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nº 86 Julho de 2016

O SACERDÓCIO EM FESTA Centro de Espiritualidade Oásis – 10 junho 2016

25 ANOS DE SERVIÇO POR AMOR Pe José Araújo e Pe José Augusto


CELEBRAÇÃO DOS 25 ANOS DE SACERDÓCIO DO PE ARAÚJO E PE JOSÉ AUGUSTO Dia 10 de junho no Centro de Espiritualidade Oásis, foi tempo de festejar, celebrar e de dar Graças pelos 25 anos de Sim a Cristo e aos Irmãos do Pe. Araújo e do Pe José Augusto. Às 9.30h, acolhemos os nossos amigos junto a um belo tapete de flores com o cântico “Ensina-me Senhor a dizer Sim”. As crianças fizeram o lançamento de 25 balões brancos. De seguida, reunimo-nos no salão para ouvir o Pe Amaro Gonçalo e o Pe Rosas falarem-nos dos “Desafios do Sacerdócio Hoje”. Foi um momento de reflexão e partilha sobre o papel dos padres nas comunidades paroquiais e no mundo. No salão da casa dos irmãos Maristas, louvamos o Senhor pelas vidas partilhadas do Pe. Araújo e Pe José Augusto, com a celebração da Eucaristia. Esta foi presidida pelo Dom Carlos Azevedo e concelebrada pelos padres do movimento, pelos amigos e colegas de curso dos dois sacerdotes jubilados. Em ambiente de festa e de convívio intergeracional a tarde foi passada com as partilhas humorísticas de amigos oasitas, paroquianos e familiares. Pelas 17h terminamos com o coração cheio de alegria a cantar a música escrita pelo Pe Sérgio Leal: “ Ó Jesus, pelas mãos de Maria, Tua e minha Mãe, Te dou graças pelo dom de mãos ungidas que servem por amor, que rasgam horizontes de esperança, que anunciam o Teu Reino, Senhor.” Neste número do “Crescer on line” publicamos as reflexões do Pe Amaro Gonçalo e do Pe Rosas, a homilia do D. Carlos Azevedo e muitas fotos deste dia de festa.

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DE UM LUGAR PARA O PADRE A UM PADRE QUE É LUGAR Centro de Espiritualidade do Oásis, Ermesinde, 10.06.2016 Confesso-vos que tive muito pouco tempo, para preparar esta «conversa» convosco. E que apenas me vieram ao pensamento questões, que poderiam constituir motivo de debate, de diálogo, de partilha. Aqui vim, com gosto, dar vida ao lugar que me oferecestes nesta manhã do Anjo de Portugal, em que nos reunimos, em celebração de ação de graças pelos 25 anos de vida sacerdotal, do nosso querido Padre José Manuel da Rocha Araújo. … Ainda ontem nos encontrámos, como habitualmente às quintas-feiras, e ele sabe que, apesar de “o tempo ser superior ao espaço” (E.G. 222-225), a mim faltou-me mais tempo do que lugar, para esta reflexão. Por isso, vou, de algum modo, descrever-vos, em voz alta, o percurso do meu pensamento, ao longo desta semana, à medida que tentava encontrar um fio condutor, para esta reflexão. ...

Crescer on-line - Julho de 2016 - Página nº 2


… 1. O facto concreto é que, independentemente deste compromisso, tive de procurar um tema, um mote, para um debate, a organizar na paróquia, que me foi confiada, no âmbito do jubileu sacerdotal. E ocorreu-me, numa certa noite, aquela célebre imagem do inesquecível Bispo do Porto, Dom António Ferreira Gomes, que dizia: «os padres são como as crianças: onde estão não fazem falta; mas onde não estão fazem muita falta». Mas, bem vistas as coisas, e não já a partir do interior da Igreja, mas para lá dos confins do adro, ficava-me ainda a pergunta sobre a relevância que tem ou não a figura do Padre, num mundo sem transcendência e sem cristianismo, ou num cristianismo cada vez mais sem Igreja ou mesmo numa Igreja que soa a bonita peça “arqueológica”, mas em alguns casos, de má memória, ou mesmo que lugar para o padre, num cristianismo, sem o seu mundo e tão tolhido pelos desafios da missão.

