Page 1

ALDENOR PIMENTEL, ÁLVARO SANTI, AMANDA LINS, ANDERSON CARLOS MACIEL, ANDRÉ FOLTRAN, ANTONIO CARNEIRO, CAROLINA SILVA, DARLAN VEIT, EDUARDO MARQUES SANTOS, ESTELITA DE OLIVEIRA THIELE, FABIANO SORBARA, GISELA LOPES PEÇANHA, JOAQUIM BISPO, JONATAN MAGELLA, MAGALI COSTA GUIMARÃES, MARIA DE LOURDES PRATA GARCIA, NILTON SILVEIRA, ROBERTH FABRIS, RONALDO MAGALHÃES OLIVEIRA, WESLEY FRANCISCO REIS

MOVIMENTO LITERÁRIO DIGITAL #3


MOTUS - Movimento Literário Digital #3 Publicada em 10/2019

Equipe Executora: Alexandre Alderete Alves Aline Vieira de Mello Aliriane Ferreira Almeida Amanda Gobus Lopes Amanda Meincke Melo Ana Lúcia Vargas Antônio de Freitas Valle Neto Bruno Braga Medeiros Kauê Vargas Sitó Marileia da Silva Marchezan Marlucy Farias Medeiros Paulo Antônio Berquó Farias Rosa Helena da Silva Martinez


A revista digital Motus é produto do projeto de extensão Motus - Movimento Literário Digital da Universidade Federal do Pampa – UNIPAMPA – Campus Alegrete, vinculado ao programa de extensão Programa C, que visa intensificar o interesse pela literatura dos cidadãos e estudantes; incentivar a produção de obras literárias; selecionar e publicar obras literárias inéditas em Língua Portuguesa. A terceira edição da Motus (Motus #3) tem como tema “O Tempo” e recebeu obras de autores residentes em diferentes estados brasileiros e no exterior (Canadá, Estados Unidos, Itália, Japão, Moçambique e Portugal). O número de obras submetidas tem crescido anualmente: foram 125 obras submetidas para a Motus #1, 194 para a Motus #2 e 313 obras para a Motus #3. Isso demonstra que o objetivo de incentivar a produção literária tem sido alcançado progressivamente, atingindo autores de diferentes idades, profissões e culturas. Esta edição é composta por dez poemas e dez contos, selecionados através de concurso literário, e um poema escrito de forma colaborativa por estudantes do nono ano com apoio de duas professoras, resultado da ação Motus na Escola Estadual Dr. Romário Araújo de Oliveira – CIEP (Alegrete). Cada obra é acompanhada por uma linda ilustração da artista Amanda Gobus Lopes. Todas as ilustrações da Motus #3 possuem texto alternativo. O incentivo à leitura é realizado através de publicações e compartilhamentos em redes sociais; pela participação na feira do livro de Alegrete; por ações como o Clube do Livro e Varal Literário, realizadas em parceria com o projeto de extensão “Leitura em Todos os Sentidos”; por ações Motus na Escola; e pela participação em eventos, como o 37º Seminário de Extensão Universitária da Região Sul, em que o vídeo “Motus - espalhando amor através da literatura” foi premiado na categoria Cultura. Convidamos você a desfrutar um pouco de seu tempo lendo as páginas da Motus #3. Aline Vieira de Mello Coordenadora do Projeto


MOVIMENTO LITERÁRIO DIGITAL


NESTA EDIÇÃO DA

MOVIMENTO LITERÁRIO DIGITAL

Ampulheta 07 Carolina Silva A fabulosa trajetória de uma bala perdida 09 Jonatan Magella Pai apressado, mãe sem tempo e o filho ligeiro 11 Darlan Veit Piano fim 15 Aldenor Pimentel Pássaros de amor nos ponteiros do relógio 19 Antonio Carneiro Quando os afetos ganham o mundo 21 Ronaldo Magalhães Oliveira O tempo é como um rio 23 Amanda Lins O tempo passou por mim 27 Wesley Francisco Reis O tempo presente 31 Magali Costa Guimarães O tempo sociológico secularmente pão 33 Anderson Carlos Maciel Os vertiginosos dias de uma escritora diletante 35 Joaquim Bispo Réquiem 39 Gisela Lopes Peçanha Sem tempo pra poesia 43 André Foltran Sementes do tempo 45 Fabiano Sorbara Tempo antropofágico ou antropofagia temporal 47 Eduardo Marques Santos Tempo dançarino 49 Álvaro Santi Tempo quente 53 Maria de Lourdes Prata Garcia Tempo, um aliado da vida 55 Nilton Silveira Um copo de ópio no tempo certo 59 Roberth Fabris Uma criatura repleta de tempo 61 Estelita de Oliveira Thiele O tempo não para 65 Motus na Escola Dr. Romário Araujo de Oliveira



Os dias que passam o ano que um dia acaba as fases que nunca mais voltam tanto tempo e no meu pensamento se transformam em segundos como um trailler de um filme desafiando a lei do tempo, fotografias na memória tantos momentos tantas histórias o relógio da vida não parou . parou vida não o relógio da tantas histórias tantos momentos fotografias na memória desafiando a lei do tempo, como um trailler de um filme se transformam em segundos tanto tempo e no meu pensamento as fases que nunca mais voltam o ano que um dia acaba Os dias que passam

Carolina Silva é natural de Franca no interior de São Paulo (quase Minas Gerais), nascida no dia 12 de outubro de 1989, analista de sistemas e gerente de marketing de uma hamburgueria artesanal, nas horas vagas toca violão e canta, também escreve poesias e músicas que podem ser lidos no blog https://diarioemestrofes.wordpress.com. Esta é a primeira vez que um poema seu é publicado.



Eu duvido que alguém tenha vivido uma vida como a minha: uma vida de potência. Afinal há quem dure seiscentos metros e é feliz. Há quem dure oitocentos. Há até quem dure um quilômetro e meio. São munições felizardas. Mas agora permita-me a arrogância, que em alguns momentos da vida precisamos ser arrogantes: eu duvido que alguém tenha vivido uma vida como a minha. Três quilômetros e meio de pura parábola. A munição mais alegre desse mundo. Pensar nisso até anula o sofrimento de ter sido expulsa do útero de minha armãe, lugar quentinho e confortável, onde tive todo o amor, pólvora e chumbo que precisava. Anula também as dores sentidas pelas intempéries do ar, pela curvatura da terra, pela velocidade do vento. Não é fácil ser uma munição. Mas mesmo hoje, no fim de minha longa viagem e já perto da morte, lembro-me com saudades da juventude. O auge! Você não tem noção da adrenalina que é participar de uma roleta russa. Não prever se é sua hora ou não. No jogo mais perigoso do mundo não há deuses nem matemática: é pura aleatoriedade. Lembrar disso até anula minha utopia de viver lá na Inglaterra ou no País de Gales, onde só duas de nós ao ano somos disparadas. Ou no Japão, onde as leis anti-armas são rígidas. Só sem desejos se vive o agora. E o agora é isso: gratidão. Sobrevivi à roleta russa e, quando chegou minha hora, fui feliz. Disparada por um conservador descontrolado, sobrevivi às estatísticas: EU posso bater no peito e, enquanto munição, afirmar que EU atravessei de Copacabana ao Leme, que EU fu atravessada por hotéis, ondas, pedras portuguesas, montanhas, gente, alegria, prédios, porteiros, dramaturgos. Desviei de todo mundo (ou todo mundo desviou de mim?). Nascida de arma silenciosa, nem barulho fiz. Ninguém teve medo – embora a ideia do tal conservador descontrolado fosse ferir um pivete do Cantagalo. Não fui condizente com tamanha atrocidade: só passei como uma munição que se diverte brincando de tiro a distância. Porque a vida é passar. E a vida é isso que passa. E hoje, velha e quase inútil, depois de tudo isso, depois de tudo isso, repouso exausta por ter gasto toda a energia que tive direito. Deito numa rua secundária da Zona Sul do Rio. Um turista italiano me encontra e diz, uau! una munizione brasiliana. Un ricordo di Rio de Janeiro! E então eu passo a eternidade numa prateleira em Milão como suvenir carioca: a incrível munição que nasceu de arma silenciosa, sobreviveu a uma roleta russa e, numa das cidades mais violentas do planeta, não feriu ninguém.


Se eu fui feliz? Não totalmente. Com tanto sofrimento no mundo, é difícil. Tantas munições vivendo tão pouco, nascendo e morrendo em frações de milésimos. Tenho sororidade. Já ouvi dizer até que alguns morrem antes de completar 10 metros. E há inclusive a lenda dos natimortos, também conhecidos como os queimarroupa. Parto com orgulho da vida. E deixo esse mundo cheia de solidariedade pelas munições que não tiveram vida plena, porque em algum lugar de sua parábola encontraram pele Colete pulmão tijolo órgão cimento vital tinta vidro

janela

cortina

escola

pública

Futuro de criança.

