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ECOS 9


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Capa: Berserk. Editoração Eletrônica : E. Reuss


SUMÁRIO EDITORIAL .................................................................. 6 LÁGRIMAS NA CHUVA ................................................ 8 QUANTO MAIOR O RIO, MENOS RUÍDO ELE FAZ ... 17 CASA DEDETIZADA .................................................. 33 O MELHOR DIA DE CLARK ....................................... 58 MÃE JOANA ................................................................ 73 BÁLSAMO AZUL ......................................................... 83 MEU NARIZ DE BULDOGUE, ÀS VEZES DE POODLE 86 VIAGEM DE FIM DE SEMANA .................................... 96 DUAS E QUINZE ........................................................ 100 IMPACTO SUPREMO ................................................. 104 A LENDA DE HIPHITUSI .......................................... 108 ENTRE EM CONTATO .............................................. 142


EDITORIAL

Pensei muito no que trazer para essa edição da Ecos. E no exercício de pensamento percebi que a minha maior contribuição para a Ecos estaria no simples ato de leitura. Afinal, o que dá forma e vida a uma história é o ato de sua leitura, da mesma forma que fazemos uma música “existir” no mundo físico executando a mídia em que ela está contida. Em seu ensaio de 1967 intitulado “A Morte do Autor”, Roland Barthes argumentou contra a tendência da crítica de analisar uma história e reduzi-la a um “sentido final” por meio da análise de dados biográficos do seu autor. Para Barthes, “o leitor é o espaço exato em que se inscrevem, sem que nenhuma se perca, todas as citações de que uma escrita é feita; a unidade de um texto não está na sua origem, mas no seu destino”. Ao ler as histórias contidas nesta edição da Ecos, percorri a mesma estrada que um aldeão responsável por uma pequena loja no interior percorreu ao se mudar para uma cidade grande, sofri ao descobrir uma vida que acaba se desfazendo como gotas na água corrente e vi um estranho casal conviver no meio das sombras...


Por isso, dentre tudo o que eu poderia escrever neste espaço, deixarei apenas uma pergunta ao leitor: você deu vida a alguma história hoje? Fabiano dos Santos Araújo


LÁGRIMAS NA CHUVA M V Belo

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Chego à livraria. Cinco da tarde. O escroto do meu chefe me liberou mais cedo, só pra poder ficar sozinho com a Rutinha. Pervertido. Aqui é meu refúgio. Consigo passar horas e horas aqui, esqueço-me de todos os problemas, e todas as pessoas, principalmente... Bem, principalmente todo mundo. Hoje quero olhar os livros sobre linguagem corporal. Acho que preciso tomar um novo rumo. Mas, cá entre nós, eu vou é olhar todas as estantes. Folhear as edições mais bonitas, arrumar os livros que estão bagunçados. E olhar. Porque um bom leitor sempre está olhando, não é mesmo? Fui para a prateleira de autoajuda. Escrito em letras garrafais. AUTOAJUDA. Olhando para mim, da prateleira do meio, uma mulher muito sorridente cheia de sacolas na mão. Título do livro: “12 dicas imperdíveis para enriquecer


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sem suar.”. Pensei no escritor, em casa, recebendo dinheiro por isso. Sem suar. Peguei uma lombada interessante: 7 passos para identificar um mentiroso. Quando vou retirando o livro, sinto uma presença atrás, como uma barata andando por dentro de uma porta de madeira, você não consegue vê-la, e às vezes nem a escuta, mas sabe que a danada está lá dentro, esperando você sair para dar as caras. Lembra-se do Gregor? - Oi - digo. - Oi - a moça responde. De cabelos sem muita graça, entre um castanho escuro e um castanho claro, mascando chiclete e com um par de fones do tamanho de dois cogumelos gigantes. Preciso jogar Super Mario. À noite, talvez. Sorriu e tirou os fones dos ouvidos, deixando eles grudados no pescoço. - Eu acho que esse livro aí não vai funcionar. - Por que você acha isso? - Ora porque, todos nós gostamos de pessoas mentirosas. O mundo seria um caos se não existisse mentira. Ela tem um cheiro bom. Lembra minha mãe. Devem até ter o mesmo nome. No mínimo o mesmo pescoço. - Eu nunca menti, digo, cruzando os dedos e beijando-os. Ela ri, mas sem graça. Convenção social apenas. De repente vira num giro de 180 graus, leve, perfeito. Seus cabelos rodam junto com seu corpo. Ela corre e abraça um

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homem. Provavelmente da mesma idade dela. Irmão, será? Se beijam. Não, namorados. Ouço o homem perguntar: “Quem é esse cara ali”, olhando-me por cima dos ombros, largos. Ela dá de ombros, me olhando por cima dos seus ombros, seus fones balançando, subindo e descendo. Recoloco o livro na estante, nem lembrava mais dele em minhas mãos. Parece insignificante e inapropriado agora. E agora, que livro olhar? Decido não olhar mais nessa estante. Repulsa. Melhor rodar na livraria a esmo, mas evitando o casal. São tantos livros. Será que alguém conseguiria ler todos eles? Talvez, se viajasse para o passado, e usasse o tempo para ler. Será? Acho que enlouqueceria depois de ler tantos livros. Muita informação. Baixo a vista e vejo um livrinho no chão. Quase encoberto pelo expositor da entrada. Me abaixo para pegá-lo. Na capa um casal na cama, ambos lendo livros, de óculos. Narigudos. Título: 5 regras de ouro para casais felizes. E, o melhor, baratinho. Dois reais e meio. Vou levar. Corro para o caixa. Ninguém ali, apenas uma atendente olhando seu celular. Ou seja, ninguém ali. Pago com minhas últimas moedas, e saio. O céu está escuro. Olho a nota fiscal. Nela diz serem dezoito horas. Mas parece ser mais tarde. Madrugada. O trânsito continua caótico. Ainda bem que ando a pé. Sem engarrafamentos. Sem multas. “No Stress” era o slogan da moça da

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livraria... Ops, calma, da camisa da moça que encontrei na livraria. Isso. Sem Estresse. Passo na porta do Sebo do Carvalho. Dois quarteirões após a livraria. Pertinho né? Carvalho é um velho amigo meu. Estudei com a irmã dele. Lembro daquele batom rosa dela. Tinha gosto de morango. - Ei psiu, ei gatinho, pode parar já ai. Meu coração saltou. Quem será? Viro-me, lentamente, coração galopando, dobradiças gemendo, música de suspense. Dou de cara com Carvalhão. Bigode grisalho. Barriguinha saliente. Braços abertos trotando em minha direção. Que será de mim agora? Onde foi parar a garota que fez psiu pra mim? - Faaaaaaala Carvalhãããããããããããão! Como vai essa força? tento dizer entre um abraço e outro. - Quanto tempo irmão! Como está a Nanda? E a Júlia? Deve ta enorme já, hein? - Estão bem. Devem estar chegando agora. Antes da chuva, eu espero. Ju tava gripada semana passada. Essas crianças de hoje em dia são tão mais frágeis do que as da nossa época, né? - É mesmo, meu velho! – disse Carvalho, enquanto se afastava um pouco e me olhava, ou melhor, me esquadrinhava – Mas você está forte hein? Malhando? - Que nada - digo, dando uma boa risada. Nossa! Tinha esquecido como é bom sorrir assim, espontaneamente. - Ainda naquele emprego de merda?

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- Ainda tentando me adaptar. Sabe como é né? Filha pequena, esposa vaidosa, essas coisas não saem baratas. - Sei bem como é, amigo. A minha mulher desistiu de tentar me domar. Disse que tava caindo fora do barco, que eu me virasse. A vadia levou tudo, até o sabonete do banheiro, acredita? Disse que era uma compensação pelos anos perdidos comigo. Dá pra acreditar nisso? - Quando que foi isso? - Anteontem. Silêncio. Que vadia! Como ela fez isso com um cara tão legal assim? Tão gente boa! O conheço há vinte anos. Honestíssimo. Mas, como diz minha mãe, só quem convive sabe, não é? - Poxa, sinto muito. - Que isso cara? Eu tô é feliz. Me livrei daquela baranga. Ela que enfie aquele sabonete na bunda! - Precisar de mim pra alguma coisa, me liga, ou passa lá em casa, tá? Ainda moramos no mesmo batlocal. - Claro. Valeu mesmo cara. Dá um abraço nas meninas por mim. Despeço-me de Carvalhão. Sei que ele não vai ligar. Muito menos aparecer lá em casa. Homens não costumam fazer esse tipo de coisa. Sei também que ele está fodido, por dentro. Sem mulher, sem dinheiro e, provavelmente, sem comida na geladeira. Pra que fingir tanta alegria? Vai ver nem é fingi-

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mento, é só uma batalha pra que a felicidade externa passe para o lado de dentro também. Luta inútil. Amanhã passo aqui de novo. Trago um sanduíche para a gente comer, com refrigerante quente. Como nos velhos tempos. Porra! Velhos... Mereço. De repente ouço algo chegando, chegando e chegando. Viro-me, procurando algum caminhão ou algo do tipo. Nada. Sinto um pingo no ombro direito. Viro-me, desta vez pra cima, atrás de algum maldito ar condicionado gotejante. O céu desaba em som e fúria. Gotas e mais gotas. Pessoas correndo, guarda-chuvas se abrindo, carros fechando vidros, janelas correndo e eu aqui, na rua. Dez minutos me separam de casa. E agora? Se eu correr, me molho menos que ir andando? Resolvo ir andando. Coloco meu livrinho no cós da calça, e sigo em frente. Calçada livre. Meu peso vai aumentando na medida em que a água penetra nas minhas roupas. Meu tênis já pesa 4 vezes mais. Um rio corre pela calçada. O que faço? Tento pular ou contorno pela parede da casa? Decido pular. Sou um atleta! Quando estudei com Rute, fomos eu, ela e carvalho (carvalhinho na época), ao cinema. Blade Runner: O Caçador de Androides, o nome do filme. Quase duas horas de bocas abertas de espanto, mentes expandindo e muita pipoca com refri. A cena do androide final, o androide perfeito, face a face com sua finitude, me marcou profundamente. Os jovens provavelmente dão valor demais a coisas simples. Aquele discurso poético,

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sobre sermos apenas lágrimas na chuva, culminando numa morte trágica e inevitável, mexeu comigo. Passei dias refletindo naquilo. Como aplicar isso na minha vida. Como ser um androide. Como aplicar em mim mesmo o teste. Será que eu sou eu mesmo. Enfim, mil perguntas sem respostas. Eu tinha muito tempo livre. Aqui, na chuva, tentando atravessar o enorme rio que se formou na calçada, já tendo desistido de saltar, pois já estava pesando uns trezentos quilos, sem falar nesse ‘puta cansaço’ do trabalho, me veio aquela cena na mente. Quis ser uma lágrima na chuva, e ser carregada pela correnteza, carregada para bem longe desse mundo, desses problemas, dessas pessoas. Mas a vida não é ficção científica, não é? Caminhei no rio, atravessei, e segui para casa. Ensopado. Sentindo um frio glacial. Com o vento contra meu rosto. Sentia-me um alpinista subindo uma daquelas montanhas geladas. Sem montanhas. E sem gelo. Cheguei em casa. Minha sorte foi que conhecia um buraco que fica cinquenta metros antes da minha casa. Pois já não enxergava muita coisa naquela chuva. Luzes acesas. Tiro minha chave do bolso esquerdo. Entro. Ali mesmo na porta sinto o cheiro de frango assado. Uma boneca me vigia no corredor de entrada. Olhos vidrados. Mortos. Não, mortos não, nunca viveram, por que morreriam?

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Tiro meus sapatos, meias, camisa e calças ali mesmo. E entro de fato em casa, de cueca, tremendo de frio, ensopado ainda, com meu novo livrinho na mão. Elas estão na sala. Comendo em frente a TV. Vidradas num programa de auditório. Pessoas dançando. Música alta. Tento acenar, chamar a atenção, mas não sou forte concorrente. Júlia está de boca aberta, balançando seu corpinho no ritmo da música. Sua mãe vidrada num vidro menor, tentando acompanhar milhares de conversas e mensagens. Cada uma em seu próprio mundinho. E a comida ali. Esfriando. - É melhor eu ir banhar enquanto Júlia não resolve ver se Papá já chegou do serviço, falo pra mim mesmo, enquanto sigo pelo corredor, até chegar ao meu quarto. Tiro minha cueca e olho o livro pela primeira vez. Dou uma folheada. Tem de tudo, conselhos para reacender a chama da paixão, para se dar bem com a sogra e até dicas de presentes. Li aquilo sentindo um calor entre as coxas que anos atrás seria sinal de uma boa transa com minha esposa. Mas hoje a história é outra. O calor passa tão rápido quanto veio. No final, o cansaço sempre vence qualquer outro sentimento. Pego minha toalha na cabeceira da cama e vou ao banheiro. Queria estar na sala. Boquiaberto, com um prato de comida no colo. Esfriando. Mas não é de minha natureza. Nunca foi. Entro no Box. Torço para que tenha água, por mais molhado que esteja, estou sujo, e fedorento. Giro o registro. Nada de água.

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Volto para o quarto, já me preparando para ir buscar água no quintal, quando escuto a água no chuveiro cair. Ela tem um cheiro de barro. Faz meses. Mas é melhor que nada. Enquanto volto ao banheiro me vejo no espelho da pia. Não envelheci muita coisa. Nem rejuvenesci. Estou naquela fase em que é muito fácil confundir as idades. Minha pele está enrugada. Cabelos desgrenhados. Rosto cansado. Olheiras. - Eu queria poder sonhar novamente, ou pelo menos conhecer alguém que sonhe algum dos sonhos que já tive. Poderia ajudar essa pessoa a consegui-los. Ou pelo menos dizer o que não se fazer. Sou PhD nisso - digo para mim mesmo no espelho. Entro no Box novamente. Paro embaixo da ducha de água. Gelada. Sinto um calor no rosto. Levanto as mãos. São lágrimas. Quentes. Fico ali parado, sentindo as lágrimas escorrerem. Serem levadas pela ducha. - Deus, por favor, me dê forças pra continuar. E mais lágrimas caem. Como em um rio. São levadas pela correnteza

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QUANTO MAIOR O RIO, MENOS RUÍDO ELE FAZ J. D. Amorim

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Yulua corria arrastando Ibiretê e Cauã, seus irmãos. O som de ossos sendo partidos se intensificava conforme ela acelerava. Um animal não poderia se segurar tanto apenas para causar terror na presa. O som martelava os ouvidos de Yulua, parecendo uma junção de “as” e “os”. Na floresta não havia ruído. Era como se toda ela estivesse com medo da criatura que seguia Yulua. O som ficava mais alto e ela já não tem tanta certeza se as histórias do pajé eram só histórias. A curumim de olhos castanhos, escondidos pela máscara de urucum, vê uma palmeira. “Salva”, ela pensou. A palmeira é a única árvore da qual o Ao Ao não pode destruir as raízes. Ela é enorme. Yulua retirou três pares de corda de juta que


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carregava para brincar com as outras meninas. Agora ela devia fazer os irmãos subirem rápido na palmeira. - Ibiretê, Cauã! Cada um de vocês pegue uma corda e suba como se fossem colher açaí - as crianças então começaram a escalada com agilidade. Yulua ouviu um rosnado baixo e se desequilibra ao ver a figura aos pés da palmeira. Algo parecido com um carneiro, do tamanho de uma anta. Uma cabeça enorme e desproporcional que ela não consegue compreender, pois parece mudar de forma, evidenciava uma quantidade absurda de dentes afiados e brilhantes, pequenas lanças na escuridão. O animal intensificava o som de “ao ao”. Ele se sacode e tenta se aproximar das raízes, mas toda tentativa é premiada com um grito de dor. Ele desiste e se vai. Alguma coisa maligna, uma sensação de queda e frio no estômago, angústia enche o ar. Uma voz grave, pesada e inebriante, invadia a mente de Yulua. - Finalmente. Parece que um curumim ouviu as histórias que os pajés contam e guardou as informações–o riso era baixo e grave - Diga Yulua, filha de Apuã, neta de Tamto, você gostou do passeio? - Por favor - a voz estava embargada – Você pode nos ajudar? - Como? Tenho certeza de que isso não será necessário, você garantiu a seus pais que não iria longe e que vigiaria os dois pequenos.

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- É você, Peri? Guaraci? - Tentava encontrar alguém na mata abaixo dela - Eu aceito qualquer castigo, só nos leve de volta, está bem? - A sua imprudência é realmente admirável. Você é quase tão tola quanto Porasy - Cauã começava a chorar baixo. - Peri deixe de brincadeiras! Você sabe que eu não fiz por mal. E não ofenda os deuses, Porasy salvou a todos trancando os sete filhos de Taúba. - Você tem razão. Ela realmente salvou, não foi? Diga-me Yulua, você ama sua tribo? - Quem fala? – Yulua já não tinha certeza se eram Peri e Guaraci brincando com ela - Que filha de Nhamandú não preza pela segurança de sua aldeia? - Mas você ama sua aldeia mais do que ama seus irmãos? completou a voz. - Amo da mesma forma, pois os dois são família. Agora pare com isso, só quero ir para casa – a curumim suplicava. Desde que teve a ideia de passear na mata ao entardecer ela tentava ser forte. Mas já não aguentava mais. As lágrimas brotaram como uma pequena nascente nos seus olhos. - Calma pequena, você possui sabedoria para uma idade tão tenra, deve entender que não adianta chorar agora – a voz ganhou o tom irônico de antes - Gosto disto. Por viver a milênios eu costumo ficar ente… - Quem é vo…

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- Silêncio!!! – a voz se tornou ensurdecedora - Quando o mais velho fala, os curumins se calam! Quando um deus se mostra, os homens reverenciam - voltou ao tom mais leve, porém feroz - Eu sou Taúba ou, como vocês me chamam: a ganância, a miséria, a dor, o sofrimento, o pai dos sete monstros. Nesses milênios eu me entedio com facilidade, por isso brinco com os filhos de meu pai. Canso-me de observar a fragilidade desta terra – suspirou - Quero fazer um jogo. Yulua não prestou atenção. Se aquela voz era de Taúba não havia saída. Taúba brincava com as eras e com os que nela habitavam. - Você não me respondeu. Vamos jogar? - interrompeu o deus. - Eu não tenho escolha; tenho poderoso Taúba? – Yulua tentou o tom mais cortês possível perante Taúba para, ao menos, encontrar uma saída para a situação. - Não, não tem - novamente um esboço de riso na última palavra, um deboche - Quero brincar de sacrifício. Você pode escolher quem será, mas teremos alguém, eu posso lhe garantir. - Yulua suava frio - Você pode escolher entre sacrificar a aldeia e você ou me dar a vida dos pequenos Ibiretê e Cauã. Darei até o amanhecer para se decidir. E, para que as coisas fiquem mais interessantes, deixarei meus filhos soltos na selva hoje. Quem sabe o sacrifício não sai mais cedo, não é mesmo?

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Yulua agarrou firmemente a corda e apertou os lábios para não chorar. O deus continuou: - Ah, há uma lança quebrada em um ponto ao norte da palmeira. Você pode usá-la ou esperar meus meninos. - Espere, vamos conversar, por favor, não faça nada com meus irmãos! - o grito não teve resposta. – Eu imploro sussurrou. Yulua permaneceu ainda alguns minutos atônita. Uma aposta com Taúba, uma aposta que ela não pediu nem concordou. Deprimida ela olhou para as raízes da palmeira e não viu o Ao Ao, também não o ouviu. Ela instruiu aos irmãos a esperá-la aconchegados na copa da árvore. Yulua caminhou para o norte e encontrou a lança, quebrada ao meio, presa em um pau-brasil. Com ela nas mãos elevou o pensamento a Abaçai, senhor da Guerra, pediu forças e auxílio. Ainda com o rosto umedecido pelas lágrimas foi ao encontro dos irmãos. *** Os sons da floresta foram voltando pouco a pouco. Yulua já ouvia os bugios, as corujas e os insetos. A canção tranquila da noite estava toda lá. Ela sentou na base da palmeira, ouvindo atenta à floresta na expectativa de alguém que estivesse procurando ela e os irmãos.

