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Movimento Marxista Jornal do m ovimento m arxista 5 de m aio - novembro 2011 - ano i - nº 1

Só o marxismo levará o proletariado à vitória! Em seu embate histórico em busca de justiça e liberdade, o proletariado mundial conta vitórias e derrotas igualmente heróicas. E um balanço rigoroso constata que nossas mais sólidas vitórias contra a burguesia tiveram no marxismo ortodoxo seu instrumento de compreensão e ação. Do outro lado, as derrotas trazem a nódoa da desconsideração ou abandono do marxismo, quer na luta pelo poder, quer no processo de construção do socialismo em direção a uma sociedade sem classes. É no objetivo inadiável de criar um movimento a partir da ortodoxia marxista que convocamos os companheiros comprometidos com a luta do proletariado a se engajarem na organização do Movimento Marxista 5 de Maio (MM5) a partir das linhas originais do marxismo, sem ‘intérpretes’ nem ‘atualizadores’. No dia 5 de Maio de 1818 nascia Karl Marx. A data dá nome ao nosso movimento como homenagem e compromisso.

A serviço da burguesia

A presidente Dilma Rousseff quer apresentar-se como séria e honesta, diferente portanto de seu padrinho Lula. No entanto, mantém os mesmos compromissos estratégicos com o capital. PÁG. 2

Copa e Olimpíadas

Os megaeventos esportivos constituem fonte de lucro fácil para o capital. O esporte é mero pretexto. PÁG. 3

Verdade ou mentira?

Conivente com a extrema direita, PT segue a rota da conciliação na mentirosa Comissão da Verdade. PÁG. 3

“Primavera Árabe”

Educadores mineiros - A construção de um movimento

sindical autônomo e independente passa pelo movimento vivo dos trabalhadores, longe portanto da institucionalidade burguesa. A necessidade da unificação da luta exige a criação de uma central sindical estruturada unicamente em tornos dos interesses do proletariado. PÁG. 6

Sem a presença de um proletariado consciente, a Primavera Árabe não ultrapassa os limites burgueses. PÁG. 2

Cultura petista

Compadrio, clientelismo, conservadorismos e mercantilismo marcam a política cultural petista. PÁG. 5

Lições da História

A Revolução Russa alimenta a utopia e impõe o resgate da ortodoxia marxista na luta de classes. PÁG. 4

Palavras de Marx

O partido revolucionário deve se opor a tudo que a deEducadores fluminenses - Greves demonstram disposição Crise de 1929: um fantasma mocracia pretende, recomendos trabalhadores na luta contra os patrões e o estado. PÁG. 6 ronda o capitalismo. PÁG. 8 dam Marx e Engels. PÁG. 7


2 CONJUNTURA

A outra face da mesma moeda

Lula e Dilma: tempos diferentes, estilos diferentes e fidelidade estratégica aos interesses da grande burguesia

Passados dez meses desde sua posse, a presidente Dilma Rousseff vem desenvolvendo calculado esforço para passar a imagem de trabalhadora, honesta, rígida e séria, buscando distanciar-se da fanfarronice burlesca desfilada com inegável sucesso pelo seu antecessor Luís Inácio. O agravamento da crise capitalista mundial e o crescimento de uma percepção geral de que a atual política demagógico-assistencialista caminha para o esgotamento vai certamente exigir da senhora presidente empenho ainda maior para convencer os trabalhadores brasileiros de que é diferente de seu antecessor. “É preciso mudar para

que tudo permaneça igual”, registrou o escritor italiano Giuseppe Tomasi de Lampedusa em referência às estratégias das classes dominantes diante de mudanças conjunturais que ameacem de algum modo seu poder e capacidade de exploração. tempestade à vista Se nuvens negras prenunciam tempestades, a burguesia não vacilará em entregar seus preciosos anéis para preservar os dedos. É o caso dos ministros e membros de segundo escalão defenestrados sumariamente pela presidente. Se Luís Inácio foi bonzinho com criminosos do mensalão e notórios assaltantes dos cofres