Jonatan Magella nasceu em 1990. Em 2018, publicou seus contos em Vidas irrisórias (Luva Editora). É dramaturgo formado pelo Núcleo SESI, onde foi selecionado para publicar a dramaturgia Desculpe o transtorno (Editora Cobogó). É estudante de Roteiro na Academia Internacional de Cinema. Teve contos selecionados em revistas e antologias, como a Sarau Subúrbio e o Repertório de utopias, do Itaú cultural. Vive na Baixada Fluminense, RJ, onde é professor de História da rede pública.


Douglas sabe que o relógio em seu pulso não foi presente em vão. Embora os números digitais pareçam grandes para a rotina do garoto de sete anos, ele conhece os rigores do pai, o Senhor João, e da mãe, a Dona Maria. Os pais precisam contar os segundos para que a família possa almoçar junta diariamente. O menino escuta o sinal que termina a aula de um ensolarado dia da década de 1980. Douglas é o primeiro a passar pela porta da turma de primeira série. Ele aproveita seu tamanho e se espreme junto aos corredores enquanto serpenteia em direção à rua. Muitas crianças seguem o destino dele, mas não com o mesmo ímpeto. Ele empurra alunos maiores, xinga as tartarugas, desce a escada pelo corrimão e pula o trecho final já do outro lado, livre dos degraus. Ele passa pelo portão atento aos números em seu pulso e sorri. No entanto, a voz da maldita Senhora Dolores, a disciplinadora que cuida da portaria, grita:

- Cadê o casaco, Douglas? Douglas para e os tênis assoviam o atrito com o chão. Ele arregala as sobrancelhas e, sem tirar a mochila das costas, torce o braço para apertá-la. Sim, a mochila está vazia demais para conter o agasalho, o garoto sequer diz o palavrão que as contorções de seu rosto sugerem e se bota a correr de volta na contramão. Depois de muitos esbarrões, ele passa pelo mesmo portão e procura pelo carro do pai. O Senhor João sempre estaciona depois da entrada da escola e do mesmo lado da rua para que o filho não precise atravessá-la. Douglas marcha acelerado na direção usual, observa cada veículo, vê um espaço disponível antes do encontro, mas segue com passos firmes.

- Esse espaço surgiu depois que o pai chegou. Douglas diz para si mesmo. O menino dobra a esquina, percebe a sobra de vagas e olha no relógio.

- Nove pro meio-dia. O pai já foi... Ele cansou de me dizer que eu tinha somente cinco minutos de tolerância. Douglas pensa em voz alta enquanto balança a cabeça de lado a lado. Se eles tivessem tocado o sinal às 11:45 ao invés das 11:47. Se eu não tivesse esquecido o casaco. Se eu tivesse outro pai... Douglas não é o tipo de menino que perde tempo, ele resmunga já caminhando em direção de casa, ele conhece o caminho porque o pai faz sempre o mesmo trajeto. §



-Se não tivesse furado o pneu... se não tivesse furado o pneu. Resmunga o Senhor João ao estacionar o carro pouco depois do portão de entrada da escola. Ele sai do veículo e a Dolores diz a frase que o pai mais gosta de ouvir.

- O Senhor nunca se atrasa... - É verdade... diz João com um sorriso e olha no relógio... três pro meio-dia! Ele afirma já esticando olhares sobre a calçada. É tarde demais, a calçada está vazia para que alguém possa se esconder na multidão. Dolores ajuda o pai a procurar o filho, mas confessa não ter certeza se viu o garoto passar pelo portão uma segunda vez, ele voltara em busca do casaco. Douglas não está na sala de aula, no pátio, nos banheiros, no ginásio, na biblioteca... Douglas não está na escola.

- Talvez o senhor devesse ligar pra sua esposa, ela pode ter pegado o garoto... Sugere Dolores.

- O Douglas é minha responsabilidade... diz o pai com a primeira lágrima a escorrer na face. Eles vasculham as calçadas externas mais uma vez e escrutinam a escola já com a Dolores mencionando a polícia. Com alguma demora, o pai aceita chamar a polícia e passa os dados ainda por telefone; garoto, sete anos, Douglas, moreno de cabelos e branco de pele, olhos castanhos, uniforme azul-marinho, mochila vermelha e um grande relógio digital preto no pulso.

- E agora, o que eu faço? Pergunta o Senhor João após passar a descrição. A voz através do telefone o orienta a contatar a mãe pessoalmente e trazer uma foto do Douglas até a delegacia. O Senhor João dirige sem pressa, pois precisa pensar em uma maneira de contar o desaparecimento à esposa. O trânsito de cidade metropolitana flui rápido para o pai que ainda não sabe o que dizer enquanto dobra na rua de sua casa. O homem que tivera pressa a vida inteira chora em desespero com a angústia precoce que jamais esperara. § O Senhor João vê o carro de polícia com a sirene ligada, a porta aberta e o policial na calçada a falar com um menino... Milagre!

- É o Douglas! Grita o pai estacionando o carro a menos de um quarteirão da residência da família. Pai e filho se abraçam.


- Eu entendi a lição, pai. Não precisa chorar... - Lição!? Exclamou João. -Sim, você viu que eu me atrasei e fez eu caminhar como disse que faria. -Eu só falava aquela coisa dos cinco minutos pra você se apressar... Explica o pai sob o olhar franzido do policial. A viatura deixa o local logo em seguida e o Senhor João dá mais beijos e abraços. - Chega, pai! A mãe vai ficar doida com todo esse atraso.

- Pois é... tua mãe vai querer me matar quando souber. - Souber!? Ela já sabe, eu recém cheguei em casa e contei, mas ela nem me deixou terminar... A mãe me mandou te buscar pelas orelhas porque pensa que o senhor tirou tempo pra brincadeira

.

Darlan Veit foi dentista, enxadrista e professor antes de transformar o plano de ser escritor em realidade. Estreou como autor em 2018, na antologia Vivendo na Terra do Nunca. Ele obteve sucesso em diversos concursos literários e publicou através do Kindle Direct Publishing. O link de Darlan Veit no KDP é https://www.amazon.com.br/Darlan-Veit-LojaKindle/s?k=Darlan+Veit&rh=n%3A5308307011. No Instagram, @darlanveit compartilha trechos de trabalhos e é possível saber mais sobre o escritor.


Dó. Foi a nota inaugural a soar assim que caiu a primeira lágrima do seu rosto sobre a tecla do piano. E as notas se sucediam. E as lágrimas também. Ela sabia que seu suspiro derradeiro estava próximo, e que seria logo após o cessar da melodia que se iniciara. Afinal, foi com as próprias mãos que ela ligou o dispositivo da bomba às cordas do instrumento. E foi se lembrando de que, quando ainda nem sabia que era gente, ouvia, do ventre da mãe, aquela delicada voz a cantarolar um sem fim de melodias, que, de tão singelas, lhe tocavam o prematuro coração, fazendo-o bater ainda mais rápido. Lembrou também que ao vir à luz, seu choro soou como música para os ouvidos maternais. E que, a cada noite, adormecia nos braços daquela que lhe murmurava um infinito repertório de canções de ninar. O tempo foi passando, quase que no mesmo compasso das cantigas de roda e das cirandas que as crianças, no meio da rua, repetiam em uníssono crescente. Ela até se esforçava para prender o tempo com as próprias mãos, mas ele fugia. Em suas pequeninas e frágeis mãos só conseguia segurar mesmo a escova de cabelo da mãe, enquanto, diante do espelho e a todo volume, fingia ser uma daquelas famosas cantoras da TV. A menina que aparecia no espelho também se foi. No seu lugar, via-se uma mulher que era toda harmonia. Cansada daquelas adocicadas músicas de adolescente, decidiu dar um passo a frente e formar um dueto. Finalmente, encontrou sua segunda voz. E como eles se afinavam... e como era mágica a sintonia entre os dois... Mas um dia o ritmo desanda... ou porque, mesmo estando juntos, já não queriam tocar as mesmas músicas ou porque outro instrumento teimava em entrar no meio canção. Era como se a voz de cada um deles, que até então casava perfeitamente, agora fosse dissonante. E assim, o melhor arranjo foi cada um seguir carreira solo. Para ela não foi fácil. Depois de tantos e tantos ensaios em conjunto, quem é feliz sendo uma nota só? Soluçava em staccato, suspirava em bemol, murmurava em sustenido. Logo depois de uma pausa breve, sua voz aguda, de timbre inconfundível, voltava a romper o silêncio. E a sinfonia era só lamento. Seu pranto percorria todas as notas, de todas as escalas, passando por todas as oitavas. Parecia até que era da garganta que saía aquele som que se fazia ouvir por quem quer que fosse, atravessando paredes e portas que tentavam, sem sucesso, trancar seu segredo a sete claves. Do seu canto, percebeu que o cansaço lhe forçava a pôr fim à canção. E tocou as últimas notas que lhe restavam para compor a música de sua vida. Compassadamente. Sem pensar em si. Era toda e somente: dó. […]



Bum.