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Ao invés de passos, Yulua ouviu um leve ronronar. Seu sangue gelou. A sua frente, um par de olhos espreitava. Aos poucos a figura abandonou a escuridão. Grandes patas surgiram simultaneamente, com a cabeça angulosa e forte. Maior do que Yulua, o animal tinha músculos saltados, o padrão de manchas era claro e as presas estavam expostas na noite. Yulua apoiou-se e segurou firme a lança partida. A onça deitou-se e passou a lamber a pata esquerda com cuidado, fitando Yulua de tempos em tempos. - Você não vai ficar me olhando como um mico assustado vai, criança tupi? - tinha uma voz grave e entediada. - Por Tupã, você fala? - Eu ressoo em você. Honestamente eu não sei por que os deuses não explicam como isso funciona antes de me mandarem. É tedioso explicar. - Animais não falam. Taúba está mexendo com a minha cabeça. É isso, ele está me fazendo ficar confusa para que você me devore. - Em primeiro lugar, aquele velho não me obrigaria a nada. Saltaria de uma cachoeira ou monte antes de obedecê-lo. Em segundo lugar, meu nome é Koégue. Agora, respire e se acalme. Você não quer que aqueles dois caiam, não é mesmo? - o felino continuava sua limpeza, trocando de pata. - Por que você veio? - Disse a menina, com os olhos lacrimejantes.

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- Por que você pediu. Agora, peça aos dois macaquinhos que desçam e avise que eu não vou jantá-los. Não queremos gritos que chamem nenhum dos outros filhos de Taúba, não é mesmo? Yulua hesitava, mas o par de olhos amarelos ainda estava fixo nela. - Menina, não vai subir logo? - Como posso saber que você não está com Taúba? - Pois bem, eu explico. Você é neta de pajés, por isso pode ouvir espíritos protetores. Bem simples. E qual o espírito protetor de sua aldeia, o emissário de Nhamandú? - A onça... - Então? A menina sorriu pela primeira vez naquela noite satisfeita com a explicação. Yulua subiu e conversou com os garotos, que desceram. Ibiretê aguardou atrás da irmã, mas Cauã se apressou e se aproximou de Koégue. Tocou o felino na cabeça e acariciou-o embaixo do focinho. O animal ronronou e fechou os olhos. - Agora, me sigam - soou a voz de Koégue. Os três curumins seguiram o felino pela mata. Após alguns minutos eles chegaram a uma pequena caverna. O local possuía vários nichos escavados na pedra, Koégue orientou Yulua a colocar os meninos no mais alto. Ibiretê e Cauã acomodaram-se e Yulua seguiu Koégue.

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O felino continuou a sua marcha mata adentro. Após alguns minutos, Yulua começava a ficar inquieta, apertando a lança com força até os dedos ficarem pálidos. - Você deveria se acalmar. Se consigo ouvir seu coração disparado todos os outros predadores também. - Eu não consigo me acalmar - disse a menina. - Pois você deveria. Nós vamos encontrar algo muito precioso para Taúba. Vamos tentar uma troca. - O que um deus poderia querer? - Eles podem querer muita coisa. Podem querer nada, tudo. Mas Taúba? Taúba foi privado de algo muito especial para ele. - Ele só quer destruição – disse Yulua com a voz chorosa É só com isso que ele se importa. - Não. Houve alguém mais importante. Houve Kerana. Yulua se lembrou. Taúba sequestrou Kerana e com ela teve os sete monstros. Ela foi a única coisa que o deus amou. Ficou tentando imaginar o que ainda poderia existir da mulher. Não muito tempo depois um rugido se abateu sobre a mata. Koégue parou e se colocou em prontidão. As orelhas do felino mexiam-se em diferentes direções para localizar o som. De repente, do lado esquerdo, uma figura curvada, quase do tamanho de um adulto, se projetou. Tinha o corpo de um grande bugio, olhos vermelhos, escamas de peixe ao redor da cabeça, garras longas nos dedos e dentes que não cabiam na

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boca. Pendurado entre as pernas, o grande falo resvalava no chão. Yulua gritou horrorizada. Era o Luison. Ele era o senhor da morte, espalhando podridão, maltratando e ferindo as pessoas. Era uma besta insana. As pernas de Yulua travaram, ela não conseguia se mover. Os olhos vermelhos da criatura se cravaram nela. Ela juraria que viu um sorriso no rosto deformado. - Corra criança! - a voz de Koégue soou imensa para Yulua. O felino saltou sobre Luison e abocanhou-lhe a garganta, derrubando com seu peso o filho de Taúba. Yulua piscou e correu em desespero. Os galhos e espinhos rasgavam sua pele, mas ela não se importava, só queria se ver livre daquela cena. Outro filho de Taúba, outro monstro atrás dela. Respirou aliviada ao pensar em Ibiretê e Cauã em segurança na caverna. Os ruídos da luta entre Koégue e Luison ainda podiam ser ouvidos, mas Yulua permanecia firme na direção que trilharam ela e o protetor. Ela correu, a floresta se tornava mais densa, não havia trilhas, rastros, nada. Nenhum tupinambá parecia ir àquela parte da mata há luas. Após um emaranhado de árvores mortas, Yulua avistou uma oca destruída pelos anos e o clima. O tempo parecia fechar. A curumim entrou onde havia ainda um teto e se abrigou.

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Cipós e vários tipos de planta criaram ali uma pequena réplica do exterior. Yulua amassou um local com relva baixa para descansar e verificou o restante do local, procurando por qualquer coisa útil. Encontrou algumas redes penduradas, eram nove. Não existia nenhum dos utensílios típicos de guerreiros, somente contas, colares e uma peneira para fazer biju. Parecia uma casa para as mulheres da tribo. A lua incidia por um buraco no teto, sobre um grande cesto. Yulua caminhou até lá e tentou abri-lo. Estava emperrado. Forçou com a ponta da lança para abri-lo. Conseguiu. O choque de ver o conteúdo dele a derrubou. A garota estava em frangalhos pelo encontro com os filhos de Taúba e simplesmente não conseguiu ficar de pé. Havia um esqueleto dentro do baú, era de uma mulher, percebia-se pelos enfeites e objetos ali. Quem guardaria um corpo em um cesto? - Um marido que não quisesse aceitar a morte, criança. - a voz de Koégue estava fraca, mas estava ali. A menina levantou-se olhando para trás e viu a grande onça, ferida, com arranhões e cortes, mas viva. Yulua correu e abraçou o animal, soltando-o após um leve gemido de dor. - Pensei que não o veria de novo, Koégue. - Era apenas um velho macaco, aquele Luison. Quando percebeu que não conseguiria vencer, ele fugiu. Com certeza voltou para perto do papai - mostrou as presas esboçando um

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sorriso felino - Vejo que você encontrou nosso presente a Taúba. - Você quer dar ossos a ele? - Não é qualquer tipo de osso. E ele não pode entrar mais aqui. Então imagino que vá ficar feliz em recuperar os restos da esposa. - Essa é Kerana? - Sim, o que sobrou dela. Mesmo depois da morte Taúba continuou preso ao corpo de um homem. Assim ele guardou o corpo de Kerana, mas quando finalmente morreu sua forma astral foi banida da aldeia por Jaci. Ele não pode ter mais a companhia da mulher. Yulua colocou os ossos em uma das redes assim como Koégue instruiu. Prendeu as pontas para usá-la como uma trouxa. O felino se aproximou da saída da oca. - Avisarei Taúba que queremos trocar o corpo de Kerana pela salvação de seus irmãos e de sua tribo e que ele deve nos encontrar na cachoeira grande. Se ele não cumprir sua palavra soltaremos os ossos na água. Ele não poderá pegá-los, pois não pode se aproximar do domínio da Iara. - Obrigada, Koégue, eu estaria perdida sem você - ela o abraçou de novo. Mesmo com dor, Koégue deixou que ela se demorasse ali.

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Koégue e Yulua estavam na borda da cachoeira. A rede com os ossos estava próxima de Koégue. Passado algum tempo o céu escureceu, o ar se tornou pesado e um calafrio passou pela nuca da menina. “Ele está aqui”, ela pensou. Da mata duas figuras saíram avançando com tranquilidade. Um possuía a forma de uma enorme serpente, seu corpo muito mais grosso que o de Yulua e Koégue juntos e sua cabeça e bico eram similares aos de um papagaio, as escamas escuras eram nitidas e os olhos de um vermelho perverso. Yulua conhecia seu nome da história do pajé: Mboi Tu’i. O outro era completamente diferente. Era menor que um adulto, possuindo cabelos loiros e olhos azuis, nos braços nus músculos rígidos e pequenos, um sorriso tranquilo com dentes pontiagudos, seu nome era Jaci-Jaterê, havia um cajado em sua mão esquerda. Na outra mão, para horror de Yulua, segurava pelo pescoço Ibiretê e, logo atrás, o pequeno Cauã seguia chorando segurando a mão do irmão. Ela estava condenada. Ela podia ver Ibiretê balbuciar que ficaria tudo bem, apesar de seu rosto se contorcer com o forte aperto do filho de Taúba. Os olhos de Jaci-Jaterê estavam vidrados. Os gritos de dor do garoto pareciam deliciá-lo, estava em êxtase. Jaci-Jaterê cravou seu cajado na terra e segurou Cauã, que se debatia fortemente. Empurrou o menino na direção de Yulua e de Koégue e acenou com desdém. - Bem, parece que você não está nos seus melhores dias Yulua - a voz de Taúba invadiu como da primeira vez,

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pesando e comprimindo. Ainda assim ela inspirou fundo e se atreveu a responder. - Desculpe por não estar com minhas pinturas rituais, mas eu carreguei uma rede com ossos pela selva - o céu se tornou mais negro e o ar mais carregado. Yulua começou a suar frio, sua impertinência poderia arriscar a vida dos seus irmãos e da sua aldeia. Cauã passou apressado por eles durante o diálogo e colocou-se atrás de Koégue. - Sua língua está afiada hoje - disse Taúba - Será que a lança na sua mão também está? - Yulua apertou com força a lança, imaginando o que Taúba faria - Vamos testá-la? Verificar se todo aquele tempo na árvore não danificou sua lâmina? Tome o braço do menorzinho aí e faça um belo corte ou Jaci-Jaterê cortará a garganta do outro. Yulua sabia que não seria possível ir contra as intenções de Taúba. Caminhou até Cauã, abaixou-se e fitou os olhos marejados do caçula. O bravo curumim esticou seu braço parece que todos ouviam a Taúba. Yulua respirou fundo e, com um único gesto certeiro, fez um corte no braço do menino. Cauã chorava. Uma risada histérica calou o choro de Cauã. Koégue ria com a cena sem se conter, soluçando, enquanto Yulua, Cauã e os outros se olhavam espantados. A onça começou a ficar em pé, os pelos foram sumindo de seu corpo, uma forma simiesca surgindo. A pele no tom amarelo pálido ficando mais evidente, a cauda mudando de

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posição, enrolando-se no corpo e tornando-se um enorme pênis. Abrindo a boca cheia de dentes afiados e fechando os olhos negros sem pupila, Koégue deu uma série de saltos e parou ao lado de Mboi Tu’i e Jaci-Jaterê. Yulua estava atônita. Koégue era um dos filhos Taúba. O Kurupi. Era tudo uma armadilha. - Não fique triste - disse o Kurupi. Sua voz era áspera - Nós passamos bons momentos juntos, não foi? Está confusa? Não fique, gostamos de brincar com vocês. E você ainda nos deu a oportunidade de pegarmos mamãe. Sabe, não podemos tocar nela, por isso você foi tão importante. - Mas e minha aldeia e os meus irmãos? - Papai vai poupá-los. Não vai, pai? - Talvez - disse Taúba - Você não foi uma boa menina, foi insolente. Mas eu sou capaz de perdoá-la. Jaci-Jaterê, devolva o irmão a Yulua. Jaci-Jaterê se pôs a caminho arrastando Ibiretê pelo cabelo. O garoto tentava se soltar, mas era forte o aperto da criatura. O monstro parou a poucos passos com o garoto. -Oi, irmã - Ibiretê sorriu ainda tentando se soltar. -Calma Ibiretê, tudo vai dar certo - ela tentou soar positiva. - Não, na realidade não! - ao final da sentença, Jaci-Jaterê quebrou o pescoço de Ibiretê. O grito de Yulua foi instantâneo, só suplantado pelo som de “ao ao” vindo da mata. O monstro despistado na palmeira apanhou o corpo de Ibiretê e

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começou a devorá-lo ali mesmo. Yulua ensaiou um gesto para tentar pegá-lo, mas foi segurada por Cauã que chorava copiosamente. - Agora vá - disse Taúba - Antes que eu tome outro irmão pela sua insolência. *** Yulua caminhava cabisbaixa em direção à aldeia, o sol estava nascendo. Ela e Cauã carregavam o mundo nas costas. O braço do menino sangrava e Yulua apertava com força a lança na mão direita. Assim que deixaram a cachoeira e o som dos ossos de Ibiretê sendo partidos deixaram seus ouvidos, o ar pesado se dissipou e a noite perdeu as nuvens carregadas. Caminhavam próximos sem se falarem. Cauã parou, segurando o corte no braço e olhou fixamente para os céus. A lua estava cheia. Yulua percebeu o olhar apático do caçula e, agora, único irmão. Ela agachou-se na altura dos olhos de Cauã. - Fique tranquilo pequeno logo estaremos na aldeia - disse ela. - Foi minha culpa, não foi? Se eu fosse maior e corajoso eles não teriam matado Ibiretê - a voz estava embargada.

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- Não, pequeno, não foi culpa sua. Eu fui insolente. Tentei responder com arrogância a maldade. E Ibiretê sofreu por isso - uma lágrima se perdeu em sua bochecha. - Posso segurar a lança, Yu? Quero ser forte... - Pode - ela segurou o choro - Tome cuidado com seu peso. Cauã segurou a lança partida e admirou suas formas. Yulua ficou feliz por um momento, vendo o sorriso gentil de Cauã novamente. Olhou também para a lua, apesar de tudo tinham conseguido. Uma dor aguda e gosto de sangue confundiram Yulua. Ela havia se distraído por um instante e, de repente, a lança estava cravada em seu peito. Fitou o rosto de Cauã e o sorriso gentil se tornou algo diabólico. - Você achou que eu não iria levar nosso jogo até o final? - Taúba? - Não. Pelo restante desta vida será Cauã. E fique tranquila, pouparei sua aldeia. Por enquanto.

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Era noite e o elevador ascendia até o décimo andar. Daniela ouvia o som das correntes e outros ruídos metálicos reverberando pelo vazio acima de suas cabeças. Vozes distantes de homens e mulheres isoladas por paredes finas. Cantoria no chuveiro. A risada de um bebê. Isso foi logo depois do fim do expediente, quando Daniela entrou no escritório da Gerente Regional e disse: “Tem um espírito vivendo no meu apartamento.” A Gerente Regional atribuiu aquilo ao alcoolismo da amiga, é claro, mesmo não tendo certeza se os cegos podiam ter alucinações. Quando desceram do elevador e entraram no corredor escuro, a Gerente Regional finalmente expressou sua apreensão. “Ai. Não sei se eu quero entrar.”


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Daniela parou com o molho de chaves na mão. Olhou com seus olhos que nada viam para a amiga e ensaiou um olhar de desaprovação. “Não vai acontecer nada.” Daniela disse. “Ele é um covarde.” Daniela abriu a porta. A Gerente Regional entrou e acendeu as luzes que Daniela nunca acendia. Daniela estava parada no meio da sala de estar, mãos levantadas com as palmas para cima como se perguntasse “e então?”. “O quê?” A Gerente Regional disse. “Alguma coisa estranha?” “Não.” “Vamos lá pra dentro.” Disse Daniela, avançando pelo interior escuro da casa, passando a centímetros de distância de obstáculos potencialmente desastrosos e projetando suas mãos e agarrando maçanetas com uma exatidão que costumava entreter a Gerente Regional. Mas naquele momento, seguindo sua amiga cega por corredores escuros e estreitos à procura de um fantasma ou, mais provavelmente, um depravado sexual, tudo o que ela sentia era medo. Antes de acender a luz do banheiro, imaginou o estuprador sentado na privada e se levantando lentamente com o olhar doentio de alguém que vive como uma sombra. Daniela

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gritaria e balançaria os braços inutilmente enquanto a Gerente Regional era atacada com uma tesoura. As luzes se acenderam e nada aconteceu. Foram até a sala e a Gerente Regional enxergou no guarda corpo da sacada um objeto azul. Se aproximou o suficiente para ver o que era e emitiu um grunhido. “Que foi?” Daniela disse. “Nada…” “Quê?” “Só que tem uma cueca aqui.” Era uma cueca azul cobalto recém-lavada e ainda úmida sobre o guarda corpo de ferro da sacada. Ficaram mudas e paralisadas diante da descoberta. A Gerente Regional varreu a noite com seus olhos. Apoiou as mãos sobre o metal gelado do guarda corpo e se inclinou para fora. Flagrou o brilho de algo sob a janela de um apartamento do outro lado da rua. “Vê alguma coisa?” Daniela disse. Aquilo era uma… Poderia ser? Era. Uma perna pendurada na proteção de um arcondicionado no bloco de apartamentos ao lado. Não uma perna de verdade, mas uma prótese feminina ainda vestindo uma meia calça. A Gerente Regional descreveu a perna para a amiga. A simples constatação de que coisas eventualmente são lançadas

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para fora de janelas acalmou as duas mulheres. Afinal, as coisas só se tornam estranhas quando deixam seu habitat. Quando a prótese andava acoplada ao joelho deformado da moradora do 201 do prédio vizinho, ninguém dava a mínima. Então lançaram a cueca para o asfalto e entraram. Conversaram aliviadas durante a noite inteira e Daniela fez biscoitos caseiros. E quando a Gerente Regional foi embora, Daniela bebeu chá sem adição de vodca, como há muito tempo não fazia. Se levantou e começou a se despir na sala, sentindo prazer na sua privacidade. Sentiu seu gato se esfregando em suas pernas e o pegou no colo. Beijou o gato várias vezes até o animal ficar eriçado e visivelmente irritado. Pensou ouvir um suspiro, mas riu consigo mesma, tentando afastar a ideia de que talvez não estivesse sozinha. Continuou se despindo e sentindo o cheiro de fumaça que vinha da rua. Na sua mente, o mundo era opaco, cinza, coberto por uma névoa de odores em suspensão. E então sentiu o cheiro que ela preferia não ter sentido. Um odor azedo e familiar, bem na sua frente. Se sentou no sofá, apenas de calcinha e meias. Pegou a xícara de chá em sua mão e, com a colher, bateu na xícara algumas vezes até criar uma imagem mental da sala a sua volta. Como um sonar, viu o ponto onde o som se refletia no centro do cômodo, uma mancha escura com uma vaga forma humana.

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A mancha se movia lentamente e, na quarta vez em que bateu a colher, Daniela lançou a xícara cheia de chá na sua direção. Os sons não mentem. A xícara percorreu um arco até o centro da sala, onde o seu impacto foi amortecido. A sensação de uma frase interrompida e um aperto no coração. Silêncio, comprovando que naquela sala havia um corpo a mais do que deveria ter. *** Genocídio, é isso que ele faz. O mais puro genocídio autorizado e regulamentado pela Anvisa. Ele chega com seu pulverizador de alta pressão e consegue ver famílias correndo ao redor de seus pés. Às vezes, na altura em que ele se encontra, pensa ouvir até uns gritinhos. Rafael chega a dar gargalhadas, às vezes. Seu chefe o chamou de doente uma vez e disse que é por isso que ele está sozinho. Um esguicho de líquido exterminador em um sapato e uma horda de escorpiões se projeta para fora e Rafael tem que correr pela sua vida enquanto ri como se ele fosse a personificação de uma entidade maligna. As coisas estranhas que ele encontra nessas casas vazias… Coisas que fazem qualquer um perder a fé na humanidade.

