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ECOS REVIVAL


Participe também: Envie seu conto para o e-mail inscricaomostraecos@gmail.com.

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Capa e Editoração eletrônica: E. Reuss Revisão: E. Reuss


POR QUE ECOS REVIVAL? Por Fabiano dos Santos Araújo

Muitas vezes quando me aproximei de alguma coisa que já tinha uma história, tinha a impressão de que ela sempre foi daquela forma, que ela surgiu no mundo estabelecida como se apresentava na minha frente. Era uma impressão passageira, pois logo eu me pegava pensando sobre o quanto a forma atual seria distante do que foi pensado por seus criadores. Seja por uma questão de trazer as origens para aqueles que agora chegam ou mesmo para recordar junto com os mais velhos, percebo agora que a necessidade de fazer o registro dessas memórias. Enquanto a Ecos era jovem, e nós também erámos (jovens autores, que fique claro), o tempo passava e não havia qualquer preocupação com o registro das memórias. Apenas quando a então Mostra Ecos teve sua quinta edição lançada no Wattpad é que surgiram as primeiras cobranças para que as quatro edições anteriores fossem também disponibilizadas no perfil da Mostra. Para fazer isso, tínhamos que atender uma porção de particularidades internas antes de poder-


mos lançar essas edições no Wattpad. Era algo simplesmente inviável... As edições foram continuando e as cobranças cresceram. Lembro que durante uma conversa com os autores, novamente o tema de disponibilizar as Ecos 1 a 4 no Wattpad surgiu. Eu sabia que falar que não era possível não ia resolver a questão, acabei sugerindo uma solução que poderia ser definitiva para o caso: poderíamos falar com os autores que publicaram nestas edições se eles queriam revisitar suas histórias, fazer uma revisão, reescrever, reimaginar ou qualquer outra coisa que cada um achasse que poderia fazer com o seu conto. As modalidades de publicação já começaram a se formar na ideia inicial. A recepção da ideia foi muito boa, bem acima do que eu imaginava. Entre os debates, eu sugeri que essa edição especial da Mostra seria chamada de Ecos Revival. Enquanto debatíamos a respeito, comecei a buscar informações sobre as origens da Mostra, era a hora de relembrar como começamos antes de dar esse novo passo. Durante a minha pesquisa descobri uma porção de coisas, por exemplo, o nosso registro mais velho data do distante 2013, quando o autor V. E. Simeoni comentou que tinha lido um livro de contos de Stephen King e que o prefácio do livro, escrito pelo seu editor, contava as muitas vezes que foi procurado por pessoas dizendo que gosta-


riam de escrever. O editor dava algumas dicas do que as pessoas que tivessem esse interesse deveriam fazer. Depois Simeoni pergunta se alguém já tinha escrito um livro ou conto e como foi o processo de escrita de cada um. Foi nesse momento que eu entendi o que estava acontecendo. Ainda não me decidi se acredito em coincidência, se foi um caso de ironia ou quem sabe uma evidência de que exista realmente o inconsciente coletivo. Sei apenas que depois de ler o post de Simeoni, eu percebi que o nome que sugeri para essa edição da Ecos era o mesmo nome de um livro publicado anos antes por Stephen King, Revival. Como a nossa Ecos Revival não fala da história de um revendendo da Nova Inglaterra acho que podemos manter esse título. A pergunta de Simeoni, gerou movimentação e ações por alguns meses e, em março de 2014, a primeira edição da Mostra Ecos foi lançada. Três anos depois estamos aqui os convidando para participar dessa brincadeira que junta memórias de histórias que escrevemos há um bom tempo. Nos mantemos por um tempo tramando em segredo esta edição especial que agora revelamos a todos. Sejam bem-vindos e boa leitura.


APRESENTAÇÃO

Nessa edição da Ecos, os autores publicaram contos originalmente lançados nas quatro primeiras edições da Mostra Ecos em três modalidades diferentes: Revisão/Atualização: é uma nova versão do conto original com correções que o autor julgou necessário. Spin-off: uma outra história é contada dentro do universo do conto original. Revival: a história foi reimaginada, a quantidade de elementos alterados cria uma nova história tornando-a muito diferente da primeira. Nesta opção o autor pode recontar a história de um outro ponto de vista, mudar acontecimentos, sem necessariamente fazer um spin-off, por ser um reconto da história original.


SUMÁRIO CLIC ................................................................. 11 IMPACTA .......................................................... 19 PALIMPSESTO ................................................... 38 MISSA DO PADRE TADEU .................................. 69 NOSSA FAMÍLIA ................................................ 75 ANTES DAS ÚLTIMAS PALAVRAS ..................... 121 A LOIRA DO BONFIM ...................................... 130


CLIC Helton Laurentino Silva

Revisão do conto “Clic” publicado na primeira edição da Mostra Ecos. Preciso correr, corro. Ruas, quadras, esquinas, percorro todas e chego a lugar algum. O peso do revólver descarregado batendo em minha coxa me lembra do que fiz a cada passo, as roupas manchadas de suor e sangue tem o pior cheiro do mundo, minha cabeça dói. Desta vez caiu a casa antes de cair a ficha. O destino me põe em frente à loja de conveniência da velha gorda. A sede me leva até a geladeira, a necessidade me leva ao álcool. Pego uma garrafa, arranco a tampa e bebo devagar enquanto a velha pega o telefone e disca algum


Clic – Helton Laurentino Silva número. Apoio as costas na porta da geladeira e deslizo até chão, deixo o cansaço me derrubar. O álcool torna tudo mais fácil de suportar. Começo a lembrar de como tudo começou há cerca de dois meses atrás. Assisto a mim mesmo como a um filme. Eu, sentado num cubículo, tão apertado que mal podia olhar para os lados, atendendo mais ligações por dia do que um ser humano são deveria atender. Ligações de pessoas indignadas, insatisfeitas, nervosas. Depois de um tempo a gente se acostuma com a raiva, com a indiferença, era o único requisito para se trabalhar ali no final das contas, o computador que ficava no cubículo tinha todas as respostas Éramos 15 atendentes naquele setor, eu não conhecia metade deles. A maioria não ficava nesse tipo de serviço por muito tempo, tinha gente entrando e saindo da firma todo mês. Na hora do café era comum encontrar um rosto novo rodeado de caras cansadas. Homens, mulheres, comunicativos ou acanhados, havia gente de todo tipo chegando com as mais variadas expectativas. O desfecho, porém, era sempre o mesmo, os sorrisos eram puxados para baixo com o passar das semanas, o entusiasmo não era páreo para aquela morosidade. Eu tinha meu próprio remédio contra aquilo, levantava todo fim de tarde e ia acender um

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Clic – Helton Laurentino Silva cigarro no terraço. Não era da nicotina que eu precisava, só de uma deixa para poder perambular sem ser importunado, colocar as pernas para funcionar. Foi numa dessas pernadas que eu a conheci. Madalena era a garota que trabalhava no cubículo ao lado. Em pouco tempo ela havia conquistado a simpatia de todo mundo, falava bem, muito extrovertida. De vez em quando eu a encontrava no terraço durante as minhas escapadas. Ela era uma pessoa bem vivida para a pouca idade que tinha, falava sobre qualquer assunto, sabia de tudo o que estava acontecendo na cidade. Eu sou do tipo que fala pouco, que acaba sendo um bom ouvinte por falta de ter o que falar. Ela parecia gostar disso, e eu também. Passamos a nos ver com certa frequência nos nossos intervalos e a procurar um ao outro, tínhamos criado certa afinidade ao ponto de eu tê-la convidado para tomar alguma coisa mais tarde naquele dia, mesmo assim me surpreendi quando ela aceitou, geralmente elas sempre têm algum compromisso de última hora esquecido na agenda. Saímos depois de todo o pessoal da sessão ter ido embora, um pedido dela que eu não questionei. Ela me disse que conhecia um Pub ali perto, mas que antes precisava passar em um lugar, eu disse que por mim tudo bem. Fomos até uma loja de conveniência que ficava numa esquina que eu

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Clic – Helton Laurentino Silva evitaria passar sozinho a noite, a única funcionária do lugar era uma velha gorda de cabelos grisalhos. Madalena entrou e acenou para a mulher, que retribuiu o cumprimento com um resmungo. Entrei logo em seguida e vi que ela andava devagar entre as prateleiras, vasculhava com os olhos as poucas gôndolas da loja. Pensei em oferecer ajuda quando ela parou e apontou para algumas barras de chocolate, esfregou as mãos, abriu a bolsa e despejou tudo dentro. Senti como se algo tivesse sido tirado de mim naquele momento. Meu coração palpitava, um calafrio percorreu a minha espinha. A ideia de alguém ter presenciado a cena me revirou o estômago, olhei com discrição ao redor e tudo que vi foi a velha, ocupada lendo uma revista de fofocas. Senti algo puxar meu braço, instintivamente atirei um soco sem jeito nem força na mesma direção. Percebi tarde demais que tinha acertado Madalena, ela me encarava sem expressão, com a bochecha direita vermelha e um filete de sangue escorrendo pelo canto da boca. Não sabia o que dizer, não disse nada, ela sorriu. Um sorriso amplo, daqueles que só a felicidade sincera consegue rasgar no rosto das pessoas. ”Vamos?” Ela perguntou. Baixei a cabeça e fui levado pela mão até o caixa. Ela pegou um pacote de balas e perguntou a velha quanto era. “Três”.

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Clic – Helton Laurentino Silva Tirou uma nota de cinco, deu a velha e dispensou o troco. Fomos até o Pub sem trocar uma palavra. Ela agarrada ao meu braço com a cabeça apoiada em meu ombro o tempo todo. Eu olhando para o vazio, um caminhão de pensamentos confusos passava pela minha cabeça. A educação que meu pai me deu não aprovava o que fiz. Apontava o dedo pra minha cara e me mandava repreendê-la e, se eu fosse homem o bastante, entregá-la a polícia. Dizia também que eu deveria me envergonhar de ter esbofeteado aquele belo rosto, isto não é coisa que homem faça. Mas a verdade é que a lembrança daquele sorriso insistia em pôr em dúvida tudo isso. Sentamos no balcão do Pub e ela pediu duas cervejas. O garçom pareceu perceber o hematoma que havia se formado no rosto dela e perguntou se estava tudo bem, me olhando discretamente de soslaio. “Dei de cara com uma porta”, ela respondeu sem dar margem para novas perguntas. Trocamos um breve olhar, compartilhamos um sorriso. A rotina não resistiu aos traumas causados por um crime que faria um adolescente problemático gargalhar. Meus dias se resumiam aos minutos que eu passava no terraço fumando um cigarro que eu não gostava falando sobre o que eu não entendia com a pessoa que eu desejava. Tínhamos um pacto

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Clic – Helton Laurentino Silva não declarado, nunca falávamos sobre o ocorrido naquela loja nem sobre o que aconteceria depois. Ela insinuava que tinha vontade de sair para algum lugar, eu a convidava, esse era o nosso código. Pouco importava o destino, bastava que houvesse algum lugar no meio do caminho onde desse para levar algo sem pagar, ela era fissurada por isso. Se atentava a disposição das prateleiras, a organização das gôndolas, a fisionomia e os trejeitos do atendente. Eu não me importava com nada daquilo, só me interessava o que vinha depois. A palpitação, o estômago revirando, a espinha gelando, era o que vinha me mantendo vivo durante as últimas semanas. Não importava o valor nem o que era, o ato era tudo. Hoje de manhã acordei decidido a fazer diferente. Peguei o calibre 38 herdado do meu avô e meti no bolso da jaqueta. Esperei pacientemente até ficar a sós com ela no terraço para mostrar a peça. Pensei que ela fosse agir de outra forma, por um momento achei que ela fosse correr, mas ela apenas permaneceu parada, em silêncio, encarando a arma com um olhar apreensivo. Passamos alguns minutos em silêncio, o ar ao nosso redor dava a sensação de estar cada vez mais pesado. Tomei a iniciativa e a mandei vir comigo mais tarde, ela recebeu a ordem com um olhar grave e um ligeiro aceno de cabeça.

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Clic – Helton Laurentino Silva Voltamos a nos encontrar e ela ainda tinha a mesma expressão apreensiva de antes, sorri e disse que tudo ficaria bem. Caminhamos por ruas escuras até que eu avistei o alvo. Uma mercearia. Ela estacou quando nos aproximamos do lugar. Coloquei a mão por cima do bolso do casaco e senti a forma alongada do revólver, com ele em mãos eu podia tudo. Puxei-a pelo braço com entusiasmo e entramos. O atendente era um sujeito magro, de bigodes longos, usava um boné de time de futebol. Olhei ao redor e não notei mais ninguém no lugar, todas as persianas estavam fechadas, havíamos chegado pouco antes do horário de fechamento. Puxei Madalena até os fundos, não queria deixar o homem esperando muito para ir embora. Toquei novamente a arma e senti uma necessidade urgente de vê-la, me certificar de que ela ainda estava lá e não era uma ilusão. Tirei-a devagar do bolso e a coloquei contra a luz, senti meu coração acelerar e o gelo percorrer minha espinha, como da primeira vez. Ouvi um estampido e minha visão ficou turva. Limpei os olhos com as costas das mãos e vi que era sangue. Madalena jazia estirada no chão e tinha um ponto escuro bem no meio da testa, os olhos bem abertos e os cabelos empapados de sangue. Virei-me na direção do balcão, o magrelo havia sumido. O cheiro da pólvora queimada me

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Clic – Helton Laurentino Silva levou até ele, estava no corredor ao lado, havia empurrado algumas latas de óleo para o canto e aberto uma fresta para poder nos ver, minha ansiedade deve ter entregado tudo. A fumaça ainda não havia se dissipado do cano da arma dele quando ela foi apontada para mim. “Clic”. Nada aconteceu. O homem apertou o gatilho mais uma, duas, três vezes, nada além daquele som saiu da arma. Foi engraçada a maneira como ele arregalou os olhos quando nos encaramos. Ficamos assim por algum tempo, só se ouvia o som das geladeiras no fundo da loja. Levantei o braço devagar, procurei manter o cano alinhado, minha mão tremia muito. Eu tinha o homem que matou minha mulher na mira, mas nem um pingo de coragem para apertar o gatilho. Mirei na janela à esquerda dele, fechei os olhos e puxei o gatilho. “Clic”. Tinha me esquecido de que sem balas, sem tiros. “Clic-Clic”. Nada. A certeza de ter uma arma descarregada em punhos me encheu de coragem. Desta vez mirei na cabeça do homem, a tremedeira havia passado. Ele merecia dois tiros, um por mim e outro por Madalena, isso aí. “Clic-BLAM”.

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IMPACTA Fabiano dos Santos Araújo

Revival do conto “Impacta” publicado na terceira edição da Mostra Ecos. 01 Ela estava em seu quarto com seus sufocantes dois e meio por três ou três por três, mas o que isso importava? O que importava era a luta de ocupação de território entre os quatro membros da família contra os móveis velhos, que mesmo amarrados com arame e insistindo em se desintegrar, eram adversários formidáveis na luta pelo precioso espaço. Os quatro dormiam ali, mas para que o frágil armistício entre humanos e móveis se mantivesse


Impacta – Fabiano dos Santos Araújo só poderia haver duas camas para todos. Evidente, os pais dividiam a de casal. Para os filhos havia o revezamento semanal entre o velho colchão laranja, solado e molenga da cama e o outro idêntico sobre piso sujo com partículas que fizeram parte dos móveis. Assim passavam suas noites e, por maior que fosse o desconforto, o trabalho e as obrigações da casa ou da escola os anestesiava. Acostumaram-se a fechar os olhos e só abri-los no início do outro dia. A menina era a diferente entre eles, sempre com sono leve e inquieto, acordava muitas vezes durante a noite. Na madrugada, a garota acordou com ruídos de arrasto e guinchos bravos no topo das paredes, eles estavam livres desde que o gato foi envenenado por um dos amáveis vizinhos, eles voltaram e se multiplicaram, mas desta vez, estavam sozinhos e não tinham o que temer. Outro bichano enjeitado não ia demorar a aparecer faminto na porta de sua casa e no dia que estivesse pronto eles veriam… Agora que a acordaram, Carol teria que lutar para adormecer outra vez. Acordada, via os vários pontinhos de luz do poste que entravam pelas frestas do telhado, as mesmas por onde serenava nos dias de chuva com vento. Via o peito dos pais subir e descer, cada dia era mais cansativo e pesado que o anterior. Não via o

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Impacta – Fabiano dos Santos Araújo irmão deitado no chão, nem mesmo o ouvia. A escola, o estágio e o pré-vestibular disputavam para arrancar a cada dia um pedaço maior dele, ainda assim, era uma pedra que passava a noite entre as camas. Semana que vem a cama seria dele, ela achava que mudando a pedra de lugar, teria alguma melhora para ele. Ouvindo a respiração pesada do pai, adormeceu. Acordou pela segunda vez no meio de um tipo de festa com música eletrônica, os pontos de luz piscavam e dançavam pelo quarto, batidas muito fortes vinham de longe e explodiam em seus ouvidos, com os trovões chegou o vento mexendo os galhos da árvore ao lado do poste. A chuva chegava e se fosse com vento, a garota teria que buscar a colcha nos pés da cama, fizesse frio ou não, ia serenar no quarto e não era hora para gastos com remédios. Nunca há uma hora certa para se adoecer, mas com certeza, aquela não era uma boa hora. O som dos galhos da árvore da calçada a ajudou a adormecer outra vez. Não era um sono de verdade, era mais um torpor entre estar acordada e adormecida. Carol virou-se para a parede, encolheu-se e tremeu. Seu braço tateou ao redor buscando pela colcha, a arrastou para o corpo e cobriu-se, o que sobrou de tecido, abraçou com força, enquanto

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Impacta – Fabiano dos Santos Araújo tentava ficar o mais encolhida que podia para se aquecer. Não caiu uma gota do céu, o vento parou e os trovões se calaram. Mas o guincho e os passinhos arrastados dos malditos roedores no topo das paredes voltou com mais força. Devia ser ele. O maior rato de todos vinha de longe, bem devagar, com o seu gritinho agudo. O mundo a sua volta parecia se dissolver, a única coisa que existia era o gritinho agudo e a necessidade de ficar encolhida, a única coisa que passava uma leve sensação de segurança para ela.

02 O ambiente era muito branco e limpo, deveria ser para reforçar a sensação de cuidado com o bem estar de quem estivesse ali, talvez também fosse para ressaltar o ar de seriedade e responsabilidade do dono daquele escritório. Nenhuma dessas coisas parecia funcionar hoje. Depois da longa conversa o homem por trás da mesa branca começava a demonstrar sua falta de tato com a situação, o tempo conseguiu exaurir sua argumentação, uma vergonha, para alguém tão hábil com as palavras.

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Impacta – Fabiano dos Santos Araújo — Por favor, não posso fazer nada... — disse o diretor. — Viemos de longe e não é sempre que conseguimos folga... O meu marido pode voltar desempregado pra casa... — disse a mãe. — Isso não é justo! — O senhor consegue nos ajudar. Sei que deve ter um jeito. Pelo menos pra minha mulher, doutor... — disse o pai. O casal era insistente. Tinha que ser. Eles não podiam aceitar sair sem nada. Foram horas demais de espera em corredores desertos e abafados para se dar por vencido por um rosto de meia idade recém barbeado e seu sorriso de vendedor de seguros. — Não é má vontade minha. Em seu transtorno, ela ainda acha que o mundo é uma ilusão. Sua filha acredita que é a única pessoa real. Não posso obrigar um paciente a ver a sua família. Quando ela tiver uma mudança, entro em contato. Por favor, não insistam. O rosto do diretor estava tão branco quanto a sala. Se fosse feita mais uma pergunta, mesmo que fosse sobre as horas, ele desmontaria. A mãe o olhava nos olhos e não conseguia ver o seu reflexo. Entendeu que era o limite dele. Alguém acostumado a resolver tudo com sorrisos e frases curtas, que convencem mais pela aparência

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Impacta – Fabiano dos Santos Araújo de conhecimento do que pela verdade nelas, chega ao limite na primeira situação fora de seu controle. Ela olhou para o marido e acenou com os olhos na direção da porta. Levantaram e saíram do escritório em silêncio. Nunca houve nada para eles naquela sala, agora tinham certeza. No corredor eles se entreolharam. O mal que atingiu o diretor parecia ter chegado a eles. O sangue de suas faces estava desaparecendo. Um par de rostos cada vez mais pálidos se encaravam. O sintoma na pele de suas faces era semelhante, a causa era diferente. A palidez vinha da derrota, da vontade não realizada, da tristeza de por tantas coisas em risco, para não lograr nada no final. A filha estava há metros de distância e não poderiam chegar um passo mais próximo do que estavam. Caminharam pelo corredor sem olhar para trás, olhar para trás tornaria tudo mais difícil, uma parte maior deles teria que ficar no corredor, sair seria muito mais doloroso. Ambos tinham que ser firmes, para fortalecer um ao outro. Na direção oposta vinha devagar o zelador empurrando o carrinho de limpeza. Sempre carregava muito peso e suas rodinhas reclamavam com um som agudo. Ainda estava longe e o som não chegou aos seus ouvidos.

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Impacta – Fabiano dos Santos Araújo O casal caminhou mais rápido e virou no primeiro corredor, eles tinham que sair daquele lugar. Sempre era difícil ouvir o que acontecia na hora da passagem do carrinho. Seria a morte ouvir aquilo outra vez. Som das rodinhas surgiu fraco no corredor. A cada metro, mais alto cantavam no seu tom desafinado. No quarto da garota, gritos. Desesperados e intensos exigiam que o zelador saísse dali. Ela berrava: — Aquele homem vem pra me fazer mau! O zelador destrancou a porta e entrou no quarto com o carrinho, o colocando num canto, trancou a porta e foi até Carol, que estava sentada de frente para um dos cantos do fundo encolhida e silenciosa. — Oi Carola, hoje eu vim te ver.

03 — Carol, é hora de levantar. Carol abriu os olhos, mas a luz estava forte. Levou as mãos até o rosto para protegê-los, não conseguiu tirá-las do lugar. — Mãe. Não consigo me mexer... — Sempre fica muito agitada quando acorda de uma crise — a mulher foi até a cama e apertou um

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Impacta – Fabiano dos Santos Araújo botão na cabeceira. As faixas que a amarravam se soltaram — Tive medo que caísse da cama outra vez... A garota levou as mãos aos olhos e os abriu apertados pela luz. — Mãe apaga a luz... Não tô conseguindo enxergar nada... Meus olhos doem. — É a luz da janela, abra os olhos devagar, vai se acostumar. — Não tem janela no quarto... — Primeiro abra os olhos, depois falamos sobre isso. A pessoa que lhe falava tinha voz calma e firme, a frase foi pronunciada com tanta confiança que a intenção de abafar a pergunta da garota ficou quase invisível. Surgiu o som de alguma coisa sendo arrastada para perto da cama. Carol virou o rosto. A luz ainda era intensa, seu brilho era tão forte, quanto o quarto e seus móveis eram novos e brancos. Como se tudo fosse meticulosamente pensado para cegar pela manhã quem quer que acordasse naquele quarto. Ao lado da cama a pessoa estava sentada encarando a garota enquanto ela tentava enxergá-la. Na frente da garota, o rosto da mulher começou a se formar. Quando estava nítido o suficiente para que visse claramente, a garota ficou com o rosto

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Impacta – Fabiano dos Santos Araújo vermelho por não reconhecer sua face. Como pode chamar aquela desconhecida de mãe? A vergonha por sua resposta deixou-a mais tímida na sua próxima pergunta: — Não tô na minha casa. Onde tá a minha família? — Te acordei para conversarmos. Carol arrastou-se devagar pela cama, sentou-se na beirada e fez menção de levantar-se. — Os seus olhos já estão bem. Me deixe te ajudar... A garota puxou o braço e tentou levantar sozinha. Ela ainda não sabia que não era mais a pessoa que acreditava que fosse, não tinha mais a mesma firmeza e força nas pernas, no primeiro passo se desequilibrou e segurou na primeira coisa que encontrou, o braço estendido da mulher. Carol sentiu sua face esfriar, como se todo o sangue a abandonasse. A sensação de querer fazer algo e o corpo não ser capaz de atender, era algo novo, assustador e inaceitável. Com o apoio que recebeu encostou novamente no colchão. Pôs os pés nos degraus e se arrastou de volta a posição anterior. Travesseiros afofados na cabeceira esperavam que ela se encostasse. Seu rosto agora tinha um tom muito vivo de vermelho, era quase incandescente, tão rápido quanto o sangue que abandonou

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Impacta – Fabiano dos Santos Araújo sua face, ele retornou trazendo um vermelho intenso que era fácil de confundir com a reação de um grande esforço. — To doente de que? — Não é uma doença da forma que conhece. — Eu sou maluca e não sabe como me contar? — Sei tudo o que há pra saber, só não sei se vai conseguir entender. — Pra você deve ser fácil... Só com uns sorrisos e uma voz confiante me dobrou e não respondeu sobre eu acordar amarrada num lugar estranho. — Carol, você tem uma condição rara no seu cérebro, sempre que alguma coisa te abala, você se isola do mundo e cria uma versão diferente da realidade dentro da sua mente. — Não é difícil falar que eu sou esquisita, viu? — Os normais são os mais esquisitos... Um pequeno sorriso apareceu no rosto de Carol. — Carol me perdoe por não me apresentar antes, meu nome é Ana Amélia, mas pode me chamar de Anamel. — Anamel, você já sabe o meu nome, muito prazer em te conhecer. Agora que não somos mais estranhas, pode me falar o que tá acontecendo de verdade? — Eu falei a verdade. — O que é isso? Tô bem nova pra minhas pernas não funcionarem mais.

