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Movimento Marxista JORNAL DO MOVIMENTO MARXISTA 5 DE MAIO - MAIO / JULHO 2012 - ANO II - Nº 2 www.mmarxista5.org

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Por um sindicato livre da influência burguesa EDITORIAL Desde que o movimento operário mundial estabeleceu o Primeiro de Maio como dia internacional dos trabalhadores, como homenagem aos mártires de Chicago, o proletariado de todo o mundo comemora sua data maior no espírito em que foi concebida: com luto e luta. Grandes manifestações, protestos, choques com as forças da ordem burguesa. Foi o que ocorreu no último primeiro de maio. Menos no Brasil. No Brasil, apatia, festas, cantorias, distribuição de brindes, demagogia. E o maior responsável é o partido no governo, que não tem vergonha em se dizer “Partido dos Trabalhadores”. Porque foram e são os homens e mulheres deste partido que contrabandearam para o seio da burguesia toda a força e a energia que neles depositaram o proletariado brasileiro. Mas que não se iludam: mais dia menos dia, os trabalhadores se libertarão dos grilhões da conciliação de classe que o PT lhes amarrou aos pés.

Grécia

Os trabalhadores gregos mostram o caminho da luta contra as alternativas burguesas à crise do capital indo às ruas em defesa de seus direitos e reivindicações. É dado o momento da criação de uma verdadeira solidariedade internacional proletária capaz de unificar bandeiras e tarefas em torno das lutas concretas dos trabalhadores de todo o mundo.

O agravamento da crise mundial do capitalismo coloca como tarefa fundamental a criação de um sindicalismo verdadeiramente autônomo no país, de sindicatos que não se deixem pautar pela lógica da institucionalidade burguesa, do parlamento burguês, do estado burguês PÁG. 6

Arte e política Sempre coube à arte o papel de anunciadora de novos tempos e mobilizadora para o seu advento. Artistas, façam política, façam arte transgressora, façam arte transformaPÁG. 5 Oduvaldo Vianna Filho, o Vianninha dora, façam arte.

Instinto assassino

A presidente Dilma Rousseff era toda sorrisos na reunião em que convocou seus amigos empresários a usarem seu ‘instinto animal’ na exploração sobre os trabalhadores brasileiros. De fato, esta seria a porta de saída burguesa da crise mundial por que passa o sistema capitalista. PÁG. 2

A quebradeira geral do sistema mostra a verdadeira cara das instituições internacionais a serviço do capital em sua desesperada luta para tentar salvar os lucros da burguesia às custas de ainda maiores sacrifícios exigidos ao proletariado, como acontece com a União Européia. PÁG. 2


2 CONJUNTURA

PT ajoelha aos pés da burguesia

Cercada pelos ministros Mantega e Pimentel, a presidente Dilma era toda sorrisos de subserviência a seus patrões empresários, aos quais pediu que exercessem seu ‘instinto animal’ sobre os trabalhadores

Um verdadeiro espetáculo de desfaçatez. Foi esta a cena montanda no Palácio do Planalto no dia 22 de março passado pela presidente Dilma Rousseff, quando recebeu vinte e oito dos mais graúdos empresários do país para um evento muito especial. O prato do dia, servido bem ao gosto dos clientes, foi a conclamação a que todos

ali presentes aprofundassem a exploração sobre os trabalhadores. A presidente petista não mediu palavras. “Exerçam seu instinto animal”, afirmou a pretexto de uma solicitação a que a burguesia aplicasse seu capital em investimentos produtivos no país, explicitando a seguir a total garantia de que Eike Batista e seus comparsas já po-

diam ir contabilizando mais e maiores lucros. No fundo, o que o petismo quis deixar claro aos seus patrões foi o caminho que o governo escolheu para conviver com a crise que toma conta do capitalismo no mundo: o caminho do grande capital, o caminho da subserviência sem limites aos interesses dos

