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Desse modo, ao longo de muitos anos de produção acadêmica sobre as favelas, consolidou-se uma imagem que consagrou determinadas representações como referência para os agentes sociais na atuação nas favelas. Dentre essas representações, as mais emblemáticas afirmavam a favela como o lugar da ausência e da carência (SILVA; BARBOSA, 2005), da falta da lei e da ordem; como o lugar da violência, mas, principal e sinteticamente, a ideia de que a favela não era a cidade. Na verdade, de acordo com essa visão, a favela é um território estranho – e mesmo inimigo –, o avesso da cidade, onde seus moradores, dependendo de quem os olha, podem ser considerados como “pobres coitados”, vítimas passivas das circunstâncias ou, ao contrário, pessoas coniventes com toda a sorte de delitos e crimes. De ambas as visões, o que temos é uma perspectiva equivocada que não reconhece as pessoas que moram nas favelas como cidadãos. Elas habitariam um território à parte, fechado, com leis e regras próprias, onde a cidadania não funcionaria. Obviamente, tal perspectiva não reconhece a complexidade, a diversidade e as relações dialéticas que os moradores estabelecem no seu cotidiano, entre si e com os outros espaços da cidade. O problema é que justamente esse modo de ver e interpretar orienta as ações do poder público, de agentes da sociedade civil e do mercado, em suas relações com as favelas e seus moradores. Um exemplo clássico: as habitações construídas pelos moradores das favelas sempre foram alvo de crítica, não apenas por sua alegada insalubridade, mas principalmente por fugir das normas de uso correntes na chamada “cidade formal”. Muitos projetos arquitetônicos elaborados pelos governos, quando direcionados às favelas, não levam em conta ou deixam escapar deliberadamente aspectos funcionais e culturais importantes para os moradores. É o caso da utilização da laje das casas, por exemplo. Muitos projetos simplesmente abolem as lajes e não levam em conta que nas favelas elas são convertidas em espaço de socialização – festas, encontros, reuniões, lazer para as crianças etc. – ou de construções futuras por parte dos herdeiros. Elas ainda podem adquirir valor de troca, gerando renda extra, ao serem vendidas a outras famílias.

01 // A favela como questão para a cidade do Rio de Janeiro

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Memória e Identidade dos Moradores de Nova Holanda  

O livro “Memória e Identidade dos Moradores de Nova Holanda” faz parte de um projeto mais amplo e ambicioso: apresentar a história e memória...

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