Aldenor Pimentel é natural de Boa Vista (RR). Jornalista e escritor, seu romance Eldorado de Brisa foi selecionado em 2018 para publicação em edital do Governo de Roraima, além de ter recebido mais de 40 prêmios em concursos literários nacionais e internacionais. É autor das obras Deus para Presidência (2015), Livrinho da Silva (2017) e A Inacreditável História do Milho Gigante (2019).



Fossem meus cabelos um pouco mais Longos e escuros como a noite próxima O fim do amor não seria uma lástima E o adeus me traria certa paz

Mas como as janelas escorrem vãs Pelas horas e os dias, separando As dores das alegrias, enquanto O passado forja o nosso amanhã

Talvez eu deva, também, separar A expectativa do nosso passado Do futuro que urra em grito calado

Porque nada é pior que o vasto tempo Essa infecunda esperança de amar E de viver, gigante, forte, lento

Antonio Pedro Carneiro é formado em Economia e Ciências Políticas pela Sorbonne, mas sempre teve na literatura seu ninho e refúgio de viver, já tendo publicado poemas, contos e peças de teatro nacional e internacionalmente. Recentemente, teve a honra de ver a encenação da peça de sua autoria “A Balada de Pedro” (2014) no Teatro O Tablado do Rio de Janeiro e a publicação do poema “Passerby” no Concurso Internacional de Poesia do Castello De Duino (2015).



D. Mocinha sempre soube que é preciso deixar seus afetos ganharem o mundo, mas, quando Cauã encorpou a ponto de já decidir sobre seu próprio destino, ela se viu num dilema tão doído e se deu conta de que, entre saber e sentir, por mais que se tenha alguma sabedoria e andança, há um caminho ardoroso a atravessar. Há de ser uma passagem que não se aparenta como ponte, pois se estreita e se alonga a perder de vista e como se peleja para chegar do outro lado! A história começa no dia em que, seu esposo, Jovêncio, saiu bem cedo para a lida e nunca mais voltou. Ela ficou sem chão. Foi como se, de repente, tudo se anuviasse e perdesse o sentido. Ela teve que buscar forças para cuidar do filho sozinha, pois já não havia mais nenhum parente dela por aquelas bandas. A família vivia numa quinta bem distante e ela não a via há anos. Vez por outra, ela se pegava pensando o que teria acontecido de tão grave com sua única irmã para ela nunca mais aparecer? Não se sabe ao certo, porque Mocinha é mulher de pouco palavrório. O que lhe falta de palavra lhe sobra na bravura. Sua mãe havia deixado de herança a terrinha que possuíam. De sol a sol, Mocinha lidou com a terra e dela tirou o sustento para criar seu rebento. Plantava feijão, milho, além de cuidar de uma horta repleta de alfaces, couves, coentros, tomates e pimentões. Uma parte do que colhia era para o sustento, mas ainda conseguia negociar a outra parte com alguns fazendeiros das redondezas. E assim Cacá, como era carinhosamente chamado por Mocinha, foi crescendo forte e robusto e, mesmo diante de dificuldades, nunca lhe faltou nada. Ele sempre foi muito apegado à mãe. Desde meninote não queria sair de perto dela. –Vai lá, fiinho! Vá brincar com seus amigo – dizia Mocinha ao filho. Ele vivia tomando parte de assuntos que não entendia. Despertou muito cedo sua curiosidade de bom observador do mundo. Tudo ele perguntava à mãe que já perdera a conta, coitada, das vezes que ficara sem jeito, porque nem sabia direito o que responder. Uma vez, eles estavam indo ao rio buscar água de beber, e Cacá viu pela primeira vez, no meio do caminho, um ninho de passarinho. Fez a maior festa e pediu à mãe que deixasse ele levar o ninho para casa. –Não fiinho. Você não pode levar eles lá pra casa. Aí é a casa deles –explicou a mãe pacientemente. – Mas como é a casa deles? Os passarinho não vive a voar? –perguntou ele, curioso. – Cê tem razão, fiinho. Mas o que acontece é que quando eles são assim miudinho, a mãe passarinha faz o ninho preles. Só depois é que eles aprendem a voar. – E quem é que ensina os passarinho a voar? – indagou novamente.


– Acho que é a mãe passarinha, mas eles, por conta própria deseja tanto voar, mas tanto que acaba que consegue. Vamo olhar o ninho todo dia para ver eles crescendo? E assim Mocinha levara o pequeno todo dia à beira do rio para que ele pudesse acompanhar o crescimento dos passarinhos. Até o dia em que o último passarinho deixou o ninho meio desajeitado e fez um voo rasante para o infinito. Como Cacá ficou encantado com aquele aprendizado e como sua mãe se emocionou em poder estar presente e dividir com ele momentos tão especiais! O tempo disputou uma corrida com o vento e num instante trouxe Cauã na garupa, já encorpado e de malas prontas para estudar na capital. Diante da mãe chorosa, ele despediu-se com um grande aperto no peito, deu-lhe um abraço amoroso e antes de montar novamente na garupa do tempo, olhou bem fundo nos olhos da mãe. – Agora eu entendo, mainha, o que a senhora dizia sobre o desejo dos passarinhos de voar. Disse ele, emocionado. D. Mocinha, muito sentida, apenas esboçou um sorriso meigo para o filho e o beijou na testa. – Vai fiinho. Voa sem medo. A vida te espera. Sei que um dia você há de vortar. Desde então, todos os dias quando está na varandinha de sua casa a alimentar os passarinhos que por ali permanecem fazendo-lhe companhia, D. Mocinha relembra essa cena. Sábia, ela aquiesce pensativa e conclui que é bom deixar os passarinhos livres e não se ressentir se, alguns deles não retornarem, porque o verdadeiro destino de todos é esse mesmo. Ela resignou-se a seguir confiante pela travessia estreita e longa da separação, mas jamais perdeu a fé de que seu rebento estaria eternamente guardado em sua mente e em seu coração. E confiante, lembrou mais uma vez que é preciso deixar os afetos ganharem o mundo.

Ronaldo Magalhães Oliveira é escritor, roteirista e ator com experiência em direção teatral, interpretação, dramaturgia e cinema. Mestre em Artes Cênicas PPGAC-UFBA (2016). Bacharel em direção teatral (2008). Colunista do site Soteroprosa: Olhares Contemporâneos (2018). Tem artigos, poesias e contos publicados. Entre eles: Uma troca perfeita (Antologia Memórias) e Eterna Presença (O Diferencial da Favela: Poesias e contos de quebrada (I e II). Atua na performance O Caçador de Palavras em saraus.


Há meses não falo com meu pai. Não sei ao certo quantos. Deixei de contabilizar os pequenos fragmentos, uma vez que as unidades de meses tornam-se dezenas, centenas, quando convertidas em dias. Tornam-se milhares, quando convertidas em segundos. E eu não suportaria nenhuma unidade de milhar em tempo que não falo com meu pai – embora suporte. Fiz uma busca rápida. Segundo institutos de pesquisa, 5,5 milhões de crianças brasileiras não têm o nome do pai registrado em cartório. “Pai não declarado”, é o que diz o registro. E é claro que, na estatística de pais declarados, existem os apenas declarados. Em minha busca, também descobri que existem 67 milhões de mães no país. Dessas, 20 milhões são mães – este foi o termo que o site utilizou – solo. Meu pai me registrou e participou de minha educação em um – imagino que os sites utilizem este termo – lar estruturado. Há três anos, fui embora de meu lar estruturado – no qual fui educada pela minha mãe e meu pai, muito mais do que 5,5 milhões de brasileiros e brasileiras têm – e há meses não falo com meu pai, declarado&presente. Espero não confundir-lhe: é de tempo que quero – que preciso – falar, e não de meu pai. Este não falar – um mês. Dois meses. Três meses. E um minuto. E dez, quinze, trinta segundos, e mais um minuto – é um privilégio, se levarmos em conta os milhões que vivem o não-existir. De maneira que este monólogo não trata sobre o não-falar. Tratarei destes espaços inventados nos quais inserimos nossa existência, e, por consequência, tudo mais que a ela couber. O tempo, um espaço inventado: esta é minha premissa. Minha outra premissa, que a princípio pode parecer antitética à primeira, embora não seja, é a de que, inventado ou não, acredite você nele ou não, organize você sua vida pela passagem das horas ou não, ele está passando por nós. [ou nós por ele: esta é uma questão filosófica na qual não me aprofundarei, apesar da pertinência do tema. Por sorte, há literatura suficiente disponível, bastando que se escute “o tempo e o rio”, na voz de Maria Bethânia. “Ah, todo o tempo há de passar / Como passa a mão e o rio / Que lavaram teu cabelo...”]. Como passa a mãe e o rio que lavaram meu cabelo, há de passar o tempo que não falo com meu pai. Não me incomodo. É tudo linguagem. Veja: estabeleceu-se que uma volta de cada planeta ao redor do sol equivale a um ano solar, e que um ano na terra é dividido em doze meses, que são divididos em cerca de trinta dias cada, etc etc etc. Por esse arbítrio no estabelecimento temporal, posso dizer que se passam anos, meses. Se cinco voltas de cada planeta ao redor do sol resultassem em um ano, e cada um desses anos de cinco voltas fosse dividido em dois meses, duas voltas e meia para cada, não haveria meses que não falo com meu pai. De maneira



