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2º CICLO – ATLAN E ÁRCON VOLUME 18 P-85 - 89


O Herdeiro do Universo

Escola de Guerra Naator

O Herdeiro do Universo

O Herdeiro do Universo

A Chave do Poder

Volume 85

Volume 86

As Cavernas do Sono O Herdeiro do Universo

O Caso Columbus Volume 88

Volume 87 O Herdeiro do Universo

A Grande Hora de Gucky Volume 89 2


Escola de Guerra Naator A Chave do Poder As Cavernas do Sono O Caso Columbus A Grande Hora de Gucky

2º Ciclo – Atlan e Árcon Volume 18 Episódios: 85 - 89 de 50/99

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Nº 85

De Clark Darlton Tradução

Maria M. Würth Teixeira Digitalização

Arlindo San

Revisão e novo formato

W.Q. Moraes

Seus disfarces são perfeitos — porém um cadáver pode pôr tudo a perder...

A descoberta da espaçonave arcônida acidentada na Lua, foi ponto de partida para a unificação política da Humanidade. Hoje, a Terra tornou-se centro de um império... o Império Solar! O novo império — minúsculo em comparação com as numerosas outras potências cósmicas — subsistiu unicamente devido às inteligentes jogadas de Perry Rhodan e de seus colaboradores. No grande jogo galáctico, impediram que a Terra desaparecesse num inferno de destruição atômica, ou fosse degradada à condição de colônia de Árcon. E a sorte costuma ser fiel a quem se mostra capaz... Confiando nesta sorte, Perry Rhodan traça o ousado plano de penetrar, com um grupo de combatentes terranos, até a central de seu maior oponente, o robô regente! Porém antes que os “Recrutas de Árcon” — designação sob a qual os especialistas terranos foram alistados, após terem se radicado no planeta dos zalitas — possam efetivamente se aproximar do cérebro-robô, a fim de executar sua ação destruidora, espera-os a Escola de Guerra Naator. 4


Em Zalit, o almirante arcônida Calus representava seu povo. Homem capaz e inteligente, mas ao mesmo tempo cruel e implacável, quando se tratava de executar as ordens do cérebro-robô. O gigantesco sol vermelho estava alto no céu, Era sobre este arcônida que se concentrava o ódio dos brilhando sobre a paisagem desértica. Os raros arbustos zalitas. davam pouca sombra. O solo arenoso elevava-se A sentinela solitária no alto da montanha desviou o gradativamente, passando a um trecho pedregoso, de onde olhar do horizonte leste, onde ficava sua cidade natal se erguia abruptamente a massa montanhosa. Vista do Tagnor. Perscrutou o deserto próximo, sem constatar leste, era difícil perceber-se alguma brecha na extensa qualquer movimento suspeito. Alguns animais pastavam cordilheira; no entanto, havia vales, pelos quais ao pé da montanha, onde crescia um pouco de capim. transitaram em tempos pacíficos as caravanas comerciais. Encontrava-se num platô circundado por um muro Caravanas modernas, evidentemente, com tratores de baixo. Uma saliência rochosa acima dele oferecia boa esteira, e pesados transportes de carga. cobertura. Não raramente, planadores arcônidas passavam Porém em Zalit, quarto planeta do sol Voga, não em voo rasante por ali, à procura de possíveis desertores. reinava paz. Também não havia guerra. Mas a simples O zalita sorriu sarcasticamente. Seu grupo tivera muita proximidade do sistema Árcon bastava como ameaça. E sorte até então. Compunha-se de cerca de duzentos três anos-luz não eram lá grande distância... homens em idade militar. Reunidos pelo acaso, tinham O reino estelar dos arcônidas, governado por um decidido permanecer juntos até os imenso cérebro-robô, necessitava de arcônidas abandonarem Zalit. Personagens principais soldados. Ia buscá-los nos mundos Estremeceu ao ouvir um ruído na deste episódio: coloniais, que não ousavam opor-se à trilha rochosa, mas logo se tranquilizou. exigência. E Árcon reforçava sua já Devia ser o revezamento. Chefe regular Perry Rhodan — Administrador poderosa frota bélica, a fim de atacar um não existia no grupo; coesão e atividades do Império Solar. planeta distante e desconhecido, a mais eram ditadas pelo senso comum. No de trinta mil anos-luz. Mas o nome deste Jeremy Toffner — Agente entanto, Cagrib, que vinha substituí-lo, planeta não era desconhecido: Terra! cósmico da Terra. teria sido o candidato mais elegível ao Inúmeros esconderijos espalhados posto de chefe, caso pensassem em Roger Osega — Valente sargento pela superfície de Zalit abrigavam os escolher um. terrano. homens válidos, evadidos dos grupos de — Satisfeito por me ver? — busca arcônidas. Ali viviam e esperavam. perguntou Cagrib, surgindo por detrás dá Rhog — Um zalita que mata o Ignoravam quando lhes seria possível homem errado. rocha. Com um olhar certificou-se de que retornar aos lares, mas tinham tempo. tudo estava em ordem. — Espero que o Amigos forneciam os alimentos, e o Bóris — Médico ara. tempo não lhe tenha parecido longo desconforto da prisão voluntária lhes demais, Rhog. Vários membros do Exército de parecia mais aceitável do que os campos — Não a céu aberto — declarou o Mutantes. de treinamento arcônidas, em algum solitário vigia, sacudindo a cabeça; gesto mundo ignoto. que em Zalit significava o mesmo que na Não estavam interessados na guerra dos arcônidas. longínqua Terra. — Enquanto fizer bom tempo... Nem ousavam rebelar-se abertamente, conscientes de — Temos novas notícias — interrompeu o outro. — que sua débil frota espacial não tinha chance alguma Calus acaba de fazer novo pronunciamento. contra as supernaves de Árcon. Afinal, como combater O almirante dos arcônidas falava quase diariamente, contra os robôs que as tripulavam? Além disso, não através de todas as estações de televisão de Zalit, podiam confiar no Zarlt. Privado de outra opção, o regente anunciando novas e drásticas medidas destinadas a atingir já idoso procurava entender-se com os arcônidas. os objetivos desejados. No cume mais elevado, um jovem estava de sentinela. — Dizem que agora até homens maduros devem se Tinha o habitual cabelo cor de cobre dos zalitas, e a pele apresentar. Ninguém está mais a salvo deles. vermelha. Suas roupas folgadas pareciam grandes demais Rhog disse, com amargura: para ele. Dali avistava amplo trecho do deserto; à — Nós estamos seguros. Mas será que apenas isto nos distância, a quinhentos quilômetros, ficava Tagnor, a agrada? Contentar-se em ver nosso povo dominado, e os capital do planeta. jovens serem arrastados para a escravidão? Por que não Mas Tagnor estava ocupada pelos arcônidas com seus fazemos alguma coisa? robôs. No espaçoporto haviam instalado o centro de — O quê? — perguntou Cagrib, desanimado. — Acha mobilização dos conscritos para o serviço militar. Dali, os que assassinar o tal Calus resolveria? Mencionou isso certa recrutas seriam levados para Árcon, onde era feito o vez. Mas certamente mandariam outro, ainda mais cruel e treinamento final. impiedoso. Que ganharíamos com a troca?

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Rhog debruçou-se sobre o muro. — Não sei, realmente não sei... Mas revolto-me com a inatividade forçada. Algo precisa ser feito, nem que seja apenas para provar a nossos compatriotas que não estão sós. Cagrib fitou o céu luminoso. Lá longe, no horizonte, formavam-se algumas nuvens, prenunciando chuva. — Calus, então...? É, talvez devêssemos eliminá-lo, realmente. Vou falar com os outros a respeito. Não será difícil enviar um dos nossos a Tagnor... — Eu vou! — ofereceu-se Rhog, prontamente. Porém Cagrib recusou. — Não, Rhog, você é esquentado demais. Seria preso, e quem passa pelo psicodetector dos arcônidas é incapaz de manter-se calado. Aguarde, precisamos pensar nisso com calma. Rhog acenou, e encaminhou-se para a trilha que conduzia ao esconderijo nas cavernas. Sabia que uma revolta estava se iniciando. Finalmente, cessara o período de espera ociosa. Iam começar a agir! No entanto, nem suspeitava de que o grupo se preparava para cometer a espécie de erro que poderia vir a ser responsável por uma ulterior catástrofe. *** E o grupo tornou a errar quando, após longa confabulação, indicou justamente Rhog para executar o planejado atentado. Era quem melhor conhecia Tagnor, e saberia onde esconder-se. Afirmava, além disso, dispor de boas relações no palácio do Zarlt, onde amigos seus faziam parte da guarda do regente. Através deles, poderia obter valiosas informações acerca da movimentação diária do almirante. Porém o erro capital residia no fato de quererem eliminar o maior amigo de Zalit. Coisa que os renitentes ao serviço militar não podiam saber, evidentemente; guiavam-se apenas pela lógica, mas na presente situação o pensamento lógico não era suficiente. Precisaram de um dia inteiro para modificar a aparência externa de Rhog. Se bem que velhice não garantiria zalita algum das garras da comissão de recrutamento arcônida... No entanto, um homem jovem despertaria muito mais suspeita. Sem mudar o nome, alteraram o passe de Rhog, registrando nele idade e sinais característicos muito mais adequados a seu avô do que a ele próprio. A viagem para Tagnor representava dificuldade adicional. Inviável usar o trem pneumático subterrâneo, sujeito a controle permanente: Rhog seria fatalmente descoberto. E os rebeldes não dispunham de um único veículo. Portanto, só restava o caminho das caravanas, duzentos quilômetros ao sul. Ali, Rhog teria possibilidade de arranjar carona. — Vai ter que andar! — constatou Cagrib, objetivamente, sacudindo a cabeça. — Será que aguenta o

esforço? Infelizmente não podemos arriscar nosso planador; só temos este, e representa a única ligação com as outras cidades. — Podiam deixar-me perto de Tagnor — sugeriu Rhog. — E perder o avião? — Cagrib sacudiu novamente a cabeça. — Além disso, diriam com sua pista mais depressa. Não, tara de seguir mesmo pelo caminho mais árduo. No meio de uma caravana, poderá entrar sem ser notado na cidade. Não vejo outra possibilidade. Rhog conformou-se. Tinha que conformar-se, ou corria o risco de lhe tirarem o encargo. E ele fazia questão de ser o libertador de Zalit e de seu povo; eliminaria o tirano com suas próprias mãos. Três dias depois do breve diálogo no cume da montanha, Rhog pôs-se a caminho. Um viajante solitário, com escassas provisões. Rumou para o sul, onde ficava o vale entre as montanhas, ponto de passagem obrigatório das caravanas comerciais. Num raio de duzentos quilômetros, era a única passagem existente. À direita, a quinhentos quilômetros, ficava Tagnor. À esquerda, por trás dos picos das montanhas, e além do deserto, ficava Larg. Rhog possuía amigos nesta cidade, porém ignorava o atual paradeiro destes confrades. Talvez já estivessem a caminho de Árcon... Ajuda...? Não, não podia contar com ajuda, e era melhor não esperar nem contar com nada neste sentido. Dependia exclusivamente de si mesmo. O sol avermelhado surgiu por trás das montanhas, e avançou rapidamente pelo firmamento. A sacola de mantimentos pesava. Porém mais ainda pesava a pequena arma em seu bolso. Preferira não indagar a Cagrib como fora parar em seu poder. Fabricação arcônida, provavelmente. O minúsculo depósito energético no cabo bastava para dois ou três mortais disparos. Depois disso, a pistola de raio filiforme se tornava imprestável, caso faltasse cartucho de reposição. E não havia nenhum! À direita, o deserto se estendia até o horizonte. Parecia interminável. E, no entanto, além dele ficava a maior cidade de Zalit, com trinta milhões de habitantes, e o mais amplo espaçoporto do planeta. Rhog contornava de perto a montanha, a fim de acobertar-se instantaneamente no caso do aparecimento de uma patrulha aérea arcônida. Com alguns passos, poderia sumir entre as pedras. Teria sido melhor caminhar durante a noite; dificilmente poderia perder-se caso seguisse sempre ao longo da cordilheira. Mas à noite também circulavam por aí os sanguinários haracks, feras carnívoras muito usadas na arena de lutas. Vira, certa vez, um daqueles monstruosos felinos despedaçar um gladiador. Desde então, passou a detestar a arena. Chegou o meio do dia, depois a tarde. Rhog escolheu uma das numerosas cavernas para pernoitar. Segundo seus cálculos, percorrera bem quarenta quilômetros naquele dia. Mais quatro — ou três quem sabe — e alcançaria o objetivo. Então lhe bastaria ir andando 6


pela estrada das caravanas, sempre para o leste, e não tardariam a recolhê-lo. Ninguém lhe perguntaria o que ia fazer em Tagnor. E não precisava recear ataques arcônidas ali, em pleno deserto. Adormeceu, mas acordava agitado, diversas vezes. Julgava ouvir ruídos. Por fim o céu clareou diante da boca da caverna. Rhog preparou uma refeição simples, antes de reencetar a caminhada. Fascinava-o a ideia de transformarse no herói de seu povo, livrando-o do impiedoso almirante arcônida. Mesmo que lhe custasse a própria vida... Percorreu mais de sessenta quilômetros durante o dia, e sentiu que necessitaria de um período de descanso mais prolongado. Senão sofreria uma estafa. Consequências da inatividade: faltava agora o preparo físico. Quando se dispôs a procurar uma caverna, já havia escurecido. Mas o trecho era bastante desfavorável, e não aparecia nenhuma. Só rocha a pique, elevando-se a centenas de metros de altura. Rhog foi tateando a parede, na esperança de dar com alguma cavidade protetora que lhe permitisse dormir, sem correr o risco de ser devorado pelos haracks. À sua direita, os derradeiros reflexos do sol-posto se esvaíam no horizonte. As primeiras estrelas brilhavam debilmente, e não havia lua. Rhog estacou. Aquilo não fora um ruído? Certamente não se tratava de nenhum engano. Um rugido abafado, garras arranhando a pedra...? Imóvel, de costas contra a pedra, ficou à escuta. A arma deslizou para sua mão quase automaticamente. “Antes desperdiçar uma das preciosas cargas energéticas do que ser vitimado por alguma fera carniceira”, pensou. Reinava total silêncio, e a escuridão aumentava. Dentro em pouco, finda a passagem do dia para a noite, a luminosidade aumentaria. Voga, o sol de Zalit, ficava quase no centro da Via Láctea. Incontáveis estrelas constelavam o céu noturno, despendendo luz suficiente para distinguir sombras vagas. Não se ouvia o menor som. Portanto, devia realmente ter-se enganado. Rhog seguiu adiante. A mão esquerda corria de leve sobre o paredão, incrivelmente parelho. Nem sinal de caverna. Devia ter procurado abrigo para a noite mais cedo. Sabe-se lá por quanto tempo ainda teria que continuar procurando agora?! Quando a mão subitamente deixou de encontrar resistência, e tateou no vazio, quase caiu. Transferiu o peso do corpo para a perna direita, conseguindo equilibrar-se. O paredão sumira, para recomeçar cinco metros adiante, e prosseguir a perder de vista. Mas ali havia uma abertura... Rhog já nem esperava mais achar alguma caverna, ou pelo menos uma pequena gruta. Ajeitou a mochila, e introduziu-se na estreita fenda. Logo percebeu que não era tão estreita assim, e mais extensa do que esperara. O

afastamento inicial, que era de quatro metros entre as paredes laterais, crescia cada vez mais. Dali a instantes, não se via mais parede alguma, apesar da claridade crescente. Reconheceu então a vasta planície enclausurada entre as montanhas, rodeadas de altos paredões rochosos. Erguendo a cabeça, viu o recorte circular do céu, recamado de milhares de estrelas. O vale media, aproximadamente, quinhentos metros de diâmetro. E a pouca distância dele brilhava uma fogueira! Devia arder dentro de uma caverna, pois podia distinguir apenas vultos imprecisos. Rebeldes? Zalitas que se recusavam servir na guerra? Rhog sentiu-se invadido por uma súbita esperança. Esquecendo toda a cautela, encaminhou-se para o fogo crepitante. Sem dúvida, aquela turma achara ótimo esconderijo! Ele próprio só dera com a entrada do vale por puro acaso. A sua direita, sombras se destacavam das rochas. Pareceram-lhe familiares. Regulares demais para serem confundidas com simples pedras. E de repente compreendeu de que se tratava. Veículos que transportavam mercadoria através do deserto, com evidente economia sobre as dispendiosas tarifas aéreas! Fora parar no acampamento de uma caravana. “Uma caverna aqui, tão ao norte? O grande vale entre a cordilheira ainda fica a cem quilômetros para o sul”, refletia Rhog. “Por que uma caravana se afastaria tanto dele apenas para pernoitar?” Havia algo de estranho com aquela caravana! Porém precisava acautelar-se apenas contra os arcônidas, e nunca contra as autoridades de Zalit. Se bem que, atualmente, nem estas mereciam confiança total. Tinha de descobrir do que se tratava, e, para isso, só havia um meio. Com a mão direita crispada em torno do cabo da pistola, esgueirou-se na direção da fogueira, ainda semiencoberta pelas saliências rochosas. Uma ordem enérgica às suas costas, dada em voz alta, fê-lo estremecer e parar. — Quieto, e mãos para cima, meu amigo! É perigoso demais aproximar-se sorrateiramente da fogueira de um acampamento em plena noite, sem primeiro se anunciar. Lentamente, com muito cuidado, Rhog retirou a mão direita vazia do bolso, e ergueu-a junto com a esquerda. Alguém se aproximou dele pelas costas, tirando-lhe a pistola. — Muito bem, amigo. E agora gostaríamos de saber quem é que anda passeando pelo deserto durante a noite. Trate de ir preparando uma resposta plausível. Ande, venha comigo! Aos tropeções, Rhog caminhou para a caverna onde brilhava o fogo. *** 7


A cidade de Tagnor assemelhava-se a um campo de guerra. Por todo lado viam-se patrulhas-robôs arcônidas. Quem não podia apresentar o certificado emitido pelas comissões de alistamento era inevitavelmente detido. Poucos homens circulavam pelas ruas. A maioria de transeuntes era composta de altas e esbeltas mulheres zalitas. À direita da larga rua que levava ao palácio em forma de funil do Zarlt, ficava a arena. Estava deserta e abandonada. Há muito tempo não se realizavam espetáculos nela. No entanto, Garak esforçava-se visivelmente para arranjar animais selvagens e gladiadores para os jogos. Acabava de regressar de Larg, onde tratara de alguns assuntos que certamente interessariam bastante o Almirante Calus. Inteiramente satisfeito consigo mesmo e com Zalit, Garak dirigiu-se para seu esconderijo, nas catacumbas da arena. Examinou os arredores cautelosamente antes de desaparecer no largo corredor em declive, entrada para seu mundo subterrâneo. Estava escuro, e teve que acender sua lanterna portátil, a fim de não errar a entrada. Finalmente viu-se diante da porta secreta. Indício algum na rocha lisa revelava sua existência. Porém, sob a pressão da mão espalmada, um painel de pedra deslizou para o lado. Uma onda de luz envolveu Garak, enquanto a porta tornava a cerrar-se às suas costas. Encontrava-se num vasto recinto escavado na pedra, subdividido em nichos por muretas baixas. Diversos zalitas aguardavam-no com expressão esperançosa. — E então, Toffner...? Que foi que conseguiu? O homem não falava o habitual idioma zalita, ligeira variação do arcônida, e sim o inglês. De repente Garak passou a chamar-se Toffner. E Toffner era agente cósmico da Terra. — Tudo bem até aqui, major. Nosso amigo em Larg, Hhokga, organizou uma caravana que cruzara o deserto para chegar até a capital. Com nossos passes, teve facilidade em recrutar voluntários. A caravana partiu anteontem, e deve alcançar a caverna hoje. Teve de seguir pelo vale e, depois cem quilômetros para o norte, desviarse. Espera por nós no pequeno vale entre as montanhas. O Major Rosberg, especialista em transmissores de matéria do serviço de defesa do Império Solar, acenou, satisfeito. — Ótimo! Minha mensagem hiper-radiofônica para a Califórnia seguiu ontem. O cruzador entregará o material pedido amanhã de manhã, hora da Terra, que será, casualmente, idêntica à hora de Zalit. Com estas poucas palavras, o major sintetizava um amplo programa, não desprovido de riscos. Apesar de a Califórnia emergir da transição apenas por um minuto — prazo mais do que suficiente para ligar seus cinco transmissores de matéria e despachar o material — este único minuto podia ser catastrófico. O espaço em torno de Zalit estava bloqueado pelas naves arcônidas.

No fundo do recinto subterrâneo, “algo” se moveu e chegou para perto. Este “algo” media um metro de altura, possuía pelo marrom, tinha a aparência de um enorme rato, além de uma larga cauda de castor. O ente postou-se diante dos dois homens, piando com voz aguda: — Então deve estar na hora de ligar a estação receptora do transmissor na caverna, não é? O Major Rosberg e Toffner acenaram simultaneamente. — Certo Gucky — confirmou Rosberg ao estranho ser que falava tão corretamente o inglês. — Porém podemos esperar até amanhã cedo. Então você poderá saltar em companhia dos três homens. Referia-se às qualidades teleportadoras de Gucky. O rato-castor era ainda telepata e telecineta. A rigor, vinha a ser o mais versátil mutante do Império Solar, fato do qual se envaidecia desmedidamente. Gucky empinou as enormes orelhas, exibiu o dente roedor num sorriso amistoso, e voltou com seu andar bamboleante para o canto do recinto subterrâneo. Toffner acompanhou-o com um olhar divertido. — Perderíamos um bocado de tempo se não tivéssemos Gucky — constatou. — E tudo seria muito mais arriscado. — Rhodan devia saber por que deixou Gucky conosco — comentou Rosberg, aproximando-se de uma mesa, com Toffner. Sentaram-se no banco tosco. — Betty Toufry acha que nos próximos dias os zalitas recrutados serão transportados para Árcon. Espero que desta vez eles possam ir também. Falava de Rhodan e de seus cento e cinquenta homens. Disfarçados de zalitas, encontravam-se no centro de recrutamento dos arcônidas. Tinham conseguido apoderarse dos postos-chave. E agora aguardavam impacientemente o momento de serem levados para Árcon com os demais zalitas — estes, aliás, muito a contragosto. O transporte iminente seria uma verdadeira Tróia para Árcon, pois os terranos seriam os guerreiros ocultos no ventre do cavalo de pau. — Por que não iriam? — Hoje levaram cinquenta mil, Toffner. Rhodan e nossa gente não estavam entre eles. Quantos zalitas você pensa que os arcônidas já recrutaram? Como Toffner calasse, Rosberg mudou de assunto, e perguntou: — Que diz Hhokga de sua sugestão? — Procurei-o assim que cheguei a Larg. Primeiro mostrou-se cético, porém convenceu-se diante de nossos excelentes passes, que trazem até a assinatura de Calus. A caravana chega à caverna hoje; amanhã já poderá tomar o caminho de Tagnor. Podemos contar com sua chegada para daqui a três dias. — É o momento crítico! — disse o Major Rosberg. — Temos de estar com ela, antes que seja detida por robôs na entrada da cidade. Talvez lancemos mão de um oficial arcônida, para auxiliar-nos. Temos os meios necessários para administrar-lhe um hipnobloqueio. Então ele fará 8


apenas o que lhe ordenarmos. Podíamos até escolher aquele indivíduo pré-preparado que encontrou aí fora no corredor há alguns dias. Procure localizá-lo em Tagnor amanhã, e traga-o para cá. Com a ajuda dele, introduziremos a caravana na cidade, sem qualquer dificuldade. Sob a proteção da noite, vai ser brincadeira trazê-la para as catacumbas. Toffner replicou pensativo: — Vivi três anos em Zalit, como único terrano; apesar de sentir-me meio isolado, estava em relativa segurança. Agora não estou mais só. Mas não pense que me sinto mais seguro. — O cérebro-robô, regente do império arcônida, trama o aniquilamento da Terra, Toffner. Rhodan pretende adiantar-se a ele, executando um ataque de surpresa. É a única oportunidade que tem para salvar a Terra. — Sei disso... — concordou Toffner. Porém, durante o resto do dia, conservou-se bastante calado. *** Na caverna ardia realmente uma fogueira. À luz bruxuleante, Rhog distinguiu nove zalitas. Alguns deles repousavam sobre cobertores junto à parede, e ergueram-se ao vê-lo tropeçar na entrada e parar. Outros, sentados diante do fogo, fitaram-no com curiosidade. — Vejam só o que achei aí fora, no escuro! — disse o homem que trazia Rhog para dentro da caverna. — Quer fazer-me crer que encontrou o vale por acaso. E está armado, ainda por cima, com uma pistola arcônida. Bastante suspeito, não acham? Um zalita barbado levantou-se, acercando-se vagarosamente do prisioneiro. — Quem é você? — indagou. Rhog olhou em torno cautelosamente antes de responder. Não conseguia compreender em que espécie de situação se metera por acaso. Aquela gente evidentemente não integrava nenhuma caravana normal. No centro da ampla caverna via-se um objeto estranho, composto de duas partes: um bloco metálico aparentemente pesado e maciço, e uma gaiola. Parecia realmente uma gaiola, mas Rhog compreendeu logo que devia tratar-se de outra coisa. Bastava olhar os brilhantes condutores de energia entre bloco e gaiola para chegar a tal conclusão. — Sou Rhog, de Larg — disse, por fim. — Meu veículo sofreu uma pane, e andei vinte quilômetros até achar este vale. Não compreendo... — Larg? Nós viemos de Larg, e forçosamente o encontraríamos no caminho. — Podemos ter-nos desencontrado. — Hum, é possível. O barbudo parecia refletir. Depois estendeu a mão. — Tem documentos? Rhog hesitou. Estranho pedirem-lhe os documentos... Mas deviam ter suas razões, e ele não fazia questão de despertar mais interesse e desconfiança. Enfiando a mão

no bolso, tirou o passe. O barbudo apanhou-o, e examinou detidamente o papel. Segurou-o contra a luz do fogo, sacudiu repetidamente a cabeça, e devolveu-o a Rhog. — Por que alteraram a data do nascimento, Rhog? Rhog assustou-se. Agora tudo estava perdido, caso a caravana tivesse ligação com os arcônidas. E mentir seria inútil. No entanto, nada o obrigava a revelar a finalidade de sua ida a Tagnor. — Para evitar o recrutamento — replicou ele, com a maior serenidade que conseguiu aparentar. — Passando por velho, me deixam em paz. — Bem possível — concordou o barbudo, tornando a sentar-se próximo do fogo. — Venha cá, vamos conversar mais um pouco. O homem que aprisionara Rhog saiu da caverna, a fim de prosseguir em sua ronda. Rhog tomou lugar ao lado do barbudo. Os demais zalitas deitaram-se outra vez, como se o assunto não lhes dissesse respeito. Apenas três homens permaneceram com ele, em torno da fogueira. Fitando as chamas crepitantes, pareciam esperar que o barbudo tomasse a iniciativa. Talvez fosse o chefe do grupo. — Fale a verdade, faça o favor! — disse o barbudo, em voz seca e autoritária. Rhog percebeu que não lhe restava outra escolha, caso não quisesse complicar desnecessariamente sua situação. — Posso confiar em vocês? — Dou-lhe minha palavra — declarou seu interlocutor. Rhog fitou-o nos olhos, e sentiu que podia acreditar no barbudo. Não, não se tratava de nenhum delator. — Estou fugindo dos arcônidas. E só! — Conforme pensei amigo. No entanto, pergunto-me por que vai de Larg para Tagnor. Ali o perigo é muito maior. — Em Tagnor possuo amigos; em Larg, não. Posso esconder-me em casa deles. Algum dia os arcônidas terão soldados suficientes, e deixarão Zalit novamente. Posso fazer uma pergunta também? O barbudo concordou com um aceno. — Quem são vocês? Apenas uma caravana comum? Por que não receiam ser detidos pelos arcônidas, e serem forçados a servir na frota espacial? — Quem diz que não corremos este risco? — Dirigem-se a Tagnor? — Sim, vamos para Tagnor. — Pois então, correm tal risco! — constatou Rhog. — Ou julgam que os arcônidas deixarão de perceber um tão numeroso grupo de homens sadios? O barbudo refletiu por instantes, e concordou: — Claro que perceberão, porém temos ótimos documentos. Melhores do que o seu, por exemplo. Atestam que já passamos pela comissão de recrutamento, e fomos considerados inaptos. Nada pode nos acontecer. Rhog inclinou-se para a frente, interessado. — Quer dizer que pertencem igualmente a um movimento de resistência? — em seus olhos brilhou uma 9


centelha de ânimo. Não estava mais sozinho. — Vocês estão acobertados por uma organização que está em condições de fornecer papéis falsos? O barbudo sacudiu a cabeça, remexeu no bolso e tirou um documento repetidamente carimbado. — Esta assinatura aqui... — e apontou para um nome abaixo do carimbo principal — ...não é falsa. É do Almirante Calus, feita por seu próprio punho. — Não compreendo... — disse Rhog, totalmente confuso. — Nem precisa compreender — tranquilizou-o o zalita barbudo. — O importante é que seguirá para Tagnor em nossa companhia, amanhã. No entanto, ainda depende de três homens que se reunirão conosco aqui, amanhã. Caso não oponham objeções, poderá viajar com a caravana. — Três homens? Quem são eles...? — Não devia fazer tantas perguntas — censurou delicadamente o barbudo. — Quem muito pergunta, muita mentira escuta. E agora procure um canto para dormir. O dia de amanhã será cansativo. Temos que carregar nossos veículos, e você poderá ajudar. Rhog examinou a caverna. A não ser a esquisita armação, semelhante a uma gaiola, nada via para ser carregado. E lá fora no escuro vira apenas veículos. Estavam-se vazios e descarregados, onde estaria a carga a transportar? Algo não fazia sentido em tudo aquilo. Mas o quê? E por que devia preocupar-se com isso? O barbudo parecia adivinhar suas dúvidas, e sorriu. — Não quebre a cabeça, meu amigo. Vai precisar dela ainda, especialmente amanhã. Pois para ficar espantado, a gente precisa ter cabeça. Rhog reconheceu a irrespondível lógica daquele argumento, e procurou um lugar para dormir no chão rochoso. Fosse qual fosse a aventura que o esperava, pelo menos estava seguro na caverna, e nenhum harack viria despedaçá-lo. *** Aproximadamente à mesma hora, seis homens sentados em torno de uma mesa, num recinto bem iluminado, conversavam em voz baixa. As palavras murmuradas se tornavam inaudíveis a uma pessoa que estivesse a dois metros. A cautela era justificada, pois o recinto fazia parte de um edifício situado no espaçoporto de Tagnor. E ambos se encontravam em mãos arcônidas. Todos tinham aparência de zalitas. No entanto eram terranos. Os cabelos de Perry Rhodan apresentavam reflexos acobreados à luz da lâmpada. Sua pele era a de um índio. Os bioquímicos de seu comando especial haviam executado tarefa de mestre. Rhodan e seus companheiros viraram autênticos representantes da linhagem arcônida, pois os zalitas descendiam de antigos colonizadores do Império. E era, primordialmente, graças aos

conhecimentos de seus bioquímicos que Rhodan podia misturar-se agora com os zalitas. À sua direita, achava-se Reginald Bell; a despeito do físico um tanto atarracado, e da estatura baixa, passava por verdadeiro zalita. À esquerda, encontrava-se o Capitão Hubert Gorlat. Era agora um capitão zalita, que se apresentara voluntariamente para servir na frota do regente-robô. Os outros três homens eram o teleportador africano Ras Tschubai, o telepata John Marshall e o professor Eric Manoli. Rhodan dizia no momento: — ...não pode demorar muito. O regente faz muita questão de que os soldados sejam treinados, e não os deixaria ficar ociosos em Zalit. No próximo transporte, no máximo na segunda leva, iremos com certeza. — É chato Calus não poder fazer nada — comentou Bell, piscando com os olhos. — Em todas as nossas ações, ele nos ajudou. Rhodan lançou-lhe um olhar de censura. Totalmente sem razão, aliás, pois se um único de seus numerosos segredos fosse revelado, estariam perdidos. Porém o segredo sobre a personalidade de Calus era o maior e o mais valioso que possuíam. — Osega não pode despertar suspeita — sussurrou Rhodan. — É nossa figura-chave nesta partida de xadrez galáctico. O rei, por assim dizer, se sofrer xeque-mate, fará nossa missão fracassar. — Estamos sem contato com ele desde ontem — objetou Gorlat. — Sua fala de hoje na televisão foi áspera. Calou fundo nos ânimos. — Osega representa muito bem o papel de almirante arcônida! — concordou Rhodan. — O verdadeiro Calus deve estar suando sangue debaixo da arena, neste tempo. Aposto que jamais lhe passou pela cabeça a ideia de ser substituído por um sósia. — Não passaria pela cabeça de ninguém — disse Bell. — Nem zalitas, nem arcônidas. O que é ótimo... — Algum dia os zalitas vão compreender uma porção de coisas, depois de saberem disso — declarou Gorlat. — Acho que é hora de ir, Ras. Rhodan olhou para o relógio e acenou. — De fato, chegou a hora combinada. Pode ir visitar Calus agora, Ras. Gostaria de saber quando seremos transportados. A comunicação não pode ficar interrompida. Ele deve estar só em seu quarto agora, no palácio do Zarlt. Bem... você está mais do que familiarizado com o local. O teleportador ergueu-se. — Mais alguma instrução, Sir? — perguntou a Rhodan. — Não, nenhuma. Ou melhor, talvez possa perguntar a Osega se o regente continua mantendo sigilo acerca de seus planos. Afinal, devia abrir-se ao menos com os oficiais dirigentes de sua frota. Isso é tudo. Ras Tschubai acenou, procurou um canto da peça, e 10


concentrou-se no salto. Os demais o observavam atentamente. Sempre se sentiam fascinados pelo espetáculo proporcionado pelo salto de um teleportador. Para Ras, o processo nada tinha de impossível, porque conhecia bem seu alvo. Imaginou o quarto de Calus, visualizando-o com tal nitidez que parecia ao alcance da mão, enquanto se desmaterializava. E quase no mesmo instante, a visão se tornou realidade. Paredes, mesa, cama, o próprio Calus materializaram-se diante dele. Chegara, e no preciso segundo em que desaparecia do raio de visão de Rhodan. Calus estremeceu ligeiramente, mas depois sorriu. Os bioquímicos tinham transformado o sargento terrano Roger Osega em autêntico arcônida. Pessoa alguma o reconheceria debaixo daquela máscara. O verdadeiro Calus passara por um susto mortal na ocasião em que defrontarase com seu sósia, antes de ser sequestrado e encerrado nas catacumbas. — É pontual, Ras — disse Osega, consultando o relógio. — No entanto, podia ter poupado o esforço. Nada de novo. — O transporte? Quando vai? — Mas que ânsia de chegar a Árcon! E nem sabem o que os espera lá. Talvez venham a lamentar esta pressa algum dia. — Ora, deixe de dizer tolices! — respondeu o africano, em tom rude. — O empreendimento está em andamento, e nada seria capaz de detê-lo agora. Sabe disso tão bem quanto eu. Que temos de novo, além disso? O chefe gostaria de saber se o regente deixou escapar alguma informação. — Não, nenhuma, Ras. Nos próximos dias devem chegar numerosas naves cargueiras, a fim de conduzir os recrutas para Árcon. As listas virão com elas. Não tenho influência sobre as relações. Nosso grupo deve seguir ainda esta semana, pelo que sei. — Obrigado — replicou Ras, sorrindo satisfeito. — Alguma coisa, pelo menos. Aliás, os passes com sua assinatura obram milagres; oh, desculpe! Afinal, a assinatura é do verdadeiro Calus. Ele trabalha espontaneamente, sem se opor a nada. O Dr. Linkmann deve ter-lhe administrado um medicamento bem eficiente. Calus assinaria até sua própria sentença de morte no atual estado. — Sem dúvida! — concordou Osega. — E eu seria o único Calus. O africano caiu na gargalhada. — Que bem lhe fica a dignidade de almirante, sargento! — caçoou. — Dá licença de retirar-me? Até amanhã, à mesma hora. Passe bem, Almirante Calus, nobre arcônida por obra e graça do cérebro-robô... E o falso Calus, que ajudava a aplainar o caminho de Rhodan para Árcon, estava novamente sozinho. Era um cordeiro em pele de lobo... pelo menos para os zalitas, que nem suspeitavam de que seu maior inimigo era na realidade seu melhor amigo.

2 O novo dia raiava ao leste. Imenso e rubro, o sol subiu no horizonte, tomando conta do céu claro. Dentro da caverna, o fogo se extinguira, exigindo que o vigia reavivasse as brasas. Logo após, a água ferveu na caçarola, e o estimulante odor do kagarak invadiu o ambiente. Rhog só acordou quando foi sacudido. — De pé, meu amigo! — disse o barbudo, indicando o fogo. — Desjejum! Rhog sentiu alívio. Sabia que estava em segurança, e que chegaria são e salvo a Tagnor. Só faltava lhe devolverem a pistola de raios. Sem arma, não haveria meio de realizar seu plano. No decorrer do desjejum, Rhog não percebeu sinal algum da partida iminente. Onde estariam as mercadorias que deviam carregar? Haveria assim tanto tempo disponível, pra não apressarem a refeição? Pensou nos três homens ainda por chegar. De onde viriam ali no meio do deserto entre as duas cidades? Partilharam a comida com ele, para que não precisasse sacrificar suas parcas provisões. Aliás, todos o tratavam com extrema amabilidade. Atitude que não se modificou quando o barbudo lhe fez o convite de acompanhá-lo numa volta pelo acampamento, após terem comido. Os demais homens permaneceram na caverna. Dirigiram-se para os veículos estacionados, cobertos com lonas. Pelas marcas no chão, Rhog reconheceu que estavam ali há menos de um dia. Portanto, as declarações do barbudo eram corretas. Porém os três homens anunciados continuavam a despertar o interesse de Rhog. — Quando chegam os três homens de que falou? — perguntou. — Virão num planador? O barbudo olhou para o relógio. — Compreendo sua curiosidade, mas não posso dizerlhe nada. E, para ser franco, sei tanto quanto você. Mandaram-me apenas aguardar os três homens aqui nesta caverna. Viu, sem dúvida, a esquisita máquina guardada lá dentro, não? Sabe o que é aquilo? — Não tenho a menor ideia — disse Rhog, esperando ver sua curiosidade ser satisfeita, finalmente. Porém sofreu nova decepção. — Também não sei, Rhog. Avisaram-nos de que ela estaria aqui. E que traria os três homens, e as mercadorias que deverão ser levadas a Tagnor. — Virão pela máquina? — perguntou Rhog, incrédulo. — Como é que alguém pode viajar numa máquina firmemente presa no piso da caverna? O barbudo sorriu. — Pagaram-me bem para fazer o transporte, e, além disso, me forneceram documentos de vital importância para a sobrevivência. Por isso não faço tantas perguntas como você. Quando retornar a Larg, poderei aguardar sossegadamente a retirada dos arcônidas. Portanto, para 11


que preocupar-me com a tal máquina? Rhog percebeu que o empreendimento era patrocinado por uma organização bem maior do que supusera de início. Devia considerar-se feliz por ter topado com o grupo. Porém decidiu não revelar a ninguém seus planos pessoais. — Minha arma? — indagou. — Será devolvida quando atingirmos Tagnor? O barbudo olhou-o de esguelha. — Para que precisa dela? — Para defender-me, mais nada. Meus papéis não são tão bons quanto os de vocês. Quero morrer lutando, caso os arcônidas me peguem, e não ser fuzilado por eles como prisioneiro indefeso. Pode compreender isso? — Sim, posso compreendê-lo — concordou o barbudo, enfiando a mão no bolso. Retirou-a com a pequena pistola de raios e passou-a a Rhog. — Aqui está ela. Mas nada de tolices, entendido? Como vê, confio em você. — Não somos todos zalitas, e, como tal, aliados? O barbudo acenou. Tinham se distanciado quase duzentos metros da entrada da caverna, e estavam bem perto da estreita fenda que levava ao deserto. Rhog pensou consigo mesmo que os tratores de esteira teriam dificuldade em passar por ela. Um grito prolongado ecoou pelas paredes rochosas. O barbudo estacou abruptamente, e olhou para trás. Diante da caverna, um homem lhes acenava freneticamente com os braços. O gesto era óbvio. — Vamos, Rhog. Creio que nossos amigos chegaram. Rhog seguiu-o sem uma palavra. Não entendia coisa alguma. Como é que os três homens tinham ido parar na caverna sem passar por eles? Três zalitas desconhecidos já estavam à espera do chefe da caravana. A despeito da aparência zalita, eram originários da Terra, e pertenciam a um dos comandos especiais de Rhodan. Gucky os teleportara individualmente até ali. Tinham surgido repentinamente no meio dos homens abrigados na caverna, deixando-os aterrorizados. Um por um, materializaram-se do nada. Ninguém chegou a ver Gucky, que tornava a saltar de volta para Tagnor, logo após ter depositado a respectiva “carga”. O barbudo estendeu-lhe a mão. — Vim a mando de Hhokga, a fim de escoltá-los para Tagnor — disse ele, dando a senha combinada. — Onde estão os aparelhos que devemos transportar? O sargento Miller retribuiu o aperto de mão. — Sou Thar, amigo. Estes são meus companheiros, Regul e Prezl — apontou para os cadetes Rodolfo e Kranolte. — Dentro de meia hora, segundo espero, podemos dar início ao carregamento. O barbudo fitou-o espantado. Miller acenou. — Sim, ouviu bem, mas parece desconhecer o que seja um transmissor de matéria. No entanto, são bastante comuns em vários mundos. Lá na caverna encontra-se um exemplar deles, pronto para receber. A função deveria ter início dentro de alguns minutos...

Não existiam transmissores de matéria em Zalit, mas sabia-se de sua existência. O barbudo começou a compreender que gente poderosa se encontrava por trás de Hhokga. Transmissores de matéria...! Alguém saiu correndo da caverna, aos gritos: — Bruxaria! O demônio está solto...! A máquina...! O sargento Miller sorriu e olhou para o relógio. — Danados de pontuais, nossos amigos. No minuto cravado! Passando pelo barbudo, encaminhou-se para a caverna. Seus dois companheiros seguiram-no. Rhog apalpou o metal duro da arma no bolso. Transmissores de matéria ou não — sabia o que devia fazer. Daqui a três dias chegaria sua vez... *** O General Deringhouse verificou que tudo estava em ordem. Hora certa, coordenadas de salto, velocidade — tudo conforme o computador calculara. Faltava apenas acionar a derradeira alavanca. E esta tarefa fora reservada a Deringhouse. A Califórnia captara as mensagens radiofônicas de Zalit. O material pedido já se encontrava nas cabinas dos cinco transmissores dispostos no porão de carga da Califórnia. Também ali um aperto de botão seria o suficiente — assim que materializassem sobre Zalit. O cruzador ligeiro saltou e desapareceu do Universo normal; porém todo o processo de saltar através do hiperespaço durou apenas frações de segundo. Quando o General Deringhouse tornou a avistar o espaço que o rodeava, muitos anos-luz o distanciavam do ponto onde estivera há alguns segundos. A frota de bloqueio dos arcônidas não dormia, mas faltou-lhe agilidade para obstar Deringhouse no cumprimento da tarefa. Ainda enquanto a nave esférica entrava, em alucinante velocidade, nas camadas superiores da atmosfera de Zalit, os cinco transmissores começaram a trabalhar. De um segundo para outro, as mercadorias acumuladas em seu interior desapareceram. Simultaneamente, a Califórnia tornou a disparar espaço a fora, em direção do ponto de transição previamente determinado pelo computador. Quando as naves arcônidas perseguidoras abriram fogo, os robôs miravam apenas contra o vazio. A Califórnia desmaterializara, com os neutralizadores de frequência ligados. Sem ter deixado qualquer pista, nunca poderia ser detectada. O regente de Árcon recebeu apenas a lacônica comunicação de que uma nave de identidade ignorada havia sido avistada e perseguida. Na caverna de Zalit, entretanto, o equipamento remetido chegou ao receptor em perfeitas condições. O processo fez o zalita pensar em bruxaria e artes do diabo! De pé na entrada da caverna, Rhog contemplava o 12


espetáculo boquiaberto. A porta aberta da cabina despejava caixas e pacotes, como se mãos invisíveis as empurrassem para fora. Os três homens desconhecidos apreciavam sem fazer nada. Um deles exibia um largo sorriso. O barbudo preferiu calar-se. Por fim, o porta-voz do grupo recém-chegado voltouse. — Podem começar a carregar. Estejam de volta dentro de exatamente uma semana, ou enviem outros homens. Vamos precisar de uma segunda caravana. O barbudo fez sinal a seus homens. Eles puseram mãos à obra. — Daqui a uma semana? Miller acenou. — Sim, segunda etapa, meu caro. Serão bem pagos pelo trabalho. Enquanto o barbudo dirigia o embarque, os três terranos se retiraram para um canto da caverna. — Não adianta — disse Miller aos dois subordinados. — A caravana não vai dar conta do recado. Temos de ficar aqui, e nos revezar na guarda. É melhor do que ir com Rhodan para Árcon. — Pois eu preferiria a aventura — declarou o cadete Kranolte, sentando com um gemido sobre uma pedra. Esta evidentemente já fora usada com finalidade idêntica por outros. — Ficar empoleirado aqui como a galinha cega do provérbio. — Cada qual em seu lugar — disse o cadete Rodolfo, maliciosamente. — Talvez você acerte com o famoso grão. — Que tal de grão é este? — perguntou Kranolte, desconfiado. Não era muito versado em provérbios. — E o que faria eu com ele? O sargento Miller sabia que tinha se desencadeado um daqueles intermináveis debates, durante os quais muito se falava, mas pouco se dizia. Antes que pudesse interrompêlos, Rodolfo disse: — Uma galinha sem grão? Mas Kranolte...! — Faça o favor de usar meu nome de guerra. Chamome Prezl! — Não me soa mais atraente do que o verdadeiro — observou Rodolfo, sarcasticamente. — Calem a boca! — gritou Miller, encerrando a discussão. — Depois teremos uma semana inteirinha para bater papo. Aguardem pelo menos até nossos amigos partirem com a caravana. Repentinamente Rodolfo lembrou-se de algo. — Perceberam, aliás, que o grupo conta com onze zalitas, e não dez, conforme nos disse Toffner? Quem será o décimo primeiro? — Sabe contar muito bem, Rodolfo — louvou Miller. — Mas dez ou onze, que bem nos importa? Algum homem desejoso de viajar até Tagnor com a caravana... Hhokga deve ter tido a cautela de admitir apenas gente de confiança no grupo. Acho que não devemos preocupar-nos com isso.

No fundo, ele tinha razão. Mas se o sargento Miller tivesse podido adivinhar a desgraça resultante de seu descaso, não falaria com tanta tranquilidade. Porém nas circunstâncias dadas, a caravana se pôs em marcha três horas depois, deixando os três terranos na caverna. Ainda havia nela boa quantidade de material. E Rhog seguiu com a caravana para Tagnor. *** Dois dias mais tarde, enquanto a caravana ainda fazia a travessia do deserto, uma frota de carga aterrissou no espaçoporto de Tagnor. Seu comandante trazia o encargo de levar para Árcon todos os “voluntários” ainda à espera em Zalit. A hora decisiva chegara para Rhodan. Em colaboração com seu pessoal, conseguira ocupar ultimamente muitas posições-chave. Os mutantes haviam desempenhado papel destacado nesta excelente operação. A maioria dos oficiais arcônidas sofrera hipnobloqueio, e já não representavam perigo. Além disso, o bloqueio fora condicionado de maneira a desaparecer espontaneamente assim que o grupo de terranos pousasse em algum planeta do sol Árcon. No entanto, fora impossível prever que novos oficiais, com ordens diversas, viessem com a frota de carga. Não haveria tempo para influenciar igualmente estes arcônidas. Tinham sido destacados pelo regente, e vinham munidos com suas instruções. Não havia meio de rebelar-se contra estas instruções, sem despertar suspeitas. O próprio Almirante Calus era impotente no caso. E, nestas condições, de pouco valia a Rhodan o fato de que Calus era na verdade o sargento Osega. A julgar pelos preparativos em andamento, era de supor que o transporte dos zalitas seria iniciado naquele mesmo dia. Os oficiais recém-chegados, arcônidas dos mais ativos, começaram imediatamente a fazer a distribuição dos recrutas, não admitindo que ninguém influísse em suas decisões. Porém, com muita habilidade, Rhodan conseguiu que seus cento e cinqüenta homens ficassem num só bloco, e fossem alojados num cargueiro esférico. No entanto, não pôde evitar que mais três mil zalitas autênticos viajassem na mesma nave. Portanto, continuava a possibilidade de serem descobertos. Até o embarque, ainda lhes restavam algumas horas. O equipamento tinha sido completado, e os recrutas aguardavam nos alojamentos a ordem de ir para bordo do cargueiro. Os ânimos estavam um tanto deprimidos. Diante deles estava a grande incerteza. Ninguém saberia dizer se por acaso o cérebro-robô já tomara conhecimento do ardil planejado, e os atraía para uma armadilha fatal. Certo, as máscaras eram perfeitas. Por obra de seus bioquímicos, Rhodan e seus homens eram agora zalitas genuínos; seus papéis estavam em ordem, e falavam sem o menor sotaque. No entanto, um acidente qualquer poderia delatálos. 13


Rhodan acenou para o Capitão Hubert Gorlat. — Tome o meu lugar, capitão. Ainda pretendo fazer uma breve visita a Rosberg, em companhia de Ras. Marshall mantenha-se em contato telepático constante comigo. Avise-me assim que a coisa começar por aqui, e voltarei instantaneamente. O teleportador africano segurou a mão de Rhodan, a fim de estabelecer o contato físico indispensável a um salto daquela natureza. Com um gesto, John Marshall deu a entender que compreendera a ordem de Rhodan. Gorlat evidenciava na fisionomia sua preocupação. Apesar de ser pouco provável, a aparição de algum arcônida no recinto onde esperavam, não era de todo impossível. Suspirou aliviado ao ver Ras Tschubai desaparecer com Rhodan. Sob a arena, no esconderijo subterrâneo das catacumbas, a visita de Rhodan provocou grande alegria, apesar de representar a despedida definitiva. Gucky tentou mais uma vez, inutilmente, fazer o amigo mudar de opinião. Queria, por força, acompanhá-lo. Mas Rhodan foi inflexível. — Fora de cogitação, Gucky! Nem mesmo como animal doméstico! Os zalitas têm permissão apenas para levar alguns artigos de uso pessoal. Lembre-se também de que você não é totalmente desconhecido para alguns arcônidas. Caso tivesse desistido, em ocasiões passadas, de querer estar sempre em primeiro plano, o reconhecimento seria menos provável. Mas assim... Além disso, seus serviços vão ser muito necessários aqui. Que seria do Major Rosberg sem você? — Realmente, não podemos passar sem um teleportador — confirmou o major, gravemente. — Jamais poderíamos ter enviado o sargento Miller e seus dois acompanhantes para a caverna, se não contássemos com Gucky. — Viu? — disse Rhodan, sorrindo encorajadoramente para o rato-castor. Depois mudou de assunto. — Ficaremos fora de contato, daqui por diante. Os arcônidas não nos proibiram o uso de nossos relógios, portanto levarei comigo o minúsculo transmissor de impulsos embutido na pulseira. Em caso de extrema necessidade, poderemos comunicar-nos por meio dele. Devido ao risco de uma possível detecção, devemos evitar ao máximo tal contato; porém é tranquilizador para ambas as partes saber que existe a possibilidade de uma troca de mensagens. A frequência é a habitual. Bem, a rigor, é tudo o que eu tinha a dizer. Como foi a ação da Califórnia? — Conseguiram depositar o material pedido na caverna anteontem, e escapar incólumes. Toffner organizou a caravana, que deve chegar aqui amanhã. Enviaremos um oficial ao encontro dela, para que possa entrar na cidade sem controles adicionais. Pode ficar tranquilo, pois, Sir. — É o que desejo — replicou Rhodan. — Creio que seguiremos para Árcon ainda hoje. Boa sorte, Major Rosberg. Confio no senhor!

— Boa sorte, igualmente, Sir! Que todos retornem a salvo. — Não esqueça de dar lembranças minhas ao cérebrorobô. E ele que se dê por satisfeito por eu não poder ter ido junto com vocês! — na voz de Gucky percebia-se nitidamente sua irritação. Parecia responsabilizar pessoalmente o regente por ter que ficar em Zalit. — Pouco a pouco vou me habituando a servir na retaguarda. — Sabe lá quanta coisa ainda pode vir a acontecer na retaguarda — replicou Rhodan, displicentemente, sem suspeitar que suas palavras eram proféticas. — Saltemos, Ras. O pessoal nos espera. Acenou mais uma vez para os presentes, antes de segurar a mão do teleportador, e dar o sinal para a partida. Gucky ficou olhando demoradamente para o ponto no qual os dois homens desmaterializaram-se. Depois se voltou bruscamente, e foi para seu canto. No que lhe dizia respeito, a operação “Destruir Árcon” estava encerrada. *** Mas ela mal começara! Oficiais e robôs arcônidas — ainda não reprogramados secretamente por especialistas de Rhodan — comboiaram os zalitas para as naves que os transportariam para Árcon. Os homens do grupo suicida não se sentiam nada bem em seu disfarce zalita, apesar de não precisarem recear uma descoberta iminente. Antes de entrar na nave, cumpria exibir mais uma vez os passes. Os nomes eram conferidos numa lista. Medida esta que mal poderia preocupar Rhodan e sua gente. Os passes eram trabalhos precisos de técnicos terranos. Porém permanecer juntos dali por diante seria mais difícil. Cada alojamento comportava cem homens. Então, o grupo dos 150 foi dividido. Acompanhado por 49 terranos, Rhodan entrou num compartimento. Durante as próximas horas, não haveria possibilidade de conversarem livremente. Podia existir algum espião ou delator entre eles, pronto a levar aos arcônidas qualquer palavrinha suspeita, a fim de amenizar a própria sina... Atlan teve mais sorte. Ficou no compartimento vizinho, com noventa e nove terranos. Com isso, podiam conversar em voz baixa, sem o perigo de serem escutados. Como John Marshall fazia parte do grupo, estava sempre a par do que se passava com Rhodan; este, por sua vez, possuía capacidade telepática suficiente para compreender o sentido das mensagens de Marshall. Portanto, a separação não implicava em interrupção das comunicações. No entanto, nenhum deles podia constatar o que se passava lá fora. O que, porém, não lhes parecia tão importante no momento. Três horas após, passos apressados no corredor denotavam o início dos preparativos para a decolagem. John Marshall informou telepaticamente a Rhodan que o comandante da nave tivera uma derradeira entrevista com o Almirante Calus, transmitindo-lhe a ordem do regente de 14


recrutar nas semanas vindouras novo contingentes de zalitas — à força, caso fosse necessário. E Calus divulgaria as novas disposições em seu discurso diário. Dez minutos depois, levantavam voo. A pressão foi devidamente compensada, e não sentiram o efeito da tremenda aceleração. Rhodan verificou que os zalitas aparentavam estar conformados com seu irremediável destino. Isolados ou em grupos, recostavamse nas paredes, com olhar ausente. Certamente já se viam a bordo de alguma nave de guerra, rumando vertiginosamente ao encontro de um feroz inimigo que os esperava em lugar ignorado. De boa vontade, Rhodan lhes diria palavras de conforto, porém seria por demais perigoso. Ninguém devia saber que era terrano — membro justamente da raça que Árcon pretendia combater. A transição durou apenas segundos, e retomaram a velocidade normal. Da central de comando já se devia avistar o sistema Árcon, centro de um poderoso reino estelar que se precipitava ao encontro de seu imutável destino. Os três planetas principais contornavam seu sol em órbita idêntica, formando um triângulo equilátero. Rhodan acreditava firmemente que pousariam num destes planetas, se bem que não no principal. Pois era nele que se encontrava o cérebro-robô, regente de Árcon, objeto da arriscada ação dos terranos. Três horas depois da partida de Zalit, nova movimentação na nave demonstrou que se aproximavam do local de chegada. Deviam ter saído da transição, já no interior da linha fortificada; não havia outra maneira de justificar o breve espaço de tempo percorrido à velocidade da luz. A porta do compartimento foi aberta com um empurrão. Um robô anunciou com voz fria e metálica: — Deixarão a nave dentro de trinta minutos. Reúnam seus pertences, e aguardem a ordem do alto-falante. Depois a porta foi novamente fechada. Rhodan estava sentado num canto. — John Marshall? Tudo bem com vocês? A resposta foi imediata, e igualmente silenciosa: — Tudo bem. Procuraremos ficar juntos depois do desembarque. — Claro! — emitiu Rhodan. No íntimo, sentia-se bem mais intranquilo do que aparentava exteriormente. A tensão chegava ao auge agora. Certamente passariam por mais um controle, antes de pisar em Árcon. Rhodan ignorava que métodos seriam usados neste controle, Seria de natureza pessoal ou técnica? Ou médica...? Nesta hipótese, corriam grave perigo. O cargueiro pousou com um leve solavanco. Quase ao mesmo tempo, o alto-falante ordenava estridentemente que permanecessem nos alojamentos, e obedecessem à risca às determinações dos robôs. Rhodan sentiu-se invadido por estranha sensação. Não a conhecia, porém tratava-se de uma reação completamente normal. Via-se diante do desconhecido,

sem ter influência alguma sobre os acontecimentos. Não tinha poder decisório algum sobre as decorrências dos próximos minutos; não poderia impedi-las, nem acelerálas. Outros se encontravam no comando da situação. Por minutos ou horas, Rhodan se via isento de qualquer responsabilidade... E era uma sensação que ele desconhecia! Sobressaltou-se quando um robô irrompeu pela porta, ordenando: — Para fora, todos! Em fila, um por um! Rhodan esperou a vez tranquilamente. Primeiro os zalitas verdadeiros deixaram o alojamento, alinhando-se no corredor em filas de cinco. O robô começou a contar. Quando Rhodan saiu, ainda chegou a ver os outros cem integrantes do comando marchar em frente. Seu grupo foi o próximo a ser movimentado. Seguiram por extensos corredores até um amplo compartimento de carga. Os diversos grupos foram entregues a si mesmos, e Rhodan conseguiu reunir novamente seus homens. Formaram um bloco cerrado, firmemente dispostos a não se deixarem separar mais. Vagarosamente o portão de carga abriu. Ar frio, não muito agradável, invadiu o recinto. Divisaram uma série de construções baixas, sob um céu azul-escuro, quase violeta. Alguém tossiu. Junto de Rhodan, Gorlat sussurrou em idioma zalita: — Este ar é muito seco... e pobre em oxigênio. Confere com o que sabe sobre os três planetas principais de Árcon? Rhodan não respondeu. Refletia febrilmente. Nos três planetas de Árcon, a atmosfera era semelhante à da Terra. No entanto, o que respirava no momento mais parecia uma versão melhorada da atmosfera marciana. Será...? Seus pensamentos foram bruscamente Interrompidos. Da porta, um robô berrava: — Em fila de cinco, marchem! Rhodan não viu motivo para maiores hesitações. Fazendo sinal para seus homens, o grupo foi o primeiro a desembarcar. Uma larga rampa levava à superfície do planeta. À direita e à esquerda da porta, robôs faziam a contagem. Rhodan avistou então um sol no firmamento, no setor direito. Devia tratar-se de Árcon, sem sombra de dúvida. Porém era menor do que a estrela da qual se recordava. Suas derradeiras dúvidas se dissiparam ao ver imensa esfera, de brilho opaco, um pouco à esquerda dos prédios — um planeta! Como uma mão gélida, a decepção apossou-se de seu coração. Não tinham aterrissado em nenhum dos três planetas. Aliás, não haviam pousado em planeta algum, e sim numa lua com atmosfera no limite do respirável. “O cérebro-robô”, pensou Rhodan consternado, “se acautelou contra qualquer risco.” Antes de admitir alguém no solo arcônida, examinavao de ponta a ponta. Restava saber se os terranos resistiriam 15


a esta nova prova. E tudo dependia do resultado dela. *** Laboriosamente a caravana enfrentava a tempestade. O vento surgira repentinamente, soprando do oeste. Impelia a areia seca à sua frente, formando novas dunas. Os onze zalitas haviam amarrado panos no rosto, a fim de protegerem-se da poeira que penetrava pelas menores frestas das cabinas dos veículos. Rhog viajava com o barbudo, que dirigia um dos carros. — Espero que não nos desviemos da estrada, Murgo. — Ora, que diferença faria? — replicou o chefe da caravana. — De qualquer forma, ela mal se diferencia do deserto. Além disso, temos ótimos instrumentos de orientação. Rumando sempre para o oeste, acabaremos infalivelmente em Tagnor. Depois de uma pausa, Rhog disse: — Quanto falta ainda? O barbudo fitou-o com ar inquisitivo. — Por que tem tanta pressa em chegar à capital? Aqui no deserto, você não corre perigo, mas em Tagnor sim. Não compreendo sua afobação, meu amigo. Rhog prometeu a si mesmo ser mais prudente, a fim de não despertar suspeitas. Tanto fazia Calus morrer um dia mais cedo, ou mais tarde. — O temporal me preocupa — alegou ele, tentando simultaneamente explicar sua inquietude. — Se ficarmos presos aqui na areia... — Totalmente impossível! — Murgo apontou, rindo, para as esteiras do veículo imediatamente atrás. Como as cabinas eram envidraçadas por todos os lados, tinha-se ampla visão circular. — Nem as mais altas dunas representam obstáculo para nós. E saiba que nenhum avião de patrulha arcônida levanta voo com este tempo, fato que deveria contribuir bastante para sentir-se mais calmo. Viajaremos sem perturbações. Rhog concordou com as suposições de Murgo. Pensou nos companheiros que deixara lá nas montanhas. Que estariam fazendo naquele momento? Esperando? Aguardando a sensacional notícia que talvez não viesse nunca? Para Rhog, era fácil imaginar que os arcônidas mantivessem em segredo a morte de Calus, caso conviesse a seus planos. Percebeu que Calus teria que ser assassinado em público, para todo mundo saber do fato. O que implicava em aumento do risco para ele próprio. Ao ponto, até, de cortar-lhe qualquer possibilidade de fuga. — Em que pensa? — perguntou Murgo. — Se pinta imagens róseas do futuro, saiba Rhog, que não temos grandes chances. Para os arcônidas, nossa sorte é indiferente. Necessitam de soldados, e tomam-nos. Uma grande guerra está para ser desencadeada, ignoro contra quem. Porém o inimigo que ameaça Árcon deve ser poderoso. Até o presente, mesmo sem nossa ajuda, o regente foi capaz de enfrentar qualquer adversário. De

repente, seus exércitos-robôs já não lhe bastam. Passou a usar gente. — Talvez possamos encarar isso como fato reconfortante, Murgo. Existe alguém mais forte do que os robôs de Árcon. Devíamos pensar nisso, quando nos preocupamos com o futuro. Há esperança. — Para nosso povo, sim! Mas para nós mesmos? Pessoalmente, o que podemos esperar? Mais dia, menos dia, seremos descobertos e recrutados. E Zalit não ficará semidespovoado antes que o reino arcônida desabe? Rhog sorriu. — As montanhas e ermos de Zalit ocultam muitos homens, todos eles dispostos a reconstruir algum dia seu mundo. Os arcônidas não permanecerão entre nós por muito tempo mais. Murgo seguiu com os olhos um turbilhonante pé-devento, carregado de areia, que dançava diante deles. — E por que acha isso, Rhog? Tem alguma razão especial para supor que Árcon desistirá em breve de nossa ajuda? — Não, claro que não. É apenas uma esperança que alimento. Murgo fixou o olhar em frente, para as nuvens de areia. — Pois é... — disse apenas, calando-se depois. Para Rhog, estava ótimo. O monótono zumbido dos motores parecia querer ajudá-lo a disfarçar seus pensamentos. Estava preocupado. Seu intento, aparentemente tão simples lá na caverna rochosa, transformava-se gradualmente em problema insolúvel. O Almirante Calus devia cercar-se de uma guarda poderosa, e talvez fosse impossível aproximar-se dele. Robôs deviam guardar a vida de seu senhor, não permitindo que ninguém rompesse a cadeia protetora. Porém durante a tarde, quando Murgo ligou o televisor para escutar a fala diária do almirante arcônida, Rhog teve uma idéia. Olhando para o lado, fitou na pequena tela a fisionomia cruel e altiva de Calus. E com seu ódio cresceu a certeza de ter achado um meio de eliminar o tirano. *** O frio era cortante. Formados diante das naves pousadas, os homens aguardavam as ordens dos robôs de guarda. Agora os arcônidas tinham deixado de lado qualquer consideração, dando a entender claramente aos zalitas que deviam considerar-se prisioneiros. Nenhum dos oficiais arcônidas postados em Zalit viera junto. Além do ambiente opressivo, Rhodan e seus homens se defrontavam também com adversários completamente desconhecidos. Rhodan estava entre Atlan e Bell. Na ala esquerda da fileira de cinco, encontrava-se Gorlat; John Marshall ocupava a extremidade direita. — Onde estamos? — perguntou Rhodan, que desejava ver confirmada sua suposição. Duas opiniões iguais talvez representassem a verdade. — Bell, você conhece o sistema 16


tão bem quanto eu. O tamanho de Árcon... — Eu diria... quinto planeta — replicou Bell, em voz igualmente abafada. — Numa lua do quinto planeta. De acordo com nossas informações, o planeta se chama... — Sei qual é — cortou Rhodan. — E pousamos em sua lua. O número cinco é um mundo gigante. Sua lua chamase Naator. É quase do tamanho da Terra, atmosfera rarefeita, ambiente desértico, montanhas... Em suma, lugar nada hospitaleiro. Mas claro! Daqui ninguém sai sem naves ou sem consentimento do regente. Bela armadilha! — Eu não diria isso, Perry. Trampolim para Árcon soa muito melhor. Se pelo menos não fizesse tanto frio! Atlan observou baixinho: — Ali adiante estão os alojamentos. Se não me engano, Naator vem a ser uma espécie de campo de treinamento para soldados. Árcon possui uma academia de guerra cósmica para suas raças colonizadas. As turmas são treinadas aqui. Acho que acertamos em cheio, vindo para Naator. — O quinto planeta não é habitado? — perguntou Bell. Rhodan acenou imperceptivelmente. — Os naats são ciclopes dotados de três olhos. De natureza completamente inofensiva, e submissos a Árcon. Os aras usam-nos como cobaias em suas experiências médicas. Os aras — descendentes dos primitivos colonizadores arcônidas — eram uma raça bastante peculiar. Viviam da arte de curar os outros. E viviam excepcionalmente bem desta arte. Houvera até certa época em que provocaram a contaminação de planetas inteiros, a fim de tirar proveito das curas posteriormente efetuadas. Os aras eram magros, inteligentes e de disposição nada amistosa. — Os naats possuem inteligência? — Escassa, Bell. Da parte deles, dificilmente temos o que temer. Apesar de terem engajado alguns deles como oficiais de bordo. No gigantesco espaçoporto estavam formados agora mais de cinquenta mil zalitas, vigiados por patrulhas de robôs. O diminuto e distante sol Árcon fornecia luz escassa, e nenhum calor. Do lado do deserto sopravam ventos gélidos; secos e cortantes, que atravessavam pele e ossos. Rhodan felicitou-se pela circunstância de estar entalado na massa humana. Os zalitas das fileiras externas já deviam estar semicongelados. Repentinamente se ouviu um murmúrio percorrendo a multidão. Na parede longitudinal do prédio maior, flamejou uma imensa tela de imagem. Um rosto surgiu — a face de um arcônida em uniforme de almirante. Ao mesmo tempo, uma bateria de alto-falantes entrou em ação, difundindo sonoramente a voz do arcônida, em volume bastante alto para ser ouvido por todos os presentes. — Zalitas! Por instantes, Rhodan deteve-se em considerações acerca do comodismo dos arcônidas. Confortavelmente instalado em seu gabinete aquecido, o almirante se dirigia

aos recrutas recém-chegados. Talvez fosse uma de suas obrigações diárias, e se transformara em hábito rotineiro. Mas pelo menos não sentia frio, sentado à sua mesa, diante do microfone e das câmaras de imagem. — Zalitas! Bem-vindos a Naator, em nome do regente! Encontram-se no campo de seleção das forças imperiais. Aqui serão treinados, e posteriormente encaminhados à frota. Vocês são soldados de Árcon, zalitas! Prestaram juramento ao regente, com o que se comprometeram a lutar por ele, e até a morrer, se for necessário! Vocês lutam por Árcon, mas também por Zalit, sua pátria! Um poderoso adversário ameaça nossa existência. Quando tiver sido derrotado, vocês serão reconduzidos a Zalit. Até lá, porém, deverão pensar exclusivamente em seu dever. Obedeçam às ordens dos oficiais e dos robôs, até serem investidos em comandos próprios. É tudo que tenho a dizer-lhes hoje. Sou o Almirante Senekho, dirigente de Naator. E agora serão encaminhados aos alojamentos. Outra fisionomia apareceu na tela. — Os alojamentos ficam a oeste do campo de pouso. Cada prédio em forma de funil comporta mil homens. Para cada milhar, haverá um robô encarregado da supervisão. Guardem seu número de série, pois, daqui por diante, toda e qualquer pergunta deverá ser feita a ele. Será a autoridade máxima para cada grupo de mil soldados. Realmente, maneira simples, mas eficiente de organizar as coisas. Apesar disso, ainda se passaram duas horas antes que Rhodan e seu grupo pudessem se pôr em marcha, junto com oitocentos e cinquenta zalitas. Eram comandados pelo robô 574. À direita e à esquerda das largas ruas, Rhodan percebeu a existência de controle de radar, a intervalos regulares. Impossível, portanto, alguém pensar em fugir sorrateiramente, na ilusão de achar refúgio nas proximidades. E, por certo, toda a área do campo de treinamento estaria rodeada de aparelhamento de controle ainda mais eficiente. No entanto, medida inteiramente desnecessária, pois no árido deserto de Naator, qualquer fugitivo pereceria em pouco tempo. Avistavam agora os prédios em forma de funil. Mal se destacavam do cenário imerso em perpétua meia-luz. O sol de Árcon desapareceu no horizonte, sem que a escuridão se acentuasse. O céu continuava roxo-escuro. Milhões de estrelas forneciam luz suficiente para a produção de leves sombras. Árcon ficava no centro de uma massa circular de estrelas, e o deslumbramento dos astros ultrapassava tudo que a mente humana pudesse conceber. O prédio possuía sete pavimentes. Cada um comportava cento e cinquenta zalitas, distribuídos em quartos para vinte e cinco homens cada. Apenas no pavimento térreo, a lotação se reduzia a cem pessoas. Constituíam o grupo de guarda, substituído a cada três dias. O robô repartiu o pessoal, e anunciou a distribuição de gêneros alimentícios. Cada pavimento devia destacar dez zalitas para receber as provisões. 17


Rhodan examinou o singelo alojamento. Uma série de camas comuns, cada qual ladeada por um pequeno armário. As janelas externas eram amplas e desprovidas de grades; havia defesas mais eficientes do que as primitivas grades. Encontravam-se no terceiro pavimento, com visão panorâmica das instalações do espaçoporto. Em torno destas ficavam os prédios baixos das academias. Rhodan acautelava-se ao falar. Era de supor que nenhum dos arcônidas postados em Naator ouvira inglês em toda a sua vida, porém havia bons aparelhos de decodificação. No entanto achava melhor dizer as coisas importantes em inglês, e não na língua zalita. — Tenente Wroma, tome nove homens, e apresente-se como aprovisionador. Preste atenção na conversa dos demais zalitas. Precisamos saber como se portam na presente situação. O africano prestou continência e afastou-se. Bell sentara-se sobre uma das camas. — Como nos meus tempos de cadete! — constatou, suspirando, e testando o colchão com a mão espalmada. — Vou ter que passar por tudo isso novamente? E tendo, ainda por cima, um robô como sargento! Atlan aproximou-se dele, e colocou-lhe a mão sobre o ombro. — Para que tanta reclamação, gorducho? Eu sou almirante, e tenho que fazer papel de recruta. Para ser sincero, começo a achar graça na brincadeira. Bell resmungou algo ininteligível, e dedicou-se à inspeção dos cobertores. Mas dificilmente sentiriam frio no recinto aquecido. Parecia ser o único conforto que lhes havia sido concedido. — Ora, não ficaremos aqui eternamente — consolou Gorlat. — Consideremos Naator como uma espécie de pausa para descanso. Bell deu uma risada. — Chama a isso de descanso! Pois eu só vou descansar depois de termos acabado com o gás do cérebro-robô. Mas, para isso, temos de chegar ao planeta principal! Com um gesto, Rhodan ordenou silêncio. — Precisamos ser cautelosos. Falem apenas o essencial, e em voz baixa. Depois de comer, dormiremos. Temo que amanhã seja um dia extenuante. E não se esqueçam jamais de nosso único objetivo: Árcon! É lá que temos uma tarefa a desempenhar. Isto aqui... — indicou as camas, os armários e as janelas — ...isto não passa de um episódio. Será superado, mais cedo, ou mais tarde. No silêncio, a voz de Marshall se ergueu: — Finalmente obtive contato, Sir! Todos o fitaram esperançosamente. — Sim, contato telepático com o Almirante Senekho. Logo saberemos o que nos espera. — E eu — sussurrou o mutante-localizador japonês — vou distrair-me um pouco com as emissões radiofônicas deles. — Exato, Tanaka, faça isso. Toda informação pode ser preciosa para nós.

Rhodan sentou-se sobre sua cama. — De momento, só estou ansioso por ver o que nos servirão no jantar. Soldados famintos não são bons lutadores. — Nem bem alimentado sirvo para lutar — resmungou Bell, mal-humorado. Não parecia nada satisfeito com o ofício de recruta. Porém Rhodan estava satisfeito. Dois passos foram dados. Os demais passos em direção a Árcon viriam depois.

3 O primeiro dia em Naator não trouxe novidades. Da janela, Rhodan viu diversas colunas de zalitas serem conduzidas aos prédios administrativos, retornando posteriormente. Porém, segundo seus cálculos, apenas três mil recrutas foram atendidos naquele dia. À noite, o robô 574 veio avisar que o grupo seria registrado no dia seguinte. John Marshall, o telepata, passara diversas horas sentado sobre sua cama, de olhos fechados. Ninguém o perturbava, pois sabiam que o australiano tentava “entrar em contato” com as personalidades importantes de Naator, a fim de colher informações. De repente, Marshall abriu os olhos, e fitou Rhodan. O convite mudo era óbvio. Também Gorlat e Bell se aproximaram. Atlan estava ausente no momento. — Que foi, Marshall? Descobriu algo? O telepata acenou. — Os primeiros três milhares de zalitas foram submetidos à inspeção médica hoje. Não, não conforme julgam. Em Zalit, era apenas uma farsa, a fim de dar os recrutas como válidos. Aqui em Naator, a inspeção é rigorosa. Pude localizar os membros da junta médica, e ler seus pensamentos. Não deixam passar nada! — Não deixam passar nada? — repetiu Bell, apavorado. Notou a repentina seriedade no rosto de Rhodan. Nem mesmo a arte dos maquiladores os livraria agora da descoberta. Marshall prosseguiu: — Ainda não é tudo. Descobri que a inspeção não visa apenas determinar o estado de saúde dos recrutas; sua finalidade primordial é detectar a possível infiltração de espiões disfarçados entre os homens alistados, impedindo que cheguem a Árcon. Contam com a possibilidade de haver agentes terranos entre os zalitas, transformados por meio de operações plásticas em representantes de outras raças. Rhodan aparentava nervosismo. — Quer dizer que suspeitam exatamente do que ocorreu na realidade... surpreendente! E agora? 18


— Infelizmente tem mais — continuou Marshall suas desanimadoras informações. — Os médicos examinadores são aras, sem exceção. Desta vez, todos ficaram calados. Justamente os aras tinham que estar envolvidos no caso! Conheciam os terranos, e os detestavam. Fora Rhodan que lhes estragara a negociata com a doença. Conheciam a estrutura óssea dos terranos; a primeira radiografia revelaria toda a farsa. Rhodan perguntou mais uma vez: — E agora, meus amigos? Sabem de alguma saída? Duvido que possamos subtrair-nos à inspeção, pois logo despertaríamos suspeitas. Portanto, temos de enfrentar os aras, e passar no exame. Falando francamente, sinto-me desorientado. — Bem, sugiro que estudemos todas as possibilidades — disse Gorlat. — Se cada um expuser suas ideias, talvez consigamos elaborar um plano viável. Nossa intenção seria a de iludir os médicos aras. Portanto, o mais indicado é colocar Noir em ação. — Noir é um hipno extraordinário, mas não poderia influenciar em tão curto espaço de tempo uma dúzia ou mais de aras, submetendo-os a bloqueio hipnótico. Bell sacudia a cabeça, desanimado. — Ras Tschubai poderia saltar até lá, e pô-los fora de ação. — Isso não! — discordou Rhodan. — Seria a maior das tolices. No entanto, você me deu uma boa ideia, Bell. Ras poderia procurar os aras junto com Noir. Nestas circunstâncias, o bloqueio poderá ser feito rapidamente. — Oba, funcionou meu palpite de trocarmos idéias! — exclamou Gorlat, radiante. — De duas sugestões inaproveitáveis acabou surgindo uma bastante usável. Mais alguns detalhes, e nosso plano de guerra está pronto. Que tal desviar um pouco o tal de Almirante Senekho de suas funções regulamentares? Caso esteja bastante ocupado, terá menos tempo para preocupar-se com os zalitas... e conosco. — E de que maneira pensa fazer isso? Gorlat sorriu astutamente. — Son Okura enxerga tão bem à noite quanto de dia. Caso vá com Ras Tschubai, serão como duas sombras: rápidos, invisíveis e perigosos. Poderiam executar alguns atos de sabotagem, que certamente seriam imputados aos naats. — Um momento! — interrompeu Rhodan, com ar preocupado. — Receio que estejamos indo longe demais. Nossa missão não é produzir inquietude em Naator, e sim alcançar Árcon. Apesar disso, preciso reconhecer que, às vezes, um pequeno rodeio nos leva mais depressa ao objetivo. Nossa tarefa mais imediata é pressionar os aras, sem que eles e os zalitas percebam. — Não seria possível fazê-lo numa única noite, pois sou incapaz de localizar todos eles ao mesmo tempo — observou Marshall, derrubando todas as especulações até então feitas. — Portanto, seria bom que pudéssemos

ganhar tempo. Talvez Gorlat esteja certo com sua sugestão de ocupar Senekho. Quando Atlan regressou, duas horas depois, o plano estava combinado, organizado e definitivamente traçado. Faltava apenas dar ciência dele a Atlan. Son Okura era de constituição frágil, e tinha alguma dificuldade em andar. Fatores que precisaram ser levados em consideração quando o transformaram em zalita; porém o resultado foi tão satisfatório que ninguém seria capaz de diferenciá-lo de um genuíno habitante de Tagnor. Era um perceptor de freqüência, capaz de reconhecer qualquer objeto mesmo na escuridão. Até raios infravermelhos eram visíveis para seus olhos. Mesmo horas após seu desaparecimento, percebia a aura de calor emitida por um corpo. Sob o aspecto físico, o teleportador Ras Tschubai vinha a ser o exato oposto de Okura. Sua estatura lembrava a dos naats, mas naturalmente o africano tinha apenas dois olhos, e não três. Os dois mutantes formaram o primeiro comando de ação da noite incipiente. Ras sabia que era arriscado saltar ao acaso, sem saber para onde ia. Preocupar-se-ia menos caso estivesse sozinho, mas levava o japonês... Claro que, apesar da sobrecarga, era capaz de desmaterializar-se instantaneamente, caso algum perigo ameaçador o obrigasse a desaparecer o mais rápido possível. Porém Rhodan recomendara insistentemente que fosse cauteloso, e não chamasse a atenção. Pessoa alguma deveria suspeitar da presença do teleportador em Naator. — Pronto! — disse Son Okura, segurando a mão do africano. Ras Tschubai concentrou-se para um salto curto, que os deixaria nas proximidades dos prédios administrativos, e lojas. Desconhecia seu alvo, o que, no entanto, não representava dificuldade. Visualizava-o. Quando se materializaram, Ras Tschubai não viu absolutamente nada de início. As estrelas brilhavam com a intensidade habitual, mas eram ofuscadas pela iluminação vinda de dentro das casas. — Boa pontaria — disse Okura, cujos olhos tinham se ajustado imediatamente. — Estamos bem perto das primeiras construções. À direita, há um sentinela patrulhando. Um zalita. Portanto, eles já foram designados para o serviço de guarda. — Vamos saltar para a área diretamente à nossa frente. Sabe o que procuramos? Okura acenou, porém Ras não via. Saltou. Desta vez, estava realmente escuro, e não havia estrelas. — Onde estamos? — perguntou o teleportador. — Num depósito de equipamento militar. Uniformes, até onde posso verificar. Mais atrás, trajes espaciais leves. Tudo caprichosamente empilhado em prateleiras. — Bem, se o frio apertar, saberemos como nos defender. Mas hoje procuramos outra coisa, Okura. Vamos 19


andando. O japonês guiou Ras através das trevas, com impressionante segurança. O africano confiava incondicionalmente no detectador humano de frequência. Não tinha o menor receio de tropeçar em algum objeto, ou dar com a cabeça contra a parede. — Uma porta! Ah, não está trancada. Seguiram adiante. — Um corredor. Portas por todo lado. Qual delas nos serve? Okura não respondeu. Ouvira um ruído lá adiante. Passos! Alguém caminhava na direção deles. Porém o andar revelava o cansaço do caminhante. Os pés arrastavam no chão. — Um sentinela! — cochichou Ras. — Não se trata de um robô; talvez seja zalita. Ande, a próxima porta! Foi um acaso, conforme asseguraram repetidas vezes mais tarde; porém todos interpretaram suas afirmativas como manifestação de modéstia. Pois quando penetraram no recinto, Okura deixou escapar uma exclamação de surpresa, e Ras compreendeu que desta vez não haviam dado com nenhuma rouparia. — Armas! — sussurrou Okura. — Granadas de mão, pistolas portáteis de raios, pequenas bombas de tempo... um paraíso para rebeldes! — E consta-me que existe um bocado deles em Naator — murmurou Ras, satisfeito. — Por que deixariam esta porta sem chave? — A entrada principal é impenetrável, Ras. Defendida por um campo energético. Ninguém pode sair deste prédio. O próprio sentinela está trancafiado. Bem, isso explicava tudo. Picaram escutando os passos do sentinela. — Que diabo! — praguejou Ras. — Por que não consigo enxergar nada? — Porque está escuro — respondeu Okura, lacônico. — Seu coração pularia de alegria, se pudesse ver o que vejo. Exatamente o que precisamos para executar nosso plano. Tivemos uma sorte danada! — Ótimo!' Neste caso, apressemo-nos. Levaremos um bom sortimento para nosso quarto, onde estabeleceremos a base de operações. Com três ou quatro pulos estará feito. Uma hora depois, Ras teleportou-se com Okura e André Noir, o hipno, para o hospital, prometendo vir buscá-los novamente duas horas mais tarde. Depois desapareceu diante dos olhos dos outros mutantes, carregando uma respeitável quantidade de pequenas bombas de tempo, algumas granadas de mão e um radiador energético. Poderiam reservar agora para a ação em Árcon todas as armas e recursos de sabotagem discretamente embutidos em seus uniformes, ou entre a reduzida bagagem. Noir não era muito alto, e fazia um terrano bastante simpático. Mas como zalita, transformara-se num indivíduo de ar ameaçador e pouco digno de confiança. No entanto, sua especialidade de “dobrar” mentes estranhas à

sua vontade não sofrerá com o disfarce. — Os aras alojam-se mais adiante — sussurrou ele, apontando para o corredor imerso em meia-luz. — Posso sentir suas ondas de pensamento. Estão dormindo. — Seria capaz de descobrir o médico-chefe, André? — Dificilmente, Son. Dormem, e, em sonhos, qualquer deles pode se considerar chefe. Rindo, o japonês se pôs a caminho. — Então teremos que controlar um por um. Vamos lá, a primeira porta! Como também o hospital — caso pudesse ser designado por este nome — estivesse hermeticamente isolado do mundo exterior por uma cortina energética, as portas internas não possuíam chave. Quando os dois homens penetraram no quarto, apenas o japonês podia ver o que havia nele. No canto, abaixo da janela, via-se uma cama, ocupada por um vulto deitado; ao lado, um armário. Dependuradas no encosto de uma cadeira, peças de roupa; entre elas, um jaleco branco, traje profissional característico dos aras em atividade. Gradualmente, os olhos de Noir se ajustaram à escassa luz. As estrelas brilhavam livremente através da janela desprovida de cortinas. O homem deitado tinha estatura bem acima da média, e era impressionantemente magro. O rosto encovado dava-lhe ar doentio. Porém Noir sabia que as aparências enganavam; aquele homem era perfeitamente são. Noir acionou seus poderes. Cautelosamente, penetrou na consciência adormecida do ara, apossando-se dela. Em vista da ausência de resistência do paciente, conseguiu seu intento rapidamente, com a maior facilidade. Depois despertou o ara. — Como se chama? O hipno falara em voz baixa e insinuante. Os olhos arregalados do médico fixaram-se nele por um instante, depois se tornaram mortiços e indiferentes. — Renol. — Faz parte da junta médica que examina os recrutas? Quem é o médico-chefe? — Sim, examinamos os recrutas. Bóris é o chefe. Mora alguns quartos depois do meu. Noir exultou. A coisa ia melhor do que esperara. — Levante, agora, e siga-me. Saberá achar uma evasiva, caso encontremos alguém. Deve obedecer a todas as minhas ordens. Receberá instruções adicionais conforme as circunstâncias forem exigindo. Mostre-nos as salas de exame. Mecanicamente, o ara levantou da cama e enfiou as roupas. Apesar de lentos, seus movimentos eram regulares e inteiramente normais. Nem de longe suspeitava do perigo que corria. E no dia seguinte teria esquecido tudo. Saíram do quarto, com Renol na frente. Atravessaram uma sala de operações, e foram dar num amplo recinto subdividido em nichos, por delgadas paredes. Neles se viam estranhos aparelhos, cuja finalidade Noir não 20


compreendeu de imediato. Ordenou ao ara que fornecesse as devidas explicações. Noir assustou-se ao perceber de que armadilha se haviam livrado. Com a ajuda dos instrumentos e máquinas instalados naquela sala, terrano algum teria passado pelo controle sem ser descoberto. Aliás, o aparelhamento desmascararia qualquer indivíduo não pertencente à raça zalita. O hipno demonstrou particular interesse pelo medidor de Q.I. Externamente, o aparelho constava de uma poltrona com capacete, alguns fios, e do avaliador positrônico. Bastava o examinando sentar, e tudo se processava automaticamente. Os resultados eram arquivados num fichário. Noir sabia que o quociente intelectual dos terranos era sempre superior ao dos zalitas. Submetidos à inspeção de rotina, tal particularidade se revelaria fatal para o comando especial. Seriam denunciados pelos elevados índices alcançados. — Quem opera este medidor de Q.I., Renol? — Bóris em pessoa — foi a resposta. Gastaram muito tempo na ronda; quando reconduziram Renol ao seu quarto, duas horas depois, Ras ainda não regressara. Aguardaram por mais meia hora. Como Ras continuava ausente, começaram a ficar inquietos. Sem o teleportador, estariam presos no interior do hospital, a não ser que Renol possuísse chave para desligar a cortina energética. Probabilidade das mais improváveis. Noir descobrira que as barreiras de energia eram comandadas por uma central, e só podiam ser desligadas por ordem de Senekho. Mais dez minutos se passaram. — Espere aqui, Son. Vou aproveitar o tempo para “tratar” do tal de Bóris. Com o médico-chefe do nosso lado, muitas dificuldades poderão ser contornadas. Sei onde fica o quarto dele. Noir enxergava o suficiente para poder orientar-se sem ajuda do japonês. Encontrando a porta encostada, entrou na peça semi-imersa em sombra. Reconheceu o vulto de uma cama ao fundo. A janela estava escancarada. Algo alertou Noir. Antes que pudesse constatar que se tratava dos pensamentos do ara, este exclamou, ameaçadoramente: — Seja lá o que pretende, e seja lá quem for, não se mexa! Estou com uma pistola energética apontada para você. Volte-se cuidadosamente, e acenda a luz. O comutador fica à direita da porta. Sem alternativa no momento, Noir obedeceu. A mente do ara estava ativa demais por ora, para ser influenciada com facilidade. Mais tarde, talvez... A luz invadiu o quarto. Noir percebeu que o ara não mentira. Apesar de continuar estendido ao comprido na cama, debaixo do cobertor, distinguia claramente os contornos de um possante radiador. A boca apontava diretamente para o hipno, de acordo com a ameaça feita.

— Responda meu caro! — disse o ara, suavemente; porém a voz calma denotava absoluta autoconfiança. — O que me confere a honra desta visita noturna? — Posso fazer uma pergunta, primeiro? — falou Noir, procurando ganhar tempo. — Como sabia que eu vinha vindo? O ara riu, complacentemente. — Sou médico-chefe em Naator — replicou ele benevolamente, e o tom de sua voz revelava a razão da benevolência. Era simplesmente vaidoso. — O Almirante Senekho concede-me total confiança, e os arcônidas são desconfiados. Não confiam em ninguém. Nem mesmo em seus amigos, os aras. Portanto, fui encarregado de vigiar meus médicos. Há sistemas de escuta entre meu quarto e os deles. Quando você foi procurar Renol, acordei. Desta forma, fiquei sabendo que Renol é um delator. Como revelou meu nome, eu devia preparar-me para sua visita ainda no decorrer desta noite. De repente, o tom de voz se tornou ríspido e exigente. — Agora chega de evasivas! Quem é você, e o que quer aqui? — Quem sou...? Ora, ainda não me identificou? — Mas claro! Já vi que é zalita! Como entrou aqui? As cortinas energéticas... Com grande precaução, Noir tentou penetrar na consciência de seu oponente. Mas era difícil, quase impossível. O ara estava em guarda. E qualquer provocação poderia levá-lo a apertar o gatilho. — Consegui esconder-me no decorrer da inspeção de hoje, com a intenção de esperar pela noite. Para ser sincero, recuso servir na frota do regente. Pretendia falsificar o resultado dos exames, para ser mandado de volta a Zalit. Talvez o choque dessas revelações provocasse certo descuido por parte do ara. Noir sentiu um espasmo na região do estômago. Era exatamente para onde apontava o radiador de Bóris, ainda oculto sob o cobertor. E se não fosse radiador nenhum...? — Tentou o impossível — disse o médico-chefe, ironicamente. — Os autômatos não se deixam enganar. Vou chamar a guarda, e mandar entregá-lo aos robôs. Lançando o cobertor para o lado, levantou da cama. Noir viu que se enganara em sua suposição. A mão de Bóris empunhava realmente uma pistola. Não se tratava de blefe do ara. — Caso ainda tenha algo a me dizer, fale agora. Mais tarde não terá oportunidade para isso. Noir percebeu que sua posição não era nada boa. Lá fora, no corredor, Son Okura esperava por Ras. Porém o teleportador não aparecia; possivelmente também fora apanhado em alguma armadilha. Caso fossem submetidos a interrogatório, com aplicação dos psicodetectores, o plano de Rhodan iria por água abaixo. Com a vontade paralisada, revelariam tudo. — Não vai chamar guarda nenhuma! — disse Noir, em tom incisivo. — Pois eu não vou deixar! 21


Tentou mais uma vez dominar o cérebro do ara, porém ele reagia, sem saber, opondo-se com todas as forças disponíveis. Noir sabia que apenas uma operação relâmpago teria êxito. Alguma surpresa que assustasse suficientemente o ara, provocando um momentâneo descuido. — Ou acha que vim para cá sem arma? — Não vejo nenhuma — replicou Bóris. — Existem armas invisíveis. Caso pudesse estar, neste preciso instante, na grande sala de exames, saberia a que me refiro. Não é lá que estão arquivados os resultados de suas análises? O médico-chefe enfiou seu jaleco. Não parecia nem um pouco impressionado, nem preocupado com as ameaças de Noir. — Pois vamos até lá verificar — sugeriu ele, forçando o hipno a voltar-se. Simultaneamente, apertou-lhe a boca da arma nas costas. — E ai de você se mexeu em alguma coisa! Ficaria bem satisfeito se o entregasse aos guardas... coisa que não farei. Você vai morrer, e morrerá lamentando jamais ter nascido. Noir hesitou. — Ande logo, zalita! E Noir saiu para o corredor. *** A carga privou Ras Tschubai da liberdade de movimentos que gostaria de ter. Materializou-se, e permaneceu em total imobilidade até os olhos se habituarem à escuridão. Sentiu uma vibração sob os pés, e escutava sussurros regulares, acompanhados de leves pancadas. Encontrava-se num imenso recinto subterrâneo segundo seus cálculos. E havia outras instalações abaixo daquela, conforme revelava o murmúrio dos geradores. Era ali que se localizava a central energética do campo. Na certa, rigorosamente protegida por fora contra a entrada de qualquer indesejável ou sabotador, que de maneira alguma teria acesso ao recinto. Mas Ras estava decidido a provocar uma boa perturbação entre os arcônidas. Eles que quebrassem a cabeça para saber se suas medidas de segurança continuavam funcionando, ou se já eram insuficientes. As lâmpadas embutidas nas paredes davam pouca luz. Ras mal conseguia distinguir os possantes blocos metálicos, por entre os quais serpenteavam estreitas passagens. Reluzentes isoladores suportavam e distribuíam a fiação, que se perdia mais adiante nas sombras. Ras avançou cautelosamente por entre o caos de maquinaria, selecionando a que lhe parecia mais importante. Apresentava uma concavidade lateral apropriada ao seu intento. Tirou do bolso um objeto ovalado, apalpando-o de leve até dar com o pino de tempo. Apertou-o três vezes. Portanto, a detonação se efetuaria dentro de cerca de três horas.

Depositou a bomba próximo à máquina, esperando que a explosão causasse danos suficientes para paralisá-la. Ao mesmo tempo, desejava que os estragos não fossem de vulto a despertar as suspeitas dos arcônidas, ou dos robôs, pois a capacidade dos naats era limitada. Dois atos de sabotagem naquele setor seriam o bastante. E caso houvesse outra detonação bem longe dali, ao mesmo tempo, não se lembrariam de vir procurar o autor do atentado justamente naquele recinto. Ras colocou a segunda bomba, e teleportou-se para o ar livre. Materializou-se diretamente diante das rígidas lentes dos olhos de um pesado robô guerreiro, cujas armas energéticas se ergueram instantaneamente, apontando para o africano. *** Postado junto à parede, Son Okura viu abrir-se a porta por trás da qual desaparecera Noir. Aprontou-se para receber o amigo que saía para o corredor com uma exclamação de alívio, quando percebeu o cano da arma energética pressionada contra o dorso do hipno. O japonês ocultou-se no pequeno nicho formado pelo vão de uma porta. Não sem tempo, pois no mesmo instante as luzes foram acesas. Agora também o ara que ameaçava Noir se tornou visível. Para Okura, era mistério saber como escapara à sugestiva influência do hipno. De qualquer maneira, não poderia perder ambos de vista daí por diante. E Ras Tschubai? Se voltasse agora, para levá-los de volta? Okura não teve muito tempo para preocupar-se com isso. Precisava apressar-se, a fim de não deixar Noir desamparado. Esgueirou-se atrás do hipno e do ara. Conhecia o caminho. A grande sala de exames! Só que desta vez, os prenúncios estavam invertidos. Os trunfos se encontravam em mãos erradas. Era preciso agir com cautela, caso quisessem recuperá-los. A mão de Okura deslizou para o bolso. Sorte sua, Ras ter-lhe cedido um dos mini-radiadores. Apesar de contarem apenas com três cargas, derrubariam bem uma dúzia de adversários em caso de necessidade. Por enquanto, tinha que enfrentar apenas um. Este um, no entanto, atormentava seriamente o pobre Noir. A desagradável pressão da arma nas costas em nada contribuía para seu bom humor. Procurava incessantemente achar algum ponto fraco na consciência do ara, porém Bóris demonstrava incomum resistência, como se tivesse passado por um condicionamento hipnótico especial. Hipótese que não devia ser excluída, visto que se tratava do dirigente do departamento médico em Naator. Passaram pela sala de operações, entrando no recinto equipado com inúmera aparelhagem, distribuída pelos 22


diversos nichos. “Parece uma moderna câmara de tortura”, pensou Noir. Finalmente o médico estacou, intimando Noir a explicar-se. Parecia ter chegado à conclusão de que não lidava apenas com um mero simulante. Teria sido alertado por alguma coisa? — Vamos, malandro, fale! Quais são suas reais intenções? Pretendia assassinar-me? Em caso afirmativo, por quê? Que proveito lhe traria? Noir fez uma derradeira investida. Recorreu a todas as suas forças para romper o bloqueio em torno do cérebro de Bóris. Porém inutilmente. O ara já se encontrava sob a influência de um hipnobloqueio! De um bloqueio arcônida, no entanto. Unicamente um choque seria capaz de desfazê-lo. — Cuidado, Noir! Jogue-se no chão! A voz parecia vir do nada. Bóris estremeceu, pois desconhecia aquela língua. Mas devia ser a razão menor de seu susto. Mais inquietante era a hipótese de ver-se diante de dois sabotadores. Voltou-se bruscamente, esquecendo Noir por um segundo. Reconhecendo a voz de Okura, Noir apressou-se a seguir o conselho dado. Lançou-se para o lado, rolando pelo chão para o nicho mais próximo. Quando o delgado raio energético relampejou da porta através da sala, acertando na lâmpada, ofuscado, cerrou os olhos, Bóris acendera apenas aquela, e bruscamente tudo ficou imerso em trevas. — Jogue fora a arma! — gritou Okura, mudando imediatamente de posição. O tiro energético de Bóris errou o alvo por três metros, no mínimo. — Não adianta Bóris! Estou vendo você! Vejo, sim! Não é tapeação! Por que fechou os olhos agora? Para poder me ouvir melhor? Noir ouviu o ara gemer. — Mas como é possível? Assim, completamente no escuro...? Está mentindo! — Acha? Agora, por exemplo, está apontando sua arma em direção oposta... o armário ao lado da porta provoca uma ilusão sonora, alterando o rumo das ondas de som! Ah, agora leva o cano para a esquerda. Errado também! Mas, agora, talvez acredite que o vejo. — Quem é você? — perguntou Bóris, aparentemente esquecido de Noir. Foi seu erro capital. Noir percebeu o relaxamento da resistência, e intensificou a pressão. O cérebro do ara estava literalmente aberto diante dele, e bastava servir-se. Okura representava para Bóris um problema insolúvel. Nem mesmo o hipnobloqueio arcônida resistiu diante do ímpeto final de Noir. O ara dobrou-se ao jugo mental do hipno. ***

Ras Tschubai reagiu instantaneamente, e teleportou-se para a escuridão. Quando pôde enxergar novamente, o robô estava parado a menos de trinta metros, olhando fixamente para o local onde acabara de avistar um zalita. “Se eu inutilizar um destes robôs guerreiros no meio do acampamento”, refletiu apressadamente Ras, “deixálos-ei bem intrigados. Além disso, a máquina precisa ser destruída. De maneira nenhuma poderá ir contar-lhes o que viu...” Enfiando a mão no amplo bolso do uniforme zalita, Ras retirou uma pequena granada. Sabia que poderia ser regulada para explodir dentro de dois segundos. Bastava apertar o botão, e procurar um esconderijo o mais depressa possível. O robô voltou-se pesadamente. Talvez por ter escutado algum ruído. Quando a noite foi rasgada pelo luminoso facho de um holofote, Ras agachou-se. A luz emanava da testa do colosso. Ao mesmo tempo, o cinturão armado começou a girar vagarosamente. Ras segurou a granada na mão direita, calcou o botão e lançou-a contra o robô. Em certas circunstâncias, dois segundos podem representar longo espaço de tempo. Para Ras, duraram uma eternidade. Desistira de teleportar-se para lugar seguro, pois não sabia se conseguiria fazê-lo naquela situação. Ainda enquanto jogava a granada, pulou para o lado, num salto gigantesco, em direção de uma vala que oferecia proteção. Enquanto caía, as armas do robô foram descarregadas. Sibilando, os fulgurantes raios energéticos varreram o chão pouco acima dele; Ras chegou a ter a impressão de que sentia o calor emanado pelos mortais disparos. Felizmente o robô mirara alto demais. Sua salva de energia perdeu-se além dos limites do espaçoporto. Ras viu nitidamente a granada cair aos pés do robô. Agachou-se o melhor possível dentro da vala, cuja utilidade original ignorava. De qualquer forma, era artificial, e talvez servisse para a drenagem de água. A chispa de ignição coincidiu com o estrondo da carga explosiva em erupção. A onda de choque atingiu o dorso curvado de Ras. Seguiu-se tremendo impacto, sacudindo o chão. Depois reinou um silêncio mortal. Cautelosamente, o teleportador se ergueu. Depois daquele estardalhaço, o local não tardaria a fervilhar de gente. Além disso, os robôs guerreiros mantinham contato radiofônico entre si. O lugar do colosso era ocupado agora por enorme cratera. Peças metálicas juncavam o chão nas redondezas, como se algum avião tivesse se despedaçado no local. Do robô propriamente, pouco restava. Em algum ponto elevou-se o lamentoso uivo de uma sirene. As pisadas vigorosas de possantes pernas metálicas faziam vibrar o concreto. Um alto-falante berrava ordens estridentes, holofotes foram acesos, banhando a área em deslumbrante claridade. Ras Tschubai compreendeu que precisava sumir. 23


Ninguém devia vê-lo teleportando-se. Representaria sério perigo para todos eles. Caso chegasse aos ouvidos do regente o menor boato acerca de truques paranormais, suas suspeitas se dirigiriam imediatamente contra Rhodan e seu Exército de Mutantes. A primeira onda de robôs guerreiros espalhou-se pelo campo, avançando em direção da cratera, quando Ras desmaterializou-se, e saltou de volta para o hospital. Ainda chegou a ver Son Okura esgueirar-se pelo corredor, agora iluminado, dando mostras da maior cautela. Sem refletir, seguiu atrás dele.