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Como os gatos vivos enrolados em papel celofane miando na gaveta de meias, os instrumentos de tortura, mochilas fechadas no alto do guarda-roupa, contendo roupas manchadas de sangue e bolinhas de papel higiênico, revólveres enrolados em toalhas de banho, fotografias destruídas pelo tempo em uma meia mofada, objetos que juntos formam a narrativa que faz aquele trabalho valer a pena. Sua rotina é sempre a mesma. Entra na van branca e reluzente da dedetizadora as sete da manhã. Caçamba cheia de tonéis de veneno e máscaras de ar organizadas de forma obsessiva. Dirige cautelosamente para não bagunçar tudo, as curvas suaves e abertas, até o primeiro vendedor de rede filho da puta se jogar na frente do veículo. Freada brusca e descida lenta e cruel dos tonéis de veneno. A organização é tomada pelo caos e Rafael agora bate a palma da mão na lateral de sua cabeça. O som metálico dos tonéis caindo é de arrepiar a alma, é o caos rindo de seu trabalho de ter que arrumar tudo novamente. Qualquer movimento do veículo agora é motivo para uma orquestra de sons metálicos na caçamba. Ele está cheio da física. Fodam-se as leis de trânsito. É só mais uma van corporativa dirigindo alucinadamente pelo centro da cidade, percorrendo mais da metade da rota em mão contrária ou sobre calçadas cheias de turistas. Não é raro encontrar, no fim dessas viagens, sacos de pão pendurados no limpador do para-brisas, bolsas e mochilas agarradas aos retrovisores laterais, bolas de

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sorvete acopladas hermeticamente a lataria do veículo e arbustos inteiros enfiados sob o para-choque. A sensação de cortar a frente de um ônibus a 100km/h e ver as pessoas lá dentro sacolejarem como azeitonas em um pote de conserva é libertadora. As faces desesperadas dos pedestres são borrões ao seu lado. E só então ele percebe que o borrão é na verdade uma cortina de fumaça venenosa. Existe algo que deixa as pessoas desesperadas ao ver uma van que projeta um jato de veneno das janelas sendo guiada por um homem com uma expressão assassina. Finalmente chega ao seu destino, três blocos de apartamentos próximos à praia. Apartamento de gente rica, ele pensa. Abre a porta traseira da van e objetos diversos se lançam para o meio da rua. O porteiro do prédio está segurando a respiração com dois dedos no nariz enquanto Rafael enche o elevador com tonéis de veneno. No último andar, Rafael toca a campainha de um dos apartamentos. A mulher abre a porta e focaliza seus olhos em algum lugar à direita de Rafael. Ele diz que por algum motivo as baratas ocuparam o prédio e sente um arrepio ao ver o rosto daquela mulher. Um rosto longo e de linhas fundas, a expressão mais triste que ele já viu na vida. Por algum motivo Rafael se lembra de sua mãe, que tinha olhos fundos e tristes e desprovidos de movimento na maior parte do tempo.

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Rafael diz que o prédio inteiro será dedetizado e pede para ela voltar daqui oito horas. A mulher sai com um gato no colo e Rafael observa a cega descendo as escadas com aquela estranha apreensão de alguém que espera alguma coisa dar errado. Ele entra no apartamento e só então começa a parte boa do seu trabalho. Agora ele pode explorar a casa e os objetos que ela contém. Essa mulher tem uma sala cheia de tratores em escala. Coisas grandes e pesadas, que ficam expostas em estantes como troféus. Abre a gaveta do criado mudo e encontra centenas de caixinhas de antidepressivos, calmantes, hormônios, relaxantes musculares e sprays tópicos para dor. Encontra envelopes com maços de dinheiro jogados na segunda gaveta. Muito dinheiro. Pensa em como aquilo facilitaria sua vida. Uma baita mão na roda, ele pensa. Rafael poderia abrir sua própria empresa de dedetização com aquele dinheiro. Cada envelope é endereçado a uma pessoa. Os nomes acabam e começam os envelopes endereçados a despesas: “Contas de cartão de crédito”, ele lê, “Contas de luz”, “Cartório”, “Aluguel”, “Enterro”. Lê de novo o envelope que tem em suas mãos. Enterro.

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A mulher cega poderia estar em outro nível de organização das finanças pessoais, mas a intuição de Rafael diz outra coisa. Sua intuição diz que o enterro é inevitável… E não só isso, o enterro é desejado. Ele percebe essas coisas, sendo um funcionário da morte e et cetera e tal. *** Daniela espera no parque, sentada em um banco de madeira com o gato preso pela coleira. Sente o calor do sol atravessando a copa de uma árvore, percorrendo um arco sobre sua cabeça. O peso daquela decisão tornara Daniela o centro do seu universo e agora uma profusão de corpos parecem a orbitar, incluindo algumas pombas que se juntaram sobre o banco em que ela está sentada, parecendo conscientes de sua cegueira. Daniela passa metade das oito horas na mesma posição naquele banco da praça. Depois vai até uma farmácia, onde é atendida por um homem que pergunta quatro vezes se ela está bem. Ela passa as últimas horas daquela espera em um café, encarando uma sacola cheia de calmantes que ela usará para matar o seu gato e a si mesma, assim que o dedetizador sair do seu apartamento. ***

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“Tá feito.” Rafael diz quando vê a cega subindo os últimos degraus do seu andar. Entrega as chaves e seus dedos se tocam por um momento. Aquela expressão de novo. Tédio e indiferença misturados. Ela agradece e fecha a porta. Rafael pensa por um momento, olhando para a porta fechada. Talvez sua mãe tenha se matado também. Desde muito cedo, Rafael decidiu não se importar. Então, foda-se. Sua mãe era uma inútil, seu pai deixou isso bem claro através das entrevistas na TV. Sim, isso mesmo, por que ele só via o seu pai através de uma tela de cinquenta polegadas. As lições de pai para filho eram dirigidas a qualquer um que ligasse a TV na hora certa e geralmente falavam sobre aparelhos de ultrassonografia que custavam mais do que prefeituras e um quarteirão de casas populares. Mas dava pra extrair pedaços da filosofia do pai dessas entrevistas. Como: Dinheiro é bom. Ou: O sucesso do homem é proporcional à sua capacidade de dominar os seus instintos. No final, o pai pediu para que Rafael administrasse sua fortuna, o seu patrimônio. Rafael disse: Foda-se. E chamou o pai de verme. Parado em frente a porta de Daniela, Rafael começa a bater a mão em sua cabeça, tentando ordenar os pensamentos.

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De qualquer forma, ele não poderia ir embora agora e deixar aquela mulher sozinha. Não como o seu pai deixara sua mãe sozinha, cercada por três homens de terno em um escritório de advocacia. Sua mãe fumava diante das janelas do escritório enquanto os homens de terno faziam Rafael escolher: a mãe ou o pai. A mãe depressiva e alcóolatra e patética ou o pai milionário. Viver à sombra de um sobrenome: Reisner, o sobrenome que também era a marca. O filho do magnata. O herdeiro. É claro que não era uma escolha. Era uma condenação. Os advogados disseram que era proibido fumar ali. O que a mãe disse? Isso mesmo: Foda-se. Rafael decide então bater na porta. Sente naquele momento uma satisfação momentânea, uma onda de alívio como o de uma vingança bem-sucedida. “Quem é?” Ouve a voz da cega. “Esqueci uma coisa.” Ele diz e a porta se abre. *** O dedetizador faz uns barulhos no quarto dos tratores em escala e sai de lá dizendo “encontrei.” Daniela sente o dedetizador passar correndo ao seu lado, dizendo obrigado e batendo a porta atrás de si. Daniela tenta ouvir o som de passos no corredor.

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Que estranho. Não ouve nada. Daniela aproxima o ouvido da porta e franze a testa. Por um momento, acha que o dedetizador está ali do outro lado com o ouvido encostado na porta, como um pervertido… Mas em vez disso, ele está bem ao seu lado suando frio e trancando a respiração, a trinta centímetros de distância grudado à parede do hall de entrada. Tem alguma coisa muito errada acontecendo com seu intestino. Depois de segundos de puro terror, Daniela se afasta e se senta no sofá da sala. Abre a sacola da farmácia e estuda uma caixa, pensativa. Vai até a cozinha e abre uma lata de ração para gatos. Destaca vários comprimidos sobre a mesa e começa a triturá-los com uma colher. Rafael ainda está grudado à parede do hall de entrada quando percebe que deve agir. O gato já sacou a lata de ração aberta e agora se esfrega na perna de Daniela. O gato olha para a cara de Rafael e diz: Minhau. Droga. Rafael tira os sapatos lentamente e os deixa jogados ali mesmo, perto da porta. Por sorte, o cheiro de veneno está impregnado em suas roupas e em todo o apartamento. E para ajudar, um vizinho inconveniente assiste Jornal Nacional com o volume no talo. Confiante de que não será detectado, ele caminha em direção à cozinha, onde Daniela está misturando o conteúdo da lata com o pó branco sobre a mesa.

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O tornozelo de Rafael estala e ele sente um arrepio na nuca quando percebe o olhar de Daniela na sua direção. Paralisado, finalmente se dá conta do que está fazendo. Mão na cabeça, batendo alucinadamente, um tique nervoso do qual ele já tentou se livrar. Diminui o ritmo para que a cega não o ouça. Daniela coloca o pote no chão. Ele tinha que salvar o gato também? Se pergunta. Claro que tinha. Ele ama gatos. Ama gatos, não. Gosta de gatos? Talvez. O gato vai lamber a comida e Rafael empurra o pote com o pé. Olha para Daniela e seus olhos estão cheios de lágrimas. “Calma, não precisa carregar o pote.” Ela diz. Rafael então continua chutando o pote para longe a medida que o gato se aproxima. O gato senta e o encara. É agora, ele pensa, é agora que o gato vai voar para cima de mim com as garras em riste. Nada acontece. Em vez disso o gato caminha lentamente até o pote de comida. Rafael também. Ele então começa a encher os bolsos com comida de gato pegajosa e fedorenta. O gato olha curioso e lambe o pote que Rafael deixou vazio. Daniela cobre os olhos com as mãos e chora desconsoladamente. Rafael vai até a sacada do apartamento, tira as calças e joga para o além. Suas calças caem sobre a van branca da empresa de dedetização fazendo um baque molhado. Ele se pergunta

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quanto tempo a van pode ficar estacionada lá fora antes de ser guinchada, porque pelo jeito aquilo vai levar um bom tempo e a última coisa que ele quer é mais uma multa de trânsito. *** O desbravamento da casa exige paciência. Depois que a cega percebe que seu gato não vai bater as botas tão cedo, ela volta a sua rotina e Rafael estuda seus movimentos. Enquanto ele puder salvar o gato, a cega estará a salvo. Em poucas horas, Rafael ganha confiança. Os movimentos da cega começam a fazer sentido. Suas rotinas são tão previsíveis que ele começa a agir como se fossem suas. Harmonia, é a palavra que ele está procurando. Uma harmonia de movimentos que nunca se encontram. Uma coreografia de corpos que se aproximam mas não se tocam, se repelindo como cargas de mesma polaridade. Alguns dias se passam e Daniela faz mais algumas tentativas de envenenamento. O gato, é claro, continua vivo. Enquanto Daniela dorme, Rafael continua explorando a casa. Dá comida para o gato e se lava no tanque da área de serviço. No cesto de roupa suja, encontra uma calça de algodão feminina com boa elasticidade. E o mais importante: a calça ainda tem o cheiro de Daniela. Veste a calça e tira a camiseta da empresa, assim o silêncio é mais profundo.

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Lava suas roupas no mesmo tanque em que toma banho e as coloca para secar no guarda-corpo da sacada. Olha para o mar a menos de cem metros de distância e pensa em como a vista é bonita. Bonita demais para uma cega. E só então ele se depara com um objeto se projetando da caixa do ar condicionado de um apartamento no bloco vizinho. Uma perna. Tem uma maldita perna girando livremente pendurada pelo que restou de uma meia calça ao motor do ar condicionado. *** Daniela trabalha em uma de suas esculturas e sente uma presença. Tenta pensar de forma racional, mas a presença é real demais. Se pergunta se talvez não seria um anjo ou uma entidade parecida? Um espírito? Espíritos caminham e interagem com os vivos? Espíritos exalam calor? Exalam odor? Porque ela jura que consegue sentir o calor e o cheiro. Talvez seja a primeira manifestação da doença que matou seu pai e que em breve viria para buscá-la. A memória vem em sons, é claro. São os gritos do pai que ela ouve primeiro. E então a voz da mãe tentando acalmá-lo. O som do ventilador não conseguia cobrir nada disso. Daniela abria a porta do quarto e ouvia as vozes como se elas fluíssem por um encanamento. Eram os banhos quentes que sua mãe

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dava em seu pai durante as crises para aliviar os músculos atrofiados e as vozes na cabeça. Ela tinha os sons, mas o que ela não daria para ter aquela imagem? A mãe de camisola sob a água quente, massageando as costas do pai de cócoras no chuveiro. Daniela teria a imagem do pai como alguém que foi amado. Desejado. Um amor incondicional e unilateral. Sua mãe, imersa nesse amor que ninguém precisa, mas sem o qual ela não conseguiria viver. Sem essa imagem, Daniela não conseguia aceitar a proteção. Ela não podia aceitar qualquer ato de amor, nem de um espírito, nem de Deus, nem de um depravado sexual. Recusava qualquer ato que indicasse que ela pudesse ser protegida e desejada. Não sem poder amá-lo de volta. *** Rafael se aproxima, vendo os dedos de Daniela afundarem na argila marrom. Ela desliza suas mãos sobre a forma bruta, visualizando os contornos na escuridão. Rafael não consegue acreditar. Se ele apenas soubesse o que ela faz em um dia de trabalho comum. Além de esculpir tratores em massa de modelar automotiva, quero dizer.

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Se ele visse o campo de dois quilômetros quadrados que a empresa construiu para que Daniela, a chefe do setor de projetos, testasse seus próprios tratores. Um campo de obstáculos que ela atravessava em cima de tratores de última geração, quinhentos cavalos de força bruta movidos a etanol e que soam como uma orgia de britadeiras. O escapamento solta jatos de gases tão fedorentos que fazem qualquer um acreditar que há algum traço de vida biológica nas entranhas daquela máquina. A única coisa que separa Daniela das muretas laterais é uma faixa de cascalho ao redor do campo, que faz o trator vibrar quando Daniela passa por cima dela. Rafael vê o trator tomando forma quando de repente Daniela para e descansa suas mãos sobre o balcão. Um silêncio desconfortável e Rafael percebe que está a menos de um metro da cega. Tenta se afastar, mas é tarde demais. Daniela se vira e olha para ele com desprezo. “Quer alguma coisa?” Ela diz. E me desculpe se estou sendo vulgar ou grosseiro aqui, mas não há outra forma de dizer isso: Rafael, com o susto, literalmente urina em suas calças, ou melhor, nas calças de Daniela. Apenas um jato minúsculo de urina, totalmente natural, tendo em vista a palidez assustadora de seu rosto. Daniela continua: “Fiz alguma coisa pra ter minha casa invadida?” O ódio em seu rosto, o lábio inferior vibrando como a língua de uma serpente, as mãos agarradas aos braços da cadeira.

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Rafael se afasta lentamente, sentindo a umidade no meio das pernas. “Hein? Seu covarde.” Daniela grita e se levanta da cadeira. “Aparece. Vem... Ã? Que cheiro é esse?” Rafael corre o mais rápido que pode até a sacada e de lá observa Daniela calçar os sapatos e sair pela porta com uma expressão decidida. Algumas horas mais tarde, Rafael ouve uma movimentação no corredor. Coloca a orelha na porta e ouve uma voz desconhecida. Logo depois, Daniela responde: “Não vai acontecer nada.” Ela diz. “Ele é um covarde.” Diabo. Porra. Corre de um jeito todo especial, deslizando pelo porcelanato como uma gazela presa em uma pista de patinação. De todos os esconderijos possíveis, só um é capaz de escondê-lo dos olhos que veem: a sacada, o além. Ele já planejou aquilo mentalmente algumas vezes. Pega a sua bolsa que está sobre o armário da sala e tira de lá um conjunto de cordas e ganchos e outros apetrechos de alpinismo, que a equipe de dedetização usa às vezes para matar umas infestações medonhas que se desenvolvem em lugares inacessíveis. Ouve Daniela tirar o molho de chaves do bolso. Ele tem agora alguns segundos até ela achar a chave correta. Acopla o gancho à base do guarda corpo metálico e fica do lado de fora da sacada, de olhos fechados. Seus pés e pernas

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tremem. Se agarra à corda e se lança suavemente para o vazio como se mergulhasse em uma piscina. Todo o seu peso está sustentado pela corda. Começa na vertical, mas logo o seu peso mal distribuído faz ele se inclinar lentamente como uma cancela que se fecha até ele ficar em posição horizontal, barriga apontada em direção aos céus. Vale a pena ressaltar agora que Rafael está nu. Depois do episódio de incontinência urinária, Rafael precisou se despir para se livrar do odor. No prédio vizinho, uma criança dois andares abaixo da perna protética olha para o homem nu girando com a força do vento como a agulha de uma bússola. Rafael sorri. Então ouve as amigas na sacada acima dele e, logo em seguida, vê sua cueca azul cobalto passar zumbindo ao lado de sua orelha. Quando completa um giro de 180 graus ele está com a cabeça dentro da sacada da vizinha do andar de baixo e a vizinha está a menos de dois metros de distância, uma senhorinha simpática com uma expressão de terror no rosto. “Apenas limpando os vidros, senhora.” Ele diz. Mas é claro que a mulher idosa não enxerga nenhum esfregão ou produto de limpeza, sem contar a evidente falta de roupas. Rafael começa a subir lentamente pela corda. A vizinha olha para cima, para a porção inferior do corpo nu escalando a sacada do apartamento de cima. Como ela poderia imaginar que teria mais uma vez aquela visão? Tantos anos depois da

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morte de Arquimedes? E lá estava ela, olhando para as partes íntimas de um homem e sorrindo cheia de malícia. *** Depois de jogar a xícara de chá na direção do espírito, Daniela sentiu ódio. Ódio daquela entidade que não tinha nada de sobrenatural, porque espíritos não fedem à urina e nem andam por aí interrompendo o trajeto de objetos lançados para o ar. Então Daniela pegou o seu gato no colo e correu até a sacada, de onde ela está agora ameaçando se jogar. Se ergue na ponta dos pés, apenas as canelas apoiadas no guarda corpo de ferro. Sol a pino, cheiro de molho de tomate e fumaça urbana. Daniela sente o calor do asfalto no rosto. Seus cabelos voam no vento. O gato em seu colo se debate e acaba arranhando seus braços, mas ela não se importa. Se inclina para frente, brincando com a ideia. Espera ser puxada para trás a qualquer momento. E então ela ouve um som, que é abafado por uma buzina. Ouve de novo, o som de batidas em sua porta. Desce do guarda corpo e de alguma forma o gato consegue se desvencilhar de seus braços. Daniela corre até a porta e diz: Quem é?