exploradores. E foi para que não restasse qualquer dúvida ou incompreensão no espírito mesquinho de seus alegres convivas é que a presidenta resolveu apelar para palavras de aberto insulto aos trabalhadores. Se alguém ainda guardava algum tipo de dúvida quanto ao caráter do petismo e a serviço de quem ele exerce o poder, a dúvida fica claramente desfeita. É verdade que, desde os primeiros movimentos que resultaram na tristemente famosa “Carta aos brasileiros” com que Lula se ajoelhou aos pés da burguesia para ganhar a eleição de 2002, toda a esquerda digna deste nome já se convencera de que o petismo se passara de maneira irrevogável para o lado da burguesia. De que o PT, o PCdoB e seus aliados já haviam se transformado em partidos burgueses. O que a cada dia fica mais claro aos olhos dos trabalhadores.

Crise capitalista está longe de ser superada Ao contrário do que sustentam até mesmo alguns segmentos da esquerda, o capitalismo está muito longe de superar a crise evidenciada na falência de seus principais monopólios financeiros em 2008. O fato é que não existem alternativas de curto prazo para a superação da crise que garantam um crescimento tipificador de um novo ciclo de prosperidade. Ou seja, estamos ainda no ciclo crítico do capital. Com a falência, em meados dos anos 70 do século passado, do modelo de crescimento keyneseano do estado de bem estar social, o capitalismo recorreu ao aprofundamento da exploração sobre o proletariado através de um conjunto de medidas que ficaram conhecidas como “Consenso de Washington”: precarização das relações de

trabalho, depredação do serviço público, redução qualitativa dos impostos cobrados à burguesia, finaciamento do capital a fundo perdido, privatizações etc. A hipótese de já estarmos no limiar de um novo ciclo de crescimento, agora de caráter ‘neokeyneseano’, é desmentida por dois fatores indiscutíveis: a) aquele estado burguês saudável, enxuto e bem nutrido que financiou e centralizou todo o ciclo de crescimento econômico do pós guerra não mais existe. Os EUA se debatem com uma dívida pública da dimensão de seu PIB: 14 trilhões de dólares. b) o sistema financeiro privado se encontra de tal modo fragilizado estruturalmente a ponto de a União Européia, França e Alemanha à frente, convocar os estados dos países centrais da Europa a

recorrerem a uma política neocolonialista para com os países da periferia (Grécia, Espanha e Portugal) do euro, com o lançamento do proletariado destes países a níveis de sobrevivência próximos à escravidão. Fica, então, a pergunta: quem financiaria e como um novo ciclo de crescimento? Para o advento deste novo tempo de abundância para o capital será necessário que a atual crise, primeiro, chegue ao seu máximo potencial para que, em quadro de destruição de forças produtivas, o capital possa recorrer a uma nova fase de superexploração e espaços de investimento produtivo sobre os escombros do ciclo anterior. Isso, se no próprio corpo da crise o proletariado não botar abaixo o capitalismo e suas crises.

Greve é a maior arma do trabalhador na crise


NACIONAL 3

PT privatiza, o capital agradece Aqueles que nutriam alguma esperança de que o Partido dos Trabalhadores representasse os trabalhadores devem abandonar suas esperanças e ater-se à realidade concreta. A continuidade das privatizações do governo Dilma é mais uma das provas. Os aeroportos de Brasília, Viracopos e Guarulhos estão, desde fevereiro deste ano, nas mãos da iniciativa privada. Mesmo o ágio médio de 348%, tão alardeado pela imprensa burguesa, é insignificante dados os ganhos que os megaeventos esportivos trarão. Aos trabalhadores restarão demissões em massa, precarização do

