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ECOS 8


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Capa e Editoração eletrônica: E. Reuss Revisão: E. Reuss, Fabiano dos Santos Araújo e Joel Garcia da Costa


EDITORIAL

Por Rosca J. R. Tudor Considero a escrita como um ato de extrema intimidade. O autor pode escolher escrever uma ficção ou relatar a vida de terceiros, mas é inevitável deixar ao menos um pedaço de sua mente codificada em seu texto. Por isso, para esse editorial, resolvi compartilhar um momento muito íntimo de minha vida. Minha primeira vez. Era uma manhã ensolarada do ano de 1992. Decidi cabular aula para comprar jogos de computador na Santa Efigênia, que na época não era tão povoada quanto atualmente. Na época, as melhores lojas de jogos ficavam nas travessas da Santa, por isso meu caminho foi uma espécie de costura através de todas as ruas da imediação. Quando então, entrei na Rua Aurora e decidi ir “um quarteirão a mais”. Ali já não era mais ambiente para um garoto de 14 anos. As lojas davam lugar a estacionamentos e cortiços e os frequentadores já não eram mais nerds e técnicos em manutenção. Aquele pedaço de São Paulo era conhecido como A Boca do Lixo,


então deixo para você imaginar como era a fauna local. Porém, até num aterro sanitário pode desabrochar uma flor, e foi ali que a encontrei, no número 72 da Rua Aurora... a sua mãe. Sim, a você que está lendo... sua mãe mesmo. Ou acha que ela estava em algum outro lugar, naquela primavera de 1992? Sua mãe estava vestindo apenas um robe feito com aqueles panos sintéticos vagabundos, comprados na 25 de Março, que tentam imitar seda chinesa, mas parecem pano de chão, enquanto fumava um cigarro fedido, provavelmente era capim de pasto cagado enrolado no papel de fumo, contrabandeado do Paraguai. Nada disso importava, pois ela era linda... jovial... liberta... eu conseguia ver toda beleza de seu corpo e seus pelos pubianos, que ainda estavam na moda. - Oi gatão, quer entrar - Ela olhou dentro de meus olhos, como uma pantera pronta para o abate. Minha mente, coração e virilidade foram tomados por aquela névoa de cheiro etílico, assoprada delicadamente em meu rosto. Nada eu podia fazer, além de deixá-la pegar em minha mão e me conduzir até nosso ninho de amor. - O que você quer fazer, lindo? – Eu entendi todas as palavras e sabia a que ela se referia. Apenas não tinha ideia do que um garoto de quatorze anos poderia sugerir a uma deusa do amor e prazer.


- Ah, sei lá, o que você achar melhor – Eu não era nada eloquente. Não que agora seja, mas na época, certamente, não era. - O que você acha de um Gung-Ho Argentino? P U T A Q U E P A R I U ! Quando ela disse isso o mundo se calou. O agitado Centro de São Paulo soava como uma pacata rua de Cristais Paulistas na madrugada de domingo para segunda. O vento parou de soprar. O Sol parou de esquentar e o mundo não mais girou. Eu não fazia ideia do que viria a ser um “Gung-Ho Argentino”, mas se ela tinha a coragem de tentar vender alguma coisa e, ainda assim, chamar de “argentino”... puta que pariu, devia ser algo muito bom! É a mesma coisa que você dizer: “Compre esse carro lerdo!” Aí, obviamente, vai imaginar que deve ter alguma coisa a mais, como ser luxuoso, bonito e não fabricado na Argentina. - Mãe do leitor, eu não faço ideia do que é um Gung-Ho Argentino, mas acho que vou querer isso sim. - Então, vamos lá. Ernesto! – Ela chamou e, prontamente veio um rapaz forte, mais ou menos do tamanho dum monstro de pesadelo. - Sim, senhora Mãe do Leitor. Como posso ser servil? – A voz do homem parecia aqueles trovões que escutamos quando abrem os portões do Valhalla. E caso você não saiba como isso soa pode perguntar para sua mãe, que ela deve lembrar do


saudoso Ernesto, que os deuses o tenham a seu lado. - O garoto quer experimentar um Gung-Ho Argentino – E mais silêncio se fez. Ernesto até parou de respirar quando a sua mãe lhe disse isso. - Pode deixar, senhora Mãe do leitor – Ele disse depois de alguns longos segundos, onde a existência foi substituída por um hiato de profunda comoção. A sua mãe me abraçou gentilmente pela cintura, colocou minha mão esquerda entre suas nádegas, deixando-me tocar gentilmente sua vulva e, com certo romantismo, me guiou através de um corredor escuro, empoeirado e cheio de teias de aranha. Descemos uma longa escada apertada, que tinha degraus altos e curtos e largura por onde dificilmente um homem adulto conseguiria descer sozinho. Ernesto não ousou nos acompanhar, pois ele não passaria por ali. Apenas acenava, do alto da escada, desejando sorte aos aventureiros. Na metade do caminho eu já estava com muita dificuldade de continuar enfrentando os degraus, mas sua mãe me reconfortou envolvendo minha face com seus lindos dedos e me dando um demorado beijo de língua. Que não foi meu primeiro, mas é como se fosse. Ela beija muito bem, com aquela língua firme, porém macia, invadindo minha jovem boca, e lábios que sabem muito bem como tocar a alma de um homem. Sinto saudades de sua mãe.


Depois de muitos minutos, deixando sua mãe me mostrar como é que se beija de verdade, descemos os últimos degraus e chegamos a uma pesada porta de madeira. Ela fez um toque especial na porta, que foi uma adaptação da música Moby Dick, do Led Zeppelin, e depois de alguns segundos ouvi uma série de trancas e cadeados serem destravados para, então, a porta se abrir vagarosamente. Mais ou menos vinte centímetros se abriram, então pudemos ver a face de um homem muito feio, com olhar de sonso, que possivelmente era seu pai, espiar desconfiadamente. - Sim? – Ele falou de maneira entorpecida, arrastando a vogal como se estivesse definhando. - Vim fazer um Gung-Ho Argentino com o rapaz – Ela sorria fazendo aquela carinha sapeca de pantera no cio, enquanto me abraçava e, depois, beijava minha orelha. O pai do leitor apenas acenou com a cabeça enquanto babava e se afastava da porta. A mãe do leitor me puxou de maneira carinhosa e cheia de energia para um canto muito escuro do galpão, onde eu apenas pude ver, ao longe, uma luz de televisão. Para lá rumamos. Era um dispositivo estranho. Não era uma televisão. O monitor apenas fazia parte dele, mas eu nunca vira antes coisas como as que eram ali exibidas. Era um aparelho com aproximadamente


dois metros de altura, um monitor na parte de cima, duas alavancas e quatorze botões. A sua mãe colocou um banquinho de aproximadamente um metro na frente da máquina, colocou duas fichas, parecidas com as de telefone, em um slot na parte inferior frontal e se sentou sobre o painel frontal, encaixando a alavanca esquerda dentro de sua vagina. - Moça, eu não vou sentar na outra alavanca – Um protesto pertinente de minha parte. - Não, tolinho. Você é noobão, e é melhor jogar usando as mãos.

Então, crianças, foi assim que conheci sua mãe e, também, a primeira vez que joguei Street Fighter II: The World Warrior. Minha análise: Não existia uma cultura de fighting games naquela época. Lembro, antes disso, de algumas poucas horas em “clássicos” como Hoogans Alley e Ye Ar Kung-Fu, ou um jogo levemente mais elaborado, como Karate Champ. Mas foi Street Fighter II que começou tudo que temos hoje. Toda geração de jogos tem um título que a marcava e dava a tônica, inspirando toda a indústria a lhe seguir. Street Fighter II foi não só o jogo que definiu aquela geração, como também uma pérola cultural que permitiu que os videoga-


mes evoluíssem de uma brincadeira despojada de crianças para algo realmente grandioso. #somostodosistritifaiguiti.


SUMÁRIO A LUTA DE CLASSES ......................................... 13 GENTE ESTRANHA ............................................ 23 GALINHA .......................................................... 26 ARMAZÉM LORENZI .......................................... 46 O FOTÓGRAFO ................................................. 60 A CASA-ARCA ................................................... 71 A FESTA ............................................................ 75 ARTE ................................................................. 89 A MATANÇA DO PORCO ................................... 94 A ORAÇÃO DO CEIFADOR .............................. 100 ONDE ARDEM OS INOCENTES ........................ 107 A APOSTA ....................................................... 129 SOB A MINHA CARTEIRA ................................ 134 JONAS II ......................................................... 138 I LOVE SP ........................................................ 176 CAPIM BRAQUIÁRIA NA ALMA DA GENTE ....... 182 VADINHO ....................................................... 191

ENTRE EM CONTATO ..................................... 206


A LUTA DE CLASSES Roniel Felipe Bem antes do famoso Clube da Luta, meninos perifĂŠricos de classes diferentes e, ao mesmo tempo, iguais, mostravam com quantos paus se faz uma canoa.


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lém do físico pouco avantajado, foi a aposentadoria precoce no mundo das brigas escolares que me permitiu presenciar com bons olhos e todos os dentes a luta das classes do Antônio Fernandes Gonçalves, o AFG (o famigerado colégio do aluno fedendo à gambá). Foi no Fernandão, onde se dizia que o estudante entrava burro e saía ladrão, que presenciei embates homéricos, brigas repletas de dramaticidades protagonizadas por moleques pobres desprovidos de fé no futuro, mancebos impulsionados pelos hormônios e pela regra do olho por olho, dente por dente. Na realidade, observar as brigas era o que restava a um adolescente apelidado de magrela, bundaseca, pau-de-virar-tripa e graveto falante. Quando fitavam minha caixa torácica, das raras vezes que ousava ir para a rua sem camiseta, era possível enxergar o movimento de uma das minhas artérias pulsando, bombeando vida ao meu coraçãozinho juvenil e pacato. “Cê não pode brigar porque se levar um soco no peito, cê morre”, atestava Marcelo Tartaruga, colega dos tempos de Fernandão. O sujeito lia com extrema dificuldade e sofria para fazer uma continha de dividir, e ainda assim falava como se tivesse um diploma de cardiologista exposto na parede do seu quarto. E, por mais que eu fosse um mero observador dos embates, eu também era pupilo da quinta

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série de uma escola pública, um pandemônio educacional. Nos finais de semana dos dias escaldantes, a molecada da vizinhança se refrescava na caixa d'água do colégio. Apedrejamentos, pichações e outros atos de vandalismo eram mais repetitivos que o cardápio da escassa merenda escolar oferecida. Se mostrassem uma foto de Karl Marx para os estudantes do AFG, certamente diriam que se tratava do Papai Noel ou do irmão gêmeo do seu Roberto, um servente da escola que há muito parecia ter brigado com o barbeiro devido a sua vistosa barba e seus cabelos longos (carinhosamente, pelas costas largas, o chamávamos de Matusa, abreviação de Matusalém). O sopro da juventude nos fazia impetuosos e ignorantes à teoria. Preferíamos a prática. Por outro lado, a aspereza da vida nos calejava de formas diferentes. Nem todos éramos soldadinhos de chumbo do patriarcado, homenzinhos prontos para revidar imediatamente qualquer desfeita, por menor e insensata que elas fossem. Havia aqueles que adotavam a teoria da mais valia nas primeiras conquistas amorosas. “Mais valia ter todos os dentes e ter chances com a Elisângela da rua 9 no bailinho da vassoura, do que ser um campeão banguela”. Assim, além da horda dos gladiadores novatos, o staff da escola também contava com o time daqueles que se perfumavam para ir à escola, a patota dos conquistadores baratos e precoces.

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Embora longe de estar lapidada, precoce também era a visão empreendedora de Quebinho, um baixinho moreno, dono de olhos grandes e vidrados. De angelical, o aluno da quarta B só tinha os cabelos encaracolados. A boca, demoníaca, saraivava com precisão as palavras que incendiavam os ânimos, assim promovendo a luta entre as classes. Ardiloso como um pícaro, Quebinho, que tinha na sua carteirinha do AFG registrado o nome Cléber Antônio da Silva, maquinou dezenas de brigas na quadra da escola e, principalmente, na hora da saída – também conhecida como a hora da verdade. Sua estratégia era muito simples: propagar boatos e falácias que serviam como estopim para as pelejas entre os machinhos que mal sabiam limpar a bunda, mas já se sentiam extremamente briosos pelos primeiros pelos púbicos. “Nossa, o Juliano da sétima C disse que você é mó bundão, Vanço. Eu no seu lugar caía para dentro”. “Fiquei sabendo que o Gordo da oitava A falou que daria um cola brinco em qualquer um da quinta D. Vai deixar ele folgar?”. “Não é por nada. Longe de mim ser isqueirinho, mas tá todo mundo falando que você afinou pro André da 6D no campeonato interclasses. Mostra pra essa galera aí que você é homem”. A Luta de Classes

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Voilà. Estava armado o picadeiro do circo flamejante para mais um confronto. O boato se espalhava mais rápido que a cola para a prova de matemática da professora Alessandra. Como as crianças serelepes da segunda série, o burburinho corria por todos corredores do Fernandão e, no fim da aula, logo após o estridente sinal soar, formava-se um grande círculo para que os “valentinhos” resolvessem as diferenças inexistentes entre si. Afinal, éramos iguais em muitos aspectos: pobres, periféricos, filhos de gente humilde e aficionados por filmes chineses onde a física, aquela matéria chata que a maioria dos alunos do AFG odiava, era ignorada. Quebinho, sempre ele, se punha entre os brigões e fazia seu papel de empresário de pugilista, o Don King da Vila Bela. Com os adversários com os rostos próximos e os olhos em chamas, o baixote maquiavélico esticava o braço os separando. “Cospe aqui quem for homem”, desafiava cinicamente, antes de rapidamente mover sua mão, fazendo com que os representantes de suas respectivas classes cuspissem um no outro. O sinal verde para a pancadaria estava dado. Voadora, bicuda, empurrão, cotovelada, cruzado, bofete e até chute no saco. Valia quase tudo. A única regra do clube da luta mambembe era que nenhum terceiro ou intermediário poderia se envolver no

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embate, lei que fora quebrada por algumas vezes rendendo ainda mais confusão do que o costumeiro. Como todo bom empresário do ramo das lutas e rinhas, Quebinho também tinha o seu campeão nato, a sua máquina de batalha a quem chamava de amigo. Se tratava de Jé, um negrinho rápido como uma lagartixa e explosivo como uma bombinha de quermesse. Jé Buscapé, como era apelidado por alguns, era mais um dos péssimos alunos que habitavam o fundão da quarta B. Sentava-se ao lado de Cléber. Suas notas eram sempre baixas, mas aquele menino apresentava excelência quando o assunto era a arte do sopapo. Seu cartel era respeitadíssimo. Nove lutas na escola. Fosse na quadra, na sala ou diante do portão da saída, seguia invicto. Eu mesmo morria de medo daquele moleque. Aqueles olhos causavam apreensão até mesmo no Seu Mariano, o enérgico diretor do Fernandão, que também tinha receio do Jé Buscapé. Com o ano letivo de 1992 chegando ao fim, um grande desafio se fazia necessário para fechar a temporada do pega-pra-capar com chave de ouro. Foi exatamente nos idos finais do ano, que na vila surgiu um professor de Kung-fu, logo apelidado de cara de periquito, devido ao seu nariz amassado. Dono de uma academia improvisada em um canto do prédio da escola de samba, onde o pôster de

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Bruce Lee dividia o espaço com o estandarte do Grêmio Recreativo Rosas de Prata, o mestre chamado de Sifu Miguel sempre dizia aos seus alunos para jamais utilizarem seus ensinamentos para brigas de rua. Porém, o discurso apaziguador nada serviu para evitar que Régis, o melhor dentre os seus discípulos, enfrentasse Jé em uma daquelas lutas que renderia milhões às agências de apostas e atrairia os olhos de todo o planeta. O duelo tinha previsão de três minutos. De um lado, o invicto Jé Buscapé, pesando uns 50 quilos de pura energia, representante do estilo das ruas da Vila Bela. Era como um ronin, um samurai sem mestre. Do outro, Régis, com uma envergadura pouco superior à do adversário. Representava o kung-fu chinês lhe ensinado pelo mestre cara de periquito. Contavam mais de 30 telespectadores sedentos, que se portavam como aves de mau agouro. Adrenalina e testosterona davam a tônica. O público, pouco respeitável, aguardava com ansiedade a poeira subir e o pau comer. Tudo pelo bel prazer e a paixão pelo desalinho, a balbúrdia. Porém, da mesma forma que algumas grandes lutas do mundo do boxe e do vale tudo, o embate foi extremamente decepcionante para aquela plateia fria e calculista. Jé Buscapé, com sua temida e já notória velocidade, buscou os pontos fracos de Régis com uma série de socos certeiros e

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fulminantes. Se tivéssemos pagado para ver aquela confusão, com certeza vaiaríamos. “Marmelada, quero o nosso dinheiro de volta. Régis vendeu a luta, covarde”. A surra foi tão avassaladora que, Régis, estatelado no chão, não teve nem forças e honra para proferir a clássica frase do “Tu tá ferrado da próxima vez. Vou te pegar”. Após essa não tão épica batalha, vieram tantas outras. Destaque para o embate entre Binho da 7b contra o gordinho Gustavo da 6a (que resultou na intervenção da Polícia Militar e de um pastor evangélico que passava pelo local e se pôs a orar para dar fim àquela cambulhada) e a fatídica luta entre Carlão da 5b e Andrezinho da 4a, na qual o primeiro se molhou todo com a própria urina. Tamanha tensão resultou em tamanha humilhação. Foi assim que surgiu a lenda de Carlão, o mijão, que ano a ano aumenta um pouco de acordo com a imaginação dos interlocutores (recentemente, falam que Carlos também se cagou todo antes de sair rolando pelo asfalto quente e pedindo clemência ao adversário). A única certeza é que, Carlos, que era pequeno mas era chamado pelo aumentativo devido sua pança, teve que mudar de escola por causa do bullying sofrido. Pobre menino. Com o passar dos anos e as necessidades da vida adulta batendo em suas portas, os guerreiros tiveram que lidar com aquilo que tinham em mãos,

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além de cicatrizes e unhas que jamais seriam regeneradas de forma decente. Os títulos obtidos na luta entre as classes de nada serviram no currículo. Até onde sei, dali não saíra boxeador algum. Foi em uma tarde de verão que encontrei Jé Buscapé zanzando erroneamente sobre os paralelepípedos de uma rua decadente do centro. O chamei pelo apelido. “Olha aí o grande Jé Buscapé, o terror da luta entre as classes do Fernandão. O campeão dos campeões da escola”. No passado, provavelmente ele me responderia com um direto na fuça, mas os tempos eram outros. Seu aceno foi um olhar ressabiado, espantado. Após algumas piscadelas rápidas, me reconheceu, embora eu continue o mesmo magricela de outrora. Com o gelo quebrado, Jé abriu-me o sorriso exibindo apenas alguns dentes. Raciocinei que, no bailinho da vida, ele parecia levar um baile daqueles. Pobre diabo. Certeza que nossa musa eterna, a divina Elisângela da rua nove, jamais beijaria uma boca banguela daquelas. Como não poderia deixar de ser, perguntei-lhe sobre Quebinho, se havia notícias de seu antigo amigo inseparável. “Vi Quebinho esses dias. Tava numa caranga bonita. Fui falar com ele, mas ele fez que não me conheceu. Parece que virou empresário do ramo das lutas, mas começou com briga de galo mesmo”, respondeu, deixando escapar um ar melancólico.

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Aqueles olhos cheios de confiança espelhavam apenas a decepção, a tristeza típica dos fantasmas que parecem ter saudades de uma vida que não volta mais. Apesar de todos os pesares, éramos felizes com o muito pouco que o Fernandão nos proporcionava. Pela primeira vez, fui atingido por Jé Buscapé. Sua melancolia me acertou como um pesado soco no estômago. Derrotado e cabisbaixo, me despedi desejando-lhe sorte. Desconcertado, segui por aquela ruinha de pedras incertas, geralmente habitada por quem estava perdendo a batalha da vida. Pelo caminho, enquanto revivia as cenas de um saudoso passado, me veio à mente a que diz que “Todos os animais são iguais, mas uns são mais que os outros”. Onde aprendi isso? Foi num livro que o professor Paulo, de sociologia, nos indicou. Quebinho e Jé Buscapé não tiveram essa aula porque abandonaram os estudos em 1993. Optaram por viver as aulas da escola da vida, a mesma que ensina, na marra, que o sonho de alguns oprimidos é se tornar o opressor. E não é que me bateu uma saudade do professor Paulo e sua admiração por George Wells?

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GENTE ESTRANHA Léo Ottesen


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stava olhando pela janela do ônibus e uma senhora de idade subiu. Vinha com sacolas e uma bolsa de couro. Um garoto levantou e insistiu para que ela aceitasse o lugar. Começou a entrar mais gente do que sair e o ônibus lotou. Pedidos de licença, com licença e desculpe iam atravessando a multidão, seguidos de obrigadas. A bela moça de saia preta e blusa azul-marinho pouco decotada desceu. Eu a acompanhei. A senhora com as sacolas também desceu, mas pela porta dianteira. Havia um mendigo na calçada, jornais e uma placa que pedia esmolas. – Bom dia, Serginho. – disse a idosa, enquanto tirava um saco marrom do meio das sacolas plásticas de supermercado. – Bom dia, dona Isabel. – respondeu o indigente. Eu me encostei na parede do prédio e acendi um cigarro. O homem barbudo agradeceu pelos pães e ofereceu um gole de uma garrafa duvidosa à senhora. – Ah, não, meu filho. Eu não bebo. Obrigada e fique com Deus. Um cachorro vira-latas veio em minha direção e o moço assobiou. O animal sentou à sua frente e ganhou metade de um dos pães. Em duas mordidas, o manjar tinha acabado. Levantou-se e seguiu seu caminho de cão de rua. E eu segui o meu. Uma garçonete saiu do restaurante à minha frente e me pediu o isqueiro. Comentou algo sobre o tempo, mas eu não prestei atenção. Notei a barri-

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ga protuberante e o brilho da sua pele. Um homem distinto em um paletó cinza saiu pela porta e entregou uma nota amarela. Enquanto eu dobrava a esquina, ouvi – você não estava lá dentro, então, aqui está a gorjeta. Cheguei à porta do meu prédio e vi um panfleto colado na parede “Encontrado cão da raça York Shire. Dono favor entrar em contato pelo fone abaixo.” Na porta do meu apartamento, o síndico estava prostrado com um jornal às mãos. – Circulei alguns empregos que possam te interessar e o meu primo tá precisando de um motorista. Anotei o número dele aqui. – disse, entregando-me o jornal. – E também esquece os três atrasados. Paga esse mês que ficamos quites. Boa tarde. – Entrei em casa, servi um copo de uísque barato e liguei a televisão. A guerra continuava. – É pra pacificar o país! – diziam. – Pra roubar o petróleo! – diziam. Troquei de canal. Um homem é preso por assassinar a filha grávida e o namorado... Um homem-bomba mata vinte e duas pessoas em um parque. Desliguei a televisão. Comecei a lembrar de tudo que vi durante o dia. De todas as pessoas com quem encontrei. Que gente estranha!

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GALINHA E. Reuss Renuncie ao passado e limpe sua mente de memórias e pensamentos indesejados com Rememorize™! Visões de criaturas estranhas e insistentes podem ocorrer, mas não se preocupe, elas são um preço baixo a se pagar pela paz interior.


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esmo sob os efeitos de uma droga ainda não testada em humanos, eu falava sobre as coisas de sempre enquanto guiava a caminhonete: que os coelhos nasciam cegos, que o pênis do porco tem formato de espiral, que dá pra treinar um ganso como se treina um cão pastor… essas coisas. Terezinha sorria ao meu lado sem se incomodar com a luz do sol. Os olhos fixos em algo a sua frente, talvez o asfalto ou a névoa mental provocada por uma overdose de glicose depois de passar horas chupando cana. Olhei para os seus lábios inchados, o sangue seco no canto da boca, o hematoma com um núcleo amarelo esverdeado na bochecha, e por um minuto tínhamos dez anos de novo e estávamos sentados na caçamba da caminhonete, meu pai dirigindo enquanto chupávamos cana e jogávamos os restos nas placas de sinalização da estrada. Sob seu braço esquerdo, a única posse que ela havia trazido consigo: a almofadinha estropeada e fedorenta que viveu sob sua bunda durante dez anos. De repente, vi o seu braço se retesar violentamente e agarrar o volante da caminhonete. Olhei em seus olhos e eles gritavam, e então o baque abafado de algo se chocando contra a lateral do carro. “Que foi?” Eu gritei e pisei no freio. Galinha

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Levamos uns cem metros para parar, milhares de peças vibrando e chiando alucinadamente enquanto o carro deixava um rastro negro de borracha queimada no asfalto. Terezinha ainda segurava o volante e procurava sabe-se lá o que no retrovisor direito do carro. Em um momento de desespero, ela começou a balbuciar “bó”, como se gaguejasse o início de uma palavra. Bolas, bota, bosta? Olhei para sua mão, que dizia: Cachorro.

Por causa de uma lesão neurológica, seu cérebro não fazia a mínima ideia de como produzir sons com a boca. Claro, com exceção de uma sílaba, que ela falava fluentemente desde os seus dois anos: bó. Por isso, pontos de exclamação viravam sobrancelhas arqueadas e olhos arregalados. Animais eram imitações cômicas em pequenos teatrinhos que sempre acabavam com cotoveladas em cabeças desavisadas. Falar sobre emoções era enxergar no seu rosto a sutileza de algumas expressões humanas, que às vezes se diferenciavam entre si apenas por um meneio na cabeça ou uma inclinação no queixo.

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Dava ré pelo acostamento da BR-101 com o braço apoiado nas costas de Terezinha, olhando pela janela traseira o corpo do cachorro jogado para fora da estrada pelo para-choque enferrujado da Ranger 95 que eu e Terezinha chamávamos de Paçoca. Para Terezinha, todas as coisas, inanimadas ou não, mereciam um nome. Os carros passavam ao nosso lado a toda velocidade, as cabeças atrás dos vidros se virando para nós numa fração de segundo antes de se dissiparem na névoa do nosso cano de descarga. Parei o carro ao lado do corpo do cachorro estirado em uma poça de sangue. À distância, vi um homem se aproximar vindo de lugar nenhum, carregando um saco preto na mão direita. Ele era idoso, vestia uma camisa aberta e uma bermuda que algum dia fora branca, a pele queimada pelo sol da cor de amendoim torrado. Terezinha olhou incrédula para o cachorro sendo erguido pelas mãos do homem e deixando um rastro de sangue antes de ser jogado no saco de lixo. “É seu?” Perguntei. Ele fez um meneio lento de cabeça, assentindo. Terezinha saiu do carro e se colocou diante do homem, intimidando-o com seu tamanho.

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“A gente atropelou ele,” eu disse, “desculpa aí.” Ele encolheu os ombros, ainda olhando Terezinha nos olhos. Ela apontou o indicador para o saco de lixo e ergueu o queixo. “Vai levar ele pra onde?” Eu disse. Ele me olhou por um momento como se não me entendesse. “Pro lixo”, respondeu. E então, como se devesse a nós uma justificativa, ele disse com o cenho franzido: “Tá morto.” Terezinha bateu o pé na grama, como uma criança furiosa, e puxou o saco da mão do velho. Ficamos olhando enquanto Terezinha colocava o saco na caçamba da caminhonete sobre a montanha negra de sacos de lixo contendo as partes de um corpo que nem lembrávamos mais que estava ali.

