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A precarização e periferização urbana da população pobre no Rio de Janeiro

Para entendermos em que perspectiva se dá a relação entre a população pobre e a cidade, no Rio de Janeiro, é preciso primeiro considerar que, no âmbito das relações sociais modernas, o valor de troca atribuído à moradia se sobrepõe ao valor de uso associado a esse bem. Tratada como mercadoria, a moradia é posta em circulação associada à outra, a terra, valorizada a partir de beneficiamentos diversos. O acesso a ambas é determinado, então, pelo potencial de compra do consumidor, em primeira instância. Em decorrência disso, as contradições inerentes ao modo de produção capitalista, bem como as desigualdades que o caracterizam, expressam-se na produção do espaço urbano e geram disputas por sua ocupação e uso. Sobretudo a partir da configuração do welfare state no período pós-Segunda Guerra Mundial e em consonância com as exigências de reorganização do capitalismo naquele contexto, o Estado passou a exercer papel relevante na mediação de interesses divergentes impressos no território, interferindo ativamente na produção do espaço, apoiando suas ações em dispositivos legais referentes ao acesso, ao uso e à comercialização da habitação e da terra (FERNANDES, 2007). Segundo Abreu (1987) no Brasil o processo de concentração de renda ocorreu em tal proporção que excluiu do mercado formal grande parte da população, já que o segmento de baixa renda não possuía poder de compra capaz de gerar rentabilidade que interessasse ao setor privado de produção de moradias. Como o Estado brasileiro foi historicamente incapaz de mediar essas disputas de forma a atenuar a desigualdade, as favelas, dentre outras formas de apropriação irregular do solo, constituíram-se como solução de moradia criada por esse segmento da população (ABREU, 1987; ZALUAR; ALVITO, 1999 apud FERNANDES, 2007, p. 3). Fernandes (2007) considera que o déficit de moradia para a população mais pobre acentuou-se de tal maneira que se imprimiu à paisagem dos grandes centros urbanos a imagem inconteste de uma sociedade marcada por contradições socioeconômicas profundas, às vezes considerada à beira do caos social.

02 // Riqueza, pobreza e desigualdade na cidade capitalista

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Memória e Identidade dos Moradores de Nova Holanda  

O livro “Memória e Identidade dos Moradores de Nova Holanda” faz parte de um projeto mais amplo e ambicioso: apresentar a história e memória...

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