que crio esta minha linguagem, este meu próprio particularíssimo pessoalíssimo espaço inventado, e não me incomodo com o silêncio. É paradoxal: este recurso que uso, criar uma linguagem própria e só a mim pertencente para impedir-me de sentir a distância, ele mesmo distanciou meu pai. A linguagem por mim desenvolvida deixou como parte o muro de silêncio que hoje nos separa. Pois a mim foi estabelecido: rosa, ursinhos&flores, meninos&casamento. E isso, recusei. Estabeleci meu próprio parâmetro. O eu que recuso conversaria com meu pai, mas a troco de não ser mesmo eu. É paradoxal e nem tanto: o muro, que o distancia, me protege. Ditas tantas palavras em tantos espaços arbitrários divisões cápsulas de tempo&qualquer outra definição que sua linguagem ache pertinente, só uma se arrasta conosco, à margem e em todos os lugares. Sendo mesmo um rio, está a palavra flutuando entre as moléculas de água. Meninas, pai. Silêncio. Lésbica, pai. Silêncio. Proferi as palavras e nesse mesmo ano solar, fui embora. Nesse ano solar, nenhuma palavra de meu pai. Isso faz três anos. No outro ano solar, meu pai me mandou uma mensagem. Eu liguei no dia dos pais. Trocamos algumas palavras. Subi meu muro novamente. Meu pai subiu o dele. A palavra entre as moléculas de água: em H2O, os átomos de hidrogênio e oxigênio, juntos, formam duas ligações covalentes. As combinações se atraem umas pelas outras – isso forma o que é conhecido como tensão superficial. Por isso, mosquitos podem andar sobre um lago parado. Já um rio possui movimento, o que aumenta a entropia – desordem – entre as moléculas, diminuindo a tensão superficial. No entanto, minha palavra segue entre nós. Sigo catando palavras de meu pai. Há meses, não nos falamos. Há anos, acredito na entropia. E no tempo. São meus agentes de modificação. O rio corre. Hoje, minha mãe me ligou. Arrumei as malas. Doze horas de viagem, de ônibus. Há meses, não falo com meu pai. Hoje, meu pai teve um estresse no trabalho – antes tivesse tido tempo para se aposentar – e seu coração, cansado de nadar, falhou. Já está tudo bem. Ele está na UTI. Vamos nos falar.

Amanda Lins nasceu em 1998, em Petrolina - PE. Publicou textos nas revistas alagunas e Subversa, ambas eletrônicas, e na antologia de contos Leia Mulheres, pela Pólen Livros. Atualmente cursa direito na UNEB, em Juazeiro.



Pedro era um adolescente, do tipo normal, do tipo rebelde. Ele fora abandonado por seus progenitores logo após o seu nascimento. Ele passou por várias fundações e abrigos de crianças órfãs, até ser adotado e criado com todo carinho por uma boa família que morava na Vila do Mar – um lugar cheio de paisagens incríveis. Pedro era um bom filho, mas, de vez em quando, a sua revolta era injustamente descarregada em todos a sua volta. Até que um belo dia, Pedro resolve fugir de casa. Era ainda de madrugada quando Pedro pegou a sua mochila e saiu perambulando pelas ruas em direção a Costa. Ele andou por algumas horas, pegou algumas caronas e acabou parando na velha Fortaleza do Norte. Ali encontrou um cantinho, enrolou com jornais e passou o resto da noite. De manhã, ele acordou com a visão de um velho homem, que estava próximo a ele, encostado no muro. – Olá, bom dia! – Disse o velho, atirando uma fruta para Pedro comer. – Bom dia! – Respondeu Pedro meio sonolento esfregando seus olhos e espreguiçando em seguida. – Eu te conheço? – Perguntou Pedro. – Sim, todos me conhecem há muito tempo. – Eu não estou lembrado de você. Mas, valeu pela fruta vovô. Fui... Respondeu Pedro. – Por que a pressa Pedro, vem aqui comigo apreciar a bela vista. – Como sabe o meu nome? – Eu te conheço. Como já te disse. – Olhe não diga aos meus pais que o senhor me viu aqui. – Tudo bem meu amiguinho, vamos dar tempo ao tempo. O velho então, tirou mais duas maças do largo casaco, e os dois continuaram conversando enquanto comiam. – Você conhece a história dessa fortaleza? – Não muito – Respondeu Pedro. O velho, então, com enorme paciência, começou a dissertar tudo sobre aquela antiga fortaleza. Sua narrativa possuía tantos detalhes que Pedro pensou, no princípio, que ele estava inventando tudo aquilo. Porém, à medida que ele ia


falando, apesar de detestar a Historia, Pedro se viu arrebatado em sua imaginação, verdadeiramente anestesiado e eufórico ao aprender tanto: os saques de piratas e as invasões de corsários. – Estou fazendo um tour pela cidade. Gostaria de me fazer companhia? – Perguntou o bom velhinho. Pedro aceitou de pronto, e então, eles saíram juntos: visitaram museus e vários outros lugares históricos espalhados pela cidade. Pedro estava deslumbrado por todos aqueles lugares, que antes eram totalmente desprezados por ele, mas que agora pareciam guardar uma magia inexplicável e um mistério sedutor que aquele jovem jamais havia sentido, até aquele dia. – Como você pode saber tanto sobre tudo? – Sou velho meu amigo. Isso explica muito! (Os dois sorriram). Eu vivi bastante para ver, ouvir e sentir muitas coisas. Conhecer o passado nos capacita para aprimorar o presente e construir um futuro melhor – Esse é o segredo do Tempo. E olhando para baixo, continuou: – Você não tem ideia, garoto, do quanto essa terra vivenciou! Todos os habitantes que aqui nasceram, viveram e morreram; todos os moradores, pescadores, agricultores, turistas, até mesmo os invasores, missionários, guerreiros e soldados. Todos que passaram por essa terra, marcaram e foram marcados por ela. Colhemos hoje o que se plantou aqui há muitas gerações. Pedro estava atento a tudo, e começou a imaginar todas as gerações que viveram antes dele e todos os desafios vencidos por eles. Naquele momento suas brigas pessoais, discórdias e revoltas pareciam pouco importantes diante de tudo aquilo. – Você tem um grande potencial meu filho. O Tempo vai revelar isso. Pedro ficou em silêncio por um tempo, e olhando fixamente para o velho lhe perguntou novamente: – Até agora só te chamei de velho, qual é o seu nome mesmo? – Tenho muitos nomes, mas pode me chamar de TEMPO. – Tempo? Mas, que apelido mais esquisito. Nesse momento, uma voz rouca se ouviu ao longe: – Filho é você? – Era o pai de Pedro que estava desesperado a sua procura. – É o meu pai! – Disse Pedro – Espere aqui Tempo, quero que meu pai te conheça – Acrescentou Pedro e virou-se para encontrar o seu pai que vinha ao seu encontro. Pai e filho se abraçaram. Pedro lhe disse: – Pai, me desculpe pelas coisas que fiz. Eu fui um idiota!


– Tudo bem meu filho, só quero o seu bem. Por onde você esteve à noite toda? – Dormi aqui mesmo e andei a cidade toda com o meu novo amigo. Quero que você o conheça. Ele está naquele banco ali... Quando Pedro olha para o banco, ele está vazio. – Mas, para onde ele foi? Ele estava sentado aqui comigo quando o senhor me chamou – Afirma Pedro, sem entender nada. – Filho, você estava sozinho quando cheguei. – Como assim sozinho? O senhor vai ter que trocar esses óculos. – Você estava sozinho filho e tem mais, você não andou pela cidade o dia inteiro. O dia acabou de nascer filho. Olhe para o seu relógio. Pedro olha para o relógio e com grande espanto, constata que ainda era de manhã. Ele está pensativo... como isso poderia ter acontecido? – Acho que você esteve sonhando – Continuou seu pai: O tempo não passou! – Não pai: O Tempo passou por aqui. E foi um dos momentos mais incríveis da minha vida!