públicos, Dilma assume as vestes de campeã do combate à corrupção. Luís Inácio podia se dar ao luxo de chamar os crimes de estelionato praticados por amigos, correligionários e assessores diretos de meros “erros” – afinal ele navegava em mares mansos de continuado crescimento econômico (medido em lucros da burguesia, como se sabe) e enorme prestígio internacional dados os enormes serviços prestados ao capital mundial. Isto, sem falar na fidelidade canina de uma esquerda “neogramsciana”, em troca, é claro, de cargos, benesses e sinecuras – com raras exceções de iludidos bem intencionados. M a s Luís Inácio da Silva e Dilma Rousseff são iguais. Iguais na adoção da defesa estratégica dos lucros do grande capital como eixo e norte das metas e ações governamentais. E iguais na estratégia de repressão fascistóide aos mo-

vimentos de trabalhadores e seus aliados. Na manutenção do arrocho salarial do funcionalismo público. Na manutenção do chamado ‘fator previdenciário’, que condena os trabalhadores à escravidão eterna. Nos projetos de privatização das empresas públicas mais rentáveis – Petrobrás e Correios entre outras. A burguesia pode vangloriar-se de haver tido em Luís Inácio o melhor presidente que seu dinheiro pôde comprar. Se a conjuntura se apresenta diferente, que se instale então um (a) presidente de estilo adaptado aos novos tempos, mas igual e estrategicamente firme na defesa do

grande capital. A constatação de Lampedusa é de 1955 e se refere a um episódio histórico de 1860 em seu país. Nunca esteve tão atual quanto no Brasil de hoje.

Falta conteúdo proletário às rebeliões árabes Desde o final de 2010 Tunísia, Egito, Dubai, Síria e Iêmen, entre outros, tornaram-se palco de manifestações populares agudas agrupadas sob o nome de Primavera Árabe. Como pano de fundo, a grande crise cíclica em que se afunda o capitalismo, com o aprofundamento da miséria das massas trabalhadoras da região e, de outro lado, a voracidade com que o imperialismo se lança em novas empreitadas políticas e militares em tentativa de salvar suas margens de lucro. Mas por mais que a simbologia do

nome Primavera remeta para a expectativa de rupturas políticas históricas, estas fortes mobilizações, mesmo que capazes de derrubar governos, como na Tunísia e no Egito, não conseguem efetivar mudanças verdadeiramente revolucionárias. Esclareça-se desde já que no caso da Líbia, inclusive com o bárbaro e covarde assassinato de Muammar Khadaffi, estamos diante de um caso clássico de pirataria. Identifica-se, portanto, como principal característica político-ideolótica destes movimentos a sua hegemoniza-

ção pela burguesia e pequena burguesia, limitando-se suas reivindicações a mudanças puramente democráticas, permanecendo portanto nos limites do sistema capitalista. De proletariado e marxismo não se ouve falar. É preciso que o proletariado e seus aliados tomemos consciência da urgência da retomada do marxismo como arma essencial na luta revolucionária. Sem ela, mesmo as mais heróicas manifestações populares caem no vazio da institucionalidade burguesa.

Dilma mantém estratégia neoliberal de Lula


NACIONAL 3

Uma grande jogada do capital As classes dominantes brasileiras abriram definitivamente novas portas à expansão do capital monopolista pela via dos megaeventos esportivos. Tal prática está articulada às políticas consolidadas desde o primeiro governo Lula e aprofundadas no governo Dilma. O esporte, invariavelmente visto como instrumento de neutralidade, tem servido a interesses políticos, ideológicos e econômicos do capital. No Brasil, em particular, chama a atenção a desfaçatez com a qual a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016 têm funcionado estrategicamente a projetos fascistóides da burguesia. Da legalização da especulação imobiliária ao acirramento do controle pela força do Estado, o capital monopolista impõe sua ordem. Seguindo o modelo de outros países que serviram de sede para estes megaeventos esportivos, o Brasil virou um canteiro de obras, financiado

com dinheiro público, para a de uma Lei Federal de reguexploração de empesas na- larização fundiária em favelas, concedendo propriedade cionais e estrangeiras. aos moradores. O discurso Rosário de mentiras vigente alega que a garantia Políticas demagógicas, de propriedade a milhões de sob o nome de “mobiliza- pessoas que vivem na ilegação urbana”, levam adiante lidade em terrenos em faveseus projetos de higienização las no Brasil daria condições das cidades que servirão de para a circulação de trilhões