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Ninguém responde. Poderia ser o espírito a enganando? Ou algum vizinho que viu sua tentativa de suicídio? Queria atender e dizer: Alguém tira esse desgraçado da minha casa. Abre a porta e nada. Não tem ninguém ali. Então sente algo passando no meio de suas pernas. O gato. “Não.” Ela grita, ouvindo os passos do gato ecoando pelo corredor vazio. Hesita por um momento. Devo começar a correr agora? Ela pensa. Uma cega atrás de um gato, poderia dar certo? Não, claro que não. Se vira para o interior do apartamento. Respira fundo e tenta expressar aquilo com a maior serenidade possível: “Eu não sei qual é a tua função aqui além de encher o meu saco e feder como um porco, mas é bom você salvar o meu gato. Agora.” *** Não é a ameaça de Daniela que impele Rafael a agir. Bom, não apenas a ameaça. Digamos que a ameaça teve um papel favorável na decisão de agir, isto é, correr atrás do gato. O que o impele para fora do apartamento é uma força interior, contrariando a sua tendência natural de se esconder nas sombras. Por um momento, apenas observar não parece ser tão prazeroso. Sua impotência parece patética, sua inação

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doentia se comparada com a possibilidade de sair das sombras e simplesmente fazer a coisa certa. “Foda-se.” Ele diz e corre até a área de serviço para vestir a calça de Daniela que estava secando no varal. Continua a correr, feliz como nunca havia se sentido. Quebra todos os protocolos de silêncio que ele impunha a si mesmo e pula por cima dos móveis e esbarra na própria Daniela, que fica paralisada ao descobrir que, de fato, ela não estava alucinando aquilo tudo. É isso que faz ele se sentir bem. Rafael está cumprindo sua função. Sua função é salvar aquela mulher e o seu gato. Ele é um herói. Um herói de leggings femininas que não veste sapatos nem camiseta, mas mesmo assim, um herói. Corre pelas ruas e encontra um indigente deitado na calçada. Pergunta se ele viu um gato passar por ali, mas o homem parece estar morto. O cachorro ao seu lado late. Silêncio. Mais um latido. “Late uma vez pra direita e duas pra esquerda.” Rafael diz. O cachorro late duas vezes e ele segue em direção à Praça Quinze de Novembro. ***

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Daniela espera por horas sentada no tapete da sala. Imagina si mesmo fazendo parte daquele silêncio e sente medo da solidão. Tudo parece inanimado e vazio. Estéril é a palavra certa. Nenhuma sombra habitando os cantos, nenhum odor curioso. Só Daniela e seus móveis e tratores em escala. Não sabe muito bem o que deve fazer agora, mas de uma coisa ela tem certeza: está apavorada. Na psicologia, existe esse conceito chamado de atribuição errônea, que diz que algumas emoções podem ser interpretadas de acordo com as reações físicas que elas produzem. Por exemplo, algumas pessoas apavoradas podem se confundir e acabar interpretando o próprio medo como se fosse amor. Isso porque tanto o medo quanto o amor produzem os mesmos sintomas. É algo que acontece, os cientistas dizem. Vítimas se apegam aos seus sequestradores. Casais se beijam logo depois de verem a mocinha ser retalhada na tela do cinema. Estranhos se olham demoradamente na saída da montanha russa. Velhinhos à beira da morte sentem um frio na barriga que eles não se achavam capazes de sentir toda vez que a enfermeira entra pela porta. E talvez isso explique porque Daniela se pergunta agora se ela está realmente pronta para morrer. Tem que ser agora? Claro que não. É óbvio que ela precisaria dos banhos quentes. E de fraldas, muitas fraldas. Mas isso é mais tarde, diz a si mesmo, e talvez, só talvez, até lá você tenha alguém.

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CASA DEDETIZADA – E. REUSS

Hahaha. Ri do seu otimismo, da sua ingenuidade. Seu pai teria dito o mesmo? Seu pai teria olhado para o corpo atrofiado no espelho e pensado: eis um velho inútil que merece ser amado e cuidado como um bebê? Então a porta do seu apartamento se abre. Alguém varre a escuridão, emitindo grunhidos animalescos. E Daniela só sente uma coisa agora, alívio.

No meio da busca, Rafael se lembrou de Daniela sentada no chão do apartamento, sozinha, livre para engolir uma cartela de ansiolíticos. Então correu de volta para o apartamento, onde ele está agora curvado como um L de cabeça para baixo tentando recuperar o fôlego. Onde está o gato? Infelizmente o gato já era. Se perdeu. Está explorando as vielas escuras da cidade com seus novos amigos. Caçando ratos, comendo de sacos de lixo rasgados, metido em aventuras felinas. Uma pena ele ser castrado. Uma infelicidade. Rafael não está preocupado, pois se lembra do gato do seu pai que sumiu por duas semanas e voltou sem um olho e uma personalidade explosiva. Daniela sussurra o nome do gato e Rafael fica aliviado ao ver que ela está viva. Rafael se pergunta o que aconteceria se ele apenas se aproximasse agora. Exatamente assim, saindo da posição de

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CASA DEDETIZADA – E. REUSS

observador, quebrando a coreografia de atração/repulsão simultâneas. Se ele de repente a tocasse, delicadamente? E se ele colocasse a cabeça sobre as pernas cruzadas de Daniela, só por um momento? Fazendo de conta que é um gato… Não seria bom? Quero dizer, não seria bom se ela não começasse a gritar? Ele se ajoelha no mesmo tapete em que Daniela está sentada. Daniela continua a chamar pelo gato, mesmo quando ela consegue sentir o calor exalando de Rafael a poucos centímetros de distância. Rafael então fecha os olhos. Cria coragem e deita a cabeça em seu colo. Ele está tenso, esperando levar uma bofetada, mas em vez disso, Daniela passa os dedos através do seu cabelo. Suavemente, como alguém que ama. Ficam assim por muito tempo, até que Daniela acaba dormindo. E Rafael sente pela primeira vez que está no lugar certo. Para Rafael, eles são como aquela prótese pendurada para fora da janela do apartamento vizinho ou como aqueles objetos no fundo de gavetas mofadas: apenas parte de uma coleção de objetos estranhos habitando casas dedetizadas.

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O MELHOR DIA DE CLARK Renan Rondon

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Meu nome é Clark. Trabalho na loja de itens na pacata cidade de Paderre. Vendo itens gerais para qualquer necessitado: poções, flechas, armas básicas, materiais de consumo e de criação. Um atendente de loja é a melhor profissão que conseguimos por aqui, até o governante da cidadezinha não tem tanto prestígio como eu, visto que ele tem mais pulgas na cama do que afazeres. Paderre fica completamente fora de qualquer rota, dificilmente tenho mais de 3 clientes por dia. Minha vida mudou quando recebi uma carta hoje de manhã, dizendo que fui transferido para a loja de itens de Antelia, a capital de nosso reino. Praticamente vou trocar uma vida de sossego por uma de loucura, contra a minha vontade. Para quem não está familiarizado com essa política das lojas, uma só pessoa é dona de todo o complexo de lojas de


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itens do reino, então quando um funcionário de uma grande cidade morre ou sai por eventual motivo, o dono dessa franquia de lojas coloca em seu lugar um funcionário de cidade pequena, ao invés de depositar sua confiança em um recémcontratado. O monopólio dessa franquia é muito forte, a ponto do rei proibir que outras pessoas abram lojas de itens e ganhem dinheiro. Não é de se assustar que o mesmo produto custe o mesmo valor em qualquer cidade, pois assim o necessitado acaba tendo que comprar aonde quer que esteja. O máximo que fazemos é vender alguns itens específicos em cidades de alta demanda, para incentivar o turismo local. Certo dia tive a oportunidade de conhecer o atendente de Mystvar, a cidade dos magos. Ele me contou que vendem alguns orbes de magia exclusivos na loja de lá, para que as pessoas sejam obrigadas a usar o serviço de transporte marítimo estatal do reino e arrecadar um bocado de ouro para a coroa a cada viagem. O problema é que o plano do rei acabou dando errado, vários aventureiros decidiram boicotar o serviço de navios, e aprender antecipadamente (a um certo preço) a magia de teletransporte. Bastavam algumas palavras e "Poof!", a pessoa aparecia no centro da cidade desejada, e o pobre do navegador ganhava cada vez menos clientes. Eis que me pego fazendo a mudança para Antelia. Consegui uma casa decente na periferia da cidade, bem longe da loja, que fica no centro. Minha família veio comigo, tenho uma mulher e um filho. Minha esposa atualmente parou com os

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serviços de limpeza, pois está esperando nosso segundo filho, que deve nascer dentro de umas 3 semanas. No primeiro dia de trabalho, eu estava bem nervoso. - Mas já vai trabalhar, amor? - disse minha esposa, enquanto preparava o café da manhã. - Aqui em Antelia abrimos duas horas mais cedo, esqueci de te avisar. Ainda tenho que averiguar o estoque. Nosso estoque é devidamente conferido uma vez a cada semana. O carregador chega com quantidades abundantes de cada produto a cada viagem, a fim de que não percamos clientes por falta de estoque. Até hoje nenhum aventureiro reclamou que seu item estava em falta em nossas lojas. Chegando lá, me deparo com quantidades enormes de cada um dos itens, facilmente umas vinte vezes mais do que eu estava acostumado. O dinheiro para troco estava em excesso, eu teria que me cuidar para não fazer besteira e dar moedas a mais. Felizmente cada atendente é devidamente treinado e nunca tivemos casos de troco errado, nem para mais, nem para menos. Somos partes importantes do sistema, por mais que ninguém nos dê bola. Depois de tudo arrumado em suas devidas prateleiras, eu ligo a música e me preparo para abrir a loja. Você vai achar isso estranho, mas nós tocamos a mesma música em cada loja do reino, e a todo momento em que a loja estiver aberta, a fim de garantir uma identidade própria para nossos clientes, e incentivá-los a comprar.

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Com exatos quarenta segundos de funcionamento, um cliente entra correndo e afobado: - Rápido, um antídoto! A julgar pela sua aparência, me parecia um bárbaro. Já de idade avançada e com cicatrizes por todo o corpo, o que mais chamava atenção era seu jeito de correr, quase tropeçando, e suas marcas escuras na face e sangue pingando da boca. O velho pagou o antídoto e tomou ali mesmo, deitou aliviado, começou a rir, e disse que precisava ir a igreja pedir que salvem sua alma. No mínimo deve ter ido caçar no bosque das cobras ontem a noite, e ao ser picado e envenenado, percebeu que não tinha antídotos disponíveis. O velho passou a noite inteira desesperado esperando a loja abrir, se eu atrasasse uns 20 minutos provavelmente o pobre homem estaria morto. Este é o problema de não ter amigos quando se caça a noite. Praticamente passei a manhã inteira na loucura. Na hora do almoço, enquanto tentava comer meu lanche escondido de qualquer cliente (é terminantemente proibido que as lojas de itens fechem para o almoço, assim como permitir que o cliente veja um funcionário comendo), me entra um monge careca, olhando todos os detalhes do local, e me pedindo para ver o catálogo de itens. Prontamente me dispus e apresentei a ele. - Claramente não se vê nenhum tipo de desconto aqui na capital... - o monge coçou a cabeça em desaprovação. - Todas as lojas do reino trabalham com o mesmo preço, senhor.

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- Se acham que vão me fazer gastar meu ouro com itens, estão enganados. Tomarei nota da lista de produtos, só um momento... O panaca pegou um pergaminho e começou a anotar todos os produtos nele. Ao terminar, me perguntou a rua do local, e disse que talvez lembraria de voltar ali caso sinta necessidade. Se há uma coisa que os atendentes odeiam, é ver os aventureiros entrando nas lojas, olhando produto por produto, anotando o preço e depois irem embora sem comprar um mísero mapa. Mas minha maior vergonha do dia foi no fim da tarde quando um pirralho me perguntou do efeito do anti-paralítico. O pior era ver ele tentando conversar com a língua paralisada, e eu no puro cansaço tentando entender alguma coisa, e sequer conseguindo conduzir uma conversa. Não quero que me vejam mal, lá em Paderre não existiam sapos paralisantes como aqui, então jamais me ocorreu na cabeça como esse produto funcionava, eu devia vender uns 2 desses durante todo o ano. Claramente decepcionado, o pirralho foi embora com a língua paralisada e a moral abatida. Perto das seis da tarde, me preparando para encerrar o expediente, ouço um paladino gritando na porta da loja: - Pelo amor de todos os deuses, me esconda aqui! Do lado de fora, vários GMs cheios de armaduras e com armas prontas para atacar. Não sei se comentei com vocês, GM é a forma que chamamos as pessoas que botam a ordem no

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reino, é uma espécie de polícia local. Por via de leis, as lojas e alguns outros estabelecimentos são locais sagrados, e dentro deles jamais poderiam haver qualquer tipo de ataque ou prisão, muito menos a presença de GMs. - Meu senhor, vai comprar algo? Preciso fechar. - eu já estava impaciente e com a cabeça ardendo de stress, tudo o que eu queria era ir pra casa. - Não, só quero viver. Tenha piedade por favor. Eu transformaria esse cidadão em pó naquele exato momento, se algum dia eu tivesse aprendido os segredos da magia. A loja já tinha passado de sua hora de fechar, e somos proibidos de mantê-la aberta depois do horário. Eu estava uma pilha de nervos, mas com toda minha bondade de primeiro dia de trabalho, respirei e saí do balcão, caminhei calmamente para perto da porta, onde o paladino estava ajoelhado, suando. Sim, eu iria fazer o papel de pai e conversar. Até que um cidadão sorridente entra na loja. - Olha que sorte, não imaginei que ainda estivesse aberto! Faz desconto se levar 10 poções? Só me faltava essa. Toda a reputação de bom moço que construí com vocês vai por água abaixo agora. Eu olhei na cara do sujeito, ninguém menos que o monge careca que veio me atazanar mais cedo. Minha mão foi mais rápida que meu cérebro. Empurrei o sujeito com tanta força no peito que ele foi parar a cinco metros da porta, do lado de fora. Tudo isso em poucos

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segundos, seus gritos de "O que é isso" misturando com meus berros de "JÁ FECHOU!" assustaram até as pessoas que passavam ali. Com raiva, fechei a porta da loja e acionei a tranca. Acho que foi o primeiro caso da história onde um aventureiro foi agredido pelo vendedor de itens. - Muito obrigado, não sei o que seria de mim sem a sua ajuda - o paladino falava visualmente abatido, seus longos cabelos caíam pelo seu rosto magro. - Eu não sei nem o que vai ser de mim agora - retruquei. Eu tecnicamente não tinha parado pra pensar no tamanho do problema em que me meti. Fechei a loja com um aventureiro dentro dela, assumindo qualquer risco. Eu precisava pensar numa solução antes que o rapaz causasse algum problema. - Você sabe que não pode ficar aqui dentro pra sempre, né? - reparem o quanto estou preocupado com a vida dele. - Eu sei, mas não posso ser pego agora, preciso de descanso, estou com a mente a mil, não consigo controlar as pernas. - Os GMs são praticamente robôs, eles vão ficar aí em frente até a hora em que você pôr os pés pra fora da loja. O moço não respondeu, preferiu ficar respirando ofegante. Em uma olhada rápida consegui perceber o quanto a armadura dele brilhava, seus bolsos estavam cheios de runas e seu inventário perfeitamente organizado, mas o que mais chamava minha atenção era sua espada, com lâmina toda azul e uma

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fumaça rastejante percorrendo o corte do metal. Eu jamais havia visto aquele item antes. - Posso ficar aqui esta noite? Eu cometi um erro terrível, e estou arrependido. Estou com muito medo de encarar os fatos - o rapaz dizia com voz sincera. - Onde conseguiu esta espada? Me parece ser muito rara eu estava atônito pela beleza daquela arma. - Eu... eu roubei. O rapaz baixou os olhos com vergonha, jogou o cabelo pra trás e me entregou a espada: - Fique com ela, eu cometi um grande erro, sequer preciso de dinheiro. Minha família é rica, mas numa brincadeira de mal gosto acabei me apossando. - Eu posso ficar sim, mas pretendo devolver ao verdadeiro dono - assumi e peguei a espada. Admito que pensei em vender a arma na loja, mas acredito que um item de tamanha exuberância atrairia atenções indesejadas para a legalidade de meu ofício. De qualquer forma, fiquei com pena do rapaz, apesar de aparentar ser mais velho do que eu, não passava de um galã mimado pelos pais. Todo mundo erra um dia, e errar era minha especialidade. - Olha, pode ficar sentado aqui, eu preciso ir aos fundos da loja dar um telefonema - me despedi indicando o local ao moço.

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Fiquei cerca de dez minutos na sala dos fundos da loja. Foram dois minutos ao telefone avisando a minha esposa que eu não voltaria pra casa hoje pois passaria a noite na loja e mais oito minutos pensando na desculpa que eu usaria para convencê-la. Se ela descobrisse que estou abrigando um fugitivo, ela mesmo arrombaria a porta e aí teríamos um morto a mais. Voltei para o espaço comum da loja com algum óleo para as lamparinas, e alguns travesseiros. - Você não tem ideia de como sou grato. Espero não estar lhe causando problemas, senhor... ? - o rapaz realmente achava que poderia passar a noite ali e não me causar problemas. - Clark, prazer - eu respondia com gosto, poucas pessoas queriam saber do nome do lojista. - Prazer, eu sou o Tomaz. - Pode deitar por aí, se achar melhor, encoste os bancos. Espero que não se importe se eu passar a noite aqui na loja também. - É claro que não, o senhor é o dono, deve zelar pelas suas mercadorias ao invés de deixá-las a sós com um estranho - mal sabia ele que eu não era dono. - Com certeza - eu falei calmamente, de certa forma estava feliz por poder descansar. Depois de preparar meu lugar e me aconchegar, resolvi dar uma de bom anfitrião e puxei papo com o paladino: - Como foi que colocou os GMs atrás de você?

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- Matei um cara - Tomaz respondeu levando um susto. - Nossa, a troco de quê? - tentei não transparecer minha surpresa. - De algumas moedas, armaduras e outras bobeiras, quase nada. Ele era aquilo que chamamos de novato, tinha bons itens mas não tinha defesa nenhuma. Eu vi ali uma oportunidade de lucro rápido mas não contava que alguém me pegaria matando o coitado pra roubar. - Você sabe que os GMs te fazem pagar ao reino o triplo do que rouba, né? - Sim, além de duas semanas banido aos calabouços. O barato sai caro. O paladino não pareceu dar a mínima para o valor da multa, estava preocupado era com a reclusão de duas semanas. Preocupado demais. - Você está preparado para ser pego de manhã e cumprir o que deve? - mais uma vez falei alto, assustando o paladino. - Não, por favor, me deixe ficar aqui com você - ele já estava ficando tenso novamente. - De forma alguma! Eu tenho casa na cidade, esposa e filhos pra cuidar, minha quota de desculpas pra não ir pra casa já se esgotou. Além disso não posso ficar abrigando um marmanjo que tem medo de pagar pelos seus erros. - Me desculpe, mas veja... eu posso te recompensar amanhã, só preciso pensar no que fazer. Não adianta ficarmos nos

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estressando agora... - o rapaz estava visivelmente perdido você teria aí algum chá pra me ajudar a dormir? - Só um instante. Caminhei até a despensa pensativo, pelo visto virei mordomo. Não acredito que estava abrigando um ladrãozinho que matou por cobiça e estava com medo de ser preso, ou talvez se achasse muito bonito pra ficar encarcerado por um tempo. Meu espírito de ira falou mais alto e acabei fazendo um chá relaxante demais. - Tome seu chá, você vai dormir bem daqui uns vinte minutos. - Muito obrigado. Vou acordar antes de você abrir a loja pra gente combinar o que fazer. - Com certeza. Boa noite - eu falei sorrindo por dentro. - Boa noite, irmão - o paladino falou se virando para dormir. Fui para a sala dos fundos onde tinha armado minha cama improvisada e me deitei. Trabalhei tanto que acabei dormindo na hora. Só fui acordar com o brilho do sol batendo no rosto. Chequei o relógio e faltavam apenas alguns minutos para a loja abrir. No chão da loja vi meu chá fazendo efeito: o paladino dormia tão profundamente como uma pedra. Eu não podia deixar meu plano falhar, rapidamente aprontei as vitrines e me preparei para abrir ao público. Ao abrir a loja, os GMs ainda

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estavam lá, pacientes como estátuas. Se alguém tiver o interesse de me perguntar, eu não acredito que sejam humanos. Em menos de dez segundos executei o planejado. Coloquei meus braços em volta do paladino e o carreguei para fora da loja, soltando-o direto para a calçada. Mais alguns metros e eu seria obrigado a arrastá-lo, pois meu físico não ajudou. A partir daí o que vi foi novidade: o paladino acordou com um susto alguns segundos após eu tê-lo jogado para fora, mal seu olho se abriu, suas tripas saíram do corpo, fruto de um golpe certeiro de lança de um dos GMs. O pior foi o serviço bem feito: a cabeça do ladrãozinho se dividiu em três partes após repetidos movimentos da espada dos guardas. Eu jamais tinha visto carnificina tão grande. Depois do serviço, a entrada da loja foi isolada por um tempo até que os restos mortais fossem removidos do local; isso ia demorar bastante visto que a enxurrada de curiosos sequer deixava alguém passar por ali. Eu acabei me recuperando do susto e até me senti mal por aquilo, não esperava que estivessem punindo com tanta severidade. Quando voltei ao balcão me dei conta de um papel que estava caído ao chão. Desenrolei e percebi que eram anotações feitas pelo Thomaz antes de dormir: “Amigo Clark,

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Não esperava que eu lembraria do seu nome, hein? Você deve notar que eu não estou na loja agora, bolei um jeito de sair ileso, um plano quase perfeito. Provavelmente vou executá-lo nas primeiras horas da manhã, quando a cidade ainda estará dormindo. Eu não sei como você reagiria a isso, mas acabei mentindo hoje. Lembra-se do temido dragão que foi morto por um paladino semana passada? Aquele paladino era eu. O rei prometeu tantas riquezas que eu não poderia deixar de aceitar essa missão. Felizmente você chegou hoje na cidade e não teve tempo de conhecer minha fama. O grande problema, meu amigo, é que ao apresentar a cabeça do grande réptil ao rei, me deparei com um triste dilema. Eu praticamente dei tudo de mim para empalar o bicho, aceitei sozinho uma das principais missões do reino, e na hora de receber minha recompensa fui enganado. Todo o tesouro que eu resgatei do covil da fera pertencia ao rei, e o velho monarca quis simplesmente que eu entregasse à coroa. Na verdade, foi me dada a espada Lafrost, a lâmina que acabei te presenteando hoje, que embora seja de uma raridade considerável, não correspondia nem a um por cento da soma de todo aquele tesouro. No meu ímpeto de fúria, vi que a monarquia estava enganando a todos os aventureiros nas grandes missões, fazendo-os

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agir a um baixíssimo custo. Ergui Lafrost e decepei a cabeça do rei no próprio trono real. Rapidamente encapsulei todos os itens valiosos do tesouro e coloquei no meu inventário, ativei uma magia de invisibilidade e velocidade que durou alguns segundos e consumiu todo o meu resto de energia para sair do castelo. Já na praça real, corri os últimos segundos da minha vida até essa loja, com os GMs me perseguindo. Eu sabia que ia morrer, e seria permanente. Toda a minha vida de aventuras jogada no lixo por tentar combater a injustiça. Até que você me acolheu. Eu te garanto que vou voltar e te recompensar ainda mais, tirar você dessa vida de loja, já pensou em se tornar um famoso arqueiro? No momento, minhas mãos não me obedecem mais. Mas que raio de chá foi esse que tomei?” Eu só ouvia o silêncio. A carta terminava abruptamente, com certeza com Thomaz pegando no sono após desconfiar do meu plano. Lá fora, seus restos mortais ainda serviam de objetos curiosos para os transeuntes. Eu me sentei atrás do balcão. Quando será que um famoso aventureiro perguntará meu nome novamente? Com certeza minha vida de loja ainda seria grande.

