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Bimestral I fevereiro / março 2014 Nº31 I PVP 3,95€ (continente)

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RUI COSTA

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ENTREVISTAS JOSÉ BARROS (diretor OFM/ Quinta da Lixa) e VÍTOR GAMITO (ciclista LA Alumínios/Antarte)

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ISBN 5601753002225

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ROTEIRO CASTELO DE VIDE

REPORTAGEM

COMPETIÇÃO

Estagiámos um dia com a LA Alumínios Antarte e presenciámos o treino militar imposto aos ciclistas

Fazemos a Antevisão da Volta ao Algarve e apresentamos as equipas do pelotão nacional


entrevista :: José Barros “Contamos com uma equipa

com excelentes valores”

O ano de 2013 foi verdadeiramente dourado para o diretor desportivo da equipa OFM/ Quinta da Lixa, José Barros. Contudo, o antigo sprinter não se deixa adormecer à sombra dos êxitos obtidos e apresenta para 2014 uma revigorada vontade de vencer. Pelo meio, deixa-nos antever que na temporada de 2015 a estrutura que lidera poderá estar associada ao regresso de um dos “três grandes” ao convívio do ciclismo lusitano. Texto: Fernando Lebre Fotografia: Rui Botas

F

oi com o atraso próprio de quem tem um rol quase infindável de tarefas a realizar que José Barros chegou à nossa companhia. Todavia, o jeito apressado não lhe roubou o discernimento e foi num tom sereno, mas sempre determinado, que nos deixou transparecer o espírito confiante e ambicioso com que encara a nova temporada. Crente que os reforços que agora chegam à OFM/Quinta da Lixa tornarão aquele conjunto num verdadeiro “caso sério” na alta montanha, é com ambição que parte à conquista dos principais títulos disputados em solo nacional. Reafirma Gustavo Veloso como líder incontestado da equipa e critica a escassez de provas que compõem o nosso calendário. Pelo meio, defende de forma abnegada a inocência de Alejandro Marque, atleta que lamenta não poder voltar a incluir nos quadros da equipa no decurso da corrente época. Na sua mente um sonho ofusca todos os demais: liderar uma equipa no Tour. É que, como o próprio afiança, sonhar ainda não paga imposto, e até faz bem!

Enquanto diretor desportivo da equipa OFM/Quinta da Lixa, quais são os principais objetivos que traça para a temporada de 2014? Possuímos um conjunto bastante homogéneo. O ingresso na nossa estrutura do Arkaitz Durán, do Ricardo Vilela e do Nuno Ribeiro tornou-nos numa equipa ainda mais forte na alta montanha e isso permite-nos aspirar a uma temporada vitoriosa. Ambicionamos lutar pelo triunfo na Taça de Portugal, no Grande Prémio JN e, claro está, na Volta a Portugal. Para além dessas competições não esquecemos, nem desvalorizamos, os Campeonatos Nacionais. Iremos também marcar presença no Brasil, mais propriamente na Volta a São Paulo e na Volta ao Rio de Janeiro, competições onde procuraremos obter o melhor resultado possível. Na sua opinião a OFM/Quinta da Lixa conta com um conjunto mais ou menos forte do que em 2013?

Sei que contamos com uma equipa com excelentes valores, mas para alcançarmos as nossas metas será preponderante possuirmos um forte espírito de grupo, algo que temos sempre tido até aqui, e que foi um dos principais fatores que conduziram ao nosso sucesso no passado. A união existente na equipa fez toda a diferença. Quem será o chefe de fila ao longo da corrente temporada? O Gustavo Veloso, nomeadamente na Volta a Portugal, prova que voltará a ser o ponto alto da temporada. Depois de a sua equipa ter tido em 2013 um ano tão vitorioso, como consegue gerir as expectativas dos corredores, assim como dos patrocinadores para a corrente temporada? É lógico que as expectativas em nosso redor são bastante elevadas e sabemos que a nossa responsabilidade é ainda maior do que era em 2013. Contudo, o

