névoa ameaçadora e grandes gotas de orvalho cobria tudo. Quando o carro virou para a estrada principal, Danielle olhou para o banco de trás. — Para onde? Aster trocou um olhar preocupado com Corinne e Rowan. Rowan respirou fundo. — Para o aeroporto. Precisamos chegar ao departamento do FBI em Boston. Aster mordeu o lábio, ainda sentindo-se pouco à vontade sobre Danielle se envolvendo em assuntos familiares privados. Mas não era como se elas tivessem muita escolha. Elas precisavam de ajuda agora. Os olhos de Danielle se arregalaram. — É sobre Poppy? Rowan sacudiu a cabeça como se dissesse, Não podemos falar agora. Danielle encarou seu rosto, claramente confusa. — Ok — ela finalmente disse, abaixando os ombros. Aster queria jogar os braços em volta dela para que assim ela obedientemente seguisse suas ordens. Todo mundo ficou em silêncio quando o carro virou para a estrada sinuosa que beirava o mar. Aster tocou sua mão levemente sobre os lábios, pensando no beijo de Mitch. Ela se perguntou se deveria mandar um SMS para ele, para que ele soubesse o que elas tinham encontrado no vídeo de vigilância. Mas agora ela tinha certeza de que Foley estava lendo suas mensagens.


Elas passaram por uma trilha que descia para a areia — o lugar onde Steven levou Aster na noite em que ele morreu, onde ela se vingou de seu pai por ter um caso com sua melhor amiga. Ela olhou para a parte de trás da cabeça de Danielle, de repente sentindo uma nostalgia dos tempos em que ela e Danielle costumavam sair juntas. A última vez que elas tinham conversado, conversado de verdade, havia sido neste ponto exato, na noite em que Steven morreu. Aster tinha permanecido na areia depois que seu pai a empurrou e foi embora, sentindo a necessidade de estar sozinha. Ela esfregou o braço machucado, revoltada com o comportamento de seu pai. Ele nem parecia arrependido do que tinha feito. Era como se Aster e sua mãe não tivessem importância, como se sua família não importasse. Ela tinha ouvido passos nas dunas e olhou para cima, seu coração acelerando. Talvez seu pai tivesse voltado para pedir desculpas. Mas foi outra pessoa que apareceu por entre os juncos. Danielle estava vindo no caminho, com as mãos em seus lados, os olhos abaixados recatadamente. Ela estava usando um vestido de praia listrado e chinelos, os cabelos soltos ao redor do rosto. — Aster — foi tudo o que ela disse no início. — Eu sinto muito. Aster sentiu um surto repentino de raiva e, por dentro, magoada. Ela abraçou os joelhos com força contra o peito e olhou para as ondas. Sente muito pelo quê? ela queria dizer. Por dormir com meu pai, ou pelo fato de que eu descobri? Mason provavelmente tinha ido bater na porta dos Gilchrists e mandou Danielle. O que ele tinha dito a ela? Aster descobriu, talvez. Ela está surtando. Certifique-se de que ela não diga nada. Ele enviou a sua amante para fazer seu trabalho sujo. Aster olhou para sua velha amiga, com os olhos em chamas. — Aster. — A voz de Danielle falhou. — Você não entende, Aster? Você é como uma irmã para mim. Eu não posso te perder. O queixo de Aster vacilou. — É por isso que dói tanto. Danielle deu um passo adiante, mas Aster recuou, jogando as mãos para cima como uma barreira entre elas. — Apenas vá embora — ela sussurrou. Danielle tinha inclinado a cabeça. E então, suspirando profundamente, ela se virou e fez exatamente isso. O carro passou por cima de uma lombada, sacudindo Aster de volta ao presente. Ela piscou para a estrada escura, com aquele nevoeiro intenso na frente delas. Algo incomodava seu cérebro, uma pequena farpa que ela não conseguia entender. Ela olhou para o rabo de cavalo vermelho brilhante de Danielle no assento em frente a ela, pensando. E então ela se lembrou. Durante a sua orientação, Danielle disse que ela não tinha estado no trabalho na manhã em que Poppy tinha morrido. Intoxicação alimentar, ela alegou. Mas agora, dado o que elas tinham visto na fita de segurança, isso não fazia sentido.


As palmas das mãos de Aster começaram a coçar. Ela se inclinou para a frente entre os assentos. — Hum, Danielle? Você disse que estava em casa doente quando Poppy morreu? Danielle inclinou a cabeça, seu olhar ainda na estrada. — Isso mesmo. Eu comi um sushi ruim na noite anterior. — Quanto tempo você esteve doente? Danielle encontrou os olhos de Aster no espelho retrovisor. — Cerca de um dia, talvez dois. — Você tem certeza disso? Corinne se moveu de lado. Rowan olhou para Aster, mas Aster manteve o olhar fixo no espelho retrovisor, esperando por Danielle. — É que nós vimos você no vídeo de vigilância na manhã em que Poppy foi morta — disse Aster com cuidado. Danielle desacelerou o carro ligeiramente. — Isso é impossível. Não era eu. — Era você — Aster insistiu. Seu coração estava batendo três vezes mais rápido. — Era o seu cabelo, seu vestido. Eu tenho certeza disso. — Eu estava em casa, doente — ela insistiu. Danielle olhou para as mulheres no banco de trás, em seguida, para Julia. A cabeça de Aster parecia querer se dividir em dois. Todas as peças começaram a se encaixar de uma vez, peças que não tinham nada a ver com Katherine Foley. Danielle sabia de Meriweather; ela certamente poderia ter uma chave para a propriedade. Trabalhando no RH, ela tinha rédea solta no edifício, e acesso a todos os tipos de informações pessoais dos funcionários. Ela poderia ter simplesmente batido na porta de Poppy naquela manhã, e Poppy teria deixado ela entrar, pensando que ela tinha alguma pergunta inocente. E, em seguida... Mas por quê? Porque Aster tinha rejeitado ela? Porque, talvez, Mason tinha rejeitado ela? Não era o suficiente que eles tinham estado juntos em primeiro lugar? Não era o suficiente para Danielle ter conseguido um emprego além desse affair? — Sério, eu não estava nem perto do escritório — disse Danielle novamente. Corinne olhou interrogativamente para Aster. Aster fechou os olhos. Ela parecia estar sendo sincera. Aster não tinha ideia do que acreditar. Ela olhou pela janela para o céu da noite enevoado, e um arrepio subiu pela sua espinha. Elas estavam na ponte para sair da cidade — a mesma ponte onde elas haviam tido o acidente há algumas semanas. A ponte onde elas tinham quase morrido. — Pare o carro — ela ordenou. — Pare agora. Danielle pisou no freio. O carro derrapou. Todo mundo gritou quando elas cambalearam para a esquerda. O carro deslizou quase até a borda da ponte, mas os freios finalmente funcionaram, e elas pararam de se mover. Por um


momento, tudo ficou em silêncio. Então Aster puxou a maçaneta da porta, desesperada para dar o fora daquele carro e ficar longe de Danielle. Mas de repente ela sentiu que tudo estava errado. Algo ruim estava para acontecer. — Não tão rápido — disse uma voz. Aster congelou, com a porta entreaberta, e virou-se para olhar dentro do veículo. Havia um clarão vindo do banco da frente, um brilho de prata piscando na luz do teto. Aster engasgou — era uma arma. Porém, não era Danielle que a segurava. Era Julia. — Mãe! — Danielle ficou boquiaberta com a arma. — O que você está fazendo? — Todas, por favor. Saiam. Do. Carro — Julia disse muito lentamente. Danielle se atrapalhou com a maçaneta da porta e tremulamente saltou para fora do veículo. Aster não se lembrava realmente de se mover para algum lado, mas ela deve ter feito, porque a próxima coisa que ela notou, era que ela, Corinne e Rowan estavam fora, na ponte. Um trovão estourou com força no céu, e o céu ficou escuro como breu. Aster apetou seu bolso, buscando um telefone, apenas para perceber que ela tinha deixado no carro. Julia deu um passo adiante, apontando a arma para as três mulheres Saybrook. — Contra a amurada, vocês três. Agora. Danielle, você vem aqui comigo. O rosto de Danielle estava pálido. — Mãe. Eu não entendo. — Ela deu um passo em direção à sua mãe. — Isso é por causa do que Aster estava me perguntando sobre a fita de vigilância? Eu não estava lá. Eu não matei Poppy. Eu juro. — Por favor, Julia — Rowan tentou, usando sua voz mais calma. — O que está acontecendo? — Todos esses anos, e vocês ainda não sabem? — Julia desafiou, apontando para Danielle. Ela olhou para Aster. — Nem mesmo você? Você não tem ideia de quem Danielle é para a sua família? Aster olhou para a arma, em seguida, para o rosto de Danielle. O lábio inferior de sua velha amiga estava tremendo. Danielle era a amante do meu pai, ela queria dizer, mas de repente ela não tinha certeza se essa era a resposta certa. Você é como uma irmã para mim. Eu não posso te perder. As palavras se repetiram na mente de Aster. Ela olhou para cima e encontrou os olhos de Danielle — os olhos azuis brilhantes, tão parecidos com os de Aster. Elas adoravam isso; era um bônus para atuarem como irmãs nas conversas nos bares. Ela lembrou o dia em que ela pegou Mason e Danielle juntos. A forma como ele a segurava... ele estava tão terno e amoroso. E então tinha havido aquele olhar mais cedo, naquele dia na costa — o jeito que ele olhou para Danielle com uma intensidade quase feroz. Mas era sexual? De repente Aster já não tinha certeza. Agora que ela pensava nisso, ela percebia que era quase a mesma


aparência que ele tinha em seu rosto hoje à noite, quando ele mencionou sua família no discurso sobre Poppy. Uma expressão cheia de amor, sim; mas também de proteção, e um pouco de arrependimento. — Você nunca teve um caso com o meu pai, não é? — disse ela lentamente. — Você é filha dele. — Ding, ding, ding! — Julia cantou. A cabeça de Corinne virou. — Espere. O que está acontecendo? Julia agarrou o braço de Danielle e a puxou mais perto. Ela olhou para Aster. — Minha filha sabe disso há cinco anos. Aster piscou com força, tentando concentrar sua mente em torno do que estava acontecendo. Ela olhou para Danielle novamente. — Foi isso o que aconteceu entre você e meu pai naquele verão. Foi quando você descobriu, não foi? O lábio inferior de Danielle tremeu. — Ele me disse para não dizer nada. — Isso é porque ele não queria que fosse verdade — Julia interrompeu. — Ele é um merda para ela. Danielle bateu os braços do lado dela. — Ele não é, mãe! Ele tem sido bom para mim. — Sério? — Julia rosnou, com a voz irônica. — Uau, ele a deixou viver em sua propriedade, mas não em sua casa real. Ele permite que você fique com a sua verdadeira filha, deixa que ela lhe empreste roupas e agracie você com a sua presença, e você deveria ser grata por isso? Você deveria ter tudo o que ela tem! — Sua voz elevou-se a um grito estridente. — Eu estou bem com isso — Danielle implorou. Lágrimas corriam pelo seu rosto. — Eu entendo por que ele não quis dizer a verdade para a sua esposa. Achei que você tinha entendido, também. Mãe, eu pensei que você já houvesse superado as coisas com ele. Eu pensei que havia acabado quando você saiu de casa. — Ela deu um passo em direção a sua mãe. — Você pode, por favor, abaixar a arma? Julia fungou. — É meio difícil superar depois de tudo que fiz por aquela família. Você não sabe os riscos que eu corri por eles, Danielle. Eu pensei que eu poderia ganhar o meu lugar — e eu consegui. Eu consegui naquela festa de fim de verão. Eu me livrei de alguém que teria destruído eles. E eles ainda nos rejeitaram. Aster sentiu como se um raio de eletricidade tivesse caído nela. Ela trocou um olhar com Corinne e Rowan; todas elas pareciam estar pensando a mesma coisa. Festa de fim de verão. Se livrar de alguém. — Você está falando de Steven? — Rowan arriscou. A mandíbula de Danielle caiu. Ela deu um passo para longe de sua mãe. — Aquele homem que se afogou? — ela guinchou. — O que você... Julia olhou para sua filha, mantendo a arma apontada para Aster e para as outras. — Não é o que parece, querida. Steven Barnett era um homem terrível. Ele


