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Assustados com o crescimento da capacidade de organização e mobilização popular e o impacto que isso causava na hegemonia do território urbano, sobretudo no contexto das radicalizações políticas conjunturais do início da década de 1960, consolidou-se um movimento anti-favelas, protagonizado pelo jornalista Carlos Lacerda, primeiro governador eleito do estado da Guanabara (1960-1965). Certamente a perspectiva de uma distribuição do espaço urbano, claramente balizada pelo interesse do mercado imobiliário sobre os solos mais valorizados,também motivou esse movimento. Caberia então direcionar a ocupação do subúrbio à indústria e às classes mais pobres. Experimentando uma maior autonomia para a solução dos problemas internos da cidade devido à transferência da capital para Brasília, o governo de Lacerda lançou o Programa de Remoção das Favelas, que tinha como objetivo oficial transferir a população das comunidades para conjuntos habitacionais a serem construídos pela COHAB-GB (1962-1975) – agência habitacional encarregada de administrar os conjuntos que eram financiados pela USAID (United States Agency for International Development). Com a justificativa de atender a demanda habitacional da população de baixa renda, Lacerda, na verdade, pretendia alavancar o crescimento econômico gerado pela construção civil e pela especulação imobiliária, o que pôde ser observado na cobertura das remoções pelos periódicos da época:

“A Secretaria de Serviços Sociais do Estado inicia a transferência de 120 famílias da Favela Piraquê, na Lagoa, para a Cidade de Deus. A ação faz parte do projeto de saneamento da Lagoa e também integra o Plano Geral de Erradicações de Favelas da Zona Sul da cidade. Na semana seguinte, a SEPE fará publicar o edital de concorrência para a venda de 10 lotes da antiga Praia do Pinto a preços de NCr$ 1.300,00 [cruzeiros novos] o metro quadrado. A SURSAN também inicia as obras das vias projetadas para a área, construindo redes de esgotos e drenagens” (Jornal do Brasil, 1960 – Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro sob a identificação: cx. n. 241.1, artigo 385).

02 // Riqueza, pobreza e desigualdade na cidade capitalista

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Memória e Identidade dos Moradores de Nova Holanda  

O livro “Memória e Identidade dos Moradores de Nova Holanda” faz parte de um projeto mais amplo e ambicioso: apresentar a história e memória...

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