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Experimentações gráficas. Nesta edição: Ofertório ao vivo; disco de Caetano, Zeca, Moreno e Tom veloso; Alegria, alegria; Reconvexo; O seu amor; Boasvindas; Todo homem; Clarão; Tentar voltar; Genipapo absoluto. Issue #01 Primeiro semestre de 2018

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Bernardo Laureano obranred

Bernardo Laureano é um fotógrafo e videomaker atualmente em Amsterdam. Graduado em design gráfico pela PUC-Rio, Bernardo foca em composição e auto-expressão para desenvolver seu trabalho pessoal e comercial. Laureano trabalha com fotografia digital e analógica.

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akegria, alegria


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Alegria, alegria Por que nĂŁo? 9

akegria, alegria


Caminhando contra o vento sem lenço e sem documento no sol de quase dezembro, eu vou. O sol se reparte em crimes espaçonaves, guerrilhas em cardinales bonitas, eu vou. Em caras de presidentes em grandes beijos de amor em dentes, pernas, ban- Por entre fotos e nomes sem livros e sem fudeiras, bomba e zil sem fome, Brigitte Bardot. sem telefone no O sol nas bancas coração do Brasil. de revista me enEla nem sabe até che de alegria e pensei em cantar preguiça quem lê na televisão o sol tanta notícia, eu é tão bonito, eu vou. vou. Sem lenço, sem documenPor entre fotos e nomes os olhos cheios de cores, to nada no bolso ou nas mãos eu o peito cheio de amores vãos, eu quero seguir vivendo, amor. Eu vou. vou. Por que não, por que não? 10

Ela pensa em casamento e eu nunca mais fui à escola. Sem lenço e sem documento, eu vou. Por que não, por que não? Eu tomo uma Coca-Cola. Ela pen- Por que não, por que não?

Por que não, por que não?

sa em casamento. E uma canção me consola, eu vou. alegria, alegria


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alegria, alegria


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Reconvexo Eu sou a sereia que dança a destemida Iara água e folha da Amazônia. Eu sou a sombra da voz da matriarca da Roma Negra você não me pega você nem chega a me ver. Meu som te cega, careta, quem é você? Que não sentiu o suingue de Henri Salvador que não seguiu o Olodum balançando o Pelô e que não riu com a risada de Andy Warhol que não, que não e nem disse que não. Eu sou um preto norte-americano forte com um brinco de ouro na orelha eu sou a flor da primeira música a mais velha a mais nova espada e seu corte eu sou o cheiro dos livros desesperados sou Gitá Gogóia seu olho me olha mas não me pode alcançar não tenho escolha, careta, vou descartar quem não rezou a novena de Dona Canô quem não seguiu o reconvexo


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mendigo Joãozinho Beija-Flor quem não amou a elegância sutil de Bobô quem não é Recôncavo e nem pode ser reconvexo. Eu sou um preto norte-americano forte com um brinco de ouro na orelha eu sou a flor da primeira música a mais velha a mais nova espada e seu corte eu sou o cheiro dos livros desesperados sou Gitá Gogóia seu olho me olha mas não me pode alcançar não tenho escolha, careta, vou descartar quem não rezou a novena de Dona Canô quem não seguiu o mendigo Joãozinho Beija-Flor quem não amou a elegância sutil de Bobô quem não é Recôncavo e me deu você me dá aconteceu sem nem pode ser reconvexo. esperar o sol nasceu e a lua lá. O coração temeu mas aprendeu a se Lábio de mel Flor do luar você me entregar lárá lárá ah. deu o céu e o mar dedo de Deus êre mauá Marapendi e paquetá. Gosto muito de te ver, leãozinQuando te vi, nem sei eu me en- ho caminhando sob o sol. Gosto contrei noutro lugar lárá lárá ah. muito de você, leãozinho para Tudo isso é meu sempre será você desentristecer, leãozinho o meu coração tão só. Basta eu encontrar você no caminho um filhote de leão, raio da manhã arrastando o meu olhar como um ímã o meu coração é o sol pai de toda a cor quando ele lhe doura a pele ao léu gosto de te ver ao sol, leãozinho de te ver entrar no mar. Tua pele, tua luz, tua juba gosto de ficar ao sol, leãozinho de molhar minha juba de estar perto de você e entrar numa gosto muito de te ver, leãozinho caminhando sob o sol gosto muito de você, leãozinho. reconvexo