Projeto do ‘Vivaldão’, em Manaus: A construção de estádios faraônicos consome recursos que seriam destinados à saude e à educação públicas

sede aos jogos. A alegação de que estes megaeventos proporcionariam o desenvolvimento econômico do país facilitou, inclusive, a criação

de dólares advindos de empréstimos obtidos através da hipoteca de suas casas. Ora, na realidade o que pretende o governo é lançar

todos estes recursos até então imobilizados nas moradias populares no mercado financeiro, o que certamente geraria um enorme aumento na circulação de capitais, que, como se sabe, acaba sempre no bolso dos burgueses. A economia de mercado é um sistema de intercâmbio de propriedades: o que pode ser oferecido como garantia de um empréstimo? Enfim, o que precisa ficar claro – e devidamente denunciado – é que os grandes vencedores da Copa do Mundo e das Olimpíadas no Brasil serão, como sempre, os empresários nacionais e internacionais. Mentiras e mais mentiras estão sendo construídas com o dinheiro dos trabalhadores no mesmo ritmo dos estádios faraônicos que abrigarão os jogos. Isto, em prejuízo aos mais elementares direitos do proletariado brasileiro à saúde, educação e, mesmo ao lazer e ao esporte.

Governo Dilma preserva herança da ditadura Enganou-se totalmente quem supôs que, ao demitir o extremista de direita Nelson Jobim do Ministério da Defesa, a presidente Dilma Rousseff estava determinada a levar adiante um processo rigoroso de investigação dos crimes cometidos pela ditadura militar que imperou no país de 1964 a 1985. Porém, ao bancar o vergonhoso projeto de lei conciliador e covarde de Comissão da Verdade que Lula encaminhou ao Congresso – que entre outras coisas inclui depoimentos secretos, participação de militares na própria Comissão e impossibilidade de se enviar à Justiça para julgamento crimes e criminosos identificados nas investigações –, o governo Dilma dá provas de que a demissão de

Jobim não passou de uma manobra diversionista bem ao estilo militar. Na realidade, a impunidade de que goza a extrema-direita brasileira encastelada nas Forças Armadas é responsável pela continuidade de todos os crimes bárbaros que vitimam atualmente os trabalhadores – da tortura sistemática nas instalações policiais do país às execuções sumárias cotidianamente praticadas pelos órgãos policiais do estado e aos métodos cada vez mais violentos e sanguinários de repressão aos movimentos dos trabalhadores, como ocorreu na greve dos educadores do Ceará. Somado o pífio projeto de Comissão da Verdade com o silêncio do governo sobre a violência contra trabalhadores,

o que resulta é um quadro de conivência do governo Dilma e seu partido com os torturadores e assassinos da ditadura.

Dilma: uma política de boa vizinhança com militares herdeiros da ditadura militar de 64