4 Uma sirene acordou os ocupantes do edifício-funil. Pouco depois, o robô 574 distribuía as ordens do dia. No quarto de Rhodan, todos escutavam atentos, e ansiosos por descobrir se a ação dos mutantes no decorrer da noite já produzira frutos. O robô começou com as determinações de rotina, que certamente eram idênticas todos os dias. Depois a voz metálica comunicou: — A inspeção médica prevista para hoje foi adiada para amanhã. Ninguém deve deixar o prédio. Por volta de meio-dia, será dada a primeira aula teórica de armamento. Ras Tschubai parecia satisfeito. Quando o alto-falante emudeceu, olhou para Rhodan com ar triunfante. — Viu como eu tinha razão, Sir? A destruição do robô guerreiro e as duas detonações na central de energia deram-lhes o que fazer. — Porém um único dia de adiamento não basta — replicou Rhodan. — Noir conseguiu controlar só dois aras; enquanto todos não forem dominados, estaremos sujeitos à descoberta. — Conheço os locais agora — objetou o hipno. — Se saltar para o hospital esta noite, em companhia de Ras, creio que darei conta do recado. — É o que espero — disse Rhodan, não muito otimista. — Seria bom estarmos a par do que se passa. Voltou-se para Atlan, calmamente sentado sobre seu leito. — Por favor vá buscar Tanaka Seiko. No Exército de Mutantes, Seiko era o localizador. Seu cérebro tinha a capacidade de detectar ondas de rádio, determinando a posição do transmissor; além disso, podia “ouvi-las”. Em outras palavras: o mutante dispensava receptor para captar mensagens radiofônicas. Atlan ergueu-se e deixou o recinto. Bell acercou-se de Rhodan. — Será que espera transmissões não codificadas? Rhodan acenou. — Exatamente. Os robôs certamente se comunicam um

com o outro sem usar código. Mesmo que empregassem um, teríamos pouca dificuldade em decifrá-lo. Seja como for, precisamos estar informados, a fim de poder agir convenientemente. Nunca esqueça que estamos metidos numa verdadeira armadilha. Caso os arcônidas nos apanhem, não só nós estaremos perdidos, mas a Terra estaria praticamente aniquilada. A ameaça representada pelos druufs da outra dimensão temporal está um tanto afastada, apesar de continuar existindo. O regente tem tempo para dedicar-se à Terra. E, conforme constatamos, cuida disso com toda a determinação de um cérebro positrônico! Precisamos agir da mesma maneira. Só então teremos uma chance. Atlan voltou, trazendo o japonês. Tanaka Seiko era esbelto. Uma cicatriz vermelha desfigurava sua face esquerda: era um disfarce que o fazia passar por zalita, e não japonês. Haviam conseguido “corrigir” os olhos oblíquos. A epiderme vermelha lhe dava aparência de índio. — Sinto-me realmente faminto, agora — disse Atlan, retomando o lugar em cima da cama. Parecia não conhecer problema mais importante no momento; no entanto, quem o conhecesse de perto, sabia que estava tão envolvido nos acontecimentos quanto os demais. É que o imortal arcônida tinha marcada predileção por gozações, e gostava de emitir comentários jocosos sobre assuntos da maior gravidade. Rhodan voltou-se para Seiko. — Estamos interessados em saber o que os arcônidas pretendem fazer. Antes de qualquer coisa, queremos saber a quem imputaram a culpa pelas explosões na central energética. Disso dependerão nossas próximas providências. — Muito bem, Sir — concordou Seiko, modestamente, olhando em torno. — Onde posso me instalar? Bell indicou a cama debaixo da janela. — Pode usar meu beliche, Tanaka. Ficará à vontade nele, ninguém o perturbará. E assim que ouvir alguma coisa, avise-nos. — Ora, estou sempre ouvindo coisas — assegurou o mutante, sorrindo. — De momento, o Almirante Senekho declarou estado de alarme para todos os robôs de guarda e combatentes. Todo naat encontrado no interior dos setores delimitados deverá ser preso... — Exatamente o que desejávamos saber! — interrompeu Rhodan. Pitou Ras Tschubai. — Parece ter acertado com sua suposição. Senekho crê que foram os naats. Lamento pelos pobres ciclopes, porém não podemos poupar ninguém. Continue, Seiko! Que é que o almirante pretende fazer? O japonês voltou a sorrir. — Não me apresse Sir. Necessito de tempo para selecionar e coordenar as transmissões captadas. Dentro de uma hora, aproximadamente, poderei dizer-lhe mais... Deram-lhe prazo até o meio-dia. Então o quadro se configurara: 24


O Almirante Senekho estava firmemente convencido da culpabilidade dos naats nos atentados realizados. Há menos de um ano — tempo da Terra — haviam sido forçados a conter uma rebelião no quinto planeta. Os ciclopes reagiam contra o costume de fornecer exemplares de sua raça para experiências científicas nos laboratórios dos aras. Também na lua Naator viviam naats. Eram empregados como mão de obra barata, ou como atendentes pessoais dos oficiais-instrutores arcônidas destacados para servir em Naator. Senekho expedira ordem de expulsar imediatamente todos os ciclopes das zonas reservadas. Alegava que o afastamento dos naats das instalações mais importantes evitaria futuros atentados. De onde se depreendia claramente que considerava os nativos culpados. — O dia de hoje — informou Tanaka — será dedicado à execução das novas regulamentações. A partir de amanhã, voltarão ao regime normal. O que significava que Rhodan tinha vinte horas para estabelecer novos arranjos — ou submeter a totalidade dos aras a controle hipnótico, pois estes representavam perigo permanente. Após o almoço, todos os mil recrutas foram reunidos no enorme salão do primeiro pavimento. O robô dava a aula. Discorreu sobre assuntos já fartamente conhecidos — pelo menos para os integrantes do comando de Rhodan. Falou dos começos do Império, sua ascensão, e seu poderio atual, sem se deter nas dificuldades existentes. Por fim, frisou que Árcon alcançara tão destacada posição apenas por dispor de excelentes armas e soldados. E aperfeiçoar ainda mais ambos era a meta principal da academia militar em Naator, na qual os “voluntários” eram saudados cordialmente, em nome do regente. Bell estava parado ao lado de Rhodan. Não havia assentos. — Poxa, bem que eu gostaria de tapar a boca deste sujeito! — sussurrou ele. — Jamais ouvi tanta mentira de uma só vez. Nem mesmo de Gucky! — Mentir faz parte da propaganda — replicou Rhodan, em voz igualmente baixa. — Mas fique quieto, agora! Alguns dos zalitas já estão nos olhando. As horas correram. A longa permanência em pé começava a produzir desconforto entre os homens, mas o robô naturalmente não era afetado. Prosseguiu em sua ladainha. Minutos depois, deu o sinal de encerramento da aula. Os recrutas retornaram aos alojamentos, e o jantar foi servido. Após o jantar, Rhodan chamou os dois teleportadores Ras Tschubai e Tako Kakuta para junto de si. O japonês ainda não tinha entrado em ação até o presente, mas agora as circunstâncias exigiam que também desse sua contribuição para o êxito do plano. Rhodan fitava Ras, enquanto dizia:

— Vocês têm diante de si uma noite trabalhosa. O Almirante Senekho proibiu a entrada de qualquer naat nas zonas reservadas. Entretanto temos de continuar jogando a culpa dos atentados sobre os ciclopes. Logo, vocês terão que estender sua atividade a alvos fora dos limites da academia. Por todos os cantos da lua precisam explodir bombas no decorrer desta noite, provocando destruição. Todo o sistema de vigilância dos arcônidas deve concentrar-se na prisão dos sabotadores. Creio que assim ganharemos o tempo necessário para Noir submeter todos os aras ao seu controle. Esta medida é essencial para não sermos descobertos. O repentino levante dos naats dará o que fazer aos arcônidas. Quero que relaxem a vigilância sobre nós, e procurem o inimigo em outro lugar. — Conseguiremos — assegurou Ras, alisando significativamente sua colcha, debaixo da qual se ocultava um bem sortido arsenal. — Com estas coisinhas aqui, faremos metade da lua voar pelos ares. Rhodan recomendou: — Cuidado para não exagerar, Ras! Claro que os naats teriam possibilidade de arranjar bombas e granadas de mão: Porém lembre-se de que os naats são pouco inteligentes, apesar de o regente lhes ter confiado até funções na frota espacial, antes da rebelião. Providenciem, pois a detonação de algumas bombas em locais inteiramente absurdos, onde não possam causar mal algum. As suspeitas de Senekho devem recair apenas sobre os naats, e sobre ninguém mais. Fato que se dará naturalmente caso ocorram atos de sabotagem no outro lado da lua, portanto, em plena luz do dia. Pessoa alguma poderia estar em dois lugares ao mesmo tempo. — Salvo teleportadores... — lembrou Ras. Também André Noir recebeu as últimas instruções e conselhos. Acompanhado de Son Okura, seria levado ao hospital por Ras, que tornaria a ir buscá-lo antes do amanhecer. Durante este período, o hipno e o perceptor de frequência estariam por conta própria. Porém já não correriam tanto perigo, visto que o médico-chefe Bóris e seu subordinado Renol haviam sido submetidos com êxito ao tratamento hipnótico, e os transformaram em aliados. Meia hora mais tarde, Ras saltou com Noir e Okura. Regressou em meio minuto, tomando a mão de seu colega Tako Kakuta. Empreenderiam o primeiro salto em conjunto. Cada qual levava numa sacola duas dúzias de granadas e bombas de tempo. E, antes do sol raiar, todas explodiriam em diversos pontos da lua Naator... *** Graças, primordialmente a Tanaka Seiko, Rhodan manteve-se informado acerca do sucesso da ação, e das contramedidas dos arcônidas. O localizador passou a noite inteira escutando as mensagens radiofônicas. O Almirante Senekho foi acordado ainda no decorrer da noite. Quando uma bomba explodiu a vinte 25


quilômetros, no meio de um depósito de peças de reposição, o alarme invadiu estridentemente a academia. A região foi imediatamente cercada, e prenderam os poucos naats residentes nas imediações daquela zona militar. Porém tornaram a ser liberados dez minutos após, quando houve segunda explosão. Senekho viu confirmada sua suposição de que a resistência passiva dos nativos se intensificava gradualmente. E libertou os naats julgando que assim acharia a pista dos cabeças do movimento. Simultaneamente chegaram-lhe alarmantes comunicados do lado oposto da lua. Dois pesados robôs guerreiros tinham sido abatidos numa tocaia. Fato jamais verificado anteriormente em Naator. Aquilo era rebelião declarada! Senekho entrou em contato imediato com o regente, exigindo maior liberdade de ação em relação aos nativos. O cérebro-robô deu ordem para prender qualquer naat suspeito. Ainda na mesma noite, os robôs invadiram as residências dos desavisados ciclopes, levando-os para campos de concentração. A ação, desencadeada de maneira fulminante, teve o maior êxito; pouquíssimos naats conseguiram escapar, refugiando-se nos inacessíveis ermos de Naator. A onda de sabotagem prosseguia, a despeito das prisões efetuadas. Por toda a parte explodiam bombas de tempo, colocadas com maior ou menor habilidade, causando sensíveis estragos. Diversas estações-relé para transmissão de energia pararam de funcionar. Entre os robôs, as destruições vitimaram dois tanques, e sete guerreiros. O Almirante Senekho perdeu a compostura, e esbravejava. Em contato constante com a estação radiofônica da academia, recebia as sucessivas mensagens funestas, e distribuía ordens. Nos intervalos, informava Árcon, pedindo instruções. Os verdadeiros rebeldes tinham se safado, a despeito da internação da maioria dos naats. Senekho desejava que os novos recrutas, os zalitas alistados, nada chegassem, a saber, a respeito dos atentados. Porém, tal desejo foi por água abaixo, pois o regente enviou a seguinte mensagem: Exames médicos e instrução das tropas suspensos por três dias! *** Notícia recebida com o maior alívio pelo grupo de Rhodan, quando Tanaka Seiko a captou e transmitiu-a. O plano fora coroado de êxito. O objetivo havia sido alcançado. Pouco depois, Ras trazia de volta o hipno André Noir e Son Okura. Os dois mutantes tinham conseguido submeter a controle hipnótico mais cinco aras. Os médicos restantes seriam tratados na próxima noite. E a terceira noite seria

reservada aos instrumentos médicos de controle. A preocupação principal de Rhodan era “viciar” o medidor de Q.I.; seus técnicos cuidariam disso. Não bastava que o aparelho fosse operado pelo médico-chefe sujeito a bloqueio hipnótico. Três dias e três noites se passaram. Os atos de sabotagem cessaram. Quando o robô 574 ordenou a formação, em filas de cinco, diante do edifício-funil, a fim de reiniciarem o treinamento interrompido no academia, Rhodan e seu grupo de terranos estavam preparados. Haviam tomado todas as providências para impedir que fossem descobertos pelos aras. Calmos e tranquilos marcharam para o hospital na primeira turma. Um oficial arcônida assumiu o comando no portão de entrada, mandando o robô 574 de volta. Apesar de não prevista no programa, a intervenção daquele arcônida já não representava perigo. John Marshall sondou-lhe os pensamentos, constatando que não suspeitava de nada. Foram admitidos em grupos de dez, com intervalos de um minuto. O aprimoramento técnico permitia tão breve interstício, e a inspeção se processava rapidamente. Aras subordinados conduziam cada grupo de uma sala de exames para outra. Noir podia considerar-se satisfeito com sua obra. Bastava dar a palavra-senha ao respectivo médico ao entrar no nicho, e podia estar certo de que o ara agiria de acordo com o desejo dos terranos. Rhodan integrava o primeiro grupo, assim como Noir, Atlan, Marshall e Gorlat. Caso desse tudo certo com eles, teriam a garantia de que os exames dos catorze grupos seguintes se processariam sem problemas. — Salve o regente! — disse André Noir, ao entrarem duas horas após na grande sala onde pontificava Bóris. Erguendo o olhar, o médico-chefe deu com os olhos do hipno. Seus olhos brilharam de forma estranha, depois estarreceram. Mas apenas por alguns segundos. — Salve o regente! — replicou ele, fazendo sinal para seus assistentes. Gesto completamente supérfluo, pois Noir controlara igualmente os assistentes. Os procedimentos que teriam início agora não passariam de uma farsa, em proveito de eventuais câmaras fotográficas ou microfones existentes. O medidor de Q.I. funcionou “com perfeição”. Unicamente o quociente intelectual de Atlan — agora Capitão Ighur — superava um pouco o de Rhodan e dos demais terranos. Com isso, ele se colocava bem acima da média dos zalitas, circunstância que mal despertaria suspeitas. Mesmo que houvesse dúvidas, Atlan nada tinha a recear na eventualidade de um segundo exame. Como arcônida, possuía todas as características de um zalita, inclusive a estrutura óssea. As fichas foram encaminhadas ao arquivo. Seriam devidamente estudadas pelos arcônidas, e aproveitadas de acordo com os resultados obtidos. Quando o primeiro grupo deixou o hospital, e marchou 26


de volta para os alojamentos, a tarde já chegava ao fim. Um minuto após veio a segunda turma de dez homens. — Salve o regente! — exclamou também Reginald Bell, quando seu grupo concluiu a prova com Bóris. Ainda enquanto deixava o recinto com seus nove companheiros, e eram conduzidos por um ara para a saída, o código funcionou. O hipnobloqueio colocado por Noir no cérebro de Bóris neutralizou-se, devolvendo-lhe o raciocínio normal... mas junto com as falsas recordações. O mesmo se deu com os demais médicos. Chegara o intervalo para o almoço. Tinham examinado mil recrutas. Com mais vagar e cautela do que de hábito, por ordem expressa do almirante. Em vez de mil e quinhentos, apenas mil numa manhã. Nenhuma ocorrência especial. E que ocorrências podiam aparecer, afinal...? O ara Bóris parecia apático ao deixar o recinto, a fim de dirigir-se ao seu quarto. Após a breve pausa do meiodia, o trabalho recomeçaria. Monótono e sem novidades, como sempre. Quando Bell lhe informou que o derradeiro grupo passara pelos exames sem dificuldade, Rhodan tranquilizou-se. A parte mais árdua da “invasão furtiva” fora superada. Dificilmente precisavam recear a descoberta agora. Até agora, os cálculos de Rhodan tinham sido corretos, porém deixara de levar em consideração determinado ponto. Ao ouvir o ligeiro zumbido do minúsculo hiperreceptor oculto em seu relógio, lembrou-se do tal ponto. Ligou o aparelho com um aperto de dedo, e emitiu o sinal de que estava pronto para receber. Podia comunicarse agora com o Major Rosberg. — Aqui posto avançado V-4, Sir. Aconteceu uma coisa horrível, Sir. A voz de Rhodan tremia ao dizer: — Conte, major... E o Major Rosberg contou...

5 Quando se aproximaram de Tagnor, a tempestade de areia amainara. Sobre o deserto brilhava novamente o céu limpo. O sol vermelho Voga descia inapelavelmente para a linha do horizonte, porém Murgo afirmara que alcançariam a capital antes de escurecer. Aviões isolados passavam a grande altura, sem baixar ou tentar uma aterrissagem. — Talvez nem estejamos sendo controlados — disse Rhog, otimista. Mas o barbudo chefe da caravana sacudiu a cabeça. — Não podemos contar com isso — discordou. — Pessoa alguma pode entrar ou sair de Tagnor sem ser

detida. A linha de controle ainda se encontra à nossa frente. Prosseguiram em silêncio. Tagnor ficava além do horizonte. A não ser que tivesse a consciência limpa, ninguém ousaria entrar em Tagnor. Porém, dos onze zalitas componentes da caravana, nenhum tinha a consciência limpa. Os contornos da cidade começaram a delinear-se ao longe. O espaçoporto com as demais instalações à esquerda; as silhuetas de naves esféricas e esbeltos cargueiros zalitas destacavam-se do deserto. Junto a eles, alguns cruzadores. — Chegamos ao ponto crítico — observou Murgo, apontando para a frente. Na claridade decrescente, Rhog reconheceu os tanques dos robôs. Estavam dispostos a intervalos de cem metros. Totalmente impossível romper aquela barreira! Com uma das mãos, Rhog segurou o punho de sua arma, que não lhe valeria de muito. Com a outra, apalpou o passe falsificado. Os robôs perceberiam a alteração feita? Murgo deteve seu veículo ao ver dois robôs encaminhar-se para eles. Desceu desajeitadamente da cabina, e foi ao encontro dos emissários de Árcon. Rhog não entendeu uma só palavra do diálogo, mas sabia que Murgo tentava explicar aos robôs a finalidade da caravana, supostamente vinda de Larg. Talvez conseguisse. Porém, depois o coração de Rhog quase parou de bater. Sombras emergiam do escuro, na retaguarda. Um oficial arcônida e quatro robôs guerreiros juntaram-se ao grupo. Um arcônida era mais difícil de ser iludido do que um robô. Também Murgo sabia disso, e levou tremendo susto. Havia previsto o controle por parte de robôs, mas jamais contara com o aparecimento de um arcônida. A situação se complicava. — Mande seus homens se aproximarem — disse o oficial, secamente. — E que tragam todos os documentos de identificação. Murgo sentiu a ameaça em potencial, porém dominouse. Nada de muito sério poderia acontecer a ele, e a seus nove homens, pois tinham os passes especiais do almirante. E, a rigor, a sorte de Rhog lhe era indiferente, apesar de ser constrangedora a presença de um homem com passe falsificado na caravana. No entanto... — Apresse-se! Murgo ficou nervoso, e correu para os veículos. — Desembarquem! — gritou. — E tragam seus documentos. “Bem, a exigência não é das mais severas”, pensou. “Só espero que o arcônida não queira controlar a carga”. Mesmo desconhecendo ele próprio o conteúdo dos volumes, era fácil concluir que estes não deveriam conter apenas animais. Suposição mais do que correta, devido às misteriosas operações na caverna. O oficial examinou minuciosamente cada documento, dedicando evidente interesse aos passes especiais. Rhog 27


procurou eximir-se ao controle, porém os robôs estavam atentos. Quando tentava afastar-se com os zalitas já vistoriados, foi detido. — Ainda não mostrou seu passe — disse um deles, segurando-o pelo braço. O oficial percebeu o incidente. — Venha cá, zalita! Seu passe! Rhog pressentiu que sua missão fracassaria! Na sua pistola havia duas, no máximo três cargas. Poderia liquidar aquele arcônida; mas de que lhe adiantaria? Os quatro robôs — na realidade, eram muitos mais — acabariam imediatamente com ele. E matariam também todos os integrantes da caravana. Sua mão soltou a coronha da arma. Tirou o passe do bolso, e estendeu-o ao arcônida. Em vão procurou achar uma saída, e teve de reconhecer que não existia nenhuma. O oficial tomou o passe, e olhou-o atentamente. Por fim ergueu os olhos avermelhados de albino, nos quais se lia surpresa. Como se a presença de Rhog não estivesse em seu programa. O arcônida parecia até um tanto desorientado. — O passe foi falsificado — disse ele, finalmente. Na sua voz não havia nem triunfo, nem ódio. Também denotava desorientação. — Preciso levá-lo comigo. A caravana pode seguir. Murgo suspirou de alívio. Pelo visto, não o responsabilizavam pela presença de Rhog. Porém queria prevenir-se, para não tornar a passar mais uma vez por situação semelhante, e talvez pôr em perigo a carga. — Poderia dar-me uma declaração? — pediu. — Para quê? — Para mostrar, caso me detenham novamente. A mim, pouparia novos retardamentos, e os robôs de Árcon não seriam ocupados desnecessariamente, podendo dedicar-se a tarefa mais útil. O argumento era convincente. O oficial acenou, e tirou um papel do bolso, estendendo-o a Murgo. O barbudo relanceou o olhar por ele, e guardou-o. Acenou quase imperceptivelmente para o pobre Rhog, e retornou a seu veículo. Os demais zalitas já ocupavam seus lugares junto aos respectivos volantes. Segundos após, a caravana franquearia a linha de controle, seguindo pela rua principal para o centro da cidade. Porém Rhog ficou para trás... — Siga-me! — ordenou o arcônida, desistindo de revistar o zalita. Rhog agradeceu mentalmente a displicência do arcônida. Talvez ainda conseguisse evadir-se. E na cidade havia esconderijos em abundância. Os dois robôs de guarda retornaram às posições originais. Sem hesitar, o oficial tomou Rhog pelo braço e saiu andando. Os quatro robôs acompanharam-nos à retaguarda. Rhog adivinhou que havia oito radiadores apontados para suas costas, sufocando pela raiz qualquer esperança de fuga. Correr agora equivalia a suicídio.

As ruas de Tagnor estavam desertas. Raramente Rhog avistava algum zalita, pois todos tratavam de esconder-se rapidamente ao avistar o grupo. Nenhum zalita livre parecia ter a consciência tranquila, mesmo quando possuía passe especial. “Quem poderia recriminar-me, caso eu tentasse fugir?”, refletiu. “Tenho uma missão a cumprir, e por ela arriscarei a vida.” Tudo estaria perdido se o enviassem a Árcon. A oportunidade de fuga chegou antes do que esperava... A caminho do palácio do Zarlt — onde ficava, também, o quartel-general do almirante arcônida — o grupo passou pela vasta arena de lutas. Rhog já a conhecia, e sabia que, justamente naquele bairro, inúmeras ruelas transversais ofereciam ótimos esconderijos. Antes que pudesse tomar qualquer iniciativa, foi beneficiado pelo acaso. Quando o oficial, Rhog e os robôs dobraram a esquina de uma rua lateral, dois zalitas surgiram a vinte metros do oficial. Estacaram surpresos ao dar com a patrulha. Se houvessem prosseguido calmamente em seu caminho, talvez não tivessem despertado suspeitas. Rhog admirouse, aliás, por ver o arcônida reagir, pois, em diversas ocasiões anteriores, deixara passar sem qualquer observação indivíduos suspeitos. Mas desta vez foi diferente... Quando giraram sobre os calcanhares, disparando de volta pela rua escura, o arcônida parou, voltou-se e disse: — R-56 e R-763! Perseguir e prender os dois! Dois dos robôs se puseram imediatamente em movimento, correndo atrás dos dois suspeitos, desapareceram na rua lateral. Aí Rhog agiu como um raio. Levava exatamente vinte metros de vantagem; três a quatro segundos, portanto, se andasse depressa... Rhog saiu em disparada! Dois metros antes da esquina salvadora sentiu o calor esbraseante de um tiro energético. Diante dele, bolhas fervilharam nas paredes. Dobrou a esquina, e mergulhou na providencial escuridão. Ouviu lá atrás os pesados passos dos robôs, e a voz estridente do oficial, que reboava pelo labirinto de ruas abandonadas. Rhog precipitou-se através de um beco... Quando os dois robôs alcançaram tal viela, não viram mais sinal do fugitivo. Seus holofotes perscrutaram paredes e portas das casas. O arcônida chegou ofegante a ponto de mal conseguir respirar. — Onde está ele? — perguntou aos robôs. — Não pode escapar-nos! — Desapareceu! — Revistem as casas... depressa! Enquanto algumas dúzias de zalitas eram indelicadamente arrancados do repouso noturno, Rhog prosseguia na fuga. Esgueirou-se por um porão, saiu pelos fundos dele e acabou num pátio, 28


onde achou um esconderijo seguro. Ali poderia aguardar tranquilamente até o dia seguinte. Depois de amanhã, segundo esperava, poderia pôr em execução o plano longamente acalentado. *** Naquela noite, foi Gucky quem saltou para o palácio do Zarlt, a fim de intercambiar informações com o falso Almirante Calus. Também, desta vez, Calus estava sozinho. Porém, por via das dúvidas, trancou a porta, para que nenhuma “visita” inesperada os surpreendesse. Eram os únicos minutos do dia em que Calus podia tirar a máscara, e voltar a ser o sargento Osega... naturalmente apenas no que se referia à maneira de portarse. — Ah, é Você! — exclamou, quando viu o rato-castor surgir no meio do quarto, e gingar em direção da cama, aconchegando-se sobre os travesseiros. — Não poderia acomodar-se em outro lugar, a não ser sobre minha cama? — Em primeiro lugar, sou tenente, enquanto você é sargento. Portanto, mereço um pouco mais de respeito quando falar comigo — replicou Gucky, em tom de censura. — Segundo, a cama pertence à Calus, e não a você. E por último, camas são o lugar onde me sinto mais à vontade. — Primeiro — retrucou Osega, imperturbavelmente — acho falta de consideração tratar todos por você, sem diferenciar postos ou nome. Segundo, eu sou Calus, portanto esta cama agora me pertence. Terceiro, não me oponho ao uso de minha cama, desde que venha de patas limpas. Gucky fungou furioso. — Trata-se da sobrevivência da Terra, e você se preocupa com algumas manchas em sua cama... — Sou eu quem tenho de dormir sobre as manchas de sujeira — lembrou Osega. — Desembuche agora! Que há de novo? Gucky suspirou. — Esta mudança de disposição... coisa horrível! Novidades? Ah, sim, chegou a caravana com os suprimentos enviados pela Califórnia. Tudo funcionou às mil maravilhas! Nenhuma pane! Amanhã mesmo o pessoal retornará para buscar a segunda leva. — Poxa, graças a Deus! Não poderia trazer-me algumas conservas da nossa velha Terra? Estou farto da comida artificial arcônida! — Ora, que idéia! — protestou Gucky, indignado. — Já imaginou que alteração produziria aqui o fato de encontrarem em sua cesta de papéis uma lata com a inscrição “Legítimos cogumelos bávaros”? — Ora, eu detesto cogumelos — objetou Osega. Realmente, poderia ter pensado em desculpa melhor, pois Gucky chiou, furioso: — Cogumelos ou sardinhas, tanto faz! Não vai ganhar coisa nenhuma! Ordens de Rosberg! A menor suspeita

contra você pode arruinar todos os nossos planos. Depois piscou, e exibiu o dente roedor num sorriso. — Mas nada me impede de fazer-lhe um pequeno favor pessoal, meu caro. Amanhã lhe trago alguma coisa. — Isto é o que se chama ser camarada! — louvou Osega, satisfeito, alisando o pêlo de Gucky, depois de ter sentado na cama ao lado dele. — Como estarão se saindo Rhodan e seu pessoal? — Não tenho ideia, Osega. Só podemos pensar que tudo está correndo bem. Caso tivesse havido alguma dificuldade, já nos teriam avisado. Cuidemos, portanto, para que aqui em Zalit tudo se desenrole de acordo com os planos. Ah, agora me lembro de uma coisa! Enviamos ao encontro da caravana um tenente arcônida devidamente hipnobloqueado, acompanhado por quatro robôs também pré-programados. Segundo nos informara Toffner, a caravana se compunha de dez homens; porém contava com onze quando foi detida pelo oficial. Como um deles viajava com um passe muito mal falsificado, o tenente prendeu-o, tencionando conduzi-lo com a maior pressa possível para o interrogatório. Porém o homem escapuliu nos arredores das catacumbas: Bem, não deve ter assim tanta importância, mas achei que devia saber. Caso ouça qualquer comentário a respeito, reaja como se não soubesse de nada. Na certa se trata apenas de algum zalita em fuga diante dos arcônidas. — Coitado — disse Osega, sem adivinhar de quem se compadecia. — Não sei, porém, se poderei fazer algo por ele, caso seja outra vez apanhado. Nada de comprometerse, é nossa regra de conduta suprema. Tem razão, não deve ter grande importância. Osega não sabia que estava cometendo o maior erro de sua vida. — Algum recado para levar? — indagou Gucky. — Não, nada de novo. Amanhã farei o costumeiro pronunciamento na televisão, e tenciono frisar mais uma vez a importância da campanha em preparação. Por enquanto Árcon não revelou indício algum acerca do inimigo contra o qual se dirigem os preparativos de guerra. Todos pensam que lutará contra os druufs. — Organizarão novos transportes? Osega sacudiu a cabeça. — Não, por estranho que pareça. Temos nos nossos alojamentos o número necessário de voluntários, mas Árcon suspendeu os transportes repentinamente. Como se tivesse ocorrido algo inexplicável. Não aqui, no entanto, porém no próprio sistema de Árcon. O rato-castor começou a rir. Seu dente roedor avançou, exibindo-se em todo seu esplendor. — Rhodan! — pipilou ele, eufórico. — Quem mais? Osega demonstrou surpresa. — Julga que é obra dele? Fantástico! — Efeito colateral assaz satisfatório de nosso empreendimento, com o qual nem contávamos. Agora os pobres zalitas ainda têm uma chance, apesar de já estarem nos alojamentos. 29


Osega acenou. — De fato. Talvez nunca sejam levados para Árcon. Lamentável que não possamos comunicar-lhes o esperançoso fato. Terão que continuar a viver amedrontados. — Nada de amolecer agora, “senhor”! — disse Gucky, empregando talvez pela primeira vez em sua longa vida a palavra senhor, se bem que em tom irônico. — Não pode cometer nenhum erro! — Os zalitas tremerão diante de mim — assegurou Osega, estendendo a mão ao rato-castor. — Até amanhã à noite. E não se esqueça de cumprir sua promessa. Um naco de presunto seria fabuloso! — Carnívoro! — disse Gucky, desdenhosamente, e desmaterializou-se. Assustou-se, talvez, com o manifesto apetite de Osega por um pedaço de carne. Dez minutos após, Osega dialogou com o oficial arcônida que efetuara o controle da caravana. Foi informado de todos os detalhes da fuga do zalita suspeito, portador de um passe falsificado. Despediu o tenente sem censurá-lo. Depois foi dormir. A manhã seguinte foi gasta em trabalhos de rotina, depois almoçou — o cardápio constava de pratos sintéticos — e recebeu alguns oficiais do alojamento de recrutas. Nada teve a dizer-lhes, pois Árcon não dera explicação para a suspensão dos transportes. À tarde, mandou vir o carro e dirigiu-se à estação de televisão. O cordão de robôs de guarda abriu-se, dando passagem ao almirante. Alguns zalitas imunes ao recrutamento, devido às funções indispensáveis que exerciam, saudaram o almirante no caminho, com acentuada subserviência. Na sala de transmissões, tudo estava preparado. Diariamente, à mesma hora, Calus apresentava seu programa de trinta minutos. Quando tomou lugar diante da mesa semicircular, e começou a ordenar seus apontamentos, três câmaras apontavam para ele. Da porta, o operador zalita de plantão lhe fez sinal. — Zalitas! — começou Osega, de modo frio, mas plenamente consciente do quanto detestava a encenação que era obrigado a fazer. — O regente está insatisfeito com vocês! Por todos os cantos de Zalit escondem-se os refratários, e nossos apelos a eles ficam sem resposta. Então, por ordem do regente, o controle passará a ser mais rígido, e haverá menos exceções. Só em casos verdadeiramente excepcionais serão emitidas dispensas do serviço militar. O regente ordenou ainda que, dentro de no máximo um mês, a totalidade dos zalitas esteja registrada. Quem quer que seja encontrado após esta data sem passe válido, deve esperar severa punição, provavelmente fuzilamento. Osega fez uma pausa. O ruído das três câmeras o deixava nervoso; apesar de dispensarem operador, pois trabalhavam automaticamente,

hoje havia um. Jamais o vira na central radiofônica. Cautelosamente, Osega levou a mão à arma enfiada no cinturão. Contava sempre com a possibilidade de algum zalita fanático cometer um atentado. Até ali dentro, literalmente cercado por robôs de guarda. No entanto, de que forma poderia algum sabotador chegar até ali? Proibiam rigorosamente a entrada de qualquer elemento não pertencente à equipe técnica. O zalita verificou o bom funcionamento das câmaras, acenou com a cabeça, e desapareceu. Osega suspirou, aliviado. Junto à porta, um robô imóvel montava guarda. Seus dois braços armados apontavam para baixo. Mas em questão de segundos, os mortíferos raios energéticos poderiam disparar em todas as direções. — Gostaria de frisar mais uma vez — continuou Osega em sua arenga — que Árcon faz questão cerrada de considerar os zalitas como aliados. Enfrentamos unidos um poderoso adversário, que é preciso aniquilar. Talvez o alistamento forçado esteja sendo feito com excessivo rigor, porém Árcon não tem outra escolha. Neste ponto do discurso, Osega foi interrompido! Um zalita precipitou-se pela porta guardada pelo robô. Esgueirando-se pelo lado, avançou em direção de Osega. Por trás do falso almirante, ecoavam gritos e brados de alarme. O robô reagiu prontamente, mas não pôde fazer nada. Caso fizesse uso de suas armas, o Almirante Calus correria perigo sem necessidade. Aproximou-se rapidamente para a mesa na qual Calus estava sentado. Porém Osega já estava de pé. Reconhecera o perigo. O invasor zalita encontrava-se agora à sua frente, diante das câmaras. Milhões de zalitas presenciariam a cena em seus televisores. — Queremos que Árcon nos deixe em paz! — berrou Rhog, sacando bruscamente sua arma. — Mande o robô sair daí, Almirante Calus! Osega deu uma ordem ao robô, mas o colosso não obedeceu. Apesar de estar a três metros deles, não se afastou. O sargento percebeu que precisava agir depressa, caso quisesse sobreviver. Por outro lado, não devia comprometer o plano de Rhodan. Poderia, naturalmente, dizer ao zalita que ele se enganava que iria assassinar o melhor amigo de sua pátria. Poderia dizer-lhe que o Almirante Calus fora aprisionado pelos oponentes de Árcon há muito tempo. Porém milhões de zalitas escutariam igualmente suas palavras... assim como os atentos arcônidas. Ninguém providenciou a interrupção da transmissão. Menos que quaisquer outros, os zalitas. Era uma preciosa oportunidade para mostrar-se superior aos arcônidas. Tamanha derrota, bem diante das câmaras de televisão... Osega via uma única saída: para continuar vivo, e ao mesmo tempo não revelar os planos de Rhodan, precisava matar o zalita antes que este o alvejasse. Porém ainda tentou outra solução. 30


— Espere, zalita — disse, com a maior calma possível. — Está cometendo um engano fatal. Não quer escutar-me, antes de agir? — Morra, servo do Império! — gritou Rhog, dramaticamente, e ergueu a arma. — Todos vocês são servos, escravos do cérebro-robô! Apertou o gatilho antes que Osega tivesse oportunidade para sacar a própria arma. O sargento tombou antes de chegar a sentir dor, e morreu diante dos olhos de um planeta inteiro. Escorregou desamparado ao longo da quina da mesa, e abateu-se no chão. Mas também Rhog morreu. O robô, agora com toda a liberdade de ação, abriu fogo. Atravessado por três ou quatro raios energéticos caiu sem um gemido. Seus companheiros, nas longínquas montanhas, presenciaram sua morte, junto com os demais habitantes do planeta. Porém seu sacrifício representava enorme sucesso. Pois também Calus havia perecido. Os mortíferos raios do robô puseram as câmaras fora de ação. Por toda a parte em Zalit, as telas escureceram, Mas todos sabiam: Calus está morto! Algo iria acontecer! E boa porção de zalitas sentiu-se invadida por repentino medo. Entre eles, Cagrib e seus amigos, reunidos em silêncio, e cheios de dúvidas, diante do televisor na caverna que lhes mostrara o holocausto de Rhog.

6 Quando a voz de Rosberg emudeceu no minúsculo receptor, Rhodan levou quase dois minutos para dizer: — Sinto a morte de Osega, Rosberg. Ele não precisava ter morrido. — Mas não morreu em vão, Sir — replicou Rosberg. De maneira alguma, a hipermensagem poderia ser captada. As ondas radiofônicas estavam bem concentradas. Mesmo assim, a cautela era recomendável. Caso alguma nave atravessasse o facho, com o receptor casualmente ligado na mesma freqüência, sempre seria possível... — A vida de uma pessoa é preciosa demais para compensar qualquer utilidade que trouxesse sua morte. Além disso, o desaparecimento de Osega representa muito mais prejuízo e perigo para nós, do que proveito. Que acontecerá se examinarem o cadáver? E Árcon enviará outro almirante para Zalit. Teremos que substituir também este? Porém Rosberg se fixara apenas numa das perguntas... — Meu Deus... se examinarem o cadáver! Os arcônidas perceberiam imediatamente que este Calus era um farsante! Que devo fazer? — Tire o cadáver da estação radiofônica, Rosberg! Mande Gucky ir buscá-lo.

— Seria impraticável. O morto já foi retirado. O Almirante Calus vai ter um enterro oficial em Árcon. — Ainda mais isso! — Rhodan refletia febrilmente. — Impeça-os! De qualquer maneira! Mais alguma coisa? Rosberg hesitou. Sua voz tinha um tom indeciso. — Precisamos contar com um agravamento da situação em Zalit. O regente anunciou uma expedição punitiva. — Vai ter de resolver isso também, Rosberg. Não posso prestar-lhe ajuda no momento. Avise-me, caso as coisas se tornem críticas. Até mais e boa sorte! — Da mesma forma — veio a resposta, e a comunicação foi cortada. — Se o regente reconhecer um terrano em Calus, estaremos fritos, Perry — comentou Atlan, secamente. — Espero que Rosberg consiga fazer o enterro de Osega. — Esperemos que sim — concordou Rhodan, gravemente. Por maior que fosse o presente perigo, não tinha meios de contorná-lo de onde estava. Era como uma espécie de destino, sobre o qual não se tinha influência alguma. — Nossa atual preocupação é evitar a ocorrência de falhas aqui. Amanhã, conforme informou Seiko, serão feitas as designações. Vamos ver que espécie de nave nos confiam. — Sem instrução, nem formação? — perguntou Bell, admirado. — O regente não perde tempo. Ordenou que todos os ex-oficiais espaciais zalitas forem nomeados comandantes provisórios. Receberão uma tripulação à qual deverão ministrar adestramento prático. Durante os vôos de treinamento. — Bastante ortodoxo — disse Atlan, impressionado. — Parecem ter pressa de atacar a Terra. Estranho, levando em conta que o regente nem sabe onde procurá-la. Calou bruscamente, fitou Rhodan, e acrescentou: — Ou saberá...? — Duvido — respondeu Rhodan. — Provavelmente trama novo ataque aos druufs. Olhou para fora, através da janela. Além das construções achatadas ficava o pedregoso deserto da lua, que representava um posto avançado de Árcon. Algumas nuvens eram arrastadas pelo vento gelado, encobrindo passageiramente a luz das estrelas. Um mundo inóspito, e, no entanto, em sua superfície se decidiria o ulterior destino da Terra. Pelo menos no que se referia à primeira fase. — Não, não creio Atlan. Pois se o regente conhecesse a posição da Terra, já o saberíamos por intermédio do Marechal Freyt, em Terrânia. O regente teria atacado imediatamente. — Preocupações e incertezas! — praguejou Bell, impaciente, rumando para sua cama. — Vou é dormir, para acabar com estes irritantes pensamentos. Quem quer minha ração para animais peçonhentos? Fome todos eles tinham, porém ninguém se candidatou. *** 31


Por volta do meio-dia, tudo estava mais ou menos decidido. De acordo com os resultados da inspeção, registrados nas fichas dos aras, o Almirante Senekho distribuíra o pessoal. Os zalitas com quociente intelectual elevado foram nomeados oficiais, receberam o posto de comandante e chefe de grupo; cada qual teve igualmente uma tripulação. Felizmente Senekho se preocupara em conservar unidos os vários grupos de treinamento. Unicamente devido a esta circunstância, Rhodan e seu pessoal não foram separados. — Então nossa “banheira” se chama Kon-Velete — comentou Bell, cansado, ao retornarem para o alojamento, depois da exaustiva cerimônia de distribuição de cargos. — E nosso comandante é um tal de Ighur, batizado na vida civil com o nome de Atlan. Senekho nem se dignou levar em consideração os antigos postos militares. O Major Sesete e o Major Roake são agora primeiro e segundo oficial. E eu sou forçado a obedecer às ordens de um capitão... Rhodan sorriu. — E que outra alternativa temos? Pelo menos estamos sendo coerentemente comandados por um arcônida, que, além disso, vem a ser almirante legítimo. Que mais poderíamos querer? — Já é um consolo — admitiu Bell. — A situação é muito mais complicada do que imaginamos. — objetou Atlan. — A Kon-Velete é uma nave de guerra novinha em folha, da classe de nossa Stardust, e seu diâmetro é de oitocentos metros. De certa forma, podemos falar em sorte por termos recebido uma tripulação de apenas duzentos homens; no entanto, com isso o Almirante Senekho nos impôs a estreita convivência com cinquenta zalitas desconhecidos. Rhodan sacudiu a cabeça. — Se estivéssemos sozinhos na nave, teríamos que agir com igual cautela. Tenho certeza de que câmaras ocultas informam continuamente o regente e seus oficiais acerca do comportamento dos novos soldados. Em outras palavras: como zalitas, teremos de agir demonstrando claramente que nos sentimos sob observação; como terranos, temos de conscientizar-nos de que somos incessantemente vigiados. Portanto, cada segundo de permanência na Kon-Velete passa a ser de total encenação. Até durante o sono. Espero que ninguém tenha o costume de falar dormindo, arriscando-se a pronunciamentos comprometedores. — Preocupo-me muito mais com a situarão em Zalit — disse Gorlat, hesitante. — Ignoramos o que se passa lá. Aqui ainda temos a possibilidade de viver os acontecimentos, mas em Zalit... Não concluiu a frase. Antes que Rhodan pudesse replicar, ouviram um estalido no alto-falante. A voz do robô 574 disse: — As tripulações já designadas devem ir para bordo

das naves dentro de duas horas. Vôo experimental em condições de batalha simulada. Ordens adicionais posteriormente. O alto-falante emudeceu. — É, eles estão realmente com pressa — comentou Atlan, de modo sarcástico. *** Sob certos aspectos, a Kon-Velete era decepcionante. Apesar de tratar-se de uma embarcação nova, recém-saída dos estaleiros de Árcon; mas fora planejada originalmente para robôs. Instalações sanitárias improvisadas revelavam a rápida conversão para tripulantes humanos. Os alojamentos sem conforto eram deprimentes. Atlan sentia-se meio desorientado na central de comando. John Marshall, Gorlat, Bell e Rhodan lhe faziam companhia, depois de terem providenciado a distribuição adequada de todos os membros da tripulação, tanto terranos como zalitas. A nave estava pronta para decolar. John Marshall captou telepaticamente a mensagem radiofônica modulada de Atlan. — Poderíamos comunicar-nos desta forma, em caso de necessidade? Pergunte a Rhodan! O telepata transmitiu silenciosamente o recado. Rhodan acenou. E depois pelo receptor de capacete, Atlan recebeu a resposta: — Sim, mas só em caso de absoluta emergência. A partir de agora, somos zalitas dispostos a servir ao regente. Vamos procurar conquistar a confiança do cérebro-robô. Atlan parecia tranquilizado. Reconfortava-o saber que poderia buscar conselho em caso de perigo. Não puderam evitar que os dois oficiais zalitas Tenente Kecc, e Tenente Hopro, ocupassem posições importantes. Precisavam evitar suspeitas. Ambos possuíam quociente intelectual bastante elevado para justificar encargos de responsabilidade. Por sugestão do Almirante Senekho, o Tenente Kecc fora até nomeado radioperador-chefe da Kon-Velete, enquanto Hopro foi designado para a equipe técnica, entre zalitas e terranos. — Estas camas são apropriadas para robôs, e não para gente de ossos quebráveis — disse Bell em zalita. “Um tantinho de crítica é mais do que insuspeito”, pensou. — Ainda tiveram tempo de mudar a linha de produção em Árcon. Quando é que zarpamos, afinal? — continuou logo depois. — Lembre-se de que até agora as naves de Árcon costumavam ser tripuladas exclusivamente por robôs — disse Rhodan, continuando a conversa destinada aos ouvidos do regente. — Devemos nos considerar honrados, nós os zalitas, por nos permitirem substituir os infalíveis robôs. Por sorte, temos também robôs especiais a bordo para nos amparar, apesar de estarem sujeitos às ordens de nosso Capitão Ighur. 32


Um pouco afastado, Gorlat contemplava, aparentemente distraído, os controles da central. Na tela ligada, via-se o espaço-porto de Naator. Sabia que existia mais de um espaçoporto na lua do quinto planeta. Nave alinhava-se ao lado de nave. Uma frota inteira estava pronta para o primeiro exercício. Caso tudo corresse conforme o programa, não estaria longe o dia em que o almirante recebesse a ordem decisiva de conduzir toda a frota para Árcon. — A Kon-Velete diferencia-se enormemente de nossos cruzadores zalitas — constatou Rhodan, com o maior fingimento. — Com tais naves, Árcon vencerá a guerra. — Absolutamente correto, Major Sesete — concordou Bell no mesmo tom, suprimindo até o costumeiro sorriso irônico. — Sinto-me orgulhoso por poder servir ao regente sob o comando do Capitão Ighur. Atlan decidiu participar também do improvisado jogo de palavras, porém a porta da central foi aberta, deixando entrar um robô. Dirigindo-se para Atlan, disse, em sua voz rascante e impessoal: — O Almirante Senekho me encarregou de dar-lhe apoio em suas funções. Fui comandante da Kon-Velete, e trouxe-a de Árcon para cá. Disponha de mim, capitão. — Vou procurar cumprir minhas obrigações sem sua ajuda — replicou Atlan, respeitosamente. Era certamente a primeira vez em sua vida que demonstrava tanta consideração a um robô, porém queria provar ao regente — caso ele estivesse escutando secretamente — seu respeito por robôs. — No entanto, ser-lhe-ei grato, evidentemente, se puder evitar que eu cometa erros. Em caso positivo, espero que me alerte a tempo. — É exatamente esta minha obrigação— replicou o robô. Outra tela se iluminou. A fisionomia de Senekho apareceu nela. O comandante de Naator disse: — A frota decolará dentro de poucos minutos para um vôo de treinamento. Cada comandante estará em contato direto comigo, recebendo de mim as instruções para o curso. Hoje quero constatar unicamente se os diversos comandantes se entrosam bem com as tripulações. Em caso contrário, faremos substituições. Tudo pronto para a decolagem? Solicito confirmação por parte dos comandantes. O radioperador chefe entrou na central. Era um zalita típico, alto e aparentemente muito prestativo. — Comunicação estabelecida, Capitão Ighur. Pode falar com o Almirante Senekho. Vou providenciar para que o rádio permaneça em funcionamento, e possa ser operado da central. — Obrigado, Tenente Kecc — replicou Atlan, tornando a voltar a atenção para a tela que mostrava Senekho. — A Kon-Velete está pronta para decolar, almirante. Aguardamos suas ordens.

7 Gucky não pudera acompanhar Rhodan para Naator porque, nem com a melhor boa vontade, e apesar dos recursos disponíveis, seria possível disfarçá-lo de zalita. Porém não se encontrava só na desgraça. Outro mutante se revelaria por sua figura: o “incendiário” Ivã Ivanovitch Goratchim. Pois Ivã possuía duas cabeças. Não era, no entanto, sua característica mais destacada. Era capaz de transformar em energia pura qualquer espécie de matéria que contivesse um mínimo traço de cálcio ou carbono; e isto a grandes distâncias, e geralmente sob a forma de uma tremenda explosão, de natureza atômica. Ivã vinha a ser uma arma inimaginavelmente perigosa, quando empregado de maneira adequada. O filho de cientistas russos fora descoberto outrora na Sibéria pelo Supercrânio, um dos grandes adversários de Rhodan, há anos passados. Derrotado o Supercrânio, Ivã passou a integrar o Exército de Mutantes. O Major Rosberg começou a sentir-se mal com o silêncio. Olhou de relance para Gucky e disse: — Não vejo possibilidade de tirar o cadáver de Osega das garras dos peritos arcônidas. Nem sabemos, presentemente, onde é que ele está. Só sei que vamos passar um mau momento, caso constatem que Calus não é Calus. Acocorado sobre uma cadeira, o rato-castor deixava Betty Toufry acariciar-lhe o pêlo, como se não houvesse outra preocupação em todo o mundo. À sua frente, sentavam-se Ishy Matsu e o mutante de duas cabeças. — Em Tagnor vivem ainda cerca de vinte milhões de zalitas, sem contar os forasteiros presentes, e os arcônidas. E todos estes vinte milhões pensam, se bem que se ocupem apenas com assuntos tolos e supérfluos. Porém pensam, e isso é decisivo. Cada pensamento representa uma pista, um impulso. E precisam ser investigados um por um. Mas quanto tempo levaremos para examinar todos eles? Rosberg sabia disso, e nem pensava em recriminar o rato-castor. — Osega não existe mais, senão poderia informar-nos. Mais do que lógico que participassem ao Almirante Calus onde se encontra o cadáver — ora, que bobagem estou dizendo! Mas é para qualquer um perder o juízo! Gucky riu sardonicamente. — Dê-se por feliz por ter um para perder, Rosberg. Mesmo que soubéssemos onde está o cadáver de Osega, como poderíamos resgatá-lo sem despertar suspeitas? Se algum arcônida puser os olhos sobre mim... — Aí é que está! — concordou Rosberg. — Vamos ter que desistir de seus serviços. O cadáver precisa desaparecer, nem mais, nem menos. Mas de modo algum deve desaparecer em circunstâncias misteriosas. Que problema mais complicado! O Major Rosberg era militar, habituado à ação direta. Porém surripiar o cadáver de Osega equivalia realmente a 33


um verdadeiro caso policial. Tal ação não era adequada à sua índole. — Quem sabe Toffner consiga alguma coisa — consolou Betty Toufry, interrompendo sua busca telepática. — Perdi-o momentaneamente, assim como seus dois amigos. Rondam os arredores do palácio. — Espero que sim — disse Rosberg. — Além disso, dificilmente descobririam tão depressa a falsa identidade de Calus. O disfarce de Osega é excelente. E por que se lembrariam de radiografar um morto? — Não devemos raciocinar nestes termos — avisou um dos cientistas do departamento bioquímico, destacado para ficar em Tagnor. — As probabilidades de descoberta reduzem-se no máximo a cinco por cento, mas até isso já é demais. Precisamos apossar-nos do cadáver de Osega! Aliás... — acrescentou, com um olhar de relance para os nichos encortinados onde trabalhavam seus colegas — ...que faremos com o verdadeiro Calus? Continua sendo prisioneiro nosso. — Talvez Rhodan o solte algum dia, depois que isso tudo tiver acabado — opinou Rosberg. — De momento, não nos serve de nada. Betty, que tornara a aprofundar numa espécie de meditação, levantou repentinamente a cabeça. — Creio — disse ela com convicção — que achei uma pista. Rosberg indagou: — Toffner? Ela acenou em silêncio, e voltou a escutar o confuso burburinho de milhões de impulsos mentais, dos quais um único os interessava. *** Os três zalitas possuíam os passes especiais assinados por Calus, isentando-os do serviço militar. Mas até quando, naquelas circunstâncias, a assinatura do almirante teria validade? Portanto, continuava sendo perigoso aproximar-se muito dos arcônidas. Porém não lhes restava outra alternativa, caso quisessem prestar ajuda a quem os amparara anteriormente. Toffner não era zalita, naturalmente, fato do qual nem Kharr, nem Markh suspeitavam. Arranjara passes para ambos, e eles fariam tudo que estivesse ao seu alcance para demonstrar sua gratidão, assim como aos amigos de seu benfeitor. Um robô encaminhou-se para eles, a passadas firmes; fazia parte do cinturão de controle do palácio. Os arcônidas não gostavam de fiar-se nos soldados do Zarlt, a despeito da aparente fidelidade deste ao regente. — Que procuram aqui? — indagou em sua voz metálica. Toffner exibiu o passe, e a licença especial. — Sou Garak, o administrador da arena de lutas. Estes dois homens são meus auxiliares. Tentamos organizar novos jogos, a fim de levantar o moral dos zalitas. Solicitamos uma entrevista com o Zarlt. — Por que não se alistaram na frota?

— Somos incapazes para o serviço militar, todos os três. Eis os documentos comprobatórios. O robô examinou conscienciosamente os papéis, mas parecia indeciso se concedia ou não permissão para entrarem no palácio. — Esperem! — ordenou e dirigiu-se para o portão. De repente parou, sem mais um movimento. Toffner sabia que o fato nada tinha de extraordinário. O robô estava simplesmente pedindo instruções a seus superiores, através do rádio. O robô voltou. — Meus oficiais acham que o reinício dos jogos atrairá muitos homens para Tagnor. A audiência com o Zarlt foi concedida. Entrem. Toffner suspirou intimamente, porém ao mesmo tempo, sentiu-se tomado por enorme preocupação. Realmente, veriam Zarlt, e falariam com ele; no entanto, a verdadeira finalidade da entrevista era outra. Talvez viessem, a saber, algo acerca do paradeiro do cadáver de Calus, se é que o Zarlt fora informado a respeito. O robô acompanhou-os até a entrada, onde os entregou a dois soldados zalitas, pertencentes à guarda pessoal do Zarlt. Apesar de não serem vistos com bons olhos, continuavam sendo zalitas. E, afinal, não tinham outra escolha: precisavam obedecer ao Zarlt e aos arcônidas, caso não quisessem partilhar o destino dos “voluntários”. Tiveram que identificar-se por mais duas vezes, antes de penetrar no palácio propriamente dito. Foram recebidos por um zalita vistosamente fardado. — O Zarlt o espera, Garak. Sigam-me. Kosoka era idoso, e fraco demais para opor-se à vontade dos arcônidas. Ainda estava imbuído da milenar reverência pelos senhores do Império, apesar de o poder já ter passado há muito tempo para um cérebro-robô. O Zarlt Kosoka era servidor do regente — servidor digno de toda a confiança, por seu medo e cansaço. Ele ocupava uma poltrona elevada na sala de audiências, e recebeu os visitantes com ar indeciso. — É por causa da arena? — perguntou ele, depois de Toffner, Markh e Kharr fazerem suas reverências. — Não temos jogos há muito tempo. Por que, Garak? — Não há gladiadores, senhor, faltam também as expedições necessárias para capturar animais selvagens. Aqui está Markh, o negociante de animais. Não pode ir sozinho para o deserto, a fim de aprisionar haracks ferozes. Kosoka acenou. — Compreendo Garak. Você veio fazer-me uma proposta. Fale! Toffner percebeu que se desviavam cada vez mais do verdadeiro objetivo de sua visita. Mas talvez fosse necessário. — Existem muitos zalitas considerados incapazes durante as inspeções. Poderíamos convocá-los para apoiar Markh numa expedição pelo deserto, pagando-os bem, claro. — Markh não pode arranjar homens por si próprio? 34


Toffner admirou-se por encontrar rapidamente uma desculpa. — Não, e bem que ele tentou, Zarlt. O pessoal anda desconfiado. Enxergam ciladas arcônidas por trás de qualquer oferta. Mesmo quando possuem o atestado de isenção, vivem atormentados pela incerteza. Só conseguiríamos homens, caso o Zarlt lhes garantisse a segurança num pronunciamento público. O homem idoso hesitou. No íntimo, concordava com os argumentos de Garak-Toffner, porém não sabia se deveria aceitá-lo prontamente. — Tenho que aguardar a chegada do sucessor de Calus — disse, numa evidente tentativa de ganhar tempo. — O novo almirante deve chegar aos próximos dias. No entanto, receio que... — involuntariamente sua voz ficou mais baixa — ...Árcon não esteja lá muito satisfeito conosco no momento. O assassinato de Calus... — Uma vergonhosa nódoa em nossa história — lamentou Toffner, falsamente. — O Almirante Calus era grande amigo de Zalit e de seus habitantes. Pena seu assassino ter morrido tão depressa; mereceria uma morte mais lenta. Pelo menos haviam chegado ao assunto. Talvez pudesse arrancar do Zarlt algum comentário revelador. No entanto, Toffner ignorava que havia sido localizado pela telepata Betty Toufry, que agora escutava toda a conversa. Além disso, era capaz de captar igualmente os pensamentos do Zarlt, e não apenas “ouvir” suas palavras. — O Almirante Calus será substituído por um homem severo — disse Kosoka, sem grande interesse. — Talvez até por alguém que proíba os jogos, e invalide os passes especiais. Ouvi comentários a respeito. — Mais um motivo para amaldiçoar o assassino. Eu venerava Calus, pois me livrou do serviço militar. Chegou a falar comigo certa vez, quando me encontrou na rua. Gostaria de vê-lo mais uma vez, antes que seja levado para Árcon. O Zarlt inclinou-se ligeiramente, e fitou Toffner. — O cadáver...? — Sim, o cadáver de Calus! Por que não prestar-lhe minha reverência, se representa um homem que venero? Kosoka voltou a recostar-se em seu assento. — Infelizmente não vai ser possível, Garak. O cadáver do Almirante Calus já se encontra a bordo da nave que o conduzirá a Árcon. Ser humano algum o acompanhará, pois a nave é tripulada por robôs. O último voo de Calus será este. O espírito dele pilotará o cruzador-correio. Toffner sentiu-se como se tivesse recebido um soco no rosto. Era o que queria saber, e as coisas estavam pretas para ele próprio, e para os demais, caso o Zarlt falasse a verdade. Despediu-se com algumas frases tolas sobre a arena, prometendo voltar assim que o novo almirante tivesse chegado. Os três homens puderam deixar o palácio sem maiores dificuldades. Rumaram pelo caminho mais curto para o

esconderijo nas catacumbas. Para sua surpresa, constataram que o pessoal já estava informado. Em resposta à pergunta de Toffner, Betty Toufry explicou: — O Zartl não mentiu, falou a verdade. O cadáver de Osega já se encontra numa pequena nave-torpedo, tripulada por dez robôs. As coordenadas foram determinadas. A nave deve decolar assim que o novo almirante chegue, e dê a ordem. Portanto, ainda temos dois dias. Até lá... A telepata silenciou, desalentada. Toffner fitou o Major Rosberg. — E agora, Sir? De jeito nenhum poderemos tirar Osega de uma nave arcônida. Caso o retirarmos de lá, as suspeitas se voltarão para o Exército de Mutantes. Tal grupo é conhecido demais para que sua intervenção não se revele flagrantemente. Não podemos apelar para telecinese ou teleportação! — Receio que tenha razão — concordou o major, mergulhando em profunda reflexão. *** Enquanto a mais de três anos-luz, o comandante Ighur empreendia, junto com seus duzentos homens, o segundo vôo experimental, com total satisfação do almirante, a situação, em Zalit, se agravava cada vez mais. O sucessor de Calus chegara, e trazia terríveis ordens. Dali por diante, todo zalita encontrado com uma arma devia ser fuzilado. Também devia esperar a pena de morte quem não se apresentasse à comissão de recrutamento. Os papéis expedidos por Calus foram declarados sem valor. O portador precisaria submeter-se a nova inspeção. De um dia para outro, a situação se modificara. Para Rosberg, não foi fácil aceitá-la. Afinal, o Calus por cuja morte responsabilizavam e puniam os zalitas, ainda estava vivo. Hipnobloqueado, o apático e desmemoriado almirante descansava em seu modesto leito, sem causar o menor problema. Porém não podia ser libertado. Seu aparecimento provaria imediatamente ao regente que seu mais perigoso adversário estava por perto. Em vez de melhorar, a situação pioraria. Os dois zalitas Markh e Kharr recusavam deixar o esconderijo. Não sabiam que seus amigos eram terranos, porém adivinhavam que seus passes haviam perdido a validade. Caso fossem detidos, iriam parar com toda a certeza no espaçoporto, no acampamento dos conscritos. Toffner mostrou opinião contrária. — Mesmo que a assinatura de Calus não valha mais nada, na certa não começarão a prender ainda hoje todo portador de passe. O processo de reformulação vai durar semanas. Não tenho o menor receio de ser visto em Tagnor. Se me intimarem a comparecer diante da comissão de recrutamento, eu vou. Com uma risada, concluiu: — Sem dúvida terei permissão para ordenar meus assuntos privados antes da partida para Árcon. O Zarlt me 35


ajudará. Betty Toufry, que estava de vigília, controlando telepaticamente os arcônidas, disse: — A nave de Osega vai decolar ainda esta noite. Acabei de sabê-lo, escutando a conversa de alguns oficiais. Rosberg acenou. — Discutimos tudo detalhadamente ontem, e o plano continua de pé. Cada participante conhece sua tarefa. Você é o primeiro, Toffner. Como estação de relé, se me permite designá-lo por este nome, sabe o que tem a fazer. Desejolhe boa sorte. — Bem que vai precisar dela! — piou Gucky. — Se tiver azar, vou resgatá-lo. “Andando” depressa, ninguém me verá. — Fará o que eu ordenar! — declarou Rosberg, com rispidez fora do comum. Ainda excitado, dirigiu-se a Toffner: — Vá, agora. Não podemos perder mais um só minuto. Toffner saiu sem se despedir. Conhecia sua tarefa, e a cumpriria. Alcançou a primeira zona policiada, diante do aeroporto, sem ser detido. A sensação de estar constantemente em contato com seus amigos, através de Betty Toufry, tranquilizava-o; apesar de unilateral, porque ele não era telepata. Mas eles estariam sempre a par do que acontecia em torno dele. — Agora vem o primeiro controle — sinalizou ele, quando os dois robôs de guarda lhe barraram o caminho. Exibindo seus papéis, declarou: — Gostaria de falar com um oficial — sem demonstrar temor continuou, atrevidamente: — Informações importantes. — De que natureza? — quiseram saber os robôs. — Isso eu não posso revelar. Saibam apenas que se trata de desertores. Sei onde se escondem. Aquilo causou efeito. Toffner recebeu permissão para entrar na área do espaço-porto. O oficial mais próximo fora avisado, disseram-lhe; podia prosseguir sem receio de ser detido novamente. Passou livremente pelos controles seguintes. Poucos minutos depois se viu diante de um jovem tenente, cuja atitude arrogante o identificava como um arcônida autêntico. — Quem é você? — perguntou o oficial. Toffner deu as explicações exigidas, gastando muito tempo nisso. Impaciente, o tenente insistiu: — Disseram-me que trazia informações importantes para nós. — Sim, creio que são importantes — replicou Toffner, hesitando. — É sobre os desertores. Ontem encontrei um conhecido meu de Larg. Afirma saber onde se escondem os zalitas que recusam servir nosso Império. A despeito de sua arrogância, o tenente não era nada tolo. — E por que quer delatar seus compatriotas? — Não por motivos egoístas — assegurou Toffner,

com fingida sinceridade. — E parece-me que não se trata de delação quando se é fiel ao Império de Árcon. Surpreso com o argumento, o oficial ficou sem resposta. Porém a arrogância inata logo readquiriu a supremacia. — Não pedi sua opinião. Diga o que sabe, e vá embora. “Que sujeitinho!”, pensou Toffner, furioso, enquanto sorria com suavidade e deferência. Avistara uma pequena nave em forma de torpedo na orla do espaçoporto. Diante dela, uma guarda de honra formada por robôs arcônidas. Devia ser aquela! Mas queria ter certeza. — Meu conhecido voltou a Larg, porém tornarei a vêlo dentro de poucos dias. Então saberei maiores detalhes. Não haveria sentido em iniciar as buscas já agora, e afugentar os desertores. Eu só queria que estivesse informado. O tenente parecia desapontado. — Não sabe onde eles estão? — Em algum lugar nas montanhas, ao norte do deserto, mas desconheço o local exato — fez uma pausa, e apontou para a nave-torpedo. — Servi outrora num cruzador comercial. Conheço tudo quanto é nave, até as arcônidas, mas nunca vi uma tão pequenina. Alcança a velocidade da luz? O oficial deixou-se desviar do assunto; ou talvez quisesse apenas estimular Toffner a revelar finalmente seu segredo. Muito afável, disse: — Velocidade da luz? Salta distâncias imensas através do hiperespaço, e conduzirá o cadáver do nosso almirante para Árcon. Ainda lhe falta conhecer muitas das naves de Árcon. Quando o reverei, Garak? — Assim que meu amigo chegar de Larg. — Pois bem. Se você não aparecer, mandarei procurálo. E sabe que somos capazes de encontrar quem quer que seja. Afirmação bastante exagerada, mas Garak não protestou. Enquanto isso, não tirava os olhos da pequena nave. Pensava nela, pensava, pensava, pensava... E era ótimo que pensasse. Sob a arena, Betty Toufry via nitidamente a nave, tão intensa era a imagem transmitida por Toffner. Gucky associou-se igualmente à mensagem telepática, e aprontouse para o salto. Ontem, ainda, tal ideia teria sido impraticável, porém agora não restava outra alternativa. Osega precisava ser retirado da nave. Sem deixar pista alguma! — Toffner despede-se agora, mas ainda parou no portão, olhando para trás. Contempla a nave. E pensa nela. Posso saltar agora, Rosberg. O major acenou. — Salte Gucky! E o rato-castor desapareceu diante de seus olhos. *** 36


Toffner deixou o terreno perigoso sem ser detido, e perdeu a nave de vista. Porém já não tinha importância. Betty conhecia sua posição. E, na pequena nave, o almirante arcônida Calus repousava sobre um amplo leito, em seu pomposo uniforme. Dois robôs montavam guarda de honra. Seus braços não eram armados, porém carregavam espingardas de raios. No teto abobadado da pequena central ardia uma lâmpada mortiça. Os controles automáticos estavam regulados. A qualquer momento, a nave poderia decolar. Gucky teve sorte. Rematerializou-se às costas dos dois robôs, que não o viram. O rato-castor fitou a face pálida de Osega. Conhecera bem o sargento, e passara bons momentos em sua companhia. E agora Osega estava morto, estendido no lugar do homem que realmente deveria morrer. Gucky reprimiu a raiva que o invadia. Não era hora de cismar sobre fatos que já não podiam ser alterados. Osega tinha que ser levado para as catacumbas, a fim de ter um enterro decente. Aqueles dois robôs testemunhariam o inacreditável, porém, se tudo corresse conforme o acertado, não teriam oportunidade para passar adiante a informação. Tudo era questão de segundos. Cautelosamente, para economizar o precioso tempo, Gucky inclinou-se, e segurou o braço de Osega. Estava frio e rígido. Ocorreu ao rato-castor que pela primeira vez em sua vida tinha que transportar um cadáver. O contato físico estava feito; Gucky concentrou-se no esconderijo sob a arena, e desmaterializou-se. O processo durara menos de dez segundos. Os dois robôs continuavam imóveis e mudos, fazendo guarda de honra ao almirante. Talvez nem dessem por seu desaparecimento, se naquele instante o comandante da nave, igualmente robô, não entrasse na central. Recebera a ordem de partir. Estacou atônito no umbral da porta. Seus olhos, fulgurantes lentes, fixaram-se no leito em que Calus estivera deitado. Antes que pudesse interpelar os guardas, aconteceu a desgraça. O mutante de duas cabeças, Ivã Ivanovitch Goratchim, encontrara tempo suficiente, após o retorno de Gucky, de concentrar-se em seu objetivo, seguindo as indicações de Betty Toufry. Suas misteriosas ondas mentais puseram em andamento o processo de desintegração atômica. Cálcio e carbono transformaram-se em energia, no espaço de um único segundo.

Na orla do espaçoporto produziu-se uma explosão atômica. No lugar anteriormente ocupado pela nave levantou-se repentinamente um cogumelo de fumaça, crescendo com rapidez em direção do céu crepuscular de Zalit. Só então a cratera se tornou visível. Da nave, dos dez robôs, e dó cadáver do Almirante Calus não restara o menor vestígio. Toffner, ainda nas vizinhanças do espaçoporto, encaminhando-se apressadamente para o esconderijo, viu e ouviu a explosão. Soube, então, que o plano funcionara. Em breve, os arcônidas o procurariam, pois fora a última pessoa a ser vista no espaçoporto... Alcançou as catacumbas sem incidentes, e considerouse em segurança. *** Prepararam um jazigo para Osega num nicho rochoso afastado, e sepultaram-no com uma singela cerimônia. O Major Rosberg fez uma breve oração, relembrando o morto que dera sua vida não só pela Terra, mas também pela raça alienígena dos zalitas. Era uma ironia do destino, o sargento ter morrido pelas mãos do povo que desejava libertar. Ainda conversaram um pouco, antes de se recolherem. — Osega era um sujeito bacana — disse Gucky, com tristeza. — Precisamos informar Rhodan — sugeriu Betty Toufry. — Será um alívio para ele saber que a ameaça foi afastada. Rosberg acenou. — Vou tratar disso mais tarde. O silêncio caiu sobre o grupo de cinquenta pessoas. Contingente audaz num posto perigoso, a mais de trinta mil anos-luz da Terra, e a vinte metros sob a superfície de um planeta. Logo os comandos de busca dos arcônidas entrariam em ação. Porém sabiam que Rhodan já tinha nas mãos a chave para a fortaleza de Árcon. Atlan já comandava uma nave do Império. O regente mal suspeitava que seu mais perigoso adversário estava tão perto. Não, a situação não era tão negra quanto lhes parecera inicialmente. A explosão no espaçoporto, por desprezível que pudesse parece diante das explosões de uma verdadeira guerra, abalara os alicerces de um reino estelar. Árcon encontrava-se diante da hora decisiva de sua milenar existência. Porém os arcônidas ainda não sabiam disso...

Os “Recrutas de Árcon” conseguiram contornar ou anular todas as medidas de segurança do regente-robô, graças aos poderes mentais dos mutantes. Apesar disso, o destino do grupo de combate chegou a ficar por um fio, pois o cadáver do sargento terrano que passava por almirante arcônida, teria revelado tudo, caso o levassem para Árcon... Em A Chave do Poder, título do próximo volume, o comando alcança Árcon e...

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Nº 86

De K. H Scheer Tradução

Richard Paul Neto Digitalização

Arlindo San

Revisão e novo formato

W.Q. Moraes

Tanto tempo gasto para uma ação inútil...

Uma espaçonave arcônida encalhada na Lua, descoberta por Perry Rhodan, foi o ponto de partida para a unificação política da Humanidade e a pedra angular do Império Solar. O fato de que este Império — minúsculo em comparação com as demais potências do Universo — ainda continua existindo e ainda não se transformou num inferno atômico, ou não foi degradado a uma simples colônia de Árcon, só pode ser atribuído às magistrais jogadas dos terranos, aglutinados em torno de Perry Rhodan, no grande xadrez das Galáxias — e também à sorte, que como fato permanente é exclusivo dos fortes. No entanto, a fantástica linha da sorte, que, conjugada com os inteligentes esforços de Rhodan, conseguiu até hoje ocultar a posição da Terra nas Galáxias, parece ter chegado ao ponto de ruptura iminente... Os recrutas de Árcon — disfarce adotado pelos terranos comandados por Atlan — estão prestes a cair sob o poder do cérebro positrônico...

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descontraiu-se. Antes de caminhar de volta para a tropa, dando seus passos ridiculamente curtos, lançou-me mais um olhar de advertência. Levava a sério as normas prevalentes em Zalit. Era um homem alto, esbelto e ágil. A pele marromEstreitei a capa em torno do ombro. Um vento avermelhada fazia supor que se tratava de um zalita, ou gelado fustigava a grande planície, cujo solo pedregoso e seja, de um longínquo descendente daqueles arcônidas que desértico fora totalmente modificado por meio da aplicação há muitos milênios emigraram para o sistema planetário de de uma camada de aço plastificado de um metro de Voga, situado a 3,14 anos-luz de Árcon, a fim de se fixarem espessura. no quarto mundo do sistema. Com o correr do tempo, a cor O espaçoporto criado por essa forma trazia a da pele e do cabelo dos arcônidas se modificou, mas os designação Na-IV. Há pouco menos de 24 horas, tempozalitas conservaram o sangue arcônida. padrão, recebera ordem de transferir a Kon-Velete para essa — Breheb-Toor...! — gritou o homem alto em voz área, o que indicava que a partida era iminente. de comando. Virei-me e cumprimentei os dois oficiais arcônidas Duzentos arcônidas coloniais, que eram zalitas tal que pareciam congelados. Estavam sentados num planador qual o oficial que se encontrava à sua frente, pareceram ter de campo de repulsão aberto e a ocupação deles consistia sofrido um choque elétrico. Os corpos em inspecionar as tripulações das endireitaram-se com tamanha rapidez e Personagens principais numerosas espaçonaves. precisão que davam a impressão de serem Usei o rádio de capacete para, na deste episódio: controlados eletronicamente por uma qualidade de comandante do novo série de chaves automáticas. Atlan — Cuja volta ao velho couraçado, anunciar que minha unidade mundo natal é um ato de O oficial virou-se. Aproximou-se estava preparada para decolar. O mais desespero. de mim a passos curtos e com o corpo velho dos dois levantou a mão a título de rígido. Trazia sobre o uniforme de fibra cumprimento. Era o Almirante Senekho. Perry Rhodan — Imediato do sintética o símbolo do Grande Império: Era um homem de corpo esguio, que couraçado arcônida Kon-Velete. três planetas gravitando em torno de um estava sentado ao lado do robô-motorista. sol reluzente. Reginald Bell — Oficial da KonTodavia, era um dos raros arcônidas que O rosto escuro estava Velete. ainda possuíam inteligência e iniciativa semiencoberto pela protuberância larga suficientes para cumprir as tarefas de Tako Kakuta e Ras Tschubai — do capacete de rádio de uso obrigatório comandante de uma base avançada da Teleportadores, que não quando em serviço. Só vi um par de olhos frota. conseguem romper um campo cinzentos, o nariz afilado e a boca — Boa sorte, Capitão Ighur — defensivo em favo. enérgica. disse a voz saída dos fones de meu rádio Parou a três metros de mim. Fez Sargento Huster — O homem de capacete. — O senhor levará a glória sua apresentação no mais puro arcônida, que monta a bomba de Árcon. de Árcon para a imensidão do espaço. O no qual ressoava um ligeiro sotaque senhor decolará com a esquadrilha de Epetran — Uma voz do passado. zalita. unidades pesadas. Aguarde o sinal. Mais Mantinha a mão direita cerrada uma vez, boa sorte. comprimida contra o ombro esquerdo. Não havia nada que O jovem oficial que se encontrava ao lado de pudesse revelar ao observador, que esse oficial do espaço Senekho cumprimentou-me com um gesto apático. Depois na verdade era um terrano. Ninguém, nem mesmo os disso, assinalou meu nome na lista que trazia na mão. cinquenta zalitas genuínos, que pertenciam ao grupo, O planador foi saindo com um leve zumbido. Fitei-o seriam capazes de notar que o imediato do couraçado com uma sensação amarga, até que parasse junto ao arcônida novinho em folha, chamado Kon-Velete, não era comandante da nave mais próxima. Era um cruzador pesado outro senão Perry Rhodan, administrador do Império Solar. da classe fabricada por robôs. Aqueles que tinham conhecimento desse fato sabiam “Quer que eu leve a glória de Árcon para o espaço”, ficar calados. Também segui o velho costume: coloquei a pensei. “A glória de Árcon...”. mão sobre o ombro esquerdo e agradeci. Aquele homem, que devia ter cerca de dez mil anos Atrás dos homens enfileirados, o gigantesco vulto menos que eu, nem desconfiava de que fora almirante esférico da Kon-Velete, uma nave de oitocentos metros de muito antes dele e ocupara as funções de chefe de uma diâmetro, subia ao céu da lua Naator, coberto de nuvens esquadrilha arcônida. Naquela época, quando os esparsas. Tratava-se do único satélite do quinto planeta de respiradores de metano atacaram o império cósmico, Árcon, que servia de abrigo temporário, para fins de realmente se tratava de defender a concepção de força treinamento militar, às tropas auxiliares recrutadas por ligada ao Grande Império. E então não tínhamos ordem do regente. necessidade de recorrer aos povos auxiliares para tripular as A postura regulamentar rígida de Rhodan unidades de nossa frota. Dispúnhamos de vinte bilhões de

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arcônidas, todos eles especialistas altamente qualificados nos respectivos setores. Ninguém teria tolerado a presença de um robô ou de uma inteligência estranha nas salas de comando ou nos controles principais de uma nave. Se exigíssemos do técnico mais jovem que se submetesse às ordens de um não-arcônida, o resultado teria sido um motim. E agora? Furioso e triste ao mesmo tempo fitei a tripulação de robôs, assinalada por cores diferentes, que se enfileirara atrás dos homens que deveriam guarnecer minha nave. Cada uma dessas máquinas teria sua tarefa específica a bordo. Uma série de programações tinha sido realizada; o “adestramento” das criaturas metálicas insensíveis fora uma tarefa penosíssima. Ao menos tinha um consolo. Ao contrário dos outros comandantes — cuja triste sorte era lamentável — teria a bordo duzentos homens que realmente seriam criaturas vivas, com os quais se poderia falar, rir e, se necessário, gritar. Cento e cinquenta dentre eles eram elementos altamente qualificados da Patrulha Espacial Solar. Tratavase de astronautas com os quais se poderia contar em qualquer missão, por mais difícil e arriscada que fosse, pois não entrariam em pânico ao primeiro impacto. Não conheciam choques nervosos nem deserções provocadas pelo medo. Além desses cento e cinqüenta homens, havia cinqüenta zalitas verdadeiros, que me haviam sido entregues há várias semanas. Os novos couraçados deviam levar a bordo pelo menos duzentos seres pensantes, pois durante as lutas travadas nas frentes de bloqueio, situadas junto às zonas de descarga dos druufs, se constatara que as tripulações exclusivamente robotizadas eram incapazes de enfrentar a situação. Nem eu nem Perry Rhodan gostamos de levar esses soldados a bordo. Devíamos manter um controle rígido e ininterrupto sobre nossos atos, a fim de evitar que cometêssemos qualquer erro cujas consequências seriam graves. Uma única palavra inglesa proferida por nós bastaria para provocar espanto e desconfianças. Ainda trazíamos viva a lembrança dos atentados por meio dos quais conseguimos fazer com que nossos homens se saíssem bem nos testes médicos e psicológicos. Para completar o azar, havia entre os zalitas dois oficiais, aos quais tive de entregar posições importantes. Afinal, tivemos de apresentar-nos sob o disfarce dessa gente, e por isso não tinha nenhum motivo plausível para rejeitar esses homens, que eram considerados muito competentes. Só com grande dificuldade consegui afastar as preocupações. Estávamos num ambiente estranho, cercados por nossos piores inimigos, que, à menor suspeita sobre nossa verdadeira origem, golpeariam sem piedade. Recentemente o gigantesco computador de Árcon III incluíra uma nova disciplina no programa de treinamento da frota. Seu nome era o seguinte: “Tática de Guerra Terrana.”

Quando ouvi falar nisso pela primeira vez, tive uma sensação nada agradável. Concluí que o regente iniciara os preparativos para a conquista do sistema solar, embora ainda não soubesse onde encontrar a Terra. Dentro de poucos meses, o perigo dos druufs desapareceria, já que a zona de descarga se aproximava de nova fase de estabilização. Os estranhos, vindos de outra dimensão temporal, não teriam mais nenhuma possibilidade de atacar o espaço einsteiniano. Se soubessem que suas chances se acabariam dentro de poucos meses, o computador-regente de Árcon poderia contar com uma situação bem difícil. Já se sabia que os druufs atacavam com gigantescas frotas robotizadas. Quando esses ataques cessassem, o cérebro positrônico passaria a interessar-se pela Terra, que começava a incomodá-lo. Quando isso acontecesse, a descoberta de nossa posição galáctica seria apenas uma questão de tempo. Foi justamente por sabermos disso que decidimos pôr o regente fora de combate, desde que conseguíssemos desligá-lo ou fazê-lo voar pelos ares. Naquele momento ainda parecia que a operação, que Rhodan preparara com enormes esforços e a um custo elevadíssimo, estava fadada ao fracasso. Estávamos no dia 18 de março de 2.044 do calendário terrano. Decoláramos no dia 21 de janeiro com a Drusus e o cruzador ligeiro Califórnia. Uma vez preparado o terreno, pretendíamos arriscar uma tentativa de derrotar o computador. Um ataque aberto seria uma loucura rematada. Na época, o computador mantinha quase sessenta mil naves de guerra nas proximidades da zona de descarga. Nossa única chance seria inutilizá-lo numa ação de comando. E foi assim que, quando ainda se encontravam na Terra, cento e cinquenta homens pertencentes ao comando foram transformados em zalitas. Também eu recebera a pele típica marrom-avermelhada e os longos cabelos cor de cobre que, conforme o ângulo de incidência da luz emitia um brilho esverdeado. Ouvi uma ligeira tosse nos meus fones. Rhodan, que se encontrava à esquerda dos homens enfileirados, lançoume mais um olhar de advertência. Voltara a apresentar a expressão pensativa, o que naquele momento representava um comportamento totalmente inadequado. Voltei a cumprimentar os homens enfileirados e ordenei pelo rádio de capacete: — Embarque a tripulação, Major Sesete! Rhodan virou-se. Sua voz de comando ressoou sobre toda a área. Duzentos homens uniformizados marcharam, em direção às comportas inferiores do couraçado, que se encontravam aberta. Foram seguidos por mais de mil robôs, entre os quais se viam as novas máquinas de guerra, destinadas a operações de desembarque. Tratava-se de gigantes metálicos dotados de armas giratórias e quatro braços de quatro juntas. Com seus quase três metros de altura sobressaíam entre as outras máquinas. Parei junto a uma coluna telescópica de apoio e 40


contemplei a tropa altamente disciplinada. Esforçamo-nos ao máximo para aprender os regulamentos militares dos zalitas. Pousáramos em Voga IV por meio de um transmissor de matéria colocado às escondidas no planeta. O agente cósmico Jeremy Toffner levara-nos a Tagnor, capital do planeta, onde encontramos uma base de operações sob as cavernas da arena. A partir dali, a operação começou a tornar-se perigosa. Pouco tempo antes, um almirante espacial chamado Calus chegara ao planeta. O computador-regente incumbira-o de recrutar astronautas zalitas para prestarem serviço na frota de Árcon. Para todos os efeitos práticos, era Calus quem mandava em Voga IV, motivo por que procuramos substituí-lo por outro homem. Depois de prolongados preparativos, realizados por nossa equipe científica, conseguimos introduzir no palácio do governo de Tagnor o sargento Osega, sob a máscara de Calus. O verdadeiro Calus era nosso prisioneiro. Dali em diante não houve o menor problema em fazer os cento e cinquenta terranos disfarçados passarem por zalitas. Tínhamos documentos impecáveis, com os quais conseguimos enganar a comissão de recrutamento dos arcônidas. Em meados de fevereiro de 2.044, uma nave transportadora da frota de Árcon levou-nos à grande lua do planeta Naat, onde surgiram outras dificuldades. O computador-regente incumbira os médicos galácticos do exame das novas tropas espaciais. Não foi nada fácil enganar os aras e introduzir dados individuais falsos nos registros automáticos. De qualquer maneira, conseguimos fazer isso. Mas poucas semanas depois, a catástrofe foi evitada por pouco. No planeta distante de Zalit, situado a 3,14 anos-luz do sistema de Árcon, um grupo zalita de revoltosos foi bem sucedido numa tentativa de assassinato do comandante arcônida Calus. Com isso, o sargento Osega perdeu a vida. No último instante, os mutantes e cientistas de nossa equipe, que tinham ficado em Zalit, conseguiram remover o cadáver de Osega. Se o tivessem enviado para Árcon, sem dúvida teriam percebido que uma pessoa totalmente estranha fora vitimada pelo atentado. Escapamos por pouco, mas o incidente nos ensinou que o destino é imprevisível. Quando chegamos a Zalit, tínhamos certeza absoluta de que, dentro de poucas semanas, conseguiríamos chegar a Árcon III, onde passaríamos à execução de nosso plano. Nenhuma dessas previsões se realizara. Enfrentamos verdadeiras montanhas de dificuldades. Constantemente tivemos de contentar-nos com soluções parciais. A cada dia defrontávamo-nos com situações não previstas em nosso programa. Por algumas semanas ficamos presos na grande lua do quinto planeta de Árcon. Logo após a chegada entregaram-nos um couraçado da Frota Imperial, recémsaído do estaleiro. Fui nomeado comandante, já que em

Zalit fora provido com a necessária documentação. Mas, se pensávamos que logo seguiríamos viagem, mais uma vez estávamos enganados. Os voos de treinamento seguiram-se numa série ininterrupta. Tivemos de treinar o voo em todos os tipos de formação, e, simultaneamente, devíamos tomar cuidado para que os zalitas não ouvissem nenhuma palavra que pudesse trairnos. Nossos especialistas ficaram ocupados durante quinze dias com a programação dos robôs. Os deveres tomavam todo nosso tempo, e assim não tínhamos tempo para refletir detidamente sobre nossos planos. Esperando firmemente que as coisas ainda acabassem dando certo, entregamo-nos inteiramente ao serviço militar. A disciplina era rígida e os castigos muito rigorosos. Os arcônidas sempre souberam lidar com os povos auxiliares, que sempre executavam o serviço mais ou menos coagidos. Deles não se podia esperar que trabalhassem com muito entusiasmo. Hoje finalmente recebi ordem para levar o couraçado com a tripulação já treinada a Árcon, onde provavelmente seria realizado mais um exame de aptidão. Senti um calafrio ao pensar no perigo que esse exame poderia acarretar. Os homens mais importantes do Império Solar encontravam-se a bordo de uma nave que voaria diretamente para a toca do leão. Há esta hora já me sentia muito satisfeito por termos deixado na base de Zalit o rato-castor Gucky, Goratchim, um mutante de duas cabeças e as mutantes do sexo feminino. Se tivéssemos trazido essas pessoas na missão que estávamos realizando, provavelmente haveria dificuldades insuperáveis. Gucky e Goratchim de forma alguma poderiam ser disfarçados para se parecerem com os nativos de Zalit. Os últimos contingentes de robôs passaram por mim. Tratava-se das máquinas especiais do comando de controle de vazamentos. Todas essas máquinas tinham uma faixa vermelha no peito. Perry Rhodan encontrava-se ao pé da escada rolante. A Kon-Velete era uma nave nova e potente, mas não possuía o menor conforto. Até mesmo as instalações do camarote do comandante eram grosseiras, e para os nossos padrões, as instalações sanitárias deixavam muito a desejar. Ao que parecia, o computador-regente de Árcon não achava necessário modificar as gigantescas linhas de montagem de Árcon III pelo simples fato de que de repente as novas naves espaciais seriam tripuladas por seres vivos. Quando o último robô desapareceu, lancei um ligeiro olhar para o alto. As escotilhas blindadas da comporta de ar, que estavam abertas, ficavam a 22 metros acima do lugar em que nos encontrávamos. Só lá começava o abaulamento da calota polar. O gigante de oitocentos metros era uma nave que deixaria qualquer comandante orgulhoso. Nunca teria contado com a possibilidade de algum dia encontrar-me novamente na sala de comando de um 41


veículo espacial arcônida. Minha longa peregrinação pela história da Terra chegara ao fim. Uma nova época iria começar. Perto de mim estava um homem que, em poucos decênios, fizera do primitivo mundo terrano um planeta de importância galáctica. Antes de dirigir-se a mim, Rhodan verificou os controles de seu transmissor de capacete. Se tal aparelho continuasse ligado durante uma de nossas palestras confidenciais, isso poderia significar nosso fim. Também verifiquei o meu. Estava desligado. Os três sentinelas apareceram na comporta de ar. Aqueles homens pertenciam ao nosso comando. O Tenente Olavson fez um gesto tranquilizador em nossa direção. Lancei mais um olhar desconfiado em torno. Os cruzadores pesados do quarto grupo estavam pousados à nossa direita e esquerda. Tinham uma tripulação de apenas cinquenta homens. Era pouco para aquelas naves, que mediam seus quinhentos metros de diâmetro, e que por isso perdiam muito em eficiência. Face à degenerescência completa de minha raça, o robô-regente sofria a falta de pessoal. Procurava substituir pela quantidade a perda de potência combativa resultante da deficiência de pessoal. — Decolaremos dentro de trinta e dois minutos — disse em voz baixa, dirigindo-me a Rhodan. O vento cortante penetrou na boca aberta, fazendo com que os dentes doessem. Perry limitou-se a acenar com a cabeça. Não era seu costume falar sobre assuntos que já haviam sido discutidos inúmeras vezes. Naquela altura, a única coisa que importava era levar nosso comando a um lugar em que pudesse entrar em ação. Havíamos feito tudo que estava ao nosso alcance. Só nos restava confiar nas boas graças do destino. Já não tínhamos condições de intervir de forma decisiva nos acontecimentos que nos esperavam. — Mais três zalitas adoeceram — informou. — Bell acaba de receber o aviso. Não suportam o clima daqui. Como se sente? Fitou-me atentamente. Sem dúvida meu rosto mostrava sinais de tensão nervosa. — Tudo bem — respondi para esquivar-me. — Procure não esquecer-se novamente de fazer continência. Quando já me encontrava na escada rolante, que seguia muito devagar, ainda o ouvi praguejar. As três sentinelas entraram em posição de sentido. O berreiro de Olavson me fez estremecer. Não sabia dirigir-se a mim em tom normal. Não fazia mal, pois o regulamento zalita exigia esse volume de voz. Agradeci e entrei à frente de Rhodan no elevador axial, que parou automaticamente no hall da sala de comando. Perry caminhou na minha frente, abriu as pesadas escotilhas blindadas e voltou a apresentar-se. Só depois pude entrar. Aos poucos, o cerimonial começava a aborrecer-nos. Os zalitas o haviam copiado das

antiquíssimas normas arcônidas. No entanto, com o tempo, tal cerimonial foi levado a tamanho exagero que já não me sentia muito bem com isso. Além dos nossos homens, estavam presentes dois “genuínos”. Face à rigorosa disciplina militar, existente em Voga IV, consideravam-me uma espécie de ser superior. O Tenente Kecc, oficial de plantão do posto de observação, continuava como uma estátua junto à sua cadeira giratória, embora os terranos já estivessem sentados. O rosto furioso de Rhodan dava a entender que esse cerimonial lhe causava repugnância. O outro zalita estava sentado junto aos controles automáticos dos campos antigravitacionais. Por lá não poderia ocorrer nenhuma dificuldade, pois, independentemente de sua atuação, o dispositivo inteiramente positronizado corrigiria qualquer discrepância. Olhei atentamente em torno. Os rostos com os quais já estava familiarizado revelavam, com uma franqueza maior ou menor, que aqueles homens já se achavam saturados do jogo de esconder que vinha se prolongando por algumas semanas. Conhecia perfeitamente os problemas psicológicos e sabia que tais dificuldades representavam uma pesada carga para todos. Por isso resolvi transmitir uma informação ambígua: — O Grande Coordenador de Árcon manda dizer que, dentro de algumas horas, deveremos pousar em Árcon III. Depois disso terá início o treinamento tático final. Acho que daqui a trinta dias, no máximo, seremos enviados ao front. Viva o Grande Império! Os dois zalitas repetiram as últimas palavras em voz extremamente alta. Os terranos não pareciam tão entusiasmados. Eram detalhes que dariam a um atento observador muito que pensar. Ainda bem que os zalitas genuínos não eram tão fanáticos como pareciam ser. Sabia que pelo menos quarenta deles haviam sido coagidos à prestação do serviço militar. John Marshall, comandante do Exército de Mutantes, acenou com a cabeça de forma quase imperceptível. Verificara os impulsos mentais dos zalitas. Ao que parecia tudo estava em ordem quanto a eles. A fim de receber as instruções para a decolagem, Rhodan plantou-se à minha frente. Transmiti-as em palavras fortes e lacônicas. Fitou-me com uma expressão tão fria que até parecia que eu era culpado por ainda não termos chegado ao planeta de Árcon. Afinal de contas, a operação em que estávamos empenhados não era nenhum piquenique. Aliás, essa ação baseava-se exclusivamente numa suposição que há poucos meses ainda me parecera uma certeza. Mas as dificuldades que estávamos encontrando eram tamanhas que os cálculos e as conclusões daquele tempo, a meu ver, se tornaram altamente duvidosos. Quando pensava nisso, quase chegava a sentir náuseas. Esforçava-me constantemente para que ninguém desconfiasse de que não acreditava mais nos meus 42


prognósticos. Era evidente que não poderíamos derrotar o regente numa luta aberta. Também já se haviam passado os tempos em que a penetração no sistema do sol branco de Árcon, embora perigosa, ainda era possível. O regente mandara fechar hermeticamente esse setor espacial. Em face disso só havia uma maneira de destruir o computador-regente, cujo poder já se vinha tornando exclusivamente ditatorial. Teríamos de aproximar-nos discretamente, golpeá-lo e aguardar os acontecimentos. Na fase de planejamento não deixara de informar Rhodan de que uma fuga de Árcon não mais teria qualquer possibilidade de êxito. Já conseguira fugir uma vez. Mas, na época, os preparativos do regente ainda não estavam concluídos. Agora as coisas eram diferentes. Crest, o cientista arcônida, e eu afirmáramos que nossos veneráveis antepassados nunca deixariam de incluir, na construção do computador-regente, um dispositivo de segurança no qual se pudesse confiar. Certamente tratava-se de um relê sobreposto que apagava todas as programações do cérebro positrônico, assim que o funcionamento deste deixasse de inspirar confiança e não atendesse aos objetivos dos construtores arcônidas. Não havia dúvida de que esse momento havia chegado. O regente funcionava praticamente como se estivesse em curto-circuito. Seus atos eram tão contraditórios que o dispositivo de segurança, com cuja presença Crest e eu contávamos, já deveria ter intervindo. Não sabíamos explicar por que isso não tinha acontecido. Só iniciamos nossa operação porque acreditávamos que devia haver um caminho. E foi assim que nos colocamos na situação em que nos encontrávamos. Mas há algum tempo senti que os membros do comando terrano já não confiavam cem por cento em mim... Tudo acontecera de forma inteiramente diferente das nossas previsões. E agora víamos-nos obrigados a desempenhar corretamente o papel de uma tripulação colonial fiel e submissa, cujos cento e cinquenta membros dificilmente seriam capazes de conduzir uma nave espacial. Partiríamos para nossa destruição ou para a vitória. Não havia outra alternativa. Na fase dos preparativos, em Zalit, ainda poderíamos desistir e bater em retirada. Mas agora estávamos na armadilha. Minhas dúvidas sobre os argumentos, que antes pareciam tão lógicos, me corroíam os nervos. Ao que tudo indicava Rhodan já percebera alguma coisa, pois do contrário não teria perguntado constantemente pela minha saúde. Um forte estrondo abalou a Kon-Velete e arrancoume das reflexões martirizantes. Três luzes vermelhas acenderam-se no setor de controle 18. Ouvi Bell praguejar em zalita e vi os olhos de Rhodan chamejarem de raiva. O rosto abatido de um zalita surgiu numa das telas do sistema de intercomunicação da nave. — Não venha me dizer nada — gritou Bell em tom furioso. — Faça as chaves automáticas engatarem de novo.