trabalho, aumento das jornadas de trabalho entre outros achaques peculiares a todas as privatizações. No entanto o rateio do estado entre os capitalistas não é novidade no governo do PT. No governo Lula houve seis leilões de blocos de petróleo. A 11ª rodada de leilões aguarda decisão do Congresso Federal sobre o modelo de partilha dos recursos do pré-sal. Mas não nos iludamos. Súplicas à presidente Dilma não vão garantir investimentos sérios na saúde, educação e cultura para o proletariado. Devemos ter claro que essa partilha é entre os grupos empresariais incrustados

na máquina estatal e ávidos pelo capital gerado pela exploração – não só do petróleo, mas principalmente do trabalho humano. Aos trabalhadores não cabe expectativa no governo Dilma ou no PT. Que navegam com tranquilidade

nos corredores burgueses defendendo interesses hostis aos trabalhadores. O que nos cabe é organizarmo-nos em nossos sindicatos. Lá podemos nos armar para resistir aos ataques capitalistas sobre o fruto do nosso trabalho.

Dilma e seus amigos empresários fantasiados de trabalhadores

Celebração do golpe é tentativa de intimidação Em mais uma prova da impunidade de que goza a extrema direita brasileira encastelada nas Forças Armadas, cerca de oitenta representantes do entulho autoritário reuniram-se no dia 31 de março passado, para assistir a oito deles saltarem de

paraquedas na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, em um ato de afronta à memória daqueles que foram presos, torturados e assassinados pela ditadura. Durante esse voo de condor, ao exibir a faixa com a inscrição “Parabéns, Brasil!

31/03/64”, mais do que fazer da história uma farsa, amparados pela omissão e conivência do governo Dilma Rousseff, os militares tentam intimidar aqueles que vão às ruas cobrar punição pelos crimes que eles cometeram

durante a ditadura militar e que até hoje fazem dos trabalhadores vítimas dos órgãos policiais do estado que cotidianamente lançam mão de métodos cada vez mais violentos e sanguinários de repressão à classe trabalhadora.

‘Lei da Copa’ suprime o direito de greve O governo PT/PCdoB acaba de fornecer mais uma prova de seu alinhamento aos interesses do grande capital. Com a chamada Lei da Copa, a senhora presidente Dilma Rousseff não teve o menor acanhamento em propor a revogação da vigência do já limitado direito de greve durante a Copa das Federações, em 2013, e na Copa do Mundo de Futebol em 2014. Se alguma dúvida existia em torno do caráter reacionário e antiproletário deste governo, se não bastassem todas as evidências fornecidas durante os governos Lula e neste ano e meio da gestão atual, esta lei vem

desnudar o rei e a rainha como fiéis serviçais da burguesia. A Lei Geral da Copa, aliás, compromete até mesmo preceitos fundantes do discurso liberal burguês relativo à chamada soberania nacional. No seu capítulo III, ao tratar “Dos Vistos de Entrada e das Permissões de Trabalho”, a lei flexibiliza o controle territorial e alfandegário, transformando o Brasil em uma espécie de “Estado FIFA”. Dispõe sobre a entrada de estrangeiros no país à época da Copa, determinando que os mesmos terão livre acesso desde que apresentem ingressos válidos para qualquer evento

relacionado à Copa. Serão considerados documentos suficientes para a obtenção do visto de entrada no país o passaporte válido em conjunto “com qualquer instrumento que demonstre a sua vinculação com os eventos”. A Lei Geral da Copa é regulada pela Lei 728/11, responsável por definir atos classificados como “ilícitos”, implicando a aplicação de “sanções civis”. A Lei 728/11 determina também a celeridade processual e estabelece medidas cautelares específicas no caso de atos (individuais ou coletivos) considerados prejudiciais aos eventos relacionados à Copa.