sabia algo sobre Mason. Se eu não o tivesse matado, ele teria arruinado a família Saybrook. — O que era? — Aster não poderia deixar de perguntar. O olhar de Julia se voltou para ela. — Você não sabe? E você, Senhorita Advogada Bem Sucedida? — Ela encarou Rowan. Rowan sacudiu a cabeça, com os olhos arregalados de terror, e Julia riu amargamente. — Típico dos Saybrook. Vocês nem mesmo compartilham seus segredinhos sujos uns com os outros. — Ela deu um passo para a frente, mantendo a arma apontada. — A verdade é que eu não sei, mas eu ainda estava disposta a matar por isso. Isso não soa como lealdade para vocês? Isso não soa como alguém que merece fazer parte da sua família? Aster olhou para suas primas. Ninguém disse nada. De repente, ela se sentiu tola. Ingênua. — Foi naquela noite, na festa de fim de verão — disse Julia, voltando para a história. Ela claramente adorava o fato de ter um público cativo. — Eu estava com o seu pai, e com o seu pai também — ela apontou a arma para Corinne e Aster — em seu escritório, fazendo... bem, vocês sabem. — Aster estremeceu. — Então, quando alguém bateu na porta, vocês sabem o que ele fez? Ele me empurrou para o maldito armário. — Pare com isso, mãe! — disse Danielle, se afastando. — Mas eu ouvi eles conversarem — Julia continuou. — Steven sabia alguma coisa, algo grande. Ele disse que iria expô-los, porque ele não tinha sido nomeado presidente. Eu não ouvi o que era, mas pela reação de Mason, tinha que ser terrível. — Ela se virou para Aster e Corinne, com um brilho perverso nos olhos. — Eu nunca tinha visto seu pai preocupado assim, meninas. Ele quase perdeu a cabeça. Pediu a Steven para não fazer isso. Tentou suborná-lo. — Isso vai nos arruinar — ele continuava dizendo — a família, a empresa, todos nós. — Ótimo, disse Steven. Eu quero arruiná-los. — Julia fez uma pausa. — Os Saybrooks ferraram ele como ferraram eu e a minha filha. Aster estremeceu, tentando entender o que Julia estava dizendo. Ao lado dela, Rowan estava cobrindo sua boca. Aster olhou para Danielle mais uma vez, para ver se Danielle tinha conhecimento de algo disso. Sua velha amiga estava ali parada, chorando baixinho. — Eu tive que calar Steven — disse Julia em um tom racional. — Eu fiz isso por você, Danielle, por sua herança. Não foi difícil. Eu segui aquele babaca bêbado naquela noite, o empurrei na água e o mantive lá. Fácil e simples. — Seu rosto endureceu. — Eu pensei que Mason ficaria grato — eu tinha acabado de resolver um grande problema para ele. E como ele reagiu? Ele terminou comigo! Ele me ameaçou. — Mãe, eu... — Danielle começou a dizer, mas Julia continuou falando, sua voz ficando mais estridente.


— Ele prometeu cuidar de você, é claro. Mas ele me disse que estávamos acabados, que desta vez era pra sempre. Que eu tinha ultrapassado os limites. Bem, eu ultrapassei, e eu jurei que ultrapassaria novamente. Eu ia fazer de Danielle uma Saybrook mesmo se isso me matasse — ou se eu tivesse que matar de novo. — Você acha que eu queria entrar na família dessa forma? — Danielle gritou. Corinne se adiantou um pouco. — O que você quis dizer quando disse “matar de novo”? Julia sorriu sinistramente. — O que você acha que eu quis dizer? A boca de Danielle caiu aberta. O sangue de Aster gelou. Ela olhou para suas primas, que estavam pálidas e imóveis. Danielle tocou sua garganta. — Não era eu no vídeo de vigilância — ela sussurrou. — Era você. — Foi necessário, minha querida — explicou Julia. Ela manteve a arma levantada, pegando sua filha com a outra mão. — Você não vê? Você merece ser uma herdeira tanto como elas são. — Mas por que Poppy? — Rowan perguntou com a voz rouca. Julia virou-se para elas. — Eu queria fazer Mason pagar por me deixar, e recusar-se a reconhecer Danielle. No começo eu planejava matá-lo. Foi assim que os pais de Poppy morreram — era para Mason estar naquele voo para Meriweather, mas ele desistiu na última hora porque ele tinha negócios a tratar. Era tarde demais então. O avião já estava caindo. — Ela encolheu os ombros. — Quando eu vi o quão triste ele ficou com o acidente, eu percebi que essa seria a melhor vingança — matar todos da família dele, um por um. — Os olhos de Julia brilhavam à luz do luar. — Eu tentei machucar a pequena e doce Penelope, a vadia que nunca saía do caminho, mas eu não consegui matá-la. Então, mudei o foco para Poppy em seu lugar. — Por que esperar tanto tempo? — Corinne sussurrou. Julia riu. — Por que não? Foi muito divertido ser sua maldição. Eu mandei segredos para aquele site por anos. Eu deveria escrever uma nota de agradecimento a quem o edita. Eu enviei a Will aquela carta sobre sua filha, Corinne — eu achei que ele merecia saber. E enviei cartas iradas de Will para os Griers, exigindo passar mais tempo com ela. A boca de Corinne caiu aberta. — Como você descobriu isso? — Isso não é ciência espacial — Julia estalou. — Nenhuma de vocês esconde as coisas muito bem. E a tecnologia faz com que seja tão fácil nos dias de hoje. Certo, Aster? — ela perguntou, olhando para cima. — Basta perguntar ao seu namoradinho tecnológico. — Ela sorriu, apontando a arma para a cabeça de Aster. — Eu te odiava mais, pela maneira fria com que você tratou Danielle. Mas eu nunca quis realmente fazer alguma coisa com vocês — vocês só caíram por sua


própria conta. E Natasha acabou se protegendo no dia em que deserdou a si mesma. — Julia balançou a cabeça. — Agora eu vou terminar o que comecei. — Ela acenou para Danielle se aproximar. — Fique comigo, querida. Podemos acabar com elas, uma por uma. Danielle não se mexeu. Seu queixo ainda estava balançando. — Você fingiu ser eu — ela disse lentamente. — Você usou o meu vestido. Você usou o meu passe. — Os olhos dela se arregalaram. — A polícia poderia ter suspeitado de mim. Você não tinha ideia de que não seria pega, não é? Mas estava tudo bem, porque se você fizesse o que fez, a polícia iria se focar em mim. Julia zombou. — Você está sendo dramática. Aconteceu alguma coisa com você? Não. Eu me certifiquei disso. Eu até liguei para o FBI do seu celular, fingindo ser você. Eu sabia que eles estavam entrevistando todo mundo que estava lá naquela manhã. As mãos de Danielle tremiam. — Eu não posso acreditar em você. Você não sabe o que o FBI está pensando. Eles poderiam estar me investigando agora. Mas Julia apenas sorriu. — O FBI, hein. Agora que vocês viram o vídeo de vigilância, a sua amiguinha agente tem algumas explicações a dar, não é? — Seu sorriso ficou mais amplo. — Ela estava no escritório de Poppy antes de mim. Elas estavam conversando, suas cabeças inclinadas juntas, sussurrando. Estranho Foley nunca mencionar isso, hein? Ela virou-se para Danielle. — Tudo o que eu fiz, eu fiz por você, para que você pudesse ter uma vida melhor. A garganta de Danielle balançava enquanto ela engolia. — Eu tenho uma vida boa — ela finalmente disse. — E se você tivesse me escutado, você teria entendido isso. Engolindo um soluço, ela se afastou de sua mãe e caminhou até onde Aster, Corinne e Rowan estavam amontoadas contra a amurada e parou na frente delas. Então ela se virou e olhou para Julia, com lágrimas escorrendo pelo rosto. Julia abaixou a arma. — O que diabos você está fazendo? — Sinto muito — disse Danielle. — Mas isso acabará agora. Se você quiser matá-las, você tem que me matar também. Os olhos de Julia brilharam. O olhar protetor e amoroso em seu rosto desapareceu, e ela olhou para a filha com um brilho frio e psicótico. — Você é uma delas. É como se eu nem soubesse quem você é mais — ela disse em uma voz morta. Houve um clique agudo quando ela soltou a trava de segurança. — Tudo bem, então. Se essa é a maneira que você quer, que seja. Ela deu um passo para a frente. Danielle, Aster, Corinne e Rowan se juntaram. Aster fechou os olhos, a mente girando com tudo o que soube esta noite. Estranho, que em seus últimos minutos de vida, tudo o que ela podia pensar era como ela estava errada sobre seu pai e Danielle. Ela pegou a mão da outra garota, e Danielle aceitou. Aster deu-lhe um aperto. Sinto muito, ela tentou


transmitir através do toque. Eu nunca deveria ter tomado conclusões precipitadas. Eu deveria ter deixado você explicar, confiado em nossa amizade. E então, de repente, uma voz ecoou na escuridão. Aster abriu os olhos e imediatamente levantou a mão para protegê-los. Faróis a cegaram, e pneus guincharam no final da ponte. — Largue a arma! — um homem gritou, saltando do SUV e avançando em direção a Julia. Um agente saiu de outro SUV e deu um passo adiante, com a arma apontada para a cabeça de Julia. Katherine Foley apareceu do banco da frente e correu para as meninas. Ela estava usando um colete à prova de balas, e seus olhos estavam brilhantes. — Não se mexa! — ela gritou para Julia. Julia olhou para a direita e esquerda, os olhos rolando descontroladamente. Ela apertou a arma em suas mãos, não mostrando nenhum sinal de que iria soltá-la. Ela apontou para os agentes. — Peguem-na! — um dos policiais gritou. — Mãe! — Danielle gritou, com a voz entrecortada. De repente, Julia correu para a borda da ponte. Nenhuma das mulheres Saybrook estendeu a mão para detê-la. Ela subiu no parapeito, com o cabelo vermelho brilhante soprando na brisa. Ela ainda segurava firme a arma, que brilhava nos faróis brilhantes. — Largue a arma! — os agentes gritaram novamente. — Mãos ao alto, ou vamos atirar! Mas Julia apenas sorriu. E, em seguida, um tiro ecoou. Aster gritou e abaixou a cabeça. O barulho ecoou pelo ar, perfurando seus tímpanos. Um segundo grito soou a partir da borda da ponte, e quando Aster olhou para cima, os olhos de Julia estavam arregalados e atordoados. — Não! — Danielle lamentou, afundando até os joelhos. Julia girou de lado. Aster se inclinou para frente, tentando ver se a bala havia acertado ela. Mas antes que ela pudesse, as pernas de Julia ficaram frouxas. Uma expressão estranha e triste cruzou seu rosto. — Adeus — disse ela em voz baixa. E então ela se virou, abriu os braços e caiu na água.


