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As Telas de Rosa Branca - Maio de 2012 _________________________________________________________________________

AS Telas de Rosa Branca Conto de Maria dos Santos Alves

Maria dos Santos Alves

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16-09-2012


As Telas de Rosa Branca - Maio de 2012 _________________________________________________________________________

As telas de Rosa Branca

Pousou a paleta com quase cem anos de uso, se as tintas secas ao menos pudessem falar, mil histórias teriam para contar. Olhou a tela em branco, sinónimo do seu vazio interior. Não há sentimento a efervescer, a alma está quieta, sem tristeza ou alegria, apenas inerte naquele espaço que de si fez o artista solitário e anónimo em sociedade repleta de ironia e heresia. Da tela imaculada transferiu o seu olhar novamente para a paleta, repleta de cor, de sentimento, onde o amor, a raiva, o desejo e tantas outras formas de sentir nela iniciou o seu processo de exteriorização, sem pensar, sem medir consequências, como se naquele momento fosse o único, alheio ao mundo e a todos,

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egoísta em cada pincelada firme sobre qualquer tela inocente. A sua paleta de madeira, revestida com mil carmas sob a forma de cores e pinceladas, umas mais, outras menos rudes, conforme o seu estado de alma no tempo e no espaço, permanecia, ali, ao seu lado, tornando-se ao longo dos tempos a sua mais fiel confidente. São tantas as cores sob a forma de manchas de tinta ressequida, como os sentimentos e as experiências que o tornaram homem. Uma vida, tantas histórias de amor e desamor, e naquele instante sentiu ter bebido o último trago de inspiração da fonte que lhe deu vida. Pegou no pincel, mas a firmeza necessária que ele lhe exigia já não lhe conseguia ofertar. A mão tremia, tal como o corpo balançando-se numa corda bamba. Restava-lhe olhar a sua paleta e rever as mil e umas telas imaculadas. Telas freneticamente invadidas, penetradas com sentimentos vivazes que nas veias e na alma lhe vagavam.

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Na morte assinalada pelo último sopro, o desejo era que toda a sua arte fosse consagrada com pasmo e admiração, inspirando outros que ao berço foram abençoados com a mesma maldição. Foi à sombra da solidão, da calmaria de rios despejados de ambição que a sua última inspiração se transformou na sua maior criação. Uma tela cândida, inocente e pura, carregada com uma vida repleta de imperfeições, fruto de um ser pertencente a uma qualquer sociedade, mas lotada de sentimento, porque era acima de tudo, Homem. Nesta tela suspensa, no centro do seu mundo, deixou a paleta como testemunho de toda a sua fúria, sensibilidade, paixões e desejos, desilusões e vitórias. A sua vida gravada ao longo dos tempos em borrões multicolores de tinta ressequida. Após concluída a sua última obra, deitou-se no sofá junto à janela e admirou a vista que dava para o mar.

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Focou a linha do horizonte, percorreu-a até onde a sua vista o permitia e voltou-se para a paleta, uma vida resumida a borrões de tinta, onde agora descansavam os pincéis que outrora delineavam e transcendiam linhas de horizonte como a que admirava ainda há pouco. Suspirou, sorriu e desfaleceu entre o resumo da sua vida e a linha do horizonte que na sua vida real nunca transcendeu. Infortúnio! Trocou uma vida normal pela de artista incompreendido, pois da sua desgraça vinha a inspiração. Havia quem procurasse a felicidade, ele apenas desejava a infelicidade, por isso se tornou um mal-amado, mas também, por isso se tornou o maior criador da sua época. Criatura estranha e noctívaga que deambulava pelas ruas de capa preta, cumprimentava o próximo acenando um pincel como que se os abençoasse com água benta e retomava ao seu centro, casa que herdara dos seus pais, localizada no cimo do

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monte com vista sobre o mar. Isolado do mundo e de todos, tal como era a sua ambição desde pequeno. Misterioso! Mas assim era feita a sua vida, de enigmas, pois dele pouco se sabia ou se ouvia. Apesar das suas poucas palavras, sempre foi cordial com o próximo, era considerado pelo povo como sendo um pouco louco, mas ainda assim admirado. Rezam os antigos que na sua infância uma bela sereia havia-se apaixonado por ele, mas tendo em conta o seu desprezo pela donzela, esta o havia marcado com a maldição da solidão e da infelicidade. Dizia o povo quando ele passava:” lá vai o pobre coitado enfeitiçado pelas Deusas do Mar!” Passava dias, fechados no alto da torre, onde tinha o seu atelier de pintura e onde guardava os seus mais íntimos

segredos.