Punição aos assassinos da ditadura militar


4 HISTÓRIA

Comuna de Paris, lição eterna O exemplo dado pelos revolucionários franceses deve permanecer vivo na memória dos comunistas de todo o mundo para que o proletariado possa avançar na luta contra a exploração sem cair na armadilha reformista que deve ser aprendido pelo proletariado. Não ter destruído o poder burguês – e suas instituições democráticas (que nada mais são que a forma autoritária com que os exploradores subjugam os trabalhadores) quando houve a oportunidade – fez com que os republicanos acabassem por aniquilar a Comuna em 28 de maio de 1871. A brutalidade com que a revolução foi detida não deve ser esquecida. Os milhares de fuzilados pela reação burguesa devem ser lembrados com honra e respeito. O feito destes heróis é algo que os marxistas devem carregar com orgulho. Mas as falhas não Há 141 anos o proletariado francês escreveu com o seu próprio sangue uma das mais podem ser deixadas de lado. O sangue de nossos compaheróicas páginas da história das lutas pela libertação da classe operária nheiros não correu em vão. Embora a burguesia man- governo de sua época: a Co- clamam a Comuna de Paris. tenha constantes esforços muna de Paris. “Os proletários da capital, seu livro para omitir a história e esconEm 1870 o imperador Na- no meio dos desfalecimen- Em der os conflitos gerados pela poleão III havia perdido a tos e das traições das clas- “Guerra Civil na exploração do proletariado, guerra contra o exército ale- ses governantes, compreena esquerda segue resistindo mão de Otto von Bismarck e deram que para eles tinha França”, a prine lutando para preservar a assim foi destituído do poder. chegado a hora de salvar a cipal lição enfatimemória daqueles que tom- Os alemães avançaram pelo situação... compreenderam baram no enfrentamento ao país derrotado e para resistir que era seu dever imperioso zada por Marx é estado burguês. Disputas es- aos invasores os parisienses e seu direito absoluto tomar a de que a destrutas que também nos servem alistaram-se na Guarda Nacio- em mãos os seus destinos ição do estado burde instrumento para aprender nal e fortificaram a cidade. e assegurar-lhes o triunfo e avançar em direção a uma O governo republicano conquistando o poder”, re- guês e todas suas sociedade fraterna e justa. francês, chefiado por Adol- latou o Comitê Central da instituições polítiA história da humanidade phe Thiers, tenta iniciar o Comuna. é a história da luta de classes, armistício com Bismarck O governo republicano é cas e militares é reafirmava Marx já em 1848. e cobra que o proletariado apanhado de surpresa e se tarefa primordial E o tempo confirmou as pala- entregue suas armas. Dian- vê obrigado a recuar. Para vras impressas no Manifesto te da negativa por parte dos evitar uma nova guerra ci- e fundante de um Comunista. Em 1871, o pro- trabalhadores, Thiers inicia vil, o Comitê Central opta estado proletário letariado pela primeira vez uma série de ataques contra por não atacar o governo socialista encarretomou o poder em suas mãos a Guarda Nacional. instalado em Versalhes, que gado da transição e iniciou de fato, embora por Em 18 de março de 1871, estava enfraquecido. apenas 78 dias, a instalação o exército republicano, reMarx aponta que esta foi entre a sociedade de uma ditadura do proleta- presentando o interesse da a maior falha cometida pela riado. Neste curto período, burguesia, invade a cidade. Comuna. Um erro que per- capitalista e a soos trabalhadores de Paris Armados, os parisienses re- mitiu às forças reacionárias ciedade comunista. formaram o mais exemplar sistem e no mesmo dia pro- se reorganizarem. Um erro

Por um estado socialista dos trabalhadores


CULTURA 5

Artista brasileiro, faça política! A arte é um instrumento indispensável para a transformação crítica e revolucionária do capitalismo Marx disse que os filósofos sempre se preocuparam em interpretar o mundo e que o importante era mudá-lo. Sem nenhuma coincidência, Bertold Brecht, teatrólogo, poeta e militante, também se manifestou dizendo que nada devia parecer impossível de mudar. A indignação e a luta possuem raízes entrelaçadas com as artes e potencializam o lugar da política com criatividade, sensibilidade e, porque não, força. Em cada momento histórico e sempre às vésperas de saltos qualitativos na história, os artistas se engajam politicamente e se tornam peças fundamentais nas mudanças do mundo. O cinema, o teatro, a música, as artes plásticas também são com-