facto de termos reforçado bem a nossa equipa não quer dizer, por si só, que iremos ganhar tantas provas como o fizemos no ano transato. Ainda assim, posso assegurar que daremos o nosso melhor para que tal aconteça. Sente-se concretizado com o papel de diretor desportivo? Tenho a felicidade de fazer aquilo de que gosto. Colocar esta equipa na estrada e elevá-la ao patamar de Elite foi um sonho transformado em realidade. Na sua opinião quem serão as principais rivais da OFM/Quinta da Lixa ao longo de 2014? Todas as restantes equipas nacionais são nossas adversárias e respeitamo-las por igual. Penso que todos aqueles que compõem o atual pelotão nacional estão cientes da qualidade da nossa equipa e, em virtude dos resultados que obtivemos a temporada passada, seremos de alguma forma um “alvo a abater”. Contudo, a

“Estamos a trabalhar no sentido de em 2015 a estrutura da OFM/Quinta da Lixa surgir associada a um grande clube ” nível qualitativo parece-me que a OFM/ Quinta da Lixa, a Efapel/Glassdrive e a Radio Popular/Boavista estarão num patamar competitivo um pouco mais elevado. Será uma temporada equilibrada, com as vitórias a serem bastante repartidas. Parece-lhe que o atual número de equipas existentes no nosso pelotão é adequado para as características do nosso país? Sim, face ao escasso número de provas que compõem o calendário e ao atual momento que a economia do país atravessa. Todavia, sou da opinião de

que as equipas amadoras deveriam ter a possibilidade de correr num maior número de ocasiões com as formações profissionais. Como é ter o Nuno Ribeiro simultaneamente como ciclista e presidente da União Ciclista do Sobrado? O Nuno é o presidente do clube que dá forma a toda esta estrutura, mas no dia a dia ele quase que “esquece” essa função e dedica-se de corpo e alma à condição de ciclista. Acaba por ser um corredor igual a todos os outros. É ele o primeiro a dizê-lo. UM ANO DE OURO Na Volta a Portugal de 2013 quem era o chefe de fila da equipa? Gustavo Veloso ou Alejandro Marque? O Gustavo Veloso foi sempre o nosso líder e esse facto foi público e notório. Todavia, tínhamos também no Alejandro Marque uma figura de referência, e a 

MÁQUINA DO TEMPO

1980 40

Disputa a sua primeira corrida. Tinha 9 anos

Ciclismo a fundo

1985

Campeão Regional de Pista, ao serviço do Aliados Futebol Clube do Lordelo

1993

Celebra a primeira vitória como ciclista profissional

2013

Vitória na Volta a Portugal enquanto diretor desportivo

fevereiro / março 2014

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roteiro :: Parque Natural Serra de São Mamede

Portugal em dose

concentrada As planícies são alentejanas. A serra verdejante no tempo frio faz lembrar o Minho e as folhas caducas e os grandes blocos graníticos transportam-nos para Trás-os-Montes. A Serra de São Mamede, entre Portalegre, Castelo de Vide e Marvão, é Portugal em versão concentrada, como uma vez disse o escritor e argumentista, Rui Cardoso Martins. Com estradas de tirar o fôlego, não faltam desculpas para uma volta de bicicleta. Texto: João Picado Fotografia: Luis Duarte

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Ciclismo a fundo

fevereiro / março 2014

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reportagem :: Como realizar um Ironman Nuno Luz é um apaixonado pelo desporto. Ciclista amador de uma forma assídua, quis experimentar um Ironman

N

De ciclista,

a Ironman

O segmento da bicicleta é, em duração, quase metade de um Ironman. Por essa razão, revela-se um desafio tentador para ciclistas corajosos. Se é o seu caso e se quer saber como se pode fazer um Ironman, continue a ler. Texto: Nuno Henrique Luz Fotografia: Marathon-photos e arquivo