Wesley Francisco Reis é natural de Ipatinga, Minas Gerais. Escreve em sites há 20 anos. Escreveu, dirigiu e encenou várias peças de teatro. É autor do livro infantil “A Odisséia de Ógui”. Trabalha no ramo de petróleo e nos períodos de folga divide seu tempo como professor, escritor e pastor evangélico em sua comunidade.



O tempo presente Corre apressado anda sem tempo sem rumo sem prumo carregado de traumas latentes de um passado que desejaria olvidado Neste tempo presente as horas, cansadas, se fazem ausentes os relógios dispensaram os cucos e os sonoros badalos agora, tudo é aço tudo é digitalizado E o tempo presente [no passado, penitente, no presente, aço] teme pelo futuro: um porvir de dores de ausências de vazias referências de desamores e desabraços.

Magali Costa Guimarães é doutora em Psicologia e Professora na Universidade de Brasí-lia, é autora de livros, capí-tulos de livros e artigos cientí-ficos ligados à sua área de formação. Como poetisa, participou da Primeira e da Segunda Coletânea Poética do Guará• (Brasí-lia/DF). Teve seu poema “Quando tu não existias”• publicado na Antologia Poética Sarau BRASIL 2014. Autora do livro “Vida em Versos”• (Verbena Editora/2014). Em 2016, participou com dois poemas da coletânea do Celeiro Literário Brasiliense: Leia-me - Colheita 1. Em 2018, teve dois poemas publicados em duas diferentes edições da Revista Online LiteraLivre (Jacareí-/SP). Nesta mesma Revista, publicou o conto “A dita cuja”, em 2019.



Entre a conversão e a multidão, o lapso de mim Vai, compassado, no encalço do vazio, Transtornos modernos, polissemia do real Percepções de mundo, termostato em meu ser Meus afetos frios se conglomeram e aglutinam Sintaxes de subjetividade estética por serem. O ziguezague do relógio, no aplicativo Do celular, reverbera ondas psíquicas. E lógicas muitas refazem os ciclos universais Converge o mundo para um desconhecido “Tempo” Tempo tonto, tampo dos topógrafos da lira Monetária, Minha poesia canária, canora se assenhora Do papel, sempre em blocos sintáticos. De onde escorre a poesia, por sobre O rosto livre do sol. Esvai-se a areia, em teia de segundos Ritmo do nosso formol e tecnologia. Ao luar do segredo e do degredo Epopeia de virtudes da letra, tempo histórico. Ao sabor da estética barroca, o tempo que Não voltará. O tempo da música projeta o mar dos solitários Em águas de sabedoria Busca-se a forma e o sentido em ponteiros conservadores Democracias táteis, ares febris. O tempo real!


O tempo ilusório nos convida a divagar ontologias Pois conhecemos inconscientes sonhos de intelectuais. Remediar o mundo Gestão do tempo, Gestão de risco, Gestão. Sigo ao sul, bússola, amálgama idiomático perverso, Escrevendo os segundos na pauta sociológica E no compasso do absurdo filosófico nacional. Sou, ser

Anderson Carlos Maciel nasceu em Wenceslau Braz e mora em Curitiba. Trabalha na Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. É formado em Filosofia e especializado em Sociologia Polí-tica pela UFPR. Atualmente cursa especialização em Engenharia de Computação, na FATEC de Curitiba.


Quando a inspiração chegou, eram nove da manhã, a escritora ainda dormia. Keravnó, o muso relutante, já estava habituado a escritores. Sentou-se num cadeirão de canto e esperou. Eram quase onze horas quando a escritora apareceu, mole e olheirenta, e foi logo para o computador. — Estás com pica para escrever? — Ah! — sobressaltou-se a escritora. — Olá! Sim, mas primeiro vou enviar uns mails, ver as notícias e consultar as entradas no meu site. É só uns minutos. Três quartos de hora depois, o muso voltou à carga: — Então, ainda não? — Ó pá, deixa-me só enviar mais uns mails. — Mas não tinhas já enviado? — Já te expliquei que eu envio mails de divulgação do meu último conto publicado para milhares de endereços. E não posso enviá-los todos logo porque o sistema só permite cem de cada vez. E também há um limite diário. Aguenta um pouco! O muso respeitou o envio de mais um pacote de divulgação. Logo depois: — Porque é que não publicas um livro e já evitas esse trabalhão? — Keravno, as editoras não querem saber dos meus contos. É por isso que optei pela divulgação virtual. — Keravnó! — corrigiu o muso. — Se calhar, é porque não prestam… — Ó caríssimo transportador da inspiração — matraqueou a escritora com sarcasmo —, eu não preciso de “incentivos” desses. Mas Vossa Senhoria pode atirálos à vontade, sabe por quê? Porque os meus contos estão fartos de ser reconhecidos em dezenas de concursos literários. Concursos não mentem. — Achas? Queres dizer que comprovam que os teus contos têm qualidade? — Quero acreditar que sim. Só que as editoras não arriscam. Se eu fosse uma figura pública era mais fácil. E também podia pagar a edição, mas as editoras depois querem que seja o escritor a vender os livros aos amigos. E isso eu não quero. Prefiro enviar-lhes os contos de graça. — Já pensaste em desistir? — Desistir está fora de questão. O gozo que me dá escrever não tem igual. — Dá-te gozo escrever ou ser adulada? Imagina que enviavas os mails e ninguém te ia ler! A escritora baixou a cabeça, pensativa. — Aí, não sei! Agora não quero pensar nisso. Vou fazer uma pausa para almoço. — Mas quando é que tu escreves? — Tenho tempo. Só quando tiver a história articulada na cabeça. — Ok! Mas toma atenção que não és o centro do mundo; tenho muita gente à espera; cada vez mais…



Pelas duas da tarde, Keravnó voltou à carga: — É agora? — Oh, agora estou mole. Deixa-me fazer uma pausa para ver a minha série. Depois falamos: mas primeiro vou enviar mais cem mails. Uma hora depois: — E agora? — Oh, que chato! Tá bem… Eh, pá, mas hoje não dá muito jeito. Tenho que escolher o conto para um concurso que termina depois de amanhã. — Isso é rápido, não? — Nem por isso. Tenho de ver que número de páginas pedem, se o tema é livre ou não. E, sobretudo, se exigem ineditismo. Se não exigirem, tenho dezenas de contos; já inéditos são menos de vinte. Depois de escolhido tenho de o voltar a ler com atenção. Há sempre coisinhas para alterar. Olha, porque é que não voltas amanhã? Aí víamos isso com calma. — Vê lá se não te arrependes… No dia seguinte, às nove da manhã, Keravnó apresentou-se ao serviço. Instalou-se no cadeirão que já conhecia e entreteve-se a folhear a “Odisseia” que estava por ali. A olheirenta escritora apareceu pelas onze e meia. — Bom dia! — cumprimentou o muso em tom festivo. Vamos à obra? — Já te disse: a primeira coisa é enviar mails, depois ver quantas entradas tive no meu site, depois mais mails, depois almoço, depois série. Depois… Ó pá, hoje não dá. Tenho de publicar um conto num site coletivo. Já sei que conto vou publicar, mas tenho de revê-lo mais uma vez e escolher uma imagem adequada para o ilustrar, geralmente, uma pintura. Volta amanhã, se te der jeito! — Está bem, mas diz-me ao menos que tema pensas tratar. Também tenho de me preparar! — Não desarmas; és incrível! Quero falar sobre a situação difícil da mulher; da sua traiçoeira condição física, digamos assim. Há dias, pensando nisso, surgiu-me a ideia geral do tema: “enfrentar o mundo com uma vagina”. Não sei de onde me veio a ideia. — Keravnó sorriu subtilmente. — E é tudo? — Tenho vindo a desenvolver a ideia. De “enfrentar” adveio-me a ideia de confronto, guerra, armas. E de como o espírito agressivo do homem macho se alimenta da testosterona e da imagem potente do seu pénis. Para o homem, o pénis é como que uma espada. Ora o equivalente “feminino” da espada é… a bainha. “Enfrentar o mundo com uma bainha” deverá ser o título, para não ser tão sexualmente explícito. — Interessante! É por causa dessa ideia que andas a ler a Odisseia? — Sim, como é que suspeitaste? Lembrei-me da Penélope. Em que outra mulher famosa é tão evidente a impotência física feminina, perante a ausência da espada do marido? Só dispõe da arma dos fracos: a astúcia. E é a astúcia que Penélope vai usar. Mas amanhã falamos melhor. Tens tempo?


— Se já sabes o que vais escrever, escuso de cá vir… — Tens de vir, senão não consigo escrever!