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o seu amor


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O seu amor ame-o e deixe-o livre para amar, livre para amar. Livre para amar. O seu amor ame-o e deixe-o ir aonde quiser, ir aonde quiser. Ir aonde quiser O seu amor ame-o e deixe-o brincar, ame-o e deixe-o correr, ame-o e deixe-o cansar, ame-o e deixe-o dormir em paz. O seu amor ame-o e deixe-o ser o que ele ĂŠ. Ser o que ele ĂŠ.

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boas vindas


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Boas vindas ela é gostosa

Sua mãe e eu, seu irmão e eu. E mãe do seu irmão. Meus irmãos e eu, minha mãe e eu. E os pais da sua mãe. E a irmã da sua mãe lhe damos as boas-vindas, boas-vindas, boas-vindas. Venha conhecer a vida eu digo que ela é gostosa. Tem o sol e tem a lua. Tem o medo e tem a rosa eu digo que ela é gostosa.

Eu digo que ela é gostosa tem o sol e tem a lua, tem o medo e tem a rosa eu digo que ela é gostosa. Tem a noite e tem o dia a poesia e tem a prosa eu digo que ela é gostosa. Tem a morte e tem o amor e tem o mote e tem a glosa eu digo que ela é gostosa.

Eu digo que ela é gostosa. Sua mãe e eu. Seu irmão e eu. E a Tem a noite e tem o dia a poe- mãe do seu irmão. sia e tem a prosa. Eu digo que ela é gostosa tem a morte e tem o amor e tem o mote e tem a glosa. Eu digo que ela é gostosa. Eu digo que ela é gostosa. Sua mãe e eu, seu irmão e eu irmão da sua mãe, e a irmã da sua mãe. Lhe damos as boas-vindas, boas-vindas, boas-vindas. Venha conhecer a vida. boas vindas

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todo homem


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Todo homem

Precisa de uma mãe O sol, manhã de flor e sal e areia no batom. Farol, saudades no varal vermelho, azul, marrom. Eu sou cordão umbilical, pra mim nunca tá bom e o sol queimando o meu jornal minha voz, minha luz, meu som.

areia no batom. Farol, saudades no varal vermelho, azul, marrom. Eu sou cordão umbilical, pra mim nunca tá bom e o sol queimando o meu jornal minha voz, minha luz, meu som.

Todo homem precisa de uma Todo homem precisa de uma mãe. Todo homem precisa de uma mãe. Todo homem precisa de mãe. O céu, espuma de maçã baruma mãe. riga, dois irmãos. O meu cabelo negra lã nariz, e rosto, e mãos. O O céu, espuma de maçã barriga, mel, a prata, o ouro e a rã cabeça e dois irmãos. O meu cabelo negra coração e o céu se abre de manhã lã nariz, e rosto, e mãos. O mel, me abrigo em colo, em chão. a prata, o ouro e a rã cabeça e coração e o céu se abre de manhã Todo homem precisa de uma me abrigo em colo, em chão. mãe. Todo homem precisa de uma mãe. Todo homem precisa de uma Todo homem precisa de uma mãe. mãe. O sol, manhã de flor e sal e Todo homem precisa de uma mãe. todo homem

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Clarão infinito

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Há um clarão infinito que posso enxergar de vez em quando, me perco num pensamento qualquer que me devolve ao lugar onde ficamos bem perto. [V2: Caetano Veloso] Havia um calmo mistério plantado no ar que se deitava nos dias. Dia através de um abraço veio a certeza de ter a infinita alegria. Já não havia motivos pra eu me preocupar o sol nascia bonito e através da manhã, nós fomos o despertar de um amor impossível. clarão


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tentar voltar


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Tentar voltar cadê o mar?