Os

empregados

não

tinham

permissão para entrar, nem mesmo para limpar, pois dizia ele que a alma do seu centro deveria permanecer imaculada, com as suas virtudes e imperfeições, sem mãos alheias e olhares cobiçosos.

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Em 80 anos, nunca mostrara uma obra sua, simplesmente as pintava, admirava-as e por fim embrulhava-as, atando-lhes um cordel, marcando-as delicadamente com um destinatário e uma carta personalizada a quem se destinasse aquela obra. Antes

de

morrer

deixou

o

seu

testamento

religiosamente colocado na sua última tela e nele podia-se ler: “ A Libertação da minha alma Olho o mar e entro em transe, torno-me onda e entrelaço-me com as demais como se não houvesse amanhã. Percorro marés de percursos incertos, trocando

segredos,

acariciando

rochedos

e

acordando, por fim, num qualquer porto onde branqueiam as minhas lágrimas salgadas. E é assim… por breves instantes, que a alma se liberta de um corpo banal, refutando vulgares desejos carnais, viajando no tempo que não é o seu tempo, imaginando enlaces que nunca foram seus, mas com os quais se irmana num qualquer outro lugar.

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São desejos emaranhados, suplícios de alguém que me sussurra ao ouvido e que de certa forma tudo quer dizer mas o sufoco da solidão nada deixa soletrar. Cantigas

de

outrora,

cantadas

num

passado

longínquo, agora em eco através de um vento fugidio e desassossegado, tal como as almas que o guiam. Vidas idolatradas…mas esquecidas, algures num jazigo se assim tiveram essa sorte, outras perdidas por aqui

ou

por

ali.

São estes os pequenos murmúrios que a água revolta do mar e do rio, que o vento inquietante me vai largando na mente. São histórias de gentes da minha gente, lágrimas que já não são salgadas, mas que vertem em todos os rios, proclamando a sua existência na

ausência.

Não me sinto só, mas sinto dó de quem já esqueceu os primeiros passos, os primeiros beijos, os primeiros abraços, de quem já esqueceu a origem das suas lembranças. Valha-me estes campos verdejantes, onde nela se respira liberdade e esperança. Valha-me o mar e o rio

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onde o despejo da alma se refresca e se reencontra com velhos amigos e se brinda à amizade que é eterna. Este será o meu último sopro, o meu último capricho e desejo, como tal e dando-me esse direito suplico-vos em meu nome e em nome de todos aqueles que são hoje pó desta terra, mas que dela fizeram a mais bela da região, que convidem as suas famílias e que após me ofertarem à Deusa do Mar, os presenteiem com as telas que vos deixo devidamente identificadas. A todos aqueles que receberem uma tela, peço que olhando-a não esqueçam as suas raízes, os seus antepassados e que os recordem com saudade e um sorriso. A todas as outras telas, considerando-as obras de arte ou não, sejam reconhecidas ou não, peço que as leiloem e que doam o valor final à Aldeia das Crianças Perdidas. Esta casa, o centro do meu mundo, que seja entregue à minha filha, descendente da única mulher que amei. Será surpresa para muitos, principalmente para ela,

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mas espero um dia receber o seu perdão, quando assim ela o entender, sob a forma de rosas brancas, colhidas do seu futuro jardim, plantadas por mim no dia em que conheci a minha amada, sua mãe. A ela deixo também uma tela, que a guarde e estime no seu coração e que lhe perdoe tão malvado segredo que só a mim deve castigo. Assim me despeço com gratidão de todos aqueles que um dia me recordarão como o pintor solitário das telas secretas. Abençoados sejam e um até sempre!”

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Foi com a leitura desta carta que o povo se despediu do pintor solitário das telas secretas, muita admiração, alguma desconfiança, mas acima de tudo com muito respeito. Por entre a multidão, estava o filho do Pescador João, que ao abrir o embrulho que lhe foi deixado, deparou com o rosto do seu pai, bem delineado com as marcas do mar e do sol, ofertando um peixe a quem ali passava. Na carta que lhe foi deixada assim dizia: “A quem receber esta tela, peço que recordem o velho Pescador João, como o Homem que nada tinha, mas que matava a fome a quem por ali passava e assim o abençoei com o meu pincel.” Ao fadista da praceta, assim proclamado, pois era ali a troco de nada que cantava o fado, evocando a saudade e a solidão, e na sua dedicatória deixou gravado: “ Ao som das suas cantigas, revi o meu fado, derramei lágrimas salgadas à porta da minha amada, por isso pintei a sua guitarra gravada com uma rosa branca, suavemente regada com lágrimas salgadas.”