Quantas vezes ainda lhe terei de explicar como são ligados os projetos antigravitacionais? Nunca ligue todos de uma só vez, seu idiota. Estamos registrando um pique de carga de cerca de oito mil ampères. Vamos logo; engate as chaves automáticas. — As chaves de segurança estão trancadas — respondeu o zalita, todo trêmulo. Bell descontrolou-se. Rhodan e eu esforçamo-nos para não perder o autocontrole. Era sempre a mesma coisa com essa gente, embora eles devessem ter bastante experiência para evitar isso. Toda a aparelhagem do novo couraçado trabalhava com o máximo possível de tensão, a fim de que a amperagem pudesse ser mantida em nível baixo. Até parecia que um engenheiro zalita nunca era capaz de compreender isso. Faziam as ligações como se só trabalhássemos com dispositivos de dez mil volts, nos quais a amperagem fatalmente teria de ser bastante elevada. — Faça a ligação manual das chaves automáticas — ordenou Rhodan em tom áspero. — Mande alguns técnicos para baixo e destaque dois operadores eletrônicos para acompanhá-los. Ande logo. E apresente-se a mim assim que estivermos no espaço. O zalita ponderou que, ainda no dia anterior, tinha havido dois acidentes no equipamento elétrico, o que não deixava de ser verdade. De qualquer maneira, porém, a trava das chaves de segurança tinha de ser aberta com a mão. Enquanto isso não fosse feito, elas não reagiriam aos impulsos teleguiados. A notícia de que as chaves estavam em ordem só foi transmitida a dois minutos da decolagem. Antes, as chaves de segurança de deslocaram mais três vezes, o que constituía prova inequívoca de que, no setor 18, a sobrecarga era um fato frequente, e, em face disso, os quadros de chave sempre reagiam através do dispositivo de travamento. As chaves só voltavam a ligar-se três vezes. Se até lá o defeito não tivesse sido corrigido, o dispositivo automático de segurança as desligava definitivamente. Se isso acontecesse no curso de uma batalha, a consequência poderia ser a destruição da nave. Desde o momento em que voamos, com uma tripulação composta parcialmente de zalitas, começamos a compreender por que a frota de bloqueio do computadorregente sofrerá perdas tão pesadas. Os druufs estavam em situação de inferioridade numérica, mas suas tripulações eram muito melhores. Face à minha natureza e à dos terranos, procurávamos constantemente corrigir esse tipo de falha. Esforçamo-nos para provar aos zalitas que estas podiam ser evitadas. Os técnicos do nosso comando fitaram-me com uma expressão de espanto quando, alguns dias antes, expliquei-lhes que o maior ou menor grau de treinamento dos colonos de Árcon nos era totalmente indiferente. Em hipótese alguma poderíamos tirar qualquer proveito de seus treinamentos. Até mesmo Rhodan cedeu a custo â lógica das minhas palavras. Não compreendia como a gente pode 43


mostrar-se indiferente às repetidas negligências. A meticulosidade dos amigos do Império Solar começava a incomodar-me. Ficavam muito nervosos quando um zalita não queria ou não conseguia compreender. Paciência: os humanos eram assim mesmo. Quase tudo que faziam tinha uma boa base. Quando, à direita e à esquerda do lugar em que nos encontrávamos, dois cruzadores pesados do quarto grupo ergueram-se do solo, ainda pensava nesse fato incontestável. Ouvi o rugido dos mecanismos propulsores, que, apesar da redução do volume dos microfones, ainda era quase insuportável. Um gigante após o outro rompia o fino envoltório atmosférico da lua. Finalmente chegou nossa vez. Estava sentado numa poltrona de encosto alto, destinada ao comandante da Kon-Velete. À minha frente estavam montados os controles principais. Se necessário, poderia paralisar com um só movimento de chave as instalações mais importantes do couraçado. Rhodan estava sentado à minha direita e Bell à esquerda. Cabia-lhes pilotar a gigantesca esfera de aço, na parte em que a aparelhagem automática não cuidava disso. Uma tela iluminou-se e nela surgiu o rosto enrugado do Almirante Senekho. — Decolagem permitida — anunciou. — Reunir-se no setor três e seguir a rota em formação. Siga as instruções da nave capitania. Boa sorte. Desligo. Rhodan fitou-me. Acenei com a cabeça. O voo em formação seria desagradável. Mas seria totalmente ilusório contarmos com qualquer outra possibilidade. Sozinhos nunca chegaríamos a Árcon. Dali a dez segundos, nossos mecanismos propulsores começaram a trovejar. Erguemo-nos do solo com um valor de compensação gravitacional correspondente a cem por cento do nível de Naator. Rhodan mantinha as pontas dos dedos sobre os controles manuais, uma vez que havíamos verificado que os dispositivos automáticos sincronizados destinados à coordenação do empuxo dos vários bocais de jato não funcionavam com a necessária precisão. Durante os voos experimentais, houvera desvios que chegavam a 1,85 graus. Apesar disso, o defeito ainda não fora removido. Isso constituía mais uma prova de que a fabricação em escala gigantesca, realizada por ordem do regente, não era um processo perfeito. Por certo, as linhas automáticas de montagem estavam precisando de uma revisão. Avançamos para o espaço a uma aceleração reduzida e, nas proximidades da fortaleza espacial Naat-V, reunimonos ao grupo de naves que se mantinha em posição de espera. A Kon-Velete era considerada a nave-guia do quarto grupo de cruzadores pesados. Isso bastou para convencer-me que, logo após nossa chegada a Árcon, um comodoro subiria a bordo. Não era muito provável que eu fosse nomeado para o posto de chefe de esquadrilha. Senti-me dominado pelo ódio e pela amargura. Há dez mil anos partira desse sistema solar para cumprir as

ordens do Grande Conselho. Só me haviam pedido que fosse dar uma olhada num sistema distante, a fim de verificar qual era o motivo dos constantes pedidos de socorro dos colonos ali radicados. O voo de rotina transformara-se num desterro... Finalmente estava regressando, mas o velho Árcon deixara de existir. Meus veneráveis antepassados há muito tinham desaparecido, e tive a sensação de não passar de um remanescente inútil, cujos anseios e esperanças se tornaram impossíveis. O império cósmico era governado por um computador. Nessas condições, de nada me adiantaria a alegação orgulhosa e soberba de ser Atlan, membro da família dos Gonozal. Minha família provavelmente já caíra no esquecimento. Ninguém se lembraria de que dela já haviam saído imperadores. Meu elevado grau de príncipe de cristal não causaria maior impressão, nem o cargo de almirante da Frota Imperial. Por isso só me restava esperar que não me subordinassem a algum oficial tolo e arrogante, com uma educação supersofisticada e imbuído de pensamentos reveladores de decadência e inaptidão para a vida. Acontece que esse perigo existia, motivo por que, desde logo, começava a preparar-me para o inevitável. Num gesto instintivo pus a mão no peito, onde meu ativador de vibrações celulares pulsava sob o fino tecido de plástico do uniforme zalita. Graças a ele, possuía uma imortalidade relativa, embora ainda não soubesse como o aparelho funcionava. Ele me foi entregue, há muito tempo, por um ser coletivo, altamente desenvolvido, que também se sentia ameaçado pelas mesmas inteligências que me perseguiam. Ao suspender por meio de um misterioso microconjunto o processo de envelhecimento natural de meu corpo, esse ser fizera de mim o representante para a defesa dos seus interesses. Fiz um grande esforço de concentração. Os olhares perscrutadores de Rhodan deixaram-me envergonhado. Parecia saber exatamente o que acontecia na minha mente. — Será dentro em breve — disse em voz baixa. O sentido dessa frase lacônica era tão profundo que me fez estremecer. O que seria feito da minha teoria? Será que realmente havia um dispositivo de segurança no maior computador da Via Láctea? Em caso afirmativo restaria saber em que hipótese esse dispositivo entraria em funcionamento e o que deveria ser feito para ativá-lo. Eram muitas perguntas para as quais não havia respostas. Só tínhamos certeza absoluta de uma coisa: quando estivéssemos em Árcon, não haveria mais nenhum caminho de volta. A esquadrilha continuou a entrar em formação. Assim que o grupo de 68 unidades ficou completo, recebemos ordem de partida. Aceleramos a apenas 1.002 km/seg. Até então nunca se havia conseguido constituir uma formação dotada de boa manobrabilidade, com uma aceleração mais elevada. Neste ponto, as velhas tripulações de robôs mereciam mais confiança que os zalitas. 44


Não gostei nem um pouco do sorriso irônico de Bell. Os terranos não deveriam acreditar que eles eram o máximo em perfeição. Era claro que cada um deles valia mais do que cinqüenta colonos treinados. Mas nem por isso tínhamos motivo para acreditar que o problema poderia ser resolvido apressadamente. Até agora a sorte nos tinha favorecido; só isso. Em todas as hipóteses, alguém conseguira remover no último instante um perigo que surgia de repente. O papel principal fora desempenhado pelos nossos mutantes. Se não fossem suas capacidades supersensoriais, a missão em que estávamos empenhados seria totalmente impossível. Restava saber se em Árcon III conseguiriam a consagração final. Em face de certas circunstâncias irremovíveis, Gucky e Goratchim tiveram de ser deixados de fora. Betty Toufry e Ishy Matsu também tiveram de permanecer no labirinto cavernoso, situado sob a arena zalita. Rhodan ligou o piloto automático. Reclinou-se confortavelmente na poltrona, abrangeu com um só olhar as telas da galeria de visão global e dirigiu o rosto para mim. — É uma beleza irreal, não é? — observou. A expressão de seus olhos era indiferente. Parecia enxergar através de meu corpo. O grupo estelar M-13 realmente era lindo. Neste setor, as estrelas ficavam muito mais perto umas das outras que nas outras áreas da Galáxia. Segundo as concepções arcônidas, o grupo M-13 representava a espinha dorsal do Universo, muito embora se situasse nos confins da Galáxia. Tratava-se da célula-máter do Grande Império. Foi aqui que teve início o processo de conquista, colonização e... submissão. Era meu mundo natal. Restava-me saber como seria recebido agora. Sentia-me mais desamparado que um filho extraviado, pois por aqui não havia mais ninguém que pudesse lembrar-se de mim.

2 Fomos tratados como um bando de moleques vagabundos que devem dar-se por satisfeitos por não serem presos. As belas recordações de Árcon foram desaparecendo, para ceder lugar a uma raiva surda. O setor lógico de meu segundo cérebro não dava mais nenhum sinal de sua existência. Em compensação, as reações de minha memória fotográfica eram mais frequentes e intensas. Um arcônida de posição elevada — cujo cérebro tivesse recebido um ativamento especial, mediante licença do conselho médico — não seria capaz de esquecer qualquer coisa. Foi por isso que o deserto de aço de Árcon III me pareceu tão familiar. Nada mudara naquele planeta que meus antepassados

haviam trazido para junto do planeta-irmão, usando gigantescos campos gravitacionais, a fim de transformá-lo num mundo de armamento. Era o maior dos três que, dispostos em forma de triângulo, circulavam em torno do grande sol branco. Árcon I, conhecido como o mundo de cristal, continuava reservado às finalidades residenciais. Árcon II voltara a ser considerado o mais importante dos mundos mercantis do Império. Ali pousavam constantemente as naves mercantes de todas as raças conhecidas. Todavia, não obtivemos permissão para visitar as ruas comerciais que abrangiam verdadeiros mundos. Triste e martirizado por uma dor penetrante, lembrei-me dos silos e depósitos recheados, nos quais eram guardadas as mercadorias de toda parte da Galáxia. Ao que parecia, tudo isso tinha chegado ao fim. O computador-regente restringira o comércio ao estritamente necessário, fazendo com que este se dedicasse, quase exclusivamente, à aquisição das necessárias matériasprimas. Árcon III, que era o mundo da frota e dos gigantescos estaleiros, precisava de quantidades imensas de materiais, para satisfazer a voracidade constante das linhas de montagem. O mundo dos arcônidas continuava a ser uma maravilha galáctica. Nenhuma outra raça jamais conseguira arrancar de suas órbitas dois astros naturais e colocá-los em outra posição. Desde o momento em que meus antepassados conseguiram essa dificílima realização científica, a falta de espaço deixou de representar um problema para nosso povo. A isso, seguira-se o tempo das grandes emigrações. O império cósmico foi-se formando. O sol de Voga, não muito distante, foi nosso primeiro objetivo. Mas, menos de quinhentos anos depois do início da colonização, os descendentes dos colonizadores já deixaram de ser considerados arcônidas puros. As influências ambientais sobre o corpo e a mente que ali se verificaram, aconteceram em quase todos os outros lugares. O número exato dos descendentes dos arcônidas era desconhecido. Porém, segundo as estimativas, o número das inteligências espalhadas pela Galáxia devia chegar a cinquenta trilhões. Estes descendentes desligaram-se de Árcon. Na maioria das vezes, nem sequer sabiam de onde tinham vindo. Em virtude disso ocorreram encarniçadas guerras coloniais, nas quais a luta sempre girava em torno de pretensões de posse e de arrojadas pretensões de autonomia. Agora estávamos recebendo as consequências desse estado de coisas. Pela primeira vez senti na própria carne o tratamento que costumava ser dispensado a uma criatura subdesenvolvida. Se as pessoas que escarneciam de nós fossem arcônidas com elevados dotes espirituais, minha vida não seria tão insuportável. Acontece que as pessoas que lidavam conosco eram cabeças de vento, cuja atividade 45


mental se reduzia ao anseio de executar pela forma mais rápida e confortável as missões que lhes eram atribuídas pelo regente. O comodoro da quarta esquadrilha, cuja chegada eu esperava, subiu a bordo duas horas depois de nosso pouso em Árcon III. Aquele homem ainda jovem — rosto inexpressivo e olhos apagados, que às vezes pareciam sonhadores — considerava-se um semideus. Se alguma vez entendera algo de astronáutica moderna parecia ter esquecido tudo que sabia. No início eu o odiei, mas depois tive pena dele. A primeira medida por ele adotada consistiu em mandar levar para bordo um simulador portátil. Tive que tomar uma atitude enérgica para evitar que esse aparelho, destinado à reprodução de combinações idiotas de reflexos luminosos, fosse colocado na sala de comando. Jamais me esqueceria do olhar aniquilador que o arcônida me lançou, e sempre me lembraria do rosto pálido e dos punhos cerrados de Rhodan. Era esse degenerado, lacaio de um gigantesco autômato, que comandava a quarta esquadrilha, que sempre contava com dezessete naves de guerra. Seu nome era Gailos. Nunca ouvira falar em sua família. Aquele homem era um exemplo vivo da transformação sofrida pelo povo arcônida, que de uma comunidade altiva passara à categoria de um grupo de fracalhões presunçosos. No entanto, Gailos ainda devia pertencer aos membros mais ativos da raça dos arcônidas, pois do contrário o regente não o teria investido nas funções de comodoro. Durante quinze dias, sob as ordens desse homem, realizamos manobras espaciais em condições de batalha. Pela primeira vez tivemos permissão para manejar os controles de armamento e realizar ataques simulados contra unidades dirigidas por robôs. O resultado dessas manobras provocou uma atitude imprudente dos terranos, que, vez por outra, soltavam algumas risadinhas escondidas. Depois de conhecer o grau de “competência” de nosso novo comandante, Rhodan resolveu arriscar uma ação que durante semanas não tínhamos arriscado. Durante a confusão inextricável, surgida durante um malogrado ataque em cunha, Rhodan ligou o dispositivo automático de hipersalto, sob os olhares atônitos dos companheiros. Sem dúvida pretendia realizar a título experimental uma transição a pequena distância, a fim de verificar se poderia confiar no novo couraçado. Provavelmente mais tarde saberia culpar Gailos pelo “salto involuntário”. Mas não houve nenhum salto, pois a Kon-Velete não estava em condições de realizar qualquer transição. Os conversores de campos estruturais não deram sinal de sua presença, e as luzes de controle nem sequer chegaram a acender-se. Compreendemos que o computador-regente era muito cauteloso. Pela primeira vez deveríamos pousar em Árcon III. Quatorze dias já se haviam passado, e ainda não tinha surgido qualquer possibilidade de cuidar de nossa tarefa

propriamente dita. Isso acontecia pelo motivo muito simples de que não obtínhamos licença. Nossos alojamentos ficavam bem embaixo do pavimento de aço do espaçoporto A-R-145. Assim que a nave pousava éramos obrigados a sair de bordo e desaparecer nas entranhas do planeta da guerra. Uma vez que a superfície de Árcon III também se foi tornando muito pequena, meus remotos antepassados começaram a escavar o interior desse mundo. Era por isso que as unidades energéticas, de controle e de comando, muitas vezes ficavam até seis mil metros abaixo da superfície. A rigor, Árcon III não passava de um astro perfurado e escavado, em que todas as coisas tinham um aspecto puramente finalista. De início, a permanência nos subterrâneos era um verdadeiro pesadelo para os terranos. Mas acabaram por conformar-se com o inevitável e procuraram encontrar alguns atrativos nessa prisão. Muito embora o ambiente fosse antinatural e pouco agradável para meus amigos, não deixava de ter seu fascínio. Árcon III fora preparado para rechaçar qualquer ataque vindo do espaço. Lá embaixo, Rhodan e seus colaboradores viram como se faz para transformar um planeta comum numa fortaleza galáctica de primeira categoria. Finalmente Gailos fez uma débil alocução aos comandantes das unidades, transmitida pelo intercomunicador, e ordenou o fim das manobras, o que nos fez suspirar aliviados. Reginald Bell, oficial da Kon-Velete, inchou visivelmente as bochechas vermelhas e lançou um olhar para Gailos, que me fez sentir calafrios. Lancei um sinal de advertência para Bell, e ele cerrou os enormes punhos. Depois de Rhodan, Bell era o homem dotado de maior dose de sangue-frio em toda a frota solar, muito embora às vezes costumasse disfarçar essa qualidade. Naquele instante, porém, estava próximo a um colapso nervoso. A falha do dispositivo automático de hipersalto representara um choque para ele e para outros homens. Até então contáramos com a possibilidade de, em caso de perigo, realizar um hipersalto e desaparecer com a KonVelete. Agora até essa saída fora fechada. Provavelmente o conversor estrutural só era liberado pelo regente, quando a nave se dirigisse ao campo de batalha. Ao que tudo indicava, não confiava nos seus aliados, mesmo se tratando dos zalitas, seus vizinhos mais próximos. Já nos acostumáramos a não fazer observações na presença de estranhos e a evitar conversas comprometedoras. Rhodan formulara uma advertência enfática nesse sentido, pois era possível que houvesse algum dispositivo de vigilância controlado por robôs. Se a programação tão antiga do computador-regente fazia com que fosse desconfiado a ponto de desligar o hiperpropulsor até mesmo durante manobras muito 46


importantes, devia-se contar com a existência de outras medidas de segurança. Fiquei satisfeito ao ver que Bell conseguia controlarse. Provavelmente estivera prestes a dirigir uma observação mordaz a Gailos. Rhodan voltara a ficar sentado, que nem uma estátua, na poltrona do imediato. Ao que parecia, dedicava seu interesse exclusivamente aos controles de seu setor. Observei-o discretamente, até que a sala de máquinas chamasse pelo videofone. O engenheiro-chefe, também era um terrano disfarçado, informou que, a uma velocidade altamente relativista, o consumo de substância de apoio de radiações ficava 6,85 por cento acima do normal. Confirmei a notícia importante e olhei para Gailos. O comodoro estava comodamente deitado em sua poltrona reclinada. O rosto exprimia tédio. Quando, em conformidade com os regulamentos, me plantei à sua frente para repetir a informação, ele girou a cabeça e suspirou. De acordo com os usos arcônidas deveria chamá-lo de Alteza, tratamento que lhe cabia na qualidade de chefe de esquadrilha. Em compensação ele, com um desprezo patente, nos dava o tratamento de você. Quando vi seu rosto presunçoso tão perto de mim senti-me tomado pelo ódio. Durante minha longa peregrinação pela Terra, chegara a curvar-me diante de reis bárbaros e príncipes ignorantes, que poderiam ser humilhados por qualquer rapazola arcônida mediante duas ou três perguntas. O comportamento pedante dessa gente me fizera sorrir. Porém, imbuído da sensação de minha infinita superioridade, curvei a cabeça e, tal quais os outros, desfiava as frases costumeiras. Pouco me importava que, às vezes, fosse tratado como escravo, ou que, num convencimento ridículo, me considerassem como indivíduo de classe inferior. Mas agora as coisas eram diferentes! Tornava-se quase impossível manter uma certa calma diante de um homem pertencente ao meu povo, que se interessava exclusivamente pelo bem-estar e, nos palácios do planeta de cristal, costumava entreter-se em apaixonadas conversas sobre incompreensíveis “obras de arte”. O soldado mais insignificante de minha antiga nave capitania valia mais que cem parasitas do tipo de Gailos. Repeti a informação sobre o consumo excessivo de massa de apoio. — Reabasteceremos a nave — disse o comandante em tom sonolento. — Alteza, se nós formos enviados à frente de combate dificilmente teremos oportunidade para fazer isso. Ao que parecia, estava refletindo. Mais uma vez ouvi um profundo suspiro. — Ora, Ighur, acho que teremos sim. Realmente houve um consumo excessivo? E, o que é mais importante, as microfitas com a nova obra-prima de Askor, por mim solicitadas, ainda não chegaram? — Não, Alteza.

— Isso é um insulto — resmungou Gailos. Suas mãos finas seguravam as braçadeiras da poltrona. — Farei uma queixa. Aliás, nesta sala de comando há um cheiro desagradável. Qual é a causa? Será que terei de suportar tudo isso? Para conservar o autocontrole, fechei os olhos por um segundo. Ainda bem que meu velho mestre Tarts não estava vendo uma coisa dessas. Também fora um arcônida. Mas que arcônida! — Este cheiro é muito comum nas salas de comando, Alteza. As telas automáticas esquentam e os isoladores aquecidos desprendem um fluido peculiar. — É uma coisa horrível. Realmente, uma coisa horrível. Ajude-me a levantar. Estendeu a mão, e puxei-o para fora da poltrona. Quando se encontrava de pé à minha frente, parecia ainda mais esguio e... insignificante, embora tivesse o meu tamanho. Num gesto furioso esfregou o pulso esquerdo. — Ao que me parece, os zalitas ainda não aprenderam como se deve tratar um arcônida — disse com certo tom áspero na voz. Olhei para seu braço, que fora cingido com pouca força. — Queira desculpar, Alteza. Fitou-me e sua raiva foi-se desvanecendo. Fez um gesto condescendente e deu-me as costas. Saiu todo empertigado, sem olhar para trás. Os dois robôs pesados, designados e programados especialmente para servirem de guardas pessoais do comodoro, seguiram-no prontamente. O importante problema, ligado à massa de apoio, deixara de ser solucionado. O zalita, junto aos controles do campo antigravitacional, fitou-me. Em seu rosto havia uma palidez cadavérica. O homem a seu lado sorriu discretamente; era um terrano disfarçado. Sem dizer uma palavra, sentei na poltrona do comandante, situada à frente dos controles principais, e chamei a sala de máquinas. Quando contei ao engenheirochefe a conversa durante a qual se aludira a um possível reabastecimento, ele arregalou os olhos. No entanto, conseguiu controlar-se e apenas acenou com a cabeça. Enquanto isso, o quarto grupo de cruzadores pesados aproximava-se de Árcon III. Pouco antes do pouso, Rhodan ligou o ampliador automático de observação ótica externa. As telas setoriais apresentavam vistas parciais da superfície do planeta. As únicas coisas avistadas foram gigantescos espaçoportos e conjuntos de edifícios que o olhar não conseguia abranger. Não havia praticamente nenhuma área livre. O mundo da guerra era uma única metrópole compacta, na qual não crescia nenhuma planta e não havia um único regato que alegrasse os olhos. Árcon III era um deserto de aço. Não havia nenhuma possibilidade de comparar esse planeta a qualquer outro. Se alguém interrompesse as comunicações com esse mundo, o enorme potencial produtivo faria com que as provisões se esgotassem em menos de um mês. 47


No passado, esse fato levara várias vezes as outras potências a realizar bloqueios interestelares, mas nem assim se conseguiu vencer o Grande Império. Lembrava-me perfeitamente dos comboios formados por ocasião da revolta dos nopoletas, a fim de proteger a artéria vital de Árcon. Nossos inúmeros inimigos nunca conseguiram realizar, por uma hora que fosse um bloqueio eficaz de nosso sistema. Atualmente nem se podia pensar nessa possibilidade. A vinte e oito mil anos-luz, um inimigo não arcônida ameaçava os povos humanoides da Via Láctea. O regente aproveitara-se da situação para enviar à frente de combate todas as raças revoltadas contra o poder do Império. A unidade forçada entre povos, antes inimigos, foi motivo bastante para que Perry Rhodan resolvesse imediatamente fazer alguma coisa contra o regente. O que havíamos conseguido até então? Apenas arriscáramos a vida para conseguir o privilégio de realizar voos de manobra em um dos couraçados do computador! Se dependesse de Bell, teríamos subjugado os cinquenta zalitas a bordo e procuraríamos destruir com as armas da Kon-Velete o gigantesco envoltório energético que protegia o autômato. Precisamos de muito tempo e paciência para provarlhe, com base em exemplos flagrantes, que nem mesmo mil supercouraçados com tripulações de primeira ordem seriam capazes de uma façanha dessa natureza. Bell voltou a lançar um olhar ansioso para as telas iluminadas. Os numerosos espaçoportos estavam abarrotados de naves de guerra de todos os tipos. As fábricas de Árcon trabalhavam a plena potência. Como o comodoro Gailos não desse mais sinal de sua presença, assumi o comando sobre o pequeno grupo. Liguei o equipamento de hipercomunicação e controlei a regulagem automática da frequência de nosso grupo. Nesse instante, recebemos um chamado da estação retransmissora A-R-145. Tratava-se apenas de um terminal secundário do grande cérebro positrônico. Em cada espaçoporto de Árcon III, havia uma unidade de comando desse tipo, que transmitia as ordens e decisões menos importantes aos comandantes das unidades estacionadas na respectiva área. Uma figura vermelha e triangular surgiu na tela. Levantei-me e, seguindo estritamente o figurino, fiquei em posição de sentido. Era o verdadeiro chefe do Grande Império que estava falando. — Sou o Capitão Ighur, regente — disse em voz alta. O setor acessório do cérebro preferiu não formular qualquer indagação sobre o comodoro. Ao que parecia, sabia perfeitamente como costumam agir os arcônidas de seu tipo. — Ordem coletiva 12345 — disse a voz monótona que saía do grande alto-falante do receptor especial. O triângulo vermelho permaneceu na tela. Era o símbolo da unidade retransmissora A-R-145. Rhodan comprimiu a chave da registradora

automática. Qualquer ordem coletiva teria de ser conservada nos registros de bordo. — A fita está correndo, regente — anunciei. — As manobras estão encerradas. O quarto grupo de cruzadores pesados é transferido para o espaçoporto A-3. Preparar as unidades para um voo não tripulado de sessenta horas. Os tripulantes sairão de bordo. Concedemos uma licença de cinquenta horas. As instalações destinadas aos zalitas poderão ser visitadas. As ordens dos oficiais-robôs devem ser cumpridas. Alguma pergunta? Fiz um esforço para não demonstrar a esperança que me empolgava. — O Comodoro Gailos não responde regente. Posso assumir o comando provisório do grupo? — Permissão concedida. Sua Alteza está repousando. Desligo. O triângulo vermelho foi desaparecendo. A estação retransmissora A-R-145 interrompera a ligação. Preferi não olhar em torno com uma expressão de triunfo. Aliás, era possível que, embora pudéssemos desfrutar a primeira licença, minha alegria fosse prematura. Aquela licença poderia significar tudo ou nada. Os comandantes das outras dezesseis unidades haviam acompanhado a transmissão da ordem coletiva. Submeteram-se imediatamente ao meu comando. Penetramos na atmosfera densa de Árcon e passamos pelos postos de defesa. Numa altitude de oitenta quilômetros, passamos a ser dirigidos pelo dispositivo automático de telecomando A-3. Nenhum comandante podia pousar a seu bel-prazer. Tratava-se de mais uma medida de segurança concebida pelo cérebro positrônico. Com isso fiquei livre da responsabilidade de pilotar a nave. Notei a expressão tensa do rosto de Rhodan. Seus ombros estavam levemente encolhidos. Até parecia que retesava o corpo para dar um salto. Enquanto os microfones externos transmitiam o rugir e assobiar das moléculas de ar deslocadas à força, Rhodan virou a cabeça. Havia em seus olhos a expressão rígida que indicava uma forte tensão interior. Não reagiu ao meu olhar indagador. Bell também parecia inquieto. Marshall, o telepata, fitava-nos atentamente. Parecia ter notado que os pensamentos de Rhodan se atropelavam... Num gesto quase imperceptível, apontei para a tela iluminada do receptor especial. Enquanto estivesse em andamento a manobra de teledireção, seria uma insensatez proferir qualquer palavra comprometedora. Sem dúvida, o retransmissor automático A-3 ouvia tudo. Com certa impaciência esperávamos o ruído do impacto das placas de apoio sobre o pavimento do espaçoporto. Ao ouvir esse ruído, tinha-se a impressão de que a nave se esfacelaria. Dali a menos de cinco minutos, as luzes vermelhas acenderam-se. O dispositivo automático acabara de escamotear as colunas telescópicas de apoio. A Kon-Velete pousou com um rugido final dos mecanismos propulsores 48


instalados na protuberância equatorial da nave. A posição de Rhodan continuava inalterada, mas um sorriso enigmático brincava em seus lábios. Percebi que devia ter notado alguma coisa que me escapara. O que seria? Depois disso, os controles de rotina mantiveram-nos ocupados durante quinze minutos. Em sequencia, os setores foram anunciando sua paralisação. No fim, apenas o gerador especial, destinado ao suprimento energético de emergência da sala de comando, continuava a zumbir. O silêncio passou a reinar na gigantesca esfera de aço que trazia o nome Kon-Velete. Levantei e coloquei-me à frente da tela. O sinal de identificação do comando automático A-3 consistia numa série de ondulações verde-claras. — Sou o Capitão Ighur, regente — anunciei. — Nave preparada para ser introduzida no estaleiro. A estação anunciou imediatamente: — A tripulação zalita abandonará a nave. Não é permitido portar armas. Desligo. Naturalmente lá fora já estaria esperando um comando de robôs que nos conduziria para baixo da superfície. A operação de desembarque dos tripulantes cabia ao imediato. Rhodan entrou imediatamente em atividade, muito embora desse a impressão de que não conseguia livrar-se das reflexões em que estava mergulhado. Por um instante prestei atenção às suas ordens, proferidas em tom de exagerada compenetração. Depois chamei o Comodoro Gailos pelo videofone. O sinal de ocupado iluminou-se na tela. Ao que tudo indicava Gailos não fazia nenhuma questão de apoiar ativamente as instruções do regente. “Aliás”, pensei, “como comandante de grupo, eleja não tem nada com isso. O controle das atividades que se desenrolam no interior da nave cabe ao comandante da mesma.” Bell gritou em voz rouca um comando de atenção. Cumprimentei ligeiramente e atravessei a comporta blindada dos fundos, onde meu robô de serviço já me aguardava. Ordenei-lhe que arrumasse meus reduzidos pertences, a fim de levá-los posteriormente aos alojamentos ainda desconhecidos. Na entrada do elevador central, um comando de guardas, chefiado pelo Tenente David Stern, se mantinha à espera. O rosto do jovem oficial estava pálido como cera. Passei perto dele e Stern cochichou apressadamente: — Gailos já saiu Sir. Estou preocupado com o equipamento especial. Não será possível que sejamos revistados mais uma vez, já que não temos permissão para levar armas? Talvez queiram verificar se estamos cumprindo as instruções. Lancei um rápido olhar para a objetiva de videofone mais próxima. Era possível que estivesse em funcionamento. Sempre que uma nave pousava em Árcon III, as paredes passavam a ter olhos e ouvidos. Era ao

menos o que se dizia. Comecei a realizar um controle minucioso dos botões do elevador. Fiz uma repreensão em voz alta e contrariada já que, em minha opinião, a placa de revestimento do painel de chaves não estava corretamente parafusado. No curso dessa manobra, cochichei algumas palavras para Stern. Se falasse muito alto a bordo do couraçado, nossa vida poderia correr perigo. — Os homens voltaram a tirar os objetos dos esconderijos? — Assim que recebemos instruções para pousar. Está tudo conosco. Se nos revistarem... Calou-se, e seu rosto ficou ainda mais pálido. Os outros três homens do comando de guardas fitaram-se com uma expressão ansiosa. No entanto, eu sentia que a decisão se aproximava a passos de gigante... — Fique aqui e espere por Rhodan — disse em voz baixa. — Comunique-lhe seus receios. Se houver um controle, verei o que posso fazer. Os mutantes deverão espalhar-se entre os outros, a fim de poderem intervir sempre que seja necessário. Cale-se. Saltei para dentro do campo antigravitacional reluzente. Uma vez lá embaixo, constatei que os cinquenta zalitas genuínos já se retiravam de bordo. Com isso, Rhodan criara para seus homens a possibilidade de fazerem mais uma verificação de seu equipamento especial. Ao lembrar-me do que aqueles cento e cinquenta homens, pertencentes ao comando, traziam sob os uniformes, meu nervosismo cresceu. Estive presente quando os laboratórios mais eficientes da Terra iniciaram a “produção em massa”. Os cientistas de Swoon, que eram os microtécnicos mais competentes da Galáxia, haviam desempenhado um papel relevante nessa tarefa. Rhodan conseguira aquilo que me parecera impossível. Nos uniformes especiais dos membros do comando, havia tantos esconderijos que seu conteúdo seria suficiente para derrotar um exército convencional. Naturalmente não nos poderíamos ter lançado à missão sem contar com uma série de armas eficientes. Apesar disso, quando imaginei o que aconteceria se o equipamento fosse descoberto, comecei a tremer. Aguardei junto à grande comporta inferior da nave até que os tripulantes entrassem em forma. Rhodan fez a apresentação. Seu rosto estava rígido. O Comodoro Gailos não apareceu mais. Por certo já se instalara confortavelmente em seus alojamentos. Dali a menos de dois minutos, chegaram os veículos abertos que nos transportariam. Possuíam grandes plataformas de carga com assentos de plástico e eram teleguiados. As ordens subsequentes da estação retransmissora foram recebidas por intermédio de meu rádio de capacete. Deveríamos subir aos veículos e aguardar os acontecimentos. Para os oficiais da Kon-Velete, havia um carro especial. 49


Rhodan mandou que os homens subissem aos grandes veículos. Alguns olhares significativos foram suficientes para fazer surgir em meu interior o tipo de rigidez emocional que costumava envolver-me nos momentos de perigo. Então havia chegado a hora da decisão! Bell subiu depois de mim ao carro achatado, que deslizava sobre um campo energético. Ao contrário dos veículos de carga, este possuía um piloto robotizado. Seria muito arriscado discutirmos a situação. Ao chegar, Rhodan inclinou-se sobre mim. Notei que sua arma de impulsos se encontrava sob o uniforme. — Como é que se reconhece uma espaçonave cujos hiperpropulsores estejam prontos para entrar em funcionamento? — perguntei em voz baixa. Olhei em torno. O espaçoporto A-3 era imenso e impossível de ser abrangido com a vista, tal quais os outros do mesmo tipo. As unidades grandes e pequenas da frota arcônida estavam estacionadas em todos os cantos, mas por mais boa vontade que tivesse, não seria capaz de dizer quais delas estavam em condições de realizar um hipervoo. Dirigi os olhos para a abóbada energética azulada e luminosa, que, além dos limites do campo de pouso, enchia o horizonte, subindo ao céu azul e tremeluzente de calor do planeta Árcon III. Era o maior campo defensivo que vira em toda minha vida. Embaixo estava abrigado o computadorregente de Árcon. As medições realizadas por Rhodan em tempos passados provavam que o envoltório cobria uma superfície de cerca de dez mil quilômetros quadrados. Isso correspondia a um quadrado de cem quilômetros de lado. Era duvidoso que houvesse uma possibilidade de destruí-lo! Nunca conseguiríamos saber com exatidão onde ficavam os pontos vulneráveis e como deveríamos fazer para atingir num golpe de surpresa os pontos vitais do mecanismo. Enquanto não descobríssemos um meio de introduzir uma arma eficiente na abóbada que cobria todo o conjunto, tais reflexões seriam totalmente estéreis. Tinha certeza absoluta de que a detonação de uma bomba em seu campo defensivo seria totalmente inútil. Punha toda minha esperança nos dois teleportadores que participavam de nosso comando. Se estes homens não conseguissem penetrar rápida e discretamente no gigantesco mecanismo, teríamos de procurar outro meio. Há algumas semanas, o problema do suprimento de energia, que era minha especialidade, vinha ocupando meus pensamentos. Sabia perfeitamente que um computador com essas dimensões precisava de várias unidades geradoras, pois seu consumo de energia era enorme. Conhecia suficientemente meus antepassados para saber que eles haviam providenciado um suprimento de emergência, que entraria em funcionamento automaticamente assim que surgisse qualquer perigo. A sobrevivência do regente dependeria

única e exclusivamente de um perfeito suprimento energético. Mas como funcionava, ninguém sabia... Nosso carro deu partida. Os quatro veículos de carga, cada um com cinquenta homens, seguiram-nos de perto. Rhodan providenciara para que os verdadeiros zalitas seguissem num veículo distinto. Dessa forma, os homens de nosso grupo teriam oportunidade para uma ligeira troca de ideias. Em face de uma modulação temporária das vibrações cerebrais, que Harno realizara em Rhodan enquanto ainda nos encontrávamos em Zalit, os reduzidos dons telepáticos do mesmo tornaram-se suficientes para captar mensagens expedidas pelos mutantes. Dessa forma não dependíamos das comunicações de rádio. Passamos silenciosamente junto a um grupo de supercouraçados, que também acabavam de pousar, e que pertenciam a uma esquadrilha recém-formada. Os gigantes de 1.500 metros de diâmetro também tinham tripulações coloniais. Não saberia dizer quais seriam os resultados dessa miscelânea numa luta contra um inimigo bem treinado. Apesar da situação confusa, esforcei-me para raciocinar de modo lógico. Lutei energicamente contra os sentimentos conflitantes, que sempre me diziam que a eliminação total do computador-regente poderia significar a destruição da Galáxia. O que aconteceria se realmente conseguíssemos colocar o cérebro fora de ação? Qual seria a atitude dos numerosos povos coloniais e das oprimidas raças estranhas, que naquele instante lutavam na frente de combate, em defesa do Império, com espaçonaves mais ou menos aperfeiçoadas? O que viria a seguir, se o sistema de comunicações, controlado pelo computador, deixasse de funcionar de repente? E se as linhas de aprovisionamento, todas controladas a distância, entrassem em colapso? E os bilhões de inteligências estranhas se submeteriam às ordens de um arcônida que já deveria estar morto? De que meios disporia para obrigá-los a obedecer? Poderia contar com os tripulantes zalitas que se encontravam a bordo dos couraçados? Por outro lado, nunca poderia programar adequadamente os bilhões de robôs pertencentes à cerca de dez mil tipos diferentes. Nem mesmo uma equipe científica de cem mil homens seria capaz disso. Minha inteligência dizia que a destruição do regente seria uma espécie de suicídio... E se o deixássemos intacto, dentro de nove meses a Terra e todo o sistema solar seriam destruídos! Fitei Rhodan de lado. Ao que parecia, só pensava numa eventual fuga e procurava descobrir quais eram as naves capazes de realizar hipervoos. Provavelmente ainda não compreendera que não havia possibilidade de fugir de Árcon por essa forma. Há cerca de setenta e cinco anos, ele o conseguira. Mas as condições daquela época eram diferentes. Procurei afastar os pensamentos relativos à utilidade ou à inutilidade de nossa operação. Procurei ater-me à ideia 50


originária, logicamente bem fundada, segundo a qual meus veneráveis antepassados nunca teriam deixado de prover esse gigantesco cérebro positrônico de um dispositivo de segurança. Precisávamos descobrir quando e em que condições, tal mecanismo entraria em ação para desligar o regente. Depois disso, todos os problemas estariam resolvidos. Estremeci. Pouca centena de metros à minha frente surgiu uma achatada abóbada de aço que se erguia repentinamente sobre o pavimento de metal plastificado. Se houvesse algum controle, este seria realizado nas comportas pressurizadas e à prova de radiações, existentes na entrada dos alojamentos subterrâneos. Tateei discretamente a coxa direita, onde se encontrava uma arma. O trabalho dos cientistas terranos era tão perfeito que seria praticamente impossível descobrir as peças de equipamento por meio de um simples processo de apalpamento. Seu procedimento baseava-se nos padrões humanos. Pensavam como policiais terranos, que por tradição examinavam qualquer pessoa suspeita com as ferramentas que a natureza lhes havia dado: as mãos. Acontece que não se lembraram de que, num mundo noventa e nove por cento automatizado, não havia a menor possibilidade de aplicar esse método. Sempre que em Árcon III se realizavam verificações desse tipo, a pessoa era enviada simples e racionalmente através de uma comporta de raios X. Se isso acontecesse, restava saber se o revestimento interno do uniforme resistiria às radiações. Caso esse tipo de proteção desse certo, ainda restaria esperar que o observador não soubesse interpretar devidamente as sombras que haveriam de surgir na tela. Subitamente a testa de Rhodan cobriu-se de uma fina camada de suor. Por estranho que pudesse parecer isso fez com que seu autocontrole vacilante logo se estabilizasse. Olhei tranquilamente para as portas blindadas que se abriam à nossa frente. Essa entrada existente na superfície era apenas uma entre muitas. Possuía-se uma comporta de raios X, ainda restaria saber se o respectivo equipamento estava em funcionamento. O motorista robotizado parou o veículo a poucos metros da parede que se erguia ao céu. Desci para receber os tripulantes. Rhodan, Bell e os oficiais de patente mais elevada do couraçado colocaram-se atrás de mim. Examinei as numerosas objetivas do sistema ótico de teleobservação. As lentes reluzentes estavam embutidas de ambos os lados da entrada, Franzi a testa, numa expressão de contrariedade, pisquei para o sol de Árcon que nos fustigava impiedosamente e, num gesto violento, acionei a chave do transmissor de capacete. — Capitão Ighur ao regente — disse em tom muito áspero. — O contrato de prestação de ajuda que celebrei

com o Almirante Calus não me obriga a expor-me por horas a fio aos raios de um sol escaldante. Exijo que sejamos introduzidos imediatamente nos subterrâneos e abrigados em alojamentos climatizados, pois do contrário sentir-me-ei desligado do contrato. Parece que alguém se esqueceu de que não estamos acostumados a temperaturas como esta. Meus homens mostram sinais de esgotamento. Câmbio. Vi Bell arregalar os olhos. Rhodan pigarreou, mas logo compreendeu a situação. Devíamos encontrar um meio de passar pela comporta o mais depressa possível. Os membros do comando tinham ouvido minhas palavras. Pareciam prender a respiração. Os cinquenta zalitas genuínos fitaram-me com uma expressão de veneração. Na opinião desses, assumira um risco muito grande. Depois de alguns segundos, recebemos a resposta do cérebro. — Comece a introduzir os homens. Sua observação relativa a uma eventual insubordinação foi registrada. — Isso não me importa nem um pouco — respondi em tom ainda mais agressivo. — Não estou interessado em arruinar nossa saúde antes do tempo. Apelo para o senso lógico do regente. Ele quer soldados descansados e robustos, ou um grupo de homens febris e esgotados? — Entrem — respondeu a estação retransmissora A3. Não falou mais em insubordinação. — Descer, ficar à vontade e entrar em passo de corrida — berrou Rhodan num volume de voz que me fez dar um passo para o lado. — Os ocupantes do veículo da frente entrarão em primeiro lugar. Rápido! Já disse que deverão correr. Os cinquenta zalitas genuínos começaram a correr como se o demônio estivesse atrás deles. Nossos homens seguiram-nos. Dali a alguns segundos comprimiram-se pelas entradas, que mediam cerca de três metros de largura. A confusão era tamanha que nem se poderia pensar mais num exame eficiente de raios X. Meu coração batia forte e lentamente. O sangue parecia correr pesadamente pelas veias. Mantive-me junto à entrada. Coloquei a capa de oficial em cima do capacete de metal plastificado e fiquei de costas para o sol. Era possível que vez por outra os terranos fossem um tanto levianos. Mas não se podia negar que sabiam representar. O berreiro de Rhodan e Bell fez com que os soldados avançassem ainda mais furiosamente. Fiquei satisfeito ao notar que alguns homens robustos seguraram oito ou dez zalitas genuínos. Aqueles homens desarmados serviriam de proteção contra o eco. Assim que um grupo dos nossos homens tinha passado pelo aparelho de raios X, nitidamente perceptível, empurrava os zalitas para trás. Os nativos de Voga IV eram recebidos e utilizados imediatamente por outros terranos. Rhodan, Bell e eu agimos no momento exato. Quando a passagem ficou quase livre, apenas nove zalitas que tinham ficado para trás encontravam-se à frente da 51


barreira de raios X. Fiz um sinal para Bell. Esses zalitas teriam de proteger-nos. A voz de Bell realmente me doeu nos ouvidos. Nunca o ouvira gritar dessa forma. Avançou que nem um louco para aquele grupo de coitados e lhes fez um sermão. Embora a situação fosse muito séria, tive de esforçar-me para não rir. — Parem! — esbravejou. — Quem mandou que passassem antes de nós? Quem foi, seus vermes? São ordens do imediato, entenderam? Não fiquem parados por aí. Entrem em forma! É claro que devem virar o rosto para mim! Isso é uma posição de sentido que se apresente? Atenção! Quando passei majestosamente pela entrada, Bell entesou o corpo. Os nove zalitas ficaram parados que nem estátuas, exatamente entre o lugar pelo qual passávamos e o aparelho de raios X. Rhodan seguiu-me tão perto que deu algumas pisadelas dolorosas nos meus calcanhares. Bell continuou a praguejar em zalita antes de virar-se e correr apressadamente atrás de nós. Só depois disso, entraram os maltratados nativos de Voga IV que, segundo parecia, não compreendiam o que estava acontecendo. Ainda não conheciam os terranos! Nossos homens já estavam enfileirados no amplo hall de entrada. Vez por outra, um deles “desmaiava”. Um sargento caiu segundo os planos, enquanto quatro homens gemeram e viraram os olhos, arrancando os capacetes. — Água! Queremos água fresca! — gritei. — Maldito sol! Era só o que faltava. Major Sesete, cuide dos doentes. Ou será que eles só estão fingindo? A posição de sentido de Rhodan era impecável. O suor corria-lhe por baixo da borda saliente do capacete. — Estes homens são das zonas montanhosas de Takotre, comandante — disse em voz alta. — Daqui a pouco estarão recuperados. Lancei um olhar ligeiro para as teleobjetivas do regente. A cena era impressionante, e também era verdadeira... Um cérebro mecânico que substituía a sensibilidade humana pela lógica era fácil de ser enganado por essa forma. A mensagem esperada chegou a seguir, mas desta vez foi transmitida pelos grandes alto-falantes do sistema de intercomunicação. A voz metálica parecia sair diretamente da parede de aço. — As pessoas afetadas pelo calor precisam de algum tratamento, Capitão Ighur? — Se o regente demorasse mais um minuto, precisariam! — exclamei em tom furioso. — Mas acredito que agora não haja necessidade. Depois de chegarmos aos alojamentos, apresentarei um relatório sobre o estado de saúde dos homens. Para onde iremos? — Pavimento 14, Bloco C-436-8. Use o elevador — disse a voz retumbante saída dos alto-falantes. A estação retransmissora A-3 desligou. Respirei profundamente. Ao que tudo indicava, não precisávamos

contar com outro controle. Lancei um olhar discreto para os nove zalitas que nossos homens haviam usado de forma tão hábil como proteção de eco. Ao que parecia, não compreendiam por que Bell gritara para eles. Talvez acreditassem se tratar de engano. Marshall, o telepata, piscou para tranquilizar-me. Recebera ordens terminantes para manter-se informado sobre o conteúdo da mente dos membros estranhos da nossa tripulação. Mais atrás, abriram-se as portas largas de um grande elevador. — Entrar em grupos — ordenei. — Sesete, cuide disso. Roake, o senhor ficará aqui até que o último homem tenha entrado no elevador. Rhodan e Bell logo reiniciaram suas atividades. Os outros oficiais da nave seguiram-me para dentro da grande gôndola, que, à direita e à esquerda da entrada, era flanqueada por armas de radiações controladas a distância. Qualquer pessoa que quisesse penetrar nas instalações subterrâneas de Árcon teria de comunicar-se com as estações automáticas competentes. Não se via mais ninguém. Nem sequer haviam mandado robôs. As escotilhas de aço da comporta já se haviam fechado atrás de nós. Com isso, praticamente estávamos tão longe do campo aberto do espaçoporto como quem se encontra num outro mundo. Enquanto descíamos em alta velocidade, não proferimos uma única palavra. Segundo os costumes arcônidas, não era de bom tom que os oficiais conversassem na presença do comandante. Seria ainda mais incabível dirigir a palavra ao mesmo. Havia muitos detalhes aos quais devíamos prestar atenção. Qualquer erro poderia trair-nos. Evidentemente para os terranos era muito difícil acostumar-se a essas regras. Durante as primeiras semanas de nossa atuação por várias vezes enfrentáramos situações bastante perigosas por desatenção. *** Os algarismos luminosos nos diversos pavimentos foram passando por nós. Assim que chegou a indicação de que o décimo quarto pavimento estava próximo, a velocidade do elevador reduziu-se. A gôndola, sustentada por um campo magnético, parou com um forte solavanco. As portas abriram-se. Fui o primeiro a sair para a profusa luminosidade. Senti-me ofuscado ao fitar o branco sol atômico. Suas fortes radiações ultravioletas eram tão intensas quanto as do astro natural. Por isso as inteligências estranhas, não acostumadas a essas radiações, arriscavam-se a sofrer queimaduras de sol. Até mesmo meus amigos terranos tiveram de familiarizar-se com a ideia de que, quando se encontrassem bem abaixo da superfície de Árcon III, teriam de cuidar para evitar uma exposição excessiva. Mais à frente vi um arcônida de meia-idade que 52


usava a capa violeta dos cientistas. Estava confortavelmente deitado numa poltrona e parecia sentir tédio. Quando a campainha do elevador soou pela segunda vez e os homens pertencentes ao primeiro grupo penetraram no hall da comporta, o arcônida virou lentamente a cabeça. Vi um par de olhos que piscavam preguiçosamente. À frente do cientista, encontrava-se um receptor portátil de imagens simultâneas, em cuja tela surgia uma multidão profusa de figuras coloridas. Ao que tudo indicava, o homem estava absorto no jogo que, para mim, não tinha o menor sentido. Só agora pareceu notar nossa presença. O segundo grupo, comandado por Reginald Bell, chegou ao lugar em que nos achávamos. As ordens do meu imediato, proferidas em voz alta, incomodaram o arcônida. Seu rosto contorceu-se numa expressão de repugnância. Finalmente lançou-nos um olhar cheio de recriminação. Até parecia que havíamos cometido um crime de lesamajestade. — Cale-se! — gritei para Bell. — Não vê que Sua Alteza está descansando? Comporte-se! Desta vez, seu olhar foi mais benevolente. Aproximei-me do arcônida, caminhando devagar e com um sorriso no rosto. Sem dizer uma palavra, coloquei a mão sobre o peito, a título de cumprimento. O arcônida acenou lentamente com a cabeça. — Isso não poderia ser evitado, comandante? — indagou em tom dolente. — Alteza, sou o Capitão Ighur, comandante do couraçado Kon-Velete, da frota de Sua Regência. Peço desculpas pela descortesia que acaba de ser cometida. Recebi ordens para apresentar-me no pavimento quatorze, juntamente com meus homens. Os robôs de guerra postados em todos os cantos permaneceram imóveis. Ao que tudo indicava, estavam submetidos ao velho cientista. Neste meio tempo, Rhodan também havia aparecido. A tripulação estava completa. Seu pigarro discreto revelava que a presença do arcônida o deixava espantado. Desde quando o regente dera para guarnecer posições-chave com criaturas vivas? Contara antes com a presença de um comando de robôs. O rosto enrugado daquele homem magro demonstrou sinais de interesse. — Você teve uma boa educação, Ighur? — perguntou. Inclinei ligeiramente a cabeça. Meu comportamento estava trazendo os primeiros frutos. — Atrevo-me a dizer que sim, Alteza. — Qual foi a escola? — A Academia Galatonáutica de Iprasa, Alteza — disse, embora fosse uma mentira. Fazia votos de que a antiquíssima escola superior ainda existisse. — Ah, Iprasa! Então é este o motivo do seu comportamento agradável. Oportunamente deveríamos conversar sobre as diretrizes filosóficas de Testro.

Sabia perfeitamente que essa oportunidade nunca chegaria. Além disso, não tinha a menor ideia de quem era esse Testro. — Será uma honra, Alteza. Permita que lhe solicite a indicação dos alojamentos. Meus homens estão sofrendo os efeitos do calor. — Calor? — repetiu o velho em tom de espanto. — Oh, esses bárbaros! Está falando em calor. Onde está o aparelho? Sem olhar, tateou as largas braçadeiras da poltrona, onde estava embutida a programação. Enquanto fazia isso, já voltara a olhar com uma expressão de fascínio para a tela de imagens simultâneas, onde surgiam novas amostras. — Este jovem Oscer é admirável — disse num sopro de enlevo. — A ideia do desenho de figuras sem sombras, no interior de uma bola de gelo flutuante é sublime. Acho que o nome dele ainda ficará conhecido. Não acha também? Acenei fortemente com a cabeça. O olhar do arcônida tornou-se mais brando. — Está bem. Leve seus homens para o conforto das salas refrigeradas. Como se pode falar em calor! Aqui faz um frio terrível. Antes que ele pudesse perder-se novamente no enlevo artístico, a estação retransmissora A-3 entrou em cena. De repente os robôs de vigilância começaram a movimentar-se. O arcônida nem percebeu que fora privado do comando. — Sigam-me — disse a voz metálica saída da fenda de uma pesada máquina de guerra. Esse robô era mais perigoso que mil arcônidas do tipo do cientista. Ao deixarem a comporta de segurança do 14o pavimento, nossos homens esforçaram-se para não fazer o menor ruído. Bell lançou um olhar ao meu companheiro de raça que me fez enrubescer de vergonha. Numa disposição amarga decidi que faria tudo que estivesse ao meu alcance para modificar esse estado de coisas pouco dignificante. Não houve outro controle. Diante da comporta surgiu a gigantesca abóbada de uma cidade subterrânea. Aqui os edifícios não haviam sido construídos no estilo afunilado peculiar dos arcônidas. A arquitetura era inteiramente finalista e por isso mesmo independente das contingências do tempo. Havia ruas largas com fitas transportadoras e um número tão elevado de indicações luminosas que a visão das mesmas nos confundia. O teto abobadado do pavilhão imitava o céu natural tanto na cor como no formato. Um branco e ofuscante sol atômico fornecia luz, calor e os indispensáveis raios ultravioletas numa dosagem vigorosa. Vi inteligências vindas de todas as partes dos setores da Via Láctea. No entanto, ao que tudo indicava, nesse setor residencial só haviam sido abrigados seres que respiravam oxigênio. Os grandes letreiros revelavam claramente que por aqui reinava uma gravitação artificial de 0,95G. Via-se que o regente fazia tudo que estava ao seu 53


alcance para proporcionar aos povos auxiliares, abrigados no 14o pavimento, condições de vida que se aproximassem o mais possível àquelas a que estavam acostumados. Sabia que cada pavimento fora especialmente instalado para atender às necessidades das pessoas que ali residissem. Evidentemente nós, os zalitas, pertencíamos ao grupo de inteligência de 0,95G e da mistura gasosa de oxigênio e hélio. Senti tonturas ao pensar nas múltiplas tarefas que talvez teria de cumprir sem o auxílio do computadorregente. No momento, pareciam-me impossíveis... Levei algum tempo para compreender o ruído uniforme, que sobrepujava todas as outras impressões. Era um rumorejar surdo, que parecia provir de todos os cantos da cidade subterrânea e enchia quase fisicamente o enorme espaço oco. Parei por um instante para escutar melhor. Rhodan também inclinou a cabeça. Os homens começaram a inquietar-se. Não consegui identificar a fonte do ruído monótono. Depois de prestar atenção por algum tempo, o rumorejar parecia confundir-se com os anúncios dos alto-falantes e o linguajar caótico dos numerosos povos não-arcônidas que, segundo tudo indicava, também estavam desfrutando uma licença. O robô de guerra enxotou um grupo de seres de três olhos, os naats. Eles fitaram nossa formação em atitude agressiva. Gritaram pragas e insultos. Fiquei satisfeito por não ter de entrar em contato com estes seres constantemente irritáveis, vindos do planeta ciclópico de Naat. Mais uma vez esforcei-me para descobrir a causa do ruído monótono. Foi então que, depois de um longo período de inatividade, o setor lógico de meu segundo cérebro, ativado há milhares de anos, voltou a chamar. “São unidades energéticas. Trata-se do ruído típico dos conversores termais. O espaçoporto A-3 é um dos seis campos de pouso que cercam a cúpula energética do cérebro positrônico em forma de raio.” Encolhi-me instintivamente. Só agora me dei conta de que a cada passo que dávamos, chegávamos mais perto das áreas vitais do regente. O 14o pavimento, em que nos encontrávamos, ficava cerca de 1.800 metros abaixo da superfície. Se os boatos que corriam correspondiam à verdade, os elementos de controle mais importantes do cérebro positrônico atingiam camadas ainda mais profundas. Concluí que provavelmente ficaríamos nas proximidades das instalações energéticas. Rhodan parecia ter a mesma ideia. Alcançou-me com alguns passos largos e colocou-se a meu lado. Por aqui praticamente não havia nenhum perigo. Era a primeira oportunidade que tínhamos para falarmos à vontade. O robô de guerra continuava a caminhar à nossa frente. Aproximamo-nos de um anteparo energético que reluzia numa tonalidade azulada. Atrás deste, reinavam condições de vida diferentes das que prevaleciam na parte da cidade em que nos encontrávamos.

— Sabe que as áreas residenciais subterrâneas cercam o “coração” do regente? Estas palavras foram proferidas antes em tom de constatação que de pergunta. Fiz que sim. O rosto de Rhodan continuava inexpressivo. Ao que parecia, depois da morte de Thora, ele já não sabia rir. — O.K. Só quis mencionar o fato. Posteriormente falaremos a este respeito. Sugiro um encontro para discutirmos a situação. — Tenho certeza de que os alojamentos são vigiados. — Meus especialistas encontrarão um meio de pôr fora de ação os aparelhos de escuta. É claro que isso terá de ser feito discretamente. Concederam-nos cinquenta horas de licença. Duas horas já se passaram. Começaremos a agir imediatamente. Olhei rapidamente em torno. Os rostos de nossos homens exprimiam uma grande dose de resolução. Bell fez um ligeiro sinal para mim. Depois de nosso pouso em Árcon III, suas faces carnudas pareciam mais firmes. Tive a impressão de que estava disposto a assumir qualquer risco. — É um caso típico de precipitação terrana — respondi em tom áspero. — A paciência não é característica de vocês. — Temos apenas cinquenta horas de licença — disse Rhodan, insistindo em sua opinião. — Se até lá não conseguirmos, seremos embarcados e enviados à frente de combate dos druufs. Se isso acontecer, estaremos novamente no lugar em que começamos. Tenho certeza de que a permanência de cinquenta horas da Kon-Velete em Árcon III será aproveitada para pôr em ordem o mecanismo hiperpropulsor. É o prazo de que podemos dispor. Estamos perto do regente. Será agora ou nunca. O bárbaro tinha razão, mas eu não estava disposto a reconhecer o fato. Sentia pavor diante do que estava para acontecer, não pelo perigo ligado a isso, mas pelas consequências catastróficas que provavelmente resultariam da destruição do cérebro positrônico. Não mencionei meus temores. Não adiantava desgastar ainda mais os nervos de Rhodan. Era um terrano, que não sabia conservar o retraimento ponderado dos homens da minha espécie. Uma faixa abriu-se no anteparo energético que havíamos avistado. Atravessamos a mesma e, de repente, a temperatura tornou-se mais baixa. Os primeiros zalitas foram aparecendo. Com o tempo fomos descobrindo um número cada vez maior de homens uniformizados, todos vindos de Voga IV. Ao que parecia estávamos no distrito reservado às tripulações zalitas. O sol atômico, que se deslocava no céu artificial, já não era tão intenso. Atravessamos um túnel largo e, atrás dele, surgiu um segundo pavilhão, também gigantesco. Os tripulantes e oficiais faziam continências rígidas e respeitosas. O robô que nos conduzia parecia receber novas instruções de sua estação programadora. De repente parou, colocou-se à minha frente e anunciou: 54


— O senhor poderá tomar a estrada rolante cinco para chegar ao bloco C-436, comandante. Solicita-se que se dirija ao seu alojamento e elabore um relatório sobre o estado de saúde de seus homens. Dei minha ordem em voz alta e clara: — Major Sesete, providencie tudo que se torna necessário. Robô, onde fica a cantina dos oficiais? — A mesma forma um anexo do bloco C-436, comandante. Os controles automáticos dos alojamentos já foram devidamente programados. O senhor tem direito de licenciar seus tripulantes segundo seu critério. Documentos especiais lhes serão fornecidos. Pede-se que forneça a toda pessoa licenciada um comprovante do qual conste o nome, nave a que pertence, o respectivo número de código e o prazo da licença, indicado segundo o tempo-padrão de Árcon. Era só o que eu queria saber. De repente os olhos de um soldado que se encontrava próximo de mim pareciam chamejar. Por espantoso que fosse, tive a impressão de que de repente esse homem adquirira a capacidade de refletir a luz. Preparou os lábios para um dos seus assobios típicos, mas absteve-se do mesmo porque um zalita não assobia. A máquina de guerra afastou-se. Todos saíam de seu caminho a contragosto, já que a mesma inspirava medo. Um comandante zalita cumprimentou-nos de longe. Sorri, inclinei a cabeça e levantei a mão direita a título de cumprimento. Torcia para que não pretendesse arrastar-me para alguma iniciativa de caráter social. Entre os oficiais da frota zalita reinava uma estranha sociabilidade, que ultimamente já estava se tornando um exagerado sentimento de classe. Foi só por isso que pude atrever-me a usar palavras tão grosseiras para com a estação retransmissora A-3. Sem dúvida, o regente sabia que os oficiais da frota espacial zalita eram os seres que mais se aproximavam dos arcônidas. Rhodan deu as instruções que se tornavam necessárias. Enquanto isso eu passei por uma rua que nesse trecho estava flanqueada por uma fileira de lojas automáticas. Aqui se podia comprar qualquer coisa. A grande placa de uma casa de armas divertiu-me bastante. Podiam-se adquirir os produtos mais belos e sofisticados da tecnologia arcônida. Apenas, tais artefatos só eram entregues ao freguês quando este se encontrasse novamente na superfície. Parei por um instante diante da vitrine de plástico e examinei as mercadorias expostas. Fiquei surpreso ao notar que, naquele momento, estava recuperando a calma e o equilíbrio. Permaneci em atitude rígida. Depois de algum tempo, esforcei-me para vasculhar minha vida psíquica. Ainda desta vez, o setor de memória de meu cérebro não me abandonou. Tive a impressão de cair num abismo do passado que media dez mil anos da contagem de tempo terrana. Era isso mesmo. Pouco antes da minha partida com a

esquadrilha arcônida de elite, quando ainda era um jovem almirante, eu me encontrara à frente da mesma loja. Porém, naquela época, não havia qualquer restrição de vendas. Éramos atendidos e orientados por especialistas que dispunham de treinamento científico. Agora só havia diante da vitrine dois robôs revestidos de plástico, que exibiam um sorriso estereotipado. Ao fitá-los atentamente, notei que uma modificação se realizava no meu interior. Tive a impressão de libertarme subitamente de uma camisa de força que me cingira por milênios. Tratava-se de uma camisa de força feita de angústia, decepção, humilhação e de uma saudade ardente do mundo natal. Dei mais um olhar para a peça mais bela exposta na vitrine. Tratava-se de um radiador térmico — muito caro — de cabo muito fino e com um dispositivo de mira infravermelha. Antes de minha partida, adquirira uma arma igual a esta. Hoje a mesma jazia no fundo de um oceano do planeta Terra, onde eu a perdera quando fugia para a cúpula de aço submarina. Afastei-me com o coração triste. Fui seguindo lentamente os homens que de repente — certamente por ordem de Rhodan — pareciam muito alegres e expansivos. Estavam de pé sobre uma fita transportadora em movimento e gritavam para os zalitas, que retornavam, observações que me fizeram sorrir. Eram homens rudes, mas honestos. Conhecera seus remotos antepassados, que não eram diferentes. Apenas sabiam menos. Se conseguíssemos destruir o computador-regente, decidi firmemente que seria um bom e honesto amigo dos terranos, pois ainda precisavam de auxílio. Árcon e Terra formariam uma dupla praticamente invencível. “Ele desconfiará!”, anunciou de repente o setor lógico de meu cérebro. Senti os olhos umedecerem de nervosismo. Naturalmente o setor lógico de meu segundo cérebro formulara uma avaliação que podia não soar bem, mas encerrava uma lógica incontestável. Suponhamos que eu me colocasse no lugar do regente. O que será que Rhodan acharia disso? Eu conhecia a posição da Terra, e sabia das qualidades e das fraquezas humanas. Não pensaria fatalmente que eu pudesse estar empenhado em subjugá-lo, e com ele todo o Império Solar? Ou que, antecipadamente, eu tomasse certas providências para os terranos não se tornarem muito arrogantes? Com uma estranha clarividência constatei que fatalmente haveria de chegar o dia em que surgiria uma crise entre mim e Rhodan. Afastei o problema, por considerá-lo de importância secundária. Se não conseguíssemos colocar fora de ação o computador-regente, as reflexões deste tipo forçosamente seriam estéreis. Quando saltei para a fita transportadora, lancei mais um olhar saudoso para a casa de armas. Quando entrei pela 55


primeira vez na loja, fui atendido por uma jovem arcônida. Sorri de mim para mim, pois me lembrei de que procurara descobrir um pretexto para encontrar-me com ela, antes de minha partida. O que teria sido feito dela? Onde estariam seus restos mortais? Era pouco mais jovem que eu. Seu rosto marcante surgiu com toda nitidez diante dos olhos do meu espírito. Prendera a respiração ao ver-me entrar na loja, pois o distintivo que trazia no peito identificara-me como príncipe de cristal e futuro soberano do império cósmico. Alguém esbarrou em mim. Um tenente zalita desculpou-se com a voz assustada. Caíra na fita. Acenei com a cabeça, em atitude distraída, e o tenente afastou-se apressadamente e um tanto temeroso. Era a primeira vez que sentia com tamanha intensidade como tinha ficado velho, terrivelmente velho. Vi grandes povos e culturas aparecerem e desaparecerem. Vi o berço e o túmulo de um império romano e procurei desesperadamente salvar a vida de mártires cristãos, até descobrir que estes não precisavam mais de mim. Ao regressar, sentira-me cansado e desgastado, mas agora o afluxo de recordações parecia provocar uma completa modificação dos meus sentimentos. Com um desejo de gula e com o pavor da velhice que receia perder as últimas coisas belas que se lhe oferecem, agarrei a vida que, para mim, se identificava com Árcon. Estava disposto a lançar mão de todos os recursos ao meu alcance e fazer cessar a indignidade de um governo exercido por um computador. Perry Rhodan, aquele homem jovem, incansável e carregado de energia do planeta Terra me apontara o caminho correto. Não devia desistir. Olhei para o relógio. Três horas de nossa preciosa licença já se haviam passado. Estava na hora de agir. O misterioso ativador celular pulsava sobre meu peito. Ele me conferiu força e resolução, tal qual fizera nos milênios antecedentes. Um jovem tenente zalita recuou diante de mim. Fitou-me com uma expressão de pavor. Percebi que meu rosto retratava meus sentimentos. Provavelmente, eu o fitara com uma expressão cruel.

3 Os alojamentos eram essencialmente práticos e por isso não tinham nenhuma beleza. Percebia-se que o 14o pavimento servia exclusivamente à permanência transitória das tripulações cujas naves estavam nos estaleiros para serem preparadas para o hipervoo. Fui o único que recebeu um quarto individual. Os tripulantes dormiam em salões e os oficiais em quartos de quatro pessoas. Para nós isso não tinha qualquer inconveniente. Fora

surpreendentemente fácil separar os zalitas genuínos dos membros de nosso comando. Uma hora após nossa chegada, os cinquenta nativos de Zalit obtiveram os atestados de licença e foram dispensados. Saíram exultantes, e, depois de tanto tempo, finalmente tínhamos nosso sossego. Na sala 18-B havia sessenta camas pneumáticas. O aparelho de ar condicionado fazia tamanho barulho que mal se conseguia entender o que o vizinho dizia. Não descobrimos qualquer aparelho de teleobservação. Apesar disso, continuamos a cuidar-nos. Toda vez que tratávamos palestras confidenciais, fazíamos um sinal para o “comando do barulho”, formado às pressas. Quando isso acontecia, o sargento Huster, um gigante ruivo de potentes órgãos vocais entoava um canto de guerra zalita que fazia doer os ouvidos. De uma hora para cá, Rhodan aprendera a sorrir de novo. Lia-se em seu rosto o alívio que sentia por estarmos prestes a atingir o objetivo. Os mutantes acabavam de anunciar que estavam prontos para entrar em ação. Tanaka Seiko, um japonês esbelto, que agora era ruivo, utilizara sua capacidade de localizador para examinar todas as frequências. Chegou à conclusão de que os robôs postados no bloco C-436 não haviam recebido instruções especiais. Não suspeitavam de nós, e o exame de raios X na comporta de entrada não trouxera maiores consequências... Limitei-me a entregar o relatório, elaborado às pressas, sobre o estado de saúde do pessoal. Depois disso, a estação retransmissora voltou a chamar para ordenar em termos lacônicos que não permitisse a saída dos indivíduos afetados pelo calor. O sargento Huster, que exibira um desmaio tão pitoresco no interior da comporta, praguejou em voz alta. Era o chefe da terceira equipe e especialista na montagem de bombas-relógio. Portanto, não poderíamos deixar de levá-lo. Há dez minutos os teleportadores Ras Tschubai e Tako Kakuta haviam retornado da primeira missão especial executada em Árcon III. Face à ausência de Gucky, eram os únicos teleportadores de que poderíamos dispor. Estávamos reunidos na sala 18-B. Em meu quarto achava-se sentado um homem que há algum tempo fora escolhido como meu sósia. Usava meu uniforme, enquanto eu envergara o uniforme dele. Rhodan, Reginald Bell e mais alguns dos oficiais pertencentes ao comando também haviam trocado de identidade. Passamos a ser simples tripulantes, cuja presença no alojamento 18-B não provocaria nenhuma estranheza, mesmo que fosse realizada uma teleobservação. Dessa forma fizéramos tudo para podermos iniciar a execução do plano. Reunidos em torno de uma das mesas hexagonais, fazíamos o papel de pessoas aborrecidas, que, em virtude da teimosia do comandante, não obtiveram licença para sair. Há vários dias era esta a primeira oportunidade de discutirmos seriamente a ação a ser realizada. 56


No rosto de Rhodan havia uma estranha expressão pensativa. Não constatei nada do nervosismo, que, segundo a lógica, deveria surgir antes de uma ação dessa envergadura. Meu segundo cérebro recordou-me o sorriso que Rhodan exibira antes do pouso... Num ponto mais afastado, os homens do “comando do barulho” cantavam uma canção que falava na amplidão do espaço e num pouso forçado, realizado num mundo estranho. A voz potente de Huster sobrepujava nossa palestra. Assim, passamos a conversar tranquilamente. Rhodan olhou cautelosamente para trás e disse: — Sua teoria é correta, Atlan! Minha atenção foi aguçada por estas palavras. Qual teria sido a descoberta de Rhodan? — Que teoria? — perguntei. — A que diz respeito ao dispositivo de segurança. Quando o autômato A-R-145 nos deu ordem para pousar, a atitude indolente do Comodoro Gailos só provocou no regente uma observação no sentido de que Sua Alteza estava descansando. Depois disso, você obteve o comando sobre o grupo. Isso prova a modificação da atitude do regente perante os verdadeiros arcônidas — Que modificação? — perguntei. — Você não estava presente há cerca de setenta anos, quando cheguei pela primeira vez a Árcon. Naquela época, até mesmo os arcônidas, que ocupavam posições elevadas, recebiam um tratamento muito grosseiro. O Imperador que residia no mundo de cristal era comandado que nem um recruta. E, naquele tempo, não havia nenhum arcônida que ocupasse um posto-chave como o de Gailos. Uma observação tão suave e discreta diante do comportamento de um oficial, que põe em risco a segurança da nave, teria sido impossível. Em hipótese alguma, o regente se teria limitado a dizer que Sua Alteza está descansando. Compreendeu a diferença? Lancei um olhar rápido para Bell. O mesmo parecia um tanto pensativo e disse era voz baixa: — Eu me lembro. Perry tem razão. O regente tratava os arcônidas como se fossem escravos. Crest e Thora receberam um péssimo tratamento. Ao ouvir o nome de sua falecida esposa, Rhodan estremeceu de forma quase imperceptível. Huster entoou outra canção. Refleti com extrema rapidez. — Quer dizer que, desses fatos, você conclui que o regente recebeu novas instruções sobre o tratamento a ser dispensado aos arcônidas cultos? — Exatamente. — De quem? Rhodan fitou-me com uma expressão irônica. O olhar que lançou para o relógio não poderia deixar de ser notado. — Foi do célebre dispositivo de segurança embutido no “coração” do regente. Sem dúvida passou a vigorar uma programação especial, que obriga o computador a adotar atitudes discretas e corteses.

Percebi a lógica de Rhodan. A mesma que lhe ajudara a construir o Império Solar. E nada me impedia de adotar sua teoria, nem que fosse apenas para tranquilizarme. Mas tive a impressão de haver um fator que Rhodan deixara de considerar. — Ainda temos quinze minutos — constatei. — Minha alusão dizia respeito antes a uma lógica puramente mecânica do regente que a uma programação especial. Ele deve ter constatado que nada conseguirá se recorrer exclusivamente ao arbítrio brutal. Ainda acontece que, atualmente, ele se defronta com o perigo representado pelos druufs, e muitos povos auxiliares passaram a guarnecer as naves do Império. Tais povos submetem-se a contragosto aos robôs que costumam exercer o comando. Por isso, o cérebro chegou à conclusão de que não poderia dispensar a colaboração dos verdadeiros arcônidas. — Mesmo conhecendo o estado de decadência dos mesmos? — Perfeitamente. O regente agarra-se a uma palha. Foi por isso que assumiu uma atitude tão discreta diante do comportamento de Gailos. — Isso é discutível — ponderou John Marshall em tom pensativo. — Uma ou outra das duas hipóteses pode ser correta. Procurei investigar a mente dos arcônidas que se encontram por aqui. Também não sabem por que de repente passaram a ocupar posições importantes. E não estão nada satisfeitos com isso. O Tenente David Stern, que, no momento, exercia as funções de oficial de dia, entrou na sala. Levantamo-nos abruptamente e fizemos continência. Stern fez um gesto indiferente. Huster prosseguiu no seu canto de guerra. Observei o jovem tenente, que passava lentamente pelos corredores, observando atentamente os homens. Estava acompanhado por duas sentinelas. Representava muito bem. Vez por outra, parava e repreendia os homens. Foi-se aproximando do nosso grupo. Ao chegar perto de nós, disse em voz baixa: — Estamos preparados, Sir. — Emita os certificados de licença — respondeu Rhodan sem mexer-se. — Falou com Ras Tschubai? — Sim, Sir. Tudo preparado. Estamos informados. — Sairemos dentro de cinco minutos. Faça um breve discurso no hall. O senhor assumirá o comando aqui. Siga as indicações de Marshall; manterei contato telepático com ele. Se alguma coisa sair errada, proceda em conformidade com o plano. Stern prosseguiu até sair pela segunda porta. Sabia que não haveria como voltar atrás. Os dois teleportadores tinham verificado de onde vinha aquele ruído monótono. Alguns quilômetros ao norte do nosso bloco residencial, os pavilhões terminavam em paredes de rocha nua. Havia duas portas blindadas que constituíam o único acesso aos recintos os quais nos últimos milênios provavelmente só foram visitados por robôs especializados. E naqueles pavilhões, que pelos nossos cálculos deviam ficar bem embaixo da extremidade da abóbada 57


energética, funcionavam gigantescos conjuntos geradores. O fato não bastaria para convencer-me de que se tratava das unidades energéticas que abasteciam o cérebro positrônico. Acontece que as cavernas proibidas dispunham de uma proteção adicional, fornecida pelos campos defensivos. Sabia perfeitamente que esse procedimento não era usual. O suprimento de força, destinado aos inúmeros estaleiros espaciais e às fitas transportadoras das ruas e estradas, provinha de uma usina estelar central. E nessas usinas nunca vira portas blindadas fechadas, quanto mais campos defensivos. Por isso a usina descoberta por Kakuta e Tschubai devia revestir-se de uma importância toda especial. Como não tivéssemos descoberto nenhuma possibilidade de destruir o computador-regente, só nos restava atingir sua “artéria vital”. Dali a três minutos, o Tenente Stern voltou a entrar na sala. Um soldado mandou que se fizesse silêncio. Levantamo-nos e ficamos em posição de sentido. Stern disse em voz alta: — Concedo licença a parte da tripulação. Os que forem chamados deverão apresentar-se para receber suas identidades. Rhodan, Bell e eu fomos chamados em primeiro lugar. Adiantamo-nos, pegamos as placas luminosas que eu antes assinara e, em obediência às instruções, penduramolas ao pescoço por um barbante muito fino. Os inúmeros guardas-robôs, espalhados pelo setor residencial, costumavam verificar os impulsos dessas plaquetas. Quem usasse esse signo de identificação não seria molestado, desde que os dados codificados e inseridos em tais plaquetas estivessem corretos. No momento em que entramos em nossos alojamentos, o aparelho que registrava os dados fora-me entregue por um robô. Neste ponto, tudo parecia estar em ordem. Depois de algum tempo havia dez homens à frente do tenente. Entre eles, encontravam-se os mutantes Tschubai, Kakuta, Seiko e Okura. O comando do sargento Huster juntou-se ao grupo. Seria absurdo tentarmos realizar a tarefa com mais de dez homens. Afinal, teríamos de entrar nas usinas energéticas. Stern examinou-nos com um olhar crítico. Finalmente disse em tom de ameaça: — Peço que se comportem decentemente lá fora. Nada de brigas! Quero vê-los de volta dentro de oito horas. Sigam-me! Virou-se abruptamente e saiu. — Por que é que vocês têm direito de licença e nós não temos? — resmungou um dos tripulantes. — Tragam alguma coisa para nós. Preferi não responder. Bell e Huster cuidariam disso. Chegamos ao grande hall e descemos no elevador, onde tivemos de passar por um posto de sentinelas robotizadas. Stern já nos esperava. Mandou que entrássemos em forma e transmitiu suas

instruções. — Não quero ouvir queixas — concluiu. — Deem o fora! Passamos pela comporta robotizada sem que ninguém nos detivesse. Apenas notei que os tateadores de identificação da máquina se dirigiam para as plaquetas bem visíveis, que trazíamos penduradas ao pescoço. Lá fora fomos recebidos pelo barulho da cidade subterrânea. Outras tripulações zalitas surgiam dos blocos residenciais vizinhos. As conversas começaram. Todos procuravam orientar-se. Entramos discretamente em meio aos grupos que enxameavam por ali. O rosto rígido de Rhodan revelava que mantinha contato com o mutante John Marshall, que ficara para trás. Ao que parecia, o contato estava sendo bem sucedido, embora a capacidade telepática de Rhodan não fosse muito pronunciada. Em compensação a faculdade de Marshall era muito forte. — O.K., tudo perfeito — disse Rhodan. — Vamos começar. Ras vá à frente. O africano robusto, cuja pele estava vermelha como a nossa, olhou ligeiramente para trás. Por aqui dificilmente haveria veículos. Apenas os arcônidas tinham permissão para usar planadores. Nós dependíamos das numerosas fitas transportadoras que, de qualquer maneira, também serviam para levar-nos até perto do local desejado. Eu as preferia aos veículos, pois permitiam que nos deslocássemos sem chamar a atenção. Ras fez um sinal. A marcha para o desconhecido iria começar...

4 O sentido das grandes placas indicadoras era inconfundível. Não traziam nenhum letreiro, mas qualquer criatura medianamente inteligente compreenderia imediatamente o significado dos símbolos pintados nas mesmas. Eram relâmpagos vermelhos e reluzentes, iguais aos que costumam ser usados na Terra a título de advertência. Aqui terminava a cidade subterrânea. O último edifício ficava a cem metros do lugar em que nos encontrávamos. Nossa posição era perigosa. Se alguém tivesse a ideia de perguntar o que estávamos procurando tão perto da parede de rocha compacta, não saberíamos o que responder. Rhodan e Bell desapareceram juntamente com os dois mutantes. Ao longo dos anos Ras Tschubai e Tako Kakuta haviam aprendido, por meio de um treinamento rigoroso, a transportar cargas pesadas. Suas energias mentais deviam ser muito desenvolvidas. Encostamo-nos fortemente ao nicho formado por uma tubulação das instalações de ar condicionado, que saía 58


da parede em ângulo reto. Huster tirou a arma de radiações. Estava encostado à coluna de apoio juntamente com os dois especialistas em armamentos e observava o trecho de caminho que tínhamos deixado para trás. — Tudo quieto, Sir — disse em voz baixa. — Na verdade, está quieto demais. Não estou gostando. Não consegui reprimir um riso nervoso. Huster acertara em cheio ao proferir essa observação. Por que a parede com as duas portas perfeitamente visíveis não era vigiada? Por que resolveram contentar-se com as placas indicadoras, que realmente eram bastante claras? Não encontrei explicação satisfatória. Em compensação, a sensação de perigo tornava-se cada vez mais intensa. O ar começou a tremeluzir bem à minha frente. O corpo esguio de Kakuta foi adquirindo forma em meio à luminosidade, até surgir nitidamente diante de mim. Ainda não conseguia formar uma ideia exata das faculdades espantosas dessas pessoas, que conseguiam exclusivamente por meio da energia de seus cérebros, funcionar como transmissores de matéria. Dali a alguns segundos chegou Ras Tschubai. Os dois se haviam transformado nos elementos mais importantes da operação. Voltei a guardar a arma e perguntei em tom apressado: — Como estão às coisas por lá? Tudo em ordem? — Continua tudo como era por ocasião do primeiro salto de reconhecimento. Não vimos nenhuma pessoa, e também não há robôs. Tschubai notou o brilho de desconfiança dos meus olhos. Já um tanto inseguro, asseverou: — É isso mesmo, Sir. O chefe está esperando. Vamos embora? Coloquei-me atrás de Tschubai e enlacei-lhe firmemente os ombros. Antes que pudesse preparar-me para o acontecimento improvável, senti uma dor de desmaterialização perfeitamente suportável. Aquele homem sabia criar um campo de dissolução da quinta dimensão, que funcionava como um conversor estrutural. Não tive tempo para dar atenção à dor. A luz voltou a surgir à frente dos meus olhos. Até parecia que nada tinha acontecido. — O.K., logo estarei de volta — disse alguém. Um tanto confuso, passei as mãos pelo rosto e olhei em torno. Meu primeiro movimento foi em direção à arma. Logo ouvi o rumorejar surdo, que aqui, para além da barreira, era muito mais forte. Atrás de uma gigantesca base de conversor de altatensão, feita de plástico blindado, Bell observava os arredores. Bem atrás de nós, percebia-se o uivo da turbina do equipamento de refrigeração. Mais adiante se viam os primeiros reatores de fusão dispostos em fila. Tratava-se de tipos muito modernos, aos quais estavam diretamente acoplados os conversores termais, que transformavam a

energia térmica liberada pelo processo em eletricidade. Estava perfeitamente familiarizado com a luminosidade branco-azulada dos condutores, que doía nos olhos. Bem acima de nós, havia um sol artificial. No entanto, neste pavilhão, o mesmo apoiava-se em mais de vinte colunas gigantescas, de alguns metros de diâmetro, feitas de aço de Árcon. — Fantástico, não é? — gritou Rhodan. — É a usina energética mais perfeita que já vi. Produz cerca de dois milhões de quilowatts por reator. Tudo muito bem montado, e provido com excelentes dispositivos de segurança. Para onde vai toda essa energia? Bell avançou até o primeiro reator, com a arma levantada. Mas não se via nenhuma pessoa estranha. Voltou a olhar para o teto onde, segundo tudo indicava, estavam montados os projetores do campo energético. O campo vermelho reluzente estendia-se junto às paredes e terminava próximo dos polos invisíveis existentes no soalho. Atrás desse campo viam-se as portas blindadas que fechavam as duas entradas. A parede de rocha, que separava a usina do setor residencial, devia ter uns cem metros de espessura. Sem o auxílio dos teleportadores nunca teríamos entrado ali. Transformados em impulso hiperenergético, atravessamos sem dificuldades a matéria sólida. Antes que pudesse prestar esclarecimentos a Rhodan, os mutantes voltaram. Desta vez trouxeram o sargento Huster e Tanaka Seiko. — Está na hora, Sir — disse Huster. — Lá fora as coisas estão ficando perigosas. Um comando de robôs está se aproximando. Ao que parece trata-se de uma inspeção de rotina. Mantivemo-nos calados até que os últimos homens pertencentes ao nosso grupo estivessem perto de nós. Também eles conseguiram vencer o percurso sem maiores dificuldades. — O que está esperando? Estremeci involuntariamente. A voz de Rhodan parecia fria como gelo. Huster acenou com a cabeça. A microbomba, que deveria destruir a usina, estava dividida em seis peças. Os homens tiraram essas peças dos bolsos dos uniformes. Huster não se interessou mais por nós. Com uma calma incrível pôs-se a montar a bomba ultratérmica, cuja energia seria liberada exclusivamente sob a forma de calor. Funcionava com base num processo de catalise do carbono de elevada potência, que faria surgir um sol artificial no pavilhão em que estavam instaladas as máquinas. Mais uma vez lembrei-me do caos que poderia surgir depois da destruição do computador-regente. Os mutantes Seiko e Okura esforçaram seus estranhos sentidos para captar coisas que, para nós, sempre seriam imperceptíveis. Já eu via-me diante da indagação se realmente deveríamos arriscar a detonação da bomba. Rhodan lançou-me um olhar pensativo. Falou quase 59


sem mover os lábios. — Não podemos evitar isso, amigo. Será que você está disposto a tolerar o domínio do regente por mais tempo? Esbocei um sorriso triste. Era claro que Rhodan pensava principalmente na Terra. Respondi em voz baixa: — Vamos desencadear o inferno, não só nestes pavilhões, mas em toda a Via Láctea. Não gostaria de bancar o pacificador depois que o regente tiver sido colocado fora de ação. Percebi que Rhodan já identificara meus temores. Seria mesmo de admirar que um homem inteligente como ele não tivesse extraído suas conclusões. — Um dia isso terá de acontecer de qualquer maneira. Você deve ser bastante inteligente para compreender que é preferível enfrentarmos o tumulto agora que daqui a alguns anos. Por enquanto ainda poderei usar o poder da Terra para ajudá-lo. Se esperarmos muito, você ficará só. Senti um hálito quente no rosto. — Poder? Você está falando em poder? Você pode ser imortal, terrano insignificante, mas você nunca possuiu um poder de verdade. Para isso, ainda lhe faltam alguns séculos de evolução ininterrupta. Será que você já se esqueceu dos golpes que sofreu nos últimos meses? Como pretende vencer o caos que deverá surgir? Com uns poucos couraçados de grande porte? Sacudi a cabeça. Sentia-me desanimado. De repente achei que seria uma insensatez destruir o regente. Rhodan conservou a calma. — Tudo dependerá de você, arcônida! Se souber guardar o segredo da posição galáctica da Terra, seremos seu corpo de bombeiros. Posso oferecer-lhe uma coisa que você não possui: tripulações bem treinadas e altamente capacitadas. Será que isso não representa nada? — Isso representa muito, mas não é o bastante — respondi. — Além disso, estamos discutindo sobre a divisão de uma presa que ainda não capturamos. — Terminarei dentro de quinze minutos, Sir — interrompeu o sargento Huster em tom indiferente. Para ele o caso já estava resolvido. — Poderia informar em que lugar deverá ser detonado a bomba? Examinou-me prolongadamente. Não conseguiu reprimir um sorriso muito ligeiro. Bell fez um sinal para mim. Estava de pé, com as pernas bem abertas, no corredor largo que separava as fileiras de reatores. — Então? — perguntou Rhodan. Assustei-me diante de tamanha força de decisão. Fitei prolongadamente seus olhos frios e virei-me. Com um gesto lento peguei minha arma térmica e fui caminhando na direção de Bell. Rhodan seguiu-me. Subitamente Tanaka Seiko disse: — Estou captando vibrações estranhas, Sir. Não sei de que se trata. Parei. Rhodan virou-se apressadamente. Bem à minha frente o conversor do primeiro reator rumorejava. Huster não se deixou perturbar pelo ruído. Aos poucos, a

microbomba — construída na Terra e testada num planeta desabitado — foi adquirindo forma. — De que tipo são as vibrações, Tanaka? — perguntou Rhodan. O mutante, que possuía a capacidade de identificar radiações energéticas de qualquer tipo, como se fosse um receptor mecânico, abanou as mãos finas num gesto de insegurança. — São vibrações de ondas extremamente curtas, quase imperceptíveis. Trata-se de um efeito que se mantém constante. Não são sinais de rádio, embora a frequência seja semelhante à de um hipertransmissor. Lançou um olhar para Son Okura, nosso visor de frequência, mas o mutante parecia indeciso. A atitude de Rhodan demonstrava um nervosismo repentino. Bell aproximou-se. Segurava a arma de radiações. — O que houve? O que estão esperando? Este pavilhão é muito grande, e atrás dele deve haver outros. Em minha opinião, aqui praticamente não corremos o menor perigo. Vamos dar uma olhada por aí? Tratava-se da pergunta típica de um homem que pensava em termos pragmáticos. Quando viu o rosto de Rhodan, seus olhos estreitaram-se. — Algum problema? — Tanaka informa a presença de uma radiação energética não identificada. — E daí? Bem em cima de nossas cabeças ficam os primeiros quadros de controle do cérebro positrônico. Quem sabe que tipo de energia é utilizado por lá? — Acho que as coisas não são tão simples assim — ponderei. — Esta operação, que parecia tão difícil, está se tornando um verdadeiro passeio. Não pensem que meus antepassados foram uns tolos. Os homens que construíram o cérebro positrônico devem ter tomado suas providências para resguardar a segurança do computador. Há por aqui alguma coisa que não tem a menor lógica. — Afinal, tivemos de romper um campo defensivo situado atrás de uma grossa parede de rocha — disse Bell. — É verdade. Mas no meu entender, esse dispositivo de segurança não é suficiente. O campo energético é relativamente fraco. Bastaria um canhão de radiações de tamanho médio para neutralizá-lo. — Para isso, teria de colocar o canhão aqui embaixo — disse Rhodan, refletindo em voz alta. — Lembro-me perfeitamente de que nem sequer tivemos permissão para levar nossas armas de serviço. — Antigamente não era assim, embora o cérebro já existisse, ou ao menos parte dele. Sargento Huster, espere um momento. Vamos examinar a área. Venha comigo. Fiz um sinal para o mutante e voltei a tirar a arma. Imaginei que Rhodan deveria trazer na ponta da língua a indagação sobre quem dava ordens por ali. Huster lançou um olhar para Rhodan. Este se limitou a acenar com a cabeça. Com o rosto indiferente, o sargento colocou de lado a bomba ultratérmica. Mas não conseguiu reprimir estas palavras: 60


— Tudo preparado para colocar em funcionamento o dispositivo de detonação retardada. Basta desparafusar o mecanismo. Dali a alguns segundos nós estávamos desenvolvendo uma atividade febril, que contrastava fortemente com a atitude que até então vínhamos mantendo. Alguma coisa fora descoberta; alguma coisa que não conseguíamos explicar. Andamos pelos corredores. O pavilhão, de formato ligeiramente elíptico, tinha pelo menos dois mil metros de comprimento. Isso explicava a presença das gigantescas colunas de apoio. A capacidade geradora total da usina seria suficiente para abastecer um planeta industrial do tamanho da Terra. A manutenção dos condutos energéticos isolados exigia cerca de cinco por cento da potência total. Tratava-se de um dado experimental fixado através de um compromisso entre os engenheiros especializados em alta potência. No meu tempo já costumávamos aceitar consideráveis perdas de energia, apenas para podermos dispensar os antiquados condutos de cabos. À medida que avançávamos, o rugido tornava-se mais forte. Aproximamo-nos de uma estação conversora cujas grades energéticas, muito próximas umas das outras, achavam-se separadas por finos campos energéticos de isolamento. Quando paramos, estávamos ofegantes por causa da corrida prolongada. O sargento Huster e os dois especialistas em armamentos foram os únicos que não nos acompanharam. Atrás do setor em que ficava o monstruoso conversor, o pavilhão estreitava-se num túnel muito alto, que provavelmente levava a outra abóbada de pedra. A passagem não estava fechada por portas de aço ou grades energéticas. Só podíamos comunicar-nos aos gritos. Naquele momento, quase todos os conversores transferiam as sobras de energia para gigantescas baterias de acumuladores. Era um sinal de que o consumo estava sendo reduzido progressivamente. Seria uma coincidência? Comecei a refletir intensamente. Bell também estava nervoso. Se durante a execução da tarefa que nos impuséramos, ele se defrontasse com um contingente de robôs que oferecesse uma resistência encarniçada, isso provavelmente não o preocuparia muito. Acontece que não via um único vigia orgânico ou robotizado. Não consegui livrar-me da impressão de que já havíamos sido descobertos. Por que a gigantesca usina estava sendo desativada progressivamente? — Quero fazer uma pergunta! — gritei para Rhodan, apontando para um dos reatores que estava sendo desligado. — Suponhamos que isto seja a usina energética central do cérebro positrônico, e que o computador não possa funcionar sem ela. Como se explica que o regente se dê ao luxo de desligar um reator após o outro e conduzir as sobras de energia para os acumuladores?

Rhodan empalideceu. Olhou para trás com uma expressão de ansiedade. Provavelmente já formulara a mesma pergunta para si mesmo. Os reatores paralisados depunham contra a hipótese de que o computador não poderia dispensar a usina em que nos encontrávamos. Bell girou sobre os calcanhares e saltou para abrigarse. Acontece que os três vultos que se aproximavam rapidamente eram apenas o sargento Huster e os dois especialistas que o acompanhavam. Pararam ofegantes e Huster gritou: — Sir, o campo energético que corre junto à parede está adquirindo uma coloração azul muito intensa. Receio que alguém nos tenha colocado numa tela. A entrada do túnel era abobadada. Tinha cerca de trinta metros de altura e igual largura. Não víamos o que havia atrás do estranho campo defensivo, já que o túnel descrevia uma curva. — É isso! — disse Tanaka Seiko. Seu rosto estava contorcido e coberto de suor. — Sir, as estranhas vibrações que acabo de captar vêm de lá. É uma coisa horrível. Sinto dores terríveis na cabeça. Sir, quase não aguento mais. Naquele instante, o infalível setor lógico de minha mente finalmente deu um sinal de sua presença. “Trata-se de um campo energético de categoria superior, uma criação recente, que ainda lhe é desconhecida. Atrás dele começa o setor pertencente ao computador.” — Bell, fique aqui — gritei. — Bell, ninguém conseguirá atravessar isso. Nós nos enganamos. A usina energética que ficou para trás é uma obra de camuflagem. Nossos antepassados não se esqueceram de proporcionar uma proteção real ao regente. Vamos voltar, senão estaremos irremediavelmente na armadilha. Ouça: os últimos reatores acabam de ser desligados. Depois disso, a usina ficará morta. E então a situação se tornará séria. Não vá, Bell! Rhodan encontrava-se no meio da entrada do túnel, com os punhos cerrados numa raiva impotente. Compreendera perfeitamente que aquilo que eu acabara de dizer era verdade. O leve campo defensivo, situado atrás da parede dianteira, representava apenas uma manobra diversionista. O rugido cessou por completo. Um silêncio medonho tomou conta da abóbada de pedra, antes tão barulhenta. As palavras de Rhodan, proferidas em voz alta, doíam no ouvido: — Sargento, ligue o detonador. Regule o mecanismo de tempo para cinco minutos. Tako, leve a bomba para o outro lado do anteparo energético. Coloque-a em qualquer lugar, no pavilhão que fica atrás do mesmo, e volte imediatamente. Vamos; apresse-se! Lancei um olhar apavorado para aquele homem. Será que ele ainda sabia o que estava fazendo? Nem por um instante, Huster perdeu sua calma espantosa. Com um giro da chave especial, ajustou o mecanismo de tempo. 61


— Os cinco minutos estão correndo, Sir — disse com uma tranquilidade férrea. O teleportador Tako Kakuta não disse uma única palavra. Sabia que não podíamos perder tempo. Alguma coisa tinha de ser feita. Provavelmente a vigilância automática só esperara todos os reatores serem desligados e os dutos de injeção da massa de reação catalítica serem esvaziados. Do contrário, uma eventual batalha no local causaria um terrível incêndio atômico, já que o processo de fusão da massa físsil tinha início a menos de quarenta mil graus centígrados. Tako comprimiu contra o corpo o objeto oco de cerca de cinqüenta centímetros de comprimento. Seu aspecto não revelava o tremendo potencial destrutivo que encerrava. Os olhos do mutante fitavam o anteparo energético com uma expressão distante. Tal anteparo era misterioso. Emitia um brilho prateado, entremeado vez por outra por uma luminosidade azulada, e constituía um obstáculo aparentemente intransponível em nosso caminho. Realizei um esforço desesperado, para estimular minha memória, geralmente infalível. De repente senti fortes dores de cabeça. Era inútil. Nunca vira uma tessitura energética como esta. Provavelmente esse campo defensivo fora criado pelos últimos cientistas de escol que ainda se mantinham mentalmente ágeis, isso há alguns milhares de anos depois do tempo em que passei a ser considerado morto e desaparecido. Não conseguia imaginar de que tipo seria a novidade por eles criada. De repente, o corpo de Tako desapareceu como se nunca tivesse estado a apenas dois metros do lugar em que me encontrava. Rhodan olhou para o relógio. — O.K.! — disse em tom frio, mas não teve tempo de fornecer esclarecimentos. Terríveis gritos de dor fizeram-nos estremecer. Olhamos em torno, perplexos, mas não vimos ninguém que pudesse ter emitido esses sons de indizível sofrimento. Mas o autor dos mesmos só poderia ter sido um ser vivo. Os gritos cresceram em intensidade até transformarem-se num guincho estridente e prolongado. No lugar em que o teleportador se desmaterializara, surgiu uma espiral luminosa tremeluzente. Essa espiral parecia descrever um rapidíssimo movimento de rotação, e era dela que saíam os gritos. — Tako! — exclamou Rhodan. Esteve a ponto de precipitar-se sobre a confusa figura energética, mas tive tempo de puxá-lo pelos ombros. Cambaleou e foi cair aos meus pés. Estupefatos, fitamos o incompreensível. Aos poucos, o corpo de Tako foi saindo daquele turbilhão de energia. À medida que seus contornos se definiam, os gritos de dor iam diminuindo. De repente, o teleportador estava deitado à nossa frente. Seu rosto estreito achava-se contorcido, e seus olhos pareciam retratar um saber misterioso.