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Impacta – Fabiano dos Santos Araújo — É efeito da medicação que tomou durante a crise. Até o almoço vai ser jovem outra vez. — Viu, você me disse a verdade e eu não surtei. — Não funciona assim... Apenas coisas realmente fortes conseguem te abalar o suficiente para uma crise. Me permite fazer algumas perguntas sobre como se sente e do que se lembra da última noite. Mesmo se parecer só um sonho. — Ainda não terminei. — São poucas perguntas, Carol. Preciso disso. — Onde está a minha família? — Carol, por favor... — Fala onde meus pais e meu irmão estão? — Tem certeza que quer saber isso? Carol olhava Anamel nos olhos. Ambas tinham perguntas. Uma delas teria que ceder. Anamel tirou uma caneta do bolso, a girou duas vezes produzindo um clique e a guardou novamente. Era uma caneta com uma dose de tranquilizante. — Isso pode ser útil para a pesquisa... Se alguma coisa acontecer, estamos no local mais preparado para te atender. Mesmo aparentemente tendo aceito a resposta sobre a fraqueza em suas pernas, Carol ainda não acreditava em Anamel. Tanto a caneta quanto o comentário poderiam ser falsos. — Não há papai e mamãe. — É pra eu acreditar nisso, né?

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Impacta – Fabiano dos Santos Araújo — Não há nem mesmo irmão. Só existe a Carol. A garota deu um risinho leve com o canto da boca. Olhava a mulher de cima a baixo esperando a retribuição do riso ou qualquer outro tipo de sinal. O que ela falou não podia ser outra coisa se não uma piada. — Parece piada não é? Vamos rir juntas da próxima, qual é o nome dos seus pais? E o nome do seu irmão? Juca é um apelido, não um nome. — Só me responde com perguntas, acabei de acordar e tá se aproveitando disso. Me deu um monte de remédios e agora quer empurrar isso goela abaixo... — Não prestou atenção quando falei de sua condição... Vou ser mais didática. Você acredita que mora em uma casa pequena num bairro muito pobre, divide o quarto com os seus pais e o seu irmão. Nele só tem duas camas e por isso às vezes tem que dormir num colchão no chão. Quando faz calor o quarto fica abafado por não ter janelas. Você sabe que sua casa tem um quarto, um banheiro e uma cozinha, mas só tem lembranças do quarto. Sabe como é sua casa e o local onde ela fica, mas você não tem lembranças da aparência da casa por fora e do bairro — ela pega um envelope no criado ao lado da cama e continua: — Também tem uma história sua num sanatório, você tem medo que o zelador entre na sua cela, tem tanto medo que sempre fica encolhida olhando a parede

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Impacta – Fabiano dos Santos Araújo do fundo vendo as sombras que a luz que passa pela abertura na porta faz. Não sabe o que seria de você se ele conseguisse entrar... As lembranças que a garota tinha em sua mente, sobre sua vida e sobre o que achava ter sonhado durante a noite foram transformados nas palavras que saíam da boca de Anamel. Era impossível que soubesse de tudo aquilo, era como se ela tivesse poderes mágicos ou telepáticos e estivesse extraindo tudo aquilo de sua mente ao mesmo tempo que falava. — Carol, leia isso. Carol pegou o envelope e folheou o conteúdo, havia várias certidões comprovando que ela era órfã desde os primeiros dias de vida, laudos médicos comprovavam que ela realmente tinha uma doença mental rara de difícil tratamento. E que há alguns anos ela recebia tratamento especializado oferecido pelo instituto Impacta. — Foi muita coragem me contar isso, sabendo que eu poderia surtar... — Foi segurança. Avançamos muito no seu tratamento, sua reação prova isso e agora precisamos avançar mais. — Estou aqui há quantos anos? Anamel pegou um espelho na gaveta do criado e o entregou a garota. Ela via a si mesma no reflexo. Era ela mesma, os mesmos olhos, boca e

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Impacta – Fabiano dos Santos Araújo nariz, não era uma nova ilusão, mas sua face estava diferente do que ela se lembrava. Estava mais alongada e envelhecida, tinha algumas escoriações e um machucado quase cicatrizado na têmpora, seu cabelo o cobria, ele estava mais escuro e longo do que ela se lembrava. — Você não suportava a vida que tinha no orfanato, o que mais te incomodava era saber que foi abandonada. Você conseguiu esconder o que sentia por um bom tempo, mas a sua mente acabou não suportando e aos quinze anos foi internada pela primeira vez. Os dois primeiros anos foram uma perda de tempo, estamos com você há pouco mais de dois anos, o seu maior período de progresso. Agora está com quase vinte. — Ser adulta é isso? Eu entendo o motivo de ter me amarrado, ainda não aceito, mas entendo... — seus dedos passeavam por todo o seu rosto examinando as manchas e a cicatriz. Sua aparência não era boa, mas a de que pessoa era ao acordar? Ver a si mesma e reconhecer a maioria do que via era reconfortante, mas não ter lembranças de como o seu reflexo mudou com o tempo deixava uma sensação de vazio que nunca poderia ser preenchida. Como recuperar uma época que não foi vivida? — Essas marcas são da internação anterior, você estava cada vez mais tranquila durante as crises, a equipe acreditou que não precisava te prender à

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Impacta – Fabiano dos Santos Araújo cama, acabou caindo e batendo o rosto na quina do armário ao seu lado. É um erro que não vai se repetir. Mas isso é algo fácil de resolver, a cicatriz e as manchas poderemos apagar com uma ou duas sessões de tratamento de pele, pode mudar também outras coisas que não te agradam... — O que quer perguntar? — Não preciso de mais nada. Do seu jeito foi melhor, consegui testar a sua resposta ao estresse. Acho que se saiu melhor do que a minha melhor expectativa. — As minhas pernas estão assim porque eu não saio muito dessa cama, não é? — Sempre foi complicado fazer as sessões de fisioterapia com você. Quase sempre a equipe conseguia quando estava bem, mas quando ficava mal... — Agora está mesmo segura pra me falar a verdade... Me acordou, fez as perguntas que queria, deve ter gravado tudo e vai me por pra dormir quando? — Acho que não vamos precisar mais disso. Mas isso depende mais de você do que de mim. — Não é só aplicar alguma coisa e esperar o resultado? o que eu preciso fazer? — Vou te mostrar uma coisa. Anamel apertou um botão na cabeceira da cama, uma armação metálica saiu da parede e se

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Impacta – Fabiano dos Santos Araújo esticou até tomar toda a área da cama. Apertou outro botão e da armação metálica surgiu uma névoa azulada que envolveu toda a cama, como se fosse um dossel. A névoa se dissipou e um tecido fino como uma renda azulada surgiu, por ele passava uma onda luminosa branca do topo ao piso e de volta no sentido contrário. — Carol, isso é um tipo de leitor de sinapses cerebrais. Com ele descobrimos quais partes do seu cérebro eram afetadas durante as suas crises, e o que você via durante elas. Com essas sessões chegamos ao estágio atual. — Se é só pra continuar usando essa coisa, nem precisa pedir... — Não funciona assim, ler é fácil, pois não alteramos nada na sua mente, para poder alterar, preciso de sua permissão. — Quer colocar coisas na minha cabeça? Qual é a diferença pra minha doença, então? — Não. Nós vamos apenas tratar as causas das suas crises. Já conhecemos a fonte do seu medo, o tratamento iria diretamente nesse ponto. — Se eu falar que aceito, é só isso?

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Impacta – Fabiano dos Santos Araújo — Ajuda muito, mas não é o suficiente. Você tem que demonstrar que aceita o tratamento, para que ele seja de verdade. Se não ele vai ser como se fosse algo colocado na sua cabeça. Não queremos criar robôs, trabalhamos para ajudar pessoas a se recuperar, para serem elas mesmas, que pensem por si mesmas. Carol ficou em silêncio, ela olhava para a janela, tentava enxergar alguma coisa além da cor do céu. — Carol quer dar uma volta depois de comer? — Anamel pegou a cadeira de rodas do outro lado do quarto e a levou para o lado da cama. — Eu te mostro o prédio depois que comer alguma coisa. O instituto é bem bonito. Se quiser posso te mostrar a sala onde o próximo tratamento é feito. — Quero um copo d´água, por favor. Anamel assentiu com a cabeça e antes de sair do quarto desativou o leitor de sinapses, a renda se soltou do aro metálico e se desfez no ar enquanto a armação de metal começou a encolher de volta para a abertura na parede. A garota pensava nas coisas de sua vida que achava ser reais e em tudo o que Anamel havia falado. Ela tinha razão sobre tudo, mesmo concor-

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Impacta – Fabiano dos Santos Araújo dando com o que ouviu, algo ainda parecia fora do lugar, mas ela ainda não sabia o que era. Anamel retorna com uma bandeja com uma jarra e um copo. Carol se serve e bebe a água devagar. — Pode me ajudar a descer? A mulher sorri e a ajuda a sair da cama e se acomodar na cadeira de rodas. Ela sentiu que agora a garota estava pronta para aceitar a ajuda. Não ofereceu resistência para sair cama para a cadeira, entregou-se totalmente aos cuidados dela. Ou então estava tão perdida nos seus pensamentos que todo o resto não importava. — Vamos, tô com fome. — Carol disse quando estava acomodada na cadeira. — Vamos Carola, tem muita coisa para você ver. Uma das palavras que Anamel falou despertou a sua mente. Ela lembrou do irmão, ele era o único que a chamava de Carola. A imagem de seu rosto surgiu nítida em sua mente. Era mais velho que ela, seu rosto magro e a barba por fazer acentuavam isso. Seus cabelos eram escuros como os de seu pai. Se ele era mesmo uma ilusão, porque seu rosto surgia com tanta clareza agora? O som do zelador surgiu em sua mente, ele repetia sem parar a frase que falou pouco antes de ser despertada por Anamel: — Oi Carola, hoje eu vim te ver. A garota sorriu e falou:

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Impacta – Fabiano dos Santos Araújo — Carola? — É o seu nome, querida. Carol sorriu outra vez e antes que Anamel abrisse a porta ela agarrou a maçaneta da porta detendo a saída por um instante. — Ainda estou confusa, Anamel, eu pensei que nunca ia acreditar em você. Me desculpa. Anamel abriu um sorriso maior do que os anteriores. — Vou seguir com o tratamento. Quero chegar até onde for possível, sem nada me amarrando. — Vai aprender muito sobre si mesma. — É o que eu mais quero.

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PALIMPSESTO E. Reuss

Revival do conto “Palimpsesto” publicado na primeira edição da Mostra Ecos. Otávio abre os olhos. Leva a mão até o rosto, cutuca a face e enfia um dedo no olho. Só então percebe que está sem os óculos escuros. Tateia a grama. Ele está deitado? Num gramado? Suas costas e o ombro esquerdo doem, então ele permanece por alguns minutos paralisado na horizontal como um corpo que boia. Luzes se acendem. É como o nascimento do dia, só que muito mais brusco. A iluminação queima sua retina através das pálpebras fechadas. Quando se acostuma, Otávio fica de pé e olha a sua volta. Nada além de um casarão imponente e fluorescentemente iluminado por estacas luminosas no


Palimpsesto – E. Reuss gramado. Estacionada no caminho asfaltado em frente ao casarão, vê uma vã adaptada para deficientes físicos com elevador hidráulico. Ouve a voz de sua mãe no fundo de sua consciência, que às vezes surge para ajudá-lo a sair de situações difíceis. Ele enxerga seus olhos inclinados para o lado, uma expressão de reprimenda, e isso é praticamente toda a lembrança que ele tem de sua mãezinha real. Os olhos e a voz rouca. Olha para o céu a procura de uma mulher de quem ele nem lembrava mais o nome. Qual era o nome de sua mãe mesmo? Olhando para os céus, enxerga uma série de gárgulas em posições eróticas fixadas na proteção do telhado, todas cobertas por uma camada grossa de cocô de pomba. A bandeira da Suíça balança freneticamente em um suporte. “Hans”, Otávio diz e de repente não está mais perdido. Sobe a escadaria de mármore escorregadia. Pressiona um botão vermelho em um interfone velho e estropeado com uma câmera embutida. O aparelho geme e faz um som de fiação defeituosa. “Quem é?” Soa uma voz com um sotaque alemão. “Hans?” “Não.” “É o-” “Não.”

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Palimpsesto – E. Reuss “Posso falar-” “Nein.” “Sou amigo de Hans.” “Reduzir inclinação de sua cabeça desde que fique alinhada ao câmera.” “Que?” “Bitte, senhora…” “Senhor”, Otávio diz, “Não posso inclinar. Dor Lombar. Ombro… despedaçado”. “Desculpas. Die kamera está com defeitos. Transforma voz masculina em voz delicada de senhorita”. “Quero falar com o Hans.” “Und?” “Aqui é Otávio. Mendes. Drogas.” “Herr Hans está em profundezas de sono.” “As luzes acenderam agora. Eu sei que ele acabou de entrar na cápsula.” Silêncio do outro lado. De repente, gritos enérgicos e ordens em outra língua. A porta se abre e pela abertura Otávio enxerga o maior alemão que ele já viu na vida. “Herr Hans autorizou sua entrância”, e estende mãos alongadas e pálidas, quase extraterrestres, para os fundos de um corredor coberto por uma camada escura de isolamento acústico. Otávio avança pelo corredor atrás do mordomo alemão.

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Palimpsesto – E. Reuss “Guardamos para evitar furto.” O alemão diz e entrega a Otávio uma bolsa de viagem e seus óculos escuros. O cheiro ali dentro é de cigarro e de espuma de poliuretano. Param em frente à porta do quarto de Hans. “Seu coração está há dias querendo interromper.” O mordomo diz e olha para a maçaneta. Otávio não sabe o que dizer. Coloca os óculos escuros e, por algum motivo, pergunta quem é que fornece as drogas para Hans agora. “Não sei o nome dela.” “Dela?” O mordomo assente e gira a maçaneta. Otávio entra no quarto e se depara com essa estrutura metálica iluminada pela fluorescência azulada que atravessa a janela. Hans está boiando lá dentro numa solução salina de alta densidade, enquanto o tanque de privação sensorial emite um zumbido quase inaudível. Um painel com um termostato indica o dia, a hora e a temperatura da água e do ar no interior da cápsula: Trinta e quatro graus célsius. Um segundo painel controla a remoção de dejetos por meio de um traje especial acoplado à cintura de Hans, que usa bombas de sucção para remover qualquer vestígio de suas funções metabólicas. No tampo abobadado da cápsula, uma sonda leva alimentos líquidos até sua boca.

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Palimpsesto – E. Reuss Otávio bate na carcaça metálica do tanque e ouve um agitamento aquático no lado de dentro. “Hans?” “Nein… Este não é Otávio?” Uma voz robótica soa no painel de controle do termostato. A cabeça de Hans aparece no monitor. “Hans, sou eu.” “Eu não posso crer.” A surpresa em seu rosto é legítima. Otávio pergunta há quanto tempo eles não se vêem. “Oh. Oh. Eu sinto muito, mas eu não acompanha o tempo aqui do interior de minha cápsula.” Hans começa a ter uma convulsão, o branco dos olhos reluzem na visão noturna da câmera. “Hans? Hans?” Hans está dormindo agora, cabeça a bombordo mergulhada parcialmente na solução salina. Otávio bate com força na carcaça e Hans acorda num sobressalto, cuspindo água e tossindo. “Oh. Hahaho… Oh.” “O que aconteceu?” “Mein cabeça ocasionalmente produz convulsões com a intenção de inserir Hans em profundezas do sono.” “Jesus, Hans. Quanto disso você tá tomando?” Otávio aperta uma das bolsas de soro acoplada a um suporte na lateral da cápsula. Hans não sabe.

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Palimpsesto – E. Reuss “Meu metabolismo é o metabolismo de uma marmota em hibernação.” Ele diz. “Sinto-me como um Deus. Em breve a entrar na Eternidade. ” “Não existe Eternidade.” “Was?” “Não existe imortalidade ou agentes antienvelhecimento. Olha pra mim, Hans.” Otávio aproxima a cabeça do monitor. “Eu pareço com alguém que tem muito tempo de vida ou que tá com a saúde, assim, bacana?” Hans tem os olhos arregalados agora, seu corpo nu no filtro verde da visão noturna parece morto. Então, a sensação de déja vu. Otávio pode dizer com toda a certeza que já tentara convencer Hans a sair daquela cápsula antes, mas a lembrança exata continua imersa numa névoa. Outras memórias ressurgem, e com elas, o impulso urgente de se contar uma história. “Lembra do quarto cheio de garotos de programa?” Hans se recupera. Solta um suspiro nostálgico e diz “Oh”. “Aquelas bichas cheias de tatuagem, camisetas rasgadas, fedendo a maconha e suor?” “Oh.” “Você e um outro alemão de terno italiano e Rolex no quarto do hotel em que minha mãe trabalhava.”

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Palimpsesto – E. Reuss “Arnhein. Mein freund.” Disse, visivelmente emocionado. “Lembra o que eu disse? Lembra a história que eu contei que fez seus olhos lacrimejarem?” “Oh. A bolsa. A Russland.” A viagem para a Rússia. Otávio tem essa memória de uma encosta congelada e pedaços de gelo sendo carregados pela correnteza de um rio no ártico. Trutas congeladas pregadas pelos seus intestinos a uma tábua. O encontro com uma cobra e a extração do veneno em uma pedra de gelo nas margens de um lago. Ele ingere pequenas doses do veneno e as alucinações o levam até esse deserto congelado, onde uma tribo Chukchi pescava trutas em buracos no gelo. O lugar onde é sempre noite e onde os homens nunca dormem. Aqueles jovens cheios de tesão riram nesse ponto da história. Arnhein fumava um charuto, indiferente, com a mão na bunda de um rapaz de cabelo moicano. Hans tinha os olhos cheios de lágrimas agora. Enquanto as grandes mentes sonhavam com a imortalidade, Otávio oferecia outra coisa: Produtividade. Cérebros treinados para não dormir por cogumelos russos que estimulavam as sinapses nervosas e a produção de Orexina.

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Palimpsesto – E. Reuss “Hans, você desceu daquela poltrona de couro vermelho e deslizou pelo tapete persa como um viciado em metanfetamina.” Hans ri. “O problema…” Otávio continua e hesita por um momento ao ver a expressão preocupada no rosto de Hans. “O problema é que não adianta evitar o sono se você não consegue nem se lembrar da razão de você querer ficar acordado pra começo de conversa.” “Was?” “A memória vai pro pau, é isso que eu tô dizendo. A sua, a minha… Talvez seja a ausência de sonhos? Alguém disse que eles servem para gravar as lembranças... Não sei.” “Você… você disse à mim…” “Eu disse que microdoses do cogumelo podem te deixar acordadinho e produtivo como uma putinha tailandesa com ninfomania.” “Produtivo, disseste à mim, e inclinado à transcender dimensões superiores…” “Transcender significa ficar tão louco e chapado que pode acontecer de você começar a mastigar o próprio dedão, assim, do nada.” Palavreado histérico em alemão. Hans fica sem ar e começa a hiperventilar. Uma luz vermelha se acende sobre a cápsula e começa a piscar. “Hans?”

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Palimpsesto – E. Reuss Hans faz os sons de uma pessoa sendo asfixiada. “Hans?” Otávio olha para o monitor. O eletrocardiograma anuncia uma parada cardíaca. Hans está tentando falar alguma coisa, sua boca se mexendo como a boca de um peixe recém saído do anzol. “O que foi Hans? O que você quer?” Algumas tentativas depois, Hans consegue falar algo que soa como “Estique o toque” e começa a fazer gestos com o dedo indicador, como se apertasse um botão invisível. “Esticar o que?” Otávio olha para o painel de controle e vê um botão preto coberto por um pedaço de papel velho colado com durex, onde se lê “Stickstoff”. O fato de saber que Stickstoff é nitrogênio em alemão não o surpreende. Otávio então tem a lembrança súbita de um Hans mais jovem do lado de fora da cápsula, deslizando sua mão sobre a superfície metálica reluzente e dizendo que aquilo não era só um tanque de privação sensorial, mas um tanque de preservação humana. Criônica, uma ciência recémnascida na época. Se dá conta de que Hans estava treinando todo esse tempo para um sono do qual talvez ele não fosse acordar.

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Palimpsesto – E. Reuss Pensa em tirar o amigo da cápsula, mas e se ele morresse aqui fora, onde os vermes o esperavam? Desiste no último momento e diz: “Hans, qual o nome dela?” Otávio mantém o dedo apoiado no botão preto. Hans está delirando, balançando a cabeça para os lados e fazendo uma careta de dor. Otávio só precisa de um nome. Um nome já seria o suficiente, daria uma identidade ao seu objetivo, um nome materializaria sua busca. “O nome de quem tomou meu lugar, Hans.” Gemidos de dor e uma mão no peito. “Não vou apertar esse botão enquanto não me disser o nome dela.” Hans sussurra algo e Otávio pede para ele repetir. Ouve o nome que ele já esperava: Adriele. Otávio permanece com o olhar fixo no monitor tentando se lembrar de onde conhecia aquele nome. Adriele. Talvez fosse um nome bíblico? O nome de uma antiga namorada? Era mais familiar do que isso. Hans implora em silêncio. Antes de morrer, imagina as gerações futuras o libertando daquela cápsula. Seus olhos como os olhos de uma mãe amável e curiosa, querendo saber se ele dormira bem naquele ventre de gelo.

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Palimpsesto – E. Reuss Então Otávio ri ao se lembrar do nome em questão e pensa em como foi idiota. Olha para o alto, para um teto imóvel e inanimado e pensa ver os olhos da mãe ali no alto, viradinhos como uma mãe que olha para um filho que acabou de fazer merda. Adriele. Que nome poderia ser se não o nome de sua mãe? Então aperta o botão. *** Sendo otimista, Otávio calcula que sua visão equivale a uns 20% da visão normal de um homem da sua idade. Os óculos escuros não ajudam, mas ele precisa deles para esconder os olhos oscilantes. Otávio dirige a vã de Hans por uma avenida pouco movimentada no meio da noite com a bolsa sobre o banco ao seu lado. Não se lembra do que tem ali dentro, então derruba o conteúdo da bolsa no banco do carona e uma profusão de tralhas e fedores se espalham por todas as superfícies. Dirige com uma mão e com a outra revira o lixo. Vê uma lata de pêssegos em conserva ocupada por uma meia usada, um vidrinho de veneno para aranha, óculos de proteção com lente amarela que ele coloca agora por cima dos seus óculos escuros para tentar dar uma amenizada naquele eclipse

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Palimpsesto – E. Reuss total, um maço de cigarros cheio de camisinhas sabor kiwi, umas balas tipo goma em formato de ursinhos, um panfleto de um oftalmologista sobre como lidar com nistagmo intitulado "Olhos que Oscilam", um tubo de pomada para queimaduras aberto e amassado, um fusível estourado, algumas dúzias de chaves em chaveirinhos de oficinas e escritórios de contabilidade, uma moeda grudada num chiclete mascado, um purê pegajoso de pedaços de unha, moedinhas e pomada para assadura, e quando ele finalmente encontra uma pílula que talvez pudesse dar um barato legal ele é lançado para a frente pelo impacto da vã de Hans contra o para-choque traseiro de uma viatura da PM. As luzes da viatura se acendem e um policial militar desce com um olhar emputecido. Caminha lentamente até a janela do motorista, onde Otávio está tentando se livrar de toda a tralha que agora havia se aderido à capa do banco. O policial permanece em silêncio. Otávio sabe bem que nunca se deve falar primeiro em um encontro com alguma autoridade. “E então?” O policial diz, finalmente. Otávio balança a cabeça como se concordasse com alguma coisa. “Pode tirar os óculos?” Otávio tira os óculos de lentes amarelas e lança na direção do monte de tralha no chão. “O outro também.”

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Palimpsesto – E. Reuss Otávio olha para o policial e se lembra dos óculos escuros, que meio que já fazem parte do seu rosto. Hesita por um momento, mas obedece. A luz amarela de um poste entra agora pela janela da vã e ilumina o seu olho esquerdo. Para o azar de Otávio, é bem esse o olho que bamboleia em sua órbita como uma bolinha descendo pelo ralo. *** A primeira vez que ele percebeu que estava perdendo a visão foi quando tentou ligar a TV com uma baguete de calabresa. Dois dias depois, Otávio estava num consultório oftalmológico esperando para ser atendido ao lado de um homem que cheirava a amaciante e lenço umedecido. Se olharam por um momento e se cumprimentaram. Seus olhos eram azuis, mas um deles era coberto por uma película branca que lembrava a superfície de uma pérola. Cataratas. Otávio tirou os óculos e perguntou há quanto tempo ele vinha ao médico. O homem riu. Homens com visão em estado degenerativo param de contar suas consultas depois de um tempo.