2. Lembrei-me, por isso, de chamar gente de “fora da casa”, para nos dizer se ainda há lugar para o Padre, num tempo como o nosso, onde as grandes questões da vida, da sua origem, do seu sentido, da sua meta, parecem relegadas para os mais piedosos em nome de matérias mais importantes, como as cotações na bolsa de valores, o crescimento económico, o casamento gay ou as barrigas de aluguer. Assim, para quem não está “dentro” ou “por dentro da Igreja, pergunta-se, esta figura «estranha» do padre ainda tem algum interesse, para lá dos proveitosos «escândalos», com projeção mediática? Parece que “uma sociedade pluralista, democrática, e muito articulada, empurra o padre para ser apenas uma representação sagrada. O ministério do Padre parece ficar reduzido a uma dimensão obsoleta, um corpo estranho e quase inútil no tecido social1”.

Por isso é justo interrogar-se: será que também fora dos círculos da Igreja, por exemplo, no mundo da cultura, se reproduzirá a já referida imagem: «os padres são como as crianças: onde estão não fazem falta; mas onde não estão fazem muita falta»?! Tenho, portanto, mais perguntas que respostas. Mas no fundo, a pergunta radical é esta: há ainda um lugar para nós, os padres, neste mundo, ou a nossa condição é comparável à de “homens que são como lugares mal situados (…), homens que são como sítios desviados do lugar” (Daniel Faria)2?!

3. E, sem querer fui parar aqui, a Daniel Faria e a este poema, que cada vez oferecia mais luz à minha reflexão. É preciso preocupar-se por encontrar o lugar do Padre ou será antes preciso que o Padre se torne ele mesmo um lugar para os outros, para o encontro dos outros com a transcendência, com a questão e a experiência de Deus, com a diferença incómoda da nossa vida, obrigando aqui o padre a tornar-se apenas “uma casa saqueada” (Daniel Faria) por tantos olhares curiosos, por visitas inesperadas. 4. E vinha-me, depois, à mente, um pensamento de Bento XVI, numa meditação sacerdotal, a partir do salmo 153, para descentrar esta questão e pensar: esta «arrumação» do Padre, para fora dos “lugares”, de nome e de poder, de estatuto e de importância, não é um processo justo de reajustamento e de purificação da nossa identidade presbiteral e da nossa missão pastoral? O Padre não precisa, por assim dizer, de ter um lugar de destaque e um futuro garantido na sociedade, na cidade, na sua terra… e porventura nem é decisivo que seja pedido ou querido, para ocupar um lugar, porque «a porção da sua herança é o Senhor» (Sal.15,5). Curiosamente em Israel, quando se fez a distribuição do território pelas doze tribos, não coube, em sorte, nenhuma parcela de terreno à tribo de Levi, à tribo sacerdotal, porque esta não podia senão achar o seu sustento e a sua Pátria, no Senhor. Daí a afirmação inicial do salmista, voltado para o Senhor «sois o meu único bem» ….

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5. E isto parece desafiar-nos, a assumir a missão do Padre, como a de alguém que não se pertence, que não dispõe de si para si, que não tem “uma agenda a defender”, no dizer do Papa Francisco4 e por isso pode comparar-se a “homens sem fuso horário / homens agitados, sem bússola onde repousem” (Daniel Faria). O Padre pertence aos outros e por isso não se isola nem aprisiona a um lugar: “quando o teu navio, ancorado muito tempo no porto, começar a criar raízes na estagnação do cais, faz-te ao largo”, recordou o Papa Francisco, citando Dom Hélder Câmara.

É por isso, que os padres se comparam a “homens que são como fronteiras invadidas”, por quantos procuram, tantas vezes sem saber a Quem procuram. E é preciso que o Padre seja um lugar sempre aberto e disponível, «confiando ao Senhor o seu tempo, para se deixar encontrar pelas pessoas e fazer-se encontro. Assim o nosso sacerdote não é um burocrata nem um funcionário anónimo de uma instituição; não está consagrado a um papel de emprego nem estimulado pelos critérios da eficiência» (Papa Francisco). Diria Daniel Faria, que o padre é comparável a “homens sulfatados por todos os destinos, desempregados das suas vidas”, “atento a difundir o bem com a mesma paixão com a qual os outros cuidam dos próprios interesses” (Papa Francisco, Discurso).