Quando começamos a erguê-lo voltou a gritar, embora agora já se esforçasse para não dar mostras muito evidentes de sua angústia. Encostou-se à parede, choramingando e tremendo por todo o corpo. Suas mãos agitavam-se violentamente. Continuava a segurar a perigosa bomba. Nada parecia ter mudado. De repente Tako calou-se. Os olhos angustiados pareciam a única coisa viva em seu corpo. — O que houve rapaz? — gritou Rhodan em tom nervoso. O sargento Huster deu um enorme salto e caiu pesadamente ao chão. Segurou a bomba e, com dois movimentos ligeiros, desligou o mecanismo de tempo. Sua testa estava coberta de suor. Ao que parecia, agira no último instante. Porém não disse uma única palavra. O teleportador respirava com dificuldade. Depois de algum tempo, disse: — Foi uma coisa horrível. Alguma coisa seguroume, brincou comigo, fez-me descrever um movimento de rotação e atirou-me para trás. Senti tudo, Sir; não deixei de perceber o menor detalhe. Nunca mais quero passar por esta experiência. Gemia, contorcia-se no solo e procurava cravar as unhas no revestimento de plástico blindado. O rosto de Rhodan estava cinzento. Lançou-me um olhar indagador. Queria uma explicação. E eu podia dá-la. — Trata-se de um campo estrutural estável, que provavelmente funciona com base numa inversão hipergravitacional dos polos. É uma energia que repele o fluxo de impulsos de um corpo desmaterializado da mesma forma como um campo magnético comum repele uma nuvem de gases ionizados. Nunca conseguiremos atravessar isso, Perry! Já compreendo como meus antepassados protegeram o cérebro. Provavelmente este campo energético é uma das últimas criações de meu povo. Não posso dar uma explicação precisa. Não há nenhum meio de atingir o regente. Tako foi-se acalmando aos poucos. Totalmente exausto, descansava nos braços de Huster. Ras Tschubai fitava o companheiro em silêncio. Ao contemplar o campo energético tão próximo e aparentemente tão inofensivo, uma ligeira expressão de medo surgiu em seus olhos. Dali a três segundos, o grande pavilhão de reatores começou a retumbar. O silêncio foi interrompido pelos passos pesados de um contingente de robôs. — Marshall já está informado — disse Rhodan. — O comando de recepção está esperando. Ras, leve em primeiro lugar Huster e depois os dois especialistas. Manteremos a posição por aqui. Vamos logo: comece. Pelo amor de Deus, apresse-se como nunca! Huster levantou-se e saltou sobre as costas do mutante. No mesmo instante, desapareceu. — Bell, Atlan, Okura e Seiko, vamos abrigar-nos atrás dos conversores. Tako, já está em condições de saltar? O teleportador esgotado respondeu que não. Parecia desanimado. Não formulamos outras perguntas. Quando 62


saímos correndo, Ras Tschubai já estava de volta. Trabalhava com uma rapidez incrível. — Levarei duas pessoas de cada vez — gritou atrás de nós. — Não haverá problema. Rhodan limitou-se a fazer um gesto. No momento em que me abriguei atrás do pesado pedestal de plástico blindado que sustentava o conversor, os primeiros robôs de guerra apareceram mais ao longe. Em virtude do estreitamento afunilado do gigantesco pavilhão, nossa posição era mais favorável. Atrás de nós começava o túnel relativamente estreito, e à nossa frente havia apenas dois corredores largos, que se juntavam perto da última fileira de conversores para formar um único. Esperei até ter uma visão nítida das primeiras máquinas de guerra. O regulador de intensidade de minha arma de impulsos estava na posição três. Vi Rhodan esticar o braço para a frente. Apertamos o gatilho quase ao mesmo tempo. À medida que os robôs que se aproximavam inexoravelmente explodiam, raios ofuscantes cruzavam o recinto. Aconteceu o que tinha de acontecer. Depois de algumas salvas, o calor começou a tornarse insuportável. Um enorme conversor foi-se inclinando lentamente até encostar no aço borbulhante, onde provocou uma chuva de fagulhas. Outros conversores também explodiram. Quando Rhodan começou a abrir fogo contra os acumuladores pendurados sobre os conversores, o caos foi completo. Meus disparos foram dirigidos para o lugar em que os corredores se cruzavam. Os feixes energéticos bem abertos atingiram o chão e transformaram o metal plastificado num mingau de lava do qual subiam vapores venenosos. Subitamente houve um silêncio total. Os robôs tinham desaparecido e a parte de trás da estação de conversores estava transformada num montão de destroços. Compreendi que o cérebro positrônico que comandava a ação levaria algum tempo para digerir o fato de uma resistência tão violenta. Daqui a alguns minutos, as máquinas de guerra receberiam novas instruções. Vi Rhodan através dos vapores corrosivos. Ele estava cutucando o mutante Son Okura com o pé e apontava para trás. Também olhei para lá. Ras Tschubai já havia voltado. Os peritos em armamentos já haviam desaparecido, e a figura contorcida do infeliz teleportador Kakuta estava pendurada nas costas de Tschubai. Assim que Okura chegou ao lugar em que estava Ras, agarrou-se a ele. No mesmo instante, os três corpos desapareceram numa ligeira luminosidade. Agora éramos apenas quatro. Ras teria de saltar mais duas vezes para colocar-nos em lugar seguro. Rhodan fez um sinal para mim. Recusei com um gesto violento e apontei para Bell e Tanaka Seiko. Demorou alguns segundos até que Ras voltasse. Provavelmente nunca trabalhara tão depressa. Vi que os

lábios de Bell se moviam. Certamente não concordava em ser levado antes de nós. Mais uma vez percebi a luminosidade tremeluzente. À nossa frente, o chão borbulhava. Atingido pelo calor, um conversor cedeu à força da gravidade e caiu. Os segundos transformaram-se numa eternidade. Nossas armas apontavam ameaçadoramente para frente. Vi um forte lampejo na bruma que se estendia entre os conversores ainda intactos. Com um forte estrondo atingiu a base de plástico blindado. A energia liberada ergueu-me do solo. Caí pesadamente. Haviam disparado uma arma de choque. Era nossa única chance. Se o robô que comandava a ação quisesse conservar a usina energética, não poderia permitir que seus robôs nos imitassem, disparando armas térmicas. Olhei para trás. Ainda não havia o menor sinal de Ras Tschubai. Olhei para o relógio e notei que apenas vinte segundos se haviam passado desde sua última aparição. Precisaria pelo menos de trinta segundos. E era duvidoso que aguentasse mais uma viagem. Justamente os teleportadores eram muito sensíveis e psiquicamente vulneráveis. Se Tschubai conseguisse dar conta da última parte de sua tarefa, teríamos de dispensar sua colaboração ao menos por quinze horas. Rhodan gritou alguma coisa para mim. Não compreendi suas palavras, mas um olhar bastou para fazerme entender a situação. Um monstro mecânico cercado por um campo defensivo azulado aproximou-se lenta e inexoravelmente através do regato de metal derretido. Atrás dele vinham outros robôs do mesmo tipo. Era o fim. Fiz três disparos rápidos contra o atacante que vinha na frente. O único resultado foi o aumento do calor, que se tornou insuportável. Meu uniforme ficou chamuscado. Um cheiro repugnante penetrou-me pelo nariz e pela boca. A tosse me sacudiu e meus olhos lacrimejaram. Voltei a disparar. Subitamente vi Rhodan saltar. Deslizava rente ao chão, a fim de não enfiar a cabeça nos grossos rolos de gases. Segui-o imediatamente. Ras Tschubai aparecera bem no fundo do túnel, junto ao misterioso campo energético colorido. Quando atingimos o lugar em que se encontrava o teleportador, as primeiras máquinas de guerra, protegidas por campos defensivos, chegaram ao lugar em que estivéramos abrigados e pararam. Rhodan enlaçou o pescoço de Ras Tschubai. Segurei-o por trás. Notei que o rosto do mutante estava desfigurado pelo cansaço. Ao que parecia, o sucessivo transporte de dois homens de cada vez levara-o aos limites de sua capacidade. Senti a dor ligeira da desmaterialização e, a seguir, uma maravilhosa lufada de ar fresco. Compreendi que por enquanto estávamos em segurança. Fungava, jogado ao chão, e tive a impressão de que iria morrer sufocado. Alguém gritou meu nome. Era o Tenente Stepan Potkin, que, com o auxílio do hipno André Noir, acabara de esvaziar a pequena sala anexa de um dos alojamentos, a fim de proporcionar-nos um local de 63


chegada. — Tudo bem, Sir. Estão todos aqui. Como se sente? Ouvi a voz rouca de Rhodan. Tudo indicava que seu pulmão também se enchera de substâncias venenosas. — Uniformes novos; rápido! Os nossos estão meio tostados. Como estão as coisas por aqui? Já deram o alarma? — Não senhor, parece que ninguém sabe o que aconteceu por lá. Sou de opinião que... Nunca conheceríamos a opinião de Potkin. Os apitos arcônidas, altos e estridentes, que abafavam todos os outros ruídos, reduziram-no ao silêncio. A esta altura, mais de quarenta mil zalitas licenciados, que se encontravam no amplo pavilhão residencial, estremeceram. Ergueram as cabeças e fixaram os olhos nos tetos e nas paredes, onde estavam instalados os aparelhos de alarma. Fitamo-nos em silêncio e Bell disse em voz alta: — Ah, já perceberam que não estamos mais lá. É interessante! Olhou atentamente em torno. Os apitos continuavam a produzir o ruído que sacudia os homens até a medula dos ossos. Ergui-me lentamente. A tosse foi diminuindo.

5 Em meio à terrível confusão que se estabeleceu imediatamente após o início do alarma, chegamos sãos e salvos ao bloco C-43-8. Os alto-falantes mandaram que todos os zalitas licenciados saíssem imediatamente das amplas ruas, lojas e locais e se apresentassem à portaria robotizada dos seus alojamentos. O prazo concedido aos quarenta mil habitantes de Voga IV foi de quinze minutos. Naturalmente toda essa gente não teve possibilidade de regressar aos seus alojamentos num prazo tão reduzido. Rhodan e eu entramos no edifício poucos segundos antes do término do prazo. Graças às nossas plaquetas de licença conseguimos entrar sem dificuldades. Notamos, porém, que houve algo lamentável... Quando os robôs começaram a disparar, ainda estava com o pé do lado de fora da pesada porta. Ainda agora sinto o rugido das pesadas armas energéticas, cujo furacão atômico matou mais de cem zalitas. Se não tivéssemos conseguido entrar no último instante, nosso destino teria sido semelhante ao destes homens. O regente não tinha a menor contemplação. Qualquer pessoa, que, depois de findo o prazo concedido, ainda se encontrasse nas ruas, era morta a tiros. Já vira muitos massacres cruéis durante minha longa vida, mas o que estava presenciando agora era o mais chocante de todos. Um autômato construído por meus veneráveis antepassados acabara de executar um

assassinato em massa. Em última análise me cabia uma responsabilidade indireta por esse massacre. Quando tirei apressadamente o uniforme de tripulante e voltei a colocar as vestes de comandante, que estavam sendo usadas por meu sósia, tive a impressão de estar reduzido a uma insensibilidade total. Rhodan e Bell também estavam trocando seus uniformes. Nossos “representantes” desapareceram e voltamos a ocupar nossos lugares. Os membros do grupo de recepção de Potkin ofereceram seu relato. As notícias inquietantes circularam aos cochichos. Tako Kakuta, que continuava tão debilitado que não conseguia manter-se de pé, acabara de receber as primeiras injeções aplicadas pelo pessoal da equipe médica. Não estava passando bem. Saí de meu quarto individual e dirigi-me ao alojamento dos oficiais. O vozerio exaltado, que enchia todo o bloco, fez com que pudéssemos arriscar uma ligeira conferência sobre a situação. O sargento Huster, com o rosto obstinado, desmontava sua bomba ultratérmica. Nossos homens formavam em torno dele um círculo no qual se travavam discussões animadas. Dessa forma, Huster estava muito bem abrigado, enquanto se mantinha sentado no chão e decompunha a perigosa arma em suas peças. Lancei um olhar ligeiro para a sala 18-B, onde o restante dos nossos cento e cinquenta homens se comprimiam em obediência às ordens que haviam recebido. Dos cinquenta zalitas genuínos da minha tripulação só dezoito haviam regressado. Segundo as declarações dos sobreviventes, o Tenente Kecc, operador dos aparelhos de observação, encontrava-se entre os mortos. Mandei que os trêmulos zalitas se recolhessem ao seu alojamento e ordenei-lhes que mantivessem um silêncio absoluto. Dali a alguns minutos eu encontrei-me com os oficiais do estado-maior de Rhodan. Perry Rhodan mantinha-se de pé junto à feia parede de plástico do alojamento dos oficiais. Recebeu-me com um ligeiro cumprimento. Bell lançou-me um olhar de total resignação e John Marshall fazia esforços desesperados para captar impulsos mentais. — Não se incomode John — disse Rhodan com uma voz que soou estranhamente aos presentes. — Por aqui só existem robôs, e estes não pensam. Os poucos arcônidas que se encontram no outro pavilhão residencial não sabem de nada. A ordem de assassinar foi ministrada diretamente pelo regente. Marshall desistiu. Um homem anunciou que a desmontagem da bomba fora concluída. Rhodan agradeceu com um gesto distraído. Quando passou os olhos por nós, parecia muito tranquilo. — Sabem o que significa isso? Desaparecemos misteriosamente da usina de força. Acontece que o regente já calculou que só podemos ter vindo destes alojamentos de soldados. Por isso mandou evacuar as ruas, a fim de iniciar o quanto antes um exame que será bastante embaraçoso 64


para nós. A ordem de disparar resultou de uma espécie de curto-circuito do mecanismo positrônico, que certamente foi causado pelo setor de autoconservação do computador. Já sabe que por aqui existem armas perigosas e procurará localizá-las. — Teremos de livrar-nos dessas armas — disse Marshall em tom exaltado. — Basta que Ras Tschubai dê alguns saltos para colocá-las num lugar escondido. Depois disso, o regente poderá procurar adivinhar a quem pertenciam. A ideia era perfeitamente lógica, mas tinha um ponto fraco... Sabia perfeitamente qual seria a reação do espírito lúcido de Rhodan. — Você está enganado, John! O regente não esquece nada. Levará apenas alguns segundos para lembrar-se da atuação de nossos mutantes, realizada há cerca de setenta anos, e tirará suas conclusões. A esta hora já deve dispor de provas irrefutáveis de que as pessoas que penetraram na usina não podem ter chegado pelos meios naturais. Dispõe de uma série de dados sobre as operações já realizadas por nossos agentes em todos os pontos do Império. Já sabe que está lidando com terranos. Todas as pessoas que se encontram neste setor da cidade serão submetidas a um exame minucioso. Esconder as armas não adiantará nada. — É uma teoria um tanto arriscada — ponderou Bell. — Não é arriscada coisa alguma. Conheço essa máquina. Ela extrairá exatamente as conclusões que acabo de apontar. Atlan, qual é sua opinião? — É isso mesmo. Ainda que o regente não se lembre do planeta Terra, não deixará de ordenar o exame. E infelizmente não existe nenhum meio de modificarmos a frequência de nossas vibrações cerebrais humanas ou arcônidas. Se puserem os olhos em nós, estaremos perdidos. As máscaras serão inúteis. Num gesto nervoso, Rhodan passou a mão pelos cabelos longos. Seu sorriso parecia um tanto forçado. — Quer dizer que será preferível ficarmos com as armas. Quando formos agarrados, não quero estar desarmado. Alguém vê uma possibilidade de forçarmos passagem para cima? Potkin deu uma risadinha e sacudiu a cabeça. — Não existe a menor possibilidade — afirmei, procurando dar um tom tranquilo à minha voz. — Neste setor só existe uma entrada, que já conhecemos. Não há nenhuma possibilidade de chegarmos aos estaleiros. Mesmo que conseguíssemos chegar lá, qualquer tentativa de escapar seria inútil. As naves são levadas para baixo por meio de gigantescos poços antigravitacionais. E nunca conseguiríamos subir. Rhodan sentou sobre a cama pneumática. Sabia que o jogo estava perdido. Se o atentado tão cuidadosamente planejado tivesse sido bem sucedido, as coisas seriam muito diferentes. Sem dúvida, em meio ao caos teríamos encontrado uma possibilidade de chegar à superfície, pois o

regente já não existiria. Acontece que agora o computador revidava os golpes com o máximo de rigor. Nem tudo estava perdido, pois ainda nos restava uma saída perfeitamente viável. Hesitei em comunicá-la aos outros. — Não devemos iludir-nos: fatalmente seremos descobertos. E uma resistência armada até o último homem seria tola e inútil. Se nos apresentarmos imediatamente, seremos prisioneiros do regente. É provável que ele nos solte sem criar maiores problemas, já que não pode dispensar o auxílio da Terra. É apenas uma ideia. Os olhos de Rhodan brilharam sob o efeito da luz que incidia obliquamente. — Você acha arcônida? Será que você realmente acredita nisso? O regente nos receberá e a seguir nos submeterá a um interrogatório extremamente penoso. Descobrirá a posição galáctica da Terra e atacará imediatamente. Há anos não está querendo outra coisa. Bell fitou-me com os olhos semicerrados. Sua atitude intranquilizou-me. Senti a cólera apossar-se de minha mente. Alem da situação desesperadora, ainda tinha de enfrentar a desconfiança dos terranos. — Pois façam o que quiserem seus heróis de meiatigela — disse em tom revoltado. — Se quiserem, morram com bandeiras esvoaçantes e gritos de entusiasmo. Vocês são uns idiotas que nunca aprendem. Sabem atirar e enfrentar uma morte insensata, mas não entendem da verdadeira política. Talvez haja um meio de enganar o cérebro. — Não! A palavra encheu o pequeno recinto como se tivesse sido transformada num objeto sólido. Rhodan acabara de tomar uma decisão. Lancei-lhe um olhar furioso e cerrei os punhos. Ninguém dizia uma palavra. Em compensação os olhos frios dos homens pareciam cortar-me em pedaços. Banquei o irônico e virei-me. Seguiu-se o chamado áspero que já esperava. Esses bárbaros que estavam subindo depressa demais nunca mudariam. — Aonde vai, arcônida? Virei a cabeça. O corpo retesado de Rhodan convenceu-me de que o bárbaro já não confiava em mim. — Vou à cantina — respondi em tom irônico. — Para que tanto nervosismo, imortal? Não está com fome? Bell sorriu e o corpo de Rhodan descontraiu-se. — Você é um sujeito muito frio, não é? — perguntou em tom pensativo. — Só de fora. Receio que, num futuro próximo, meu lindo ativador celular se tornará inútil. A morte acidental constitui um fenômeno exterior, não resultante de qualquer tipo de condicionamento orgânico, motivo por que dificilmente existirá um meio de evitá-la. Se considerarmos que o impacto de uma arma de radiações é um acidente, havemos de compreender o que nos espera. Convém refletir mais um pouco sobre a hipótese da capitulação. Conheço o cérebro e sei que não demorará a tomar suas providências. 65


No momento, todos os zalitas estão presos nos alojamentos. Com isso foi eliminada uma atividade que começava a tornar-se perigosa para o regente. É o primeiro lance de uma série de medidas que se revestem de lógica patente. As medidas posteriores serão muito mais desagradáveis. A título de cumprimento pus a mão no capacete. Antes que chegasse à porta, os grandes alto-falantes começaram a berrar do lado de fora. Desta vez era o regente “em pessoa”. Parei para ouvir melhor. Rhodan colocou-se apressadamente a meu lado e abriu a porta com o pé. O anúncio foi feito com um volume tão forte que ninguém poderia deixar de entender as palavras. — Regente a todos os comandantes zalitas — disse a voz que encheu os pavilhões e corredores. — Coloquem suas tripulações em ordem de marcha. Chamaremos nave por nave e providenciaremos o transporte para a superfície. A partir deste momento todas as licenças estão suspensas. Ninguém pode sair dos edifícios dos alojamentos. As tripulações serão escoltadas por robôs de guerra. Não se admite qualquer pergunta dirigida a mim. Fitamo-nos com uma expressão de perplexidade. Qual seria a finalidade disso? Será que as instruções que acabavam de ser ministradas também constituíam resultado da lógica mecânica? Se fosse assim, o que pretendia o computador com o transporte? Por que não realizava aqui embaixo os exames individuais que sem dúvida se seguiriam? Foi meu segundo cérebro quem deu a resposta. Assim que a mesma chegou ao meu nível de consciência, fiz alguma coisa de que poucos segundos depois me arrependi amargamente. Dirigi-me a Rhodan e expliquei apressadamente o que acabara de apurar: — O computador está tirando suas conclusões. Não quer assumir o risco de mandar examinar os homens na cidade, pois certamente descobriu que, ao penetrarmos na usina, tínhamos uma arma de elevado potencial destrutivo. Do contrário, tudo isso não faria o menor sentido, pois com os radiadores portáteis não poderíamos prejudicar seriamente o regente, mesmo que conseguíssemos penetrar em suas entranhas mecânicas. — É uma explicação plausível. Prossiga! — interrompeu Rhodan. — Em virtude do que acaba de ser dito, está empenhado em afastar todo mundo o mais depressa possível do lugar em que uma pessoa que disponha de meios adequados poderá causar um prejuízo muito maior que na superfície. Por isso aqui embaixo nenhum exame será realizado. Tal exame consumiria tempo, e o computador não está interessado em dar tempo a ninguém. No espaçoporto, o ambiente deverá esquentar. A expressão do rosto de Rhodan me fez calar. Uma máscara não poderia ser mais rígida e indiferente. Levou apenas três segundos para tomar sua decisão. E quando a anunciou, foi minha vez de empalidecer. — Sargento Huster!

O perito em armamentos estava parado no corredor. Dirigia o chamado comando explosivo. Apareceu imediatamente e ficou em posição de sentido à frente de Rhodan. — Perry...! — ponderei em tom exaltado. Alguma coisa parecia comprimir minha garganta. — Perry! Rhodan não me deu a menor atenção. Começou a falar com a voz monótona. — Mr. Huster eu ordeno-lhe no interesse da Humanidade que monte o mais depressa possível as peças da bomba arcônida, ponha seu mecanismo em condições de funcionamento e coloque o detonador de tempo. Avise assim que esta ordem tenha sido cumprida. Huster fez continência. Desapareceu antes que tivesse tempo de dizer qualquer coisa. Os cento e cinquenta homens de nosso comando aglomeraram-se discretamente. A bomba de Árcon, que constituía a arma mais perigosa de meu povo, representava a solução de emergência a que Rhodan resolvera recorrer. Corri para o corredor e lancei um olhar ligeiro para a sala 18-B. Huster já desaparecera em meio aos homens aglomerados. Provavelmente as peças trazidas apressadamente à luz do dia já estavam chegando às suas mãos. Quando voltei ao pequeno alojamento dos oficiais, o regente começava a transmitir as primeiras instruções para o transporte dos homens. Os comandantes de dez naves receberam ordens de retirar suas tripulações dos blocos residenciais e conduzi-las em forma para os lugares indicados pelos robôs. Compreendi que o regente estava agindo muito depressa. A qualquer momento poderia chegar nossa vez. Ninguém sabia qual seria a próxima tripulação que receberia ordem para pôr-se em marcha. Apenas me restava esperar que o regente não desse ao tal do sargento Huster o tempo necessário para concluir a montagem da bomba arcônida. Quase louco, entrei precipitadamente no alojamento, mas nunca desconfiaria do que me esperava por lá. Provavelmente a ideia logo me teria acudido, se não estivesse tão nervoso. Afinal, conhecia os homens há dez mil anos. O cano da arma de radiações de Rhodan estava dirigido sobre meu peito. Mais três armas ameaçavam-me. Parei e lancei um olhar de perplexidade para a fluorescência vermelha que saía dos canos. Finalmente levantei a cabeça. — Sinto muito — disse Rhodan em tom triste. — Acreditamos que a ordem que acabo de dar talvez possa levá-lo a fazer alguma bobagem. Até que recebamos ordem para pôr-nos em marcha, ficaremos de olho em você. Alguma objeção? Senti-me chocado pela ironia gelada dessas palavras. Abafei a raiva insensata e esforcei-me ao máximo para manter a calma. — Nada de truques — disse Bell em tom amável. — 66


Acho que já nos conhecemos. Soltei uma risada amarga. Realmente nos conhecíamos. — Quer dizer que você pretende destruir o planeta da guerra? Já se deu conta de que isso trará uma revolta na Via Láctea? Se as fábricas de naves de Árcon forem destruídas, o Império será um... — Sei disso. — Mais de cinquenta mil mundos coloniais perceberão imediatamente que o império cósmico deixou de existir. Será o caos. Além disso, temos o perigo representado pelos druufs. Será que terei de apresentar mais argumentos, seu arrivista louco? — Sinto muito. Dentro de alguns meses, o perigo dos druufs desaparecerá por si, em virtude da instabilidade progressiva da frente de superposição. Quanto às revoltas nos setores coloniais do Império Arcônida, eu acho que conseguiremos vencê-las. — Para o bem da Terra! — respondi em tom de escárnio. — Para o bem da Terra, arcônida. Dou-lhe uma chance de construirmos juntos um novo império. De qualquer maneira você se encontra numa posição perdida. Será que já se esqueceu de como são os membros de seu povo? Com eles, você nem sequer conseguiria abafar uma revolta interna. Você há de reconhecer que, na situação atual, a destruição deste gigantesco mundo da guerra é a única saída. Nem mesmo o regente resistirá ao incêndio atômico que começará lavrar depois de detonada a bomba. Seus supercampos protetores desmoronarão e o planeta entrará em ebulição. Antes disso, teremos oportunidade de decolar numa nave. Nenhum ser humano morrerá. O incêndio provocado pela bomba leva algumas horas para disseminar-se pelo planeta. Face a isso, todos terão oportunidade de escapar para o espaço livre. Quem terá de ficar para trás será apenas o regente firmemente ancorado na rocha. Com isso teríamos atingido nosso objetivo. — Você destruirá o Império — disse em tom insistente. — Você destruirá tudo que criamos e construímos num trabalho de vinte mil anos. Não permitirei que isso aconteça. Não sabe que existem inúmeros povos que só aguardam este momento? Eles cairão sobre nós que nem uma matilha de lobos. As raças não humanoides terão tempo e oportunidade para fazer prevalecer sua influência. — É um risco que teremos de aceitar. Você não vai impedir coisa alguma, Atlan. Dei uma risada sarcástica bem no rosto de Rhodan, que recuou um tanto embaraçado. Interrompeu-me com um sinal e disse com a voz muito tranquila: — Atlan, também haveremos de vencer esta barreira que se interpõe no caminho da nossa amizade. Fique tranquilo e procure raciocinar logicamente sobre os fatos. O regente tem de ser posto fora de ação. — Mas não nestas condições — gritei fora de mim. Totalmente exausto, sentei numa cama pneumática. — Muito bem, arcônida!

Lancei um olhar prolongado para Rhodan, que sentiu o ódio que subitamente começava a tomar conta de mim. Cochichei com os lábios ressequidos: — Quando lutamos no museu de Vênus, eu deveria ter enterrado a espada em seu pescoço, seu idiota! Se Árcon III for destruído, nos outros dois planetas do sistema surgirão terríveis inundações e tremores de terra. Afinal, você não entende nada do sistema bem elaborado de estabilização recíproca das forças. Lancei-lhe um olhar de súplica. Será que Rhodan não queria compreender? — Terminaremos dentro de trinta minutos — disse um homem que olhou ligeiramente para dentro do alojamento. Comecei a desesperar no meu íntimo. Por que não aparecia nenhum robô de vigilância? Em outras oportunidades os mesmos costumavam aparecer a toda hora. Bell bloqueava a porta. Sabia que atiraria se eu tentasse a fuga.

6 — Mais rápido, mais rápido — ordenou o robô de guerra de três metros de altura, forçando ao máximo seus órgãos vocais biomecânicos. Há dez minutos não fazíamos outra coisa senão correr. Fomos obrigados a movimentar as pernas até mesmo sobre a rápida fita larga de transporte, muito embora esse meio de transporte de massa corresse à velocidade de quarenta quilômetros por hora sobre os cilindros invisíveis. Agora estávamos correndo em direção à entrada reluzente de um elevador antigravitacional. Já esperava que não seríamos levados para cima pelo caminho já conhecido, mas nunca pensaria que o regente mandasse conduzir-nos pelos grandes elevadores do estaleiro espacial que ficava próximo aos alojamentos. De qualquer maneira, o computador teve o cuidado de mandar bloquear os largos corredores, que se estendiam entre as estradas rolantes automáticas, por meio de suas máquinas de guerra. Corremos entre duas fileiras de armas erguidas em atitude ameaçadora, que de repente poderiam despejar sobre nós suas descargas mortíferas. Fui o quinto a saltar para dentro do campo antigravitacional do elevador. Os terranos, dispostos a qualquer coisa, precipitaram-se atrás de mim. Vi Rhodan lançar um olhar ligeiro para o relógio. Depois, muito preocupado fitou Huster. Porém o sargento apenas acenoulhe nervosamente com as mãos. Compreendi que o momento em que a bomba deveria ter detonado automaticamente já passara. Segurei-me na parede e fiz um esforço para não ser arrastado, pois havia ausência de gravidade. Os homens de 67


nosso grupo ainda não estavam todos reunidos. Recebêramos ordens para só subirmos juntos. — O que houve Huster? — perguntou Rhodan para o homem gigantesco. Em seu rosto havia uma expressão tensa. — Já deveria ter estourado Sir — disse o especialista em armamentos. Alguém soltava pragas terríveis. Não consegui apurar do que se tratava. Atrás de nós, algumas máquinas de guerra penetravam no poço de mais de duzentos metros de diâmetro. Fomos impulsionados por meio de um jato de ar comprimido, que nos arrastou violentamente para cima. O enorme poço subia verticalmente em meio à rocha. Apoiei-me nos ombros largos de um soldado e flutuei para junto de Rhodan. Sua arma já havia desaparecido. Fitou-me com uma expressão que já não era fria, mas desesperada. Segurei seus ombros, e, em virtude disso, começamos a girar. — Onde mandou o teleportador colocar a bomba? — perguntei apressadamente. — Fale logo. Onde? — Ele a colocou junto à parede que separa a usina energética. Bem embaixo da curva da grande tubulação. — Quer dizer que foi colocada justamente no lugar em que o equipamento de vigilância é mais forte. Vocês são uns idiotas! Por que não a deixaram simplesmente no alojamento? Uma bomba arcônida é detonada mediante um elevado dispêndio de energia. É claro que foi localizada e desativada assim que o mecanismo-relógio começou a funcionar. — Isso é impossível; dispunha de um dispositivo de segurança contra a localização — respondeu Rhodan em tom assustado. — Você acha mesmo que conhece todos os recursos do grande cérebro? No momento em que o processo de estímulo energético foi iniciado no campo de reflexão da bomba, esta se transformou numa esfera radiante de energia. Com isso superou imediatamente as influências do ambiente, tornando fácil a localização. Já deve ter sido desativada por um comando de robôs. — Não; não é possível... — Aposto qualquer coisa. O que me diz? Como foi que não aconteceu nada que indique a ocorrência da detonação final? Perry pense um pouco. Estamos sendo esperados lá em cima. Os acontecimentos seguintes foram tão rápidos que mal conseguimos acompanhá-los. Subimos com uma velocidade considerável. De repente, a porta blindada que fechava o poço abriu-se e sentimo-nos ofuscados pela luz do sol. O campo energético da chegada deteve a queda. Recuperamos nosso peso. Acima de nós estendia-se uma gigantesca abóbada de aço de Árcon. Só vimos cinco dos tripulantes levados para lá antes de nós. Estavam prestes a atravessar, em forma, uma barreira de alta-tensão, atrás da qual se encontrava um rastreador energético montado sobre rodas.

Seria impossível continuarmos com as nossas armas, que funcionavam em base energética. Provavelmente, quando nos aproximássemos a trinta ou quarenta metros, o aparelho extremamente sensível começaria a reagir. Era exatamente o que eu imaginara. Rhodan disse alguma coisa que não entendi muito bem. Os membros do comando, que haviam chegado juntamente com ele, formaram o círculo e Rhodan pôs a mão no bolso. Sem dar a menor atenção ao perigo que poderia resultar, trouxera a microbomba nuclear. Tinha formato achatado e era como um estojo de joias, mas a energia por ela produzida chegava a quinhentas toneladas de TNT. Com um simples movimento de mão, Huster colocou o pequeno mecanismo de propulsão de combustível sólido, que tinha a forma de um bastão, e moveu a pequena alavanca de alumínio que o prendia. Com isso, o corpo achatado transformou-se num microfoguete de voo estável. Rhodan inclinou-se sobre a abertura, mandou que dois homens o segurassem pelos pés e estendeu a mão direita para baixo. O chiado agudo do combustível químico foi superado pela confusão de nossas vozes. Percebi apenas o raio ofuscante de gases incandescentes, que passou junto ao rosto de Rhodan. Quando este se ergueu repentinamente e saltou para trás, o estranho projétil já descia pelo grande poço do elevador antigravitacional. Assim que a microbomba atingisse o solo, a uns mil e oitocentos metros de profundidade, haveria uma explosão devastadora. Os poucos robôs de guerra que nos acompanhavam ainda se encontravam no interior do poço. Estavam esperando que chegássemos à cima. Os cento e cinquenta homens de nosso comando correram desesperadamente. Em carreira desabalada deslocaram-se ao ponto mais afastado da abóbada, atiraram-se ao solo e arrancaram as armas dos bolsos do uniforme. Segui-os, também me atirei ao solo e, no mesmo instante, senti-me envolvido pela tormenta atômica. A bomba já devia ter tocado o chão bem antes, mas provavelmente possuía um detonador de retardamento. Naquele instante, os homens de Rhodan abriram fogo contra os robôs que iam chegando e derrubaram-nos tão depressa que as máquinas não tiveram tempo de esboçar qualquer tipo de defesa. O próximo alvo a explodir foi à barreira de altatensão com o instrumento de observação montado sobre rodas. Os robôs, que se encontravam ao lado da tal barreira, perderam o equilíbrio em virtude da onda de compressão. Antes que conseguissem recuperá-lo, estavam transformados num montão de destroços incandescentes. De repente não parecia haver mais nada que nos ameaçasse. A entrada estava aberta à nossa frente. Vi alguns zalitas que fugiam apavorados. Haviam chegado antes de nós. — Fiquem deitados — gritou Rhodan. — Daqui a pouco vai explodir. Imaginava perfeitamente o estrago da explosão. 68


Segurei-me firmemente a uma das travessas, que apoiavam a abóbada, e comprimi o rosto contra o solo. O chão estremeceu sob o efeito de uma terrível detonação. Do grande poço do elevador saiu uma coluna de fogo surpreendentemente fraca. Em compensação, o abalo foi tão forte que me senti arrancado da travessa em que me segurava. Fui atirado sobre o material liso do piso. A onda de compressão saiu do poço do elevador com um enorme rugido e arrancou a abóbada. Uma chuva de peças fumegantes foram lançadas das profundezas. O terrível trovejar parecia não terminar nunca. Mais uma onda de compressão atingiu-nos e outra coluna de fogo, mais forte, saiu do poço do elevador, que se transformou na boca de um gigantesco canhão. Rhodan parecia ter contado com isso. A borda do poço de elevador desmoronou. Os últimos destroços foram atirados das profundezas trovejantes. A abóbada, que cobria a saída do poço, estava transformada num montão de destroços. Grandes aberturas surgiram nas paredes. Rhodan foi o primeiro a pôr-se de pé. Saltou para uma das fendas e olhou para fora. Já estávamos jogando com as cartas abertas. — Vejo naves, muitas naves — gritou em tom exaltado. — Procuraremos atingir a mais próximas delas. Aconteça o que acontecer, não poderemos permitir que nos peguem. Sabíamos que, apesar do êxito momentâneo, não tínhamos a menor chance. Mesmo que conseguíssemos decolar com uma das naves, seríamos atingidos assim que esta se erguesse do solo. Era inútil, mas de qualquer maneira corremos. Saltei para a forte luminosidade do sol de Árcon e tive a impressão de que meu sangue iria gelar nas veias. A menos de um quilômetro do lugar em que me encontrava, a gigantesca abóbada energética do computador-regente erguia-se para o céu límpido. A comporta por nós destruída ficava muito perto do campo defensivo. Os cento e cinquenta homens tresloucados correram como nunca haviam corrido. Os zalitas genuínos ficaram para trás, totalmente perturbados. Não estavam compreendendo mais nada. Segui Rhodan, pois não tinha outra alternativa. Quando nos encontrávamos a uns cem metros da nave cobiçada, que era um cruzador ligeiro da frota arcônida, seus mecanismos propulsores entraram em atividade. Ergueu-se com um forte rugido, deixando atrás de si uma cauda escaldante. De repente, as pernas de Rhodan pareciam ceder. Dobraram-se lentamente e, depois de algum tempo, o terrano caiu ao chão, onde ficou deitado, completamente imobilizado. Seus olhos apáticos fitaram o cruzador que se afastava vertiginosamente. As outras unidades também foram decolando. O rugido surdo dos mecanismos propulsores parecia um canto da morte. Rhodan continuava deitado no mesmo lugar. Sua boca estava muito aberta. Respirava pesadamente. A muralha reluzente da abóbada energética ficava a menos de

quinhentos metros. À medida que as naves decolavam, o campo de visão se ampliava, até que nos víssemos sós diante da barreira que cobria toda a linha do horizonte. Os outros membros do comando também cessaram a corrida vertiginosa. Fungavam e olhavam em torno. Finalmente viram o que eu já havia descoberto. Bem ao longe, a cerca de três quilômetros de distância, numerosos vultos escuros saíam da porta blindada, que poucas horas antes usáramos para entrar na cidade subterrânea. Visto de longe, o panorama se parecia com um formigueiro que estivesse expelindo em rápida sequencia seus habitantes enfurecidos. Depois de algum tempo, a corrente compacta subdividiu-se. Logo compreendemos que os robôs estavam formando linhas de tiro. Um silêncio deprimente reinava em torno de nós. O rugido dos propulsores chegara ao fim. O enorme espaçoporto parecia deserto. Ainda não ouvíamos os passos pesados dos robôs. Quando ouvíssemos, seria tarde. Bell procurou orientar-se. Apontou para uma muralha de plástico blindado. — Aquilo nos servirá de refúgio. Vamos abrigar-nos. Aproximou-se de Rhodan, segurou-o embaixo dos braços e ergueu-o violentamente. — Por que diabo as naves robotizadas não atiraram? Por quê? Bastaria uma salva para liquidar-nos. — Eles nos querem vivos, meu caro — respondi. — É bom acostumar-se à ideia. Provavelmente os robôs de guerra usarão apenas armas de choque. Lançou-me um olhar desesperado. Finalmente um sorriso martirizado apareceu em seu rosto. — O.K. Deixe que venham. Ainda vê uma possibilidade de fugirmos? — Devíamos capitular. Por que sacrificar os homens? O corpo de Rhodan entesou-se. — Ninguém revelará a posição galáctica da Terra. Sabia perfeitamente que se tratava de um argumento válido. — Para isso você teria de matar seus soldados e no fim a si mesmo. Uma vez que os robôs usarão exclusivamente armas de choque, não teremos outra alternativa. Se não fizer o que estou dizendo, acabaremos caindo mais cedo nas mãos do regente. Rhodan fez como se não tivesse ouvido as últimas palavras por mim proferidas. Provavelmente recuava diante da conclusão que se impunha. Esperava que as máquinas de guerra acabassem atirando com armas mortíferas. Corremos mais uns cento e cinquenta metros, saltamos por cima da muralha de plástico blindado pintada de vermelho, que tinha quase dois metros de altura, e abrigamo-nos. A uns cinquenta metros atrás de nós, começava a área de perigo propriamente dita. Não seria recomendável aproximar-se a menos de trezentos metros do campo energético, no qual sem dúvida reinava uma tensão elevada. 69


Ficamos deitados por algum tempo, até que Ras Tschubai se aproximasse do lugar em que nos encontrávamos. Fez continência para Rhodan e anunciou em tom singelo: — Sir, eu tentarei atravessar o campo energético com algumas bombas manuais. Talvez consiga. Rhodan fitou-o em silêncio. Ainda sem dizer uma palavra, entregou ao teleportador cinco dos artefatos explosivos. Esperamos que Ras se concentrasse. Quando saltou, houve o fenômeno luminoso que já conhecíamos. Logo após o salto voltamos a ouvir os terríveis gritos que já ouvíramos poucas horas antes. Demorou bastante até que a espiral energética se desmanchasse, liberando o corpo de Tschubai que se materializava lentamente. Quando nossos médicos lhe aplicaram as primeiras injeções de analgésico ainda estava gritando. — Um campo energético em forma de favo — disse John Marshall em tom indiferente. — Será que esse campo é constante, ou só é ativado quando o cérebro se vê diante de uma ameaça mais grave? Rhodan não respondeu. Fitei-o de lado e assustei-me, quando ouvi as ordens por ele emitidas. As microbombas foram saindo dos bolsos chatos do uniforme. Os suportes com pequenos trilhos de lançamento e os propulsores de combustível sólido com as aletas estabilizadoras foram colocados. Cada um de nós possuía uma bomba desse tipo, com exceção daqueles que tiveram de utilizar o lugar disponível em seus uniformes para transportar outras peças. Bell e Rhodan fizeram pontaria, regularam os parafusos dióptricos de aspecto primitivo para a distância adequada e puxaram o gatilho. Com um chiado, os pequenos projéteis saíram numa parábola ampla. Atingiram o solo bem à frente das linhas de robôs e explodiram numa ofuscante reação nuclear. O processo de fusão era livre de radiações, motivo por que só teríamos de recear as energias térmicas liberadas na explosão e as ondas de compressão. O furacão escaldante uivou acima das nossas cabeças e os cogumelos atômicos escuros subiram acima do campo de pouso. Os destroços foram chovendo e finalmente o silêncio voltou a reinar. Levantamo-nos do paredão, que proporcionava uma proteção ideal, e olhamos para frente. Duas crateras chatas e liquefeitas abriam-se no revestimento de plástico. Provavelmente numerosas máquinas de guerra haviam sido derretidas. Porém, de ambos os lados da cratera aberta pela explosão, os outros robôs continuavam a marchar com uma tranquilidade mecânica. A perspectiva da destruição não os atemorizava. Naquela altura, já não podíamos usar as armas pesadas. O alvo estava próximo demais. Bell escondeu o rosto nos braços entrecruzados. Dava a impressão de estar dormindo. Os ombros trêmulos

eram o único sinal de que esse homem também tinha sentimentos. Voltei-me para Rhodan. A fim de prosseguir na resistência insensata, Perry estava tirando sua arma de impulsos térmicos. — Você seria capaz de assassinar seus homens para evitar que eles revelem a posição da Terra? — Assassinar? — repetiu Rhodan em tom de perplexidade. — Nunca usei essa palavra. Nós nos defenderemos. Haja o que houver. Todos possuímos um bloqueio hipnótico que entrará em ação na hipótese de um interrogatório psíquico. Você saberá proteger-se. Se o regente recorrer à tortura física naturalmente passaremos momentos bem desagradáveis. — Se é assim, por que tem receio de que alguma declaração possa prejudicar a Terra? Rhodan deixou cair à cabeça e respondeu em voz baixa: — Não confio muito nos bloqueios hipnóticos. Se o regente recorrer aos médicos galácticos... Compreendi perfeitamente. Os sentimentos de Rhodan arrastavam sua mente de um lado para outro. Sabia que o jogo estava perdido. Dali a alguns segundos, os homens começaram a atirar. Por algum tempo prestei atenção aos estalos ininterruptos das armas energéticas. Vi os feixes de raios serem desviados pelos campos defensivos individuais dos robôs. Finalmente estes abriram fogo contra nós. Atiravam com armas de choque relativamente inofensivas, conforme previra. O cérebro nos queria vivos, e conseguiria. Bati no ombro de Rhodan e levantei-me. O paredão protegia-me contra os disparos dos robôs. Só quem subisse ao mesmo para lutar poderia ser atingido. Segurei a microbomba na mão esquerda e saí caminhando em direção ao campo defensivo do cérebro. *** Empurrei a chave do meu transmissor de capacete para a esquerda e liguei a faixa de frequência pela qual me comunicara com o regente logo após o pouso. Por estranho que pudesse parecer, a serenidade da idade avançada manifestou-sede uma forma que nunca teria esperado. Estava disposto a desistir. Porém, antes disso, fazia questão de mostrar quem era e de onde vinha, e provar ser infinitamente superior àquele artefato construído por homens como eu. Queria fustigar e humilhar uma máquina ofendê-la com meu intelecto causticante, muito embora não houvesse nada que pudesse ser fustigado, humilhado ou ofendido. Apesar disso comecei a falar como se me dirigisse a um ser humano. Era uma loucura, mas apenas tive, numa área recôndita de minha mente consciente, uma percepção débil dessa situação. — Regente, aqui o comandante do couraçado KonVelete. Você me conhece pelo nome de Ighur. Acontece que este nome é falso. Utilizei meu saber para trazer para 70


Árcon III um grupo de terranos, pois já não estava disposto a tolerar esse seu regime tirânico. “Sou Atlan, príncipe de cristal do Império, membro da família reinante de Gonozal, sobrinho e sucessor de Sua Alteza, o Imperador Gonozal VII, Almirante da Frota do Império, chefe da 18a esquadrilha de combate, comandada por Sakal; vencedor de vinte e sete batalhas travadas nas proximidades do setor de nebulosas. Subjuguei o sistema de Iskolart, pertencente à Maahk e situado na área das manchas escuras”. “Ainda sou membro do Grande Conselho de Árcon, beneficiário do processo de ativação cerebral em virtude de decisão do Alto Grêmio, inventor e fabricante de uma arma que decidiu a guerra do metano. Exijo a submissão e obediência que cabe a uma máquina construída por meus descendentes.” Parei. Meu corpo foi sacudido por uma gargalhada de louco. Inclinei-me para frente, apoiei as mãos nos joelhos e refleti sobre os argumentos que ainda poderia oferecer. Aquilo que restava do meu raciocínio lógico informou-me de que provavelmente acabara de perder o controle sobre minha mente. Prossegui em tom áspero e com uma fria voz de comando: — Acabo de dizer que você, cérebro positrônico, só assumiu o poder porque eu, o Almirante Atlan, fiquei retido no sistema solar dos terranos em virtude de uma série de circunstâncias adversas. Recebi um aparelho que me garantiu a imortalidade. Voltei para exigir obediência. Suspenda imediatamente todas as hostilidades em curso contra minha pessoa, abra o campo defensivo para dar-me passagem e me entregue seu centro de programação. Declaro-o incapaz para dirigir os destinos do Império. Ordeno-lhe que cesse imediatamente todos os procedimentos oficiais, dê instruções aos comandantes das espaçonaves que operam na frente dos druufs para que se mantenham em posição de espera e expeça uma proibição de entrada no sistema de Árcon aplicável a toda e qualquer nave. Será que você compreendeu servo de meu povo? Ao proferir as últimas palavras, encontrava-me a apenas dois metros da linha vermelha. Naquele momento, meu espírito se desanuviou e percebi nitidamente os absurdos que acabara de dizer. Deixara-me envolver por um entusiasmo insensato, provocado pelas palavras grandiloquentes e pelas frases que deveriam soar tolas e ridículas. Esperei pelo raio energético que me envolveria. Aproximara-me demais do campo energético. Senti vergonha dos amigos, que provavelmente haviam escutado minhas falas idiotas pelos rádios de capacetes. Sentiriam pena de mim, e isso me doía. Seria capaz de suportar qualquer coisa, menos a compaixão. Fui caminhando devagar, aproximando-me cada vez mais da mortífera abóbada energética. Quando me vi bem perto da mesma, ouvi um forte estalo no meu receptor de capacete. Uma voz metálica começou a falar.

— Dispositivo de segurança A-l falando, Alteza. Os dados fornecidos foram conferidos nos arquivos e chegouse à conclusão de que são exatos. A medição de suas vibrações cerebrais coincide com os dados armazenados. Reconheço em Vossa Alteza o príncipe de cristal do Império e o futuro soberano de Árcon. O computador, que costuma ser chamado de regente, acaba de ser desligado. Os setores que cuidam da segurança do Império continuam a funcionar. Os ataques contra seus subalternos foram suspensos. Tais medidas são adotadas em virtude da programação de segurança Sêneca, que me obriga a entregar o poder de comando absoluto a um arcônida de raça pura, desde que este se apresente com o poderio no olhar e no espírito, e seja capaz como os antigos, puro como os antigos e animado de um desejo ínfimo de pugnar pela existência do Grande Império. Essas condições acabam de ser cumpridas. O serviço do cérebro positrônico está concluído. Aguardo as instruções de Vossa Alteza. Avancei mais alguns metros aos tropeções. A barreira energética abriu-se à minha frente. Ultrapassei-a, sem compreender o que estava acontecendo. Não sabia muito bem o que a voz acabara de dizer. Alteza...? Não era este o título do Imperador? Será que o dispositivo de segurança A-l era tão poderoso que podia paralisar o gigantesco cérebro? Devia estar sonhando... Perplexo, fitei um veículo que se aproximava. Dois robôs saltaram e ficaram em posição de sentido. Subitamente o silêncio passou a reinar atrás de mim. Ninguém estava atirando. — Vossa Alteza está esgotado — disse um dos robôs em tom submisso. — Podemos tocar em seu corpo? Gaguejei um sim. Os robôs me colocaram em seus braços de aço, levaram-me para o planador de campo de repulsão e saíram em carreira desabalada. Uma abóbada de aço abriu-se. No setor médico de Árcon, fui recebido por cinco máquinas especiais. Tratava-se de construções altamente sofisticadas cujos rostos de plástico exibiam um sorriso devoto. No meu tempo, os robôs sempre foram assim. Nunca os conhecera de outra forma... E o chamado regente também não passava de um robô, apesar do seu tamanho. — Esperem — disse, falando com dificuldade. As máquinas recuaram imediatamente. Fiquei sabendo já estar inserido no cérebro dos robôs. Não podia ser um sonho. Ouvi fortes gritos saídos do meu receptor de capacete. Rhodan chamava com a voz muito nervosa. — Atlan! Você me ouve, Atlan? Atlan, o que aconteceu? O ataque foi suspenso e estou recebendo pelo rádio um pedido para locomover-me até a área situada atrás do campo defensivo. A voz diz que você teria dado ordens para isso. Atlan, qual é o jogo? Trata-se de um truque? Você me ouve? Responda Atlan. Atlan...! Logo compreendi que não estava louco. Minha mente continuava a funcionar; os órgãos dos sentidos 71


trabalhavam. Alguns robôs especializados se mantinham em atitude respeitosa. Ergui-me lentamente. Fora colocado numa maça, e saí da mesma com um brusco movimento. — Dispositivo de segurança A-l, desejo que os impulsos emitidos por meu transmissor de capacete sejam captados, ampliados e irradiados aos meus amigos. Aguardei ansiosamente pela resposta, que foi imediata. — Ordem cumprida, Eminência. Amplificador funcionando. Passei pelos robôs e falei para dentro do microfone de capacete: — Atlan para Perry Rhodan! Não é nenhum truque! Repito: Não é nenhum truque. Traga os homens para dentro da área e aguarde novas notícias. Dei ordem para que as hostilidades sejam suspensas imediatamente. Os robôs se mantêm quietos? Alguém respirava forte e apressadamente. Depois de algum tempo ouvi a resposta. — Sim! Será que você enlouqueceu? — perguntou Rhodan. — Prenderam-no e o obrigaram a... — Não fizeram outra coisa senão prestar a obediência devida a um príncipe de cristal do Império — disse. Sentia minha mente tranquila e equilibrada. Subitamente tudo se tornara claro. — Atlan, você está sonhando! Alguma coisa está errada! — Está tudo certo. Apenas nossa operação estava errada, porque não correspondia à realidade dos fatos. O dispositivo de segurança existe, conforme supúnhamos. A elite dos cientistas arcônidas nunca teria deixado de instalála. O autômato A-l acaba de entrar em ação. O regente deixou de existir na forma que conhecemos. Transformouse num simples cérebro mecânico, que tem de submeter-se às minhas ordens tal qual a mais insignificante das máquinas. Mandarei apagar as programações já superadas e utilizarei as faculdades, sem dúvida estupenda, do cérebro de acordo com uma visão atualizada. Daqui por diante, um arcônida comandará tudo. — Acho que estou enlouquecendo! — disse uma voz ranheta. Só podia ser Reginald Bell. — Também acreditei que estivesse ficando louco — respondi com um sorriso de alívio. O ativador celular pulsava sobre meu peito. O fluxo de impulsos estimulantes atingia todas as fibras de meu organismo. — O que houve de errado? — perguntou Rhodan. — Nosso procedimento estava totalmente errado. Foi tudo em vão, os esforços, perigos e canseiras. A única coisa que eu deveria ter feito era descer da nave logo após o pouso e colocar-me à frente do campo energético. O dispositivo de segurança, que funciona há cinco mil anos, teria realizado imediatamente um tateamento a distância das minhas vibrações cerebrais, e chegaria à conclusão de que

não sou um arcônida novo e degenerado, mas um dos homens que fundaram o Império e construíram o computador-regente. Teria sido tão fácil, terrano! Até poderia ter vindo ao planeta numa pequena nave, sem ser molestado, desde que, previamente, tivesse chamado o regente pelo rádio e lhe tivesse fornecido minha identidade. O dispositivo de segurança exercia a vigilância de todas as mensagens recebidas, e forçosamente me teria reconhecido. Não me envolveria no menor perigo. Perry dê-se por satisfeito porque sua bomba de Árcon foi descoberta em tempo. Houve um silêncio prolongado. Indaguei junto a A-l se minhas suposições eram corretas. A resposta veio sob a forma de um vigoroso „Sim, Eminência‟. — Entrem e aguardem atrás da barreira energética — disse. Voltei a sentir-me dominado pelo cansaço. — Descansem. Providenciarei alimento e bebidas. Assim que tiver tomado às providências necessárias, voltarei a chamar. — Que providências necessárias são estas, Atlan? — Deixe de desconfianças, bárbaro. Você nunca aprende. Será que pensa que pretendo matá-lo o mais depressa possível? Mandei que a abóbada energética fosse fechada novamente, o que provocou uma exclamação nervosa. — Fique tranquilo, Perry — disse com um suspiro. — Este cérebro é tão precioso que não quero deixá-lo desprotegido. Controle-se e procure dominar o nervosismo. Vencemos, entendeu? Vencemos! Desliguei e ordenei a um robô que me levasse à sala de controle do dispositivo de segurança. Ao passar pelas amplas salas cheias de instalações extremamente complexas, senti-me orgulhoso e feliz. Aquela maravilha, que só estava falhando em virtude de uma programação já superada, fora construída pelos homens e mulheres de meu povo. Era-me de direito tomar posse da mesma. Para mim, já não havia nenhum regente, mas para as outras inteligências, ele deveria continuar a existir. Por enquanto tais inteligências não deveriam saber que as medidas por ele tomadas já estavam sendo submetidas a um controle inteligente. Planos, planos gigantescos foram amadurecendo em meu cérebro antes que chegasse ao dispositivo de segurança. Entrei na sala de programação cujas paredes estavam revestidas de enormes telas. — Seja bem-vindo, Alteza. — disse a mesma voz cheia. O rosto de um cientista arcônida surgiu numa das telas. — Esta é a gravação em vídeo, realizada segundo o dispositivo de segurança Sêneca. Quando você me ouvir, provavelmente já estarei morto há muito tempo. Todavia, a frequência de minha voz continua à disposição do mecanismo de segurança A-l. Sou Epetran, cientista-chefe do Conselho. As ordens transmitidas a A-l determinam que o poder seja entregue a um arcônida que tenha conservado a 72


atividade, força física e psíquica, e cujo grau de inteligência seja ao menos de cinquenta lerc. Esperamos que um dia a decadência que está tendo início seja detida. Se o rebaixamento do nível espiritual ultrapassar o nível perigoso, o grande cérebro assumirá o comando da história do Grande Império até que apareça alguém que seja como nós. Não sei quando isso acontecerá, mas tenho certeza de que um dia surgirá uma pessoa que seja como os antigos.

Quando isso acontecer, A-l assumirá minha voz e falará em conformidade com sua programação. É o que está acontecendo neste momento. Mais uma vez, seja bemvindo, Alteza! Meus antepassados não se haviam esquecido de nada. Na verdade, eram meus descendentes. Para um imortal torna-se difícil estabelecer essas distinções sutis...

Os impulsos cerebrais, que identificaram Atlan, o imortal, como um arcônida não degenerado e dotado de elevadas qualidades espirituais, fizeram com que um dispositivo de segurança do invencível computador-regente entrasse em funcionamento e lhe entregasse o governo do Império de Árcon. A Perry Rhodan não restava outra coisa senão esperar que Atlan continuasse a mostrar-se amigo da Humanidade. Em As Cavernas do Sono, título do próximo volume, as emoções são ainda mais fortes.

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Nº 87 De

William Voltz Tradução

Richard Paul Neto Digitalização

Vitório

Nova revisão e formato

W.Q. Moraes

Dois mil estranhos no Império Solar! Era a cabeça de ponte da invasão galáctica...

Uma espaçonave arcônida encalhada na Lua, descoberta por Perry Rhodan, foi o ponto de partida para a unificação política da Humanidade e a pedra angular do Império Solar. O fato de que este Império — minúsculo em comparação com as demais potências do Universo — ainda continua existindo e ainda não se transformou num inferno atômico, ou não foi degradado a uma simples colônia de Árcon, só pode ser atribuído às magistrais jogadas dos terranos, aglutinados em torno de Perry Rhodan, no grande xadrez das Galáxias — e também à sorte, que como fato permanente é exclusivo dos fortes. No entanto, a fantástica linha da sorte, que, conjugada com os inteligentes esforços de Rhodan, conseguiu até hoje ocultar a posição da Terra nas Galáxias, parece ter chegado ao ponto de ruptura iminente... E qual será o mistério que está por trás, ou melhor, no interior das Cavernas do Sono?

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“Pois é”, pensou Dunbee. “O problema é justamente este. Durante toda vida deixei que os outros me ajudassem sem nunca fazer nada por minha conta.” Resignado, fechou os olhos. Seus pensamentos recuaram ao dia em que pela primeira vez solicitara o auxílio da Companhia Intertemporal do Sono.

Bem acima de Dunbee, ouvia-se o burburinho constante e enervante do plasma celular. Se ele quisesse tocar nos recipientes, bastaria estender a mão. Porém, ao tentar, seus dedos cravaram-se no chão arenoso, tatearam trêmulos por *** cima da terra entrecortada e recuaram assustados, diante da frieza de uma pedra lisa. — Entre, Mr. Dunbee — disse Curteen, dirigindo-se ao Maurice Dunbee gemeu. Esforçou-se em vão para homenzinho que se encontrava na antessala. — Agora reprimir o sentimento de pavor que dominava sua mente. tenho tempo para falar com o senhor. Mais uma vez procurou tirar o corpo dolorido e cansado de Um tanto constrangido, Dunbee levantou-se e largou a baixo da caixa. A vontade de fugir tornava-se cada vez mais revista ilustrada tridimensional. Curteen fez um gesto para intensa. Respirando com dificuldade, rastejou alguns convidá-lo a entrar no escritório. metros. Em algum lugar — a seu lado ou atrás — ouvia o Lester Curteen era vice-diretor da S/A Sabonetes de Pó borbulhar do líquido contido no grande recipiente de Estelar. Era alto e esbelto. Seus olhos plástico. eram cobertos por lentes de aderência. Haviam desligado a luz; a caverna Personagens principais deste — Faça o favor de sentar-se — disse estava mergulhada na escuridão. Era só episódio: Curteen, enquanto mexia distraidamente uma questão de tempo para que o em alguns papéis sobre sua mesa. prendessem e levassem de volta. Sabia Maurice Dunbee — Um homem Depois de algum tempo, exclamou que estava muito fraco para lutar. fraco, que se transforma num em tom de satisfação: valente lutador. Rastejou mais um pouco, embora — Ah, está aqui! O senhor já está estivesse cônscio da inutilidade de seus trabalhando há mais de dez anos em Richard Kennof — Para quem a esforços. Um cheiro forte e corrosivo nossa firma, Mr. Dunbee. Sempre ruína econômica serve de título de enchia o ar abafado da caverna. Talvez legitimação para ser admitido nas ficamos muito satisfeitos com o senhor. tivessem introduzido um gás sonífero na cavernas do sono. Nunca tivemos problemas. mesma, a fim de dominá-lo sem qualquer Dunbee engoliu em seco e acenou risco. Dunbee sorriu. Era apenas mais Owen Cavanaugh — Fundador da com a cabeça. No seu íntimo admirava o Companhia do Sono. um fracasso na série de insucessos que desembaraço de Curteen. marcara sua vida. — Ficamos muito gratos por sua Dr. Le Boeuf e Dr. Fedor “Aqui está encolhido Maurice colaboração — afirmou o vice-diretor. Piotrowski — Médicos da CIS. Dunbee, o fraco!”, pensou. — Naturalmente fazemos votos de que Apoiou-se sobre os braços e Shane Hardiston — Agente do conserve seu emprego por muito tempo. perscrutou a escuridão. Serviço de Segurança Solar. Dunbee esfregou nervosamente as “Será que já estão chegando? Será mãos. Dunc Clinkskate — Um homem que o próximo segundo trará o fim? Será Em tom hesitante observou: que traiu a Terra. que utilizarão armas paralisadoras?”, — Na semana passada, Mr. voltou a refletir. Vadelange saiu da firma, Mr. Curteen. Subitamente um ruído diferente cortou a escuridão. Foi o chefe da Seção de Recrutamento. Eu... Até agora Dunbee sentiu-se estarrecido. Uma voz metálica, estridente, sempre se adotou o costume de promover o funcionário soou em meio à escuridão: mais antigo, quando há um cargo vago. — Dunbee! Qualquer resistência será inútil! Desista, Curteen fitou-o por cima da mesa. Havia em seus olhos Dunbee! Dois funcionários da CIS irão buscá-lo! uma expressão estranha, um brilho suave que logo se Dunbee levantou-se de um salto. Bateu com o ombro apagou. Finalmente só restou a voz gentil de Curteen. contra a borda do recipiente e cambaleou. Saiu correndo, — É verdade, Mr. Dunbee. Normalmente o senhor seria dominado por um medo selvagem. A caverna parecia o sucessor de Mr. Vadelange — hesitou um instante. — tomada pelo barulho. Ouviu as pisadas dos homens que Mas asseguro-lhe que no momento é totalmente impossível corriam o arfar de pulmões cansados e vozes que gritavam encontrar uma pessoa que possa fazer seu trabalho. Por isso seu nome, pedindo-lhe que parasse. temos de pedir-lhe que continue no mesmo posto. Mr. Esbarrou numa rocha saliente e recuperou a plena Priest ocupará o lugar de Vadelange enquanto não consciência de si mesmo. Exausto, encostou-se à pedra. encontrarmos um elemento que possa desincumbir-se dos Não havia ninguém por perto. Seu corpo débil tremia como trabalhos que estão sendo realizados pelo senhor. se estivesse sendo sacudido por uma febre. — Compreendo — disse Dunbee em tom amargurado. — Tenha juízo, Dunbee! Viemos para ajudá-lo! — Então será Priest! 75


Curteen levantou-se, contornou a mesa e deu uma palmadinha no ombro de Dunbee. — Naturalmente o senhor passará a receber imediatamente o ordenado de chefe de seção — anunciou. — Naturalmente — repetiu Dunbee em tom automático. — Sabia que poderíamos contar com sua compreensão face à situação em que se encontra nossa Seção de Recrutamento — disse Curteen com um sorriso. Dunbee levantou-se devagar. — Peço minha demissão — disse em tom inseguro. No mesmo dia escreveu à Companhia Intertemporal do Sono e formulou uma solicitação para uma sonoterapia de trezentos anos. A CIS fora fundada cerca de um ano antes pelo comerciante Cavanaugh. Geralmente era conhecida como Companhia do Sono. Cavanaugh, que se intitulava como salvador da vida de pessoas desiludidas descobrira com o auxílio de vários cientistas um novo método de sonoterapia profunda. Autorizado pelo Ministério do Interior, adquiriu uma área de terras situada em Wyoming, nas proximidades do Parque Nacional de Yellowstone, na qual havia várias cavernas vulcânicas de milhares de anos. Não existia lugar mais adequado para um sono biológico tranquilo. Num prazo curtíssimo, Cavanaugh mandou adaptar as cavernas. Instalaram-se gigantescos recipientes, nos quais se guardava o plasma celular dentro do qual mais tarde os “fregueses” de Cavanaugh dormiriam à espera de um futuro melhor. Uma campanha publicitária sem precedentes convenceu outras pessoas a aderirem à ideia de Cavanaugh. Por que um homem fracassado não poderia atravessar alguns anos mergulhado num sono profundo, a fim de, no futuro, dispor de novas energias para realizar coisas espantosas? O governo não viu qualquer motivo para intervir nessa atividade, pois Cavanaugh seguia estritamente as normas médicas. A CIS estava em condições de submeter-se a qualquer tipo de fiscalização pelos funcionários do Ministério do Interior. E a imprensa também prestou sua contribuição para popularizar a idéia desse empresário. No dia da inauguração das cavernas do sono, algumas centenas de pretendentes se acotovelaram junto à recepção. Dunbee estava lembrado de uma entrevista que Cavanaugh concedera a um repórter de televisão. Quando este pediu a Cavanaugh que se manifestasse sobre as críticas formuladas contra suas atividades, o empresário respondeu com a maior tranquilidade: — Não sei por que criticam minha ideia. Ofereço um futuro feliz a pessoas infelizes. Será que há algum mal nisso? Dunbee era um homem infeliz. De seu matrimônio com Jeanne não haviam resultado filhos. E com a idade de 48 anos não era de esperar que alcançasse maiores êxitos em sua profissão. Sentiu-se incompreendido pela esposa. O mundo lhe parecia frio e cruel. Quinze dias depois de ter formulado sua proposta, Dunbee recebeu um convite da CIS para apresentar-se em

Wyoming, a fim de ser submetido aos exames preliminares. E foi assim que Maurice Dunbee desapareceu de Dubose, tão silenciosa e discretamente como havia vivido. *** Seu nome era M'Artois. Os cabelos pretos e ondulados estavam entremeados de fios prateados. Quando ria, inúmeras rugas surgiam nos cantos dos olhos. Sua voz era sonora. Tinha um jeito peculiar de prender o polegar da mão direita no cós das calças. Usava paletó branco, muito bem talhado, com uma camisa colorida por baixo do mesmo. — O senhor sabe por que veio até aqui? — disse, dirigindo-se a Dunbee. — Em sua carta diz que quer ser mantido em sono profundo durante trezentos anos. É o maior tempo admissível. O tempo mínimo de sono por nós proporcionado é de cinquenta anos. O senhor está em condições de arranjar a soma de três mil solares? Embora a quantia fosse relativamente reduzida, representava boa parte da poupança de Dunbee. Não fora sem certo sentimento de culpa que retirara certa quantia de sua conta. A viagem para Wyoming não contribuíra para aumentar seu sentimento de segurança. Tinha a impressão de ter traído Jeanne. Talvez estivesse satisfeita por ele ter saído de sua vida. Na carta de despedida pedira-lhe que tivesse compreensão pela sua atitude. — Tenho o dinheiro comigo — disse. M'Artois — sentado sobre um ridículo artefato de plástico que, sob o peso de seu corpo, ameaçava desmoronar a qualquer momento — acenou com a cabeça. — Sou psicólogo, Mr. Dunbee — disse. — A palestra que estou mantendo com o senhor faz parte de meu trabalho. A empresa não pretende martirizá-lo com perguntas. Porém, temos de adotar certas precauções. Acontece que não podemos assumir qualquer risco. Dunbee respondeu com certa impaciência: — Estou pronto. Um sorriso de compreensão surgiu no rosto de M'Artois. — O senhor já relatou minuciosamente a situação em que se encontra — observou. — Acredita que é um indivíduo instável, que falhou na vida. As dificuldades profissionais e os problemas conjugais desgastaram seu corpo e seus nervos. A firma em que trabalhava não deu valor a seu serviço, e sua esposa não demonstrou muita paciência com o senhor. Não tem filhos. Quase não nos contou nada de positivo que tenha feito — o tom de sua voz tornou-se mais insistente. — Apesar de tudo acredito Mr. Dunbee, que o senhor deveria tentar mais uma vez. — Constantemente procurei controlar esta minha vida com as fracas forças de que disponho — disse Dunbee em tom de desânimo. — Estou no fim. O colaborador da CIS refletiu por um instante. — Quem sabe se o senhor não é sensível demais? — conjeturou. — Não acha que deveria procurar reconhecer os 76


aspectos positivos de sua existência? Seu padrão de vida não foi nada mau. Procure chegar a um acordo com sua esposa, descubram interesses comuns e façam uma viagem. — A viagem até aqui foi a última — respondeu Dunbee em tom decidido. M'Artois respondeu em tom preocupado: — Está bem! Parece que sua decisão é definitiva. Leválo-ei ao Dr. Waterhome, que cuidará dos exames médicos. O senhor há de compreender que só poderemos aceitá-lo se for fisicamente são. Saiu do escritório juntamente com Dunbee. Atravessaram uma sala grande e dirigiram-se ao corredor principal do edifício situado em Cheyenne, no qual funcionava a CIS. Encontraram-se com alguns funcionários e um robô, que carregava uma pilha de pastas. Dunbee procurou olhar pela janela. Era um dia chuvoso. As vidraças estavam embaçadas pela chuva e pela neblina. Subitamente, M'Artois perguntou sem qualquer motivo aparente: — O senhor nunca sofreu nenhuma amputação, Mr. Dunbee? Dunbee parou. — Não, por quê? O sorriso de M'Artois, que desaparecera por alguns segundos, voltou. — Uma das normas deste estabelecimento determina que não se aceitam pessoas que tenham sofrido amputações. Esqueci de mencionar isso durante nossa palestra — explicou o psicólogo. Dunbee perguntou a si mesmo por que motivo um homem ao qual faltasse uma parte do corpo não poderia ser posto a dormir. Mas preferiu não manifestar a indagação. — Isso tem certa relação com as funções orgânicas — comentou ligeiramente o psicólogo, depois de algum tempo. — O Dr. Waterhome poderá explicar melhor, caso esteja interessado. Abriu uma porta e convidou Dunbee a entrar numa minúscula sala. Uma mulher loura, muito jovem, cumprimentou-os com um gesto de cabeça. Estava sentada atrás de uma mesa redonda e, ao que parecia, não tinha muito que fazer, pois Dunbee sentiu que ela o fitava intensamente. — Este é Mr. Dunbee — disse M'Artois, fazendo a apresentação. — Por favor anuncie-o ao Dr. Waterhome, Miss Laura. Apertou o braço de Dunbee. — Desejo-lhe boa sorte. Antes que Dunbee pudesse responder, o homem desapareceu. A loura disse, falando devagar: — Há alguém na sua frente. — Não tenho pressa — respondeu Dunbee. Pensou em Jeanne. Sentiu uma angústia interior. Se a CIS o deixasse dormir por trezentos anos, sua esposa estaria morta quando voltasse para Dubose. Para Dubose, aquela cidade miserável, com o pomposo edifício da S/A Sabonetes de Pó Estelar. Como seria dentro de trezentos

anos? Imaginou como teria ficado Jeanne depois de encontrar sua carta. Teve a impressão de ver seus olhos sérios e escuros, e ouvir sua voz: “Oh, Maurice, por que fez isso?” Na verdade, ouvira apenas um zumbido vindo da mesa em que estava sentada a moça. Dunbee levantou os olhos e a jovem apontou para uma porta acolchoada. — Pode entrar para falar com o Dr. Waterhome — disse. Dunbee tropeçou ao levantar-se e sentiu-se embaraçado ao perceber que, enquanto abria a porta, a moça o seguia com os olhos. *** O exame durou mais de duas horas. O Dr. Waterhome pediu a Maurice que voltasse no dia seguinte. Até lá, os resultados seriam interpretados e então lhe diriam se poderia ser aceito pela CIS. Dunbee voltou ao hotel e, por meio do álcool, anestesiou os nervos excitados. Pensou em escrever uma carta a Jeanne. Mas acabou não o fazendo. Dormiu completamente vestido. Acordou muito cedo. Seu corpo parecia entrevado e sentiu um sabor desagradável na boca. Nem mesmo a ducha-massagem o fez sentir-se melhor. Seu estado só se modificou dali a algumas horas, quando M'Artois lhe comunicou que seria levado para as cavernas da CIS e por lá ficaria durante trezentos anos. Sentiu-se como um morto... *** Todos os pintores do mundo pareciam ter-se reunido a nordeste de Wyoming, a fim de dar um colorido todo especial à paisagem. Bem embaixo de Dunbee, o Yellowstone River corria que nem uma serpente azul, entre os gigantescos desfiladeiros. O piloto fez o helicóptero descer um pouco. — Daqui a instantes chegaremos ao parque nacional — disse, dirigindo-se a Dunbee. — É lá que ficam as covas da Companhia do Sono. Dunbee estremeceu ao ouvir a palavra cova. Apenas para dizer alguma coisa perguntou: — O senhor nasceu em Wyoming? O piloto riu. — O senhor talvez não acredite, mas o fato é que nasci na Lua. É uma coisa espantosa, não acha? Dunbee concordou em tom amável. Gostaria de conversar sobre seus problemas pessoais, mas receava que aquele homem não fosse demonstrar a necessária compreensão pelos mesmos. — Por que faz isso? — perguntou o outro de repente. — Por que vai deixar que o ponham para dormir? Agora, que tinha oportunidade para falar sobre isso, Dunbee não soube o que dizer. 77


— Não precisa contar — disse o esbelto acompanhante de Dunbee. — Sempre tenho uma sensação estranha ao levar gente como o senhor. — Que sensação? — perguntou Dunbee. O condutor do pequeno veículo fitou-o de lado. Estava muito sério. — Acho que há algo de errado com aquilo — disse. — Não pense que quero meter-lhe medo. Afinal, a CIS me paga muito bem. Já notou o preço muito baixo que eles cobram? — O que quer dizer com isso? A sociedade opera racionalmente e calcula seus custos com muito rigor. É perfeitamente normal que pratique preços razoáveis, a fim de conseguir clientes. — Acontece que o tal do Cavanaugh é um negociante muito sagaz — disse o piloto. — Nunca fará um negócio para sair perdendo. Pense bem. Recebo quase quarenta solares por cada voo. Ainda há o custo dos exames, as despesas administrativas e a manutenção das cavernas. Não vejo como pode sobrar algum lucro. Às vezes chego a pensar que alguém financia Cavanaugh pelas experiências que realiza. — Pelas experiências? — perguntou Dunbee em tom de perplexidade. — Talvez tudo isso não passe de uma experiência que, se for bem sucedida, será ampliada para dar um bom dinheiro. Dunbee respondeu em tom indignado: — Assinei um contrato cujos termos foram autorizados pelo Ministério do Interior. As cavernas são regularmente inspecionadas por competentes funcionários. É verdade que a responsabilidade por eventuais erros médicos cabe a mim mesmo, mas isso é perfeitamente compreensível. O piloto preferiu não prosseguir na discussão. Para ele, o assunto parecia liquidado. Dunbee, que gostaria de conversar mais, teve de contentar-se com observações relativas à paisagem. Depois de algum tempo, o piloto da CIS apontou para um grande complexo rochoso. — É ali — disse. — Não vejo nada... nenhum edifício — comentou Dunbee em tom de decepção. Procurou esticar o pescoço. — Com exceção do campo de pouso, o restante das instalações se encontra no interior das cavernas — explicou o piloto. — O senhor se admirará ao ver quanto espaço existe no interior das escavações. O helicóptero foi perdendo altura. À esquerda deles, surgiu o campo de pouso, incrustado na mata. O homem vindo de Dubose viu um caminho que levava do campo até a rocha. Era lá que deviam ficar as câmaras de dormir. Um nervosismo inexplicável apoderou-se de sua mente. Seu coração começou a bater mais depressa e suas mãos esfregaram-se nervosamente. Logo atrás do mato, uma bandeira vermelha tremulava ao vento. As iniciais da companhia estavam impressas nela em letras amarelas.

Dunbee teve a impressão de que se tratava do último cumprimento vindo desse mundo banhado pelo sol. Só retornaria à superfície dali a trezentos anos. As dúvidas começaram a roê-lo. Será que realmente não haveria outra saída para o dilema? De repente lembrou-se dos dias de verão, nos quais ficava sentado juntamente com Jeanne sobre a cobertura de sua casa. Uma brisa suave soprava das montanhas, mexendo com o cabelo de sua mulher e trazendo o cheiro da terra molhada. Vez por outra costumava fumar seu cachimbo ou tomar uma cerveja. “São estas as coisas insignificantes do dia-a-dia”, pensou. “Por que só agora compreendo quanto significavam para mim?” Procurou controlar-se e sacudiu as ideias. Não poderia voltar atrás. O helicóptero pousou com um solavanco. Dunbee teve uma sensação de torpor. O piloto saiu. Dois homens com jalecos azuis vieram correndo pelo campo de pouso. As iniciais CIS haviam sido bordadas na altura do peito. — É seu comitê de recepção que está chegando — disse o piloto. Dunbee foi cumprimentado com muita cortesia. Mostrou o cartão amarelo que lhe fora entregue por M'Artois. Esse cartão lhe dava o direito de entrar nas cavernas e ocupar um lugar para dormir, uma vez cumpridos todos os requisitos. Os dois colaboradores da CIS deram a entender que pretendiam levá-lo o quanto antes até as cavernas. Dunbee despediu-se do piloto e seguiu os dois homens. Dali a pouco, Dunbee constatou que havia três entradas separadas que levavam para os subterrâneos. Mostravam um bom acabamento e estavam bem construídas. O chão era liso e muito limpo. O tamanho das aberturas na rocha variava. Pela menor delas não poderiam entrar mais de quatro pessoas de cada vez. Evidentemente essa circunstância não permitia qualquer conclusão sobre a extensão das cavernas. — A porta do centro leva às câmaras de dormir — explicou um dos homens. — As outras dão para as salas de recepção e o setor administrativo. Nós moramos junto ao setor administrativo, pois durante os exames seríamos apenas um estorvo. Só os médicos costumam ficar nas proximidades dos recipientes. Dunbee gostaria de obter outras informações, mas naquele instante chegaram à entrada atrás da qual, segundo as explicações que acabavam de ser fornecidas, ficava o setor administrativo. Uma porta automática de correr escorregou para o lado e escondeu-se na rocha trabalhada, deixando livre a vista para um corredor muito bem iluminado. As paredes e o teto eram lisos e estavam revestidos de placas. — O salão de dormir não é tão confortável — disse um dos acompanhantes. Dunbee ouviu a leve ironia que vibrava em sua voz. Não sabia por que, mas aquele homem queria gozá-lo. 78


O corredor desceu ligeiramente até terminar num recinto amplo, apoiado em colunas redondas. Umas trinta pessoas estavam sentadas atrás de escrivaninhas, de máquinas de escrever ou de calcular ou ainda junto a arquivos. Havia várias divisões separadas por paredes de vidro inquebrável. As pessoas podiam trabalhar sem que ninguém as perturbasse. Dunbee teve a impressão de que a temperatura era agradável. O ar puro penetrava incessantemente por alguma abertura invisível. Suas observações foram interrompidas pelo aparecimento de um homem alto e forte. Era o único que usava jaleco. Dunbee teve a impressão de que a pele de seu rosto tinha algo de murcha. Quase chegava a lembrar uma maquilagem mal sucedida de sua esposa. O homem moviase muito devagar, como se a cada passo tivesse de refletir sobre o que fazer em seguida. Seus olhinhos quase chegavam a desaparecer atrás das pestanas sem cílios. Dunbee sentiu certa repulsa instintiva diante do aspecto desse homem. — Olá, Mr. Dunbee — disse o homem a título de cumprimento. — Meu nome é Dunc Clinkskate. Sou, por assim dizer, o chefe deste escritório. Sorriu. Dunbee teve de esforçar-se para continuar a olhar para ele. Empurrou delicadamente Dunbee entre duas paredes de vidro e fechou a porta, que também era transparente. Quando pôde sentar-se, Dunbee sentiu-se aliviado. Tinha a impressão de que todos interromperam o trabalho para fitálo. Pigarreou de constrangimento. Clinkskate disse: — É meu dever lembrar-lhe mais uma vez o contrato assinado pelo senhor. Deve ser obedecido por ambas as partes. Espero que tenha lido com a necessária atenção. Quaisquer erros médicos não serão de responsabilidade da CIS. No entanto, garantimos seu bem-estar durante o tempo em que estiver dormindo. O senhor assinou um contrato pelo prazo de trezentos anos. Durante esse tempo as funções de seus órgãos serão reduzidas a um mínimo quase imperceptível. Seu corpo boiará num líquido que costumamos chamar de plasma celular. O efeito desse líquido é duplo. “De um lado garante que, durante o tempo de sono, o senhor não estará sujeito a qualquer influência perturbadora. Além disso, tem um efeito rejuvenescedor sobre as células; pode ser considerado um tipo de substância nutritiva. Vários eletrodos serão aplicados em seu corpo, e estes transmitirão a intervalos regulares certos estímulos aos seus órgãos, a fim de que não se debilitem nem atrofiem. Desde logo devo chamar sua atenção para as primeiras semanas que se seguirem ao momento do despertar. Serão muitíssimo desagradáveis, pois seu corpo terá de acostumar-se lentamente ao desempenho das suas funções primitivas. Quando isso acontecer, eu já terei morrido, mas o senhor se lembrará do que estou lhe dizendo. Mesmo então, o senhor poderá contar com a

assistência ininterrupta dos nossos médicos.” Dunbee achou que essas palavras não eram nada consoladoras. Agora, que estava prestes a realizar seu desejo, a vida que até então levara lhe parecia muito atraente. Clinkskate, que não tomou conhecimento da nova disposição de ânimo de seu interlocutor, abriu os braços, como se quisesse apresentar um país das maravilhas. — O processo de adormecimento virá acompanhado de alguns fenômenos colaterais que lhe poderão parecer absurdos, Mr. Dunbee. Naturalmente seu corpo terá de ser preparado. Inúmeras providências tornam-se necessárias. Não se assuste. Sua cabeça será raspada e o senhor será submetido a alguns testes extremamente desagradáveis. É claro que por ocasião das providências que eventualmente possam provocar dores, o senhor estará inconsciente. E antes do início do adormecimento, propriamente dito, o senhor será anestesiado. Clinkskate soube formular esses esclarecimentos como se aludisse a favores especiais, que representariam um alívio para Dunbee. No ânimo deste surgiu uma voz de advertência, que a partir da palestra com o piloto se tornava cada vez mais insistente. O antigo técnico de propaganda não conseguiu identificar o mal-estar que sentia. A CIS e seus colaboradores causavam em Dunbee uma impressão que poderia transformar-se em verdadeira desconfiança. Lembrou-se dos funcionários do Ministério do Interior que fiscalizavam a empresa. Sem dúvida as investigações eram dignas de confiança. — Pode mudar de roupa, Mr. Dunbee — disse Clinkskate, interrompendo as reflexões sombrias de seu interlocutor. — Receberá uma vestimenta especial. “Quem dera que eu estivesse em Dubose”, pensou Dunbee. *** O ruído fez com que Dunbee retornasse imediatamente ao presente. Reteve a respiração e aguçou o ouvido. Não havia a menor dúvida. Em algum lugar, no interior da caverna, alguém batera uma porta. Agarrou-se firmemente à rocha e procurou romper a escuridão total com os olhos ardentes. O ruído monótono do líquido no recipiente chegou ao seu ouvido. Alguém entrara na caverna para prendê-lo. A ideia de que uma mão implacável, vinda da escuridão, pudesse agarrá-lo, levou-o a um estado próximo ao pânico. Alguém não estava tateando nas proximidades? Uma sombra não vinha em sua direção? Uma lufada de ar passou sobre o rosto de Dunbee. Seu grito de dor refletiu-se num eco múltiplo nas inúmeras curvas da caverna. Estendeu as mãos para frente, mas não havia ninguém. Ter-se-ia assustado com uma pedra que rolara? Estendeu as mãos e saiu tateando. Depois que haviam desligado as luzes, só conseguia orientar-se pelos ruídos 79


dos recipientes. Em algum lugar a água pingava do teto. A rocha era fria e áspera. Esforçou-se para não pensar naquilo que vira há algumas horas. Fugira apavorado. — Ploc, um; ploc, dois; ploc, três. Dunbee descobriu que estava contando os pingos que caíam. Bateu com o queixo numa rocha saliente e o traje disforme em que o haviam metido rasgou-se. Que dose de medo o homem poderia suportar, antes de enlouquecer? Dunbee tinha certeza de que estava próximo ao seu limite de tolerância. Pensou em pegar uma pedra grande e abrir um furo no recipiente, mas não dispunha da energia psíquica para um ato dessa espécie. Teve a impressão de que a luz era uma flecha chamejante. Cambaleou. Estreitou os olhos doloridos e teve de fazer um esforço tremendo para formar esta idéia: “Alguém acendeu uma lanterninha e dirigiu a luz sobre mim!” Caiu de joelhos, choramingando de desapontamento. A luz deslizou sobre seu corpo, sobre aquele montículo indefeso de tragédia humana. — Olá, Dunbee! — disse uma voz indiferente de trás da lanterninha. Um vulto saiu da escuridão. Era um guarda. A luz girou no espaço, atingiu rochas e pedras cinzentas, tremeu por cima do chão arenoso e voltou para Dunbee. — Vamos! — disse o guarda laconicamente. Indicou o caminho que tomariam, e que os levaria de volta à sala de preparativos. De repente, a vontade de resistir surgiu na mente de Dunbee. Ao levantar-se, sua mão fechada segurou uma pedra. Precisava tentar! Sabia que sua situação era desesperadora. De qualquer maneira acabariam pondo as mãos nele. Restava saber como e quando isso aconteceria. Enquanto caminhava junto ao guarda, pensou que já deveria ter voltado bem antes, quando Clinkskate o levou para junto dos médicos que se encontravam na sala de preparativos... Recordou-se mais uma vez da cena... Trajava uma vestimenta especial de cor branca, da qual Clinkskate lhe falara. Era feita de duas peças e estava presa ao corpo com faixas largas. Esperara que no caminho para o próximo setor fosse retornar ao ar livre, mas as cavernas estavam ligadas por corredores subterrâneos. — Talvez tenha cometido um erro ao resolver submeterme ao processo de adormecimento — disse, dirigindo-se a Clinkskate, que caminhava uns cinquenta centímetros à sua frente. O homem olhou por cima do ombro e parou. — Em certo momento todos os clientes chegam a este estado — disse. — É antes o medo do desconhecido que saudades ou o desejo de voltar à vida anterior. Não leve isso muito a sério, Dunbee. Subitamente, um quadro surgiu na mente de Dunbee. Viu Jeanne sorridente, correndo por um prado de flores — em sua direção. Naturalmente nunca a vira assim, mas

Dunbee tinha certeza de que ela faria isso, se ele voltasse e lhe comunicasse haver desistido. Aliás, deveria ter conversado muito mais com ela. — Não — disse em tom resoluto. — Quero voltar para Dubose. — Tolice — gritou Clinkskate em tom contrariado. Virou-se e agarrou o braço de Dunbee com força, a fim de arrastá-lo. — O senhor tem de superar isso. Se voltar a Dubose, todo o sofrimento começará de novo. Dunbee deixou-se arrastar meio a contragosto. Ao que parecia, Clinkskate não estava disposto a aceitar suas ponderações. Talvez estivesse com a razão. Dunbee resolveu não resistir mais. — Pois então — disse Clinkskate. Sacudiu a cabeça de Dunbee, a fim de animá-lo. — Entregá-lo-ei ao Dr. Le Boeuf, que certamente saberá alegrá-lo. E ainda poderá contar com o Dr. Piotrowski e seus ajudantes. Além disso, encontrará algumas enfermeiras... Dunbee não compreendeu o que havia de tão alegre nisso, mas o fato é que Clinkskate sorriu. Acontece que na CIS todo mundo sorria, sempre que havia oportunidade para isso. “São pessoas muito amáveis”, pensou Dunbee. “Talvez sejam amáveis demais.” De repente, o corredor terminou. Clinkskate mexeu no fecho de uma grande porta de correr. O recinto abobadado que surgiu atrás da porta era estranho sob todos os pontos de vista. Estendia-se em todas as direções — inclusive para baixo. Havia elevadores que ligavam os diversos pavimentes. Tudo que pudesse fornecer uma indicação de que a pessoa se encontrava embaixo da terra fora cuidadosamente removido. — Nesta sala, as pessoas são preparadas para serem colocadas nos grandes recipientes de plástico onde serão postas a dormir — disse Clinkskate. — É imponente, não acha? Pelo que Dunbee pôde ver, as instalações eram limpas e modernas. Havia inúmeras máquinas e aparelhos cujas finalidades dificilmente se conseguiria adivinhar. — Dispomos de geradores próprios — disse Clinkskate em tom de orgulho. — O senhor vai constatar que possuímos a mesma autonomia de uma grande cidade. Nós mesmos fornecemos a energia com que trabalhamos. O senhor está vendo todas as instalações técnicas. As cavernas de dormir também são controladas a partir daqui. Julgamos conveniente não colocar perto das pessoas adormecidas qualquer tipo de equipamento que possa perturbá-las. Neste pavimento encontram-se todas as máquinas necessárias ao suprimento energético das câmaras de dormir e outras dependências. Um pouco abaixo do lugar em que nos encontramos trabalha o Dr. Le Boeuf e sua equipe. O senhor logo travará conhecimento com ele. Faça o favor de acompanhar-me até o elevador. O elevador levou-os para baixo. Dunbee percebeu que por ali havia principalmente instalações médicas-sanitárias. — Aí vem o doutor! — exclamou Clinkskate. 80


Dunbee viu um pequeno homem sardento que se aproximava a passos curtos e rápidos. — Este é o Dr. Le Boeuf — disse Clinkskate a título de apresentação. Dunbee ficou fascinado ao ver que as sobrancelhas espessas do médico se contraíam. — O senhor não parece nada sonolento — observou Le Boeuf. Dunbee ficou perguntando a si mesmo se era esse tipo de humor que, na opinião de Clinkskate, deveria alegrá-lo. Clinkskate retirou-se discretamente, deixando Dunbee entregue ao seu destino que, por enquanto, sob a forma do humor grosseiro do Dr. Le Boeuf, ainda se mostrava misericordioso para com o homem de Dubose. *** O guarda sacudiu a lanterna e desviou-se de uma pedra. Dunbee espantou as recordações. Não podia perder mais tempo. A arma primitiva que trazia consigo pesava fortemente em sua mão. — Cuidado! — gritou com a voz rouca. — Lá na frente! O homem estacou de repente e dirigiu a luz para frente. Dunbee avançou com o braço levantado e golpeou. Sentiu a resistência, quando o punho fechado atingiu o alvo. Por um momento sentiu-se desesperado, pois pensou que seu plano tivesse fracassado. Mas o guarda caiu ao chão. Deixou cair a lanterna, que se quebrou. A luz apagou-se. O silêncio voltou a reinar. Dunbee abaixou-se. Seus dedos tateantes sentiram o corpo frouxo do guarda. Dunbee tinha certeza de que aquele homem não ficaria inconsciente por muito tempo. Deveria dar-lhe mais alguns golpes. Mas ao levantar a mão, esta se recusou a obedecer. Mesmo na situação em que se encontrava Dunbee, que nunca fora capaz de agir com brutalidade, era um prisioneiro de sua consciência. Viu o rosto pálido e desconhecido na escuridão. Era um rosto marcado pela brutalidade e pela violência, mas não conseguiu golpear de novo. Procurou imaginar que quem estava à sua frente era Clinkskate. Esforçou-se para retirar aquele rosto do anonimato, a fim de enfileirá-lo entre seus inimigos, mas não conseguiu. Ao mexer-se e fazer menção de levantar-se, o guarda resolveu todos os problemas. Dunbee não perdeu mais tempo: golpeou. Depois disso não se sentiu aliviado. Tinha a boca ressequida e a língua inchada. Sua cabeça retumbava. Deixou cair a pedra e saiu às apalpadelas, afastando-se do homem inconsciente. “O que diria Jeanne se me visse assim? Jeanne!”, refletiu e sentiu-se dominado pela amargura. Encontrou a parede da caverna. A superfície áspera e fria tranquilizou-o. — Ploc! Um! Ploc! Dois! Ploc! Três! Quatro, cinco, seis... Eram os pingos de água.

Se conseguisse encontrar o lugar em que caíam os pingos, poderia esfriar o rosto ardente. Não havia mais nada que pudesse fazer. Apenas esperar. Não demorariam a impacientar-se e querer saber o que havia acontecido. Chamariam o guarda pelo alto-falante, e a falta de resposta lhes diria o suficiente. Da segunda vez não teriam tanta consideração. Avançou aos tropeços junto à parede. Era um vulto gigantesco com roupas sujas. As calças rasgadas esvoaçavam em torno de um par de joelhos finos e ossudos. O que fariam com ele quando conseguissem agarrá-lo de novo? Seria possível que os nervos superexcitados lhe tivessem pregado uma peça? Quem sabe se a CIS não era uma organização correta e decente? Lembrou-se do que havia visto e sentiu náuseas. Não e não! Fosse qual fosse o jogo, o mesmo era mau e cruel. Quando, durante o exame, sua mente experimentou uma reação instantânea, por certo sentira instintivamente que a CIS não era aquilo que alegava ser... *** Eles o haviam medido e pesado. Examinaram a pressão sanguínea, atividade cardíaca, frequência das vibrações cerebrais, funcionamento do fígado e dos pulmões. Encheram-no de medicamentos, enquanto estava deitado sobre a mesa, quase inconsciente, com o rosto do médico diante dos olhos. Às vezes era o Dr. Le Boeuf, outras vezes o Dr. Piotrowski. Depois vieram os ajudantes e as enfermeiras. Viraram-no pelo avesso. Eletrodos foram conectados ao seu corpo, fios e sondas foram introduzidos no mesmo. Ouviu a voz do Dr. Piotrowski, estridente como a de uma criança: — O que acha doutor? Seguiram-se risadas, outras vozes, o ruído de objetos que eram empurrados sobre vidro, o tilintar de instrumentos, o zumbido misterioso de aparelhos desconhecidos. O Dr. Le Boeuf disse: — O soro K 46! Uma voz feminina: — Será que ele aguenta? A risada infantil de Piotrowski. Um carrinho de direção automática zumbiu no chão e aproximou-se deles. Uma voz de homem: — Pobre idiota! Dunbee sobressaltou-se. Revirou os olhos. Pretendia perguntar o que estavam fazendo com ele. Sentiu uma picada na coxa. As vozes transformaram-se em ruídos confusos e desapareceram de vez... De repente despertou. O Dr. Le Boeuf inclinou-se sobre ele. Estava sorrindo. — Muito bem — disse em tom tranquilizador. — Daqui a pouco estará tudo liquidado. 81


Dunbee surpreendeu-se ao contorcer o rosto num sorriso amável. — O senhor ainda está um pouco fraco — disse o Dr. Piotrowski, que se encontrava junto ao pé da cama. — Isso logo passará. Daqui a quatro horas o senhor estará dormindo... por trezentos anos. Mais quatro horas... e depois? As enfermeiras mexiam com alguma coisa nos fundos da sala. Quando estivesse na sua câmara não ouviria mais nenhum barulho. Seria como a morte, mas uma morte a prazo certo. Passaria trezentos anos num esquife, num estado de coma total. Não ouviria nada, não veria nada, não sentiria nenhum cheiro, nenhum sabor, não experimentaria a sensação de tato. Absolutamente nada! Mas, pelo que diziam, de certa maneira estaria vivo, enquanto boiasse no líquido viscoso de que lhe haviam falado. Mais quatro horas! Dunbee sentiu certa repugnância pelo lapso de tempo que lhe fora indicado. Seriam apenas quatro horas? Por que não poderiam ser sete, dez ou três dias? Ergueu-se cautelosamente. Os médicos haviam saído da sala. Duas enfermeiras estavam de pé junto a uma prateleira e limpavam os instrumentos. Subitamente ouviu que o Dr. Le Boeuf estava voltando. Seus ouvidos perceberam o som de seus passos curtos e apressados no chão de plástico. Parecia que a capacidade auditiva de Dunbee aumentara para várias vezes o nível anterior. O som tateante foi crescendo, retumbava em seu crânio, martirizava seus nervos e lançou-o no pânico. Arrancou a coberta de cima do corpo. Uma das mulheres gritou. Instrumentos foram atirados para o alto. Mais ao longe, ouviu-se a voz do Dr. Le Boeuf: — Dunbee! O senhor ficou louco? Pare! As enfermeiras correram em sua direção. Os aventais abertos esvoaçavam como se fossem asas gigantescas. — Dunbee! — gritou Le Boeuf. Dunbee fugiu sem pensar em nada. Derrubou uma prateleira. Vasos caíram ao chão. Seus olhos viram uma porta. As mulheres interpuseram-se em seu caminho, já estavam quase no lugar em que se encontrava. Sentiu suas mãos que queriam agarrá-lo, ouviu sua respiração pesada e a voz do médico que não cessava de gritar: — Dunbee! Dunbee! Dunbee! Parou e empurrou-as para trás. Em seus olhos devia estar escrita a loucura, pois o largaram com os rostos apavorados. Chegou à porta sem que ninguém o impedisse. Viu-se num corredor estreito. Seus pulmões doíam, mas continuou a correr. Até então movera as pernas mecanicamente, sem pensar em nada. Mas agora começou a refletir. Prestou atenção ao lugar em que se encontrava. Ao que parecia, penetrava cada vez mais profundamente no interior da terra, pois as paredes e o chão já não traziam nenhum revestimento, mas exibiam seu aspecto natural e grosseiro. A iluminação mostrava-se constante. Fosse qual fosse o lugar ao qual levaria aquele corredor, ele não o conduziria à liberdade.

Em vários lugares havia escoras que seguravam o teto. Provavelmente, o caminho fora aberto à força de explosivos. Dunbee continuou a correr. Passou por cima de um pedestal, esgueirou-se entre duas colunas e prestou atenção às pedras afiadas de ambos os lados. Não prestara atenção ao chão: Aquela galeria parecia a goela de um monstro voraz. Atirou-se desesperadamente para trás. Os pés perderam o apoio. Escorregou para dentro do buraco. Atirou as mãos para os lados, mas estas só agarraram o vazio. Cascalho e pedras acompanharam-no na queda, sua boca encheu-se de pó. Perdeu totalmente a sensação do tempo. Foi resvalando para baixo e sentiu-se incapaz de fazer qualquer coisa para impedi-lo. Quando atingiu o solo uma eternidade parecia ter passado. Numa reflexão momentânea pensou que talvez tivesse caído no poço de ventilação de um recinto de grandes dimensões. Abriu os olhos, que ardiam devido à areia e à sujeira. Seu corpo maltratado doía. Viu-se numa gigantesca caverna escassamente iluminada. O buraco pelo qual tinha descido ficava ao seu lado, pouco acima do chão. Subia num ângulo de aproximadamente quarenta e cinco graus. Foi então que Dunbee viu os recipientes pela primeira vez. Estavam encostados à parede que nem esquifes superdimensionados. Fez um esforço e arrastou-se para junto dos mesmos. As caixas de formato trapezoidal repousavam sobre suportes cônicos. Estavam cheias de um liquido amarelento e oleoso. Estreitas escadas de metal subiam por suas paredes. Inúmeros cabos e contatos terminavam em suas faces longitudinais. E ruídos fantasmagóricos vinham de seu interior. Dunbee aproximou-se o suficiente de um dos recipientes para olhar para dentro do mesmo. Encostou a palma das mãos ao plástico. Subitamente estremeceu. Boquiaberto, fitou a massa gordurosa. O recipiente estava vazio! Nenhuma pessoa dormia no interior do mesmo. Onde estavam as pessoas que foram postas a dormir pela CIS? Dunbee esqueceu as dores e continuou a correr. Também no segundo esquife não viu ninguém. Nem se deu ao trabalho de examinar o terceiro. Provavelmente, em outra caverna também havia recipientes. Deviam estar lá. A garganta de Dunbee estreitou-se. Indeciso, olhou em torno. Percebeu que a cova em que se encontrava também era acessível de maneira normal, pois nos fundos da sala viu portas entalhadas na rocha. Suas ideias formaram um estranho modelo. Aos poucos se foi acalmando. Sentou-se numa pedra a fim de descansar. Não poderia ficar ali para sempre. Seria preferível chamar alguém. Não sabia por quanto tempo estivera sentado, refletindo, quando ouviu o chiado forte e malvado. Levantou os olhos. Só o viu por um instante, mas esse instante bastou para fazer nascer o pavor em sua alma. Dunbee sentiu-se incapaz 82


de gritar. Sacudiu-se num medo indizível. No mesmo instante a escuridão envolveu-o. As luzes apagaram-se. Dunbee ficou sentado na pedra, soluçando. — Então é esta a coisa má da CIS! — balbuciou. Mudo e apático de medo, Dunbee enfiou-se embaixo de um dos recipientes. — Dunbee! O senhor derrubou o guarda — disse a voz em tom de recriminação. — Derrubei, sim — respondeu Dunbee em tom obstinado. — Aqui fala Clinkskate! — disse outra voz. — Seja razoável, Dunbee! A companhia será generosa e esquecerá esse ato de nervosismo. Não haverá qualquer prejuízo para o senhor. Dunbee soltou uma gargalhada selvagem. — Sabe o que pensei quando coloquei esse sujeito fora de ação? Imaginei que ele tivesse seu rosto, Clinkskate! Pensei que tivesse esse maldito rosto de criminoso! — O senhor está louco — gritou Clinkskate em tom nervoso. — Nada disso! — Dunbee mantinha os punhos cerrados. — Já descobri tudo sobre sua linda companhia. Onde estão as pessoas que deveriam dormir nestes recipientes? Onde estão, Mister Clinkskate? — O senhor representa um perigo para a CIS — disse Clinkskate. — Sua mente está confusa. Não vê que há anteparos de plástico que não permitem que alguém veja as pessoas que dormem nos recipientes? Dunbee sacudiu ameaçadoramente os punhos. — Venham buscar-me! — disse. — Lutarei Clinkskate! Não houve resposta. As luzes débeis voltaram a ser acesas. Dunbee manteve-se longe dos recipientes. Quando se aproximaram, encontrava-se no centro da caverna. Segurava uma pedra em cada mão. Eram seis! Usavam os jalecos azuis da CIS. A expressão de seus olhos era resoluta e cruel. Naquele instante, o indivíduo fraco que havia dentro de Dunbee morreu muitos metros abaixo da terra. E nessa hora de derrota nasceu um novo homem: Maurice Dunbee, o lutador!