No carro, eu voltava as minhas curiosidades. “Sabia que as vacas conseguem subir escadas, mas não descer?” Terezinha não reagia, continuava com o olhar fixo na estrada. “Beija-flor é o único bicho que voa pra trás.” Minha face vibrando de alegria, como é bom saber de coisas com as quais ninguém se importa.

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Avançávamos pela BR-101 e eu podia ver o alívio crescente se materializando na face rosada e cheia de hematomas de Terezinha à medida que nos aproximávamos do sul. Para mim, o sul era a fazenda e a plantação de cana em que vivi desde que nasci. Para Terezinha, eram coisas mais simples: as placas da BR com o pequeno brasão do Rio Grande do Sul, a mudança sutil nos limites de velocidade, a sensação de que qualquer ameaça habitava um lugar distante, além de uma fronteira, o lugar onde ela deixara seus dentes quebrados numa poça de sangue.

Minhas alucinações começaram duas semanas depois. No galinheiro, eu lançava ração para o alto em meio a um tapete de galinhas esfomeadas. De repente, ouvi um gemido bestial vindo da direção da casa. Era Terezinha, gritando na beira da cama. Sentada de pijamas com os olhos cheios de lágrimas. Sua boca ainda estava sem os dentes que o seu marido arrancara com uma cadeira. Mesmo assim, ela ria sem se preocupar com a própria aparência, a face coberta por ranho e lágrima. Quando me aproximei, ela pegou minha mão e começou a proferir sílabas aleatórias pela primeira

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vez em sua vida: “Que… Bla meu bli… ah… aham… a-ha…” Abracei-a e enxerguei sobre seu ombro a dentadura nova no criado mudo. Uma arcada dentária reluzente com dentes que faziam seus lábios saltarem para frente. Durante semanas, eu ouvi um som agudo e torturante vindo do quintal. Imaginei que viesse do local onde ela costumava fazer suas necessidades, apesar dos meus incontáveis pedidos para que ela usasse o banheiro da casa. E agora eu entendia, aquele era o som de Terezinha esculpindo algo nos próprios dentes com uma faca de cozinha, enquanto deixava seus dejetos e sua dignidade em um buraco no quintal. Me aproximei para olhar e vi que cada dente possuía uma letra gravada na superfície branca: “¡No poner los dedos en el molinillo!” Terezinha ainda chorava. E ela chorou pelos três minutos seguintes. Apenas três minutos de felicidade antes de cair num impulso brusco das coisas pesadas e inanimadas que caem em direção ao chão. Ela bateu a cabeça na parede ao lado da sua cama e ficou ali, estirada com o pescoço dobrado. Bati no seu rosto com toda a minha força. Peguei ela no colo e corri pela grama alta em direção à Paçoca.

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No hospital, abri o envelope da tomografia sobre a poltrona e vi uma série de fotos em preto-ebranco dispostas uma ao lado da outra como em uma história em quadrinhos. E que coisa... Aquela primeira imagem se parecia realmente com o raio-x de uma galinha depenada, sem a cabeça. Terezinha acabara de acordar e me observava de sua cama com um olhar vazio. “Tem uma mancha dentro de mim.” Ela conseguiu falar depois de três tentativas. Tentei me concentrar, mas a substância em minhas veias provocava um cansaço mental tão insuportável que minha cabeça havia pendido para o lado direito há umas duas horas e eu não encontrava forças para levantá-la. “Uma mancha?” Nesse momento, uma enfermeira entrou no quarto e espetou uma seringa no braço de Terezinha. Pedi alguma coisa para acordar, mas ela não respondeu. “Como assim, uma mancha?” Terezinha apontou para os papéis em minha mão e seu lábio começou a tremer. Eu não sabia o que falar, então disse: “Sabia que as galinhas conseguem ejetar o sêmen de um galo de suas coisinhas quando elas não querem descendentes?”

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A enfermeira franziu a testa e saiu do quarto, deixando de lado os protocolos de segurança hospitalar ao esquecer sobre o criado mudo uma bandeja cheia de seringas e ampolas. “O chifre de um rinoceronte é feito de cabelo”, eu disse enquanto lia as etiquetas das ampolas. Decidi injetar algumas daquelas substâncias em meu corpo. Terezinha estava de olhos fechados, o vestígio de um sorriso aliviado em seu rosto. “Galinhas têm sono R.E.M… Então elas sonham.” Terezinha adora ouvir essas coisas. Com uma agulha no braço, eu perguntei: “O que será que elas sonham, Tê?” E então tive a visão. Uma galinha negra com pontos brancos na asa ciscando sobre o corpo de Terezinha. Penas sedosas e reluzentes, brilhando sob a luz ofuscante que vinha do corredor. Cada pena parecia se mover de forma independente e exagerada, como se todas elas possuíssem musculatura própria, refletindo a luz nas paredes vazias do quarto enquanto o bicho dançava a dança da morte.

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Uma semana depois e Terezinha já estava morta há sete dias. Mas essa história não é sobre isso. Essa história é sobre a minha alucinação com a galinha preta, que por sua vez tem tudo a ver com a Meiner Indústria de Medicamentos LTDA, cujo escritório administrativo e centro de pesquisa clínica ocupa um edifício de dezessete andares com uma fachada de vidro espelhado no centro de Porto Alegre. Homens de terno e suas valises eram vomitados para fora dos seis elevadores da recepção enquanto um grupo de mais de cinquenta pessoas mal vestidas portando expressões faciais que denotavam medo e deslocamento aguardavam instruções em frente ao guichê de informações. Eu estava no meio daquela multidão. De repente, ouvimos a voz estridente de um homem de jaleco no centro do corredor que levava aos elevadores. “Boa noite senhores e senhoras. Conforme correspondência expedida no dia quatorze do presente mês, vocês foram convocados para comparecerem à sede do Grupo Meiner para relatarem suas experiências utilizando o medicamento de codinome REMEMORIZE™ para que possamos investigar os efeitos clínicos, farmacológicos e/ou farmacodinâmicos dos componentes do referido medicamento. Peço que se desloquem em

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direção aos seis elevadores ao meu redor de maneira ordenada…” A multidão subiu ao último andar em elevadores lotados acima de sua capacidade, enquanto alguns dos efeitos gastrointestinais do medicamento se manifestavam e tornavam aquela subida uma tortura claustrofóbica e flatulenta. Ouvi gritos, algumas cobaias desmaiaram. Uma mulher de traços masculinos me guiou em direção à uma fila de homens catatônicos que eram evoluídos cognitiva e sinapticamente apenas para reagirem à cutucadas no ouvido. Nesse momento, um dos homens de jaleco me chamou pelo sobrenome e pediu para que o acompanhasse até uma sala mal iluminada. Sentou atrás de uma mesa e esticou a mão em minha direção. Pude ver de relance uma pulseira de crochê de aparência propositalmente artesanal que, por um momento, me fez imaginar sua existência cotidiana longe daquela fachada estéril e imaculada que os laboratórios se esforçam tanto para manter. E, por algum motivo, imaginei o homem de jaleco diante de mim se masturbando com a mão da pulseira hippie para uma horta de gerânios, enquanto com a mão livre ele agarrava o solo e esfregava punhados de terra no peito depilado. Nessa visão, o homem chorava ao atingir o clímax e beijava lenta e afetuosamente cada uma de suas flores.

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O homem de jaleco interrompeu meus pensamentos e me entregou uma folha coberta por linhas em branco. No topo da folha, a seguinte frase: Relate nas linhas abaixo a sua experiência com o medicamento REMEMORIZE™. E então comecei a escrever esta história.

O homem de jaleco lia minha história quando, de repente, ele se inclinou para trás em sua cadeira e se levantou bruscamente. Saiu pela porta e a deixou entreaberta. Enxerguei um grupo de quatro homens de jaleco o esperando no corredor. Peguei o bloco de notas do outro lado da mesa e li suas anotações: Grupo 6 - Fase I − Depressão. − Pensamentos suicidas. − Hipersensibilidade à luz solar. − Ingestão (concomitantemente com Efedrina? Diazepam?) provoca desilusões esquizofrênicas (?) − Alucinações reptilianas. [E aqui a lista começou a ficar cada vez mais obscura e ilegível à medida que a caligrafia do meu entrevistador parecia

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assumir uma aparência infantil e de traços trêmulos.] − AUTISMO [riscado, violentamente] automatismo mental − DELÍRIOS DE AUTOSSUFICIÊNCIA E ONIPRESENÇA (DESCREVE MOÇAS DESENCRAVANDO PELOS PUBIANOS NO BANHEIRO FEMININO) − COMUNICAÇÃO TELEPÁTICA COM ENTIDADES DIVINAS, DEMONÍACAS E/OU CELEBRIDADES EM REABILITAÇÂO − ZOOPSIAS ZOOFÍLICAS (P. EX. ESTUPRO POR BABUÍNOS) − AUDIÇÃO E LEITURA DE PENSAMENTOS (COBAIA DESCREVE DETALHADAMENTE ROTINAS MASTURBATÓRIAS DE QUÍMICO ENVOLVENDO JARDIM DE GERÂNIOS) [etc.] “Eles não eram assim antes do medicamento?” Ouvi um dos homens de jaleco dizer e me aproximei da porta. “Pelos levantamentos psicodemográficos preliminares, não. Eram homens totalmente sãos.” “E agora?” Um terceiro perguntou. “Totalmente depressivos. Suicidas ao meu ver, mas nenhum chegou às vias de fato. Alguns esqui-

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zofrênicos, outros têm apenas as visões que eu já relatei.” “E todos tem visões da mesma… natureza?” “Não. Esse aí vê galinhas.” Disse, apontando para mim. Me encolhi e corri para o meu lugar à mesa. Momentos depois a horda de cientistas apareceu na porta com expressões ansiosas em seus rostos. O meu entrevistador tinha nas mãos um punhado de folhas amareladas, que ele colocou gentilmente sobre a mesa. “Que porra é essa?” Eu disse. “O que você vê?” Eu me levantei, assustado. “O que é essa mancha?” “Um teste de Roscharch. Faz parte do protocolo.” O entrevistador explicou. Mas ele não disse porque eu via a mesma mancha que eu vi no cérebro de Terezinha. “Não,” eu disse, “eu quero saber o que é essa mancha e por que ela se parece com uma galinha!” Os cientistas se entreolharam e executaram meneios delicados com a cabeça, assentindo para a ideia compartilhada de que eu estava louco.

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“Eu quero ser enterrada com a almofadinha”, Terezinha disse no último dia em que a vi sem ser num caixão aberto. Eu encarava a foto em preto e branco do seu cérebro quando o médico entrou no quarto e começou a explicar algumas coisas que não significavam nada para nós. Ele tomou as fotografias da minha mão e disse que aquilo era uma sessão transversal do cérebro de Terezinha e que a mancha branca era um tumor de um centímetro e meio no lobo frontal do hemisfério esquerdo. “O tumor está pressionando uma região chamada Área de Broca,” ele disse, “responsável pelos mecanismos físicos usados na linguagem.” Vi o rosto de Terezinha perder a cor e seu lábio inferior começar a tremer. O médico continuou: “Acreditamos que o tumor reverteu a sua afonia pressionando exatamente a área que foi danificada na sua infância.” Terezinha começou a respirar violentamente. Ela não se importava com a morte, mas não podia suportar se sentir como a hospedeira de um parasita. “Galinhas possuem a capacidade de linguagem e de memorizar faces humanas,” eu disse, “e eu nunca vi uma galinha que não conseguisse cacarejar.”

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O médico olhou no fundo dos meus olhos e disse: “Você está sob o efeito de alguma droga?” E então Terezinha gritou algo numa língua que só eu entendia e o médico se aproximou dela. Ela gritou novamente e o médico olhou para mim, desorientado, como se perguntasse: O que ela falou? “Sai daqui.” Eu disse. “Conta uma piada.” Terezinha disse aos prantos. “Conhece aquela do homem que dirige pela BR quando ele se dá conta de que tem uma galinha do lado de fora seguindo ele? E não é uma galinha normal, ela tem, tipo, quatro pernas. Ele acelera um pouco, mas a galinha ultrapassa facilmente os 110 km/h do carro. E então a galinha acelera e entra numa estrada de chão que leva a uma fazenda. O motorista segue a estrada e vê umas vinte galinhas quadrúpedes correndo ao lado de um celeiro. Um homem sai do celeiro e cumprimenta o motorista, que não leva muito tempo pra perguntar ao fazendeiro sobre as galinhas. ‘Pois é, nós tamo trabalhando com cruzamento seletivo faz uns 10 anos. Sabe, a asinha é muito apetitosa, mas muita gente prefere as coxas. E nós pensamos que se a gente conseguisse fabricar

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galinhas com quatro pernas, nós teríamos uma boa fonte de coxas. Esse ano conseguimos!’ ‘E então… como é o gosto delas?’ ‘Não sei, a gente não conseguiu pegar nenhuma ainda.’”

No enterro de Terezinha, eu me lembrei das perguntas que as minhas alucinações não permitiram que eu fizesse. E uma dessas perguntas seria: “Por que você queria ser enterrada com a almofadinha?” Tive uma visão dela sentada sobre a almofadinha num sofá que afundava a medida que o tempo passava, como se o peso da solidão e do medo de levar um soco na cara já não fosse mais suportado. A almofadinha prensada sob suas nádegas talvez tivesse se tornado um símbolo de sua espera. Mas… ela esperava pelo que? Por mim? Acho que não. Ela esperava pela coragem para fazer o que ela fez. E quando ela o fez, meu telefone tocou. Chamada a cobrar. Do outro lado da linha, uma respiração ofegante. “Quem é?” Perguntei. “Bó.” Ela respondeu. Peguei a Paçoca e atravessei os 500 quilômetros que nos separavam como se estivesse no meio de um sonho.

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Imaginei Terezinha com a agulha de crochê na mão, sentindo a almofada estropeada em baixo da bunda cheia de hematomas, esperando o marido voltar para casa para levar uma de suas surras fenomenais e silenciosas, usando apetrechos diversos e de uma violência desproporcional. Durante dez anos ela viveu essa rotina, e por isso ela não precisava de relógio para saber a hora exata em que o marido entraria pela porta, o cheiro de bebida e urina irrompendo na sala escura quando ele se encontrava ainda a duas quadras dali, um fedor tão real quanto as coisas que eu e meus amigos da fila de catatônicos víamos no lugar das coisas que nós não queríamos mais ver. E enquanto o caixão de Terezinha era empurrado para dentro do buraco de concreto, eu só conseguia pensar nos dez anos que ela passou em um silêncio tão absoluto que faria qualquer outra pessoa sofrer algum tipo de desequilíbrio mental. Talvez ela sorrisse na escuridão da sala de vez em quando ao se lembrar da fazenda do meu pai e das canas de açúcar em baixo da sua cama, que foram responsáveis por cáries do tamanho de ervilhas. Mas na minha visão o sorriso se dissipava tão rápido que mais se parecia com um tique nervoso… A tristeza que devia consumir Terezinha toda vez que ela via o quão longe estava daquilo tudo. Porque o filho da puta do marido não era dos mais brilhantes, cognitivamente falando, e por isso não

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era capaz de interpretar uma série de gestos complexos sobre memórias de infância e nem entender que a mulher que ele considerava a coisa mais repugnante do mundo sentia falta de uma época em que sua vida era muito mais do que levar cadeiradas na boca e ser chamada de coisas como enguiço, aberração e galinha cacarejeira. Incapaz de se expressar, tudo o que ela escrevera na vida foi uma mensagem de 36 caracteres nos próprios dentes que ela copiou, letra por letra, da embalagem de um moedor de café paraguaio. Observei a galinha dançando aos pés dos coveiros, enquanto eles cobriam o buraco que engoliu Terezinha com tijolo e cimento. Voltei para casa e sentei no quintal. Chupei uma cana e resolvi nunca mais ver a luz do sol. Assim, as galinhas e os sons que elas faziam não fariam mais parte da minha vida. Comecei a ouvir o canto de um galo durante a madrugada e entrei em desespero. O que um galo que canta à meia noite quer? Ou pior… o que será que ele sonha? A galinha negra continuava a me perseguir. Eu sentava no quintal e enxergava sua dança fúnebre sob a luz da lua, ciscando a terra sobre o local onde enterramos o cachorro e o corpo mutilado do marido de Terezinha, que trouxemos de Santa Catarina na caçamba da Paçoca.

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Sobre a cova do marido, um pequeno amontoado de terra e excremento onde Terezinha prometeu fazer suas necessidades até o dia de sua morte. O monte de fezes jazia lá, seco e imponente, como um símbolo de sua vingança. Olhei mais uma vez para as penas negras e reluzentes da galinha dançando a dança da morte e então abri os olhos. A mão com a pulseira de crochê estendida, segurando uma pílula. “Água, por favor.” Eu disse.

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ARMAZÉM LORENZI Francisco Falabella Rocha Henrico Nobella Lorenzi é o caçula de uma família italiana que tenta sobreviver no Brasil. É o pequeno ladrão de galinhas que conta a história de sua casa; sustentada pelo armazém de seu pai Enzo e seus pequenos furtos.


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oão Homérico olhava desconfiado. Algo não estava certo. O velho sargento aposentado encarava a galinha com ar de incredulidade. Pelas suas contas, já era a terceira vez que ele recomprava a mesma galinha naquele armazém. – Enzo, você está me enganando! – Di cosa stai parlando? – disse papai, que encarava o espelho e penteava o cabelo. Uma coisa era certa, ele só falava Italiano quando tentava enganar os clientes do armazém. O sargento João saiu da loja, mas deixou a ameaça no ar: conferiria no quintal de sua casa, caso sua galinha não estiver por lá, ele voltaria com a sua espingarda. Enzo não se alterou. Continuou penteando o cabelo e olhou indiferente para o homem que já dobrava a esquina. Foi só o homem sumir de vista para, em um só movimento, Enzo correr, gritar e agitar os braços. Com a galinha roubada em mãos, papai me passou as coordenadas. Era preciso ser rápido, mas também discreto. O bairro já desconfiava do roubo das galinhas. A minha sorte era que João Homérico era velho, gordo e arrastava a perna quando andava. De casa em casa, pisando em telhados e levando bicadas da galinha, eu avançava. Eu consegui devolver o bicho, poucos segundos antes de seu dono entrar no quintal e conferir o galinheiro. Do alto do

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abacateiro, eu observei a cena. Quando João se foi, eu peguei o seu galo cantante. – Disgustoso grasso... Grasso... Senza cuore grasso... – cochichava papai. João Homérico voltou desarmado e quis retratar-se com papai. Pelo transtorno gerado, João pagaria o dobro do preço pela galinha. Mas papai disse a ele, que enquanto ele voltava para casa, uma senhora entrou no armazém e comprou o bicho. João Homérico saiu confuso. Em breve, veria a mesma galinha à venda no armazém. Ele achava que estava ficando louco. Quando o velho sargento dobrou a esquina, eu entrei no Armazém Lorenzi com o seu galo. Não demorou e o tio Ricardo estacionou a sua lambreta em frente à porta da loja. Ele trazia consigo uma linguiça defumada que ele roubara do açougue, na noite anterior. Papai ficava preocupado. A polícia já estava na cola de Ricardo e frequentemente os oficiais passava pelo seu armazém com perguntas. E não era só pelos pequenos furtos no açougue que Ricardo era procurado. Pelo que se lembrava, a polícia estava na cola de seu irmão desde seus primeiros passos na distante e querida Itália. – Ricardo, não fica aqui dando bandeira. Vamos lá para casa, está na hora do almoço. Papai fechou o armazém e nós caminhamos até a casa. A mesa já estava posta. Meus irmãos VinArmazém Lorenzi

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cenzo e Matteo esperavam ansiosos pelo almoço. Mamãe estava na cozinha preparando a lasanha. – Vai lavar as mãos, suas pestes! – disse tia Lorena, em tom de rancor. A cinquentenária era amargurada e sempre que podia ofendia papai e seu lado da família. Enzo não entrava no jogo de tia Lorena, limitava-se a dizer que o seu caso era falta de marido. – Como é o seu nome? – ela me perguntou. – Como assim, Tia Lorena? Você sabe que eu me chamo Henrico Nobella Lorenzi. – É o que eu temia... Você é um Lorenzi! Ela era apenas Nobella; família digna e nobre. Não carregava o sobrenome que significa a escória da Itália: LO-REN-ZI. Prostitutas, traficantes, ladrões, mendigos... Deveríamos ter vergonha de carregar esse sobrenome. Desde a sua fundação, a família Lorenzi era só uma grande vergonha. Ela se inflamava com o assunto. Eu fugi do papo, enquanto ainda podia. Meu irmão Matteo apoiava o queixo no prato. Quando o almoço demorava, ele era o que mais sofria. Era tão gordo que a minha antiga blusa não cobria toda a sua barriga. Faminto, ele foi à cozinha e roubou um pedaço de pão velho. – Tudo que esse menino faz é comer. Trabalho noite e dia e não é o suficiente. Terei que arrumar

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outro trabalho só para bancar a sua gula. – disse Papai, com rancor. Ao meu lado da mesa estava o meu irmão Vincenzo; o futuro padre da família – era o que todos diziam. Enquanto esperava pela comida, ele fingia rezar. No entanto, eu o conhecia bem. Ele bolava mais um de seus planos diabólicos. Vincenzo matava gatinhos, batia nos meninos menores da rua, tocava a campainha do vizinho, mas mantinha a mesma cara de santo. Vincenzo virou coroinha apenas para paquerar as meninas que iam à missa. Já que não poderia ser rico, seria religioso. Apesar de improvável, a sua tática funciona. Ele tinha dezenas de namoradinhas escondidas pela rua. As mães diziam que ele era um bom partido. Ninguém acreditava quando eu dizia que o “Santo” Vincenzo bebia o vinho, comia hóstia escondido na igreja e que, certa vez, jogou água com sabão no chão e viu com satisfação o padre escorregar no altar. Eu conhecia bem aquele seu sorriso. A mim, ele não enganava. – Almoço! – gritou mamãe. A lasanha mal chegara à mesa e Matteo já havia tentado atacá-la. Como resposta, o gordinho levou tapas na mão de todos os membros da família. – Ninguém come antes da reza! Vincenzo chama o seu avô. – ordenou mamãe. Com aquele sorriso no rosto, o menino saiu da mesa e caminhou pela sala com satisfação. No Armazém Lorenzi

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quarto, vovô estava deitado na cama com o seu uniforme. Todos os dias, Pepe vestia o seu paletó verde-oliva e carregava a bandeira da Itália. Não importava o calor, Don Pepe di Napoli – como era conhecido, nos seus melhores dias – nunca mudava o traje. Aquele era o paletó que ele usou quando serviu na primeira guerra mundial. Pepe estava sempre pronto para o combate. Era só uma pessoa aproximar-se que ele logo se escondia atrás de sua poltrona e arremessava almofadas. Vincenzo, no entanto, sabia assustá-lo de um jeito único. Era uma das suas maldades preferidas e apesar de errado, eu deveria admitir: Vincenzo era bom no que fazia. O garoto aproveitou o cochilo do avô e rastejou pelo quarto. Escondido em baixo da cama, Vincenzo puxou o braço de Pepe que acordou assustado, gritando: Guerra! Proteggere l'Italia! Eu temia que uma dessas brincadeiras matasse o vovô. Mas o endiabrado Vincenzo se defendia: – Ele já foi para guerra, levou até tiro. Não vai ser um susto que vai matar o Don Pepe. A doença atrapalhava a sua vida e vovô pouco falava. Tinha apenas flashes de guerra. Papai dizia que a família não tinha condições financeiras para bancar o seu tratamento. Os remédios custavam o olho da cara e uma consulta médica no novo país era uma fortuna. A família não tinha condição. Mas mamãe fazia isso escondido; com o dinheiro das

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vendas das massas italianas. O assunto era tratado em sigilo. Ela colocava o medicamento na limonada suíça e vigiava para que nenhum menino bebesse do copo do avô. Don Pepe desconfiava que sua filha Natalia trabalhava para o inimigo e queria envenená-lo. Ele fazia jogo duro para beber o suco. Todo dia, o almoço era uma luta naquela casa. Sentados à mesa estavam papai Enzo, mamãe Natalia, tia Lorena, vovô Pepe, Matteo, Vincenzo, Ricardo e eu. Antes de comer, rezamos por Fabrizio, o meu irmão mais velho que servia o exército. Na sala, com a vela acesa, o retrato do jovem era tratado com uma devoção religiosa. Para a alegria de Matteo, o almoço finalmente foi servido. A lasanha era dividida com atenção. Papai ganhava o maior pedaço. Depois era dividida por ordem de tamanho. Eu era o menor e, por conseguinte, tinha o menor pedaço. Mamãe partia o seu pedaço por três e dava uma parte para cada um de seus filhos sentados à mesa. Ela era uma santa mulher. Passava horas preparando a grande lasanha e não comia um pedaço. – Pare de olhar para os meus dedos, Henrico! – Papai, como você... – Eu já lhe contei: acidente na fábrica! Ainda assim, os sete dedos permaneciam um enigma para mim. Papai não gostava nem um pouco daquele assunto. Apesar de ter três dedos a

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menos que todos os outros pais, Enzo Lorenzi fazia questão de dar uma surra bem dada. Até mais que os outros, era talvez um ponto de autoafirmação para ele. Não precisava de todos os dedos para isso. Mas mamãe concedia apenas dois tapas em cada menino, por dia. Para o azar de Enzo, eles não acumulavam. Mesmo assim, papai usava do seu direito cedo pela manhã, ele nos acordava com uma palmada de três dedos. Ele dizia que era a sua forma de motivar a gente. Quando ele gastava todos os cascudos, nós aprontávamos para valer. Ele administrava o seu poder como podia e negociava com Natalia. Papai pedia mais um tapa em cada menino, nos fins de semana. Mas, mamãe não permitia. Enzo já se preparava a reunião do armazém quando Matteo chegou com um bichinho no colo. De cara, papai disse: cachorro era proibido dentro de casa. – Ma papà, ele também é da família. Seu nome é Snutchel Nobella Lorenzi. Matteo gostava dos quadrinhos americanos e tirou de lá a inspiração para o nome: Snutchel. Tia Lorena ridicularizava a história, sorrindo, afirmava que o pequeno animal tinha tantas pulgas que não restava dúvida: ele era um Lorenzi legítimo. Ricardo defendeu o nome de sua família e uma grande discussão começou. Mamãe, vendo o impasse, resolveu a questão.