Pela punição dos torturadores e assassinos


4 história

A herança da Revolução Russa Na noite de 25 de outubro de 1917, a Guarda Vermelha bolchevique ocupa o Palácio de Inverno, sede do governo burguês, em Petrogrado. No dia seguinte, instala-se na Rússia o primeiro estado proletário da História Todo o transcorrer da his- lita a compreensão e transfor- e na cidade, precariedades de tória da humanidade contem- mação das sociedades e do toda natureza. Mesmo com a pla momentos e períodos tão desenvolvimento histórico. enorme destruição das forças agudos quanto decisivos em Tudo isso, mais um conjunto produtivas operada pela II que os homens se lançaram absolutamente essencial de Guerra, já ao final dos anos em duras campanhas em bus- lições decisivas para a luta 50 do século passado toda a ca da concretização de seu geral do proletariado de todo região registrava índices de potencial libertário de pleni- o mundo, fazem da Revolu- crescimento e bem estar situde e felicidade. Desde a gigantesca rebelião de Espártaco – como símbolo e síntese das lutas primordiais do proletariado nos estados da Antiguidade escravagista – até os dias de hoje os trabalhadores dão exemplos cotidianos de resistência à exploração e Lênin, principal líder do Partido Bolchevique e da Revolução, convoca os trabalhadores da à opressão. Rússia a tomarem o poder pelas próprias mãos: “Todo o poder aos sovietes!” E a Revolução Russa de 1917 emerge ção Russa um acontecimento milares ou mesmo superiores aos países capitalistas indusde todo este desenvolver his- histórico sem par. trializados mais desenvolvitórico de embates classistas razões decisivas dos. Não se pode jogar tudo como a mais significativa e importante epopéia pela conA Revolução Russa pro- isso pela janela, como faz a cretização e aprofundamento vou também – para desespero esquerda de corte trotsquista. Assim como não se pode da humanidade dos homens. da burguesia – que o socialisPor várias razões. A primei- mo, mesmo em meio a difi- dizer que a União Soviética ra e principal delas porque culdades de toda natureza, é e o bloco socialista do Leste ancorada no propósito geral capaz de fazer avançar quaA Revolução colode universalização e de ex- litativamente o nível da vida tinção definitiva da diferen- material, intelectual e cultural cou na agenda históriça social entre os homens, das massas. A Rússia, assim ca o fim das classes ou seja, extinção das classes como todo o Leste Europeu sociais. A segunda, porque (exceção da região da hoje Europeu “se desintegrou”, sustentada em condições ma- República Checa e do leste como se pudéssemos afirteriais em que este propósito alemão), constituíam ante- mar que as causas da queda configurava uma utopia con- riormente sociedades forte- tenham sido exclusivamencretizável. A terceira, porque mente marcadas pelos restos te internas. Na realidade foi fundamentada em uma teoria de feudalismo, baixa indus- a conjugação da adoção de – o marxismo – que possibi- trialização, miséria no campo estratégicas estranhas ao

marxismo com a permanente agressão imperialista que provocaram a derrota do socialismo no Leste Europeu. De resto, não resiste à análise teórico-histórica a asserção do trotsquismo de que a base dos desvios e vícios esteve na estratégia da construção do socialismo em um só país, tese que grosseiramente atribuem a Stálin, quando na realidade se trata de uma formulação de Lênin em seu folheto “Sobre a palavra de ordem dos Estados Unidos da Europa”, de 1915. causas da derrota Entre os graves desvios, ninguém nega, está o abandono do marxismo ortodoxo por Stálin em favor de uma estratégia reformista interna e externamente à URSS, o que inclusive se concretizou na garantia da pequena propriedade individual no cam-

“Não

podemos jogar pela janela as conquistas da Revolução Russa

po e na ausência de políticas diretamente voltadas para a extinção da diferença entre trabalho manual e intelectual, tarefa histórica que em Marx constitui o eixo da construção/desconstrução do socialismo revolucionário em direção ao comunismo. Para os historiadores marxistas, permanece o desafio da formulação científica das causas da atual derrota do socialismo no Leste Europeu. O que deve ficar fora de questão é a defesa do patrimônio da Revolução Russa por todos empenhados na luta do proletariado mundial.

Revolução Soviética é um marco indestrutível


cultura 5

O vazio da política cultural

Mercantilização, demagogia, culturalismo e clientelismo marcam a política dos governos petistas para a cultura tério, uma série de desgastes e recorrente como vimos novapolêmicas permeiam a gestão mente em recente encontro da Ana Buarque de Hollanda. ministra com representantes Uma delas foi detonada pelo anúncio de propostas de mudanças no trato do direito autoral em linha contrária às linhas adotadas pelas gestões anteriores, de Juca Ferreira Ministra Ana de Hollanda: no centro de disputas mesquinhas patrocinadas pela base aliada do governo e Gilberto Gil – o que, entre outras coisas, do setor, no qual a pauta prinescancarou a falta de a linha cipal acabou sendo cobranças de política cultural unificada de repasses atrasados, recurno PT a que aludimos aci- sos prometidos em edital, lima. Essa falta de linearidade beração dos editais publicadireito autoral e transparência não tem nada dos anualmente e que ainda Desde que assumiu o minis- de pontual. Trata-se de algo não saíram desde que Ana de

Uma política cultural de governo constitui o conjunto de medidas e iniciativas articuladas no tempo e no espaço na linha de promover a ampliação do universo cultural dos habitantes de determinado país. Nada disso tem acontecido nos governos petistas. Ao contrário da política de longo prazo anunciada no primeiro governo Lula, a única continuidade constatada até agora é de uma criminosa mistura que junta a mercantilização da cultura com gigantescas doses de compadrio e tráfico de influências. Isto sem falar do permanente estado de beligerância a que se dedicam os frequentadores do Ministério da Cultura (Minc).