2 A escada que levava ao escritório estava coberta por grossos tapetes, que abafavam todos os ruídos. Era um dia fresco e límpido do mês de abril do ano de 2.044. Da rua vinha o ruído abafado do tráfego. Mrs. Jeanne Dunbee viu-se diante da placa cujo dono naquele instante corporificava todas as suas esperanças:

RICHARD D. KENNOF Detetive Particular Face ao aspecto exterior da agência, a designação de esnobista ainda seria muito suave. Um puxador de campainha antiquado, feito de cobre trabalhado, encontrava-se junto à porta. Vitrais com figuras grotescas impediam a visão para o interior do escritório. A caixa do correio era uma cabeça entalhada na madeira, cuja boca representava a fenda de entrada. Qualquer observador só poderia supor que o dono desses objetos deveria ser um louco ou um convencido. Mrs. Jeanne Dunbee não pensava assim. Sua mente estava ocupada exclusivamente com os problemas que a atormentavam. Sua figura esguia parecia quebradiça. A maquilagem mal conseguia disfarçar as profundas olheiras. Um grampo de madrepérola muito simples prendia o cabelo levantado em coque. Para o observador objetivo, ela devia ter pouco mais de quarenta anos. Acionou a campainha e assustou-se com o barulho. Uma morena magra, que usava uma peruca moderna, abriu a porta. Lançou um olhar contrariado para Mrs. Dunbee. — Tenho hora marcada — disse Jeanne. — A senhora deve ser Mrs. Dunbee — constatou a morena. — Faça o favor de entrar. Mr. Kennof deseja falar imediatamente com a senhora. Está muito interessado pelos seus problemas. Jeanne lembrou-se de que não revelara suas preocupações a Kennof. Apenas lhe perguntara se hoje tinha tempo para ela, pois sabia que Kennof era um homem muito ocupado. Provavelmente era uma das fórmulas de cortesia que a morena costumava usar. A falta de gosto do interior do escritório excedia em muito a da escadaria. Três homens e duas mulheres estavam sentados atrás de mesas que imitavam o formato de um rim. Tapetes vermelhos com desenhos horríveis estavam pendurados nas paredes. O teto achava-se coberto de pinturas. Jeanne Dunbee teve a impressão de encontrar-se numa espécie de galeria de pintura. Alguns quadros, que só depois de um exame mais detido eram identificados como tais, desfiguravam a parede dos fundos daquele panorama, que era um misto de conforto e vulgaridade. O cúmulo de tudo era representado por um vaso monstruoso, de uma feiura a toda prova. No interior do jarro, as flores pareciam sentir a mesma coisa, pois estavam murchando. Ao menos eram naturais e não de plástico. Jeanne, que não julgara possível um aumento desses aspectos anormais, teve de rever sua opinião assim que foi introduzida no gabinete de Kennof. De início, seus olhos caíram sobre o próprio Kennof, vestido com um robe amarelo e refestelado numa poltrona. Depois de tudo que Jeanne ouvira sobre suas façanhas, achou-o decepcionante em toda linha. Era corpulento, quase inchado. Os olhos quase 83


desapareciam sob as pálpebras de buldogue. O cabelo de Kennof estava cuidadosamente repartido. O detetive era um homem alto. Dava a impressão de ser um tipo esquisitão. Segundo os boatos que corriam aquele homem já fora funcionário do governo. Naquele momento, Jeanne estaria disposta a jurar o contrário. Um gato de orelhas pontudas estava deitado sobre uma almofada florida ao lado de Kennof. O animal estava enrolado e ronronava gostosamente. A sala era um pesadelo de cores berrantes e mau gosto. Uma atração toda especial era representada por um elefante de bronze, com olhos brilhantes e uma tromba cujo tamanho não guardava a menor proporção com o resto do corpo. O aspecto desse objeto, que provocaria um sorriso irônico em qualquer outra pessoa, deveria constituir um regalo indispensável para Kennof, pois ele o colocara sobre a mesa, bem à sua frente. Mais tarde, Jeanne constatou que aquela figura era um isqueiro. — Bom dia, Mrs. Dunbee — disse Richard Kennof com uma voz cheia e agradável. Levantou-se para cumprimentá-la. Ofereceu-lhe uma cadeira que se destacava por certo grau de normalidade. Kennof apontou com o dedo polegar para o gato. — É Buster, um animal extraordinário — disse em tom amoroso. Buster espreguiçou-se, fez uma corcova, bocejou e virou ostensivamente as costas. Jeanne esforçou-se em vão para descobrir o que havia de extraordinário em Buster, com exceção de uma coleira de ouro. — O que posso fazer pela senhora? — perguntou o detetive depois que Jeanne se havia acomodado. Jeanne refletira muito bem sobre o que pretendia dizer. Mas agora, que havia chegado o momento de falar, só conseguiu dizer uma coisa: — Meu marido desapareceu. Kennof lançou-lhe um olhar cheio de compreensão. Entrelaçou os dedos e fez estalar as juntas. — A senhora quer que eu verifique se existe outra? — disse em tom objetivo: Pegou uma caixa de cigarros muito enfeitada. — A senhora fuma? — perguntou. Jeanne recusou. O detetive serviu-se e ficou manipulando seu desajeitado isqueiro até que conseguiu pôr fogo no cigarro. — O motivo não tem nada a ver com outra mulher — disse Jeanne em voz baixa. — Foi para Wyoming, para que a CIS o pusesse para dormir por trezentos anos. Kennof soltou um assobio. — A Companhia do Sono — constatou. — Os amigos dos sofredores. Jeanne colocou uma folha de papel sobre a mesa. — É uma carta de despedida. Não pretendia mostrá-la a ninguém, mas é bom que conheça os motivos de Maurice. Kennof leu cuidadosamente a carta, sem dizer uma palavra.

— É um homem muito infeliz — disse em tom de compaixão. — Teve aborrecimentos no serviço e sentiu medo de que a senhora não pudesse amá-lo e respeitá-lo, tudo isso misturado com uma boa dose de complexo de inferioridade. Jeanne passou a mão pelos olhos. — Sempre pensou que tivesse que realizar algo de especial para impressionar-me. Quando não conseguia, muitas vezes ficava por alguns dias num estado em que ninguém podia falar com ele. Pensou que eu ficaria zangada por causa dos seus insucessos. Naturalmente deveria ter feito mais para ajudá-lo a atravessar essas provações. — A senhora ama seu marido, Mrs. Dunbee? — perguntou Kennof em tom sério. — Amo — respondeu Jeanne convicta. O famoso detetive fez um gesto afirmativo. Inclinou-se para o lado a fim de acariciar as orelhas de Buster. — O que posso fazer pela senhora? — perguntou. — Encontre-o — pediu Jeanne com a voz trêmula. — Vá a Wyoming e tire-o da CIS. Tenho certeza de que a esta hora já está arrependido do que fez. Kennof deu uma tragada profunda e soprou a fumaça para o teto. — Ajudo qualquer pessoa que me procure, Mrs. Dunbee, mas preciso de alguma base legal para agir. A Terra, que é a célula-máter e uma das componentes do Império Solar, tem um regime democrático. Qualquer cidadão tem o direito de dispor de seu destino da forma que lhe pareça mais adequada. Desde que deseje, qualquer pessoa pode recorrer aos meios bioquímicos para colocar-se num estado de sono profundo. E ninguém pode impedi-lo de agir assim. “Seu marido assinou um contrato. Nada posso fazer pela senhora, pois isso iria contrariar o livre arbítrio de seu marido. Ele pagou à CIS e aceitou as condições formuladas pela mesma. O que posso fazer num caso destes? Só poderia obter esclarecimento, mas este pode ser solicitado à própria Companhia. Será que Mr. Dunbee já foi posto a dormir?” Fez uma pausa e depois concluiu: — Compreendo seu problema, mas nada posso fazer para ajudar. Jeanne Dunbee tirou um maço de notas do bolso. — Saquei além de nossa conta — disse. Colocou as notas sobre a mesa. — São mais de mil solares. Será que por essa quantia o senhor não estaria disposto a fazer alguma coisa que contrarie a lei? Os olhos cinzentos do detetive fitaram o dinheiro com uma expressão pensativa. — Se a senhora fosse um homem, eu a atiraria daqui para fora — asseverou Kennof sem levantar a voz. Passou a mão pela mesa e afastou o dinheiro. Jeanne falou com a voz sufocada pelas lágrimas: — Pensei que o senhor talvez pudesse solicitar a aplicação do processo de adormecimento. Assim poderia entrar nas cavernas sem chamar a atenção de ninguém. Não 84


haveria qualquer infração à lei. E o senhor poderia entrar em contato com meu marido. Kennof parou de alisar o pelo do gato. Fitou Jeanne como se a visse pela primeira vez. Finalmente bateu com o punho fechado na mesa. — É isso! — gritou em tom de entusiasmo. — É uma ótima ideia! Buster soltou um miado indignado. A mulher observou o estranho comportamento de Kennof sem compreender nada. — Há três meses um dos meus clientes solicitou a aplicação do tratamento dispensado pela CIS — explicou o detetive em tom mais calmo. — A Companhia recusou, porque ele havia perdido ambas as pernas num acidente. Perguntei a um médico muito conhecido. Trata-se de um especialista nas áreas de prolongamento da vida e sonoterapia futurística. E esse homem afirma que para o processo de adormecimento não tem a menor importância que a pessoa tenha sofrido um processo de amputação ou não. Não compreendo por que a CIS não aceita um pobre coitado como este. E como se explicam os preços baixos cobrados pela organização de Cavanaugh? Acho que são irreais. Será que não são praticados apenas para atrair o maior número possível de pessoas? Por que tudo isso? Tenho certeza absoluta de que Cavanaugh não é nenhum benfeitor. Apagou o toco de cigarro dentro de um objeto que mais se aproximava da concepção kennofiana de cinzeiro. Depois se recostou muito satisfeito. — O caso Maurice Dunbee ocupa um lugar prioritário no escritório de detetive de Kennof — observou. — Guarde o dinheiro. O velho Dick — sem dúvida estava aludindo a si mesmo — tem um interesse pessoal no assunto. — Muito obrigada! — um grande peso saiu de cima do coração de Jeanne. O velho Dick pigarreou fortemente. Pela primeira vez a esposa de Dunbee reconheceu o conteúdo humano que havia sob o disfarce arbitrário daquele homem. Percebeu intuitivamente que não poderia ter encontrado elemento melhor para a tarefa. Kennof levantou o braço num gesto de advertência. — Tenho uma condição, Mrs. Dunbee! — Aceito qualquer condição — disse Jeanne. — Ninguém poderá saber disso. O assunto tem de ficar em segredo. Não poderei dar início ao jogo se correr perigo de que a senhora dê com a língua nos dentes. Diante das outras pessoas faça de conta que a senhora se conformou com o destino. — Farei isso — prometeu a mulher. Kennof levantou-se. Buster miou por sentir-se aborrecido com a nova perturbação ao seu sossego. — Existe outro detalhe que o senhor deve conhecer — lembrou Jeanne. — Pouco depois do momento em que meu marido desapareceu para ir a Wyoming, dois indivíduos da CIS andaram em Dubose, fazendo investigações sobre Maurice. Suponho que as informações por ele fornecidas

tenham sido conferidas. O senhor terá muito trabalho para enganá-los. — Esse fato é muito interessante — disse Kennof em tom pensativo. — Quando iniciar o jogo, não me esquecerei dele. Jeanne disse em tom cordial: — Não é por puro egoísmo que lhe desejo boa sorte. — Vou precisar mesmo! — confessou o detetive. — Avisarei assim que tiver descoberto alguma coisa. Ao despedir-se, Jeanne sentia-se muito grata. A débil esperança reacendeu-se. Sem dúvida haveria uma chance para que Maurice — ou melhor, os dois — se redimissem dos velhos erros. Assim que fechou a porta, Kennof passou a desenvolver uma atividade de que ninguém o julgaria capaz. Inclinou-se sobre o pequeno micro fone: — Benny, desligue o gravador. Quero ter uma conversa particular. Aguardou a confirmação. Depois pegou o telefone. O jogo começou. Kennof nem desconfiava de que a taça era a Terra.

3 Demorou algum tempo até que Kennof conseguisse a ligação. Ao contrário de outras pessoas, cujos telefones estavam equipados com uma tela de vídeo, o detetive particular contentava-se com um antiquado aparelho. Não fazia muita questão de ver seus interlocutores. — Aqui fala o velho Dick — disse Kennof. — Acho que ainda acabo enlouquecendo — disse a voz saída do fone. — Será que você já se fartou de sua atividade, que o obriga a rastejar atrás de maridos infiéis? Está arrependido e quer voltar para junto da família? O chefe ainda sonha com você e suas façanhas. Tenho certeza de que o receberá de braços abertos. Kennof juntou as pontas do robe. Buster parecia entediado; lambia as patas e não deu a menor atenção ao dono. — Nem penso em sujeitar-me novamente a qualquer tipo de disciplina, meu caro Shane — disse Kennof. — Além disso, você logo se convencerá de que, além das investigações familiares, ainda me preocupo com outras coisas. Shane disse em tom gelado: — Conte logo de que se trata. — Pois não — confirmou Kennof. — Desta vez o alvo do meu trabalho é a Companhia Intertemporal do Sono, também conhecida por CIS ou Companhia do Sono. Por enquanto a operação baseia-se apenas em elementos de suspeita puramente sentimentais. E, para reforçar esses elementos, quero fazer-lhe alguns pedidos... 85


— Um momento! — interrompeu o interlocutor invisível. — O velho Dick já conhece sentimentos quando se trata de suas atividades criminalísticas? — É por causa da vida mole de paisano — disse Kennof. — Ainda há outro detalhe — prosseguiu Shane. — A CIS é um ferro quente no qual você queimará os dedos. Você se lembra do Snyder, um sujeito alto e magro do Ministério do Interior, que nos deu aquela reprimenda por causa da questão dos tóxicos? — Acredito que sim — respondeu o detetive em tom azedo. — Pois foi Snyder em pessoa quem realizou a última inspeção nas cavernas da CIS. Você acredita que, se houvesse alguma falha, a mesma lhe teria escapado? — Quem passará vergonha serei eu — ponderou Kennof. — Apenas gostaria que, quando me apresentar para ser posto a dormir, você me arranjasse certos elementos sem os quais não poderei fazer muita coisa. O homem que se encontrava do outro lado da linha soltou uma exclamação de surpresa. — Você pretende formular uma proposta para ser posto a dormir?! — Sem dúvida. Será a maneira mais rápida e segura de atingir meu objetivo. O homem, que Kennof tratava como Shane, manifestou certas dúvidas. — Você não será aceito, Dick — profetizou. — Você não tem problemas psicológicos nem dificuldades financeiras. Você é um homem feliz e satisfeito, e além do mais é um detetive. Kennof enrolou o fio do telefone em torno do dedo e deixou-o cair sobre Buster. — Você me subestima — disse. — Daqui a algumas horas, terei um encontro com Gaston Hartz, que é o maior gênio financeiro da cidade. Pedirei a ele que prepare imediatamente a ruína econômica do detetive particular Richard Kennof. Requererei minha falência, os concorrentes esfregarão as mãos de contentes e Gaston brincará com meu dinheiro. Não acha que estes problemas bastariam para que uma pessoa desejasse dormir por alguns anos? Buster procurou atingir o fio telefônico que balançava diante de seus olhos. — Não acredito que seja suficiente — respondeu Shane em tom pensativo. — Sei perfeitamente que não é suficiente — disse Kennof em tom sério. — É por isso que preciso do endereço da Célia. — Não! — a voz de Shane assumiu um tom duro. — Célia, sim! — insistiu Kennof. — Preciso de seu endereço. Quase parecia que Shane iria desligar, mas depois de uma pausa prolongada Kennof ouviu sua voz: — Célia saiu do negócio, e não vamos mexer com isso. Você encontrará outra pessoa.

— Célia é a única que me serve. Está zangada comigo por causa da história do Fainer, porque acredita que eu a tenha denunciado. Shane, não houve ninguém que lamentasse tanto quanto eu a demissão de Célia. — Ela nunca foi demitida — respondeu Shane em tom enfático. — O quê? — Foi reabilitada e saiu espontaneamente. — E qual é seu endereço? — perguntou Kennof. — Acho que se eu não lhe disser onde mora, você farejará sua pista. E estou interessado em evitar que isso aconteça. Forneceu alguns dados a Kennof. — Obrigado — disse Kennof com um suspiro de alívio. — Prometo-lhe que a tratarei com muito cuidado. Faça o favor de contar isso a seu chefe. Houve uma interferência na linha, que quase fez desaparecer a voz de Shane quando este indagou: — Deseja mais alguma coisa? — Acredito que conseguirei arranjar-me — disse o grande detetive em tom modesto. — O que me parece mais importante é o micro defletor, pois só com ele poderei andar pelas cavernas sem ser visto. Além disso, você talvez poderia arranjar-me um aparelho de localização. Deve ser uma versão bem discreta, talvez em forma de anel. — Só isso? — gritou Shane em tom de espanto. — Como acha que eu deva fazer isso? — Talvez possa entregar tudo no meu escritório, juntamente com um pequeno aparelho de rádio — disse Kennof sem o menor constrangimento. — Para que o aparelho de rádio? Acha que haverá problemas? — Acho. Pretendo mantê-lo informado sobre a situação, a fim de que eventualmente possa convencer seu nobre chefe a intervir. Kennof refletiu por alguns segundos. — Naturalmente precisaremos de uma palavra-código. — Qual será? — perguntou Shane em tom curioso. — Whisky — disse Kennof em tom esperançoso. — Whisky puro! *** Foi dali a quatro dias. Os preparativos de Kennof desenvolviam-se a toda força. Depois de uma palestra com Gaston Hartz, o gênio das finanças aceitara a incumbência de apresentar a situação de Kennof de tal forma que pareceria que o detetive se arruinara em virtude de compras de ações. Hartz fez questão de que os papéis realmente fossem adquiridos, a fim de que a situação parecesse real. Os possuidores dos títulos sem valor sentiram-se felizes por se verem livres dos mesmos e, em troca do preço, prometeram que se esqueceriam da identidade do comprador. Dessa forma, Kennof transformou-se em 86


acionista de certas empresas, embora o valor de seu investimento fosse igual a zero. Hartz adotou inúmeras cautelas. Depois de algum tempo, até mesmo Kennof achou perfeitamente crível que ele tivesse adquirido os papéis no curso do tempo por preços absurdos e agora não conseguisse comprador para os mesmos. Depois de um exame confidencial dos livros de Kennof, Hartz descobriu que o detetive costumava desperdiçar grandes somas na compra de antiguidades. Arranjou notas de venda, documentos e recibos. Quando leu as cifras escritas nos papéis, Kennof quase irrompeu em lágrimas. — Hartz — disse, dirigindo-se ao francês. — O senhor é um homem simpático, mas é mais esperto que um armênio. Não gostaria de ser seu inimigo. Hartz sorriu e “provou” a Kennof que o mesmo teria de pagar uma dívida de 26 mil solares. *** O sol da primavera iluminava os telhados da cidade. Kennof saiu da sombra da grande casa e dirigiu-se para a rua. Do lado oposto ficava o Bar do Tommy, imprensado entre grandes edifícios. Embora fosse de manhã, o proprietário acendera a propaganda luminosa instalada em cima da vitrine. A mesma realizava uma luta desesperada contra a luz ofuscante do sol. A fim de ver o carro estacionado junto ao meio-fio, Kennof virou a cabeça. Gostaria de olhar para dentro do bar, mas as cortinas do mesmo estavam fechadas. O detetive entrou pela porta que se fechou, automaticamente, atrás dele. Em uma das cinco mesas havia um homem que descansava a cabeça nos braços. À sua frente havia uma garrafa pela metade e um copo. Atrás de um balcão, uma mulher estava fazendo sanduíches. Não percebera a entrada de Kennof. O detetive tomou lugar numa das grandes banquetas que havia junto ao balcão e tirou o chapéu. — Olá, Célia! — disse. A mulher largou a faca e levantou a cabeça. Era jovem. Devia ter pouco mais de vinte e cinco anos, mas em seu rosto viam-se ligeiros sinais de cansaço. Fitou Kennof. — O que é que você quer? — perguntou. Em sua voz não havia raiva, mas certa indiferença. Seus cabelos compridos estavam amarrados. Célia não era muito bonita, mas não deixava de ser atraente. — Uma cerveja — pediu Kennof. — Não quero muito gelada. Enquanto a mulher se abaixava para tirar a cerveja da geladeira, disse inesperadamente: — Shane me disse que você viria. Não quis dizer o motivo. Kennof lançou um olhar para o homem embriagado. — O que houve com ele?

— Está dormindo — respondeu, enchendo o copo de Kennof. O detetive fitou-a calmamente. Depois de algum tempo, falou em tom indiferente: — Estou procurando uma colaboradora. Os olhos escuros de Célia pousaram nele. — Você vê que já tenho um emprego. — Isso não é um trabalho para você — disse Kennof em tom penetrante. — Talvez, por algum tempo, consiga convencer a si mesma de que está gostando do serviço. Mas, mais tarde, ele a corroerá por dentro. Tomou um gole. A mulher respondeu em tom sarcástico: — Você quer proteger-me contra isso, Dick? Kennof levantou ambas as mãos, num gesto negativo. — Sei que você é muito orgulhosa, Célia. O que lhe ofereço não representa nenhuma caridade. Peço seu auxílio. Ao que parecia, Célia aguardava outras explicações, pois Kennof não obteve resposta. Ficou bebericando sua cerveja e piscou com os olhos. — Que sentimento lhe inspira a ideia de ser minha noiva, Célia? — Tendências suicidas — respondeu a mulher. Kennof deu uma risadinha. — Isso me lisonjeia bastante — disse. — Mas você não demorará a gostar. Você não será uma noiva muito boa. Além de ser infiel, desperdiçará meu dinheiro e arruinará meu bom nome. Seu comportamento me fará ficar furioso. Tentarei matá-la, e só com grande dificuldade conseguirão impedir-me de realizar meu intento. — Para que tudo isso? — perguntou Célia, sem demonstrar maior interesse. — Para convencer a Companhia do Sono de Wyoming de que, face ao meu estado psíquico, não lhe restará outra alternativa senão aceitar-me como cliente para ser posto a dormir — disse Kennof em tom seco. — Além de uma noiva que me engana tenho muitas dívidas. Acho que isso deve bastar. Célia parecia cada vez mais interessada. — Se você tiver dívidas, eles o recusarão. Não tenha a menor dúvida. — Acho que você subestima o Hartz. Depois que tiver sido posto a dormir, afirmará que eu o incumbi de vender meus bens. Com isso, minhas dívidas estarão liquidadas e a CIS não assumirá qualquer risco. Antes que Hartz inicie as vendas, saberei o que há atrás dessa Companhia, e voltarei arrependido. Anularei a ordem. Hartz se fará de ofendido, mas a CIS terá sido enganada. Nem sequer terei necessidade de pedir desculpas à Companhia do Sono. Mas se minha suposição de que há algo de errado com essa companhia for correta, Hartz e eu receberemos uma medalha. Hartz venderá sua medalha, e eu... Célia fê-lo calar com um gesto. — Dick, existe alguma base legal para seu procedimento? Os olhos de Kennof fitaram-na tristemente por cima do 87


balcão. — Você ainda não aprendeu — disse ela. — É verdade — confessou o detetive. — E vai tentar, mesmo que eu não ajude — conjeturou a moça. — Você enfiou isso na sua cabeça dura. — Perfeitamente — respondeu Kennof. Célia apresentou uma garrafinha. — É a melhor bebida que temos — disse com um sorriso. — Vamos brindar ao sucesso. Muito animado, Kennof inclinou-se por cima do balcão. — Será como antes, quando ainda estávamos... — principiou. — Esqueça-se disso — respondeu Célia em tom áspero. Kennof percebeu que ela nunca se conformaria com a perda do trabalho que tanto apreciava. Ao abrir seu escritório de detetive, ele mesmo criara certa compensação. Mas muitas vezes sentia vontade de enfrentar uma das tarefas às quais estava acostumado. Talvez fosse por causa do treinamento extraordinário que havia recebido. Em sua totalidade, os conhecimentos adquiridos estavam ociosos. E para Célia, seria ainda mais difícil conformar-se com a nova situação. Kennof, que era um individualista empedernido, não conseguira conformar-se com a disciplina implacável. Não pertencia à classe de homens que gostam de receber ordens. Por causa disso tirara suas conclusões: pedira demissão e obtivera uma licença de detetive particular. E agora estava reunido com sua antiga colega. Richard Kennof há anos fora agente de um destacamento especial do Serviço de Segurança Solar! *** Dali a vinte dias julgou chegado o momento de entrar em contato com a CIS. Pediu que o pusessem a dormir por 150 anos. Disse que o pedido era motivado pela ruína financeira e pela tendência de matar a amiga infiel. Gaston Hartz garantiu-lhe que não fora cometido nenhum erro, e que mesmo num exame rigoroso, feito por parte dos funcionários da CIS, não surgiria qualquer falha. Célia desempenhou seu papel com o brilhantismo que era de se esperar. E Jeanne Dunbee, que continuava em Dubose, recebeu a notícia sobre o progresso da tarefa de Kennof. Depois de uma forte resistência, Célia encarregou-se de cuidar de Buster. De um dia para outro, o detetive esperava o convite da CIS para apresentar-se em Cheyenne a fim de submeter-se aos exames médicos de rotina. Quando fez uma visita secreta ao Ministério do Interior, todos os homens que o cercaram acharam-no um ser digno de pena, pois, além de inúmeros credores, possuía uma noiva desprezível. *** Snyder lançou um olhar de espanto para Kennof.

— O fato de o senhor ter conseguido chegar a mim já o faz merecedor de certo respeito — disse no tom afetado que lhe era peculiar. — É verdade que guardo recordações nada gloriosas do senhor. Mas, apesar disso, estou disposto a ouvi-lo por alguns minutos. Kennof preferiu não informar Snyder sobre as características reais da luta que travara, juntamente com Shane, contra os negociantes inescrupulosos que contrabandearam drogas do setor de Vega para a Terra. Limitou-se a dizer: — O senhor chefiou a equipe que pela última vez fiscalizou as cavernas da CIS. Permite que formule algumas perguntas a este respeito? — Poderei dar-lhe apenas informações oficiosas — ponderou Snyder. — Não espere dados oficiais. Kennof preferiu não dizer que, como contribuinte, lhe cabiam certos direitos. Os funcionários do Ministério do Interior geralmente não eram dotados de muito senso de humor, e não havia a menor dúvida de que Snyder era o caso mais difícil. — Naturalmente — respondeu o detetive em tom delicado. — Gostaria de saber se o senhor chegou a ver alguma pessoa que estivesse dormindo dentro do bioplasma. Snyder levantou as sobrancelhas até o ponto em que as mesmas formavam um ângulo bem estudado, a partir do qual o gesto poderia ser interpretado como manifestação de uma emoção. — Examinamos atentamente os recipientes, Mr. Kennof — disse. — Vimos perfeitamente às pessoas, pois as paredes externas das câmaras de dormir são transparentes. Pigarreou. — Constatamos que na caverna se encontravam exatamente as pessoas cujos nomes constam das cópias dos contratos arquivados no Ministério. A CIS é obrigada a enviar-nos cópia de todos os contratos que celebra, a fim de que possamos verificar a qualquer momento se certos elementos não recorrem aos seus serviços para subtrair-se à ação punitiva do Estado. — O senhor notou qualquer coisa que pessoalmente lhe parecesse estranho ou incompreensível? — perguntou Kennof, prosseguindo no seu interrogatório. — Bem, todo o projeto da CIS não é coisa corriqueira — começou Snyder em tom comedido. — Não sou nenhum perito no setor, e por isso é apenas natural que para mim certas coisas sejam inexplicáveis. Acontece que nossos especialistas são de opinião que os serviços da Companhia do Sono são exemplares e que não existe motivo para qualquer tipo de interferência. Será que o senhor dispõe de dados que contrariem esta opinião, Mr. Kennof? — De forma alguma — asseverou o ex-agente. — Meu interesse pela CIS é de natureza exclusivamente particular. — Não me venha dizer que o senhor quer adquirir um lugar para dormir. — Será fácil descobrir, Sir — disse Kennof em tom tranquilo. — Basta examinar as cópias dos contratos. 88


Ao sair do Ministério do Interior, teve uma sensação nada agradável. Será que seu trabalho se revelaria inútil? Ao que parecia, todos achavam que não havia nada de errado com a CIS, inclusive Snyder. Kennof não estava interessado em desperdiçar seu tempo. Ainda não havia recebido qualquer resposta de Cheyenne. Por enquanto o pedido ainda poderia ser retirado. Se Edmond Cascane, um colaborador ao qual Kennof pedira que realizasse uma investigação minuciosa do passado da CIC, não obtivesse elementos concretos, o detetive abandonaria seu plano. Kennof enxotou alguns meninos que cercavam seu carro estacionado. As crianças estavam fascinadas pela pintura futurista. Muito pensativo, deu partida no motor. Virou a cabeça e olhou para o Ministério do Interior. Tratava-se de um edifício imponente, feito de vidro, aço e concreto. Ao partir, nem desconfiava de que Cascane guardava uma grande surpresa para ele. Edmond Cascane — um homem quase completamente calvo, de olhos ágeis — colocou um montão de papéis à frente de Kennof. Fungava e enxugou um suor imaginário do rosto. Kennof brindou-o com um olhar de compaixão e começou a remexer o monte de papéis. — A maior parte disso não oferece o menor interesse — observou Cascane no tom de quem reserva uma enorme sensação. Com um olhar atento mirou Kennof enquanto este afastava os documentos. — Fale logo, Ed — disse o ex-agente. Cascane tirou uma folha solitária do bolso da jaqueta e agitou-a à frente do nariz do chefe. Kennof, que já estava novamente envolto em seu robe amarelo, conseguiu apossar-se do segredo de Cascane. — Este documento apenas diz que um certo Fedor Piotrowski foi reprovado vergonhosamente nos exames de doutor em medicina — disse Kennof em tom de decepção, depois de ter lido o documento. — Pois é este mesmo homem que se encontra no Parque Nacional de Yellowstone, alguns metros abaixo da terra, e cuida dos clientes da CIS, sob o nome de doutor Piotrowski — disse Cascane em tom enfático. — O que acha disso? Num gesto pensativo, Kennof esfregou o queixo volumoso. — É possível que posteriormente tenha passado no exame. O auxiliar do detetive sacudiu a cabeça. — Não fez nada disso, Dick. Eu vasculhei sua vida. Piotrowski deve ter conseguido documentos falsos para arranjar a colocação na CIS. — Ou então a CIS fabricou-os para ele — disse Kennof. — O falso doutor vem do Canadá — prosseguiu Cascane. — Quebrou todas as pontes atrás de si. Em sua terra ninguém sabe para onde foi. Kennof deu uma forte pancada na mesa. — Isso decide a questão — disse. — Vou a Wyoming. — O resto são recortes de jornais — disse Cascane, numa tentativa débil de chamar a atenção do chefe para a

pilha de papéis. — Além disso, você encontrará relatos de palestras travadas com pessoas que já tiveram relações com a CIS. Mas naquele momento, Kennof já estava refletindo sobre como esconder seus preciosos aparelhos no interior das cavernas, quando chegasse lá. Dois dias depois, quando a CIS entrou em contato com o detetive, a fim de pedir a este que se apresentasse em Cheyenne, o problema tornou-se agudo.

4 M'Artois estava parado junto à janela, de costas para Richard Kennof. O detetive não se sentia muito à vontade. O psicólogo conhecia todas as artimanhas ligadas à sua profissão. Atrás de sua benevolência escondia-se uma extraordinária compreensão, além da excelente capacidade de combinação. Só no último instante, Kennof reconhecia as perguntas-armadilha do colaborador da CIS. O detetive só conseguiu ludibriar o psicólogo porque havia recebido o treinamento psicológico especial na Segurança Solar. Kennof foi-se convencendo de que não se tratava tanto de um esforço da sociedade para interessar as pessoas cansadas pelas belezas deste mundo, mas antes de um verdadeiro interrogatório. M'Artois penetrava em todas as áreas da vida privada inventada por Kennof. Nem mesmo diante das perguntas mais indiscretas, recuava. Por várias vezes Kennof chegara a transpirar, ou então acreditara que o outro tivesse descoberto seu jogo. Mas até então tudo dera certo. M'Artois lançou um olhar atento para Kennof. — O senhor me falou num tal de Mr. Hartz — disse. — Como foi que um financista tão esperto pôde conformar-se em ver o senhor empatar seu dinheiro em ações sem valor? — Acontece que estava saturado de ver meus atos supervisionados por Hartz — disse Kennof. — Queria provar a esse sujeito convencido que sabia arranjar-me sem ele. Infelizmente não deu certo. — Esse procedimento corresponde ao seu caráter — admitiu M'Artois, e Kennof suspirou às escondidas. — Talvez fosse conveniente recorrer a Mr. Hartz a fim de trilhar novo caminho que o faça subir novamente na vida. Kennof, que via suas chances se desvanecerem de novo, disse: — Não é tanto pelo dinheiro. O senhor já está informado sobre o problema que houve com minha noiva. Quando me lembro com que falta de escrúpulos ela me tem enganado, não consigo controlar-me. — Apesar de tudo o senhor ainda a ama? Kennof acenou com a cabeça, como quem se sente muito envergonhado. “Tornei-me um perfeito ator”, pensou. 89


O psicólogo pregou-lhe um longo sermão para convencê-lo de que seria preferível manter-se fiel à vida. Kennof não teve a menor dúvida de que essas palavras só tinham por fim despertar o espírito de contradição das pessoas que a CIS considerava inofensivas. Enquanto M'Artois exaltava as belezas do mundo, criava no subconsciente de seu interlocutor uma aversão pelo mesmo. Apesar de tudo, o procedimento de M'Artois não infringia a lei e também não permitia a Kennof tirar qualquer conclusão sobre o trabalho da companhia. — Ainda está disposto a celebrar um contrato com a companhia? — perguntou M'Artois depois de concluídas suas considerações. — Sem dúvida — confirmou o novo candidato. — O senhor será submetido a um exame por meio do qual verificaremos seu estado de saúde. Quero perguntar desde logo se o senhor sofreu alguma amputação. Kennof respondeu que não. Já estava convencido de que havia algo de errado com a CIS. Mas, por mais que se esforçasse, não descobriu o que poderia ser. Seriam apenas alguns membros corruptos da companhia que seguiam um plano bem definido, ou será que Cavanaugh e os outros também participavam do mesmo? Em caso afirmativo, qual seria a finalidade da empresa? Será que seus interesses eram puramente comerciais? Naquele momento, o homem, que poderia ter esclarecido até certo ponto as dúvidas de Richard Kennof, encontrava-se submetido a um poder do qual o detetive nunca poderia suspeitar. Maurice Dunbee já sabia tudo, mas seu saber não lhe adiantava nada, pois não se encontrava na Terra, nem em qualquer outro planeta desta Galáxia.

5 Pequenas gotas de suor apareceram na testa de Kennof. Clinkskate não poderia desconfiar de que o homem à sua frente transpirava de medo de ser descoberto. Achou que fosse um sinal do nervosismo, que costumava apossar-se de qualquer pessoa que entrava nas cavernas da CIS, a fim de ser colocada nos grandes recipientes de plástico. Kennof foi levado de helicóptero juntamente com dois outros homens. Um deles era um tipo nervoso, de cabelos muito ruivos e uma cicatriz profunda do lado direito do rosto. Naquele instante estava sentado à frente de Kennof. Seu nome era Jubilee. Não contou o motivo por que desejava ser posto para dormir. Kennof achou que se tratasse de um ébrio contumaz. O terceiro homem estava sentado bem atrás de Kennof. Tratava-se de um antigo político, cuja vida se frustrara em falsos ideais. Apesar de tudo, Lester Duncan costumava escolher muito bem as palavras. Kennof sentiu uma débil

simpatia por ele. Jubilee era-lhe totalmente indiferente. No momento, Kennof não tinha muito tempo para interessar-se pelos companheiros de viagem. Teria de encontrar um lugar seguro para o rádio e o micro defletor. Mais tarde também teria de livrar-se do localizador embutido no anel. Mas este era tão discreto que seria fácil tirá-lo normalmente. Teria de encontrar uma maneira de colocar esses objetos num lugar em que pudesse encontrálos assim que precisasse deles. — Em primeiro lugar entregarei Mr. Duncan aos cuidados do Dr. Le Boeuf — disse Clinkskate. — Depois será a vez dos senhores. Kennof compreendeu imediatamente. — Poderia fazer o favor de mostrar-me onde fica o banheiro? Gostaria de lavar-me. — Faça o favor de acompanhar-me — disse Clinkskate. Quando saíram da grande sala em que funcionava o escritório, Kennof sentiu-se aliviado. Acompanhou Jubilee e o colaborador da CIS, até que Clinkskate apontasse para duas portas. Kennof agradeceu. Só desejava que a toalete não estivesse ocupada. Teve sorte. A porta podia ser trancada por dentro. Kennof não perdeu tempo. Acionou a fechadura. Tirou do bolso o micro defletor e ligou-o. O aparelho desviava os raios de luz e fazia com que seu portador se tornasse praticamente invisível. A visibilidade resulta exclusivamente da reflexão dos raios luminosos. Como naquele momento Kennof não pudesse ser atingido pelos raios de luz, não poderia refletilos. No entanto, qualquer aparelho de localização, mesmo de potência reduzida, logo teria registrado sua presença. Além disso, tinha que ter cuidado para não causar ruídos. “Que bom é o velho Shane”, pensou Kennof num assomo de gratidão e saiu do lavatório. O corredor estava vazio e abandonado. Sem hesitar, Kennof seguiu na direção em que Clinkskate havia desaparecido juntamente com o ébrio. Logo encontrou uma porta aberta. Viu-se num gigantesco recinto abobadado, subdividido em vários pavimentos. Os olhos treinados de Kennof perceberam imediatamente que se tratava de instalações energéticas e equipamento médico. Olhou em torno e pôs-se a refletir. Naquele instante, Clinkskate saiu do elevador a quatro metros do lugar em que Kennof se encontrava. Este se apressou para se colocar numa posição segura. Clinkskate passou por ele sem desconfiar de nada. O detetive acreditou que só disporia de alguns minutos para encontrar um esconderijo. Seria muito arriscado pegar o elevador para descer um andar. O micro comunicador devia ser guardado aqui em cima. Pelos seus cálculos, naquele momento Clinkskate estaria chegando às toaletes. Kennof descobriu uma prateleira na qual, segundo parecia, havia peças gastas. Escondeu cuidadosamente o rádio atrás de alguns rolamentos. A seguir, desligou o defletor e também o 90


guardou na prateleira. Se aparecesse alguém, poderia dizer que se perdera. O anel, que abrigava um minúsculo aparelho de localização, continuou no seu dedo. Tratava-se de uma obra de precisão dos micro técnicos, os swoons. Os seres em forma de pepino, que Perry Rhodan trouxera à Terra numa missão arriscadíssima, eram espetaculares. Kennof olhou pelo corredor. Sentiu-se triste ao pensar no Serviço de Segurança Solar. Era este o tipo de trabalho de que precisava. E a Segurança Solar poderia ter-lhe dado este tipo de missão. Porém, atrás dela havia a cadeia de comando e a rígida ordem militar, que não correspondiam ao gosto de Kennof. Voltou correndo e chegou ao setor administrativo quase no mesmo instante que Clinkskate. “Você ainda está em forma, velho Dick”, pensou, enquanto sorria para Clinkskate. “Poderá dar muito trabalho a essa gente.” Naquele momento não poderia saber que seriam eles que lhe dariam muito trabalho. Se soubesse, não se sentiria tão otimista. *** Durante sua vida agitada, Kennof nunca adquirira uma ideia precisa de como o corpo humano é preparado para um prolongado sono, que se assemelha à morte. E aquilo que o Dr. Le Boeuf e seu auxiliar Piotrowski haviam feito com ele em nada contribuiu para tornar mais compreensível o estado de hibernação bioquímica. Se sua noção de tempo não tivesse sido prejudicada pelas repetidas anestesias, o detetive calculava que devia estar no fim da tarde. O Dr. Le Boeuf encontrava-se ao lado da mesa dos exames e, num gesto de cansaço, passou a mão pelo rosto. — Esse idiota do Jubilee nos tomou muito tempo — disse, dirigindo-se a Piotrowski. — Sugiro que ainda tiremos a frequência das vibrações cerebrais de Kennof e deixemos o resto para amanhã. — Está certo — concordou seu auxiliar. Kennof suspirou aliviado. Já receara não ter oportunidade para uma inspeção discreta. Tudo dependia de que fosse deixado só. Ergueu-se ligeiramente e olhou para os médicos. Atendendo à ordem de Piotrowski, as duas enfermeiras trouxeram um aparelho grande e oval para perto de Kennof. — O que é isso, doutor? — perguntou Kennof, em cuja mente surgiu uma suspeita vaga. Le Boeuf mexeu nervosamente em alguns cabos. — Um aparelho destinado a medir a freqüência de suas vibrações cerebrais — informou. — Não tenha medo. Kennof esforçou-se para sorrir. Infelizmente, para o Dr. Le Boeuf, Kennof sabia perfeitamente como era um medidor de frequências cerebrais fabricado na Terra. Enquanto o sorriso de Kennof se desfazia e as batidas de seu coração se aceleravam, o médico iniciou os preparativos.

Um novo olhar bastou para que Kennof não tivesse mais a menor dúvida: o aparelho não era de fabricação terrana. O ex-agente não conseguiu impedir que um sopro de pavor lhe tocasse a mente. Como foi que a CIS arranjou um aparelho que, sem a menor dúvida, não era conhecido sequer ao Serviço de Segurança Solar? Seria pura coincidência? Em hipótese alguma! — Incline-se ligeiramente para frente — resmungou o Dr. Le Boeuf em tom contrariado. Passou uma faixa bem apertada em torno da cabeça de Kennof. Inúmeros fios saíam da tal faixa. Piotrowski, que se encontrava atrás do aparelho e, segundo parecia, estava lendo os resultados, disse em tom de espanto: — O senhor deve ter muitos problemas na cabeça. — Não deixe o homem confuso — gritou Le Boeuf. — Anote os resultados. Piotrowski lançou um olhar zangado para o colega. Nos fundos da sala, as enfermeiras mantinham-se em atitude de expectativa. Kennof esforçou-se para reprimir as idéias exaltadas. Não deveria cometer qualquer tolice que pudesse traí-lo. — Pronto! — resmungou Piotrowski, depois de algum tempo. A faixa foi tirada da cabeça de Kennof. As enfermeiras afastaram o misterioso aparelho. — Tente dormir até amanhã — disse o Dr. Le Boeuf. — Acho que não será difícil, pois nos próximos anos sua ocupação principal será esta. Soltou uma estrondosa gargalhada. Piotrowski também riu. — A irmã Marion ficará com o senhor — prosseguiu o médico. — Se desejar, ela lhe dará um calmante. A enfermeira... Deveria ter desconfiado de que não o deixariam sozinho. Apesar disso fez uma tentativa ligeira de modificar as idéias do médico: — A irmã Marion pode dormir doutor. Saberei arranjarme. — Ela ficará com o senhor — disse Le Boeuf em tom decidido. Kennof calou-se. Deixou que o levassem à cama. Cobriu-se cuidadosamente. Dali a meia hora, os dois médicos e uma das enfermeiras saíram da sala. A mulher, que deveria velar pelo descanso de Kennof, puxou uma cadeira e sentou ao lado da cama. Manteve-se em silêncio. Era alta e esbelta e seu rosto era muito bem formado. “Não é possível que fique sentada aí toda a noite”, pensou Kennof desesperado. “Acabará saindo ou adormecendo.” Dali a duas horas, a situação continuava a mesma. A enfermeira mantinha-se imóvel a seu lado. Finalmente Kennof teve uma ideia. — Irmã Marion — pediu. — Será que poderia arranjar alguma coisa para beber? 91


— Naturalmente — respondeu a enfermeira em tom amável. Kennof sentia-se exultante. Mas logo viu-se diante de uma dolorosa decepção. A enfermeira abriu um armário, tirou uma garrafa e encheu um copo. “Chá”, pensou Kennof amargurado. “Logo chá!” Sorveu o líquido com um agrado fingido. Provavelmente também havia comida guardada por perto. Seria inútil pedir-lhe que fosse buscá-la. Dessa forma, nunca se livraria dela. Quando Kennof teve a impressão de que mais duas horas se haviam passado, brincou com a ideia de fingir-se de doido. Passou a observar mais atentamente a mulher. Até então, ela não fechara os olhos uma única vez. A sala estava debilmente iluminada. “Será possível que essa mulher não dorme?”, pensou. “Nem sequer pisca os olhos!” Kennof sentiu um calafrio. Era isso! Fitou-a intensamente. As pupilas olhavam para frente sem que as pálpebras se movessem. A irmã Marion não era nenhuma enfermeira! Nem sequer era uma mulher! Era um robô! Num gesto instintivo, Kennof enfiou-se mais profundamente embaixo das cobertas. Como antigo agente, sabia muita coisa a respeito de robôs. De robôs terranos! Acontece que talvez a máquina, que corporificava a irmã Marion, não fosse um robô terrano, tal qual o medidor de frequências, que não fora construído na Terra. Kennof sabia perfeitamente que sem arma nunca poderia arriscar uma luta. Havia uma única possibilidade. Teria de provocar um curto-circuito no cérebro positrônico do robô. Com a lógica dos homens-máquina terranos, isso não seria difícil. Mas se aquela máquina tivesse sido construída por outra raça, seria perfeitamente possível que se guiasse por uma lógica estranha. As possibilidades eram tantas que Kennof nem se atreveu a pensar nelas. “Mãos à obra, velho Dick”, pensou Kennof. “O que está esperando?” Se o robô tivesse sido construído segundo os princípios terranos, praticamente não havia qualquer dúvida de que a ação seria bem sucedida. Mas se agisse de acordo com alguma lógica desconhecida, muitas coisas imprevisíveis poderiam acontecer. — Irmã Marion — principiou Richard Kennof, em tom suave. — Acabo de descobrir que a senhora é um robô. A enfermeira fitou Kennof. Este se abaixou. — Avisarei o Dr. Le Boeuf — disse a máquina. — Devagar, “meu caro” — gritou Kennof apressadamente. — O Dr. Le Boeuf não mandou que você me vigiasse ininterruptamente? O robô manteve-se calado por algum tempo. — A ordem é esta — disse finalmente. Kennof levantou a mão direita.

— De qualquer maneira, é indispensável que o médico seja avisado imediatamente sobre a minha descoberta, pois esta poderá causar consequências sérias — advertiu. — É o que devo fazer — confirmou a máquina e pôs-se a andar. — Pare! — berrou Kennof. — Você vai desobedecer a uma ordem, deixando-me sem vigilância? — Em hipótese alguma — disse o robô. Kennof disse em tom grosseiro: — Vá logo e traga o doutor antes que aconteça alguma coisa. Não se esqueça de cuidar de mim. Você não poderá deixar-me só; compreendeu? Foi à ordem que lhe deram. O que está esperando? Vá! Cuide! Fique aqui! Vá! Fique! Vá! Fique! Quando o dispositivo de segurança do cérebro positrônico entrou em ação e provocou um curto-circuito, o detetive ainda estava repetindo as ordens. O robô não conseguiu coordenar as instruções contraditórias. O êxito da pretensão de Kennof só se deu porque o Dr. Le Boeuf realmente havia dado ordem para que a irmã Marion permanecesse constantemente em companhia do detetive. Kennof saltou da cama. Nenhuma memória positrônica pode ser alimentada com duas ordens de igual urgência. Nesse caso, o único recurso que restava à máquina era a fuga para uma espécie de “esquizofrenia mecânica”. Num ligeiro exame, Kennof certificou-se de que realmente se tratava de um robô terrano. Nesse ponto não havia mais nenhum perigo. Na manhã seguinte, os dois médicos poderiam quebrar a cabeça para descobrir como sua enfermeira fora colocada nesse estado. O que importava a Kennof era apoderar-se do micro defletor e do micro comunicador, e inspecionar as cavernas. O lugar em que escondera os aparelhos ficava um andar acima. Preferiu não usar o elevador, pois receava que o ruído dos motores pudesse atrair a atenção dos homens da CIS. Não havia escada. O elevador corria num poço aberto. Kennof resolveu subir pelos cabos. Subiu à cobertura da pequena cabina. Se alguém tivesse a ideia de usar o elevador enquanto se encontrasse ali, estaria morto. Kennof arrastou seu pesado corpo para cima com a agilidade de um macaco. Em certos lugares, o cabo estava danificado. As pontinhas de metal feriram as mãos de Kennof. Finalmente chegou ao destino e voltou a pôr os pés no chão. Rastejou para junto da prateleira em que guardara os aparelhos. Kennof agiu depressa. Dali a alguns segundos, estava voltando. Limpou as mãos numa toalha e atirou-a na lixeira. As ideias de Kennof sobre os passos seguintes eram mais que vagas. Teria que sair ao sabor da sorte ou do azar, pois não possuía a menor indicação. Faltava pouco para a meia-noite. Passou pela mesma porta através da qual, poucas semanas antes, Dunbee iniciara a fuga. Ligou o micro defletor, a fim de estar protegido se houvesse um encontro imprevisto. Kennof chegou ao poço no qual Dunbee caíra e parou. O corredor prosseguia, mas a intuição de Kennof decidiu-se pelo 92


buraco. O detetive entrou e deixou-se escorregar lentamente. Kennof certificou-se de que os preciosos aparelhos que Shane lhe dera não haviam sido danificados. Olhou em redor e seus olhos defrontaram-se com um cenário impressionante. Uma luz pálida iluminava o grande recinto abobadado. As sombras grotescas de rochas gigantescas estavam desenhadas no chão. E três grandes recipientes de plástico pareciam monstros adormecidos num esconderijo. Kennof aproximou-se. Finalmente, ele os viu: os adormecidos! Boiavam que nem peixes no interior das câmaras. Nus e de olhos fechados, descansavam no líquido amarelento. Eram inúmeros corpos, um ao lado do outro. Rostos para cima e rostos para baixo. Dedos entrelaçados, dedos abertos. Mãos de trabalhadores e de sábios, de mulheres e de homens. Kennof estremeceu. Esses homens haviam fugido do sofrimento do mundo em que viviam, a fim de procurar a felicidade num futuro distante. E aqui estavam eles, depois de terem adormecido, esperançosos e confiantes. Havia neles algo de deprimente e algo de vergonhoso. Kennof pensou na tentativa mil vezes repetida de enganar o destino. Não conseguiriam seu intento. Quando despertassem, descobririam que tinham transportado para o futuro as mesmas personalidades que os martirizavam no passado. Nada mudaria! Kennof fez um esforço e chegou ainda mais perto de um dos recipientes. As pessoas adormecidas repousavam sobre apoios pneumáticos. As câmaras estavam separadas por grades. Junto ao lugar em que dormia cada pessoa, terminavam numerosas mangueiras e contatos. O plasma celular mantinha-se em movimento constante, o que provava que estava sendo renovado ou tratado ininterruptamente. As pessoas adormecidas só poderiam ser alcançadas pela parte de cima dos recipientes. E ali Kennof viu tubos, cabos e outros contatos. O antigo agente do Serviço de Segurança Solar suspirou aliviado. Confessou a si mesmo que esperara encontrar neste lugar algo de extraordinário. Não quisera acreditar que a única coisa existente ali eram homens e mulheres adormecidos. Era possível que, sob outros pontos de vista, a ação da CIS fosse incorreta e violasse a lei. Porém os homens que recorriam a ela estavam bem guardados. Nem desconfiava de que, dali a algumas horas, mudaria de opinião. *** Richard Kennof estava ofegante ao sair do poço. Não teria outra alternativa senão voltar ao santuário do Dr. Le Boeuf e explicar ao médico, assim que este aparecesse que mudara de opinião e estava disposto a enfrentar a vida. Quando o instrumento de localização, embutido no anel,

deu um sinal, Kennof estava fazendo uma limpeza provisória das vestes. Surpreso, o detetive parou em meio ao trabalho. Pela intensidade da reação do aparelho concluiu que, nas imediações do lugar em que se encontrava, acabara de ocorrer uma descarga energética de grandes proporções. Kennof examinou o anel. — Este aparelho aponta as formas de energia convencionais, e também as da quinta dimensão — explicara Shane. — O pequenino indicador está dividido em dois setores. O setor vermelho revela a existência de uma descarga sobreposta, ou seja, de uma descarga da quinta dimensão. Ao rememorar estas palavras, Kennof despertou de vez. Voltou a certificar-se. Não se enganara. Em algum lugar, acabara de ocorrer uma descarga energética da quinta dimensão. Kennof trincou os dentes. Sua desconfiança, que fora abafada, voltou a fortalecer-se. Como é que nas instalações da CIS havia fontes de energia superdimensionais? Segundo todos os cálculos humanos, isso seria impossível. Tinha certeza de que o instrumento de localização estava em perfeitas condições. Antes de entregá-lo, Shane mandara revisá-lo cuidadosamente. Não podia pensar mais em descansar. Avançou pelo corredor que seguia atrás da entrada do poço, penetrando terra adentro. O anel não indicou outras descargas. Uma tensão quase insuportável apoderou-se de Kennof. Será que afinal havia algo de errado com a Companhia do Sono? Como ninguém pudesse vê-lo, não agiu com muita cautela. O corredor terminou no platô metálico, situado dentro de outra caverna. Kennof entrou imediatamente. Bem ao lado da abertura havia outra, que voltava a penetrar na rocha. Fora construída com tamanha habilidade que Kennof logo imaginou que seria fácil de ser camuflada por ocasião de uma inspeção. Algumas rochas grandes, que se encontravam junto à entrada, reforçavam essa suposição. Qualquer fiscal deixaria de notar essa entrada natural, ainda mais que teria sua atenção desviada pelo platô metálico. Mas agora, que a CIS não esperava qualquer fiscalização, a entrada permanecia aberta. Kennof soltou um assobio. Fosse o que fosse que a Companhia Intertemporal do Sono tinha a esconder, ele poderia encontrá-lo se seguisse por esse caminho. Kennof enfiou-se pela entrada secreta. Também estava iluminada, o que levava à conclusão de que era usada com certa freqüência. Mais ao longe, o detetive percebe ruídos indefiníveis. Apressou-se. A galeria foi ficando cada vez mais clara. Ouviu vozes humanas. Seu coração começou a bater mais depressa. Kennof reprimiu o nervosismo. O caminho descreveu um ângulo reto. Procurando evitar todo e qualquer ruído, Kennof percorreu os últimos metros e entrou num recinto de grandes dimensões. A caverna na qual penetrou era pouco menor que as 93


outras. Avistou de pronto seis homens que envergavam as vestes da CIS. Logo viu outro, que já conhecia. Era Jubilee. Kennof reprimiu um grito. Jubilee estava nu e deitado no chão; ao que parecia, estava inconsciente. Atrás do beberrão, que viera a Wyoming com Kennof, alguns bastões metálicos saíam verticalmente da rocha. Formavam um semicírculo de cerca de dez metros de diâmetro. Kennof teve a impressão de que lembravam o picadeiro de um circo. Bem em cima dos bastões metálicos, junto ao teto, uma esfera metálica vermelha e brilhante flutuava no ar, desafiando a lei da gravitação. Kennof quase se esqueceu de respirar. Tudo parecia estranho e ameaçador. Nunca vira nada semelhante e não podia imaginar do que se tratava. Dois homens levantaram Jubilee. Sem a menor contemplação arrastaram-no para o interior do picadeiro. Depois se retiraram apressadamente. Só e abandonado, Jubilee estava deitado a quinze metros de Kennof. “Você não pode fazer nada por ele, velho Dick”, pensou Kennof, a fim de tranqüilizar-se. De repente, Jubilee desapareceu! Num tempo zero, seu grande rosto vermelho dissolveuse diante dos olhos de Kennof. Até parecia que jamais um ser vivo estivera deitado entre os bastões metálicos. Só agora percebeu que, no momento em que Jubilee desapareceu, seu instrumento de localização voltou a reagir. Já sabia o que vinha a ser aquele estranho aparelho. Tratava-se de um transmissor de matéria. E era de um tipo não utilizado pelo Império Solar. Os pensamentos de Kennof atropelaram-se. Não se atreveu a fazer o menor movimento. Os seis homens foram caminhando em silêncio em direção à saída. Até parecia que o terrível acontecimento lhe suspendera os pensamentos. Apavorado, Kennof deu-se conta do significado da primeira reação do aparelho de localização. O transmissor de matéria acabara de levar Lester Duncan, o político, a um lugar desconhecido. Se a CIS procedia assim com todas as pessoas postas a dormir, de quem eram os corpos que se encontravam nas câmaras? Kennof, que poderia ser tudo, menos sensível, não conseguiu livrar-se do sentimento de pavor. Não teria oportunidade para refletir sobre isso. No momento em que o último dos seis homens se encontrava ao lado do detetive, o micro defletor entrou em pane. Kennof tornou-se visível. O transmissor devia ter afetado o funcionamento do aparelho. Kennof não esperou até que o descobrissem. Deu um enorme salto e atirou-se sobre o homem mais próximo. O treinamento recebido no Serviço de Segurança Solar ensinara-lhe os métodos mais modernos de luta corpo a corpo. Com dois golpes bem dirigidos, colocou o adversário fora de combate. Os outros homens já haviam desaparecido no corredor.

Kennof devia sair o quanto antes da caverna em que se encontrava. Esta possuía um único acesso, e por isso era uma armadilha muito perigosa. Os cinco homens da CIS voltariam dentro de poucos minutos para verificar o que havia acontecido com o colega. Kennof examinou o homem estendido no chão para ver se trazia uma arma. Não teve sorte. Saiu correndo da estação do transmissor. Já não se tratava de investigar a Companhia, a fim de averiguar se a mesma exercia atividades ilegais. Naquele momento, a vida de Kennof estava em perigo. Não acreditava que a CIS o deixaria sair depois que sabia tanta coisa. Chegou são e salvo ao poço que levava à caverna onde estavam as criaturas adormecidas. Foi quando ouviu a voz dos cinco homens. Provavelmente já estavam voltando. Não perdeu tempo. Voltou a enfiar-se no buraco e foi descendo pelo poço. Por enquanto estava em segurança. Podia imaginar perfeitamente o que aconteceria a seguir. Assim que encontrassem o homem inconsciente, avisariam Clinkskate e os médicos. Uma rápida investigação revelaria que ele, Kennof, saíra do lugar e desativara o robô. Não havia necessidade de uma elevada dose de fantasia para estabelecer uma ligação entre o robô e o homem inconsciente, estendido perto do transmissor. E o elemento de ligação seria Richard Kennof, que desaparecera sem deixar qualquer vestígio. Passaria a ser o inimigo número um da CIS. Lançariam mão de todos os recursos para encontrá-lo. Kennof não esperava nenhuma compaixão. Haveria uma luta, e esta significaria seu fim. Quando o encontrassem, o resto seria apenas uma questão de tempo. Apesar disso, hesitou em transmitir o sinal de emergência para Shane. Queria uma prova irrefutável, que pudesse levar a tropa de Shane a agir, logo que chegasse ao local. Kennof examinou as portas que havia por lá. Estavam todas fechadas. Praguejou. Olhou em torno, à procura de um esconderijo. — Richard Kennof! — disse uma voz. O detetive estremeceu e virou-se abruptamente. “Devagar, velho Dick”, pensou. “É apenas um altofalante instalado por aqui.” Haviam dado por sua falta e esperavam que fosse revelar o lugar em que se encontrava. Não lhes faria este favor. Correu e subiu pela escada, que ficava junto a um recipiente. Lá em cima podia ficar de olho sobre toda a caverna. Rastejou até a borda e enfiou o corpo embaixo de uma tubulação. — Kennof! — o detetive reconheceu a voz de Clinkskate. — O senhor é um homem inteligente. Sabe que acabará sendo encontrado. Apresente-se voluntariamente, pois assim evitará medidas mais rigorosas. Concedo-lhe três minutos para que informe onde fica seu esconderijo. Se não aparecer até o fim deste prazo, começaremos a procurálo. Kennof esperou. O radiotransmissor estava ao alcance de sua mão. Não era maior que uma caixa de cigarros. 94


Depois de algum tempo, voltou a ouvir a voz de Clinkskate. — O prazo terminou Kennof. “A dança vai começar, velho Dick”, pensou Kennof. A noite devia estar quase no fim. Ali, embaixo da terra, não havia possibilidade de saber. Por enquanto não se sentia cansado. Subitamente dois homens entraram por uma das portas. Os dois traziam pistolas de gás. Kennof observou-os tranqüilamente. Começaram a revirar os cantos. — Todas as portas estavam fechadas, St. Cloud — disse um deles. — Não pode estar aqui.. St. Cloud respondeu em tom contrariado: — Talvez tenha entrado pelo poço. — Como Dunbee? St. Cloud fez que sim. Kennof ouvia atentamente. Ao que parecia, Dunbee também desconfiara de alguma coisa e fugira. Mas pelas palavras do colaborador da CIS era de supor que voltara a ser preso. — Quando o encontramos, lutou que nem um doido. Vamos dar uma olhada embaixo dos recipientes. Kennof ouviu-os rastejarem por lá. Depois de algum tempo, voltou a ver St. Cloud. O outro homem também apareceu. Acendeu um cigarro. St. Cloud soltou uma exclamação zangada. Kennof desejou ardentemente também poder fumar. — Já que não está embaixo dos caixões, talvez esteja em cima — disse St. Cloud. — Acho que sua loucura não chega a tanto — objetou o outro. — Vamos procurar em outro lugar. — Está bem — concordou St. Cloud a contragosto. — Vamos embora. Assim que se retiraram, Kennof desceu cautelosamente pela escada. Deixou de usar os últimos degraus e saltou ao chão. Viu-se bem à frente do Dr. Le Boeuf, que mantinha uma pistola apontada para ele. — Olá, Kennof. — disse o pequeno médico.

— Isso mesmo — concordou Hardiston. — Devemos esperar. Célia lançou-lhe um olhar furioso, mas não disse nada. Encontravam-se no gabinete de Kennof, que se transformara numa espécie de quartel-general. Hartz entrou e atirou um maço de papéis sobre a mesa. Havia uma expressão matreira em seus olhos. — Acho que já nos livramos do pessoal da CIS. Cascane informa que desapareceram da cidade — esfregou as mãos. — Está funcionando tudo às mil maravilhas. Seu rosto assumiu uma expressão séria. — Coitado do Dick. Tem uma porção de dívidas e, além de tudo, a senhora, Miss Célia... — disse em tom queixoso. — Pois bem — prosseguiu quando viu que ninguém ria. — O estado de ânimo aproxima-se do zero absoluto. Que importa? Não será fácil derrotar o velho Cavanaugh. Cascane constatou que ele, o presidente da CIS, tem uma alta soma depositada nos bancos. — Se o interrogarmos a respeito, saberá apresentar uma explicação convincente para sua fortuna — disse Shane. — Naturalmente — admitiu Hartz. — Aliás, o tal do Cascane, que agora está na recepção, assume uma atitude cada vez mais insistente. Só a muito custo conseguimos convencê-lo a não ir a Wyoming para ajudar Kennof. — Pelo menos tem mais espírito de iniciativa que certos outros homens — observou Célia em tom irônico. — Isso é comigo — disse Shane, dirigindo-se ao financista. — Esta jovem também é de opinião que já está na hora de intervirmos nos acontecimentos. — Ora, Miss Célia — disse o francês em tom indignado. — Logo agora, que tudo corre tão bem? Se Dick precisar de auxílio, ele chamará. Não tenha a menor dúvida. Não é nenhum menino inexperiente que não saiba o que fazer. — Eu o conheço melhor que o senhor — disse a antiga agente. — Se existe um homem que costuma tropeçar de um perigo para outro, este homem é Dick. E geralmente ele gosta disso. — Ela está exagerando — disse Shane com um sorriso. ***

4 — Não aguento mais esta espera — disse Célia Mortimer, dirigindo-se a Shane, que se encontrava de pé à sua frente. — Por que não chama? Shane Hardiston era um homem alto e musculoso com olhos azuis e delicados. Um observador superficial seria levado a acreditar que era um homem bondoso e tranquilo. Mas seus inimigos conheciam a selvageria que se ocultava sob toda aquela tranquilidade. — Talvez já esteja dormindo — disse Shane em tom indiferente. — Devemos fazer alguma coisa — exigiu Célia.

— De onde veio? — perguntou Kennof, em tom de surpresa. Levantou as mãos, para dar a entender que nem pensava em esboçar qualquer defesa. O Dr. Le Boeuf encostou o dedo indicador da mão livre aos lábios. — Quando o senhor apareceu, eu já estava aqui — disse em voz baixa. — Não fale tão alto. Por aqui existem vários micro fones. Para enorme espanto de Kennof, o médico guardou a arma. O detetive deixou cair os braços. — Farei o que puder para ajudar o senhor — disse Le Boeuf. — A CIS é uma grande fraude. Já está na hora de o público tomar conhecimento disso. Infelizmente liguei-me a 95


Cavanaugh e seus comparsas porque precisava de dinheiro. A esta hora, já reconheço que foi um erro gravíssimo. Quase todos os colaboradores da CIS foram subornados com quantias elevadas. Os guardas são criminosos procurados pela polícia, que se sentem satisfeitos por terem encontrado um esconderijo. Seus documentos são falsos. Clinkskate é o elemento mais perigoso. Provavelmente é o indivíduo mais baixo que já encontrei. Kennof esforçou-se para digerir as impressões que desabavam sobre ele. Não tinha a menor dúvida de que o médico estava sendo sincero. — Qual é o jogo da Companhia? — perguntou Kennof. — É a Terra — respondeu Le Boeuf laconicamente. Kennof sentiu uma leve tontura. Será que já estava dormindo num dos recipientes? Não! O chão duro e frio e o rosto colérico de seu interlocutor pertenciam ao mundo real. — Suba ao “caixão” comigo — pediu o médico. — Mostrar-lhe-ei uma coisa de que o senhor nunca se esquecerá, mesmo que viva cem anos. Fossem quais fossem as intenções do Dr. Le Boeuf, ele não teve oportunidade de levá-las avante. Três homens saíram do poço e vieram correndo em sua direção. Kennof virou-se, disposto a defender-se. Uma expressão triste surgiu no rosto do médico. — Tome — disse, entregando a pistola a Kennof. Este sentiu o cabo frio e liso da arma em sua mão. — Doutor! O que está fazendo? — gritou um dos homens que se aproximavam. Outro homem disparou um tiro da pistola de gás. Kennof procurou prender a respiração e respondeu ao fogo. — Afaste-se do nosso caminho, doutor — gritou um dos homens. O Dr. Le Boeuf atirou-se à sua frente. Kennof não se atreveu a atirar, pois receava acertar no médico. Acontece que os empregados da CIS não conheciam esse tipo de escrúpulo. Kennof abrigou-se atrás do recipiente de plástico. — Está aqui — gritou uma voz. — Na grande caverna, Clinkskate; nós o encontramos. — Agarrem-no! — disse a voz saída dos alto-falantes. O cheiro de gás começou a tornar-se insuportável. Os olhos de Kennof começaram a lacrimejar. Teve um forte acesso de tosse e retirou-se apressadamente. Outros tiros foram disparados em sua direção. — Clinkskate! — gritou Kennof em tom de desespero. — Tenho uma arma. Retire seus homens, senão atiro nos recipientes. — É verdade — disse um dos atacantes. — Ele tem uma arma, Clinkskate. Sombras escuras desfilaram diante dos olhos de Kennof. A partir do estômago, um terrível mal-estar espalhou-se por todo o corpo. Teve de agarrar-se a um tubo para não cair. Dois homens acreditaram que tivesse chegado a hora de aproximar-se. O detetive viu seus contornos confusos surgirem na neblina leitosa. Disparou. Não pôde

concentrar-se o suficiente para acertar. Mas os atacantes afastaram-se. A mão tateante de Kennof encontrou uma das escadas. Subiu pela mesma. Mal conseguia respirar. — Tomem cuidado para que não danifique as câmaras de dormir — advertiu Clinkskate. Os homens mantiveram-se afastados, em atitude indecisa. Kennof conseguiu puxar-se para cima do caixão. Respirava com dificuldade e teve a impressão de que iria morrer sufocado. Conseguiu arrastar-se para o outro lado, onde o ar ainda não estava tão saturado de gás. Arriscou uma olhadela para baixo. Aproximadamente uma dezena de homens estava reunida na sala. Todos usavam máscaras contra gases. O Dr. Le Boeuf estava deitado entre eles. O rosto de Kennof assumiu uma expressão zangada. O aperto na garganta diminuíra. Os olhos voltaram a enxergar direito. Kennof resolveu arriscar tudo numa única carta. — Introduzi uma carga explosiva nesta caverna — gritou de cima do caixão. — Olhem! Exibiu cautelosamente o micro defletor defeituoso. — Posso demolir toda a caverna — afirmou em tom enfático. — Sou policial. Ofereço o perdão a qualquer pessoa que me apoie na ação. Esperava que o aspecto estranho do defletor infundisse certa insegurança nos homens. — Está blefando! — gritou Clinkskate com a voz rouca. Os alto-falantes retumbavam. — Como é que ele poderia conservar um objeto destes depois de ter sido revistado? — Alguns homens viram que o Dr. Le Boeuf me apoiou — lembrou Kennof. — O doutor me ajudou a ficar com as armas. — Não é nenhum policial — berrou Clinkskate fora de si. — Não se deixem enganar. Prendam-no! — Se o senhor tem tanta certeza de que ele não tem nenhuma carga explosiva, por que não vem até aqui e nos ajuda a prendê-lo, Clinkskate? — perguntou um dos homens em tom irônico. Kennof ouviu Clinkskate praguejar. — Desliguei o robô — gritou para os homens. — Como poderia ter feito isso se não dispusesse de um treinamento de policial? — Isso parece bem plausível — confessou o homem que assumira as funções de porta-voz do grupo. — Prometemos que nada lhe acontecerá se o senhor se entregar. Os alto-falantes transmitiram as pragas proferidas por Clinkskate. Kennof soltou uma risada amarga. — Não sou criança — disse em tom penetrante. — Sei perfeitamente que a CIS não me soltará em hipótese alguma. Já sei demais a respeito de suas patifarias. Minha situação é desesperadora. Não tenho nada a perder. Passarei a formular minhas condições. — Agarrem-no logo — ordenou Clinkskate, que apareceu na porta. Seu rosto estava transformado numa 96


terrível careta. Em seus olhos brilhava o ódio. — Ele não pode impor condições. Kennof fez pontaria e atirou. O projétil penetrou no ombro de Clinkskate e atirou-o ao chão. Não foi um impacto mortal. Kennof nem pretendia que fosse. Não queria enfurecer ainda mais os homens. Dois deles levaram o ferido, que gemia fortemente. — Fale logo! — gritou alguém para o detetive. — Retire-se com seus homens por doze horas. Prometolhe que, depois disso, lhe entregarei minhas armas. Kennof subestimara o homem com quem estava falando. — Isso não tem lógica. Daqui a doze horas, sua situação será exatamente a mesma. O senhor não ganharia nada; apenas retardaria nossa ação. Naturalmente Kennof não poderia dizer-lhe que, dentro desse prazo, Shane e seus homens apareceriam por ali. — Levem o Dr. Le Boeuf como refém — disse. — Se daqui a doze horas eu não aparecer com minhas armas para entregar-me, utilizem-no para exercer pressão contra mim. O porta-voz do grupo lançou um olhar preocupado para Kennof. — Não vai danificar os recipientes? — Garanto-lhe que não! O colaborador da CIS fez um gesto afirmativo. — Vamos aceitar — disse, fazendo um sinal para os outros e abandonou a área. *** Kennof pegou o rádio. Agora tudo dependia de que Shane estivesse prestando atenção. Perdera algum tempo para descobrir aquilo que o médico pretendia mostrar-lhe.

7 Clinkskate soltou uma praga e afastou Piotrowski, que estava muito pálido. A atadura pendia frouxamente de seu corpo. — Traga o telefone — ordenou. — Faça uma ligação com Cavanaugh. Ande depressa! O médico manipulou o aparelho com os dedos trêmulos. — O senhor perdeu muito sangue — disse em tom cauteloso. — Seria preferível que me deixasse terminar logo a atadura. — Ande logo! — gritou Clinkskate. — Enquanto eu estiver falando no telefone, pode aplicar o tratamento. Deixou-se cair no sofá e colocou a mão sobre o ombro dolorido. Acompanhou os esforços de Piotrowski com um ar impaciente. — Sim — disse o médico. — Um momento, por favor. Passou o fone a Clinkskate.

— É Cavanaugh — cochichou. Clinkskate repeliu-o com um movimento do braço sadio. — Aqui, Clinkskate — disse, falando para dentro do telefone. — O diabo está às soltas, Mister Cavanaugh. Seria bom que o senhor viesse imediatamente. — Não — prosseguiu depois de algum tempo. — Um homem fugiu da sala de preparativos. Ao que parece contava com o apoio do Dr. Le Boeuf. Não; Piotrowski está a meu lado, aplicando-me uma atadura. O fugitivo atirou contra mim. Está lá embaixo, no pavilhão das câmaras de sono. Seu nome é Richard Kennof; era detetive particular. Afirma estar de posse de uma carga explosiva. Disse aos homens que é policial. Conseguiu „arrancar’ doze horas, durante as quais apenas pretende permanecer na caverna. O senhor sabe perfeitamente o que significa isso. Kennof viu o transmissor... Aguardou a resposta e disse: — Farei o possível para convencer os homens a atacarem. Espero-o. Desligou. — Cavanaugh virá o mais rápido possível — disse, dirigindo-se a Piotrowski. — Até lá devemos tentar resolver o assunto por conta própria. Tenho certeza de que o tal do Kennof andou blefando. — De qualquer maneira parece que tem coragem — objetou Piotrowski. — Tenho a impressão de que ainda nos reserva uma surpresa... — Tolice. Quanto tempo ainda vai levar para colocar essa maldita atadura? — Já está pronta — respondeu o médico. Clinkskate lançou-lhe um olhar pensativo. — Tenho uma ideia, Piotrowski — disse. — Já sei como poderemos enganar esse sujeito. — Pode falar — disse o outro em tom de expectativa. — O senhor irá para onde está ele — principiou Clinkskate. Piotrowski empalideceu. Um sorriso inseguro surgiu em seu rosto. Levantou ambas as mãos, num gesto de recusa. — Não brinque — disse em tom medroso. — Então quer que eu enfrente Kennof sozinho? — Procure puxar pela cabeça, homem! O senhor aparecerá diante dele como quem não quer nada. Conte-lhe que sentiu remorsos, que nem Le Boeuf. Dirá que resolveu juntar-se a ele. Assim que ele deixar de desconfiar, o senhor poderá subjugá-lo. — É realmente muito simples — disse Piotrowski em tom sarcástico. — Procure outra pessoa para levar avante essa linda ideia. Clinkskate gemeu enquanto se levantava num movimento apressado e caminhou em direção a Piotrowski. Seu rosto estava rubro de raiva. — O senhor se esquece de quem o tem ajudado, meu caro. Lembre-se do Canadá, onde viveu certo Fedor Piotrowski. Exijo que cumpra minha ordem. O médico recuou. O suor começou a gotejar em sua 97


testa. Falando com a voz rouca, disse temeroso. — Não irei... Clinkskate golpeou-o. — O senhor irá! — gritou. *** Acima de cada uma das câmaras havia uma tampa com uma fechadura. Esta poderia ser aberta a tiro de pistola, mas o ruído poderia atrair os homens. Kennof examinou as dobradiças e ficou satisfeito ao constatar que estas não seriam capazes de resistir à sua habilidade. Utilizou algumas peças retiradas do defletor e levantou a tampa. Puxou-a para o lado e olhou para dentro da câmara. Viu um velho de bigode e cabeça calva. Era a imagem da paz. Kennof não pôde imaginar o que esse velho estaria esperando do futuro que comprara por bom dinheiro. Quando penetrou na câmara, Kennof teve a impressão de que, de um momento para outro, seu ocupante poderia abrir os olhos e perguntar em tom áspero o que desejava. O plasma celular era mantido a uma temperatura agradável. Os pés de Kennof tocaram o fundo, quando um terço do corpo ainda estava fora do líquido. Foi caminhando para junto do homem adormecido. O corpo do velho balançava ligeiramente. Kennof, que já passara por inúmeras situações estranhas, não se sentiu muito à vontade. Mas já que começara com aquilo, iria até o fim. Seus dedos tocaram cuidadosamente o peito do homem — e recuaram abruptamente. A pele era fria como gelo! Kennof sentiu um misto de repugnância e medo. A fazenda molhada da calça grudava nas pernas. Fechou os olhos por um instante, a fim de concentrar-se. Pegou a orelha do homem adormecido e puxou-a. Foi um gesto puramente intuitivo. O órgão auditivo era de uma estranha moleza e elasticidade. De repente, a orelha desprendeu-se da cabeça! Kennof soltou um grito de pavor e cambaleou para trás. O líquido borbulhante fechou o vazio deixado por seu corpo. Aos poucos, o cérebro, que fora paralisado pelo pavor, voltava a funcionar. Seus dedos continuavam a segurar a orelha, que não sangrava. Da ferida aberta na cabeça do homem também não saía sangue. Kennof fez um esforço sobre-humano para examinar o “objeto” que segurava na mão. A iluminação fraca não permitiu que percebesse muita coisa. A orelha não era feita de carne humana. Ao que parecia, não era constituída sequer de uma substância natural. Esse fato não produziu o menor alívio em Kennof. Será que todo o corpo do homem era feito de material bioplástico? Ou será que aquilo era apenas uma máscara destinada a ocultar alguma coisa? Na vida de qualquer homem sempre surge um momento

em que se sente dominado pelo pânico. Neste instante, Kennof sentia-se abalado até a medula dos ossos. Sua estabilidade psíquica, que era muito superior à média, ameaçava desmoronar. Num gesto puramente instintivo, saiu da câmara. Por algum tempo ficou deitado junto à entrada, totalmente imóvel. Poças foram surgindo em torno dele. Assim que se refez do susto, rastejou para junto da abertura e olhou para dentro da câmara. Antes não o tivesse feito! O velho fazia estranhos movimentos de nadador. De certa maneira as funções dos membros eram inumanas, tão inumanas como qualquer coisa que Kennof já tivesse visto. Perplexo, contemplou o espetáculo fantasmagórico. Seus olhos arregalaram-se, pois de repente a pele do rosto do homem começou a desprender-se! Kennof não estava em condições de continuar a olhar para verificar o que havia embaixo da pele humana. Pegou a tampa e cobriu a abertura. Totalmente abatido, ficou estendido. O disparo de gás deixara um gosto de podre em sua boca. Não saberia dizer por quanto tempo permaneceu imóvel até que, de repente, alguma coisa embaixo dele procurou levantar a tampa... *** Aos poucos, Fedor Piotrowski foi-se familiarizando com a ideia de que deveria matar um ser humano. Com as próprias mãos! Sua vida era um rastro de maldades e baixezas. Um olhar retrospectivo fez com que o médico reconhecesse seu passado sombrio. Sabia que era mau, e acreditava que essa qualidade representava algo do qual jamais poderia afastarse. Sua maldade era de tipo diferente da de Clinkskate. Enquanto os atos deste eram marcados pelo egoísmo e pela brutalidade, Piotrowski conseguia avaliar objetivamente o seu procedimento. Em seu cérebro as noções do bem e do mal estavam nitidamente delimitadas. Suas concepções a este respeito correspondiam exatamente às de um homem decente. Toda vez que Piotrowski infringia a lei, uma voz interior lhe dizia: — Você está cometendo uma injustiça! Tratava-se de uma constatação fria, que não envolvia nenhuma autorrecriminação ou sentimento de culpa. O médico conseguira certo distanciamento de si mesmo, e por isso considerava-se uma terceira pessoa. Sua objetividade quase chegava a ser uma espécie de autonomia em relação a si mesmo. Tratava-se de uma forma estranha e inofensiva de cisão da personalidade. A autonomia não favorecia nem o bem nem o mal, que coexistiam em seu interior. Apenas estabelecia as distinções e fazia as constatações. Naquele instante, a voz interior constatou com uma objetividade total: — Fedor Piotrowski está prestes a matar um homem 98


chamado Richard Kennof! A pistola com que será praticado o ato está enfiada na bota direita. Piotrowski sabia que era perfeitamente possível que quem poderia ser morto era ele, pois aquele fugitivo parecia ser um sujeito muito astuto. Tudo dependeria de quem fosse mais rápido e esperto. Piotrowski chegou à caverna em que se encontravam as câmaras do sono e entrou. Fez o barulho necessário para que Kennof não acreditasse que quisesse entrar às escondidas. — Fique onde está — gritou Kennof do lugar elevado em que se encontrava. — O que deseja? — Quero ajudá-lo — disse Piotrowski. — Sou o colega do Dr. Le Boeuf. Os outros não sabem que estou aqui. Kennof respondeu em tom sarcástico: — Agora já sabem, pois o senhor berrou para dentro dos micro fones. “Que diabo”, pensou Piotrowski. “Como pude esquecer isso?” Kennof levantou a pistola. — Não cairei num truque idiota como esse, doutor — disse. — Dê o fora. Os alto-falantes transmitiram a voz de Clinkskate, desfigurada por uma raiva impotente: — Piotrowski, seu amador maldito! Piotrowski percebeu que Kennof se agarrava desesperadamente ao lugar em que se encontrava. E logo percebeu por quê. O detetive jogava todo o peso do corpo sobre uma das tampas que fechavam as câmaras. O médico estremeceu. “Acordou um dos monstros!”, pensou instintivamente. Atirou-se ao chão e, no mesmo instante, tirou a arma do cano da bota. Kennof encontrava-se numa posição difícil. Não podia sair do lugar, pois se o fizesse teria diante de si um atacante muito mais terrível que Piotrowski e sua pistola. Os dois atiraram ao mesmo tempo. O eco transformou a chicotada dos tiros num rugido que parecia sair das paredes rochosas. Assim que o ruído cessou, a voz de Clinkskate interrompeu o silêncio: — Acertou nele, doutor? — Não — disse Kennof em tom enfático. — Fui eu que acertei nele.

8 Owen Cavanaugh foi ao último andar e desceu do elevador. Acima dele, o helicóptero esperava na área destinada ao pouso. Cavanaugh abriu a porta de vidro e saiu para a parte inferior da cobertura. Sentiu-se atingido por uma brisa fresca, que arrastou alguns pedaços de papel atrás

dele. Cavanaugh subiu a escada que dava para a área de pouso. Quando viu o piloto sair de trás da carlinga, parou num súbito espanto. — Quem é o senhor? — perguntou em tom autoritário. — Onde está Ben? — Ben adoeceu de repente — disse o homem. — Estou aqui para substituí-lo. Cavanaugh lançou-lhe um olhar desconfiado. — Nunca o vi — disse em tom áspero. — Quem contratou o senhor? O substituto de Ben sorriu. — Foi Mister M'Artois — respondeu. — Tomara que o senhor saiba pilotar tão bem quanto Ben — disse Cavanaugh, aparentemente mais tranquilo. — O senhor logo terá oportunidade de verificar — disse o homem. — Qual é seu nome? — perguntou Cavanaugh com um débil interesse. — Jacó — disse o novo piloto. — É um nome horrível — disse Cavanaugh, enquanto entrava no aparelho. — Chamá-lo-ei de Ben. Por uma questão de hábito. — Pois não, Sir — disse Jacó em tom reverente e acomodou-se no assento do piloto. Ligou o motor e as pás da hélice começaram a rodar cada vez mais depressa. — Conhece o destino? — perguntou Cavanaugh. Teve de berrar, pois o ruído do motor sobrepujava-lhe a voz. Jacó limitou-se a acenar com a cabeça. — Preciso chegar o mais depressa possível — disse Cavanaugh. Encontravam-se acima da cidade. Outros aparelhos surgiram em torno deles. — O senhor sabe pilotar muito bem — disse Cavanaugh. — Mas receio que haja divergências sobre a hora e o local do pouso. — É possível — concordou Jacó. Cavanaugh comprimiu um pequeno objeto contra seu quadril. — Sabe o que é isto, Jacó? O piloto respondeu sem virar a cabeça: — Deve ser uma pistola de agulha. — Adivinhou meu filho. E agora vá diretamente ao Parque Nacional de Yellowstone, seja lá quem for o senhor. Jacó perguntou com a melhor calma: — Como foi que o senhor descobriu tão depressa? Cavanaugh sorriu. — Acontece que M'Artois não tem o direito de contratar quem quer que seja. Quem preenche os empregos na CIS sou eu e Mr. Clinkskate. Somos nós que fazemos a seleção. — Essa informação nos poupa uma série de perguntas — disse Jacó. — Não quer contar tudo? Cavanaugh sorriu. Parecia divertir-se a valer. — Sua insolência não o salvará — disse em tom suave. 99


— Gostaria de saber quem é o senhor e quem o mandou. — Sou o homem que vai prendê-lo. Ainda haverá outra pessoa, que no momento nem o senhor nem eu conhecemos. E o homem que o condenará. Jacó olhou para trás e acenou com a cabeça para reforçar o efeito de suas palavras. — É da polícia? — Não diretamente — esclareceu Jacó. — Sou um agente do Serviço de Segurança Solar. A pressão da pistola reforçou-se. O rosto de Cavanaugh cobriu-se de uma palidez cadavérica. — Conte logo o que há realmente atrás da Companhia do Sono — pediu Jacó. — O senhor não vai saber de nada — gritou Cavanaugh em tom selvagem. — Quer exercer pressão contra mim, a fim de obter alguma informação. Não se esqueça de que é o senhor quem está num aperto. Jacó mudou o curso do helicóptero. — Desista, Cavanaugh — disse. — Neste momento, quatro helicópteros do Serviço de Segurança Solar estão a caminho de Wyoming. Neles viaja uma dezena de especialistas que não demorarão a descobrir a verdadeira finalidade da CIS. Por uma questão de cautela, a polícia estadual de Wyoming foi notificada e enviou um forte contingente de tropas, a fim de apoiar nossos homens em caso de necessidade. O presidente da CIS gritou em tom histérico: — Isso não adiantará nada. Não existem provas contra nós. Podemos enfrentar qualquer tipo de inspeção. O senhor sabe perfeitamente que vou matá-lo. E ninguém se interporá no meu caminho. Um dia dominarei o mundo. Quer saber de uma coisa, Jacó? Sou o futuro administrador do Império Solar. Rhodan logo estará liquidado. Com o auxílio dos meus amigos alijá-lo-ei do poder. E juntamente com eles governarei o mundo. — O senhor está doente — constatou o agente em tom indiferente. — Se me matar, o helicóptero cairá. Não pode fazer nada contra mim. — Posso obrigá-lo a levar-me a Wyoming — disse Cavanaugh. — O senhor não me pode obrigar a coisa alguma — objetou Jacó. — Irei a um posto do Serviço de Segurança, onde cuidarão do senhor. Enquanto falava deixou o helicóptero cair subitamente. No mesmo instante, Cavanaugh levou uma pancada no antebraço que o fez gritar de dor. Disparou. Jacó foi atingido de raspão. Segurou a mão de Cavanaugh e virouse. Cavanaugh atirou o maciço crânio contra o tórax de Jacó. O agente curvou-se com o impacto da cabeçada. Mesmo assim conseguiu afastar a arma de Cavanaugh. O aparelho foi descendo rapidamente. Passou raspando sobre alguns telhados da cidade. Cavanaugh não conseguiu segurar mais a arma. Com uma força irresistível, Jacó puxou-o para frente. O presidente da CIS defendeu-se que nem um louco. O espaço reduzido não permitia grande liberdade de movimentos.

O helicóptero desgovernado se inclinou para o lado. Jacó viu os telhados das casas numa proximidade ameaçadora. Os ocupantes de outros veículos tiveram a atenção despertada para eles. As estridentes sereias de alarma da polícia aérea aproximaram-se velozmente. Jacó imaginava que, a fim de acompanhar o espetáculo com o coração palpitante, grandes multidões se aglomeravam nas ruas. Cavanaugh lutava que nem um animal selvagem, mas o agente conseguiu compensar a maior força física de seu antagonista por meio da experiência e da habilidade. Segurou a alavanca da direção com uma das mãos, enquanto com a outra afastava Cavanaugh. — Pare com isso — gritou. — Desse jeito nos espatifaremos num telhado. — E daí? — disse Cavanaugh e redobrou seus esforços. Num movimento inesperado, Jacó soltou a direção e bateu com a mão aberta no ouvido de seu adversário. Em cima deles surgiu um helicóptero da polícia. As sereias silenciaram. Um megafone transmitiu a voz do policial: — O senhor está bêbedo? Controle seu “pássaro”. Cavanaugh caiu com um gemido. Seu rosto parecia murcho e vazio. Sonhara um sonho curto, mas perigoso, impregnado de poder. Jacó não poderia saber que o homem inconsciente que se encontrava a seu lado era um traidor da Terra. — Pouse imediatamente! — berrou o policial. — Essa sua pilotagem é um perigo para o tráfego. Em poucos segundos, Jacó conseguiu imprimir uma rota segura ao helicóptero. Abriu ligeiramente o quebra-vento lateral e exibiu uma plaqueta, de tal forma que o ocupante do aparelho, que voava acima dele, tinha de vê-la. Num espanto indizível, o policial dirigiu-se ao colega que estava sentado a seu lado. — É um agente da Segurança Solar — disse em tom de perplexidade. — Não acredito que missões importantíssimas sejam confiadas a pessoas tão incompetentes como esta! — É sempre a mesma coisa — disse o outro. — Pessoas competentes como nós nunca recebem uma chance. De qualquer maneira, você deveria cuidar da pilotagem. Estamos a apenas trinta metros do solo. *** — Será que não poderíamos ir mais depressa? — perguntou Célia em tom de impaciência. — Há uma porção de coisas que ainda poderíamos fazer — disse Hardiston. — Geralmente o Serviço de Segurança Solar é mais rápido, mas no caso não se trata propriamente de uma missão oficial. Um simples chamado não pode levar o coronel a oferecer combate a um inimigo que nem conhecemos. Só permitiu que fôssemos porque gosta do velho Dick. Se Kennof tiver cometido um engano, o „velho’ se terá metido numa boa. A prisão de Jacó poderá custar-lhe 100


o emprego, se posteriormente se constatar que tudo não passou de um falso alarma. — Dick enviou o pedido de socorro — disse Célia em tom impertinente. — O coronel pode confiar nele. — Está certo — disse Shane com uma suave ironia. — Esse Dick é um sujeito e tanto, que vai tropeçando de um perigo para outro. — Seu monstro desalmado! — chiou Célia. Hardiston inclinou-se para frente, a fim de falar com o piloto. — O que acha? — perguntou em tom azedo. — Não sei de nada — disse este. — Apenas piloto o aparelho. Riram, sem desconfiar de que naquele momento Richard Kennof iria entrar numa luta de vida e morte.

9 A pressão exercida contra a parte interna da tampa tornou-se cada vez mais forte. “Talvez sejam apenas minhas forças minguantes que não me permitam deter o prisioneiro”, pensou Kennof. Certa vez, o desconhecido conseguira levantar a tampa por alguns centímetros. Uma mão surgira na borda do caixão. Kennof golpeou-a com a coronha da pistola. O material bioplástico esfacelou-se. Era do mesmo tipo daquela orelha que o detetive segurara poucas horas antes. A mão foi retirada apressadamente. Seria mesmo uma mão? Ou uma pata? Uma garra? Um tentáculo? Uma ventosa? Kennof não conseguiu distinguir. A aparição fora tão ligeira que apenas conseguiu ver algo de fugidio. Mas uma coisa era certa: não se tratava de uma mão humana! De repente, a visão de Kennof parecia desanuviar-se. Compreendeu a finalidade das providências minuciosas e daquilo que se dizia ser o preparo dos corpos dos candidatos da CIS. Não se tratava de adaptar o corpo dos mesmos a um sono de vários anos. A verdadeira finalidade era outra. Por meio desses preparativos, os criminosos que integravam a Companhia tinham oportunidade de estudar tranquilamente o rosto e a estatura das pessoas. Dessa forma, as máscaras de bioplástico eram cuidadosamente preparadas e colocadas nos corpos dos indivíduos que se encontravam nos recipientes. Nenhum dos fiscais do Ministério do Interior jamais tivera a ideia de entrar nas câmaras, a fim de realizar um exame mais minucioso. Atrás das lâminas de plástico transparente, os seres que dormiam no líquido amarelento eram iguais às pessoas mencionadas nas cópias de contratos, arquivadas no Ministério. Acontece que o estranho transmissor transportava os respectivos signatários a um lugar desconhecido. Nas câmaras de dormir não havia um único ser humano.

Que seres seriam estes que a CIS guardava na caverna? Seriam mutantes? Ou as vítimas de alguma experiência condenável? Para onde eram levados os seres humanos colocados no transmissor? Qual era a finalidade que Cavanaugh e seus comparsas pretendiam atingir por meio de sua ação fraudulenta? O que lhes conferia coragem para cometer um crime tão grave em pleno coração do Império Solar? O homem solitário, que se encontrava em cima da chapa de metal, não encontrou resposta a estas perguntas. Mas seria fácil descobrir uma coisa: quem se encontrava nas câmaras. Bastaria sair de cima da tampa. Gostaria que Snyder estivesse por lá para ver o que estava acontecendo. Em algum lugar de Wyoming, um grupo de homens estava a caminho para ajudá-lo. Um grupo de homens e uma mulher. Chegariam tarde! Kennof sentiu-se fraco e cansado. A roupa estava secando no corpo. Já por duas vezes sentira calafrios. Em compensação, sua mente trabalhava muito bem. O medo cedera lugar a certa resignação. A criatura presa embaixo da tampa lutava com uma força incrível pela liberdade. Mais uma vez a tampa levantou-se. Kennof encostou os pés numa tubulação, a fim de comprimi-la para baixo. Entre o detetive e seu inimigo havia apenas uns quatro milímetros de chapa de aço. No momento, a tampa formava um ângulo de trinta graus com a superfície do líquido. A mão voltou a aparecer. Kennof observou-a fascinado, sem fazer nada. A poucos centímetros de seu rosto, a mão tateava em busca de um apoio. Kennof viu dedos estranhos. Eram delicados e esguios; pareciam ter sido criados por um grande artista. A pele escura, quase negra, era atravessada por linhas e sulcos suaves. O detetive sentiu-se atirado para o lado por uma forte pancada. Foi arrancado subitamente de suas reflexões. Perdeu o apoio e teve de soltar a tampa. A lâmina redonda foi empurrada para longe, desceu por cima da borda do recipiente e caiu ao chão. Kennof retirou-se apressadamente do lugar onde estava e segurou firmemente a pistola do Dr. Le Boeuf. Ouviu o burburinho do líquido. O plasma celular agitouse. Alguns esguichos caíram aos pés de Kennof. Pareciam gotas de sangue. De repente surgiu outra mão. Estava molhada. Deixou sua marca junto à borda do caixão. Parecia um número enorme de impressões digitais. Com os olhos arregalados e a arma apontada, Kennof mantinha-se a três metros do caixão. O estranho ser parecia hesitar um pouco. Kennof sentiu uma tendência irresistível de fugir. Até mesmo a voz horrível de Clinkskate, caso o xingasse pelo alto-falante, representaria um alívio para o ex-agente. 101


Kennof soltou um grito. A cabeça da estranha criatura apareceu. Era formada por placas bioplásticas. Era uma coisa tremendamente apavorante. Os remanescentes da máscara davam certo aspecto humano àquele crânio. Parecia a caricatura de uma cabeça humana. O bigode estava quase perfeito. Completamente molhado, parecia uma centopeia colada ao rosto da estranha criatura. O resto do corpo apareceu. O monstro foi saindo para a liberdade. Num instante, Kennof compreendeu a verdade. O conhecimento que adquiriu era tão terrível e inacreditável que ameaçava subjugá-lo. Mas recuperou a força de decisão. Esvaziou o pente de balas e não esperou para ver o resultado. Quase chegou a cair escada abaixo. Clinkskate voltou a chamar. O tom de sua voz demonstrava temor. — Contra quem foram disparados esses tiros, Kennof? Kennof correu em direção ao poço de ventilação. — Contra um membro jovem da raça à qual a CIS quer entregar a Humanidade — gritou o detetive em tom indignado. — Contra um druuf!