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– Essa é uma família italiana, nada de nomes americanos. O cão chamará Badin. Você pode cuidar dele, mas ele ficará aqui fora. – Ótimo, mais uma boca para alimentar... – resmungou Enzo. Tia Lorena me puxou para o seu quarto e começou a contar sobre o passado do meu pai. Ela dizia que na Itália, Enzo era ainda pior que o irmão Ricardo. Mulherengo, ladrão, bebum e jogador. Apaixonou-se pela sua irmã Natalia e foi ela quem o salvou. Antes disso, toda noite, Enzo jogava cartas e apostava alto; um dinheiro que não tinha. Segundo tia Lorena, a família Lorenzi era: alérgica a dinheiro e decência – ela ria e batia palmas dos seus próprios comentários. Quando se recompôs, concluiu que foi por causada das dívidas do carteado que meu pai perdeu os dedos. Foi o primeiro aviso. Se não pagasse o que devia, iria morrer. Enzo Lorenzi, o melhor jogador de Pôquer da bota, perdia um dedo por semana. O mesmo aconteceria comigo, caso eu continuasse a roubar as frutas dos vizinhos. Eu saí do quarto assustado, encarando os meus pequenos dedos. Seria verdade o que tia Lorena me contara? Por que ela odiava tanto os Lorenzi? Ricardo dizia que ela era apaixonada por papai na juventude. Lorena, indignada, negava o fato até a morte.

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A reunião no quarto já havia começado. Diariamente, papai Enzo discutia o que cada um conseguiria para o seu armazém. O trabalho demandava de todos da família. Mas Tia Lorena não estava nada satisfeita. A cinquentenária reclamava, fazia corpo mole e era sincera demais aos consumidores do armazém: – “Vai comprar essa fruta velha? Tenho até vergonha de vendê-la.” Apenas em uma emergência, Don Pepe ficava no comando do armazém. Vovô julgava estar em um combate e arremessava laranjas nos clientes. Ricardo era outro que não poderia ficar lá. O irmão de Enzo desviava o dinheiro, comia as frutas, falava coisas inapropriadas para as mulheres e era procurado pela polícia. Restava para mamãe Natalia todo o trabalho – do armazém e da casa. No armazém, eu pouco ficava, mas trabalhava duro rodando pelo bairro. Matteo era gordo demais para subir em árvores e, quando tentava participar, acabava quebrando as telhas dos vizinhos. Vincenzo fugia do trabalho alegando que era coroinha e seria padre, não poderia participar de furtos. Então, sobrava eu, Henrico Nobella Lorenzi, o filho caçula, para subir nas árvores e escalar os muros. Roubar galinhas era uma arte. Segundo tio Ricardo, ele nunca conheceu alguém tão talentoso quanto papai. Mas a perda dos três dedos deixou

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Enzo fora do jogo. Ricardo lamentava e contava histórias de papai na juventude. Segundo ele, Enzo perdeu os dedos por causa de um jogo de futebol. Ele era goleiro do time em um jogo combinado. Contanto, Enzo não aceitou entregar o jogo e defendeu todos os pênaltis. Por isso, ele teve os 3 dedos da mão arrancados. Um para cada ponto na tabela. Seria essa a verdadeira história? Eu já não sabia no acreditar. Naquele dia em uma das aventuras pelo bairro, um galho de árvore ficou preso na minha roupa. E após o pulo no telhado, eu vi que a calça abriu um enorme buraco. Papai não reagiu bem a notícia. – Comprar outra calça? Você sabe quanto custa uma calça nova aqui? Mama dá um ponto. Agora, volte ao trabalho… – disse papai, desesperado. Na minha casa, o guarda-roupa era coletivo. As poucas roupas eram comunitárias e respeitavam apenas a ordem de chegada. Não bastasse, o mesmo valia para as meias e cuecas. Vincenzo, meu diabólico irmão que se tornaria padre, sempre chegava primeiro e escolhia as melhores peças. Ele levava em qualidade e quantidade. Para todo o decorrer de toda uma semana, sobravam para mim: três camisas velhas, duas cuecas largas e uma meia furada. – É por isso que o comunismo falhou! – dizia Tia Lorena, intrometendo-se na conversa.

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Eu não queria ter Vincenzo como inimigo, por isso, não discutia. Já o meu irmão Matteo era um caso à parte. O gordinho, que não era aficionado a um banho, além de alargar, deixava o seu cheiro impregnado nas roupas. Não adiantava água sanitária, escova, sabão em pó... Depois de Matteo, as roupas nunca mais eram as mesmas. Naquela semana, eu tinha que tomar cuidado. Para escalar as árvores e pular muros, eu vestia uma antiga calça social que papai usava no trabalho. Era preciso atenção sobrada, um arranhão no tecido e eu já estaria perdido. Quando eu cheguei ao armazém, João Homérico olhava para o bicho acuado na gaiola: – Vai falar que o cão também é seu, senhor João? – perguntou Enzo, sorrindo. – Não é isso. Na placa estava escrito “vendo cão de raça”. Enzo, você não tem vergonha de vender um vira-lata de rua no seu armazém? – Lascia la sua maledetta grasso – em italiano, papai amaldiçoou o homem. Queria expulsá–lo, mas o sargento era o mais assíduo cliente do armazém. Matteo entrou na loja correndo. O menino, triste com o sumiço do seu amado cachorrinho, só acreditou no que o maldoso Vincenzo disse a ele quando viu o bicho na gaiola do armazém, ao lado das galinhas roubadas.

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– Papai, você está vendendo o Snutchel? – perguntou Matteo, chorando. – Sua mãe disse que o nome dele é Badin. E sim, o cão será vendido! O menino chorava copiosamente. – Meu filho, nós temos que ganhar dinheiro. Já viu o tanto que você e os seus irmãos estão comendo? Não consigo bancar... Mamãe, ao ver a tristeza do filho, foi à loja e convenceu Enzo a mudar de ideia. Badin Nobella Lorenzi voltava para casa e, agora, tinha lugar na mesa, ao lado de Matteo, que não largava o cão por nada. O seu amor pelo bicho era tão grande que ele dava, secretamente, até um pedaço de sua lasanha para ele. Eu aconselhava Matteo; caso papai descobrisse, era palmada na certa. Já conseguia vê-lo gritando: – É só o que me faltava, sustentar um vira-lata comendo lasanha! Mamãe só parava de fazer massas quando rezava. Quando lhe faltava tempo, ela cozinhava rezando. Eu, escondido, escutava tudo. Talvez por isso sua massa fosse tão boa. Havia algo divino no seu molho à bolonhesa. Natalia rezava pela melhora de Pepe e para Tia Lorena achar um marido. Pedia o retorno de seu filho Fabrizio. A prece era para as coisas melhorarem, para eu parar de roubar frutas e galinhas dos vizinhos. Rezava para

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Vincenzo virar um bom padre e para Matteo parar de comer tanto. No outro dia, eu juntava as mangas roubadas na sacola plástica quando, próximo ao armazém, um homem fardado puxou a minha orelha e me encostou na parede. Minha mão tremia. – Henrico Nobella Lorenzi, você está preso por roubar as frutas do senhor Trindade. Por sinal, as melhores mangas do bairro... – Fabrizio, mio fratello! A emoção foi tão grande que a sacola caiu no chão. Fardado com as roupas do exército, o meu irmão mais velho voltava para casa. Houve comemoração e festa. Mamãe cozinhava e agradecia ao céu. Até tia Lorena tinha um sorriso no rosto. Assim que entrou no quarto, Vovô Pepe lhe arremessou o travesseiro; desconfiava que Fabrizio fosse um inimigo disfarçado. Mas, logo depois o considerou um soldado aliado ao seu batalhão. Juntos, planejaram o ataque das almofadas e ganharam a guerra nas trincheiras do sofá da sala. Papai penteava o cabelo e pensava como que seria o futuro do seu armazém. Encarava o soldado Fabrizio, o seu primogênito, que acabara de retornar. Seria o seu salvador ou apenas mais uma boca para alimentar? A décima boca, segundo as suas contas – contando com o cão.

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O FOTÓGRAFO Fabiano dos Santos Araújo Todos têm suas vaidades. Dona Emília, mesmo em tão avançada idade, ainda mantém sua única vaidade, tirar uma foto no dia do seu aniversário.


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á muitos anos uma velha senhora, última moradora do antigo e áureo Bairro das Laranjeiras, que ficara por tantos anos esperando na frente das janelas do casarão, admitiu à família que ficava lá esperando por alguém. Havia sido um dia cansativo para Dona Emília, naquela idade, dias cansativos não eram raros. Muitos dos seus familiares se perguntavam o motivo daquela afirmação. Talvez fosse o peso dos anos, especialmente agora que o dia em que completaria mais um ano se aproximava. Entre os criados um rumor repassado por décadas ganhou força novamente, de que Dona Emília esperava na janela por seu amor da juventude, um jovem de uma sem nome que foi enxotado por seus pais semanas antes do seu casamento, diziam que ele prometeu um dia voltar. Nenhum dos criados nunca teve audácia o suficiente para repassar essa história para os descendentes de Dona Emília, o temor de que a história fosse mal recebida não valia o risco. Nos anos e anos de espera, consumia bons bocados dos dias olhando pelas janelas, esperando a visita desse alguém. Dona Emília sempre fora de família abastada e seu casório arranjado proporcionou a ela uma vida ainda melhor do que já tinha com os pais, se é que isso era de alguma forma possível. Seus pais sorriam radiantes sempre que se lembravam do O Fotógrafo

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“bom futuro” que concederam a filha. O matrimônio fora arranjado, mas empatia não é algo que se arranja. Desde cedo o marido era pouco afeito a demonstrações de carinho, ou mesmo de qualquer tipo de apreço. Ele jamais demonstrara se importar com o tempo que a esposa passava em frente às janelas vendo o mundo lá fora. O que ele via era apenas uma mulher sentada bordando ou tricotando. Dona Emília nunca precisaria trabalhar, por isso gastava seus dias a bordar, pintar, ler e sonhar, provavelmente a palavra prendada fora criada exclusivamente para ela. Com o passar dos anos faltaram paredes para os quadros pintados por ela, sempre relatavam a visão que cada uma das janelas dava para o mundo que existia além do portão. Enxovais para famílias inteiras foram bordados, até mesmo os bisnetos não precisaram encomendar os seus. Mesmo com a grande família que surgiu com o passar dos anos, faltaram pescoços e invernos para os cachecóis, troncos para os casacos, ombros para os xales e pezinhos miúdos para os sapatinhos de bebê. Mas ainda assim, com tudo isso tendo a função de ocupar sua mente, mãos e tempo, o vazio que a levava todos os dias a ficar tanto tempo de frente às janelas não era preenchido. O Fotógrafo

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Dias, meses e anos se foram levando consigo a juventude e vitalidade de Dona Emília. Um dia ela parou, mas o tempo não. As pessoas e o mundo a sua volta também não. É dito pelos mais velhos que a ordem natural das coisas consiste na simples ação do tempo, de que os mais velhos se vão para que os mais jovens tomem o seu lugar. Quantos filhos seguem e seus pais acabam ficando para trás? Pode até parecer que Dona Emília era uma pessoa desligada do mundo e que tenha ficado tão insensível quanto o marido e por isso dedicava dias e dias para os seus passatempos enquanto seus filhos eram deixados de lado. Mas isso não era verdade. Ela os amava. Assim como o casamento dela parecia uma espécie de negócio para o marido, a criação dos filhos seguia uma metodologia semelhante. Havia um batalhão de amas, pajens, tutores e mentores que cuidavam de cada um dos filhos. Da mesma forma que havia sido a criação do pai deles. Pouco tempo era permitido para que ela e os filhos ficassem juntos. Todos os filhos deveriam ser educados e preparados para serem como o pai. Dona Emília ficou parada e o tempo seguiu o seu curso, não apenas seguiu, levou um a um os que a rodeavam. Primeiro, o marido respeitado pela sociedade, respeitado apenas pela aparência que seu matriO Fotógrafo

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mônio demonstrava, depois um após o outro os filhos foram seguindo sua viagem, do mais ajuizado para o mais novo, do mais velho ao mais louco, todos eles se foram e só Dona Emília ficou. No final sobram apenas os netos, mas muitos deles foram junto com os tios e os pais. Para ocupar seus lugares chegaram os bisnetos, e mesmo com o acúmulo de décadas a espera parecia que nunca ia ter fim. Entre gerações a casa se enchia e se esvaziava. Sempre que um dos parentes chegava era bem acolhido pela velha matriarca, teto e alimento para mais um ou mais dez não faria diferença alguma. Os primeiros chegaram esperando o prêmio que logo viria com o falecimento de Dona Emília. Mas um a um os interesseiros foram perdendo a paciência ou sendo levados pela ação do tempo. Diziam que estes eram os verdadeiros herdeiros do falecido marido de Dona Emília. Os que acabaram ficando ou eram os que estavam interessados pelos estudos proporcionados naquela cidade, ou os que aguardavam que a dona sorte lhes sorrisse novamente. A única que realmente ficara pela avó era a primeira filha da primeira filha. Coincidência estranha, já que Dona Emília, também fora a primeira filha de uma primeira filha, soa meio profético, mas nada de incrível ou especial surgiu disso.

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Tantos anos passaram que ela nem mesmo tinha mais forças para ficar de olho nas janelas. Do seu quarto, onde passava a maior parte dos dias deitada em sua cama, tentava olhar por sua janela o movimento da rua. Nos últimos anos ela parecia ter criado uma tática para economizar forças para uma única atividade anual, que jamais abria mão, tirar sua foto de aniversário. – Filha eu vou precisar de sua ajuda hoje. – disse Dona Emília pela manhã. – É só me falar, que eu faço, vovó. – Hoje é o dia. Abra o guarda-roupa e me mostre o que eu tenho. A neta abriu o guarda-roupa apenas para atender o capricho da avó. Mesmo em idade avançada, conhecia muito bem as minúcias de cada um dos trajes que possuía. Já há algumas décadas nenhuma peça nova entrara pelas portas daquele quarto, mas, ainda assim, havia tantas que jamais foram usadas, que se não fosse a aparência datada, seria fácil tomá-las por recém-saídas do ateliê da modista. Com toda a paciência do mundo a neta foi passando os vestidos, mas neste dia quem estava mais apressada era a avó. – Agora pode deixar que eu termino, filha. Quando o fotógrafo chega?

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– Ele disse que ia atrasar, mas que chegaria antes do final do dia. – Obrigado por me ajudar, querida. Pode ir, eu vou ficar bem. – Se precisar de alguma coisa chame. A tarde passou, a noite chegou, mas nada do fotógrafo. Todos na casa estavam irritados com a demora. Marcel nunca se atrasara, na maioria das vezes ele chegava muito antes de Dona Emília estar pronta. Por muitas vezes seus netos foram ao quarto ver como a avó estava, mas sempre recebiam a mesma resposta em troca: – Não se preocupem meus filhos hoje é o dia, vai dar tudo certo no final. Bem depois das dez, eis que alguém puxa a corda da campainha. Mas por quem os sinos dobravam àquela hora? Era um jovem fotógrafo que esperava, mas não era Marcel, era outro homem, estava bem-vestido para aquela noite fria, mas tinha aparência um tanto antiquada pela idade que aparentava ter. O jovem tinha algo de familiar em seu olhar, os netos mais velhos foram os únicos que tiveram essa sensação, os mais novos o acharam estranho e nada mais.

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Estranho ou familiar era um fotógrafo e por coincidência usava o mesmo velho modelo de câmera escura que Marcel usava todos os anos. Assim que o permitiram que entrasse ele começou a se explicar: – Me perdoem pelo horário inconveniente. Me chamo Hector e neste telegrama que recebi há menos de dez dias, Marcel pede que eu estivesse hoje na casa de Dona Emília, para seu retrato de aniversário. Eu estava do outro lado do país e apenas por sorte consegui os horários exatos nos trens até a capital para atender o pedido Todos que estavam no salão examinaram o telegrama, que era realmente verdadeiro, pois tinha tanto o endereço de onde o homem dizia ter vindo, quanto o endereço de Marcel. Já estava tarde e não havia tempo a perder com formalidades, logo chegaria o início do próximo dia. Pediram a Hector que subisse as escadas, ele foi acompanhado por uma fila de netos e bisnetos de Emília, alguns o ajudando com o equipamento. Ao apresentarem o novo fotógrafo à avó todos a deixaram, pois ela gostava de privacidade para tirar a sua fotografia. Fosse ele um homem perigoso, estava muito bem preparado para enganá-los. Em poucos minutos Hector desceu com todo o seu pesado aparato fotográfico e disse que pela manhã entregaria a foto.

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Subiram para prepará-la para dormir, mas ela já estava dormindo. Conseguira retirar o vestido sozinha e o deixara sobre a cadeira que sempre ficava de frente para a janela.

Pela manhã, um dos criados levou o seu primeiro remédio para que ela se preparasse para o desjejum. Quase todos os dias ela estava acordada aguardando que alguém chegasse com o medicamento. Ela nunca se irritara com a espera pois sempre tinha a visão de parte da rua para lhe distrair. Hoje ela estava dormindo. A deixaram assim por mais algum tempo, ela tinha uma bela aparência em seu rosto naquela manhã, um pouco mais de descanso não poderia fazer mal. Trinta minutos mais tarde retornaram para vê-la e ela parecia ainda melhor do que antes, mas desta vez não poderiam deixar que dormisse mais, o medicamento tinha um horário a ser seguido. Por mais que os empregos tentassem, ela permanecia dormindo com a mesma expressão de serenidade e felicidade. Logo que a neta mais velha entrou no quarto pediu que a deixassem sozinha. Sem ter obtido êxito, buscou coragem dentro de si. Viu o vestido na cadeira e de teve a impres-

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são de que alguém o usava e estava sentada a observando, era apenas uma bobagem, ela pensou. Tentou tomar sua pulsação. Sem sinais, mas ainda estava quente. Morrera dormindo. Debaixo dos cobertores, estava usando apenas a combinação que ela a ajudara vestir no dia anterior e em suas mãos estava uma fotografia. Na imagem estava dona Emília na juventude, com um homem. No fundo de uma das gavetas do criado ao lado da cama, ficava um dos mais preciosos tesouros de dona Emília, seu álbum de fotografias. A neta o pegou para guardar a fotografia da avó antes de avisar a todos o que havia ocorrido. Enquanto passava as páginas uma fotografia caiu, a foto estava amarelada pelos anos. Ela apanhou a foto e nela estava Dona Emília sentada numa poltrona e, de pé ao seu lado, estava um homem, uma forma comum de posar para fotografias naquela época. A imagem amarelada encobria alguns detalhes do rosto da avó, a neta pegou a outra foto nas mãos da avó para ver melhor qual era a sua aparência na juventude. Com exceção do vestido de Dona Emília, o mesmo que ela usara na noite anterior, as fotografias eram idênticas. E nas duas fotos o homem de pé ao lado de sua avó era Hector, o fotógrafo que viera na noite anterior. No verso das duas fotogra-

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fias, com a mesma caligrafia, apenas com datas diferentes, estava a assinatura de Hector. Abriram a porta, era o seu irmão: – Então hoje é dia... – disse ele encostando a porta. – É hoje... Ela descansou finalmente, meu irmão. – Mas a pessoa que ela esperava, não veio... Isso é triste, alguém tão gentil não conseguiu ter seu maior desejo realizado antes de partir. Ela olhou para a cadeira na frente da janela, lá estava o vestido na mesma posição, mas agora uma bela mulher o preenchia, e no instante que ela foi visível, sorriu-lhe transbordando de alegria. – Eu acho que a vovó conseguiu. Vamos avisar aos outros, vamos ter um dia cheio pela frente.

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A CASA-ARCA Everson Lira Num dilúvio diferente, um Noé contemporâneo luta pra salvar-se de um impensável apocalipse.


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chuva jamais acabaria! A eternidade assumia um corpo líquido. Como se todas as hordas e hostes celestiais regurgitassem em uníssona cuspideira, grossa e viscosa feito baba. A água atolava o mundo lá fora, de onde um cheiro putre feito bolor e fezes avultava de todas as bandas. Entupia-me as ventas um odor horrendo, enxofre e amoníaco ardiam, lacrimejantes. Tudo o que não era minha casa, afogava-se. Vacas, galinhas, gatos, cobras, cachorros, carneiros, potros, homens... Seguiam boiando inchados, desciam lentos em procissão hedionda, num funeral sem cortejo no tudo que era leito de rio e que mais semelhava mar. Mar sem peixes, crescia morto em forma de foice a matar e engordar. Ameaçador, sem hesitar ceifava a vida com suas furiosas lâminas. A baba-cuspe incessante, apertava o cerco à casinha solitária. Dentro, eu, as paredes, a mobília e os sapos. Sapos mil! Saltitantes, verdes e inverossímeis a coaxar uns sobre os outros à altura de meus joelhos. Morreria afogado em sapos e não na baba? Desespero.

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Da ilha de minha casa contemplava um degenerado oceano cor de medo. Sem planos de salvação entre paredes, teto e um chão de sapos. Um lagarto saltou de um canto em meio a saparada. Comida! De um salto acertei-o. Queimei uma cadeira em cima da mesa, assei-o, comi. Por quanto tempo esta carne manteria esta outra? O frio repartia os lábios em sangrentas fendas. Estertorava nas vestes molhadas. Esquentei as mãos no miúdo fogo do assado, animando as chamas com algumas lascas de madeira... Madeira! Sim! Súbito, acerta-me um punhal de luz e, como que clarividência, vi; madeira! A madeira de minha casa me salvaria! De minha casa, construiria minha Arca! Dela minha nau triunfaria. Singraria imponente pelas águas pestilentas e sem fim. Avançaria épica por sobre todos os mares num arrojo bestial vomitando sobre as vagas de excremento. Flutuaria heroica sobre o indescritível plasma do poço de lodo. Levantaria as velas de pele de sapo envergadas por todas as tempestades, arremetendo-nos do apocalipse babado. E quando então, do convés de minha nave, ao longe observasse o céu de um horizonte mudando, de plúmbeo ao ouro do astro em chamas que insistiria em vingar da camada cerúlea, haveria de alçar voo o pássaro etéreo que volveria sem tardar, com a ramagem ao vinco do bico.

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Eis que, feito Noé em alva túnica, aportaria a Casa-Arca no cais de bênçãos da Terra-Nova. Terra nova e imaculada! Sem nódoas! Pura e virgem. Verteria aos seus filhos o verde leite das matas e de sua proficuidade, os seios fartos expurgariam toda a imundície. O nefasto pereceria ao seu alvorecer e o caos arderia ante a justiça de suas entranhas. Nela, a vida derramada de suas vigorosas reentrâncias, inundaria vales e planícies, mares e ilhas saciando-se. Extirpando e destituindo a morte em seu manto vivo. Águas puras escorreriam em abundância de seu ventre penetrando as frestas e aplacando a sede. Dos céus em fogo, límpida e redimida, dissimulando a guerra, a paz desceria acariciada pelas mãos dos Deuses, rejubilando. Consumar-se-ia, ao princípio do terceiro milênio, a aventura única do Noé contemporâneo, não fosse um despertar. Acordei e vi que principiava a chuva.

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A FESTA Fábio Guastaferro "Festa estranha, com gente esquisita Eu não tô legal, não aguento mais birita" Renato Russo / Legião Urbana.


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istórias constrangedoras de bêbados todo mundo tem uma para contar. Eu mesmo já desmaiei de tanto beber, vomitei na garota pela qual passei a noite inteira bebendo para ter coragem de me aproximar. Entrei em baile funk e arrumei briga com os manos, tudo porque tinha bebido umas a mais. Mas acho que o pior porre foi quando fui como convidado, ou melhor, acompanhante de convidado numa festa importante do serviço da minha mulher. Era o aniversário do Seu Eladio, dono do colégio. Um senhor espanhol que veio pequeno morar no Brasil. Aqui ele fez a vida ao lado de sua esposa pedagoga. Construíram um grande colégio de renome com cinco unidades espalhadas pela cidade. Sendo um dos colégios particulares mais bem avaliados pela população e pelo Ministério da Educação. O Velhinho tem grana e, claro, muitos puxa sacos. Em seu septuagésimo quinto ano de vida, ele resolveu fazer uma festa em um condomínio fechado no qual ele tem uma grande casa. Usou uma parte do clube do condomínio para receber seus convidados. Na sua casa, ele hospedou diversos parentes e amigos. Minha mulher é pedagoga em uma das unidades do colégio e conhece o Seu Eladio desde que começou a estudar pedagogia. Duas de suas tias também foram professoras no colégio do velho e

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com o tempo se tornaram amigas do patrão. Minha mulher conhece o homem, mas sem grandes intimidades, diferente de suas tias. Por causa delas, além de sermos convidados para a festa ficamos hospedados em sua própria casa. Eu fui praticamente de penetra. Só fui para acompanhar a minha mulher. Para que ela não fosse sozinha e porque a boca livre ia ser de primeira qualidade. Direto tem festas do colégio, mas minha mulher não vai a todas e eu em quase nenhuma. Logo, eu conhecia pouquíssimas pessoas. Eram mais as tias da minha mulher e duas amigas que estavam com seus respectivos maridos. Como estávamos na casa do patrão essas “amigas” não estavam muito próximas de nós. Antes de irmos, minha mulher recomendou parcimônia na bebida, educação com a comida, e principalmente com o excesso de intimidade com quem eu não conheço. Não que eu seja um louco antissocial, que enche a cara, enche a pança e sai arrotando e peidando enquanto falo mal dos outros. Sou até um homem bem discreto e educado e foi assim que me comportei a maior parte do tempo naquela festa. Ao chegarmos, fomos alojados em um quarto com mais três pessoas. Eu, minha mulher, Tia Wilma e mais um casal, parentes do Seu Eladio. A casa ficava quase a dois quilômetros do clube onde

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seria a recepção do evento, então decidimos ir de carro Ao chegarmos ao clube, me sentei com Tia Wilma enquanto minha mulher fazia uma espécie de networking com outros funcionários do colégio. Ao meu entender, os que estavam na casa eram o pessoal da família e amigos mais próximos, o pessoal do colégio foi convidado somente para o evento no salão do clube. Na verdade não era bem um salão, era um grande espaço aberto com bufê e garçons servindo churrascos e bebidas. Dona Wilma estava muito à vontade, cumprimentado todo mundo e falando para Deus e o mundo que estava na casa do chefe, elogiando o homem e dizendo que o conhecia há muitos e muitos anos. Todos que se aproximavam ela puxava conversa, abraçava e beijava. Tia Wilma é muito expansiva e estava muito feliz, querendo agradar todo mundo, inclusive a mim que estava ali, de companhia permanente. Sempre que passava um garçom ela pegava dois pedaços de carne, um para ela e outro para mim. E eu, claro, pegava um para mim também. Tia Wilma queria que eu comesse de tudo, experimentasse tudo. Acho que, indiretamente, ela queria se exibir mostrando como era farta a festa do seu amigo. Podia até ouvi-la dizendo:

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- “Me agradeça por estar aqui, e aproveite, pois não vou esquecer que você está aqui por minha causa”. No início essa situação estava me incomodando um pouco. Não tinha ninguém para conversar, ficava apenas concordando com os elogios e exibicionismos da tia Wilma e, claro, olhando uma ou outra mulher mais arrumada que por ali passava. Tudo na maior discrição. Mas o que eu mais fazia era comer. Comer e beber. Eles estavam servindo bebidas destiladas, mas eu havia prometido me comportar e foquei somente na comida, tomando cerveja apenas para empurrar toda aquela carne goela abaixo. A festa já caminhava para o seu final e eu já satisfeito aguardava os doces, mas ainda não havia parado de comer. Confesso que mastiguei tanto este dia que fiquei com o maxilar doendo. Já me sentia um pouco alto também, pois já havia bebido algumas garrafas de cerveja. Estava ficando entediado de ficar ali com a tia Wilma e pensava no que fazer quando voltasse para a casa do coroa, talvez um cochilo na rede ou um mergulho na piscina. Piscina não! Estava com o estômago cheio e poderia ter uma convulsão. Daria trabalho. Foi quando em meio a devaneios que escutei alguns acordes de violão. Apurei os ouvidos e reconheci um trecho de uma das minhas músicas favoritas da banda The Doors. Neste momento eu

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estava solitário à mesa, já que tia Wilma estava ocupada demais contando vantagens para outro coitado qualquer. Resolvi então me aproximar daquela roda de violão. Alguns arranhavam a letra, e eu ainda tímido sussurrava enquanto prestava atenção nos acordes mal feitos do violeiro de plantão. Com o tempo e o violão passando de mão em mão, aos poucos eu fui soltando a voz. O repertório do pessoal foi me deixando cada vez mais empolgado e logo eu estava enturmado, cantando a plenos pulmões alguma música do Rappa. Já segurando um copo de whisky na mão. Minha mulher olhou de lado, e com cara de brava balançou negativamente a cabeça para um dos rapazes que teimava em manter meu copo cheio. A verdade é que canto bem. Tenho facilidade para decorar as letras e não tenho vergonha de soltar a voz. Principalmente quando estou com umas na cabeça. O pessoal me acolheu e logo eu estava dominando a roda. Sugerindo música e puxando o coro. Nesta hora eu esqueci a comida. Aliás, comida ali só atrapalharia. Cantar de boca cheia é horrível, além de parecer que estou morto de fome. Mas hora nenhuma recusei a garrafa de whisky que sempre estava por ali a encher os copos mais vazios.