6. E, por isso, nesta condição de ser uma espécie de “sítios fora dos mapas, como pedras foras do chão”, os padres têm de aprender a não querer nada para si, a pôr tudo nas mãos de Deus. A simples reivindicação de um lugar, de uma segurança, de uma terra fértil para se alimentar, pode significar a profanação da vocação. O “padre sabe que o amor é tudo. Não busca garantias terrenas nem títulos honoríficos, que levam a confiar no homem. Servo da vida, caminha com o coração e o passo dos pobres, enriquece-se, frequentandoos” (Papa Francisco).

7. Não é fácil queimar, na fogueira da sarça-ardente, onde se forja a nossa vocação, todas as ambições de lugares, de carreira e de poder; é necessário para isso aprender a “descalçar as sandálias diante da terra sagrada do outro (cf. Ex 3, 5)” (E.G.169). Por mim, posso testemunhar-vos que aprendi muito, ao mudar de paróquia, a passar despercebido, a não ter importância, a não ter lugar de relevo nem lugar cativo, mas a perceber que o meu lugar é ser o lugar, onde os outros se possam encontrar.

Em jeito final de testemunho, posso dizer-vos que a vida do padre colhe toda a sua beleza e interesse, precisamente no terreno desta liberdade desapossada, em que vive a sua entrega. Uma liberdade que não constitui oportunidade de fruição egoísta da vida, mas terra livre, para plantar e implantar, em Cristo, a vida dos outros. Na sua liberdade, que nomeadamente o celibato lhe proporciona, o coração do Padre há de tornar-se estalagem para a cura de muitas feridas e cais, para o atracar de muitas lágrimas. Gostava muito que o meu coração sacerdotal fosse uma porta aberta, por onde pudesse entrar cada pessoa, que procura no coração de Cristo, um porto de abrigo, de consolação e de paz. E, que, ao chegar até mim, cada pessoa encontrasse sempre livre o seu lugar.

Pe. Amaro Gonçalo, Pároco de Nossa Senhora da Hora 10 de junho de 2016 1 2

CARLOS AZEVEDO, Ser padre, Universidade Católica Editora, 2004, p.53. A partir daqui as citações de Daniel Faria são recolhidas a partir da publicação: DANIEL FARIA, Homens que são como lugares

mal situados, Ed. Fundação

Manuel Leão, Porto 1988, p.12

3

JOSEPH RATZINGER, O caminho

4

Citamos a partir daqui o

pascal, Ed. Lucerna, Estoril 2006, pp.155-160.

PAPA FRANCISCO, Discurso

aos membros da Conferência Episcopal Italiana

Maio de 2016, sobre o perfil do padre, no âmbito do fio condutor dos trabalhos da 69ª Assembleia Geral da CEI, sobre a do clero.

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(CEI), 16 de renovação


O Padre, rosto da Misericórdia de Deus

Neste ano da Misericórdia, e nesta ocasião de celebrar os 25 anos de sacerdócio de alguns colegas, pediram-me que refletisse convosco sobre o ministério sacerdotal a partir da Misericórdia. Como é que o Padre se pode tornar um rosto da Misericórdia de Deus. Começaria por refletir a raiz do nosso ministério. Porque é que Deus sempre destinou alguns dos seus para se fazer mais próximo de todos? Sempre assim foi, desde Moisés, passando pelos Juízes, pelos profetas, por Aarão e pelos sacerdotes de Levi, até Jesus Cristo, o único e perfeito Sacerdote. Mas que faça parte da vontade de Deus enviar-nos rostos próximos e como os nossos para nos falar de Si, vem já da Sua dedicação pelos Homens, é já fruto da Sua Misericórdia. Na verdade, nós, os padres, percebemos isso muitas vezes, nascemos de Deus; o nosso ministério nasce de Deus, o que fazemos, o que somos para as comunidades não é obra nossa nem decisão nossa, é Deus que verdadeiramente nos consagra, a Si e ao Seu povo. Portanto, que Deus tenha os seus ministros para Se fazer presente é já uma manifestação da Sua misericórdia. Sinal maior ainda porque escolheu entre os pecadores; entre a fragilidade humana dos seus filhos, nos escolheu. Pode ser óbvio, mas convém recordar porque aqueles que são o rosto da Misericórdia do Pai, são também aqueles que experimentam essa mesma Misericórdia. Isto é, não é possível ser Padre sem essa consciência e experiência de que Deus nos ama e nos perdoa. E isso não é só uma coisa que faz parte da história de fé de cada um de nós, é uma realidade que se vive permanentemente… A não ser assim, a vida de padre é uma construção estoica e heroica, só possível para espíritos superiores, ou uma profissão como as outras… A experiência e a certeza da nossa fraqueza é fundamental para reconhecermos a presença de Deus e do Seu amor que nos consagra cada dia para estramos ao serviço do povo que Deus nos confia. Só pecadores perdoados podem levar o perdão àqueles que o procuram. Talvez seja a mais importante das minhas reflexões: nós nascemos como padres por obra e vontade do amor misericordioso, o amor que se transborda para os outros, que procura os outros, que se desdobra em mil originalidades para os outros, de um Deus que é amor.