10 “Agora ele descobriu”, pensou Clinkskate apavorado. Praguejou contra a moleza de seus homens. Kennof teria de ser eliminado o mais depressa possível. A ferida do ombro doía. Deixou-se cair para trás e apoiou-se com o braço do ombro são contra o encosto do sofá. Será que o plano concebido por Cavanaugh e por seus amigos, vindos de outro universo, tinha alguma falha? Clinkskate refletiu intensamente sobre a situação global. De certa forma, durante um processo de superposição, que se realizasse numa área próxima, o plano temporal dos druufs ficava praticamente nas vizinhanças. Na época em que a Terra começou a utilizar os transmissores no transporte regular de matérias-primas, destinadas à sua base lunar, os druufs conseguiram uma localização da frente de superposição típica para a feição instável de sua estrutura espaço-temporal. Os descendentes de insetos ficaram refletindo sobre como aproveitar-se da intensa atividade dos transmissores. Viram nela uma boa chance não só de determinar a posição da Terra, mas de avançar até o terceiro planeta do sistema solar. Mas todos os esforços foram em vão, até que foram ajudados pelo acaso. Durante um salto de transmissão, que visava a outra finalidade, um druuf ficou sujeito à influência dos transmissores terranos. Em vez dele, um saco de feijão foi parar na estação de integradores dos seres de Druufon. Por um ligeiro instante houvera uma interseção na quinta dimensão, causada pelo funcionamento simultâneo

dos transmissores. Enquanto os druufs ainda se espantavam com a presença do saco de feijão, o acaso veio em seu auxílio pela segunda vez. O druuf — transportado à Lua, em vez da leguminosa — não foi descoberto. Em virtude de um retardamento no controle do transmissor, sua vida foi salva. Os cientistas dos druufs possuíam bastante fantasia para reagir imediatamente. O saco de feijão foi atirado para trás, antes que se apagasse o rastro energético que o transmissor deixara na quinta dimensão. O alimento foi colocado no caminho correto, e sua massa foi suficiente para arrancar o druuf do satélite da Terra, antes que qualquer homem tivesse percebido sua presença. Os cálculos realizados pelos peritos dos druufs revelaram que a probabilidade da ocorrência de um segundo salto desse tipo era muito reduzida. Não era apenas a extensão da zona de superposição que interferia no fenômeno, mas também o local e o tempo do acionamento dos dois transmissores. Além disso, a massa dos dois corpos devia ser aproximadamente igual, pois só assim se tornaria possível o intercâmbio superdimensional de energia. Clinkskate não tinha a menor ideia da atividade febril que passou a ser desenvolvida pelos druufs, quando estes viram uma chance de chegar à Terra. Apesar de todas as experiências, não houve como repetir à força aquilo que o acaso lhes proporcionara. Não seria possível enviar uma nave dos druufs à Lua, a fim de informar os combatentes experimentados do Império Solar de que só deveriam acionar seus transmissores num tempo determinado e com uma carga prefixada. Os terranos teriam transformado a nave dos druufs num pequeno sol e se divertiriam a valer com a ingenuidade do inimigo. Os chefes dessa raça de insetos sabiam que seu plano só poderia ser levado avante se contassem com o auxílio de um ser humano. Tornava-se necessário estabelecer contato com alguns homens influentes, que se mostrassem dispostos a trabalhar para eles em troca de uma paga adequada. Uma nave robotizada foi introduzida com todas as cautelas possíveis no Universo einsteiniano. Sua tarefa era perfeitamente conhecida, mas extremamente difícil. Deveria trazer um ser humano. Trouxeram Lewis Shirreff, um homem que infringia a lei ao voar num barco espacial na área dos asteroides. Shirreff era um sonhador entusiasmado pela astronáutica, que gastara sua fortuna não desprezível com o pequeno veículo espacial em que estava viajando. Antes que a Frota Solar pudesse apreender a embarcação de Shirreff, este foi preso pela nave robotizada. Em Marte foram presos alguns funcionários que acobertavam o procedimento ilegal daquele homem, e uma nave espacial lançou-se ao espaço a fim de prender Shirreff. Mas o infrator desaparecera. Porcuraram em vão. Não se atribuiu maior importância ao acontecimento, pois se supunha que a nave de Shirreff tivesse sido submetida à gravitação de Júpiter. Finalmente 102


as buscas foram encerradas e o assunto caiu no esquecimento. Os druufs constataram que Shirreff não era o homem que pudesse ajudá-los. Mas, uma vez submetido a um tratamento especial pelos seres de Druufon, mostrou-se disposto a levá-los ao homem de que precisavam. A Owen Cavanaugh. Quando entre os colonos de Marte já não havia mais ninguém que apostasse um solar pela volta de Shirreff, a nave deste surgiu nos céus do planeta. A opinião pública, que festejou Shirreff como um herói, evitou que ao mesmo fosse imposta pena de prisão pela prática não licenciada da navegação espacial. O juiz concluiu que o acusado não era inteiramente capaz de entender a natureza de seu ato, e por isso aplicou uma pena extremamente suave. Lewis Shirreff teve de pagar uma multa. Dali a quinze dias viu-se diante de Cavanaugh. O inescrupuloso e rico negociante reuniu um grupo de homens dos quais se poderia esperar que fariam tudo para adquirir riqueza e poder num espaço de tempo muito curto. Em comparação com as dificuldades já vencidas, o resto foi uma brincadeira para os druufs. Cavanaugh adquiriu as cavernas do Parque Nacional de Yellowstone. Bem sob as vistas do Ministério do Interior, criou a Companhia Intertemporal do Sono. Agiu de modo aberto e assim evitou que os druufs perdessem mais tempo e se expusessem a um afastamento maior da área de superposição. Cavanaugh e seus comparsas não fizeram maior segredo ao prepararem as cavernas para suas finalidades. Por paradoxal que pudesse parecer, o fato de Cavanaugh agir em público na execução dos seus planos conferia-lhe uma segurança que nunca poderia ter alcançado num trabalho secreto. Sob o disfarce da CIS, os druufs começaram a transportar seu destacamento avançado para a Terra. Uma vez instalado o transmissor dos druufs e recebidas as primeiras pessoas que seriam postas a dormir, o resto foi quase automático. Os seres de Druufon mataram dois coelhos de uma cajadada. Puderam preparar a invasão sem que ninguém os percebesse e puderam manter constante a substância orgânica de seu universo, já que para cada druuf enviado à Terra um ser humano ingressava em sua dimensão temporal. E isto era imprescindível. Para chegar à Terra por meio de um transmissor, tornava-se necessário que simultaneamente um ser humano vivo fosse enviado ao mundo dos druufs. Era só por meio desse intercâmbio constante de energia e de matéria que se conseguia preparar a invasão com a necessária segurança. Os druufs e os gângsteres de Cavanaugh só tinham um problema: O que fazer com os invasores que iam chegando à Terra? Foi o próprio Clinkskate quem descobriu a solução. Um druuf adulto tinha uma altura de três metros. No entanto, a altura de um jovem dessa raça de

descendentes de insetos correspondia à de um homem adulto. Uma vez revestido com material bioplástico e colocado no líquido, que para ele era agradável, não havia como distingui-lo de um terrano. Enquanto os druufs cresciam no interior dos recipientes, os homens da CIS teriam tempo para construir recintos secretos no subsolo, onde os invasores poderiam esconderse. O lugar de cada druuf adulto seria ocupado por uma boneca de bioplástico, que seria igual ao ser humano adormecido atrás das lâminas de plástico. Sem desconfiar de nada, os homens entregues à Companhia do Sono encontravam-se na dimensão temporal dos druufs. Estes informaram que os terranos enviados em troca dos seres-toco continuavam vivos. Mais de dois mil candidatos ao sono já tinham chegado ao nordeste do Wyoming e caído na cilada da CIS. E igual número de druufs encontrava-se nos recipientes. “Não”, pensou Clinkskate muito zangado. “Menos dois...” Ainda não haviam prendido Kennof, e este acabara de matar um dos extraterrenos. De repente, suas reflexões foram interrompidas por uma barulheira. St. Cloud e Tober entraram precipitadamente. — Quatro helicópteros estão circulando em cima do campo de pouso — gritou St. Cloud. — Ao que parece, querem pousar. — Não parece que sejam da equipe de televisão — acrescentou Tober. Seu rosto mostrou um sorriso estúpido. Clinkskate levantou-se de um salto e empurrou-os para o lado. Saiu de seu gabinete, seguido por St. Cloud e Tober. Quando se encontravam do lado de fora, viram que o pessoal da CIS estava reunido e observava o pequeno campo de pouso. Quatro helicópteros grandes descreviam curvas. Clinkskate sentiu-se tomado pelo pânico. Esqueceu o ombro dolorido. — Estefano — disse a um dos homens parados por ali. — Pegue dois homens e arrume a caverna do sono. Esse maluco do Kennof matou um dos extraterrenos. Os restos mortais deverão desaparecer. Sei lá quem são os nossos visitantes. Estefano, um homem de cabelos louros desgrenhados e nariz aquilino, disse em tom de repugnância: — O senhor se esquece da carga explosiva de Kennof. O rosto enrugado de Clinkskate transformou-se numa máscara implacável. — Se os ocupantes desses helicópteros forem um grupo de fiscais, que nos faz uma visita de surpresa, o senhor logo saberá o que é mais perigoso — disse em tom gelado. — Kennof ou estes homens. Tober pôs a mão em concha na testa, a fim de enxergar melhor. O sol se encontrava próximo à linha do horizonte. — Estão pousando — disse em meio ao barulho. 103


— Ande depressa, Estefano — gritou Clinkskate em tom nervoso. Esperou que Estefano escolhesse mais dois homens. — St. Cloud — prosseguiu. — Acompanhe-me até o campo de pouso. Vamos cumprimentar os visitantes. Espero que, neste meio tempo, o lugar seja arrumado e recupere seu bom aspecto. Os membros do grupo saíram correndo em várias direções. — Vamos andando, St. Cloud — disse Clinkskate em tom decidido. — Quem será? — perguntou St. Cloud um tanto preocupado. — Não é ninguém cuja visita nos deva alegrar — afirmou Clinkskate. Atingiram o bosque e seguiram pelo caminho que levava ao campo de pouso. Também Clinkskate sentia-se inseguro. Os quatro helicópteros roubaram-lhe toda segurança. Evidentemente era possível que acabassem sendo inofensivos. Talvez fosse um grupo de topógrafos, que muitas vezes costumavam aparecer nas montanhas. Ou um grupo de caçadores do governo, pretendendo abater algum urso hidrófobo no parque nacional. Havia inúmeras possibilidades... Quando haviam percorrido metade do caminho, um grupo de homens aproximou-se deles. Clinkskate viu que eram onze homens e uma mulher. Traziam um equipamento estranho... e possuíam armas. Clinkskate engoliu em seco. Fez um esforço e prosseguiu na caminhada. St. Cloud soltou um rugido, que nem um animal acuado. Num gesto automático, Clinkskate estendeu o braço e cumprimentou amavelmente o grupo que se aproximava. Pararam. Para Clinkskate, no momento, estes eram os homens mais perigosos de todo o universo. Admirou-se por conseguir ficar parado tranquilamente. — Este terreno é particular — disse. Sua voz era amável, mas firme. — Vejo-me obrigado a indagar pelo motivo da visita de vocês. Um homem alto, de aspecto melancólico, deu alguns passos em sua direção. St. Cloud recuou instintivamente. — Meu nome é Shane Hardiston — disse o homem. Em seu cinturão estava pendurada uma arma. Jamais Clinkskate poderia imaginá-la ali. Em suas costas havia uma caixa presa a correias de couro. Clinkskate disse seu nome. — Sou um dos diretores da CIS — disse. — Ali ficam nossas cavernas do sono. Nenhuma pessoa não autorizada pode entrar nelas. Hardiston tirou alguma coisa do bolso e mostrou-a. St. Cloud, que olhava por cima do ombro de Clinkskate, soltou um grito assustado. Clinkskate umedeceu os lábios. — Então são do Serviço de Segurança Solar — disse com um sorriso. — Sentimo-nos honrados!

O agente olhou para além dele, como se esperasse que a qualquer momento fosse aparecer alguém no caminho. — Estamos à procura de um homem — falou Hardiston, depois de algum tempo. — Seu nome é Richard Kennof. Clinkskate se fez de pensativo. — Será que se refere a um dos nossos clientes? — perguntou. — Acho que me lembro de uma pessoa com esse nome. Dirigiu-se para St. Cloud. — Sabe alguma coisa a respeito dele, Davi? — Não sei — gaguejou St. Cloud. — Isto é... — Parece que a visita dos senhores está deixando o coitado do Davi totalmente confuso — disse Clinkskate em tom complacente. Nos olhos de St. Cloud estava escrito o medo. “Que vá para o inferno”, pensou Clinkskate. “Por que é que esse molóide não procura controlar-se?” Fez um gesto convidativo e, dirigindo-se a Hardiston, disse: — Poderemos verificar logo se esse Kennof está por aqui. Se quiser fazer o favor de acompanhar-me até as cavernas, tudo ficará esclarecido. Sua voz assumiu um tom confidente. — Será que Richard Kennof é um criminoso procurado pela polícia, que recorreu à CIS para atingir suas finalidades escusas? — É um policial — disse Hardiston em tom seco. Fez um sinal aos seus homens, e o grupo pôs-se em movimento. — Que aparelhos esquisitos eles trouxeram! — cochichou St. Cloud. — Cale-se, seu idiota! — respondeu Clinkskate. Vez por outra, a luz do sol irrompia entre a densa folhagem, desenhando sombras fugazes sobre os rostos dos homens. Seus pés levantavam folhas secas que eram atiradas para o lado e esvoaçavam por algum tempo acima do chão. Às vezes, os aparelhos e instrumentos, que os agentes traziam, tilintavam. Clinkskate lançou um olhar de esguelha sobre os rostos angulosos desses homens. Dessa escolta não poderia esperar qualquer contemplação, se esta descobrisse o que havia no interior das cavernas. E eles descobririam! A única saída seria a luta e a fuga. Um plano começou a adquirir concretude no cérebro de Clinkskate. Quando saíram do bosque, Tober encontrava-se na área livre que ficava à frente das cavernas. Fitou Clinkskate com um misto de preocupação e curiosidade. Clinkskate teve o cuidado de manter-se à frente do grupo. Só a entrada do edifício da administração estava aberta. — Vamos entrar aqui — disse Clinkskate em tom amável. — Se for uma armadilha, o senhor não terá muito tempo para regozijar-se — anunciou Hardiston com a voz fria. Clinkskate fitou-o como se não entendesse. 104


— O que quer dizer com isso? — perguntou em tom indignado. Enquanto falava, agarrou St. Cloud e empurrou-o contra Hardiston. Os dois homens esbarraram um no outro. Clinkskate viu o agente pôr a mão na arma. Correu para dentro da caverna. Antes que Hardiston conseguisse desvencilhar-se, Clinkskate fechou os grandes portões. Saiu apressadamente pelo corredor a fora. Os primeiros funcionários da CIS apareceram à sua frente. — Vamos embora! — gritou. — O Serviço de Segurança Solar está no nosso encalço. Seu braço escorregou para fora da tipoia preparada por Piotrowski. Ao que parecia, a ferida se abrira no momento em que empurrou St. Cloud. — Vamos todos para a estação do transmissor — gritou. — Coloquem barricadas nas galerias e introduzam gás nos corredores. Estava cercado por homens apressados e suarentos, que investiam contra ele com um arsenal de perguntas. Ouviuos correrem a seu lado. — Distribuam as armas — ordenou. — E não se esqueçam de ligar as armadilhas. Há apenas onze homens lá fora. Em poucos minutos, o setor administrativo estava vazio. Uma explosão ensurdeceu Clinkskate. Alguns homens ficaram parados. O chão estremeceu e pedras caíram do teto e das paredes. — Vamos! — Clinkskate tangia os homens sem a maior contemplação. — Querem dinamitar a entrada. Devemos dar o fora antes que consigam. De repente sentiu o cheiro de algo que queimava. Um incêndio devia ter irrompido em algum lugar. Lembrou-se de Estefano e de seus dois acompanhantes, que pretendiam dominar Kennof. Onde estariam? A unidade energética estava envolta em densas nuvens de fumaça. As chamas erguiam-se à entrada, situada em nível mais elevado. No pavimento inferior devia lavrar um incêndio muito forte. Kennof devia estar lá, ou então Estefano. Provavelmente tinham sido os causadores do incêndio. Os olhos de Clinkskate começaram a lacrimejar. Ao seu lado homens tossiam enquanto se deslocavam em meio à fumaça. Clinkskate ordenou em tom enérgico: — Temos de passar! Tragam panos... As palavras foram tragadas por uma explosão. O ar comprimido atravessou o corredor. A respiração ali tornou-se difícil. Procurou controlar-se e fez um esforço para ordenar as idéias. A essa altura, os agentes já deviam ter aberto o portão. Mas teriam de avançar com a maior cautela pelos corredores, pois não sabiam em que ponto teriam de enfrentar uma resistência. Alguém colocou um pano úmido nas mãos de Clinkskate. Comprimiu-o contra o rosto e correu para dentro das nuvens de fumaça. ***

As fúrias do inferno pareciam estar às soltas em torno de Kennof. Este rastejou. Do lado oposto do recinto, as chamas subiam. Há uma hora, três homens apareceram por ali e procuraram caçá-lo. Com o último tiro disparado da pistola de Piotrowski, Kennof conseguiu pôr um deles fora de combate. Quando os outros responderam ao fogo, uma máquina foi atingida atrás de Kennof. Fagulhas azuis caíram ao chão, e o fogo logo se espalhou. Na confusão, o detetive conseguiu escapar mais uma vez. Os inimigos deviam estar atrás da cortina de fogo. Provavelmente só podiam cuidar de si mesmos. Kennof sabia que só podia salvar-se por meio de uma ação rapidíssima. Depois de sair do poço, dirigira-se imediatamente à caverna destinada aos preparativos. Ali, onde ficavam os grandes geradores, ainda teria uma pequena chance de causar dificuldades à CIS. Acontece que o aparecimento dos três guardas estragou seus planos. Kennof ouvira as duas explosões, mas não sabia dizer do que se tratava. Por que não aparecia ninguém para apagar o fogo? Enquanto rastejava, o detetive tossia. À sua frente, em meio à cortina de fogo, fumaça e cinzas, um objeto queimado caiu ruidosamente ao chão. Um homem saiu cambaleando em meio às chamas. Suas roupas estavam chamuscadas em alguns lugares. Segurava uma arma. Kennof atirou-se contra as pernas do outro. Sentiu que este perdeu o apoio e caiu ao chão. O detetive virou-se, respirando com dificuldade. Um pedaço de madeira queimada passou por eles que nem um fogo-fátuo. Quando se concentrava no inimigo, ouviu uma voz rouca vinda do lado: — É você, Estefano? — Rápido — gritou o homem deitado embaixo de Kennof. — Aqui! Numa clareza súbita, Kennof viu outro homem parado bem perto dele. Alguma coisa tocou seu quadril. Tratava-se de algo que passou num abrir e fechar de olhos, deixando em Kennof uma dor martirizante. A sala começou a girar em torno do detetive, e este caiu para trás. Quando ouviu o homem que se encontrava a seu lado sair rastejando, estava quase inconsciente. — Este está liquidado — disse uma voz. — Vamos dar o fora. “Os druufs”, pensou Kennof com as últimas forças que lhe restavam. “Preciso deixar um aviso para Shane.” O fogo crepitante ia-se aproximando... *** As enormes mãos de Hardiston cerraram-se em torno de uma barra de ferro oculta e puxaram-na para o lado. — Célia e Zekizawa ficarão aqui — ordenou. — Os outros irão comigo para dentro da caverna. Payne encarregue-se do aparelho de localização. Não se esqueça de que podemos encontrar armadilhas pela frente. 105


Passou por cima dos destroços do portão e saltou agilmente um buraco. — Não atirem se não for necessário — ordenou Hardiston. — Não queremos atingir pessoas inocentes. Fiquem com as máscaras preparadas, pois é possível que encontremos gases. Maliverney, não se esqueça de verificar constantemente a pressão atmosférica. Lohnert e Adams, venham comigo. Esperou até que os dois agentes se encontrassem a seu lado. Por um instante Célia viu a figura enorme de Hardiston na entrada aberta a dinamite, mas logo sumiu no corredor escuro. Os outros o seguiram... *** A cabeça de Clinkskate parecia girar. O corpo fustigado pelas dores só conhecia um objetivo: a estação do transmissor. — Todas as instalações estão queimando! — gritou alguém que se encontrava atrás dele. Clinkskate tinha certeza de que este incêndio representava o fim de mais de dois mil druufs. Os descendentes de insetos ainda eram muito jovens e achavam-se indefesos para escapar com suas próprias forças do inferno desencadeado em torno deles. Os condutos, que levavam aos recipientes, já haviam sido interrompidos. Em algum lugar, o líquido nutritivo se entranhava no solo das cavernas. E os tubos de oxigênio deixariam de conduzir ar respirável, para levar fumaças sufocantes. Um homem puxou seu braço. — Não conseguiremos passar — gritou para Clinkskate. Este reconheceu o rosto desfigurado de Eberhard. Provavelmente seu aspecto não era muito melhor. — Temos de chegar ao transmissor — gritou. — É a única chance de sairmos daqui. — O fogo está em toda parte — gritou Eberhard em tom de desespero. — Não conseguimos chegar aos equipamentos de combate ao incêndio. Deveríamos tê-los espalhado por toda parte. Clinkskate chutou uma peça de plástico em chamas. — Acredita que isso adiantaria alguma coisa? — perguntou em tom irônico. Viu uma fresta entre duas máquinas. Atrás dela, o fogo ainda não se espalhara. Por alguns segundos o cheiro de óleo lubrificante misturou-se ao fedor causticante. Como se estivesse paralisado, o braço ferido pendia ao lado do corpo de Clinkskate. Continuou a avançar. Ouviu atrás dele o grito de um homem atingido por uma peça em chamas. Fazia votos de que nem todos os homens conseguissem chegar ao transmissor com ele. Se o aparelho funcionasse, apenas poucos poderiam escapar. Um vulto estava estendido à sua frente. As vestes

achavam-se tão queimadas que Clinkskate não saberia dizer quem era. Inclinou-se sobre o vulto. Eberhard juntou-se a ele. — Vire-o — ordenou Clinkskate. Eberhard colocou o corpo de costas. Era Estefano. Ainda respirava. Clinkskate sacudiu-o. Estefano abriu os olhos. — O que é feito de Kennof? — perguntou Clinkskate. Houve uma reação débil nas pupilas do homem quase inconsciente. — Conseguiu liquidá-lo? Estefano abriu a boca para dizer alguma coisa, mas as cordas vocais recusaram-se a obedecer. Clinkskate sacudiuo brutalmente. — Vamos logo! Fale! — gritou. — Deixe-o em paz — disse Eberhard em tom de repugnância. — Vamos embora antes que seja tarde. Clinkskate levantou-se. Chamas azuis começaram a levantar-se atrás das máquinas. A tinta começou a formar bolhas. — Atenção! Seu braço estendido apontava para frente. O caminho, que levava ao corredor da estação do transmissor, estava em chamas. Não poderiam prosseguir sem arriscar a vida. — Estamos cercados pelo fogo — disse Clinkskate em tom apático. À sua frente estava o inferno... E atrás deles havia outro! *** Apesar de todo o cuidado, não perceberam a primeira armadilha. Subitamente Maliverney, que ia à frente dos outros, soltou um grito e cambaleou para trás. Hardiston segurou-o. Os objetos metálicos que Maliverney trazia no corpo emitiram um brilho estranho. Hardiston não perdeu tempo: arrancou o equipamento de cima do corpo do agente. Em todos os lugares em que o metal tocara diretamente a pele de Maliverney, havia queimaduras graves. — O contato deve ficar nestas paredes — disse Hardiston em tom zangado. — Provavelmente instalaram um aparelho de localização. Assim que surge qualquer tipo de metal em sua área de influência, dá-se a radiação e o aquece ao ponto de ficar incandescente. Maliverney cochichou com o rosto desfigurado pela dor: — Ainda bem que Pounds não estava no meu lugar. Ele tem três dentes de ouro. Pounds resmungou alguma coisa em tom indignado e os outros se obrigaram a rir. — Se não conseguirmos destruir a instalação, só nos restará uma saída: prosseguir sem armas e equipamento — disse Shane. — O que devemos fazer? — perguntou Adams em tom deprimido. 106


— Isto! — Hardiston puxou a arma e disparou contra a parede de rocha. Os outros seguiram seu exemplo. — Pelo menos vamos danificar o aparelho de localização — disse Lohnert em tom esperançoso. Fecher tirou uma pá de ferro de seu equipamento e atirou-a na direção da perigosa barreira, que, apesar de sua invisibilidade, quase teria feito uma vítima. Não aconteceu nada. — Isso está liquidado — disse Adams em tom de satisfação e saiu correndo. — Pounds, fique com Maliverney. Procure levá-lo para junto de Célia. Ela cuidará dele. Adams levará sua bagagem. Adams voltou correndo para cumprir a ordem. — Como será que a CIS consegue fazer armadilhas como esta? — perguntou Fecher em tom de espanto. Hardiston fez sinal para que prosseguisse. Alguns metros adiante, uma parede metálica interpôs-se no seu caminho. — Temos que dinamitar de novo — disse Lohnert. Baixou seu equipamento e começou a desenrolar vários cabos. — Espere aí! — ordenou Hardiston. — Imagino que com a detonação seremos esmagados pela montanha. Temos que descobrir outro meio. — Poderíamos usar o explosivo para abrir uma passagem lateral — sugeriu Adams. — O resultado seria praticamente o mesmo — objetou Shane. — Poderíamos utilizar cargas reduzidas, mas nesse caso levaríamos algumas horas para chegar ao corredor principal. Fecher bateu com a pá contra o obstáculo. Lohnert ouviu atentamente. — Pelos meus cálculos tem cinco centímetros de espessura — disse. — Vamos abrir isso a maçarico — decidiu Hardiston. — É a única maneira de prosseguirmos sem risco. — A parede não é de lata; tenho certeza absoluta — observou Benson, um homem pequeno e calado, de olhos negros e cabelo rebelde. — A garrafa de oxigênio — ordenou Hardiston. — Monte o maçarico, Adams. — Quem dera que tivéssemos uma queimadora termonuclear — disse Lohnert com um suspiro. — Teremos de arranjar-nos sem ela — Hardiston colocou uma mangueira no bocal do queimador e prendeu-a com um grampo. — Mande o gás. Dali a pouco a mistura de oxigênio e acetileno foi acesa. Na ponta da chama reinava uma temperatura de cerca de 1.600 graus. Hardiston colocou o queimador. Um feixe de chamas foi jogado para trás. — Não adianta — disse o agente em tom resignado. — A parede consiste em várias camadas entre as quais há espaços ocos de menos de um milímetro. Nestas condições

é quase impossível atravessá-la. Levaríamos uma eternidade. Fechou o suprimento de oxigênio e a chama apagou-se com um leve estalo. Os homens observavam-no em silêncio. — E agora? — perguntou Fecher. — A parede avança um bom pedaço para o interior da terra — anunciou Lohnert. — Se dentro de três minutos não nos ocorrer uma ideia melhor, teremos de usar dinamite — sentenciou Hardiston. Sete homens fitaram-no. Em seus olhos brilhava a decisão firme de romper a barreira, fosse como fosse.

11 O Dr. Le Boeuf ficou atento para ouvir o que se passava na escuridão. Antes que recuperasse a consciência, um fato decisivo acontecera. Tateou até a porta do cubículo em que fora preso. Ao notar que não estava trancada, ficou espantado. Saiu cautelosamente para o corredor. Também aqui a escuridão era completa. Parou por um instante para orientar-se. Sentiu o cheiro de fumaça. À frente dele, devia ficar o poço de ventilação da caverna do sono. O médico prosseguiu com as mãos estendidas para a frente, a fim de facilitar sua orientação. Pela primeira vez seu subconsciente deu um sinal de que houvera uma modificação naqueles subterrâneos. Le Boeuf não tinha um plano definido. Avançou aos tropeções, e seus pés encontraram a borda da abertura capaz de dar passagem a um homem. Esteve prestes a entrar na mesma, quando teve outra ideia. Lembrou-se do transmissor. Se conseguisse sabotar a estação, poderia desferir um golpe duro contra a CIS e os druufs. Os traidores teriam dificuldades quase insuperáveis para construir outro transmissor. Acontece que pouca coisa poderia fazer com as mãos desarmadas. Mas subitamente lembrou-se de algumas palavras de Clinkskate. — Em hipótese alguma, o transmissor deve ser acionado se no plano dos druufs não for enviada simultaneamente uma massa correspondente. Qualquer infração a esta regra poderá causar uma catástrofe. O que aconteceria se ele, Le Boeuf, acionasse o transmissor sem que os druufs soubessem disso? Será que seu corpo se dissolveria e desapareceria para todo o sempre em alguma dimensão sobreposta? Mas o equilíbrio energético entre o plano dos druufs e o Universo einsteiniano, que era mantido automaticamente, levaria a outra conclusão. O espaço de cinco dimensões o atiraria para trás. O médico não sabia formar uma ideia precisa do volume de 107


energia que seria liberado com isso. Mas tinha certeza de uma coisa: essa energia seria suficiente para destruir o transmissor. E destruiria também outras coisas. Durante a execução do plano o Dr. Le Boeuf encontraria a morte. Não sentiu medo nem remorsos. Caminhava apressadamente pela escuridão. Era um homem baixo e sardento que, nas últimas horas de vida, adquiriu a consciência de sua responsabilidade perante a raça a que pertencia. *** Lohnert soprou uma mecha de cabelo. Na testa de Benson, o suor porejava. Tiveram de ligar suas lanternas, já que as luzes se apagaram de repente. Vez por outra, o rosto de um homem surgia num feixe de luz. — O tempo passou — disse Shane Hardiston. Seu corpo projetava uma sombra gigantesca contra a parede. Adams e Fecher dirigiram as luzes de sua lanterna para o detonador eletrônico de Lohnert. O agente mexia nos fios. — Atenção! — gritou Benson de repente. A luz de suas lanternas iluminava a barreira metálica, que ia subindo lentamente. Os membros do destacamento especial do Serviço de Segurança Solar pegaram as armas. Uma nuvem de fumaça passou por baixo da parede divisória. Espalhou-se rapidamente. — Gás! — gritou Fecher e pegou a máscara. Hardiston não se abalou. Farejou o ar. Depois de algum tempo, sacudiu a cabeça. — Lá dentro há um incêndio — disse. A barreira parou a cerca de cinquenta centímetros de altura, rangendo fortemente. A fumaça amarela continuava passando pela abertura. — Deve estar empenada — disse Thatcher. — O caminho está livre. Quando o primeiro colaborador da CIS passou pela abertura, avistou um vulto. Hardiston baixou o cano do paralisador. Esse homem já não seria capaz de pensar, embora segurasse uma faca. Em alguns lugares, as vestes totalmente queimadas deixavam entrever pedaços de pele chamuscada. — Ajudem-no — ordenou Hardiston. Agindo com a maior cautela, Adams e Lohnert puxaram o ferido para fora da abertura. O homem gemia de dor. — Ali vem mais gente — disse o grandalhão. — Receiam que atirem contra eles. Hardiston colocou a máscara e inclinou-se para falar através da abertura. — Saiam e entreguem-se — gritou para dentro das nuvens de fumaça. — Não atiraremos. Dali a pouco, suas mãos agarraram alguma coisa e outro corpo foi arrastado para o lado de cá da parede metálica. Alguns minutos depois, quarenta homens, que apresentavam queimaduras leves e graves, encontravam-se

em poder dos agentes do SDS. Um desses homens era Clinkskate... — O que é feito dos homens adormecidos? — disse Hardiston, superando o gemido dos prisioneiros. — Serão queimados! Clinkskate abriu as pálpebras vermelhas. Seus cílios estavam chamuscados. — Não se preocupe — disse com a voz rouca. — Não há mais ninguém lá dentro. A atadura de Clinkskate estava transformada numa crosta gosmenta feita de fuligem, sangue e sujeira. O corpo atingira o estágio de esgotamento em que o homem se torna incapaz de sentir dor. — O que quer dizer com isso? — perguntou Hardiston em tom insistente. — Onde estão as pessoas adormecidas? — As pessoas adormecidas estão ali mesmo — disse Clinkskate em tom apático. — Acontece que não se trata de gente. São druufs. As pessoas, que o senhor procura, encontram-se num planeta situado no plano dos druufs. — Está fantasiando — ironizou Fecher. — Não, é verdade — opôs-se um dos colaboradores da CIS que se encontrava agachado ao lado de Clinkskate. — Quando o fogo cessar, o senhor mesmo poderá ver. É bem verdade que, quando isso acontecer, os monstros já estarão mortos. O fogo destruiu os dutos que levam aos recipientes. — O que houve com Richard Kennof? — perguntou Hardiston em tom apressado. — Ele fugiu — respondeu alguém. — A esta hora deve estar morto. Hardiston levantou-se. — Preciso de dois voluntários para procurar o velho Dick — disse em tom tranqüilo. — Os outros ficarão aqui para cuidar destes homens. Todos se ofereceram. — Thatcher e Lohnert — decidiu Hardiston. Colocaram as máscaras. — Ninguém deverá seguir-nos — disse Shane. — Nem agora nem depois. *** O Dr. Le Boeuf segurou a barra de metal e passou por ela. A estação do transmissor era totalmente independente das outras cavernas. Se houvesse cabos que saíssem da unidade energética e levassem para ela, isso poderia provocar suspeitas. Nesse caso, um belo dia, algum funcionário mais curioso teria a ideia de seguir esses cabos e acabaria fatalmente na caverna secreta. O Dr. Le Boeuf não sabia quanto tempo se passaria antes que o transmissor entrasse em funcionamento. E isso pouco lhe importava. Sentado no chão frio, mantinha-se à espera. Mais de dois mil homens estiveram no mesmo lugar antes dele... e contra sua vontade. E ele ajudara a cometer esse crime. Um sorriso amargo surgiu em seu rosto. O ato, que estava prestes a cometer, lhe restituiria o autorrespeito. Era só o que importava. Será que sentiria dores? Foi atingido por uma sensação que não passou de um 108


ligeiro sopro, mas que o desvencilhou de todos os problemas. A metamorfose provocada pelo transmissor teve início. A estrutura atômica do médico foi convertida num impulso hiperenergético e atirada para uma dimensão inconcebível. Normalmente ali teria penetrado na área de influência do transmissor dos druufs. Acontece que estes ignoravam o Dr. Le Boeuf e seus planos temerários. Dessa forma permaneceu por um tempo que, para as concepções humanas, não tem correspondente numérico. Depois disso, foi atirado de volta. Mas o que surgiu no transmissor não foi o Dr. Le Boeuf. E sim um volume de energia indômita! *** Célia Mortimer não tirava os olhos da entrada aberta a dinamite. Zekizawa, que percebia a direção de seu olhar, não disse nada. Ficou de olho em St. Cloud e Tober, empenhados numa discussão acalorada. Pounds levara Maliverney ao campo de pouso, a fim de colocar o homem ferido numa cama de dobrar. O sol já desaparecera atrás do bosque. Um vento fresco soprava por cima das copas das árvores. Bem no alto, uma águia descrevia círculos. “Para esta criatura, não tenho a menor importância”, pensou Célia. “Seu olhar atinge o infinito e sua vida é feita da luta e da caça.” Subitamente o chão começou a tremer. Dois punhos gigantescos pareciam sacudir a montanha, a fim de rasgá-la em duas. Um rugido surdo saiu das cavernas. Uma fina nuvem de pó surgiu acima da rocha. Grandes pedaços de rocha pareciam levitar no ar.

Célia viu Zekizawa abrir a boca para dizer alguma coisa, mas o barulho foi tamanho que abafou as palavras. As entradas das cavernas, que ainda estavam fechadas, fenderam-se. A montanha parecia rachar. Zekizawa atirou-se ao chão e arrastou Célia consigo. O fenômeno terminou tão de repente como havia começado. Uma poeira cinzenta saiu das cavernas. Célia choramingava baixinho. Zekizawa ouviu Tober dizer a St. Cloud: — Só pode ter sido o transmissor. “Deve ter enlouquecido de medo”, pensou o agente. Subitamente, alguns vultos escuros e irreconhecíveis saíram das cavernas. — Estão vivos — gritou Zekizawa e correu ao encontro dos homens. Célia reconheceu Fecher, Hardiston e Benson. Alguma coisa comprimiu sua garganta. Onde estava o velho Dick? Lohnert arrastava Thatcher, que parecia ferido. Os homens da CIS seguiram-nos. Era um grupo de pessoas cambaleantes, exaustas, semimortas. — Célia — gritou uma voz rouca. Uma das figuras cobertas de pó e fuligem levantou o braço. — Ali está ele — disse Zekizawa no tom indiferente que lhe era peculiar. — O velho Dick. Estas palavras representaram um alívio para Célia. Kennof aproximou-se cambaleando. Em seus olhos cansados surgiu um ligeiro brilho, que mal e mal foi percebido por Célia. — Como vai Buster? — perguntou com a voz rouca. Tombou para frente e teria caído ao chão, se Zekizawa não o tivesse segurado.

Os “adormecidos” não mais seriam capazes de conquistar o Império Solar — esta é a conclusão que poderia ser extraída desta história. Em O Caso Columbus, título da próxima aventura, o Império Solar sofrerá um ataque direto de incalculáveis dimensões...

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Nº 88 De

K. H. Scheer Tradução S. Pereira Magalhães Digitalização Arlindo San Nova revisão e formato W.Q. Moraes

A Terra coesa contra a invasão dos seres descendentes de insetos!

Uma espaçonave arcônida encalhada na Lua, descoberta por Perry Rhodan, foi o ponto de partida para a unificação política da Humanidade e a pedra angular do Império Solar. O fato de que este Império — minúsculo em comparação com as demais potências do Universo — ainda continua existindo e ainda não se transformou num inferno atômico, ou não foi degradado a uma simples colônia de Árcon, só pode ser atribuído às magistrais jogadas dos terranos, aglutinados em torno de Perry Rhodan, no grande xadrez das Galáxias — e também à sorte, que, como fato permanente, é exclusiva dos fortes. No entanto, a fantástica linha da sorte, que, conjugada com os inteligentes esforços de Rhodan, conseguiu até hoje ocultar a posição da Terra nas Galáxias, parece ter chegado ao ponto de ruptura iminente. O Império Solar sofreu, nos últimos tempos, uma série de pesados reveses, embora nenhum deles justificasse a entrada em vigor do CASO COLUMBUS. Mas, agora, a situação atingiu este ponto crítico, este clímax, e surge então a pergunta angustiante: TERÁ O TÃO JOVEM IMPÉRIO FORÇA SUFICIENTE PARA RESISTIR A UM ATAQUE DIRETO? 110


apressados, nem lentos. Seu rosto não denotava nenhuma 1 expressão particular. — Quem foi que tocou o alarme? — Eu, senhor — disse o sargento erguendo a mão. Com cuidado especial, o sargento Bidge conferia seu Abucot o mediu de alto a baixo, com severidade. registro no livro de assentamento dos rádios recebidos, — Quem é “eu”? — perguntou friamente. referente ao dia 11 de maio de 2.044. — Primeiro-sargento Bidge, senhor. Tratava-se de um hiper-rádio 76-Hy-11-5-44, enviado — Assim soa melhor. E o que está acontecendo? num código em vigor na época, entre as forças espaciais, “A pergunta não está bem feita”, pensou Bidge um tanto com a duração de um décimo de segundo, num ângulo de irritado. “Abucot parece estar de novo num de seus dias de incidência do setor espacial M-13, conforme a medição do superpedantismo.” raio direcional. Bidge se levantou, fez posição de sentido e com voz Com esta constatação, teria normalmente terminado o bem acentuada disse: trabalho de Bidge, se o aparelho automático de — O radiograma captado há poucos instantes, antidistorção não tivesse estampado na fita perfurada, além proveniente do Setor M-13-Hércules, está assinalado com a dos sinais habituais, um símbolo muito especial. sigla pessoal do primeiro mandatário do Império Solar, no Este sinal, colocado no final do radiograma, foi também texto original. assinalado no corpo do texto. Assim, o sargento Bidge não Estas duas últimas palavras, Bidge não precisou dizer precisaria esperar pela demorada no mesmo tom marcial das outras, para interpretação de uma mensagem, cuja fazer com que o Major Abucot desse Personagens principais deste gama de chaves de códigos se estende um pulo de espanto ou surpresa. episódio: por 4,6 bilhões de possibilidades. Curioso, mas com um sentimento de Reteve a respiração, quando a repentina superioridade, olhou de novo Perry Rhodan — Administrador do máquina, por meio de um tilintar firme para o oficial, cujos olhos Império Solar. estridente, denunciou a antidistorção. O pareciam querer penetrar nas tiras que apareceu diante dos olhos plásticas. Atlan — Grande amigo da Terra e, agora, o REGENTE DE ÁRCON. estupefatos de Bidge foi uma fita — Realmente — disse Abucot plástica com um emaranhado, tentando reassumir seu porte de homem Julian Tifflor — Intrépido aparentemente sem sentido, de pontos, comedido. Olhou em volta, como que comandante da Califórnia. traços e figuras geométricas de miríades procurando um apoio em alguém. — de formas diferentes, para cuja Isto não é uma brincadeira, sargento? Sargento Bidge — Quem recebeu o interpretação, mesmo um cérebro — Pelo amor de Deus! Jamais faria hiper-rádio selado de Rhodan. eletrônico de alta categoria, precisaria isto. John Marshall — Chefe do Exército mais de meia hora. O espigado sargento de serviço de Mutantes. Assim sendo, era de todo impossível deixou escapar um soluço. O major se a Bidge pegar alguma coisa do sentido mostrou preocupado em voltar ao seu Gucky — O rato-castor mutante. do radiograma. Mas o sinal que estava estado de perene serenidade. Seu rosto no fim lhe era bem compreensível: estreito voltou de novo à mais completa — “I-Rho-Ad-T” — repetiu bem baixo. falta de expressão. Senhor absoluto de si mesmo. Estava tão perplexo que por uns instantes não ouviu — Muito obrigado. O alarme está terminado. mais o zumbido e os pequenos estalos do aparelho Tocando de leve na larga pala do boné de serviço, automático em funcionamento. O sargento Bidge estava a passou empertigado pela comporta blindada, que já estava serviço do Departamento de Decifração de Códigos do aberta. Mas, ainda antes de desaparecer de todo no Ministério da Defesa Solar. corredor, o pessoal do Departamento de Decifração pôde Uma olhada para o relógio lhe indicou que havia perceber que os pés do Major Abucot, de repente, se perdido três preciosos segundos. Quando o telegrafista aceleraram ao máximo. percebeu o gesto brusco com que Bidge pôs a mão no botão Bidge olhou de novo para o relógio. E sorrindo um de alarme, levou um enorme susto. pouco vagamente, falou: — Epa! Que é isso... — O velho major ficou contente de uma hora para a O toque estridente das sirenes o impediu de terminar a outra, não é? Até a comporta ainda conseguiu bancar o frase. Bidge esperou até que o oficial de serviço aparecesse homem sereno, dono de si. Aposto meu salário que ele na comporta de deslizamento automático. O Departamento agora está correndo pelo corredor afora, pelo menos com a de Decifração do Ministério da Defesa Solar estava metade da velocidade do som. incluído no setor de sigilo de primeiro grau. — Vamos dizer com vinte quilômetros por hora — Conhecido por suas maneiras pedantes, o Major Abucot atalhou um outro operador de rádio. — Aí não haverá se aproximou com passos solenes, que não eram nem nenhum exagero. 111


— Mas de qualquer maneira, ainda bem veloz, para sua serenidade — completou Bidge. — Alguém se recorda de ter algum dia recebido um rádio direto de Perry Rhodan? Sem passar por uma estação intermediária ou um transmissor camuflado em qualquer nave no espaço? Ninguém respondeu no momento. O homem, sentado a seu lado, passou as costas da mão na testa, para tirar o suor. — Sei apenas que, em todo meu curso de telegrafia, me martelaram na cabeça que a posição da Terra no espaço devia permanecer tão secreta, que ninguém poderia se atrever a transmitir diretamente para ela. — Pois é! Para evitar que possam descobrir sua posição, não é? E como pode acontecer então, que exatamente o homem que nos impôs esta lei, venha a infringir de maneira tão perigosa sua própria proibição? Voltou a reinar o silêncio naquela repartição tão vital para os grandes interesses do Império Solar. Todos se entreolhavam preocupados. Sabiam que devia ter acontecido algo muito importante na Via Láctea, importante e imprevisível. A partir daí, a atenção da equipe do setor de decifragem se concentrou exclusivamente no aparelhamento automático de descodificação, que, inclusive, já havia sido alimentado com a fita, tendo no final a sigla de Rhodan. Um minuto mais tarde, era o Major Abucot quem chamava. Exigia a imediata transmissão do texto decifrado. Bidge concordou. — Daqui uns vinte minutos, senhor. O aparelho está trabalhando. — Apresse o máximo que puder — respondeu Abucot, nervoso. É claro que ele sabia que não havia possibilidade alguma de ir mais depressa. O aparelhamento eletrônico tinha seu curso certo. *** — ...permita-me uma pergunta, meu amigo: você está bêbado? O Marechal Allan D. Mercant, Ministro da Segurança Solar, sorriu tranqüilo. Vagarosamente colocou sobre o porta-folha da escrivaninha uma espátula de abrir cartas, toda trabalhada em metal de Luur. Pelas altas janelas térmicas, entrava uma faixa estreita da luz do sol, dando um brilho de ouro nos cabelos louros de Mercant. Continuou sorrindo, quando o Major Abucot tentava tornar mais exemplar a sua já correta postura marcial. — Senhor, por favor! Vim correndo pelo caminho mais curto para lhe trazer pessoalmente o radiograma. Por gentileza, senhor. Abucot deu uns passos à frente, colocou as folhas de papel na mesa e se afastou imediatamente. O rosto liso de Mercant, sem nenhuma ruga, não deixou transparecer nada do que lhe ia ao íntimo. Descontraído, apanhou as folhas e começou a ler. Finalmente, levantou os olhos. Se Abucot estava ali

esperando para saber mais coisas sobre o conteúdo do radiograma, sua decepção devia ser enorme. Mercant apenas perguntou: — Pelo que vejo, você mandou calcular a potência do transmissor estrangeiro por meio dos dados do receptor. Você tem certeza de que seus matemáticos não cometeram nenhum erro? — Absolutamente, senhor — respondeu o major. — A estação opera com uma potência de transmissão de, pelo menos, cinquenta milhões de kilowatts, numa base de hiper-rádio. Conheço apenas um planeta onde poderia existir uma instalação tão gigantesca assim. — E qual seria este planeta? — Árcon III, senhor. Mercant concordou pensativo. Seus dedos finos remexiam as folhas de papel com o texto decifrado. — Muito obrigado, major. Pode se retirar. Atônito, o major passou por entre os dois robôs de vigilância, atingiu a comporta blindada e desapareceu. Só depois que acendeu a luz vermelha, indicando que a fechadura da porta externa estava travada, foi que o chefe da Segurança Solar começou a agir. O dedo indicador da mão direita apertou um botão que tinha escrito por cima “Comando Supremo da Armada”. Na grande tela, ligada por fios de uma rede invisível, surgiu o rosto estereotípico com o sorriso plástico do robô. — Marechal Freyt, ligeiro — disse Mercant em voz alta e apressada. — Urgência urgentíssima. — O marechal será avisado, senhor. Aguarde um instante, por favor. Mercant teve de esperar dois minutos, até que o rosto estreito e expressivo de Freyt aparecesse na tela. Sua respiração estava ofegante. Certamente veio correndo de onde estava. O chefe supremo da Segurança Solar não lhe deixou tempo para respirar. Já se conheciam há muito para perderem tempo com fórmulas de civilidade. — Um hiper-rádio de Perry Rhodan, Freyt — disse Mercant sem nenhuma introdução. — Você está sozinho? Freyt fez um gesto que sim. — Está bem. Então se prepare para ouvir a notícia mais sensacional dos últimos cinquenta anos. Perry Rhodan acabou de passar um radiograma diretamente de Árcon. Os dados da medição são absolutamente claros. Uma estação com cinquenta milhões de kilowatts existe somente em Árcon III, a base militar do Grande Império. Marechal Freyt, vice-presidente do Império Solar, ainda estava ofegante. — Quer dizer que ele se comunicou diretamente conosco, sem se utilizar de qualquer espaçonave terrana, como estação intermediária de relê? Se, por este rádio, captarem a direção da Terra, estamos completamente perdidos. — Existe de fato esta possibilidade. No entanto, Rhodan assumiu o risco. A situação mudou do dia para a noite. — A voz de Mercant tomou, então, um tom mais imponente: — Freyt, o regente robotizado de Árcon foi deposto. Nosso 112


movimento, tão bem e com tanto sacrifício preparado, foi coroado de êxito. Atlan foi reconhecido pelo controle de segurança do grande cérebro positrônico como o arcônida que permaneceu ativo e fiel à sua gente, descendente direto de um célebre imperador da estirpe Gonozal. Daí se deduz uma situação que, para nós, pode acarretar sérias consequências. A partir de agora, muita coisa vai mudar na política das Galáxias. — Nosso chefe menciona isto? — perguntou Freyt preocupado. — Sim, com muita clareza. Vou enviar o texto decifrado para o quartel-general. Perry Rhodan se encontra no momento com seu comando de ação em Árcon III. Atlan assumiu o governo, no entanto, para o foro externo, persiste ainda a impressão de que quem está governando ainda é o gigantesco robô. Desta forma, Atlan se esconde atrás da máquina eletrônica, considerada poderosa e inflexível e de cuja autoridade ele se serve inteligentemente. Acho isso muito certo, pois, se, desde o começo, se espalhasse a notícia de que um arcônida vivo sucedeu ao cérebro robotizado, poderiam surgir pelo vasto império colonial desordens de toda espécie. Rhodan diz também que a situação está tranquila. O cérebro robotizado continua atuando independente somente em questões de administração e de abastecimento. Decisões importantes são tomadas pelo Almirante Atlan, que nós temos de classificar agora como soberano e imperador. Depois de meditar um pouco, o marechal ainda acrescentou: — Uma situação que nos pegou de surpresa. Você sabe que Atlan conhece a posição da Terra melhor do que você e do que eu... Allan D. Mercant exibiu de novo seu célebre sorriso. — Sei muito bem. Quando ele se indispuser conosco, basta fazer um aceno para que a Terra seja atacada pela maior frota do Universo. Perry Rhodan pondera também esta hipótese. No aludido radiograma, você recebe instruções de enviar imediatamente para Árcon a nave capitania Drusus. O Coronel Sikermann deverá comandar a Drusus. Ele receberá a ordem de voar para o planeta Zalit, apanhando lá os cientistas restantes, técnicos e mutantes, descendo depois em Árcon III. É mais ou menos tudo que a mensagem contém. — Realmente muito pouco, tomando-se em consideração o alcance do fato, que vai ocasionar muita alteração — concluiu o chefe da frota terrana. — Para mim, é o suficiente, por enquanto. Presumo que virão tempos difíceis, Freyt. O futuro da Humanidade passa a depender agora da boa vontade arcônida de nome Atlan. Depois de ter afastado o cérebro de um robotizado, todos os caminhos lhe estão abertos. Em tese, não duvido de sua amizade com a Terra. Mas, já que não sou psicólogo de raças estrangeiras, não posso fazer nenhuma previsão, sobre se a plenitude do poder, agora nas mãos de Atlan, poderá alterar seus pontos de vista. Esteja preparado para tudo, mesmo para o pior. Mantenha toda a frota em estado de

prontidão. Mande o Coronel Sikermann visitar-me, antes de partir para o planeta Zalit. Queria lhe entregar o relatório sobre a malsucedida invasão dos druufs. Rhodan haverá de se interessar muito em saber que estes descendentes de insetos, originários de um Universo estranho, conseguiram construir no Estado norte-americano de Wyoming uma base para seus transmissores... De repente, fez uma pausa. Mas logo prosseguiu: — Ou não, espere um pouco, por favor. Eu mesmo vou ter com você. Segure um pouco o Coronel Sikermann. Até logo mais. Mercant desligou. Continuou ainda imóvel, por uns momentos, à sua mesa de trabalho. Os últimos raios do sol poente davam um brilho vivo nos metais do quadro de comando. Quando o chefe da segurança terrana se levantou, não estava bem certo de sua ida de... A ducha celular, que recebera no planeta Peregrino, tinha de ser renovada brevemente, se não quisesse ver em pouco tempo a decadência total de sua juventude artificial. Passou devagar pelos robôs de vigilância que o saudaram. Na sua mão direita estava o punhado de folhas plásticas com a sensacional notícia. O regente robotizado de Árcon seria desativado e reprogramado. Mercant sabia que então começaria uma nova era. *** O Coronel Baldur Sikermann entregou os papéis com o relatório ultrassecreto ao seu robô assistente. Havia terminado a discussão da situação no quartel-general da armada e não havia mais nenhuma pergunta a fazer. — Desejo-lhe uma boa viagem — disse-lhe o Marechal Freyt. — Fique de olhos abertos e, apesar dos últimos acontecimentos, evite tudo que possa levar ao conhecimento dos escutas galácticos a posição da Terra. No espaço há muitas inteligências com bons instrumentos de orientação. Faça suas transições sempre sob a proteção dos compensadores estruturais, mantenha-se sempre cauteloso. Provavelmente vão recebê-lo com muita festa. Abrigue os nossos a bordo da Drusus e voe depois para Árcon. Se, contra nossa expectativa, vocês forem atacados, volte imediatamente. Perry Rhodan haverá de achar uma saída neste caso. Diga ao nosso chefe supremo que aqui na Terra está tudo em ordem. — Com exceção da base de transmissão dos druufs em Wyoming — acrescentou Mercant, sorrindo. — Ah! É verdade, isto você deve dizer pessoalmente a Rhodan. Ele então vai decidir se comunica isto ao novo imperador Atlan, ou não. Freyt olhou para o relógio. — Está chegando a hora. Não se arrisque demais nas transições. Fazemos questão de vê-lo chegar com saúde e boa disposição ao grande aglomerado de estrelas M-13. O supercouraçado Drusus, último lançamento das 113


grandes naves de combate da Frota Solar, partiu no dia 12 de maio de 2.044, às cinco horas e 13 minutos. Com o impulso gigantesco das turbinas para a arrancada, o espaçoporto de Terrânia foi inundado por intenso clarão amarelado. E antes que o cavernoso trovejar das máquinas chegasse aos ouvidos dos habitantes de Terrânia, que ainda dormiam a gigantesca esfera de mil e quinhentos metros de diâmetro já estava em pleno espaço, onde Sikermann, com a velocidade de 500 km por segundo, estava em vias de fazer a primeira transição. Obtivera permissão especial para dar o primeiro salto espacial ainda dentro do sistema solar. *** O Coronel Poskanow, de estatura descomunal e notório como grande estrategista espacial, foi o primeiro a receber o comunicado de posicionamento do chefe do Quarto Grupo de Caças Espaciais, o Major Untcher. Poskanow exercia o cargo de comandante do Grupo de Caça Espacial 16 no setor da faixa dos planetóides, entre Marte e Júpiter, Região de Vigilância 12-14A-3746. De sua nave capitania, o couraçado Osage, captou o radiograma de Untcher, quando a Drusus estava atingindo quase a velocidade da luz. Como homem inteligente, Poskanow deu ordem para que todas as estações energéticas de suas naves fossem ser aplicadas nos envoltórios de proteção e ordenou também que se abstivessem, no momento, de qualquer alteração de rota. Nas unidades sob seu comando os mecanismos de propulsão foram desligados, enquanto que o bojo cintilante das grandes naves recebia uma camada invisível de proteção energética. Desta feita, todos os grandes aparelhos estavam bem protegidos, quando a gigantesca Drusus, nas proximidades da órbita de Marte, iniciou sua transição. Apesar de terem sido desligados os compensadores estruturais, os aparelhos de absorção de quase todas as naves foram danificados. O Coronel Poskanow sentiu como sua Osage de quinhentos metros de diâmetro estremeceu. Os abalos estruturais, produzidos pela supertransição no conjunto do espaço quadridimensional estável, equivaliam a uma sucessão de choques de uma violência fantástica. Terminado o fenômeno, os comandantes das pequenas unidades davam notícia dos danos nas partes externas e mesmo nas instalações das naves. Quatro gazelas, rápidas naves auxiliares dos pequenos cruzadores, já haviam pedido reboque para reparos nos estaleiros. O Coronel Poskanow não achou razões para se opor a isso. A nave auxiliar G-275 avisou que o envoltório energético de proteção contra a sobrecarga térmica não estava funcionando. Poskanow resolveu então reunir as gazelas danificadas e, a bordo do cruzador Kongo, levá-las para a base na Lua. Enquanto estava tomando as providências atinentes ao reparo, chegou-lhe às mãos uma importante mensagem

cifrada, diretamente do alto comando da Frota Solar. A decodificação durou exatamente trinta e seis minutos. Neste meio tempo, o comandante da Kongo executava uma manobra dificílima para colocar sua nave numa posição que pudesse, por meio dos raios de tração, aparar as naves auxiliares em sua queda livre pelo espaço. Dois minutos antes do início desta fase da operação, o Coronel Poskanow recebeu o texto decifrado. Assim que terminou a leitura, a primeira medida que tomou foi chamar o cruzador Kongo. Extremamente mal-humorado, o comandante da Kongo recebeu ordem de interromper imediatamente o trabalho de pôr a bordo as pequenas naves danificadas e de voltar, incontinenti e a toda velocidade, para seu setor de caças. O Tenente Nafroth, comandante de uma das gazelas danificadas, assistiu com espanto, pela tela de sua nave, ao rápido desaparecimento da Kongo, tão rápido que quase não poderia ser localizada. Dez segundos depois, entravam em ação os receptores de rádio. O chefe do grupo fez uso do telecomunicador. Nafroth recebeu instruções de deixar sua nave flutuando, tendo apenas o cuidado de evitar colisões com fragmentos cósmicos que existem no espaço. A nova base da frota espacial na Lua, no momento mais próxima do que Marte, que se achava então do outro lado do Sol, mandou uma nave de salvamento, que, sete horas depois, estava rebocando para dentro de suas comportas a pequena gazela, cuja velocidade era de apenas um décimo da velocidade da luz. Assim, ao menos para o Tenente Nafroth, o assunto gazela havia terminado. Não podia realmente supor que o hipersalto da Drusus, realizado tão perto deles, seria o início de episódios em que sua participação seria quase nula. Quando a nave de salvamento iniciou o vôo de regresso, o Coronel Poskanow já havia reunido o Grupo de Caças Espaciais 16 no setor 12-14A. As naves seguiam em queda livre e com velocidade reduzida pelo espaço intersolar. O controle da situação por parte de Poskanow se dava, tanto na telefonia como na transmissão da imagem, simplesmente por aparelhos de videofone, que tinham apenas a velocidade da luz. Não havia, pois, nenhum perigo de serem descobertos, ainda mais que a potência de sua estação transmissora na nave capitania não passava de 250 watts. Os comandantes das diversas unidades tinham se dirigido para suas respectivas centrais de radiofonia. A figura de Poskanow podia ser vista em todos os aparelhos. — Meus senhores, a partir deste momento passa a vigorar o estado de alerta de operações bélicas — explicou ele de maneira sucinta. — Na nebulosa esférica M-13 estão acontecendo coisas que podem levar a um rápido descobrimento da posição da Terra. Assim que os dados a respeito chegarem às minhas mãos, os senhores receberão mais informações. Por enquanto, recebi ordens de reequipar nossas forças, de manter nossas tripulações no nível previsto e, a seguir, rumarmos para o Grupo de Segurança Plutão, sob as ordens do General Deringhouse. Somente 114


depois é que deixaremos nosso atual posto de vigilância. Voaremos juntos para a Base Ganimedes, faremos provisão de água e de alimentos, bem como de munição e de peças de reposição, de acordo com o Plano de Equipamento Columbus. Comuniquem a suas tripulações que a entrega da correspondência será feita no máximo na Base Ganimedes. Ficam automaticamente canceladas as licenças. Não haverá necessidade de uma censura postal mais rigorosa; no entanto, é bom advertir seus subordinados de que não podem fazer nenhuma menção das medidas que estão sendo tomadas. Obrigado. É tudo que tenho a dizer por enquanto. Desliguem agora e sintonizem para receberem os dados concretos da nave capitania. Eu os irei guiando. As telas se apagaram. Os comandantes retornaram pensativos para suas cabinas de comando. Poskanow estava de novo no meio dos oficiais de seu estado-maior. A nave Osage iniciou o voo. O chefe do grupo estava atento ao ronco característico do mecanismo de propulsão, quando, perdido em seus pensamentos, falou: — Um velho provérbio russo diz que o urso lambe tanto o mel que as abelhas entram pela sua garganta adentro. Tenho a impressão de que a Humanidade vai receber agora as primeiras picadas de abelha. Infelizmente, aqui no nosso caso, não se trata de abelhas, mas de uma infinidade de belonaves das profundezas do espaço. Teremos uns dias quentes, meus amigos. Poskanow fez um sinal ao comandante da Osage, que, meio abatido e um tanto recurvado, se dirigiu para a poltrona do piloto. Na sua frente luziam as muitas telas de observação, formando uma verdadeira galeria resplandecente. Ali, o espaço estava, como sempre, indiferente a tudo. Bilhões de estrelas cintilavam na negridão do nada. Muitas delas possuíam planetas e de um destes planetas, de qualquer sistema solar das Galáxias, surgiria um dia uma frota estrangeira. Então, seria quase que o fim... Poskanow resolveu escrever uma carta para sua esposa. Sim, e também outra para Sergej, que, nestes dias, estaria nos exames finais do segundo ciclo. Os estudos eram puxados e Sergej não era muito forte em assuntos de ecologia e colonização espacial. Talvez, porém, conseguisse equilibrar esta pequena falha com boas notas em outras disciplinas. Nenhum cadete da Academia Espacial de Terrânia podia tirar menos de cinco em nenhuma matéria. Poskanow estava mesmo preocupado, pensando se valia a pena que seu filho único cursasse o estabelecimento de ensino mais cobiçado da Terra, para vestir um dia o glorioso uniforme de oficial do espaço. Angustiado, pulou para fora da poltrona. Não tinha mais a calma necessária para ficar sentado. — Para qualquer coisa, você me encontra no meu camarote — disse para o primeiro oficial da belonave. — Se chegarem notícias, traga-as imediatamente para mim.

2 — Gostaria de sair daqui, se você o permite. Estas moradias muito abaixo da superfície podem ser práticas em caso de um ataque aéreo, mas para o meu gosto são muito abafadas e escuras. Há mais de trinta minutos que a Drusus aterrissou. Que estamos esperando? Perry Rhodan, administrador do Império Solar, empertigou-se todo, tentando atingir com a vista toda a grande tela. Mas não o conseguiu. Estava demasiadamente próximo da tela ovalada. A figura em três dimensões, vista na tela, era verdadeiramente espetacular. Rhodan tinha a sensação de estar sentado ao lado do Almirante Atlan. Também a voz do arcônida, ampliada por um aparelho de som estereofônico 3-D, era absolutamente fiel. Por um momento, os dois homens se olharam fixamente. O longínquo interlocutor era espadaúdo e musculoso, visivelmente mais forte que Rhodan, cuja estatura esbelta mal deixava perceber sua grande resistência física. Atlan esboçou um sorriso irônico. Rhodan notou-o com visível desagrado, olhando de alto a baixo o sorridente arcônida, de olhos albinos, avermelhados. — Eu lhe perguntei alguma coisa! — Sei disso — soou dos alto-falantes. A entonação não deixava dúvidas de que Atlan estava compenetrado da importância decisiva de suas relações com Perry Rhodan, exatamente neste momento. — Então...? — Bárbaro, parece que você me considera um monstro terrível. Qual a razão de sua pergunta? Se você quer ir para sua nave capitania, então vá. Você não é meu prisioneiro. Rhodan fez como se não tivesse ouvido a admoestação. Ficou examinando a figura do arcônida no vídeo. Aquele homem, depois da queda do todo-poderoso regente robotizado, se transformara na figura-chave de toda a Galáxia. Apenas alguns iniciados nos “grandes segredos” podiam supor que as ordens irradiadas em sequencia contínua das antenas-ciclópicas do planeta da guerra não provinham mais da gigantesca máquina positrônica, fria e impiedosa, mas de uma arcônida relativamente imortal, de alta estirpe. Atlan foi suficientemente inteligente em não abandonar de uma hora para outra a maravilhosa sala central do cérebro eletrônico. Ele — após uma ação ousada, onde a morte o cercava de todos os lados — foi oficialmente reconhecido pelo setor de segurança do imenso computador como mentalmente capaz. Atlan estava há poucos dias de posse do governo. A grandiosidade do grande cérebro robotizado eram os conhecimentos nele armazenados. A história do Império Arcônida era de um passado quase pré-histórico, de muitas dezenas de milênios. No entanto, não havia nada que 115


escapasse ao imenso repositório de dados da descomunal máquina. Este fato foi de grande utilidade para Atlan — exalmirante do Grande Império e sobrinho do Imperador Gonozal VII, que governara há dez mil anos — para dar base mais sólida às suas pretensões. Por enquanto estava tomando suas decisões ainda escondido no anonimato. Os muitos povos de raças diferentes, que viviam como colonos do Grande Império Arcônida, ainda eram de opinião de que se achavam sob o poder de um ditador, de um robô conhecido como frio e impiedoso. Rhodan ainda estava com as recordações vivas dos últimos acontecimentos da semana. Lembrava-se da aterrissagem em Zalit, dos ataques infrutíferos dos mutantes contra o formidável envoltório de proteção do cérebro robotizado e, finalmente, do começo da derrocada, que só se transformou em vitória depois que Atlan interveio, descobrindo a chave do poder. — Como é? Você perdeu a fala? O que houve meu amigo? Rhodan levou um susto. Nervoso e incerto olhou em torno de si, naquele recinto totalmente fechado. Já estava fora do misterioso envoltório energético, cujas forças foram erroneamente tão subestimadas. Por detrás das portas blindadas, fechadas e vigiadas por robôs altamente armados, esperavam seus companheiros. O ingresso só fora permitido a Rhodan. Esta sala hexagonal era usada antigamente para proporcionar aos cientistas do Grande Conselho de Árcon uma consulta tranquila ao supercérebro eletrônico que eles mesmos criaram. O rosto expressivo de Atlan ocupava quase toda a tela. — Para eu perder a fala, seria necessário que o mundo acabasse — afirmou o intrépido terrano. — Atlan, há dois dias, pedi a assinatura do pacto de aliança e de assistência mútua, lavrado por meus especialistas. Desde quando você começou a menosprezar os homens? — Não os menosprezo mais desde que se uniram sob sua direção, desde que aprenderam a assimilar o imenso saber técnico-científico de minha veneranda raça, usando-o para seus próprios fins. Você não deve se esquecer de que eu conheci seus antepassados, quando... — ...eles ainda moravam em cavernas e se combatiam atirando pedras uns nos outros — disse Rhodan completando a frase. Não havia nenhum ressaibo de amargura em sua voz. Atlan sorriu de novo. — Oh! Já mencionei isto alguma vez? — Mais de mil vezes. — Então, peço-lhe desculpas. — Mas como fica mesmo o tratado de aliança entre o Grande Império e o Império Solar? — Com este nome tão pomposo, você designa naturalmente a sua estrelazinha diminuta, cujos nove planetas juntos não dariam um volume suficiente para formar um único corpo celeste digno deste nome.

— Exatamente — confirmou Rhodan indiferente. Atlan sorria de modo franco. Nos dois homens não se notava mais nenhuma tensão. Há uns instantes, o ar parecia saturado de animosidade. — Amigo você deveria compreender minha situação. Por ora, sinto-me ainda numa imensa cabina de comando, cujos instrumentos mirabolantes não conheço bem. Quando o cérebro eletrônico foi montado, eu já era considerado há muitos milhares de anos, anos da Terra, como morto. Não costumo assinar tratados, quando não sei se os posso cumprir. Você acha que eu devo subscrever um convênio para sua própria e exclusiva segurança, convênio, este cujo teor satisfaça o formalismo de vocês terranos. Você me exige uma garantia de segurança para a Terra, com palavras sonoras e bonitas. — E estou, com isto, exigindo demais? Até o presente momento, a posição da Terra era um segredo. Somente você é quem sabe dele. — E daí? Haverá por isso um motivo para você desconfiar de mim? Ou você acha que daqui para frente todo meu trabalho consistirá em tentar destruir vocês, bárbaro? Perry, conserve sua tranquilidade. Se eu quisesse traí-los, teria tido inúmeras ocasiões nos últimos anos, com todos os meios à minha disposição, para, com um simples rádio, enviar toda a frota robotizada de Árcon contra a Terra. Será que sua cabeça ficou tão confusa assim? Não posso assinar este tratado. Minha posição ainda não está bem segura. “Sirvo-me do pretexto da validade do cérebro eletrônico, para fazer com que minhas ordens sejam cumpridas. Se eu aparecer perante o público como Imperador Atlan, teríamos que contar nos próximos dias com revoltas e desordem por toda parte. Você sabe qual é o tamanho do Império Arcônida? Quantas inteligências estranhas e quantos descendentes de antigos colonizadores arcônidas vivem por aí? Como poderei eu, em nome deles, assinar um tratado, se eles nem sabem se eu existo? Ou você é capaz de pensar que eu, mal acabo de chegar de volta à minha pátria, já quero passar por traidor?” — Você poderia assinar o tratado em nome do regente robotizado, não é? — Bárbaro sabido! — disse Atlan de modo brusco. Seus olhos demonstravam irritação. — Sempre foram assim e mesmo você não é melhor, quando está em jogo o bem de sua raça. — Acho que isto não tem nada de incorreto — retrucou Rhodan. Atlan desatou num riso sarcástico. Seu rosto foi diminuindo de tamanho e a parte superior do tronco apareceu na tela. Vestia ainda o mesmo uniforme com as insígnias de almirante da frota arcônida. Este uniforme tinha sido confeccionado na Terra, conforme seu desejo. — Para você não tem nada de indecente, mas tem para meus conceitos. Para mim, já basta ter que continuar na situação meio clandestina em que estou. Se pudesse seguir minha consciência, ordenaria ao cérebro eletrônico que me 116


proclamasse imediatamente o soberano legítimo. Mas eu me abstenho disto, justamente porque olho para o bem de muitos povos. Tenho que agir com muita cautela. Contentese, pois, com a minha palavra de que a Terra não será nem traída nem atacada. Será assim tão difícil de acreditar em mim? Rhodan pigarreou. — Nem parecem mais palavras de um arcônida, Atlan. — Quando um homem, durante milênios e milênios, procura ensinar boas maneiras e um pouco de ciência aos habitantes da Terra, pode acontecer que, sem querer, adote uma ou outra de suas expressões selvagens ou bárbaras — respondeu Atlan aliviado. Rhodan cerrou os olhos. Atlan sabia ser mordaz. A leve risada do arcônida o arrancou de seus pensamentos. — Está certo, aceito — disse hesitante. — Você não nos vai trair, nem nos atacar. Mas quem me dá a garantia de que o poder não lhe vai subir à cabeça? A Terra é perigosa, você sabe disso. — Tão perigosa, que para vocês saírem um pouco da obscuridade, lhes é necessário andar se arrastando e se escondendo por aí. É realmente uma tática estranha. — São apenas atitudes do instinto de autoconservação. Eu lhe venho oferecer o que vocês não possuem mais, isto é, especialistas competentíssimos para suas espaçonaves, já há muito com deficiência de tripulação. Dez milhões de soldados de ótima formação lhe podem ser fornecidos prontamente. Juntos poderemos dominar todas as insurreições, inclusive o ataque dos druufs nas proximidades da zona de descarga. Eu lhe forneço o pessoal e você entra com as naves necessárias. — Combinado, mas sem contrato. Não posso assinar nada com um nome, que ninguém, fora você, conhece. Quando eu chegar um dia abertamente em público, você receberá seu tratado assinado. Há mais alguma coisa a tratar? Rhodan percebeu que estava na hora de encerrar o diálogo. — Nada mais? Então vou me retirar e você volta com sua gente para a Drusus. Você vai deixar Árcon? — Só depois que o tratado for assinado. — Cabeça-dura — disse Atlan. — Você não aprende nunca. Ah! Sim, ainda me lembro de uma coisa. Rhodan olhou de novo para a tela. As últimas palavras de Atlan foram ditas bem destacadas. — Faça esta criatura com cara de rato, que tem o nome de Gucky, compreender que, daqui para frente, tem que acabar com estas brincadeiras bobas. — Como? — perguntou Rhodan surpreso. — Não faz meia hora que Gucky chegou de Zalit, com o pessoal que lá estava. Que aconteceu com ele? — O malandro tentou, desde que chegou aqui, destruir, por meio de seus dons de teleportador, o envoltório de proteção do cérebro robotizado. Provavelmente este fanfarrão extraterreno é de opinião que seus dons são infinitamente superiores aos dos mutantes humanos. É claro

que, ao saltar, foi preso pelo campo hexagonal transdimensional do cérebro e lançado para trás violentamente, sofrendo muito com isto. Recebi uma mensagem do alerta automático. Tome providências para que tais brincadeiras não se repitam. Acho que expus a você e aos seus, bem claramente, que o alerta automático construído por meus antepassados não tolera a entrada de seres vivos estranhos nos domínios do robô. A programação está feita e eu não posso alterá-la em nada. Será que estamos entendidos? As últimas palavras foram duras e frias. Rhodan notou que estava chegando aos limites da paciência de Atlan. Concordou, sem dizer uma palavra, para, instantes depois, continuar: — Isto é um assunto que também não me agrada. Ao menos nos podiam permitir, uma vez, visitar esta maravilha da técnica. O movimento rápido da cabeça deixou brilhar por um momento os cabelos claros de Atlan. Era como se houvesse uma advertência nos seus olhos cor de ouro. — Perry, você é inteligente demais para compreender perfeitamente o que estou dizendo. Digo-lhe mais uma vez que não posso mudar nada na instalação de segurança do robô. Meus antepassados já sabiam por que tinham de garantir assim o insubstituível cérebro positrônico. Além disso, neste particular, não confio muito em você. Você conseguiria, por meio de uma microbomba trazida “por engano”, mandar pelos ares as instalações do grande cérebro. Conheço vocês muito bem. Primeiro vocês chegam, não fazem nada, depois se mostram dispostos a oferecer aos outros sua benévola amizade, mas somente quando esses outros não lhes parecerem mais perigosos. “Você fica no seu canto e eu no meu. Depois de se cancelar o regente, ele se transformará num autômato inócuo, aliás, com características singulares. Mas antes de destruí-lo, teríamos de destruir primeiro você e seu sistema solar. E isso não está nos meus planos. Mas quando se pensa com uma visão galáctica, como eu realmente penso, então cinqüenta mil mundos povoados parecem muito mais importantes do que sua pequena Terra. Portanto, acautele-se de atacar nossa grande máquina. Aí, todas as minhas promessas cairiam por terra. Estamos entendidos, Perry Rhodan? — Totalmente entendidos, obrigado. — Pode poupar um pouco de sua ironia. Mas, me desculpe agora, tenho muito que fazer. Na zona de descarga se inicia agora um ataque monstro. Atlan levantou a mão em cumprimento. O brilho da tela esmaeceu e atrás de Rhodan se moveram as pesadas portas corrediças de aço blindado. E a luz clara do dia iluminou a sala hexagonal. Rhodan caminhava empertigado. As últimas palavras de Atlan o atingiram em cheio. Não havia mais dúvidas de que o almirante arcônida, apesar de sua mui longa permanência na Terra, se transformara no maior político do grande Universo galáctico. 117


“Manter-se prudente e tolerante”, pensava Rhodan, “e nunca haverá uma desgraça.” Com este propósito, Rhodan penetrou na antessala. Reginald Bell, braço direito de Rhodan, estava sentado no canto de um sofá de módulos. Olhou preocupado para o administrador do Império Solar. Rhodan ficou parado ao lado dele, olhando para o relógio. Não disse nada. Quando o silêncio se tornou incômodo, Bell comentou, com uma frase mais murmurada do que falada: — A julgar pela sua expressão, Sua Excelência não se deixou convencer, não é? Não houve resposta de imediato, pensativo, Rhodan olhava para as portas blindadas, já novamente fechadas, da sala hexagonal de consultas. — Era de se esperar. Os argumentos também não me convenceriam, caso eu estivesse no lugar dele. O tratado de não agressão e de assistência mútua, puramente do ponto de vista estratégico, não tem nenhum sentido. Quem é que o poderia impedir em dado momento de mudar de ideia, apesar do papelucho assinado e tal? Chamou-me de um selvagem sabido...! Bell começou a rir. — É, ele nos conhece bem. — O fato de ele nos conhecer bem é a minha grande esperança. Deve saber que estamos a seu lado. O Grande Império sob a tutela de Árcon é pobre em pessoas inteligentes e de maiores iniciativas. A degeneração do atual Império é tão profunda que não será alterada de um dia para o outro. Atlan terá de contar não com esta geração, mas com a que vier depois, iniciando um amplo programa de reeducação, que será capaz de arrancar os jovens da decadência moral, da letargia e dos passatempos idiotas e absurdos. Acho que, em sessenta anos, ele conseguirá erguer esta imensa nação. Mas, até lá, muita coisa mudará na Terra. Bell se levantou. Ele e Rhodan eram os únicos homens aqui nesta descomunal cidade subterrânea, junto do cérebro positrônico. Nas amplas galerias, havia intenso movimento. Eram principalmente homens do planeta-colônia Zalit convocados para o serviço militar, que, aqui embaixo, aguardavam o momento de embarque. Os dois não foram molestados por ninguém, quando em passos rápidos se dirigiam para os elevadores antigravitacionais. Mesmo os inúmeros robôs de vigilância deixavam-nos passar tranquilamente. — Como os tempos estão mudados — disse Bell com ironia. — Ainda há poucos dias atrás, eles nos teriam reduzido a cinza, se aparecêssemos por aqui. Acho que a fase de governo de Atlan começa muito bem. Um oficial da força aérea zalita parou para admirar o uniforme dos terranos. Era evidente que nada entendia das insígnias de hierarquia. Assim, resolveu por prudência fazer uma saudação muito cerimoniosa. Rhodan agradeceu. Nesta ocasião se lembrou dos dias pouco agradáveis em que foi obrigado a passar por um

habitante de Zalit, tendo o cuidado de dar uma coloração avermelhada aos olhos. Era o único meio de chegar são e salvo ao planeta da força aérea e de todos os armamentos do Império. Já bem próximos do elevador, Bell perguntou: — Você já está mais calmo? Ou melhor, sua indignação já acabou? Rhodan diminuiu o passo e acabou parando. Virou a cabeça lentamente. Bell mantinha um sorriso enigmático. — O que há? Bell olhou rapidamente para cima, onde um sol artificial seguia sua órbita fictícia. A conversa constante dos muitos zalitas enchia o ar e pesava nos ouvidos. — Mas, o que há? — perguntou de novo Rhodan, mais alto do que pretendia. Bell passou a mão na testa para limpar o suor. — Faz calor demais aqui nesta caverna — disse ele, depois de pigarrear. — Está certo, eu vou falar. Perry, não podemos ficar esperando por este contrato ou tratado. Sikermann veio com notícias alarmantes. Os druufs conseguiram instalar na Terra uma base de transmissão. Rhodan parecia perplexo, procurando palavras. Bell o tranquilizou: — Não se assuste. O caso já está liquidado. Os druufs foram descobertos por um ex-agente do Serviço de Segurança Solar e logo postos fora de combate. Constatouse depois que os monstros souberam de nossas frequências de transmissão por mero acaso. Foi por ocasião do reforço que se enviou para a base da Lua. Calcularam os efeitos 5D e chegaram às nossas hiperfrequências. Com isto não está dito que eles conhecem a posição galáctica da Terra. Nossa investigação provisória já constatou que, entre um vôo direto para uma base normal e um salto de transmissor superestrutural, há uma distância enorme. Rhodan já estava mais senhor de si. — Houve interferência dos órgãos de defesa? — Graças a um detetive, cujo nome esqueci. Alguns traidores estavam de um canto para o outro, para proporcionar aos druufs um ponto de apoio inicial. Fundaram uma entidade chamada Companhia do Sono, unicamente para dar cobertura aos invasores. Mercant teme novas complicações. — É só o que me faltava! — exclamou Rhodan. — Aqui as dificuldades com Atlan e em casa uma invasão. Sikermann trouxe dados mais exatos? — Tudo que Mercant pôde averiguar. — E quais são as consequências disso? Já foram calculados os fatores de possibilidade no computador? — Parcialmente. O tempo não deu para uma observação completa. Chegou nosso radiograma cifrado e Mercant resolveu enviar Sikermann para trazer as notícias e poder ajudar em qualquer coisa. Bell se pôs a caminho para conseguir acompanhar o amigo que já ia a passos rápidos. Conseguiu pegar o elevador antigravitacional, pulou para o campo quase 118


invisível. Sem peso nenhum, foram flutuando para cima. Alcançaram a saída perto da cúpula externa, que haviam parcialmente destruído alguns dias atrás, quando, depois de uma luta desesperada, se retiravam das profundezas de Árcon. Ainda estavam ali vários robôs trabalhando para consertar o grande elevador do estaleiro. A luz esbranquiçada do sol de Árcon os veio receber. Rhodan pulou para o vagonete deslizante, dando algumas instruções ao robô piloto. A três quilômetros dali — ainda perto do envoltório de proteção invisível — estava parada a nave capitania da Frota Solar. A Drusus era de construção gigantesca, mas neste ambiente com mais de cinquenta couraçados arcônidas das mesmas dimensões, ela não sobressaía. Rhodan chegou à comporta inferior de passageiros da gigantesca esfera de 1.500 metros de diâmetro, exatamente quando, a poucos quilômetros dela, uma frota de couraçados arcônidas rumava para o espaço, num estrondo ensurdecedor. As ondas de compressão das enormes belonaves foram totalmente absorvidas pelos campos de defesa de funcionamento automático. Em Árcon III nada acontecia sem o controle planificado do grande cérebro robotizado. Rhodan parou pensativo para olhar as naves que, em poucos segundos, tornaram-se pontos minúsculos no céu sem nuvens de Árcon. Eram aparelhos novos, recém-saídos das linhas de produção contínua. Era seu primeiro batismo de fogo. — Se tivéssemos uma capacidade de produção assim, eu me sentiria melhor — disse Rhodan. — Onde está Sikermann? A figura espadaúda do comandante surgiu na porta. Cumprimentou cheio de respeito. — Nossos amigos do outro plano temporal tencionavam nos surpreender, não é verdade? Gostaria de ver logo os documentos. Como foi sua viagem? — interrogou Rhodan. — Excelente, Sir, obrigado. Voamos em estado de alerta para o sistema Volat, mas não tivemos nenhuma dificuldade. Nossa gente, que estava esperando em Zalit, também não teve dificuldade alguma para embarcar. Depois de uma permanência de duas horas, prosseguimos viagem. Também não fomos incomodados com o círculo de proteção do sistema arcônida. Não houve nem os costumeiros aparelhos de escolta. Em seguida, fomos teleconduzidos com toda exatidão para este espaçoporto pelo regente. — Atlan manteve a palavra — declarou peremptório Bell. — Será que nós não cometemos um erro ao desconfiarmos dele? — É uma coisa que em pouco tempo virá à luz — observou Rhodan. — Sikermann, você acredita que os druufs não encontrarão a Terra? Você acha que estes seres inteligentes não conseguirão um contato razoável através de um transmissor? Estão num estágio de grande evolução científica. Será que nós, por exemplo, conseguiríamos, por meio de componentes supermatemáticos, atingir um ponto

de referência estabilizado de quatro dimensões, apenas com um coeficiente de, no máximo, mais ou menos 0,5 por cento? Conseguiríamos? A equipe de cientistas da nave capitania, que viera para dar boas-vindas ao mandatário supremo do sistema solar, continuava parada nos fundos da grande comporta, olhando calada para o homem de olhos castanhos. O porte gigantesco de Sikermann encobria a porta de compressão, próxima da qual os robôs estavam parados. Era como se pretendesse impedir a entrada de pessoas estranhas. — Sir, com toda certeza, nós haveríamos de conseguir. Rhodan deu um sorriso convencional. — Então os outros também o podem — disse ele em voz mais baixa. — Sikermann, prepare a Drusus para a partida. Onde estão os documentos? — Na central de comando, Sir. Dez minutos depois, já havia estudado todos os relatórios. Enquanto os homens fatigados pela sua missão se dirigiam a seus alojamentos e iniciavam uma conversa animada com os membros da tripulação do supercouraçado, Perry Rhodan solicitou um contato direto com o regente arcônida. Trinta minutos depois de ter entrado na Drusus, chegou à comporta inferior da grande nave um comando robotizado, altamente armado. Simultaneamente, ouviu-se a voz de Atlan, na frequência especial do regente. — Alguma dificuldade, amigo? Fui informado de seu pedido. Que há de novo? Rhodan chegou mais perto da tela do videofone. — Sinto muito incomodá-lo novamente. Sikermann me comunicou... você se lembra de Sikermann? Baldur Sikermann? — Naturalmente. — Sikermann me trouxe notícias inquietadoras. Os druufs descobriram a posição da Terra. — O quê...? — Meu pessoal não teve o tempo necessário para estudar melhor os dados. Você pode fazer isto para mim? Gostaria de saber qual a porcentagem de probabilidade que há nisto. Atlan percebeu logo o alcance do novo fato. Quarenta e cinco minutos após a chegada de Rhodan na Drusus, o comando robotizado estava saindo. Começava então para o supercouraçado um período de espera. Não houve, neste meio tempo, fato de maior importância. Só agora, Rhodan teve tempo para cumprimentar seus auxiliares, que acabavam de chegar do planeta Zalit. Os mutantes contaram como foi a morte repentina do falso almirante arcônida. Gucky, cujas experiências com o misterioso campo de segurança hexagonal haviam fracassado, ainda estava desacordado na clínica de bordo. O Capitão Hubert Gorlat, que até então nutria esperança de penetrar na campânula energética do grande cérebro, usando o transmissor fictício, acabou desistindo de propor a 119


Rhodan seus planos a respeito. Desiludido, deu ordem à equipe responsável pelo aparelho, para desarmá-lo. Gorlat estava agora mais do que convencido de que seria um erro grave causar aborrecimentos a um aliado. A maneira de agir de Atlan estava até então corretíssima. Árcon abria os braços para os terranos. O Major Art Rosberg, o maior especialista em transmissor fictício do Império Solar, estava debruçado sobre os documentos do Serviço Secreto. Os originais de Mercant já estavam há muito em mãos de Atlan. — O que foi que colocou os druufs em nossas pegadas? — perguntou Rosberg meio confuso. — Será que o pessoal da defesa ficou maluco? O biólogo Costara mostrou-se meio desanimado. — Não sei bem o que pensar a respeito. Confesso que a mim interessa muito mais a conservação bioquímica desta gente de Druufon. Rosberg passou as duas mãos por entre os cabelos grisalhos. Irritado, empurrou para o lado o catatau de documentos, a fim de olhar somente os desenhos e fotografias anexados. Mas não precisou de muito tempo para perceber que não poderia fazer nada com aquilo. Os dados principais não estavam completos. — O senhor deveria assistir a equipe dos matemáticos — aconselhou o biólogo. — Acho que a metade da tripulação deveria estar no departamento de cálculos, embora não creia que, com os parcos recursos de que dispomos, possamos ter um resultado definitivo. — A quem você está dizendo isto? — interrompeu-o o Major Rosberg, com seu jeito rude. — Se dependesse de mim, já estaríamos bem próximos da primeira transição. Quanta coisa pode estar acontecendo em nossa pátria, se realmente estes monstros resolveram chegar até lá!? Você já chegou a ver pessoalmente as gigantescas frotas dos druufs? Já esteve alguma vez na assim chamada zona de descarga? Fez uma pausa, depois prosseguiu: — Primeiramente, as quarenta mil naves pesadas dos druufs devem ter tentado romper a linha de bloqueio dos arcônidas. Se formos atacados com esta avalanche descomunal, nossos poucos supercouraçados serão destroçados em alguns instantes. Rosberg pôs o boné de serviço e caminhou pesadamente para a porta. O Dr. Miguel Costara olhou pensativo para ele. Sentia ecoar em sua cabeça o que dissera há pouco tempo seu colega Rosberg. “A Pátria” pensava o cientista, “a Pátria!” Já estava sentindo o cheiro suave das florestas de pinheiros, ouvindo o suave sussurro dos regatos cristalinos. Tanta coisa bonita havia em sua Pátria.... na verdadeira Terra. *** — ...mando em quinze minutos a interpretação escrita aí para a Drusus — soou a voz firme de Atlan nos alto-

falantes. — Aqui está o resultado, que você poderá ir estudando desde já. — Como é ele, bom ou ruim? — perguntou Rhodan. — Ruim para a Terra e, com isso, também ruim para todas as raças humanoides das Galáxias. Ninguém deseja a aproximação destes completamente estranhos descendentes de insetos, que devem ter espaço suficiente para viver em seu Universo. O computador declara, com noventa e nove por cento de probabilidade, que o descobrimento da Terra está iminente. Examinei bem os resultados da pesquisa do grande cérebro. O material é novo, proveniente das últimas batalhas e refregas da defesa. Portanto, de plena garantia. “O cérebro partiu das constatações objetivas que os comandos arcônidas realizaram com suas equipes de pesquisadores especializados a bordo das naves druufs conquistadas. Daí se depreende que a ciência destes seres inteligentes, mormente sua matemática, está tão desenvolvida que podem tirar as necessárias conclusões, através das transmissões já realizadas na Terra. Não há mais dúvida de que acharão a Terra assim que tentarem. Outras coisas mais não lhe posso dizer. Rhodan ficou olhando por muito tempo para a tela. Atlan esperava com paciência. Sabia o que ia ao íntimo do amigo. — Que pretende fazer, Perry? Rhodan estremeceu em seus sonhos. Deu um sorriso incerto. — Voar para casa e ficar atento. Não vejo outra alternativa no momento. O cérebro positrônico dá ainda alguma informação sobre como os druufs pretendem realizar a invasão do espaço de Einstein? — Este é o fator desconhecido que o robô assinalou apenas com um por cento de probabilidade. Não fosse isso, os cálculos estariam perfeitos. O que eu puder fazer para manter firme a frota de bloqueio será feito. É o que posso prometer à Terra. Rhodan fez apenas um gesto com a cabeça. Palavras seriam supérfluas. — Talvez o plano dos druufs jamais se concretize — disse o arcônida tranqüilizando. — Ainda é problemática a existência de tal plano. Acho que você devia entrar em contato com seus agentes no Universo dos druufs. Este... este... — Ernst Ellert — acudiu Rhodan. — Exato Ernst Ellert! Pode ser que ele saiba de coisas importantes. Novamente Rhodan fez um aceno com a cabeça. Neste momento, chegou o comando robotizado com a interpretação escrita dos documentos. A comunicação foi feita diretamente do oficial de vigilância para a sala de comando. — Seus enviados estão aqui. Muito obrigado, amigo — Rhodan estava exausto. — Vou partir agora. Não se esqueça de nós. A temporada que passamos juntos foi muito agradável, embora um dia, você esteve convencido da necessidade de me eliminar. 120


Atlan sorriu de leve. — Perry, eu tenho um pedido para lhe fazer. Em Vênus, vive uma moça que se chama Marlis Gentner. Ajudou-me muito, quando os seus especialistas estavam atrás de mim. Quer dar a ela um grande abraço em meu nome? Diga-lhe que eu nunca me esqueci dela, mas que, por motivos de sua louca caçada, não tive tempo de visitá-la aí em Vênus. Você se recorda da jovem estudante de cosmobiologia, de cabelos pretos, com um sentimento pronunciado de justiça? O sorriso de Rhodan ganhou em calor. — Não haverei de esquecer. Ela já deve estar com o diploma de doutorado nas mãos. Devo-lhe transmitir o abraço, mesmo se ela já estiver casada? Atlan hesitou um pouco antes de responder: — Sim, mesmo neste caso. Passe bem, meu amigo. Não esqueça que, atrás do regente de Árcon, está Atlan, da dinastia dos Gonozal e não esqueça também que a raça humana tem nas veias uma gota de sangue arcônida. Quando eu, há dez mil anos atrás, cheguei à Terra, houve muitos casamentos entre meus homens e as mulheres nativas daquela região. Inkar, comandante do couraçado Paito, é um nome que nunca foi esquecido na América do Sul. Seu filho se tornou o primeiro inca, o primeiro rei-deus sob o signo do Sol de minha veneranda família. Bárbaro, desejo-lhe boa viagem. A Drusus decolou sob a escolta de dez cruzadores rápidos da Frota Imperial. Nos confins do sistema arcônida, os dez cruzadores fizeram uma meia-volta e o gigante terrano se preparou para a primeira transição. Atlan não se apresentou mais. O ambiente a bordo era de tristeza. Descobriram, de repente, que estavam deixando para trás um grande amigo.

3 Coube ao Major Untcher, chefe do Quarto Grupo de Caças Espaciais, no 16o Distrito dos Caças Espaciais, o privilégio de ser o primeiro a captar os sinais energéticos. Seu grupo se compunha do cruzador leve Áustria e de 27 pequenas espaçonaves de formato lenticular, do tipo ultrarápido space-jet. O cruzador Áustria era também a nave capitania do Quarto Grupo de Caças Espaciais. Untcher havia recebido do responsável pelo almoxarifado a quota de 32 litros de água fresca para sua ducha. Quando estava sob o jato relativamente fraco do chuveiro, veio o sinal de alarme da central de radiogoniometria. Uma tela panorâmica se acendeu. Viu-se o rosto do oficial telegrafista de serviço. Neste momento, o Grupo de Segurança e todas as suas unidades achavam-se a 102

horas-luz além da órbita de Plutão, no espaço interestelar. Por razões de camuflagem, este trecho estava sendo percorrido à velocidade da luz. A partir do alarme de prontidão bélica dentro do sistema solar, era ordem expressa se abster de qualquer transição que não fosse absolutamente indispensável. O Major Untcher, um homem de boa estatura, porém de rosto precocemente envelhecido, fechou a torneira do chuveiro resmungando. O relógio registrava um consumo de apenas 23 litros de água, até então. — Não se tem sossego nem para tomar banho — gritou Untcher na direção dos microfones. — Provavelmente estão me vendo também, neste estado, na tela deles. — Perfeitamente, major — confirmou o primeirotenente completamente indiferente ao fato. — Peço-lhe desculpas. Acabamos de descobrir na constelação Auriga, ou como o povo diz do Cocheiro, nas proximidades do gigantesco sol Capela, um foco energético muito esquisito. Na tela panorâmica ainda não se distingue nada, em compensação, os rastreadores estruturais estão em plena atividade. Untcher não quis saber de perder tempo com mais comentários. De um só pulo, entrou no jato quente do secador e apanhou suas roupas. Dez minutos depois, Untcher estava entrando na central do cruzador. Podia-se ver nas telas os pontos esverdeados dos 27 aparelhos menores. A distância média entre as diversas naves era de apenas cinco milhões de quilômetros, estando bem no centro da linha de reconhecimento a imponente Áustria. Na cabina de goniometria, bem perto da radiotelegrafia, parecia que um vulcão havia entrado em erupção. O barulho dos dois rastreadores estruturais, que se achavam medindo um deslocamento de um contínuo quadridimensional, superava tudo. Estava, porém, claro que não se tratava da captação de uma onda de superchoques. Os abalos energéticos, provocados pelas transições das supernaves, eram completamente diferentes. Untcher ouvia meio atônito, ao trovão ininterrupto. O aparelho automático de interpretação já havia constatado a origem de todo aquele estrondo esquisito. Nas proximidades do grande sol Capela, a mais ou menos 42 anos-luz de distância, formava-se algo que nem Untcher, nem os mais qualificados radiorastreadores eram capazes de explicar. Até que o Primeiro-Tenente Fynkus teve uma idéia diferente. — Está parecendo, major, como se estivéssemos bem perto da zona de descarga, no setor do sistema Mirta — disse ele, pensativo. — Ah! Não diga bobagem. A zona de descarga está a mais de seis mil e quinhentos anos-luz. — Isto não quer dizer nada, pois eu conheço bem este barulho, major. Estive muito tempo por lá. Há alguma coisa errada no setor da constelação Auriga. Olhe bem este dentilhado esquisito. É muito característico da região de superposição. O negócio parece que está se estabilizando. O 121


senhor se lembra dos resultados do rastreamento durante o último ataque dos druufs? Untcher tinha consciência suficiente para respeitar a opinião do experimentado oficial. O barulho ensurdecedor dos rastreadores estruturais continuava o mesmo. Fynkus foi para o rastreador de matéria. O sargento que lá estava apenas meneou a cabeça. Fynkus fez o mesmo. — Corpos estranhos ainda não se manifestaram senhor — constatou-o com objetividade. — O fenômeno energético, porém, continua inalterado. Untcher parecia indeciso. O acaso lhe havia colocado nos ombros um fardo de responsabilidade. Podia... ou devia se comunicar pelo rádio? A situação em Plutão era favorável. Mas para se poder operar com ondas normais, a distância não era boa. Com toda certeza, os demais aparelhos do Grupo de Caça Espacial 16 teriam constatado o mesmo fenômeno. E por que então o chefe ainda não se havia manifestado? Seria tão perigoso assim, apesar de poderem se utilizar dos raios direcionais rigorosamente concentrados, entrarem em contato com uma espaçonave voando fora do sistema solar? Se fosse assim, era sinal de que os matemáticos da nave capitania da frota tinham chegado às mesmas conclusões que o Primeiro-Tenente Fynkus. “O que o Major Untcher está esperando de mim?”, pensou, indagando-se. Apesar das pequenas dimensões da cabina de rastreamentos, Untcher caminhava nervoso de um lado para outro. Estava numa situação desesperadora. O que poderia fazer apenas com suas pequenas espaçonaves? Esperar, no espaço vazio, a 102 horas-luz da órbita de Plutão? Caso a situação ficasse difícil, não poderia fazer muita coisa. Em compensação, os 27 space-jets e o veloz cruzador Áustria, numa ação conjunta, podiam fazer muita coisa. Além de tudo, se não voltasse imediatamente, correria o risco de ser descoberto por espaçonaves estrangeiras que aparecessem. No espaço, não dispunha da cortina de camuflagem do sistema solar, percorrido por milhões e milhões de linhas de força magnética, cuja massa planetária fornecia ainda uma proteção extra contra a possibilidade de serem rastreados. Depois de três minutos de muita concentração, Untcher tomou uma decisão. — Radiograma para todos os jatos, mas através de ondas simples, não acima da velocidade da luz — ordenou ele. — Dissolver a linha de vigilância. Iniciar o voo de regresso sob o comando do grupo. Iremos nos reunir nas proximidades de Plutão. Proibido o hiper-rádio. Velocidade máxima durante a viagem: cem quilômetros por segundo. Perigo de sermos rastreados no setor Capela. Ligar o aparelho de absorção de frequências no máximo. O gravador automático havia registrado as palavras ditadas. O Primeiro-Tenente Fynkus olhava para o chefe do grupo, querendo perguntar alguma coisa.