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Já tinha bebido um tanto bom quando minha mulher me puxou pelo braço e anunciou a nossa partida, meio contra a minha vontade. Eu estava me divertindo, mas segundo ela, eu já estava passando da conta. Cantava alto demais, abraçava todo mundo, inclusive a mulher dos outros e era um dos mais bêbados numa roda de bêbados. Ela estava exagerando, claro, mas para não contrariála, resolvi ir embora. Realmente eu estava bem tonto. Percebi isso na hora que fui dirigir até a casa do Seu Eladio. Raramente fico ruim a ponto de não conseguir dirigir. Este dia eu não conseguia nem enfiar a chave no contato para dar a partida. A minha mulher, que não sabe dirigir teve que levar o carro. Todos com medo, me xingavam. Sugeri deixar o carro e irmos a pé, mas chegamos no momento da festa que tudo que acontece de ruim é culpa minha. Quando saí do carro que o álcool bateu com força. Sentia-me tão tonto que mal conseguia ficar em pé. Um calor enlouquecedor. Comecei a tirar a roupa dizendo que entraria na piscina, isso ajudaria a baixar o fogo. A minha mulher, me xingando disfarçadamente, já que a casa estava lotada, disse que era para eu tomar um banho frio para esfriar a cabeça. Nada de entrar na piscina, tonto como eu estava era perigoso até afogar. Foi aí que tive a brilhante ideia de me deitar na rede antes de ir para o banho.

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Peguei meu celular, coloquei um metal progressivo e fui para rede, tentar relaxar o máximo possível. Porém, o sentimento do mundo rodando estava forte demais. A sensação era de que minha cabeça pesava uma tonelada e girava a quilômetros por hora. Estava balançando pouco, mas parecia estar naqueles brinquedos ultrarradicais de parques de diversões. Não demorou e o vômito veio. Como uma erupção, o bolo de comida me subiu pelo esôfago. Eu ainda deitado na rede, bravamente consegui lutar com a náusea. Levantei, com muito custo, e fui à busca de um banheiro. Minha boca salivava sal puro e eu sabia que não conseguiria segurar mais uma investida do meu organismo que teimava em expulsar todas aquelas asinhas assadas que eu tinha devorado mais cedo. Desesperado, entrei no banheiro mais próximo, era o banheiro social que ficava na sala, onde estava ocorrendo a recepção. Nesta hora a casa não estava tão cheia, mas ainda havia algumas pessoas por ali. Por sorte o banheiro estava vazio. Eu não conseguiria chegar ao banheiro do andar de cima, corria sério risco de vomitar no chão. Minha mulher havia implorado para que eu não a fizesse passar vergonha, e, com certeza, ela passaria vendo o marido lavar o chão de tábua corrida do seu chefe.

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Mal cheguei à frente do vaso e liberei a fúria que estava enclausurada entre a minha garganta e o meu estômago. Foi um jato tão forte de vômito que bateu na privada e voou para todo o lado, inclusive para fora do vaso. Na segunda golfada para expelir mais alguns litros de comida do estômago senti uma poderosa pontada nas tripas. O intestino já havia avisado que já não estava nada bem lá na rede. No caminho para o banheiro eu já tinha sentido aquelas contrações típicas que prenunciam furiosas caganeiras, mas que bravamente controlei com um peidinho. Agora elas tinham voltado e com muito mais força, já que eu forçava todo o corpo para vomitar. Não quis arriscar um peido e resolvi tirar a roupa e me sentar no vaso já que a contração veio mais forte, já avisando que alguma coisa sairia violentamente dali. Segurando o vômito me sentei na privada toda suja, não tive tempo de limpar. Ainda bem que fiz isso, pois o que achei que seria um simples peidinho era, na verdade, uma poderosa diarreia que fez minhas pregas vibrarem com a intensidade do expurgo. O vômito já estava na minha boca e para não vomitar no chão, desesperado levantei e me virei para vomitar no vaso. Vomitar não é simples para mim. Acho que não é simples para ninguém. Sempre que vomito o meu corpo faz muita força para expulsar a comida

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já meio digerida pela boca. No meu caso ali, estava parcialmente mastigada. Com a força que fiz, acabei borrifando de bosta os tradicionais azulejos espanhóis atrás de mim. E claro, sujando a minha roupa e as minhas pernas. Desesperado voltei a minha bunda na direção do vaso para terminar de cagar no lugar certo e comecei a vomitar no chão mesmo. Estava vomitando e cagando ao mesmo tempo e descontroladamente. Nestes momentos de crise extrema o meu raciocínio é muito rápido, e neste momento raciocinei que seria melhor vomitar no chão e cagar no vaso do que cagar pelo banheiro inteiro e vomitar no vaso. Eu devo ter vomitado toda a comida que comi naquele dia e a que ainda estava por lá de uma semana atrás. Por fim já não aguentava mais fazer força tanto para cima quanto para baixo e sentia o corpo mole e uma leve vontade de desmaiar. Foi quando escutei alguém batendo na porta e perguntando com um forte sotaque estrangeiro: “Todo Bien aí?? Estás Bien?? Se siente mal?” Era o Seu Eladio, dono da casa. Provavelmente o cheiro terrível que estava dentro daquele banheiro havia escapulido pela soleira da porta e pelo buraco da fechadura e já infestara toda a sala, provavelmente toda a casa. Eu escutava as pessoas comentando que estava no banheiro e dizendo que estava muito mal.

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O problema não era só o cheiro. Imagina o que aquelas pobres pessoas tinham escutado. Eu peidava em alturas alarmantes, arrotando vômitos. Barulho de líquidos grossos batendo no chão e de descargas incessantes. Quem estava do lado de fora tinha a impressão que havia umas cinco pessoas dentro do banheiro. Não demorou para a minha mulher vir bater à porta me chamando pelo nome. Meio sem graça respondi dizendo que sim, era eu que estava ali dentro. E sim, estava bem, que ninguém precisava se preocupar. Ela respondeu que bom que eu estava bem, pois todos do lado de fora estavam mal, e que eu deveria desocupar logo o banheiro que alguns queriam usar pois já estavam passando mal com tamanho fudum impregnado na casa. Respondi lá de dentro, meio sem graça. Que havia passado mal, mas que não poderia liberar o banheiro. Solicitei-a, gentilmente que me ajudasse a sair daquela situação, me arranjando pelo menos um pano de chão e uma toalha de banho. Recebi um sonoro “Se vira” como resposta, seguido de passos se distanciando. Depois de eliminar toda a comida e a bebida ingerida naquele dia e provavelmente nos últimos cinco dias, fui dar uma avaliada na situação. Eu tinha cagado na parede e vomitado muito no chão. O vaso estava sujo de bosta e de vômito até em cima da caixa da descarga. Provavelmente foi a

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hora que me virei para cagar no vaso. Virei-me cagando. Caguei no chão, no vidro do box e no tapete da entrada. Eu tinha cagado na minha cueca e na bermuda. A única peça de roupa que estava mais ou menos limpa era a minha camiseta, tinha alguns respingos de vômito. Ponderei as possibilidades: Eu poderia ficar ali até todos irem embora. Provavelmente ficaria preso dentro daquele cubículo do inferno por umas duas ou três horas. Assim eu sairia pelado mesmo, pegava uma roupa e depois lavava o banheiro. O problema é que toda hora alguém batia à porta pedindo para abrir oferecendo ajuda. Outra possibilidade era limpar o banheiro com o que eu tinha em mãos. Limpar para que desse pelo menos para eu abrir a porta, porque eu duvido que alguém fosse entrar ali nos próximos dias. Eu tinha uma cueca muito suja, uma bermuda suja, uma camiseta meio limpa e uma toalha de rosto limpa. Decidi que com aquilo eu daria um grau para que, pelo menos, pudesse sair. A primeira coisa que fiz foi tirar toda a roupa e tomar um banho. Até para me revigorar. Logo depois passei bastante sabonete no bigode e fui limpar a bosta na parede e o vômito no chão. Para isso usei a cueca já ferrada. À medida que ela ia encharcando de dejetos eu ia lavando ela na pia do banheiro. Que logo ficou entupida com os pedaços de comida que eu vomitei. Depois disso passei a

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mastigar bem mais os alimentos e a comer devagar. Tinha até pedaços de ossos. Se não fosse eu que estivesse limpando o meu próprio vômito duvidaria que eu tivesse comido osso. Como a pia entupiu logo, passei a usar o vaso sanitário para lavar a cueca que eu usava para limpar toda a sujeira do banheiro. O que deu muito trabalho foi a bosta no azulejo. Quando passei a cueca molhada a bosta se espalhou ainda mais, entrando nas frestas entre os azulejos. Logo tive ânsia novamente e vomitei mais um pouco, desta vez, de forma mais moderada, já que eu não tinha nada no estômago para pôr para fora. Tive que sacrificar a cara toalha do Seu Eladio para tirar a bosta do vidro do box. E assim, lavando cueca e toalha no vaso sanitário, eu limpei todo o banheiro. Com toda essa atividade me curei do fogo que sentia quando cheguei e a consciência me pesou severamente. Quando finalmente abri a porta daquele fatídico banheiro, ainda estava lá Seu Eladio, sentado numa cadeira ao lado, esperando. Segundo ele, ficou muito preocupado já que ninguém nunca tinha passado mal na casa dele, e ele já cogitava a ideia de chamar o corpo de bombeiros. Ainda bem que não o fez, a vergonha seria maior ainda. Tia Wilma perguntou se eu me sentia bem e discretamente me pediu para mais tarde, quando eu melhorasse, limpar o banheiro, pois o mesmo

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estava com um cheiro terrível. Concordei dizendo que ele estava muito pior do que aparentava, mas eu tinha dado um jeitinho. Minha mulher ficou sem falar comigo nas duas semanas seguintes, dizendo que eu faço de tudo para ela passar vergonha. Que naquele dia eu tinha passado dos limites. Já não bastava ficar gritando na festa como um louco, eu tinha que cagar o banheiro todo do chefe dela e estragar a festa com um fedor terrível. Eu deveria ter ido pelo menos no banheiro de cima. No seu Septuagésimo sexto aniversário Seu Eladio me convidou pessoalmente. Naquele mesmo dia eu contei a ele tudo que passei, o tanto que comi, o tanto que bebi, o tanto que vomitei e o tanto que caguei. No final como me virei. Ele contou suas peripécias também, dizendo que já passou por situações semelhantes. Com essa troca de experiências ficamos amigos, estive outras vezes na casa do Seu Eladio, mas nunca mais caguei em seu banheiro.

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ARTE Daniel Cerato Germann Homem expressa sua obsessão pelo liso cortando todos os pelos de uma cabeça humana. Ele é um pai de família amoroso obrigado a esconder o que considera sua arte.


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lâmina tensionava a pele em sua passagem delicada, produzindo um ruído viscoso na remoção da espuma e dos pelos. O cabo amarelado dançava ao compasso da mão pelas curvas do rosto. Os olhos buscavam as feridas, os nódulos, as imperfeições, e planejavam o caminho ótimo para um corte sem vestígios: cada pessoa carrega no corpo uma história, que deve ser respeitada para um resultado perfeito. Descansou a navalha e admirou sua arte. O rosto que lhe emprestara a tez resplandecia agora macio e imberbe. Mantinha uma indiferença desconcertante; uma pena que não pudesse esculpir também expressões. Seria lindo se pudesse ditar sensações e sentimentos, e petrificar um instante de gozo – o júbilo da conquista, a alegria do primeiro filho – para só depois arrematar o exterior. Ou quem sabe a humilhação do engodo, as lágrimas da desilusão, pois na dor também existe beleza. Mas chega de devaneios, o artista trabalha a pedra que tem. Pincelou magistralmente uma dose de espuma nas sobrancelhas do rapaz. Operou, a seguir, uma cirurgia precisa: raspou-as todas e nada mais. Fez um favor àquele moço anulando o olhar de cólera que ele trazia consigo, pois nem toda raiva aparente reflete uma alma intranquila. Isso havia aprendido com Mauro, grande amigo, irmão verdadeiro. Mauro tinha aquele olhar.

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Matavam aulas juntos pra ir namorar as enfermeiras no Campus Saúde. Bons tempos aqueles da faculdade. Foi nessas andanças que acabou num laboratório de anatomia, acompanhado de uma moreninha danada que instigava safadezas sobre as mesas de inox. Foi lá que viu Adão. Nunca soube seu nome verdadeiro, mas julgou um apelido apropriado para aquele que fora o primeiro ser humano a lhe chamar atenção para a humanidade. Os olhos perdidos, fitando a eternidade, os lábios entreabertos, buscando um sussurro, o semblante suave, liberto das preocupações. Lindo. Poético. Apaixonou-se perdidamente, tanto quanto um homem heterossexual poderia apaixonar-se por outro. Adão representava a essência humana, o vulto sincero por detrás da máscara social, espetacularmente exposto por não possuir um único pelo no corpo. Tudo o que havia para ser visto estava ali. Assim nascia sua obsessão: a busca pela essência de Adão. Assim nascia sua arte. Esfregou os restos no avental e seguiu a empreitada. O cabelo foi sumindo da nuca até o topo da cabeça, depois a franja, uma careca perfeita. Faltava apenas o contorno das orelhas, um trabalho cuidadoso para que não machucasse a pele. Um mísero corte, um arranhão, e a obra pereceria antes do tempo. O sangue é vida, é jovialidade, energia. Não se pode deixar a vivacidade escapar, pelo contrário, devemos aprisioná-la e abrilhantá-

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la. Pôs as mãos na cintura e apanhou uma gota de suor que lhe corria a testa. Deus, como era bonita a criação quando admirada em sua forma limpa e plena, verdadeira; alegrava-o poder ser ele o instrumento dessa transformação. Seria essa sua obra-prima? Precisava agora da tranquilidade celestial para concluir. Inspirou, expirou, devagar, sempre. Com uma tesoura, cortou os diminutos pelos que cresciam dentro do ouvido esquerdo, respeitando as dobras de pele em incursões progressivas, corte sobre corte, até que mais nada fosse percebido. Seguiu-se o ouvido direito, depois as narinas; com muito cuidado, os pelos desapareciam. Por fim, deu cabo dos cílios: firmou o ângulo da mão numa postura estudada e foi contornando a curvatura dos olhos, num progresso pausado, girando o pulso a cada avanço. Estava terminado. Batidas na porta. Sobe a escada apressado, pulando de dois em dois. – O-ii! – Oi, meu anjinho. Veio ver o papai? – Uhun! – concordou. – O papai tá terminando, tá? Já tá indo brincar com a Juju, tá? Quer botar o vídeo da galinha? A menina assentiu fervorosamente. – Então dá beijo aqui. Huun, que beijo bom! Vai, vai indo que eu já vou lá!

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As passadas perdem-se no fundo do corredor. Voltando ao porão, dá uma última olhada em sua obra antes de abrigá-la dos olhares censuradores. O rosto perfeitamente liso, como todos deveriam ser, exultando os traços de vida esculpidos pelo tempo, agora oferecidos em sua máxima apresentação. Abaixo dele, o suporte metálico respingado de vermelho-sangue e adornado pelos tendões cauterizados que pendiam como tentáculos. O corpo esquartejado ao fundo completava a paisagem perfeita, metáfora sábia de que o inútil e o feio devem ser destruídos e o belo, sobressaltado. A arte nem sempre é compreendida.

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A MATANÇA DO PORCO Renato K. Silva O conto a seguir é um texto híbrido que mistura ficção e autobiografia. Fui verosímil em alguns casos e artificioso em outros... enfim, é uma narrativa que tenciona os limites afetivos entre os bichos, sejam eles bípedes ou não.


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odas às quintas-feiras, no início da noite, juntavam-se aproximadamente umas vinte pessoas para acompanhar a matança do porco. A ação ocorria na casa de número 323, da rua 17, aqui na Cohab. Íamos juntos, meus amigos e eu, acompanhar a matança do porco após a indefectível pelada do fim da tarde. Acredito que éramos atraídos pela excepcionalidade do evento. Morávamos entre as ruas 17 e 18. Mesmo não querendo presenciar o martírio do animal por mãos humanas, éramos obrigados a ouvir de longe o som histriônico do porco, no primeiro momento, para não ir à faca; no segundo momento, na agonia do esvair-se em seu próprio sangue. Então, se era para ouvir e não ver o sofrimento do suíno, mais vale presenciar o triste espetáculo com som e imagem. Além do mais, para nós meninos da periferia habituados com as inúmeras faces da desgraça humana, a matança do porco servia a propósitos de consolidação de gênero e do espírito gregário, pois estávamos virando “homens” e esta espécie, como nos ensinaram, não abandona o grupo. Por volta das 19h chegava Pinininho com mais dois homens que nunca sabíamos ao certo seus nomes porque sempre alternavam-se, não estavam fixos na empreitada como o primeiro. Pinininho

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chegava com uma corda escura, igualzinha à da roldana da cacimba de d. Nair, lá da rua 21, e duas peixeiras embainhadas nos cós da bermuda. O pai de Tatá, um menino que sempre queria andar conosco mas não deixávamos porque era bem mais novo e seu pai era comerciante e filho de comerciante é cheio de frescura, sr. Adelson do Fiteiro, é que sedia o quintal de sua casa para a matança do porco. Era um quintal enorme, havia uma frondosa mangueira que dava sombra e manga o ano inteiro, sobre ela um pequeno abrigo e uma calha feita com aqueles tonéis azuis de produto químico cortado ao meio com a parte côncava virada para cima. Nesta calha jogavam a lavagem para os porcos. Haviam três pontos de coleta de lavagem no bairro. O primeiro na rua 24; o segundo na 21 e o último na rua 8. Talvez por isso os porcos eram sevados de maneira muito rápida. A rotatividade de suínos no quintal da casa de sr. Adelson era grande. A coisa parecia inacreditável, era Pinininho chegar ao quintal: os porcos entravam em pânico. Trocavam a tradicional onomatopeia: oinc, oinc! por urros inenarráveis. Era um som cruciante, oxítono cuja desinência era como o som de faca sendo amolada em pedra sabão. Pinininho puxava a doze polegadas que levava consigo do lado direito da bermuda e colocava-a

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sobre a mesa. Com a corda escura em punho, ele esperava os dois homens controlarem o porco que seria abatido. Os demais estavam trancafiados. O pai-do-chiqueiro era o que mais fazia barulho, parecia não concordar com a covardia que estavam fazendo com um dos seus. Após os dois homens mobilizarem o porco, Pinininho vinha por trás do animal, com uma das pontas da corda já amarrada sobre um forte galho da mangueira, e atava as duas patas traseiras do porco com um nó volta do fiel. Em seguida suspendia-se o animal que ficava debatendo-se no ar preso com as duas patas traseiras na mangueira. Neste instante, os gritos do porco poderiam ser ouvidos em uma propagação semelhante à de uma pedra ao ricochetear em espelho d’água, formando sucessivos círculos que aumentam de tamanho na relação: tempo-espaço. Antes dos homens concentrarem-se exclusivamente no ritual do abate, eles deixavam uma lata grande com água sobre duas pedras com estacas de madeira por baixo. Ateavam fogo e esperavam a água ferver. A duração da fervura era o tempo suficiente para matar o animal. Com a água fervendo, eles jogavam sobre o cadáver do bicho no intuito de lavar a pele das impurezas do chiqueiro. A doze polegadas de Pinininho era desembainhada.

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Os dois homens seguravam as patas dianteiras do porco que, neste momento, escumava tal sabão em pó em contato com água clorada. Antes, eles punham uma bacia de alumínio sob o corpo irrequieto do suíno. Pinininho mirava a jugular do animal e desferia o golpe de cima para baixo segurando-lhe a orelha direita para que a cabeça não escapasse à lancetada. Quando o golpe não acertava o destino desejado, Pinininho dizia para plateia, em tom de admoestação: “Tem alguém aí com pena do bicho, por isso tá ruim de morrer”. Uma vez acertado o golpe, de imediato, os dois assistentes de Pinininho suspendiam a bacia de alumínio para aparar o sangue quente que escorria do animal. O sangue era vendido para sr. Elias da Granja que o revendia fresco ainda naquela noite. Com o sangue, as mulheres do bairro preparavam o chouriço, o sarapatel e o sangue à vinagrete. Antes de morrer, o corpo do animal já havia sido loteado. As partes já tinham dono. Alguns iam buscar na hora, os demais, recebiam em suas residências as frações correspondentes. Lá em casa e na casa de minha avô materna não comia-se porco. Não por nenhum tabu religioso mas porque minha avô e minha mãe achavam suspeitas as condições higiênicas dos porcos abatidos. A Matança do Porco

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Após Pinininho sair junto com os outros dois homens carregando, os três, as partes recémdecompostas do corpo do suíno, pairava um silêncio de luto na rua 17. Os outros porcos calavam-se, a rua quedava-se muda e até a mangueira sossegava o farfalhar de suas folhas. Parece que toda a vila sentia o sumiço do animal. Parecia que seus gritos até nos estertores continuava a ecoar dentro de cada um de nós. Um grito de morte anunciada é o mais difícil de esquecer: câmara de ecos a ressoar na memória. A infância pode guardar sons inenarráveis que gretam-se nas paredes de outrora e ecoa no presente como se fossem um diapasão metafísico e violento. Naquele tempo, os porcos da rua 17 morriam com uma tenacidade que é sinônimo de amor à existência, maior do que muita gente que víamos sangrar até morrer com a boca aberta nas canaletas da vila, pedindo água e clamando para que o algoz voltasse para concluir o serviço que, para todos efeitos de testemunhas oculares, era coberto por uma implacável e inexorável Lei do Silêncio. Os porcos, como se vê, estavam acima da Lei do Silêncio.

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A ORAÇÃO DO CEIFADOR Luiz Mariano O vento sombrio está soprando... Magus, Chrono Trigger


O

ra, vamos. Venha seu sapo idiota. Venha provar o sabor da morte. Você anseia por isso há tanto tempo, não? Aqueles idiotas petulantes tiveram a audácia de me privar da mais pura e doce vingança. Como eles conseguiram, eu não sei. Agora vem esse pedaço de estrume achar que pode contra mim! Como ousa? Como ousa passar pelos meus grandes generais, forjados a ferro e fogo, incluindo meu pai!? Aquele bonachão, tolo ogro verde, que me cuidou com tanto... zelo e violência. Agora estou aqui, eu e minha escuridão, meu amigo vazio. Aqui, do alto do castelo, tudo igual. Morena lua, sem estrelas. No fim, só sobrará um estranho de capa. E o mundo cheio de cretinos continuará igual. E os tempos continuarão sucedendo, uns aos outros. Mas não era assim desde o começo? Recordo a minha, minha querida irmã. Onde você estará, querida? Seu sorriso triste, sua melodia na voz... Posso sentir você chorando por mim, de longe, mana. Sei que você está em algum lugar. Na minha memória, existirá para sempre. Tola... Cabelos com cheiro enjoado, até sua gargalhada esbanjava doçura e meiguice. Se soubesses o quanto eu sofri, o quanto passei! Mana, mana, onde estarás? Podes ouvir a minha dor? Aqui entocado, acuado, sempre forte, sempre certo, sério, incólume. E tu, mãe!