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MÃE JOANA Luiz Mariano

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Início da história de Mãe Joana. Mãe Joana foi uma moça sobre a qual uma profecia circulava nas redondezas – Essa menina salvará a nossa gente – Disse Glorinha, preta velha que não esquecia de nada. Aliás Glorinha dizia que “Mãe Joana”, assim mesmo, com “Mãe” germinando o nome, viria ao mundo cega e sem pai, sem genealogia. Glorinha, em seu vestido branco, dava conselhos, sempre sábios, sempre sorridente. Nascida em Itacaré na Bahia, foi a maior da humanidade. Mas como chegou a isso, a esse nível, a Mãe Joana? Mulata, filha de escrava. Nasceu na senzala. O parto horrível, veio sem braço ela, a calada, cega e coxa, que falava e dizia somente a verdade. Abandonada pela mãe, Joana, olhos brancos, dedos trêmulos, foi abençoada com um estupro logo aos 13 anos, quando Glorinha morreu, na sua frente, ao tentar lutar contra os agressores. E Mãe Joana, caída entre as poças


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de lama, disse: “Um dia, vocês morrerão. E serão perdoados pela Toda-Uma, a mãe de todos nós”. Os estupradores, aliás catorze, emudeceram; era a hora do espanto. E ela desacordou. Isso foi nos arredores de Itacaré. Aos 13, Mãe Joana, engravidada sem saber, perdeu o filho logo após o parto, e desse dia em diante passou a caminhar pela cidade, dormindo ao relento, renegada. “A louca, pobrezinha”, todos diziam. Por onde passava falava com voz grave, serena. Despertava a todos de sua sina, mulher-símbolo. Certa vez, entrou numa igreja, e, parada no meio de todos, toda farrapos, disse: “Abençoados sejam todos os homens”. Murmúrios de choro ziguezaguearam entre mulheres e homens. O padre, em seu coração, a invejou. No dia seguinte, Mãe Joana passou na frente do dono da cidade, coronel Adalberto, que tinha a filha doente. – Deixa eu ver a menininha – falou com doçura a pequena sem braço. Apalermado, Adalberto permitiu a entrada dela que, ao tocar a criança, curou-a instantaneamente. Todo choro e sorrisos, Adalberto caiu aos pés de Mãe Joana, dizendo, rezando e se benzendo. Ao que Mãe Joana, simples, respondeu: - É chegada a hora da graça. Cuide bem dos seus, menino. Saindo dali, caminhou até uma vila vizinha, paupérrima. Na ocasião circulava pela mesma região dois cientistas, gente do exterior, que averiguavam os espécimes animais e vegetais, flora e fauna, e os minerais. Vendo-a, instintivamente viraram os olhos buscando horizontes. Mas ela pôs-se a falar com eles,

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e eles como que iluminaram seus cérebros e corações, dir-se-ia cheios de raios, tamanha a intensidade com que os apontamentos de Mãe Joana infundiram-lhes. E ela lhes dizia: “Cuidem de suas crianças. Não só do bicho homem, mas dos animaizinhos e plantas. Eles também são gente, da sua forma própria. Até a terra é a gente!”. Quando eles se disseram ateus, ela sorriu e, coçando agachada: “Pois eu também. Só acredito na mãe, a água-mãe, onde os separados se juntaram e nasceu vida, né?”. E eles se entreolhavam admirados. (Mais tarde, lembraram-se dela, aqueles dois; e diziam que, se não fossem ateus, fundariam uma religião com ela sendo a enviada de Deus na Terra. Ela, a pobrezinha. Diziam eles que, “na falta de objetividade da ética, seguimos Mãe Joana”.) Nem bem ela saíra dali, um estouro de boiada aterrorizou a rua geral, a turba toda espavorida. Vinham, ferozes e grandes, na direção de Mãe Joana. E, firme, ereta, pôs a palma da mão, aberta, na direção dos bois; e ordenou: - Parem! Sou a Mãe Joana. – E eles, talvez obedecidos, fincaram os pés no chão, para muita alegria dos donos, muito gratos, que, cheios de espanto, murmuravam entre si: “É santa... Parece até mãe... Mãe de animais e gente... Como é o nome? Joana... Mãe... Mãe Joana!” E a fama dela se alastrava pelas redondezas, qual doença contagiosa ou boataria. As pessoas das cidades vinham ao encontro dela, gente rica, feia, escravo e senhor; Encontravam-na quase sempre ao relento, maltrapilha, entre os mendigos e desvalidos. Certa

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vez, um assassino, cujo rosto era duro e olhos feitos de pedra cinza, encontrou-a de madrugada no meio de Ilhéus, e travouse o seguinte diálogo, acompanhado por alguns bêbados caídos: - Então você que é a milagreira, a preta velha que de velha não tem nada? O que você faria se eu te matasse agora? - Eu iria te defender no tribunal dos aflitos, ó menino, no tribunal dos santos e demônios, e daria meu corpo ao inferno eterno em resgate pela tua consciência limpa. – Ela falou isso muito calma, quase sorrindo, com os olhos vazios de vida no rosto feio. Isso pegou o pária de surpresa e houve uma pausa de alguns instantes. Mas ele não titubeou: - Palavras vazias não me impressionam, velha. Eu sei da sua história. Sei que você foi estuprada. Bem, já que você já foi comida uma vez, não se importaria de ser de novo, não acha? Acabei de sair da prisão e você pode servir. - Pois satisfaça sua vontade, menino, só não se incomode se eu chorar baixinho. – Ao ouvir isso o assassino pareceu sentir ter aumentada sua fúria, tamanha a tranquilidade e petulância da menina. E lidou com ela com uma ferocidade de dar vergonha nos animais selvagens. Mãe Joana a tudo suportou calada, os muitos minutos de músculos e vontades indomadas. Gemeu baixinho, é certo, mas de uma forma que fez até o voraz fornicador se sentir mais homem, mais forte, aumentando seu prazer. Entrou em todos os buracos, melou tudo. Por fim, gentilmente a vestiu de volta, com uma delicadeza

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amorosa, talvez já arrependido, e sumiu do lugar. Os mendigos de ilhéus, na morte de Mãe Joana, se lembraram de tal ato, e, sabedores da morte do assassino, concordaram entre si que ela teria se oferecido perante o tribunal no lugar de seu algoz para sofrer o fogo purificador. Alguns dias mais tarde voltando à Itacaré, sua cidade, Mãe Joana presenciou uma cena de suborno: capangas de Adalberto pagavam ao governo local para terem privilégios ante ao crime da cidade. Não notaram Mãe Joana, porque à noite os santos dormem. Mas ela começou a falar baixinho, depois aumentando o tom da voz, acordando alguns, e irritando muito todos eles. “Não se vende justiça. Justiça não se vende. Quem governa tem que capinar, fazer o certo diariamente. Não se vende justiça, justiça não se vende. Justiça é paz de consciência, não se vende”. Aquilo foi sendo dito, repetido, até que algumas pessoas acenderam luzes, chegando mais perto para ver melhor, e os homens do governo e os homens do Adalberto, praguejando, se dispersaram. “Temos que dar um jeito logo nessa Joana-sem-braço”, eles disseram. Não demorou para que Mãe Joana arranjasse problemas também com a igreja local. Numa missa dominical, na hora do sermão, quando o padre insistia no dízimo, ela, lá no canto, maltrapilha como sempre, com seu vestido marrom, se levantou bem devagar e, numa pausa do padre, falou com voz doce e forte:

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- Perdão pela interrupção, padre, mas me perguntei aqui comigo: se essa gente sofrida tem que dar o dízimo, gente que nem sempre tem o pão do diário, por que a igreja cada vez fica mais bonita, mais enfeitada? Comoção no recinto. Zumbido de senhoras, risadinhas de crianças. O padre engoliu em seco, pigarreou e, empertigandose, exclamou: - Como ousas questionar na casa de Deus? És cega, como sabes se a igreja está mais enfeitada? Aqui é um lugar santo, menina! Sim, nós embelezamos nossa igreja, para que nosso Salvador Jesus sinta-se sempre em casa, e bem. Mas nós cuidamos de vários desabrigados, ajudamos instituições que cuidam de pessoas carentes, ou você nem sabia disso? Como é fácil fazer acusação sem fundamento! – E sorriu, assumindo um ar de autoridade régia, que combinava com seu porte. - As árvores longas dão frutos, mas são os mais altos que escolhem a quem dá-los. – E com essas palavras sentou-se novamente. O padre abriu a boca, e, como não conseguiu pensar em algo para dizer, seguiu a celebração, compenetrado. Por dentro, ferviam-lhe as palavras, descarnadas, em carne viva. Ora, acontece que o padre tinha um sentimento de si como alguém baixo, inferior. E gabava-se por saber latim, ao contrário da maior parte da população. E, ao descobrir que, no fim da celebração Mãe Joana permanecia em seu lugar, sozinha, foi ralhar com ela. –Você não deveria tratar um padre

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daquela maneira – frisou. E porque não foi receber a hóstia? Não teve primeira comunhão? – Ele olhava para ela com raiva. Mas ela apenas disse: “Polemos pater panton”, que, em latim quer dizer “a guerra é a mãe de todas as coisas”. Um dito de Heráclito, filósofo grego. O padre voltou a ficar sem palavras, estático, e Mãe Joana fez uma reverência (a Jesus ou ao padre, não se sabe ao certo) e saiu lentamente da igreja. Mais tarde, o barão Aristides, um dos homens mais ricos da região, veio correndo em busca de Mãe Joana que, não estranhamente, encontrava-se num dos becos da cidade. Ele pedia para que a menina de olhos brancos, a negrinha, rezasse pela sua mulher que já fedia à doença. Foram os dois em direção à fazenda de cacau de Aristides, passando por numerosas gentes. E, ao chegar na grande casa, a mulher jazia, morta. –Chegamos tarde! Meu benzinho! Não me deixe, meu amor – Ajoelhava-se Aristides, ao redor da cama. As velhas da cozinha, o cuidador da estrebaria, e mais outros estavam lá. Mãe Joana também estava, ajoelhou-se perto da morta e, levantando-se, exclamou: -Faça-se a vida! – E instantaneamente aquela que morrera saltou da cama e pôs-se a bailar. Todos os que estavam naquele quarto ficaram estupefatos. “Como? Mas ela estava morta!”. “Quem disse? Era só um sono profundo, sem sonhos. Ela dormia”. “Mas porque então não respirava?”. “E por acaso você é médica, Jurema?”. “Seja como for, foi Deus”. E Mãe Joana dançava e cantava, sorria e distribuía notas com sua melodia, uma melodia que, disse mais

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tarde Aristides, parecia ter saído de um Orfeu mulher, tamanho o encanto e a maestria. Uma melodia que, Aristides iria descobrir, lhe enfeitiçava as carnes e que segundo o próprio repetiria a si, não se dava pra viver sem ela. E ali mesmo, onde antes parecia ter um cadáver, juntaram-se músicos e artistas, e de lá saíram para um cortejo festivo, pela vida. Mãe Joana entre eles, só canto, só alegria. Alguém disse, e não foi um só, que, ao ouvirem o canto de Mãe Joana, seja o que fosse se alegrava e dançava, homens, pedras, destinos. No dia seguinte, Mãe Joana punha-se na tarefa de ensinar os aflitos. Era a gente esquecida, pobre, indigentes. Juntavamse prostitutas, crianças abandonadas e vez ou outra encontravam-se até bacharéis, que se admiravam dos ensinamentos de Mãe Joana. –Aquele que ensina, faz. Se não faz não ensina. Quem não rima o diário da vida com o falar, precisa aprender. – E todo mundo escutava. Perguntaram-lhe: “Que religião tu proclamas? És uma messias?”. E ela: “A minha religião é a minha conduta.” E pensavam várias vezes antes de perguntar alguma coisa. Um homem sábio, muito velho, afirmou: -Ela é uma santa! Deveria ser canonizada! – Mas Mãe Joana, muito lúcida, disse: -Santo é o pensamento que a gente deixa na cabeça, reinando tranquilamente, feito água. Santos são os pratos que as pessoas levam aos famintos. Santo é o perdão e a clemência, o agir na inocência.

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E, naquela mesma noite, Aristides, o barão de Itacaré veio em seu cavalo branco, de madrugada, quando os santos dormem. Veio atrás de Mãe Joana. - Mãe Joana, Mãe Joana, como gosto do seu canto! Da sua voz, do seu encanto... Eu poderia te dar uma vida de muito luxo, você sabia? Queres morar comigo na minha fazenda? - Você já não mora com sua esposa e seus empregados, seu Aristides? - Eu a matei. - Matou sua própria esposa, seu Aristides? – Ela arregalou o olho, mas não num sentido de surpresa; Aristides chegou mais perto. - Matei-a. Matei, sim. Por causa de você, Mãe Joana. Não posso viver sem você, sem o seu canto de mel. Estou apaixonado. - Sinto, mas não quero ir com você, Aristides. Que a Misericórdia abençoe sua mulher. - Ah, mas você vai. – Aristides apeou, segurou Mãe Joana pelos trampos; ela tentou se livrar, sem, porém, desferir ao menos um golpe no homem corpulento, que, sem rodeios, a atacou com força. Caída no chão, desacordada, foi colocada em cima do cavalo; Aristides a levou para sua fazenda, onde lhe preparou um quarto sem janelas, somente uma cama e alguns pertences, e ali, todo dia, Aristides satisfazia suas vontades, batia, mordia e urrava, até não poder mais. Todas as

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vezes em que ela engravidava, e não foram poucas, Aristides tratava de matar os bebês; E foi assim durante vários anos. Durante todo esse tempo, ela não reclamou nem uma só vez, e cantava sempre que o seu dono pedia. Por fim, entediado, Aristides pôs fogo na mulher, que cantou enquanto morria a seguinte canção: “Um dia vamos todos nós, alegremente/Dançar de mãos dadas ao sol poente” E Aristides, por sua vez, enforcou-se na cozinha de sua casa.

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BÁLSAMO AZUL Larissa Reggiani Galbardi

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Você vê o herói sozinho no canto E se pergunta por que ele não aproveita os louros da vitória Nas histórias não era assim, nos romances e contos de fadas era tudo tão fácil, o herói salvava a mocinha, acabava com o vilão e pronto: mais um final feliz era escrito, só que nada disso era real! As histórias não falavam das dores da batalha, da culpa de quem sobrevive, do peso nos ombros de quem obrigou-se a sobreviver... Os livros falavam das glórias e das flores, não avisavam sobre destroços no fim, nem sobre o coração em escombros. Ninguém percebe a dor do herói Nem ninguém o olha nos olhos e o vê como é


BÁLSAMO AZUL – LARISSA REGGIANI GALBARDI

As pessoas também não entendiam: elas o aclamavam, afinal ele vencera, livrara o mundo louco, mais um em um mar de insanidade! O que não viam era a expressão vazia em seu rosto, não se preocupavam ou não enxergavam a dor em seu olhar, nem mesmo seus amigos, os que sabiam o que era a dor de perder alguém ou de nunca ter o que deveria ter tido, embora enxergassem melhor sua dor, embora entendessem muito mais do que todos os outros. Todos querem participar de sua glória Mas a maioria ignora toda a sua história Nem os contos de fadas, nem os de ficção científica o haviam preparado para isso, para saber que no fim ele se sentiria tão só quanto no começo, um gosto amargo na boca, sentindo o sangue correr nas veias, uma sensação de envenenamento... Despropósito. Venceu! Mas, agora, o que lhe restava para fazer? Ele resgatara amigos, salvara o mundo, matara o vilão, exatamente como nos livros, agora não sabia o que fazer; revoltar-se? Para quê? A tristeza que o acompanhava era uma conhecida e íntima inimiga, quase não a percebia, o que o

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dilacerava agora, como uma adaga afiada, era a imensidão vazia de seus olhos assombrados. Nem o herói poderia imaginar Que o consolo viria do azul Um par de azul de olhos igualmente assombrados encontrou seu olhar, a heroína e o curador sorriram fracamente, sentaram-se ao lado do herói, exaustos, imundos, igualmente sem propósito, mas diferentemente do herói, em seus olhos crescia uma flor, alívio e esperança e determinação e amor. Ele, então, sorriu, ainda cansado, ainda assombrado, ainda triste, porém sorriu, pois o vazio começava a desvanecer-se, encontrou força na força dos outros, seu senso de propósito abalado começando a curar-se, o herói sorriu por encontrar esse consolo azul.

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MEU NARIZ DE BULDOGUE, ÀS VEZES DE POODLE Roselaine Hahn

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Um dia antes dos grandes olhos glaciais mergulharem na viagem de retorno à casa do Todo-Poderoso, ela entregou-me uma carta e pediu para eu procurar o meu pai. Sim, eu tenho pai. Agora. Agora eu sei que ele não morreu na guerra, nem foi comprar cigarros e tampouco pouco abduzido por um extraterrestre. Ela tinha a rotina de deixar-me bilhetinhos de controle, antes de sair para o trabalho, feito lista de supermercado, num caderno quadriculado: “lava a louça, seca a louça, recolhe a roupa, tem nega maluca no armário, não fica à tarde toda no computador”. Eu não entendia bulhufas do que estava escrito, tipo a fonte script MT Bold, tamanho 10, e mesmo se entendesse, não faria a menor diferença.