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Palimpsesto – E. Reuss Otávio olhou fixamente para o homem. As mãos calmas e abertas sobre os apoios da cadeira, a ausência de aliança, os sapatos engraxados tentando esconder o couro estropeado, a correntinha de ouro sob a gola da camisa, a voz anasalada e calma, o cheiro de cera queimada. Os sinais de um homem da fé. Perguntou se ele era um Padre. “Da última vez que olhei, eu era.” Otávio não sabia o que responder. Sempre considerou os Padres uma espécie distante, um símbolo do passado, ao lado dos monges, xamãs, caciques e freiras. Otávio disse que gostaria de fazer uma pergunta e se assustou com a afirmação, com a urgência dela. O padre assentiu. “Caso Deus exista… O que eu não acredito, sabe, que Deus exista. Gostaria de saber se eu estaria a salvo se eu, de repente, assim, fosse capaz de alterar a natureza humana de alguma forma?” “Não dá pra ser mais vago?” Otávio se deu conta de que estava se confessando pela primeira vez na vida. “Digamos que eu tenha isolado uma substância capaz de alterar a química do cérebro, uma droga, pra ser específico. Uma droga capaz de acabar com o sono e a indisposição. Quase como se fosse

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Palimpsesto – E. Reuss uma musa em cápsula, uma centelha de inspiração via oral.” “Isso poderia acabar com os sonhos?” O padre perguntou. Otávio percebeu um traço de curiosidade no tom de sua voz. “Sem sonhos, sem medo, uma força agindo sobre eles como se fosse algo externo.” “Divino?” “Talvez…” Otávio disse. “Extraterreno?” “Pode ser.” “Cósmico?” Otávio se calou e o padre disse que gostaria de mostrar uma coisa. Algo que acabaria com a sua preocupação. Otávio concordou e saíram do consultório sob o olhar curioso da recepcionista. Saíram do prédio e se dirigiram ao estacionamento vazio. O padre caminhou lentamente até uma perua amarela, descascada e enferrujada. Uma menina esperava no lado de dentro, vidros parcialmente abertos. “Quem é?” Otávio perguntou. “Minha sobrinha. A mãe morreu.” O padre abriu o porta-malas e mostrou uma pilha de instrumentos científicos e fios emaranhados. Otávio reconheceu um Contador Geiser vermelho, dois medidores de radiofrequência, um ter-

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Palimpsesto – E. Reuss mômetro digital, um detector de metal, algumas bússolas e uma carta celeste amassada. “É o que eu uso pra me comunicar com Deus.” O padre disse. “O que?” “Isso aqui… Instrumentos que eu uso para ouvir sua voz. Como as pessoas usam um telefone.” O padre fechou o porta-malas, visivelmente tenso. “Mas só isso não é o suficiente. É ela que consegue fazer o contato.” O padre apontou para o interior, onde a menina estava sentada. “Ela tem esse poder. Você viu os seus olhos?” O padre fez um gesto para que Otávio o seguisse até a lateral do carro. Se aproximaram da janela do motorista e Otávio se inclinou para olhar. Enxergou o rosto delicado da menina. Encarou seus olhos e viu como eles rodavam, quase como se quisessem pular para fora das órbitas. “Eu preciso das suas drogas. Você pode conseguir algumas dessas pílulas, né? Agora?” O padre disse. Otávio assentiu e entraram no carro. Pediu ao padre que o levasse até sua casa. O padre colocou seus óculos de lentes grossas e dirigiu para fora da cidade, entrando em um trecho da BR-101. Ouviam apenas o som do atrito entre os pneus e a estrada.

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Palimpsesto – E. Reuss O rádio, que parecia estar desligado, começou a emitir um chiado. Otávio estava sentado no banco de trás e olhava para as vacas pastando. A voz de um radialista surgiu em meio a interferência. A voz falou sobre a previsão do tempo e logo em seguida anunciou um acidente. O radialista falou sobre um carro retorcido sob a carroceria de um caminhão carregando maionese. O caminhão perdera a direção naquela estrada esburacada por volta do quilômetro 150. Uma vergonha para os nossos políticos, a voz disse. Agora a estrada estava coberta por um rio de maionese amarela, soterrando três corpos ensanguentados. Começou a prestar atenção. Não identificaram as vítimas, mas uma delas era uma criança, com certeza. Dez ou onze anos, menina de cabelos loiros, cabeça enterrada na maionese oleosa. Um homem gritava, preso às ferragens do carro. Conseguem ouvir? Estão ouvindo o desespero? A voz perguntou. Eram gritos de dor? Não, não, a voz disse, era o nome da menina. Sua filha, talvez? Gritava mais alguma coisa também. Uma das testemunhas disse que ele gritava apenas uma palavra agora: Deus. Deus?

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Palimpsesto – E. Reuss Otávio soltou um resmungo e sentiu uma náusea insuportável. O padre o encarou pelo retrovisor e perguntou se estava tudo bem. A voz no rádio disse que naquele momento, um homem se erguia da maionese, o braço esquerdo preso apenas pelos tendões ao ombro ensanguentado. Deus? “Coisa bizarra…” Otávio disse. “Esse acidente.” O padre continuava com o olhar fixo em Otávio. “Você tá bem?” Disse. “Tô, claro… Só que é estranho.” “O que é estranho?” “Não tá ouvindo?” Disse e apontou para o rádio. “O rádio tá desligado.” Otávio olhou pelo retrovisor e viu no branco leitoso dos olhos do padre o reflexo amarelo de uma estrada coberta por maionese. O acidente do rádio se materializava a medida que Otávio se aprofundava naquela visão. Alguns instantes depois, ele conseguia ver tudo. Uma parte da carroceria do caminhão havia entrado pelo para-brisas e atravessado o ombro direito do padre e o banco do motorista. Otávio ouvia apenas os gritos, a repetição de um nome. Otávio desceu do carro e escorregou. Seu rosto estava coberto de maionese agora e ele não

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Palimpsesto – E. Reuss conseguia enxergar muito bem, mas viu essa figura estirada no chão mais a frente, imóvel. Caminhou com cuidado para não escorregar. Viu que estava deixando um rastro de sangue sobre a gosma amarela. Se ajoelhou ao lado da figura e tentou virá-la pelos ombros. Em vão. A maionese escorregava como vaselina. Puxou desesperadamente a menina pelos braços e caiu para trás. Agarrou sua cabeça com as duas mãos, fazendo força para não perder a aderência. Era como uma piada ou um sonho ruim, daqueles em que a pessoa se sente asfixiada por sua incapacidade de realizar a coisa mais simples possível. Sentou no chão e começou a rir. De repente, ele estava no banco de trás do carro em movimento, o homem e a menina o encaravam curiosos. “Eu tava dormindo?” Otávio disse. “Não. Mais acordado do que nós.” “Para o carro.” “O que?” “Quero descer.” “Por que?” “Por favor.” “Aqui?” Otávio assentiu e o padre parou no acostamento. Desceu do carro, cambaleando.

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Palimpsesto – E. Reuss “O que você ouviu?” O padre disse. “Eles conversaram contigo?” Otávio não respondeu. Olhou para os dois lados da estrada e começou a caminhar. “Onde posso conseguir suas pílulas?” Otávio lançou o seu pacote de pílulas de uso pessoal pela janela do carro. O padre agradeceu e arrancou. Os olhos oscilantes da menina encontraram os de Otávio mais uma vez antes de o carro desaparecer em uma curva. Caminhou pelo acostamento durante horas, sem levantar os olhos. Passou por um acidente na estrada, mas se recusou a olhar. Sentiu fome. Uma fome intensa, inesperada. O que ele podia fazer? Tinha um cheiro muito bom naquele lugar. Azedo, mas bom demais. Quando se deu conta de que o cheiro que sentia era o cheiro de maionese, a fome deu lugar à repulsa. Mesmo assim, ele não levantou os olhos. *** Otávio acorda no banco de trás de uma viatura. A lembrança vívida do padre e sua sobrinha ainda paira em sua mente, ressurgindo sempre que ele fecha os olhos. E então o rosto de Hans num monitor… Tudo isso aconteceu realmente?

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Palimpsesto – E. Reuss Otávio tem a sensação de que sua vida se resume a encontros superficiais com estranhos. Sem essas lembranças, ele se sente vazio. Tenta se lembrar de experiências próprias, mas não consegue. Talvez essa seja a sensação dos escritores de ficção, algo como uma lembrança vaga de uma vida que não lhes pertence. Olha para a nuca do policial, para os músculos torneados ao redor do pescoço, ombros largos preenchendo a farda. Poderia ter mais de trinta anos, mas nunca alguém pareceu tão jovem. “É feio encarar os outros, Otávio.” Ele ouve a voz de sua mãe, chamando sua atenção enquanto ele observava por portas entreabertas as vidas que caminhavam pelo corredor de carpete vermelho do hotel em que sua mãe trabalhava. Hoje ele não consegue dissociar o cheiro de dinheiro e do perfume doce que exalava das putas de luxo. Todas vestiam vestidos monocromáticos, mais uma embalagem do que uma peça de vestimenta. Entravam em quartos dos quais Otávio nunca as via sair. No dia seguinte, eram outras mulheres, mas igualmente bem vestidas e maquiadas. O agrupamento tornava sua sensualidade ainda mais hipnotizante. Um dia, uma delas enfiou a mão nos cabelos de Otávio enquanto sua mãe o encarava a uns dez

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Palimpsesto – E. Reuss metros de distância em seu avental azul, guiando um carrinho com roupas de cama. Por algum motivo, aquilo deixou uma marca. Algo parecido com uma névoa cobriu o rosto da mãe, e ficou lá por muito tempo. Tudo o que ele via quando tentava se lembrar da mãe era essa cortina espessa e esbranquiçada, que sempre vinha acompanhada do perfume da prostituta que acariciava os seus cabelos. Naquele momento, ele decidira resgatar sua mãe, esse fantasma que limpava os dejetos do prazer alheio. Nunca deixava de trabalhar. Limpava constantemente a casa, as roupas, o rosto maquiado, um esforço interminável para se livrar das manchas e dos cheiros. Quando percebeu, anos haviam se passado e ele estava envolvido em uma batalha contra a própria fadiga e ineficiência. Estava na Rússia, usando tubos de pasta de dente e roupas de baixo para negociar com uma tribo de homens que nunca dormiam. Depois, se viu ao lado de homens poderosos. Homens que orbitavam somas incalculáveis de dinheiro e que desejavam aquilo que Otávio tinha para oferecer. E no fim, quando todo o tempo do mundo estava finalmente ao seu alcance, nem se deu ao trabalho de voltar para resgatar sua mãe.

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Palimpsesto – E. Reuss *** Estão parados num semáforo. O policial toma um gole de uma Fanta Uva que repousa ali embaixo do painel da viatura. Uma farmácia intensamente iluminada reluz através da janela do veículo. O que Otávio não daria por uns trinta adesivos de nicotina agora. A viatura para no estacionamento da delegacia da polícia militar e morre fazendo um som flatulento. O policial olha para o painel meio desconfiado e solta um “eita” preocupado. Desce do carro e carrega Otávio pelas algemas. Fichamento. Escrivão gordo sugando canudinho no Gatorade. Policial musculoso dizendo em termos legais que Não ele não subtraiu aquela droga do corpo do meliante, mas que a droga estava bem ali diante dos seus olhos imersa numa gosma nojenta no banco do carona. Testemunhas? Não, claro que não. Texto com espaçamento duplo. Frases prontas que o gordo tinha na ponta dos dedos, só precisava digitar rapidão sem errar o nome e CPF do sujeito e voltar para a sua reposição de eletrólitos sabor limão.

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Palimpsesto – E. Reuss Só então o escrivão faz uma pergunta para Otávio. Otávio diz que não é mais traficante e que aquelas drogas agora são de uso pessoal. O escrivão pergunta se ele está confessando sua participação anterior no tráfico de entorpecentes. Otávio diz que sim e que ele tinha acabado de afogar o que provavelmente era o seu único amigo vivo num tanque de nitrogênio líquido. O escrivão dá um sorrisinho e olha em volta, só para ter certeza de que tinha alguma testemunha ali para assinar o auto e acabar logo com aquela palhaçada. Tinha. *** “Não lembra de mim?” É sua primeira noite naquela cela e tem um homem que insiste em bater papo. “Hein? Não lembra de mim?” Era para ele estar sozinho ali. A cela é especial, pelo menos. Pia com espelho, papel higiênico, lençol sem manchas de sêmen, um colchão por pessoa. “Não lembra.” O homem deitado na cama a sua frente diz num tom decepcionado. “Não acredito.”

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Palimpsesto – E. Reuss Otávio pede desculpas. Faz uma lista mental de todos os seus ex-clientes, mas ele não se lembra das feições. Esses homens se reduzem a suas profissões. É mais rápido e fácil conhecê-los dessa forma: balconista de farmácia, linguista aposentado, paleontologista, promotor, operador de reator nuclear, calibrador de balanças, escultor de próteses caninas, treinador de baleias, padre, etc. Mas aquele homem não poderia ser um de seus clientes. O escuro não deixa ver, mas está na cara que esse aqui está nas últimas. Barba branca e rala até o peito, cabelos compridos apenas na lateral da cabeça, manchas vermelhas na pele, como picadas de mosquito. A face da decomposição. Mas os olhos eram jovens. Como os olhos por trás de uma máscara. Só então Otávio se deu conta de que eles giravam. “Quem é que fornece pra você?” Otávio diz. “Uma mulher.” “Adriele?” “Adriele.” Otávio reflete por um momento e diz: “Eu sonho com pílulas o tempo todo. É só isso que eu vejo quando eu sonho. Eu tô vendendo pílulas enquanto durmo. Essa é a minha vida.” “Já passei por isso, irmão.” O homem diz num tom consolador.

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Palimpsesto – E. Reuss “É mais que um vício. Ficar chapado é bom, mas não é o suficiente. A droga me faz querer vender. Fazer negócios. Apertar mãos, bater em portas.” “Eficiência. Resultados. Sei como é.” “Convencer alguém de que o que eu tenho ali é… é…” “Especial…” “É o ápice da coisa toda. Sentir o dinheiro na mão…” “Todo mundo tem que ter um foco. Vê a minha equipe nesse bloco. Pessoal super focado e eficaz. Analistas de risco, auditores, contadores, exdiretores financeiros, etc. Nosso fundo bateu os 110% no ano passado. Construímos uma ala cheia de computadores, novinha. Os guardas usam também, quando não estamos lá.” O homem fala como um palestrante motivacional, mãos histéricas em constante movimento. “O foda é que eu sou meu único cliente. Patético.” Otávio diz. “É a crise. Todo mundo tem que vender.” “Eu vendo essa porra pra mim mesmo, é isso que eu tô dizendo.” “É a ilusão que conta.” “Essa mulher… Essa mulher…” “Adriele?”

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Palimpsesto – E. Reuss Otávio balança a cabeça, sentindo as palavras se perderem, o raciocínio ralentando em direção ao cansaço profundo da abstinência. “Velhinha simpática.” O homem preenche o silêncio. “Sempre me trata como um filho. Me dá a droga e pergunta se eu tô me alimentando direito aqui dentro.” Otávio quer se deitar, mas os olhos oscilantes do homem à sua frente são uma autoridade. Otávio sente que ao deitar estará ferindo alguma regra básica daquela conversa. “Da última vez que apareceu aqui, não aceitou meu dinheiro. Como é que pode? Tinha uma coisa familiar no rosto dela, isso eu admito. Uma tristeza, sei lá.” Respiram o mesmo ar agora. O vapor parece criar uma névoa entre eles. “Ela me fez prometer que faria uma visita quando saísse. Prometi que voltaria, claro. Coitada. Passaria um final de semana lá. Me deu esse envelope e foi embora, felizona.” Mostra um pacote de papel pardo em sua mão. “É o mínimo que eu posso fazer. Sem ela, eu taria fodido. E o pior: sem ela eu teria que pôr o sono em dia. Haha.” Um guarda interrompe a conversa batendo nas grades com o cassetete. “A galera tá pedindo pra calar a boca.” Ele diz.

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Palimpsesto – E. Reuss Otávio pede desculpas e olha para o envelope de papel pardo, que agora está em sua mão. Encara o homem à sua frente e olha para o envelope de novo. Só então se dá conta de que o velho com quem conversava era sua imagem refletida no espelho sobre a pia. Estuda a própria imagem e percebe que está tremendo. Não só os olhos, mas o corpo inteiro. Ouve a voz da sua mãe: “É feio encarar os outros, Otávio.” Engole uma daquelas cápsulas que ele tira do envelope, e agora ele consegue se afastar o suficiente de toda aquela merda. Agora ele consegue enxergar as coisas como elas são. As camadas. Lá está, um corpo em suspensão na câmara de privação sensorial. A mãe desidratando cogumelos para o próprio filho. Dois homens sentados em poltronas em um quarto de hotel. O traficante no centro de um tapete persa, ajoelhado diante de uma bolsa cheia de pílulas. Otávio sabe que é ele mesmo, entregando uma pílula à Hans e ao seu amigo misterioso, Arnhein. O que Otávio não sabe é que esse amigo misterioso é também um escritor. E que seu nome verdadeiro não é Arnhein. Ah, sim, agora faz sentido.

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Palimpsesto – E. Reuss O escritor ingere o cogumelo russo e, num súbito de euforia e inspiração, seus pensamentos parecem espiralar para fora de sua consciência… Acima da cabeça do traficantezinho no meio do quarto. Esse filho de uma camareira que apareceu na sua porta com uma mala cheia de drogas exóticas, prometendo experiências incríveis, e que, puta que pariu, não tava de brincadeira. O escritor então olha nos olhos do traficante e enxerga toda a história por trás daquele nome: Otávio Mendes. A história flui rápido demais. O escritor presta atenção e se pergunta se aquilo é sobre vários personagens ou sobre as múltiplas vidas de um homem só, capaz de viver enquanto o resto dormia. Isso faz Arnhein se lembrar de uma noite fria de dezembro, quando ele ainda vivia em Berlim. Lembra da filha deitada no sofá com os pés em seu colo, a TV no mudo mostrando uns cientistas que usam luz ultravioleta para revelar textos que foram raspados de pergaminhos antigos para dar lugar a outras histórias. Palimpsesto, é o termo técnico. Histórias coexistindo no mesmo papel, se sobrepondo como as vidas de Otávio. Ele quer saber o que levou Otávio até aquela cela escura e pegajosa. O que afastou o filho da mãe, e por que os dois não conseguiam se reconciliar. Por que desistir de dormir e sonhar. Por que

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Palimpsesto – E. Reuss correr atrás de um tempo que não pertencia a ninguém. Por que uma névoa no lugar do rosto que o amava? E só então Arnhein se dá conta de que ele sabe o que era se esconder em quartos escuros e pegajosos. E ele sabe tudo sobre crises familiares e abandono. Ah, sim. Lembrando agora do dia em que Pâmela nasceu, apesar de todos os médicos dizerem que um nascimento era extremamente improvável. Mesmo assim, Pâmela surgiu como uma bola de tripa movediça e só quando a enfermeira sorriu foi que Arnhein percebeu que o som que ele ouvia era um choro e não o som que os bebês mortos costumam fazer. E aquele momento de alguma forma nunca conseguiu ser superado em termos de felicidade, nenhum amor que Arnhein sentiria conseguiu ser tão forte a ponto de fazer ele chorar como ele chorou de felicidade aquela vez na frente de toda a equipe de médicos e enfermeiras. Mas então o tempo passa rápido demais e conglomerados multinacionais também são desmantelados antes que Arnhein possa encher uma caixinha com seus pertences pessoais e de repente ele está no olho da rua. De lá para sua casa são algumas piscadelas e de repente ele tem que contar a Clarisse que estão sem renda e sem dinheiro. Boa vontade tem limite, assim como a validade do óleo no motor do carro, que se usado por muito tempo acaba fodendo o motor. E

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Palimpsesto – E. Reuss então Arnhein está andando de bicicleta usando duas balaclavas, um gorro e um óculos de natação no inverno berlinense depois de ter beijado a testa da filha e a boca da mulher antes de ir procurar por um emprego embaixo da neve. E quando ele volta de uma caminhada infrutífera, mulher e filha não existem mais e um bilhete em cima da mesa diz que elas foram procurar uma vida mais digna. Arnhein então sai do hotel, caminha pela noite e pega o primeiro avião para casa, ainda tendo visões de sua filha na janela da velha casa, o rosto dela escondido por trás de uma névoa. Acha que tudo aquilo é um efeito do cogumelo e fecha os olhos, mas às vezes as histórias simplesmente não querem parar.

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MISSA DO PADRE TADEU Luiz Mariano

Spin-off do conto “Palimpsesto”, publicado na primeira edição da Mostra Ecos. Manhã, março, Guaratiri, perto da rodovia SC186, 1996. O padre Tadeu celebra uma missa numa igreja. Pouca gente no local; uma velha com um vestido rosa, um homem com um tosco bigode, acredite, amarelado; alguém dormindo ali perto. Muito em breve alguém irá morrer nessa igreja. Permita-me apresentar; sou Deus. Sim. Isso mesmo que você acabou de ler: Deus. O tal, o que criou tudo. O Todo-Poderoso, o que vive para sempre, eternamente e sei lá mais o quê. Poisé. Chocado?


Missa do Padre Tadeu – Luiz Mariano Ora meu caro, minha cara, veja bem: resolvi escrever um texto, e é isso aí. Estou escrevendo sobre um momento específico, essa missa que está acontecendo agora, agorinha, exatamente às sete horas, vinte minutos e 15 segundos, 16, 17, 18... você entendeu o ponto. O padre Tadeu está fazendo a primeira leitura, do livro de Reis, antigo testamento. Os católicos são engraçados. Estranha coincidência, aliás, o fato de que, na Sagrada Família deles, todos são virgens, e a Igreja católica ver com certa repulsa o sexo... Não, eu não sou Jesus (pensem em alguém com mania de grandeza; pensou em Jesus? Boa meu irmão, minha irmã!), nem Alá, nem o Espaguete voador. Os ateus são tão hilários quanto os católicos: transformam a ciência em religião e afirmam que não existo. Que interessante! O fato de eu não existir impediria esse texto de estar sendo escrito. Mas vamos à cena; esta faz parte de um conto que li, uma boa história. Ora, num dado momento o autor afirma que eu, Deus, teria me esquecido das pessoas que oram e pedem misericórdia. Ora, claro que não! A comédia humana é a minha maior diversão em toda a eternidade. Talvez, a minha maior criação, os humanos. Desde que chutei a bola, o big bang, fui vistoriando tudo o que foi se fazendo, dando uns retoques aqui, uma lapidada ali... Agora, o que a humanidade definitivamente errou foi em conferir a mim benevolência absoluta.

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Missa do Padre Tadeu – Luiz Mariano Não meus amigos, me desculpem: não sou a infinita misericórdia ambulante, embora ache a história muito bonita e comovente. Isso, porém, não me impede de ter senso de humor. Vejam o exemplo clássico, o ornitorrinco; ou todas as vezes que você perdeu o ônibus por questão de segundos; seu primeiro encontro com aquela beleza, e um passarinho caga na sua cabeça. Acho que você está entendendo. Uma das teorias que mais se adequam ao meu jeito de ser é o que denominam “lei de Murphy”. Parafraseando a bíblia, seria algo como “caiam mil à esquerda e dez mil à tua direita, tu serás atingido”. O principal erro dessa teoria, é que só percebem o lado negativo da coisa. Mas se eu fosse assim, dificilmente eu deixaria ser completado o projeto da Capela Sistina, por exemplo. Coisa linda, aquela. Ou seja: sou aleatório. O que decido, acontece. E as crianças que morrem de fome na África, você se pergunta. Ora meu caro, Não dá pra culpar tanto um pai pela conduta do filho, certo? Dizem que metade do que determina é a genética, essas coisas. Eu só fico aqui assistindo, quando me dá na telha eu mudo, quando eu não gosto e tô com preguiça de fazer algo eu mudo de canal, simples assim. Voltando à igreja da pequena Guaratiri. O pobre Tadeu, que figura. Péssimo sermão que passou

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Missa do Padre Tadeu – Luiz Mariano pros ouvintes. Eu prefiro “sermão” que “homilia”. Tem que dar uma dura nas pessoas, ué! Onde já se viu, as pessoas vão a missa pra quê, passar a mão na cabeça, encontrar os amigos? Missa é coisa séria, de vida e morte. Era pra ser. E hoje será... Mas não agora! Agora eu vou refletir sobre o Otávio Mendes, um dos personagens do conto que falei. Otávio Mendes. Adorei esse nome. Gosto do som das palavras. “Bovídeos”. Rapaz, de onde o autor tirou essa? Bovídeos!! Eu teria colocado bois, vacas, mas realmente, muito estiloso, “bovídeos”. Isso que é o legal de ler o que os outros escreveram, você sempre encontra uns achados nos quais nunca pensaria. Tiro várias ideias da humanidade. Pode ter certeza que em qualquer momento eu vou fazer alguém falar “bovídeos” do nada. Sabe aquelas coisas que os humanos falam e fazem aleatoriamente, que o Freud chamou de “ato falho”? Nada, sou eu. Pode ver que tem certas horas que a pessoa ia dizer que está casado, e fala, sem querer, que está “cansado”. Coincidência, não? Aliás, sacanagem o que o Freud fez, essa coisa de “inconsciente”. Tem até uma coisa ou outra que é o tal do inconsciente, mas muitas vezes sou eu e botam a culpa nele! Mas eu estava falando do Otávio Mendes. Que rapaz estranho, esse Otávio. Bom de briga. Que domínio, que calma, que presença, a forma

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Missa do Padre Tadeu – Luiz Mariano como lidou com os policiais. Me lembrou uns filmes que assisti. “Onde os fracos não têm vez”. A calma do cidadão! Invejo isso. Eu sou mais esquentado. Ainda bem que sou invisível. Penso que a cena dos policiais abordando o Otávio daria uma boa cena de filme. Podia ser até o mesmo ator, o Javier Bardem. Será que o autor pensou nisso? Ele deve ter imaginado a cara do dito cujo. Talvez não tenha sido com o mesmo ator. Enfim. Agora, você talvez pense que não sou eu que escrevo este texto. Poderia ser alguém se passando por Deus, um escritor, tendo essa audácia. Ora, meu caro, você já ouviu falar na palavra “palimpsesto”? Até ler o conto com esse nome, eu mal me lembrava de ter visto ela alguma vez. Em uma procura qualquer no google (sim, eu uso google), pode ser dito que palimpsesto é aquilo que raspa para ser escrito em cima. Digo para você, que raspei quem escrevia esse texto. Encontrei o computador aberto, o documento do Word, e a audácia escrita: um escritor fajuto, um monte de carne, se passando por mim! Um estrume, um falsário, cidadão infeliz! Vou te dizer, Isso me deixou com muita raiva! Você sabe o que faço quando estou com muita raiva? Já viu notícias na televisão, de crueldades, atrocidades que alguém fez? Ou mortes sem motivo, seus parentes dizimados em falecimentos tão bestas, tão ridículos? Não, não é absurdo, aleatório, não. Sou Eu! Fui eu que

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Missa do Padre Tadeu – Luiz Mariano matei. Fui eu que joguei aquele carro desgovernado no cidadão de família que passeava na calçada. Às vezes acaba respingando em gente, bicho, que não tem nenhuma culpa, que não tinha nada a ver com a situação, do outro lado do oceano, mas quer saber? Não estou nem aí! Moralidade? Olha esse escritorzinho de merda, se passando por Deus, por mim! Raspei, raspei ele da face da terra, raspei seus cabelos, ossos e miolos, raspei inclusive seus escritos, porra! E você vai continuar aí lendo? Vai, vai lendo, vai lendo aí confortável, e lembre-se de mim quando for sair na rua, ou quando alguém te der uma notícia triste. (Ah, um último detalhe. Não é curioso a semelhança entre as palavras “palimpsesto” e “incesto”? Tão curioso quanto isso é colocar “incesto” no google, para ter certeza do significado, e noventa e nove por cento dos links que aparecem na primeira página são sobre vídeos pornográficos de incesto. E isso é normal. A humanidade é tão inventiva!) .