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Que vendeu sua alma, nossas almas, à vilania! Por quê? Para me mandar ao terror? Tão sábia era você, tão inteligente, tão... até conhecer aquele pirata. Aquele demônio de um olho só, eu sei que foi você quem envenenou o velho, meu caro. Você e seu Deus maligno. Sua hora vai chegar, você vai ver. Nada para fazer. Que tédio. Ouço passos, é o anfíbio humanoide, vindo cada vez mais perto. Eu devia tê-lo matado quando tive tempo. Faz tantos anos.... Tornou-se um grande espadachim! Muito melhor que seu amigo fracote. E pensar que eu podia ter dado cabo aos dois, facilmente! Mas eis que ele traz novamente a espada lendária. Não que eu já não tenha lidado com isso. Aliás, de uma forma até fácil. Não é, sapo asqueroso? Agora você vem, todo garboso e valente. Nem príncipe, nem homem. Um homem-sapo. E tem coragem de vir até aqui. Sozinho! Até onde sei, ele e mais outros deram cabo à própria divindade. Mataram Deus! Como puderam! Aquele que trouxe o poder aos homens.... Eu senti, não sei como mas senti. Foi ele, eu sei que foi. Roubaram minha vingança... Durante anos, anos e anos, eu vinha tentando invocar aquele que foi o responsável pela minha perdição. Que me tirou da terra natal, da minha família, para me trazer, ao acaso, para essa terra miserável, onde agora sou rei e senhor de muitos, onde estou prestes a conquistar mais um reino

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para a minha coleção. Durante anos eu invoquei o maldito. Em minhas pesquisas descobri, ele pulsa também dentro de mim, sou feito dele. Essa força imensurável, que dorme dentro da terra, sugando e emanando energia, que matou meu antigo pai, roubou a alma da minha mãe, deu poder a nosso povo e fez nascer a desigualdade em nossa terra. Estou colocando toda a culpa nele, mas é verdade. Nós éramos livres, livres e pobres. Nos tornamos poderosos com o toque dele. De poder imenso, ilimitado, ele roubou nossos corações de nós mesmos. Mas eu o venceria! Ah, sim, eu o venceria. Sobrevivi a tudo, à dor, à ausência, a tudo! Conheci as artes da guerra, da magia, ensinado pelo meu novo pai, meu querido gordo, burro e verde pai, que apesar de tudo me ensinou tantas coisas, coisas que eu já sabia mas de uma outra forma toda nova, como aprender a manejar a foice, como ser cruel, como sentir ódio pelos homens... Meu desajeitado pai, que agora é o primeiro dos meus generais. Mas o que eu mais queria era ficar cara a cara com meu Deus, para matá-lo! Armado dos meus feitiços e encantamentos, eu o mataria! Sabedor de seus pontos fracos, que eu, e só eu, sei que ele tem, ele agonizaria ante mim, sua criação, e eu governaria o mundo! Se não fosse pelos malditos... Maldição! Maldição! Maldito seja você, sapo idiota. Maldito seja o dia, a hora, a terra em que

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você nasceu! Eu tenho certeza de que você o matou. Você o destruiu, eu posso sentir isso. Mas você não fez isso sozinho. Não conseguiria, certo? E além disso, precisaria da sua espada mágica, não é? Você não consegue fazer nada sozinho, meu caro! Mas o fato é que vocês o mataram, embora ele ainda esteja vivo, a carcaça dele, e alguns tolos seguem a carniça, mas você o matou. Parabéns! Você e seus amigos roubaram minha vingança, meu bem mais precioso, meu elixir vital. E agora você vem em minha direção. Nesse instante você deve estar matando meu pai. Sinto a presença dele se esvair, cessar a existência. No entanto, aqui estou eu, parado, imóvel, cercado de morcegos, eu e minhas orações pífias, orações que fui descobrir serem para algo que cessará a existência, orações, orações.... Danem-se as orações! Faço por simples hábito, essas palavras repetidas, vãs, mendigas de divindade. Seja o que essa divindade possa ser. Meu povo se regozija ante meu jugo, mas ninguém pôde me defender do valente guerreiro, não é mesmo? Todos encantoados em seus covis, assim como eu, e não perceberam o herói vindo me matar. Como poderiam!? Um herói feio, gosmento, pastoso, deixando pegadas, meio bicho, meio homem. Herói! É isso o que os homens chamam de herói? Na primeira vez em que me enfrentou, ficou mudo, paralisado! Não se mexia, deixou o próprio amigo

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morrer queimado na sua frente! Patético! Como pode ter sobrevivido até agora? Mais covarde que um mosquito, e eu o derrotei como um inseto. O agora matador de meu pai, o antes derrotado vai minando as resistências de meu castelo. Se todos meus soldados simplesmente se juntassem e o cercassem!... Não percebem a sua ruína? Não há um que avise o outro, não sabem se comunicar? Parecem até... Até o líder deles, paralisado, uma mosca pronta para ser devorada! Engraçado como sinto ele cada vez mais perto. Até me dá uma certa vontade de ser derrotado por ele, acabar com essa vida sem vida. Um gran finale! A besta, tornada herói, à frente de seu outrora algoz; eu, o arrogante menino ranhento, filho de rainha, feito monstro pelos homens e pela magia de Deus! Ora, muito hilário. É realmente muito engraçado. Irônico! Gargalharei. Um brinde à seleção natural... Mas não. Matarei-o, com minhas próprias mãos. Após isso, ceifarei a vida de seus amigos, tudo o que seria de mais valioso para ele. Sim! A minha vingança! Percebo minha nova valia, meu novo objetivo! Serei o câncer daquele que roubou minha vingança. Matarei seus amigos, os filhos de seus amigos, todos seus entes queridos. Sim! Farei novos generais, prosseguiremos a guerra, mas, desta vez faremos terra arrasada; mataremos, torturaremos seu rei, sua rainha, sua preciosa rainha, que você deseja tanto, sim, você acha que

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não sei? Pude sentir no seu coração! Como você tem coragem de desejar, pior, desejar secretamente, a rainha do seu rei!? Como? Mataremos todos, e por fim, procurarei minha irmã. E que o resto apodreça. Onde está você, calhorda? Por que não chega logo? Não tem coragem de vir ao meu encontro? Por que essa demora? Por que só agora? Não vê que não tens nenhuma chance de me derrotar? A mim, que já te derrotei antes? Sentisse minhas artes mágicas antes, queres sentir minha foice agora? Já não te basta ter matado o Criador da magia? Por que essa necessidade de vingança? Não te basta ter salvo o mundo? Ah! Passos! Vens vindo! Sim, há tempo para uma última oração. Uma cantiga de ninar para sua ida ao túmulo. Onde darás boas-vindas ao seu morto amigo. Sim! Venha, valoroso cavaleiro andante! Venha, seu sapo de merda! Não tenho nada para fazer nessa noite mesmo! Venha, seu sapo idiota! Venha! Venha! Venha, seu asqueroso! Venh-

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ONDE ARDEM OS INOCENTES PARTE II V. E. Simeoni Quando Ely e seu grupo finalmente se veem frente a frente com a monstruosa criatura conhecida como Offenmund, a diferenรงa entre realidade e lenda se mostra bem mais amarga do que qualquer um poderia imaginar. A conclusรฃo da histรณria comeรงa aqui.


C

om o instigar da primeira fagulha veio o desespero que se espalhou pela floresta na forma de fogo bruto. Aves abriam suas asas e animais lutavam para escapar com vida. Minha mão alcançou o cajado, a antecipação do que estava por vir era pior do que qualquer outra coisa. Existia uma beleza profana na maneira que o vermelho vivo das chamas se misturava ao azul noturno do céu. Em meio a esse espetáculo caótico a criatura surgiu, grande como um urso e com olhos que ardiam feito brasa. Por detrás de uma mordaça de ferro retorcido o Offenmund olhava diretamente para nós. “Ely...” a voz de Garen soava sufocada. “Fica perto de mim...” Não dava mais para se arrepender, o tempo pra escapar havia passado, isso ficou claro no momento em que aquela coisa pôs os pés na clareira. Agora eu sabia como um cordeiro esperando para ser abatido se sentia, dois grilhões de medo me mantinham petrificado enquanto o Offenmund arrancava feito um trem desgovernado. Não deve ter durado mais que alguns segundos, o monstro jogou os punhos cerrados para trás e o solo estremeceu e uma massa de terra subiu para o alto, assisti a tudo ao mesmo tempo em que era puxado com tanta força para trás que minhas pernas começaram a se debater no ar. Quando me dei conta, estava sentado no chão com meu irmão me

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segurando pela camisa, ele tentava manter-se em pé se abraçando a uma árvore. Garen até chegou a sacar a arma, mas ele não teve a chance de usá-la, ele foi arremessado para longe quando foi atingido pelo monstro. “Bruder!” gritei... Ah, que grande erro... Agora tinha toda atenção do monstro voltada para mim. Pode chamar isso de instinto de sobrevivência tardio ou pura covardia, mas ter aquela coisa bufando no meu pescoço me fez perceber que dava para engatinhar muito mais rápido do que dava para correr. Boom! Fugi me esgueirando pela lama com o Offenmund no meu encalço... Boom! Socando o solo com a força de um bate-estaca... Boom! A cada golpe chegando mais perto... Foi então que avistei a arma de Garen caída a alguns arbustos e por um instante o tempo desacelerou. Tudo que precisava era uma bala, um tiro certeiro para sobreviver à hora da verdade. Sem vacilar, me joguei sobre o revólver e por pouco consegui agarrá-lo, um giro no corpo e eu tinha o Offenmund ao alcance da mira, bastava escorregar o dedo no gatilho para... Nada acontecer? “Não...” puxei o gatilho de novo. “Não, porra! Não!” E o resultado continuava o mesmo. Assim que o desespero começava a me envolver no seu cruel abraço, um estampido seco se fez ouvir floresta adentro, mas como se aquilo não era obra minha? Do outro lado, o Offenmund parecia ter

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esquecido completamente de mim, ele permaneceu ali imóvel, fascinado pela visão do próprio sangue escorrendo entre seus dedos. “Maldita coisa feia!” Antes que pudesse respirar, Tanbert surgiu do nada e com ele, duas pistolas que cuspiam balas alucinadamente. Devo ter contado duas dúzias de disparos, dos quais pelo menos metade deve ter encontrado o Offenmund que só percebeu o que estava acontecendo quando já era tarde. Seriamente ferido, o monstro cambaleou devagar até encontrar apoio na árvore mais próxima. Posso estar errado, mas tive a impressão que Tanbert estava se divertindo ali, ele deixou as armas para trás e apanhou o maior pedregulho que encontrou. O que fez em seguida só pode ser descrito como brutal... O lânguido rosnado do Offenmund foi abafado pelo som da rocha se chocando contra seu crânio, vez após vez... até o monstro despencar sobre os joelhos com a cara parecendo um saco de tripas esmagado. “Vou te mandar de volta prõ nhin-inferno” Tanbert suspendeu o pedregulho, veias saltavam pelos seus braços, e então desferiu o golpe de misericórdia. O que parecia o fim se tornou só o começo... O Offenmund impediu a trajetória da rocha com uma única mão... Fogo-selvagem ainda ardia em suas entranhas, labaredas voltaram a esvoaçar através da mordaça junto por um rugido

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de tremer os ossos. Ele esmigalhou o pedregulho entre os dedos e com um movimento brusco agarrou a cabeça do rapaz com a outra mão. A princípio, achei que Tanbert gritava por causa do terror, mas logo entendi... Começou com vapor tênue, depois bolhas eclodiram por toda sua pele, que agora ficava cada vez mais escura até ele entrar em combustão... Deus... O cheiro da carne queimando... “Ei Ely... Aqui...” sussurrou a voz atrás de mim. “Garen! Você tá vivo, graças a...” “Shh... Eu sei, só tenta ficar quieto”, ele disse antes de me jogar sobre os ombros como um saco de cebolas. Enquanto as chamas tomavam a floresta transformando tudo em cinzas, nós fugimos, deixando Tanbert lá para queimar. Mesmo a distância ainda podia ouvir os gritos dele... Cada vez que fechava meus olhos.

Lembro da respiração pesada do meu irmão enquanto ele corria comigo nos ombros, estava escuro demais para dizer o quão longe fomos antes de alcançarmos o carvalho seco onde Ulrich esperava por nós. “Vocês demoraram pra cacete, por pouco não fui embora sozinho...”

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“Não seria a primeira vez.” Garen se inclinou para me tirar dos ombros. “Eu sei que... Argh!” Quando desabou mandando a nós dois de encontro ao solo. Com o rosto pulsando de dor, minhas mãos tateavam ao redor em busca de algo para me ajudar a ficar em pé. “Garen?” Não dava para enxergar nada além de vultos. “Onde você tá?” “Ah droga... Aqui...” Um isqueiro se acendeu e com ele Ulrich inflamou o que parecia ser uma tocha improvisada, ainda não dava para ver direito, mas havia claridade o suficiente para ver a expressão retorcida no rosto do meu irmão. “Eu avisei que voltar pelo aleijado seria burrice, mas alguém me escuta? Reza pra isso aí ser não ser uma costela quebrada...” “Cala a porra da boca Ulrich!” Garen bufou. “Eu já abandonei um amigo hoje, não vou fazer a mesma coisa com o meu irmão. Se você não fosse tão cagão, a gente poderia ter salvado o Tanbert.” “Vai se foder! Se esqueceu que fui eu quem arrastou essa sua carcaça ingrata pra um lugar seguro? Deveria ter...” Da mesma forma que um raio se termina num estrondo, aquela discussão findou no momento em que um rugido de gelar a espinha permeou pela floresta.

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“É ele...” palavras saiam da minha boca, porém não eram muito mais que um gemido. “Tá vindo atrás da gente...” “Hora de ir ent... Argh!” Apesar do esforço, Garen não conseguia nem ficar de pé. Tentei ajudá-lo, mas quem eu queria enganar? Ele era grande demais... Pesado demais... Essa vida é cheia de cruéis realidades, coisas que otimistas tentam encarar como azar enquanto os mais pragmáticos sabem que são fatos, e o fato é... Sozinho eu era inútil. Se a intenção era tirar o meu irmão dali vivo, eu teria de convencer o Ulrich que me ajudando, ele ajudaria a si mesmo. “É impossível fugir do Offenmund, vocês viram o jeito que aquela coisa é rápida. A gente precisa se esconder, isso sim, pelo menos até ele ir embora.” Eu disse. “Falou o sujeito que mal se aguenta nas pernas, você só diz isso porque não pode correr.” Ulrich retorquiu. “Parabéns gênio, mas estou cansado de saber disso. E você acha que o Garen vai muito longe desse jeito?” “Danem-se os dois.” Ulrich retrucou bruscamente. Garen balançou a cabeça. “Não adianta Ely... Deixa ele...”

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“Que vá sozinho então! Enquanto o Offenmund fica ocupado currando a sua bunda, a gente aproveita e se esconde, é até melhor assim.” Enchi o peito e empinei o queixo. “Um de nós tem razão e o outro vai se arrepender, mais simples impossível.” Estava começando a pensar que tinha exagerado um pouco, até ver uma pontinha de insegurança no semblante do Ulrich. Se ele ainda tinha alguma intenção de manter a pose de cara durão, não estava funcionando. Após um pouco de ponderação, ele finalmente disse. “Pro inferno! Vamos fazer do seu jeito!” Cruzou os braços no peito como uma criança contrariada. “Mas que uma coisa fique bem clara, sou eu quem está no comando, quem não estiver feliz com isso ficará por conta própria. Entendido?” “Entendido, não é Garen?” Troquei um olhar rápido com o meu irmão, seus olhos faiscavam. “Sim...” ele respondeu. Ulrich deu um passo adiante até o carvalho, do interior do tronco seco saiu uma mochila e para minha surpresa, o cajado que eu pensei estar perdido para sempre. “Aqui, o Garen mandou guardar pra você.” “Obrigado...”

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“Ótimo, tem uma caverna perto daqui que daria um bom esconderijo, pelo menos até a poeira baixar. Já perdemos tempo demais aqui.” E então nós andamos, eu seguia na frente iluminando o caminho enquanto Ulrich ajudava Garen um pouco atrás. Com exceção das direções que Ulrich passava, nenhum de nós disse nada durante todo caminho, existia um senso de urgência no ar que tornava o uso de palavras desnecessário. Não demorou muito para que chegássemos à entrada da tal caverna, uma fenda na base rochosa da montanha. “Como você soube desse lugar?” Garen perguntou ao Ulrich. “Encontrei hoje à tarde quando procurava por rastros, parece seguro... Eu acho...” Assim que coloquei os pés no interior da caverna, tive uma sensação estranhamente familiar, a princípio nem prestei muita atenção... Porém, conforme a entrada se distanciava, a sensação crescia e aos poucos minha noção de realidade foi se esvaindo até parecer que algo havia se desprendido no fundo da minha consciência... Droga... Estava tão frio e eu me sentia cansado demais para voltar... Resolvi fechar os olhos, apenas por um minuto...

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Não dava para dizer ao certo por quanto fiquei apagado, estava escuro e a chama diminuta que ainda sobrava na tocha não duraria muito. Para onde os outros foram? Minha cabeça latejava um bocado e tentar lembrar só a fazia ficar pior. “Isso não é bom...” respirei fundo “Cristo...” Todas as rotas daquele buraco pareciam igualmente traiçoeiras para mim, preso em uma espécie de corredor estreito, eu ficava imaginando o quão fundo entrara na caverna. Levei a tocha em frente ao rosto para ver melhor, foi quando notei a chama se curvar sutilmente para direita... Uma corrente de ar? Mal dava para sentir. Se existia uma saída tinha que ser para aquele lado. Apertei o passo tateando o solo com a ponta da bengala, a última coisa que queria agora era cair num buraco. Só precisei andar alguns metros para descobrir que estava certo... em parte. Bem no meio do corredor havia um muro! Só podia ser brincadeira... Levando em conta o aspecto desgastado dos tijolos, ele fora construído há muito tempo. Teria sido o fim, não fosse o languido feixe de luz que saia pelo buraco na base do muro, por sorte era grande o suficiente para que eu conseguisse me espremer por ele. Do outro lado, acabei em uma espécie de escadaria em espiral, a iluminação precária vinha por ponta das velas espalhadas pelos degraus. Subir era impossível, o caminho estava bloqueado por rochas e entulho, só restava descer.

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Se esse fosse um dos folhetins que eu costumava ler no intervalo das aulas, agora seria a hora em que o herói marcharia até o calabouço, mataria o monstro e recuperaria o artefato mágico. O problema é que eu não era nenhum herói, muito menos estava preparado para o que me aguardava depois da porta no final das escadarias. Tão espaçoso quanto um salão de festas, aquele porão dispunha de lustres de prata no teto e um piso revestido com granito esverdeado. A parte mais tenebrosa ficava por conta do círculo formado por cadeiras de ferro logo à frente da entrada, completamente revestidas de cravos, debaixo de cada uma delas corria uma canaleta que se encontrava com as demais no centro, onde fora erguido uma espécie de altar. Lá eu encontrei Garen e Ulrich... Ajoelhados? Os dois admiravam com um fascínio quase platônico o enorme arco metálico sobre o altar. “Ei bruder!” nenhuma resposta “Bruder?” comecei andar na direção do altar, me questionando se realmente queria entrar ali. À medida que a minha visão ia se adaptando a rasa claridade, pude perceber que haviam inscrições entalhadas no tal arco, não era nada que fizesse sentido. As coisas tomaram um rumo estranho rapidamente. Antes que tivesse chance de me aproximar, inesperadamente o porão inteiro estremeceu, em seguida... Sei que pode parecer loucura, mas foi

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como se um tipo de energia viva surgisse do nada em torno do arco no altar... Até convergir numa explosão de flamas azuladas. Não, não dá para explicar o que aconteceu, o que quer que tenha sido, deu origem ao que parecia ser um redemoinho... Girando sem descanso dentro do arco... Um redemoinho feito de fogo púrpura... Então ela surgiu no interior do redemoinho, andar voluptuoso e atitude altiva. A pele pálida fazia um contraponto elegante com os longos cabelos negros que desciam até a cintura. Seu vestido vermelho ostentava um decote farto que mexeria com a cabeça de qualquer homem. Porém, o que mais chamava atenção eram os olhos, aqueles olhos grandes cor de ametista, nunca tinha visto nada assim. “Curioso, não?” Ela vislumbrou o porão que a cercava. “As coisas abomináveis somos capazes de fazer por amor, lembro como se fosse ontem, a baronesa estava bem ali,” apontou na direção da porta, “enquanto seu filho renascia para se tornar a criatura que vocês hoje chamam de Offenmund. Pena que nem todo mundo seja capaz de testemunhar um milagre sem perder o juízo.” “Do que está falando? Quem é você?” “Ah vamos, precisa se esforçar mais que isso.” Ela passou por Garen e Ulrich, porém os dois se mostraram tão interessados quanto um par de abajures. “Você conhece muito bem essa história,

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era a única que ainda te dava pesadelos depois que se mudou para Viena.” Eu estava tendo dificuldade para ligar os pontos, até que finalmente entendi. “Cristo...” “Sei o que está pensando Ely, pode dizer...” seus lábios se curvaram num sorriso malicioso. “A feiticeira ancestral da lenda...” “Formalidades, ah formalidades, são apenas palavras pomposas que não me agradam em nada.” Ela começou a se aproximar. Meu primeiro impulso foi virar as costas e sair correndo, porém minhas pernas deixaram de obedecer. A imagem de um camundongo paralisado diante do gizo da serpente me veio à cabeça. “Não pode ser... Você não deveria estar livre...” “As coisas vão muito além daquilo que seus olhos podem enxergar querido, posso parecer livre, mas minha essência está ligada àquele altar.” Suas mãos deslizaram pelo meu peito. “É por isso que eu lhe trouxe aqui, para que possa partir as amarras que me prendem a este lugar.” Estremeci quando seus dedos tocaram meu rosto. “Ora, por que está nervoso? Quero que relaxe e confie em mim.” Os lábios dela tocaram os meus num beijo longo e molhado. “Hummm... Seu gosto é diferente...” ela ronronava no meu ouvido. “E-eu...”

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“Podemos realizar tanto juntos, imagine a vida que você poderia ter tido se não fosse pelo seu pai, as coisas que você perdeu. Posso lhe dar uma chance de ter tudo de volta e mais... muito mais...” “Não...” “Seja meu...” “Para...” minha voz oscilava. “...E qualquer desejo se tornará realidade.” “Eu disse pra parar!” Afastei-a desviando o olhar. “A garotinha cega... Ela me mostrou... o sofrimento... a morte causados por você... Não posso... Não vou te ajudar...” “Mostrou? Hum...” sua expressão se tornou sombria. “Eu também tenho algo para mostrar.” Mal as palavras deixaram a sua boca e os lustres começaram a se acender um de cada vez feito mágica, o porão inteiro logo ficou iluminado, dessa maneira eu pude ver... Senhor Deus... Ela parecia tão pequena... Sem um dos braços e com parte da face marcada, o corpo da menina cega jazia esquecida em uma poça do próprio sangue... “Uma criança...” os meus joelhos cederam. “Ela ainda era uma criança...” “Seu tolo ingênuo!” ela me agarrou pelo pescoço e me ergueu com uma força desproporcional. “Eu iria te transformar em um rei e mesmo assim você cospe na minha cara?!” Um girar de braço e eu fui lançado pelo ar feito um trapo velho até me

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chocar contra a parede, na hora senti um gosto metálico preencher minha boca. “Tamanha afronta não seguirá sem resposta.” Nunca fui atropelado por um ônibus antes, mas tenho certeza que a sensação deve ser parecida. Meu cajado se perdera, tive que me apoiar no meu braço esquerdo para conseguir me sentar, o direito devia estar quebrado. Uma mancha vermelha se formava na parte baixa do meu peito. Respiração pesada... Dor terrível... Enfiei a mão por dentro da camisa onde estava meu crucifixo e fechei meu punho em torno dele. “Que seja...” “Não fale comigo como se não tivesse mais nada a perder.” Um estalar de dedos e a cabeça de Ulrich deu uma volta completa em torno do pescoço, ele tombou morto... Aquela expressão vazia ainda no rosto. “Pronto, agora só falta o outro.” A feiticeira então uniu o polegar e o dedo médio, então olhou para mim. “Por favor... espera!” “Ora, ora!” Um sorriso se abriu novamente no rosto dela. “Mate minha curiosidade Ely, como você acha que era a vida do seu irmão enquanto você se escondia debaixo da batina do frade?” “Você está... brincando... comigo...” dizer cada palavra passou a exigir um esforço maior.

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“Talvez esteja,” ela acariciou uma mecha distraidamente. “Mas aposto que isso nunca passou pela sua cabeça, não é? Ah não, tudo o que te importava era fugir da fúria do seu pai e salvar a si mesmo. Tsc, tsc, tsc quanto egoísmo, você abandou o seu irmão sozinho a mercê daquele desgraçado e nem percebeu.” “Eu... não sabia...” “Ah sim, o Garen pode nunca ter te contado nas cartas que enviava, mas as cicatrizes não mentem. Foram de humilhação e maus tratos, anos suportando calado toda frustração que seu pai acumulou por uma vida inteira.” Eu nada disse, o nó na garganta estava quase me sufocando. “O engraçado é que mesmo o mais perseverante dos homens tem seu ponto de ruptura. Quando Garen encontrou o dele, aquele velho teve o que merecia, quem diria que para pôr fim a tanto sofrimento bastaria tombar uma prateleira?” Existia um certo prazer perverso na voz dela. “Os habitantes da vila pensaram que foi um acidente e assim a vida seguiria, pelo menos é o que seu irmão acreditava até descobrir o quão difícil seria conviver consigo mesmo depois do que ele fez.” “O remorso de um filho... Eu deveria ter percebido...”

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“Sim Ely, a culpa pode consumir o coração de um homem, o seu irmão sabia disso e agora... você também.” Ela sorriu, foi à última coisa que eu vi antes de perder a consciência.

Não sei como ainda conseguia abrir os olhos, me sentia fraco e gelado, um provável efeito do sangue perdido, pelo menos a dor no braço havia passado. Eu ainda me encontrava deitado no mesmo lugar, não havia nenhum sinal da feiticeira, ela se fora. “Bruder!” Uma voz mais do que familiar ecoou pelas paredes do porão. Garen estava em frente ao altar, a pele do seu corpo nu refletindo a luz púrpura que vinha do arco. “Em breve, o mistério... Ela vai se levantar acima do céu e do mar, nações chorarão e reis lamentarão... Almas morrerão... Nuvens se reúnem no céu... Você sente ouve o trovão?” “Do que está... bruder...” “A tempestade, não deve demorar muito para ir embora... Eu vou procurar pelo amanhecer... Assim ela me tocará e minha alma renascerá...” Testemunhei sem ação enquanto o meu irmão desaparecia atrás do redemoinho de chamas. Arrastei-me pelo chão tentando alcançá-lo, mas foi um esforço em vão. Ele se fora... o calor e o fogo

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foram desvanecendo aos poucos e em seu lugar se ergueu o mais profundo silêncio que eu já presenciara. “Não...” minhas mãos tremiam, minha visão ficou turva. “Eu não...” então urrei... com toda a força que meus pulmões cansados ainda permitiam, a angústia... a desolação... precisava deixá-las sair ou elas estraçalhariam meu peito. Acho que nunca senti tanto o fundo do abismo quanto naquela hora, eu perdi meu irmão. O que eu deveria fazer? Fiquei sentado ali, sozinho no escuro e o tempo passou sem oferecer nenhuma resposta. Gostaria de dizer que ainda existia alguma esperança, mas sendo sincero, eu estava morrendo... Não demoraria muito, só restava aceitar que acabaria dessa maneira. Meus pensamentos foram interrompidos quando algo começou a se mover no andar de cima, algo grande... Fragmentos de reboco desabavam do teto, o som das rachaduras acompanhavam os passos pesados enquanto os lustres balançavam sem parar. Não é possível... Seria ele? Meus temores se confirmaram quando eu ouvi o rugido. Pow! Um golpe e o teto veio abaixo e com ele o Offenmund em toda sua monstruosidade. “Merda...” Seus olhos ávidos de brasa cintilavam por detrás da mordaça. Desgraçado persistente! Com a feiticeira fora de cena, ele deve ter me farejado até Onde Ardem os Inocentes – Parte II

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aqui. Agora era inevitável, ele não deixaria sua presa escapar mais uma vez. “Por favor, Deus, que eu não sofra.” Era a única coisa que eu conseguia pensar. Foi quando senti uma mão pousando sobre o meu ombro... “Vai ficar tudo bem.” Eu devia delirar, em pé do meu lado, era a garotinha cega... viva! Pressionando o lugar onde outrora estava seu braço, ela mancou na direção do altar, ficando frente a frente com o Offenmund. O contraste entre os dois... Aquele corpo pequeno praticamente desaparecia perto da imensidão da criatura. “A sua senhora já tem o que ela quer, deixe o rapaz ir.” Ordenou ela. A resposta da criatura veio na forma de um rugido carregado de ódio crescente. Sem nenhuma hesitação, as mãos do monstro se entrelaçaram em torno da garotinha. Nada de gritos, nada de lágrimas, ela se manteve firme mesmo diante da boca de forno. Chamas começaram como labaredas e logo se avivaram em um incêndio infernal... O que era antes uma criança se transformou em um vulto... Ardendo sem descanso dentro de uma bola de fogo vivo... Foi nesse momento de incerteza, que aconteceu, uma explosão de luz tão intensa que deve ter chegado aos céus. Conforme minha visão voltava, o inimaginável revelou-se diante de meus olhos, a Onde Ardem os Inocentes – Parte II

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garotinha e o Offenmund sumiram em pleno ar. No lugar deles... Ainda havia alguns traços da menina cega nela, porém a figura que antes pertencia a uma criança, agora se transformara numa jovem mulher... Era tão bela... Protegida por uma aura dourada, ela segurava um garotinho nos braços, só que... Não era um garotinho e sim uma estátua, uma estátua feita de cinzas... Ela levantou-se deixando o garotinho se desfazer sob o próprio peso. “Ely”, apesar de manter os olhos fechados, ela sabia exatamente onde me encontrar. “Por que o passado te aflige?” A jovem se aproximou e deslizou os dedos pelo meu queixo, um toque quente... Reconfortante... “Hoje foi um dia severo, ainda assim, você prevaleceu onde os outros caíram.” Senti a vitalidade fluindo através do meu corpo e, de repente, a dor não era nada além de uma memória ruim. “Fique em paz, o pior passou.” “Como posso ficar em paz!? Todos os outros se foram, eu fui o único que restou...” as lágrimas simplesmente rolaram pelo meu rosto, não dava para segurar. “Cuidado Ely, um espírito partido oferece solo fértil para pensamentos sombrios, se você permitir, o desespero pode te tragar por uma espiral sem volta.” “Que porra alguém como você entende de desespero!?”