MEU NARIZ DE BULDOGUE, ÀS VEZES DE POODLE ROSELAINE HAHN

Na carta, o diacho da letra embaralhada parecia arame farpado enrolado, culpa da presença da senhora dona morte, que não arredava o pé da cabeceira da cama do hospital. Consegui decifrar, com uma lupa, a concessão do perdão ao meu pai e o pedido de cuidados à minha pessoa. Não sei por que fez isso, se tinha certeza de que Deus a salvaria. Acho que as pessoas à beira da morte perdem a arrogância, que deve ser o mesmo que perder todas as certezas. A sua irmã sabia. Ela pediu segredo. Era para me proteger. Eu não queria ser protegida. A tia contou-me que ele chamou minha mãe de vadia e disse que o filho não era dele, quando ela o procurou cheia de enjoos. Ela falou que os homens agem assim porque não querem assumir compromissos e nem pagar pensão. Também afirmou que a doença da irmã era porque ela viveu cheia de raiva e mágoas, que as doenças nos países baixos das mulheres têm a ver com a maldade dos homens, e que as doenças do emocional apodrecem o corpo. Tudo baboseiras que ela leu nos livros de autocura. Num ataque de fúria estraçalhei a nega maluca em picotadas na faca de serra. A tia tomou de mim as chaves do apartamento. Era desejo de minha mãe de que eu morasse com ela na sua ausência. Ninguém perguntou o que eu desejava. Eu não queria acordar todos os dias com um sorriso festivo esgaçando as cortinas e irritantes saudações melosas ao novo dia. Ela quer vender o apartamento, tem procuração, vai guardar tudinho

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para o meu futuro, como a irmã pediu. Sei. Outra prova de que as certezas de mãezinha estavam falidas, como o seu ovário. Sentei no fundo do ônibus esperando um pescoço envergar a cara antipática pra mim. Não deu outra. Uma moça com cabelos de Barbie, sentada na terceira poltrona à frente, olhou pra trás e me encarou com o queixo nas alturas; estiquei as fuças pra ela de um jeito debiloide com o meu nariz de buldogue. Bem, quando eu tomo o remedinho, o nariz é de poodle. Dois rapazes cheios de frufrus entraram no ônibus fedido a repolho cozido, com umas calças muito justas de cantor sertanejo. Franzi o nariz de buldogue. Meninos normais não são assim animados. O remedinho ainda não fez efeito. A mãe dizia que são aberrações da natureza, e que se eles se entregassem a Deus, seriam curados. Não foi difícil chegar até a revendedora de veículos, havia um painel enorme de publicidade em frente à rodoviária. Não pedi ajuda, segui o meu faro, agora de poodle. Não gosto de pedir orientação quando me perco, é melhor continuar perdida a pedir ajuda a um adulto. Não havia ninguém na porta da loja segurando cartaz com os dizeres “bom dia minha filha, seja bem-vinda”. Sei que a gentileza não me faria melhor, assim como não o fazem os estúpidos “bom dia” do WhatsApp, mas porra, me sentiria acolhida.

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Entrei na loja com o pé direito, o que tanto faz, tanto fez. O atendente me acompanhou até o seu patrão, no momento em que me viu alongou o queixo com a mão feito um sábio. Bem, sábio com certeza, não deveria ser. Apontou a uma porta, tomou a dianteira, - voltou atrás, deixou-me entrar primeiro, espremeu a testa suada com os dedos peludos. Deve ser o escritório. Três máquinas de cartões de crédito no balcão. Deve-se ganhar muito dinheiro por aqui. Sentei. Ele também, do outro lado da mesa, pronto para me sabatinar, como fazem os orientadores educacionais do instituto certinho imaculado coração de Maria. Batuquei os tocos de unha na calça jeans, fissurada nos posters dos automóveis bala grudado nas paredes das salas dos vendedores. Deve-se vender muito por aqui. “A carta?”. “Oi?” “Deixa eu ver a carta”. Entreguei o papel, mas naqueles olhos espremidos não vai conseguir entender a letra. Segurou- a com a ponta dos dedos e punhos fechados para eu não perceber a tremura das mãos, arregalou os olhos e arqueou as sobrancelhas de O Iluminado, igual as minhas quando tomo o remedinho da felicidade. “Dezesseis né?”, “Sim, mês passado”. Uma mulher de cabelos castanhos chocolate ao leite e cara de madrasta da Disney apareceu na porta, de mãos na cintura, feito uma xícara sem pires. Mãezinha dizia que eu tinha um sexto sentido aguçado, pois Deus capacita todos aqueles que creem Nele. Não precisa de muita capacidade para

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perceber que a mulher é uma megera. Imagina quando souber quem eu sou. “Está com fome?”, perguntou o homem. “Não”. A mãe levou a fome junto com ela. A sua partida aconteceu num dia carregado de nuvens cor de chumbo − ao menos a moça da previsão do tempo não decepcionou. A primeira lágrima rolou do meu olho direito preto de pálpebra caída, depois do esquerdo, da mesma cor do outro, seguido de uma enxurrada nos dois, misturados à tromba d´água desabada no jardim das almas mortas. “Uma água?”, “Sim”. Fixei o olhar opaco no portaretratos em cima da mesa, no escritório do dinheiro. Deve ser a sala dela, as madrastas sempre cuidam do dinheiro. O casal esbanjava felicidade dentro da moldura, ao lado de um menino de sobrancelhas iguais às do pai, iguais as minhas com remedinho. Um pensamento tenebroso desejou que ele fosse uma aberração da natureza quando crescer. Espanei as ideias palha e bebi o copo d´água em guti guti mirando o pôster da máquina turbinada. “Vou levar a carta para o advogado”, “tá”. Fedeu. Ele colocou gente da lei na história, anotou o telefone da tia, não quis o meu − esse troço de justiça é para os fortes. A mulher, em pose de xícara, continuava encostada no balcão de pagamentos, ao menos descansou uma alça. Na minha saída estufou uma covinha sinistra no canto da boca.

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Da porta do quarto, podia-se ver o violão encostado na parede e o quadro do Green Day, e só. A parede avançada não permitia enxergar a escrivaninha, o roupeiro, e, plasmada na cama, eu. Ninguém tinha permissão para entrar, a não ser minha mãe, porque não ia adiantar não dar permissão. E quem mais poderia entrar numa morada habitada por duas criaturas tão solitárias? Havia a tia, e os ministros da igreja, e as senhorinhas com as capelinhas da novena, e a vizinha enxerida do quinto andar, e o síndico às voltas com consertos inventados para arrancar um extra dos moradores. Esses não entravam. A última entrada dela foi para comunicar do tumor, que seria tratado com a graça divina, que ela era forte, que o sangue de Jesus tem poder e blá blá blá. Por horas seguidas, castiguei os dedos na rudeza das cordas de aço do violão. Passaram-se quatro meses do meu aniversário, e o homem da revendedora não deu sinal. A tia entrou no quarto aos berros, esgaçou a cortina e mandou eu me arrumar. Eu preferia continuar sonhando o sonho mal sonhado a ouvir a sua voz de gralha gritar “ele está pensando o quê? Deu!”. Ela quer ir às ganhas, fazer exame de DNA, botar a boca no trombone; eu lembrei que ele ficou com a carta, a prova da paternidade. Senti uma pontinha de orgulho do meu raciocínio de sora de Sociologia, ou filosofia, sei lá, e aflição pela minha babaquice. Mas não subestime uma mulher de negócios para assuntos familiares. A tia tirou uma cópia. O orgulho continuou batendo no peito, porque na verdade, eu não quero o

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dinheiro dele. Mas na boa, eu bem posso tirar uma onda às custas do seu dinheiro. Subimos no mesmo ônibus com cheiro de repolho cozido. A tia não fechava a matraca, sussurrou no meu ouvido que colocou o apartamento à venda − o meu apartamento −, pensava em comprar um carrinho popular, desses que sobem a lomba em primeira marcha, talvez uma cozinha modulada. Perguntou o que eu achava. Dei de ombros. Olhei pela janela, os postes na estrada viajavam apressados. Antes que eu abrisse a boca cheia de dentes costurados com ferros metálicos ortodônticos, ela cuspiu um palavreado de exigências a serem despejados no homem de boa cabeça para negócios. Mostroume um papel da defensoria pública a ser esfregado na sua cara, caso ele não se emocionasse com os argumentos da tutora da menina sangue do seu sangue. Nunca pensei que fosse dizer isso, mas sinto saudade das saudações melosas ao novo dia. Por sorte, chegamos antes do homem sair para almoçar com a família feliz. A barriga roncava, a fome voltara. Contentei-me com uma lasca de unha. Fazer refeições com o pai deve ser algo destinado aos escolhidos por Deus. O menino do maldito porta-retratos, que eu desejei que fosse uma aberração quando crescesse, deve ser um escolhido. O vendedor abriu a porta envidraçada com um cordial bom dia, faltou outro cartaz com os dizeres “Satisfação em revê-la, filhinha do papai”. O moço risonho nos acompanhou até a sala do dinheiro contando os passos, decerto para apreciarmos o cenário das

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máquinas turbinadas; avistei o dono da loja na sala ao lado. Ele despachou o sujeito de macacão de oficina mecânica e veio ao nosso encontro com cara de poucos amigos. Na verdade, de amigo nenhum. A tia chegou chegando, sem dar tempo dele atirar primeiro, apresentou-se como a minha tutora e falou da urgência de resolver o assunto da paternidade de forma amigável, enquanto eu bocejava e a barriga se retorcia. Oh, oh! Vai feder. A madrasta da Disney abriu a porta bufando o fogo dos dragões e fuzilou a tia com um olhar de cão feroz; a irmã da minha boa mãe nem se abalou, rosnou pra ela. As duas descambaram o barraco, xingamentos, empurrões, “Quem você pensa que é?”, “Vou chamar a polícia”, “Então chama”, “Esse pau mandado não diz nada?”, e o pau mandado encolhido num canto. Usei os superpoderes de ficar invisível e saí de fininho até o salão dos carros, enquanto os vendedores com cara de bom moço e os mecânicos de macacão engraxado correram para assistir à baixaria na sala do dinheiro, e a tia esfregou o papel da defensoria na cara da megera, e o dono da loja pegou o telefone, e a tia arrancou o aparelho da mão dele, e ele gritou para um mecânico tirar aquela doida dali e eu babando nas máquinas com computador de bordo, banco de couro, teto solar. E tudo o que eu precisava era apenas de um prego. Cara, você não vai acreditar! Eu tenho um prego no bolso do moletom.

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Do salão eu enxergava a sala do dinheiro, vi a tia prestes a ser arrancada de dentro da sala por um mecânico e um vendedor sem sorrisos. Tinha sete automóveis expostos, me agachei na lateral de um, escondida da vista da plateia de big brother, segurei o prego feito a faca que estraçalhou a nega maluca e risquei uma profunda cicatriz na pintura metálica, de fora a fora, tal qual o rasgo profundo no peito, tal qual a cova funda da minha mãezinha, tal qual o buraco de fome no estômago. O vuco-vuco continuava no balcão das máquinas de cartão de crédito, ouvi um “não é minha filha” no débito, enquanto eu apertava, espremia e retorcia o prego nos automóveis estacionados. Terminei o serviço e esperei a tia na porta, com cara de paisagem. Ela saiu gentilmente escoltada por três grandalhões de macacão, acostumados a fazer o serviço sujo, gritando que a justiça dos homens falha, a divina não, e mais um monte de palavrões impróprios para a minha idade. Descarreguei a vontade de fugir numa espaçonave maltratando as cordas de aço do violão. A fome sumiu de novo. O homem da lei disse que alguém disse que para os pobres a lei é dura − para os ricos também, mas amolece. A tia repete esse poema feito um papagaio. No final das contas, não ficou de todo o ruim. Depois das aulas encaro a rua empoeirada de chão batido, em direção à casa de correção para jovens infratores, a fim de receber medidas socioeducativas. Pelo

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menos nessa casa não tem cortinas nas janelas, e as meninas têm o nariz igual ao meu. A tia ficou fula da cara comigo, terá de acelerar a venda do apartamento para pagar o prejuízo, desistiu da ideia de comprar a cozinha modulada.

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VIAGEM DE FIM DE SEMANA Rodrigo Ferreira

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Ontem recebi meu primeiro relógio. Meus primos dizem que assistir o próprio nascimento é coisa de criança ou passatempo de velho. Dizem que eu poderia comprar um relógio mais potente se economizasse um pouco. Mas não dá mais para esperar. Sou o único da minha turma que nunca viajou no tempo. Não é complicado. No site da Turismo Temporal, você escolhe um pacote que possa pagar e preenche uma ficha. Escolha sua data alvo, lugar e, no meu caso, a classe econômica. Ao confirmarem o pagamento, você recebe seu relógio configurado. Acredito que o pessoal do mercado negro consiga hackear o serviço. Todas aquelas datas monitoradas pela rede temporal continuam recebendo visitantes diariamente.


VIAGEM DE FIM DE SEMANA – RODRIGO FERREIRA

Bem, hackeado ou não, cada relógio tem sua chave de série. É o documento que você apresenta no momento em que se registra na rede. Geralmente, quando você não tem uma chave ou utiliza uma chave falsa, seu cérebro é torrado no ato, mas está tudo certo com o meu Born Day. É o pacote mais comum, genérico. Você vai até os hospitais aos domingos e as salas de parto estão lotadas de viajantes temporais. Qualquer um pode pagar um destes, mas os relógios realmente legais são bem mais caros. Sarah foi minha professora de biologia. Ela economizou por uns quinze anos e gastou tudo em um Ultimate Pangea. A ideia era provar sua teoria sobre o Tanystropheus do Lago Ness. Infelizmente, ela tentou contrabandear um ovo – que deve ter dado trabalho para conseguir – e foi pega pela alfândega. Sarah foi exilada no século XII, como uma camponesa qualquer. Walter, ex-zelador, comprou um Space Opera com o seguro após perder o emprego. Agora vive mostrando suas fotos e falando da experiência. Na seção old School, ele disse, havia uma nave idêntica àquelas do Star Trek. Segundo o pessoal do futuro, eram relíquias que qualquer um gostaria de ter, mas ninguém tinha coragem para pilotar, já que não eram modelos confiáveis. Também conheci a Dália, que viajou para o dia do próprio funeral. A moda foi lançada e agora Memento Mori está devidamente patenteado. Uma espécie de imortalidade

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VIAGEM DE FIM DE SEMANA – RODRIGO FERREIRA

forçada. Sem falar dos modelos Acadêmicos. Imagine só, estudar a Poética de Aristóteles tendo ele como professor? É uma pena que o uso destes pacotes seja restrito, desde que um cara chamado Reynolds sacaneou o Poe. A princípio, tanta gente viajando no tempo deixou os cientistas malucos. Eles previram caos, extinções em massa e tudo isso. Só não consideraram uma coisa: o ser humano nunca destrói algo que tenha qualquer potencial lucrativo. Além disso, tivemos uma prova do destino com aquele caso de 2102. Uma moça era grande fã de determinado músico. Voltou ao passado para avisá-lo que seria morto por outra fã. Naquela época, ninguém acreditava nesse tipo de coisa, era impossível até imaginar, então eles a ridicularizaram. Acontecia muito. A informação vazou e a fã foi ridicularizada no futuro por ter sido ridicularizada no passado. Ela precisava dar uma lição naquelas pessoas, ah se precisava. Tornou a voltar ao passado e matou o músico, grande ironia. Mas esse tipo de aventura é só para os endinheirados ou para as pessoas que viveram em função disso. Elas trabalham metade da vida para comprar um pacote que dura meia hora, quando muito. No fim das contas, não é tanta desvantagem pagar por um Born Day. Se em algum dia você estiver passando por quatorze de setembro de 2103, passe pelo maior hospital da América Latina. Em uma das salas de parto você verá um sujeito do

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VIAGEM DE FIM DE SEMANA – RODRIGO FERREIRA

futuro vestido de verde. Aquele serei eu e estarei assistindo ao meu nascimento. Muito prazer.

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DUAS E QUINZE Larissa Reggiani Galbardi

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Saí de casa às duas e quinze da tarde, O dia estava tomado pelo azul, O azul dos amores de infância... Nostálgico... Nem percebi, ia ao mercado, alheia; As vizinhas papeavam, alheias; Os motoristas dirigiam, alheios; O Sr. Souza passeava com seu dobermann, Alheios, os dois. Talvez o mundo seja alheio. Fiz minhas compras Laranjas Limões Temperos Ovos


DUAS E QUINZE – LARISSA REGGIANI GALBARDI

Brigadeiro Na fila do caixa a banalidade de tudo me atingiu, Como uma enxaqueca Martelando-me a cabeça! As prateleiras me oprimiam Não, não... A organização me oprimia Esmagava-me como o pequeno cisco de poeira que sou Bem... Se é para ser poeira, Pelo menos somos poeira estelar Não é? A organização me oprimia Com suas bordas ásperas! E extremidades pontiagudas! Eu quis pausar o mundo Não pude. Desfiz-me de mim e percebi o infinito... O caos, então, fitou-me do abismo E sorriu, tênue e terno, Eu recuei bruscamente Ferida pela suavidade de tudo. Respirei fundo, Tomei coragem

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DUAS E QUINZE – LARISSA REGGIANI GALBARDI

E contemplei a face do caos Como quem contempla um segredo Uma hiperconsciência arrebatou-me Consciência do Eu Consciência do Tu Consciência do Mundo A suavidade me engoliu E a suavidade era caótica Tive um momento ímpar Peculiar Montei um eco do tempo Com a clareza correndo em minhas veias E sabia Simplesmente sabia Os segredos do cosmo O macro e o micro. Sorri de volta ao caos Que, subitamente, Fez-se em vórtice E infiltrou-se em meus olhos opacos Pisquei! A operadora do caixa chamou o próximo Senti-me semiacordada, Fui para casa

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DUAS E QUINZE – LARISSA REGGIANI GALBARDI

As prateleiras continuavam organizadas O mundo continuava alheio A banalidade escorrendo das margens A clareza emaranhou-se Imergiu em uma confusão melancólica Mas estava ali, Quase podia senti-la em cada pulsar do meu coração! Olhei meus olhos no espelho, deixei a sacola de compras na mesa, Eles continuavam opacos Sem vestígios de nada E o relógio marcava duas e quinze da tarde...

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IMPACTO SUPREMO Elicio Santos do Nascimento

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À mesa. A menina observa a mistura das conversas, embalada pelo retinir dos garfos e copos e mastigações e assopros. O pai e a mãe comentam, entre dentes, a burrice dos tais “ambestalista”, como de praxe os denominam. O avô se mete berrando maldições, aos mesmos endereçados: “Peste de gente burra, sô! ” “Brigar com quem dá sustento pra nós! ”... A garotinha lembra, com medo, a parte final do sonho que teve há pouco. Na verdade, um pesadelo que ainda não teve coragem de desfiar para a mãe, a quem jamais negou as confidências infantis. Atira-se repreensões, temores, farelos de pão, saliva ao ar hostil, cujo alvo é o grupo ligado à natureza (tido como inimigo pelos trabalhadores) que ameaça fechar a mineradora, fonte de renda para o lar, cujos membros dependem dos serviços braçais.


IMPACTO SUPREMO – ELICIO SANTOS DO NASCIMENTO

Findo o diálogo nervoso, a família se despede. Um a um se dirige ao ofício, ensacar e abastecer caminhões. A garotinha fica algum tempo na frente da casa em construção, meio barraco e meio casa de tijolos, ainda com o reboco à mostra. Corre. Puxa a saia da mãe que, de costas a ela, esfrega os talheres que abarrotam a pia. “Que foi, menina? ”, diz sem atenção. “Mãe, eu tive um sonho ruim e”... “Tá, filha... tá bom”. “Mas, mãe! ” “Despois cê me fala, tá bom? Agora a mãe tá ocupada”. A pequena desiste. Entende que não acreditarão nela. Qual adulto daria entusiasmo ao sonho de uma fedelha de nove anos? Corre a manhã. A mesa do café, antes desmontada, é refeita pela mãe que leva as panelas do fogão às vasilhas especializadas. O bocado das refeições e bate-papos é o mesmo, na mesa comprida e forrada com a velha toalha de flores, diligentemente lavada pela dona da casa. As reuniões digestivas costumavam fluir embaladas por triviais ensejos, ora sobre futebol ora novelas ou fuxicos acerca dos fatos recentes da vizinhança. Mas, há dias, o tema mudou-se para a permanência ou não dos empregos e a ação em suspense nas almas dos maiores prejudicados, a comunidade nativa, entre quilômetros de riquezas florestais e a indiferença, na grande cidade fronteiriça.