bustível indispensável ao avanço da locomotiva revolucionária. E por possuírem linguagens próprias – desde que estruturadas em forma e conteúdo indissociáveis – são capazes de ultrapassar lugares comuns e agregar militantes e simpatizantes às bandeiras políticas. Exemplos desta arte popular revolucionária no Brasil são abundantes, desde o CPC (Centro Popular de Cultura) da União Nacional dos Estudantes passando pelo cinema de Glauber Rocha e a música de Chico Buarque, Cartola e Sérgio Ricardo. Mas não é necessário somente nos ancorarmos em um momento ditatorial para fazer um chamamento aos artistas brasileiros. Arte política, crítica e transfor-

Cena do teatro politico “A Mais Valia Vai Acabar, Seu Edgar”, do CPC

madora: precisamos disso no tempo presente, na atual conjuntura. É mais que necessário que os artistas brasileiros comprometidos com a transformação revolucionária de nosso país e

do mundo em que vivemos. Para romper barreiras e derrubar portas. Para dizer não à barbárie instalada. Para anunciar a alvorada de um novo tempo. Artistas: façam política!

Estrofes do solitário Basta de covardia! A hora soa... Voz ignota e fatídica revoa, Que vem... Donde? De Deus A nova geração rompe da terra, E, qual Minerva armada para a guerra, Pega a espada... olha os céus

É o furor da mais lôbrega tormenta - Ruge a revolução

E vós cruzais os braços... Covardia! E murmurais com fera hipocrisia: — É preciso esperar... Esperar? Mas o quê? Que a populaça, Sim, de longe, das raias do futuro, Este vento que os tronos despedaça, Parte um grito, pra — os homens surdo, Venha abismos cavar? obscuro Mas para os moços, não! Ou quereis, como o sátrapa arrogante, É que, em meio das lutas da cidade, Que o porvir, n’antessala, espere o instante Não ouvis o clarim da eternidade, Em que o deixeis subir?! Que troa n’amplidão! Oh! Parai a avalanche, o sol, os ventos, O oceano, o condor, os elementos... Quando as praias se ocultam na neblina, Porém nunca o porvir! E como a garça, abrindo a asa latina, Corre a barca no mar, Meu Deus! Da negra lenda que se inscreve Se então sem freios se despenha o norte, Co’o sangue de um Luís, no chão da Grève, É impossível parar... volver é morte Não resta mais um som!... Só lhe resta marchar Em vão nos deste, pra maior lembrança, Do mundo, a Europa, mas d’Europa a E o povo é como a barca em plenas vagas, França A tirania é o tremedal das plagas, Mas da França, um Bourbon! O porvir, a amplidão Homens! Esta lufada que rebenta Desvario das frontes coroadas!

Painel “Escravatura” - Aberlado da Hora

Na página das púrpuras rasgadas Ninguém mais estudou! E no sulco do tempo, embalde dorme A cabeça dos reis, semente enorme Que a multidão plantou!...

No entanto fora belo nesta idade Desfraldar o estandarte da igualdade, De Byron ser o irmão... E pródigo, a esta Grécia brasileira, Legar no testamento uma bandeira, E ao mundo, uma nação Soltar ao vento a inspiração de Graco Envolver-se no manto de Spartaco, Dos servos entre a grei; Lincoln, o Lázaro acordar de novo, E da tumba da ignomínia erguer um povo, Fazer de um verme um rei! Depois morrer, que a vida está completa Rei ou tribuno, César ou poeta, Que mais quereis depois? Basta escutar, do fundo lá da cova, Dançar em vossa lousa a raça nova Libertada por vós