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“Pensei que soubesse.” Ela puxou meu braço e deixou algo cair na palma da minha mão, a medalha de Santa Lúcia. “V-você...” “Mudar o que se passou está além do meu alcance, por outro lado, posso te dar uma oportunidade de seguir em frente” ela desenhou um círculo no ar, isso fez com que uma das paredes se afastassem revelando uma passagem escondida. “A floresta espera além dessas escadas, não se preocupe com o cajado, você não precisa mais dele.” Encarei o caminho aberto diante de mim com o coração carregado de incerteza, do outro lado da sala, o altar ainda estava de pé... “E quanto ao meu irmão? O que vai ser dele?” “Existem portas que servem como pontes para lugares escondidos entre as frestas da realidade, o seu irmão atravessou uma dessas portas.” “Você consegue trazê-lo de volta!? Por favor!” “Não... Ele fez uma escolha, não cabe a mim subjugar o livre-arbítrio de nenhum ser humano.” “Ah...” as palavras estavam engasgadas na minha garganta. “E se eu tentar? Eu seria capaz de trazê-lo de volta?” “Existe a possibilidade, mas também existe o risco de que nunca o encontre, ficando preso atrás dessa porta por toda eternidade.”

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Se ela pudesse enxergar, veria o olhar distante na minha face. “Eu preciso tentar...” Sem nenhuma objeção, ela desenhou outra figura no ar e, uma fagulha mais tarde, o redemoinho de fogo púrpura voltou a se acender dentro do altar. Era chegada a hora, caminhei até lá torcendo para que minhas pernas não cedessem. De perto era fácil compreender a fascinação do Garen com aquela coisa, o jeito que as chamas giravam, era incrível. Fechei os olhos, abaixei a cabeça e respirei fundo. “Por favor Pai, não se esquece de mim.” Então atravessei.

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A APOSTA L. M. A


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odas as micro-torneiras de sua epiderme pareciam ter estourado pela quantidade de água salgada que escorria de sua testa, deslizava ao lado da orelha e despencava em sua camisa azul-clara de linho, marcando o tecido importado com gotas de nervosismo. Logo abaixo de suas axilas, mais tecido inundado pela ansiedade. Suas mãos apresentavam o pavor em forma viscosa. A perna esquerda tremia. Levou a mão até o colarinho para afastar a gravata e respirar melhor. Tudo em vão. Não era o pano preto que estava esmigalhando sua traqueia, mas, sim, um nó de carne, nervos e músculos. O ar do ambiente parecia viciado. O cheiro forte e enjoativo do cigarro estava arranhando seus pulmões. Queria gritar para que alguém abrisse a porcaria das janelas, porém sua língua não obedeceu os comandos do cérebro e seus olhos começaram a lhe enganar, mentindo que a janela que estava do lado esquerdo da sala há dois minutos sumira num passe de mágica. A fumaça e as poucas luzes o impediram de ver os olhos do sujeito a sua frente, mas não lhe deram o lenitivo de não poder ver o sorriso de escárnio que rasgava a boca do companheiro. O homem espetou uma azeitona no prato branco no centro da mesa, tomou um gole de Whisky: ― Faça as honras... – disse, mordendo o palito de dente com que pegara a azeitona.

A Aposta

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Antes de obedecer, olhou para o que tinha em mãos. Não era uma grande jogada, mas precisava que fosse a jogada certa. Analisou os cartões para certificar-se da estratégia. Os ouros que quase escorregavam de suas mãos úmidas pareciam servir como alento e premonição. Iria ganhar, era o que pensava, com certeza era um bom agouro. O coração parecia querer arrebentar o peito. O sangue esmagava suas têmporas. Baixar aquelas cartas na mesa foi, de longe, a mais difícil tarefa que já cumprira. Com um som suave, que mais parecia o farfalhar de folhas outonais no asfalto, pôs as cartas e sua vida na mesa. Os olhos do companheiro, como lobos famintos no inverno rigoroso, procuraram pelas cartas com um olhar predador. Não esboçou nenhuma reação. Provavelmente porque queria manter o suspense do jogo. Endireitou-se na cadeira, passou o palito para o outro lado da boca e desceu as cartas. O apostador, à sua frente, com ar de presa fácil e assustada, secava nervosamente as mãos na calça social e, em seguida, passou o antebraço pela testa brilhante de suor. Nem parecia o mesmo homem que havia entrado pela porta principal, com a maleta de couro, olhar altivo e falar desdenhoso de um executivo na casa dos trinta anos. Disse que soubera das apostas e era exímio jogador. Apresentou a proposta ambiciosa: queria ser inocenta-

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do das acusações sobre o assassinato da mulher, queria mascarar todo rombo que havia deixado na empresa do irmão e ainda garantir que seus próximos investimentos lhe rendessem oceanos de dinheiro. Uma pena ele não ter conhecimento do câncer que estava corroendo seu fígado. Adorava esses sujeitos que se achavam os donos do mundo. Eram os mais fáceis de enganar. Aceitou as condições e fez a proposta que lhe cabia, não seria ambicioso. Provavelmente o executivo nem duraria o tempo que apostaram. Quando o apostador analisou a jogada do oponente, sentiu que o sangue que estava fervendo dentro de si já havia derretido toda sua pele e músculos. A sequência de cinco espadas que iam do dez ao “Ás”, rasgaram seu peito. O companheiro, ainda com o palito na boca, deu um sorriso cheio de dentes: ― A sorte é uma chatice, não é? Quando você mais precisa dela – ele estalou os dedos da mão direita – ela lhe tira o chão só por brincadeira. O apostador tentou pronunciar algo que sugeria uma revanche, mas foi cortado pelo companheiro: ― Desculpe, amigo. As regras são claras: uma partida, uma proposta. Se você ganhar, tudo o que você propôs será posto em prática por mim. Mas se perder... O pagamento é à vista.

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O executivo não conseguia pensar em mais nada que tivesse nexo ou fosse relevante para mudar seu destino. A única coisa que girava, pulava e gritava em sua mente era o fato de estar devendo 50 anos de sua vida para aquela coisa que nem sabia o que era. Aquilo que parecia um homem deu uma piscada, pareceu murmurar algumas palavras, ergueu a mão bem à frente do apostador e conforme a fechava, algo dentro do corpo do executivo ia estourando. Talvez fosse o fígado.

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SOB A MINHA CARTEIRA Antônio Roberto Szabunia


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ndava eu pelos 15 anos, aulas no antigo Científico pela manhã, período vespertino para estudos, tarefas, campinho, leitura... Minutos antes, acabara de ler um gibi de ficção científica, uma coletânea de histórias de autores variados. Uma delas me chamara a atenção: o tema era uma porta dimensional. Creio ter sido o primeiro capítulo da saga “A Torre Negra”, que um jovem estudante chamado Stephen King publicava em quadrinhos. Lia, como sempre, sentado em minha carteira escolar, adquirida por meu pai na Móveis Cimo, onde ele trabalhava. Encerrada a história, fiquei matutando um tempinho, olhando pela janela e digerindo o enredo. Ocorreu-me, então, uma brincadeira solitária – na média adolescência, preservava o espírito infantil. Escolhi uma pistola Colt no meu arsenal, cópia perfeita da original utilizada na Segunda Guerra, meti-a no cinto da jeans e, com base na HQ lida pouco antes, levantei o assento da carteira, por ali passando, como se fosse a entrada de um alçapão. Passei por baixo da carteira, fechei a “porta do alçapão” e me vi no meio do meu quarto, fantasiando ter atravessado um portal dimensional, tal como o pistoleiro Roland. Era simplesmente meu quarto, como sempre, mas...

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Senti um peso nos ombros, como se um imenso cobertor ali tivesse sido colocado. A tarde ensolarada pareceu se tornar silenciosa e sólida, sem sons externos, sem reverberação, sem “vida” (King de novo, mas “Fenda no Tempo” só viria nos anos 90). Empunhei o Colt, fingindo puxar a trava como via nos filmes e encarei a porta do quarto. A maçaneta permanecia imóvel, como tudo o mais ao redor. Quis olhar pela janela, na expectativa de algum movimento lá fora, mas não me atrevi a tirar os olhos da porta. Não havia ruído algum, era como se eu fosse o último ser humano sobre a face da Terra (sim, já havia lido “Eu Sou a Lenda”, de Richard Matheson, e assistido “The Omega Man” com Charlton Heston). Comecei a tremer, suando frio com a ansiedade. “Mas, pô! – pensei – Tô no meu quarto, em Rio Negrinho.” Ao ouvir um levíssimo som do lado de lá da porta (“imaginassom”?), fui rápido: tornei a enfiar a pistola no cinto e recuei dois passos até bater a bunda na carteira. Enfiei-me por baixo dela, levantei o assento-portal e subi. Baixei e fechei o alçapão, desci para o chão, saquei novamente o Colt e fiquei alguns segundos ali, provavelmente pálido, tremendo de medo. Ao certificar-me de que não fora seguido, improvisei algum objeto à guisa de chave, lacrei o portal e me arranquei lá pra fora.

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O mundo voltara ao normal: pássaros se esgoelavam, no rádio Iglesias louvava Manuela, Babka se entretinha nas tarefas domésticas, na rua a piazada jogava pêca... Nunca tive coragem de relatar a aventura interdimensional. Mas também jamais levantei novamente o assento da carteira.

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JONAS II Joel Garcia da Costa Jonas, em sua primeira história, não conseguiu realizar seu sonho de amor. Agora, em Jonas II, eis que ele é brindado com a sorte grande, mas algo no futuro conspira para que seu sonho se transforme novamente num pesadelo....


1. SONHOS 28 de novembro de 2009

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ati vinha ela pela calçada, de calça colada preta e blusa lilás, parecendo uma adolescente com o cabelo amarrado para trás que balançava esvoaçante. Ninguém diria que ela tinha a idade atual, suas formas eram muito belas e as rugas não marcavam seu rosto. Andava rapidamente desviando das pessoas que passeavam na calçada e que vez por outra paravam para observar as vitrines das lojas. Estava chegando próximo de uma esquina, onde um destino já escrito a aguardava. Não ouviu os gritos do sonhador a alertando para parar, para o lugar de onde veio, para que fizesse um caminho diferente... Os gritos eram em vão e terminavam na boca do sonhador que tudo assistia, mas nada podia fazer. Somente observar de seu camarote com visão privilegiada o fim da história de alguém que amava. Quando tudo aconteceu, rápido, os gritos da mulher e do sonhador se fundiram e foram sumindo enquanto o sonho se desfazia.

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Mais uma vez acordei sobressaltado, com o fim de um grito na garganta. Estava com o corpo inteiro molhado de suor, levantei-me devagar para não acordar minha esposa, mas em vão. – Sonhando de novo? - Perguntou ela. – O mesmo sonho novamente... Ela fez um delicado bocejo antes de continuar. – Por que não me fala sobre ele? Enquanto vestia o calção do pijama respondi a frase planejada para este momento, a mesma de sempre. – Não é nada de tão importante, somente um sonho bobo. O único problema é que ele insiste em voltar há algumas noites, deve ser naquelas em que me encontro mais cansado. – Você me acordou nas últimas cinco noites, não se esqueça que eu tenho o sono leve... – Pois é! Estava mesmo me levantando e tentando ser silencioso o bastante para não atrapalhar o seu sono. Quer um copo de leite quente? Ela mostrou um sorriso encantador. – Sei que está me enrolando, mas não tem problema. Se não pode se abrir comigo precisa procurar por algum profissional que lhe possa ajudar. Pensei ter alguém em mente e estremeci. – Vou pensar no assunto com calma! Não fique preocupada meu amor que não deve ser nada.

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Voltei para cama e dei nela um abraço apertado, ganhando um beijo em troca. Como eu amava esta mulher! E por alguns segundos até esqueci do sonho... – Somente se cuida, está bem? – Prometo que pensarei com carinho no assunto, agora durma mais um pouco, vou rabiscar meu diário on-line. Mais um beijo somado a um abraço e me fui.

Sentado no escuro da sala ainda de madrugada me pus a recordar como eu chegara até aquele momento. Eu me apaixonei por Pati há mais de nove anos, numa época em que ela era casada e passava por pequenas turbulências no seu relacionamento. Tive uma experiência maluca que até hoje não sei se foi real ou não, onde voltei no tempo e tive a chance de desfrutar de momentos maravilhosos ao seu lado... Essas linhas resumem tudo que aparentemente levou anos para acontecer. Quando ela finalmente se divorciou há cinco anos eu vi uma oportunidade para realizar meus sonhos de amor e nem precisei me esforçar muito, ela já sabia há bastante tempo que meu coração era dela. Só continuei sendo a mesma pessoa de

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sempre, educada e sincera, e um lindo relacionamento entre nós acabou nascendo naturalmente. Seus dois filhos resolveram ficar com o pai, assim que começamos nossa relação. Pensei em até desistir de tudo para não causar problemas em sua vida, mas ela decidiu apostar todas as fichas nesse nosso relacionamento e assim estamos juntos desde então, felizes como eu nunca poderia imaginar nos meus mais secretos sonhos. E falando em sonhos... Começou há uns dez dias, sempre o mesmo em todos os detalhes, comigo observando tudo de cima, um telespectador assíduo, assistindo as mesmas cenas e em vão tentando mudar o roteiro. E olha que eu tentava arduamente convencer o Diretor da trama, todos os últimos dias, sentado ali no escuro de madrugada, quando comecei a perceber que havia algo de errado. Um dos fatos que mais me incomodava é que em cada um desses sonhos eu já sabia de tudo que aconteceria, como se eu estivesse realmente ali vivenciando novamente fatos que se reprisavam, sem nada poder fazer. Seria esse um dos sintomas de que uma loucura começava a se apoderar de minha mente? Ou será que era um tipo de sinal? A época em que o sonho reproduzia era com certeza o futuro, Pati estava com uma roupa nova que eu não conhecia e no local existiam algumas Jonas II

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lojas que ainda não tinha visto por lá. Mas não dava para definir quando aconteceria ou até se iria mesmo ocorrer, tudo parecia simplesmente outro sonho maluco e eu tinha certa experiência nesses tipos de sonhos... Sabia que faria de tudo para que isto não acontecesse. O passado, real ou não, já havia me mostrado que certas coisas que acontecem não podem ser alteradas, mas é exatamente aí que residia minha esperança: esse novo sonho ainda não aconteceu! E, para que realmente não viesse a acontecer, ela estava certa, eu precisava da ajuda de alguém, provavelmente um velho conhecido com aparente talento quanto às questões que envolvem o amor e o tempo. Ele era certamente minha única esperança concreta, minha e dela.

2. A BUSCA 29 de novembro de 2009 Lembro perfeitamente da primeira vez em que a vi, no dia em que se matriculou na academia em que eu trabalhava. Era uma sexta-feira agitada, a maioria dos aparelhos estava sendo utilizada e a recepcionista pediu para que ela falasse comigo para receber suas

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primeiras instruções e assim iniciar seu treinamento. Ela não era um modelo de beleza e por ali passavam todos os dias dezenas de mulheres que neste critério e de corpo levariam nota dez facilmente. Mas eu, por regra profissional, não costumava misturar as coisas e com Pati não foi diferente, apesar de ter me encantado com ela desde o início de nossa amizade. Isso aconteceu porque acabei me tornando, ao invés do tradicional personal trainer, bem mais que isso, no mínimo um amigo. Mas isto foi antes, quando eu era professor. Depois de me casar com Pati resolvi investir um pouco de dinheiro e, com o apoio dela, acabei montando minha própria academia e agora cuidava mais do seu gerenciamento. Isso era muito importante, pois acabava me dando mais tempo disponível neste momento para poder realizar uma tarefa importante: encontrar um bruxo que se autodenominava Dr. Barros. Jamais imaginei ter que procurá-lo novamente, não era o tipo de pessoa que eu colocaria numa lista de amigos, nem numa simples mala direta. Mas a necessidade se fazia urgente. Comecei pelas listas telefônicas de papel, depois pelas listas on-line e mecanismos de busca da Internet, revistas e outros profissionais da “área”

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do mesmo, mas não encontrei uma pista sequer do seu paradeiro. Da outra vez, se bem entendi, fui escolhido por Dr. Barros para ser ajudado. Como poderia reverter a situação agora? Decidi então partir para campo, não tinha nada a perder, e o único local que me veio em mente seria um prédio de escritórios onde estive por duas vezes, se é que o lugar realmente existiu. Existia! Atravessei a cidade no Logus, havia aposentado o velho Mustang anos atrás, e cerca de uma hora depois já estava na recepção do prédio em questão. O interessante é que não precisei parar em nenhum local para pedir informações sobre o endereço, cheguei tão facilmente que parecia ser um prédio intensamente visitado por mim, o que não era mesmo. A fachada continuava idêntica e um porteiro trabalhava no mesmo lugar, um cubículo pintado de branco. Tomei algumas informações com ele e armado da desculpa de ser um visitante curioso interessado em alugar um espaço, este me liberou a entrada. Fui direto para o último andar e não fiquei surpreso ao dar de cara com as portas abertas e de constatar também que o local estava vazio, parecendo de fato nunca ter sido utilizado por nin-

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guém. Vasculhei a recepção e depois o cômodo principal, mas nenhuma pista encontrei. Vislumbrei mentalmente dois divãs onde eu e o gigante doutor ficamos deitados em nosso último encontro e um arrepio percorreu minha espinha. Foi quando eu notei num dos cantos da sala, meio que encoberto pelo carpete, um pedaço de papel branco. Tirei-o de lá e vi que era um cartão de visitas do meu amigo doutor, com telefone e endereço do local onde me encontrava agora. Este era igual ao que ele me deixou um dia na academia, anos atrás. Uma esperança tomou conta de mim ao guardar o cartão. Esta era uma comprovação de que tudo que sucedera anteriormente não era somente fruto da imaginação de um louco, acontecera mesmo. Mas encontrá-lo estava se tornando cada vez mais difícil e as opções praticamente chegavam ao fim. Após passar em casa retornei ao trabalho para me distrair. Desejava me abrir com Pati sobre este problema, mas assinaria de bom grado um atestado de maluco, pois ela mantinha sempre os dois pés bem firmes no chão. Fiz inúmeras ligações e mais diversas pesquisas, mas fui derrotado pelo cansaço e pela falta de opções. Já escurecia quando me pus a caminho de casa.

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Acreditei que uma boa noite de sono me faria bem, mas Pati não pensava assim. Ao abrir a porta me deparei com as luzes apagadas e pude ver no centro da sala a mesa pronta e iluminada por velas, uma garrafa de champagne no gelo e uma esposa com um sorriso malicioso. Nem tocamos na comida! Após alguns goles da bebida misturados com os abraços e beijos dela, consegui por algum tempo deixar de lado os problemas que me atormentaram tanto durante o dia e quando dei por mim estávamos fazendo amor. Já deitados sob o lençol ficamos por quase uma hora conversando, por mim ficaria a noite toda, havia perdido completamente o sono, principalmente após o assunto que Pati iniciou. – Você sabia, meu amor, que tem duas lojas novas que vão abrir lá no centro? – Lá no centro? Onde? – Que interesse é esse, você nem liga para as lojas que existem hoje. Ela estava certa, eu não ligava mesmo! – É somente curiosidade! Onde vão abrir estas novas lojas? Sabe quando? Não sei se ela notou um pouco de nervosismo na minha voz, mas de qualquer forma não demonstrou.

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– É lá na via principal onde costumamos caminhar, mais ainda vai levar um mês mais ou menos... – Nossa, está tão perto... Ela finalmente me olhou intrigada. Creio que em matéria de representação eu seria um fiasco. – Não estou entendendo você, que repentina curiosidade é essa? Detestava mentir, principalmente para a mulher que eu amo, mas como explicar toda essa loucura? – Sabe, é que estou pensando em fazer algumas novas divulgações da nossa academia e essas inaugurações poderiam vir a calhar. Se bem que num espaço tão curto de tempo provavelmente não dê para elaborar uma propaganda que valha a pena. – É exatamente por isso que eu toquei no assunto – disse ela – Uma dessas lojas é uma franquia de uma das marcas de suplementos alimentares que vendemos na academia. Creio que seja uma boa oportunidade para uma parceria e... Ela continuou falando sobre as vantagens e desvantagens de fazermos contato com a franquia, mas a minha mente já vagueava por um terreno mais sombrio e fui somente concordando com a cabeça enquanto a sua boca se mexia sem parar. Quando ela enfim ficou em silêncio, disse-lhe que era uma excelente ideia e que procuraria os repre-

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sentantes da loja assim que pudesse, algo que eu acabei não fazendo. Dei-lhe um longo beijo e um abraço mais demorado ainda e apaguei as luzes do meu lado. Demorei horas para dormir e, quando consegui, o sonho perturbador me perseguiu novamente.

3. O ACASO 30 de novembro de 2009 No outro dia acordei mais tarde que o habitual. Pati já havia preparado o café da manhã e um cheiro gostoso de pão fresco tomava conta da cozinha. – Indisposto? – Ela me perguntou após um beijo. – Não, acho que estava cansado demais, demorei a dormir ontem à noite. – Por que não me chamou? Poderíamos ter nos cansado mais um pouquinho… Sorri sinceramente. – Não sou mais um garotão cheio de energia. Depois dos quarenta o que aconteceu ontem facilmente entraria no Livro dos Recordes. – Não foi o que pareceu ontem… - disse ela sorrindo maliciosamente. Não resistia àquele

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sorriso, dei-lhe um beijo demorado e me sentei comportado. Tomamos o café em silêncio e depois, quando eu estava para sair para a academia, Pati me desmontou. – Ah meu amor, tomei a liberdade de olhar na sua agenda e como não vi nenhuma consulta marcada e o seu sono continua agitado, agendei uma consulta para você agora pela manhã, às 10 horas. – Consulta? Com quem? – Com aquele doutor do cartão que estava no meio da sua agenda, um psiquiatra não é? Psiquiatra? – pensei – não conhecia nenhum! A não ser que... – Obrigado meu amor, te amo! No caminho para a academia percebi que tudo estava acontecendo como tinha que acontecer, sem lógica alguma. Procurei, não encontrei e novamente fui encontrado. Deve ser um dom daqueles que às vezes se perdem e buscam por uma luz. Espero sinceramente que o gigante seja essa luz.

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4. UMA NOVA CONSULTA 30 de novembro de 2009 Antes das 10 horas voltei para o prédio que visitara um dia antes e o porteiro que me recepcionou era outro e sim, agora existia um consultório do Dr. Barros no último andar, sala 515, com uma consulta agendada me aguardando. Subi ofegante e sem cerimônias fui entrando na recepção do consultório, incrivelmente decorado novamente. Passei pela antessala e um saudosismo me veio à mente. Eram as mesmas estantes antigas abarrotadas de livros e lá estavam posicionados os belos divãs um ao lado do outro. Deitei-me num deles e aguardei o meu amigo doutor. Parei por um segundo para pensar em como ele poderia ter feito tal mágica e ele praticamente se materializou a minha frente, respondendo-me ao mesmo tempo em que me deixava com a boca seca, para variar. – Devia saber que para onde eu vou, tudo que é meu me acompanha meu caro... Depois da surpresa inicial, já com Dr. Barros posicionado em seu local habitual, deitado no divã que sobrou, iniciamos a consulta, seguindo seus métodos que eu já conhecia bem. – Então, o que conta de novo Jonas? – Pensei que já soubesse das novidades.

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– Ainda não, mas se me der alguns minutos... – Não obrigado, prefiro da maneira tradicional. – Como queira então! – Estou junto com Patrícia há 5 anos. – Ah, conseguiu finalmente. – Sim, estamos passando por uma fase muito boa, tanto no amor quanto nos negócios. – Então o que o traz aqui? A maneira como o doutor era direto ainda me incomodava um pouco. – É que tenho outros diversos assuntos para resolver, meu caro Jonas. Lá vinha ele de novo com a telepatia. – O que acontece, doutor, é que nos últimos onze dias aproximadamente estou tendo o mesmo sonho e acho que é um tipo de premonição. – Conte-me então. Narrei para ele os detalhes do sonho que me atormentava e aguardei seu julgamento, que veio rápido. – Os sonhos são sempre iguais? – Idênticos! O gigante ficou alguns segundos meditando antes de continuar. – Agora me conte o restante dos detalhes, aqueles que não combinam de alguma forma com

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o que está vendo. Preciso que se aprofunde mais nesse sonho, quero encontrar uma pista... – Bom tenho suposições... – Todo detalhe é importante, prossiga. – No sonho eu tenho certeza de que algo de ruim vai acontecer e pelo desfecho creio que estou certo. Parei e pensei um pouco. – Estamos no futuro, provavelmente bem próximos do final do ano, pois ela está com roupas novas e existem duas lojas funcionando que não foram inauguradas ainda. – Esta está a passeio? – Não! Fazendo uma caminhada. – E das lojas novas, como tem certeza? Não é uma coisa muito frequente para o sexo masculino agir dessa forma, quero dizer, prestando atenção em lojas. – É que quando caminhamos por ali ela fica me dizendo que uma loja tem isso, a outra tem aquilo, me fez um expert em vitrines. O senhor sabe, ela é consultora de moda... – Não, não sabia! Pensei rapidamente em lhe dizer que era impossível ele não saber, afinal, parecia sempre saber de tudo, mas antes que a minha boca se abrisse uma voz ecoou em minha mente dizendo “Nem tudo!” Fiquei em dúvida se aquela voz era minha ou dele,

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mas o doutor retomou o diálogo e essa informação deixou de ser importante. - Mas agora sei de algo que você deve não percebeu. Me responda: você costuma fazer esta caminhada com ela? – Sempre! – Então onde é que você estava? – Eu... – Onde é que você estava – cortou o doutor – que não ao lado dela? Pense! Essa informação é muito importante! – Eu, eu... Eu não sei! Não havia parado para pensar nisso. Onde é que eu estava afinal? Boa pergunta! Gostava demais de sair com ela e não perdia uma oportunidade tão facilmente. Só se eu... – Eu estava a vendo, rumo ao seu fim, é aí que eu estava! – Mas por que Jonas? Por quê? – Talvez – comecei a falar, mas uma bola de ar passou pela minha garganta me sufocando. Não queria dizer o que eu achava, mas também não queria que o bruxo dissesse por mim. Creio que ele percebeu meu pensamento, pois ficou calado. Reuni forças e completei a frase. – Talvez eu não pudesse mais ajudá-la, por não viver mais com ela, por não estar mais ali...