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Todas as telas e foram muitas, tinham um significado, algo que o ligava àquela pessoa, de forma direta ou indireta, mas que lhe haviam dado algo e em troca o nosso pintor idolatrava nas suas telas imaculadas, a alma que conduzia e guiava aqueles seres e que por tal assim haviam de ser recordados para todo o sempre. Estremecida por ver desvendado o mistério que há tanto tempo a assombrava, Rosa Branca não sabia o que pensar. A raiva misturada com toda aquela sensibilidade ali demonstrada parecia corroer-lhe a alma, como que se fosse explodir a qualquer momento. O seu nome, Rosa Branca, agora publicamente divulgado como símbolo do amor dos seus pais, estará para sempre ligado à história da vila onde cresceu. Hoje, compreende o fascínio que aquele homem sempre lhe havia criado, afinal era sangue do seu sangue. Reviu-lhe a sombra, sempre que passava junto à porta de sua casa e os olhares envergonhados e misteriosos que este lhe lançava sempre que a vi-a.

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Afinal os calafrios que sentia não era de medo ou receio, mas sim algo mais, talvez já fossem premonições dos laços que os juntavam. Recentemente havia perdido a sua mãe e agora via partir o seu pai, talvez de desgosto por nunca ter conseguido superar o medo e a ambição de viver na solidão e abraçar a felicidade do amor que sentia pela sua amada. Decidiu não abrir já o embrulho e a carta que ele lhe deixara, aliás pensava que nunca seria capaz de o fazer, afinal durante todos estes anos vivera sem pai, reconhecendo apenas naquele homem um estranho, uma criatura mística da vila onde nasceu. Quando lhe entregaram a chave do refúgio do seu pai, não conseguiu conter as lágrimas. Lágrimas ainda mal definidas, com ódio e admiração à mistura e até, talvez alguma renúncia.

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Resolveu caminhar um pouco pela praia, lavar a alma e todos os seus pensamentos revoltos em água salgada, por fim olhou o cimo do monte e avistou a torre, abrilhantada pelos raios solares que faziam reflexo nos vidros que a cobriam. Resolveu subir, talvez aquela casa lhe desse a conhecer um pouco mais sobre o seu pai. Atravessou os portões altos e enferrujados pelo tempo, parou em frente à roseira branca, admirou-a e continuou o seu percurso até à torre, o centro do mundo do seu pai. Quando entrou, reparou no cavalete, bem centrado no meio daquela sala, encostado às paredes permaneciam algumas telas, umas ainda imaculadas, outras já pintadas. Pelo chão ía encontrando alguns livros espalhados, na sua maioria muito antigos e gastos. Esbarrou-se contra o sofá, onde o haviam encontrado e admirou a paisagem que o tinha acompanhado nos seus últimos momentos. Era sem dúvida divinal. Ao virar-se reparou na tela que se mantinha no mesmo

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sítio, no centro, em cima do cavalete. A mesma tela onde haviam descoberto a carta do pintor com os seus últimos desejos. Reparou que a paleta estava colada no meio da tela imaculada, juntamente com os seus pincéis e compreendeu o seu significado. Ele tinha dado como encerrado o seu percurso terrestre e deixava toda a sua vida numa paleta quase centenária, marcada

com

manchas

ressequidas

de

tintas

multicolores. Aquele silêncio era completamente harmonizável com a restante paisagem e Rosa Branca parecia agora encontrar a paz necessária para repensar os últimos acontecimentos. Aqueles que mudaram por completo a história da sua vida. Resolveu, por fim, abrir o embrulho que nas últimas horas perseguia todos os seus pensamentos. Antes de olhar para a tela, retirou cuidadosamente a que estava sobre o cavalete e colocou a tela que o seu pai lhe deixara. Era simplesmente magnífica. A sua mãe, ainda muito jovem, deitada sobre a cama, nua de

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preconceitos segurando uma rosa branca, repleta de felicidade no seu olhar. Colado por cima da assinatura do artista, encontrava-se um envelope selado ao cuidado de Rosa Branca. Ao abrir o envelope caiu do seu interior uma chave. Mais um mistério que ela não sabia se queria desvendar. Apanhou-a, colocou-a sobre mesa de apoio do pintor e iniciou a leitura da carta que lhe era dirigida. “Minha querida Rosa Branca Fico feliz por o meu último desejo se ter concretizado. Se esta carta te chegou às mãos é sinal de que o meu último desígnio foi respeitado. Peço-te perdão…perdão minha querida e única filha, por nunca ter tido a coragem de te abraçar, de amparar as tuas quedas e de te amar de forma livre. Sempre fui um prisioneiro da infelicidade e da solidão, só para elas vivia e por elas respirava, pelo menos até conhecer a tua mãe. Minha querida amada.