31 Traduzido por Ivana

A

s portas do hospital se abriram, trazendo com elas o cheiro adstringente de produtos de limpeza. Rowan correu pelo saguão de mármore, esquivando-se dos pacientes em cadeiras de rodas e dos médicos apressados em aventais cor de hortelã. Uma loja de presentes estava à sua esquerda, com prateleiras de doces, bichos de pelúcia e revistas. A capa de quase todos os tabloides e jornais exibiam fotos de Rowan, Corinne e Aster logo após a sua ocorrência com Julia na ponte. — A Maldição Veste Kors — uma manchete estava escrita em letras garrafais. Abaixo dela havia uma imagem granulada de Julia Gilchrist posando como Danielle na manhã que ela matou Poppy. O que a maioria dos jornais comentava era o fato de que Julia ainda estava desaparecida. As autoridades tinham feito buscas e não encontraram nada. Estava tão escuro, e tudo tinha acontecido tão rápido, ninguém sabia se a bala realmente havia acertado ela. Rowan virou-se e correu para o elevador, seguindo para a unidade de terapia intensiva neurológica no quarto andar. Os últimos dois dias tinham sido um turbilhão — primeiro o interrogatório policial, em seguida os abraços comoventes de membros da família, e depois o encontro com Deanna para decidir como conduzir a história. Em uma noite, tudo o que os Saybrooks tinham trabalhado tão duro para criar havia se desintegrado, seus segredos obscuros finalmente foram expostos. Os advogados da família ficaram furiosos porque as primas não os consultaram antes de falar com o FBI. Como advogada, eles disseram, Rowan deveria ter pensado melhor antes de implicar Mason. Rowan amava seu tio, mas era hora de ele jogar limpo. Seu caso tinha dado uma nova vida à maldição, e muitas pessoas haviam pagado o preço por sua mentira. Eles tiveram sorte de Foley ter descoberto Julia exatamente na hora certa — do contrário, Rowan, Corinne, Aster e talvez até mesmo Danielle estariam mortas também. Rowan tinha falado com Foley logo após o resgate. Foley tinha explicado que os faróis no final da garagem naquela noite eram dela; Julia estava em sua lista de suspeitos, e ela queria falar com Danielle para saber se a mãe dela teve acesso


ao cartão-chave da Saybrook. Mas quando ela chegou lá, somente o pai de Danielle estava em casa. — Ele disse que Danielle e Julia tinham acabado de sair com vocês, meninas. E assim eu segui o carro, e pedi reforços. Foley também pediu desculpas por ter mentido para Rowan e as demais escondendo que ela tinha conhecido Poppy, que tinha estado naquela festa, e ainda tinha tido um breve caso com Steven Barnett. — Meus superiores sabiam — explicou Foley. — Mas eu não achava que era necessário você saberem. — Você achava que Poppy tinha matado Steven? — Rowan havia perguntado. Foley balançou a cabeça. — Isso nunca pareceu certo. Mas eu olhei para o caso e descobri o que realmente aconteceu. Foi isso o que me levou a Mason... e, em seguida, a Julia. Aparentemente, Mason pagou o legista para falsificar os resultados da autópsia depois da morte de Steven, relatando que seu nível de álcool no sangue era muito maior do que realmente era. Tudo para garantir que ninguém soubesse o verdadeiro motivo pelo qual Steven morreu. Mas Rowan não tinha conseguido de Foley os detalhes de porquê ela visitou Poppy na manhã em que ela morreu. Uma questão de negócios pendentes, foi tudo que ela disse. — Sempre tem que haver um segredo? — perguntou Rowan, e então um pensamento marcante saiu de dentro dela. — Alguma vez você esteve no Mandarin Oriental? — Foley apenas inclinou a cabeça sem se comprometer, mas a mente de Rowan se acendeu, de repente percebendo que Poppy poderia não ter traído James depois de tudo. Mas o que ela estava fazendo? Agora Rowan passava através de uma porta marcada com 414, um quarto privado, com vista para Manhattan. Com Julia ainda desaparecida, Natasha tinha sido secretamente removida para o NYU de Beth Israel. Só a família sabia disso; até mesmo a imprensa não tinha conhecimento de nada ainda. Se alguém descobrisse, a família de Natasha a removeria para outro lugar novamente. Qualquer coisa para mantê-la oculta e segura, especialmente agora que ela estava acordada. Ontem à noite, os médicos haviam telefonado com a boa notícia. Rowan esperava ver Natasha encostada em travesseiros, lendo uma revista, mas ela estava dormindo, e com um emaranhado de tubos e fios ainda serpenteando em suas veias. Seu peito subia e descia com cada respiração. Suas pálpebras se moveram levemente, e depois, elas abriram. A marca registrada dos Saybrook — os olhos azuis — olharam para Rowan. Respire fundo, Rowan pensou. Antes do acidente, ela suspeitava que Natasha havia matado Poppy. Sua última conversa não tinha sido exatamente agradável. Mas sua prima apenas sorriu timidamente. — Oi — ela disse em uma voz grave. — Como está se sentindo? — perguntou Rowan hesitantemente.


Natasha levantou lentamente a mão em direção à sua bochecha. — Não estou tão mal. — Ela tossiu alto. — Meus pais estavam aqui antes. Eles me disseram o que aconteceu. E eles me disseram sobre Julia. — Ela baixou os olhos. Rowan assentiu. — É muito impensável, não é? A cabeça de Natasha balançou fracamente. — Eu não consigo acreditar nisso. Rowan não conseguia também. Julia Gilchrist. Mas quanto mais ela pensava nisso, mais fazia sentido. Ela tinha acesso já que era a zeladora, bem como através do trabalho de Danielle — e ela tinha um verdadeiro motivo. Ainda não estava claro quantos estragos Julia havia causado. Teria sido ela que pegou o vídeo de sexo do computador de Rowan e roubou o diário de Corinne? Uma foto de Julia tinha sido entregue para o pessoal de todos os edifícios dos Saybrook, no resort de esqui onde Penelope tinha sido ferida, e no aeroporto privado de onde os pais de Poppy tinham voado quando o avião explodiu. Eles ainda estavam à espera de ouvir maiores informações sobre os passos de Julia, mas uma porteira no Four Seasons em Aspen tinha ligado para informar que ela lembrava de ter visto uma mulher de cabelos vermelhos marcantes no hotel quando o acidente ocorreu. Não havia registro de Julia como hóspede, mas ela poderia ter se registrado com um nome falso. A obstinação em tudo isso era o que mais inquietava Rowan. Julia tinha perseverado por cinco longos anos depois de matar Steven. O que ela teria feito se Foley não tivesse ligado os pontos? Será que Rowan e as outras estariam mortas agora? — Eles não encontraram Julia ainda? — Natasha perguntou. Rowan sacudiu a cabeça. — Não. — Ela deu um tapinha desajeitado na perna de Natasha. — Você não deve se preocupar com isso, no entanto. Você precisa se concentrar em ficar boa. A porta rangeu, e Rowan olhou para cima. Corinne e Aster atravessavam para dentro do quarto, segurando fumegantes copos de café. Ambas deram à Natasha abraços desajeitados. Rowan pigarreou. — Natasha sabe sobre Julia. Natasha assentiu. — É uma loucura. Aster cruzou as pernas. — Esse pode ser um bom momento para... vocês sabem. Perguntar a outra coisa? Corinne franziu o cenho. — Ela acabou de acordar — ela sussurrou. — É muito cedo. — Sim, eu não sei — disse Rowan hesitantemente. — Hum, olá? — A voz de Natasha veio da cama. — Eu estou bem aqui. Seja o que for que vocês têm que perguntar, é só perguntar. Todo mundo continuou com a boca fechada. Rowan olhou para as outras. Corinne levantou as sobrancelhas e, em seguida, deu um aceno de cabeça. Aster


acenou também. Respirando fundo, Rowan disse, — Aparentemente, há um segredo de família. Mason sabe disso — assim como Steven Barnett sabia. — Julia disse que era algo que poderia ter destruído a família — acrescentou Aster. — Você sabe o que é, não é? Natasha acenou com a cabeça, com o rosto cheio de incertezas. Ela olhou para suas mãos. — Sim. Um alarme soou no corredor, e uma enfermeira passou rápido. Rowan colocou seu copo de café na mesinha ao lado da cama de Natasha. — Nos conte. Eu não me importo o quão devastador possa ser. Somos uma família. Podemos lidar com isso. Corinne tocou-lhe a mão e acenou com a cabeça. Natasha ficou em silêncio por um longo tempo. Rowan se preocupou pensando se elas não haviam se precipitado demais, mas, em seguida, Natasha lambeu os lábios secos. — A história de Alfred, de como o negócio começou, é uma mentira. — O quê? — Rowan sussurrou, o coração batendo rápido. Natasha moveu a cabeça para o lado. — Tem certeza que vocês querem saber? — Sim — todas disseram em uníssono. Natasha respirou fundo. — Depois da guerra, vovô e Harold Browne, seu amigo da guerra? Bem, eles estavam em um batalhão que classificava a pilhagem que os nazistas tinham armazenado no Musée du Jeu de Paume, em Paris. Eles deveriam levar tudo para um repositório em Munique para que os itens pudessem ser catalogados e devolvidos aos seus legítimos proprietários, mas acho que o vovô e Harold encontraram algumas coisas que eles quiseram manter para si mesmos. — Espera, o quê? — Rowan perguntou. — Você está dizendo que os diamantes que ele trouxe eram roubados? Natasha assentiu. — De famílias enviadas para campos de concentração. Rowan franziu o cenho. — Mas os diamantes podem ser rastreados — especialmente os valiosos. Ele não teria corrido esse risco. — Ele era um cortador incrível, lembram? Ele simplesmente cortou eles para parecerem diferentes. — E quanto a pedra amarela? — perguntou Aster. — O Corona? — Foi um dos muitos, mas era joia da coroa. Eu acho que ele e Harold tinham um pacto; eles levariam os seus segredos para o túmulo. Rowan sentiu-se enjoada. — Eu acho que eu só vi Harold uma vez. Talvez. — Quando ela era muito jovem, ela se lembrou de seu avô estar bebendo com um homem da sua idade no pátio em Meriweather. Eles falavam sobre golfe e seus filhos, ela tinha certeza. — Bem, aparentemente Harold mudou de ideia cerca de seis anos atrás — Natasha continuou. — Seu filho contatou Mason e vovô Alfred, dizendo que o


desejo de morte de Harold era ir a público para contar tudo e corrigir seus erros. Eles se recusaram, é claro, e logo Harold morreu, mas o filho não desistiu disso. Eles acabaram pagando ele, e fazendo uma grande doação para a Fundação dos Sobreviventes do Holocausto. Os olhos de Aster se arregalaram. — Como você sabe tudo isso? Natasha ajustou o travesseiro atrás de sua cabeça e suspirou. — Mason foi falar com a minha mãe para ajudar, porque ele não podia liquidar suas ações da empresa rápido o suficiente para pagar o filho de Browne — ele precisava da aprovação da minha mãe. Eles tiveram uma grande discussão no escritório do meu pai e eu ouvi. Minha mãe me pediu para não contar. — É por isso que você se deserdou? — perguntou Rowan. Natasha assentiu. — Esse dinheiro não é nosso, não realmente. Eu não poderia viver com isso na minha consciência. Corinne tocou a mão de Aster. — Você disse que encontrou um e-mail entre Poppy e papai onde ele estava tentando dizer a Poppy para guardar silêncio sobre alguma coisa. — Isso mesmo. — Aster olhou para Natasha. — Será que Poppy sabia? — Acho que sim — respondeu Natasha. — Eu pensei que vocês sabiam de tudo, sinceramente, e estavam guardando o segredo. Mas cerca de um ano atrás Poppy veio até mim e disse, “Eu sei porque você está tão chateada com a família.” Ela tinha acabado de descobrir o segredo. Ela estava se encontrando com a Agente Foley — ela estava ajudando a rastrear quais as famílias que os Saybrooks roubaram e descobrir uma maneira de reparar isso. Rowan balançou a cabeça, sentindo isso entrar em sua cabeça. Então, lá estava. A razão pela qual Foley e Poppy estavam se encontrando. Poppy não estava tendo um caso; ela estava tentando corrigir um erro antigo. Ela colocou a mão em seu estômago, enojada por ter presumido o pior sobre sua prima. Ela virou-se e viu quando Corinne olhou para seu bracelete de diamantes, parecendo como se quisesse tirá-lo. Rowan o reconheceu: Alfred tinha dado a todas as primas há uns anos atrás. Seu doce avô. Rowan ainda podia recordar a sensação de sua mão forte na dela. Ela se lembrou dela pequena correndo atrás dele pelos corredores do mercado de pulgas de Meriweather, animada com a perspectiva de encontrar outro diamante Corona como ele tinha encontrado em Paris. Mas não havia um mercado de pulgas em Paris, havia? Era uma mentira infantil, e todas foram tolas ao acreditar. — Eu me pergunto se Steven sabia porque ele era o protegido de Alfred — Corinne meditou. — Talvez — disse Aster, afundando-se numa cadeira ao lado da cama de Natasha. — E se Julia está dizendo a verdade, Steven iria contar isso publicamente na noite em que foi morto.