Joaquim Bispo é português, licenciado em História da Arte, ex-técnico da televisão pública, reformado. Iniciou a escrita de ficção em 2007. Frequentou oficinas literárias presenciais e na Internet, publica mensalmente na revista literária eletrônica Samizdat desde 2008 e integra uma quarentena de coletâneas resultantes de concursos literários dos dois lados do Atlântico.


Brutal esplendor da vida que empresta a juventude

- O gozo, a inquietude, a tez agraciada e aguerrida. As esperanças dos primeiros passos, o acalanto do primeiro colo, os horizontes largos do início da estrada: bálsamo da liberdade. Punhos firmes erguendo arrimos, força nos braços, músculos rijos, paixões febris com rotas livres

- Sem muros, sem bússolas, sem cancelas. Quem inventou o desterro de tal bela história? O fim dos rostos, das paragens, um carcomer de sonhos, de memórias? Amores sagrados, que vivos morreram...

Tudo se arrancará num sopro, na nudez do nada, no vento esgotado, a alma ceifada; saudade crua do esquecimento: a correnteza dormente das horas...



Nem o claro, ou o escuro. Dorme a poesia da noite, chora a manhã desnuda. A ribalta se apaga, o coração se deflagra, finda derradeira cena de um último ato: crepúsculo! E, em nossos olhos...o breu. O tempo, foi apenas a viagem.

Gisela Lopes Peçanha é natural de Niterói, RJ. Escritora, cantora. Alguns prêmios literários: 1º Lugar - Prêmio Rubem Alves - Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, SP, 2015; 1º Lugar Prêmio José Cândido de Carvalho, Niterói, RJ, 2015; 1º. Lugar - Concurso de Contos da Universidade Metodista de Piracicaba, SP, 2015 e 2016; 1º Lugar - Concurso Casa de Espanha, Rio de Janeiro, RJ, 2016; Premiada: Prêmio VIP de Literatura - 2017 e 2019; Menção Honrosa 10º Prêmio Escriba de Contos - 2019.



O pêndulo das horas é uma foice distraída: tão logo foi-se embora o dia, a noite, a vida...

André Foltran nasceu em São José do Rio Preto, interior de São Paulo, em 1996. É tradutor, formado em Tradução pela Universidade Estadual Paulista. Foi premiado em dezenas de concursos literários, tendo poemas publicados em diversas antologias, revistas e suplementos literários. Mantém o blog pessoal Caderno: http://andrefoltran.blogspot.com



Onde estão as sementes do tempo? Para que eu possa, plantar horas, germinar dias, cultivar meses, colher anos. Onde estão as sementes do tempo? No ontem, que decidi esquecer? No hoje, que agradeço viver? No amanhã, que poderei não ver? Onde estão as sementes do tempo? Para que eu possa, plantar décadas, germinar séculos, cultivar milênios, colher, o próprio tempo. Onde estão as sementes do tempo? Escondidas dentro de mim? Ou na eternidade da minha alma? A resposta, só o tempo é conhecedor!

Fabiano Sorbara nasceu na capital paulista em 1975. É artesão e artista plástico. No ano de 2013 inicia-se na literatura. Em 2014 obtém 1º lugar na Antologia da Academia de Letras de São João da Boa Vista. A partir de 2016 dedicou-se ao gênero microconto, sendo selecionado para o e-book “Fragmentos” da editora Litere-se. Também foi finalista, por inúmeras vezes, nos Prêmios Escambau de Microcontos. Em 2019, pela plataforma Sweek Brasil, participa da coletânea “Livro De Microcontos Sweek”.



Em um universo axiomático A seletividade temporal é inquestionável E a própria subjetividade lhe torna A maior força cósmica Devorando a existência do ser E até mesmo o não ser Torna-se passageiro Com solidão acolhedora Os ponteiros se movem E nada mais importa Nem mesmo amores e dores Tudo é consumido Se esvaindo pelos poros O tempo fagocita e irradia A vívida diversidade Interna Tudo provém dessa maquinaria Que em sua magnitude irreversível Estruturou universalmente A dita antropofagia

Eduardo Marques Santos tem 17 anos e é estudante. Sempre sonhou em ser escritor. Desde que se conhece, escreve poesias e textos, embora agora esteja focado em prosas poéticas.



Ali, no Largo que, outrora, chamou-se o Largo do Império (Império que já não há), sobre a pedra portuguesa, em noite fria de Inverno, sob a luz da lua cheia, se não me falha a memória, eu vi um homem dançar. Eu vi dançar esse homem (ou mulher, até nem sei), lembro como fosse ontem. Nada mais não se movia, sobre o asfalto a ferver, sob o sol do meio-dia. E enquanto ele ali dançasse, não havia gravidade. Bomba do céu não caía, já não matava a polícia e o campo, só, de batalha, era o corpo que bailava. Menino sem mãe nem pai, pegou a sorrir de graça, e até foi visto a cantar, enquanto o homem dançava, veloz como a nuvem alta, com seu passo cai-não-cai, Era a multidão de pobres que seguia o Nazareno? Poema de Maiakóvski, pelos pés da bailarina? Ou o Exército Vermelho dançando o mapa da China?


Eu era uma parte dele e ele era um meu pedaço, feito o beato e seu crente. O que eu fiz de certo e errado, passo futuro e passado: tudo eu via, de repente. Tão depressa se movia, que eu a ver não alcançava a sua fisionomia. E sem sombra de cansaço, preenchia todo o espaço, só com o gesto, sem mais nada. Não sei que dança era aquela. Um Tango, sei que não era, nem era o praieiro Coco, tampouco nobre Minueto. Da Catira, tinha um pouco, talvez do Samba um meneio... Chapéu ele não usava, de gaúcho ou de vaqueiro, nem do boi a fantasia. Não vi nenhum pau-de-fita. Não se ouvia som de gaita, nem berimbau ou pandeiro. O tempo virou história, a vida em volta girava, cada um com seu destino, cada qual na sua rota, o mundo em tal desalinho, e esse homem só... dançava. E eu quis dançar com as palavras, trocando os pés pelas rimas. O homem já não dançava, caía uma chuva fina: só a memória da sua graça, feito fumaça, subia.


Caminhar com mais leveza, no entretanto desses tempos em que eu sem querer nasci; carregar um mundo inteiro e conservar a cabeça erguida e a espinha ereta: foi ali que eu aprendi meu ofício de poeta.

Santi (Lajeado RS, 1964). Como escritor, lançou em 2019 Nenhum amor igual ao meu (Patuá), seu sexto livro de poesia. Técnico em Cultura da Prefeitura de Porto Alegre, é Bacharel em Música e Mestre em Letras pela UFRGS. Especialista em Gestão e Políticas Culturais pela Universidade de Girona (Espanha) e Itaú Cultural, integrou o Colegiado Setorial de Música (2005-9) e o Conselho Nacional de Política Cultural (CNPC, 2008-9), junto ao Ministério da Cultura. É também compositor, intérprete e instrumentista, tendo lançado em 2011 o CD Trem da Utopia.



Temporal temporâneo, oportuno, lá fora! Afinal, era tempo de verão! Nada mais óbvio do que tempestade vespertina! Dentro, na sala que deveria servir de aconchego da tarde chuvosa, a intempestividade aumentava sob palavras, assertivas e opiniões divergentes, mas ninguém ousaria sair e fugir do debate diante da violência climática, desafiando na rua, a força da intempérie; portanto, se confrontariam sem perda de tempo. Iam fechar o tempo, pois eram todos de opinião formada, dogmáticos e donos da verdade, sem a menor disposição para dialogar. Os pais desejavam que os contrários se respeitassem ou, pelo menos, se ouvissem com atenção. Era a esperança de conciliação. Tinham há tempos, uma ampulheta que se esvaziava em 30 minutos e resolveram pô-la em funcionamento. Teriam, assim, o temporizador de poeira funcionando para monitorar a ardente família. Teriam meia-hora de discussão. Daí o temporizador acabaria o trabalho e o silêncio seria soberano. É apenas questão de tempo. Claro que não haveria tempo útil e suficiente para esmiuçar as ideias dos teimosos contendores, mas o chefe convocou-os para essa conversa franca. Submeteram-se à tecnologia antiquada, ao aparelhinho contemporizador, apaziguador dos ânimos, a fim de atempar a discussão. Dariam vazão temporária à raiva que o momento social desencadeava, atrapalhando o outrora bom relacionamento do grupo consanguíneo. O patriarca não suportava mais presenciar as farpas diárias tempórias entre os filhos. Queria os pingos nos is, de uma vez por todas. O filhinho temporão se fazia presente, com olhinhos esbugalhados e coração destemperado, perante os raios e trovoadas assustadoras e as palavras proferidas muito altas, quase em gritos. Ele movia as têmporas para cada um dos irmãos, depois para o pai e a mãe, esperando que ninguém chegasse às vias de fato. A temporada política pré-eleição estava no auge e desencadeava paixões adormecidas, teimosias recalcadas e desconhecidas, no âmago dos adultos familiares. Os variados e polêmicos projetos e promessas de campanha dos diversos candidatos eletivos atiçavam as dissidências contra as concordâncias, há meses. A cizânia entrara no lar, a inimizade se fazia sentir. - Você concorda? Sabia que é um babaca? Um jumento? - Ah, é? E você que é surdo aos princípios cristãos? Você é uma anta batizada! - Pois sou filiado com muita honra, ao partido que defende a sociedade e a distribuição de renda. - É..., e gosta de comunismo, então? - Vai morar na China, bastardo! - Você é... ou só parece gay? - E o que tem contra isso, seu preconceituoso?