Cultura e humanidade Com a falsa humildade da subserviência dissimulada, os arautos do capital incrustrados na academia burguesa lançaram em uníssono o grito de guerra posmodernoso de uma revivida antropologia obscurantista ouvido no alvorecer do neoliberalismo: “Tudo é cultura! Tudo é cultura!” Não, nem tudo é cultura. Cultura são todos os saberes e fazeres que concretizam e ampliam a humanidade dos homens, entendida esta fundamentalmente como exercício da liberdade e do espírito crítico. Esta definição sintetiza o posicionamento sustentado pelo poeta e romancista alemão Wolfgang von Goethe, um dos gigantes da arte libertária de todos os tempos, em seu debate travado no início do século XIX

com o também romancista alemão Herder, que defendeu no geral a posição de que não existiriam parâmetros para julgamento de atos, hábitos, conhecimentos e costumes dos grupos humanos. Ora, a alegada inexistência de parâmetros é imobilista e reacionária. Se blindada a realidade social à crítica, só nos restaria o conformismo e a justificação do fanatismo religioso, da opressão e da miséria. É este método que recomenda, como respeito ao ‘outro’, o culto ao misticismo e à fome imperantes, por exemplo, na Índia, para onde acorrem levas de desocupados burgueses em jornadas turísticas que comportam, entre outras coisas, a contemplação de cadáveres de indigentes boiando no Rio Ganges.

Hollanda assumiu o Minc. Outra importante unidade constatada na política cultural dos governos petistas é a forte marca demagógica exibida por todos eles. O discurso de tentar novas formas de garantir e aumentar recursos para a pasta, e conseqüentemente ampliar o acesso da população à cultura, é o mesmo, mas a ação neste campo é igual a zero. Nenhum avanço foi visto nesses dez anos de governo petista, no que diz respeito a fomentar a cultura para os trabalhadores. Nenhum avanço obtido também em relação a políticas de incentivos aos trabalhadores da área. Prossegue o mesmo clientelismo que temos assistido desde a vigência da Lei Ruanet. Há exceções, honrosas, mas exceções.

poesia Nada é impossível de Mudar Bertold Brecth

“Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece habitual. Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar.”

Governo petista quer mercantilizar a cultura


6 movimento sindical

Por uma central proletária Os trabalhadores precisam criar uma central sindical proletária, sem os vícios da conciliação e do imediatismo No interior de uma conjuntura mundial de crise aguda do capital, em que a burguesia adota uma estratégia de intensificação da exploração na tentativa de compensar perdas e prejuízos, o proletariado brasileiro vem sendo neutralizado pela política institucionalista hegemônica no movimento sindical. As centrais abertamente alinhadas ao governo e à burguesia – como CUT (PT), Força Sindical (PDT), NCST, UGT, CGTB (MR8) e CTB (PcdoB) – atuam descaradamente na busca permanente de rebaixar e diluir a consciência da classe trabalhadora. As centrais que se posicionam à esquerda, como Conlutas (PSTU) e Intersindical (PSOL/PCB/MTL), acabam não contribuindo para o avanço da consciência e organização independentes do proletariado em função de suas políticas marcadas por objetivos e métodos da institucionalidade burguesa. Muitos anos antes da ascensão do PT/PCdoB ao governo central burguês, em

2003, a CUT já conciliava com o patronato, participando de câmaras setoriais e esfriando greves importantes como a greve nacional dos petroleiros de 1995, entre tantas outras. Porém, as eleições de 2002 podem servir como uma referência para o processo histórico de diluição das contradições de classe posto em prática pelo reformismo conciliador e pelo oportunismo vanguardeiro trotskista. É fundamental lembrarmos que o poder econômico elegera Lula (PT) e José Alencar (PL) com a ativa participação destes setores da esquerda, em mais que estranha aliança com as grandes forças políticas e econômicas capitalistas, que incluíam as diversas seitas evangélicas e a igreja católica.