[Verso 1: Tom Veloso] O sorriso meu procurando um beijo seu água que vai rolar pelo meu olhar. Tarde pra chegar tarde pra deixar de amar nuvem que vai deitar sobre esse lugar. O mar se perdeu, o ar, terra, noite está. Cadê o mar? Nada vai chegar tendo que tentar voltar longe do céu de lá esse seu olhar o mar se perdeu, o ar, terra, noite está. Cadê o mar? Nada vai chegar tendo que tentar voltar longe do céu de lá esse seu olhar

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A tua presença entra pelos sete buracos da minha cabeça, a tua presença pelos olhos, boca, narinas e orelhas, a tua presença. Paralisa meu momento em que tudo começa, a tua presença. Desintegra e atualiza a minha presença, a tua presença envolve meu tronco, meus braços e minhas pernas, a tua presença é branca verde, vermelha azul e amarela.

tua presença é tudo que se come, tudo que se reza. A tua presença aoagula o jorro da noite sangrenta, a tua presença é a coisa mais bonita em toda a natureza, a tua presença mantém sempre teso o arco da promessa, a tua presença morena, morena, morena, morena, morena, morena, morena.

A tua presença é negra, negra, negra, negra, negra, negra , negra, negra, negra, a tua presença transborda pelas portas e pelas janelas, a tua presença silencia os automóveis e as motocicletas. A tua presença se espalha no campo derrubando as cercas, a 64

A franja na encosta cor de laranja, capim rosa chá. O mel desses olhos luz, mel de cor ímpar o ouro ainda não bem verde da serra, a prata do trem alua e a estrela, tentar voltar

anel de turquesa. Os átomos todos dançam, madruga, reluz neblina crianças cor de romã entram no vagão o oliva da nuvem chumbo ficando pra trás da manhã.


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E a seda azul do papel que envolve a maçã as casas tão verde e rosa que vão passando ao nos ver passar os dois lados da janela. E aquela num tom de azul quase inexistente, azul que não há azul que é pura memória de algum lugar teu cabelo preto, explícito objeto, castanhos lábios ou pra ser exato, lábios cor de açaí. E aqui, trem das cores, sábios projetos, tocar na central e o céu de um azul celeste celestial. Teu cabelo preto, explícito objeto, castanhos lábios ou pra ser exato, lábios cor de açaí e aqui, trem das cores, sábios projetos, tocar na central e o céu de um azul celeste celestial. tentar voltar


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És um senhor tão bonito quanto a cara do meu filho tempo, tempo, tempo, tempo vou te fazer um pedido. Tempo, tempo, tempo, tempo compositor de destinos tambor de todos os ritmos tempo, tempo, tempo, tempo. Entro num acordo contigo, tempo, tempo, tempo, tempo Por seres tão inventivo.

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E pareceres contínuo tempo, tempo, tempo, tempo és um dos deuses mais lindos tempo, tempo, tempo, tempo que sejas ainda mais vivo no som do meu estribilho tempo, tempo, tempo, tempo ouve bem o que te digo. Tempo, Tempo, Tempo, Tempo peço-te o prazer legítimo e o movimento preciso tempo, tempo, tempo, tempo. Quando o tempo for propício tempo, tempo, tempo, tempo de modo que o meu espírito ganhe um brilho definido tempo, tempo, tempo, tempo.

E te ofereço elogios Tempo, Tempo, Tempo, Tempo Nas rimas do meu estilo A tua presença entra pelos sete buracos da minha cabeça, a tua presença pelos olhos, boca, narinas e orelhas, a tua presença. Paralisa meu momento em que tudo começa, a tua presença. Desintegra e atualiza a minha presença, a tua presença envolve meu tronco, meus braços e minhas pernas, a tua presença é branca verde, vermelha azul e amarela. A tua presença é negra, negra, negra, negra, negra, negra , negra, negra, negra, a tua presença transborda pelas portas e pelas janelas, a tua presença silencia os automóveis e as motocicletas. A tua presença se espalha no campo derrubando as cercas, a tua presença é tudo que se come, tudo que se reza.