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IMPACTO SUPREMO – ELICIO SANTOS DO NASCIMENTO

A pequena observa o esforço da mãe, como quem acha no futuro uma grande perda de tempo. Permanece entre as bonecas e os jogos de montar. Vê em cada esboço da genitora e do ambiente, repetições. Contudo, não quer mais fugir ou evitar o inevitável, acomoda-se à espera. Um a um acomoda-se à sala para almoçar. Reinstala-se a comunhão barulhenta de alimentos. A menina prolonga-se na brincadeira. Rejeita unir-se aos outros, fato inédito. A mãe estranha, haja vista que a garota sempre amou a comida e o comer entre os parentes, seja para o desígnio comum ou para absorver as falas dos adultos e imitá-los em segredo, quando dada às travessuras fantasiosas misturadas à realidade apreendida. Mas tudo bem. A dona de casa entrega a filha às manias da idade. No meio de uma imprecação atropelada sobre a mineradora, melhor, sobre os adversários dela, a menina se ergue. Caminha até a frente do casebre onde nasceu e constituiu-se. Mira as árvores ao redor e derredor, cujas copas parecem tocar o céu límpido de uma área quase intocada pelo progresso humano, não fosse a visão da grande barragem cercada de construções em forma de pequenos prédios, ao longe, bem próxima ao horizonte que demarca o limiar à estrada empoeirada cujo destino é a metrópole, chegada à menina só de escutar. Nada incomum. O único embaraço vem do lar, a mesma confusão vocal. O peito cândido acredita na mentira do prenúncio, suspira aliviado. A pequena agradece. Volve-se à

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IMPACTO SUPREMO – ELICIO SANTOS DO NASCIMENTO

entrada familiar, como se a certeza do último sonho se dissipasse. Entra. Roga à mãe um prato fundo, cheio de feijão e carne, suas porções favoritas. Algumas colheradas... Estrondo! A mesa e o chão e o teto sacodem ao ponto de jogar a comida aos ares e os comedores à lona. Cada um para um lado, enquanto a menina voa pela janela. Estatela-se consciente... A única testemunha (do mesmo sangue) que contempla a imposição da gigantesca massa cinzenta. Absoluta. Como um rolo compressor sobre qualquer forma de vida, morta... Ou prestes a morrer.

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A LENDA DE HIPHITUSI - PARTE 1 Joel Garcia da Costa

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Prefácio A lenda de Hiphitusi foi escrita de 18 de dezembro de 2009 a 30 de janeiro de 2010, em exatos 30 dias de trabalho dentro deste período, sendo um capítulo por dia, num desafio que propus a mim mesmo. Essa 1ª Parte, contém os dez primeiros capítulos, teremos mais duas partes com a mesma quantidade de capítulos cada, o que pretendo divulgar nas próximas edições da Mostra ECOS. O grande objetivo dessa história era dar detalhes da origem de um personagem que criei no meu conto Jonas, escrito no ano de 2000, que se encontra publicado na Mostra ECOS 7 e 8. Sinceramente, acredito que a história superou seu objetivo


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inicial, pois trouxe, além da explicação que eu buscava fazer, muitos outros desafios, pois tive que fazer um bom estudo para poder dar toda a lógica que a história necessitava, principalmente num tema que tenho uma dificuldade imensa: geografia! Dedico essa história para todos os sonhadores do mundo, que assim como eu, ousam buscar explicação para o inexplicável... Se eu encontrei a explicação que eu buscava? Duvido muito, afinal, ela é inexplicável! Joel Garcia da Costa 13 de dezembro de 2016.

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1. Um homem no deserto O sol já ia alto quando ele acordou. Olhou em volta e somente a areia seca do deserto o cercava. Por sorte encontrara um dia antes algumas árvores que geravam boas sombras, onde pôde descansar um pouco. Só que o seu sono estava atrasado e dormira profundamente até a manhã quente do dia seguinte. Estava exausto! Procurou na mochila algo para comer e só achou um pedaço de pão velho. Teria que servir, pois não tinha outra opção. Precisava encontrar algum lugar onde houvesse comida ou estaria morto em poucos dias. A água do cantil indicava também que estava no fim. Um leve desespero tomou conta dele, mas nada comparado ao que sentira antes, ao iniciar esta tarefa que aceitara de bom grado. Foram meses antes e não havia sinal de arrependimento no semblante do agora homem do deserto. Somente se notava nele uma determinação incrível, digna dos grandes conquistadores do passado. E não é que esse era o objetivo de tudo pelo que estava passando!

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Só que o prêmio não seria nenhum tipo de riqueza interminável. Se alcançasse seu objetivo receberia um grande amor como troféu. Seu único amor, sua maior motivação. Após preparar o camelo para continuar seu caminho rumo ao desconhecido, pôs-se a estudar um grande mapa que trazia consigo num canudo preso aos equipamentos. Pelo mapa estava perto, mas o deserto era ardiloso ao extremo e perdera a última noite dormindo enquanto deveria estar se orientando pelas estrelas. Este mapa fora, de certa forma, sua primeira conquista, quando aceitara o desafio, se é mesmo que se podia chamar assim sua longa tarefa. Foi mais uma imposição louca de um ser mais louco ainda: Kedaf. Precisava continuar a qualquer custo e a imagem traiçoeira de Kedaf o impulsionou para frente, abaixo do sol escaldante. E assim o homem do deserto sumiu de vista.

2. Um louco chamado Kedaf Há muitos e muitos anos, ao norte da pirâmide de Amon, uma nativa deu à luz a um menino, o qual chamou Kedaf. Esse menino cresceu em meio à miséria e, como sua família era explorada, ele herdou essa sina.

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Mas com treze anos decidiu sair do fim de mundo onde moravam, palavras dele, e rejeitou as obrigações que os costumes de sua vila natal impunham, iniciando uma vida nômade no deserto. Em pouco tempo se tornou um saqueador respeitado pelos bandidos que infestavam a região, conseguindo assim seus seguidores. Um líder de ladrões se tornou! A primeira vida que tirou foi de um dos guardas reais que o identificou numa feira. Por ter ainda dezesseis e ser um jovem raquítico, o guarda imaginou que seria fácil prendê-lo. Mas o que Kedaf não tinha de força física ainda, possuía de astúcia, e assim facilmente percebeu que estava sendo seguido, conduzindo seu caçador até um beco, onde sem piedade e na traição o apunhalou pelas costas. Kedaf, não era muito dado a indagações morais até esta idade e sentiu prazer em tirar esta vida. E passou de ladrão para assassino em pouco tempo. Chegou aos vinte anos possuindo uma pequena fortuna, totalmente acumulada através de suas atividades ilícitas, mas ainda era analfabeto. Mesmo assim resolveu se aventurar pelo mundo e acabou escolhendo como primeiro destino a Inglaterra, entrando no páis com documentos falsos, onde pela primeira vez percebeu como o dinheiro facilmente lhe abria as portas. Lá se transformou de um dia para o outro num cavalheiro, tirando seus primeiros documentos e, com posse

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deles, pôde começar um estudo particular. Em poucos meses sabia mais que seu mestre. O gosto pelo crime não diminuíra, mas agora se tornara um passatempo, saciado quando retornava para o continente Africano. Na Inglaterra as autoridades eram melhor preparadas e não queria manchar a reputação que conseguia criar aos poucos. Todos o conheciam como príncipe Kedaf, que viera aumentar suas riquezas, vindo de uma tribo do deserto africano e na alta sociedade inglesa passou a ser respeitado, agora com 25 anos. Mantinha ainda certo controle de vários grupos de saqueadores que deixara para trás, então em vez de perder dinheiro em suas extravagâncias, ia ficando cada vez mais rico. Aprendeu a investir grandes somas e em pouco tempo sua fortuna quase que dobrou. Foi quando deixou de retornar para a África e cortou os laços com tudo de ilícito que praticava por lá. E por cerca de cinco anos se aquietou, somente desfrutando de boas amizades conquistadas na Inglaterra. Nessa época já falava sua língua nativa, inglês e espanhol. O gosto pela linguagem castelhana o levou a conhecer a fundo a cultura espanhola, o que adorou. Era um povo elétrico que ele passou a admirar.

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E foi por causa deste contato cultural que acabou aos trinta e cinco desembarcando em solo chileno, precisamente no norte do Chile, onde literalmente ficou enfeitiçado por tudo que via ou tocava. Aprofundou-se nos estudos culturais da região, comprou propriedades ainda longe de serem tombadas como patrimônios históricos locais ou da humanidade, onde tomou gosto pela exploração. Viajava por dias sem se alimentar direito, movido pela simples emoção das descobertas que fazia. Acabou ficando fascinado por esta área e muito respeitado também pelos arqueólogos do país, até porque compartilhava suas descobertas com os grandes museus locais, antes de direcioná-los para outros museus internacionais. Já não tinha tempo de pensar ou planejar crimes leves ou meros passatempos, para ele, assassinatos. Descobrira outra paixão! Mas seu verdadeiro eu retornaria à tona quando essa paixão acabou se tornando uma obsessão.

3. A bela Vanuzia Na tradicional família chilena Cortez uma linda menininha nasceu, trazendo alegria onde a dor da perda recente ainda marcava os corações.

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Tinha a pele levemente morena e olhos esverdeados, com cabelos negros. Uma princesa, todos diziam! Ao contrário de Kedaf não conheceu a pobreza. Cresceu estudando nas melhores escolas, não se tornou uma adolescente rebelde como já estava se tornando comum, ao invés disso se formou uma historiadora de grande prestígio em sua classe. Sempre tivera recursos financeiros de sobra para suas especializações e com o bom nome da família ficou mais fácil galgar os degraus do sucesso. Com trinta anos já tinha seu nome no rol dos principais museus chilenos e peruanos. Em comum com Kedaf possuía um gosto exacerbado pelas explorações e foi nelas que descobriu duas paixões. A primeira foi através de uma lenda local, mais conhecida nos países vizinhos, sobre uma pedra no formato de um quarto de Lua cheia que diziam se chamar Visdiosu Ryesvu, nome escrito numa linguagem ainda não identificada pelos grandes historiadores da época. Dizia a lenda que se encontrava numa pirâmide do Chile e as outras três partes espalhadas pelo mundo afora quando agrupadas, se tornariam uma pedra só, conhecida como Hiphitusi, que seria a chave de um templo sagrado considerado o berço de toda a cultura da antiga civilização. Além disso, também serviria para reforçar a tese de que realmente existira no passado um gigantesco continente, separado na última Era

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Glacial, onde um povo muito avançado dividia-se pelo planeta e até compartilharam conhecimentos por séculos, os quais foram guardados nesse templo. Somente essa primeira paixão de Vanuzia já serviria para lhe tomar todo o tempo do mundo, mas uma Sua segunda e também avassaladora paixão se enraizara dentro do seu corpo ao conhecer Roí. Brigou Lutou um tempo consigo própria para se concentrar numa só tarefa, mas percebeu que podia fazer as duas coisas ao mesmo tempo: amar e explorar! Só não esperava acabar se tornando de súbito um interesse para Kedaf. Não como uma mulher, Kedaf só conseguia amar a si mesmo, era no talento dela e em todo o seu conhecimento recente sobre a pedra Hiphitusi que ele estava interessado, a qualquer custo.

4. Roi Vanuzia tinha razão em amá-lo! Roi era além de belo e formoso o dono de um coração enorme, sempre disposto e pronto a ajudar os demais. Nascera no Peru no mesmo ano em que ela começara a engatinhar em terras chilenas.

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Não vinha de uma classe social definida e desde adolescente tomara gosto por se aventurar em expedições que ocorriam nas constantes escavações peruanas. No início fora somente uma diversão, mas com o tempo o que ele chamava assim acabou se tornando um trabalho. Como há muito tempo se ausentara das salas de aula, pois não suportava sentir-se preso e acuado, dedicou-se com afinco ao ramo e se tornou um brilhante guia, com um senso de direção fantástico. Com o passar dos anos tornou-se especialista no assunto, pois passou a conhecer profundamente as montanhas do Peru, as cavernas chilenas e as densas florestas da Colômbia, sendo requisitado regularmente para a maioria das expedições importantes que aconteciam. Também estava com 30 anos quando conheceu Vanuzia e na melhor de sua forma física, enquanto escalavam uma montanha que parecia não ter fim. Fora amor à primeira vista! Ela havia acompanhado o grupo como a responsável científica e o havia tratado desde o início como um simples guia, chegando mesmo a princípio a vê-lo como um carregador qualquer e Roi, na sua constante alegria de viver, não se importou. Com o tempo ela passou a demonstrar um pouco mais de afinidade para com ele, ao conversarem sobre um ponto ou outro da expedição. Depois de alguns dias a afinidade subiu muitos degraus e ela já o enxergava como um amigo. Daí para o amor foram somente mais alguns degraus...

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Apesar disso ele sentiu uma enorme resistência nela, mas procurou não ser indiscreto em nenhum momento, deixando que as coisas que tivessem que acontecer ocorressem naturalmente. E quando enfim ela parecera ceder e lhe conceder uma chance para que algo muito especial florescesse entre os dois, uma barreira surgiu entre os dois. Esta barreira tinha nome e sobrenome: Príncipe Kedaf! Assim que foi apresentado a ele por Vanuzia, de pronto sentiu que não era uma pessoa confiável, dado a experiência que tinha adquirido durante todos os tantos anos de exploração. Já se encontravam novamente numa cidade peruana quando a apresentação aconteceu, então aproveitara para fazer alguns contatos, nacionais e internacionais, uma medida de segurança que era comum, e descobrira que ele era de fato um príncipe africano muito afortunado, fanático por grandes explorações. Mas mesmo apoderado dessa informação, uma sensação ruim sempre tomava conta dele quando Kedaf estava presente, como se ele exalasse um odor de pura maldade. Mas apaixonado como estava foi convencido facilmente por sua amada a participar numa nova expedição liderada pelos três, buscando a primeira parte da pedra Hiphitusi, ou ao menos ajudar a desvendar outra lenda antiga.

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Assim como ela, ficou entusiasmado pela nova empreitada, mas a presença constante de Kedaf sempre o desanimava. Mesmo assim tiveram um sucesso surpreendente na primeira parte de sua exploração, que acabou tendo como destino final a sua terra natal. Por algum tempo aprendeu a conviver com ele e deixou de lado toda e qualquer suspeita que pudesse prejudicar os trabalhos que se propuseram a realizar. Agora, muitos meses depois, sozinho e quase perdido no deserto, com fome e sede, já tinha quase certeza que o príncipe o havia enviado para a morte.

5. Visdiosu Ryesvu Levaram três semanas realizando inúmeros preparativos, antes de iniciarem a busca pelo primeiro quarto da pedra Hiphitusi. O primeiro passo foi descobrir onde iniciar a expedição. Reuniram todas as informações que cada um possuía e depois de dias de exaustivo estudo, onde cada um dos três entrou com seus conhecimentos específicos, montaram um enorme mapa que abrangia parte do Chile e do Peru, uma região da Colômbia e outra da Venezuela. Era uma área tão extensa que calcularam que poderia levar anos para ser totalmente explorada.

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Foi nessa encruzilhada que a experiência do grupo, somada ao grande suporte acadêmico com o qual podiam sigilosamente contar, que conseguiram reduzir de forma fantástica todas as possíveis possibilidades, que se limitaram a duas áreas na Colômbia, outra no Chile e uma incerta no Peru. Resolveram que a Colômbia seria o ponto de partida. Por dias vasculharam nos pontos previamente demarcados, sem que nada de novo lhes trouxesse nem um pequeno vestígio ou indício sobre o seu objetivo. E para não dizer que voltaram de mãos abanando, acabaram por encontrar um tipo de aldeia indígena desabitada, mas após algumas pequenas investigações foi comprovado de que se tratava apenas de um local constantemente utilizado como esconderijo de um cartel que se formava nessa época no país. Sabiamente resolveram não divulgar o achado. (Na minha opinião, melhor descartar esse parágrafo) Partiram então para o Chile e o resultado foi similar ao da Colômbia, e apesar da área a ser explorada ser da metade do tamanho, por se tratar de terrenos bem mais acidentados, acabaram levando quase o dobro do tempo. Após concluírem que estavam perdendo um tempo precioso, resolveram rumar para Santiago e fazer uma pequena preparação para o novo estágio deste trabalho iniciado. Depararam-se na capital com uma intensa abordagem da imprensa sobre as descobertas recentes do grupo. A informação da união dos três, uma historiadora de prestígio, um

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príncipe arqueólogo e colecionador, e finalmente o maior líder de expedições que se poderia encontrar no momento, acabou vazando e chamando muito a atenção, de onde um grande furo jornalístico poderia vir à tona a qualquer momento. Obviamente que toda a imprensa que os cercou não esperava que o grupo ainda não pudesse informar nada de concreto e assim deduziram erroneamente que estavam sendo manipulados e ficaram na espreita. Devido à experiência dos três em relação a esta abordagem comum, optaram então por ficar por mais alguns dias em repouso na capital, onde aproveitariam para continuar quebrando a cabeça com as informações que possuíam e no momento ainda eram vagas suposições. Kedaf, muito experiente agora nas questões financeiras, informou a eles que mesmo se todas as alternativas os conduzissem a uma considerável perda de tempo, poderiam redigir um documento sobre o tema, registrando-o legalmente, que daria ao grupo direito legítimo sobre quaisquer outras informações futuras que viessem a surgir. Só a venda de um livro referente ao tema, com todas ou partes das informações coletadas, já lhes retornaria todo o capital investido ou mais. Foi através desta paralisação que Roi acabou descobrindo algo fundamental para o prosseguimento de todo o trabalho. De fato, acabara fazendo uma suposição que o acabou levando à solução para a origem do nome Visdiosu Ryesvu, o que se mostrou muito mais simples do que parecia ser.

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6. O Terceiro Quarto Kedaf era a “pedra no sapato” de Roi quanto ao seu relacionamento com Vanuzia. Quando eles pensavam em ficar um pouco a sós e falar sobre coisas diferentes do que a missão atual, ele surgia do nada com alguma nova ideia e o casal acabava por mudar os planos. Não era segredo que os dois se amavam para ninguém do grupo, que no momento era composto pelos três, sete carregadores e quatro seguranças armados. Constantemente eram pegos de mãos dadas e ao acontecer de serem, de certa forma, atrapalhados por Kedaf, este fazia questão de frisar que o relacionamento dos dois mais poderia prejudicar do que ajudar nesta expedição. Roi, apesar de já ter se acostumado com este jeito de ser do príncipe, ainda não tinha plena confiança nele. Mas para não arranjar um conflito desnecessário, principalmente nos dias em que ficaram ociosos em Santiago e ele queria ardentemente preencher estes momentos ao lado de Vanuzia, resolveu se concentrar em alguma outra coisa. Foi quando, mesmo não sendo a sua área, começou a tentar desvendar de onde poderia ter vindo a linguagem que dava nome às partes que formavam a pedra Hiphitusi.

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Vasculhou com autorização em todos os trabalhos elaborados previamente por seus companheiros, de onde os dois não saíram da estaca zero. Já haviam enviado o nome do possível artefato em sigilo para os maiores especialistas em linguagens antigas do mundo, que informaram não existir tal língua. Então um estalo surgiu na mente de Roi. Imaginou se o que buscariam pudesse não ser uma linguagem e sim algum tipo de código e comentou com os dois, que a princípio rejeitaram totalmente a ideia, partindo do princípio de que entre os povos antigos não se havia registro da utilização de códigos elaborados a partir de uma linguagem local. Roi concordou com eles, mas rebateu com o argumento de que com sinais e pequenas imagens existiram códigos de todos os tipos, e sendo assim várias línguas de que tiveram conhecimento não eram compostas por sinais e imagens? Kedaf teve que concordar que ele tinha razão e então enviou o agora possível código para outro especialista nesse campo e aguardaram. Uma semana foi o suficiente para uma carta registrada retornar com uma informação positiva. Visdiosu Ryesvu era um código simples que significava “Terceiro Quarto”. Com essa descoberta concluíram que tudo apontava na direção de que estavam certos em prosseguir. Havia mesmo quatro partes que formavam a pedra e isso foi motivo de comemoração entre eles.