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NOSSA FAMÍLIA Rosca J. R. Tudor

Revisão do conto “Nossa Família”, publicado na segunda edição da Mostra Ecos.

Eu sou o Haroldo, macho e hétero Passei as férias visitando meu avô paterno. Eu gostava do velho, mas isso era uma espécie de castigo disfarçado. Meu nome é Haroldo, que é nome de velho ou viado. Imagine quando eu estava na terceira série e


Nossa Família – Rosca J. R. Tudor os colegas descobriram o personagem criado por Chico Anísio. Minha mãe, amante de História, insistia para eu explicar aos meninos que esse foi o nome de um grande rei viking. Meu pai dizia para abrir a cabeça do garoto mais forte da turma com um tijolo e tudo se resolveria. Acontece que, para mim, era difícil explicar qualquer coisa pois, além de nessa idade a zoeira sempre ganhar da razão, eu não tinha muita afinidade com a fala. Já na primeira série ganhei o apelido de Aranha, que veio de Boca de Aranha, originado do fato de eu nunca falar, consequentemente ali estaria cheio de teias de aranha. Minha falta de aptidão comunicativa não era originada da burrice. Não entenda mal, eu era burro, o maior problema foi a extrema timidez devida, principalmente, a meu porte físico. Isso explica também minha dificuldade em resolver as coisas na base da violência, como meu pai sempre estimulava. Até a quarta série eu era baixinho, menor que qualquer menina da minha classe, e muito gordo. Não um gordo engraçado e simpático, era idiota demais até para isso. Com o tempo a coisa não melhorou. Da quinta para sexta série fui submetido a um tratamento de hormônios para ganhar altura, o que funcionou. Não fiquei alto, mas pelo menos entrei na média. Porém engordei ainda mais e minha feiura também aumentou.

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Nossa Família – Rosca J. R. Tudor Meu pai foi um renomado major da Força Aérea Brasileira. Conseguiu uma faixa preta de Caratê e uma série de troféus antes dos 17 anos além de quase ir para as Olimpíadas. Suas menores notas estavam acima de 8 e meu avô sempre contava orgulhoso como meu pai tinha todas as meninas em suas mãos. Contava ainda mais orgulhoso como ele conquistou minha mãe, que era a garota mais cobiçada do bairro. Sim, meus pais foram um casal de cinema e ainda nem comecei a falar sobre minha irmã. Se sou assim é porque a fizeram com tudo de melhor e sobrou eu, a placenta. E Placenta era como as amigas de minha irmã me chamavam. Doía como minha irmã sempre me tratava bem e defendia de todos. Nunca entendi se era por compaixão ou amor verdadeiro. O que mais doía era minha estupidez com ela. Mesmo assim não tirava o sorriso de seu rosto. Sendo a vergonha de meu pai e o fardo de minha irmã vocês podem começar a entender como minha autoestima se desenvolveu. Não bastando isso minha mãe era a professora de História em minha escola. Mãe super protetora, achava que eu podia ser tudo o que quisesse, bastava ter vontade. Realmente me esforçava e obviamente ela percebia isso, pois burro era só eu, mas não faltou por tentar incentivar. Tudo para ela era uma questão de método e, sem querer me fazer de vítima, fui sua melhor cobaia. Tenho certeza que ela se

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Nossa Família – Rosca J. R. Tudor frustrava pela maneira que minha irmã aprendia tudo sem sequer se esforçar ou alguém a ensinar. Até que ela não era essa maravilha toda, mas lembremos que dois anos depois dela nascer eu vim ao mundo. O fato de que nosso contraste a fizesse parecer mais maravilhosa para todos talvez pudesse explicar um pouco do seu amor para mim. Quase reprovei a oitava série. Graças a um mutirão de pessoas me ajudando a estudar intensivamente, por um bimestre inteiro mais a recuperação, cheguei ao primeiro colegial. E é nesse contexto que estou passando as férias com meu avô. Ele é um policial militar velha guarda, já aposentado há muitos anos, com uma carreira brilhante. Dentre seus dois diplomas o que mais tem orgulho é o de Matemática, conseguido antes de entrar para a PM, que me ajudou a estudar para a matéria que eu tinha mais dificuldade. Realmente consegui ser ruim em tudo que meus parentes eram geniais. Não que eu fosse bom em alguma coisa. Passar as férias com meu avô foi a tentativa de meus pais me afastarem da internet, videogame e amigos fracassados. O que eles não esperavam é que esses dois meses me mudariam tanto que eu voltaria sendo outra pessoa.

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Nossa Família – Rosca J. R. Tudor

O livro das palavras não escritas Eu estava na varanda aproveitando os últimos raios do Sol. Admito que negligenciei isso por muito tempo. O campo me ensinou como na cidade grande fazemos tanta coisa sem, de fato, nada ser feito. Sempre estive ocupado demais com algo que não precisasse ser feito ao invés de aproveitando o prazer de viver. Todos os dias eu passava incontáveis horas na internet, lendo sobre tudo e aprendendo nada. Ler os livros de meu avô foi uma experiência que me arrependi muito em não ter antes. Uma coisa era ler em sites aleatórios, mas agora tinha o poder de segurar O Saber em minhas mãos. Mesmo que alguns desses antigos livros trouxessem conhecimento datado ou errado eles eram tácteis, como pequenos monumentos para o Conhecimento, documentos autenticados a respeito das coisas. Nas cinco semanas que eu estive ali consegui ler oito livros inteiros e já terminava o nono quando meu avô me chamou. - Haroldo, vem cá - O velho apareceu na porta que dava para o quintal com o avental todo sujo de alguma coisa que deveria ser de comer – larga um pouco desse livro e vem me ajudar a terminar a janta. Seus olhos cairão e você nunca mais conseguirá ler. Sem muita pressa terminei o parágrafo, marquei a página e fui até a cozinha.

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Nossa Família – Rosca J. R. Tudor - Daqui a pouco não tem mais livro pra você ler – Praguejou meu avô com bom humor enquanto mexia a comida. - Sopa de novo, vô? - Você quer comer saladinha? É sopa de novo! Mas sopa não é tudo igual. Essa aqui tem mais carne, bacon e pimenta. Bom pra fazer crescer uns cabelos no seu peito. Sem entender direito a relação entre esses ingredientes e cabelos no peito perguntei o que eu precisaria fazer para ajudar. Meu avô fechou um pouco a cara, ensaiou dizer alguma coisa, voltou a mexer a sopa e quase um minuto depois me disse em tom bastante sério: - Me agrada muito ver você empenhado numa atividade tão produtiva quanto leitura, mas com esse campão todo me da um bocado de tristeza ver menino tão novo parado na sombra o dia inteiro. - Não tenho com quem andar por aí. O senhor mesmo ta toda hora reclamando de dor nos joelhos e, além de tudo, Sol dá câncer. - Larga de ser bocó, rapaz. Vai aprontar. Do lado de lá da rua tem as filhas do Gersinho que ficam em casa sozinhas o dia inteiro. Você tem que ir lá mostrar toda educação e cordialidade que te ensinei. - Mas eu não conheço elas.

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Nossa Família – Rosca J. R. Tudor - É o que acontece quando você fica o dia inteiro lendo ao invés de sociabilizando. Contra fatos não existem argumentos. Eu realmente queria ser amigável com elas, mas não imaginava uma maneira de ir até sua casa e puxar conversa. - Mas, vô, elas são novinhas demais pra mim. Não sei se dá certo – E essa foi a melhor desculpa esfarrapada que me veio à cabeça. O velho por um instante parou de mexer a panela e me lançou um olhar de compaixão, daqueles que amolecem a alma. - Você tem quatorze anos e elas onze e treze. A mais nova deve ter mais pelinho na buceta do que você no corpo inteiro. E são bem bonitinhas. Mais bonitinhas que sua mão, que ta mais calejada de bater punheta que as minhas de trabalhar com a enxada. Passamos o jantar debatendo minha inaptidão com garotas e possíveis soluções para esse problema. Impressionante como tantas palavras sábias e sensatas soaram tão vagas e absurdas para mim. Hoje entendo como aquele homem estava muitos níveis acima dos garotos mais pegadores de minha turma. Ele estava definitivamente em outra divisão em se tratando de interagir com mulheres. Os garotos mais avançados de minha idade faziam aviõezinhos de papel enquanto meu avô projetava naves espaciais. Não foi à toa que eu, o maior

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Nossa Família – Rosca J. R. Tudor derrotado de toda molecada, não conseguia entender nada que ele se esforçava em ensinar. Eu já terminava de escovar os dentes, antes de dormir, quando meu avô me chamou novamente: - Se depender de você ficará lendo até final de janeiro e nada de aproveitar o campo, por isso te faço uma proposta. Fez uma pausa enquanto abria um tampo bem escondido na escrivaninha, tirando um livro bem grande, com capa de couro tingida num amarelo lindo de tão vívido. - Esse é aquele famoso livro que pertencia a sua avó. Amanhã você vai se apresentar pras meninas e convidar elas pra ir até a cidade tomar sorvete. Eu os levo. Se fizer isso te dou esse livro. Meus olhos quase lacrimejaram de emoção. Ouvi um monte de histórias sobre esse livro, tanto sérias quanto piadas. Resumindo: A vida da minha avó era muito dura. Ela perdeu o pai na Revolução de 1932. Sua mãe morreu quando ainda era bem pequena e minha avó, que não tinha mais ninguém, foi morar em um orfanato. Esse livro foi a única coisa que conseguiu manter. Também ouvi, nas histórias sobre ele, que você só consegue o ler quando estiver pronto, caso contrário só verá páginas em branco. Quando minha avó finalmente conseguiu o ler sua vida mudou totalmente. Con-

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Nossa Família – Rosca J. R. Tudor cluiu os estudos em uma boa universidade, conheceu meu avô, constituiu família e teve uma exemplar carreira jurídica. Ela sempre dizia que esse livro não só salvou sua vida como também a fez melhor que poderia sonhar. Eu e todo resto da família pensávamos que era só uma história inventada pelos velhos. Então aceitei o plano, mais pelo livro que por qualquer expectativa de me divertir com as meninas.

Alvorecer do Mal Lembro de abrir o livro e passar os olhos demoradamente por cada página. Mesmo, a princípio, nada vendo eu imaginava o que poderia estar ali escrito. Em um determinado momento a minha cabeça foi inundada por um monte de sons, imagens e sentimentos totalmente desconexos que misturavam extremo prazer com muita angústia. Então perdi totalmente os sentidos. Acordei e, apesar de meus sentidos estarem totalmente nublados, não reconhecia aquele lugar. Nesse instante meu corpo inteiro começou a doer. Uma dor parecida com aquela que sentimos após realizar grande esforço físico, mas muito mais forte. Doía demais e eu não conseguia gritar. Senti um bolo se formando dentro de minha barriga, como

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Nossa Família – Rosca J. R. Tudor se antes estivesse em jejum e do nada aparecesse comida ali. Veio uma vontade de vomitar, tão forte que até rolei na cama. Senti meu corpo batendo numa meia grade ao lado do leito e algo espetado em meu braço se soltando dolorosamente. Quando caí no chão frio, vomitei uma pasta avermelhada que parecia creme de milho com sangue, dava para encher um balde com aquilo tudo e o cheiro era nojento. Após sujar todo chão e derrubar um monte de coisas, vi uma médica ou enfermeira entrando correndo no quarto, seguida por minha mãe. Então entendi que estava num hospital. Depois desse episódio minha memória ficou totalmente fragmentada. Recordo apenas de estar deitado na mesma maldita cama, mas ao menos sabia que era um hospital. Meus sentidos iam e voltavam, não sabia quanto tempo passava desacordado, só que foi muito. - Oi moça, faz tempo que estou aqui? Eu não enxergava quase nada, mas consegui notar a silhueta de uma mulher no outro lado do quarto. “Provavelmente uma enfermeira ou médica”, deduzi pela aparente vestimenta. - Haroldo, espera um pouco que vou chamar alguém. Logo depois disso todos meus sentidos já voltaram ao normal. Alguns segundos depois entraram meus pais, me olhando com uma expressão de

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Nossa Família – Rosca J. R. Tudor felicidade que nunca vi antes apontada para minha direção, e logo atrás veio um médico muito simpático e falante que explicou como fiquei desacordado por um mês e meio, perdi muito peso e assim mesmo estava bem. Meus pais choravam e riam felizes. Disseram que minha irmã me visitou todos os dias e ficava conversando comigo. Depois da aula ela voltaria para me visitar. “AULA? ”, pensei. Foi nesse momento que entendi quanto tempo realmente havia passado.

Voltando para casa Tive alta no hospital poucos dias depois. Eu não apenas estava recuperado como também diferente. Meu corpo inteiro secou de gordura e meus músculos se desenvolveram. Também escutava sons, enxergava cores, sentia cheiros e sabores que nunca sonhei existirem. Até me sentia bem viril! Os médicos tentaram me segurar no hospital para entenderem o que houve, mas meus pais decidiram que o melhor para era melhor terminar minha recuperação em casa. Eu era outro garoto, e ninguém conseguiu explicar como aconteceu. Apenas fiquei muito feliz de sair do hospital. Passei alguns dias em casa, saindo apenas para o quintal. Pouca gente lembrou que eu existia, mas

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Nossa Família – Rosca J. R. Tudor meus poucos amigos apareceram eventualmente para me visitar. Primeiro a aparecer foi o Magno que mal me reconheceu. “Nossa cara, que bomba você tomou? ” Perguntou umas dez vezes durante a conversa. Sempre o achei tranquilo e agradável, mas no momento os cacoetes, repetições e falta de higiene, que todos apontavam, ficaram totalmente evidentes para mim. Percebi o quanto que ele era o cara mais chato que eu conhecia. Como nunca percebi isso antes? Não é à toa que sou o único amigo que ele tem. Todos o evitavam, agora eu entendia o motivo e tudo que queria é que ele fosse embora. Depois de três minutos, talvez menos, todo assunto exauriu. Outrora tenho certeza que poderíamos passar horas falando sobre qualquer besteira, mas eu não tinha vontade de perder meu tempo com aquele cara. - Magno, quero descansar. Vai embora. Eu nunca falaria isso, porém o fiz, com tom extremamente seco e autoritário, sem nem pensar em o que dizia ou como o fazia. Por um momento achei que ele começaria a chorar, mas no fundo eu não ligaria nem se cortasse os pulsos na minha frente e só não desejei isso porque achei que seria nojento ver meu quarto banhado no sangue daquele cara. Contrariando minhas expectativas ele abriu um sorriso extremamente amistoso e feliz enquanto dizia que “é melhor te deixar descan-

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Nossa Família – Rosca J. R. Tudor sando”. Sem nenhuma cerimônia ou rancor se levantou e foi embora. Poucas horas após Magno ir embora veio minha melhor, e única, amiga. Raquel também era a garota de quem eu era o melhor amigay. Fantasiava todo dia com ela, sonhando ser seu namorado ou me masturbando. Todo momento desejava estar com ela, principalmente quando a via com outros rapazes. Mas no momento que ela entrou em minha casa toda essa vontade passou. Ela era exatamente a mesma garota de sempre, mas meus sentimentos de outrora não combinavam mais com a figura postada a minha frente. Seu olhar torpe, cheiro de cio misturado com cigarro vagabundo e falta de banho mostraram outra garota. Ela conseguia feder mais que o Magno, que fedia muito. Quando nosso choque inicial passou me esforcei para manter o interesse no monte de bosta que ela falava, como se palestrasse na ONU. Sempre achei que ela tinha o dom de falar coisas inteligentes de um jeito bonito, mas comecei a entender que ela simplesmente não dizia nada. Então, antes que eu morresse de tédio, comecei a transformar tudo que ela dizia em putaria. Eu não fui genial ou sequer eloquente, mas qualquer coisa que eu dizia funcionava em fazê-la sorrir toda sem graça, e isso nunca aconteceria antes. Quando aquilo começou a me divertir resolvi apelar e ver o

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Nossa Família – Rosca J. R. Tudor quão longe conseguiria levar aquela situação. Primeiro fui chegando cada vez mais perto com nossos rostos, falava umas besteiras e continuava me aproximando. Até que resolvi parar de gastar palavra e roubei um beijo. Foi meu primeiro beijo. Uma porcaria de beijo, mas tinha que ver como era. Antigamente ela era cheia de “não me toque” comigo. Aparentemente só comigo e mais uns otários, como o Magno. Hoje mal consigo lembrar de quantas vezes me humilhei tentando ficar com essa garota. Na primeira, e última, vez que tentei roubar um misero selinho a desgraçada ficou mais de mês sem olhar para a minha cara. Rachel tentou falar alguma coisa, mas tapei sua boca para ouvir onde meus pais estavam. Ela ainda achou graça na maneira rude como a calei. Mais um pouco de força e acho que quebraria seus dentes. Isso foi o sinal que faltava para ter certeza que essa garota faria tudo que eu queria. E fez. Peguei nos seus peitinhos, os coloquei na boca, meti o dedo dentro de sua calcinha e nesse momento minha mãe veio ver se tudo estava bem. Ela se espantou quando viu a Raquel com a boceta, e meus dedos dentro, virada para a porta. - Haroldo, o que vocês estão fazendo? – Antigamente eu ficaria apavorado com essa cena, só que a cara de espanto da minha mãe foi a coisa mais engraçada que eu vira até então. No momen-

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Nossa Família – Rosca J. R. Tudor to me esforcei para segurar o riso e conseguir responder com total calma e seriedade. - Tentando transar – E isso soou muito melhor que você consegue imaginar. - Tudo bem, usa camisinha – E minha mãe, como num passe de mágica, simplesmente ignorou o que viu, saiu do quarto e fechou a porta. A garota deitada em minha cama também parecia estar em profundo transe, não tomando conhecimento algum da interferência. Ignorei o conselho de minha mãe, pois eu queria gozar dentro de Rachel, e não tive nenhum impedimento. Pelo contrário, tudo que eu fazia a agradava. Quando saciei todos meus desejos e fiquei cansado de sua presença a mandei embora, assim como fiz antes com Magno. Ela simplesmente se vestiu para ir embora, atendendo a minha ordem. Tentou me dar um beijo na boca e, só de pirraça, levantei o rosto, beijei sua testa e disse “você é minha melhor amiga, não quero estragar essa amizade”, como se eu ainda ligasse para isso. Ela sorriu afetuosamente, como se estivesse apaixonada pelo grande amor de sua vida, acenou carinhosamente antes de sair do meu quarto e foi embora. Dimas é o meu amigo brigão e, aparentemente, o único que toma banho. Ele conseguia arrumar briga todo dia no colégio. Quase sempre batia, pois repetiu duas séries e, mesmo para sua idade, era um dos maiores, o que lhe dava certa vanta-

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Nossa Família – Rosca J. R. Tudor gem física. Mas ele não brigava por nenhum motivo que prestasse. Só me defendia quando eu era atacado por algum de seus desafetos, sempre usando como desculpa “você tem que aprender a se defender sozinho, e aqui ninguém vai te matar, então é bom pra praticar em segurança”. Ele não era um cara ruim, mas me tratava bem mais por ser afim de minha irmã desde que estudavam juntos e ainda tinha sonhos de a conquistar. Também achava que se não me tratasse bem não conseguiria mais comer a Raquel, o que era um engano, pois ela continuaria dando para ele de qualquer jeito. Pelo menos até o dia anterior daria. Quando Dimas apareceu lá em casa, no dia seguinte à visita de Rachel, foi muito estranho. Senti o medo crescer dentro dele, como se fosse uma bexiga que eu enchesse a cada gesto que fazia. Em um momento fiquei com receio dessa bexiga estourar, mas percebi que conseguia com simples gesticulação ou palavras manipular seus sentimentos. Fiz ele morrer de ciúmes da Raquel contando que a comi. Depois fiz sua libido quase explodir enquanto falava qualquer coisa sobre minha irmã e querer me dar um soco quando insinuei que nunca o deixaria tê-la. O tranquilizei apenas colocando fraternalmente a mão em seu ombro e quando nos despedimos com um abraço ele pareceu totalmente devoto a mim, como se pronto para fazer o que eu quisesse.

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Nossa Família – Rosca J. R. Tudor Grandes amigos! Ensinaram tudo que eu precisava para encarar o ambiente escolar. Meu eterno pesadelo. Mas, enfim, estava desperto.

Volta às aulas Quando minha mãe entrou no quarto para me acordar eu já estava quase pronto. Eu nunca estava pronto para ir à escola, tão pouco motivado. Nunca tive motivos para gostar daquele lugar. Além de não me dar bem com os estudos também não o fazia com meus colegas. Mas desta vez não ia para estudar ou me dar bem com alguém. A ideia era ver até onde eu conseguiria levar meus novos dons sem me complicar. Seria um tipo de playground. Essa era minha motivação. - O que é isso, Haroldo – Minha mãe ficou espantada – Vai virar estudante modelo? Devolve meu filho – E me lançou seu sorriso mais meigo. Antigamente me sentia feliz com isso, agora me dava vontade de fazê-la sofrer. - Se quiser tiro o uniforme e fico deitado até a hora do almoço, sua escolha. Ela me lançou aquele olhar de repreensão carinhosa, e isso me fez decidir realmente a fazer sofrer. Pena que na hora minha imaginação me abandonou, senão começaria naquela hora.

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Nossa Família – Rosca J. R. Tudor Depois do café matinal minha mãe me levou até a escola. Como de costume desci na entrada frontal enquanto ela dirigia até o estacionamento de funcionários, que ficava na esquina atrás do grande prédio de cinco andares que abrigava o colégio. Até hoje entrar na escola era um ritual bastante previsível. Quase todo mundo me ignorava, e quem me notava parecia estar rindo de mim ou planejando me sacanear. Mas nesse dia tudo começou diferente. Estava evidente que ninguém me reconhecia, mas atrair olhares simpáticos era uma grande novidade. Desde quando passei por essa mudança até ontem eu provei o gosto de poucas pessoas. Agora eu conseguia sentir dezenas ou até centenas de pessoas ao mesmo tempo. Uma orgia. Um banquete. Já sabia, graças a minha mãe, para qual sala me dirigir. No caminho evitei o Magno, diminui meus passos quando o vi ao longe rumando para o banheiro e me mantive fora de seu campo de visão. Logo depois cumprimentei Dimas rapidamente, quando o vi galanteando uma roda de garotas, e mantive firme o passo para que ele não tivesse tempo de resolver ser legal comigo. Com a Rachel foi mais complicado, pois estávamos na mesma classe. Porém ela teve seu uso. Entrei na sala e as pessoas ainda estavam de pé logo antes do professor aparecer alguns passos atrás de mim. Como ela estava perto da porta, e

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Nossa Família – Rosca J. R. Tudor próxima do grupo das gatinhas da sala, resolvi cumprimentá-la estrategicamente. Consegui dosar um beijo no rosto com calor o bastante para passar uma imagem de carinhoso ao mesmo tempo em que não demorei a seu lado, para também parecer despojado, me dirigindo rapidamente para o lugar vago mais longe dela. Funcionou perfeitamente! - Quem é esse cara? Aluno novo? – Cochichou euforicamente uma das garotas para Rachel e as amigas, tentando não ser ouvida por mais ninguém. Eu ouvi. - É o Haroldo, vocês não se lembram dele? – Retrucou Rachel, indignada com a falta de atenção da colega ao mesmo tempo em que se esforçava para esconder o ciúme. - É o irmão da Catarina, aquele que estava no hospital – Disse Bia, uma das garotas mais lindas do colégio. Pele bronzeada, cabelo cacheado castanho claro, lindos olhos verdes que pareciam um par de esmeraldas e um corpo simplesmente perfeito. Ela também tinha Glauco, seu namorado, que era maior que um gorila alfa, notando claramente como ela ficou atiçada com minha presença. Senti seu olhar de ódio, à minha direita, durante toda aula. Eu nunca tinha sentido aquilo antes pois, de fato, nunca fui odiado, apenas desprezado ou repudiado. Para os outros nunca pareceu ser pessoal, apenas um tipo de esporte, mas não para o Glauco. Esse é o primeiro cara que senti querer

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Nossa Família – Rosca J. R. Tudor me matar de verdade. Isso só piorava enquanto as três meninas passavam a aula inteira cochichando coisas gostosas sobre mim. Eu ouvia perfeitamente o que nem pessoas próximas a elas conseguiam. Só imaginei como ele se sentiria caso escutasse pelo menos metade do que sua namorada dizia sobre mim. Em momento algum senti raiva do rapaz, sequer a merecida pena. O que eu sentia era totalmente diferente. Naquele momento alguns sentimentos outrora comuns, como raiva, ódio, medo, vergonha ou paixão, já não faziam mais sentido algum, apenas lembrava vagamente de como eram. O que senti naquele momento foi apenas tesão e fome, misturados, não como sentia antes, mas como um novo sentimento. Então decidi que meu teste seria esse casal.