Castro Alves


6 MOVIMENTO SINDICAL

O sindicato na lógica burguesa Conlutas e Intersindical não romperam com atrelamento à agenda institucional parlamentarista Fenômenos que marcaram o sindicalismo brasileiro sobretudo a partir da década de 90, a burocratização e a parlamentarização das lutas sindicais continuam em voga, e com crescente intensidade, mesmo naquelas centrais que nos últimos anos se apresentaram como ‘alternativa de reorganização’ da classe face à degeneração da CUT. Referimo-nos à Conlutas e Intersindical, nas quais a aparente aposta na ação direta dos trabalhadores encobre na verdade um conjunto de práticas voluntaristas, espontaneístas, hegemonistas e atreladas, mesmo indiretamente, à agenda institucional burguesa. Senão vejamos. A maioria esmagadora das iniciativas atualmente coordenadas pelos sindicatos filiados a essas duas centrais gira em torno de iniciativas originadas no Congresso ou emcampadas

por ele, pelas assembléias legislativas estaduais e câmaras municipais. São, majoritariamente, projetos de lei ou regulamentações de interesse da classe, mas controlados e constantemente adulterados pela lógica parlamentar burguesa, que, por seu poder de atração, leva à inevitável subordinação das agendas sindicais aos ritos processuais do legislativo burguês. Um caso recente foi a marcha nacional do funcionalismo público federal, que, em 28 de março deste ano, levou milhares de servidores a Brasília. O objetivo foi pressionar o Congresso Nacional a aprovar projetos de lei dos quais as reivindicações do funcionalismo dependem para sua implementação. Dada a esperada negativa do Congresso e do governo Dilma (PT) em atender às reivindicações, o resultado, previsível, foi o esvaziamento da mobilização em si mesma, consequência do rebai-

xamento das lutas dos trabalhadores ao horizonte institucional burguês, que nunca aponta para nada além de si próprio. Cumpre ressaltar que, como parte dessa parlamentarização das lutas sindicais do proletariado, temos hoje uma degeneração adicional, que se dá quando os gabinetes parlamentares passam a interferir diretamente na agenda dos sindicatos, che-

gando ao ponto de definir o caráter e os limites de suas atividades. No Rio de Janeiro, é o que acontece no momento na relação entre deputados estaduais eleitos em 2010 e sindicatos da área da saúde, num atrelamento que despolitiza e engessa as lutas dos trabalhadores, retirando da classe a autonomia tão necessária para o enfrentamento de governos e patrões.

Um movimento sindical livre exige centrais independentes e autônomas

Da burocracia sindical ao imobilismo político Órfão de uma central sindical que o instrumentalize na defesa contra os ataques e o proteja da exploração exercida pela voraz burguesia brasileira, o proletariado nacional – que deveria ser organizado criticamente nos seus espaços de atuação e formado pelos seus sindicatos para intervir cotidianamente na luta de classes, nos seus locais de trabalho e nos seus fóruns deliberativos – assiste a uma acirrada disputa entre CUT, Força Sindical, UGT, CTB, NCST, CGTB, as seis maiores centrais do país, pelos cerca de R$ 370 milhões recolhidos através da contribuição sindical. Na atual conjuntura de crise mundial do capitalismo, em que a burguesia avança sobre uma massa de trabalhadores mal formada ideologicamente, essas centrais, hegemonizadas pelos partidos da base do governo Dilma,

têm exercido com primor seu papel na sofridos. Enquanto a criminalização dos estratégia geral de imobilização dos movimentos sindicais sufoca as manifestrabalhadores, contribuindo para o pro- tações e a organização dos trabalhadores, cesso avassalador de opressão, impe- a esquerda não consegue fechar uma podindo claramente qualquer manifesta- sição por uma central unitária, deixando ção no sentido da construção de uma progredir as reformas estruturais burgueresistência por parte do proletariado. sas, que cada vez mais arrocham os saláApesar do discurso reconhecidamente rios e imobilizam a classe trabalhadora. à esquerda, Conlutas e Intersindical também não conseguem aglutinar as lutas dos trabalhadores contra as reformas trabalhista e sindical, nem tampouco têm formado seus filiados no sentido de prepará-los a resistir aos sistemáticos ataques Lula, símbolo e agente maior da peleguização dos sindicatos no país