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Ciclismo a fundo

o triatlo, a distância Ironman (3,8 km de natação, 180 km de ciclismo e 42 km de corrida) é aquela que mais fascina qualquer atleta, e em especial os ciclistas. Muitos atletas já se interrogaram, certamente, sobre como seria fazer uma prova dessas. Do mesmo modo, quais as diferenças entre fazer por exemplo um Granfondo (ou um Tróia-Sagres) em bom ritmo e fazer o segmento de bicicleta de um Ironman. As discrepâncias são poucas, por um lado, e são imensas, por outro. Pelo menos de acordo com a minha experiência recente (dois Ironmans feitos no último verão: o Challenge Roth, na Alemanha, e o Iberman, em Espanha/Portugal). Ciclista (comecei pelo BTT) primeiro, e triatleta muito recente, houve uma altura, em 2012, em que comecei a pensar seriamente em meter-me num desafio daqueles. A minha curiosidade era exatamente a mesma que, segundo me parece, muitos outros têm em relação a esta distância mítica do triatlo. Sendo uma mente fria e analítica (exceto quando acontece o contrário), fui fazer os “trabalhos de casa” para tentar perceber se valia a pena arriscar. Este artigo destina-se aos 99% de participantes futuros num Ironman que têm como objetivo acabar a prova, e não ao 1% que anda na frente (convém recordar que em mais de 1.000 atletas não há mais de cinco a lutar plausivelmente pela vitória). O EQUIPAMENTO: NÃO SE PREOCUPE MUITO Antes de mais, o equipamento. Uma regra básica é esta: resista à pressão de imitar os profissionais. Bem sei que o triatlo é visto como um desporto caro, com consumo mínimo obrigatório elevado. Mas gastar dinheiro ao nível de um profissional, antes de investir noutras áreas, é como começar a construir uma casa pelo telhado. Nesta altura do campeonato, as suas necessidades são diferentes das deles. Fique a saber que, para a sua primeira prova do género, não precisa de comprar

um daqueles capacetes aerodinâmicos com cauda pontiaguda, que os atletas de topo costumam usar. Um capacete vulgar de estrada serve perfeitamente para a sua primeira vez. Também não faz qualquer sentido juntar à sua coleção de sapatos de ciclismo um par de sapatos de triatlo. As vantagens destes passam por serem mais fáceis de calçar e descalçar, e terem um forro que permite usá-los sem meias. Tudo pormenores de uma importância crítica para quem não pode perder segundos nas transições, mas absolutamente secundários para quem faz a sua estreia com o objetivo único de

chegar até ao fim. Esse iron-ciclista em potência estará muito bem servido com os seus sapatos de estrada habituais (que, de qualquer modo, já consegue abrir e fechar com rapidez decente). Além do mais, nesta fase ainda lhe passará tudo pela cabeça menos pedalar umas horas valentes sem meias. Eu, por exemplo, fiz as duas provas com os meus velhinhos sapatos de ciclismo. O mesmo vale para a bicicleta. Não se justifica de todo o investimento numa bicicleta de triatlo/contrarrelógio logo para começar. Uma bicicleta de estrada normalíssima chega e sobra. Não é tão rápida como uma máquina mais específica fevereiro / março 2014

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entrevista :: Vítor Gamito

“Não há impossíveis” O boxista Muhammad Ali proferiu uma frase que ficou famosa: “Nada é impossível”. Será este o lema que Vítor Gamito irá adotar em 2014, um ano que marca o seu regresso à competição de estrada, 10 anos depois de lhe ter dito, inesperadamente, “adeus”. Prestes a completar 44 anos o antigo vencedor da Volta a Portugal quer provar que a idade não é um entrave. Texto: Magda Ribeiro Fotos: Rui Botas, "@ Paulo Miranda" e arquivo