— Vocês acham que foi por isso que Mason promoveu Poppy em vez de Steven? — Rowan meditou. Natasha assentiu. — Soa como se Steven estivesse questionando a liquidação dos estoques. Eles estavam fazendo artimanhas para demiti-lo e promover alguém em seu lugar. — Mas Steven ainda conseguiu descobrir — disse Aster. — E ele estava com sede de vingança por ter sido ignorado. Rowan fez uma pausa para deixar todas aquelas informações serem filtradas por sua mente. Todo esse tempo, todas elas pensavam que Poppy foi promovida a presidente ao invés de Steven porque ela realmente e verdadeiramente merecia. E agora esse não era exatamente o caso. Rowan se perguntou se Poppy sabia disso o tempo todo. Talvez não o porquê exatamente, mas que era uma substituta, um preenchimento rápido para encobrir algo. Jesus. A infidelidade de James, a verdadeira razão pela qual ela conseguiu seu emprego — Poppy provavelmente se sentia insegura sobre tudo. Rowan nunca teria imaginado. Corinne olhou para Natasha. — Eu não posso acreditar que você teve que carregar esse fardo todos esses anos. Natasha levantou lentamente a mão cheia de tubos para empurrar um fio de cabelo de seu rosto. — Minha mãe me pediu para nunca mais falar sobre isso. Ela odiava saber disso, e mais ainda por mim. — Nós pensávamos que você matou Poppy — Aster desabafou. — Você estava agindo de forma estranha antes do acidente, recusando-se a se reunir com Foley... Natasha deu de ombros, parecendo envergonhada. — Eu só não via um objetivo. Ela já sabia sobre os diamantes, e eu não tinha mais nada a acrescentar. Foi estúpido da minha parte. — O que vamos fazer, gente? — perguntou Aster. — Agora que nós sabemos. Nós não podemos apenas manter isso para nós mesmas. Meu pai claramente sabe — e quem mais? E vocês não acham que devemos terminar o que Poppy começou? Reparar isso, de alguma forma? — É claro que o papai sabe — disse Corinne amargamente. — Assim como os meus pais — Natasha lembrou. Isso era difícil de engolir. Rowan fechou os olhos e relembrou dos pais de Natasha, deles segurando Briony logo após ela ter nascido. Os pais de Poppy tinham morrido até então, mas eles tinham assumido o papel de avós, fazendo turnos de fim de noite, andando com Briony para cima e para baixo pelos corredores para acalmar seu choro, deleitando-se com seus primeiros sorrisos e risadas. Eles eram tão... doces. Ternos. Durante todo o tempo escondendo um segredo horrível e não fazendo nada sobre isso.


Rowan olhou para suas primas. Sua família sempre foi cercada por tragédias, e talvez eles trouxeram isso para si mesmos. Eles quiseram muito e devolveram muito pouco. Eles eram como Ícaro, voando muito perto do sol e ficando destruído: era tudo culpa deles mesmos. — Se depender de mim, eu conto tudo — disse Corinne. — A empresa vai se recuperar, ou não. E se isso acontecer, talvez a gente mereça. Rowan concordou e, em seguida, Aster e Natasha também. — Eu acho — Rowan começou lentamente, — que todas nós fomos individualistas demais ao longo dos anos. Mas agora isso termina aqui. Somos uma família, e é hora de começar a agir como tal. Nós temos umas às outras, e a verdade, não importa o quanto vai doer. Aster assentiu, e Corinne pegou a mão de Natasha. Rowan olhou para suas primas, sentindo-se estimulada novamente. Elas passaram por uma tragédia impensável e a perda de um dos seus, mas um novo vínculo havia se formado entre elas. E isso deu a Rowan conforto e força. Corinne se inclinou para frente, tirou quatro copos de plástico de uma pilha em uma pequena bandeja de Natasha, e encheu cada um deles com água gelada. — Acho que devemos fazer um brinde — disse ela. — A nós. E a família. Rowan levantou o copo, e Aster a seguiu. Um sorriso travesso apareceu no rosto de Natasha. — Isso significa que eu posso forçar vocês a assistir minhas performances de patinação de novo? — Não — todas disseram de uma só vez, e Rowan sorriu com a lembrança. E assim, parecia que elas tinham sua prima de antes novamente — a Natasha esperta, vivaz e totalmente contagiante. Quando Rowan olhou para ela novamente, Natasha estava radiante, sua expressão plácida e finalmente relaxada. Rowan conhecia a expressão “O peso de um segredo”, mas ela nunca tinha realmente acreditado nisso até agora. Natasha parecia literalmente mais leve e mais livre, como se pudesse finalmente viver sua vida sem mentiras obstruindo seus caminhos. E talvez o resto delas poderia também.


32 Traduzido por Ivana

P

oucos dias depois, Aster e Mitch entraram na casa dos pais dela, atravessando a sala de jantar em direção à sala de estar um pouco menos abafada. Para a surpresa de Aster, a última edição da People estava na mesa de café. Praticamente toda a revista era sobre sua família. Ela sentou-se no sofá de seda amarelo e a folheou, mesmo ela já tendo lido toda a revista, página por página. Várias vezes. Havia uma história, é claro, sobre Julia. Uma exposição sobre o passado de Julia Gilchrist — aparentemente, ela tinha um diploma do ITM, mas ela também passou vários anos trabalhando como stripper. Como os repórteres descobriram essas coisas, Aster nunca saberia. O marido de Julia, Greg, tinha dado uma entrevista — foi estranho, ele disse, que Julia quis voltar com ele, do nada, já que eles não tinham se falado há anos. — Meu palpite é que ela queria chegar mais perto das Saybrooks — Greg havia concluído. — Ela deve ter planejado atacar o resto das meninas no casamento. É verdadeiramente inacreditável. — Você não devia ler essas coisas — Mitch murmurou, roçando os dedos contra a perna de Aster. Quando ela não respondeu, ele suspirou e virou a página para a próxima história. A próxima história eram duas páginas sobre Poppy. Quando ele virou a página novamente, ele engasgou. — O que ela está fazendo aqui? Havia uma foto de Elizabeth Cole parecendo glamorosa em um vestido preto, saltos altos e batom vermelho. — Íntima dos Saybrook Diz Tudo — dizia a manchete. Aster releu o primeiro parágrafo.

Às vezes, uma história sobre uma dinastia pode ser melhor contada por alguém próximo à família, e Elizabeth Cole, diretora de relações com clientes privados dos Diamantes Saybrook, esteve por dentro dela. Viúva de Steven Barnett, que foi uma vez o segundo-em-comando no império Saybrook, Elizabeth viu momentos pessoais e privados da família que outros jamais viram, e agora ela está pronta para compartilhar suas histórias com o mundo em seu novo livro A


Maldição da Riqueza: Minha vida com os Saybrooks, em lançamento neste

outono. Aster revirou os olhos. — Eu sei. Bem típico. Ela tem que fazer tudo girar em torno dela. Mitch bufou. — Ninguém vai comprar esse livro. Eu vou invadir a Amazon e dar zero estrelas. Aster se inclinou e beijou Mitch em resposta. Ele puxou suas pernas para cima para o seu colo, e ela suspirou, aninhada em seu peito e fechando os olhos por um breve momento de paz. As pessoas iriam comprar o livro, ela sabia disso. As pessoas comprariam qualquer coisa com o nome de sua família nele, tendo uma boa publicidade ou não. Mas, certamente, Elizabeth seria demitida por escrever um livro contando tudo, certo? Aster sentiu-se um pouco animada. Isso significava que ela iria ter um novo chefe. Ela estendeu a mão para a revista de novo e virou para a próxima página, que tinha uma história sobre Danielle. A foto dela era de seus dias na NYU, provavelmente fornecida por um de seus colegas de classe. “A Filha Secreta” dizia a manchete. Mas não havia uma única citação de Danielle; os repórteres tinham feito a reportagem com base nos detalhes públicos da confissão de Julia sobre a ponte, e um pouco mais. Pelo que Aster sabia, Danielle não tinha dito uma palavra sobre qualquer coisa. Ela pegou o telefone e digitou uma nova mensagem. Eu vi a história na People, ela escreveu. Alguns momentos depois, Danielle mandou uma mensagem de volta. Ah, eu sei. Desastre. Na verdade, você está muito bem nela, Aster respondeu. E eles não foram

malvados. Ela e Danielle tinham conversado um pouco desde o incidente, por meio de mensagens de telefone e e-mails. Aster não sabia o que isso significava ou aonde terminaria, exatamente; ela ainda não tinha se acostumado com o fato de que Danielle era sua irmã. Em uma de suas primeiras conversas após o ataque de Julia, sentadas na delegacia antes de darem seus depoimentos, elas relembraram aquela noite, há cinco anos, quando Danielle tinha ido até Aster na praia. — Por que você não me disse quem era? — Aster perguntou a ela. Danielle enfiou as mãos nos bolsos. Suas bochechas ainda estavam manchadas de tanto chorar, e suas unhas haviam sido roídas até a carne. Aster estava surpreendida de como ela havia se mantido coerente — se sua mãe tivesse tentado matá-la, Aster estaria um completo desastre. — Seu pai disse para não dizer nada, mas eu pensei que você iria descobrir depois — disse Danielle. — Eu pensei que era por isso que você brigava tanto com o seu pai. E então, quando


você me rejeitou, eu simplesmente pensei que... bem, que você não queria que eu fosse parte da sua família. — Eu pensei que vocês estavam dormindo juntos — Aster explicou. Danielle concordou. — Eu entendo agora. O olhar em seu rosto quando você percebeu tudo... Aster tomou um gole do café amargo que um dos oficiais tinha dado para ela. — Você se lembra quando nós fugimos para o bar do outro lado da ilha? O Finchy? A expressão de Danielle ficou melancólica. — Claro. — E todos aqueles caras perguntando, Vocês são irmãs? E nós fingimos que éramos? Danielle mordeu o lábio. — Sim. — Eu costumava fantasiar sobre você ser minha irmã — disse Aster calmamente. Danielle fez um pequeno ruído de dor. — Eu também. E quando eu descobri... eu fiquei tão animada. Foi por isso que doeu tanto, quando eu pensei que você tinha me rejeitado. Uma tosse da sala trouxe Aster de volta à realidade. Seu pai abriu a porta, vestido com um roupão e chinelos, embora fosse três da tarde. Seu cabelo grisalho estava levantado em picos, e havia olheiras sob os seus olhos. Seu estômago se apertou. — Aster — disse ele em uma voz grossa e resmungona quando a viu. A queda de Mason tinha sido tão rápida, movendo-se no mesmo ritmo de um turbilhão como tudo mais, que Aster não tinha tido tempo para realmente decidir o que sentia por seu pai. Ele calmamente deixou o cargo de diretor executivo da Saybrook e a mãe de Natasha, Candace, o assumiu. A ideia dele perder tudo trouxe lágrimas aos seus olhos, mas então havia a ideia dele esconder um caso com Julia... esconder a morte de Steven... e esconder o terrível segredo sobre a empresa. Ele pareceu um estranho para Aster por tanto tempo. Onde estava o pai que ela tinha conhecido quando era criança, o homem amoroso e encorajador que a ajudaria em qualquer coisa? Ele ainda estava lá em algum lugar? Foi por isso que ela pediu para ele se encontrar com ela hoje. Era hora dele finalmente responder a algumas perguntas. — Você vai entrar no meu escritório? — perguntou Mason em voz baixa, seu tom de voz suave. — Claro — disse Aster, deslizando para fora do sofá. Ela olhou para Mitch. Ele estendeu a mão e apertou a mão dela. Ela abaixou-se e deu-lhe um beijo rápido. — Mais uma vez, obrigada por ter vindo — ela sussurrou. Quando ela se afastou, Mitch parecia tão surpreso e encantado como quando ela o beijou pela primeira vez no jantar de ensaio. Aster nunca, jamais se cansava de ver essa expressão.