O amor morde Eu precisava arrumar uma maneira de me aproximar de Bia e termos um pouco de privacidade. Começava a ficar angustiado, como nunca fiquei antes. Parecia ansiedade, mas era um pouco diferente. É igual quando você está com muita fome e sente o cheiro de comida, naquele instante antes de começar a comer quando mais nada vem

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Nossa Família – Rosca J. R. Tudor a sua cabeça a não ser dar a primeira garfada. Eu não queria comer ela, pelo menos não literalmente, apenas tê-la perto, a fazer queimar de tesão e então tomar esse calor para mim, como fiz alguns dias antes com Rachel. E, falando em Rachel: - E aí, astronauta, quando volta pra a Terra? A aula chata sobre estruturas celulares finalmente chegara ao fim. Sentada sobre minha mesa estava Rachel, me encarando. Lembro que participei da aula ativamente, fazendo várias perguntas e demonstrando muito interesse, por mais que aquilo não me interessasse. Admito que foi gostoso ver o professor de Biologia animado por alguém conseguir demonstrar tanto apreço por sua aula. Sua animação me saciava, mas em menos de meia hora ele parecia não se aguentar de pé, e pouco antes dele passar mal e ir embora eu já tinha perdido a vontade de interagir com a aula. Passei a entender que forçar demais as pessoas as prejudica. Eu queria mais é que se fodessem as pessoas, pois só conseguia pensar na Bia. Precisava muito me resolver com aquela garota, dar um sossega no namoradinho dela e um jeito em Rachel, cujos feromônios saturavam meu nariz. - Se você quiser volto agora, só pra te ver – Continuei olhando para o nada enquanto dava tom de apatia para minha voz, mas com o dedinho da mão fiz um discreto carinho por baixo da cocha dela e

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Nossa Família – Rosca J. R. Tudor isso bastou para fazer a garota quase pegar fogo de tesão – Que aula é agora? - Literatura. O que acha da gente ir beber água no quarto andar, fumar um cigarro e eu te fazer um carinho? Ainda temos uns vinte minutos. Eu não estava com sede, vontade de fumar ou ser carinhoso com ela, mas tinha que me afastar um pouco de Bia para pensar melhor no que fazer. O quarto andar era totalmente vazio no período matutino. A noite o meu colégio virava uma faculdade meia boca e o quarto andar servia para abrigar as classes a mais. Quando saímos no corredor todas as outras salas estavam em aula e nossos colegas de classe tinham se dispersado, por isso tive uma ideia melhor que o quarto andar. Eu sabia que ela não queria apenas alguns beijos. Ela queria mais, mas tinha medo do inspetor nos pegar fazendo o que queríamos. - Acho melhor a gente ir pro quinto andar – Propus apenas pelo costume de dizer alguma coisa. A verdade é que ela iria para onde eu a levasse. - Mas lá não tem bebedouro e nem janela – Ela ia dizendo, quando parou, pensou, fez falsa carinha de susto, deixou escapar um sorriso e prosseguiu – Haroldo, o que você ta pensando em fazer? Se pegarem a gente ta fodido! - Relaxa! Você ta comigo – Também disse isso por costume de falar. Ela realmente iria para onde eu quisesse.

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Nossa Família – Rosca J. R. Tudor Honestamente, eu queria mesmo é ser pego. Seria muito engraçado ter que lidar com a situação como tive que fazer com minha mãe. Talvez desse certo. Talvez desse merda. Ninguém saberia dizer. Nesse momento entendi o que Dimas queria dizer com na escola dá para praticar com segurança. O que aconteceria se me pegassem? Eu não seria expulso, pois minha mãe era professora e ela que se resolvesse com o diretor. Suspensão? Passaria algumas manhãs em casa. Convenceria fácil alguma garota a cabular aula e ir fazer sexo comigo. Provavelmente arrastaria a Bia e umas amiguinhas dela lá para casa. Quando chegamos na pequena saleta, que continha apenas alguns moveis e material de manutenção e limpeza, não demorei para virar a Rachel de costas, antes que viesse me beijar com aquela boca carente de higiene, ainda cheirando café da manhã e sei lá mais oque. Sem nenhuma cortesia a curvei sobre uma das mesas, abaixei nossas calças e com a mão cheia de cuspe dei uma lustrada na cabeça do meu fabuloso. Ela era tão putinha que, mesmo sem a compelir mentalmente, implorou como em um filme pornô para que a enrabasse. Fiz como ela pediu e devorei seu buraco mais sujo. Eu estava a machucando e ela, totalmente entorpecida pelo prazer de me satisfazer, engolia o choro ao máximo e pedia para eu ir com mais força.

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Nossa Família – Rosca J. R. Tudor Fazia pouco tempo que essa safadeza começara quando ouvi passos e cochichos vindos do corredor. Rachel parecia não ouvir, e na altura que ela gemia e chorava até eu tive dificuldade para reconhecer direito as vozes. Não era a voz de adulto, e tudo apontava para a probabilidade de sermos flagrados por alguns colegas, então resolvi caprichar mais na cena, torcendo para já entrarem com uma filmadora em mãos, ou algo assim. Comecei a dar uns tapas firmes, sem delicadeza, na lomba da minha sujinha, também comecei a empurrar mais fundo para fazê-la gritar e chorar mais, o que funcionou muito bem. Não poderia ser melhor! Pela porta entraram de supetão Bia e Glauco. Bia arregalou os olhos de espanto enquanto tapava a boca com a mão para conter, em vão, a risada. Já Glauco ficou totalmente alterado e isso foi a cereja sobre o glacê do maravilhoso dia que eu tive até então. E melhorou ainda mais. - Sua filha da puta – Gritou Glauco, furioso – O que ta fazendo com ele? Nesse momento eu entendi tudo. Bia, parando na hora de rir, também. Ele estava comendo Rachel escondido da namorada. Quem diria? - E ae, Glaucão? Bia? Vieram dar um role no quinto andar? Chega mais que aqui é tudo em casa – Puta merda, eu sou incrível. E funcionou. Pelo menos ele mudou de raivoso para apenas cabreiro.

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Nossa Família – Rosca J. R. Tudor A Bia mandou um olhar de profunda raiva e vergonha para cima de seu namorado. Rachel ficou atônita, nem quando eu dava mais umas bombadinhas ela fazia mais que engolir o choro se esforçando para não gemer. Envergonhada por ser pega, mas não por se envolver com o namorado de outra. Ah, a Rachel era mesmo a pior e não dava para respeitar essa garota. Então resolvi sair de dentro dela e lidar com a situação, afinal ela era só um passatempo enquanto eu pensava em como chegar na Bia, e isso acabara de ser resolvido. No momento a Bia parou de olhar para o namorado e grudou os olhos no meu pau. - Não fica constrangido, irmão! Aqui o amor é livre, eu sei que você gosta da Rachel. Quando falei isso ele mudou de cabreiro pra envergonhado. O cara realmente estava mais preocupado em garantir a foda que a namorada, o que eu entendia e agradecia. Dizia a boca pequena que Bia ainda era virgem, assim suponho que Glauco precisava de alguém que saciasse sua libido e essa pessoa era a Rachel. Eu acariciava a bunda da Rachel com uma mão enquanto que com a outra fiz um gesto para que o Glauco se aproximasse dela. Ele se aproximou e eu disse “vai em frente cara, domina essa garota, porque é isso que ela quer de você”, e ele foi. Nessa hora a Bia começou a chorar e saiu correndo antes que eu tentasse a impedir. Mas foi estranho porque ela

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Nossa Família – Rosca J. R. Tudor estava dominada por mim e eu senti algo cortando essa conexão. Então ela saiu correndo até a porta quando parou atônita e sussurrou apenas uma palavra: - “Catarina?”

Catarina Meu nome é Catarina, tenho 16 anos e estou começando o terceiro ano do ensino médio no colégio onde minha mãe dá aula de História, meu pai é major da Força Aérea e tenho um irmão que amo muito, dois anos mais novo, chamado Haroldo. Essa é a descrição da vida de uma garota normal. Porém nunca fui uma garota normal. Não tive a fase de adolescente revoltada ou sequer tenho problema com o fato dos meus pais amarem meu irmão mais que a mim. Amo estudar num colégio de elite e ter uma família comum. Até entendo o fato de meus pais amarem mais o meu irmão, que sempre teve uma vida complicada e precisou de muito mais apoio. Amo o mundo a minha volta, não quero queimar meu sutiã, pintar o cabelo de azul, ficar chapada ou fazer sexo com todo mundo. Eu sou careta e gosto de ser assim. Mas, como eu disse, não sou uma garota normal.

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Nossa Família – Rosca J. R. Tudor

Não me acho especial por essa anormalidade. Olívia, a única amiga que realmente deixei me conhecer, que Deus a tenha, dizia que eu carrego um fardo, mas eu encaro mais como um dever. Para começar a explicação, desde pequena eu tenho três amigas “imaginárias”, o que seria normal se algumas vezes elas não se tornassem reais. Não sou louca, gostaria de ser. Minhas amigas se chamam Fé, Devoção e Luz, e nada disso se trata de um culto religioso. Se as pessoas conhecessem Deus, como eu conheço, parariam de cultuá-lo, pedir coisas ou atribuir a Ele os rumos de suas vidas. Deus não está nem aí para como as pessoas vivem, mas ele fica extremamente puto quando a ordem natural do Universo é perturbada. Todos deveríamos ficar. Você já viu Deus emputecido? Deus emputecido funciona assim: Ele manda a Luz falar comigo e eu faço uma visita a aquilo que emputece Deus. Se não der para fazer aquilo parar de emputecer Deus eu faço minha amiga Devoção despejar toda sua ira. Se esse algo reagir e tentar me ferir a Fé me protege, e a Devoção continua despejando sua ira. Uma de duas coisas sempre acontece: A Luz aparece para me avisar que Deus não esta mais puto, faço a Devoção parar e vamos embora felizes e satisfeitas. Ou aquilo que emputecia Deus deixa de existir e também vamos embora felizes e satis-

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Nossa Família – Rosca J. R. Tudor feitas. Duas coisas sempre acontecem: Deus para de ficar puto e minhas amigas e eu vamos embora felizes e satisfeitas. Não tem escapatória disso. Se algo pode ser chamado de Vontade Divina isto sou eu e minhas amigas. Às vezes esse processo é tortuoso. Vocês já ouviram o ditado de que Deus escreve certo por linhas tortas? É mentira, nem escrever ele escreve. Deus nunca sabe direito o que quer e Luz é a única criatura em todo universo que consegue entendêlo. Tenho pena da pobrezinha, ela sofre muito. Minhas outras amigas também têm seus dons.

Eu e minhas amigas Fé é aquela amiga que sempre ouve e te conforta. Ela é meio quietinha na dela, não é de falar muito, mas nunca me deixou na mão. Quando a Fé vem ao mundo material costuma o fazer em forma de uma linda armadura negra brilhante. Antigamente ela era branca, mas depois que conheceu Rock entrou numa fase mais dark, mas ainda bem que não ficou muito tempo na fase Hard Rock, pois eu estava cansada de vestir lantejoulas e penas. Em minha festa de debutante ela virou um vestido que achei cafona, mas todos amaram, então acho que tudo ficou bem.

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Nossa Família – Rosca J. R. Tudor Devoção é minha amiga mais porra louca e divertida. Quase tudo que aprontei até hoje foi ela que começou. Fé e Luz ficam bravas com ela, mas no final Devoção sempre acha um jeito de ser meiga e dizer coisas carinhosas e todos se acalmam. Mas Devoção tem um lado “profissional” meio barra pesada e é extremamente belicosa. Ela nunca começa uma briga, sempre fica extremamente fria durante as confusões e geralmente fico com um pouco de medo. Mas Devoção sempre me ouve e não a deixo exceder na dose. Ela costuma se materializar como uma arma. Já virou lança, martelo de guerra, faca, revolver e um dia até virou uma ogiva nuclear, quando fui conversar com uns rapazes no Oriente Médio sobre o quanto eles estavam emputecendo Deus. Ainda bem que Luz apareceu a tempo. Mas Devoção é bem criativa e já se materializou como espelho, cortador de unhas, calculadora para me ajudar colar numa prova e até como controle do videogame quando o fio do original quebrou. Por fim Luz, nossa boa velhinha. Velhinha boca suja e mal humorada. Toda manhã Luz me acorda até mesmo antes da luz de verdade bater na janela. “Tem que acordar cedo para fortalecer sua mente, senão vira uma moleca preguiçosa e imprestável”, sempre repete gritando na minha orelha cada vez que reclamo. Ela também é um bom parâmetro na hora de aprontar alguma coisa, pois se alguém

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Nossa Família – Rosca J. R. Tudor puder sair machucado ela intervém, caso contrário bota pilha, deixando seu mal humor ir embora e parecendo uma pivéta. Luz nunca vem ao mundo material, diz que “não gosto, pois sempre que tentei as pessoas só enxergaram minhas sombras”, seja lá o que isso signifique de verdade. Mas o que mais gosto, ao mesmo tempo que desgosto, é como Luz dá palpite em tudo. Na escola é bom pois ela acha que não tenho que perder tempo estudando, então sempre me assopra as respostas em todas provas. Mas geralmente ela cansa um pouco com essa mania. É assim desde que me lembro por gente e nunca me acostumei.

Pecados do avô e sangue do irmão A alguns meses atrás Luz apareceu para dizer que “Deus está puto, mas não sabe com o que”. Vocês nunca entenderiam o significado de Deus assumindo que não sabe alguma coisa então não me esforçarei tentando explicar, mas para resumir, Ele não é onisciente. Esse aviso veio em agosto, quase perdi meu ano letivo viajando o mundo escondida de minha família para tentar descobrir o que emputecia o Divino. No final descobri que o problema estava mais perto que eu gostaria.

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Nossa Família – Rosca J. R. Tudor Deus não sabe sobre um monte de coisas, mas se tem uma coisa que o deixa absurdamente puto é um certo livro que nem nome tem. É um livro o qual batizamos entre nós de Manual do Fuzuê. Esse livro é uma espécie de portal inventado nem Deus sabe quando por sabe-se lá quem por motivos ainda mais obscuros. O grande problema é que raramente alguém o usa para fazer algo que preste. Quase sempre fazem algo para desmoronar a ordem natural do Universo, que Deus tanto ama. Ele sempre fica sabendo que alguma coisa está fodida, mas nunca exatamente o que. Você não conhece Deus, mas tenho certeza que consegue imaginar como fica seu humor nessas horas. E isso se agrava pelo fato de que além Dele não saber o que está errado, quando descobre não pode fazer nada. E, antes que me esqueça, Deus está longe de ser onipotente, porém, pasme, Ele realmente é onipresente, o que significa que sente tudo de errado que acontece, mas geralmente nada pode fazer, como sentir coceira dentro do gesso. Estou com minhas amigas Fé e Devoção, andando no meio de alguma savana africana, atrás de alguma pista sobre a fonte do mau humor de Nossa Suprema Divindade. A uns vinte metros a minha direita vejo um casal de leões fornicando, mais ao longe um rio com várias zebras e rinocerontes bebendo água e no horizonte o Sol se despede num dos poentes mais lindos que já vi em

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Nossa Família – Rosca J. R. Tudor minha vida. Devoção faz uma piada suja com a cara da leoa, Fé a repreende e o tanto de mosquitos me atazanando é o que mais incomoda. Bem que Fé poderia virar uma daquelas roupas de apiário ou algo assim. Eis que Luz aparece com semblante visivelmente abatido: - Tenho uma notícia muito triste. Encontramos a origem do distúrbio, é o Manual. - Como isso pode ser triste, Luz? Agora podemos sair do National Geographic Channel e resolver o problema – Diz Devoção eufórica. - Não é simples assim e dessa vez será bem desagradável. Catarina, o problema é seu avô. - Como assim “meu avô”? Explica direito! Não posso acreditar nisso. Como meu avô seria um problema? - Calma, moleca, eu explico – Luz tenta apaziguar - Seu avô está com o Manual do Fuzuê, fazendo coisa errada. Deus mandou a gente ir lá agora para resolver. - Calma Catarina – Fé tenta apaziguar – estarei ao seu lado – como eu odeio quando ela fala esse jargão, ainda mais agora. Não consigo acreditar nisso. Haroldo! Meu irmão está com meu avô passando férias no sítio. Começo a chorar pensando em seu nome. “Calma”, alguém pediu quando as lagrimas desceram

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Nossa Família – Rosca J. R. Tudor em meu rosto. Sinto o abraço reconfortante que só Fé conseguia me dar, fecho meus olhos e espero que Devoção nos leve até a chácara de meu avô. Já é noite e sinto meu coração pesar como nunca. Um ar nojento vem de dentro da casa e irrita meus pulmões, me causando ânsia. A porta está lacrada com algum feitiço, mas não reconheço seu autor. Percebo como ele é poderoso. Devoção segura minha mão, “derruba a porta” ela diz, e juntas a chutamos com toda nossa força. A porta estilhaça e ouço uma risada muito alta vindo da sala. É a voz de meu avô. Não, só parece ser. - Entrem aqui, meninas! Já cheguem tirando a roupa, pois na casa do Velho Antunes é Carnaval adiantado – Ele berra e ri de forma embriagada, mas sei que não é bebida que fala por ele. - Vô, o que ta acontecendo aqui? – Tento manter a calma enquanto me aproximo da porta. Quando entro na sala sinto meu coração partido. Tão triste que nem consigo chorar. Vejo duas meninas, com não mais de quinze anos, Haroldo e meu avô. Os quatro estão nus e fornicando no chão. Se eu fosse uma menina normal isso me seguraria por algumas décadas num tratamento psicológico, mas eu não posso me permitir ser normal e a situação não se trata da simples depravação de um velho pervertido. Os olhos dele são a coisa mais aterrorizante que já vi e

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Nossa Família – Rosca J. R. Tudor sinto minha alma se desfazer. Fé me abraça e vira minha armadura. Posso sentir como ela começa a sofrer em meu lugar. Meu avô ri insanamente enquanto continua seu ato vil com a garota menor. Meu irmão e a outra garota parecem nem tomar conhecimento da cena e continuam o coito. Os garotos não estão normais, seus olhos parecem mortos e os corpos se movem mecanicamente. - Catarina, você virou uma mulher muito vistosa, não quer se despir dessa sua amiguinha frígida e vir aqui provar do piu-piu do vovô? Faço com você igual fazia com sua mãe, quando seu pai estava longe demais para cuidar da mulher. Acho até que você é filha minha e não dele – e continua rindo. Eu sei o que devo fazer. Devoção segura minha mão, beija minha face e diz: - É melhor fazer agora para acabar logo com isso – Ela vira uma lança curta toda feita de um metal tão polido que seu reflexo é mais forte que a luz incidida sobre ela. - Isso, suas putinhas, matem um “velho indefeso”! Espeta essa vadia no meu cu – Ele fica de quatro com a bunda virada para mim – Vem, suas safadas, mostra como são pervertidas e me fodam com toda força! O desgraçado não para de rir. Sinto mais nojo dessa cena grotesca que tristeza pelo que farei.

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Nossa Família – Rosca J. R. Tudor - Fale onde está o livro – ordenei. - O livro da sua avó? Lambe meu cu que eu falo – Eu o chuto com toda minha força, fazendo com que bata a cabeça na parede. A criatura ri sem sentir qualquer dor pela minha investida. Ele se levanta e para de rir armando uma carranca séria e terrivelmente assustadora. Com uma voz grave, aveludada e carregada uma força descomunal, emite sons aparentemente complexos, que não sei dizer se seriam ou não uma linguagem. Sinto Devoção apertar minha mão e gritar na minha orelha “AGORA”. Empurrei a lança para o coração do velho e Devoção não consegue entrar nem dois centímetros. Ele fica quieto, abre um sorriso perturbador enquanto parece me derreter com seu olhar. - Foi bom para você? – Ri de maneira seca e suave. Minhas mãos parecem feitas de gelatina e quase largo Devoção. Não desisto, empurro com cada vez mais força, até que a carne cede. Enquanto a lança aos poucos o atravessa vejo escorrer sangue por sua boca. Ele fecha os olhos lentamente e quando os abre estão normais. - Obrigado mocinha - sussurra engasgado, já com sua voz natural. Seu corpo amolece e caiu a meus pés, criando uma poça de sangue. Fé chora baixinho e pela primeira vez Devoção fica calada. Elas se desmaterializam. Fé chora como uma criança enquanto Devoção nos abraça.

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Nossa Família – Rosca J. R. Tudor Estou com medo de olhar para os garotos. Uma das meninas tosse baixinho, quando Fé se recompõe e pede carinhosamente “vai olhar seu irmão”. Abaixo a seu lado, ele está desmaiado junto das garotas, não parecem nada bem. Respiram com dificuldade e estão muito pálidos. - Tudo ficará bem – Diz Luz, enquanto ajeito os garotos nos sofás e os cubro com mantas e lençóis que pego num dos quartos. É hora de voltar para casa. Em breve meus pais receberão uma ligação dizendo que meu irmão está internado num hospital e eu devo estar com eles nesse momento. Eles esquecerão do meu avô. Acreditem, essas coisas são feitas direto. Todas as pessoas que conhecem meu avô se esquecerão dele. Um dia algumas se lembrarão que ele existiu e se perguntarão onde está. Nesse momento lembrarão que ele morreu dormindo, bem velhinho e de um lindo velório. Se você tiver lembranças confusas sobre alguém de quem deveria recordar perfeitamente ou se ficar muito tempo sem pensar numa pessoa especial pode ter certeza, foi feito com você. Não entendo o que aconteceu com meu avô. Será que ele foi possuído? A quanto tempo? Seria verdade o que disse de minha mãe? Porque um ser tão poderoso se deixou matar tão facilmente? O que ele realmente fazia com Haroldo e as meninas? Por que o fez? Onde está o Manual do Fuzuê?

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Nossa Família – Rosca J. R. Tudor

Tocado pelo Mal - Acho que você terá de matar seu irmão. Sinto muito – Me diz Luz visivelmente abatida. - Você está louca. Deus está louco. Não vou matar meu irmão. - Não cabe a você decidir, garota. Ele foi tocado por um mal muito grande e não podemos arriscar. - Nem sabemos quem tocou meu irmão e as meninas. Não dá para dar um remédio sem saber qual é a doença. - Só estou dizendo. A propósito, as meninas estão prenhas. Não sabemos se de seu irmão ou avô. Você também vai deixar essas crias virem ao mundo? Eu não quero pensar em infanticídio agora, mas uma das coisas mais chatas do mundo é quando Deus fica ansioso e Luz sem saber intermediar nossa relação. Meu irmão não está nada bem e sei exatamente o que ele tem, só desconheço o motivo. Ele está se transformando num vampiro. Você certamente não faz a mínima ideia do que é um vampiro. Já deve ter pensado em seres imortais com superpoderes, que sugam o sangue das pessoas e, dependendo do autor, viram cinza ou purpurina quando expostos ao Sol. Bom, não é nada disso. Vampiros são mortais que no máximo

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Nossa Família – Rosca J. R. Tudor vivem poucas décadas a mais que uma pessoa normal. São tão fortes quanto um ser humano pode ser. Eles não bebem sangue e sim sugam a energia das pessoas. Vampiros são pessoas que tem uma doença espiritual chamada Vampirismo. Muitas pessoas passam suas vidas inteiras sem tomar conhecimento que tem vampirismo. Algumas nascem com isso e outras são infectadas por algum outro doente ou um vampiro. A doença se manifesta em diferentes intensidades e na maioria dos casos a presença da pessoa é apenas desgastante para os outros, mas em alguns raros casos, aonde existe uma ligação muito forte entre o doente e outra pessoa, essa última pode ter sua vida inteira consumida. Apesar de existir no mundo mais gente com vampirismo que com câncer ou AIDS poucos chegam a virar vampiros, e a causa disso não segue nenhuma lógica. Esses poucos vampiros geralmente são muito perigosos. O que os torna realmente perigosos é a maneira como conseguem saber exatamente como as pessoas se sentem. Alguns ouvem até seus pensamentos. Vampiros muito poderosos conseguem até manipular a mente das pessoas apenas com sua vontade. Para piorar, muitas pessoas viciam em ter contato com infectados por vampirismo e, principalmente, por vampiros.