E eu espalhe benefícios tempo, tempo, tempo, tempo o que usaremos pra isso fica guardado em sigilo tempo, tempo, tempo, tempo apenas contigo e comigo tempo, tempo, tempo, tempo.

A tua presença aoagula o jorro da noite sangrenta, a tua presença é a coisa mais bonita em toda a natureza, a tua presença mantém sempre teso o arco da promessa, a tua presença morena, morena, morena, morena, morena, moreE quando eu tiver saído para na, morena. fora do teu círculo tempo, tempo, tempo, tempo não serei nem A franja na encosta cor de laranja, terás sido tempo, tempo, tem- capim rosa chá. O mel desses olpo, tempo. Ainda assim acredi- hos luz, mel de cor ímpar o ouro to ser possível reunirmo-nos ainda não bem verde da serra, tempo, tempo, tempo, tem- a prata do trem alua e a estrela, po num outro nível de vínculo anel de turquesa. Os átomos todos tempo, tempo, tempo, tempo dançam, madruga, reluz neblina Portanto peço-te aquilo crianças cor de romã entram no tentar voltar


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vagão o oliva da nuvem chumbo ser exato, lábios cor de açaí. ficando pra trás da manhã. E aqui, trem das cores, sábios projetos, tocar na central e o céu E a seda azul do papel que en- de um azul celeste celestial. volve a maçã as casas tão verde e rosa que vão passando ao nos Teu cabelo preto, explícito obver passar os dois lados da janela. jeto, castanhos lábios ou pra ser E aquela num tom de azul quase exato, lábios cor de açaí e aqui, inexistente, azul que não há azul trem das cores, sábios projetos, que é pura memória de algum tocar na central e o céu de um lugar teu cabelo preto, explícito azul celeste celestial. Alguém objeto, castanhos lábios ou pra cantando longe daqui.

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Alguém cantando longe, longe Alguém cantando muito Alguém cantando bem Alguém cantando é bom de se ouvir Alguém cantando alguma canção A voz de alguém nessa imensidão A voz de alguém que canta A voz de um certo alguém Que canta como que pra ninguém 70

A voz de alguém Quando vem do coração De quem mantém Toda a pureza Da natureza Onde não há pecado nem perdão

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Doughnut concept by anna morgado photography by obranred

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Genipapo

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Como será pois se ardiam fogueiras, com olhos de areia quem viu. Praias, paixões fevereiras não dizem o que Junhos de fumaça e frio. Onde e quando é genipapo absoluto meu pai, seu Tanino, seu mel prensa, esperança, sofrer prazeria, promessa, poesia, Mabel.

Cantar é mais do que lembrar é mais do que ter tido aquilo então mais do que viver do que sonhar é ter o coração daquilo. Tudo são trechos que escuto, vêm dela pois minha mãe é minha voz como será que isso era este som que hoje sim, gera sóis, dói em dós. Aquele que considera a saudade de uma mera contraluz que vem do que deixou pra trás. Não, esse só desfaz o signo e a rosa também.

Um Passo À Frente 82

Samba em dia de chuva Exagera alguma coisa Faz da dupla muito mais Passa um frio na espinha Pelo calor da palmada Move a moça e o rapaz Ela sorri com a barriga Ele corteja a preferida Amor, a gente é muito mais O samba é roda sem medida A chuva agora é colorida E a harmonia se refaz Quando vão pela avenida Levam qualquer incerteza É um passo à frente, um passo atrás Pega na barra da saia Tomara que caia A barra da saia Tomara que saia Sambando eu vou Minha imperfeição é a voz da vez

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Editorial project for the photographer OBRANRED. Graphic experimentation of his work and Caetano Veloso's album "Ofertório".

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Editorial project for the photographer OBRANRED. Graphic experimentation of his work and Caetano Veloso's album "Ofertório".

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