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Esta consciência não nos pode faltar porque ela está na raiz da nossa missão. Todos conhecem o diálogo de Pedro com Jesus (Jo21, 15-19): Depois de terem comido, Jesus perguntou a Simão Pedro: «Simão, filho de João, tu amas-me mais do que estes?» Pedro respondeu: «Sim, Senhor, Tu sabes que eu sou deveras teu amigo.» Jesus disse-lhe: «Apascenta os meus cordeiros.» Voltou a perguntar-lhe uma segunda vez: «Simão, filho de João, tu amas-me?» Ele respondeu: «Sim, Senhor, Tu sabes que eu sou deveras teu amigo.» Jesus disse-lhe: «Apascenta as minhas ovelhas.» E perguntou-lhe, pela terceira vez: «Simão, filho de João, tu és deveras meu amigo?» Pedro ficou triste por Jesus lhe ter perguntado, à terceira vez: ‘Tu és deveras meu amigo?’ Mas respondeu-lhe: «Senhor, Tu sabes tudo; Tu bem sabes que eu sou deveras teu amigo!» E Jesus disse-lhe: «Apascenta as minhas ovelhas. Em verdade, em verdade te digo: quando eras mais novo, tu mesmo atavas o cinto e ias para onde querias; mas, quando fores velho, estenderás as mãos e outro te há-de atar o cinto e levar para onde não queres.» E disse isto para indicar o género de morte com que ele havia de dar glória a Deus. Depois destas palavras, acrescentou: «Segue-me!»