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Nossa Família – Rosca J. R. Tudor A única coisa boa que tenho a dizer sobre vampiros e vampirismo é que ambos são curáveis na maioria dos casos. Não são raros os que se curam sozinhos. Mas como pouco sabemos sobre todos aspectos da doença, não conseguimos nem criar um procedimento padrão e alguns casos são totalmente indecifráveis. Meu irmão está se transformando numa dessas criaturas. Sei que a coisa certa, pela maneira que se tornou um vampiro, é o matar enquanto ainda está fraco, enfermo e provavelmente não tem noção de sua condição. Poderia até forjar sua morte. Pensariam que morreu de enfermidade. Tenho certeza que aquilo que possuiu meu avô é responsável pela transformação de Haroldo, então minha esperança é descobrir como curar o garoto. Eu amo meu irmãozinho e quero o melhor para ele nem que tenha que dar minha própria vida por isso. Através de Luz fiz um acordo com Deus, que me permitiu buscar a salvação para Haroldo enquanto ele não fizer mal para os outros, mas se isso acontecer eu devo o matar imediatamente. Assim começou minha busca. Meus pais pensariam que eu estava vivendo minha vida normalmente e visitando meu irmão todos os dias. Ele também lembraria das visitas, mas eu estaria colhendo informações.

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Nossa Família – Rosca J. R. Tudor Conheci o mundo inteiro pelos seus piores lados e assim mesmo nada disso adiantou. Não fui rápida o bastante e poucos dias depois de começar a busca recebo a notícia de que meu irmão está machucando as pessoas e se tornou um perigo muito grande. Agora é hora de pagar a Deus minha parte do acordo.

A morte da Esperança “Meu irmão já está morto”. Repito esse mantra em minha mente durante toda viagem. Quando apareço dentro da escola continuo repetindo. As pessoas ficam atônitas quando me viram, porque o jeito que apareci do nada quebrou parte da manipulação de memória. É o que falei de Deus não ser onipotente. Algumas colegas de classe tentam falar comigo, assustadas, mas não tenho tempo para lidar com isso. Agora não quero saber e pouco me importo com qualquer outra coisa que não seja Haroldo. Tirar a vida de meu avô é algo que nunca digeri, mesmo naquela situação, mas matar meu irmão é algo que ainda não sei como fazer. Tem que ser feito, eu sei, mas entre uma repetição e outra do mantra a ideia não se torna mais aceitável. Quero me matar só para cuspir na face de Deus quando o ver pessoalmente. Acho

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Nossa Família – Rosca J. R. Tudor que Deus não tem face, mas gostaria que tivesse, para poder cuspir nela. Sei exatamente onde ele está. Luz explicou que uma menina poderia morrer se eu não chegasse a tempo, então subo correndo as escadas, pulando de quatro em quatro degraus. Chego a tempo. Ouço vozes dentro do depósito, que está com a porta aberta. Reconheço a voz de meu irmão. Sinto O Mal olhando com desprezo para o que resta de minha alma angustiada, dividida entre o amor e o dever. Grandes tentáculos vermelhos, feitos de fogo e sangue, abração todo lugar. É maior do que aquilo que possuiu meu avô. Isso não é uma possessão, é O Mal vivo. Meu irmão é O Mal.

Deus Falhou - Catarina – Disse Bia enquanto saia da sala chorando. Catarina sentiu que chegou a tempo de salvá-la. Haroldo, ainda não acostumado com seus poderes, confundiu os sentimentos de Bia. Enquanto achava que a perdia resolveu apertá-la com mais força, mas o fez do jeito errado. Como um garoto que esquece o que é o Amor pode entender o funcionamento de um coração partido? Não se mata uma pulga com tiros de canhão, isso pode

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Nossa Família – Rosca J. R. Tudor afugentar o pequeno artrópode, ou o jogar para longe antes de o atingir. Foi isso que aconteceu com Bia. Os joelhos de Catarina tremiam de medo frente a imagem de Haroldo. Ela estava cada vez mais longe de sua racionalidade e o mundo a sua volta se nublava com o miasma criado por seu irmão. Ela já viu vampiros poderosos antes, mas Haroldo além de ser distintamente mais poderoso também carregava a imagem do irmão que tanto ama e não quer perder. Assim mesmo Catarina resolveu aceitar seu dever com Deus. Bia se entregou nos braços de Catarina. Fé abraçou as duas e conseguiram romper o laço, salvando a garota. - Minha irmã linda, que saudades – Brincou Haroldo, ainda sem entender tudo o que acontecia – To louco pra fazer um incesto com você. Caralho, já ta pegando a Bia? Vamos comer junto essa virgem, eu meto na bocetinha e você lambe nosso suquinho, o que acha? Catarina nem conseguiu sentir nojo, ainda estava perdida entre senso de dever e o medo, mas já entendia que seu irmão não estava ali, e sim o monstro mais perigoso que já enfrentou. - Bia – Catarina envolveu a face da garota com as mãos e ordenou com toda calma e suavidade – Sai daqui agora, não fala nada, só vai pra sua casa o mais rápido que puder, implora pros seus pais te

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Nossa Família – Rosca J. R. Tudor mudarem de escola e nunca mais chega perto de qualquer um que está nessa sala – Nesse momento Bia foi contaminada por todo medo que Catarina sentia e saiu correndo. - Beleza, Catarina – Disse Haroldo, rindo - Entendo que você já tem sua peguete e não quer a trair com a Bia. Por mim tudo bem, se eu soubesse que a Fé era tão gatinha assim a gente já tinha fechado acordo faz tempo. “Ele consegue ver Fé? ”, pensou Catarina horrorizada. Ela mesma nunca conseguiu ver Fé sem ser materializada em forma de armadura ou roupa, mas agora sua amiga tomara forma de uma garota e estava táctil, bem ao seu lado, e hipnotizada por Haroldo. - Não encosta nela – Berrou Devoção ao lado de Catarina. - Quem está aqui? – Se espantou Haroldo. Ele escutou a voz de Devoção, mas não conseguia vêla. “Essa é a chance”, pensou Catarina. Ela agarrou Devoção e partiu com toda sua fúria para cima do irmão. Não funcionou, tudo que ela conseguiu dar foi um soco com a mão vazia ao invés de Devoção estar materializada como uma arma. Haroldo a olhou estarrecido. - Sua vagabunda! – Gritou Rachel histericamente enquanto pulava em cima de Catarina, que ainda

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Nossa Família – Rosca J. R. Tudor estava atônita tentando entender o que aconteceu entre ela e Devoção. Rachel, agarrada nas costas de Catarina, começou a dar socos, mordidas, arranhões e puxões de cabelo. Catarina não conseguia achar Devoção, mas escutava a amiga gritando ao longe. Fé, materializada em forma de garota, nua, abraçou Haroldo, ignorando tudo que acontecia. Glauco estava desorientado, por um instante também não sentia mais a influência de Haroldo, que já o ignorava totalmente, conseguindo apartar Rachel e a aquietar num canto. Haroldo ria sem parar, enquanto falava um monte de sacanagem, beijava e acariciava o corpo de Fé. A mente de Catarina começou a divagar sobre influência de Haroldo e demorou alguns segundos até começar a recompor suas ideias. Catarina não entendia o que aconteceu com Fé e não acreditava que Haroldo, ou qualquer um, pudesse dominar a amiga com tanta facilidade. - Fé, o que você tá fazendo? – Perguntou Catarina, angustiada, sem conseguir segurar as lágrimas quando a amiga simplesmente a ignorou. Catarina sentia que perderia Fé para sempre se não fizesse alguma coisa. Nesse momento conseguiu finalmente encontrar Devoção. - Calma! Agora estamos juntas – Catarina sentiu Devoção segurar sua mão e seus sentidos voltaram. Sentiu a amiga formar uma lança em suas

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Nossa Família – Rosca J. R. Tudor mãos – Vamos acabar com essa demência e recuperar Fé. Catarina empunhou Devoção em ambas as mãos, segurando a lança com firmeza e, sem nenhuma cerimônia, a espetou ferozmente na direção do peito de Haroldo. Catarina não conseguiu terminar o golpe, Devoção simplesmente desapareceu de sua mão. Devido a sua impulsão não conseguiu parar a tempo e esbarrou com força no corpo de Haroldo, que a segurou firme em seus braços. - Calma! Calma – Implorou Haroldo em tom sério e preocupado enquanto tentava segurar Catarina em seus braços. Ela debatia para se livrar dele e chorava totalmente desesperada. Ambos caíram sobre seus joelhos, com Haroldo abraçando forte a irmã e pedindo “calma” em seu ouvido – Não sei o que aconteceu contigo, maninha, mas agora está tudo bem. Fé também se ajoelhou para abraçar a amiga. Catarina estava ainda enojada por ver o irmão e a amiga nus e a abraçando, mas também se sentiu reconfortada pelo carinho oferecido pelos dois. Não sentia mais o miasma, não via os tentáculos, sua amiga estava carinhosa e seu irmão amável, isso era tudo que ela poderia querer no momento. - O que ta acontecendo? – Catarina não encontrava mais Devoção. Fé a abraçava junto do irmão que demonstrava nítida e irrefutável preocupação.

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Nossa Família – Rosca J. R. Tudor

- A gente tava só se divertindo – Respondeu carinhosamente Haroldo – Então você e a Fé chegaram nervosas. Mas agora você pode ficar calma, estamos todos entre amigos. - Desculpa por te bater – Rachel se sentia constrangida, deixando lágrimas de auto humilhação descerem por sua face. - Não, Chel, eu que perdi o controle, não tinha o direito de agredir o Haroldo – Respondeu Catarina, abraçando a garota seminua e até se acostumando – Mas, por que ta todo mundo sem roupa? – Catarina perguntou com honesta ingenuidade. - Bem – Haroldo falou devagar, fez uma pausa, abriu um sorriso largo e meigo que fez Catarina começar a rir enquanto suas bochechas coravam. Então no auge de sua simpatia completou – Todos estamos sem roupa, menos você. Glaucão, fica de olho no corredor pra gente!

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ANTES DAS ÚLTIMAS PALAVRAS Joel Garcia da Costa

Spin-off do conto “Últimas Palavras”, publicado na quarta edição da Mostra Ecos. Parecia estar dentro de um sonho. Pelo chão corria uma leve neblina, mas o velho faxineiro, a quem chamavam de doutor tinha certeza de que estava dentro do hospital, há anos conhecia aqueles corredores, até sonhava com eles, talvez estivesse mesmo em um agora.


Antes das Últimas Palavras – Joel Garcia da Costa Não viu seu carrinho após alguns minutos parado e nenhuma novidade surgir, saiu para sua visita aos quartos, talvez encontrasse algum dos três pacientes costumava visitar. Circulou pelo prédio, os corredores estavam vazios. Quis tirar um cochilo, talvez quando acordasse, estivesse novamente no mundo real, mas antes de terminar o pensamento ouviu um ruído. Conseguiu vislumbrar a parte de trás de uma capa preta com o canto do olho e suas pernas se moveram sozinhas, e quando percebeu já tinha feito a curva no encalço do ser, ele andava muito rápido e já virava à direita no final do corredor. Iniciou uma corrida, um pouco mais que um trote. Repetiu-se a cena anterior, vendo o ser virando agora para a esquerda. Aumentou a velocidade, mas assim mesmo não conseguiu se aproximar do estranho, que parecia brincar com o doutor. Desistiu e começou a caminhar lentamente para recuperar o fôlego, antes que enfartasse. Riu da possibilidade, pois não havia local melhor no mundo para passar mal do que num hospital, só que engoliu o riso em seco ao se recordar que estava sozinho ali, com exceção do ser fugitivo. Adentrou no primeiro quarto que viu e deu de cara com o ser, vestido com uma longa capa, sentado numa cadeira alta que ficava atrás de uma escrivaninha. O quarto, na verdade, funcionava como um pequeno consultório, onde os médicos

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Antes das Últimas Palavras – Joel Garcia da Costa de plantão se reuniam muitas vezes com os parentes dos pacientes do hospital. Tinha ele os olhos fundos parecidos com os de um zumbi e folheava, com a cabeça um pouco abaixada, um grosso livro. – Entre doutor, não tenha receio! - disse ele com uma voz rouca que gelou a espinha do velho faxineiro. – Entre e sente-se! - continuou ele sem encarar o doutor. – Estou bem! - respondeu o faxineiro, com desejo de sair correndo dali, mas com a estranha sensação de ser controlado, pois suas pernas se moveram e quando percebeu, já estava se sentando numa cadeira vazia, defronte a escrivaninha. Quisesse ou não – pensou – parece que teria que passar com uma consulta com o estranho ser. Achou graça do pensamento, mas guardou-a para si. – Então você é o doutor? – Não, eu sou somente um faxineiro… – Sim doutor faxineiro, quero lhe perguntar algo. Ao terminar a frase o ser levantou o rosto e encarou o doutor que pode observar o quanto as suas órbitas eram fundas coroadas com olhos sem vida. – Pergunte, mas quem é você? A morte?

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Antes das Últimas Palavras – Joel Garcia da Costa O estranho ser soltou uma sonora gargalhada mostrando dentes muito claros, que destoavam do restante de sua aparência. – Bem ao contrário doutor! Eu sou é a Vida, a Vida em pessoa… – A vida de quem? – A sua, a das pessoas que conhece e de tantas outras que desconhece, mas os questionamentos aqui são meus… Vai me ajudar? O velho faxineiro, posto que imaginava que aquele sonho não terminaria enquanto não seguisse as regras do jogo, não viu nada a perder em colaborar, fazendo um simples aceno positivo com a cabeça. – Ótimo! Vamos dar uma volta… Na velocidade de um piscar de olhos, o doutor percebeu que já caminhavam novamente por um dos longos corredores, agora de um setor bem conhecido do faxineiro. Era a ala dos casos terminais. – Gosta do seu trabalho aqui? O doutor tentou recordar os anos trabalhados naquele mesmo local, se deparando dia após dia com o sofrimento de pacientes, que muitas vezes somente aguardavam a hora de sua morte. – Sim! - respondeu ele sinceramente – Nada no mundo me dá mais prazer!

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Antes das Últimas Palavras – Joel Garcia da Costa O ser abriu o livro que o doutor jurava que há um segundo atrás não se encontrava ali e fez uma breve anotação. – Por que escolheu esse trabalho? Novamente o velho faxineiro buscou na memória a entrevista para o emprego, os trabalhos que realizara antes, numa escola do bairro onde morava ou no supermercado do centro, locais onde poderia retornar quando quisesse e até com um ordenado melhor, devido à confiança que nele depositavam. – Senti que seria mais útil aqui! Desta vez o estranho ser perdeu vários minutos rabiscando o livro. Quando terminou suas anotações, parecia sorrir. – Mais uma pergunta, doutor Morte… Falou e ficou observando a reação do faxineiro. Há muito tempo ninguém o tratava pela alcunha completa, também nunca o chamavam pelo nome, mas aquele tratamento, saindo da boca daquele ser estranho, quase soando como um deboche, o irritou de uma forma que ele nem se lembrava que ainda poderia sentir. Era puro ódio o que sentia, tinha certeza. Mas disse simplesmente para ele: – Não me chame assim… – Por que não, doutor MORTE? Não é assim que lhe tratam pelas suas costas, sempre que você

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Antes das Últimas Palavras – Joel Garcia da Costa passa empurrando o seu carrinho barulhento? Não é assim que caçoam de você, pois basta um olhar seu para o leito de algum enfermo em estado terminal que em pouco tempo ele passa dessa para melhor? O que é que lhe irrita tanto nesse nome doutor MORTE? Uma janela se abriu no ar, sobre o ombro esquerdo do ser e nele o faxineiro pode observar, como se fosse uma gravação de vídeo, várias pessoas que ele conhecera brevemente ao andar pelos corredores e realizar o seu importante serviço. Jovens, velhos, homens, mulheres, uma confusão de rostos conhecidos que lhe trouxeram uma saudade muito grande e uma emoção cortante para o seu sofrido coração. Essas imagens não paravam de se alternar, uma infinidade delas. – Por que você se preocupava com eles doutor Morte? – Elas estavam sofrendo... As imagens giraram num tipo de redemoinho, até que somente três que representavam pessoas conhecidas do faxineiro passaram a rodar em círculo. – E esses três, o que eles tinham de especial? O doutor permaneceu calado observando as imagens que rodavam.

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Antes das Últimas Palavras – Joel Garcia da Costa – Diga doutor MORTE o que elas tinham de especial? DIGA AGORA! – Elas têm qualidades que eu admiro nelas... As três imagens se juntaram, uma sobre a outra e começaram a se fundir, gerando o rosto de uma mulher, que o faxineiro conhecia muito bem e de longa data. – Diga a verdade, doutor MORTE, você visitava as pessoas somente por pena ou queria se divertir vendo o sofrimento delas? – Não, eu... – Fale a verdade doutor MORTE, essas pessoas eram a sua fuga, o seu jeito de se vingar do mundo, a sua forma de encontrar alívio no seu próprio sofrimento, não é mesmo? – Não! – E os seus últimos três visitantes, o que eles tinham de diferente, o que os tornavam especiais, quais eram as suas qualidades, diga doutor MORTE... Num flash rápido o faxineiro viu que não se encontrava mais no corredor, mas dentro de um quarto quase totalmente escuro, podendo observar de onde se encontrava um corpo imóvel sobre o leito, o corpo de alguém que ele conheceu muito bem, uma imagem gravada na sua mente, para o resto de seus dias.

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Antes das Últimas Palavras – Joel Garcia da Costa O doutor nada conseguiu dizer, sua garganta secou, estava sozinho ali num segundo e no outro voltara para o consultório, com o ser estranho atrás da escrivaninha a rabiscar seu livro. – Eu perdi alguém... - começou o faxineiro Anos antes de vir trabalhar aqui minha esposa ficou doente e foi piorando aos poucos, dia após dia, agonizando num destes quartos reservados para os pacientes terminais. – Eu vi e senti todo o seu sofrimento, toda a sua luta para permanecer viva, ela não queria se entregar, ela amava viver e eu amava sua persistência. – Mas ela continuou sofrendo por um bom tempo, definhando em seu leito, e eu sofrendo junto, torcendo, de verdade, para que ela encontrasse finalmente o seu merecido descanso. – Descobri que este poder não estava em minhas mãos, estava nas mãos dela. Enquanto ela insistisse em viver, nós dois continuaríamos sofrendo. Então comecei diariamente a vir, pegar em suas mãos e lhe pedir para que encontrasse sua paz... – Fez bem... - interrompeu o ser, sem parar de rabiscar seu livro. – Quando ela enfim partiu, após vários dias, eu que passei tanto tempo dentro deste hospital, me candidatei a uma vaga de faxineiro e iniciei a minha maratona de tentar levar um pouco de atenção a

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Antes das Últimas Palavras – Joel Garcia da Costa mais para essas pessoas que passavam pelo mesmo sofrimento que a minha esposa passou. – Os três pacientes que eu mais visitei, de fato cada um deles possui uma qualidade que muito me atrai, idênticas a que minha esposa possuía: altivez, determinação e carinho de sobra. Além disso, todos os três não estão preparados para desistir de viver, querem continuar lutando e não pretendem se entregar tão facilmente para a sua irmã... Foi inevitável que o estranho ser levantasse os olhos fundos, olhasse para o doutor e soltasse uma nova gargalhada medonha. – Eis que percebeu, não é mesmo? Eu vim aqui pesar toda a sua vida, colocá-la numa balança, entrar em sua mais profunda consciência e ver com meus próprios olhos se tudo por que passou, se tudo que realizou valeu a pena... – E qual é o seu veredito dona Vida? O estranho ser o encarou novamente por algum tempo, baixou os olhos para o livro e fez mais alguns rabiscos, depois o fechou num baque surdo. – Você saberá meu velho faxineiro, assim que abrir os seus olhos...?

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A LOIRA DO BONFIM Fábio Guastaferro

Revisão do conto “A Loira do Bonfim”, publicado na quarta edição da Mostra Ecos. 29/05/14 - Fugir. Lembrar de: “Meu nome é José Cardoso, e este é o meu último dia na Terra. Natasha disse que de hoje não passa. Que vamos fugir juntos, e juntos vamos viver para sempre. Não vejo a hora de sair daqui com a mulher que eu amo. Já passou da hora de sair deste lugar detestável cheio de gente doente. Já estou cansa-


A Loira do Bonfim – Fábio Guastaferro do de ficar nesta maldita maca, ouvindo de todos tudo o que eu não posso fazer. De repente inventaram uma doença que não existe e aquela gorda maldita me colocou neste hospital horrível. Mas isso tudo vai acabar. Em breve tudo vai mudar. Esta noite Natasha prometeu me ajudar a fugir, e juntos vamos sair deste lugar deplorável, desta cidade suja e mesquinha, quero mudar até deste país Miserável. Com a Natasha qualquer lugar do mundo ou fora dele vai ser o melhor lugar para mim. Mas antes de ir embora tenho que por fogo nestes papéis, Não quero deixar nada sobre Natasha para ninguém. Já basta o que falam dela. Só eu sei o quão verdadeira é esta mulher. “ ... 14/01/14 - Pegar o carro na oficina. - Pagar a taxa da cooperativa. - Comprar os peixes para a Márcia. Lembrar de: “Jornada dupla hoje, trabalhar até as 6 da manhã.” ... 20/01/14

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A Loira do Bonfim – Fábio Guastaferro - Pegar o carro na cooperativa de taxi. - Pagar a prestação atrasada da TV. - Depositar o dinheiro do Pedrinho. Lembrar de: “Não tinha percebido como a vizinha nova é gostosa. Mesmo parecendo um pouco mais velha é uma mulher de chamar a atenção. Que bunda que ela tem. Odeio quando chove e esses porras de passageiros entram no taxi sujando tudo. Os malditos conseguem sujar até o teto”... ... 29/01/14 Lembrar de: “A Márcia ficou “amiguinha” da Tânia, a vizinha gostosa. Não sei se é bom ou ruim para mim. Bom porque estou sempre vendo aquele bundão rebolando, ruim porque não posso dar na cara que aquela mulher me enche de tesão. A Márcia acabaria comigo. Maldita mulher. Se ainda fosse pelo menos gostosa como era antes, dava para dar umas metidas nela sonhando com a Tânia, mas gorda do jeito que está, ela me dá mais nojo do que prazer. Prefiro bater a santa punheta de cada dia e sonhar com aquela bunda enorme da Tânia sentando na minha cara.” ...

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A Loira do Bonfim – Fábio Guastaferro

05/02/14 - Médico às 14 horas. Lembrar de: “Será que a Márcia percebeu as encaradas que ando dando na Tânia? E a safada ainda corresponde. Mulher perigosa. Sabe que eu a como com os olhos e ainda fica me fustigando. Quando não é com um olhar atravessado é com um decote ousado ou um rebolado. Mas ela sabe que eu não posso fazer nada, por isso me provoca, fica me testando. Aposto que se eu meter as caras, ela me denuncia na hora para a Márcia. Ela é o tipo de mulher que adora ver o circo pegar fogo, com os bombeiros de férias e os hidrantes cuspindo gasolina. Essa safada esta me fazendo esfolar o pau todos os dias. Hoje passei lá pelos lados do cemitério Bonfim e vi uma loira maravilhosa. Engraçado que aquela área não é de aparecer mulher daquele nível. Lá é o reduto das mulheres de quatro bolas, duas em cima e duas em baixo. É muito difícil ter mulher fazendo ponto ali. Provavelmente estava perdida, pena que não deu para pegar. Mas que deu uma vontade tremenda de chutar a velhota que estava no carro para colocar aquela loiraça, deu.” ...

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A Loira do Bonfim – Fábio Guastaferro 07/02/14 - Trocar o óleo do carro. - Pagar o luminoso do taxi. Lembrar de: “Passei novamente lá pelos lados do Bonfim e vi novamente a loira andando próximo do muro do cemitério. Reduzi o carro para apreciar melhor aquelas coxas quando me surpreendi com ela fazendo sinal para que eu parasse. Encostei próximo ao passeio e destravei as portas de trás. Sem falar nada aquela beldade entrou no carro, e foi aí neste momento que aconteceu. Nunca acreditei em amor a primeira vista, mas naquele momento, naquela troca de olhares através do retrovisor interno do carro, no instante em que os meus olhos se encontraram com os olhos dela, eu me perdi naquele mar azul. Fiquei paralisado de amor, fiquei sem ação, sem palavras, completamente perdido. Não consegui dizer nada, apenas toquei o carro na direção do centro da cidade e, sem que eu percebesse o som de sua voz, ela me disse o seu destino. Eu não conseguia notar mais nada, vi apenas seus lábios vermelhos e carnudos se movendo e exibindo dentes de uma brancura maravilhosa. Tive que decidir se dirigia ou ficava maravilhado observando aquela deusa pelo retrovisor. Eu não andaria cem metros sem me acidentar se não me concentrasse no trânsito. E assim levei aquela loira maravilhosa para o alto das

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A Loira do Bonfim – Fábio Guastaferro Mangabeiras, outro ponto conhecido de prostituição da cidade. Se antes eu suspeitava que ela fosse puta, agora eu tinha quase certeza. Deixei-a próxima a uma conhecida boate de stripper, ela desceu do carro e pagou a corrida para mais. Antes que eu lhe entregasse o troco escutei, finalmente, a sua voz agradecendo seguida do barulho da porta do carro batendo. Nunca tinha visto uma mulher tão bonita como aquela. Acho que estou apaixonado.” ... 09/02/14 - Trocar o óleo do carro. Lembrar de: “Passei a noite e o dia inteiro pensando naquela loira. Vou dar umas voltas lá pelas bandas do cemitério para ver se a vejo por lá. Provavelmente deve morar por ali, naquele bairro. Hoje a Márcia veio com uns papos estranhos pro o meu lado. Falando da Tânia, dizendo que admira muito a mulher, que a acha bonita. Para mim, essa gorda maldita está jogando verde para colher maduro. Aposto que a Tânia deve ter falado alguma coisa sobre mim para despertar esse interesse na Márcia.” ...