O escritório de seu pai parecia o mesmo de sempre, as armas nas paredes, o equipamento de caça pendurado em ganchos, o elefante encarando com os olhos vidrados em nada. Mas seu olhar pousou em outras coisas também. Como um boneco de neve de bola de algodão que tinha vivido no topo da prateleira por anos e anos. Ela não se lembrava de fazê-lo. Foi Corinne ou Danielle? E aquela foto de Mason embalando uma menina enrolada em uma manta? Era realmente Aster? Mason sentou-se à mesa. Ele parecia muito menos substancial em sua cadeira. De repente, Aster sentiu-se nervosa. Lá estavam eles, cara-a-cara; e, pela primeira vez, os dois sabiam de tudo. — Como foram seus dias de descanso? — perguntou Mason. A empresa Saybrook tinha dado à Aster duas semanas de férias remuneradas, chamando de “licença médica”. — Foram bons — murmurou Aster. — Você viu sua mãe? Aster brincou com o punho de sua jaqueta. Naturalmente, Penelope tinha deixado a casa imediatamente após a notícia sobre o caso de Mason; ela estava com sua irmã em Connecticut. Ela permaneceu centrada durante o tempo todo, excessivamente equilibrada. Ela sequer comentou sobre a situação de Mason. Mas talvez ela estivesse zangada demais para comentar. — Sim, eu a visitei — disse Aster rigidamente. — Ela está bem. Mason assentiu. Então, ele engoliu em seco e olhou para ela. — Eu realmente senti sua falta, Aster. Eu pensei muito sobre como eu falhei com você. Era para eu estar com você durante os momentos importantes da sua vida, especialmente naquele verão. Em vez disso, eu me deixei ser distraído por coisas que não deveriam ter me distraído. Eu só quero dizer que eu sinto muito. Por um momento, Aster olhou para ele, de queixo caído. — Você sente muito? — ela retrucou. — Você acha que isso vai resolver todos os problemas? A boca de Mason abriu e fechou, como um peixe. — Eu... — Você me abandonou naquele ano — Aster o acusou. — Você agiu como se não se importasse mais comigo. Porque você tinha que encobrir a situação de Danielle, e você tinha que lidar com Julia e todos os seus outros segredos. — Eu estava tentando manter as coisas juntas — disse Mason. — Tudo estava saindo de controle. Eu não sabia o que fazer. Aster virou as palmas das mãos, sem saber como responder. — Como é que você descobriu sobre... a coisa nazista? Após um longo momento, Mason suspirou, cruzando as mãos. — Meu pai me disse, quando eu me tornei diretor executivo. Ele minimizou a situação, no entanto. Somente quando Geoff Browne veio a mim que eu percebi a extensão do que tinha acontecido. — Ele balançou a cabeça e olhou para o teto. — Ainda haviam pedras em nossa coleção nessa época. Mas como é que eu ia saber?


— Mas, em vez de esclarecer as coisas, como Browne queria, você o subornou. — Sim. — O olhar de Mason sacudiu de um lado para o outro. — E você pensou que tinha acabado, mas, em seguida, Steven Barnett remexeu onde ele não devia, certo? Ele era próximo do vovô. Ele sabia onde procurar. Mason assentiu. — Ele estava sendo preparado para ser o próximo presidente. Ele estava examinando as finanças, considerando os nossos próximos movimentos. Ele viu que eu tinha liquidado um monte de ações da empresa e começou a fazer perguntas. Eu me recusei a dizer, o que o irritou. Se ele iria ser o próximo presidente, ele disse, ele tinha que saber. “Bem, então” eu disse a ele, “acho que você não será o próximo presidente”. E nós promovemos Poppy em seu lugar. Aster assentiu. Combinava com a história de Julia. — Mas, então, Barnett descobriu isso de qualquer maneira e veio na noite da festa. — Mason olhou para Aster. — Ele fez todos os tipos de ameaças. O pior de tudo era que mais cedo naquela noite, eu tinha visto ele com você. Eu pensei que ele ia se desculpar por estar tirando vantagem de você. E, em vez disso, ele ameaçou me arruinar. Eu não sei o que lhe fez agir assim. — Ele não se aproveitou de mim — disse Aster, afastando os sentimentos de culpa que se ergueram durante a história de seu pai. Nenhum de nós é verdadeiramente inocente, ela pensou com tristeza. Mason cruzou as mãos. — Bem. Não importa. A mente dele estava corrompida. — O que você teria feito se Julia não tivesse matado ele? Mason suspirou. De repente, ele pareceu décadas mais velho. — Honestamente, Aster, eu não sei. — Mas, então, Julia veio a você e lhe disse o que ela fez. — Isso mesmo. Mas eu nunca teria matado ele. — E Poppy? — perguntou Aster. — Onde ela entrava em tudo isso? Porque Elizabeth Cole tinha certeza que Poppy o matou. — Eu recebi um telefonema histérico de Poppy, pouco depois de Julia me falar o que ela tinha feito. Era, provavelmente — eu não sei. — Ele olhou para cima. — Meia-noite? Poppy tinha caminhado até a marina e descobriu Steven na água. Ela estava em pânico, querendo chamar a polícia, mas eu a convenci a não fazer isso. Eu disse a ela para deixar Steven onde ele estava. — Deixá-lo? Mason baixou a cabeça. — Eu sei que não era o certo. Mas seu corpo seria descoberto eventualmente. E eu não poderia deixar de me preocupar de ser ela a pessoa que o encontrou. Poppy poderia parecer suspeita — o que poderia trazer


mais atenção indesejada para a família. Para me certificar, eu paguei o legista para falsificar o seu nível de álcool no sangue. Aster cobriu o rosto. — Oh meu Deus. — Poppy estava sempre fazendo perguntas — Mason continuou com uma voz oca. — Ela nunca acreditou que Steven se afogou. E então, não muito depois disso, ela encontrou a mesma falha nas finanças que Steven tinha encontrado. Só que, quando ela perguntou sobre isso, eu disse a ela a verdade. Ela era da família, afinal de contas, eu sabia que podia confiar nela. Poppy queria consertar tudo, no entanto. Ela não queria deixar pra lá. Aster soltou um suspiro. Isso explicava o e-mail ameaçador que ela tinha encontrado nos arquivos apagados de Mason. Então ela pensou em outra coisa. — Então, o que é esse negócio com as joias roubadas? Mason virou a boca. — Ela descobriu a quantidade de joias que tinham sido roubadas e percebeu, como eu, que algumas das peças antigas ainda estavam em nossa coleção. Ela rastreou os ancestrais dos donos. E então ela tirou as joias dos cofres e devolveu aos proprietários originais sem pedir permissão. Obviamente, isso levantou todos os tipos de bandeiras vermelhas com a auditoria e a segurança — que não tinham ideia a quem aquelas joias verdadeiramente pertenciam ou o que Poppy estava fazendo. Ela estava tentando me forçar a confessar. Mas eu consegui encobrir tudo. Aster gemeu. — Pai, por que você simplesmente não confessou? — Eu queria — disse ele, e suspirou. — Mas eu não tinha certeza se os negócios poderiam suportar o golpe. — Portanto, tudo isso foi por causa dos negócios. Isso era mais importante para você do que qualquer outra coisa. Ela encontrou o olhar de Mason. Ele desviou o olhar, culpado. Sem a mãe de Aster na casa, o lugar estava estranhamente quieto — não havia música clássica na cozinha, nenhum som de sua voz enquanto falava ao telefone. O lugar parecia como uma tumba. Ela olhou para Dumbo, seu tronco estendido, suas grandes orelhas largas em forma de sino. De repente, ela teve pena de seu pai. Ele é um covarde, ela percebeu. E ele tinha sido um covarde toda a sua vida. Tudo o que ele fez foi viver em torno de inventar desculpas e encobrir mentiras. Transferindo dinheiro para encobrir pecados antigos da família, escondendo filhos ilegítimos, suportando o estilo de vida de festas de Aster por anos para não ter de contar a sua mãe sobre Danielle. Se esse elefante tivesse cobrado a Mason, ele teria corrido gritando. — Você costumava ser o meu herói — disse ela em voz baixa, sentindo as lágrimas chegarem aos olhos. O queixo de Mason vacilou. — Eu amava quando você pensava isso. Ela sentiu as lágrimas correrem pelo rosto. — Me desculpe por eu ter entregado você, pai.


E com isso, Mason levantou-se da cadeira. Aster olhou para ele através das lágrimas borradas enquanto ela caminhava em direção a ela e se ajoelhava. — Aster — disse ele com firmeza. — Você fez a coisa certa. Quando ele passou os braços em volta dela, um soluço subiu em seu peito. Ele não deveria estar abraçando ela agora, e ela não deveria abraçá-lo de volta. E ainda assim ela não conseguia odiá-lo. Mesmo depois de tudo isso, ele era o pai dela. Então Mason se afastou e olhou para ela. — Os erros que eu cometi são meus débitos a pagar, e eu não posso corrigir isso agora. Mas o que eu posso fazer para corrigir... com você? O que você quer? Você pode parar de trabalhar na Saybrook. Você pode voltar para a sua antiga vida. Aster piscou. — Simples assim? Ela olhou pela janela para o edifício do outro lado da rua e considerou a possibilidade de não trabalhar mais. Acordar ao meio-dia, navegar no Twitter e em blogs para ver o que estava acontecendo na noite. Decolar nos fins de semana para as ilhas distantes, dançar a noite toda e falar sobre nada. Tudo parecia estranhamente distante. Ela não tinha saído nas últimas semanas. Clarissa não tinha telefonado. Embora Aster ainda estivesse em um grupo de mensagens que mandava mensagens a cada início de noite, anunciando os pontos quentes da noite e fofocando sobre pessoas que eles conheciam, seus outros amigos não tinham sequer perguntado como ela estava, também. Pensando nisso, do que ela realmente sentia falta? Da emoção? Este mês foi cheio de emoções suficientes para durar uma vida. E estava claro que seus amigos não sentiam falta dela. A cidade estava repleta de socialites fabulosas, afinal de contas — e herdeiras para pagar a conta. — Sabe, eu não sei se eu quero a minha vida antiga. — E assim que ela disse isso, ela percebeu que era verdade. — Eu quero continuar trabalhando — disse ela com firmeza. Seu pai ergueu a cabeça. — Ótimo. Bom para você. — Mas, na verdade. Há algo que você pode fazer. — Aster fitou-o de perto. — Eu quero que Danielle seja parte da nossa família. De verdade. Pânico cintilou no rosto de Mason. Ele engoliu em seco. — Você quer dizer... — Eu quero dizer que quero que ela se sinta como se fosse uma de nós. Você é o pai dela. E agora ela não tem mãe. Eu só acho... — Aster fechou os olhos. — Eu só acho que deveríamos. Mason ficou em silêncio por um longo tempo. — Tudo bem — ele disse finalmente. — Faça o que você achar que é certo. Aster deixou a casa do seu pai poucos minutos depois, se sentindo fraca e emocionalmente esgotada. Ela segurou a mão de Mitch enquanto eles


caminhavam pela calçada, sabendo que ele estava à espera de ouvir o que tinha acontecido. Mas ela não estava pronta para dizer a ele ainda. Eles caminharam rua após rua em silêncio pacífico, passando pelos pedestres com seus belos cães em coleiras, com moradias belas, condomínios com lobbies de mármore e porteiros eficientes. O ar estava fresco, o dia renovado. Aster se sentia renovada também — estranhamente renascida. Um sentimento de esperança que ela nunca tinha experimentado antes encheu seu coração. Ela sentia-se no controle de seu destino, de repente. Ela se sentia... reparada. Ela puxou o celular da bolsa e ligou para Danielle. — O-oi — disse Danielle trêmula quando ela atendeu, como se ela não tivesse certeza se Aster estava ligando mesmo ou se era trote. — Oi — disse Aster com uma voz forte, parando no canto. — Quer vir jantar comigo esta noite? — Sério? — Danielle tossiu na outra extremidade. — Tem certeza? O sinal ficou verde, e Aster puxou a mão de Mitch para o outro lado da rua. — É claro — disse ela. — Eu tenho certeza.


