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Mulheres como Maria Amélia Belfort – removida da Praia do Pinto em 1962 –, pioneira na organização dos primeiros movimentos pela garantia de direitos básicos na Nova Holanda. Ela serviu e ainda serve de inspiração para outras mulheres, como pôde ser constatado em alguns relatos apresentados aqui. Exemplo maior da importância da atuação das mulheres foi a do “Grupo de Mulheres” e a posterior criação da Chapa Rosa. Como vimos, na disputa pela Associação de Moradores, a atuação das mulheres foi fundamental para a derrota da Chapa Azul, ligada aos poderes do Estado. Basta dizer que dos 20 integrantes da diretoria que se formou a partir da Chapa Rosa, 14 eram mulheres. Talvez isso explique a escolha da cor e do nome da chapa. Cabe ainda lembrar que a presidente da nova diretoria era uma mulher que havia se formado no movimento desencadeado pelo Grupo de Mulheres, a jovem Eliana Souza Silva. Outro fato digno de nota foi a constante mobilização dos moradores. Várias instituições comunitárias foram criadas a partir das lutas políticas empreendidas pela população local para resolver problemas que o Estado não levava em consideração. Essas lutas tinham um caráter eminentemente mobilizador e conseguiram envolver uma parcela considerável dos moradores nas discussões e decisões que precisavam ser encaminhadas. Mesmo aqueles que, como vimos em alguns relatos, não se envolveram diretamente nas ações sabiam que havia uma movimentação pela garantia de direitos básicos. Por isso, mesmo com o refluxo do movimento popular – reflexo da conjuntura dos anos 90 – na Nova Holanda, podemos considerar que ele produziu efeitos valiosos sob vários pontos de vista. Esse movimento conquistou enormes benefícios para a comunidade, forjou lideranças, e criou referências que marcaram e ainda marcam a identidade dos moradores. Referências, como a participação ativa das mulheres, a criatividade na resolução de problemas, a tenacidade, a solidariedade, o apego afetivo ao território – na maioria dos casos, os entrevistados não fazem referências à Maré como um todo e, sim, à sua “comunidade” – e a superação de adversidades advindas da condição de migrante e trabalhador pobre, compõem um quadro que certamente integra e define, em grande medida, a identidade dos moradores da Nova Holanda.

// Considerações finais

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Memória e Identidade dos Moradores de Nova Holanda  

O livro “Memória e Identidade dos Moradores de Nova Holanda” faz parte de um projeto mais amplo e ambicioso: apresentar a história e memória...

Memória e Identidade dos Moradores de Nova Holanda  

O livro “Memória e Identidade dos Moradores de Nova Holanda” faz parte de um projeto mais amplo e ambicioso: apresentar a história e memória...

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