— É tudo — declarou Untcher. — As ondas extras já há muito estão a caminho. Seguiremos somente a rota da Terra, depois que o último aparelho sair comprovadamente de nossas telas de ultrassom. Untcher levou a mão para a ponta do boné, que ensombreava um pouco seu rosto cheio de rugas. Ao passar pela eclusa de segurança, teve de encolher as pernas e nenhum dos homens da tripulação se atreveu a rir. Os rastreadores estruturais continuavam roncando, como antes. O fenômeno, que se formara a uma distância de quarenta e dois anos-luz, não podia deixar ninguém tranquilo. Fynkus transmitiu a ordem, que, daqui a dezessete segundos, alcançaria os space-jets mais próximos. Mais difíceis seriam os aparelhos de asas. No momento de maior aceleração, o maquinismo de propulsão da Áustria estremeceu por uns instantes. — Se os tripulantes dos jatos forem espertos, já terão notado alguma coisa diferente no ar — balbuciou Fynkus. — O ar faz bem... — disse um radiotelegrafista para seu colega. *** — Graças a Deus! — exclamou o Coronel Poskanow, aliviado. — Untcher acabou compreendendo. Suas naves já estão em movimento. E elas vêm separadas. Isto é muito bom. Foi muito inteligente, pois se absteve de uma transição. Está tudo bem. Deve ter chegado à conclusão de que, por lá, estaria muito mais exposto e nada conseguiria. Poskanow se levantou. Ainda há poucos instantes, sentia-se apreensivo, dando a impressão de querer atravessar a tela panorâmica com seus olhos. Com um leve movimento da mão, enxugou as gotas de suor da testa. Depois se concentrou de novo nos rastreadores estruturais da Osage. O que o Major Untcher não podia ver, foi facilmente reconhecido pelos instrumentos especiais na gigantesca nave. A típica frequência estrutural de um também típico funil de descarga deixou ver na tela seus claros contornos. Parecia como se um gigante invisível tivesse perdido no meio do espaço interestelar uma flor muito longa com uma corola imensa. Fossem como fossem os contornos, não havia dúvida de que se tratava de uma fenda de superposição, surgida de repente, através da qual se realizava uma violenta permuta energética entre o campo magnético do Universo de Einstein e o do plano druuf. De respiração presa, Poskanow observava como a curvatura superior se adensava cada vez mais. Ele tivera oportunidade de conhecer in loco, durante muitos meses, a grande zona de descarga, de origem natural, nas redondezas do sistema Mirta. Assim ninguém lhe precisaria dizer que as ordens do comandante da frota, a respeito do arcônida Atlan, já estavam superadas. Este fenômeno não tinha nada a ver nem com o regente 122


de Árcon, nem com o Grande Império. A equipe científica da Osage não estava dormindo, e os primeiros resultados de suas pesquisas foram apresentados ao chefe do grupo. Ao reconhecer que estava simplesmente diante de um funil de descarga, e não diante de espaçonaves estranhas, Poskanow resolveu enviar um radiograma elucidativo ao comando supremo da frota. Ainda havia tempo de serem tomadas certas medidas de precaução. Se as belonaves estranhas, esperadas por Poskanow, já estivessem realmente atravessando a região de superposição, seria então tarde demais para um rádio às muitas naves em movimento na Via Láctea. Três minutos depois da emissão de sua longa mensagem, os aperfeiçoados rastreadores da Osage já haviam registrado um leve abalo estrutural. A avaliação automática indicava que a nave, que acabara de fazer sua transição, devia ser de origem Terrana. A transição, que somente poderia ser percebida com instrumentos especialíssimos, indicava também com toda clareza que a nave, que havia feito o salto espacial, o fizera sob a proteção de um aparelho de absorção de frequências. A série de choques, obrigatoriamente inerentes à transição, era amortecida pelos compensadores estruturais. As vibrações destes últimos aparelhos eram, por sua vez, desviadas para grandes amortecedores. Tornava-se praticamente impossível perceber a presença de uma espaçonave que voasse com estes dispositivos avançados, ou mesmo calcular o local onde estava. Somente os cruzadores dos grupos de caça solares possuíam rastreadores tão perfeitos assim. Chegavam ao ponto de poder determinar se a nave era amiga ou inimiga. Era a segunda vez nesta mesma semana que o couraçado de Poskanow sofria um violento estremecimento. Quando as telas do vídeo começaram a funcionar com mais clareza, desenharam-se os contornos da imponente Drusus! Ao reconhecer a nau capitania da Frota Terrana, o Primeiro-Tenente Hauer, da Osage, ficou tranquilo. A Drusus entrava com uma velocidade fantástica no sistema solar, em cujos limites externos ela se rematerializou. Segundos mais tarde, realizou-se o que Poskanow havia considerado natural. Espaçonaves do tipo da Drusus possuíam um sistema de rastreamento tal, que nada lhes podia escapar. Antes mesmo que o chefe do Grupo de Caça Espacial 16 tivesse oportunidade de chamar o supercouraçado, os dois receptores da Osage estavam funcionando. Na grande tela surgiu o rosto de Rhodan. Os traços largos, que prejudicavam a nitidez da imagem, eram um sinal evidente de que a Drusus estava trabalhando com o mínimo possível de energia. Rhodan, portanto, já devia saber o que havia acontecido nas vizinhanças da Terra. — Rhodan para o supercouraçado: — Quem são vocês? — Supercouraçado Osage, Grupo de Caças Espaciais dezesseis, falando Coronel Poskanow. — Ah! Poskanow, prazer — disse Rhodan. — Suponho

que você foi transferido pelo Marechal Freyt para o extremo setor de defesa, não é? — Exatamente, Sir, pouco antes da partida da Drusus. O senhor foi informado de que se formou um funil de descarga no setor de Capela? — Sim, nós o percebemos antes de iniciarmos a última transição. O quartel-general foi posto a par disto? — Há exatamente dez minutos, Sir. Eu consegui me arriscar a isto, já que, além do fenômeno, nada mais se manifestou até agora. Meu grupo de jatos mais avançados, sob o comando do Major Untcher, está voltando em voo normal. Por aqui está tudo em ordem. — Muito bem. Você será colocado imediatamente sob as ordens do General Deringhouse. Sua base será em Plutão. Caso os estaleiros de lá e os depósitos de suprimento forem atacados ou mesmo destruídos, recue, conforme o Plano Columbus, para situações catastróficas, para a órbita de Saturno, onde a frota do setor central deverá se reunir sob meu comando. Aguarde novas instruções e envie pequeno impulso, se surgirem naves estranhas do funil de descarga. A imagem na tela ia ficando cada vez pior, à medida que a Drusus, mais veloz que a luz, se afastava. O Coronel Poskanow estava aterrorizado. Plano Columbus para catástrofe? A posição galáctica da Terra havia sido descoberta por povos estranhos! Afobadamente, sua voz voltou aos microfones: — Sir, devemos esperar por um ataque arcônida? — Que loucura! Atlan está do nosso lado. O que você está vendo foi provocado pelos druufs. Prepare-se para ser inundado, no verdadeiro sentido da palavra, por belonaves de todos os tipos. Nossa única chance está em não chamarmos a atenção desta gente. O fenômeno do funil nas imediações do sol Capela prova que mesmo os matemáticos dos druufs podem se enganar. Cometeram um engano de cálculo de, pelo menos, cerca de quarenta e dois anos-luz. A partir de agora não se deve mais usar abertamente o rádio. Se tiver que mandar alguma mensagem, só com potência bem reduzida e com grande concentração de ondas. Antes que o rosto de Rhodan desaparecesse totalmente, Poskanow reparou que o primeiro mandatário do Império Solar estava com um sorriso amargo. Segundos depois, a ligação foi interrompida. Embora Poskanow tivesse pedido aos operadores de rádio que redobrassem sua vigilância, não conseguiram captar as mensagens do supercouraçado, que certamente eram transmitidas em rápida sucessão. Isto provava que a técnica de concentrar as ondas transmitidas impedia-as de serem descobertas. Um rastreamento só seria possível se, por um infeliz acaso, uma espaçonave estrangeira entrasse na mesma faixa de onda. Poskanow estava resolvido a tomar todas as medidas de segurança. As Galáxias eram um espaço muito grande e 42 anos-luz também significavam alguma coisa. Com um pouco de sorte e de inteligência, podiam passar sem serem descobertos. 123


Poskanow sentiu um calafrio ao pensar na frota gigantesca dos druufs, os descendentes de insetos. Perto da frente de bloqueio, tinha presenciado pessoalmente como e com que fúria eles atacavam. — Tudo, menos isto — balbuciou e, em voz alta, prosseguiu: — Hauer informe os comandantes das diversas naves das recomendações de Rhodan. Mas preste muita atenção para que nenhum impulso lhe escape dos raios direcionais. O oficial-ajudante olhou para os armários, onde estavam dependurados os uniformes espaciais. Poskanow compreendeu. — Ainda não — determinou ele. — Ainda temos algum tempo, vamos dizer uns momentos de descanso. Vou... Uma mensagem da central de rádio interrompeu o chefe do grupo. Os alto-falantes chamavam. — Diversas mensagens chegam da Terra — disse o responsável pelo rádio. — Mais de quarenta delas, até o momento. Os rastreadores mostram que se destinam a todos os setores. As espaçonaves que se encontram fora do sistema solar recebem ordem de não decolarem e de não usarem o rádio. O tráfego comercial fica totalmente cancelado. Os cruzadores de vigilância da frota externa recebem ordens especiais. Há um intenso movimento, major. Puxa vida! O quartel-general age rápido e com determinação. Poskanow preferiu ficar calado. Seus traços fisionômicos indicavam a seriedade do momento. A tela se apagou. Depois de transmitida toda a mensagem aos comandantes das unidades e confirmada sua recepção, o chefe do grupo de caças ficou mais tranquilo. Tinha a consciência de que se fizera tudo que era humanamente possível. Esta constatação elevou o moral de Poskanow. O coronel sentou-se à sua mesa de comando e entrou em contato com o comandante da Osage. O Primeiro-Tenente Hauer não tinha mãos a medir, para responder com precisão, conforme a ordem de serviço, às mensagens decifradas sobre assuntos estratégicos, que chegavam sem cessar. O coronel esperou uns instantes, até que Hauer, cansado, se recostou na poltrona. Atrás deles roncavam os pesados rastreadores estruturais do couraçado. O ruído estava mais uniforme, sinal de que o conhecido funil de descarga se estabilizava cada vez mais. Talvez já estaria se realizando mesmo uma troca de energia entre os dois universos. — Estou contente por Rhodan já estar em casa — disse Poskanow, em voz baixa. — Isto vai ajudar a elevar o moral da frota e apressar a tomada de importantes medidas de defesa. Hauer tenho o pressentimento de que estamos às vésperas de uma guerra cósmica. Tudo que fizemos até agora, não foi nada em comparação com o que está para vir. Até hoje, todos os empreendimentos e ações de comando não passaram relativamente de escaramuças, sem a menor importância. O comandante assuou o nariz estrepitosamente,

dobrando depois com cuidado o lenço antiquado, enfiandoo no bolso interno do casaco do uniforme. Poskanow parecia mais feliz. Hauer era um oficial formidável, só que, de vez em quando, parecia um pouco cerimonioso. Mas isto desaparecia tão logo ele tivesse de tomar decisões importantes para sua nave. Nestes momentos então, sua reação era fulminante e precisa. — Senhor — disse ele, finalmente — não terei nenhum prazer em dar ordem de abrir fogo, mas, se for necessário, não hesitarei um segundo. Poskanow percebeu que, com estas palavras, estava expresso o pensamento de todos os homens das naves terranas. Esboçava-se, nos confins do espaço interestelar, uma ameaça de morte e de extermínio da Humanidade. Seres estranhos, que não pertenciam às raças humanoides, achavam-se em vias de atacar o espaço vital de outros povos. No seu íntimo, Poskanow estava em perfeito e sereno equilíbrio, pensando, com toda razão, que iria agir somente numa batalha inevitável e num caso de legítima defesa. Fazia-lhe muito bem deixar bem claros na cabeça estes pensamentos. — Ninguém quer a guerra, ninguém se alegra com ela. Por que então ela aparece? — perguntou a si mesmo. — Não tenho nenhum prazer em atirar em outras inteligências. E, Deus me perdoe, mas possuímos uma infinidade de instrumentos de destruição. Será que aqueles seres a quem chamamos de druufs sabem disso? — Eles sabem disso, senhor — respondeu Hauer, calmo. Suas mãos espalmadas se agarraram no espaldar da poltrona, parecendo querer evitar uma queda. — Eles sabem disso — repetiu. E seus olhos não se desgarravam das telas da grande galeria. Bilhões de estrelas da Via Láctea refulgiam como sempre. Jamais o espaço parecera mais vazio e tranquilo do que naqueles momentos. *** O encontro decisivo entre os oficiais da Frota e os da Defesa Solar, para discussão da situação, teve lugar em meados de maio de 2.044, no profundo abrigo antiaéreo do quartel-general do Comando Supremo. As gigantescas instalações subterrâneas foram construídas expressamente para que, no caso Columbus, pudessem proporcionar o máximo em medidas de segurança. Os centros de comando, com suas enormes instalações automatizadas e caríssimas, obra de muitos decênios de sérios trabalhos, formavam a célula central do Império Solar, do qual o Almirante Atlan dizia ironicamente não ser mais do que “uma caverna de trogloditas”, em comparação com os elevados padrões arcônidas. Mas Perry Rhodan e outros homens de importância da Terra tinham outra opinião... Os planos, já há muito tempo preparados pelos melhores cientistas e estrategistas da Terra, constantemente 124


renovados e atualizados com a ciência e a tecnologia mais avançada do momento, foram novamente avaliados no curto espaço de duas horas. Se não tivesse havido esta previsão miraculosa de conservar o plano Columbus sempre atualizado, com a máxima noção de responsabilidade, mesmo nos menores e aparentemente supérfluos detalhes, o tão jovem Império Solar estaria agora diante do mais completo caos. Assim que Rhodan chegou, entraram em vigor as normas de emergência. Computadores especiais transmitiam os impulsos, programados há muitos anos, para as gigantescas instalações industriais da Terra, todas automatizadas. A produção normal, feita durante o tempo de paz, iria terminar dentro de trinta minutos. Novos dados para produção maciça e em série foram transmitidos aos técnicos e diretores responsáveis. Os grandes parques industriais da Terra, planejados para esta eventualidade, se adaptaram prontamente à nova situação. A matéria-prima acumulada há muito tempo, reservada exclusivamente para esta emergência, foi retirada dos grandes silos e transportada para os pátios das fábricas. Ninguém nas três Américas, na Europa, na Ásia ou na Austrália e nas regiões povoadas dos Polos, precisava nesta hora vital de um plano ou de instruções especiais. Todos estavam, há muito, cientes de suas ações. O denodado trabalho dos últimos decênios agora começava a aparecer. Tudo corria harmoniosamente dentro dos planos já traçados; corria como que lubrificado pelo óleo de uma racionalização previdente e de uma Humanidade educada para a cooperação. O Ministério do Planejamento em Terrânia teve muito pouco trabalho em responder a algumas perguntas. Cada qual sabia o que devia fazer. A convocação dos reservistas da Força Espacial foi feita em pouco tempo. Os grandes transportes das linhas aéreas terranas conduziam as tripulações para os conhecidos espaçoportos. Em tempo algum da História da Humanidade se viu coisa semelhante. Uma organização perfeita. A base da Lua começou a trabalhar a todo vapor. Principalmente os aparelhos menores e rápidos dos tipos de caça, destróieres, gazelas e space-jets, passavam pelas instalações de controle. A Terra estava bem armada — bem armada mesmo — em unidades pequenas e médias. Neste particular, não estava muito atrás do Império Arcônida, apenas a Terra não conseguia ainda fabricar assim em série os grandes cruzadores. A construção de um couraçado de 500 metros de diâmetro levava anos. E um supercouraçado tipo Império, apesar de toda racionalização e automatização, demorava, no mínimo, 12 anos. Com as instalações gigantescas de Árcon, um aparelho destes poderia ser feito em 5 meses. Rhodan, que estava a par da produção terrana, conhecia bem as limitações de sua grande Terra. Sabia dos recursos de que podia dispor. Os pequenos e rápidos aparelhos

podiam causar muito prejuízo aos inimigos, mas não iriam decidir uma guerra. Faltavam a estas pequenas naves os armamentos pesados e superpesados, que só podiam ser instalados nos gigantes do espaço. Faltavam à Terra principalmente as grandes espaçonaves de transporte, sem as quais seria impossível levar centenas e centenas de caças e rápidos destróieres, de uma só vez, de curto raio de ação, para os longínquos teatros de guerra no espaço. Os novos cruzadores de 100 metros não tinham grande poder de ataque. A Terra nunca esteve interessada em atacar outros povos ou em subjugá-los. Daí a razão por que as naves construídas até então estavam insuficientemente preparadas para a atual emergência. Os novos cruzadores de 100 metros eram naves de reconhecimento, destinadas a grandes velocidades para operações de sondagens. Foram estes os assuntos tratados na grande reunião da segurança terrana. Ninguém subestimava a força da Terra e ninguém pretendia que os habitantes da Terra fossem os mais aguerridos de todo o Universo. Dentro destas condições, chegou-se a um plano de defesa muito meticuloso e cheio de responsabilidade para os terranos. Todas as unidades disponíveis da frota foram distribuídas, os respectivos comandantes, determinados. E todas as outras naves que estavam fora do sistema solar foram chamadas de volta. Não havia dúvida de que o aparecimento de um funil de descarga druuf tinha colocado a Terra, de repente, numa situação desagradável. Rhodan não se aventurou a mudar o estado de coisas com golpes de surpresa ou pela intervenção dos mutantes. Qualquer passo impensado poderia provocar uma catástrofe. A população dos planetas habitados recebia informações da Terra através da televisão. Abriram-se as portas blindadas do abrigo subterrâneo e as esteiras rolantes do abastecimento começaram a funcionar. Gêneros alimentícios armazenados e bens de consumo de toda espécie foram levados para os abrigos antiatômicos. O trânsito nas grandes cidades da Terra quase que parou! Cinco horas depois da chegada de Rhodan ao espaçoporto de Terrânia, o planeta parecia uma fortaleza abandonada. A partir daí, toda a vida humana se concentrava apenas nos subterrâneos. Somente aqueles que tinham obrigações indispensáveis, tinham autorização para permanecerem fora. Milhares de caças, destróieres e pequenos discos voadores cortavam os céus em todos os sentidos. Os grupos mais pesados da Frota Terrana estavam assumindo as posições já bem calculadas. Isto tudo aconteceu antes que a primeira espaçonave druuf cruzasse a fenda cintilante do funil de descarga. *** Os relógios eletrônicos no Comando Supremo da Frota marcavam onze horas da noite. A conferência ainda não 125


terminara. As primeiras avaliações sobre a natureza dos fenômenos da região de descarga já estavam prontas. Crest, o velho arcônida, pediu para falar com Rhodan. Os resultados, apresentados de forma objetiva, mas de qualquer maneira assustadora, davam o que a pobre Humanidade ainda tinha que esperar. Além das questões com a defesa, surgiu um problema que o cientista Crest descreveu assim: — Com os meios que nos estão à disposição, não pode ser constatado se a existência de um funil de descarga, que permanece estável, é algo intencional ou casual. A experiência demonstra que tais formações energéticas têm uma duração relativamente curta, caso sejam consequência de superposição natural. Já que, há oito horas e num crescendo contínuo e uniforme, a zona descoberta por nós liga os dois planos temporais, pode-se admitir que os druufs conseguiram, com uma base artificial, criar a transição. Aponto aqui para o jogo de espelhos, por nós inventado e utilizado, que possibilita igualmente a entrada para outros tipos de espaços. Temos de admitir que os druufs também puderam chegar a uma descoberta semelhante ou melhor. No interesse da defesa, é conveniente que aceitemos como real a existência desse invento perigoso. Também eram estas as ideias que os mais eminentes matemáticos da Terra conseguiram depreender. A partir de então, diante da possibilidade do aparecimento de outras zonas de descarga, o estado-maior do Império Solar resolveu tomar todas as providências. Foi Reginald Bell quem resumiu em poucas palavras os fatos inquietadores: — De um só funil de descarga ainda podemos dar conta, mas mais de um, não. Pois se tivermos que lutar em várias frentes de combate, seremos obrigados a dividir nossas forças. Isto significaria a derrota da Terra. Como seria uma grande loucura confiarmos no acaso, solicito o envio imediato do já previsto e preparado radiograma urgentíssimo de calamidade, destinado a Atlan. Marechal Freyt ficou perplexo. Allan D. Mercant não deixou transparecer nenhuma emoção maior. Rhodan cruzou os braços nas costas e caminhou, ao longo da enorme parede da tela panorâmica. Depois de alguns minutos, parou de novo diante da mesa dos mapas. — Radiograma para Atlan? Muito bem, mas só em último caso. Para Atlan nos poder ajudar, terá que nos mandar seus grandes aparelhos. Isto quer dizer que ele estará obrigado a tornar pública a posição da Terra, ou então suas naves jamais chegarão até aqui. A partir deste momento, o caminho para a Terra estaria franqueado a todos os seres inteligentes da Via Láctea. Acabaria assim nosso longo e necessário jogo de esconder. — Chegará o dia em que teremos que botar as cartas na mesa — interveio Mercant. — Não há dúvida, chegará este dia. Tenho, porém, a intenção de continuar “escondendo” o tempo que nos for possível. Estamos ainda demasiadamente fracos para aguentar abertamente o jogo com os povos galácticos, meu

amigo Mercant — Rhodan fez uma pausa proposital. — Mercant, temos de tentar botar por água abaixo os planos dos druufs, com os meios que estão ao nosso alcance. Mande-me, por favor, John Marshall. O chefe da defesa tinha lá suas dúvidas. Acreditava que os mutantes não teriam nenhuma chance num caso destes. Quando ele se levantou, ocorreu o que todos aguardavam já há várias horas. Uma das telas se acendeu, surgindo bem reconhecível o rosto do Major Abucot. — Central de Rádio da Defesa — identificou-se ele. — Sir, acabamos de decifrar uma curta mensagem da frota de vanguarda. No mencionado funil de descarga, estão aparecendo as primeiras espaçonaves. O Major Poskanow já conseguiu avistar vários corpos estranhos. Chegam cada vez mais. De acordo com os cálculos dos nossos instrumentos de medição, nenhum deles tem menos de duzentos metros. Estamos, portanto, diante de grandes unidades. Marechal Freyt passou o dedo nervoso entre o colarinho e o pescoço. Reginald Bell tinha um sorriso amargo. — Obrigado — interrompeu a voz de Rhodan o pesado silêncio. — Chame-me assim que tiver outras notícias. Mas não por causa de uma única nave. Agrupe-as, vamos dizer, em lotes de cem. Abucot desligou. Havia compreendido a intenção de Rhodan. — Sua ideia é boa — disse Bell irônico. — De cem para cima, não é? Quantos encouraçados druufs você está esperando? — Conforme as experiências na frente do bloqueio arcônida, o primeiro ataque será feito com cinco mil aparelhos. Se forem rechaçados, voltarão depois com dez mil. Marechal Freyt procurou uma cadeira. Rhodan recomeçou seu vaivém ao longo da parede das grandes telas, dizendo para si mesmo: — Tudo vai depender se eles vão ou não vão nos achar. Acho que estão tomando o sistema Capela como se fosse o nosso sistema solar. Vamos deixá-los nesta crença. Mercant traga-me finalmente John Marshall e me prepare uma missão especial para os mutantes. Tenho um bom plano. O chefe da defesa retirou-se. Antes que entrasse no elevador, Rhodan ainda lhe disse: — Nossa base em Hades ainda não se manifestou? Mercant abanou a cabeça. — Não. O cruzador ligeiro Nippon está, porém, diante da frente de bloqueio arcônida. A ligação com Hades continua normal. Estou aguardando informações a qualquer hora. — Elas não podem ser transmitidas pelo rádio. Você explicou isto ao comandante? — Naturalmente, Sir. Em caso de necessidade, o Major Matsuro terminará sua transição nas proximidades da Terra. Já tomamos as providências para absorver as ondas de superchoque. Até lá, se formos descobertos, chamarei então Matsuro, pois, neste momento, não terá mais nenhuma 126


importância o rádio ser ou não captado. Rhodan, preocupado, acompanhou com os olhos o chefe da segurança da Terra. Tudo estava dependendo de não se cometer nenhum erro.

4 O Estrela da Terra, um velho cruzador tipo normal, transformado depois em nave de carga e de passageiros, partira do espaçoporto intercósmico do planeta central do sistema Vega, no dia 16 de maio, às 14 horas e 32 minutos, em vôo normal de carreira. O Estrela da Terra estava voando, há muitos anos, na linha normal entre os sistemas planetários de Vega e do Sol, tendo em vista que, devido às intensas relações comerciais entre os homens e os ferrônios, o tráfego de passageiros havia aumentado muito. Seu comandante era o Capitão Carl Lister, ex-astronauta da Frota Terrana. Lister era tido como um homem corajoso, de muita iniciativa e muito agradável no convívio com tripulantes e passageiros. Por ser de estatura avantajada e por sua grande sociabilidade com todos, era realmente um comandante ideal para uma espaçonave da frota comercial. A carreira militar de Lister, no entanto, não foi muito feliz. Nunca conseguiu de fato conquistar a benevolência de seus superiores. Entre seus companheiros, passava simplesmente por um terrível azarento, para quem tudo corria mal nos momentos decisivos. Foi assim que Lister achou melhor se afastar da Frota Espacial. Desde então passou a comandar o velho Estrela da Terra. Já há seis anos neste serviço, sem lhe haver ocorrido nenhum contratempo, muito menos um acidente sério, Lister tinha, pois toda razão em pensar que o azar o havia completamente esquecido. Mas o destino quis que, exatamente quando ele já não mais se recordava da série de complicações e acidentes, quando ele fazia tudo para andar na linha e ser correto, que exatamente neste momento, os velhos tempos fossem revividos. Lister tinha feito sua refeição com os passageiros no salão da primeira classe, soltara naturalmente algumas piadas galantes e já bem gastas e, por fim, até permitiu que um rapaz de seus dezoito anos fosse visitar o salão de máquinas da velha nave. Um quarto de hora mais tarde, já estavam prontos os cálculos para o salto e o Estrela da Terra iniciou a transição. Lister venceu 27 anos-luz num único salto. Achava uma coisa sem sentido castigar os passageiros duas vezes com transições sucessivas. Estaria tudo certo, se Carl Lister não tivesse aparecido na dimensão superior, exatamente no momento em que a grande estação transmissora de Terrânia estava mandando para o espaço cósmico uma advertência dirigida

especialmente a ele. Entretanto o Capitão Lister não pôde ouvir as importantes ordens. Quando sua nave se rematerializou há sete horas-luz antes de Plutão, a transmissão já tinha terminado. Desta maneira, o Estrela da Terra continuou tranquilo sua rota na direção do sistema solar com oitenta por cento da velocidade da luz. Plutão estava no outro lado do Sol. Seguindo as normas de segurança, Lister reduziu ainda mais sua velocidade. E com apenas setenta por cento da velocidade da luz, foi levando sua velha espaçonave na rota certa. Mas não demorou muito para que a conhecida má sorte do experimentado capitão voltasse a se manifestar. Quando as primeiras naves dos druufs estavam saindo do funil de descarga, Lister resolveu comunicar sua chegada à Terra através de hiper-rádio. Enviou um radiograma longo, com ondas pouco concentradas. Nessa mensagem falava até que o soberano de Ferrol estava quase à morte. Lister achava que esta notícia era muito importante para explaná-la com muitos detalhes. E tudo isto em linguagem decifrada, na frequência de uso normal nas comunicações comerciais. Mesmo isto seria tolerável, se o Estrela da Terra não estivesse saindo do hiperespaço diretamente de encontro ao funil de descarga. Assim aconteceu que o amplo feixe de ondas atingiu a Terra, mas dali continuou em linha reta para o sistema Capela. Depois de estar telegrafando uns vinte segundos, ouviu um grande ruído no receptor do hiper-rádio de bordo, vendo ao mesmo tempo na tela o semblante furioso de um major terrano. — Você ficou louco? — ouviu-se com toda força nos alto-falantes. — Pare imediatamente com seu rádio. Desligue seu maluco. Está em vigor o caso Columbus. Terei que colocá-lo diante de uma corte marcial. Não transmita mais nada. Você está transmitindo para Capela... Com isto, a mensagem foi interrompida. O Capitão Lister estava branco como cera. Como fazia sempre, estava de pé na cabina de rádio, para controlar pessoalmente a transmissão de suas ordens. Lister puxou as mãos do telegrafista, que, estupefato, ficou olhando para ele. Naturalmente, todos sabiam o que significava a expressão caso Columbus. — Santo Deus! — suspirou o pobre telegrafista. — Terrânia deve ter comunicado o que está se passando ou, pelo menos, deve ter dado o alarme habitual... — ...quando estávamos efetuando a transição — completou Lister, assustado. Tinha compreendido o erro que havia cometido. Sabia também agora que o perigo vinha do sistema Capela. Sem perder tempo com qualquer palavra inútil, virou-se para trás e, devagar, como se estivesse acordando naquele instante, dirigiu-se para a central de comando. A novidade se espalhou num instante e os homens atônitos olhavam para seu comandante, que, pálido e de olhos parados, perscrutava o espaço. 127


Lister parecia um sonâmbulo. A ideia de ter cometido uma traição, mesmo sem o querer, o afogava num mar de tristeza. Como era cruel seu destino de ter que passar sempre por um homem errado. Gostaria de gritar ou chorar, mas não conseguia emitir nenhum som, tão secos estavam seus lábios. Seu corpo pesado parecia o de um animal mortalmente ferido, em busca da toca salvadora. Nada lhe seria poupado, teria de sofrer as consequências de sua má sorte, além dos remorsos que lhe ficariam na alma. Lá fora, ao lado da central de comando, estavam alguns passageiros. O segundo oficial do Estrela da Terra, encarregado dos serviços normais a bordo, estava explicando a um grupo de passageiros, com termos rebuscados e conceitos supercientíficos, as vantagens de uma eclusa de divisões transversais. Lister sentiu que alguém o agarrava pelo braço. Era a senhora Nattan, esposa do diretor das minas da General Cosmic, residente em Ferrol, que dava expansão ao seu explosivo entusiasmo. — Oh! Meu querido capitão, que coisa fenomenal! Nem sabia que isto existe. Estou vendo que esta nave é uma maravilha, e como tudo isto funciona encantadoramente. Carl Lister esboçava um sorriso forçado. — Naturalmente, minha senhora, tudo aqui funciona. O gargalhar estridente da velha senhora o irritou mais ainda. Mas teve de ouvir até o fim aquela avalanche de palavras bobas, até que foi obrigado a responder a uma pergunta: — Mas, capitão, o senhor está muito pálido! Não está se sentindo bem? — É... é por causa do voo, um rapaz tão jovem como eu está muito sujeito ao enjoo do espaço, não é? Quando fechou atrás de si a porta de seu camarote, o Capitão Lister cambaleava. Muito abatido, deixou-se cair em seu beliche, para ficar de olhos perdidos no forro do camarote. “Você ficou louco?... Desligue, seu maluco... Caso Columbus... Corte marcial... Capela... pare com a porcaria de seu rádio...!” Tudo isto estava martelando seu cérebro. Maldito o dia em que, pela primeira vez, transpôs os degraus da Academia Espacial. *** Apenas alguns poucos homens poderiam compreender a finalidade daquele estranho instrumento. Ao invés das curvas de medição, usadas convencionalmente nos cérebros positrônicos da Terra e dos registros de comando eletromagnético, este aparelho vomitava símbolos geométricos terrivelmente confusos. Por dentro, o aparelho não se diferenciava muito dos outros, construídos por seres vivos humanoides. Os princípios da matemática eram válidos também para as inteligências estranhas, não humanas. Em consonância com

estes princípios básicos da matemática, possuíam somente a possibilidade de ligar os diversos circuitos e de regular de tal modo os coletores finais escalonados, que os resultados obtidos podiam ser reconhecidos de outra forma. Mas, tudo isto eram exterioridades de somenos importância. Capital mesmo era o fato de que existia uma segurança de funcionamento fora do comum. A aterrorizante luz vermelha do espaço se espelhava nos grandes olhos de um monstruoso ser vivo. Ali, ele estava inerte diante da máquina que trabalhava com um zunido constante, até que os últimos sinais fossem reconhecidos. Um som superagudo, numa amplitude de frequência de mais ou menos duzentos mil hertz, podia ser captado pelas antenas orgânicas que os corpos dos druufs possuíam. Pisando firme, o gigante druuf de três metros de altura passou pela porta aberta. No interior do recinto reconheciase uma grande tela oval e uma quantidade de instrumentos de todas as formas. Cabeças esféricas com bocas triangulares sem lábios e de olhos fosforescentes se viraram para aquele que estava entrando. Era uma cópia fiel das profundezas do inferno. Um ser humano não ouviria nenhuma palavra e, no entanto, todos estavam falando. Impulsos ultraelevados substituíam os movimentos da boca para formar palavras. As antenas invisíveis de seus corpos captavam as vibrações, para levá-las ao cérebro a fim de serem identificadas. Mas estes descendentes dos insetos, vindos de um plano temporal que não tinha nada em comum com o restante Universo, não eram totalmente incompreensíveis... O diálogo mudo entre os matemáticos e os oficiais do comprido aparelho bélico se deu quinze minutos depois do registro do estranho radiograma. Foi o tempo necessário para os druufs realizarem a localização do ponto de onde partira o rádio. Outras máquinas de cálculo estavam em funcionamento. Numa tela arredondada, viam-se as estrelas daquele setor do espaço, que circundava o funil de descarga. Os surpreendentemente finos dedos do druuf apontaram para um trecho onde as quatro linhas goniométricas se cruzavam. Neste local havia uma estrela de clarão amarelado, porém de muito pequeno tamanho. O ribombar cavernoso dos motores de propulsão aumentou de intensidade. A nave começou a se mover. Ao mesmo tempo, chegaram as primeiras informações. Neste exato instante, um grupo de quinhentas naves estava transpondo a fenda na região da superposição. Na tela da nave capitânia, a cabeça redonda de um druuf brilhava. Comunicou mais ou menos o seguinte: — Resultado da radiogoniometria. Vejam depois e confiram. Seguirei assim que a localização estiver bem conhecida. As quinhentas grandes belonaves desapareceram. Aconteceu naturalmente o que os cientistas da Terra chamam de mergulho na quinta dimensão. A técnica de hipervoo dos druufs, ao contrário do método básico dos arcônidas, se baseava no curso linear, 128


sob a influência do espaço de cinco dimensões. Era um voo liso, sem saltos constantes. Neste sentido, os druufs eram muito superiores aos demais seres vivos, cujos mecanismos de propulsão seguiam os moldes e a experiência dos arcônidas. A frota desapareceu com uma onda de choque estrutural curta e muito lisa, rumando para o espaço superior. Não houve propriamente nem desmaterialização, como nas naves terranas, nem processos dolorosos de dissolução e perda total dos sentidos. Voavam a uma velocidade milhares de vezes superior à da luz, em direção daquele ponto de onde haviam recebido o hiper-rádio. A orientação foi de fato perfeita e eles estavam no sentido certo... Só um ponto lhes estava um pouco obscuro. Não sabiam se os sinais rítmicos provinham dos procurados terranos ou de qualquer nave comercial, que por acaso passasse por ali, talvez de raça desconhecida. Caso desvendassem tal ponto, estaria comprovada a alta técnica de sua radiogoniometria. Entretanto não conseguiriam por vias científicas nenhum resultado prático. De qualquer maneira era necessário olhar o que se passava em volta deste solzinho de terceira categoria. De acordo com as concepções dos druufs, que, fiéis à sua mentalidade, julgavam tudo em escalas de enormes proporções, parecia excluído, impossível mesmo, que uma raça tão importante como a dos terranos vivesse e crescesse sob a luz de um sol tão fraco. A nau capitânia da frota druuf rumou direto para Capela. Porém, nos planetas desse sol, não podia haver condições de vida. Foi dada então a ordem de se reunirem. Duas mil unidades, que, a cada hora, conforme os planos dos druufs, recebiam um reforço de mais quinhentas naves, se agruparam nas proximidades do sistema Capela. Enquanto isto, o comandante druuf estava ocupado com o pensamento de mandar dar uma busca rigorosa nos sóis em volta, dentro de um raio de ação de pelo menos cinquenta anos-luz. Os matemáticos druufs não poderiam de maneira alguma ter se enganado tanto assim. Mas de qualquer maneira, era bom olhar um pouco em volta. O comandante supremo da frota resolveu então aguardar o resultado das pesquisas. Tinham bastante tempo. Além disso, durante esta exploração, poderiam confeccionar mapas siderais tentando localizar a frente de bloqueio dos terranos entre estas estrelas da Galáxia. Estes seres esquisitos do segundo plano temporal haviam feito cálculos maravilhosos sobre tudo, esquecendose apenas de calcular o patriotismo dos terranos e sua vontade de resistir. O chefe dos druufs também não suspeitava que sua infinidade de naves já houvesse sido localizada. O decisivo seria agora o potencial bélico, especialmente em grandes encouraçados. Assim o chefe druuf não precisava se preocupar se já tinha ou não sido visto pelos terranos. Seu potencial bélico era berrantemente superior. Uma descoberta prematura poderia significar, no máximo, uma pequena dificuldade para os planos druufs.

Mas uma pequena dificuldade não ia atrasar a vitória dos seres de Druufon. Os druufs tinham é que ter paciência e saber esperar. Do funil artificial de descarga saía uma esquadrilha depois da outra. Não podiam se expor sem necessidade. Afinal de contas, estavam penetrando num Universo estranho, cujo tempo natural corria duas vezes mais rápido que o do segundo plano. O comandante druuf estava a par de tudo isto. Sabia que suas naves teriam apenas a metade da velocidade que as do adversário. Quando se conhece, porém, o perigo, tem-se muito mais possibilidade de evitálo. E os druufs tinham a intenção de superar tal inferioridade através do potencial mirabolante de suas enormes espaçonaves, armadas até os dentes. Esta tática já dera bons resultados na linha de bloqueio contra os arcônidas. Para o sucesso de todo o plano, era necessário apenas impedir o acesso da frota arcônida, que eles conheciam de sobra. A Terra seria derrotada e estaria aberta uma nova frente de combate nas costas dos arcônidas. Assim que terminasse esta primeira fase de seus planos, a estratégia toda se modificaria, de uma hora para outra.

5 O Tenente Aluf Tehete, comandante do grupo de Caça 586, da esquadra RJV-64, pertencia ao número dos primeiros oficiais terranos que atacou, num voo rasante, com seu caça de um só tripulante, de velocidade superior à da luz, a densa falange de reconhecimento das naves druufs. O caça de Tehete não era nada mais que um projétil de 15 metros de comprimento e de um e meio de diâmetro, cujo espaço interno era ocupado 90 por cento pelo conjunto compacto de propulsão de alta potência. Possuía ainda um canhão de impulso embutido, de grande alcance. Quando este canhão atirava, o piloto tinha a impressão de que toda a fuselagem explodiria junto, reduzindo tudo a poeira, no espaço. Seus envoltórios de proteção eram frágeis demais. Mas mais lamentável ainda foi o espaço diminuto que os construtores deixaram para o piloto. Tehete estava espremido num banquinho redondo, bem rente ao nariz agudo do aparelho, que coincidia com a boca do canhão. Não deixava de ser uma temeridade colocar rapazes corajosos para lutar em tais condições. No entanto, estes jovens estavam entusiasmados e não tinham inveja dos homens que desempenhavam suas funções em grandes aparelhos com todos os recursos. A vida de piloto de caça tinha que ser assim mesmo. Viam e ouviam tudo que se passava no espaço e não precisavam esperar por uma ordem de fogo. Eles é que tinham de decidir quando deviam atacar e o que deviam fazer para salvar a vida. Tehete levou sua esquadrilha para frente de ataque 129


druuf, assim os cruzadores rápidos do RJV-64 perceberam a invasão do inimigo no espaço normal da Terra. Do seu lado direito, Tehete tinha a alavanca do comando dos impulsos, que dava ao aparelho um domínio maravilhoso de controle energético para manobras rapidíssimas, manobras estas que, alguns minutos depois, haveriam de deixar os druufs de boca aberta. O primeiro combate na luta em defesa do Império Solar se desenrolou exclusivamente entre os grupos de caça da Terra e as unidades de reconhecimento dos druufs. Nenhum grande couraçado da Frota Terrana participou deste embate. O choque deu-se muito depressa e não houve tempo para o deslocamento dos aparelhos maiores. Os ágeis caças terranos, ou “vespas”, como eram chamados, obtiveram seu primeiro sucesso, exatamente pelo fator surpresa. Equipados com enormes canhões que, em geral, somente se instalam em aparelhos de pelo menos 500 metros, produziram um verdadeiro furacão atômico entre os druufs e no curto espaço de sete minutos destruíram 85 por cento de seus pequenos cruzadores de reconhecimento. O Tenente Tehete estava pensando em sua pátria, no Oeste Africano, quando apoiou a mão na alavanca de comando dos impulsos, que controlava os tiros do canhão. Na tela de 30 centímetros de diâmetro, totalmente automatizada, brilhavam os contornos bem delineados de uma espaçonave alongada, tipo charuto. A lâmpada verde do goniômetro piscava sem cessar. Por aí se podia saber que o objeto descoberto não era uma nave terrana. As ligas metálicas empregadas eram diferentes e os impulsos eram muito diversos dos terranos. Aluf constatou que o druuf que voava na frente dele tinha apenas a metade da velocidade da luz. Portanto, estavam certos os dados de que havia uma diferença de tempo de um para dois. Naturalmente a maior velocidade representava uma grande vantagem. Maior vantagem ainda eram as dimensões reduzidas de sua pequena nave, que, no meio do espaço infinito, mal era reconhecida. Assim, continuou no rumo certo, até que o dispositivo automático lhe indicou a distância de apenas trezentos mil quilômetros — distância ideal para o canhão do pequeno caça. Era suficientemente grande para a própria segurança e ainda contava com 95 por cento da possibilidade de atingir o alvo. O ângulo de correção era mínimo e os raios energéticos atingiriam o objetivo em um segundo. Quando os contornos da nave inimiga, depois das manobras de pontaria de controle automático e positrônico, entraram no círculo verde da mira, Tehete comprimiu o botão de disparo. Seu aparelho estava numa velocidade quase idêntica à da luz. Diante da proa do aparelho, se formou a bola cósmica da micromatéria, que normalmente não é visível. A compressão ali provocada não era nada simpática aos pilotos de caça, pois os impulsos energéticos do projétil ao explodir provocavam um clarão de sol, que naturalmente poderia trair sua posição no espaço. Sempre havia naves inimigas por perto. Se não houvesse esta

explosão luminosa, os disparos energéticos jamais seriam percebidos. Tehete sentiu o bruto contrachoque de seu aparelho. Diante dele se levantou a chama branca, formando uma bola de fogo de onde saiu um raio energético de uns dez metros de comprimento. Depois disso, desapareceu completamente nas profundezas do espaço. No entanto ele estava ali, apenas não podia ser visto devido à ausência do meio material. Terrivelmente ofuscado, o comandante do grupo tirou o aparelho da direção em que ia, pois sua velocidade era quase idêntica à do raio energético, portanto não podia continuar na mesma rota. Quando Tehete, a apenas dez mil quilômetros da nave dos druufs, deu uma guinada para outra direção, abaixo dele se formou uma bola de fogo. O rastreador energético registrava a explosão de forte carga atômica. O jovem terrano se sentiu orgulhoso, sabia que o primeiro aparelho abatido nesta guerra era um feito dele. Seu grito de alegria assustou os telegrafistas da nave capitânia do RJV-64. Mas não foi apenas o urro que os operadores do rádio tiveram de ouvir, parecia mesmo uma transmissão especial em hiperfrequência, vinda dos fundos do inferno. Os pilotos eram jovens demais e não podiam ter muita experiência de luta para receberem seus primeiros triunfos com ânimo mais calmo. Precisavam de reconhecimento, de aplauso, de uma palavra quente de amigo ou do sorriso feliz de seus superiores. Mas ficaram roucos de tanto gritar e seus voos foram executados com tanto ardor que a grande frota de reconhecimento dos druufs ficou quase dizimada. Porém aconteceu que um cruzador terrano, emergindo do hiperespaço, foi atingido tão seriamente pelos raios energéticos de um dos caças, que três turbinas pararam e houve um princípio de incêndio na casa de máquinas. O comandante deste cruzador do tipo Estado era o Major Matsuro, que estava acabando de chegar com notícias importantes da frente de bloqueio. Por questões da importância de suas notícias, Matsuro se atrevera a transpor a grande distância entre o sistema Mirta e a Terra através de uma única transição. Em saltos tão grandes assim, nunca se podem evitar pequenos erros. Em relação com as proporções da transição, este pequeno erro podia ser, por exemplo, emergir do hiperespaço oito bilhões de quilômetros antes do ponto pretendido. Jamais se conseguiu saber quem foi o piloto de caça que deu este tiro tão nocivo. A Nippon foi se arrastando lentamente com menos da metade de sua potência. Mas, nem mesmo assim, Matsuro teve coragem de usar o rádio. Porém a resolução do primeiro mandatário da Terra veio auxiliá-lo. Em todas as espaçonaves do Império Solar, a começar pelos poderosos supercouraçados até os pequenos caças, acenderam-se as telas do videofone. Rhodan irradiava na frequência convergente, sendo ouvido e visto em toda parte. — Fala Perry Rhodan, atenção! É para todos. A partir 130


deste momento fica cancelada a proibição de uso do rádio. Qualquer um pode falar. Mantenham as frequências obrigatórias de cada grupo, para que um não prejudique o outro. Fomos finalmente descobertos. Radiogramas das unidades dos druufs, atacadas por nossos caças, foram captados e os especialistas tentam decifrá-los. Acostumemse agora com o pensamento de que têm que lutar de olhos abertos. Nossa brincadeira de esconde-esconde já terminou. A seguir, foram transmitidas diversas informações a respeito da disposição estratégica das forças terranas. Muitas esquadrilhas de cruzadores transpuseram com curtos supersaltos a frente de defesa externa. Nas proximidades de Saturno, o cinturão de defesa foi reforçado com naves maiores. Neste cinturão, o próprio Rhodan assumiu o comando. A primeira zona de defesa estava sob o comando do General Deringhouse. Major Matsuro esperou pacientemente até que as mensagens mais importantes fossem transmitidas. Somente após isto, chamou a Drusus, com urgência urgentíssima. A ligação foi imediata. O semblante de Matsuro apareceu na gigantesca tela de hipercomunicação do supercouraçado, cuja central estava funcionando como quartel-general no espaço, há já algumas horas. — Cruzador Nippon, comandante Major Matsuro — apresentou-se o oficial. — Estou chegando da frente de bloqueio, Sir, mas um piloto de caça, que deve ter enlouquecido, no calor da batalha me confundiu com uma nave dos druufs. Meu cruzador perdeu a metade de sua eficiência. O incêndio na casa de máquinas pôde ser dominado com a diminuição do teor de oxigênio do ar. No entanto, a central ficou imprestável. O senhor tem algumas instruções especiais para mim? Rhodan compreendeu imediatamente. A Nippon devia trazer notícias especiais da base de Hades. — Proibido falar — foi a rápida resolução de Rhodan. — Solte uma gazela e venha com ela para bordo da Drusus. Nós o receberemos aqui por telecomando. Seu primeirooficial deve assumir o comando da Nippon e dirigir-se devagar para a base de Plutão, aonde o cruzador irá para os estaleiros. Ainda é possível fazer isto? Matsuro olhou para seu engenheiro-chefe. O técnico fez um sinal afirmativo. — Perfeitamente, Sir, os motores ainda darão para isto. Só não sei como conseguiremos aterrissar. — Está bem, a base de Plutão será avisada. Eu o estou esperando. Prepare um relatório da situação. Quero saber quais foram os efeitos do tiro do caça. Em que parte é que a Nippon foi atingida? — No meio do bojo, pouco acima do rebordo de reforço. O impulso energético destruiu ambos os envoltórios de proteção, derreteu a parte blindada, conduzindo o restante da energia térmica para o quadro de comandos. Matsuro não se admirou da expressão de contentamento no rosto do primeiro mandatário do Império Solar. Naturalmente Rhodan queria saber como o projétil dos

caças atuava. Por certo, esta constatação muito o agradou. — Está certo, Matsuro, isto me basta por ora. Não perca mais tempo e venha depressa. Você tem notícias importantes, não é? — E como, senhor! Do contrário, não teria voltado de Hades. *** O Major Nako Matsuro se viu no meio dos mais graduados oficiais da Terra. Até o Marechal Allan D. Mercant se encontrava na central do supercouraçado Drusus. Parecia que se planejara algo que apenas alguns homens sabiam. O relatório de Matsuro já havia sido apreciado. Tinha conseguido entrar em contato com os agentes na base de Hades. Interrogado mais uma vez, o comandante do cruzador de reconhecimento resumiu em poucas palavras: — Perfeitamente, Sir. Os dados foram fornecidos integralmente. O Capitão Rous afirma que os druufs conseguiram criar um funil de descarga artificial. Nosso agente Ernst Ellert parece estar em sérias dificuldades. Confessou a Rous que está perdendo aos poucos o poder sobre a mente do cientista druuf Onot. Onot é acusado pelo Conselho de Ministros de Druufon de culpado pela destruição da grande central calculadora, pelo menos de ter participado nas ações de sabotagem. — No que eles têm razão — observou Rhodan, secamente. — Continue Matsuro! — É mais ou menos tudo, Sir. Ernst Ellert se esconde agora, aliás, como sempre, atrás deste Onot. A ligação pelo rádio com o décimo terceiro planeta do sistema gigantesco não parece fácil para Ellert. Capitão Rous teme complicações. — E para que serve aquela gigantesca estação espacial perto do sol duplo de Siamed? — perguntou Mercant. Matsuro percebeu que o homem que parecia tão indiferente estava tocando no cerne da questão. — Esta notícia chegou exatamente na hora em que eu me preparava para a transição. Por intermédio de Rous, Ellert comunicou que os druufs haviam construído este monstro. A estação espacial foi montada com a finalidade exclusiva de se obter um funil de descarga artificial. Rous conseguiu ainda constatar, por meio de medições, que a zona de ligação começa logo acima desta estação espacial. Mais não se conseguiu tirar de Matsuro. A bem treinada tripulação do cruzador, seriamente danificado, foi rebocada por uma nave-socorro da Frota e levada para a base da Lua. Quando Matsuro lá chegou, foi-lhe dado o comando de uma nave recém-saído dos estaleiros. Sete horas após a conversa com Perry Rhodan, o Major Matsuro partia novamente para um voo experimental. *** Estas sete horas se converteram nos momentos 131


decisivos para o plano de defesa do comando supremo solar. Primeiramente, o cruzador leve Califórnia, sob o comando do já famoso Coronel Tifflor, atracou perto do rebordo de reforço na fuselagem da Drusus. E depois, o comandante supremo da gigantesca nave deu certas ordens importantes. Quando Matsuro partiu para o voo experimental, quando o Coronel Tifflor chegava a bordo da nave capitânia, quando o chefe dos mutantes, John Marshall, reunia seu grupamento em torno de si, e quando cinco mil caças mono piloto se reuniam sob a proteção dos grupos de cruzadores, que avançavam para um determinado setor de defesa, apareciam as primeiras belonaves dos druufs, irrompendo de seu esconderijo... o segundo plano espacial. O cruzador pesado Cattano, da ala direita do RJV-106, explodiu sob o impacto dos disparos de quatro grandes unidades dos druufs. O Cattano foi o primeiro cruzador que a Frota do Império Solar perdeu em combate. Para surpresa dos pilotos dos jatos, os atacantes fizeram uso de uma arma que jamais teria sido nociva a uma belonave de maior tamanho. Tratava-se de um lançador de agulhas térmicas, cujos impulsos superpotentes eram transformados em milhares e milhares de raios de ataque de poucos milímetros de extensão, por meio de um desintegrador filtrante de circuitos. Surgia assim uma verdadeira granada atômica com um enorme raio de divergência e consequentemente com grande garantia de acertar o alvo. Já para uma nave auxiliar do tipo girino, estes raios finíssimos de muito pouca energia não trariam perigo. No entanto, conseguiriam prejudicar muito os pequenos jatos e os destróieres de três tripulantes. As espaçonaves de menor tamanho da Terra que entrassem em ataque, em sessenta por cento dos casos seriam logo descobertas e atacadas com este novo tipo de arma. O Tenente Aluf Tehete voou com suas máquinas para uma destas frentes de combate. Nem ele, nem nenhum de seus companheiros ainda tinha tido a honra de derrubar algum aparelho inimigo. Os doze aparelhos do grupo de caça 586 foram todos destruídos pelo fogo da frota dos druufs, que avançava com um número de naves nunca visto antes. Poucos segundos antes da desgraça, o cruzador pesado Osage ainda conseguiu escapar da frente arrasadora dos druufs, graças à ousadia de seu comandante. Os impactos vibratórios destinados a ele resvalavam em seu bojo e se perdiam no espaço. Duas horas depois do ataque maciço, aliás, após o primeiro embate, a situação já estava mais ou menos clara. Tomaram parte neste ataque cerca de cinco mil unidades dos druufs, mas do funil de descarga brotavam ininterruptamente centenas e centenas de outras naves. Após três horas de combate, Perry Rhodan sabia que, com suas forças em visível inferioridade numérica, não poderia salvar a Terra. Estava iminente um fracasso total. As primeiras naves druufs já se achavam atacando a base de

Plutão, cujo fogo antiaéreo, a princípio, parecia suficiente para afastar os invasores. Mas o planeta não ia resistir por muito tempo a este ataque maciço. À crua realidade destes fatos, advinha ainda a seguinte pergunta cruel: Será que os druufs não iriam conseguir abrir outro funil de descarga? Caso isto acontecesse, não se podia mais nem pensar em defesa... O Coronel Poskanow anunciou a perda de onze cruzadores de seu grupo de caças espaciais. Os caças e os destróieres de três tripulantes, catapultados dos grandes couraçados, não podiam mais retornar à nave-mãe durante os combates que se davam no momento da fuga. Foi assim que os pilotos receberam a instrução de tentarem romper o cerco cada vez mais fechado dos druufs, para ver se conseguiam chegar até o setor, onde estava à frota sob o comando direto de Rhodan. Terminada a missão de vigiar os postos mais avançados no espaço, reduziu-se o trecho a ser defendido. Quanto mais se aproximavam do Sol, que era o centro de todo o sistema, tanto mais se encurtava o teatro de operações bélicas. Rhodan antevia assim melhores possibilidades de defesa. Seus poucos supercouraçados podiam se concentrar melhor e mais rapidamente chegar aos pontos de maior urgência. Cinco horas após o início da invasão dos druufs, os gigantes terranos entraram em ação pela primeira vez. Eram os supercouraçados de 1.500 metros de diâmetro Hannibal, General Pounder, Barbarossa, Wellington e Alexander, que, depois de uma curta transição, apareceram no meio da enorme confusão para abrir fogo imediatamente. Somente a Titan, já um tanto envelhecida, e a Drusus ficaram para trás para proteger a retaguarda. Em tempo algum de sua vida, os druufs experimentaram desgraça tão grande. Já conheciam estes gigantes do tipo Império, de outras refregas, mas tão somente como supernaves robotizadas do Império Arcônida. Agora a situação era outra. Atrás dos canhões das supernaves terranas estavam homens de alta qualificação técnica, que, além de tudo, sabiam por que estavam arriscando sua vida. Somente o novo couraçado Wellington, no curto espaço de oito minutos, conseguiu fazer vinte e sete disparos, sem ser atingido seriamente. Seu poderoso envoltório de proteção resistia a tudo que os druufs podiam fazer. Os outros supercouraçados também não tiveram muito trabalho com os invasores e puderam olhar a situação com mais calma. A ponta de lança do ataque druuf estava dominada. Porém, uma hora mais tarde, eles se reorganizaram novamente. Mais ou menos nesta hora, o General Deringhouse chamou a nave capitânia. Seu rosto comprido, denotando grande cansaço, apareceu na grande tela da nave de Rhodan. Este se postou diante do vídeo. — Sir, conforme meus cálculos, dentro de trinta minutos Plutão vai cair nas mãos do inimigo. Não posso mais me arriscar em deixar as grandes espaçonaves na linha 132


de frente. Os druufs estão começando a atacar todas as naves maiores com um fogo concentrado de mais de cinquenta aparelhos. Nossa maior agilidade de manobra nos livrou até agora do pior. Sir, que pretende fazer? Rhodan simplesmente deu ordem de retirada. Plutão seria evacuado e as instalações de defesa, entregues aos robôs. As esquadrilhas mais avançadas recuaram até a órbita de Saturno, onde se reuniram, formando novos grupos. Rhodan esperou até que chegassem os boletins das últimas perdas. Quando os números foram conhecidos, olhando para os oficiais do estado-maior, sentenciou: — Meus senhores, o ponto crítico chegou. Se tivéssemos mais algumas naves, não precisaríamos pedir o auxílio de Atlan. Os senhores farão alguma objeção em chamarmos nosso amigo Atlan? — Eu já teria feito isto há mais de vinte e quatro horas — disse Reginald Bell, com calma. — Nossas perdas são horrorosas. O fato de já termos abatido mais de duas mil naves dos druufs, não nos vai ajudar muito, no balanço geral. Ninguém tem objeções a fazer. Sem dizer uma palavra, Rhodan voltou para a central de comando. Foi o momento mais importante na história da raça humana. Perry Rhodan, primeiro administrador do Império Solar, resolvera abrir mão do segredo da localização da Terra, mantido até então com tanta firmeza e prudência. A ligação por hipercomunicador, preparada já há muito tempo, se fez em menos de quatro minutos. Podia-se ver claramente o rosto de Atlan. A enorme distância de 34 mil anos-luz não representava nada para as frequências do hiper-rádio. — Já chegou a este ponto? — perguntou o arcônida sério. — Estou acompanhando o ataque há algumas horas. Cinco cruzadores robotizados estão nas redondezas de Capela. Você quer meu auxílio? Em caso afirmativo, não se esqueça de que não poderei manter por muito tempo o que lhe prometi. — Peço o apoio do Grande Império — respondeu Rhodan, gaguejando um pouco. — Atlan, estamos sendo atacados por cerca de oito mil naves dos druufs. Acho que ainda consigo manter a resistência por mais vinte e quatro horas. Depois disso, atacarão a Terra e Vênus através de Marte. — Todas as ligações já estão preparadas. Tenho a impressão de que estes insetos monstruosos vão fazer tudo para deter as forças arcônidas na zona de descarga. Vou lhe mandar tudo que não me for indispensável. Daqui a dez ou doze horas, a frota chegará aí. Estão ainda em vigor as nossas velhas senhas de reconhecimento? — Sem exceção. Vou avisar os comandantes terranos. Os sinalizadores de impulso receberão logo a programação combinada. Depois que o arcônida desligou Rhodan ainda ficou longo tempo diante da tela. Acreditou que estava recebendo nas costas os olhares de todos os seus oficiais superiores.

— Caso você nos pergunte se o consideramos um traidor, vou ficar realmente zangado — disse alguém. Rhodan virou-se para trás. Reginald Bell o encarava. Os olhares dos dois homens se encontraram, até que Rhodan disse em voz baixa: — Não... não vou perguntar. Santo Deus, como tudo isto foi tão simples. Com um simples radiograma, a gente destrói tudo que se construiu em setenta anos. Daqui em diante, a Terra estará aberta, franqueada para amigos e inimigos. Vai começar uma nova época. — Eu me alegro com isto, Sir — disse o Marechal Freyt. — Nós não poderíamos nos esconder mais por muito tempo.

6 Allan D. Mercant havia iniciado a reunião às 13:30, hora padrão, no grande salão da tripulação do cruzador Califórnia. Estavam presentes todos os membros da tripulação da nave e os especialistas do exército de mutantes. Perry Rhodan não se achava ali. Tinha outros assuntos importantes para resolver. Os preparativos para a ação dos mutantes era um assunto exclusivo do setor geral da defesa. No sistema solar, estrugia a mais dura das batalhas. A Humanidade fora obrigada a pegar em armas. Além do sistema solar, reinava calma na imensidão do espaço. Mercant foi sucinto: — Os acontecimentos provam que os senhores e as senhoras, apesar de seus dons sobrenaturais, não têm o poder de se opor aos invasores. Isto é uma guerra, ou melhor, uma batalha aberta, que, realmente, não tem nada a ver com as suas atividades de agentes de forças paranormais. Entre os senhores, apenas os três teleportadores teriam uma possibilidade limitada de destruir naves inimigas, transportando explosivos nucleares. Gucky já experimentou atacar desta maneira. Foi bem-sucedido em dois casos. Na sua terceira teleportação, errou o alvo móvel e quase foi morto. — O druuf decolou, exatamente quando eu estava me concentrando — ouviu-se alguém dizer, em tom de voz fina, nos fundos da sala. Podia-se ver a figura pequena do rato-castor. — Eu pulei para fora, exatamente para fora, coisa que nunca me aconteceu. — E isto vai acontecer muitas vezes. Numa aglomeração de tantos milhares de espaçonaves assim, de todos os tipos, a intervenção dos mutantes se torna irracional, pelo menos desta forma. Permaneçam, portanto, no campo de ação que lhes é peculiar e deixem a batalha apenas para as espaçonaves. Mercant interrompeu seu discurso e cumprimentou o administrador do Império Solar, que estava entrando 133


naquele momento. Rhodan agradeceu rapidamente. Sobre sua cabeça, pairou Harno, o singular ente esférico. — Já está pronto, Marshall, confia no nosso plano? A figura imponente de Marshall se destacou dos corpos que estavam agrupados rente à parede. — Tudo em ordem, Sir. Estamos experimentando. Sei que telepatas e pessoas de meu tipo não podem fazer muita coisa numa batalha aberta. — Isto já foi dito, há anos, por um homem sábio e experimentado — disse Rhodan. — Seu nome é Atlan. Para sua informação: pedi o auxílio dele. Vai nos enviar todas as naves de que não estiver precisando no momento. Apesar disso, temos que tentar tudo. A Drusus vai partir daqui a alguns minutos para fora da frente de batalha e o Major Tifflor a acompanhará com a Califórnia. Vou mandar instalar para você um dispositivo de lentes, através do qual possa enxergar, perfeitamente, o Universo dos druufs. Aproveite o grande poder de aceleração do cruzador. Entre em contato com a base de Hades. Gucky pode tentar encontrar Ernst Ellert. Parece que ele está em dificuldades. Penetre no sistema de Siamed e passe a averiguar se realmente existe a estação espacial anunciada por Rous. Se esta instalação corresponde de lato a uma usina voadora para construção dos funis de descarga artificiais. A seguir, faça o que achar melhor. “Tifflor e você, Marshall, trabalharão juntos. Tifflor controlará a nave Califórnia e Marshall colocará os mutantes preparados para atuarem. Mas, de qualquer maneira, você deverá tentar destruir esta estação espacial. Terá muitas oportunidades, pois um empreendimento deste tipo é um ótimo campo de ação para suas forças mentais. Agora, uma coisa: de mim vocês não podem esperar socorro. Ficarei demasiadamente ocupado por aqui. Estejam bem compenetrados de que vão estar entregues às suas próprias forças. Também não lhes posso prometer auxílio por intermédio dos transmissores fictícios. Todos os instrumentos existentes nos supercouraçados estão sendo usados para salvamento urgente dos feridos e acidentados. Os tripulantes das naves atingidas estão sendo levados para outras unidades com o auxílio dos transmissores fictícios”. “Vocês estão vendo como nossa situação é difícil. Não quero ainda usar a expressão „desesperadora’, mas pode ser que, em futuro próximo, tenhamos que usá-la.” Depois de pequena pausa, Rhodan continuou: — Nós todos somos homens, temos uma pátria comum, a nossa Terra. Gucky e Harno pertencem ao nosso meio. Não consideramos como monstros outras inteligências que existam no espaço, se forem justas e honestas. Ninguém é responsável por seus aspectos exteriores. — Muito obrigado, pelo que me toca — disse Gucky lá dos fundos. Seu dente roedor estava à vista. — Não estava me referindo a você — disse Rhodan sorrindo. E este sorriso quebrou um pouco a tensão expressa no rosto dos homens que o ouviam. Era como se Rhodan

tivesse rompido uma barreira. — Os senhores precisam saber que a empreitada é dura. Se tudo correr bem, os senhores irão separar a base de suprimento dos druufs de sua frota que está em combate. Isto será meia vitória. Naturalmente ainda continuaria o problema de liquidarmos com o restante dos aparelhos inimigos. Este problema não diz respeito aos senhores, mas sim a nós, aqui no nosso Universo. Procurem a todo custo destruir esta estação espacial. Guerra é guerra. Se forem obrigados a atacar com armas atômicas, lembrem-se de que estamos defendendo a Humanidade. Não deixará de ser uma legítima defesa. Bem... é tudo que pretendia dizer. Resta ainda alguma dúvida? Rhodan olhou para o relógio. Marshall ainda se informou sobre a extensão da missão de Harno, televisor vivo. — Harno fica aqui — resolveu Rhodan. — Vou precisar de seus dons com urgência, para poder regular corretamente o transmissor fictício da Drusus. Quero atacar com ele as naves mais importantes dos druufs. Logo em seguida, o chefe do Império Solar voltou para a nave capitânia, em cujo flanco estava ancorada a Califórnia, que media apenas 100 metros de comprimento. O cruzador se desprendeu de suas travas magnéticas, decolou e pouco depois entrou em transição. Era a única nave do Império Solar que ainda dispunha de uma estação especial a bordo para instalação do campo óptico. Atrás dela, desapareceu também no hiperespaço a Califórnia. Ambas se rematerializaram, depois de um longo salto, nas proximidades da frente de bloqueio, que distava mais ou menos 6.300 dias-luz da Terra. A duas horas-luz da tal frente, estavam lutando as grandes esquadrilhas da frota arcônida com os druufs que irrompiam do funil de descarga. Era evidente que os seres estranhos faziam de tudo para se aproximar das unidades arcônidas. Além disso, se notava facilmente que esquadrilhas inteiras estavam se afastando da frente de combate. Assim, Rhodan se convenceu de que Atlan estava cumprindo sua palavra, isto é, dando ordens de que estas esquadrilhas voassem para o sistema solar. Mas ninguém sabia que ele, Atlan, estava atrás do cérebro robotizado. Suas ordens eram transmitidas na freqüência conhecida do grande cérebro, motivo pelo qual eram obedecidas imediatamente. A Califórnia estava apenas a cem quilômetros atrás da Drusus que freava com toda força. Tifflor iniciou também as manobras de frenagem. Quando a nave capitânia parou, ele desviou cauteloso a Califórnia. Rhodan apareceu na tela do vídeo de telecomunicação. — Bom trabalho. Chegamos bem. Se você penetrar por este lado, deverá sair perto do sistema Siamed. Em todas as suas operações, não se esqueça de que os pontos de referência do espaço de cinco dimensões não são idênticos aos do de quarto. Não se admire, portanto, quando você descobrir a mencionada estação espacial do planeta Druufon, embora o funil de descarga produzido por ela 134


esteja a cerca de seis mil e trezentos anos-luz de distância, bem rente da Terra. Trata-se de um processo de ligação, para o qual a separação espacial nada representa. Aqui estão as últimas instruções: “Se vocês forem bem-sucedidos, nós o saberemos pelo desaparecimento repentino do funil. Neste caso, virei com a Drusus até este setor do espaço, instalo aí um campo refletor e os apanho. Se o ataque de vocês fracassar, ou se a suposta existência desta estação energética voadora se baseia num erro, vocês voarão para Hades e lá aguardarão novas instruções. Tentarei, neste caso, tirá-los de Hades através de uma nave com transmissor fictício. Está tudo claro? Então, mãos à obra. *** Julian Tifflor sentiu umas agulhadas dolorosas na região dos rins, quando, bem rente de seu cruzador, se desenhou aquele fenômeno luminoso, causado pela aproximação da Drusus. Lembrou-se, neste momento, de sua primeira missão, realizada em obediência a uma ordem de Rhodan. Tratavase, naquela época, de enganar os comerciantes das Galáxias. Julian Tifflor estava se recordando. Naquele tempo, ele era ainda bem jovem. Um rapaz que, para perplexidade de seus colegas, foi arrancado dos bancos da Academia, em plena época de provas finais. Um cirurgião terrano lhe implantara no corpo um pequeno aparelho. Tratava-se de um sinalizador orgânico, que servia para localizá-lo onde quer que estivesse. Este micro aparelho estava implantado em sua cavidade renal... No momento, a situação era esta: bem próximo da Califórnia, formou-se um campo de transição, de onde partiam os diferentes influxos energéticos dos dois tipos de espaço. Um círculo luminoso de apenas trezentos metros de diâmetro surgiu no meio do espaço sombrio. O que havia por trás dele, não se podia explicar com poucas palavras. O rosto de Tifflor, que se mantinha admiravelmente jovem, mostrava traços de preocupação. Acabaram-se os sonhos e recordações da juventude. Só um pensamento podia haver em sua cabeça neste instante: a sobrevivência da Terra. John Marshall, um dos primeiros elementos do Exército de Mutantes, estava de pé, atrás dele. Tifflor fitou aqueles olhos, cuja expressão não permitia nenhuma conclusão sobre os sentimentos de Marshall. Quase a contragosto, disse o comandante: — John, temos de nos desejar boa sorte. Estava há pouco pensando nos bons velhos tempos. — Eu também, Tiff — respondeu Marshall em voz baixa. — Você sabe que nós já devíamos estar mortos há muito tempo? Recebemos a ducha celular renovadora do planeta Peregrino e nosso processo natural de envelhecimento foi suspenso temporariamente. Tiff, em certo sentido, esta poderá ser nossa última missão. — Autorização para decolar — soou a voz de Rhodan

nos alto-falantes. — Vamos, o que estão esperando? Não percam tempo. Julian Tifflor deu as ordens necessárias. Com os motores de propulsão funcionando com pouco ruído, o mais moderno cruzador da Terra deslizou em direção ao círculo luminoso. Pequenas correções o colocaram exatamente no centro do campo. Trinta mil metros antes, Tifflor passou para velocidade mais elevada. O fogo-fátuo ficou mais visível e depois desapareceu. Uma dor breve, mas penetrante se fez sentir em toda a tripulação. A comunicação de rádio com a Drusus cessou repentinamente. As últimas palavras de Rhodan não foram mais ouvidas. — Manobra terminada, Sir — soou a voz do segundo oficial. — Já atravessamos. Tifflor se dirigiu para as telas. O que elas mostravam não era outra coisa que o monótono e sombrio Universo dos druufs, onde todas as colorações se fundiam num avermelhado forte. Era o quadro de sempre. Quantas vezes Tifflor já havia visto isto! Os instrumentos de rastreamento da Califórnia começaram a trabalhar. A uma distância de pouco mais de dois anos-luz, constatou-se intenso movimento de espaçonaves. Simultaneamente, veio a comunicação de que o duplo sol captado pelo rastreador de matéria era idêntico ao do sistema Siamed. O gigantesco sol tinha um companheiro de brilho esverdeado. Já que não era coisa rara encontrar-se um sol duplo rodeado de planetas, ninguém se mostrou preocupado. Mas a situação se alterou, quando se constatou a multiplicidade de órbitas dos 62 planetas. Uns giravam apenas em torno do sol maior, outros davam volta em torno dos dois sóis e um terceiro grupo serpenteava em órbitas aparentemente contraditórias, por entre os fortes campos de gravitação dos dois sóis. O sistema Siamed foi sempre um pesadelo para Julian Tifflor. Nada aqui parecia normal, era tudo imprevisível. Acrescia a tudo isto a grande variação de tempo do sistema, de cujas dimensões não se sabia muita coisa. A cosmonáutica dos terranos se contentara em estudar mais seriamente apenas o sistema pátrio dos druufs. O que se passava nos planetas dos diversos sóis estava além dos conhecimentos de Tifflor. Para ele parecia suficiente saber de que maneira se entrava neste quase inferno. A Califórnia estava parada no espaço. — Desapareceu o campo de refração — disse o “goniômetro” Tanaka Seiko, através do rádio. Tifflor passou a mão pelos cabelos. Seu rosto jovem, de barba feita, parecia indeciso. Olhou em volta, meio desajeitado. — Mas é isto mesmo. Tínhamos que contar com isto. Certamente a presença da Drusus se tornou necessária na frente de combate. Marshall, o que você propõe agora? Infelizmente não nos foi possível receber instruções mais detalhadas. 135


Marshall se aproximou mais das telas do vídeo. A galeria das diversas telas, de ordinário repletas do argênteo cintilar de grandes estrelas, tinha agora um aspecto sombrio, deprimente. Os rastreadores estruturais do cruzador mantinham o ruído de sempre. A uma distância de apenas dois anos-luz, havia grandes levas de espaçonaves que tentavam penetrar num funil de descarga formado pela própria natureza ou imergir na estreita garganta energética. O número tão grande de naves desenvolvia um volume tal de energia que as frequências próprias, já existentes no funil de descarga, recebiam uma sobrecarga grande demais. Marshall se dirigiu mais vezes à central de rastreamento, mas ninguém lhe conseguiu dar maiores explicações. Uma coisa, porém, estava certa: o cálculo de Rhodan fora exato. Estavam bem próximos do sistema pátrio dos druufs, onde devia estar localizada a misteriosa estação espacial. Não se conseguia ainda encontrá-la. As distâncias eram demasiadamente grandes, o número fantástico de planetas os confundia muito e os motores de propulsão das inúmeras naves, que funcionavam a todo vapor, ainda contribuíam para fazer desaparecer os poucos vestígios do mundo druuf. John Marshall surpreendeu-se pronunciando uma terrível imprecação que deixou a mutante Betty Toufry horrorizada. — John!... — disse ela com ar de repreensão. O rato-castor caiu numa risada estridente. Parecia ser o único completamente calmo a bordo. Aparentemente enfastiado da longa espera, o pequeno animal começou a andar pela central. Depois esticou as patas dianteiras e se apoiou na larga cauda de castor, com todo conforto. — Ah!... se eu não existisse... — declarou cheio de si. — Medroso — disse o mutante de duas cabeças Goratchim. Ivan, o mais velho, sorriu feliz. O focinho pontiagudo de Gucky se contraiu numa expressão de desprezo. Suas orelhas viraram para a direção do gigante de dois metros e meio. — Ninguém está falando com vocês. E tem mais: cheguei à conclusão de que... — Como? — interrompeu Marshall. — Você chegou à conclusão de que nós não temos outra opção a não ser pular para o interior do sistema, não é? — Exatamente — confirmou Gucky. — O que vocês pretendem fazer? Estamos aqui completamente isolados. Em Hades não há nenhum telepata, e eu não acho conveniente usar um hiper-rádio. Ernst Ellert é um bom telepata, mas me parece que está demasiadamente ocupado com este cientista druuf. Venho observando há tempo como Onot tenta escapar da influência mental de Ellert. Assim sendo, não há outro jeito, a não ser... — A não ser o quê? — acudiu novamente Marshall. — Não gosto muito de ser interrompido a cada instante. Isto é falta de respeito. Posso falar ou não? Marshall resignado fez um sinal afirmativo. Tifflor

sentou-se pacientemente na primeira cadeira. — Então vamos lá — disse Gucky mais tranquilo. — Sugiro penetrarmos pelo menos dez horas-luz. Desta distância poderei entrar em contato com Ellert, com toda certeza. Se for necessário, John, Betty, Ishy Matsu e eu teremos que formar um bloco ou uma corrente mental para atingirmos de fato Ellert. Ele haverá de saber onde devemos procurar esta estação espacial. Talvez não precisemos enviar um radiograma ao Capitão Rous. Ele se encontra agora no décimo terceiro planeta. Quando a usina voadora explodir, ele logo saberá que fomos nós os autores da façanha. O que os senhores dizem do meu plano? Marshall, muito pensativo, continuou limpando as unhas. — Hum...! — pigarreou evasivamente a mutante telepata Ishy Matsu. John Marshall enfiou as mãos nos bolsos da calça. Seu olhar procurou o comandante da Califórnia. — Tiff, que diz você de tudo isto? Tem o nosso amigo de fato uma boa ideia, ou você possui outros planos? — Não vejo caminho melhor do que este. Haveria outras possibilidades, mas muito complicadas e perigosas. Vamos arriscar. Tenho que encontrar o início do funil de descarga, independente do fato de ele se achar num planeta ou numa estação espacial. Só desejo uma coisa, é que nossos agentes não tenham se enganado. E se a garganta de transição for de origem natural, podemos voltar satisfeitos. O semblante de Marshall se anuviou. Tifflor não gostou quando percebeu o olhar sério do telepata. — Não, não podemos... — opôs-se o chefe dos mutantes. — Pelo que Atlan contava sobre a submersão da Atlântida, sabemos que ele conseguiu, naquela época, fazer desmoronar semelhantes formações energéticas por meio de fogo cerrado de mecanismos de impulsos reativados. Possivelmente, vamos nos orientar por estes dados e aproveitar a experiência dos velhos arcônidas, ou melhor, fazer o que seus cosmonautas fizeram já há milênios. Está certo? Vamos embora? Tifflor se levantou. Tinha compreendido tudo muito bem. John Marshall estava firme na sua resolução de terminar com o estranho fenômeno, de um modo ou de outro. Os mutantes voltaram à sala, pois não tinham nada a ver com o comando da nave. Meia hora mais tarde, já estavam prontos os cálculos para a transição. Tifflor os conferiu três vezes, para que houvesse absoluta segurança nos dados mais complicados. Conforme os cálculos, a Califórnia haveria de chegar ao ponto do hiperespaço, que equivalia para os druufs ao que é para nós o espaço de Einstein. Já este fato bastaria para provar, logo que penetrassem no segundo plano temporal, que a nave estava no local certo. — Transição cerca de seis minutos após a partida — comunicou Tifflor através dos alto-falantes. — Colocar os trajes espaciais. Os mutantes, que sairão em missão, devem usar os uniformes arcônidas de combate. Pode ser que os teleportadores tenham de saltar antes do tempo combinado. 136


Não gostaria de perder uma excelente oportunidade por mero descuido. Marshall, por favor, apanhe com o oficial do almoxarife as microbombas já preparadas, distribuindoas com seu pessoal. O negócio tem de ser bem feito. Havia um novo surto de vida dentro do pequeno cruzador. Com os motores funcionando em plena carga, foi dada a partida. Os cento e cinquenta tripulantes já estavam familiarizados com o grande abalo nervoso, que então se iniciava. Fazia-se até o impossível para que todas as mensagens fossem rápidas e claras. Os dispositivos de absorção de pressão amorteciam as alucinantes forças da inércia, provenientes da súbita aceleração. Ninguém a bordo notou que a Califórnia varava o estranho universo druuf a mil quilômetros por segundo. Para Julian Tifflor, as qualidades daquela pequena nave eram excelentes. Embora, do ponto de vista de armamentos, a Terra fosse inferior a Druufon, os descendentes de inseto não podiam apresentar um aparelho que se comparasse à Califórnia, principalmente no tocante aos grandes valores de aceleração. Além disso, os aparelhos dos druufs, exatamente devido à grande diversidade de planos de tempo, conseguiam no máximo atingir a metade da velocidade da luz. A situação, porém, se alterava assim que passavam para a transição linear. Aí, novamente, eram superiores às construções terranas. Depois de alguns minutos, a carcaça do cruzador começou a vibrar intensamente. Os motores de propulsão já estavam funcionando com injeção extra de combustível, para que a velocidade fosse mantida nos valores previstos. Dez segundos antes da transição, Tifflor ligou as telas da instalação do intercomunicador. — Vamos saltar. Está tudo em ordem com você, John? — Certo, está tudo bem. Boa sorte! Veio então a dor da desmaterialização, penetrando até na medula dos ossos. Já deviam estar acostumados, no entanto cada salto parecia ser o primeiro, uma verdadeira tortura... A nave Califórnia desapareceu do plano normal dos druufs. Não houve a onda de abalos, devido ao fato de estarem ligados os aparelhos de absorção estrutural. Surgia assim a possibilidade de emergirem inesperadamente diante do sistema de Siamed.

7 As oscilações do décimo terceiro planeta inspiraram cuidados. Não havia mais dúvida de que, numa órbita aparentemente impossível, estavam se aproximando cada vez mais do gigantesco sol vermelho. De acordo com as medições da astronomia, este sol não era muito quente, mas para os habitantes da base de Hades

ele se assemelhava a um forno atômico, cujas labaredas, chamejantes de hidrogênio, podiam a qualquer momento cobrir toda a superfície do planeta. Hades mantinha virada para o sol sempre a mesma face. Na parte ensolarada a temperatura média era de 168 graus. A outra metade, de eterna noite, já havia há muito perdido os últimos restinhos de calor. A temperatura ali reinante era de zero absoluto. A base estava construída na zona do lusco-fusco. Tinha a extensão de apenas oitenta quilômetros de largura, no entanto achava-se sujeita a variações de suas dimensões, e seus limites não eram constantes. O Capitão Rous estava olhando para seu relógio. Na parte traseira do grande capacete pressurizado, o motor do condicionador de ar abafava os pequenos ruídos que vinham de fora. Hades havia girado novamente pela fração de um grau. Provavelmente, este planeta, mais ou menos das dimensões de Marte, estava sujeito de tal modo às influências gravitacionais do gigantesco sol vizinho, que uma parte considerável da zona de meia-luz entraria agora na parte iluminada. Em crescente desassossego, Rous olhava agora para as colinas da esperança do outro lado. No primeiro ataque, haviam incendiado nos seus flancos uma estação camuflada nas cavernas, que foi reconstruída e ampliada nos meses subsequentes. Jatos de luz de um vermelho intenso se acumulavam na crista íngreme dos morros, em direção ao céu escuro. Não iria demorar muito até que a região sombria se convertesse num cadinho de fundição. Rous se retirou para a proteção de um rochedo bem alto. Já estava na hora de deixar aquele ambiente desagradável, a fim de procurar abrigo nas instalações bem refrigeradas da base. Mais para trás, a um quilômetro, começavam a evaporar os gases antes congelados. O calor aumentava sensivelmente. Dentro de poucas horas, se daria uma tempestade de gás de grande violência. Capitão Rous resolveu deixar seu posto de observação. Antes de o fazer, porém, virou a parte superior do corpo para trás, para assim ampliar seu campo visual. Respirando profundamente, olhou para o espaço cintilante de estrelas. Os poucos resíduos de gás não podiam ser tomados como atmosfera. De repente, Rous viu o que os homens da Califórnia não tinham ainda presenciado: o clarão vermelho-escuro da técnica dos druufs. Tal clarão começava como uma formação tubular, fina, partindo das proximidades do décimo sexto planeta, para dali em diante se perder no espaço infinito. Caso Rous se inclinasse mais para trás, veria bem nitidamente o surgimento do terrível funil. Gemendo, com as mãos procurando um apoio, o capitão se levantou. Seu uniforme, muito pesado, dificultava-lhe cada movimento, apesar da gravitação relativamente reduzida de apenas 0,35 Gravos. 137


Rous estava pensando que já fazia muito tempo que não conseguia um contato via rádio com os cruzadores terranos, os pontos de ligação com a Terra. Aliás, estava prevista a chegada de uma nave com transmissor fictício, que viria para a região do funil de descarga, não muito longe da base. Rous sentia-se um pouco perdido no seu posto avançado. As últimas informações sobre os acontecimentos na Terra, ele as recebera do Major Matsuro, comandante da Nippon. Matsuro falara de um ataque dos druufs e, logo após, desaparecera com seu cruzador. Rous podia imaginar o que estava se passando no sistema solar. Amaldiçoou o destino que o prendia aqui neste planeta do inferno. Desanimado, olhou de novo para a formação luminosa na sua frente. O vento provocado pelo movimento dos gases estava cada vez mais forte e os raios do sol mais intensos. “Se dependesse de mim, já teria abandonado este recanto perdido do espaço”, refletiu. Preocupado com estes pensamentos, assustou-se com o ruído no alto-falante do capacete. Era o Tenente Kagus que se apresentava. — Alô, Marcel Rous, você ainda está vivo? — Obrigado pela bela saudação — respondeu Rous mal-humorado. — Se eu pudesse, destruiria esta toca aqui na rocha. A vibração aumenta. Dentro de três ou quatro horas teremos duzentos graus Celsius aqui na entrada da caverna. — Oh! Que coisa “gostosa”! Por este motivo é que você deve vir correndo para cá. Creio que acabamos de registrar a transição de uma nave terrana. De qualquer maneira não houve as habituais ondas de choques e nem o estremecimento próprio das naves druufs. Pode bem ser possível que alguém, protegido pelo dispositivo de absorção de frequências, tenha penetrado no hiperespaço. — Só agora é que você vem dizer isto!? — exclamou Rous, interrogativo. — Como assim só agora? Mal comecei a falar! O capitão se pôs a caminho. Depois de dez minutos, chegou ao tabique onde se achavam os homens. Era tão bem camuflado que ninguém o descobriria. Impaciente, Rous olhava para o movimento lento da enorme porta blindada, atrás da qual começava a estreita comporta do ar pressurizado. Quando conseguiu ouvir o chiar do ar que entrava, Rous bateu com a palma da mão no botão do interruptor do comando magnético. O ar comprimido escapou de uma só vez. Sem dar atenção ao sentinela que o saudou, Rous ganhou o corredor. A central de rastreamento e de rádio estava repleta de terranos. À esquerda da central, começavam os aposentos onde se localizavam os transmissores fictícios. Com o uso destes aparelhos, se conseguia contato direto com as rápidas naves do Império Solar, sem se expor ao perigo de a mensagem ser captada pelos adversários. Os transmissores fictícios trabalhavam em planos

superpostos. Quando dois aparelhos estavam bem sintonizados entre si, não havia perigo de erro, independente das muitas influências do meio ambiente. Ocorreu certa vez um erro, mas descobriu-se a causa posteriormente, e tudo foi sanado. Alguém puxou a porta corrediça. Rous entrou no posto de rádio e completamente cansado procurou uma cadeira. O Tenente Kagus estava concentrado diante dos instrumentos de medição. Sem tirar os olhos dos aparelhos, falou: — Já estão emergindo novamente no espaço normal. Aposto qualquer coisa: trata-se de uma nave terrana. A curva branda já é uma característica de nossas naves. Alguém deu um salto espacial, protegido pelo aparelho de absorção de frequências. Olha isto aqui, por favor. O diagrama da medição era de fato interessante. Não se constatou realmente nenhum abalo estrutural. Apenas um resto insignificante de irradiação de um compensador foi registrado pelos sensibilíssimos instrumentos especializados. — Quem será? — perguntou Rous. — O que você acha? Antes de tudo, como é que esta nave conseguiu penetrar no espaço dos druufs? Se tivesse irrompido pela garganta de descarga, teríamos percebido o imenso clarão no espaço. Já há muitos dias, os druufs não permitem a passagem de ninguém. Mantêm várias esquadrilhas postadas bem na entrada da garganta. Rous continuou examinando as escalas do rastreador de freqüências. Mas não houve mais nenhum registro. Kagus tirou o fone do ouvido. — Se não estou enganado, alguém lá na Terra se lembrou dos velhos geradores de campos visuais. Por meio deles se pode também penetrar no segundo plano. Temos de nos preparar para uma sobreposição de campo a qualquer momento. Rous olhou para seu colega, com a fisionomia carregada. — Sobreposição de campo? Quer dizer então que você está acreditando numa destruição do funil de descarga? — Exatamente. Se o chefe mandou um grupo de pessoas por intermédio do campo óptico para o espaço dos druufs, então não podem ser homens comuns. Estou crendo numa missão especial dos mutantes. Afinal de contas, não comunicamos ao comandante da Nippon nossos cuidados com a estranha formação aqui perto de nós? Não posso imaginar de que maneira um funil de descarga, instalado nesta distância, aqui em Druufon, possa servir para um ataque à Terra, mas de qualquer maneira, este funil aqui está. Por outro lado, também, não se pode imaginar que o Major Matsuro não tenha comunicado aos seus superiores na Terra o que viu aqui. Assim, me parece muito lógico que Perry Rhodan não perdeu a oportunidade de tentar alguma coisa. Kagus tamborilava com os dedos na fita plástica com os dados do rastreador, enquanto Marcel Rous continuava pensativo. 138


— Só podemos é esperar pelo que vai acontecer. É claro que se eles estiverem por aqui, não cometerão a imprudência de fazer uso do rádio. O perigo de serem localizados pelo rádio é muito grande. De qualquer modo, temos de nos preparar para coisas desagradáveis. Talvez sejam obrigados a aterrissar em Hades. Sargento Eicksen, você assume com seu grupo, a partir de agora, uma severa vigilância aqui no posto do transmissor. Quando as máquinas derem o sinal verde, quero ser avisado imediatamente. Assim já estavam cientes do mais importante. A pequena tripulação de Hades sabia da gravidade dos acontecimentos que estavam para se desenrolar. Ignoravam, porém, a extensão da invasão dos druufs. Para os seus conceitos, o funil, surgido nas proximidades da zona de descarga, tinha de destruir o espaço de Einstein. No entanto, ele se aproximava bastante da Terra e esta era a grande diferença. Rous e Kagus deixaram o posto de observação. Depois de fechar a porta, o capitão ainda perguntou: — Você crê mesmo na teoria de que falou? Na ação dos mutantes? Kagus sorriu. — Você deveria conhecer os especialistas do Comando Supremo melhor do que eu. Acha que eles teriam ficado parados, depois de nossa comunicação? Além do mais, há poucos minutos uma nave terrana entrou em transição. Deve ter sido aqui no espaço dos druufs, do contrário nossos instrumentos não a teriam registrado. Se nossa gente encontrar o funil, temos que estar preparados para tudo. — Se antes disso não forem derrubados pelos milhares de aparelhos druufs — disse Rous sério. — O sistema de Siamed está coalhado de belonaves de todos os tipos. *** A permanência num local situado há dez horas-luz fora do sistema de Siamed foi muito curta. O Coronel Tifflor já estava preparando a próxima transição, depois de ter constatado que não tinham sido localizados pelos druufs. Enquanto isto, o intenso movimento de naves, que reinava no espaço dos 62 planetas, veio favorecer à Califórnia. Devia ser praticamente impossível para as bases localizadas nos planetas distinguirem o relativamente pequeno cruzador terrano, entre a multidão de seus próprios aparelhos. Ainda não tinham encontrado o funil. Mas depois de uma procura febril, um dos cientistas da equipe chegou ao pensamento certo. Estava mais do que evidente: uma sondagem por via energética era totalmente desaconselhada, devido aos efeitos de sobreposição. Um reconhecimento por via óptica também seria falho, devido às enormes dimensões de tal funil. Quando se estava perguntando se já estavam no local certo, um dos físicos disse, depois de uma tremenda imprecação:

— Há quanto tempo existe este funil? Só há poucos dias? E qual é a velocidade da luz no espaço dos druufs? Mais ou menos cento e cinquenta mil quilômetros por segundo? Então não se admirem se ainda não pudemos ver o fenômeno. A luz não chegou aqui ainda, meus senhores. Voemos um pouco mais, e ela aparecerá. Foi este o motivo que levou Tifflor a fazer uma segunda transição. Agora, depois do segundo salto, estava tudo claro. As grandes telas panorâmicas não conseguiam captar o fenômeno luminoso em toda sua grandeza. Tifflor calculou sua altura em dez bilhões de quilômetros. A boca do funil poderia ter, na parte de transição onde se torna quase invisível, aproximadamente vinte milhões de quilômetros em diâmetro. Eram espaços enormes, que, no entanto, para os parâmetros astronômicos, eram pequenos e de pouca significação. De qualquer maneira, o diâmetro era suficiente para permitir a uma frota inteira a livre entrada no espaço de Einstein. Os instrumentos de rastreamento da Califórnia trabalhavam sem cessar. Tinha-se chegado ao décimo quinto planeta, vindo do plano superior. O décimo sexto planeta, a pátria dos druufs, distava ainda duzentos e cinquenta milhões de quilômetros. Nas telas de ampliação de rastreamento, mais veloz que a luz, já brilhava o número dezesseis — chamado de Druufon — do tamanho de um punho cerrado. Bem perto de Druufon, começava, em forma de um tubo enorme, a extremidade do funil de descarga, que estava sendo a causa da desgraça do sistema solar. Tifflor supunha naturalmente que este conjunto artificial repousasse também numa base artificial. Da anunciada estação espacial, não se sabia nada ainda. Tifflor estava pensando em chamar a base de Hades e pedir informações. Isto era, porém, muito perigoso. Portanto, acabou desistindo. Um radiograma podia ser uma verdadeira traição, mais comprometedor do que o aparecimento do próprio cruzador terrano. Um rugido tonitruante das turbinas superpotentes fez estremecer todo o bojo do cruzador. Ainda estavam nas manobras de frenagem. A seguir, tentariam, com a nave parada, colher melhores dados sobre a localização do fenômeno luminoso. Além disso, era fato notório de que um corpo parado tinha muito mais peso de um objeto a grande velocidade. Temia não poder levantar voo mais uma vez. Três minutos depois, a Califórnia parou completamente. Com a nave pairando no espaço, os técnicos rastreadores começaram de novo a procurar a estação espacial. Os ecos registrados, porém, provinham de naves dos druufs que decolavam ou aterrissavam. Parecia mesmo que o décimo sexto planeta era a grande base da frota. Quanto mais se aproximavam da fonte de interferência, mais confusas se tornavam as medições. — Continue tentando — disse Tifflor. — Enquanto 139


permanecermos incógnitos, o tempo perdido não tem importância. Agora, como anda a situação na Terra, nem é bom pensar. O comandante queria logo depois chamar John Marshall. Deixou de fazê-lo porque Goratchim lhe disse que Marshall estava ocupado. O comandante se contentou então em observar a cena tão singular através das telas do vídeo. Os membros do corpo de mutantes, com poderes telepáticos, estavam todos de pé de mãos dadas. Eram Gucky, John Marshall, Betty Toufry e Ishy Matsu. Seus rostos pareciam vazios e os olhos arregalados não tinham nenhuma expressão. Fora deles, não havia ninguém por perto. Uma corrente de vontades, formada por telepatas tão competentes, não podia ser perturbada por nenhum ruído. A única coisa a mover-se eram as telecâmaras de captação óptica, que, aliás, não faziam o menor ruído. Marshall fazia o papel de porta-voz do conjunto de vontades. Os outros três mutantes simplesmente lhe colocavam à disposição suas forças individuais através do contato manual. Forças estas que Marshall podia aplicar tanto para sua própria irradiação, como também para ampliação dos impulsos recebidos. Somente depois de dez minutos da mais intensa concentração, conseguiram o contato desejado. A distância não lhes causou propriamente nenhuma dificuldade. Mas pelo fato de que Ellert, que por uma rara fatalidade, tinha se apossado da personalidade do cientista Onot, tivesse levado tanto tempo para responder aos insistentes apelos dos mutantes, já se podia perceber que ele se achava em grandes dificuldades. Marshall teve que transmitir muitas e muitas vezes os impulsos combinados, até conseguir se comunicar. O subconsciente de John Marshall captou uma voz fraca: — Quem chama? É John? — Você está em apuros, nós o sentimos. Formamos uma corrente. Podemos ajudá-lo? — Não. Consegui a muito custo dominar o espírito de Onot que se revoltou. Vocês vieram por causa do funil? Marshall confirmou. Ele e os outros mutantes tiveram que fazer o maior esforço para ampliar os impulsos de Ellert, debilitados por sua extrema fraqueza. — Estamos à procura da estação espacial, Ellert. — Ela gira em torno de Druufon a uma distância de três milhões de quilômetros. Vocês devem destruí-la. Os maiores cientistas de Druufon estão dentro dela. Tudo de importante se encontra nessa estação. Essa estação é a responsável pelo funil. O aparelhamento necessário para criar o tal funil foi construído de acordo com as descobertas do cientista Onot no seu novo compactador do tempo. Essa estação foi à primeira feita pelos druufs. Se for destruída, e com ela também os responsáveis pela sua montagem, não haverá mais possibilidade de os druufs reconstruírem outra plataforma espacial. Onot está

praticamente numa prisão preventiva. Ele e eu estamos no planeta. Ataquem o quanto antes, do contrário será tarde. A seguir, a comunicação foi interrompida. Por mais que Marshall chamasse, Ellert não respondia. Tifflor estava numa grande excitação. Ao desaparecer a rigidez da expressão dos mutantes, o coronel perguntou afobado: — Que aconteceu? Que foi que ele disse? Por favor, digam alguma coisa, podemos ser descobertos a qualquer momento. — A estação espacial está girando em volta de Druufon, a uma distância de três milhões de quilômetros. Por isto é que ela não pode ser localizada. O gigantesco planeta encobre tudo. Ellert parou de falar de repente. Receio que ele não esteja bem. Deveríamos tentar auxiliá-lo... — Não! Marshall estranhou o tom duro do “não” de Tifflor. Quando olhou para cima e examinou a tela, sua fisionomia se transformara. Era um Coronel Tifflor diferente, aquele homem de aço, pronto para qualquer sacrifício. — O salvamento de Ellert será uma incumbência para outra expedição. Não estamos nem preparados para isto, nem temos o tempo necessário. John, vamos fazer mais uma transição. Preparem-se. Acho que não temos mais um minuto a perder. Venha com os três telepatas para a central de comando. Julian Tifflor tentou abrandar suas duras palavras. Notou que tinha sido um pouco ríspido. Aquele “não” ainda lhe estava queimando na boca. Levado pelo remorso olhou calmo em volta. Mas ninguém demonstrava qualquer sinal de reação. Enquanto se faziam os cálculos para a curta transição, apareceram Marshall, o rato-castor Gucky, Tako Kakuta e o negro Ras Tschubai. Com exceção de Marshall, todos eram teleportadores. Todos vestiam trajes espaciais de combate de fabricação arcônida, cujo envoltório de proteção individual dispensava a pesada couraça. Traziam a tiracolo um objeto preto brilhante, do tamanho de uma bola de futebol. Ali estava uma terrível arma de destruição. Três minutos antes da preparada transição, a Califórnia foi descoberta, apesar do envoltório protetor. Do posto de radiotelegrafia, o sentinela chamou: — Tenente Instedt, Sir. Acabamos de registrar hiperimpulsos, com volume sete. São três reflexos diferentes, agora já cinco. Acho que nos descobriram. — Ecos de ondas de choque, em amplitude rasa — comunicou a central de rastreamento. — Algumas naves penetram no meio-espaço, estamos perdendo o contato. O eco das ondas indica motores de propulsão linear. Fim. Tifflor era a calma em pessoa. Para não perder tempo, se absteve de conferir, como sempre fazia os cálculos para a transição. Enquanto ainda estavam entrando os últimos dados para o salto, as turbinas da Califórnia já estrugiam, e, em poucos segundos, deslocou-se para o espaço. A brusca aceleração a atirou para longe. 140


Quando o posto de rastreamento anunciou a presença de cinco naves dos druufs, a Califórnia já tinha percorrido alguns milhões de quilômetros. Os valores para o salto ainda não estavam completos. A programação automática do campo estrutural levava sempre algum tempo. Nas telas que correspondiam ao campo óptico instalado fora da nave, as estrelas, até então bem claras, começaram a se ofuscar. Estava-se aproximando da velocidade da luz. Quando o zumbido dos motores de propulsão indicou que a injeção adicional de combustível havia entrado em ação, Tifflor sabia que, voando normalmente, não seria mais alcançado. As naves druufs não conseguiam nem a rápida aceleração, nem a velocidade final das naves terranas. Tifflor calculou que ainda dispunha de cinco minutos. Com toda calma, virou-se para os três teleportadores do grupo: — Eis o meu plano, que vocês devem seguir rigorosamente: é impossível para a Califórnia atacar com tiros de canhão a estação espacial, pois poderiam nos abater. Vamos nós rematerializar a uma distância de três milhões de quilômetros, antes do planeta principal do sistema. Depois, terei o espaço de um minuto para localizar a estação e atacá-la numa ação fulminante. “Assim que ela aparecer nas telas e vocês conseguirem se orientar, saltem com as bombas. Quando desaparecerem, eu entro numa curta transição. Assim, desapareço do teatro de operações. Depois da manobra de reaparecer no espaço, vou levar cinco minutos para as operações de frenagem. Depois, mais cinco minutos para calcular a transição de volta. Vou me abster de, antes da volta ao hiperespaço, fazer outra transição. Em compensação, vou me arriscar a uma perigosa transição de nível para chegar exatamente diante da estação espacial”. “Assim que acontecer tudo isto, vocês receberão de mim um curto impulso em hiperonda. Concentrem-se de novo e pulem de volta para bordo. Ao todo, terão de aguentar dentro da estação dez ou doze minutos. Antes disso, certamente não poderei estar de volta. Agora, quando receberem meu impulso, terão apenas trinta segundos para atingirem a nave. Está tudo claro? Há alguma pergunta a fazer?” Gucky se apresentou: — Por que você não espera um instante, até que atiremos as bombas? Isto não dura mais que um minuto. — Um minuto eu já vou levar para procurar a estação. Outro minuto seria exatamente o tempo que os canhoneiros druufs levariam para transformar a Califórnia numa tocha viva. Temos que ficar com o meu plano. Vocês saltam, eu desapareço no hiperespaço, detenho a Califórnia, volto e lhes envio o curto impulso. Prestem atenção nos trinta segundos que lhes restam depois do impulso recebido. Não posso esperar um segundo mais, para reiniciar o voo. Vocês vão conseguir isto? Tako Kakuta sorriu. — É a isto que eu chamo de um plano de emergência

perfeitamente estudado! Daremos conta do recado. Logo depois, constatou-se a aproximação de nove espaçonaves druufs. Estavam perseguindo a Califórnia, que se mantinha no espaço normal por meio de aparelhos com propulsão linear. — Agora — disse Tifflor — toda a frota de emergência será avisada. Atenção, transição. Quero deixar para longe de nós esta barreira de fogo dos druufs. Quando os perseguidores surgiram de repente no espaço normal do Universo dos druufs, a Califórnia já havia desaparecido na dimensão superior. Os projéteis de raios energéticos disparados contra ela se desfizeram inutilmente no espaço. Simultaneamente, o posto de rastreamento de Hades registrava novos dados. O Capitão Rous deu alarme geral, o mesmo acontecendo com as naves de reconhecimento em torno da estação espacial. Demorou poucos instantes, até que o cruzador desaparecido terminasse sua reduzida transição a duzentos e cinquenta milhões de quilômetros para frente. Quando se tornou novamente visível, apareceu também nas telas das naves dos druufs. *** Uma coisa extraordinária foi a visão dos projéteis de raios energéticos disparados pelos druufs. Uma coisa impossível no espaço de Einstein, em decorrência da absoluta ausência da matéria, se tornava aqui uma fantástica realidade. Os feixes de impulsos, em consonância com as leis do tempo ali reinante, alcançavam somente a metade da velocidade da luz. Foi assim que o Comandante Tifflor achou muito simples poder escapar dos raios mortíferos e continuar tranquilo em sua rota. Mas, por quanto tempo ainda teriam tanta sorte assim? Tifflor sabia que a situação daqui para frente pioraria. Estava comandando a Califórnia com controle manual. Conseguia, assim, manobras incríveis, com as quais escapava dos inúmeros projéteis do inimigo. O espaço entre os planetas, de um brilho vermelhosombrio, foi percorrido por uma tempestade de cintilações das mais pesadas descargas térmicas. Provavelmente devia haver bem próximo aos dois sóis, uma espécie de micromatéria cósmica, que era atraída e mantida presa por poderosos campos de gravitação. Quando Tifflor mandou abrir fogo, formaram-se, nas bocas dos canhões da nave terrana, flamejantes bolas de fogo. Os dois disparos, feitos no correr de cinco segundos, atingiram em cheio seu alvo. Os sóis atômicos coruscantes tragaram as duas naves druufs que estavam no encalço da Califórnia. Foi fácil localizar a estação espacial, mais fácil do que se esperava. Bastou que se orientasse pela delgada extremidade tubular do grande funil. Divisava-se com nitidez a estranha figura luminosa no espaço. Ali, onde a garganta começava, devia estar instalada a usina flutuante. 141


Não podia ser de modo diferente. Tifflor não se deteve. Os motores de propulsão da Califórnia trabalhavam com toda a potência. Há dois segundos atrás, os campos magnéticos de proteção antichoque foram ligados automaticamente, em virtude da estranha e surpreendentemente grossa camada de micromatéria no meio do sistema, causando desagradáveis atritos nos flancos da nave. O bojo esférico do cruzador já estava atingindo a coloração de metal incandescente, quando os projetores entraram automaticamente em ação. Ionizavam as diminutas partículas, expulsando-as para longe do trajeto da nave. Do minuto que Tifflor tinha dado, como tempo suficiente para o voo, quarenta segundos já se haviam passado. Na grande tela da frente, viu-se claramente uma figura em forma de disco, com cerca de oito quilômetros de diâmetro por um e meio de altura. Antes de esgotar o prazo estabelecido de um minuto, parecia que os postos de defesa automática da frota de vigilância estavam atirando. Os ângulos de correção foram bem calculados, pois o primeiro projétil atingiu o envoltório de proteção. Isto aconteceu um minuto antes da planejada ação. Vencido o minuto, Tifflor sabia que o tempo urgia. Um segundo projétil veio de encontro à barragem magnética e, no centro da nave, houve um ruído como de um grande sino rachado. A estação espacial distava ainda cinquenta mil quilômetros. — Saltem! — gritou o comandante, já com um atraso de uma fração de segundo. Os três teleportadores sabiam que venceriam aquela distância, apesar das perigosas bombas. No local onde os três estavam em grande concentração, surgiram pontos luminosos de várias colorações, que logo se dissolveram. No mesmo instante, Tifflor puxou a alavanca de transição. A Califórnia desapareceu no hiperespaço, quando quatorze projéteis de raios térmicos cruzaram o local onde devia estar, se continuasse em seu voo normal. Dentro da estação espacial, onde já reinava o estado de alerta, os cientistas druufs se parabenizavam eufóricos. Estavam convencidos de terem repelido um desesperado ataque de um comando suicida, ainda mais que se havia percebido claramente como o estranho inimigo tentara atingir seriamente a grande estação flutuante. Não tinha acertado nenhum tiro, a estação estava intacta, o funil funcionando como antes. Exatamente esta crença é que Tifflor queria provocar neles. Tudo dependia agora de que os mutantes pudessem agir sem serem vistos. Pelos cálculos humanos, tudo devia dar certo. Ninguém podia contar com o fato de que três seres dotados de forças sobrenaturais pudessem sair de uma nave em velocidade quase idêntica à da luz, sem uma nave auxiliar, ou qualquer outro meio mecânico. Quando a Califórnia se rematerializou, e seus oficiais

navegadores começaram logo os cálculos para um salto de regresso, chegaram também ao seu objetivo os três mutantes. *** Ras Tschubai teve o azar de saltar exatamente num local desprotegido, onde estavam instalados transformadores de alta tensão. Ofuscado por incessantes descargas de curtocircuito dos cabos de alta voltagem, gemendo de dores cambaleou para trás. Seu corpo ainda estava ressentindo-se da terrível compressão da desmaterialização. Só no último instante notou-se que toda a superfície da enorme estação estava envolta numa barragem energética em forma de uma campânula de proteção. Aparentemente, a estação possuía uma estranha energia. Tschubai já tinha sentido isto, pois quando tentou andar mais para frente, viu-se preso... Sentou-se num canto mais protegido, prestando muita atenção para não encostar nos cabos condutores desprotegidos. Do outro lado da parede metálica, roncavam as possantes máquinas de propulsão. A julgar pelo ruído, deviam ser fornos de grande potência, acoplados a conversores. Neste sentido, o modo de agir dos druufs não era essencialmente diferente do dos terranos. Apenas usavam para estabilização de sua energia nuclear um outro processo catalítico. Sem perda de tempo, Ras começou a agir. Com todo cuidado, desatarraxou a bomba de seu cinturão, olhou para o relógio, e regulou o detonador, descontando os segundos já decorridos, para um prazo de quinze minutos. A ação tinha sido planejada para três homens, a fim de se poder atingir um alto grau de segurança. Mesmo que duas bombas fossem descobertas a tempo, sempre sobraria uma, que bastaria para destruir toda a estação flutuante. A partir daí, Ras Tschubai ficou esperando pelos impulsos combinados. Seu receptor de pulso estava ligado. Os trinta segundos depois dos impulsos tinham que ser aproveitados, ou não haveria mais um regresso. Gucky e Tako Kakuta tiveram a sorte de aterrissar nos grandes corredores, onde havia muitos cantos para se esconder. Depois de chegarem à estação, o resto do trabalho foi muito simples. Como se esperava, as grandes instalações técnicas eram quase todas de controle remoto. Gucky conseguiu ver apenas um druuf, que naturalmente estava de ronda. Exatamente as 12h03min , os microcomunicadores se fizeram ouvir. Ao mesmo tempo, escutaram as tonitruantes descargas dos canhões energéticos, com as quais a estação espacial devia estar bem equipada para se defender. Pularam ao mesmo tempo. Quando se materializaram, estavam a bordo da nave terrana, cujo comandante tentava, com manobras desesperadas, fugir ao fogo cerrado dos druufs, que atiravam sem parar. Depois de ter recebido dois projéteis, arruinando o envoltório de proteção, Tifflor 142


resolveu entrar em transição, embora não tivesse ainda a necessária velocidade prescrita. As dores da desmaterialização foram terríveis, muito mais fortes do que todas às vezes anteriores, isto porque não se atingira a necessária velocidade para abrandar o choque, como nos saltos normais. A Califórnia desapareceu na quinta dimensão. Quando voltou ao espaço normal, o gigantesco funil de descarga havia sumido. Estavam nos confins do sistema Siamed. Mas, no lugar onde o rastreador ainda há pouco mostrava o grande funil, o campo óptico apenas apresentava uma eclosão energética. E, no entanto, ainda se podia ver o funil em sua forma primitiva. Era naturalmente uma ilusão ótica, já que no espaço dos druufs os raios luminosos tinham a metade da velocidade, produzindo uma imagem que já não existia mais. Do mesmo modo, não se podia ainda ver a gigantesca bola de fogo. Sua luz ainda não havia chegado até ao sexagésimo segundo planeta. Somente um rastreamento espontâneo, trabalhando à base de maior velocidade que a luz, podia provar que o sol artificial não se identificava com o funil de descarga. Ras Tschubai e Tako Kakuta sofriam terrivelmente com um grande mal-estar. Gucky jazia sem sentidos. O salto superapressado e as dificuldades com o singular envoltório de proteção da estação já destruída haviam causado um profundo esgotamento nos três teleportadores. Tifflor, porém, estava de excelente humor. Podia anunciar seu sucesso. Mas lhe faltava ainda sair são e salvo do Universo dos druufs. A Califórnia continuou seu trajeto, possivelmente se preparando para a transição. Tifflor parou o cruzador exatamente no local onde Rhodan pretendia aparecer com a Drusus e montar o campo óptico. Todas as máquinas que pudessem traí-los por suas irradiações estavam paradas. O ágil cruzador terrano parecia uma nave-fantasma. A única coisa a funcionar era um reator de alimentação independente, cuidadosamente blindado, que fornecia a energia para os sensibilíssimos rastreadores. Por meio deles se constatava se a Califórnia tinha sido atingida por impulsos sonoros e desta maneira localizada pelos druufs.