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A Loira do Bonfim – Fábio Guastaferro 10/02/14 - Trocar o óleo do carro. - Médico retorno às 17 horas. Levar o cardiograma. Lembrar de: “Pegar o exame de cardiograma no laboratório. Voltei ao Bonfim hoje. Dei duas voltas no cemitério e nas ruas do bairro até que apareceu um passageiro que me levou para o outro lado da cidade. Desta vez, nada da loira. Acho que fui cedo demais. Vou voltar lá depois, só que mais tarde. Hoje dei uma encarada na Tânia, ela correspondeu, sorriu e fez biquinho com a boca gostosa. É uma safada mesmo. Me deixou morrendo de tesão. “ ... 15/02/14 Lembrar de: “Passei todos esses dias pensando naquela loira. Até dei umas voltas lá pelo Bonfim. Estou me acostumando a andar na região. Ontem levei um cara lá para ver as “bonecas”. Como eu estava na região, acabei pegando o mesmo cara na volta, com um maldito fedor de perfume barato. Queria sugerir a ele passar na rodoviária e tomar

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A Loira do Bonfim – Fábio Guastaferro um banho, aquele cheiro de puteiro iria denunciálo em casa, mas deixei para lá. Isso não é problema meu. A chata da Márcia inventou uma briga do nada comigo. Disse que eu estava olhando para a bunda da Tânia. Provavelmente é verdade, ela deve ter me pegado olhando em um momento de distração, viajando no sobe e desce daquelas nádegas. Mas, porra! Eu sou homem, tenho que olhar mulher mesmo. Quase disse que se ela não emagrecesse eu iria comer outra mulher, já estou cansando de ficar na mão. Mas não quis estender a falação.” ... 17/02/14 - Trocar o óleo do carro. Urgente!! Lembrar de: “ ” ... 22/02/14 - Pagar a prestação da TV – Atrasada de novo. - Depositar o dinheiro do Pedrinho. - Comprar os peixes para a Márcia.

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A Loira do Bonfim – Fábio Guastaferro - Futebol, cinema ou kart? Preciso fazer alguma coisa para sair de casa. Lembrar de: “Depois de muito rodar pela região do cemitério do Bonfim finalmente coloquei aquela maravilha de mulher dentro do meu carro novamente. Já tinha dado varias voltas em torno do cemitério e nada, quando retornava à rua do muro de trás do cemitério lá estava ela, no mesmo local de antes. Deve morar bem próxima dali, pois o quarteirão que circulei era pequeno e quando ela apareceu não tinha 5 minutos que eu tinha passado por ali. Desta vez já fui ousado e aproximei o carro dela, quase parando destravei as portas. Ela se abaixou olhando para dentro do carro e sorriu, o sorriso mais lindo do mundo e eu derreti, fiquei novamente sem ação, sem palavras, completamente encantado. Ela perguntou, sem que eu percebesse o som de sua voz, se o carro estava livre. Eu gaguejei que sim ao mesmo tempo que balançava a cabeça em sinal de positivo. Ela entrou no carro, sentou no mesmo lugar que havia sentado na outra vez e me olhou pelo retrovisor. Os nossos olhos se encontraram e me perdi completamente outra vez. Acho que cheguei a babar antes de responder um sonoro “Sim senhora”. Era o destino que eu ouvia sem perceber o som. Era para o Mangabeiras que deveria tocar. Tentei arrancar com o carro desligado, não percebi quando o motor morreu. Novamente tive que

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A Loira do Bonfim – Fábio Guastaferro me decidir: Ou esquecia um pouco aquela mulher ali atrás ou seria impossível tirar o carro do lugar. Com um tremendo esforço foquei na direção e parti rumo à Avenida Afonso Pena. Após alguns minutos relaxei um pouco, mesmo sentindo o meu coração explodindo no peito de pura emoção, as mãos suando, a gagueira, a incrível necessidade de falar alguma coisa sem saber direito o que deveria falar. Eu já tinha me sentido assim antes, há muito tempo atrás. Senti isso apenas uma vez, quando encontrava com a Aline, uma namoradinha dos tempos do colégio. Acho que foi a única vez que me apaixonei. E agora acontecia de novo. Eu tinha que falar com aquela mulher. Agora que todos os meus sentidos haviam voltado a funcionar normalmente, eu conseguia sentir o doce perfume de flores do campo que enchia todo o taxi. Sentia minhas mãos suando ao deslizar no volante e os batimentos do meu coração. Formulei por diversas vezes o que iria falar com ela, mas acabei dizendo algo totalmente diferente e sem sentido. Perguntei o que uma mulher como aquela estava fazendo em um lugar como aquele. Ela se limitou apenas a sorrir e eu fiquei mais sem graça do que piada em enterro. No próximo sinal que parei eu resolvi novamente falar, desta vez com mais cautela, comentei sobre o tempo que estava seco e frio para aquela época do ano. Ela sorriu novamente, mas desta vez

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A Loira do Bonfim – Fábio Guastaferro me olhou diretamente nos olhos pelo retrovisor. Senti certa cumplicidade da parte dela e que, sem dizer nada, concordava com o que eu dizia. Também me senti mais à vontade e confiante e quando chegamos ao nosso destino me ofereci para levá-la de volta se fosse preciso. Desta vez pude ouvir claramente a sua voz de harpa de anjo dizendo que iria sair tarde e que talvez eu já estivesse descansando quando ela fosse voltar. Retruquei dizendo que tinha acabado de começar o turno, o que era mentira, e que pretendia trabalhar por 12 horas naquela noite. Ficamos combinados de nos encontrarmos então ao final da madrugada, entre às 4:30 e 5:00 horas da manhã. Tinha certeza que ela era puta, mas como perguntar para uma mulher se ela é puta? Como propor um programa para uma mulher sem ela se insinuar, sem ela deixar pistas ou mesmo avisar que é uma mulher da vida. Ainda mais naquela noite que ela mais parecia uma colegial do que uma garota de programa. Ela vestia um moletom daqueles da GAP ou HardRockCafé branco, que pouco destacava os seus peitos, mas dava para notar que era uma loira bem peituda. Uma calça de brim branca atochada no rego, e uma sandália que subia pelas canelas. O seu cabelo era volumoso e estava amarrado em um rabo de cavalo. Quase não tinha pintura no rosto, apenas um batonzinho que realçava o vermelho de seus lábios

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A Loira do Bonfim – Fábio Guastaferro e um contorno de lápis preto em volta dos olhos que deixava ainda mais destacado aquele azul anil. Fiquei observando ela caminhar em direção à casa noturna. A porta estava um pouco movimentada e eu não notei se ela havia entrado. Resolvi rodar. Eu tinha mais de 5 horas para trabalhar antes de voltar àquele ponto de encontro para levar aquela deusa para casa ou para qualquer lugar onde ela quisesse ir. Passei a noite rodando e pensando nela. Ela não parecia ser uma mulher muito nova, mas também não era uma mulher velha. Provavelmente uma recém-formada, que ganhava a vida na profissão mais antiga do mundo. Uma mulher bonita como aquela não precisava fazer esforços para ter dinheiro. Ela tinha uma mina de ouro no meio das pernas, bastava saber explorá-la. Trinta minutos antes do combinado eu já estava na porta da boate. E ainda esperei mais de uma hora até que ela aparecesse. Ela não saiu da boate, veio da parte de cima do quarteirão, onde antes eu a tinha deixado. Quando entrou no carro sem dizer nada eu senti a sua presença como se ocupasse todo o taxi, ou talvez fosse o seu perfume que me embriagava novamente. Olhei para trás com o maior sorriso do mundo e ela, de uma forma meiga, mas firme, me repreendeu dizendo que me esperava no mesmo lugar de antes, que quase me abandonou. Na hora sugeri

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A Loira do Bonfim – Fábio Guastaferro que ela anotasse o meu celular, e passei o meu cartão avisando que poderia me ligar qualquer hora do dia e da noite, que eu estaria pronto para atendê-la, mesmo se estivesse de folga. Ela percebeu a intenção de cantada e apenas me encarou, senti as minhas bochechas queimarem de vergonha. Constrangido liguei o carro e toquei na direção do Bonfim sem ela falar nada. Chegando à rua de trás do cemitério por onde corre por quase 1 km o muro alto e branco, perguntei a ela onde morava e que iria deixá-la na porta de casa, se possível dentro de casa, deitada na cama sob as cobertas. Ela sorriu o riso mais lindo do mundo de novo e disse que poderia me deixar logo à frente, no mesmo lugar que eu a havia pego antes. Conclui que ela morava em alguma casa do outro lado da rua, já que do lado que estávamos só havia o paredão branco. Encostei do lado contrário ao do muro, mesmo sendo na contra mão. Ela pagou, com uma nota que passava o valor da corrida e recusou troco deixando uma gorda gorjeta. Fiquei sem graça de aceitar e insisti em devolver o dinheiro. Ela praticamente ignorou e se despediu com um sorriso e um “bom dia”. Fiquei parado, esperando ela ir a alguma direção, mas ela ficou me olhando, esperando eu ir embora também. Foi aí que num impulso que eu não sei de onde veio, eu a chamei e perguntei o seu nome, assim de uma forma seca. Ela me encarou novamente com

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A Loira do Bonfim – Fábio Guastaferro aquele olhar hipnotizante e eu fiquei sabendo o seu nome sem nem mesmo ouvir o som da sua voz. Natasha, ela se chama Natasha. Liguei o carro e fui embora. Antes de chegar ao final do quarteirão eu estava me xingando de burro e idiota. Porque não perguntei mais coisas? Porque não rendi mais a conversa? Ela estava ali parada, ela queria com certeza mais alguma coisa, mas eu, idiota que sou, fui embora correndo de vergonha. Poderia pelo menos ter combinando de pegá-la amanha. Agora já era tarde. Voltar lá provavelmente não a encontraria mais. Sem contar que sentia os meus olhos pesarem de cansaço, também o céu já mudava a sua coloração. Era o sol ameaçando sair no horizonte, e eu estava completando as tais 12 horas que disse que faria naquele turno.” ... 23/02/14 - Depositar o dinheiro do Pedrinho. - Pagar a prestação da TV. Lembrar de: “Rodei praticamente na região do Bonfim, sempre que saia de lá voltava para lá. Nada da Natasha. Provavelmente não trabalha todos os dias, ou deve ir para outros lugares em horários diferentes, ou nem deve morar por ali, uma mulher daquelas não moraria naquele lugar. O

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A Loira do Bonfim – Fábio Guastaferro Bonfim é um bairro antigo e simples e Natasha é mulher de zona sul. Provavelmente é sua avó que mora por ali.” ... 25/02/14 - Depositar o dinheiro do Pedrinho. - Levar a Márcia no médico. - Fazer feira depois do serviço. Lembrar de: “ ” ... 04/03/14 - Aniversário do Pedrinho - Depositar o dinheiro do Pedrinho. Lembrar de: “Briguei feio com a Márcia hoje. Esqueci de mandar o dinheiro do Pedrinho para pagar o Aluguel. Fiquei de mandar mais dinheiro este mês, pois ele faz aniversário aí já mandava o presente junto. Prefiro evitar ficar andando com dinheiro para cima e para baixo, mas a gorda não entende E ainda vem com assunto da Tânia no meio, dizendo que fico dando em cima das amigas dela. A mulher é gostosa, mas sei que é confusão, por isso estou evitando. Aposto que a Tânia notou

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A Loira do Bonfim – Fábio Guastaferro isso e agora que perdeu audiência comigo quer me queimar com a minha mulher.” “Sonhei com a Natasha. Penso nela todos os dias. Todos os dias vou ao Bonfim e no alto da Afonso Pena lá no Mangabeiras procurar ela próximo da boate, mas a mulher sumiu. Não tiro ela da cabeça. Hoje que sonhei com ela, chegou a dar saudades. O sonho foi maravilhoso, sentia ela segurar o meu pau enquanto enfiava toda a sua língua em minha boca. Não me lembro bem dos detalhes mas parece que ela me fez um boquete, só que ela estava numa posição estanha, os pés e as mãos no chão, como se fosse um animal, tipo uma vaca ou cachorro chupando o meu pinto. Acordei com o pau rachando de duro, igual uma pedra, provavelmente devo ter dado umas cutucadas na gorda a noite, e ela acordou com a macaca, pronta para a briga.” ... 10/03/14 -Comprar os peixes da Márcia. - Pagar o boleto da Cooperativa. - Futebol com os amigos. Lembrar de: “Faz um tempão que não bato uma bolinha, mas ainda tenho a experiência de

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A Loira do Bonfim – Fábio Guastaferro outrora, talvez não tenha a habilidade que tinha antes, mas conheço as manhas da gorduchinha. Bater uma bola vai ser ótimo. Estou praticamente trabalhando no Bonfim, passo pelo cemitério no mínimo umas 20 vezes por turno. Nada da Natasha. Anteontem achei que a tinha visto entrar num outro carro, outro táxi. Não é possível que ela esteja fazendo isso comigo. Estou sempre por ali pronto para atendê-la e ela vai entrar em outro táxi. Se pelo menos eu tivesse pegado o telefone dela. Estou completamente apaixonado por ela, agora sonho com a Natasha até acordado. ... 13/03/14 - Passar na cooperativa para pagar o boleto. - Comprar uma bolsa de gelo. - Ir ao médico. - Passar no supermercado para comprar cera para o carro. - Passar no Bonfim entre 8 e 10 da noite. Lembrar de: “” ...

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A Loira do Bonfim – Fábio Guastaferro 16/03/14 - Ir ao médico. - Passar a cera no carro. Lembrar de: “Aquela porrada que levei na perna machucou mesmo. Pelo jeito vou ter que ficar de molho em casa alguns dias até recuperar, trabalhar com dor tá foda. Acho que vi Natasha esses dias no Bonfim. Vi pelo retrovisor do carro, e quando voltei ela já não estava mais lá. Esta mulher está me enlouquecendo, só não parei ainda de trabalhar porque vou todos os dias ao Bonfim atrás dela”. ... 22/03/14 - Fisioterapia. - Pagar a prestação da TV. - Depositar o dinheiro do Pedrinho Lembrar de: “” ... 24/03/14 - Fisioterapia. - Pagar a prestação da TV .

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A Loira do Bonfim – Fábio Guastaferro Lembrar de: “Hoje eu vi a Natasha. Hoje foi um dos melhores dias da minha vida. Fazia tempo que não me sentia tão feliz e realizado. Eu amo essa mulher, agora tenho certeza disso. Quando tiver tempo escrevo sobre o nosso maravilhoso e demorado encontro.” ... 25/03/14 - Fisioterapia. - Depositar o dinheiro do Pedrinho. Lembrar de: “Vou ver a Natasha hoje de novo. Ela não me deu o seu telefone ainda, mas estamos caminhando bem. Hoje a gorda da Márcia falou umas merdas comigo, mas eu nem ouvi direito, ela disse que estou parecendo um doente. Doente está ela, obesidade mórbida. Quase falei isso com ela, mas não quis render. A Márcia é uma das ultimas pessoas que quero ver ultimamente, até a sua voz me irrita. Por isso vamos falar da Natasha. Ontem, dia 24 de março foi o melhor dia da minha vida. O dia que mudou o meu destino. Sei agora que quero viver par sempre com aquela mulher. Naquele dia saí cedo para trabalhar. Não estou aguentando ficar em casa. Passei na fisioterapia e depois no café, fiquei no ponto do centro da cidade próximo a rodoviária até dar a hora de eu ir

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A Loira do Bonfim – Fábio Guastaferro para o Bonfim. Fiz poucas corridas e quando o dia foi começando a escurecer tomei o rumo do cemitério. Já tinha rodado bastante pelo bairro, passei pela rua de trás do cemitério umas 20 vezes, fiz algumas corridas próximas sempre voltando para a região. Já era quase 10 horas da noite quando vi lá longe aquela beldade. Uma loira alta se destacava no passeio a uns 200 metros à frente. Até parecia uma miragem naquela rua comprida. Acelerei o carro com medo de alguém chegar na minha frente e roubar o meu prêmio há tanto tempo cobiçado. Encostei o carro e ao me ver ela sorriu, como se já tivéssemos intimidade. Destravei a porta e ela entrou, sentando no banco de trás. Desta vez não olhei pelo retrovisor, já me virei no banco e olhei diretamente para ela, bati com força naqueles gigantescos olhos azuis. Cheguei a sentir calafrios de emoção. Ela estava sedutoramente linda naquela noite. Estava vestida para matar, para dominar, fazer legiões rastejarem aos seus pés atendendo a qualquer que fossem suas vontades. Usava uma calça branca apertada que realçava seus quadris empinando aquela bunda redondamente maravilhosa. Mesmo a noite estando um pouco fria ela usava apenas um corpete que fazia seus peitos se avolumarem no decote, hipnotizando até cegos. No pescoço, uma gargantilha que descia até próximo do colo do seio. O cabelo estava solto,

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A Loira do Bonfim – Fábio Guastaferro volumoso, mas extremamente charmoso e sedutor. Era a mulher mais linda do mundo, e naquele momento, a mulher mais linda do mundo sorria para mim. Ainda embriagado pela sensação do encontro, gaguejei perguntando como ela estava e para onde queria ir. Ela falou sem que eu percebesse o som de sua voz, eu estava totalmente concentrado naquela visão do paraíso, mas sabia que iríamos novamente para o alto da Afonso Pena. No caminho, já mais relaxado, comecei a puxar papo, fazendo diversas perguntas. A primeira delas foi se ela morava por ali, na região do Bonfim, e se ela trabalhava na Afonso Pena. Queria perguntar também se ela fazia programa e quanto ela cobraria uma noite. Estava disposto a vender o táxi, tudo que eu tinha dentro de casa, me endividar até a décima geração para ter uma noite com aquela beldade, mas não tive coragem de perguntar isso. Ela também estava mais á vontade comigo, mas se desvencilhava das minhas perguntas, muitas vezes me deixando com mais dúvidas, ou respondendo com outras perguntas. A nossa conversa rendeu e eu acabei falando mais de mim do que fiquei sabendo sobre ela. Mesmo andando devagar logo chegamos ao já conhecido destino. Parei na porta da boate de stripper, na cara dura. Queria ver se ela iria entrar naquele lugar. Ela não tinha me respondido preci-

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A Loira do Bonfim – Fábio Guastaferro samente o que iria fazer por ali, e eu estava com vergonha de ficar perguntando demais. Ainda mais quando ela mostrava tanto interesse em mim. Ela pagou a corrida e desceu exatamente onde parei. Quase que desci e fui abraçá-la para me despedir, mas fiquei quieto, olhando-a de dentro do carro, esperando qual rumo ela iria tomar. Ela ficou ali parada no passeio, também olhando para mim e sorrindo, quando já passava quase dois minutos naquela situação meio constrangedora ela tomou a iniciativa e se abaixou olhando para dentro do carro, perguntando se eu poderia buscá-la por volta das duas e trinta da madrugada. Respondi prontamente que sim, e quase perguntei por que ela iria sair mais cedo hoje, mas fiquei na minha, não era da minha conta e eu hora nenhuma queria ser indiscreto com aquela mulher. Ela me orientou a parar do outro lado da avenida, na direção que voltava para o centro. Sem perceber, após concordar com a cabeça, eu dei partida no carro e ela ficou ali no passeio, olhando eu virar no primeiro quarteirão. Ao retornar para a Avenida e passar em frente à boate ela já havia sumido. Será que ela entrou? Porque pegar ela do outro lado da Avenida? Nesta região é comum diversas garotas de programa fazerem pontos na beira da avenida, e Natasha do jeito que estava vestida parava até avião no céu. Seria ela uma dessas

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A Loira do Bonfim – Fábio Guastaferro garotas de beira de asfalto? Impossível! Ela era bonita demais até mesmo para estar dentro daquela boate. Ela tinha que ser garota de catálogo, acompanhante de luxo para altos executivos, não era concebível ela ser mais uma puta do alto da Afonso Pena. Fiquei rodando por ali naquela região. Neste intervalo fiz diversas corridas e a última me levou para longe. Voltei correndo, inclusive recusando passageiros, já estava atrasado no horário que tinha combinado com Natasha. Quando passei na frente da boate olhei tanto de um lado quanto do outro e não a vi. Cheguei a suar frio, achando que ela tinha ido embora e eu tinha pisado na bola com ela. Não poderia ficar novamente tanto tempo sem vê-la. Precisava pelo menos pegar algum contato, já estava disposto a declarar o meu amor a ela. Quando, após fazer o retorno, avistei ao longe aquele corpo maravilhoso todo vestido de branco parado na beira do meio fio. Tinha dois carros encostados próximos a ela, provavelmente eram homens atrás de programas e provavelmente achavam que ela estava fazendo ponto. Encostei logo atrás e dei um pequeno toque na buzina. Ela olhou na minha direção e veio até o carro, desta vez ela entrou na porta da frente. Nem a olhei direito e já desviei do carro à frente saindo para o fluxo da avenida, descendo na direção do centro. Quando já estávamos a alguns

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A Loira do Bonfim – Fábio Guastaferro quarteirões de distância comecei a puxar assunto, perguntando como foi à noite e se ela estava bem. Já rumava para o Bonfim planejando como iria pedir seu telefone, quando ela mudou o rumo do nosso destino, pediu para deixá-la no bairro Carlos Prates, próximo do bairro Bonfim. Na hora fiquei tão intrigado que quase perguntei por que ela tinha alterado o trajeto, se ela morava lá, ou o que iria fazer naquele bairro. Não aguentei e acabei soltando um “Pensei que você morasse no Bonfim”. Ela sorriu e desconversou, dizendo que o Bonfim e o Carlos Prates são bairros da área dela, que ela está sempre por ali. Ela desceu na frente de uma casa bem velha, que parecia até uma casa abandonada. Despediuse com um beijo no meu rosto e perguntou se eu poderia pegá-la no dia seguinte por volta das 21 horas, nos muros de trás do cemitério do Bonfim. No momento do beijo quase a puxei e lhe beijei a boca, mas fiquei paralisado com a sua atitude. Sugeri que poderia pegar ela ali naquela rua, e perguntei novamente se ela morava ali ou se morava no Bonfim. Ela fechou o sorriso, senti que era devido a minha insistência em perguntar onde ela morava. Repetiu que me esperava no Bonfim no local combinado. Foi então que lhe pedi o numero de seu telefone. Ela me deu uma desculpa super esfarrapada, dizendo que perdeu o celular e que ainda não tinha arrumado outro, provavelmen-

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A Loira do Bonfim – Fábio Guastaferro te iria mudar o número, mas assim que tivesse ela me passaria. E que eu não deveria me preocupar em encontrá-la, poderia deixar que ela me encontraria. Na hora me senti desejado e quase sai do carro e a abracei, mas ela foi logo abanando a mão, dando tchau, ainda no passeio se despedindo de mim. Não queria arrancar, queria vê-la entrar na casa sã e salva mas foi um movimento automático meu, liguei o carro e arranquei. Quando cheguei à esquina olhei pelo retrovisor e ela continuava ali, parada no passeio, no mesmo local que a tinha deixado. Ao terminar de descer a rua, notei que, se traçasse uma linha reta, daria diretamente atrás do muro do Cemitério do Bonfim. No dia seguinte – 23 de março, estava eu por volta das 20:00 rodando as já conhecidas ruas do bairro do Bonfim. Parei bem em frente ao ponto marcado e fiquei esperando ela aparecer 30 minutos antes do combinado. Recusei duas corridas neste interim, uma delas para um bairro longe, que iria me render uma bela grana, mas valeria à pena esperar. Passou 20 minutos quando a vi chegando, ao longe caminhando ao largo do muro do cemitério, a maravilhosa loira do Bonfim. Não arranquei o carro, sabia que era ela, mas por que ela vinha de tão longe, por que não marcou próximo de onde estava? Por que andar aquele caminho todo? Dava

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A Loira do Bonfim – Fábio Guastaferro quase uns 300 metros. Quando chegou, foi logo abrindo a porta da frente e entrando, e sem nenhuma cerimônia me beijou no rosto. Fiquei tão surpreendido que não consegui esboçar reação nenhuma. Senti-me pegando uma namorada na casa de seus pais. Sem dizer nada fui arrancando o carro devagar e perguntei se o destino seria o mesmo de sempre. Ela disse que sim, mas por enquanto não. Fiquei sem entender, com cara de confuso e ela perguntou se eu estava ocupado, e o que iria fazer nas próximas duas horas. Respondi que estava à disposição dela, ela então sugeriu pararmos num bar, dentro de uma galeria no centro. Ela disse que iria chegar mais tarde ao seu compromisso e que se eu poderia lhe fazer companhia até dar a sua hora. Concordei de imediato nem acreditando naquela proposta. Toquei na direção do centro muito a vontade com ela. Natasha também já estava bem á vontade e falante. Falava da noite de Belo horizonte, das pessoas que a fascinavam, da vida em sociedade. Confesso que não entendia muito o porquê daquele papo sem nexo, mas eu só queria saber da companhia daquela mulher, e quanto mais ela falava, quanto mais ela ficava á vontade comigo, melhor. Paramos próximo da entrada e caminhamos até o restaurante de braços dados. Senti-me desfilando com aquele mulherão. Não tinha um homem que não olhava para ela, e eu me sentindo o

