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ARTIGO - ANO 2018 - EDIÇÃO 18

A construção das curvas

O crescimento na síndrome de Down Com população estimada entre 6,1 a 13,1 por 10.000, pessoas com síndrome de Down (SD) têm recebido atenção especial em relação a vários aspectos de saúde, resultando em maior expectativa de vida. No caso de jovens com SD, o acompanhamento do crescimento físico em etapas precoces previne e combate diversas comorbidades. O crescimento é determinado por diversos fatores. As alterações do crescimento ao longo da infância e adolescência na SD podem ser influenciadas por fatores genéticos e ocorrência de comorbidades. Fatores de risco relacionados ao baixo peso nos primeiros anos de vida envolvem desordens na ingestão de alimentos e comorbidades. A transição entre baixo peso nos primeiros anos de vida e a obesidade a partir da segunda infância tem sido associada às desordens do hormônio leptina, taxa metabólica basal, dieta, atividade física e comorbidades. Em linhas gerais, crianças com SD apresentam padrões de crescimento que os diferencia em relação às crianças sem SD. Neste contexto, a construção de curvas de crescimento específicas para crianças e adolescentes com SD são necessárias. A importância das curvas Curvas de crescimento são ferramentas muito importantes para orientar profissionais de diversas áreas, incluindo a Educação Física, Medicina, Enfermagem, Nutrição, e correlatas. Organizações de saúde tem recomendado o uso das curvas de crescimento para crianças brasileiras com SD na faixa etária entre 0 e 18 anos. No entanto, tais curvas utilizam dados de crianças de outros países e sua aplicabilidade no Brasil tem sido questionada. O Brasil é um país em desenvolvimento, com diferenças raciais, étnicas e econômicas. Há evidências, por exemplo, que crianças de países de baixa e média renda são mais propensas a apresentarem restrição de crescimento. Portanto, os padrões de crescimento de crianças brasileiras com SD são diferentes daquelas com SD de outros países. Equívoco bastante comum é a utilização de curvas de crescimento desenvolvidas para crianças sem SD. Como exemplo, observa-se a utilização de curvas de crescimento desenvolvidas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para a avaliação de crianças com SD. Pesquisas anteriores demonstram que os padrões de crescimento da OMS podem subestimar o crescimento de crianças com SD, devido às diferenças significativas de peso e estatura entre as populações. Diante da falta de um padrão de crescimento, a Universidade Estadual de Campinas em parceria com instituições de referência no país desenvolveram as curvas de crescimento para brasileiros com SD.

O desenvolvimento das curvas de crescimento ocorreu em diversas regiões do Estado de São Paulo no período entre 2012 e 2015. Os dados foram obtidos na Universidade Estadual de Campinas, 48 Associações de Pais e Amigos dos Excepcionais do Estado de SP (Américo Brasiliense, Araçatuba, Araraquara, Arujá, Assis, Cabreúva, Campinas, Candido Motta, Caraguatatuba, Catanduva, Cordeirópolis, Cravinhos, Diadema, Dracena, Ferraz de Vasconcelos, General Salgado, Guaíra, Guaratinguetá, Ibitinga, Itapevi, Itápolis, Jaguariúna, José Bonifácio, Marília, Matão, Mogi das Cruzes, Monte Alto, Nhandeara, Nova Odessa, Novo Horizonte, Ourinhos, Palmital, Piedade, Pirassununga, Poá, Pompeia, Porto Feliz, São José do Rio Preto, Salto, Salto Grande, São Caetano do Sul, Santo André, Santa Bárbara d’Oeste, Sumaré, Taquaritinga, Taquarituba, Votuporanga e Xavantes) e duas instituições especializadas no atendimento de pessoas com SD de Campinas/SP. Os locais foram selecionados de modo a representar a população brasileira em termos de origens raciais e étnicas. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas. Em adição, entrevistas com pais e responsáveis f​ oram conduzidas para obtenção de informações específicas, tais como idade gestacional, comorbidades, peso, estatura e perímetro cefálico. As medidas foram realizadas por avaliadores da Universidade e das instituições usando procedimentos padronizados. Os seguintes grupos etários foram utilizados para a construção das curvas: 0-36 meses (1 medida a cada mês); 3 a 20 anos (1 medida a cada ano). A análise de dados foi realizada em diversas etapas. Percentis 3 a 97 foram gerados para a construção das curvas de peso-para-idade, estaturapara-idade, e perímetro cefálico-para-idade. A população total foi constituída por um total de 938 participantes, sendo realizado um total de 10.516 avaliações de peso, estatura e perímetro cefálico. As curvas Curvas de peso-para-idade, estatura-para-idade, perímetro cefálico-para-idade e IMC-para-idade foram especificamente construídas para meninos e meninas com SD na faixa etária entre 0 a 20 anos. Curvas de IMC, por exemplo, podem ser observadas nas Figuras 1 e 2. Todas as curvas estão disponíveis na página da internet da Sociedade Brasileira de Pediatria, no seguinte link: http://www.sbp.com.br/departamentos-cientificos/endocrinologia/ graficos-de-crescimento/ Diferenças com outras curvas O crescimento de crianças com SD do atual estudo foram comparadas com a OMS e Centro para o Controle de Doenças dos Estados Unidos (CDC). Como esperado, os participantes com SD foram significativamente mais baixos em todas as idades com relação à OMS. A divergência na estatura média aumentou nas idades 1215 anos e atingiu seu maior nível em 17-19 anos, resultando em 20 cm abaixo da média da população geral. Um dado interessante refere-se ao peso nos primeiros anos de vida. Os estudos anteriores destacavam a obesidade, mas não o baixo peso. O estudo mostrou que crianças com SD com idade entre 0 e 15 meses apresentaram menores valores de peso em comparação aos padrões da OMS. Por outro lado, os meninos e as meninas se mostraram mais pesadas do que o CDC em idades acima de dois anos, confirmando as evidências de obesidade em jovens com SD. Quando comparado

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Revista APAE em Destaque 18  
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