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Não vou referir pormenores de exegese, da diferença entre os verbos usados por Pedro e por Jesus; toda a carga da tríplice pergunta… Não interessa para aqui. Tornar-se pastor de todo o rebanho (cordeiros e ovelhas, das mansas ovelhas e dos cabritos às marradas…) é uma consequência do amor de Cristo pela Sua Igreja e uma cura permanente da deficiência do nosso amor. Mas só na reafirmação desta relação desigual (Deus ama-nos mais do que nós podemos amá-Lo…) que nasce a missão e o ser sinal, ser um rosto da Misericórdia de Deus. Do modo como somos isso, gostaria de destacar alguns aspectos, procurando uma hierarquia: - o “sacramento” da fidelidade/verdade: o primeiro sinal da misericórdia é que Deus vale apena ser seguido; contudo, apesar de tudo, no meio das maiores dificuldades, sacrificando o estatuto e a vaidade pessoal à verdade; ser fiel à consagração com que Deus nos escolheu é encontrar a felicidade com o que prometemos a Deus, não como um jugo, não como um sacrifício mas como uma oblação. E a fidelidade à Igreja, que não é a mais fácil de viver, porque a vemos, por vezes, tão adúltera, tão ferida. Viver nela a verdade é uma obra de Misericórdia porque só o podemos fazer por amor e no exercício do amor. - o “sacramento” da disponibilidade: outro grande sinal da misericórdia de Deus na vida dos padres é estar disponível, quer dizer, não ter grandes planos pessoais a não ser que Cristo chegue a todos os corações, que todos possam encontrar o Bom Pastor. Sim, temos muitas ideias e soluções pastorais, encantos e sabedoria pessoal quanto baste, mas uma só coisa Jesus nos manda, que pastoreemos, que levemos as suas ovelhas, e cabritos, aos pastos verdejantes de Deus. Estar disponível para tudo, quer dizer, para aquilo que cada um desejar de nós e o que Deus nos pedir, é também um sinal de amor, desse amor incondicional de Deus que se transforma no concreto de cada dia. - o “sacramento” da proximidade: dentro desta disponibilidade, a proximidade; não é a mesma coisa. Estar próximo, pela definição de Jesus, é deixar-se constituir pelo outro, é ficar seu “refém” (Levinas), é pertencer-lhe. Estar próximo é fazer comunhão de vida, é entender e fazer parte da vida do outro; já não é estar como espectador, muito menos como juiz, mas compreender que a vida nem sempre é como deveria ser ou como achamos que deveria ser; tem as suas originalidades e, mesmo que distante, o amor deve fazer as comunhões necessárias para que cada um saiba que Deus não está longe, muito pelo contrário, quando parece mais longe é quando está mais perto… segundo o Evangelho. - o “sacramento” da paternidade: mas a missão que Jesus nos deu e nos dá, quando a pedimos, é de ser pastores, de indicar, de ir à frente, se possível; por isso, somos padres, somos pais. É um sinal da misericórdia de Deus os Homens poderem ter quem arrisque por eles, quem procure com eles e lhes dê uma palavra de alento, de confiança, de exigência, de carinho, de direção, como um verdadeiro pai faz a um filho. Se Deus nos fez e os faz é para sermos padres, sermos pais, para todos, porque todos precisam de encontrar em nós o regaço do Pai, os ombros do Bom Pastor. - o sacramento da reconciliação: é o lugar por excelência onde se realiza a Misericórdia de Deus. Não é só aí, é claro, mas aí se celebra, se torna expresso, se faz eficaz pela graça sacramental da Igreja. O Sacramento da Reconciliação é a realização desse encontro com o amor de Deus que o pecador começa desde que reconhece a sua distância e se dispõe a caminhar para o perdão. Sei que hoje está em crise, diz-se e eu confirmo, porque tem sido tão mal tratado, também por nós, os padres. E só me refiro a isso, aos maus tratos que lhe temos dado: começamos por tarifar os pecados e o perdão de Deus, depois passou a ser um julgamento sumário sem direito a apelo, a seguir passou a ser uma consulta psicológica de desculpabilização. Talvez o pior mal que fizemos ao Sacramento da Reconciliação foi pensarmos que éramos donos do perdão de Deus… E, agora, andamos à procura de que volte a ser o que deve ser: um encontro entre a tristeza do pecado e a alegria do perdão, uma cura agraciada para a alma sem graça, uma certeza de que Deus nem no nosso pecado nos abandona, que está sempre disponível para nos “puxar” para si, como uma mãe ao seu filho desastrado.

Certamente que há outros modos de falar e de refletir como ser padre é ser sinal da Misericórdia de Deus. Procurei, a partir da minha vida de padre e de pastor, partilhar convosco aquilo que sinto e aprendo de Deus. E a pergunta é sempre a mesma: “Tu amas-me?” A resposta é que pode variar mas quando respondemos como Pedro, então esse amor tem uma forma, tem um modo: ser pastor como o Bom Pastor.

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Homilia Ermesinde, 10 de Junho 2016 25 anos de ordenação presbiteral + Carlos Moreira Azevedo

“Não desanimamos neste ministério que nos foi confiado pela misericórdia de Deus. (…) Somos vossos servos, por causa de Jesus”. Estas palavras da segunda leitura expressam certamente o que o P. Araújo e o P. Zé Augusto sentem, após 25 anos de ministério vivido, inspirado pela espiritualidade do oásis, o serviço por amor. “Somos servos por causa de Jesus”. Jesus não deixa espaço para dúvidas sobre o modo de estar: “Eu estou no meio de vós como aquele que serve”. O nosso serviço assume muitas formas, reveste-se de muitas tonalidades, quer-nos inteiramente, na variedade das pessoas que somos: no bom humor sereno e cheio de sensibilidade do Zé Augusto, na responsabilidade ativa e na dedicação do Araújo.