Por uma central autônoma e independente


TEORIA 7

Crítica ao Programa de Gotha No “Crítica ao Programa de Gotha” Marx expõe sua posição sobre a proposta de programa de unificação dos socialistas alemães à época. Marx rejeita duramente a proposta reformista e expõe os princípios fundamentais da teoria do estado revolucionário de transição ao comunismo, o estado da ditadura do proletariado. A seguir, trechos decisivos de “Gotha”.

O

trabalho não é a fonte de toda a riqueza. A natureza é a fonte dos valores de uso (que são os que verdadeiramente integram a riqueza material!), nem mais nem menos que o trabalho, que não é mais que a manifestação de uma força natural, da força de trabalho do homem. Essa frase encontra-se em todas as cartilhas e só é correta se se subentender que o trabalho é efetuado com os correspondentes objetos e instrumentos. Um programa socialista, porém, não deve permitir que tais tópicos burgueses silenciem aquelas condições sem as quais não têm nenhum sentido. Na medida em que o homem se situa de antemão como proprietário diante da natureza, primeira fonte de todos os meios e objetos de trabalho, e a trata como possessão sua, seu trabalho converte-se em fonte de valores de uso, e, portanto, em fonte de riqueza.

Texto fundamental de todo o marxismo, “Gotha” fixa o eixo do estado proletário deduz-se que o homem que não dispõe de outra propriedade senão sua força de trabalho, tem que ser, necessariamente, em qualquer estado social e de civilização, escravo de outros homens, daqueles que se tornaram donos das condições materiais de trabalho. E não poderá trabalhar, nem, por conseguinte, viver, a não ser com a sua permissão.

mente a outros e, pois, no mesmo tempo, prestam trabalho, ou podem trabalhar mais tempo; e o trabalho, para servir de medida, tem que ser determinado quanto à duração ou intensidade; de outro modo, deixa de ser uma medida. Este direito igual é um direito desigual para trabalho desigual. Não reconhece nenhuma distinção de classe, porque

Ilustração: Marx discute com Engels o texto do Manifesto Comunista

N

a medida em que o trabalho se desenvolve socialmente, convertendo-se assim em fonte de riqueza e de cultura, desenvolvem-se também a pobreza e o desamparo do operário, e a riqueza e a cultura dos que não trabalham. Esta é a lei de toda a história, até hoje. Assim, pois, em vez dos tópicos surrados sobre “o trabalho” e “a sociedade”, o que competia era indicar concretamente como, na atual sociedade capitalista, já se produzem, afinal, as condições s burgueses têm ra- materiais, etc., que permitem zões muito funda- e obrigam os operários a desdas para atribuir ao trabalho truir essa maldição social. uma força criadora sobrenaas alguns inditural; pois precisamente do víduos são supefato de que o trabalho está condicionado pela natureza riores, física e intelectual-

O

M

aqui cada indivíduo não é mais que um trabalhador como os demais; mas reconhece, tacitamente, como outros tantos privilégios naturais, as desiguais aptidões dos indivíduos, por conseguinte, a desigual capacidade de rendimento.

E

m uma fase superior da sociedade comunista, quando houver desaparecido a subordinação escravizadora dos indivíduos à divisão do trabalho e, com ela, o contraste entre o trabalho intelectual e o trabalho manual; quando o trabalho não for somente um meio de vida, mas a primeira necessidade vital; quando, com o desenvolvimento dos indivíduos em todos os seus aspectos,

crescerem também as forças produtivas e jorrarem em caudais os mananciais da riqueza coletiva, só então será possível ultrapassar-se totalmente o estreito horizonte do direito burguês e a sociedade poderá inscrever em suas bandeiras: De cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades.