C

ontabiliza nas pernas entre 600 e 700 mil km. Uma distância que, para termos uma ideia, corresponde, quase, a uma viagem de ida e volta à lua! Ainda assim, foi com os pés bem assentes na terra que Vítor Gamito ponderou o seu regresso ao ciclismo de estrada, uma década após um exame cardiológico lhe ter detetado um bloqueio auriculoventricular de 3.º grau, que colocou um (aparente) ponto final na sua carreira desportiva. Contudo, mostrando estar em boa condição física e munido de inúmeros exames que atestam não ter quaisquer problemas de saúde, o vencedor da Volta a Portugal de 2000 anunciou, em novembro passado, a intenção de regressar à variante que o consagrou. Entre os motivos enunciados, destacaram-se o desafio pessoal, a intenção de mostrar que a idade não é um impedimento para a obtenção de objetivos e a necessidade de comunicar e de se despedir da modalidad em cima da bicicleta. O “ponto final” imposto pela medicina transformou-se, afinal de contas, num “ponto e vírgula" assinado pela mão de Gamito! Enumerou um rol de motivos para voltar à competição de estrada. Houve algum com um peso decisivo? Foram várias as razões. Não consigo salientar uma única. Sei apenas que tudo surgiu a partir de um convite, em jeito de brincadeira, por parte do Micael Isidoro, quando participámos no Algarve Bike

Challenge, em março do ano passado. Foi a primeira vez que tal lhe passou pela cabeça durante estes anos? Sim. Inúmeras vezes disseram-me que deveria regressar ao ciclismo de estrada, mas respondi sempre que não. Fiquei um pouco magoado pela forma como saí. Acabei a carreira sem me sentir saturado, até porque pensava correr mais dois ou três anos. Ainda assim, a paixão pelo ciclismo continuou cá sempre. Foi uma decisão muito ponderada? Pensei durante alguns meses na situação. De forma “dissimulada”, consultei amigos, familiares e médicos. Todos me diziam que a idade não era uma barreira. No fundo, parecia que não havia obstáculos a não ser o meu querer. Ao longo dos últimos meses esse “querer” foi crescendo e acabei por decidir avançar, um pouco por impulso. Era importante, para si, despedir-se do ciclismo em cima de uma bicicleta? Sim. Por norma quando os ciclistas finalizam a carreira desportiva realizam uma competição a pensar que vai ser a última, tendo a oportunidade de a apreciar de uma forma especial. Eu nunca tive essa possibilidade.

“Não havia obstáculos a não ser o meu querer”

Um motivo que evocou para o regresso é a comunicação. Esse ponto foi descurado no passado? Foi. Preocupei-me em conseguir resultados e em dar retorno aos patrocinadores (dei algum mas provavelmente não na sua plenitude). Hoje apercebo-me que descurei a parte social que o desporto tem de ter. Assim, quero aproveitar este regresso para mostrar, a quem não está dentro do ciclismo, o que um atleta necessita de fazer para participar na Volta a Portugal (os sacrifícios, os treinos, etc.). No fundo, pretendo fazer a ligação entre o ciclismo, o público, os patrocinadores e os meios de comunicação social. Essa mudança de postura relaciona-se com uma maior maturidade ou com o facto de ter tirado um curso na área do Marketing? Tem sobretudo a ver com o meu atual papel profissional. Sou responsável pela gestão de patrocínios de uma empresa que apoia muitos atletas. Agora estou do outro lado. Avalio o retorno que cada atleta, evento ou equipa dão, e apercebo-me dos erros que cometi, assim como das equipas por onde passei. UM NOVO REPTO! Vive de desafios? Sem dúvida! O bichinho pelo ciclismo continuou cá sempre. Esse bichinho alimenta-se de adrenalina e de desafios constantes. Nos últimos três anos tenho disputado competições internacionais em BTT e isso concede- 

MÁQUINA DO TEMPO novembro

1991

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Ciclismo a fundo

Assina pela Sicasal enquanto neo-pro

janeiro

1992

Sofre um grave acidente que lhe coloca a carreira em risco

fevereiro / março 2014

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saúde Alimentação

'Le chef'

B

runo Pires é um dos poucos portugueses no escalão máximo do ciclismo mundial. A par de Sérgio Paulinho faz parte da guarda de honra a Alberto Contador na Tinkoff-Saxo Bank. O ciclista está na sua quarta época no World Tour e recentemente notabilizou-se nas redes sociais com uma página em que mostra a alimentação de um atleta de alta competição. A Ciclismo a fundo acompanhou-o durante um dia de treino.