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– Ou por talvez ter morrido, você também quer dizer. – Talvez por isso também! – Disse e me calei enquanto uma nuvem triste me cobria. O gigante pareceu absorver todas as informações e quando chegou numa conclusão deu seu diagnóstico. – Parece-me mesmo que você está vendo o futuro. Parece-me também que este sonho é uma mensagem, pedindo para que você faça algo para mudar este futuro. O que você precisa fazer é descobrir onde está na hora em que deveria estar ao lado dela e com base nessa informação tomar uma atitude. Fiquei atônito. – Mas saiba de uma coisa, quando passou por aquela experiência no passado, aquela que não tem certeza até hoje se aconteceu ou não, nesta ocasião viu como certas coisas são imutáveis, por mais que tentemos fazê-las ser diferentes. E é por isso que muitas vezes não devemos interferir, pois o resultado poderá ser o mesmo, ou não, sempre é uma incógnita. E quanto ao futuro, funciona da mesma forma. Uma mudança pode desencadear toda uma série de acontecimentos inesperados. Enfim, se conseguir entrar nesse sonho, pense duas vezes antes de alterar qualquer fato. Acho que encerramos nossa consulta por aqui. Até mais!

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E sem me dar uma chance para dizer qualquer coisa, mais rápido do que surgiu, desapareceu pela porta. Fiquei um tempo pensando no que havia dito e escutado, depois fui embora, mais confuso do que quando havia chegado. Naquela noite, como na anterior, demorei muito para dormir. Fiquei imaginando um milhão de possibilidades para não estar junto com Pati naquele sonho-visão, mas todas as alternativas levavam para um beco e um medo natural começou a se apoderar de mim. Não que eu tivesse algum receio de morrer, isso não! Mas o fato de saber que essa probabilidade de alguma forma conspiraria para que ela sofresse algum acidente terrível, isso sim me machucava de um jeito que nem sei bem descrever. Ela não merecia, nem eu mesmo merecia, mas quem é que decide como todas as coisas vão ser? Lembro que uma vez perguntei isso ao doutor e ele me disse que todas as obras pertencem ao Criador. Mas infelizmente os porquês não vinham etiquetados juntos com os acontecimentos. Finalmente, após muito tentar tirar essas ideias da cabeça, adormeci. Creio que a última coisa que pensei foi em como tinha sido inútil o meu encontro com o gigante. Ao menos era o que eu pensava.

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5. EM ALGUM LUGAR DO FUTURO 31 de dezembro de 2009 Apesar de novembro ser um mês quente, costumava dormir de camiseta e sunga, com um leve lençol sobre nós. Pati sentia até mais calor do que eu e geralmente quando acordávamos estava descoberta, com o corpo belo coberto por seu pijama composto por um minúsculo short e uma camiseta cavada. Era por isso que eu muitas vezes a abraçava carinhosamente de manhã e o resultado era uma manhã coberta de amor. Mas neste dia em questão eu estremecia de frio ao despertar lentamente. Creio que um pouco devido a leve chuva que caia sobre minha pele... Sobre minha pele? Abri os olhos assustados e um céu vermelho do amanhecer cegou-me. Levei alguns segundos para me acostumar com a claridade e depois me descobri sentado num banco de uma praça, que a princípio desconheci. Tentei me levantar, mas acabei caindo sobre o joelho direito, zonzo. Algumas pessoas se aproximaram de mim me perguntando se eu precisava de ajuda. Minha voz não funcionou como eu queria, saiu somente um chiado rouco que entenderam como uma resposta positiva.

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Uma ambulância foi chamada e em pouco tempo estava tomando um frasco de soro, numa maca. Reparei que o meu estado era lamentável. Estava com uma roupa suja e rasgada que, com certeza, nem era minha, com os braços e pernas machucados e não portava nenhum documento. Um policial apareceu no quarto para onde fui levado, me perguntando sobre minha identidade. Na hora em que fui responder um pensamento surgiu em minha mente trazendo lembranças da conversa que eu tivera com o doutor na véspera, então, em vez de responder, perguntei. – Senhor policial, onde estou? – Num hospital do centro – responde ele de forma seca e prosseguiu – Nome, por favor? Respondi simplesmente que só me lembrava de acordar num banco da praça e mais nada. Fiz um teatrinho para demonstrar que estava assustado com toda essa situação, o que em parte era bem verdade. Não sei se ele engoliu a história, mas quando leu o histórico da ocorrência para minha anuência, quase dei um salto da cama e saí correndo, pois descobri que eu não tinha tempo a perder. Fiz um X trêmulo no local da assinatura e o policial se foi dizendo que voltava mais tarde, mas eu sabia que ele não iria me encontrar mais ali. Precisava agir rápido!

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Em minha mente tudo ficou claro como o sol em segundos: acontecera de novo! Eu viajara no tempo, agora para o futuro, o policial tinha lido em alto em bom tom a data e o local da ocorrência. Estava numa cidade vizinha da minha, não muito distante e sabia exatamente o que tinha de fazer. Assim que a enfermeira trouxe o café da manhã, devorei tudo apressadamente e abandonei o quarto. Consegui encontrar um vestiário médico, dei uma boa limpada no corpo, furtei algumas roupas e o pouco de dinheiro que encontrei. Após sair do hospital, rumei para a rodovia que ligava as duas cidades e, por sorte, acabei arrumando carona facilmente. Consegui chegar até a divisa e de lá segui em um circular até próximo ao centro. Se não estava enganado costumávamos caminhar por volta das 4 horas, então tinha pouco tempo para descobrir alguma coisa e ainda, quem sabe, salvar Pati.

6. NO MUNDO DOS SONHOS 31 de dezembro de 2009 O centro da cidade que eu agora observava não estava tão movimentado como de costume. Depois

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da loucura que são as compras de Natal as pessoas parecem diminuir o ritmo e guardar energias para a virada de ano. Procurei um bom local para ficar fora da visão geral, mas todo o centro era um grande largo aberto demais. Resolvi então subir para a cobertura de um velho armazém de dois andares que já estava fechado e consegui uma visão privilegiada de toda a área. Os minutos se arrastaram. Cruzei os dedos para não ter chegado tarde demais. Não levou muito mais tempo para que eu avistasse de longe minha amada Pati. Vinha rápida e solitária. Mesmo a distância eu podia notar o seu semblante triste. Queria descer voando pela escada de incêndio, a tomar nos braços e tirar toda a tristeza que a invadia. Queria, mas não faria isso, eu sabia. O gigante havia me convencido de que eu poderia causar um grande transtorno alterando a natureza das coisas, então havia decidido não surgir do nada como um fantasma e deixar tudo por conta do tempo, por mais que essa decisão me despedaçasse por dentro. Não havia descoberto exatamente por que eu não estava ali caminhando ao seu lado, mas resolvi arriscar.

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Mas então por que eu vim parar aqui neste lugar se já conheço esse roteiro de cor, da abertura do pano branco até o fim? Outra boa pergunta não! Só que esta tinha uma resposta bem simples: precisava ter certeza, uma que fosse absoluta. Mesmo sabendo que não iria me envolver no fundo do meu coração eu torcia para que ela olhasse para cima e me reconhecesse, parando ali mesmo onde se encontrava agora. Mas ela seguia desviando das pessoas em zigue-zague, como naquele meu sonho teimoso. E só olhava para frente, presa em seus pensamentos, pensando em mim, eu podia apostar minha vida nisso. Comecei a chamá-la em voz baixa, pedindo para que tomasse cuidado. Já estava longe o suficiente então comecei a falar mais alto, daqui a pouco eu gritaria, tinha certeza disso, mas meus gritos desapareceriam entre o barulho do trânsito e das pessoas à sua volta. Mas precisava agir assim, precisava dar vazão à dor que se acumulava depressa em meu interior. Ela se aproximou rápido da esquina e eu continuava a gritar alucinadamente para que ela parasse. Quando Pati alcançou a esquina, distraída como estava, virei meu rosto agora molhado pelas lágrimas que desciam sem parar, cegando meus olhos. Soltei um grito que se misturou ao dela.

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Fiquei abaixado sobre os joelhos enquanto uma confusão se formava lá embaixo. Respirei fundo e fui embora, sem olhar para trás.

7. UM VAZIO 31 de dezembro de 2009 Creio que andei cegamente por muitas horas, nem reparando nas pessoas que passavam por mim. Sem rumo, um homem perdido ou sem destino? Não sabia! Só tinha convicção de que um grande vazio tomara conta de mim, deve ser essa a sensação que se tem quando perdemos alguém que amamos muito e, se eu estava certo, não era nada fácil de aguentar. Mesmo quando minha mãe falecera há muitos anos eu não me recordo de ter me sentido assim, mas é lógico que a situação era totalmente contrária. Foi de repente, sem um anúncio num outdoor luminoso como acontecera desta vez. Não estranhei quando parei em frente a um edifício conhecido. Passei despercebido pela portaria, subi calmamente até o último andar e também não fiquei espantado ao entrar no consultório e encontrar o meu amigo doutor em sua posição clássica me aguardando, com toda a certeza do mundo.

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Fez somente um gesto com uma das mãos para que eu ficasse à vontade, o que fiz sem pensar duas vezes. Ficamos assim quietos por vários minutos, eu dentro de um vazio incalculável e o gigante, por sua vez, parecendo mais relaxado do que nunca. Como é normal acabei ficando incomodado com esta situação. – Sabia que eu viria? – Tinha uma ideia! – Nem sei como vim parar aqui! Acho que meu corpo sentiu que eu não tinha muitas opções e me guiou. E com certeza um banco de praça não é o meu local favorito para descansar... – Conseguiu encontrá-la? – Sim! – E o que fez? – Nada! Absolutamente nada! Mas agora me sinto muito arrependido, com o coração apertado demais. Será que eu agi da forma correta? – Somente o tempo poderá dizer! Como permaneci em silêncio, ele continuou o diálogo. – Descobriu o que houve de errado? – Não totalmente, mas tenho uma ideia... – E deixe-me adivinhar, não vai me contar, não é mesmo?

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– É! O senhor sabe de tudo que se passa em minha mente... – Então creio que isso é um adeus, não precisa mais de mim... – Está enganado! Posso passar a noite aqui? O gigante se levantou e me olhou lá de cima dos seus mais de 2 metros e nem se deu ao trabalho de me responder. Somente sorriu, se virou e foi embora. Um desejo enorme de dormir caiu sobre mim e o sono chegou rápido. Dormi profundamente e pela segunda noite seguida não tive o sonho teimoso, aquele que eu vira se transformar em realidade.

8. SEM UM ADEUS 01 de dezembro de 2009 Pensei que acordaria num chão duro. Eu lembrava claramente do comentário do doutor sobre tudo que era dele o acompanhar em suas estranhas jornadas, mas até que o local que eu me encontrava estava bem macio com um ambiente quente a minha volta, diferente do meu último despertar num banco duro e sob as gotas de uma chuva miúda. Um tanto escuro, já que não havia

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apagado a luz da recepção de seu consultório, mas muito confortável. Estiquei os braços devagar para não perder o equilíbrio e cair do divã, e acabei encostando suavemente a palma da minha mão em algo macio e quente, que só podia ser o corpo de outra pessoa. Procurei com a outra mão e encontrei a cordinha do meu abajur. A ignorei, virando-me e abraçando o corpo dela. Fiquei assim parado até que minhas lágrimas cessassem e o meu rosto secasse. Perdi a noção do tempo e se eu pudesse o congelaria para sempre nesse momento, mas sabia que não tinha tempo a perder se quisesse ao menos ter a chance de mudar o futuro, pois apesar do doutor Barros recomendar que isso poderia trazer consequências desastrosas, desistir não era uma opção que eu tinha em mente. Levantei com todo o cuidado do mundo e ao olhar pela janela percebi que já amanhecia. Apressei-me em tomar banho e sair, pois tinha um assunto urgente para resolver. Somente mais de uma hora depois passei pelo centro da cidade e parei num caixa eletrônico, saquei uma pequena quantia de dinheiro e voltei tranquilo para meu carro. Ao abrir a porta do lado do motorista senti uma cutucada nas costas e uma voz grossa no ouvido.

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– Que tal voltar ao banco? E por favor, fique tranquilão se não vou estragar essa sua camisa bonita, compadre. Fiz o que ele mandava. Olhei na calçada e vi o companheiro dele nos aguardando. Era mais alto e bronzeado do que eu. – Deixa as chaves comigo, compadre – mandou ele. Entreguei-lhe e entrei no banco com o outro. O movimento estava calmo e depois de sacar todo o dinheiro que o limite diário permitia, retornamos ao meu carro que já estava ligado com o outro comparsa no volante. Sentei no banco do passageiro dianteiro, agora sob a mira visível de um revólver prateado. – Não conseguimos muita coisa – disse o que estava armado. – Mas podemos arranjar mais – falou o outro – olha a pinta do compadre aí, deve ter mais grana escondida no colchão do que minha avó. Ambos riram. – Estica os braços para trás mané! – Cochichou o de trás. Pensei em dizer que não tinha muito dinheiro, pensei em tentar reagir, pensei num milhão de coisas numa fração de segundos, mas eu imaginava o que estava por vir, então somente obedeci. Depois de dizer tudo que eles queriam saber, levei de surpresa uma coronhada na cabeça e

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desmaiei. Não de uma vez, fui perdendo a consciência aos poucos. Deu tempo de lembrar novamente de como eu amava aquela mulher e de lhe pedir silenciosamente perdão.

9. A CAMINHADA 31 de dezembro de 2009 Ela vinha triste, desolada, mas fazia tudo para aparentar estar bem, apesar de não conseguir colocar um sorriso no rosto. Seus amigos a convenceram de que deveria fazer alguma coisa para tirar as tristezas da cabeça e ela finalmente cedera. Resolvera então caminhar, um percurso conhecido que sempre lhe fizera muito bem. Mas não hoje, pois estava só. Seu parceiro de caminhadas e também dono do seu coração não estava ali para fazê-la sorrir, com seus comentários engraçados sobre as lojas que ela conhecia tão bem. Se ele estivesse ali teria com toda a certeza notado as duas novas lojas que foram inauguradas dias atrás e viria com uma dezena de perguntas. Se ele estivesse ali ela certamente estaria feliz e não com a sensação de que sua vida já nem fazia sentido. E que sentido existia em chorar todas as noites sozinha no quarto. Como encontrar um

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sentido quando este não existia, ela insistia em dizer para si mesma. Desviava roboticamente das pessoas sem as enxergar, nem mesmo aquelas que lhe sorriam e desejavam um Feliz Ano Novo. Tinha pressa, queria terminar logo esta caminhada e voltar para casa, para a tristeza que se transformara o seu lar. Hoje de fato estaria talvez menos triste à noite, sua mãe, seus filhos e seu ex-marido estariam lá. Este último se mostrara mesmo um grande amigo no decorrer do mês que passou e não notara uma sequer segunda intenção em seu apoio, apesar de que talvez não estivesse em condições de notar nada, mergulhada que estava neste mar revolto que a queria tragar. Todo o seu grande equilíbrio se foi quando Jonas misteriosamente desapareceu e com o passar dos dias só continuou a se sentir cada vez pior. Nenhuma carta, nenhum pedido de resgate, nenhum corpo encontrado numa vala, nada que lhe trouxesse uma esperança, somente a dúvida e com ela o vazio... Aumentou a velocidade um pouco e os joelhos começaram a latejar numa reclamação comum devido ao esforço, mas não se importou. Continuou desviando das pessoas com suas caras felizes da mesma forma distraída. Só tinha em mente acabar logo com isso, a pior coisa que tinha feito Jonas II

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naquele dia, acabou pensando e concordando ao mesmo tempo. Devia ter ficado em casa sem fazer nada ou tentado dormir, qualquer coisa, pois o efeito daquele exercício foi totalmente inverso e a cada passo sentia ainda mais falta dele. Avistou a esquina se aproximando rapidamente e há poucos metros dela foi abordada por um homem barbudo e de boné. – Espere senhora – disse ele – Por favor, espere um pouco! Ela parou enquanto o estranho parecia recuperar o fôlego. Era um pouco obeso e parecia ter sofrido para alcançá-la. – Desculpe! A senhora anda rápido demais, não estou acostumado! Isso é para a senhora. Ela nem havia percebido que ele trazia um lindo buquê de rosas vermelhas em uma das mãos, as suas flores preferidas. – Mas de quem são? – Não sei! – Disse o entregador já recuperado – Somente sei que era para ser entregue hoje e neste lugar. Feliz Ano Novo! Ele se foi antes que ela pudesse fazer mais algum questionamento. Olhou o buquê muito bemfeito agora em suas mãos e procurou por um cartão, mas o que encontrou em meio às flores foi

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um envelope de tamanho comum, sem remetente, e ao abri-lo viu que fora escrito à mão. Seu coração deu um salto ornamental. Era a letra de Jonas! Ignorando alguns olhares curiosos, sentou-se na mureta da vitrine de uma loja que estava fechando e devorou todas as palavras da carta.

10. ENFIM UM ADEUS 31 de dezembro de 2009 “Querida Pati, peço que me perdoe por fazê-la esperar tanto por notícias minhas, mas não havia outra forma e compreenderá melhor conforme for lendo essas linhas. Lembra daquele sonho que eu estava tendo há tantas noites? Você estava certa, ele era terrível e por isso mesmo não quis lhe contar antes, mas agora não tem mais problema. Nestes sonhos eu te via caminhando onde está agora, triste, e quando chegava à esquina após as lojas, alguma coisa de ruim acontecia contigo, mas o sonho sempre acabava sem que eu tivesse coragem de saber o final. Imagine então minha angústia, dia após dia, sonhando com algo de mau lhe acontecendo.

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Entendi todos estes sonhos como um tipo de premonição, de algo que ainda aconteceria. Consegui um jeito de descobrir o que significava isso tudo, não me pergunte como e nem me tenha como um louco, não daria tempo de explicar através de poucas palavras, nem tão pouco conseguiria lhe convencer de que meu juízo está perfeito, mas o fato é que consegui e é por isso que está lendo estas linhas agora. De uma maneira difícil de explicar eu desvendei então que o sonho se passava na véspera do Ano Novo e que eu não estava contigo porque havia desaparecido no primeiro dia deste mês de dezembro, e até esta véspera ninguém tinha nenhuma notícia sobre o que acontecera comigo. Sinto lhe dizer que eu também não sei de mais nada sobre o que o destino me reservou. Mas resolvi agir desta maneira desesperada, enviando uma carta para alguém que eu achava caminhar neste lugar hoje, alguém que eu amo. Fiz isso com a intenção de que meu sonho triste não tivesse a conclusão trágica que demonstrava reservar para o seu final. Espero que um dia descubra tudo que de fato aconteceu, nosso amor não merecia terminar de uma forma tão injusta. Você principalmente não merecia. Saiba que eu te amo mais que tudo que possa imaginar e se houver uma chance de que tudo isso Jonas II

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possa ser apagado como um giz branco de uma lousa, será isso que eu farei! Se não nos vermos mais, continue sendo a mulher forte que eu conheço e tenha certeza de uma coisa: um dia em algum lugar nos encontraremos de novo e se for assim esta carta não servirá então para registrar um adeus e sim um “até logo”. Volte agora pelo caminho que veio meu amor, não corra riscos desnecessários. Não canso de dizer que te amo. Do sempre seu, Jonas 01 de dezembro de 2009.“ Ela chorou muito abraçada à carta e às flores. Depois se levantou e olhou para trás, mas virou o rosto na hora. Se houvesse algo de ruim para acontecer, então que acontecesse de uma vez! – pensou. Antes de prosseguir baixou os olhos novamente para a folha da carta e percebeu que mais uma frase havia sido rabiscada bem no final da folha. Ao ler letra por letra, sentou-se novamente.

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11. “VIRE A PÁGINA MEU AMOR” 31 de dezembro de 2009 “Querida Pati, peço seu perdão novamente por fazê-la sofrer mais um pouco, mas era necessário. Tudo que leu até agora na página anterior eram as palavras de um louco apaixonado que se agarrou a todas as esperanças do mundo para lhe salvar de algo que ele nem sabia se poderia mesmo acontecer. Tive vontade de rasgar a carta e lhe escrever esta outra bem mais simples, mas achei que as palavras que escrevi quando estava alucinado eram tão profundas que você as merecia ler. Mandei que o rapaz que lhe entregou esta encomenda buscasse para mim esta primeira carta, para que eu pudesse adicionar estas palavras, que certamente irão lhe fazer bem. Fui sequestrado no dia em que desapareci e deixado por semanas num porão imundo. Cheguei à conclusão que havia sido esquecido ali, ou deixado para morrer mesmo. Não havia como fugir e achei que certamente morreria de fome e sede, até que um dia alguém apareceu, me vendou e me abandonou numa praça de uma cidade vizinha à nossa. Isso foi hoje de manhã.

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Fui então levado para o hospital do carimbo abaixo e estou me recuperando. Pensei em fugir para lhe encher de abraços e beijos, tenho certeza que conseguiria, mas resolvi ficar aqui enquanto as autoridades confirmam a minha história. Consegui através de uma enfermeira maravilhosa fazer contato com o entregador, pois queria ser o primeiro a lhe dizer que sim, estou vivo e lhe esperando, morrendo de saudades de tudo em você. Venha voando meu amor, já sofremos demais. Esqueça tudo que leu antes, menos que aquele louco e eu lhe amamos demais. Encomendei um champanhe no gelo, venha me desejar Feliz Ano Novo logo, quero esquecer deste ano, pelo menos do último mês... Com muito amor e saudade, Jonas 31 de dezembro de 2009.” Ela pensou novamente em prosseguir até a esquina, sem perceber que voltara a chorar, mas optou por retornar, já que chegaria mais rápido até seu carro, de onde faria como ele havia pedido. Iria voando ver seu amor para esquecerem juntos todo o sofrimento que os perseguira.

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Ao retornar percebeu que a poucos metros um homem alto a observava encostado num poste de luz. Ao passar ao lado dele, a felicidade a invadiu e ela não resistiu e lhe perguntou sorrindo. – Não tem também alguma mensagem para mim? O homem pareceu surpreso. – Ah, tenho sim! Feliz Ano Novo! E enquanto ela retornava rapidamente para os braços de seu amor o homem vestido inteiramente de preto sorriu e se foi.

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I LOVE SP Roselaine Hahn Uma melancĂłlica executiva divaga a respeito de seus medos, tendo como pano de fundo a cidade de SĂŁo Paulo.


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moça do balcão, embonecada no modelito laranja madura, me consola que o voo vai atrasar só trinta minutos. Peço um pão de queijo. Credú! O preço está nas alturas. Faço o sinal da cruz e embarco no buzu aéreo. O manete do motor está devidamente posicionado para as manobras de descida; o sujeito ao meu lado abana da janelinha para um senhor de poucos dentes, sentado no sofá da sala do minúsculo apartamento, espremido em meio aos prédios que abocanham o Congonhas. Já enviei e-mail ao governador deste estado manifestando repúdio pela gabolice dos passageiros, que bisbilhotam a privacidade de lares de gente humilde e meio surda dos zunidos no céu. Clamei às autoridades a remoção do aeroporto à área digna e descampada de edifícios; aproveitei e conclamei também à redução do preço do pão de queijo. Não havia ninguém no hall à minha espera, empunhando cartaz com os dizeres “bom dia, turista, seja bem-vinda”. Sei que a gentileza não me faria melhor, assim como não o fazem os estúpidos “bom dia” do WhatsApp, mas porra, me sentiria acolhida. Despeço-me do piso xadrez de toalha de piquenique e tomo um táxi na tensa fila de humanos na saída do aeroporto. São Paulo me recebe indiferente aos meus tormentos. Todas as cidades

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são assim, arrogantes. Não pertenço a esta cidade, nem ela a mim. As pessoas fingem andar apressadas, fingem ser ocupadas, fingem ter carreiras de sucesso, correm autômatos para não serem engolidas pela terra de gigantes, pelos arranha-céus cinzentos, alheias ao burburinho da morte que as espreita diariamente. Ordeno ao sujeito do táxi para me despachar no hotel cheio de bandeirinhas na Rua Augusta, próximo à sede da pátria amada capitalista na Consolação, onde me prostituo por polpudo salário para comprar o smartphone bala, a espaçonave de quatro rodas, a casa avarandada. Assisto na empresa palestra motivacional de um cara bem motivado. Sei que esses trololós são pra gente ficar feliz e vender mais, a empresa ganhar mais, e podermos comprar mais smartphones bala, automóveis bala. Não fiquei motivada. Invejo a geração ípsilone-faceboquiana, que não titubeia em largar tudo e enfrentar umbrais, a fim de glorificar espíritos conectados com um novo mundo. Espírito de porco é a melhor definição à atitude que não tive. Mas o que fazer? Sou uma vendedora nata, disso não duvido. Sou capaz de vender qualquer coisa, como um dia fiz com a minha própria alma. O homem motivado segue falando à horda de replicantes de Blade Runner, enquanto sigo imaginando estabelecer uma conexão com esse lugar.

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Sei que a culpa é minha, não lhe dedico as melhores intenções, porque aonde vou, carrego as piores intenções. Já estive em Nova Iorque, metrópole feliz, efervescente. Não fiquei feliz em Nova Iorque. A única coisa que efervesceu em mim na Grande Maçã foi o ácido acetilsalicílico − deu uma puta enxaqueca na viagem. Da sacada do confortável quarto do hotel de bandeirinhas, vejo a praça em frente tomada pelo matagal, os bancos maltratados pela gurizada fumando maconha. Esse pessoal de pálpebra caída tem mania de ficar prensando os narizes nas praças, em plena luz do dia, não respeitam nem as senhorinhas de fino trato. Se eu fosse o prefeito, corria com esses maconheiros, despachava-os para o Uruguai e revitalizava todas as praças, deixava a grama verde-bem-verdinha, podava as árvores, abria os pulmões de São Paulo a pleno vapor. É a enésima vez que venho a São Paulo, e conheço muito pouco de sua gente. Bem, na verdade, não gosto muito de gente, gosto mais de plantas e de pão de queijo. Na verdade, tenho medo de gente, tenho medo de gente de poucos dentes, tenho medo de gente motivada, tenho medo de andar de avião, tenho medo de faltar oxigênio nessa cidade, eu tenho tantos medos... Caminho a passos lentos na calçada esburacada da Verbo Divino. Estendo olhar opaco às pessoas apressadas, de notebook na mochila, enfatiotados,

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as moçoilas empoleiradas nos saltos, uns cabisbaixos, outros entusiasmados, por certo compraram o smartphone bala. Magicamente, no cruzamento entre duas avenidas, percebo a urbe. Talvez efeito da dose cavalar de fluoxetina. E, magistralmente, percebo que a cidade me percebe. As máscaras encobrem as fraquezas, a bipolaridade, a neurastenia, a melancolia. A empresa aumentou os lucros depois da palestra motivacional, e promoveu confraternização entre os funcionários motivados no terraço do Edifício Itália. Caracas! À primeira vista da vista, fiquei enjoada; à segunda, deslumbrada. E então, de cara limpa, senti a metrópole. Já não ouvia a música sertaneja de fundo, nem via os vendedores rebolando nas calças de brim curinga muito justas, do tipo esmaga-colhões. Somente vislumbrei São Paulo. Enxerguei o horizonte, contemplei o infinito, a vida sem fim de São Paulo. As luzes, Deus do céu! As luzes me hipnotizaram, a vida pulsante da cidade que não dorme. Eu é que dormi tantos anos para ela. Executo a maior excentricidade da vida de executiva, e reprogramo a viagem de volta para o dia seguinte. Confisquei o tio do táxi e partimos a galope por campos verdejantes, avenidas montanhosas, planícies de concreto. Eu e São Paulo, a capital e eu.