- E você precisa ler mais, seu iletrado! - Saiba que sou formado em História... - Cala a boca, pois sou Cientista Político. - Ninguém daqui é burro, na verdade... - Feche essa boca a tempo, antes de levar um soco... - Você atrai tempo-ruim para nossa nação! - Discutir com vocês todos é tempo morto! A delicada mãe dos alterados pensou em esquentar a chocolatada que preparara com gemada para acalmar o tempo-quente, mas olhou a ampulheta e viu que faltava pouca areia do tempo a despencar na base. Resolveu sustar a ansiedade, apertando a mãozinha trêmula e atempada do temporão. Por ser a mais espiritualizada da turma e para se consolar, começou a repetir mentalmente as palavras bíblicas, em oração fervorosa e atemporal: “Para tudo há um tempo, / para cada coisa há um momento debaixo do céu / tempo de nascer e tempo de morrer / tempo de chorar e tempo de rir.../ tempo de calar e tempo de falar.../ tempo de guerra e tempo de paz...” A ampulheta encerrou a contenda. O pai estava frustrado. Os irmãos, mais bravos e intolerantes um com o outro. Tomaram a chocolatada juntos, quietos. O temporão, o mais calmo agora, avisou que havia parado a tempestade; fazia tempo bom, podia ir brincar lá fora com a molecada.

Maria de Lourdes Prata Garcia, nome literário Lóla Prata, santista, mora em Bragança Paulista desde 1974. Idealizadora da Associação de Escritores (ASES) e fundadora da Seção da União Brasileira de Trovadores (UBT). Vinte e dois livros publicados entre os quais o Dicionário de Rimas ARRIMO; 172 prêmios literários - Comenda e Troféu outorgados pela Prefeitura. Homenagem da Câmara. Consulesa Honorí-fica, outorgado pela Real Academia de Letras RS.


Para falar a verdade, ficar velho, a meu juízo – não sei bem por qual razão –, era a pior das sinas. Declarei, então, uma guerra e, desde o resplandecer da aurora da minha vida, fardado de juventude, estrategista, marchei a fim de enfrentar as tropas da velhice e seus comparsas, que acampavam, em regimentos, na imagem de ancião que eu relutava em possuir. Especializado em tática, instiguei a Natureza e passei a duvidar de uma provável vitória do exército das rugas e das máculas senis: camuflei-me com poções que foram do mel à titica. Ante um possível ataque do batalhão de pelancas, bisturis e muito dinheiro eram as bocas de fogo reservadas no embornal. Do mesmo modo que agia contra a torpeza dos bandos de dores e de mazelas, convoquei santos e bruxas à construção de trincheiras com mandingas e mezinhas. Havia outro infortúnio de tocaia às escuras, principalmente da noite. Não soube se me buscava, mas sou testemunha viva de sua marca implacável em muitos dos semelhantes no crepúsculo da vida. Ele se chama abandono, filho da ingratidão e do verdugo descaso. Então, conquanto eu soubesse que nada na vida é eterno, tratei de me prevenir. Porém, com o passar do tempo, a ameaça constante deliberou transigir. Poças d’água em um deserto transformaram-se em espelhos, e a vista, embora turvada, vislumbrou trapos sem préstimo fazendo as vezes de smoking, em ilusão cismarenta. De manso, veio o cansaço. Sem tardar chegou o sono, acompanhado do sonho, em que eram protagonistas a madureza e o bom-senso expondo um auto de paz. Assim, aliado da Vida, o Tempo emitiu sinais, e rajadas eloquentes de incitamento ao progresso fizeram-se então ouvir. Surgiu a revivescência; era hora de acordar. Em torno, nova paisagem. Domínio da inteligência. Um novo ar. Novo ser. Aconchegaram-se a mim os supostos inimigos e, em simbiose perfeita, começamos a agir. Estaria eu me entregando? A velhice estava ali, com todas as suas facetas, sorridente, a me acenar. Depois de tudo, porém, embora senões perdurassem, foi o ocaso da guerra: passei a rir das pelancas, a acariciar as rugas e a caçoar dos excessos. Tomo manchas como enfeites, e até as cãs rarefeitas servem de luzes e guias nos meus próprios descaminhos. Já as dores e as rateadas seguem fiéis companheiras que testam capacidade de reagir com resiliência. Achaques ainda se insurgem e me levam a refletir, porque a cada fato havido – rixa ou mero desconforto –, eu só tenho dois trabalhos: um é choramingar, o outro é voltar a rir, porque a Vida continua e se torna imprescindível superar os obstáculos e avançar rumo ao bem, essência da perfeição. Então, passados outonos ornados de primaveras e carecentes invernos embalados por verões, dou-me ao luxo de sonhar sem deixar-me influenciar pelas ações desmedidas lançadas em desfavor das frontes encanecidas.



Sigo a amar sem pejo, porque amar é viver, e o amor é sentimento que, tal como um quebra-cabeça, estimula a coligir as peças da autenticidade. E, com certeza, a verdade torna o humano inteiro. Cambalhotas? Piruetas? Só em sonhos posso dar. E quando bate a vontade de cometer tal façanha, escancaro bem os braços e rodopio contente. Mas o faço lentamente, sorrindo e mirando as nuvens. Caso uma leve vertigem me tome o templo da alma, eu me deixo reclinar e colho afagos da relva, que, rebordada de orvalho, reflete a minha imagem resguardada pelo céu. Gosto de fazer caretas e de oferendar sorrisos – para mim e toda a gente. Isso faz com que a tristeza, vencida pela ufania, se consagre à diversão que torna infante a velhice cônscia de que o Tempo passa. Além do mais, é preciso penetrar o campo das atitudes de todo ente que vive sem medo de ser feliz. Se um dia, imprevistamente, vier a mim o abandono, vou procurar decifrá-lo. Mas não com perda de Tempo: pedirei que se acomode, servirei chá ou café e com o dito sentarei para escrever prosa ou versos com asas de fantasia, os quais voejem no éter e toquem os corações daqueles que, como tudo, são pinceladas do Mestre Criador da grande arte, que, de tanta perfeição, não prezamos com justeza. Vez por outra me procura a enfadonha solidão. Esta é a mais temerosa; entretanto, os tais encontros acabam virando festa: eu toco a minha viola e canto para a enxerida. Até que me dá na telha e peço que se retire... Se ela insiste em se hospedar, a ignoro, sem pena: tagarelo ao telefone, ouço um som, envio e-mail, navego no Facebook... Ou, nesse caso, reflito sobre planos de futuro e modos de progredir. Hoje, em Tempo de concórdia, o aprendizado me chama à vera maturidade e, em operação constante nos tablados da existência, atuo como palhaço propagador da alegria. E, ao fim de cada espetáculo, com a alma agradecida, curvo-me ante os aplausos do maior dos dons, a Vida.

Gaúcho de Porto Alegre, Nilton Silveira é contista, poeta e cronista. Premiado em concursos literários nacionais e internacionais, tem trabalhos publicados na Web e em coletâneas, revistas, jornais e no CD Intensa, da recitante Ruth Telles.



Em tempos doentios Eu me torno mais sombrio

Em tempos de mal do século Eu me torno um cemitério em céu aberto

Em tempos de caos Eu me torno um Lorde incapaz

Em tempos em que tudo se perde Eu me torno uma serpente em forma de lebre

Em tempos onde o candelabro se torna chamas Eu me torno uma chama num copo de dramas

Sou Edgar Alan Poe Sou um perdido e um encontrado na masmorra do pecado

Sou Alvares de Azevedo Estou na taverna discutindo a caverna de Platão


Sou Byron que se esconde na multidão Sou a serpente que engana a escuridão

Sou o ópio renascido nos tempos da inundação Sou a cruz em chamas num dilema de espada e maldição

Sou apenas o tempo que escala a vida numa forma de anunciação Sou apenas o sepulcro que está vazio de néctar no tempo do Poseidon

Sou apenas um pobre servo das letras no buraco de minhoca do quântico em ebulição.

