Page 28

Por isso, questões como as representações construídas pelos moradores sobre o que é ser um “favelado” – sua identidade, a produção cultural local, os hábitos, as relações familiares, as relações econômicas, as redes de ajuda mútua entre vizinhos e parentes próximos – precisam ser exploradas para que tenhamos um quadro mais rico sobre a Maré e, por conseguinte, sobre as favelas e sobre a cidade do Rio de Janeiro. Justamente aí reside a novidade do trabalho, ou seja, os temas, reflexões e necessidades nascem a partir do olhar dos próprios moradores e são examinados a partir da fala deles, de sua ótica, de suas interpretações, de suas memórias. Isso torna mais complexa e rica a visão sobre a favela, abre novas perspectivas para entender a memória de grupos historicamente marginalizados do processo de autorrepresentação e, ao mesmo tempo, nos permite entender a constituição de identidades que também compõem a alma carioca e mantêm, por vezes, uma relação tensa com outras identidades no Rio de Janeiro. Abaixo faremos uma rápida apresentação sobre o que entendemos por memória, identidade e favela. Não pretendemos e nem temos espaço para esgotar tais conceitos e já de início advertimos que eles, em absoluto, não são consenso entre os estudiosos. Por isso, o que fizemos foi procurar sintetizar de uma maneira mais simples os conceitos trabalhados ao longo do livro. No que concerne à memória, muitos autores já trabalharam com ela, mas há duas definições que se complementam e que nos parecem pertinentes ao trabalho que pretendemos desenvolver. Assim, uma primeira definição é sobre a natureza da memória. Seguindo o que nos apresenta Halbwachs (2006), toda memória é coletiva, não existe memória que seja puramente individual. Só há lembrança quando nos tornamos seres sociais e partilhamos valores e crenças com outros indivíduos, ou seja, quando estamos imersos na cultura e partilhamos coisas em comum com pessoas e grupos que nos rodeiam. Por isso, nossas lembranças nunca são apenas nossas, pois, mesmo nos momentos em que estamos sozinhos, o que temos, na verdade, é uma gama de significados dados por outras pessoas e outras lembranças que nos ajudam a moldar e dar sentido à nossa memória.

26

memória e identidade dos moradores de nova holanda

Profile for Mórula Editorial

Memória e Identidade dos Moradores de Nova Holanda  

O livro “Memória e Identidade dos Moradores de Nova Holanda” faz parte de um projeto mais amplo e ambicioso: apresentar a história e memória...

Memória e Identidade dos Moradores de Nova Holanda  

O livro “Memória e Identidade dos Moradores de Nova Holanda” faz parte de um projeto mais amplo e ambicioso: apresentar a história e memória...

Profile for morula
Advertisement