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Esse é uma dos aspectos mais importantes de nosso estudo: a reelaboração das memórias e a criação dos discursos que dão sentido à vida na Nova Holanda nos mostra que foi sendo construída uma nova identidade – a partir da formação de redes sociais novas –, mesmo que de uma forma inconsciente. Quando chegaram à Nova Holanda, os novos moradores traziam consigo muitas lembranças dos lugares de onde vinham e essas lembranças, em muitos momentos, se confundem com as de Nova Holanda. Os depoimentos orais nos permitem observar algumas indicações importantes acerca da(s) identidade(s) que se constituíram ao longo do tempo na Nova Holanda e que será compartilhada a partir de uma série de referências externas e internas. Podemos citar, por exemplo, a relação tensa que mantiveram com a questão da violência. Quase todos os moradores entrevistados, afirmam que a violência era bem menor e que procuravam formas de conviver com essa questão. Fazendo coro com o “censo comum”, alguns criminosos eram vistos como benfeitores, pois não deixavam acontecer roubos às residências e às pessoas, o que, em alguns casos, os confundia com “protetores” da comunidade. O interessante é observar que os relatos sobre a violência abrangem o período inicial da Nova Holanda, não havendo praticamente referências à situação atual. Essa omissão tem valor para nosso estudo, pois mostra o quanto as pessoas têm receio de falar no aumento evidente do crime e da violência – incluindo a policial – na favela. Em muitos casos, os entrevistados pediram para que essa questão fosse “pulada” ou que as ponderações feitas sobre o tema não entrassem nos registros. Como fica claro, a convivência forçada com a violência não pode ser confundida com conivência. O que as pessoas foram obrigadas a fazer foi encontrar um modus vivendi para continuar com suas vidas. É óbvio que isso tem um preço traduzido muitas vezes de forma trágica na perda de algum ente querido, de um vizinho ou de conhecidos. Outras vezes as marcas da violência ficam gravadas no corpo por meio de doenças geradas pela tensão, pelas “balas perdidas”, pelo medo e pelo sentimento de impotência. Por outro lado, uma referência positiva que nos chega da história e das memórias da Nova Holanda é a atuação das mulheres.

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memória e identidade dos moradores de nova holanda

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Memória e Identidade dos Moradores de Nova Holanda  

O livro “Memória e Identidade dos Moradores de Nova Holanda” faz parte de um projeto mais amplo e ambicioso: apresentar a história e memória...

Memória e Identidade dos Moradores de Nova Holanda  

O livro “Memória e Identidade dos Moradores de Nova Holanda” faz parte de um projeto mais amplo e ambicioso: apresentar a história e memória...

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