Como se alimentam os profissionais? Bruno Pires (ciclista da Tinkoff/Saxo) mostra como se alimenta durante a preparação para as competições que se avizinham. Será que o companheiro de equipa de Alberto Contador se “desenrasca” na cozinha? Isso veremos já a seguir. Texto: João Picado Fotografias: André Tavares e Bruno Pires

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Ciclismo a fundo

Um caso de sucesso Utilizador das redes sociais, Bruno Pires começou a perceber que, não raras vezes, os seus amigos virtuais interagiam mais com as fotos que tirava das refeições que fazia do que com as suas atualizações de estado com informações sobre participações em provas por esse Mundo fora. “Achei curioso que, na minha página pessoal de Facebook, as pessoas faziam “gosto” e comentavam muito as fotografias da minha alimentação. Reagiam mais do que quando eu dizia que ia correr a qualquer lado”, conta o ciclista da Tinkoff/Saxo.

Foi após essa análise que o alente-

jano lançou um projeto que alimenta pelo menos três vezes por dia. A página no Facebook, “A comida do ciclista por Bruno Pires”, tornou-se num caso sério de popularidade no meio. Em dois dias, a página criada chegou aos dois mil seguidores. Atualmente, esse número ronda os quatro mil fãs e, curiosamente, o atleta tem mais adeptos nesta sua página sobre alimentação do que na de ciclista. “Penso que as pessoas pensam, cada vez mais, em formas saudáveis de se alimentarem e gostam de saber o que um atleta de alta competição come  diariamente”, sublinha.

Ementas partilhadas

Só quando está em competição é que Bruno Pires não consegue atualizar a sua página sempre que se alimenta. Em praticamente todos os outros períodos do ano, desde que criou este espaço no Facebook, partilha todas as principais refeições que toma diariamente: pequeno-almoço, almoço e jantar. Em cada publicação, o ciclista da Tinkoff/Saxo mostra e descrimina os alimentos que ingere. Mas não se limita a isso. Explica, também, que tipo de características têm determinados alimentos. Por exemplo, num almoço pouco calórico, Bruno Pires come dois pratos. O primeiro é uma salada com cenoura, espinafres, azeitonas, cebola, tomate, patê de atum, milho e frango. Pão de sementes com pasta de abacate e pão com presunto. A sobremesa é composta por fruta – uvas, melão, ananás e tangerina - e frutos secos, tâmara e figo. E contextualiza a quantidade de comida: “Pode parecer muito, mas a nível calórico não é porque os vegetais têm mais água.”

Se o treino foi duro, o almoço pode começar com uma bebida de açaí, um fruto antioxidante, “para começar o processo de eliminação dos radicais livres”, justifica o atleta. De seguida, uma salada com salmão e ovo cozido, com “proteínas e gorduras boas como o Omega 3” e, para finalizar, fruta e uma taça de arroz doce. O atleta não se limita a colocar esta informação na sua página. Os comentários e as perguntas são muitos e o ciclista tenta responder a todos e esclarecer as inúmeras dúvidas. Já chegou, inclusivamente, a fazer vídeos explicativos e, com isso, não só contribui para que os praticantes de ciclismo, e não só, tenham uma alimentação mais saudável como aumenta a sua comunidade de fãs em torno desta página.