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A Loira do Bonfim – Fábio Guastaferro homem mais macho do mundo por ter conquistado a fêmea mais desejada. O bar - restaurante estava vazio ainda àquele horário, sentamos num canto em meio à penumbra e ela escolheu uma bebida de dose que eu nem sei dizer o nome direito. Eu pediria uma cerveja se não estivesse trabalhando, pedi apenas uma água tônica. Sugeri que deveríamos marcar, além daquela noite, outro encontro, mas que eu não estivesse trabalhando e ela não tivesse compromisso. Ela sorria sempre que eu falava, e falava sempre sorrindo. Eu me sentia o homem mais feliz do mundo ao lado da mulher mais linda do mundo. As horas passaram voando e ela falava de tudo menos dela, já eu só falava de mim e dos meus problemas. Só não falei do meu sentimento por ela, mas isso já era visível, ela já tinha notado como eu olhava para ela. Apesar de que, qualquer homem olhava para ela daquele jeito, logo, eu não era novidade. Quando me dei por conta, já era mais de duas da manhã, se ela tinha algum compromisso tinha perdido, e eu também já não pretendia trabalhar mais aquela noite. Inclusive já me entregava aos primeiros copos de cerveja. Ela estava bebendo desde a hora que sentou e a bebida parecia que a deixava bem mais relaxada, sempre me tocando. Nas mãos, nas pernas, às vezes me abraçava, sempre com um clima de brincadeira, e sempre

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A Loira do Bonfim – Fábio Guastaferro que ela se aproximava a vontade de agarrá-la e beijá-la era enorme. Foi num clima descontraído que soltei quase sem querer que estava apaixonado por ela. Ela ficou séria, me olhou nos olhos com aqueles olhos azuis gigantes e disse que eu não poderia me apaixonar por ela. Eu era um homem casado, pai de família, tinha responsabilidades e pessoas dependendo de mim. Que ela não serviria para mim, que iria acabar com tudo. Mas falava de uma forma tão sedutora, tão sexy, que me fazia desejar isso. Desejar que ela explodisse com tudo, que fodesse a minha vida, desde que ficasse comigo para sempre. Eu trocaria qualquer coisa por aquela mulher. E não apenas pensei nisso. Eu disse isso a ela. Ela sorriu um sorriso largo, segurou o meu rosto com as duas mãos espalmadas e me beijou, um longo e apaixonado beijo. Quanto tempo que eu não beijava uma mulher. A última vez que beijei assim, de forma apaixonada, sentido o contato das línguas se tocando foi quando o Pedrinho sofreu aquele acidente de moto, e eu e a Márcia quase que morremos de medo de perdermos nosso filho. Quando ele saiu do CTI e estava fora de perigo fomos para casa, então eu beijei a gorda como antigamente. Mas não era hora de pensar na Márcia, não naquela hora. Eu só queria curtir aquele momento, sentir o gosto quente da saliva

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A Loira do Bonfim – Fábio Guastaferro daquela mulher. Sua língua tocando a minha, entrando na minha boca de uma maneira delicada e ao mesmo tempo avassaladora. Num rompante a envolvi em meus braços e a beijei um longo beijo. Não acreditava que estava beijando aquela mulher. Naquele momento estávamos nós dois, ali, num canto se beijando como um casal adolescente que ainda não conhece as virtudes e penúrias do amor. Quanto mais eu a beijava mais eu puxava ela para cima de mim e ela correspondia, me agarrando e me beijando com beijos quentes e molhados. Mesmo em um canto mais reservado, o nosso pega estava chamando a atenção. Vez ou outra eu dava uma olhada ao redor, e sempre tinha alguém olhando para gente. Ainda mais que comecei a explorar o corpo dela, tocando-lhe principalmente aquelas coxas maravilhosas. A suas pernas ficavam quase que totalmente de fora naquela minissaia, e quanto mais eu subia a minha mão mais ela me beijava e gemia, me tentando a colocar a mão por baixo de sua roupa. Já sentia o calor que emanava pelo meio de suas pernas quando o garçom se aproximou perguntando se estávamos bem servidos e se queríamos mais alguma coisa. Ela meio sem graça pediu mais uma dose. A partir deste momento, era só a gente começar a se beijar o garçom vinha. Percebemos a nossa inconveniência e eu propus irmos para um local mais reservado. Ela disse que sim, que iria para um lugar mais

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A Loira do Bonfim – Fábio Guastaferro reservado, um lugar chamado “Quarto de minha casa”, mas que, infelizmente, iria sozinha. Justificou dizendo que já tinha feito loucuras demais por uma noite, mas que ainda tinha que resolver seus problemas. Providenciamos de sair e já no carro, ela pediu para deixá-la no alto da Afonso Pena. Não resisti e perguntei o que ela fazia naquele local. Ela respondeu meio que se desvencilhando que eram negócios e que com o tempo ela me explicava. Ela não era puta. Não podia ser uma puta, talvez trabalhasse com elas, mas eu não conseguia imaginar uma mulher daquela batendo ponto na Afonso Pena. E agora eu já não permitiria isso. Só de imaginar outro homem tocando e beijando aquela mulher já ficava louco de ciúmes. Ela logo desviou o assunto da conversa falando sobre o local em que estávamos. Novamente falava sobre as pessoas e a noite de Belo Horizonte. Ela começou a me fazer perguntas mais pessoais, como por exemplo, a minha relação com a minha mulher, e eu fui contando tudo para ela. Quando estava quase dizendo que já pretendia me separar da Márcia para ficar com ela chegamos ao destino. Parei bem na porta da boate e perguntei se ela iria entrar ali, ainda mais naquele horário, eram quase 4 da manhã. Ela disse que tinha que resolver alguns negócios naquelas redondezas sem definir local algum e completou dizendo que eu poderia ir

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A Loira do Bonfim – Fábio Guastaferro embora descansar. Na hora neguei, retrucando que iria ficar ali aguardando ela, ou melhor, que iria com ela onde é que fossem os seus negócios. Que aquele horário era perigoso demais para uma mulher como ela ficar andando sozinha. Ela fechou o tempo, com um tom enérgico disse que sabia muito bem se cuidar, que era melhor eu ir embora. Falou também que tinha o meu telefone e que me ligaria para combinarmos um encontro antes mesmo do que eu esperava. Na hora me senti repreendido, e realmente ela tinha razão, eu estava cansado. Além do mais, não tínhamos nada, foram apenas alguns beijos, para ela, talvez não tenham significado nada. Eu não tinha que ficar no pé da moça, ainda mais agora que havia iniciado o processo da conquista. Hoje, antes mesmo de eu levantar da cama, já tinha três chamadas no meu celular e uma mensagem. Na mensagem estava escrito. “No mesmo horário e no mesmo local. Ass: Natasha.” Na hora retornei ao numero que ela ligou, chamou até desligar. Tentei umas quatro vezes e nada. Daqui a pouco vou encontrá-la, desta vez, um encontro verdadeiro. Sinto-me um adolescente andando nas nuvens. Mas tenho que ser super discreto, ninguém pode imaginar. Sou um homem casado, e isso daria um bafafá danado.” ...

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A Loira do Bonfim – Fábio Guastaferro 27/03/14 - Fisioterapia. _ pagar a prestação da TV. - Depositar o dinheiro do Pedrinho. Lembrar de: “ O encontro foi maravilhoso. Ontem antes de sair, quase que aquela intrometida da Tânia coloca tudo a perder. Cismou de me elogiar na frente da Márcia dizendo que estou mais bonito, com um semblante mais alegre, mais jovem. A Márcia já veio perguntando por que iria trabalhar com aquela roupa, e eu quase não consegui uma desculpa convincente. Dei uma rateada, mas larguei as duas olhando atravessado e fui correndo encontrar Natasha. Tirei o dia de folga, fiquei me preparando para o encontro. Fui até no barbeiro. Como não fui trabalhar deixei para sair de casa um pouco mais tarde, o que despertou ainda mais a atenção da Márcia. Fodas para a Márcia, ultimamente eu mal tenho notado aquela mulher. Passei as duas últimas noites sonhando com Natasha. Na primeira, antes do encontro quando nos beijamos pela primeira vez no restaurante, sonhei a noite inteira que a beijava. Podia até sentir o seu cheiro, o seu toque. Já nesta noite, depois de nos vermos, sonhei a noite inteira que continuávamos a transar.

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A Loira do Bonfim – Fábio Guastaferro O estranho é que não me lembro bem como terminamos o encontro. Lembro nitidamente de encontrá-la próximo do muro do cemitério, e ela estava linda, completamente linda. Novamente toda de branco, mas com tons de dourado na roupa. Uma verdadeira princesa. Fomos para o motel mais caro da cidade. Cheguei a propor irmos à um restaurante, mas ela já foi logo dizendo que não queria garçons atrapalhando o nosso encontro. Porque não vamos direto para um lugar “mais reservado”, ela disse. Topei de imediato e toquei para um motel mais afastado, provavelmente um dos mais caros que tem por aqui. O encontro foi de um casal apaixonado que não se via há vários meses. Ela me beijava como se fosse me devorar, e eu correspondia chupando sua língua e lambendo seus lábios. Em instantes estávamos nus, antes mesmo de acendermos as luzes do quarto, e, ali mesmo, na entrada, comecei a penetrá-la. Acho que gozei nas primeiras estocadas, lá dentro dela mesmo, mas não perdi a ereção. Fazia anos que eu não trepava daquele jeito. Para falar a verdade, acho que nunca transei daquele jeito. Ela era tão boa de cama quanto bonita. Eu realmente estava despreparado, ou então ela tinha muita experiência. Dominou-me o tempo todo, e ditava o ritmo da transa, sempre sugerindo e mudando as posições. Devemos ter

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A Loira do Bonfim – Fábio Guastaferro transado num ritmo insano por uns 40 minutos quando dei a primeira parada. Ela me abraçou dizendo que não poderia ficar muito tempo, mas queria tomar novamente o meu liquido vital. Confesso com certa vergonha que já estava bem cansado e foi ela que fez todo o esforço, devo ter gozado umas três vezes aquela noite. Quando ela se despediu eu estava praticamente dormindo, dizendo que voltaria a me ligar. Eu mal conseguia falar de tão cansado que estava. Tentei protestar a ideia de ela ir embora naquele momento, mas ela se foi, e eu fiquei praticamente desmaiado. Nem sei como cheguei em casa. Estava estafado. Não me lembro de como saí do motel, o quanto paguei nem o que disse a Márcia quando cheguei.” 03/04/14 - Fisioterapia. Lembrar de: “Hoje faz uma semana que não vejo a Natasha. Mas parece que estou vivendo uma overdose dessa mulher. Mesmo não encontrando ela, penso nela todos os dias, todas as horas, todos os minutos, todos os segundos. Dormindo e acordado. Vejo a Natasha em tudo quanto é lugar

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A Loira do Bonfim – Fábio Guastaferro e sonho com ela todas as noites, diversos tipos de sonhos, de eróticos a pesadelos. Outro dia sonhei que ela se deitou entre eu e a Márcia, fiquei imaginando como ela entrou, assustado com tamanha ousadia de se deitar comigo na mesma cama em que a Márcia estava deitada, mas a sensação de perigo me fez enlouquecer de prazer. Meti nela ali mesmo. Enquanto a Márcia roncava, eu gozava. Outro sonho louco que tive foi ela dizendo que iria morar aqui em casa, comigo, com a Márcia e com o Pedrinho. Eu não aceitava misturar essa vida, ou era Natasha, apenas Natasha, ou mais nada. Outro dia tive um pesadelo com ela, enquanto a penetrava, ela por cima, sentada em mim, senti pelos grossos e grandes em suas pernas, abaixo dos joelhos roçando nas minhas costelas até a minha pele ficar irritada. Mas eu não me importava, estava concentrado demais no sexo, sentindo a buceta dela mastigando o meu pau.” 04/04/14 Lembrar de: “Ontem vi a Natasha, não foi sonho, não foi delírio, foi real. Foi maravilhoso. Venho rondando o Bonfim todos esses dias, agora fico indo e vindo do Carlos Prates para o Bonfim e vice e versa. Já até tirei a placa do Taxi, para não ser

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A Loira do Bonfim – Fábio Guastaferro incomodado com passageiros inconvenientes. Fico a atravessar a Avenida Pedro II de um lado para o outro atrás da Natasha. Ontem em uma de minhas “rondas” vi ela, ali parada, como da primeira vez, do lado do muro do Cemitério, toda de branco, no mesmo horário de sempre esperando um taxi. Senti o coração sair pela boca, deu até suadeira. Acelerei o carro por medo de algum taxista intrometido parar na minha frente e levar embora a minha mulher. Encostei bem a sua frente e sai todo esbaforido em sua direção. Cheguei gritando e choramingando ao mesmo tempo porque ela tinha sumido, o que tinha acontecido, que eu estava ficando louco de tanto procurá-la. Ela não disse nada, apenas pegou o meu rosto entre as palmas de suas mãos e beijou a minha boca como da primeira vez. Na hora desarmei. Quase que entrei em transe. Meu Deus, como era bom. No momento que senti sua língua penetrando em minha boca me senti em paz, tranquilo, completamente pleno e feliz. Ela me pegou pela mão como se eu fosse um garotinho e disse: “Vamos”. Não sei como cheguei ao motel, ou como sai. O que tenho na memória são flashes de lembranças com muito sexo, muita bebida e até drogas. Meu Deus, ela deve ter me dado algo para fumar ou cheirar porque foi uma noite muito louca, muito louca mesmo. Acho que estivemos em dois ou três

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A Loira do Bonfim – Fábio Guastaferro lugares diferentes. Inclusive em um deles tinha outras pessoas, homens e mulheres, mas não me lembro de transar com outras pessoas, apenas com Natasha. Também não me lembro com detalhes do sexo com ela, mas não me sai da cabeça ela me sugando, me sugando pela buceta. A sensação que eu tinha era que eu era totalmente sugado pelo pau através da buceta dela. Outra coisa estranha foi os chifres, onde foi que ela arrumou aquela fantasia com chifres? Estava super sensual e me dominava de um jeito que eu não conseguia reagir. A orgia terminou com a Márcia me dando um sabão. Encontraram-me pelado dentro do carro, parado dentro do estacionamento de um conjunto habitacional nas proximidades do Bonfim. Provavelmente estive na casa de alguém que mora ali com a Natasha, ela foi embora e eu sem condições resolvi dormir no carro. A falta da roupa se explica porque transamos no carro. Só pode ser isso. O foda foi que alguém me viu ali dormindo peladão, ligaram na central de taxi e a central ligou para a minha mulher. A Márcia fez um escândalo querendo saber o que eu fazia ali pelado. Como eu ia dizer para a minha esposa que estava numa orgia louca com a mulher da minha vida? Ela já está cismada dizendo que ando estranho estes dias, que tenho o sono agitado. Fico roçando a rola nela a noite e murmu-

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A Loira do Bonfim – Fábio Guastaferro rando palavras desconexas. Que estou muito avoado, não estou trabalhando direito, não estou me cuidando, não vou mais à fisioterapia, não faço mais meus compromissos, até as reuniões da Cooperativa que eu costumava frequentar já não vou mais. Cismou que estou doente, e depois desta, disse que vai me internar.” ... 05/04/14 Lembrar de: “Sou o assunto principal da rua. Vou de maníaco sexual a drogado. A intrometida da Tânia só fica falando que eu tenho um caso com outra mulher. Mas a velhinha que mora abaixo diz que se eu tivesse outra mulher não andaria tão desleixado como estou ultimamente. A Márcia já acha que estou usando droga. A louca já está afirmando que sou usuário de crack. Que porra, ela nunca me viu nem bebendo direito e agora me acusa de ser usuário de crack. Qualquer hora vou partir a cara desta gorda no meio.” ...

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A Loira do Bonfim – Fábio Guastaferro 07/04/14 - Pagar a prestação da TV (cacete, esqueci dessa porra). Lembrar de: “Márcia agora cismou que estou doente, que não posso trabalhar e que devo pedir um afastamento. Já não ligo para mais nada, para ninguém. Saio de casa assim que acordo e vou para o Bonfim. Fico lá o dia inteiro, parado em frente ao muro do cemitério, ou então na casa do Carlos Prates. A Márcia me seguiu hoje. Veio com um amigo – Agora ex-amigo – para ver aonde eu ia e o que eu fazia. Disse que estava trabalhando, mas eles protestaram, perguntando por que eu não pegava passageiro nenhum. Fiquei puto. Que vão tomar conta da vida deles e me deixem em paz. Toda loira que eu vejo na rua eu acho que é a Natasha. Outro dia desci do carro e tentei agarrar uma menina. Ainda bem que consegui me controlar, imagina se sou preso por tentar estuprar uma adolescente. Aí que a Márcia ia ter razão de me internar. Sonho com a Natasha todos os dias. Um sonho mais estranho que o outro. Teve uma noite em que sonhei que andávamos de mãos dadas na lua, éramos gigantes e fazíamos a lua girar sob nossos pés. Natasha estava com aqueles chifres estranhos,

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A Loira do Bonfim – Fábio Guastaferro mas estava mais linda. Ela parece que fica ainda mais sexy quando usa aqueles chifrinhos. ... 21/04/14 Lembrar de: “Encontrei com a Natasha num dia desses aí. Para falar a verdade eu não sei bem se eu encontrei com ela ou se sonhei que encontrei. Ultimamente a Márcia não anda me deixando sair de casa. Já sentei a mão na cara dela, mas aquela mulher não aprende. A próxima vez que ela ameaçar chamar a policia para mim eu mato ela, eu juro.” ... 25/04/14 Lembrar de: “Sempre que encontro com Natasha me sinto fraco. Estou velho, não consigo acompanhar uma mulher como aquela. Ainda mais agora que ela se mudou aqui para casa. A gente transa todos os dias, quase toda hora, em qualquer lugar. O único inconveniente é a Márcia dizendo eu estou doente e que vai me internar. E como se não bastasse chamou o Pedrinho para me dar conse-

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A Loira do Bonfim – Fábio Guastaferro lhos. Desde quando um fedelho presta para me dar conselhos. Só porque faz uma faculdadezinha de merda acha que pode falar da vida dos outros.” ... 05/05/14 Lembrar de: “Tive um mal súbito e desmaiei na rua. O problema é que acabei batendo o carro, ainda bem que não machuquei ninguém. Passei uns dias no hospital e os médicos não souberam dizer o motivo do meu desmaio e das fraquezas que ando tendo. A Márcia não para de insistir que enlouqueci. Que fico me masturbando o tempo inteiro e em qualquer lugar. Ela quer me internar, me amarrar numa camisa de força e me tratar com eletrochoques. Eu vou acabar matando essa mulher, só assim para ela me dar sossego. Tive uns sonhos muito estranhos com a Natasha. Nem sei se posso chamar aquilo de sonhos, estão mais para pesadelos. Ela está sempre me sugando com aquele bucetão, e quanto mais ela me aperta dentro de si mais vontade tenho de entrar. Mas o que me incomoda mesmo são as asas. Não tinha reparado como são feias aquelas asinhas. Outro dia sonhei que ela estava mastigando um pedaço

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A Loira do Bonfim – Fábio Guastaferro do rosto da Márcia. Sua boca cheia de sangue, seus dentes quadrados enormes, seus olhos escuros com as bordas azuis. Ela tinha partido a cabeça da Márcia e mastigava uma parte da bochecha, pingando uma gordura amarelada. Com uma mão ela segurava o pedaço de cara da Márcia e com a outra segurava o meu pau, me masturbando, apertando o meu pau. E eu sempre gozando, sempre que a Natasha me toca eu gozo. Estou cansado destes pesadelos, quero a minha mulher de volta. Preciso ir até o cemitério ver o que aconteceu com ela. “ 15/05/14 Lembrar de: “Putamerda, Pedrinho veio morar de novo com a gente. Largou a faculdade e o pior é que escutei a gorda falando com a bunduda da Tânia que a culpa é minha. Já que não estou em condições de trabalhar não temos condições de manter o menino estudando em outra cidade. Menino é o caralho! Ele tinha que trabalhar para se manter. Falei isso para elas, mas estão me ignorando dizendo que estou louco e doente. Pelo menos uma coisa boa aconteceu. Consegui dar uma fugida anteontem, eu acho, e encontrei com a Natasha. Ela disse que vai voltar para me

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A Loira do Bonfim – Fábio Guastaferro ver, e que estes pesadelos que ando tendo é a pressão do stress do dia a dia.” ... 26/05/12 Lembrar de: “Estou no hospital. Estou aqui desde que me encontraram desmaiado na rua pela segunda vez. Encontrei Natasha de novo. A gente estava tendo que se encontrar dentro do cemitério. Sem carro e sem dinheiro fica difícil ir a bares, motéis e fazer orgias. Mas a Natasha é super compreensiva e começamos a nos encontrar dentro do cemitério mesmo. Essa mulher é tão perfeita que até aqui no Hospital ela vem me ver. Os médicos não sabem dizer direito o que eu tenho. Sinto uma fraqueza tão grande que tem dias que nem consigo ficar em pé direito. Parece que fiquei dias e dias sem comer e sem dormir. A minha mente também às vezes me engana, às vezes penso que estou em casa, às vezes acho que estou no cemitério com a Natasha, às vezes acho que estou no corredor do hospital sem precisar me levantar da cama. O pior é que aqueles pesadelos que eu estava tendo, agora estão cada vez mais reais. A Natasha agora fica direto com aquelas irritantes asinhas nas costas. Aquelas pernas cabe-

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A Loira do Bonfim – Fábio Guastaferro ludas horríveis e os chifres, que parecem que estão maiores. Antes eu achava sexy, mas agora já estou cansado. Fantasia é legal, mas o tempo todo fica chato. Pelo menos ela tira quando eu peço. Mas fico com vergonha, não quero ficar incomodando a mulher que amo. Ela vem me prometendo que vamos sair daqui. Que vamos viver juntos. Que ela vai cuidar de mim para que eu fique bom, e que vamos morar juntos. Ela disse que quer sair do país e quer que eu vá junto. Inclusive ela já tem muita coisa preparada. Pediu para que eu tenha paciência que, em breve, ela vem me buscar e juntos vamos fugir para o paraíso.” ... 28/05/14 Lembrar de: “Estou me sentido melhor hoje. Estou bem mais disposto, e fiquei melhor ainda depois que a Natasha esteve aqui. Mesmo o meu corpo não correspondendo ao meu astral. O que me deixou mais animado foi a notícia que Natasha trouxe. Ela justificou o seu sumiço dizendo que estava preparando tudo para irmos embora. Que é para eu me preparar. Amanhã, dia 29 de maio ela vem me buscar. Estou estourando de ansiedade.

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A Loira do Bonfim – Fábio Guastaferro Não aguento mais ficar aqui. Não aguento mais esse pessoal se lamentando. Sem saber direito o que está acontecendo. Ela me disse que tudo vai mudar. Tenho certeza que quando eu estiver com ela eu vou melhorar. O que eu realmente preciso é dela. Esse hospital, essa mulher gorda e chata, esse menino mimado, esse povinho fuxiquento, esse clima de velório, isso tudo que está me matando. Preciso sair daqui, e a Natasha já sabia disso antes mesmo de mim. Isso que é amor. Sou o homem mais sortudo do mundo. É amanhã, amanhã é o grande dia.”

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A Loira do Bonfim – Fábio Guastaferro

Declaração de Óbito. José Cardoso Marianno – Casado – Profissão: Taxista. Masculino – 49 anos, há nove sabia ser hipertenso e não fez tratamento. Estava em tratamento hospitalar com acompanhamento médico desde o dia 20 de maio de 2014. O falecido apresentava uma parcial perda de suas funções vitais com rápidos desmaios, principalmente à noite. Apresentava agitação psíquica e foi diagnosticado com esquizofrenia. Às 21 horas de hoje deu entrada na UTI. Encontrava-se inconsciente e com parada cardiorrespiratória. Às 21:13 teve o óbito verificado pelo médico plantonista após o insucesso nas manobras de reanimação; Observações: Durante o procedimento de reanimação foi notado ereção do órgão genital do paciente e, no momento do óbito, foi percebido a ejaculação do mesmo. O Corpo apresenta pequenas escoriações e contusões na região do rosto, nos lábios, pescoço, costelas e nas costas abaixo das omoplatas, que também tem grandes marcas com vermelhidão, aparentando unhadas. O seu membro sexual

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A Loira do Bonfim – Fábio Guastaferro apresenta escoriações e assaduras provenientes de um excesso de masturbação. Distúrbio que, segundo a família, acompanhava José nos últimos três meses. Dr. Marco Aurélio C. O. Mendes. Belo Horizonte, 29 de maio de 2014

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A Loira do Bonfim – Fábio Guastaferro

Nota do autor A Loira do Bonfim foi um conto escrito para participar da segunda edição da Mostra Ecos, lançada em setembro de 2014, cujo tema era Fantasia Urbana. A loira do Bonfim é uma lenda urbana da cidade de Belo Horizonte e suas histórias mais conhecidas contam de uma travesti loira, linda que assaltava taxistas com uma navalha nas imediações do cemitério do Bonfim. Outra história, mais sobrenatural, conta que uma linda loira faz sinal para o taxi e, quando o motorista para, ninguém entra no carro, a mulher desaparece no nada, uma variação desta história é que a mulher entra no carro e quando o motorista se distrai ela some. Súcubo (em latim succubus, de succubare) é um demônio com aparência feminina que invade o sonho dos homens a fim de ter relações sexuais com eles para lhes roubar a energia vital. – Fonte: Wikipedia. Belo Horizonte, setembro de 2014 guastaferro@gmail.com

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Ecos Revival  

Releituras de contos publicados originalmente nas edições 1 a 4 da Mostra Ecos.

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