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“A política remocionista provocou drásticas mudanças na vida de milhares de pessoas [...]. Entre 1962 e 1973, quase 140 mil pessoas foram removidas e transferidas para conjuntos habitacionais. Os impactos foram profundos: redes sociais desfeitas e a proximidade do local de trabalho, que propiciava uma economia significativa com o transporte, não existiam mais [...]. A política remocionista não considerou a voz, o sentimento, nem a própria vida dos moradores das áreas ocupadas [...]. O grau de objetividade das remoções foi tamanho que o próprio critério para a distribuição das pessoas – por conjuntos e apartamentos – levou em conta a condição econômica de cada uma e nada mais [...]. Os conjuntos eram distantes de tudo e, para piorar, de péssima qualidade” (SILVA; BARBOSA, 2005, p. 47-48).

No governo de Chagas Freitas (1971-1973), iniciou-se o refluxo da política de remoção. Foram várias as razões: o governo militar acabara com as eleições diretas para governador e criara um colégio eleitoral, baseado no Legislativo Estadual, para sua eleição. O colégio eleitoral da Guanabara foi o único do país que possuía um governo de oposição. Na verdade, Chagas Freitas atuou em clara colaboração com o autoritarismo e subordinado às instâncias federais. Mas, com rara habilidade política, construiu um sistema de troca de favores, sustentado em uma espécie de clientelismo, conhecido posteriormente como “Chaguismo”. O estado foi dividido em zonas de influência controladas por políticos locais, numa réplica do coronelismo (SOUZA SILVA, 1995, p. 66). Nesse sistema, as necessidades dos moradores da cidade, principalmente dos setores populares, foram usadas como moeda de troca para o favorecimento político e econômico dos políticos “chaguistas”. A manutenção das favelas em suas áreas originais garantia a perpetuação da força do político local, mas não havia a preocupação em regulamentar a propriedade do solo a favor dos moradores das “ocupações ilegais”. Logo, manteve-se o velho objetivo: o controle sobre essas populações, agora sob o peso da permanente coerção do regime de exceção.

02 // Riqueza, pobreza e desigualdade na cidade capitalista

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Memória e Identidade dos Moradores de Nova Holanda  

O livro “Memória e Identidade dos Moradores de Nova Holanda” faz parte de um projeto mais amplo e ambicioso: apresentar a história e memória...

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