econômicos, imediatos e his- apesar dos votos contrários tóricos, poderiam ser aten- e abstenções dos parlamendidos pelo poder burguês. tares da esquerda reformista Enquanto isso, o capital exi- e trotskista, materializando a ineficácia da gia daquele É possível e preciparticipação governo reformas estru- so avançar e acumular dos trabalhadores na institurais visando forças na conjuntura ampliar o sutucionalidade perávit primário e desarticular burguesa. É possível e preciso avanos trabalhadores. As reformas foram votadas no parlamen- çar e acumular forças orgato, uma após outra, somadas nizatórias independentes no a um violento arrocho sala- movimento sindical, mesmo rial, a perseguições e comba- na conjuntura adversa atual. tes políticos e ideológicos aos Para isso, contudo, precisaservidores públicos, a suas mos nos livrar dos vícios do greves e mobilizações. Estas oportunismo vanguardeiro e reformas foram aprovadas, do reformismo conciliador.

As eleições de 2002 Enquanto a esquerda do PT participava do governo e o PSTU se perdia em vãs tentativas de ‘justificar’ seu apoio a Lula no segundo turno, o proletariado continuava abandonado às ilusões de que os seus interesses políticos e Trabalhadores da educação no Rio: exemplo de ousadia, luta e vitória

Movimento grevista deixa lições importantes A onda grevista desencadeada por segmentos importantes do funcionalismo público e bancários no segundo semestre de 2011 deixa lições importantes. Em primeiro lugar, fica claro que o proletariado não está disposto a aceitar passivamente a degradação de seu salário diante da escalada inflacionária. Outra característica das mobilizações, a predominância de greves de servidores públicos – trabalhadores da educação do Rio, de Minas e do Ceará, bombeiros do Rio, Correios e bancários –, deixa clara a prioridade de se incorporar às revindicações mais imediatas a estabilidade no

emprego, derrubada pela ditadura. Mas o destaque maior vem em forma de alerta: sindicatos, federações e centrais abertamente alinhadas aos interesses estratégicos do governo e da burguesia foram obrigados a se lançarem à luta por pressão da base. É o que se chama popularmente de “correr pra frente”. Mas que ninguém se iluda: na hipótese e possibilidade de uma unificação nacional do movimento dos trabalhadores no médio prazo, este sindicalismo pelego se voltará contra os trabalhadores. O primeiro sinal de que os detentores do capital não estão dispostos a tolerar a

luta do proletariado por melhores condições de vida foi dado pela presidente Dilma, ao se afirmar contrária a qualquer aumento salarial que possa ‘comprometer as metas oficiais de inflação’. É evidente que a presidente sabe que a causa principal da inflação está na enorme dívida acumulada pelo governo para financiar gratuitamente o investimento capitalista no país, o que obriga o Tesouro a emitir títulos que fazem a festa do capital financeiro. Ela sabe mas não pode dizer. Porque ela está aí pra isso mesmo: garantir os lucros do capital às custas do trabalhador. Nada de novo.

Somente avançaremos com independência


teoria 7

Marx faz alerta ao proletariado Como balanço das revoluções de 1848-50 Marx propõe um partido oposto à burguesia e à pequena burguesia Na “Carta do Comitê Central à Liga dos Comunistas”, Marx e Engels, com base nas lições das revoluções européias de 1848-50, apontam a necessidade da reorganização da Liga dos Comunistas de forma autônoma e contra as palavras de ordem burguesas e pequeno-burguesas. A seguir, trechos deste documento.