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O Papa Francisco, em reunião com os bispos italianos, nos meados de Maio, traçava o perfil do padre que sonhava para os nossos dias. Enquadra-se perfeitamente na mensagem da Palavra de Deus deste dia. 1. Primeiro, citando a Evangelii Nuntiandi (80) quer-se que o padre “irradie fervor”. Os anunciadores da Boa notícia, os ministros do Evangelho devem conduzir uma vida que dê gosto de ser vivida, que seja saborosa. Perante tantas mudanças culturais dos últimos decénios, muita gente que encontramos não tem referências a que agarrar-se. Para que a vida do padre seja eloquente é fundamental que aceite ser diferente, ser uma alternativa. Ungido e abrasado pelo Espírito, como canta Isaías e repete Jesus na sinagoga de Cafarnaum, o padre deixa queimar ambições de poder, não se interpreta “como um devoto que se refugia no intimismo religioso, que tem pouco de espiritual”. O padre encontra tanta gente ferida e não se escandaliza com a fragilidade que abala o ânimo humano e sabe que também ele é um curado. “O padre fica distante da frieza de um rigorista, como também da superficialidade de quem quer mostrar-se condescendente e bom preço”.

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A fonte para um tal estilo de vida ardente provém de um grande serviço por amor. Assim disse o Papa: “O padre não é um burocrata ou um anónimo funcionário da instituição; não é consagrado a um papel de empregado, não se move por critérios de eficiência. Sabe que o amor é tudo. Não busca seguranças terrenas … no ministério não exige para si o que vá além do necessário, nem está preocupado em ligar a si as pessoas que lhe foram confiadas. O seu estilo de vida simples e essencial, sempre disponível, apresenta-o credível aos olhos das pessoas e aproxima-o dos humildes, numa caridade pastoral que faz pessoas livres e solidárias. Servo da vida, caminha com o coração e o passo dos pobres, enriquece-se aos frequentá-los.” Para manter este estilo de vida, o segredo está em viver uma profunda união com Cristo. Assim esclarece o Papa Francisco: “É a relação com Jesus Cristo que guarda o padre, o faz estranho à mundanidade espiritual que corrompe, como o afasta de qualquer compromisso e mesquinhez. É a amizade com o seu Senhor a levá-lo a abraçar a realidade quotidiana com a confiança de quem acredita que, por Deus, a impossibilidade do ser humano não permanece.” Significativas soam, hoje, as palavras de São Paulo: “Pusemos de parte as dissimulações do acanhamento, sem proceder com astúcia, nem falsificar a palavra de Deus. Não nos pregamos a nós próprios, mas a Cristo Jesus, o Senhor.” Primeiro está, portanto, o serviço ardente, o ardor do zelo, graças ao Espírito de Jesus.

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2. A segunda questão que o Papa Francisco levanta ao padre do nosso tempo é: “A quem presta o seu serviço?” Parte da noção fundamental de que o padre participa da Igreja, de uma comunidade concreta, com a qual partilha o caminho. “O povo fiel de Deus permanece o seio de onde o padre provém, a família na qual se insere, a casa à qual é enviado. Esta pertença comum, que decorre do batismo, é a respiração que liberta de uma autorreferencialidade, que isola e aprisiona.” Numa igreja “em saída” o padre não pode ser uma figura estática e sedentária, ligado apenas à conservação, mas deve ousar, pôr-se em jogo sem medo, para levar a todos o Evangelho, na escola do seu povo e das suas expectativas de salvação. Continua o Papa: “O pastor é convertido e confirmado pela fé simples do povo santo de Deus, com o qual trabalha e em cujo coração vive. Esta pertença é o sal da vida do presbítero; faz com que o seu traço distintivo seja a comunhão, vivida com os leigos, em relações que sabem valorizar a participação de cada um. Num tempo pobre de amizade social, é nossa tarefa construir comunidade.” E acrescentou, um pedido claríssimo: “numa visão evangélica, evitai sobrecarregar-vos com uma pastoral de conservação, que obstaculiza a abertura à perene novidade do Espírito Santo. Mantende apenas o que pode servir para a experiência de fé e de caridade do povo de Deus”. Por isso, damos graças a Deus pela fidelidade a este segundo traço da vida do padre, bem vivida pelos nosso homenageados: sentirem-se ousados servidores das comunidades que lhes foram confiadas, não se isolarem mas sentirem-se animadores de um povo a que pertencem.