33 Traduzido por Matheus Martins

U

ma semana mais tarde, vestida com um casaco e um chapéu flexível que cobria a maior parte de seu rosto — tanto para evitar o sol e para dar-lhe, pelo menos, um pouco de privacidade — Corinne passava através da porta giratória da Bendel e olhava em volta. A vendedora arrastou-se para ela imediatamente. — Posso ajudá-la, senhorita? — ela perguntou, seu olhar caindo para a bolsa Carry-alls nas mãos de Corinne. Então ela olhou para Corinne novamente, e seus olhos se arregalaram. — Oh! Você é... Corinne se inclinou em direção ao seu serviço ao cliente. Sim, ela era Corinne Saybrook, a mulher que quase tinha morrido na véspera do seu casamento. Sim, ela também era a mulher que cancelou o casamento com Dixon Shackelford, o herdeiro da fortuna da Petróleo Shackelford. Tudo o que ela queria era devolver seus presentes em paz e rastejar de volta para casa para se esconder. Ela estava irritada que ainda tivesse presentes para devolver, depois de todos os problemas que ela tinha passado para mandar todos doar para a caridade. Todos eles vieram da família de Dixon, como se eles soubessem que ela ia cancelar tudo e depois escapulir para a Bendels com o rabo entre as pernas. — Olá — a mulher no serviço ao cliente disse uniformemente, em seguida, deu o mesmo olhar que a menina perfumada da frente. — Oh, querida — ela sorriu com afetação, pressionando suas longas unhas em sua bochecha. — Eu não sei o que aconteceu, mas eu sinto muito. Você está bem? Corinne torceu a boca em um sorriso educado. — Eu estou bem — disse ela. — Obrigada. Tinha sido óbvio, após a sua provação, que ela e Dixon não poderiam se casar no próximo dia — Corinne estava muito traumatizada, a polícia precisava delas para um interrogatório, e a única ponte de Meriweather tinha sido fechada enquanto a polícia escavava o canal procurando o corpo desaparecido de Julia. Depois disso, Corinne ficou com Rowan na cidade, tentando reunir seus pensamentos e não atendendo as chamadas de Dixon. Mas alguns dias depois de ver Natasha acordar no hospital, Corinne sentiu uma clareza mental que ela não tinha experimentado há um longo tempo. Ela


sabia o que queria, e de repente ela não estava mais com medo. Ela voltou ao apartamento dela e de Dixon, com seus nervos saltando e os lábios secos. Dixon estava esperando por ela no sofá; ele sorriu para ela como se não tivessem passado uma semana separados. — Então, eu tenho uma boa notícia — disse ele. — Já que estamos reprogramando, Francis do L’Auberge pode servir para nós novamente. Não é ótimo? Os lábios de Corinne se separaram. E então ela apenas... disse a ele. — Eu não quero me casar. Dixon tinha piscado, parecendo uma criança surpresa. — Oh — ele finalmente disse, piscando forte antes das lágrimas começarem a correr pelo seu rosto. Corinne ficou surpreendida: ela nunca tinha visto ele chorar. Ele colocou a cabeça entre as mãos. Seus ombros tremeram. — Eu sou um idiota — ele disse em uma voz abafada. — Você não é — disse Corinne, sentando-se ao lado dele e acariciando suas costas. — Mas, Dixon, olhe para nós. Você está realmente feliz? Ela ficou com ele algumas horas depois disso, discutindo como iriam contar a suas famílias, até mesmo decidindo vender seu apartamento — nenhum deles queria viver lá sozinho. Depois disso, eles relembraram seu encontro em Yale, todos os lugares que tinham viajado, e como ele tentou ensiná-la a montar sem sela no rancho de sua família no Texas. Foi realmente agradável, como se fossem dois velhos conhecidos colocando a conversa em dia, sabendo que não deviam nada um ao outro e que eles provavelmente não se veriam outra vez. Depois de Corinne deixá-lo, ela chorou por horas, surpresa que ela tinha feito essa escolha que mudaria sua vida. Mas a cada dia que passava, ela tinha chorado menos, e hoje ela não tinha nem chorado. A representante do serviço ao cliente da Bendels desfez a caixa e olhou para o presente. — Oh, que lindo. — Ela tirou uma taça de cristal. A etiqueta flutuou para fora também. “Boa sorte, Corinne! Com Amor, Danielle Gilchrist e Brett Verdoorn.” Pobre Danielle. Um monte de blogs de fofoca tinha implicado que ela sabia o que sua mãe estava fazendo. Outros disseram que ela tinha estado manipulando a sua mãe, incentivando-a a matar as herdeiras Saybrook, uma por uma, na esperança de Danielle finalmente capturar todo o pote. Mas Corinne não acreditava nisso. Ela tinha visto Danielle naquela ponte; ela havia ficado arrasada ao descobrir que sua mãe era um monstro. Era possível que Danielle sentisse que sua mãe estava desequilibrada, mas ela não tinha tido nenhuma ideia de que ela era uma lunática completa. Mas havia alguém que tinha, no entanto: o pai de Corinne.


Razão pela qual ela mal havia falando com ele. Ela ainda não tinha ligado para ele depois de a notícia ter saído esta manhã no Abençoados e Amaldiçoados, é claro — que Mason estava sendo acusado de obstrução da justiça no assassinato de Steven Barnett. Sem dúvida, ele iria pagar alguém e fazer desaparecer. Talvez um dia Corinne perdoasse seu pai, mas agora ela só precisava de distância. Ela se sentia da mesma forma com seu avô. Pessoa por pessoa, seus ídolos tinham caído de seus pedestais. Tudo havia mudado, ao que parecia, e ainda assim, aqui estava ela, sem opção a não ser seguir em frente. A vendedora colocou o item atrás dela e digitou algo na tela. Corinne desembrulhou mais alguns pacotes e devolveu um cobertor de cashmere, uma bandeja de Versace para aperitivos, e um par de taças de cristal com bordas douradas. De repente, ela pensou nos pratos incompatíveis que ela e Will tinham usado na noite que eles estavam em seu apartamento. Ele os comprou em mercados de pulga por um dólar cada, e todos eles tinham uma história antes de Will comprá-los. Isso era muito mais interessante do que uma bandeja de aperitivos por trezentos dólares. Will. Ela olhou para o telefone, mas é claro que ele não havia ligado. Será que ela ainda queria que ele ligasse para ela? Ela tinha sido a única a dizer-lhe que era tarde demais. Ele tinha que saber que eles tinham cancelado o casamento. Mas será que ele se importava? Corinne deixou cair o telefone de volta na bolsa. A vendedora pegou o item final, e Corinne girou ao redor, inalando os aromas florais em todo o salão. Ela examinou o diretório, seu olhar varrendo os vários departamentos e pisos. Ela havia tirado o dia de folga, mas ela não tinha para onde ir, e não havia nada que ela queria fazer. Ela pensou em visitar sua avó, mas ultimamente Edith tinha estado de cama. Ela alegou que não estava se sentindo bem, apesar de Corinne acreditar que na verdade ela não tinha ideia de como lidar com a verdade sobre os negócios. As primas decidiram convocar uma reunião familiar para anunciar o que sabiam. Em vez de balançar a cabeça envergonhada, Edith tinha ficado chocada — ficou claro que ela não tinha ideia do que o marido havia feito. Na quinta avenida havia um enxame de pessoas e veículos, e Corinne virou à direita, sem nada melhor para fazer do que andar em direção ao escritório. Era um dia brilhante de junho, as calçadas e janelas brilhando ao sol. Em um universo paralelo, ela ainda estaria em sua lua de mel com Dixon na África do Sul. Em um universo paralelo, ela estaria com Will, sentada no bar de seu restaurante. Em um universo paralelo, ela teria sua filha também. E Poppy não estaria morta. — Corinne? Ela se virou. O sol estava em seus olhos, então a princípio a figura na calçada era apenas uma forma escura. Ela protegeu os olhos. Will.


As mãos de Corinne ficaram moles. — O-olá — ela conseguiu balbuciar. — Você está aqui. Will caminhava em sua direção, uma sacola da Trader Joe balançando em seu braço. — Eu estive pensando em te ligar. Seu coração deu um salto. — Sério? O sol inclinou-se contra as feições de Will. Ele sorriu tristemente para ela. — Sim. Então. Você não vai mais se casar. Corinne sacudiu a cabeça. — Eu não poderia ir em frente com isso. — Como sua família reagiu? Do outro lado da rua, três pombos empoleiraram-se no alto da Torre Trump. Todos eles pareciam velhos gordos, estabelecidos em seus caminhos, como se esse tivesse sido seu poleiro por anos. Corinne tinha se preparado para contar aos pais dela que ela tinha terminado com Dixon. Os olhos da sua mãe tinham se arregalado, seu pai ficou em silêncio. Mas Aster não se importou. Tampouco suas primas. E os pais dela não tinham sequer dito que estavam desapontados — na verdade, a mãe de Corinne a abraçou depois. — Eu acho que foi tudo bem. Mas não tenho ideia de como julgar mais nada — disse Corinne, de repente esmagadoramente cansada. — Eu nem sei o que pensar sobre as coisas. Talvez eu nunca saiba. — Sabe, você disse que era tarde demais para nós, mas eu não acho que seja. Nunca é tarde demais. — O que você quer dizer? Ele pegou a mão dela. — Por que apenas não começamos de novo? Começando novamente, aqui, agora. Começar de novo? Simples assim? Ela olhou para a mão dele, considerando o que ele tinha acabado de lhe oferecer. Havia algo na simplicidade disso que trouxe à sua mente um dos poemas favoritos de Corinne, “A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock”. Edith costumava citar parte dele o tempo todo, a frase sobre como preparar um rosto para encontrar os rostos necessários para encontrar, mas Corinne estava pensando nas primeiras frases do poema em vez disso, sobre um casal que vai para a noite enquanto a noite se espalha atrás deles. Isso soava esperançoso. Pedestres ocupados passavam correndo por eles. Os pombos elevaram-se do topo dos arranha-céus do outro lado da rua, de repente era a mais bela vista que Corinne já tinha visto. Ela enrolou os dedos nos de Will. Ela não tinha ideia o que o futuro traria. Mas em outras palavras: ela iria esperar para ver.


34 Traduzido por Matheus Martins

N

uma sexta-feira à noite, Rowan abriu a porta do apartamento de Poppy e deixou cair as chaves de volta no bolso. — Aqui estamos nós — ela anunciou. — Eu mal posso esperar para ver todos os meus brinquedos novamente! — Skylar exclamou, empurrando Rowan para correr para dentro. Rowan trocou um sorriso com Aster, Corinne, e Natasha, que estavam em pé atrás dela. Corinne ajustou seu aperto em Briony, que estava chupando loucamente uma chupeta, e olhava para o foyer. — Bem? Eu acho que todas nós devíamos entrar. Elas entraram em fila, uma por uma. A sala estava escura, as cortinas fechadas. Havia coberturas para móveis sobre os sofás, os tapetes ainda tinham linhas do aspirador de pó entre eles, e todos os brinquedos das crianças haviam sido embalados, embora Skylar estivesse fazendo um bom trabalho ao puxar tudo para fora e arremessa-los ao redor. Skylar e Briony tinham ido ficar com seus pais, enquanto James estava em uma viagem de negócios de duas semanas. Enquanto ele estava fora, ele pediu a Rowan e suas primas para pegarem as roupas de Poppy, joias e outros itens, para decidir quais itens iam manter para as meninas e quais iam leiloar para caridade. — Vamos começar — disse Rowan rapidamente, voltando-se para o quarto de Poppy com um dardo de apreensão. Ela não queria pensar em James dormindo lá com mulheres que não eram Poppy. No entanto, quando ela entrou no quarto, ela não sentiu... nada. Nenhuma pontada de querer James de volta. Nenhuma memória dele piscando em sua mente. A única coisa que ela pensou foi em um momento quando ela e Poppy tinham passado um tempo aqui depois de Skylar nascer, quando James teve que sair em uma viagem de trabalho. Elas se empilharam na cama, a pequena Skylar nos braços de Poppy, e assistiam ao programa Food Network por horas. Rowan pegava tudo o que Poppy precisava e pegou Skylar quando Poppy queria cochilar, olhando para os lábios perfeitos de Skylar, sua pele lisa, sua expressão plácida. Em um determinado momento, ela olhou para cima e encontrou Poppy olhando para ela.