Roberth Fabris é crí-tico de cinema e artes, Mestre em Letras, pós graduado em Arte Educação, ator profissional e autor das obras: Xeque Mate, Noites, Lampifanti, Lira Otaku, O retorno do Pequeno Príncipe, e se dedica ao canal dicas de roberth no youtube, que valoriza a vida e literatura, e também ministra palestras culturais em diversos eventos literários do pais, contatos para enviar livros, agendar palestras e encomendar obras roberthfabris@bol.com.br


Nasceu acometido de tempo que, longe de parecer catapora, não pinta o rosto nem encaroça as juntas, é moléstia sorrateira que cresce junto com o sujeito e vai regando caraminholas aos poucos. Reparei nas suas estranhezas quando ele, ainda piá, misturava o passado com o futuro e não tinha nenhuma noção de presente que pudesse parecer com juízo ou inteligência. Era uma inquietação que nunca se havia visto por aquelas bandas, misturava a ordem do acontecido, repartia a vida em intervalos que não existiam e deixava que a memória e a imaginação vagassem livres recheando seu agora numa farofa que só por Deus. Tentaram rotular, mas, nem vizinho enxerido, muito menos tia distante, faziam a mais mínima ideia do que se passava com ele - “quem sabe é perturbação”, “desacerto de nascença”, “é só um caprichozinho enjoado...” cochichavam pelos cantos por pura maledicência, mas no fim, desacorçoados, pararam de assuntar. E eu pude ficar um pouco em paz: - “é um guri com movimento de eternidade...” Mas pode que mãe floreie demais. Conta-se que na infância pouco tomou parte nas brincadeiras da vila, caiam-lhe mal qualquer passatempo, entrevia sutilezas escondidas, fragmentava-se na simultaneidade do pular corda e alvoroçava-se na ordem sucessória do pega-pega. Sem contar a pior danação - as corridas e arremessos, mesmo não sendo afetado por movimentos com diferentes velocidades, no fundo sabia que havia sempre alguém correndo atrás dele. Ainda assim, quis medir-se com a molecada, exibiu seus inúmeros calendários, dezenas de relógios, ampulhetas e uma profusão sem fim de cronômetros, sempre em marcação cerrada. Passou horas acompanhando os movimentos do Sol e da Lua e esmiuçando e esquadrinhando todos os bastões de incenso e velas graduadas que lhe cruzaram o caminho. Mas sua paixão era estar com Cronos, seu cão. Amava aquela alma indomável, aquela besta destrutiva, preparada para devorar tudo à sua frente. Um mito, de caráter dramático, convertia tudo a partes mínimas, em instantes, frações. Cronos impunha sua própria ordem, poderoso como quem permite aos deuses e aos homens desfrutarem de uma vida despreocupada e feliz. Cresceu assim, cheio de ideias de ruptura, sentindo-se descontínuo como ser, mas um contínuo de possibilidades, foi superando a duração da meninice à medida em que evoluía e entendia que a consciência era quem grudava os instantes separados.

Se viver não é pensar, o que sabe Cronos da vida?

E transformou-se em um tipo mais pensado que vivido, mas não de todo abstrato. Voz serena, sem compulsões e até com pinta de rapaz ajustado. Parecia mesmo estar em paz com a realidade, mas era impossível sabê-lo a miúde.

Tudo se mistura no presente, dançam, atadas em meu peito, minhas façanhas passadas e as fantasias das minhas promessas... Não corro nem estanco, não há nada que mude a duração das coisas...



Desde pequenino me dizia que o acontecido é só a casca da verdade. Sempre me confundi com suas cismas, mas, no fundo, em tudo há um tantinho de desassossego.

É um amofinamento doutor, às vezes, sinto que é algo que existe sozinho, que acontece sem que eu peça, um não sei que que em nada depende da minha pessoa..., mas em outros casos, tudo ao contrário - fica lá, volteando no sangue, colado nas tripas, vergado às minhas patifarias... O famigerado que chegou perto de entender tal distúrbio quis esclarecer: “parece algo que utilizamos para descrever o mundo, uma forma de intuição e, como condição subjetiva, o remédio é só deixar passar.” Às vezes, sopravam que o que tinha era uma abstração, um conceito metafísico ou a negação de algo absoluto. Falavam que suas ladainhas vagueavam entre lentas e fugazes, com bordados misteriosos e tramas tão bem esculpidas que se faziam impossíveis de apreender. Diferente de profetas ou visionários, seus presságios não falavam de guerras, enchentes ou pragas, ao contrário, sem fluir em linha reta, falava do amanhã com nostalgia e do passado com esperança, fé e sonhos e, caminhando ora para um lado, ora para outro, adorava contar suas histórias subvertidas.

No dia da minha morte, se tive um início ou algum fim me espera, vai ter cheiro de chuva, aroma molhado da próxima estação que não me esqueci. Começarei antes a pensá-la e sem me dar conta serei vaga lembrança, pisoteando terreno entre ocorrido e inventado.

E continuava assim, sempre, falando do destino, como quem pudesse governá-lo, sem diferenciar o eterno da natureza e o finito do humano: encadearei memórias

fugidias que resvalaram e escorregaram devagarinho pela causalidade dos dedos das mãos e dos pés, saltando por eles, um a um, atiçando, nesse meu coração mutante, uma fagulha sem contorno que conduz a respiração pelos canais da espinha... para que os pensamentos se afastem dos labirintos das cidades e caminhem irreversivelmente para o não sei onde, no longe, longe, possivelmente sem dizer adeus.”

Nascida em São Paulo, Estelita de Oliveira Thiele é mãe de 3 filhas, esposa, filha, irmã, amiga e nas horas vagas Consultora de Recursos Humanos e aprendiz de Escritora. Mora em Kirkland, nos Estados Unidos desde janeiro de 2019. Tem formação diversa, contendo os programas que são necessários a uma ex-executiva (mas foi salva pela Arte Terapia, pelo Cinema e pelo amor à leitura e à escrita).



Essa é a geração da tecnologia Ao mesmo tempo que aproxima, distancia. O tempo pode ser velho, Parecendo uma pessoa lenta Mas que muito nos orienta. Alguns jovens se perdem nas drogas Talvez por má influência Por isso é preciso viver com Inteligência. Em cada instante, o tempo poderia ser infinito Baixando um aplicativo pra resolver algum conflito. A vida passa rápido, se vive com emoção Também depende de quem segura a sua mão.

O poema “O tempo não para” foi produzido de forma colaborativa por estudantes do nono ano da Escola Estadual Dr. Romário Araújo de Oliveira - CIEP (Alegrete/RS) na ação Motus na Escola. Essa ação teve apoio das professoras Ana Lúcia Vargas e Clelia Fortelini e contou com a participação de 11 estudantes com idade entre 13 e 16 anos.


Nasceu em Alegrete/RS. Ilustradora e futura Engenheira de Software. Desde a infância, sempre teve uma criatividade muito grande e desenhar era uma das formas de se expressar. Sempre gostou de passar horas desenhando e olhando animações e isso sempre foi uma grande fonte de inspiração. Participou de todas as edições da Motus. Atualmente faz ilustrações por encomenda e frequentemente posta suas ilustrações nas redes sociais. Futuramente, ainda quer ter a oportunidade de trabalhar diretamente com a produção de animações digitais e produção de jogos. Conheça um pouco mais do seu trabalho no instagram @amanda_gobus.


Agradecemos a todos os autores que escreveram sobre o tempo em suas diferentes formas e confiaram suas obras ao projeto Motus, em especial aos vinte autores que tiveram suas obras publicadas nesta edição. Agradecemos às avaliadoras e aos avaliadores que são incansáveis incentivadores das ações culturais no município de Alegrete/RS e nos ajudaram a construir esta edição, assim como a professora Ana Lúcia Vargas que foi fundamental nas ações Motus na Escola. Agradecemos aos membros da equipe executora do projeto, em especial à editora Aline Vieira de Mello, coordenadora do projeto, e à Amanda Gobus Lopes que, além de atuar como bolsista do projeto, ilustrou brilhantemente o tempo, inspirada em cada uma das obras. Agradecemos à professora Amanda Meincke Melo, coordenadora da comissão local de extensão (Campus Alegrete) e entusiasta do projeto. Ao fazê-lo, agradecemos à Universidade Federal do Pampa pelo apoio. Por fim, agradecemos a você que lê esta página e acredita no poder transformador da literatura. Esperamos que você tenha desfrutado de agradáveis momentos de leitura e convidamos você a compartilhar a Motus sem moderação!


MOVIMENTO LITERÁRIO DIGITAL


Millions discover their favorite reads on issuu every month.

Give your content the digital home it deserves. Get it to any device in seconds.