A

distribuição dos meios de consumo é, em cada momento, um corolário da distribuição das próprias condições de produção. E esta é uma característica do modo mesmo de produção. Por exemplo, o modo capitalista de produção repousa no fato de que as condições materiais de produção são entregues aos que não trabalham sob a forma de propriedade do capital e propriedade do solo, enquanto a massa é proprietária apenas da condição pessoal de produção, a força de trabalho. Se as condições materiais de produção fossem propriedade coletiva dos próprios operários, isto determinaria, por si só, uma distribuição dos meios de consumo diferente da atual.

E

ntre a sociedade capitalista e a sociedade comunista medeia o período da transformação revolucionária da primeira na segunda. A este período da transformação revolucionária da primeira na segunda. A este período corresponde também um período político de transição, cujo estado não pode ser outro senão a ditadura revolucionária do proletariado.

Pela instalação da ditadura do proletariado


8 INTERNACIONAL

Bolivarianismo atinge o limite Ampliar e transferir o poder proletário aos conselhos comunais será o primeiro passo da radicalização

A agudização da luta entre a burguesia e o proletariado na Venezuela aponta para um desfecho próximo: socialismo ou barbárie

A luta de classes na Venezuela atingiu um nível de radicalização que nos possibilita identificar os limites na relação entre as classes contraditórias. Estes limites poderão se expressar na radicalização de Chávez, a partir das eleições de outubro. O núcleo do governo defende a estratégia de transferir progressivamente poderes do estado burguês, da As-

sembléia Nacional, para os conselhos de trabalhadores, ampliando-os e fortalecendo-os. Sua base de sustentação, à esquerda, o tenciona a avançar na radicalização contra a burguesia, que certamente prepara-se para uma segunda investida contra o governo. A tentativa de golpe, em abril de 2002, financiada e engendrada pela CIA e pelo

aparato midiático da burguesia nacional foi derrotada pelas massas proletárias, que defenderam o governo e sua principal liderança. Os 19 mortos daquele 11 de abril, alguns deles atingidos por atiradores de elite – que viriam a sucumbir às milícias chavistas – foram a comprovação material da necessidade da radicalização rumo ao socialismo revolucionário.

O proletariado venezuelano vem tomando consciência de que não pode haver socialismo com direitos políticos da burguesia e que, no socialismo marxista não há lugar para empresários e banqueiros. E que a melhoria das condições de vida por meio do acesso aos serviços públicos essenciais não é o suficiente para a conquista do poder proletário.

Revolução marxista ou caricatura de revolução À agudização da crise capitalista mundial corresponde a agudização das lutas de classes entre burguesia e proletariado em todo o mundo. Cenário de grande significado histórico, a América Latina não escapa à intensificação do combate: Venezuela, Argentina, Brasil, Guatemala, Chile, México, Uruguai, Nicarágua, Bolívia, enfim,

todos os países do continen- histórica, que sem base no te registram episódios de marxismo a luta do prolutas de classe no letariado mais cedo passado recente ou mais tarde nos quais a luta acaba em derdireta pelo sorota. Por isso é cialismo entrou que o MM5 já na ordem do dia vem discutindo como palavra de com o Partido ordem de ação. Revolucionário Sabemos, tamdos Trabalhadores bém por experiência (PRT) e a Associação La-

tinoamericana de Economia Política Marxista (ALEM), ambos da Venezuela, e com a organização argentina Razão e Revolução (RR) a proposta da formação de uma Frente Marxista Latinoamericana. E aqui conclamamos a todos os grupos políticos do continente que reivindicam o marxismo a engrossar as filas desta construção.

Por uma frente marxista latinoamericana

Jornal do MM5 - Nº 2  

Jornal do Movimento Marxista 5 de Maio - Maio / Julho 2012

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