— Você vai ser uma boa mãe, Ro — Poppy dissera. E Rowan seria uma boa mãe — algum dia, de uma forma ou de outra. E, quanto a vida sem James, ela estava otimista sobre isso também. Um velho amigo da faculdade de direito chamado Oliver tinha ligado há alguns dias, e eles conversaram por quase uma hora. Rowan se lembrava de como ele era bonito; ele a convidava para sair algumas vezes na época, mas ela sempre recusava. Ela só tinha olhos para James. Mas isso era antes. Ela e Oliver tinham feito planos para ir para a wd~50 amanhã à noite. Pela primeira vez em, bem, desde muito tempo, ela estava realmente excitada sobre isso. As primas abriram o armário de Poppy, e as luzes do teto se acenderam. As roupas de Poppy estavam penduradas em fileiras alinhadas e organizadas. Seus sapatos estavam alinhados nas prateleiras no chão, e ela tinha gavetas especiais para cintos, bolsas pequenas, joias, chapéus e outros acessórios. Na parte de trás do armário estavam os vestidos que ela usava para eventos especiais, as cores vivas e os tecidos brilhantes, como uma fila de anéis em uma caixa de joias. Skylar correu para o quarto também, e urrou suavemente. — Eu amo o guarda-roupa da mamãe — ela disse em uma voz educada e reverente. — Não toque em nada, ok? — Corinne aconselhou. — Oh, eu sei. — Os olhos de Skylar brilhavam. — Uma boa menina sempre pergunta antes de tocar. Rowan escondeu um sorriso. Nos meses desde a morte de Poppy, Skylar tornou-se séria, educada, e quase... sábia. Era como se ela entendesse que um dia o manto Saybrook seria passado para ela, e que era melhor ela se preparar agora. Rowan pôs a mão no ombro de Skylar, sentindo pena da menina. Ela ainda não conseguia entender a ideia de não ter uma mãe durante a sua infância. Mas, mesmo que James não tivesse sido um grande marido, tanto quanto Rowan podia dizer, ele era um bom pai. Natasha deu um passo adiante, tocando a frente de uma caixa de sapatos. Sua respiração estava ofegante. Ela só tivera alta há dois dias, mas ela insistiu em vir para ajudar. — Você está bem? Natasha assentiu. — Eu vou ficar. — Ela sorriu para Rowan e apertou a mão dela. Em seguida, a campainha tocou. Todas olharam uma para a outra, mas, em seguida, uma luz se acendeu nos olhos de Aster, e ela correu para atender. Segundos depois, Danielle Gilchrist apareceu na porta do guarda-roupa. Seu cabelo vermelho pendia de seus ombros, e ela usava uma camisa branca feita sob medida, calça lápis preta e botas pretas de aparência cara de couro. Havia algo clássico na roupa, Rowan pensou; era tanto despretensioso como luxuoso.


Era, ela percebeu, exatamente o jeito que uma herdeira de Manhattan deveria se vestir. Afinal, Danielle estava em treinamento também. — Vocês têm certeza que está tudo bem eu estar aqui? — disse Danielle, olhando nervosamente ao redor. — É claro — disse Aster ansiosamente, agarrando-lhe a mão e puxando-a para o grande guarda-roupa. — Nós estávamos apenas olhando algumas coisas. Venha nos ajudar. Elas começaram a vasculhar os vestidos. — Lembram-se disso? — perguntou Corinne, segurando um vestido Chanel de penas e contas que Poppy tinha usado para ir ao Metropolitan Opera alguns anos atrás. Aster o arrebatou. — Oh, vocês acham que ela se importaria se eu ficasse com esse? Corinne deu-lhe uma olhada. — Onde você usaria isso? — Em uma festa de Halloween — Aster brincou, deslizando o vestido sobre seu corpo magro. Coube-lhe perfeitamente. Natasha se endireitou. — Eu quero vestir algo também. — E eu, por favor! — Skylar ofereceu, estendendo os braços. Rowan encontrou um chapéu listrado que Poppy tinha comprado em uma viagem a SaintTropez e deu a ela. Skylar colocou-o sobre a cabeça, rindo. — Podemos fazer um desfile de moda? — Oh, querida, eu não sei — disse Corinne com cautela, balançando Briony para cima e para baixo. — Vamos lá, vai ser divertido — Aster decidiu. — Eu topo — Natasha concordou. Corinne deu de ombros, colocou Briony no chão, puxou um vestido azul da prateleira e começou a desfazer o fecho. — Tudo bem, vocês me convenceram. — Eba! — Aster gritou, empurrando um vestido longo azul-pavão em Danielle. — Vista esse! Vai ficar incrível em você! Danielle parecia tocada. — Vocês querem que eu participe disso? — Ela correu os dedos ao longo do tecido de seda. Aster agitou as mãos. — Para de perguntar isso. Você é uma de nós agora. Agora, vamos lá. Você é uma de nós agora. Aster estava lidando com isso tão bem — mas essa era Aster, sempre pronta para o que a vida jogava nela. Rowan olhou para Danielle novamente quando ela calmamente abriu a parte de trás do vestido. Ela queria gostar de sua nova prima. Ela queria abraçá-la, tanto quanto Aster havia feito. Mas ela não tinha certeza se confiava muito nela ainda. Talvez não tivesse nada a ver com Danielle e tudo a ver com Julia — afinal, Danielle era tão vítima como todas elas. Rowan selecionou um vestido preto de franjas e colocou-o em um minuto, sentindo-se um pouco como Poppy enquanto fechava o zíper. Momentos depois,


quando Rowan olhou ao redor, todas elas tinham se transformado em Poppy, sua pele brilhante, os olhos brilhantes, seus sorrisos confiantes. Até mesmo a pequena Skylar com seu chapéu e uma túnica rosa de Poppy que ia até seus tornozelos se parecia com ela. Na luz fraca do quarto, seu rosto virado em um ângulo particular, ela se pareceu tanto com Poppy que fez Rowan ficar sem fôlego. Então ela percebeu o quão ridículo elas pareciam em pé no meio de um guarda-roupa em tais vestidos ornamentados e pés descalços, e ela começou a rir. Parecia de repente como se elas fossem crianças em Meriweather novamente, brincando de se vestir nos armários de suas mães. Aster correu para o aparelho de som e colocou uma música dançante, balançando com a batida. Então ela começou a deslizar pelo chão, balançando os quadris e colocando um olhar confiante em seu rosto. — Vai, garota! — Rowan gritou para ela, balançando com a música também. — Aster, você ainda desfila muito bem — Natasha admitiu. — Definitivamente — acrescentou Corinne, o que fez o rosto de Aster se iluminar. — Alguma vez você já pensou em modelar de novo? Aster soltou uma gargalhada. — Eu fico com a Saybrook. Vocês não ouviram? Chato é o novo preto. — Então ela enlaçou o braço em volta de Natasha. — Talvez Danielle pudesse recrutar você também. Danielle, que tinha acabado de vestir o vestido azul — que tinha ficado incrível nela — olhou para cima. — Isso pode ser arranjado. — Seria muito divertido! — Aster gritou, batendo palmas. — Todas nós poderíamos estar lá. Almoçar todos os dias, sair para coquetéis depois do trabalho, fazer retiros na conta de despesas da empresa... Natasha balançou a cabeça. — Eu acho que não. Na verdade, eu estive pensando em sair de Nova York por um tempo. Viajar para algum lugar remoto, colocar minha cabeça no lugar. Corinne parecia devastada. — Você está indo embora? — Não vai ser por muito tempo — Natasha prometeu. Em seguida, um sorriso malicioso apareceu em seu rosto, e ela disparou pelo corredor, balançando os quadris como Aster. No final do corredor, ela enfiou os braços para o ar de forma dramática, assim como ela costumava fazer no fim das suas coreografias ou em um solo. Todas caíram na risada. — É a vez de Rowan! — Corinne chamou quando Natasha acabou. Rowan olhou para o vestido de Poppy. Era tão longo que se arrastava no chão. — Eu preciso de sapatos — ela anunciou. Ela vasculhou os sapatos no guarda-roupa de Poppy. — Ooh, eu sei que ela tem algum sapato-aberto prata que ficaria ótimo com esse vestido — Aster anunciou, se ajoelhando também. Ela puxou uma


pequena escadinha da parte de trás e subiu nela para verificar as prateleiras superiores, procurando o par em questão. — É a minha vez! — Skylar puxou a saia de Rowan quando Rowan terminou. — Olhem para mim! Todas elas aplaudiram Skylar conforme ela empinava pelo longo corredor. O chapéu flexível caiu pela metade da sua cabeça, mas ela o pegou com um floreio. Após Skylar desfilar, foi a vez de Corinne, suas bochechas brilhando. E depois Danielle. Elas selecionaram mais vestidos, testaram mais itens, e ainda se divertiram com algumas das compras por impulso de Poppy, incluindo um par de plataformas de pele de cobra verde neon e um casaco que parecia como se tivesse sido feito de cabelo. Rowan se sentou por um momento, observando todas elas, sentindo-se por um momento em paz absoluta. Tudo parecia tão bom. Tão seguro. E ela percebeu, com um sobressalto, que ela adorava sua vida. Suas primas, sua família, sua integridade. Isso finalmente parecia ser o suficiente. Mais do que suficiente. Do outro lado do quarto, o telefone soou alto. Franzindo a testa, ela olhou para ele, então se virou para Aster, que tinha pego um vestido branco bonito, mas totalmente impraticável, que era transparente em cima e tinha uma saia volumosa que parecia como se tivesse sido feito de centenas de tranças de seda. — Nem mesmo eu poderia tirar isso — disse ela. — Parece um vestido de princesa! — Skylar gritou, estendendo a mão para ele. O telefone tocou novamente. Rowan disparou um sorriso rápido para suas primas, em seguida, levantou-se e atravessou o quarto. Ela puxou o telefone de sua bolsa e olhou para a tela. Seu estômago caiu a seus pés. Nova postagem do Abençoados e Amaldiçoados. O site tinha ficado estranhamente silencioso desde o desaparecimento de Julia. Não tinha sequer um link para a história sobre o impasse na ponte, ou uma dica de que Corinne tinha cancelado o casamento, ou tudo sobre Danielle, apesar da Page Six e Gawker ter dedicado dias para todas essas histórias. Também não haviam fotos espontâneas delas. Nenhum vídeo não autorizado. Nem conversas ouvidas por acaso. Isso era uma prova de que Julia, apesar de seu protesto na ponte, tinha estado gerenciando o site? Ou ela apenas fornecia ao gerenciador os petiscos mais suculentos? Rowan pressionou o link que a levou para a página. Como previsto, havia uma nova postagem. Rowan piscou duramente. Palavras enormes enchiam a página. Fotos, também. — Uma herdeira, duas herdeiras, três herdeiras, quatro — dizia, mostrando fotos de Rowan, Corinne, Aster e Natasha. Rowan rolou um pouco para baixo. — Cinco herdeiras, nova herdeira. — Uma foto de Danielle. E depois: — Eles sabem que há mais uma?