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os dois anos de revolução, 184849, a Liga afirmou-se duplamente; por um lado, porque os seus membros interviram energicamente no movimento por toda a parte, na imprensa, nas barricadas e campos de batalha, à frente nas fileiras do proletariado, da única classe decididamente revolucionária. A Liga afirmou-se, além disso, pelo fato de sua concepção do movimento, tal como foi exposta nas circulares dos congressos e da Direção Central de 1847, assim como no Manifesto Comunista, ter-se mostrado a única correta; pelo fato de as expectativas formuladas nesses documentos terem-se plenamente realizado. o mesmo tempo, a sólida organização inicial da Liga enfraqueceu significamente. Uma grande parte dos membros, que participou diretamente do movimento revolucionário, acreditou que passara o tempo das sociedades secretas e que bastava a ação pública. e fato, foram os burgueses que logo após o movimento de março de 1848 tomaram conta do poder do Estado e se serviram desse poder para empurrar imediatamente os operários,

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seus aliados na luta, para anterior posição de oprimidos. esta a relação do partido operário revolucionário com a democracia pequeno-burguesa: está com ela contra a fração cuja queda ele tem em vista, opõe-se-lhe em tudo o que ela pretende para se consolidar a si mesma. Os pequeno-burgueses democratas, muito longe de pretenderem resolver toda

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pequeno-burgueses democratas que os operários tenham melhor salário e uma existência mais assegurada; esperam eles conseguir isto [confiando], em parte, ao Estado a ocupação dos operários e através de medidas de beneficência; numa palavra, esperam subornar os operários com esmolas mais ou menos disfarçadas e quebrar a sua força revolucionária

Trabalhadores enfrentam a repressão burguesa européia em 1848

a sociedade em benefício dos proletários revolucionários, aspiram a uma alteração das condições sociais que lhes torne tão suportável e cômoda quanto possível a sociedade existente. ara realizarem tudo isto, necessitam de uma Constituição democrática, seja ela [monárquica] constitucional ou republicana, que lhes dê a maioria, a eles e aos seus aliados, os camponeses, e de uma organização comunal democrática que ponha nas suas mãos o controle direto da propriedade comunal e uma série de funções atualmente exercidas pelos burocratas. o que se refere aos operários assalariados, apenas desejando os

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tornando-lhes momentaneamente suportável a situação. as estas reivindicações não podem bastar de modo algum ao partido do proletariado. Para nós não pode tratar-se da transformação da propriedade privada, mas apenas do seu aniquilamento, não pode

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proletariado não pode se deixar levar pela hipocrisia democrata

tratar-se de encobrir oposições de classes, mas de suprimir as classes, nem de aperfeiçoar a sociedade existente, mas de fundar uma nova. êm de trabalhar (o proletariado) então para que a imediata efervescência revolucionária não

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seja de novo logo reprimida após a vitória. Pelo contrário, têm de mantê-la viva por tanto tempo quanto possível. urante a luta e depois da luta, os operários têm de apresentar em todas as oportunidades as suas reivindicações próprias a par das reivindicações dos democratas se prepararem para tomar em mãos o poder. Se necessário, têm de obter pela força essas garantias. Liquidação da influência dos democratas burgueses sobre os operários; organização imediata, autônoma e armada dos operários; obtenção das condições mais dificultosas e compromissórias possível para a inevitável dominação temporária da democracia burguesa – tais são os pontos principais que o proletariado, e portanto a Liga, devem ter presentes durante e após a insurreição. ão devem, neste processo, deixar-se iludir pelas frases dos democratas, como por exemplo, que assim se divide o partido democrático e se dá à reação a possibilidade da vitória. Com todas essas frases, o que se visa é que o proletariado seja mistificado. as têm de serem eles próprios a fazer o máximo pela sua vitória final, esclarecendo-se sobre os seus interesses de classe, tomando quanto antes a sua posição de partido autônomo, não se deixando um só instante induzir em erro pelas frases hipócritas dos pequeno-burgueses democratas quanto à organização independente do partido do proletariado. O seu grito de batalha tem de ser: a revolução em permanência.

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O proletariado não pode se juntar ao inimigo


8 INTERNACIONAL

O capital na hora da verdade A crise cíclica enfrentada pelo sistema capitalista comprova mais uma vez o rigor científico das análises de Marx A crise mundial por que passa o capitalismo expressa o conjunto de contradições estruturais do sistema e concretiza com rara exatidão o conceito de crises cíclicas formulado por Marx em “O Capital”. A burguesia e seus porta-vozes evidentemente buscam lançar culpas a hipotéticos atos de imprudência dos gestores maiores do capital, à corrupção de uns e outros, a eventuais posturas irresponsáveis de governos e agentes econômicos. A crise vivida hoje pelo capital exibe a confluência das duas principais contradições estruturais do sistema: a contradição entre o caráter social da produção e o caráter privado da apropriação e, ainda, a contradição embutida na lei da tendência da queda da taxa de lucros, pela qual quanto maior o incremento tecnológico da produção menor será a taxa de lucro obtida pelo capital investido. Daí, a necessidade que tem o capitalismo de ampliar produção e mercantilização para ir compensando a queda da taxa de lucro. De tempos em tempos, afirma Marx, os termos de tais contradições atingem um