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Por onde andava que não te notei? Perguntome, de braços dados, toda coquete, com São Paulo a tiracolo. Deslizo os dedos em afagos sobre o painel de fotografias amareladas no MASP, espremo os olhos no roçar do verde no parque Trianon, deleito-me na visão da torre de babel no Mercado Municipal, do croc-croc “dos pastel”, do tutti buona gente de camiseta do Palmeiras. O Parque Ibirapuera, a Catedral da Sé, a Pinacoteca, o Museu da Luz, nada me passou despercebido. O inusitado reservei para o sábado − compras na vinte e cinco de março. Conectei-me à energia dos transeuntes, andei no compasso da multidão, sem medo de gente sem dentes, sem medo de gente feliz. Retorno ao Sul amontoada de souvenires na mala; ao marido entojado um beijo apressado; ao filho amado, o presente especial – a camiseta de estampa I Love SP.

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CAPIM BRAQUIÁRIA NA ALMA DA GENTE Luiz Henrique Moreira Soares De leve no lençol que te tateia a pele fina Pedras sonhando pó na mina Pedras sonhando com britadeiras Cada ser tem sonhos à sua maneira Cada ser tem sonhos à sua maneira “Noite Severina”, Lula Queiroga, 2001


Para Adenize Franco

P

or ordem da vó Corina, vô Tião nem dormia mais em casa. Ela trancava as portas antes dele chegar da gandaia e deixava o velho lá fora, no terreiro, dormindo com as galinhas, roendo os ossos do tempo, passando o frio de vergonha, tomando vergonha na cara. Ouvia dizer que ele gastava o dinheiro da aposentadoria com pinga, que ia pra cidade e ficava correndo atrás de rapariga, dessas que dançavam no boteco do Nestor e que também não tinham limites pras coisas, igual ele. A vó, coitadinha, era mulher mais corajosa do mundo. De manhã, antes do sol despontar queimando no céu, ela amolava a foice, varria o terreiro, cantava pro silêncio com voz meio dormente e tristonha, quase sumida. A música, a melodia, a rouquidão de um mundo que não quer ser acordado, que quer ficar quietinho na cama, pezinhos encolhidos, uma vida mal dormida. Mas Dona Corina ia acordando aos poucos, varrendo e cantando canções que eu nunca tinha ouvido. Minha vó só cantava essas coisas de velho, de gente mais antiga. Tinha vezes que era só resmungo, e ela não falava nada, era só a prova viva que a vida parou de ser vida e agora era só tapera de solidão. De quando em vez começava a pigarrear, tossir as nojeiras da alma, assustava as galinhas.

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Eu tentava entender porque ela varria todo santo dia aquele bendito terreiro, a poeira levantava com o vento, levantava o vestido, mas a velha continuava cantando e recantando, sem parar. Pensava eu que varrer a poeira daquele desertão todo era pretexto de cantar pro mundo. O que ela varria, na verdade, era o desalinho que carregava no peito, esse mormaço da alma, que não deixa nada vingar. A terra desiludida é igual o coração da gente, podre, sem vontade de nascer nada. O silêncio não existe mais, nem voz, nem som, nem ronco, resmungo. Foi assim que descobri que minha vó nunca foi muda, só não era acostumada a falar que nem a gente, que é criança e gosta de tagarelar feito papagaio. Ela me disse certa vez que o desgosto acabou com o tesão dela. Eu nem sabia o que era o desgosto, eu nem sabia conceber as palavras direito... Eu achava que desgosto era só a cara feia de fome, ou bicho de pé comendo a carne do mindinho. Anos mais tarde, vi como é ruim saber o significado das palavras. Desgosto dói muito, sabe? A vó tinha razão. Eu ficava ali, sentado num tijolo ao lado da porta, com os olhos remelentos, as pernas magras encolhidinhas, encolhidinhas, sentindo o vento. A velha cantarolava e parecia que dançava com a vassoura, dançava mesmo. Era um vai-vem sem rumo, na poeira e no vento, varrendo o deserto, o terreiro da alma. Varria mais o deserto de poeira

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que os cômodos da casa de taipa. Lá dentro ficava tudo branquinho, dava até pra desenhar nas panelas. Lá fora, juntava aquela tempestade de areia, que sumia no meio do nada. O vô Tião debruçava no monte de tijolos e ficava igualzinho as panelas, juntava poeira na barba açucarada de pinga, na testa suada que o sol começava a queimar. O velho acordava com a garrafa na mão, tossindo feito um cavalo, batendo a poeira da roupa suja, reclamando qualquer coisa que eu não entendia bem. Ficava eu e ele, nós dois, olhando minha vó varrer o quintal. Eu de cá e ele de lá. Depois a vó me aparecia com os cabelos desgrenhados, parecendo bruxa, e as gotinhas de suor faziam bigode. Me mandava ir entrando, que o sol ainda não se fez inteiro, que é cedo demais pra criança sair da cama. Cedo demais. Era cedo demais para entender as coisas, era cedo demais para tentar entender essa limpeza que fazemos na alma. Deixava a vassoura do lado da porta e começava a mexer com as panelas esbranquiçadas. Eu tinha vontade é de sair rindo da cara dela. Mas ela é bicho feio. Tipo de mulher que encrenca pra vida inteira. Imagine? Não queria ficar de mal com ela, não. Tinha medo de dormir e essa coisa vir me pegar no meio da noite, puxar meus pés, roubar meu lençol, eu hein. Todo dia era assim, ritual de gente velha que tá quase caducando ou que já

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caducou. Aí ela passava um café bem ruim, muito amargo, sabe? Ficava soprando aquele negócio preto no copo, olhando pela janela, esfumaçando a cozinha inteira. Parecia até que a fumaça cheirava a terreiro varrido… Ela sentava no tijolinho ao lado da porta e fumava o cigarrinho de palha. Meu vô nem se mexia, ficava ali parado, sentado no monte de tijolos, procurando algum gole a mais de pinga, procurando a vergonha que perdeu nos bares da cidade, por baixo da saia das putas. O velho parecia ter raiva da minha vó, tinha medo nos olhos, medo e raiva, devia ser por isso que afogava na pinga, para ter mais coragem de encarar a vó, olhar na cara dela. A vó Corina pegava a foice e a enxada, saía pro meio do matão cheio de onça capinar pasto pra plantar mandioca, milho e feijão. O sol ia ardendo até a alma da gente, queimava os olhos. Eu tinha muito dó dela, sabe? Minha vó parecia homem, cabra macho pra valer. Capinava pasto, plantava mandioca, colhia feijão, matava cabrito se duvidar. Tinha até um terreirinho de cimento, com um pouco de milho pra descascar. A gente trabalha é por angústia, meu filho, por angústia. Eu também não sabia o que era essa palavra. Angústia. Parecia coisa ruim, do diabo. Ficava imaginando que isso tinha a ver com o vô, que bebia feito o capeta, que não tinha limite pras coisas. Angústia devia ser coisa de bebum, que gasta o dinheiro caçando as

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putas da cidade, enquanto deixa a família em casa, passando necessidade. Ficava esperando Corina voltar da roça. Eu só levantava pra chupar umas mexericas e depois voltava. Vô Tião também ficava lá. Parecia que também esperava ela voltar. Olhava pra mim com cara de fome e eu sempre jogava umas mexericas pra ele. Não dizia nada. E a gente ficava lá até de tardezinha. Ninguém falava ninguém gemia, nem suspirava. Depois minha vó chegava da roça, com o cabelo num desgrenhado só, com o pé descalço, vestido sujo, a mão calejada de trabalho, bebia uma água geladinha e sentava numa rede de pano que tinha lá no quintal. Ficava lá até de noite. Ninguém jantava, ninguém falava, ninguém gemia. Só eu que não entendia muito dessas coisas que aconteciam no mundo. Minha vó sabia demais. Ela falava que era muito desgosto aguentar tudo aquilo na vida, roça cheio de mato, barriga roncando, macho querendo ser bonzão, marido pinguço...

Tudo isso começou quando a irmã Luzia fugiu pro mundo, com um senhor do carro branco. Minha vó não perguntou nada, até porque não tinha costume de ficar questionando as coisas, era a mais chorona de tudo. A Luzia atravessou a porteira com malinha de mão e bolsa de pano, carregava o coração no meio das calcinhas imun-

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das. O homem estava lá, esperando no final da estrada. A gente não sabia quem era não. Eu fiquei olhando, mas não fui atrás. A vó Corina ficou na janela, desgostosa da vida, tristonha. Nos olhos não tinham lágrimas, mas eu via uma tão tristeza doída, mas tão doída, que não cabia nela. Parecia que tinha pegado lombriga de tão amargurada. Meu vô também se amargurou. Foi pra cidade e se perdeu na cachaça e nas putas. Depois voltou pra casa, querendo bater na vó, levantando a mão, cambaleando de beudo. A vó pegou a foice e ameaçou cortar a honra que o velho tinha no meio das pernas. Ela cortava toco de pé de café que era ainda pior do que osso de gente. Nunca me dê o desgosto, nunca me dê... De lá pra cá é apenas o silêncio mastigando a felicidade da gente. Silêncio não traz felicidade não, traz tristeza, amarga a vida da gente. As horas que ela ficava sentada, balançando as cadeiras na rede do quintal, as suas danças com a vassoura logo de manhãzinha, as melodias que ela cantava e que eu nunca conhecia... Tudo isso virou magreza, engessou. Velho tem disso mesmo, é só ficar triste e pronto, começa a ficar doente também. Pigarreava ainda mais, cantava ainda menos. E ficava o tempo todo deitada naquela rede de pano, com um copo de café preto na mão, soprando aquele troço e fumando o cigarrinho de palha. Nunca me dê o desgosto, nunca me dê...

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A gente aprende o significado das coisas quando menos espera. E eu aprendi, anos mais tarde, que a angústia é pior que desgosto, sabe? A maldita vai corroendo a alma da gente e quando vê já não tem mais nada. Por dentro fica aquele oco de solidão e desentendimento. O desgosto a gente dá jeito, aprende a viver com as coisas ruins da vida. Quisera eu também não aprender a aceitar as palavras e pronto, tá feito, poder não entender o significado delas. Que diacho é esse de ficar cutucando palavra, repetindo, repetindo, como se o significado fosse cair do céu? Tem mais palavra do que gente e eu não quero ter a angústia do mundo me corroendo, nem o desgosto da vida deixando a gente ranzinza. Minha vó ficou assim porque varreu demais o terreiro, ficou assim porque tomava café demais, porque esperava a irmã voltar, tomar vergonha. Mas o milho virou matão sem fim, a lavoura se perdeu no tempo. O capim braquiária tomou conta de tudo, do mundo, das palavra, da gente. Um dia, acharam a vó Corina caída lá na roça de feijão, tentando roçar o matão que alastrava, tentando salvar o fio de dignidade que ainda restava pra gente. O pé descalço, o vestido sujo de terra, as mãos calejadas de trabalho e o rosto tristonho de sempre. Disseram que o coração dela tinha parado de bater de uma hora pra outra. Eu sabia que não era assim, mentira, eu nem sabia

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como era. Minha vó tinha coração de pedra, duro, mas gostava da gente. Luzia sumiu no mundo porque é assim a vida. Meu vô arranjou homem pra Luzia e por isso a irmã teve que viver com ele. Dizia que era uma boca a menos pra encher de comida e a vó não conseguia entender essas coisas, sabe? Achava que era desgosto, muita amargura pra vida. E a angústia foi tomando conta, até que o coração se cansou e dormiu. Ela cantava pra não ficar muito triste, cantava pra tentar esquecer a escuridão que a gente vive no mundo, pra tentar esvaziar um pouco da amargura que a gente traz cheia no peito, cantava para tentar enganar o significado das coisas. Meu filho, a desgraça do mundo é o capim braquiária roubando a lavoura da gente...

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VADINHO AndrĂŠ Albuquerque O conto narra uma briga de quadrilhas de traficantes, ocorrida no denominado polĂ­gono da maconha, no Nordeste do brasil.


O

ônibus estacionou, ao final da viagem de dez horas. O relógio do terminal rodoviário marcava cinco horas e vinte minutos. Os passageiros desocupavam o carro, alguns ainda sonolentos, sem perceber o bom-dia do motorista. Ao lado do veículo, outros aguardavam a abertura dos compartimentos de bagagem, com o bilhete da viagem nas mãos. O homem moreno, de estatura mediana, tinha uma cabeleira escura, onde se insinuavam fios grisalhos. Vestia um casaco marrom de couro, aberto à altura do peito, sobre uma camisa quadriculada, entreaberta, exibindo um crucifixo. Calçava botas marrons de cano curto, empoeiradas e de saltos desgastados. Olhos castanhos, meio escondidos pelas pálpebras volumosas. Ainda sonolento, procurava o bilhete de passagem nos bolsos traseiros da calça jeans. Depois de algum tempo, resgatou sua bagagem, agradeceu ao despachante e dirigiu-se à lanchonete, transportando sua mala. Olhou ao redor. Todas as mesas ocupadas. Aproximou-se do caixa e pediu um sanduíche e um café preto grande, enquanto estendia o dinheiro e bocejava, levando a mão à boca. O caixa agradeceu. — Seu troco. Obrigado, senhor. Acomodou-se num canto mais livre, na extremidade do balcão. O café forte dissipava a fadiga e a sonolência da viagem.

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Chegavam quase à mesma hora, os ônibus com passageiros do sertão e do agreste. Depois, a dispersão para os bairros do subúrbio, destino da grande maioria. Um homem idoso desocupou uma cadeira, mas o choro da criança na mesa vizinha desestimulou – o a sentar. A sonolência deixava-o impaciente, até o café restaurar-lhe o ânimo e a lembrança do irmão, atrasado mais de meia hora. Checou o celular e olhou ao redor. Nada de Roberto. A criança e sua mãe desocuparam a mesa. Tomou da mala e sentou. Relaxava, estirando braços e pernas, após a viagem de mais de quinhentos quilômetros, numa poltrona que mal lhe permitira mover os pés. Um rapaz aproximou-se da sua mesa, com uma bandeja de café, suco de laranja e dois sanduíches. Olhava em torno e percebeu a cadeira vizinha desocupada. Pediu licença e sentou-se. Era alto, musculoso, pele clara, olhos inexpressivos, encimados por sobrancelhas aparadas, um corte de cabelo semelhante ao de um jovem cantor americano, idolatrado pelas adolescentes, cujo nome não conseguiu lembrar. Trajava uma calça caqui de grife, camiseta preta com uma frase em inglês e tênis de solado reforçado, com detalhes dourados. — Tudo bem? Desculpe a intromissão, mas isso aqui está parecendo mais um formigueiro.

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— Essa hora, parece que todos os ônibus do interior chegam juntos. — Pois é, estou aguardando um tio que vem de Petrolina e o ônibus vai atrasar. Saí de casa ás quatro da matina para recebê-lo e até agora, nada. — Saiu o aviso no alto-falante. Parece que o ônibus quebrou perto de Lagoa Grande. — Caraca. São quase setecentos quilômetros e o celular não consegue contato. — E a empresa de ônibus? — O guichê ainda está fechado. — Esses caras são muito folgados. — Dizem que apenas uma empresa faz essa linha. Não tem concorrência, daí fazem o que querem. — O dono dá uma ajuda nas campanhas eleitorais e fica tudo bem. — É mesmo? O senhor é daquela área? — Sou, mas tenho uma casa em Recife. Estou sempre viajando de ônibus. — De Petrolina para cá? — Não, de Santa Maria da Boa Vista. Cento e oito quilômetros a menos. — Tô ligado. Parece que os japoneses plantam uva por lá. — Isso mesmo. Enchendo o rabo de dinheiro. E o seu tio? Que faz da vida?

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— Tem uma roça de melancia. Coisa pequena. Mais pra matar o tempo que ganhar dinheiro. Aposentou-se, ficou viúvo e se mandou. — Que não é da minha conta, como é o nome dele? Pode ser que eu o conheça. — É conhecido como Zé Albino. — A roça dele é perto da cidade ou na zona rural? — Olha, eu nem sei dizer direito. Nunca estive lá. Mas não deve ser distante da cidade, não. Toda semana ele vai tomar cachaça em Juazeiro da Bahia. — A vida noturna lá é bem melhor. Petrolina é mais pra ganhar dinheiro. Á noite, é meio devagar. E só uma ponte separando as duas. — O senhor mora aqui há muito tempo? — Uns quinze anos de vai e vem. — Também esperando alguma pessoa? — Meu irmão. Atrasado quase uma hora e celular desligado ou fora de área. — Parece que estamos em situação parecida. — E você, o que faz da vida? Trabalho numa empresa de cobranças, tipo Serasa. Gosta do que faz? — Nem sempre. Mas é o meu emprego. Não tenho do que me queixar.

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— O que tem de caloteiro por aí, não é fácil. — Tem aqueles clientes mais fáceis de lidar e os mais difíceis. — Uma profissão como outra qualquer. O seu tio sente falta daqui? — Que nada. Tira sempre um mês de férias, em dezembro. — E as melancias, vende tudo por lá mesmo? — Acho que não. Uma parte vem para o Ceasa de Recife. — Então, não seja modesto. Não é uma roça tão pequena. — Desculpe, esse tempo todo conversando e nem sei seu nome. — Misael de Lima, seu criado. — Robson Augusto. Prefiro ser chamado de Robson. Apertaram-se as mãos. — Seu tio tem algum empregado? — Alguns. Na época do plantio acho que contrata mais gente. Temporários. — Robson, a conversa está ótima, mas já se passou uma hora e nada do meu irmão. Acho que vou pegar um táxi. — Fica frio, seu Misael. Com os engarrafamentos e a telefonia móvel daqui, nem sei como

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conseguimos trabalhar na rua. Ele não tem telefone fixo? — Tem, mas mora sozinho. Já liguei duas vezes e ninguém atende. Roberto deve estar preso em algum engarrafamento. Alguma área fora da cobertura do celular. Vou até ao banheiro tirar água do joelho e trocar de roupa. — Isso ninguém pode fazer pela gente. Ainda. Retornou, após quinze minutos. — É, a situação tá enrolada mesmo. Vou pegar um táxi. — Não esquenta, seu Misael. Acho que meu tio não chega nem tão cedo. Ele conhece a cidade e eu preciso trabalhar. Posso lhe dar uma carona. — Robson , fico muito grato, mas estou indo para a Imbiribeira. Um sorriso largo, de dentes perfeitos. — Imbiribeira? Sem problema. Meu destino é Boa Viagem. Vamos nessa. Quer ajuda com a bagagem? — Obrigado. Não precisa, dá pra levar numa boa. Um Honda Civic acomodou Misael e sua mala. Tomou a direção do anel viário, acessando a zona sul. Som potente ligado, o pagode rolando na caixa. Robson curtia, batucando no volante. O percurso de mais de trinta quilômetros, vencido em menos de vinte minutos. Estava na Imbiribeira, ás

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sete e quarenta. Nas proximidades do aeroporto, Misael pede para dobrar á direita, na avenida principal. — Robson, sem abusar de sua bondade você poderia ir até o próximo quarteirão? — Sem problemas. Entraram numa rua deserta, ocupada por galpões velhos e mal conservados. Robson reduz a marcha, ao sentir o cano da pistola contra sua cabeça. — Encosta no portão do galpão noventa e três e buzina duas vezes, seu filho da puta escroto. — Que é isso, tá louco, meu irmão? — Louco um caralho. E você é quem vai dizer o que fez com o meu irmão. Um homem alto, moreno e magro abre o portão. Robson pálido, o carro adentrando o galpão quase deserto. — Meu amigo, se quer o carro, pode pegar. Juro que não sei de porra nenhuma do que você tá falando, juro. Uma coronhada e um supercílio aberto, sangrando. — Jair, fecha bem esse troço e vamos conversar com esse rapaz. Galpão fechado, Robson é retirado do carro com o cano da pistola ás costas.

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— Senta ele aí e amarra bem. Esse sujeito é perigoso e frio como uma cascavel. Pega o maçarico lá na oficina. Vamos dar um trato nesse bacana. — Seu Misael, pelo amor de Deus… juro que não sei de nada. A bofetada ecoou pelo galpão. — Seu nome é tão Robson quanto o meu é Misael, seu viado assassino. Desembucha. Onde está Roberto, seu filho da puta? Antes de mais nada, qual o seu nome? Dá logo o serviço, nojento. — Cara, não tenho nada a esconder, meu nome é esse mesmo. Veja no meu RG. A gargalhada nervosa: — RG? Quantos você quer, seu assassino de merda? Tenho nove, numa gaveta lá dentro. Tá pensando que eu sou o que? Que nasci ontem à noite? Você tá falando com Vadinho do Coque, seu imbecil! Jair liga o maçarico e aguarda, ao lado da cadeira. — Vejo que fez a barba hoje. Mas olhando de pertinho sua cara lisa, vejo que tem alguns cravos e pelos pequenos, aqui perto da orelha. Não é mesmo Jair? Jair concorda, com a cabeça. Enquanto empunha o maçarico, Robson é amordaçado com uma flanela.

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— Óxido de acetileno. Ótimo remédio para a memória. Cura até Alzheimer. Fogo nele, Jair. A pequena língua de fogo passeia pela face de Robson e chamusca a mordaça. Um grito abafado de dor. Vadinho suspende a mordaça. — Vai cantar a pedra ou não vai, seu viadinho? Silêncio e lágrimas. A face em carne viva. Tira a mordaça, faz uma bola de flanela que empurra na boca de Robson. — Bom, agora é cabelo e barba. Vamos nessa que é bom à beça. O maçarico lambe a testa e a face, pela esquerda. Robson balança a cabeça. A chama forma outra ferida no seu rosto. — Jair, dá um tempo. A ficha do nosso amigo ainda não caiu. Vadinho coça a cabeça. — Olha seu pistoleirinho nojento, você quase que me convence que era um sujeito tranquilo, até inventar o tal do seu tio, que tira férias no tempo de colheita de melancia e não no da plantação, mesmo tendo produção até pra vender no Ceasa. Conheço todos os roceiros de melancia de Cabrobó a Petrolina, porque minha fachada para comprar minha mercadoria é revendendo peças para máquinas de irrigação, tá ligado? Um olhar assustado. Vadinho, sussurrando.

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— Você tá sabendo disso, porque não vai sair vivo daqui, independente do que rolar. Cara, ralei muito e puxei muita cadeia pra chegar até aqui e ser queimado por um pistoleiro débil mental e incompetente. Robson sacode a cabeça. Jair arranca-lhe a flanela da boca. Um jorro de fúria. — Incompetente um caralho! Vadinho continua. — Todos têm um ponto fraco. O teu é a vaidade. Incompetente, sim. Quem vai assinar tua demissão sou eu e não a Serasa que te contratou. Ouviu, Carlinhos de Tuparetama? Robson/Carlinhos em silêncio. — Teu mandante, o Jéferson Magrão, sabe que tou investindo a grana da erva no refino da coca. Aí, ele vai dançar feio. Os malucos vão querer a melhor, pura, sem sal de frutas, feito o lixo que ele vende, sacou? Você matou meu irmão porque era muito parecido comigo e estava no meu carro. Foi com essa nove milímetros que Jair pegou agora, no cofre do teu carro, número de série limado e tudo o mais. Tirou a arma do bolso e esfregou no rosto ensanguentado. — A arma é minha, mas não matei seu irmão! — Você é muito burro, cara. Pensei que merecia um matador mais gabaritado e não um cagão feito

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você. E as três balas faltando no pente? Você matou o Roberto no caminho da rodoviária, percebeu a merda e foi me pegar no terminal. Sua burrice não seria tão grande a ponto de deixar o corpo no meu carro, não é mesmo? —Cagão é a puta que o pariu. — Jair, nosso amigo não tem cara de pau, tem de amianto. Pega a marreta no balcão. Essas pernas musculosas vão ficar sem utilidade até no inferno. Carlinhos, furioso. — Vadinho, não fui eu, cara! Jair entrega - lhe a marreta. — Tira esse sacana da cadeira e amarra ele deitado no chão. Braços e pernas afastados. Vou brincar com ele de Robocop Um. Jair, pena que não posso usar a calibre 12, feito os caras do filme. Ia ser um barulhão. Jair, coçando a cabeça. — Vou precisar de quatro estacas para cravar no chão. Vadinho, irritado. — Então anda, te vira. Tá achando pouco? — Vadinho, quem matou teu irmão foi Amaro Guaru. Eu nem conhecia Roberto. Um direto no queixo. Carlinhos cospe dois dentes.

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— Burro e desinformado. Amaro Guaru foi apagado ontem pela manhã, na feira de Bezerros, seu puto mentiroso! Falei com meu irmão da rodoviária de Santa Maria, ás sete da noite. Você cagou-se porque nesta semana resolvi inverter as coisas. Eu trabalhei de mula e Roberto ficou aqui. Aproxima-se Jair, com quatro pedaços de vergalhão. Carlinhos é desamarrado da cadeira e imobilizado no chão, pernas e braços afastados. Jair, sussurrante: — Pena eu não ter uma daquelas máquinas de matar boi e cavalo. Era só encostar na testa dele e acionar o botão. — Você é médium, Jair? Como esse sacana falaria depois de morto? O primeiro golpe foi no joelho direito. Um urro de dor. Carlinhos movimenta a cabeça e perde os sentidos. O segundo golpe não parece incomodálo. Jair palpa-lhe a carótida e os pulsos. — Acho que parou. E agora? Vadinho, meditativo. — Estranho. Bati no joelho e o cara teve uma convulsão. Jair, apreensivo. — Deve ter batido com a cabeça no chão, mesmo bem amarrada… será? Dizem que dor muito forte também mata. Vadinho, olhando ao redor:

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— Entregou o serviço, mesmo na hora da morte. — Porra, Vadinho. O cara estrebuchou e morreu. E mais nada. Eu vi. — Não, ele apontou para o lado direito com a cabeça. Na direção do carro. Dê uma olhada na mala. Não tenho culhão pra isso. No interior da mala, o corpo ainda quente de Roberto, amarrado e amordaçado. O rosto tranquilo e azulado pela asfixia, voltado para baixo. Em cada perna e na mão direita, um diminuto ferimento de raspão.

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Ecos 8  

8ª Edição da revista de contos Ecos.

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