Os olhos de Rowan ficaram turvos. Ela entendeu essas últimas palavras individualmente, mas não como um grupo. Do que o site estava falando? Havia outra herdeira: Poppy, mas agora ela estava morta. Ou talvez isso significasse herdeiros? Mas havia quatro herdeiros: seus irmãos, e também Winston e Sullivan. De alguma forma, ela não achava que significasse nada disso, no entanto. Seus dedos começaram a tremer. Um gosto metálico encheu sua boca. Danielle colocou a cabeça para fora do guarda-roupa. — Você está bem, Rowan? Rowan levantou rapidamente, cobrindo a tela do telefone com as mãos. O olhar de Danielle estava intenso. Ela sabia, talvez? Ou talvez Rowan estivesse enlouquecendo. — Eu estarei aí em um segundo — ela disse distraidamente, esperando que ela não parecesse ansiosa. — Eu só preciso cuidar disso aqui. Isso não significa nada, ela disse a si mesma, respirando fundo. Quem quer que tenha postado aquilo estaria apenas ferrando com eles mesmos. Não havia mais Saybrooks. Não havia mais segredos. Eles sabiam tudo o que precisavam saber. E ainda assim ela não pôde deixar de espreitar novamente. Mas quando ela olhou para a tela mais uma vez, a página estava em branco. Ela clicou para atualizar de novo e de novo, com o coração batendo forte. Mas sem mais nem menos, a postagem tinha desaparecido.


Um Ano Depois Traduzido por Manoel Alves

E

ra fim de tarde na festa anual da família Saybrook no fim do verão em Meriweather. Edith Saybrook sufocou uma tosse enquanto caminhava até a varanda. Embora o termômetro marcasse quase vinte e nove graus, ela sentia um frio impenetrável. Ela puxou seu casaco de pele mais próximo do pescoço. Sua neta, Corinne, olhou para cima de sua cadeira Adirondack alarmada. — A senhora está bem? — É claro — Edith retrucou, agarrando seu Perrier sabor limão. — Eu sou tão saudável quanto um boi. Corinne tomou um gole de sua limonada. Seu novíssimo noivo, Will, trocou um olhar preocupado com ela. Eles formavam um casal bastante agradável, e ela certamente parecia mais feliz do que tinha estado com o rapaz Shackelford. Que confusão que tinha sido, mas estava tudo acabado agora. Não que os tabloides pensassem assim. Repórteres ainda estavam ligando para Edith para ela comentar se Dixon e Corinne iriam se reconciliar. Desistam, ela sempre pensava. Edith olhou da varanda para a festa no pátio. Embora eles quisessem que a festa do Dia do Trabalho fosse uma cosia pequena, principalmente para celebrar Loren DuPont, uma nova cliente que a irmã de Corinne, Aster, havia cortejado e transformara aquilo em uma festança de duzentas pessoas. Ela viu Aster, usando um vestido coquetel prata, conversando com a própria Loren, e o homem que ela andava saindo — Michael? Mitchell? — em pé, desajeitadamente, ao seu lado. Com Elizabeth demitida — Edith nunca gostara dela — Aster tinha sido promovida à comunicação com clientes associados, e ela trouxera um monte de novos negócios. É claro, Edith sempre tinha visto o prodígio que era aquela menina. Outra neta de Edith, Rowan, brilhando em um vestido branco curto, exibindo sua figura atlética e de mãos dadas com um homem alto, cujo nome ela nunca conseguia se lembrar — eles se conheceram na Columbia Law Review, talvez? — estava deixando a filha mais velha de Poppy acariciar um daqueles cães imundos que ela possuía. E depois viu aquela novata, a ruiva que morava na casa dos cuidadores, mas que agora ficava aqui. Era revoltante a forma como todos eles se apaixonaram por Danielle agora. Ela era uma mulher adulta, pelo amor de Deus. Como eles poderiam ter tanta certeza que Danielle não tinha feito parte do esquema de sua


mãe? Edith pensava seriamente em ir até lá e ter uma conversa com Danielle, de uma vez por todas. Mas ela se sentia tão cansada. E de repente ela não conseguia lembrar o nome da neta que tinha ido para a Índia logo depois que ela se recuperou de seus ferimentos. Ela ainda estava lá — acabara de enviar um cartão-postal há poucos dias de uma criança na beira da estrada? Essa era a ovelha negra, a que por tanto tempo fingiu não ser boa o suficiente para a família. — Vovó? — Corinne olhou para ela com curiosidade novamente. Então ela lembrou: Natasha. Claro. — Eu te disse, eu estou bem. — Edith estava ciente de que Corinne tinha sido enviada até ali para bancar a babá. — Meu Deus, eu estou apenas com gripe! Vocês estão agindo como se eu tivesse a peste. Corinne e o fulano trocaram outro olhar secreto. Edith puxou a pele para mais perto, de repente atingida por uma paranoia. Eles poderiam saber? Talvez suspeitassem que não fosse gripe? Eles não podiam. Ela mantinha as aparências tão bem. Ainda assim, em sua mente, ela visualizou o médico, um arrivista impertinente chamado Myers, exibindo seus exames de ressonância magnética em uma tela brilhante. — É uma trajetória bem incomum para este tipo de câncer — ele disse a Edith. Ela visitou-o sozinha naquele dia, assim como tinha ido sozinha para o exame de sangue e a ressonância magnética também. — Normalmente, esses tipos de lesões são de crescimento lento, fácil de parar. Mas esse... bem... Ele havia descrito todos os medicamentos e os tratamentos que poderiam tentar, embora não parecesse muito otimista sobre seu prognóstico. Seja o que fosse, tinha se espalhado. Edith se levantou, lívida. — Eu vou consultar uma segunda opinião. Você não sabe quem eu sou? O médico pareceu assustado. — Senhora Saybrook, o câncer não tem favoritos. Soou como algo que se pode colocar em um adesivo. Edith saiu do consultório, quase escorregando no linóleo duro. Mas, no elevador, ela apertou cada andar só para ter alguns momentos de paz. Uma voz calma sussurrou sedutoramente em sua mente. Você sabia que esse dia chegaria. No fundo, você

sabia de tudo. Ela sabia? Ela poderia saber? Oh, ela se fez muitas perguntas sobre o que suas netas revelaram que Alfred tinha feito. Mason sabia. Poppy também... e Natasha, Candace e Patrick, e ele só era parente por causa do casamento. E então todo mundo tinha olhado para ela, esperando que ela soubesse do segredo também. E ela ficou lá, com cara de paisagem, mas por dentro ela só se sentia... murcha. Perfurada. Meu Deus, ela pensou. Ali estava, depois de todos aqueles anos. Estendido como um cadáver. Ela se lembrava de quando Alfred voltou da guerra como se fosse ontem. O quão orgulhoso ele estava para mostrar-lhe os diamantes que ele tinha


encontrado! — Eu arranjei isso em um bazar em Paris — ele disse, emocionado, segurando uma grande pedra amarela contra a luz. Deus, era tão grande quanto uma bola de beisebol. — Oh, Edie, não é lindo? Nós vamos ganhar uma bolada. Mas algo a incomodava na história. Um bazar em Paris? O que eles estavam fazendo naqueles mercados de pulgas em um momento como aquele? E onde ele tinha conseguido dinheiro para comprar pedras? Perto do fim da guerra, toda hora Alfred se queixava em suas cartas sobre mal ter dinheiro para um filme e uma cerveja, praticamente esquecendo que Edith estava lutando em casa tentando manter sua loja de joias aberta. E ela ouviu os sussurros também. Coisas abaixo da moral acontecendo entre os soldados Aliados. Furtos de pessoas que já tinham tido sua dignidade despojada. Eles raciocinaram isso, Edith supôs, porque sentiram que eles deviam algo pelo seu sacrifício. E assim eles pegaram... e não contaram. Mas seu Alfred não era assim, não é? Ele não era um homem bom, um homem honesto? Mesmo assim, ela tinha perguntado, de uma forma indireta, só para ter certeza. Alfred disse a ela, uma e outra vez, que tudo era legítimo. — Apenas fique feliz — ele disse a ela em seu caminho para o leilão naquela manhã. — E preparese, porque toda a nossa vida vai mudar. E então isso aconteceu. Aquela pedra foi vendida por uma fortuna. Alfred ganhou reconhecimento nacional por ela, e ele investiu o dinheiro que ganhou de sua venda na loja. A Saybrook cresceu. Alfred vendeu os outros diamantes que ele havia “adquirido” enquanto estava no exterior, ampliando a loja novamente. Ele fez ligações com as melhores minas e fornecedores. Com uma parte dos lucros, ele foi capaz de comprar os melhores diamantes, transformando-os em joias de alta qualidade. Logo as pessoas de Nova York estavam vindo para Boston para vê-lo. E logo depois disso, foi tomada a decisão de mover-se para Manhattan. Cada vez que um Saybrook morria tragicamente, Edith não estava cem por cento surpresa. Mas admitir que isso era carma, uma maldição? Acreditar nisso, concordando com a imprensa que a sua família era amaldiçoada — bem, isso significava admitir que eles tinham feito algo para merecer isso. E assim ela dispensou aquilo como se fosse um disparate. Agora Edith fechou os olhos. Isso foi há muito tempo. E o que Edith estava sofrendo provavelmente era uma gripe, não algum tumor berrante e amorfo, atacando-a de dentro para fora. Ela certamente não merecia esta doença por ter mantido a boca fechada todos esses anos. Ela não acreditava em maldições. Era isso. Um barulho estranho a assustou, acordando-a. Ela abriu os olhos, não tendo consciência de que havia cochilado, e olhou em volta. As duas cadeiras ao lado dela estavam vazias agora. A música tinha parado. Os hóspedes congelaram, com coquetéis na mão.


Um grito veio da praia. Edith levantou. Quem era? Então Patrick emergiu dentre os pinheiros. — Socorro! Todo mundo começou a se mover. Embora ainda desorientada, Edith desceu pelo outro lado do gramado. Ela procurou freneticamente por suas netas, mas não viu uma única sequer. Alguns homens passavam através do grupo, oferecendo seus serviços. Mas onde estava Aster? Onde estava Rowan? Edith queria chamá-las, mas sua voz não saía. Havia um pequeno círculo em torno de um corpo na areia. O coração de Edith deu uma guinada. — Liguem para a emergência! — uma voz gritou. Patrick caiu de joelhos sobre o corpo. — Ela está respirando? — alguém gritou. — Há pulsação? — Quem é? — Edith gritou, lutando furiosamente para passar pela multidão. Um estranho que ela nunca havia visto antes se virou e arregalou os olhos. — É um dos seus. Aquilo acertou Edith como um golpe no peito. O estranho deu um passo para o lado para Edith poder passar. Ela ajoelhou-se na areia, tocando os pés descalços de uma menina. Patrick pairava sobre ela, tentando fazer reanimação cardiopulmonar. — Saia da frente — Edith rosnou para seu filho, que rastejava sobre o corpo. Ela olhou para o rosto da menina, reconhecendo aqueles familiares olhos azul-gelo, o nariz inclinado, o pingente oval de diamantes que Edith havia dado a cada uma de suas netas em seu décimo oitavo aniversário. — Não — ela gritou, caindo contra a menina. Não podia ser. Não mais uma. Seu tumor não era o suficiente? Ela não podia ser o sacrifício? A maré aproximou-se, atingindo Edith com um choque de frio. As pessoas corriam para lá e para cá, gritando instruções em pânico. Edith olhou para as árvores, suspeitando que alguém estava olhando. Julia Gilchrist nunca tinha sido encontrada. Poderia ser ela? Poderia ser outra pessoa? Ou talvez fosse outra coisa. Talvez tivesse sido outra coisa o tempo todo. Uma ambulância badalava pelo caminho. As pessoas correram para os paramédicos, direcionando-os para o corpo. Mas o olhar de Edith permaneceu fixo na mata, à espera de quem quer que seja — ou o que quer que seja — se revele. De repente, ela tinha uma certeza: a maldição estava ali novamente. Ou talvez nunca os tivesse deixado.

Fim!


Agradecimentos Agradecemos a ajuda de todos os tradutores que possibilitaram que esse livro fosse traduzido. E tambĂŠm a todos os fiĂŠis frequentadores e seguidores do nosso blog e Facebook, que sempre nos apoiam!


The heiresses [as herdeiras]