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Foram os únicos momentos, apesar de breves em que consegui perceber o que era a felicidade e o amor. Amei-a desde o seu primeiro olhar, no dia em que ela me vendeu aquela Rosa Branca. Era pura, alegre, bemdisposta…era o que eu nunca consegui ser. Vivemos um mês de pura loucura, mas eu já tinha alguma idade e ela era uma jovem, tinha uma vida pela frente, pensava eu. No dia em que ela me disse que estava grávida, não consegui evitar e o medo da felicidade e de me tornar um ser normal, acobardou-me de tal forma que fui incapaz de a abraçar ou sequer voltar a olhá-la. Despedi-me de forma frouxa, escrevendo-lhe uma carta de despedida. Despedacei-lhe o pobre coração, mas ainda assim resolveu dar-te vida e educou-te como ninguém. Testemunhei a sua desilusão ao longo dos anos, pois nunca mais foi capaz de amar, tal como eu. Destrui a sua vida, sim porque a minha sempre foi vivida de forma solitária e era assim que eu queria permanecer. Não…nunca fui um ser normal e só te peço que me perdoes. Apesar da minha ausência, acredita que sempre estive presente, nunca deixei que

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vos faltasse nada, vocês eram a minha estrela guia. As chaves que te deixo abrirão o meu mundo oculto, aquele onde eu me tornei de forma imaginária um ser normal. Perdoa-me, Rosa Branca, sempre fui uma criatura incompreendida, louca se assim me quiseres chamar, vivi para a introspeção, vivi para a minha arte, fui egoísta, egocêntrico, mas nunca deixei de vos amar. Aguardarei pacientemente, belas rosas brancas a balançar sobre as ondas do mar, agora doce lar, centro do meu mundo e quando olhares a linha do horizonte, do alto da torre, lembra-te que deves, sempre, transcendê-la. Até Sempre, minha querida Rosa Branca” Rosa Branca não conseguia parar de chorar, as lágrimas escorriam-lhe, como se de um rio se tratassem sem saber onde iam desaguar. “Homem louco”, gritava sem parar. “Pobre homem louco”.

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Limpando as lágrimas, encheu-se de coragem e pegou na chave que se encontrava dentro do envelope. Procurou a referida porta secreta e encontrou o alçapão que dava para um outro refúgio do seu pai. Ao entrar, não queria acreditar, para além das riquezas de valor inestimável, ali largadas ao acaso, encontrou dezenas de telas pintadas, magníficas e que só a ela poderiam dizer alguma coisa. Encontrou a sua vida pintada em telas. A sua mãe grávida, os seus primeiros anos de vida ao colo da sua mãe, os seus primeiros passos, as suas primeiras lágrimas, o seu primeiro olhar de desamor, todas as etapas importantes da sua vida estavam ali, pintadas, gravadas na memória do seu pai e reproduzidas em telas imaculadas. Agora percebia as palavras do seu pai quando dizia que apesar da ausência, sempre estivera presente. Para além das telas encontrou um baú, onde descobriu dezenas de documentos que lhe eram dirigidos, postais desejando Feliz Aniversário, cartas contando e descrevendo viagens longínquas, que por certo ele nunca fizera, mas que de certa forma

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justificavam a sua ausência. Apesar de respirar melancolia, seu pai viveu uma vida imaginária, uma vida de felicidade, uma vida oculta, e só lamenta que todas aquelas imagens, nomeadamente a que constava numa das telas, em que ele fez o seu autorretrato, limpando

uma

lágrima

à

filha,

nunca

tenha

transcendido a tela, a linha do horizonte que o prendia no centro do seu mundo. Rosa Branca, considerava a vida do seu pai louca e não a conseguia compreender. Não conseguiu deixar de sentir compaixão pela sua vida infeliz, pela amargura em que ansiava viver e de o admirar por tudo o que fez, pelas memórias que guardou e pela sua vida secreta, descrita em todas aquelas telas e testemunhos ocultos e por isso chamava ao seu refúgio o Centro do seu Mundo. Sem qualquer resto de dúvida, desceu até ao jardim, colheu as mais belas Rosas Brancas e desceu a encosta até à praia mais próxima. Uma a uma, ia lançando-as sobre as ondas, dizendo baixinho:” Tenho pena, meu pai, de nunca ter sentido aquele abraço.

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Tenho pena de não ter tido a oportunidade de te chamar Pai, mas hoje ofereço-te estas Rosas, símbolo do vosso amor, pedindo que se amem no outro mundo e …sim…Pai…estás perdoado. Com estas palavras afastou-se ligeiramente de uma onda um pouco maior do que as habituais e quando esta recolheu deixou escrito na areia.

Por fim, livre! Obrigado, Rosa Branca.

Fim

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As Telas de Rosa Branca  

Tantas vidas numa vida!

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