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favela era grande, só que com barraco de tábua. Da minha família, tinha mais dois irmãos, além de uma tia que morava lá também. Mas vieram pra cá também. Moravam aqui nos fundos, aqui nessa outra rua. Lá tinha mineiros, gente do estado do Rio. Todo mundo ajudava um ao outro. Não tinha negócio de confusão com ninguém, nem tinha bandido armado, não tinha nada. Tudo legal. Tu não via um vivente daquele fumando na rua, maconha. Não via, não. E respeitavam um ao outro. Sobre a remoção, foi porque deu uma enchente em 1958 e alagou aquilo tudo e perdi até a primeira página da minha carteira profissional, porque o barraco encheu d’água. A salvação foi que tinha um morador lá que tinha um barraco, que tinha um segundo andar, e acomodou a gente tudo pra lá até a água baixar. Mas a água invadiu as casas todas. Muita gente perdeu muita coisa. Aí, Carlos Lacerda começou a construir isso aqui. Aí, logo a associação de lá, uma associaçãozinha lá, avisou que a gente vinha para cá. Começaram a fazer o aterro. Isso aqui tudo era maré. Maré enchia, enchia tudo aqui. Começaram a aterrar e eu, quando vim para cá, ainda não tinham aprontado ela [a Maré]. Ainda faltava botar luz, água, calçada... Não tinha calçada aí na rua, não era asfalto, era barro! De manhã cedo, só via nego com um balde d’água, com uma criança atrás, até a mulher mesmo ia junto com ele, com o marido, ia levando um balde d’água e um pano pra ele enxugar os pés, que lavava lá na Avenida Brasil, se calçava e ia trabalhar. A lama dava no meio da canela, o barro. Porque... como ia pisar na lama calçado? Era um barro vermelho aqui, só você vendo. Chovia, pronto, acabava a graça aqui. E quando fazia sol era aquela poeira de barro... Era um sofrimento aqui. Depois botaram paralelepípedo e daí botaram o asfalto. Em 1961, já tinha a Light. Tinha uma associação já, de morador, que a gente pagava um trocado. Não tinha relógio ainda, não tinha nada. Tinha um cara que tomava conta lá da sede, o seu Ezaquiel, e se não pagava aquela taxa, ele ia lá e cortava a luz. Aí, o cara pagava, ele ia lá e ligava de novo. Quando estourava um transformador, queimava um fusível, a gente fazia vaquinha pra comprar outro. A diversão na época era pouca. Não tinha forró naquela época, não.

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memória e identidade dos moradores de nova holanda

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Memória e Identidade dos Moradores de Nova Holanda  

O livro “Memória e Identidade dos Moradores de Nova Holanda” faz parte de um projeto mais amplo e ambicioso: apresentar a história e memória...

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