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3. Terceira questão do papa Francisco para os padres: “qual é a razão para a sua doação?” Tendo em conta a ligação a Deus e à Igreja, antes mencionadas, Francisco observa: “Quanta tristeza vivem aqueles que estão sempre a meias tintas, com um pé no ar! Calculam, medem, não arriscam nada por medo de se perder… São os mais infelizes! O presbítero, com os seus limites - Nós trazemos em vasos de barro o tesouro do nosso ministério, para que se conheça que um poder tão sublime vem de Deus e não de nós (2 Cor.4) - é alguém que se lança até ao fundo e até ao fim, nas condições concretas, em que vive o ministério, oferece-se com gratuidade, com humildade e alegria. Mesmo quando ninguém dá conta. Mesmo quando intui que, humanamente, talvez ninguém agradecerá suficientemente o seu dar-se sem medida.” Só assim o padre pode tornar-se um sinal e uma ajuda para todos, se for um homem “da Páscoa, de olhar dirigido para o reino, para o qual sente que a história humana se encaminha, apesar dos atrasos, da obscuridade e das contradições. O Reino – a visão que Jesus tem do ser humano – é a alegria, o horizonte que lhe permite relativizar o resto, temperar preocupações e ansiedades, permanecer livre de ilusões e do pessimismo; guardar no coração a paz e a difundir com os seus gestos, as suas palavras, as suas atitudes”. As palavras da leitura de Isaías (61) são um desenvolvimento desta missão: “O espírito do Senhor está sobre mim, porque o Senhor me ungiu e me enviou a anunciar a boa nova aos infelizes, a curar os corações atribulados, a proclamar a redenção aos cativos e a liberdade aos prisioneiros, a proclamar o ano da graça do Senhor e o dia da ação justiceira do nosso Deus; a consolar todos os aflitos, a levar aos aflitos de Sião uma coroa em vez de cinza, o óleo da alegria em vez do trajo de luto, cânticos de louvor em vez de um espírito abatido.” Caríssimos irmãos e irmãs: Demos graças a Deus por não andarmos longe do que o papa Francisco sonha para a figura do padre de hoje e caminhemos o que ainda nos falta para ajudarmos a Igreja de hoje a ter servidores no seguimento de Jesus, ardentes pela força do Espírito e misericordiosos como o Pai.

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PALAVRA DO FUNDADOR A vocação é o chamamento que Jesus faz a todos, quando diz: “Sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai que está nos céus” (Mt. 5, 48) Todos somos chamados à perfeição; todos, isto é, todos somos chamados a ser, sempre mais integralmente, aquilo que somos, para realizar, perfeitamente, a missão que Deus nos confia. Em suma: não há ninguém que Deus tenha criado para o deixar a meio, isto é, imperfeito. (…) A vocação ao sacerdócio não se pode dizer que seja a mais importante. Deus tem os seus critérios – critérios muitas vezes incompreensíveis para nós – para fazer as suas escolhas e as suas recusas… A escolha é feita por Deus; não sou eu que a faço, nem é feita por ti: “não fostes vós que me escolhestes; fui eu que vos escolhi a vós”. (Jo. 15, 16) Quero dizer-te que não deves estar entre aqueles que recusam a chamada de Jesus… Se um dia, fores chamado, responde SIM. Tem confiança: é Deus que te convida. Deixa que te diga uma palavra sincera acerca do gravíssimo problema da escassez de sacerdotes. Se se considera urgente a acção directa da renovação, evangelização e animação interna da Igreja; se se considera uma necessária acção directa de aproximação aos que estão longe - os que se afastaram e os que ainda não se aproximaram – o número das pessoas consagradas é muito escasso…. E se Jesus te chamar? Responde SIM. Com certeza nunca pensaste nisso, mas o teu NÃO pode tornar mais difícil, ou mesmo obstaculizar, a salvação e a santificação de muitas pessoas… Pede a Jesus que te chame!… Esta vida, que parece solitária, está cheia de Deus; esta vida conhece a alegria do dar-se e, ao despojar-se de tudo, enche-se de almas… Vida com alma, para as almas; vida com Jesus, para Jesus… (cf. Passa parola, pág. 38/40)

Acampamento de Verão OÁSIS Data: 21 a 26 de Agosto 2016 Idade: dos 15 aos 17 anos Tema: Fontes para o mundo Participa! Contamos contigo!

Movimento Oásis Centro de Espiritualidade Rua Mirante de Sonhos, 105 4445-511 Ermesinde - tel. 229712935 http://www.movimentooasis.com Contactos : padrearaujo@sapo.pt / oasis@movimentooasis.com Crescer on-line - Julho de 2015 - Página nº 2

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Boletim do Movimento Oásis em Portugal

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