ponto de agudização que inviabiliza a reprodutibilidade cotidiana do capital, o que se manifesta concretamente em uma crise geral de pagamentos. É o que vemos hoje.

ção atual, bancando os prejuízos gerados pela retração dos negócios burgueses nos casos de recessão (queda do crescimento econômico) e estagnação (crescimento zero)

Em 1929 a grande crise capitalista lançou o proletariado no desemprego e na fome. É preciso que os capitalistas paguem por sua crise

Há cerca de um século, o capital financeiro tornou-se hegemônico na estrutura do capital, com o estado assumindo o papel de provedor direto e indireto de capitais. No caso do financiamento indireto à burguesia, o estado capitalista da era imperialista funciona como uma resseguradora geral do sistema, respaldando os empréstimos dos conglomerados financeiros aos demais segmentos da burguesia e, como na situa-

da economia. Na presença, contudo, da concretização das tendências estruturais do sistema, esgota-se a sua capacidade de endividamento para cumprir este papel de guarda-chuva geral. É aí que teremos o quadro de depressão, que é o que se apresenta no cenário mundial a curto prazo. Para se ter uma idéia, a dívida do Tesouro dos EUA já ultrapassou a casa dos US$ 14 trilhões, o equivalente ao PIB daquele país. Na Europa,

a Grécia, Irlanda, Espanha, Portugal e Itália já declararam que os últimos centavos de seus cofres estão acabando e que, dentro em pouco, já não poderão pagar os juros dos títulos que emitiram. É bom não esquecer que a burguesia não investe dinheiro próprio (este, destinado ao chamado consumo de luxo: iates, viagens, prostituição, drogas, gastronomia etc.), mas, sim, dinheiro emprestado ao sistema financeiro estatal e privado. Constitui igualmente falsa a fala oficial de que o Brasil está imune à crise. As tão alardeadas reservas de US$ 350 bilhões são formadas em 80% por títulos do Tesouro norteamericano, em crescente desvalorização. A dívida externa já atigiu a casa dos US$ 271 bilhões em fevereiro. O crescimento do PIB deve cair dos 7,5% do ano passado para 3,5% este ano. Isto se chama recessão. A inflação dos últimos doze meses é de 7,31%, já bem acima da meta anual dos 4% estipulada pelo governo. Mas o destaque fica com a dívida interna do estado brasileiro: R$ 1,7 trilhão, equivalente a quase metade do PIB nacional.

Por um estado palestino livre e soberano A luta pela criação de um estado palestino soberano é uma demanda já antiga e sangrenta de seu heróico povo. A entrega formal da reivindicação à última plenária da ONU pelo presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, constitui iniciativa importante no cenário de uma conjuntura em que os interesses do sionismo no Oriente

Médio sofrem significativo abalo com a ocorrência da chamada Primavera Árabe, que apeou do poder alguns aliados árabes do expansionismo sionista. império sionista Desde 1948, quando a ONU estabeleceu as fronteiras de um estado isralense em terras palestinas, os governos

sionistas vem-se apropriando – com o apoio declarado e aberto, político e militar, dos Estados Unidos – de partes progressivamente maiores do território destinado à criação de um estado palestino. Recentemente intensificou a criação de assentamentos e residências de colonos na Cisjordânia, território destinado pela ONU ao estabeleci-

mento do estado palestino. O primeiro-ministro israelense, o racista sanguinário Benjamin Netanyahu, enfatiza de forma arrogante e prepotente, como todo nazista que se preza, que Jerusalem Oriental jamais será entregue aos palestinos para sediar sua capital, como determina a ONU. Mas os tempos já se prenunciam outros.

Brasil já registra dívida de mais de R$ 2 trilhões

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