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reportagem :: Estágio LA Alumínios/Antarte

Major Rui Bernardo

Dever e disciplina “I

Se para muitos a chegada ao defeso significa a passagem por um período de acalmia, para as hostes da LA Alumínios/ Antarte tal vocábulo simboliza “dureza”. Uma vez mais, o impiedoso regime militar fez com que todos respondessem obrigatoriamente à chamada e ninguém ficasse na reserva. Durante o estágio de dezembro, o dever e a disciplina foram dois dos três conceitos que os ciclistas não conseguiram esquecer. Texto: Magda Ribeiro Fotos: Rui Botas

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Ciclismo a fundo

nstrução dura, combate fácil”. O lema, intrínseco ao Batalhão de Instrução das Tropas Paraquedistas, foi por inúmeras vezes propalado pelo Major Rui Bernardo ao longo do estágio que a LA Alumínios/ Antarte realizou, entre os dias 4 e 8 de dezembro, no Crato. “Aqui a instrução terá de ser dura para que ‘amanhã’, quando eles se apresentarem em competição, esta se torne fácil”, diz-nos o instrutor. Contrariamente ao que tem sido apanágio nos últimos anos, a opção do local não recaiu na Escola de Tropas Paraquedistas, em Tancos, mas antes numa herdade situada no Alto Alentejo, onde a pacatez habitual deu lugar ao rigor de uma instrução militar. Sob a voz de comando do Major Bernardo, os 10 ciclistas da equipa de Paredes tornaram-

“A equipa LA Alumínios/Antarte foi pioneira em Portugal a utilizar exercícios físicos e técnicas militares. Com este tipo de estágio consegue-se fomentar o espírito de grupo, a coesão, a cooperação, a amizade e a lealdade, isto para além da componente física e mental. Tudo isto é fundamental para quando estiverem na estrada. Sou apaixonado pela modalidade desde os 12 anos. Fui ciclista amador antes de me dedicar à vida militar”.

Nem todos se deram bem na tarefa quase diária num Quartel do Exército: fazer flexões... -se, por aqueles dias, verdadeiros tropas… de combate! “ABAIXO, ACIMA” “Abaixo, acima”, “abaixo, acima”. A ordem é acatada vezes sem conta, quer seja noite, quer seja dia. Dez flexões porque é tempo de executar este exercício… dez flexões quando a hora é de… castigo. Os motivos podem nem sempre ser os mesmos e o número de flexões também não é estanque. E assim, continuadamente, surge a ordem “abaixo, acima”. Por sua vez, a resposta a esta imposição ocorre de pronto, ora pela força braçal dos “recrutas de ocasião”, ora pelas gargantas que, em uníssono, clamam, à vez: “uma”, “duas”, “três” (um número que sobe… cada vez que o corpo desce até bem perto do solo e se eleva à posição inicial).

O calendário diz que somente ontem os ciclistas chegaram à Herdade da Rocha. O relógio afiança que, neste momento, pouco passa das 11horas da manhã. Mas o sentimento de todos é o mesmo: o dia e o estágio já vão longos… De olhos sempre fixos no instrutor, os novatos militares repetem agora “um, dois, três, quatro”, algarismos que são ditos por cada vez que os seus corpos realizam um novo movimento. Os exercícios vão alternando e tudo é efetuado de forma mecanizada. A concentração é absoluta e por isso, nesta fase, ninguém se recorda que a cama da última noite foi o chão, que as mantas felpudas deram lugar aos sacos-cama, que a higiene matinal foi relegada para segundo plano (por não existir água à disposição) e que a falta de eletricidade impediu as rotinas normais da noite anterior. O rigor dos

exercícios militares e a disciplina têm, afinal, destas coisas: conseguem guardar em “compartimentos” do cérebro tudo aquilo que não faz parte do momento presente. Mas se a mente “apaga” tudo o que ficou para trás, do mesmo modo o corpo “esquece” o desconforto de algum frio matinal. Na verdade, sem se aperceberem – imbuídos que estão do espírito de recrutas –, os ciclistas estão prestes a concluir uma fase primordial para todos quantos praticam atividade física: o aquecimento. AFINAL…TAMBÉM SÃO CICLISTAS! “Frente para a direita”, ordena o Major. Dois a dois, todos se encontram devidamente alinhados, com os olhos postos, finalmente, numa “aliada”: a bicicleta. Um tiro ecoa no ar e de pronto, em passo de corrida, a direção é só uma:  fevereiro / março 2014

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Cf 31