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Mas a maneira como o nome foi codificado acrescentou um ponto de vista a ser levado em conta. O especialista explicara que fora utilizado o alfabeto conhecido atualmente como base para tal codificação, andando-se uma casa para frente, diferenciando-se somente esta ação entre as vogais e consoantes, ou seja, explicou ele, quando se tratava de uma vogal somente era utilizada a próxima vogal em seu lugar e o mesmo procedimento era utilizado no caso das consoantes. O alfabeto conhecido datava aproximadamente do século IV a.C., com a inclusão das vogais pelos gregos no alfabeto criado pelos fenícios por volta de 900 a.C. e que ainda só se compunha de consoantes. Com essa informação em mãos tinham uma ideia da idade máxima que teria o código batizado pelo três de Hiphitusi. Ele o batizaram temporariamente com este nome para somente facilitar a comunicação entre eles e tentaram utilizar o código na palavra Hiphitusi, mas o resultado, Gengesore, não os levou para lugar nenhum. Outro aspecto que levaram em conta foi se a utilização deste código tivesse ocorrido nos quatro cantos do mundo, onde a lenda dizia que as outras partes da pedra estariam, daria como resultado a possibilidade de que houvesse uma linguagem em comum, não de todos os povos conhecidos, mas destes que criaram os códigos. Ou ainda poderiam ter escolhido somente uma língua ao acaso para servir ao seu propósito, mas tudo não passava de meras suposições.

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O que sabiam ao certo no grupo era que a lenda conhecida na América do Sul tratava do Terceiro Quarto. Isso era uma informação importante, não tinham dúvidas, mas aparentemente não ajudava na indicação do caminho a seguir para achar a sua localização. Só não sabiam que estavam equivocados.

7. A exploração no Peru Conseguiram acalmar os ânimos exaltados da imprensa que queria a todo custo informações, prometendo uma coletiva assim que fizessem uma descoberta. Sobre o código descoberto, fizeram novo contato com o decifrador, pedindo a verificação de alguma outra utilização do mesmo na história ou ainda alguma referência que tivesse sido publicada a respeito. A resposta foi clara: não havia registro conhecido de sua utilização anteriormente. Sem o assédio da imprensa rumaram para o Peru e iniciaram uma nova exploração na área que menos foi cogitada nos estudos realizados como sendo o possível esconderijo do Terceiro Quarto. Não era também, a exemplo do Chile, uma área extensa, a qual foi coberta em duas semanas.

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Foram em dois jipes e dois caminhões até onde foi possível chegar, depois se embrenharam numa mata virgem na parte central do país, seguindo a leste sentido a região da Sierra Divisor, na divisa com o Brasil, num trecho que nem mesmo o experiente e nativo Roi já havia executado algum trabalho antes. Depois de varrerem toda a área prevista, acabaram saindo num planalto que servia de ligação aos rios da região, mas erraram o ponto previsto por cerca de um quilômetro e meio. Como teriam de retornar pela floresta, a não ser que quisessem enfrentar os rios e aproveitando para ter certeza de que nada de importante havia sido deixado para trás, Roi conduziu o grupo pelo trecho que não fora explorado devido o pequeno erro na rota e dois dias depois retornaram aos veículos sem novidades. A decepção era visível em Vanuzia e Kedaf, mas Roi os encorajou a iniciarem um novo estudo assim que chegassem à cidade mais próxima dali, Contamana, gerando agora um mapa mais abrangente. Eles concordaram. No caminho de volta encontraram um vilarejo e resolveram passar a noite e na manhã seguinte prosseguiriam na viagem. Acabaram encontrando uma casa que servia de hospedagem e se instalaram. Kedaf resolveu finalmente dar um pouco de privacidade para Roi e Vanuzia e saiu, procurando um bar para tomar algo que o ajudasse a tirar o pó da garganta. Encontrou um

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lugarzinho escuro onde alguns homens tomavam em pequenos grupos suas bebidas, com uma bela morena vestida de índia atrás de um balcão simples. - O que a senhorita me recomenda? – Pediu ele a atendente que o olhou sobressaltada. - Não esperava que falasse o nosso dialeto! - Sei vários! – Se gabou Kedaf em voz baixa. - Pode tomar pisco, é muito boa! É uma aguardente de uva. Ajuda depois a pegar no sono, se esse for o seu interesse – disse ela com um olhar malicioso e completou – Também não causa ressaca. Kedaf aceitou a sugestão e ela serviu uma dose. Como a educação que recebera na Inglaterra o transformara num homem que sabia educadamente conquistar as pessoas, de uma forma sutil acabou pagando bebidas para todos que se encontravam no bar, recebendo dezenas de elogios. Iniciou um bate papo com a atendente, sem compartilhar das mesmas intenções que ela demonstrava e já estava na terceira dose quando ela disse algo que lhe chamou a atenção. - Está indo para Mesfeqifse? Seu grupo é grande com vários veículos. – Disse ela baixo, quase sussurrando. - Nunca ouvi falar deste lugar! – Disse ele no mesmo tom. - Não é muito conhecido, quase ninguém vai lá! – Completou ela – Tem que atravessar uma boa parte da mata fechada

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até chegar num pequeno lago. Fui lá uma vez com meu pai há muitos anos. Ele me contou que se trata de um lugar sagrado. - E o nome, o que significa? - Ninguém sabe, mas os antigos chamam o local assim. Kedaf anotou o nome, pediu todas as indicações possíveis para encontrar o lugar e conseguiu milagrosamente escapar da atendente, que queria agora declaradamente duas coisas: uma boa noite de sexo com um homem encantador e uma aventura com o grupo por dentro da mata. Ele se desvencilhou educadamente dizendo que estava com sono, mas prometeu que ao terminarem essa nova exploração ele passaria pela vila para recompensá-la pela informação. Em sua mente algo dizia que necessitava urgentemente deixar os demais a par do que havia descoberto. Voltou para o local que servia como hotel, o qual ele definira em sua mente como espelunca, e foi entrando no quarto de Vanuzia, flagrando-a nos braços de Roi. - Que bom estarmos os três aqui! – Disse ele sem se importar com o olhar raivoso de Roi que caiu sobre ele. – Creio que tenho uma pista que não custa investigar! Arrancou um papel do seu bloco de anotações e passou para que eles olhassem enquanto sorria. Tinha uma ideia do que eles descobririam.

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8. O Lar da Pedra Dois dias depois o grupo já se encontrava novamente em outro trecho da mata fechada, muito mais próximo ainda de solo brasileiro, precisamente quase na fronteira com o Acre. Agora seguiam instruções de Kedaf quanto ao itinerário a seguir, pois ele passara somente o nome e a descrição do local no papel que entregara para Roi e Vanuzia. A palavra Mesfeqifse, traduzida a através do código Hiphitusi, significava “lardapedra”, o que foi de encontro com as suspeitas de Kedaf que, todos perceberam, estava eufórico. Seguiram por quase todo o dia até que finalmente alcançaram ao anoitecer um descampado em formato oval, com um pequeno lago no centro. Resolveram montar acampamento e explorar somente na manhã seguinte, sob a luz do sol. Roi e Vanuzia se afastaram do grupo, que acampou próximo de algumas pedras quadradas e montaram uma barraca bem junto a uma das extremidades do lago, mas nem chegaram a entrar nela, ficando sentados a observar o escuro da noite, aquecidos pelo calor de uma pequena fogueira. Perceberam à distância que já não havia nenhum tipo de movimentação no acampamento e verificaram a localização dos dois seguranças de plantão, que se revezariam durante a noite com os outros dois, circulando em toda a volta do local,

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tendo como objetivo principal espantar qualquer animal selvagem que viesse a querer entrar no descampado. Como o casal se encontrava aproximadamente no centro do local, e a noite estava escura, os dois aproveitaram para fazer algo que desejavam já há algum tempo. Começaram de forma tímida embaixo dos panos grossos que os protegiam do frio outonal, mas logo se desvencilharam de tudo e somente alguns raios do Luar que conseguiam passar por entre as nuvens cobriam os seus corpos, que incendiavam e chegavam a brilhar devido ao suor. Após mais de uma hora de amor intenso, desabaram exaustos sobre a relva macia, mas logo se sentaram e se abraçaram, vendo o reflexo da Lua que resolveu aparecer, caminhando cheia e lentamente sobre o espelho que se transformara a superfície do lago. Dormiram abraçados, sendo acordados pela manhã devida pela forte luz do sol e pela movimentação dos integrantes da expedição. Vestiram-se apressadamente entre sorrisos, trocaram mais alguns abraços e beijos apaixonados coroados por juras de amor, e se uniram aos demais. O grupo já fora dividido em três, seguindo orientações de Kedaf e cada um deles liderava uma equipe. Não parecia a princípio, mas o lugar se mostrou maior do que o esperado e pela parte da manhã nenhuma novidade foi descoberta, nem um mero vestígio sequer.

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Não sabiam ao certo o que procurar, já que todo o descampado era plano feito um enorme tapete. Haviam imaginado se deparar com uma gruta, ruínas ou até uma caverna, mas somente alguns restos de construções antigas foram localizados, as quais não valiam o desperdício de tempo numa investigação mais minuciosa. E mesmo nessas ruínas nenhum sinal do código Hiphitusi foi detectado. Pararam para comer e alguns carregadores resolveram se divertir nadando um pouco. Após algum tempo um deles gritou, chamando a atenção dos líderes até uma borda do lago. - Eu vi algumas palavras numa pedra, lá embaixo! - Tem certeza? – Berrou Kedaf, assustando os demais. - Tenho sim, mas não são palavras comuns. Os demais integrantes do grupo não tinham conhecimento sobre o código e nem precisavam saber, segundo sugeriu Kedaf. Apenas cumpriam ordens, pelas quais eram bem pagos. Imediatamente o príncipe tirou o casaco que usava e todos os papéis dos bolsos da camisa e da calça, mergulhando a seguir sem ao menos pensar duas vezes. O lago era profundo e ele teve que retornar à superfície por duas vezes para encher de ar os pulmões, antes de achar na parede de terra uma grande pedra que se destacava, onde a inscrição citada pelo carregador estava talhada.

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Lá estava ela, com um musgo esverdeado contornando os caracteres, formando palavras que brilhavam diante dos olhos dele: MES FE QIFSE. Analisou a pedra de cima a baixo e quando estava ficando quase sem ar, retornou em poucas braçadas até a superfície e saiu do lago, satisfeito. Chamou os dois líderes e foi caminhando no meio deles. Passou um braço pela cintura de cada um e exclamou sorrindo: - Achamos amigos! Achamos o Lar da Pedra!

9. O templo submerso Apesar de tentarem utilizar alguns integrantes do grupo para iniciar os trabalhos dentro do lago, especialistas em mergulho tiveram que ser contratados quando começaram a escavar a parede de terra que circundava a grande pedra, pois não possuíam equipamento para essa ação específica e no primeiro dia de escavação descobriram algo fantástico. Atrás da grossa parede de terra existia outra feita de pedras e barro, e já não havia mais dúvidas de que encontraram um templo sob as águas. Com a chegada dos mergulhadores o trabalho ganhou um ritmo acelerado e em poucos dias toda a frente do templo estava à vista.

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Até o solo quando escavado exibiu um piso também feito de pedras quadradas de uma largura de dois metros, que servia como caminho até a entrada do templo, lacrada por duas pedras que se juntavam no meio, dando a impressão que elas corriam para o lado na época em que eram utilizadas. Quanto à fachada do templo, não possuía adornos que indicassem a época exata da sua construção, era lisa com duas colunas que subiam nas laterais e o teto aparentava ser plano, mas era somente uma suposição, pois o mesmo se encontrava abaixo de várias camadas de terra. Esta fachada tinha cerca de dez metros de altura por vinte de largura. De incomum nessa fachada encontraram somente quatro pequenas pedras do tamanho de tijolos comuns, que quando pressionadas deslizavam para dentro da parede e ao serem soltas, retornavam a sua posição original. Cada uma destas pedras se localizava em uma extremidade da parede e Kedaf supôs que poderia se tratar de um tipo de mecanismo que possivelmente abriria o templo, mas resolveu junto com Roi e Vanuzia ainda não fazer nenhuma tentativa que pudesse levar a algum acidente ou até um desmoronamento. Pensaram em tentar drenar a água do lago, mas logo descartaram a ideia após alguns cálculos sobre o volume de água ali existente. Cogitaram também explodir as pedras que bloqueavam a entrada, mas da mesma forma poderiam nesse caso por toda a construção abaixo, o que além se ser uma perda

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arqueológica inaceitável, poderiam destruir as pistas que o grupo tinha certeza que encontraria lá dentro. Roi então sugeriu que se utilizassem do possível mecanismo que existia, fazendo alguns testes para saber como funcionava, mas Kedaf o atropelou com palavras. - É óbvio que se todas as pedras forem pressionadas ao mesmo tempo, algo vai acontecer! – E completou – Só não sabemos o resultado, se é uma abertura de porta ou uma explosão! Mas Kedaf teve que concordar com ele quanto à questão da segurança dos mergulhadores. Pensaram numa forma de empurrar as pedras, todas ao mesmo tempo, sem colocar ninguém em risco, mas nenhuma solução parecia surgir. E a única que veio à mente de Kedaf foi de amarrar os mergulhadores por cordas e torcer para que nada de anormal acontecesse, ideia essa descartada de imediato pelos outros dois líderes. Quem trouxe uma luz ao grupo foi o mesmo carregador que encontrara anteriormente a inscrição dentro do lago. Ele propôs que se utilizassem de um tipo de sistema de alavanca, que se mostrou muito sugestivo no final, apesar de espantosamente simples. - Pode dar certo! – Concordou Roi com ele – Vamos construir essa bugiganga agora mesmo!

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- Bugiganga? – Estranhou o carregador enquanto os mais próximos riram, inclusive Kedaf. A “bugiganga” nada mais era que duas longas varas de madeira com outros dois pedaços de madeira pregados na transversal, exatamente na altura das pedras. Precisariam de dois conjuntos, um para cada lado, o que fizeram rapidamente. Os mergulhadores desceram e colocaram as madeiras nas posições corretas, levemente encostadas nas pequenas pedras e saíram. Agora dois homens de cada lado aguardavam o sinal de Kedaf para empurrarem as pedras através das varas de madeira. Deveriam, segundo ele, fazer o máximo de esforço para empurrarem na mesma hora, portanto ele ficou bem no centro deles, quase na direção em que se encontrava abaixo a entrada do templo. Levantou as duas mãos para o céu e gritou para ser bem ouvido, olhando para os quatro num rápido movimento de cabeça: - Quando eu abaixar as mãos empurrem de uma vez! Vou contar até três! Um... Dois... Três! Eles empurraram guiados pelo príncipe maestro, mas por alguns segundos nada pareceu acontecer. De repente um enorme redemoinho se formou no meio do lago e numa velocidade incrível o nível da água começou a baixar, sob os olhares espantados de todos. Somente Kedaf ria loucamente.

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Qualquer um que estivesse ali dentro com toda a certeza seria sugado pela água, que soltou um grito agudo ao terminar de descer pela entrada do templo, onde a porta de pedra como mágica deslizou lentamente para os lados. Parecia um tipo de armadilha, imaginou Roi, leitor inveterado de livros de aventuras, o que descobriu estar certo ao adentrarem o local. Todos se debruçaram pela borda para ver mais de perto o que a água deixara para trás. Agora o templo nem parecia mais uma construção antiga, tinha até um aspecto moderno, mas Vanuzia o imaginou como um ser mau com a boca escancarada, a espera de suas vítimas. Ignorou esse pensamento e se abraçou a Roi, também extasiado. Nem notaram que o príncipe continuava a gargalhar, quase sem nem conseguir respirar, quase sem conseguir se controlar, um homem aparentemente louco, quase alucinado.

10. A primeira das quatro Nem Vanuzia ou Kedaf encontraram uma explicação plausível para a maneira como foi construído o Lar da Pedra. Desceram pendurados por cordas até o solo escorregadio e enquanto os demais construíam plataformas de madeira para se alcançar à parte externa, eles iniciaram uma detalhada pesquisa

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de campo, antes de adentrarem ao templo com a grande entrada convidativa. Chegaram à conclusão de que toda a construção fora planejada daquela forma desde o início, não sendo o templo coberto por camadas de terra ou a sua frente enchida de água devido às ações do tempo, ali existia certamente a mão do homem. O que fundamentou essa lógica foi que não encontraram nenhum outro tipo de acesso que pudesse levar a entrada da construção, tudo fora feito após uma grande retirada de terra. O mais surpreendente vestígio disso foi ao examinarem melhor alguns pedaços da parede de terra que encobria a frente do templo e descobrir que ela fora de certa forma presa à parede com barro misturado com capim. O cenário que formaram era o seguinte: toda a obra foi construída de uma maneira a esconder a sua existência e concluíram diante dos fatos que o Terceiro Quarto não era para ser encontrado tão facilmente, mas se não fora destruído antes era porque deveria então ser um dia achado e de algum jeito utilizado. Após colherem amostras de todos os materiais encontrados e as enviarem no mesmo carregamento que conduziria os mergulhadores que foram dispensados por Kedaf, formaram um grupo menor composto pelos líderes, dois carregadores e um segurança e rumaram para o interior do Lar da Pedra. O primeiro cômodo era uma sala retangular com uma grande fenda construída com o mesmo material das paredes,

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com cerca de 4 metros de largura, por onde certamente a água do lago escoara. Não dava para se ver o fundo dessa fenda, devido à escuridão lá dentro, e ao ser um pouco iluminada com a ajuda de lanternas, conseguiram identificar pontas de madeiras afiadas apontando para cima. Roi alertou aos demais que já suspeitava de armadilhas no local e aquilo só comprovava os seus receios, então pediu a todos que tivessem a máxima atenção. Para atravessar o local, onde uma segunda passagem os aguardava, tiveram que sair e voltar com algumas tábuas para improvisar uma ponte. Continuaram sem maiores novidades e passaram para o segundo e último cômodo. Este era comprido e de onde estavam avistaram um baú sobre uma pequena base de pedra. Roi teve que segurar Kedaf para que ele não corresse. - Vamos com calma! – Pediu ele ao príncipe. Kedaf assentiu e prosseguiram. As paredes eram lisas e sem gravuras ou escritos, similares ao teto. Ao se aproximarem, os líderes pediram que os demais aguardassem e seguiram até defronte o baú coberto por um tipo de toalha de cor vermelha. Os dois deram a honra a Vanuzia para que fizesse a sua abertura. Ela não pestanejou: retirou a toalha e na tampa estava o desenho de uma Lua com dois traços cruzando e a

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dividindo em quatro partes, sendo que a terceira parte estava mais realçada que as demais. Vanuzia tentou empurrar a tampa para o lado, mas não conseguiu, pois era feito inteiramente de pedra. Roi e Kedaf pegaram cada um de um lado e levantaram a tampa. Ela ficou paralisada por alguns segundos, depois se abaixou e retirou de dentro o Terceiro Quarto e o ficou admirando em suas mãos. Era do tamanho de um livro comum e a sua parte arredondada era lisa, enquanto as duas partes retas possuíam o que parecia ser um pequeno encaixe. - Do que é feito? – Perguntou Kedaf retirando com delicadeza o objeto das mãos dela e batendo nele com um pequeno martelo. - Não faço ideia, parece um tipo de metal. - Não soa como metal! – Disse ele – Mas é pesado como chumbo. Passou o Terceiro Quarto para Roi enquanto vasculhou dentro do baú em busca de mais alguma pista. Não havia mais nada ali. - Somente ele? No que isso nos ajuda? - Espere Kedaf! – Disse Roi que aparentemente notara algo após devolver o objeto para a exploradora. Abaixou-se ao lado do baú e soprou levemente. Viu que um tipo de desenho parecia haver embaixo dele e com a ajuda

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do príncipe empurrou-o para o lado até que ele caiu da base, tombando. O desenho na verdade era composto por quatro flechas que apontavam para o centro, onde uma pedra lisa estava protegida num entalhe da base. Roi acariciou a pedra, depois a pressionou. Imediatamente um tremor balançou tudo e o teto pareceu cair sobre suas cabeças. E um grito se ouviu.

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