*** Três horas após a erupção da quinta onda de assalto, detonaram nas luas de Júpiter as primeiras bombas de telecomando. Um cruzador, acidentalmente atingido, rolou sobre um grupo de caças e destróieres, já prontos para decolar. No setor central, rugia a mais incrível das batalhas. As perdas do Império Solar eram tremendas, no entanto, os druufs já haviam perdido cinco vezes mais em espaçonaves do que os terranos. Os supercouraçados formavam a espinha dorsal da

defesa. Principalmente a Drusus causou tantos prejuízos ao inimigo com seu transmissor fictício, que, em todo lugar onde aparecia a nave gigante, abriam-se enormes lacunas na linha de ataque dos druufs. Nove horas após o regresso da nave capitania, aconteceram duas coisas importantes. Um radiograma anunciava que o funil de descarga perto do sistema Capela tinha sido destruído repentinamente. Os gritos de alegria a bordo das naves terranas, Rhodan não conseguiu ouvir, mas notou bem que suas forças, de moral irremediavelmente deprimido, se lançaram com novo entusiasmo ao ataque. A esquadra druuf sediada em Marte foi aniquilada em pouco tempo. Mas ainda havia muita nave dos druufs pelo sistema solar, para se poder proclamar uma vitória da Terra. Rhodan ordenou então, por hiper-rádio, a retirada para a terceira e última linha de defesa do Império Solar. Unidades danificadas de todos os tipos lá estavam reunidas. Foi então que se deu o segundo grande acontecimento, decisivo para o resultado das operações. Instantes depois da destruição do couraçado Osage, sob o comando do Coronel Poskanow, os rastreadores estruturais das espaçonaves terranas ameaçavam rebentar. Num movimento surpreendentemente rápido, surgiram do hiperespaço numerosas belonaves. Atlan agira mais rápido do que se esperava. Apenas nove horas depois do pedido de socorro, chegaram dez mil belonaves pesadas e pesadíssimas, da frota robotizada dos arcônidas. Estavam sob o comando do almirante arcônida Senekho, que após a troca radiofônica das senhas combinadas, entrou imediatamente em ação, para expulsar os invasores. Cinco minutos mais tarde, chegaram outras quatro mil naves, cuja forma externa demonstrava serem construções dos saltadores. Foi a primeira vez que os comerciantes das Galáxias penetraram livremente no sistema solar, naquele sistema que eles há tanto tempo procuravam sem sucesso. — Venho por ordem do regente, administrador — reboou a voz de um velho patriarca de barba branca, através dos alto-falantes. — Cokaze é meu nome. Sou o chefe de minha estirpe. Onde é que se torna mais importante nossa intervenção? Rhodan parecia paralisado diante da tela. A expressão sombria do velho despertou em Rhodan toda a antipatia que nutrira durante longos anos contra os saltadores. Com muita reserva, deu algumas informações. Ao mesmo tempo retirou suas unidades menores da frente de combate. Somente os couraçados e supercouraçados, como também os cruzadores não danificados, ficaram na linha de frente. Os extenuados pilotos dos caças e dos destróieres de três homens voaram a toda, de volta para suas bases. A partir deste momento, os oficiais do estado-maior, a bordo da Drusus, não tiveram mais nada que fazer, a não ser observar de longe a sistemática destruição das restantes oito mil naves dos druufs. Depois de quinze minutos, o comandante dos inimigos, que não era um ser humano, reconheceu a situação. Vendo 143


que suas naves iam explodindo uma após a outra, sem poder mais contar com reforço, em virtude do súbito desaparecimento do funil de descarga, deu ordem de reunião de suas unidades. Com apenas três mil naves — melancólico fim da gigantesca frota de invasão — desapareceu no segundo plano. De um minuto para o outro, o sistema solar se libertou de seu ferrenho adversário. Mas agora, ficavam outros aqui, não muito desejáveis. Rhodan pediu uma ligação para falar com o Almirante Senekho. O ancião pertencia aos poucos arcônidas ativos a quem se podia ainda confiar o comando de uma esquadra. Quando o rosto cansado e enrugado apareceu na tela da Drusus, Rhodan teve que rir, sem querer. Senekho era o mesmo oficial que examinava os navegadores espaciais na grande lua do ciclópico planeta Naat. Eram navegadores de Zalit a quem Senekho também instruía sobre as naves do Império de Árcon. Isto tudo fora há apenas algumas semanas e, no entanto, parecia a Rhodan um fato de muitos e muitos anos atrás. — Foi uma viagem enorme, terrano — começou Senekho. — Tenho impressão de que você mantém boas relações com o regente, não é? Seus inimigos fugiram. E não se podia esperar outra coisa. Fui instruído para executar todas as suas ordens. Que resta ainda a fazer? Foi uma pergunta clara e objetiva. Em oposição à grande maioria dos homens de sua raça, Senekho tinha grandes qualidades. — Nada, muito obrigado. Se precisar de água fresca, mantimentos ou qualquer outra coisa, nossas bases no Império Solar estão à sua disposição. — Império? — repetiu Senekho admirado. E começou a sorrir. — Império? Gostei de ouvir, terrano. Você chama de império sua miserável estrelazinha com planetas em miniatura? Ao ouvir isto, Reginald Bell ficou vermelho de ira, olhando furioso para a tela. Rhodan não perdeu a calma devido a esta arrogância, que era típica dos arcônidas. Respondeu muito à vontade: — Realmente, Império, almirante. O senhor já deve ter ouvido falar muito de nós, para saber que a grandeza territorial de um sistema solar não é decisiva para as qualidades de seus habitantes. Mas não é sobre isto que gostaria de falar. — Sobre o que, então? Senekho se inclinou interessado. Seu rosto parecia maior e mais expressivo. — Quando propus aliança com o regente de Árcon, foime prometida a proteção do Império. Como pode acontecer então que de repente aparecem no meu sistema quatro mil naves dos saltadores? Senekho sorria. — Não sabia nada desta aliança, mas não duvido de sua existência, pois se não fosse assim, não me tirariam da frente de bloqueio. O regente mandou também as naves dos saltadores por recear que as minhas dez mil unidades

sozinhas não seriam suficientes. Nós não podíamos saber que os monstros do outro Universo já haviam sofrido tão grandes perdas. Fora disso, você tem algum desejo especial, terrano? Rhodan refletiu um pouco. Sabia que Cokaze, o patriarca dos saltadores, estava ouvindo tudo. — Gostaria de lhe pedir para explicar a Cokaze que a Terra não deseja ser anexada ao domínio dos saltadores. Somos um sistema independente e queremos continuar assim. — Compreendi — disse o almirante pensativo. — Está bem claro. Com isto, interrompeu a ligação. Enquanto a frota arcônida se reunia nas proximidades da órbita de Marte, para daí partir direto para sua frente de bloqueio, os quatro mil aparelhos dos saltadores voavam na direção da Terra. Rhodan chamou o chefe do clã e lhe disse com toda firmeza: — Você vai mudar de direção em três minutos, Cokaze, do contrário vai levar uma boa lição. Não pedi seu auxílio, portanto não exija nenhuma recompensa. — Somos comerciantes e não fazemos nada de graça. — Não os chamei. Se vocês abaixam a crista para o regente, cumpram suas ordens, isto não tem nada a ver comigo. Ainda estou bem forte para lhes dar um banho de sangue. Caso não mude de rumo, minha frota partirá imediatamente. Como Cokaze recebeu tudo isto, Rhodan não podia saber. No mesmo momento, porém, suas naves entraram na operação de frenagem e logo depois se ajuntaram à frota dos robôs arcônidas. Somente sessenta unidades danificadas em combate obtiveram permissão de Rhodan para aterrissar. Assim aconteceu que, pela primeira vez, alguns comerciantes das Galáxias pisaram o chão do nosso planeta, onde foram recebidos por uma multidão de homens calados, de expressão pouco amistosa. Rhodan passou para o supercouraçado Wellington, a fim de observar melhor os que vieram de tão longe para ajudálo. Os comandantes das esquadrilhas terranas receberam instruções secretas. Concluindo, Rhodan disse o seguinte: — É claro que nem o Almirante Senekho, nem os saltadores estão informados sobre a mudança que houve em Árcon III. Por amor de Deus, sejam prudentes, não digam nada a respeito, pois do contrário a situação de Atlan ficará muito séria. O que nos interessa agora é vermos os saltadores longe de nós. A frota robotizada voltará em um ou dois dias, conforme garantiu Atlan. Somente estes saltadores é que nos podem incomodar. Abram fogo imediatamente assim que um deles tente descer em Vênus, em Marte ou na Terra, sem minha expressa autorização. “Meus senhores, está na hora de despertarmos. O jogo de esconder já acabou. A partir de agora, todo mundo sabe onde moramos. Temos, pois, que reformular nossa política galáctica. Tenho plena certeza de que encontraremos o 144


caminho certo. Permaneçam de olhos abertos. Muito obrigado.” Enquanto a Drusus disparava pelo hiperespaço para apanhar o cruzador Califórnia, Rhodan voltou para seu camarote.

“Esperar”, pensava ele, “esperar, mais uma vez. Até hoje a Terra não dormiu, e também amanhã ou depois de amanhã, ela não vai dormir. Vocês, de outros mundos, ainda haverão de nos conhecer!”

A Terra venceu a grande batalha, sendo que o avanço desesperado de Tifflor para o interior do Universo druuf foi o que decidiu, na hora mais séria da História da Humanidade, a sorte do nosso planeta. No entanto, apesar do resultado positivo da luta, surge um novo fator: acabou o mistério da localização da Terra. Começa então agora, para Perry Rhodan, o administrador do Império Solar, a fase mais perigosa de sua longa carreira... Irrompe a hora gloriosa de Gucky, exatamente quando o destino traça os momentos mais trágicos de Perry Rhodan! A Grande Hora de Gucky, este é o nome do próximo livro da série.

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Nº 89 De

Kurt Brand Tradução

S. Pereira Magalhães Digitalização

Arlindo San

Nova revisão e formato

W.Q. Moraes

Tal pai, tal filho — E um saltador também vê chegada sua hora...

O fato de Perry Rhodan ter descoberto uma espaçonave arcônida encalhada na Lua foi, há muitos anos, o ponto de partida para a unificação da Humanidade e a pedra angular do fabuloso Império Solar, o domínio absoluto da Terra sobre todo o sistema. Este Império, ridiculamente pequeno em comparação com as muitas potências do Universo, se ainda existia e ainda não se transformara num pandemônio atômico ou não se degradara à condição humilhante de colônia de Árcon, devia este fato somente às jogadas magistrais dos terranos, aglutinados em torno de Perry Rhodan, no xadrez complicado das Galáxias. E também, em parte, à sorte, que, quando se torna permanente, não é outra coisa senão a conjugação da prudência com a intrepidez. Mas não há bem que sempre dure e o que Perry Rhodan, o administrador do Império Solar, ajudado pela Nova Humanidade, conseguiu evitar até hoje, acabou acontecendo: a posição do sistema solar no âmbito das Galáxias, já não é mais segredo, como comprovou cabalmente O Caso Columbus. O ataque da numerosa frota dos druufs poderia, talvez, ser debelado sem o socorro dos arcônidas, mas o pedido de auxílio ao Grande Império teve uma grave conseqüência: também os ávidos comerciantes das Galáxias descobriram o caminho para o sistema solar. A presença incômoda de Cokaze, o mais opulento patriarca dos saltadores, iniciou para Perry Rhodan um período das mais graves dificuldades políticas, até mesmo na administração interna da Terra. Porém, no momento em que as coisas se tornam amargas para Rhodan, surge A Grande Hora de Gucky.

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os pontos em que sua crítica está bem expressa. Está em condições de provar que o senhor Nicktown, o autor do 1 artigo de fundo, cometeu algum erro? Neste instante, Reginald Bell deu um salto da cadeira. Seu rosto estava pegando fogo. Batendo com a mão fechada O baixote, de cabelos ruivos, que nervoso andava de um na mesa de Rhodan, repetia a frase: lado para o outro no gabinete de Rhodan, sobraçava o — Este jornalista de meia-tigela... volumoso New World Press, apontando com a mão — Bell — interrompeu-o Rhodan com severidade — esquerda para o artigo que ocupava toda a primeira página. pela amizade que lhe tenho, não chame Nicktown de — Isto é uma pouca-vergonha, Perry, uma sujeira. Não jornalista de meia-tigela. Seu artigo de fundo foi escrito tenho nem palavras para classificar esta monstruosidade — com o mais profundo senso de responsabilidade. O homem disse ele. está certo, pois vê as coisas do nosso ponto de vista, isto é, — É, mas até hoje você sempre deu muito valor ao como nós, os responsáveis, expusemos a ele e a todos os editorial deste jornal — disse Rhodan calmamente. — Por outros. Nós é que somos os culpados, Bell, nós e mais que depois de terminar a leitura do artigo, você não passa ninguém... para a ordem do dia, Bell? O baixote havia voltado ao seu lugar na poltrona. O que — Porque não consigo Perry. Ninguém pode ir contra Perry estava dizendo não lhe agradou: sua própria natureza. Autodomínio é coisa muito bonita, — Que bonito, você dá razão a este mas também tem seus limites e este Nicktown? Com isto confirma que jornal de sarjeta já está passando da Personagens principais deste somos incompetentes para dirigir o episódio: conta. Império Solar, não é? — O New World Press é Perry Rhodan — Administrador do Rhodan se enfureceu ao notar que reconhecidamente o melhor jornal do Império Solar: Bell, de propósito, se encastelava sistema solar — corrigiu Rhodan. naqueles argumentos. — Que está pretendendo com uma Reginald Bell — O amigo de — Que aconteceu com você hoje? calma, que você realmente não tem? — Rhodan; anda muito supersticioso. Será que este artigo o assustou tanto perguntou Bell. Gucky — O rato-castor mutante, assim? — Até que enfim observou algo que realiza uma perigosíssima — Assustar não é bem o termo certo, certo, gorducho — disse Rhodan num missão. Perry. Não consigo me libertar do tom irônico. — Custou muito hoje, hein? pressentimento de que, com isto, vai Mas agora podemos nos preocupar com Thomas Cardif — O ódio ao pai o desabar sobre nós uma tempestade, que o artigo de fundo. torna traidor e desertor. desta vez não vem do espaço, mas daqui — Como assim? Quer dizer que de dentro da Terra mesmo. Vai nos Cokaze — Patriarca dos tenho que ler de novo esta porcaria cheia saltadores. trazer muitos aborrecimentos. Olha de maldade e mentira, para ficar com o aqui... escuta apenas esta frase. sistema nervoso em pandarecos? Cabo Douglas — Através de um E antes que Rhodan tivesse tempo de — Se for este realmente o caso, meu relato complica a vida de Atlan. impedi-lo, Bell começou a leitura do caro Reginald, então está confirmada New World Press: minha dúvida de que você necessita de — “Temos o direito de saber que umas férias até... tenciona o administrador com a prorrogação da Lei de Bell assustou-se. Sua respiração estava acelerada. Com Calamidade Pública: Quer ele, com isso, ter mãos livres movimentos lentos sentou-se ao lado de Perry. Levou para transformar o Império Solar numa colônia arcônida bastante tempo para se refazer do choque causado pelas ou para estreitar maiores laços de amizade com os palavras de Rhodan. comerciantes das galáxias, chefiados pelo patriarca — Eu... eu... tirar férias? Neste ano complicado, em que Cokaze?” Somente desta frase, Perry, pode explodir uma nada dá certo e tudo sai cem por cento errados. Perry, você insurreição interna. Haverá então combustível suficiente não está falando sério, não é? para dez revoluções... A pergunta tinha um ressaibo de desânimo. Passou as — Você é muito “otimista” — interrompeu-o Rhodan. duas mãos nos cabelos. Surpreso, Bell ficou calado. Não havia de início, — Estou sim — respondeu Rhodan seco. — Não estou compreendido bem a frase de Rhodan. Depois perguntou brincando, não, meu amigo. O momento não está para isto. com cautela: Olhe aí — e apontou para o artigo de fundo do New World — Você parece que vê o perigo com maior gravidade do Press. — Você já refletiu um pouco nas consequências que que eu? poderão advir desta publicação? Não é um jornal qualquer Rhodan apenas confirmou com a cabeça. que nos ataca, é o jornal do Império Solar. Lançam-nos no — Nos últimos dez anos, cometemos erros muito rosto incompetência, traição e interesse particular. Você leu grandes e hoje não estamos em condições de exterminá-los. 147


Hoje temos que aguentar as consequências, e não é necessário ser profeta para agora se afirmar que o Império Solar terá em breve seus primeiros grandes debates parlamentares... — Mas e a Lei de Calamidade Pública... — atalhou subitamente Bell, para silenciar logo depois, com um breve mas expressivo gesto de Rhodan. — Mas nem mesmo a Lei de Calamidade Pública poderia desativar o Parlamento, e eu seria o último a ter algum interesse em transformá-lo numa reunião de fantoches. Quando os senadores acharem conveniente expor suas dúvidas ao governo, eu jamais os haveria de impedir a fazer isto. — Santo Deus! — exclamou Bell. — Tais debates, além de tudo transmitidos pelo rádio e pela televisão, haveriam de centuplicar nossas dificuldades. Estamos desta maneira espalhando, nós mesmos, o material explosivo, Perry. — Você acha que seria melhor deixarmos o material explosivo acumular num lugar só? — Sua comparação valeria algum dinheiro — disse Bell descontente — porém não é muito bonita. Mas eu gostaria de quebrar o pescoço deste Nicktown... — Incrimine a si mesmo, mas deixe este Nicktown fora do jogo — falou Rhodan com certa dureza na voz. — Por muitos decênios, não informamos devidamente os habitantes de nossa Terra. Quantas vezes lhes ocultamos por semanas e meses situações da maior periculosidade? Jamais os deixamos perceber quantas dificuldades tivemos para ocultar perante o cérebro positrônico de Árcon a posição galáctica da Terra. Nada disso foi publicado. Mantivemos a Humanidade como que dopada em face da realidade... e depois vieram os druufs com quase dez mil naves para o sistema solar, a seguir, veio Árcon com sua frota robotizada para nos socorrer e, com os arcônidas, o patriarca dos saltadores Cokaze trazendo quatro mil naves cilíndricas. Fez uma pausa e depois prosseguiu: — Bell, o que tudo isto significa para os homens que, de uma hora para outra, despertam de seu sono tranquilo? Para muitos, ocorre uma espécie de fim do mundo. Já deu uma olhada nas últimas estatísticas demográficas? Não? Já reparou no gráfico dos suicídios? Notou que com a pretensa invasão dos druufs a porcentagem aumentou sensivelmente, e esta onda de desespero continua até hoje? “Sob este ponto de vista, nós fracassamos. E hoje ninguém se interessa em saber por que assim agimos. Nicktown se vê no papel de procurador da raça humana. Tem razão de nos taxar de incompetentes.” — Agora, vamos acabar com isto — falou Bell irritado. — Conforme você disse, nós não fizemos outra coisa a não serem erros! — Devagar! Nem o próprio Nicktown afirmou uma coisa desta. Ele nos acusa de traição, mas nunca de termos feito o papel de ditador. Diz até textualmente que meus auxiliares e eu jamais utilizamos em proveito particular o poder que nos foi outorgado pela Lei de Calamidade

Pública. Porém, não recua diante da acusação de traição. — Traição...! Traição! — disse Bell indignado. — Isto é a maior mentira, porém tal mentira é por demais perigosa para nós. — ...sim, exatamente porque, neste sentido, não soubemos informar convenientemente a população. E é por isso que me alegro, de um lado, pelo fato de os deputados e senadores se lembrarem de que dispõem do direito de nos convocar para o Congresso. De outro lado, porém, receio que isto contribua para fomentar a latente revolução. Bell olhou para ele. — “Latente”? Será que eu o compreendi bem? A revolução já está por aí? — Tome, sirva-se...! — dizendo isto, esticou o braço para a esquerda, pegou um jornal, entregando-o ao surpreso gorducho. Quanto mais ele lia, mais horrorizado ficava. — Para mim chega — disse Bell, finalmente. — E todas as notícias são de hoje e todas fazem referência ao artigo de fundo de Nicktown. Então eu não tive razão, quando no réveillon deste famigerado ano de 2.044, para evitar acontecimentos azarentos, quebrei em mil pedaços meu copo de cristal numa rodada de champanha... — Pare com isto! — ordenou Rhodan. Mas, no seu entusiasmo, Bell não conseguiu parar. — Não adiantou nada. As coisas até pioraram de lá para cá. Com os cacos de cristal, cortei o dedo. Então, chega-se à conclusão de que... — Você lucraria muito mais se dedicasse seus esforços mentais aos problemas que temos a resolver, meu caro gorducho — disse Rhodan, um tanto sério. — Por favor, chame Kank Donneld, do Departamento de Informações. A partir de hoje, temos que modificar nossa política informativa, fundamentalmente, ou daqui a pouco tempo, teremos novas encrencas. E o que pode então acontecer... é imprevisível. — Será que com isto, Nicktown não tirou toda possibilidade de publicarmos a prorrogação da Lei de Calamidade Pública? Pois, se juntamente com a imprensa, também a indústria pesada começa a protestar e, com ela, os bancos tentam tirar o corpo fora, é natural que também os consumidores, o povo, entrem nesta confusão. Enquanto este cigano das Galáxias, Cokaze, andar por Terra, Marte e Vênus, como se estivesse em sua casa, estaremos caminhando para uma revolução. — Até que enfim, Bell — disse Rhodan espreguiçandose e encostando-se a poltrona. Sorriu calmamente e continuou. — Até que enfim, seus pensamentos estão entrando nos eixos. É um dos motivos por que tenho de ser grato ao senhor Nicktown, por ele ter escrito um artigo tão agressivo... — Um momento, por favor! — disse Bell, mostrando que ainda estava confuso. — Hoje, você está falando uma linguagem diferente, Rhodan, ou será que eu não compreendo mais nada? O que disse agora pouco? Que meus pensamentos entraram nos eixos e que você deve 148


gratidão a Nicktown? — Sim, nós precisamos da prorrogação da Lei de Calamidade Pública, para termos mais liberdade de ação. Se a publicarmos no Diário Oficial, o que é legal, estamos com isto convocando os homens do sistema solar para as lutas de rua, para a revolução. Mas se conseguirmos que esta lei seja votada pelo Parlamento, teremos então legalmente uma base para agir muito melhor do que nos foi possível até agora. — Nem assim chego a compreender por que razão você deve gratidão a este Nicktown — disse ele, meneando a cabeça. — Este artigo de fundo obrigará o Parlamento a se reunir em sessão plenária. Está obrigando os deputados a pensarem nos direitos que possuem, e mesmo que haja muita animosidade e muita divergência entre eles, é bem melhor que uma luta mais ou menos escondida nos bastidores, para vencermos a todo custo, dando-nos a pecha de querermos ser ditadores... O alto-falante do intercomunicador deu o ruído típico. Quando, há uma hora atrás, os dois se reuniram para discutirem os assuntos pendentes, Rhodan havia proibido terminantemente qualquer interrupção. Os únicos que não estavam incluídos nesta proibição eram o Marechal Allan D. Mercant, chefe supremo da Defesa Solar, e John Marshall, chefe do Exército de Mutantes. A tela do videofone começou a cintilar. Desapareceu o cinza inicial e surgiram as cores, em movimentos de vaivém, estabilizando-se em seguida. Apareceu Allan D. Mercant. — Sir, estão chegando notícias muito importantes. Infelizmente a mais importante é ainda um boato. Patrik O‟Neil de Washington anuncia que facções de deputados do bloco euro-americano estão, no momento, em ligação com os blocos asiáticos e africanos. Desejam uma convocação do Congresso do Império Solar em Terrânia, para daqui a três dias. Ainda de acordo com os boatos circulantes, o ponto central da ordem do dia será o voto de confiança, com a respectiva votação, sendo que o bloco euro-americano se recusa a debater a prorrogação da Lei de Calamidade Pública. Rhodan ouvia tudo de fisionomia fechada. Depois falou no microfone do intercomunicador: — Mercant, reúna todos os homens que for possível, imediatamente. Eles devem fazer tudo para que os deputados possam mesmo estar em Terrânia dentro de três dias. Allan D. Mercant, que conservava o vigor de sua juventude, graças à ducha celular do planeta Peregrino, levou um susto e logo a seguir mostrou-se surpreso, chegando ao ponto de interromper o administrador. — Sir — disse com voz nervosa — ainda não ouviu as demais notícias. Todas elas se referem ao artigo de Nicktown no New World Press e são... — É a isto que me estou referindo, Mercant — falou, esboçando um leve sorriso. — A atmosfera política está tão envenenada, que somente

uma limpeza geral será capaz de restabelecer um ambiente respirável. O artigo de Nicktown nos veio alertar de que realmente está na hora desta limpeza. É por isso que estou ansioso para comparecer, dentro de três dias, perante o Congresso do Império Solar. Allan D. Mercant — depois de Rhodan e Bell, o homem mais bem informado do Império Solar, verdadeiro gênio no âmbito da defesa e a tudo com ela relacionado — falou muito apreensivo: — Sir, haverá cerrados debates. A votação em todo o Império é uma coisa problemática. Principalmente depois da luta contra a invasão da Terra, sua simpatia decresceu muito... Rhodan não o deixou terminar. Em tom mais duro do que até então, perguntou: — Mercant, seus homens estão ou não estão em condições de prepararem tudo para que haja uma reunião plenária do Parlamento, em três dias? Não só o Ministro da Defesa, mas também Bell ficaram perplexos. Os olhos de Perry Rhodan voltaram a ter aquele brilho de aço, que surgia sempre que estavam em jogo decisões de grande monta. Não era o olhar de um aventureiro, que arrisca mais do que pode. Era um olhar indescritível e inesquecível para quem o visse, uma vez que fosse. Um olhar que empolgava e arrastava quem o sentisse. E Allan D. Mercant, como também Bell, sentiam-se impressionados e o marechal, automaticamente, se empertigou e respondeu: — Sir, creio poder lhe assegurar que o Parlamento será convocado em Terrânia, dentro de três dias. — Obrigado, Mercant — respondeu Perry Rhodan. — Não podia esperar outra resposta. Com isto, desligou-se o intercomunicador. *** Milhões de pessoas assistiam pela televisão aos debates travados no Congresso Solar de Terrânia. Estava sendo realmente muito pior do que os palpites pessimistas, previstos por Bell. Este se virava a toda hora para John Marshall, que com seus maravilhosos dons telepáticos, auscultava o íntimo dos deputados. — Continua tudo na mesma, Sir — repetiu o mutante já pela décima vez — mas, por favor, estou na pista de algo novo... Isto queria dizer que não se devia perturbar a atenção de Marshall. Bell atendeu ao pedido do telepata e passou a concentrar toda atenção no que Rhodan estava dizendo, da tribuna ao grande plenário, em resposta a uma pergunta circunstancial. De repente, surgiu da delegação africana o aparte: — Até quando estaremos obrigados a financiar com nossos pesados impostos sua milícia particular? Nem mesmo a Lei de Calamidade Pública lhe dá o direito de esbanjar o dinheiro público com este bando de aleijados mentais, que recebe o pomposo nome de Exército de 149


Mutantes. O que o senhor tem a dizer sobre isto, administrador? Por dois ou três segundos, o silêncio foi tão profundo, que se poderia ouvir o zumbido de uma mosca voando. A questão levantada pelo deputado africano, Onablunanga, fez com que um grande número de deputados olhasse mais detidamente o administrador. Milhões de espectadores, diante de suas televisões, no mundo inteiro, notaram que a fisionomia de Perry Rhodan se anuviou e seus lábios se fecharam num risco horizontal. A televisão mostrou como Reginald Bell se levantou e sussurrando alguma coisa nos ouvidos de Rhodan, se encaminhou para a tribuna, substituindo seu chefe e amigo. — Senhores deputados e senadores! — soou a voz possante de Bell. — Minhas senhoras e meus senhores. Em lugar do administrador do Império Solar, gostaria de responder à pergunta do senhor Onablunanga, mas antes quero, em nome do administrador e de seus auxiliares, expressar meu protesto contra a formulação e as insinuações da pergunta. “Tomo a liberdade de lembrar ao senhor Onablunanga que não nos encontramos nas Minas de Ferro Cimberley, mas que nós, e ele também, estamos na sessão plenária do Congresso.” Quando Allan D. Mercant ouviu esta referência às Minas de Ferro Cimberley, empertigou-se todo. Sua fantástica memória despertou para todos os detalhes de um famoso escândalo, referente às minas. Onablunanga somente não tinha ainda sofrido processo penal, porque, como deputado, gozava das imunidades parlamentares. O que estava acontecendo na África não podia ser chamado de negócios escusos, mas alguma coisa mais do que escândalo. E exatamente agora, Reginald Bell, destemidamente, abordava a questão do ferro africano. Mais forte que o barulhão, provocado pela delegação africana, era a voz de Bell, pois estava ampliada pelos altofalantes do intercomunicador. Com toda empolgação, começou a elogiar os abnegados mutantes que o deputado africano chamara de “aleijados mentais”. A forma temperamental como Bell falava, seus conceitos precisos e o arrolamento dos fatos, onde os mutantes expunham a vida para salvar os interesses do Império Solar, obrigaram o plenário a ouvir com crescente interesse sua exposição. Rhodan estava feliz, vendo e ouvindo seu amigo defender o grande patrimônio humano: os mutantes. De repente, seu micro comunicador deu o sinal de chamada, exatamente o alarme de urgência. Ergueu o braço esquerdo, levando o pulso até encostar-se ao ouvido. Terminado o sinal de alarme, Rhodan ouviu atentamente a mensagem. Segundos depois, seu rosto empalideceu, dando a impressão de um homem envelhecido repentinamente. E foi neste momento que as câmaras de televisão passaram da figura empolgante de Bell para o esquálido e abatido Rhodan. Milhões e milhões de homens estavam agora olhando para Rhodan, o administrador do Império Solar, que

passava um dos piores momentos de sua vida. Rhodan estava envolto numa onda de desespero. Foi grande nele a vontade de desligar seu micro comunicador, mas muito mais forte foi a resolução de ouvir até o fim a mensagem. Thomas Cardif, tenente da Frota Solar, lotado em Plutão, tinha abandonado clandestinamente o planeta num destróier. O filho de Perry Rhodan desertara. Thomas, que recebera a pena de degredo para Plutão, já havia tentado desertar durante a guerra contra a invasão dos druufs. Nutria verdadeiro ódio pelo pai... Sua fuga do planeta Plutão fora conhecida há poucos minutos. Contrariando a rotina, a guarnição de Plutão revezou a tripulação da Estação de Relê III, cinco dias antes do prazo normal. Aí foi que se constatou que Cardif havia fugido, já há alguns dias. — Para onde se dirigiu o desertor Tenente Cardif, ninguém sabe — foi o final da mensagem. Era claro que, neste momento, Rhodan não era senhor de si. Perdera primeira sua esposa, Thora, e agora também seu filho. Fez questão de que o filho crescesse entre pessoas estranhas para não passar a ser conhecido apenas pela expressão o filho de Rhodan. Queria criar sua própria personalidade. Mas, ainda como tenente recém-formado, chegou, a saber, em Silico V quem eram seus pais. Foi então que explodiu nele o sangue arcônida de sua mãe Thora. Com o orgulho e a tenacidade, característico de um puro arcônida, passou a odiar o pai. Todo seu amor ficou voltado para a mãe. Para o pai, sobrou apenas ódio e desprezo. “Como ele deve me odiar”, pensava Rhodan em seu desespero. Compreendeu então como um homem, que paira em alturas inacessíveis para os demais, pode se transformar num infeliz solitário. Não sabia que um sorriso amargo se esboçava em seus lábios. Não sabia que, neste momento, milhões de pessoas olhavam para ele, pessoas que se lembravam do dia em que Thora fora enterrada em seu mausoléu na Lua. — Perry... Bell se sentara ao lado dele. Fora substituído na tribuna por Allan D. Mercant, que começou a falar para um plenário que parecia não querer perder uma só de suas palavras. Inicialmente exigiu que seu discurso não fosse transmitido para o público em geral, mas só para o ambiente do Congresso. Sua solicitação não era uma coisa estranha e estava dentro das normas parlamentares. Allan D. Mercant iria abordar um assunto de extrema gravidade. Iria expor ao poder legislativo do Império Solar o fato de vinte e um deputados estarem abusando de suas prerrogativas, a fim de se enriquecerem ilicitamente. Todos estes deputados pertenciam à delegação africana e eram inimigos figadais de Rhodan. Neste momento, milhões de televisões no Império Solar se apagaram. O voto da maioria determinara parar toda transmissão, até que o Ministro da Defesa Solar tivesse 150


apresentado todos os documentos, comprovando suas acusações, seria, também, dado tempo aos parlamentares, para que estes verificassem a autenticidade das provas apresentadas. Inclinando-se levemente para frente, John Marshall sussurrou no ouvido de Bell: — Pela indignação dos deputados sobre o escândalo das Minas de Ferro Cimberley, fica cada vez mais evidente de que eles foram vítimas de uma fraude na votação. Mas seu descontentamento sobre a informação deficiente, por parte da administração, ainda continua agindo. A delegação africana não sabe o que fazer. Bell pretendia passar estas informações para Perry. Tocou-o de leve e só então é que notou como seu rosto estava pálido. — O que você tem, Perry? O que houve? E Rhodan, virando a cabeça como um autômato: — Thomas desertou com um destróier, Bell... — Não... — respondeu Bell, surpreso. — Não acredito numa coisa desta. No íntimo, Bell podia ter certeza de que isto era verdade. O Parlamento foi rígido para com os vinte e um deputados. Robôs e policiais os tocaram para fora do recinto. Os robôs haviam recebido a ordem de que os vinte e um deputados, não podiam se afastar de Terrânia. Depois disso, procedeu-se à ordem do dia. E o artigo de fundo de Nicktown ainda continuou sendo o ponto de apoio do debate. A transmissão para fora do recinto foi reiniciada, e os milhões de aparelhos da Terra acompanhavam curiosos toda a discussão. A administração da Terra foi duramente atacada. Rhodan não fez rodeios para enganar ninguém. Somente quando a acusação de traição veio à baila, ele protestou: — Os druufs não são fantasmas que inventamos para assustar a Humanidade. São talvez um perigo muito maior para a Terra, do que o cérebro robotizado fora. O desenvolvimento das ações é uma coisa que não podemos deter. Por este motivo, a posição da Terra, mais cedo ou mais tarde teria de ser descoberta, e foi assim que ficamos gratos a estes quatro mil aparelhos cilíndricos dos mercadores galácticos, quando vieram em nosso auxílio na hora mais trágica do ataque dos druufs. Mas não se pode falar em traição, a menos que os senhores preferissem viver escravos dos druufs e não como terranos livres. — Livres sob a “guarda” dos saltadores! — gritou alguém. — E por que motivo às naves robotizadas dos arcônidas ainda não se retiraram da Terra, administrador? — perguntou outro. Estavam agora aparecendo os grandes inconvenientes de Rhodan não haver usado de mais franqueza com o público e de não ter prestado maiores esclarecimentos. Explicou com paciência, ou tentou fazê-lo, por que razão as naves cilíndricas dos saltadores ainda se encontravam nos

espaçoportos da Terra, Marte e Vênus e por que outras naves ainda continuavam circulando no sistema solar. Mas, quanto mais tentava explicar, menos era compreendido. A estes deputados, que de maneira alguma podiam ser incriminados por sua atitude, faltava uma visão do conjunto para compreenderem mais profundamente os motivos alegados por Rhodan. Tinham, pois, que extravasar sua incompreensão. Mas, de um lado que ninguém esperava, houve uma mudança sensível! Rhodan continuava falando que ele mesmo se assustara com o teor do artigo do jornalista Nicktown. Assinalou os pontos, devido aos quais, por motivos de estratégia, não podia prestar contas diretas ao público. — ...durante os turbulentos acontecimentos nas Galáxias e também no sistema solar, não tínhamos tempo de cientificá-los, e isto não é uma desculpa vazia, como lhes posso provar. E durante cinco minutos citou fatos e dados que deixaram os deputados boquiabertos. — Nunca agimos com imprudência ou falta de capacidade. E citou muitos exemplos. Depois concluindo disse: — Mesmo uma administração que possua grande liberdade de ação, dentro da lei, não pode apresentar um trabalho profícuo e duradouro, se não contar com o apoio do Congresso. E, por este motivo, como administrador do Império Solar, faço aos senhores e a todos os habitantes deste nosso diminuto império a seguinte pergunta: contamos ou não com a confiança de todos? Meia hora depois, se soube do resultado da votação. Não foi um voto de confiança estrondoso para Rhodan, mas era o que podia esperar naqueles dias conturbados e de grande confusão política. Ao voltar à tribuna, disse simplesmente: — Agradeço ao Plenário o voto de confiança dado a mim e a meus colaboradores. Neste instante soou um aplauso relativamente fraco. Mas vinha de todos os lados, e este fato era, para Rhodan, mais importante do que uma votação maciça, de maioria absoluta. As muralhas erguidas contra Perry Rhodan começavam a abrir brechas em todos os pontos. Mas Bell ainda não estava vendo o quadro assim. Ao chegar ao seu lugar, Rhodan percebeu que Bell, com olhar pessimista, lhe dizia em voz baixa: — Tomara que este ano pesado já tivesse acabado. Era o dia 5 de junho de 2.044.

2 Somente depois que a sessão plenária do Congresso do Império Solar terminou, foi que Cokaze se levantou de sua poltrona em frente à televisão. 151


O velho patriarca, o único da raça dos comerciantes da Galáxia que havia presenciado, desde o início, a carreira fulminante de Perry Rhodan, balançou contente, a cabeça, quando a transmissão terminou. Levou aos lábios a taça que estava ao seu lado. — À nossa saúde — disse, olhando em volta. Mais de vinte pessoas, todas de sua estirpe, sentadas de acordo com o posto de cada um, repetiram-lhe a saudação. Eram, mais ou menos, semelhantes, não apenas no vestuário, não apenas na barba aparada, em flagrante contraste com os longos cabelos, mas acima de tudo pela estatura: dois metros. Para o clã de Cokaze só havia um chefe: o próprio patriarca Cokaze. Suas ordens eram leis, suas opiniões eram normas. Não era apenas o mais velho, era também o mais experiente entre os saltadores, nos assuntos que diziam respeito a Rhodan. Desde que Topthor, o superpesado, havia morrido em combate com os druufs, ele era o único que havia conhecido Perry Rhodan, ainda com poucos recursos tecnológicos, nos primeiros dias de sua vertiginosa carreira. O poder do administrador do Império Solar era agora bem maior. Cokaze e seus auxiliares imediatos sentiram tal poderio pela televisão. Apesar disso, Cokaze acreditava ter razão de sobra para um brinde à vitória dos saltadores. Pois, não apenas estava informado sobre o potencial bélico de Rhodan, mas sabia, de primeira mão, como a posição política do administrador estava periclitante. Os outros saltadores apanharam seus copos e beberam à saúde de seu chefe, sem dizer uma palavra. Com a mão esquerda, Cokaze limpou a barba, fez uma inclinação vagarosa e se dirigiu depois a seu filho mais velho Olsge, que residia com sua família na espaçonave esférica Cok-III — Você voará amanhã para o planeta Vênus, Olsge, e reunirá os capitães. Virou-se depois para Oktag, seu filho predileto. — Você vai aterrissar amanhã na Cidade de Marte, e reunirá nossa gente. Não há muita coisa para discutir, mas temos muita coisa para fazer. Fez uma pausa. — Nós ficaremos aqui! Ficaremos aqui até que Rhodan nos garanta por contrato o monopólio do comércio em todo o sistema solar. “Depois, talvez, poderemos até deixar a Terra. Isso se Rhodan me pedir... porque nós, os saltadores, somos seres humanos, não somos selvagens, podemos dialogar... se nos oferecerem grandes vantagens.” Deu uma estrondosa gargalhada e seus olhos brilhavam. Cokaze nunca passou por mal comerciante e sua reputação no meio dos seus era muito grande. Prova disso era sua enorme frota espacial, de mais ou menos quatro mil unidades, de naves modernas. Uma parte desta frota estava em reparos nos estaleiros de Marte e de Vênus. A batalha contra os druufs lhe saíra cara. Mas os aparelhos, que

estavam nos aeroportos da Terra, não tinham nenhum defeito e podiam voar a qualquer momento. Em quase todos os espaçoportos, havia naves dos saltadores. E isto não foi por acaso. Cokaze era também um estrategista, além de ser um grande comerciante, que só fazia negócio quando se tratava de lucro de centenas de milhões. Tinha que manter uma frota de quatro mil naves cilíndricas, e isso lhe exigia diariamente uma pequena fortuna. Surgiu, porém, uma objeção, cortês e reticente, como convinha aos severos costumes dos comerciantes das Galáxias. — Senhor, será que o grande regente não criará nenhuma dificuldade? Sua frota é muito maior que a nossa... Novamente a gargalhada estrondosa do velho patriarca e sua expressão de superioridade. — Krako, parece que você andou dormindo o tempo todo, enquanto os deputados terranos martirizavam o pobre Rhodan com suas perguntas. Acho que Rhodan fará tudo para que o regente de Árcon chame de volta suas naves robotizadas. Se nós... Naquele instante, tocou o sinal do intercomunicador. Do posto central da Cok-I, o radiotelegrafista transferiu a ligação diretamente para o camarote do patriarca. A tela iluminou-se e Cokaze virou-se para o lado. Sua intenção era sentar-se bem em frente ao vídeo. Quando a imagem se estabilizou, o rosto tranqüilo de Rhodan estava olhando para o chefe dos saltadores. — Cokaze, suponho que você e seus capitães tenham assistido aos debates no Parlamento Terrano — começou Rhodan, depois de curta saudação. — Isto me dispensa de explicações mais detalhadas. Acabo de falar com o grande regente de Árcon. Dentro de duas horas as naves robotizadas, que ainda permanecem no sistema deixarão nosso setor, para voltarem a Árcon ou para a frente de bloqueio dos druufs. O regente robotizado não fez nenhuma objeção ao meu pedido de retirar sua frota. O mesmo pedido gostaria de fazer agora a você, Cokaze. Posso lhe perguntar quando você vai retirar do sistema solar as naves que estão em Marte, na Terra e em Vênus, bem como as que se encontram nos satélites dos grandes planetas? — Rhodan — respondeu o patriarca com expressão de amabilidade na voz, esforçando-se para falar a língua arcônida com perfeição. — É com tristeza que tenho de constatar que a gratidão não é uma virtude característica dos terranos. Eu... Neste momento, o operador de rádio da Cok-I, que se esgueirou na ponta dos pés por entre as filas de cadeiras dos capitães saltadores que não perdiam uma palavra do diálogo de seu chefe, tinha chegado até o patriarca. Inclinou-se para ele e, com muito cuidado, lhe sussurrou no ouvido: — Senhor, o filho de Perry Rhodan o espera na CokCCCXXII, que está em Vênus. O tremendamente ladino Cokaze não deixou 152


transparecer nada do impacto que recebera. Fez apenas um aceno de cabeça para o jovem operador de rádio, desculpando-se a Rhodan da pequena interrupção. Depois apontou na direção de seus auxiliares mais próximos, e continuou: — Rhodan, como você vê, estamos reunidos em conselho. Peço que me deem três horas terranas, para que nós lhe possamos transmitir nossa decisão. — Cokaze, você vai ligar para mim, ou terei que chamálo de novo? — disse Rhodan com a mesma educação de sempre. — Eu ligo para você, Rhodan. — Obrigado, saltador. Tomo a liberdade de declarar neste instante, mais uma vez, que nós, os terranos, nunca faltamos na gratidão para com nenhum dos nossos amigos. — Se esta gratidão se traduz em números bem contabilizados, terrano — respondeu Cokaze na sua linguagem imediatista. — então seremos nós, os comerciantes das Galáxias, os últimos a menosprezar esta grande virtude. Poderíamos fazer um contrato em que se estipule para meu clã o monopólio comercial do sistema solar. Afinal de contas, se o Império Solar ainda existe, deve-o ao meu auxílio. Mas, sobre isto falaremos depois, terrano. Vou desligar agora. *** — Sujeito sem-vergonha! — exclamou Bell irritado, quando o rosto de Cokaze desapareceu da tela. Assistira com atenção ao diálogo entre Rhodan e Cokaze. — Acho que não lhe resta outro meio a não ser apelar de novo para Atlan, para que ele explique a Cokaze que nós não aceitamos chantagem. A referência ao monopólio comercial é uma deslavada chantagem, ou melhor, uma verdadeira extorsão. — Não é à toa que eles se chamam comerciantes das Galáxias — respondeu Rhodan. — E não é isto que me preocupa no momento. Quero saber que notícia foi sussurrada ao ouvido de Cokaze, no momento em que ele me respondia. Jamais vi um saltador cujos olhos brilhassem tanto como os de Cokaze, naquele instante. Embora seu rosto continuasse o mesmo, os olhos traíam uma grande alegria. Intuitivamente, Bell pegou os pensamentos de Rhodan. Este deu um leve sorriso para o amigo. — Perry, você está ficando louco. Rhodan olhou demoradamente para Bell. — Gostaria mesmo de ficar louco, Bell. Você sempre passou a mão sobre os erros de Thomas. Há pouco tempo, numa transação um pouco escusa, você o livrou de uma corte marcial... Mas Rhodan parou por aí. Sempre que, entre os dois, o assunto era o filho de Rhodan, as opiniões divergiam diametralmente. Bell acreditava no bom caráter de Thomas Cardif, quase que cegamente, não podendo compreender a

posição de Rhodan, desanimada e desesperançada, vendo tudo de errado nas ações do rapaz. Bell fez com que Rhodan se afastasse do hipercomunicador. — Se você não o quer fazer, eu chamarei a estação de Plutão. Thomas, talvez, jamais fugisse com um destróier. A tecla estalou com o ruído de encaixe. Imediatamente se apresentou o telegrafista da central de Terrânia e Bell ordenou uma ligação urgente para o chefe da guarnição de Plutão. Levou três minutos até que o major aparecesse na tela do escritório de Rhodan. — Sir, às suas ordens! Bell entrou diretamente no assunto. — Major, o que lhe foi informado sobre a fuga de Thomas Cardif? O senhor está a par dos motivos? — Sir... — podia-se perceber o esforço que o major fazia para se expressar e responder bem a estas perguntas. — Sir, correm boatos por aí, o senhor sabe como os soldados são linguarudos... Bell não parecia hoje estar disposto a exercícios de paciência. — Major, fiz-lhe uma pergunta bem clara e exijo também uma resposta clara. Portanto... — Não posso fazer outra coisa do que transmitir os boatos que circulam por aí. — Com os diabos, pois então transmita estes boatos — disse Bell com voz alterada. — Ou será que eu lhe disse para chupar os dedos? No gélido planeta Plutão, a algumas centenas de milhões de quilômetros da Terra, o chefe da guarnição, tremendo diante da descompostura de seu superior, automaticamente tomou a posição de sentido. — Sir, na minha guarnição corre o boato de que o administrador, há tempo, determinou, em flagrante desobediência ao parecer dos médicos, que sua esposa recebesse a incumbência de viajar para Árcon III, a fim de negociar a aquisição de cem naves esféricas... — O quê?! — gritou Bell, de rosto vermelho. — O que o chefe fez mesmo? — Sir, sua ordem foi para eu narrar boatos, e foi o que acabou de ouvir. Reginald Bell tirou um cigarro, acendeu-o e deu umas tragadas. Olhou depois para o lado. A três passos dele, diante da janela, estava Rhodan, sem mostrar a menor reação. Parecia petrificado e não reagiu ao olhar inquiridor de Bell. Depois de mais algumas tragadas nervosas, Bell amassou o cigarro no cinzeiro. — Obrigado, major! É só. E com isso interrompeu a ligação. — Perry! Rhodan não se mexeu. — Com os diabos — esbravejou o gorducho. — Será que todo o sistema solar virou um inferno? Antes nunca tivesse botado a mão em política. “Em flagrante 153


desobediência ao parecer dos médicos...” Se eu pegar este sujeito que espalhou este boato... este canalha... E o resto foram palavras não muito elegantes. *** No mesmo instante, na espaçonave cilíndrica CokCCCXXII, Thomas Cardif ouvia que o patriarca Cokaze havia anunciado sua chegada para as 3,30 da madrugada, hora de Vênus. Tsathor, parente afastado do chefe do clã, parecendo com ele fisicamente, mediu Thomas de alto a baixo, com vivo interesse. Não podia atinar bem o que pretendia o jovem tenente, ainda usando o uniforme do Império Solar. Não era a primeira vez que estava diante de um desertor ou traidor, mas nunca tivera um encontro como este do Tenente Thomas Cardif. Seu destróier já estava alojado no hangar 8 da CokCCCXXII. Já tinha sido transportado, há uma hora, sob o manto da escuridão, pela Cok-DV, para a nave. — Pode ficar com o destróier, se quiser — disse Thomas Cardif, indiferente — não vou mais precisar dele. Tsathor fez apenas um gesto de assentimento, ocultando sua alegria. — Cardif, você não tem necessidade alguma de se explicar. Você parece muito com Perry Rhodan, quando jovem. — Sou arcônida, Tsathor — interrompeu-o bruscamente o tenente. — Não sou terrano. Suas palavras tinham um tom frio. Mas os olhos de um brilho avermelhado, característico dos arcônidas, certamente por parte de sua mãe, demonstravam nervosismo. — Como arcônida, você não poderá falar em nome dos terranos — ponderou Tsathor. — Ou será que não o compreendi direito? Thomas Cardif sorriu. — Quem são estes terranos, Tsathor? Nesta Galáxia só existe uma raça, à qual pertencemos você e eu. Isto é, os arcônidas. O grande regente haverá de me reconhecer, e com ele e com a estirpe de Cokaze haveremos de reduzir a Terra ao que ela realmente é. Haveremos de transformá-la numa colônia de Árcon e todo o comércio será exercido exclusivamente pela estirpe de Cokaze. — Será formidável quando tudo isto se realizar, Cardif — disse Tsathor, visivelmente impressionado com as palavras do jovem tenente — mas o que você espera ganhar com isto? — O aniquilamento de Rhodan. Sua morte. Só isto me basta. O saltador estava intimamente abalado. A resposta, que acabara de ouvir, o deixou estonteado. Palavras frias, pronunciadas sem a menor comoção. Tsathor perguntou espantado: — Mas, Perry Rhodan não é seu pai, terrano? — Saltador, nem sou terrano, nem Rhodan é meu pai.

Apenas não posso negar que ele me gerou. Mas encerremos este assunto até a chegada do patriarca Cokaze. Um gesto do comandante Tsathor fez com que os olhos de Cardif se iluminassem de novo. — Qual é a dúvida que ainda tem? Com esta pergunta, feita num tom de superioridade, Cardif se portava de novo como um legítimo arcônida. Sem o querer, Tsathor continuava impressionado e perguntou com a maior simplicidade: — Por que você odeia Rhodan a este ponto, Cardif? Thomas Cardif colocou suas mãos bem tratadas sobre a mesa. Era um gesto mais do que claro de que esta seria a última pergunta que responderia. — Contra o parecer de todos os médicos, Rhodan obrigou minha mãe, já desenganada, a executar uma missão perigosa em Árcon III. Queria ficar livre dela, porque minha mãe envelhecera de repente e ele intencionava enviuvar-se para casar de novo com uma mulher jovem. Mandou minha mãe para Árcon, sem ela saber de nada. Ela estava completamente por fora de tudo, não sabia nem de seu estado de saúde, nem dos perigos de sua missão. E isso posso provar porque ela nem se despediu de mim, quando partiu. “Quando a vi de novo, estava morta, a única criatura que sempre me amou. Também quero ver Rhodan morto. Eu o odeio, desde o dia em que fiquei sabendo que ele é meu pai. O Universo todo só tem espaço ou para Perry Rhodan, ou para Thomas Cardif. Para os dois, é demasiadamente pequeno.” *** A imprensa do Império Solar se dividiu, parte a favor de Rhodan, parte como adversária irreconciliável do administrador. O pouco expressivo voto de confiança do Congresso serviu de ponto de partida para novos ataques. Os jornais africanos não perdoaram a Reginald Bell, por haver, durante os debates, trazido à baila o escândalo das Minas de Ferro Cimberley. Afirmavam peremptoriamente que, desta forma, o assunto Cimberley havia influído no resultado final da votação, pois os vinte e um deputados, a quem seria movido um processo imediatamente, eram todos contra Rhodan. A retirada repentina da frota arcônida foi saudada com satisfação. O New World Press, principalmente o artigo de fundo de Nicktown, de apenas 30 linhas, tentaram acalmar um princípio de agitação. E seu teor mais conciliador contribuiu muito para fazer com que grande parte dos terranos perdesse todo interesse em novas escaramuças. No entanto, sob uma camada de aparente tranquilidade, havia ainda qualquer coisa e o Serviço de Segurança de Allan D. Mercant acompanhava atentamente todos os movimentos. Vinte e quatro horas depois dos debates ainda restavam uns grupinhos procurando causar desordem. Não sabiam, porém, que cada um de seus movimentos era vigiado e não podiam fazer tanto mal como pensavam. 154


Neste meio tempo, Rhodan mantivera uma longa conversa com Atlan por hiper-rádio. O almirante arcônida estava preocupado com as dificuldades de Rhodan na Terra e colocou à disposição do amigo qualquer tipo de auxílio. — Almirante, agradeço-lhe pela generosa oferta, mas no momento me é necessário mais tempo do que propriamente demonstração de força. — Está bem, Perry, vou então anunciar através do cérebro positrônico para toda a Galáxia que o Império Solar está sob a proteção de Árcon. Você está de acordo com esta nova formulação? Rhodan refletiu por uns instantes e, depois de receber de Bell, de Mercant e de Freyt um aceno de confirmação, respondeu: — De acordo, almirante. Creio que a formulação sob a proteção de Árcon vai me arranjar uma pausa para respirar, o que nos é indispensável na situação atual. Não lhe quero ocultar que minha situação nunca esteve tão crítica, como nas últimas vinte e quatro horas. Uma risada de pouca alegria chegou até a Terra pelo hiper-rádio. — Então, dois homens se apertam as mãos, Perry. Pelos deuses imortais de Árcon!... Estou com medo da hora em que o Grande Império souber que eu estou exercendo o poder em lugar do regente robotizado. Você está atolado até o pescoço com as questões de política interna, enquanto eu ainda estou aguardando por tudo isto e, independente de nossa amizade, terrano, tenho de ajudá-lo agora, para que você me possa ajudar, quando chegar a minha hora difícil. Gostaria milhões de vezes mais de ser Perry Rhodan, pois seu nome tem prestígio enorme na Via láctea. Representa uma força, simboliza um fator simplesmente inacreditável. Quem é que conhece o nome Atlan? Sou um nada em comparação com você, terrano. Veja como nossos destinos estão intimamente ligados. Perry é realmente maravilhoso tê-lo como amigo. Antes que Rhodan estivesse em condições de responder qualquer coisa, Atlan, a 34 mil anos-luz, sob a proteção da enorme cúpula eletrônica, desligou o hiper-rádio. Rhodan não estava nada animado. — Não estou gostando deste jogo de xadrez, principalmente desta última jogada. Sim, eu sei... — e levantou as mãos, como para se defender, quando viu os protestos de Bell, Mercant e de Freyt — sei que não há outro meio. Agora, tenho minhas dúvidas sobre se este contrato de misericórdia vai nos livrar da forca, isto é, se vai nos ajudar a vencer as dificuldades internas. Quisera ser profeta. Falando com franqueza, como será a opinião pública sobre estas mudanças? Para mim, é mistério... — Para mim, não é tão mistério assim — observou Bell. — Todos têm medo de que a batalha recomece, apesar de a pergunta ser repetida a toda hora: para onde fugiram os druufs? A questão é esta, estamos numa situação infernal e temos que ser o bode expiatório de todo mal que nos acontece. Para a visão curta do povo, nós somos os culpados por este estado de ameaça permanente contra a

Terra. E numa situação desta, nem Atlan nos pode mais ajudar. — Para mim, o grande enigma é o patriarca dos saltadores, Cokaze — disse Allan D. Mercant, dando vazão a seu pessimismo. — Cokaze evacuou todos os espaçoportos da Terra, mas se encastelou em Vênus e Marte. Será que o saltador ainda quer especular conosco o pretendido monopólio comercial? — Sou eu ou você, Mercant, o chefe da segurança? — perguntou Rhodan, um tanto áspero. — Sir — a expressão de Mercant denotava calma e firmeza. — O Serviço de Segurança Solar nunca esteve tão sobrecarregado como nos dias atuais. Há uma avalancha de incumbências intermináveis. Onde deveria empregar dez por cento de todo o pessoal, dou-me por feliz se conseguir dois ou três homens disponíveis. Dizer que a Segurança Solar está falhando ou falhou é não querer reconhecer as convulsões políticas por que passamos ou subestimá-las. — Obrigado — disse Rhodan com sarcasmo. — É ótimo poder ouvir a verdade. Onde se encontra o tenente desertor Thomas Cardif, senhor Marechal Mercant? — Só nos faltava mesmo uma pergunta deste tipo — protestou Bell em voz bem alta, sendo interrompido por Rhodan. Bell o fitou com estranheza. Mas seu pensamento estava desenhado em seu rosto. Que aconteceu com ele? Era a pergunta muda. O rosto de Rhodan parecia de pedra. — Por favor, marechal, estou esperando sua resposta. Bell estava de respiração ofegante. Freyt, imóvel como uma estátua. Allan D. Mercant, respirando profundamente. Ninguém se lembrava de ter vivido semelhante situação em toda a vida. Mas os três sabiam que havia só um chefe, Perry Rhodan. Não era o pai que estava perguntando pelo paradeiro de seu filho, mas o administrador, responsável pelo Império Solar. — Sir, não estou em condições de lhe fornecer novos dados sobre o paradeiro de Thomas Cardif. Não sabemos ainda para onde ele foi, após a fuga de Plutão, nem onde se encontra atualmente. Recomendo para este fim o emprego do Exército de Mutantes. *** Thomas Cardif estava sentado em frente de Cokaze. O velho e experimentado saltador e o jovem tenente, desertor do Império Solar, tratavam-se mutuamente como dois sócios com direitos iguais. O camarote de Cokaze na Cok-I, que havia aterrissado em Vênus, ao lado da Cok-CCCXXII, foi o local onde se travaram as primeiras conversações com o objetivo de expurgar do mapa das Galáxias um diminuto reino estelar. Era com admiração e, ao mesmo tempo com um certo mal-estar, que Cokaze olhava constantemente para o jovem desertor. 155


Fascinava-o a lógica fria do tenente, mas assustava-o também seu ódio selvagem contra Rhodan. — Cokaze, você jamais obterá o monopólio comercial de Rhodan, enquanto ele for o administrador do sistema solar — explicava Cardif. — E não vai também conseguir nada de seu sucessor, se não destruir Perry. O novo, ou os novos administradores que vierem haverão de considerá-los como mercenários. No entanto, você e sua estirpe serão reconhecidos como arcônidas, se o novo administrador for um arcônida. Cokaze coçou a barba. — Deixe-me algum tempo para pensar, Cardif. Thomas Cardif já estava no terceiro cigarro, quando o patriarca, inclinando-se levemente para frente, lhe perguntou afinal: — O que se deve fazer para minar ainda mais a posição de Rhodan? — O que você está disposto a fazer para provocar a queda de Rhodan, saltador? — perguntou Cardif como um sócio inteligente. — Você espera por um contrato que lhe dê o direito exclusivo de trazer para o sistema solar todo e qualquer tipo de mercadoria e de exportar os produtos fabricados na Terra. Já percebeu que com este contrato você e sua estirpe se tornarão o povo mais rico da Via-Láctea. Naturalmente, um presente deste tem seu preço. O que você pretende investir? Pela primeira vez, Cokaze se mostrou surpreso. — Cardif, você é tão frio e calculista como seu pai e tão arrogante como um arcônida. Ainda mais quando penso que você é tão jovem, ficaria com receio, caso não se tratasse de um grande negócio que... O alto-falante do hiper-rádio deu o sinal de chamada. A tela começou a acender, até que Cokaze e Thomas Cardif levaram um susto, ao aparecer o emblema do grande regente de Árcon. O cérebro robotizado comunicava uma resolução. A confusão de linhas, conhecida em toda a Galáxia, deu lugar a um pedaço da cúpula gigantesca de Árcon. Simultaneamente com a imagem da cúpula, ouviu-se a voz metálica e inanimada do cérebro positrônico. Cokaze e Cardif se entreolharam com ar de triunfo. A gigantesca positrônica de Árcon acabara de anunciar que o sistema solar estava, a partir deste instante, sob a proteção de Árcon. Ambos interpretavam a mensagem do seguinte modo: viam pura e simplesmente uma anexação do Império Solar por parte de Árcon. — Cardif, estou pronto a investir alguma coisa, como você estava falando há pouco. Minha frota não vai sair nem de Marte nem de Vênus. O poder bélico de minhas naves continua inalterado. Rhodan não vai ter força suficiente para me expulsar e dois planetas de seu sistema em minhas mãos já são uma boa base para entrarmos em conversação sobre o tratado de concessão do monopólio comercial. “Mas você, Cardif, vai ter também o que fazer. Como legítimo arcônida e filho de Rhodan, logicamente você é o

sucessor natural do administrador e, com esta declaração do regente robotizado de Árcon III, estou convencido de que ele o escolheu para ser o novo administrador do pequeno reino estelar.” — Saltador, não cabe a você me obrigar a assumir um cargo pelo qual ainda não me decidi. Todo o orgulho dos arcônidas se manifestava nesta frase. Thomas Cardif olhava frio para o patriarca, que dispunha de quase quatro mil espaçonaves e era um dos homens mais ricos da Galáxia. Cokaze se assustou diante da irrupção de orgulho do jovem tenente, vendo-o como um legítimo arcônida. Uma formação histórica, que abrangeu um período de mais de 15 mil anos, tinha que deixar sinais em cada saltador e para cada um deles, mesmo na posição de um rico patriarca, um arcônida seria sempre O Senhor. Automaticamente, sem perceber o que estava fazendo, sob o impacto da admoestação de Cardif, Cokaze tentou uma retirada ou uma modificação de seu modo de agir, mudando inclusive sua linguagem do intercosmo para a língua arcônida: — Senhor, creio não haver outra alternativa para sua pessoa. — Não estou pensando em tirar das mãos do regente o poder de decidir quem vai ser o novo administrador do Império Solar — respondeu Thomas Cardif com firmeza. — Antes de me preocupar com estes problemas, saltador, vou entrar primeiro em entendimento com o cérebro positrônico em Árcon III. — Quando isto? — perguntou Cokaze. O patriarca dos saltadores depois de ter esolvido intervir com a força de sua estirpe nas lutas internas deste sistema solar, estava naturalmente apressado em conseguir o mais cedo possível seu cobiçado contrato de monopólio comercial. — Imediatamente, Cokaze. Arranje-me uma ligação direta na hiperfrequência do regente de Árcon. *** Atlan ficou perplexo quando o alto-falante do telecomunicador anunciou o nome de Thomas Cardif. A gigantesca central de rádio da não menos gigantesca positrônica de Árcon recebia centenas e centenas de chamados simultâneos, que eram armazenados e, depois de classificados e examinados, iam sendo distribuídos para Atlan, segundo o grau de prioridade. Todo este processo, naturalmente, se fazia eletronicamente. Mas esta mensagem oriunda de Vênus era endereçada diretamente a Atlan. “O filho de Perry Rhodan”, pensava ele. “Santos deuses de Árcon... será que o rapaz ficou louco?” Com a respiração tensa, Atlan escutava o jovem. Mas quem estava falando só podia ser um arcônida e não um homem da Terra! Tão orgulhoso e exigente, só podia ser um arcônida! E Atlan pensou em Thora, a arcônida descendente da estirpe real e se lembrou do que Rhodan já lhe havia dito a 156


respeito de seu filho. Thora era a mãe de Thomas. Ela, que tivera a força de conseguir dominar as más qualidades de seu povo, as havia transmitido para seu filho único, que agora era dominado por estes traços hereditários. Thomas Cardif queria destruir seu pai e fazer do Império Solar uma simples colônia arcônida. Queria, numa palavra, quebrar a espinha dorsal da Humanidade e entregar o monopólio comercial aos saltadores. E agora era a vez de a positrônica responder, o cérebro robotizado era apenas um órgão executivo e Atlan não se manifestava. Atlan ligou o setor de armazenamento jurídico e a mensagem de Thomas Cardif foi transmitida a este departamento. Ao mesmo tempo, a central recebeu a ordem para que Cardif aguardasse o resultado. Atlan foi prudente demais e não usou, neste julgamento, seus sentimentos pessoais. Era necessário que agora, como antes, se mantivesse na Via-Láctea a certeza de que quem governava o sistema estelar M-13 era o grande cérebro positrônico. Por este motivo, Atlan se afastou completamente, deixando o julgamento para o setor jurídico do grande cérebro. A voz metálica do grande cérebro ainda estava transmitindo a ordem para que Cardif esperasse, quando o resultado já estava nas mãos de Atlan. A legislação arcônida vedava qualquer intromissão de Árcon. Ao mesmo tempo o cérebro constatou que o procedimento de Cardif estava em flagrante oposição com as leis arcônidas. — Puxa! — exclamou Atlan descontente. — Acho que Bell haveria de comparar esta fundamentação jurídica com algo parecido com chiclete. Mas se eu tentar dar uma forma mais técnica é capaz de surgir um jurista para afirmar que o cérebro positrônico fez um julgamento errado. O que devo fazer é informar Rhodan do acontecido.

pergunta visível. — Saltador — disse Thomas Cardif, ainda com o mesmo tom inflexível de voz — preciso de um local onde, sem ser perturbado, possa transmitir minha proclamação para o Império Solar. Seus transmissores de hipercomunicação têm a potência suficiente para cobrir com bom volume todas as estações da Terra? — Senhor — disse Cokaze cofiando sua barba semiaparada — a Terra vai ouvir perfeitamente sua proclamação. *** Quando a proclamação de Thomas Cardif chegou à Terra, a estação de hiper-rádio de Terrânia pensou que se tratasse de uma brincadeira, mas o chefe da estação, alarmado, viu a coisa com outros olhos e estabeleceu contato com Rhodan, via ligação direta de alarme. — Senhor — disse ele nervoso, sem ao menos esperar que a figura de Rhodan aparecesse — neste momento Thomas Cardif acaba de transmitir uma proclamação, através da qual se apresenta como o novo administrador da Terra. Apareceu então o rosto de Rhodan na tela, seus olhos tinham a expressão da tranquilidade. — Por que você está assim tão excitado? — foi a pergunta que Rhodan lhe fez. — Por favor, dê-me a proclamação toda, quando Thomas Cardif a tiver terminado. Estou esperando. Rhodan apertou o botão especial, desligando o aparelho de videofone. Bell, Freyt e Mercant olhavam ansiosos para ele. — As frentes de combate começam a se definir — foi seu comentário.

*** Cokaze expôs ao melhor jurista de sua estirpe a resposta do cérebro de Árcon. Seus olhos febricitavam de expectativa. Frio, Cardif estava sentado ao lado do patriarca. O jurista Zutre, especialista neste assunto, estava em situação de dar na hora seu comentário a respeito. — Senhor — disse ele num leve sorriso — os deuses talvez podem ter aprovado e ratificado estes parágrafos que impedem o cérebro de intervir na política interna. Mas, o mais interessante nesta resposta é a alegação de que Thomas Cardif, aliás, de que o procedimento de Thomas Cardif está em contradição com as leis de Árcon. Esta afirmativa é uma frase vazia e, na realidade, diz apenas que a tutela de Árcon, sobre este pequeno reino estelar, representa nada mais que uma declaração para fins imediatistas, sem maiores riscos de responsabilidade. Cokaze se afastou do jurista. Quando se defrontou novamente com Cardif, havia nos olhos do saltador uma

3 O sistema solar teve duas grandes sensações. A primeira: a proclamação de Cardif estourou como uma bomba e horas mais tarde, quando já havia escoado a sensação do impacto, irrompe a segunda sensação: O administrador não reagira! O governo do Império Solar não tomou conhecimento oficial das alterações verificadas em Marte e Vênus. Oito horas e cinco minutos depois que Thomas Cardif havia se proclamado o novo administrador, a grande barragem do Amazonas, perto de Manaus, voou pelos ares. Vinte minutos depois disso, explodiram as usinas do Niger. Bombas de porte médio, carregadas com T.N.T. arrancaram tudo do lugar. Três minutos depois desses atos de sabotagem, duas instalações de laminação também foram destruídas na Lua. A partir daí, era um atentado após outro. A última 157


notícia era sempre pior do que a anterior. A Terra, a Lua, até mesmo o gélido Plutão e os satélites dos grandes planetas haviam se transformado num pandemônio. Não somente as instalações governamentais de todo o sistema solar, mas mesmo os edifícios civis eram destruídos. Fábricas particulares, centrais elétricas, instalações estatais, centros de alta pesquisa... nada escapava à onda de loucura. Os jornais se transformaram em panfletos. Os telejornais pareciam filmes de terror... As catástrofes desfilavam perante a Humanidade perplexa. Até mesmo o cidadão mais comodista e preguiçoso perdia seu marasmo e começava a pedir socorro. Por toda a parte as sabotagens seguiam trazendo desespero. Apenas em Marte e em Vênus havia relativa calma, embora também aí as bombas explodissem e milhares de pessoas perdiam tudo que possuíam. Apesar disso, a situação nesses dois planetas era bem melhor que em outra parte. Quatorze horas depois da dinamitação das ciclópicas barragens no rio Amazonas, perto de Manaus, os alicerces do Império Solar estavam já bastante abalados! Todos se levantaram contra Rhodan. A população desvairada exigia sua cabeça e aplaudia o advento de Thomas Cardif. A era de Rhodan já havia passado. Ele, que não queria envelhecer, tinha de desaparecer, sair de cena. Esta era a voz geral em toda a parte, não apenas em Terrânia. Em Terrânia havia censura nos meios de informação. Ninguém podia sair ou entrar na cidade. O imenso espaçoporto estava vazio. Não se via uma só das naves esféricas. Há três horas atrás, decolara a última espaçonave, a Drusus. Estava agora dando voltas em torno da Terra, acompanhada de outras cem naves. Os aparelhos do tipo Estado, de apenas cem metros de diâmetro, voavam todos a cinco mil metros de altura, podendo assim ser muito bem reconhecidos do chão. Era a primeira resposta de Perry Rhodan à insensatez da população que, de uma hora para outra, saiu de suas cavernas, ameaçando meio mundo. A imprensa, com exceção de pequenos jornais da situação, chamavam a esta demonstração de ditadura rhodaniana. Mas Perry Rhodan, o homem de expressão marcante e de olhos castanhos de incrível magnetismo pessoal, manteve estóico silêncio para com a opinião pública. Ficara realmente impressionado com a inaudita onda de sabotagem, que o pegou de surpresa. Quando se sentia apto para enfrentá-la, aconteceu outra coisa inaudita: a sabotagem desapareceu como que a toque mágico. Cokaze, o patriarca dos saltadores, havia se comunicado com Rhodan, exigindo autorização para aterrissagem às 14 horas e 30 minutos. — Ele “exige” a autorização — disse Bell. — Veja como estão as coisas...! Havia sempre uma ponta de malícia, quando Reginald Bell se expressava assim com reticências.

Sentado à sua escrivaninha, Rhodan examinava as pilhas de mensagens recém-chegadas. O nervoso vaivém de Bell no escritório não o perturbava. Apenas uma vez, Rhodan disse em tom fraternal: — Você também pode trabalhar um pouco, gorducho. Não se sente muito bem hoje, não é? O primeiro ímpeto de Bell foi dar uma resposta bem dura, mas ainda teve tempo de compreender o que Rhodan queria dizer. Dominando-se disse apenas: — O que há de novo? Será que teremos finalmente uma notícia boa? — Exatamente, olhe leia aqui, por favor — disse Rhodan passando-lhe uma das mensagens. Bell, de olhos arregalados e fungando terrivelmente, meteu o dedo entre o colarinho engomado e o pescoço, como se lhe faltasse ar. — Puxa! A isso você chama de boa notícia, Perry? Depois de amanhã, convocação extraordinária do Parlamento, através do Conselho dos Senadores? — Perfeitamente! E não me interessa nem hoje nem depois de amanhã saber que alguns deputados estão se encantando com o pensamento de verem Thomas Cardif como novo administrador. Aconteça o que acontecer, teremos nossos deveres a cumprir, e estes deveres exigem que estejamos à altura das maiores crises e dificuldades. Antes de tudo, vou tomar todas as providências para que depois de amanhã seja votada a prorrogação da Lei de Calamidade Pública. — Você não perde o bom humor, hein, Perry? — Pelo contrário, não resta em mim mais nada de humor. Estou falando com objetividade. Precisamos desta prorrogação do estado de emergência e, desta vez, vou consegui-la do Parlamento, Bell. Não tenha dúvida. Reginald não disse nada. Apenas fez um aceno de cabeça. Rhodan foi lembrado de que já eram 14 horas e 30 minutos. Acompanhado dos três filhos mais velhos, Cokaze já estava esperando na antessala. John Marshall, o mais competente dos mutantes, introduziu os quatro saltadores. Rhodan os convidou a sentar nas poltronas em volta da mesa redonda. Sentaram sem pressa nenhuma, nunca perdendo de vista os olhos de Rhodan. Conforme suas informações, era ele o mais importante. Em contrapartida, não davam nenhuma atenção a Bell, muito menos a John Marshall que estava lendo seus pensamentos, como num livro aberto. No momento, estava Marshall instruindo Rhodan, que possuía forças telepáticas, embora em menor escala, sobre as intenções de Cokaze. Foi por esta troca telepática que Rhodan ficou sabendo que seu filho se encontrava a bordo da Cok-I. — Sim, terrano, nossa vida difere muito pouco da de vocês — começou o patriarca dos saltadores. — Um dia, somos visitados pela sorte, outro, somos vítimas do azar. Parece que as coisas não andam muito boas para o Império Solar, nem para seu governo, mas minha estirpe estaria 158


disposta a tudo fazer para ajudá-los, caso cheguemos a um acordo quanto ao monopólio comercial. Temos mais ou menos quatro mil espaçonaves cilíndricas em Marte e Vênus, Rhodan. São aparelhos bem equipados com tripulação de alta especificação e experiência. Com nosso apoio, seu governo ficaria resguardado de uma iminente destruição. Foi a exposição mais cínica e petulante que Rhodan e Bell tiveram que ouvir. Sem o mínimo escrúpulo, Cokaze fazia suas proposições. Os filhos de Cokaze meneavam a cabeça em sinal de apoio às palavras do pai. Nenhum deles ainda havia se externado sobre o assunto. Para isto seria necessário que o chefe do clã desse consentimento. Mas do que qualquer outro povo, os mercadores galácticos eram muito rigorosos na manutenção destes velhos costumes. — Saltador — começou Rhodan impassível, enquanto Bell tamborilava com as pontas dos dedos no espaldar da poltrona — em toda a minha longa vida, sempre pautei minhas relações com outros povos numa amizade sincera e respeitosa, e por isso me alegro em ver na estirpe de Cokaze bons amigos. Foi-me grato avaliar o grau de sua estima, pelo fato de seu interesse em me apoiar, como administrador do Império Solar, de uma deposição através do Parlamento. Gostaria de poder lhes mostrar minha gratidão pela forma como vocês o desejam. Mas, como o senhor mesmo acaba de salientar, minha posição é muito melindrosa. E unicamente por este motivo, não estou em condições, no momento, de manter conversações sobre a questão do monopólio comercial. E mais ainda: minha posição como administrador foi seriamente abalada por esta série doida, suicida e inexplicada de atos de sabotagem, pois o governo não conseguiu prender um único terrorista. Saltador, lamento profundamente não lhe poder dizer outra coisa. Neste momento, Marshall entrou em contato telepático com Rhodan: — O saltador está fervendo de raiva, Sir. Pensa em não sair deste aposento sem levar o contrato assinado. Está refletindo se já está na hora de nos dizer que Marte e Vênus estão praticamente em seu poder. — Rhodan, vou deixar de lado, por enquanto, sua pouca disposição para entrar em conversação com nossa gente, os comerciantes das Galáxias — respondeu Cokaze, num tom mais ríspido. — Não lhe resta outra alternativa, administrador. Não menospreze o perigo que irrompeu contra você na pessoa de Thomas Cardif... — Um simples desertor — falou Rhodan, serenamente. — Seu filho, Rhodan! — gritou Cokaze bem alto. — Meu filho, saltador? — Rhodan deu um sorriso amargo. — Você se engana Cokaze. Um Rhodan nunca será um desertor. Portanto Thomas Cardif não pode ser um Rhodan, talvez, porém, um arcônida degenerado. Isto eu não posso nem quero discutir. — Sua esposa não foi uma arcônida? — perguntou o atrevido saltador.

Bell, de um salto, se levantou da poltrona, Marshall fez a mesma coisa. Somente Rhodan foi quem não mostrou a menor reação. Ele, o modelo perfeito do autodomínio, apenas sorriu. Mas seus olhos castanhos cintilavam. Inclinou-se levemente para frente. Veio depois o surpreendente aceno da cabeça. — Sim — disse confirmando — minha mulher era arcônida. Que bom você ter me lembrado isto, saltador Cokaze. Os quatro mercadores galácticos estremeceram, como se cada um deles tivesse levado uma forte chicotada. Rhodan também não lhes deixou tempo para se desculparem. Levantou-se. — Saltador, já são 14 horas e 48 minutos. Meus robôs vão levá-los de volta ao espaçoporto. Às 15 horas e 10 minutos receberá permissão para decolagem, em vigência até 15 horas e 15 minutos. Desejo-lhe tudo de bom, Cokaze. De braços cruzados no peito, ficou olhando para eles, que cabisbaixos e calados deixavam o escritório, até que a porta se fechou. *** Os agentes de Cokaze não dormiam no ponto... O patriarca, depois de seu insucesso com Perry Rhodan, de quem se tornara o maior inimigo, só tinha em mente uma coisa: anexar o Império Solar à Federação dos Estados de Árcon e fazer com que sua estirpe fosse a única privilegiada a ter o direito de exportação e de importação no sistema solar. Thomas Cardif era-lhe apenas uma peça no jogo, um meio para um fim. Enquanto este rapaz lhe podia ser útil, tratava-o com deferência e fingia dar muita atenção às suas propostas. Na realidade, porém, toda a atividade de Cokaze visava apenas ao próprio interesse. Após a curta audiência com Rhodan, voltou Cokaze numa viagem relâmpago para Vênus. Mobilizou todos os agentes que possuía na Terra. A série de sabotagens, com o intuito de minar o prestígio de Rhodan, continuaria com uma violência dez vezes maior. Pelo menos esta era a vontade de Thomas Cardif. — Mas isto é assunto meu terrano — disse-lhe desembaraçadamente o patriarca dos saltadores. Cokaze simplesmente não podia compreender ou não podia se acostumar com a idéia de que um rapaz, sem ser perguntado, tinha sempre que dar seus palpites. Cardif sorria com ar de zombaria e aí é que mostrava grande semelhança com seu pai. — Claro que é assunto seu, é coisa que você já devia saber, mas não sabe, infelizmente. Por exemplo: nem sabe por que Rhodan mantém em quatro lugares distintos da Terra cerca de cem mil homens aquartelados e prontos para entrar em ação. Por acaso, seus agentes já descobriram o que Rhodan tenciona com esta enorme reserva? — Rhodan, Rhodan e sempre de novo Rhodan. Já não consigo mais ouvir este nome — esbravejou o patriarca. — 159


Este Rhodan é a maior desgraça e o maior perigo para o Universo. — Por que você fica tão nervoso assim, Cokaze? — perguntou Cardif com toda calma. — Basta para você apenas um hiper-rádio e dentro de dois ou três dias muitos milhares de espaçonaves de outras estirpes se juntarão a você e então ninguém mais falará deste Império Solar. Por que você não os chama em seu auxílio? — Porque só um terrano pode pensar numa bobagem desta — respondeu o velho líder do clã. Caso convocasse outras estirpes para ajudá-lo, teria que dividir com eles sua preciosa presa e isto não agradava a Cokaze. — Bem — disse Cardif tranquilo, pagando na mesma moeda — digamos que sou um terrano bobo. Mas, ao invés desta série de sabotagens, que não levam a nada, poderia tentar influenciar os deputados e senadores para que eles... — Nem todos se chamam Thomas Cardif! Esta frase, dita num ímpeto de raiva, Cokaze não podia mais desfazer. — Você quer dizer que nem todos são traidores como eu, não é, saltador? Mas o fato é que os mais responsáveis, os parlamentares, principalmente, não estão muito contentes com Rhodan. Com um trabalho bem inteligente e uma propaganda bem articulada consegue-se muito mais que com esta estúpida onda de violência. Você nunca me perguntou por que motivo eu desertei. Vou contar-lhe, embora você não se tenha interessado em saber. “Contra o parecer oficial dos médicos, Perry Rhodan mandou minha mãe para Árcon, a fim de tratar com o regente robotizado da compra de cem cruzadores. Nesta missão, ela, que já estava desenganada pelos médicos, acabou morrendo”. “Cokaze, isto bem espalhado na Terra, numa campanha de hábil propaganda, vai custar a cabeça de Rhodan. Com isto, ele será destituído do cargo de administrador e talvez processado. Um assunto deste mexe muito com os homens e principalmente com as mulheres, e a influência das mulheres na Terra é muito maior do que vocês possam imaginar”. “Só com estes meios é que se pode combater Rhodan. Temos que atacá-lo exatamente onde ele é vulnerável, no seu calcanhar de Aquiles.” — Mas, Cardif, sua afirmação de que Rhodan tenha mandado sua esposa conscientemente para a morte não pode ser verdade. — Não pode ser verdade? Não pode ser verdade, como, saltador? Foi este exatamente o motivo que me levou a quebrar meu juramento de fidelidade ao Império Solar. Por este motivo me insurgi contra tudo e contra todos, para destruir o assassino de minha mãe. Este é o único sentido de minha vida, é a única coisa que quero conseguir. Somente quando tiver destruído Perry Rhodan, poderei morrer tranquilo. O saltador afastou de sua frente a pilha de papel que estava na mesa. Fitou o jovem desertor com mais atenção.

Sentiu um arrepio, diante daquela expressão de ódio, acumulada nos olhos de Thomas Cardif. Era um homem carregado de ódio, da cabeça aos pés, como jamais havia visto. E este homem havia feito a maior acusação contra seu pai: a de ter assassinado sua mãe. — Não, Cardif, não posso acreditar numa acusação desta. Não consigo me libertar dos olhos castanhos de Rhodan, neles não se pode aninhar sentimento de ódio, muito menos de morte, mas, de qualquer maneira... — e um sorriso repugnante aflorou em seu resto — de qualquer maneira, a idéia é muito boa. Sim, vai acabar arruinando Rhodan. Está certo, Cardif, vinte e quatro horas antes da reunião plenária do Congresso, meus agentes vão fazer circular na Terra estes boatos. — E mais uma coisa! Não se esqueçam dos mutantes de Rhodan, estes homens dotados de poderes incríveis. Há alguns que conseguem passar através de paredes, outros desaparecem repentinamente num lugar e surgem no mesmo instante a milhares e milhares de quilômetros dali. — Só isto? — disse Cokaze com um sorriso zombeteiro. — Já ouvi falar nisso, mas acho que noventa por cento é exagero. — Não há nenhum exagero, Cokaze. Dou-lhe até um conselho muito sério: não fique com a sua Cok-I aqui em Vênus. Vá com ela para bem longe no espaço. Mesmo lá, não estará cem por cento garantido contra a ação dos mutantes de Perry Rhodan. Mais uma vez, Cokaze estava profundamente impressionado com as palavras de Cardif. No íntimo, ele percebia que o jovem desertor conhecia muito melhor as condições do diminuto Império Solar do que todos os seus bem pagos técnicos. E o que se sabia até hoje do Império Solar? Enquanto ninguém conseguia descobrir a posição da Terra, a Galáxia inteira vivia assustada com incríveis exageros. Muitos acreditavam piamente que Rhodan era muito mais poderoso que todo o Império Arcônida. — E você, Cardif, não tem medo dos onipotentes mutantes de Rhodan? — era patente a ironia do saltador. — Medo é isto aqui! — gritou Cardif, fazendo com que Cokaze se levantasse de um salto. Num gesto rápido, o jovem desertor sacou duas pistolas de raios energéticos, apontando-as na direção do assustado patriarca. — É assim que me preparo para enfrentar os mutantes de Rhodan. Felizmente, conheço pessoalmente alguns deles e os que não conheço, percebo logo pelo jeito e pela aparência. Aí então será eu ou ele. Pois não tenho dúvida de que Rhodan tudo fará para me pegar vivo. Sou mais importante para ele do que você com seus quatro mil aparelhos... — Complexo de inferioridade, você não tem felizmente, não é, Thomas? — disse o patriarca sorrindo. Thomas parece que não deu importância à indireta, mas certamente não a esqueceu. Abstraído em seus pensamentos, olhava para o chão. Sentia o olhar penetrante 160


do velho saltador, mas fez como se não visse. — Cokaze — recomeçou ele — somente espalhando boatos, não venceremos Rhodan. Por que você está deixando suas quatro mil naves enferrujando em Marte e Vênus? Somente o comércio de mercadorias entre Marte e Vênus haveria de lhe dar tanto lucro, que seria suficiente ao menos para cobrir as despesas da manutenção imediata. — Arcônida...! Pela primeira vez, Cokaze chamara o tenente desertor pelo nome de arcônida. Este rapaz, que pretendia usar mais como um meio para seus fins, revelava-se cada vez mais um estrategista frio e inteligente, descobrindo não apenas as vantagens para seu lado, mas explorando principalmente os pontos fracos e vulneráveis do adversário. Cardif não reparou na expressão de surpresa no rosto de Cokaze. — Vou dar minha contribuição para a queda de Rhodan — disse com a maior calma. — Duas horas antes da reunião do Congresso em Terrânia, vou fazer importantíssima proclamação à Terra, através do hipercomunicador. Cokaze, você me empresta seu transmissor de hiper-rádio? — É claro, mas tenho que exigir, saber antes do conteúdo de sua mensagem, arcônida... Os olhos avermelhados de Cardif se encheram de um brilho diferente. Em tom de voz diferente, chegou bem perto do patriarca. — Acho que já lhe dei provas mais do que suficientes de que não trabalho contra seus interesses, embora não consiga me libertar da suspeita de que a estirpe de Cokaze só vê em mim um meio para seus objetivos. Saltador, não permita que esta suspeita se transforme em realidade. Sou arcônida e estou certo de que o cérebro robotizado me dará razão. Conte com este fato como coisa certa, e oriente todos os seus atos neste sentido. Assim ficaremos amigos. Virou-se de repente, deixando o grande camarote de Cokaze, antes que o velho patriarca, surpreso e assustado, estivesse em condições de responder às palavras marcantes de Cardif. “Santos deuses do espaço!”, pensou ele preocupado. “Será que este jovem desertor consegue ler meus pensamentos?” *** A Frota Solar não estava mais voando em torno da Terra. Havia tomado posição próximo a Marte, Terra e Vênus. No momento, Marte e Vênus estavam praticamente perdidos. Quem quisesse dizer o contrário, estaria mentindo a si mesmo. Os senhores de Marte e de Vênus eram, sem dúvida alguma, os mercadores galácticos da estirpe de Cokaze. Mas a Terra não lhes pertencia, e a Frota Solar ainda existia e continuava a ser um instrumento mortífero supereficiente, contra qualquer inimigo. A ordem que a frota do Império Solar recebera

determinava expressamente que não se impedisse o tráfego entre Marte e Vênus, mas que fosse cortada, com todos os meios, toda tentativa de aproximação da Terra por parte de qualquer nave cilíndrica. Rhodan ainda era senhor absoluto de sua Frota Espacial, bem como da Segurança Solar e do Exército de Mutantes. Estes últimos ainda não se haviam se esquecido de como foram tratados nos debates parlamentares. Seus sentimentos para com os deputados não podiam ser dos mais amistosos, no entanto, nenhum deles tivera a ideia de agir por conta própria para lavar a honra denegrida. Seguindo o exemplo da Segurança Solar, que estava agindo sob o comando do Marechal Allan D. Mercant, os mutantes entraram também de corpo e alma na defesa perigosa do diminuto Império Solar. Seu primeiro dever era descobrir o que Cokaze tencionava fazer nos próximos dias e até que ponto ia a influência de Thomas Cardif, nos acontecimentos. Receberam de Perry Rhodan a missão especial de tomarem conta de Thomas Cardif e de trazer o desertor para a Terra. Gucky, o rato-castor, estava nesta missão especial. Aliás, ao menos neste comando, era o único teleportador e telecineta. Os dons de John Marshall se concentravam no âmbito da telepatia, enquanto Fellmer Lloyd era o superespecialista em orientação e localização. Apenas ouvindo, Reginald Bell estava sentado num canto, com cara de tristonho. Não podia acompanhar o comando, pois tinha que, com Rhodan e os colaboradores mais íntimos, estar presente aos debates no Congresso. — Perry — falou Gucky, interrompendo, sem muita cerimônia, o administrador. — Será que o gorducho não pode participar do comando até amanhã? Prometo-lhe devolvê-lo são e salvo para a operação matadouro, sem nenhum atraso. — Que negócio é este de operação matadouro, Gucky? — perguntou-lhe Rhodan meio surpreso. Perry estava demasiadamente preocupado com as medidas que tinha que tomar. — Também não sei não, chefe. O gorducho não para de pensar em matadouro e quando fala a respeito usa nomes tão horríveis que fico vermelho de vergonha... Neste momento, Reginald Bell deu um pulo de sua poltrona, procurando atingir Gucky. Porém, no meio do caminho ficou pregado no chão, não conseguindo mais nem levantar um pé. Gucky estava se divertindo com suas forças telecinéticas e escolhera como vítima exatamente seu amigo Bell. — Mas Perry, francamente eu não entendo o que Bell quer dizer com a palavra matadouro, mas acho que se refere à sessão do Parlamento, temendo que vocês todos levem na cabeça no meio destes deputados malucos. Será que vai ser tão perigoso assim? Perry fitou os olhos sinceros de Gucky. O inteligente ser não estava agora brincando, como costumava fazer. Apreensivo e muito sério, o rato-castor continuava ao lado 161


de Rhodan. Mantinha uma amizade muito profunda não só para com Rhodan, mas também para com Bell. Estaria pronto, a qualquer momento, a dar sua vida por eles, como já dera provas evidentes disso, mais de uma vez. — Não, Gucky — respondeu Rhodan. — Não se pode desistir de uma hora para outra de uma obra de mais de setenta anos. Lutaremos para poder continuar cumprindo nossos deveres. Nós todos juntos já travamos muitas batalhas amargas e vamos aguentar mais esta do Parlamento... Neste instante, uma das muitas instalações de alarme com ligação direta das centrais para o escritório de Rhodan deu o sinal de urgência. Do alto-falante soou a voz do Marechal Allan D. Mercant. — Sir, comunicados simultâneos das agências noticiosas de Berlim, Oslo, Nova Iorque, Tóquio, Xangai, Sidney, Calcutá e Cidade do Cabo dão conta de que, de um momento para outro, irrompeu uma onda de boatos. Em tais boatos, o administrador é acusado por ter enviado sua esposa para Árcon, em flagrante oposição ao parecer dos médicos... e outras coisas mais, Sir. Rhodan empalideceu. Por muitos segundos manteve os olhos cerrados. — Obrigado, Mercant, está bem. Neste momento, Reginald Bell já estava conseguindo mover-se. O ratocastor o havia liberado da força de sua telecinese. Devagar, Bell se aproximou de seu amigo, botando-lhe a mão no ombro. — Escute aqui — disse Bell muito pausado e em tom muito íntimo — estamos ainda em condições de nos defender e vamos nos defender, Perry. Permita que eu me encarregue de responder a esta calúnia. Acho que não está precisando de mim no momento, não é? Você me poderá achar facilmente através das centrais, que certamente sabem onde me encontro. E você Gucky, capriche, traga Thomas para cá, mas para mim, ouviu? Você está lendo meus pensamentos, não é? Gucky interrompeu seu amigo que estava muito abatido. — Se foi Cardif quem engendrou tudo isto, Bell, acho então que não é bom trazê-lo para você. O desertor deve ser tratado imediatamente por uma junta médica. De repente, Rhodan se ergueu. — Ninguém vai pôr a mão nele. A ação contra Thomas Cardif está cancelada. Também não vou responder ao que ele espalhou pelo mundo como boato. — Mas eu vou — atalhou-o Bell. — E neste particular, não aceito nenhuma ordem sua, Perry. Até hoje sempre me abstive de mexer com Cardif, esperando e sempre esperando inutilmente. A mesma mão, que até hoje o protegeu, vai levá-lo agora para onde ele deve ir. E eu lhe prometo que Thomas chegará ao ponto certo. Estamos claros neste ponto, Perry? Rhodan, o homem mais poderoso no Império Solar, não deu nenhuma resposta. Era um pai desesperado. Nesta hora, ninguém estava prestando atenção em Gucky. Nos seus olhos se lia estupefação. Ele que superava

em inteligência a quase todos os homens, sentia em seu instinto que, aqui, onde os fatos concretos deviam ser analisados com toda clareza, ainda restavam muitas sombras. Não podia dizer ao certo o que o inquietava, mas seu desassossego era tão grande que uma resolução desesperada tomava corpo dentro dele. Deixou o escritório de Rhodan em companhia de Reginald Bell, de John Marshall e de Fellmer Lloyd. E logo depois, Gucky se teleportou. O fato não causou espanto a nenhum dos três, pois o rato-castor não gostava nada de andar a pé, e todos sabiam disso. Mas ninguém podia imaginar que fosse se rematerializar na central do espaçoporto. Seu inesperado aparecimento assustou a todos. Em qualquer outra situação, Gucky começaria com suas brincadeiras, mas desta vez nem pensou nisso. — Quando parte a primeira nave para Vênus? — perguntou. — Vênus e Marte estão fechados para qualquer vôo — foi a resposta que recebeu. — A Don-4, uma nave cargueira, foi a última a partir, exatamente há oito minutos, em direção a Vênus, com um carregamento especial de medicamentos... — Onde estará esta Don-4 neste instante? — interrompeu Gucky. — Depressa, mostre-me esta nave na tela. O controle de medição ligou a tela de ampliação e no mesmo instante surgiu um minúsculo ponto luminoso, que pela posterior ampliação se transformou num disco. A aparelhagem de medição calculou com exatidão de metros a distância entre a Don-4 e o espaçoporto de Terrânia. A Don-4 havia passado dos 15 mil quilômetros... — Como, onde está ele? — perguntou o oficial que estava prestando informações, quando virou para falar com Gucky. Mas até a cintilação do ar já tinha desaparecido. E Gucky agora estava na Don-4, no posto de comando, ao lado do Capitão Eyk. — Oba... — mais do que isto o capitão não conseguiu dizer. Sua respiração estava ofegante e o suor lhe escorria da testa. — Para onde está voando, capitão? — Gucky era para todos os efeitos tenente do Exército de Mutantes. — Para a Califórnia, tenente. O senhor quer... — A que distância de Vênus está a Califórnia? — Um momento, tenente, isto eu não sei de cor. Brothers, pergunte à positrônica de bordo. Um oficial, muito jovem, fez três movimentos no computador e quase no mesmo instante levou a mão para a fenda de saída. Seu trabalho deve ter sido perfeito pois o jovem, com um pouco de orgulho na voz, disse: — Por favor, aqui está o resultado — e entregou a tira perfurada para Gucky. Era realmente um quadro singular ver um rato-castor, metido num vistoso uniforme da Frota Solar, de pé no posto 162


de comando da Don-4, concentrando-se com seus grandes e belos olhos para poder entender a tira perfurada do computador. Aos poucos, o único dente roedor de Gucky começou a aparecer. — Vai ser um sucesso! Foi o que ouviram os oficiais da central da Don-4. — Vai ser mesmo um recorde — continuou ele. Depois, erguendo a cabeça e enfiando no bolso a tira de papel, disse: — Quando é que entramos em transição? — Como? — perguntou Eyk assustado. — Entrar em transição só para estes poucos milhões de quilômetros? Além disso, tenente, as transições estão terminantemente proibidas. Gucky estava de fato arriscando tudo nesta operação. Quis dar a impressão de ser maior do que era. A grossa cauda, em que se apoiava ajudava um pouco nesta tentativa. Mas mesmo assim o seu tamanho pouco aumentava. — Missão especial, capitão! Tenho que chegar a Vênus pelo caminho mais curto. Entre em transição. É uma ordem de um tenente do Exército de Mutantes. Tenho que apresentar minhas credenciais? Se havia alguém que não tinha necessidade de credenciais, era o rato-castor. E os serviços que prestara à causa do Império Solar eram fora de série. Se alguma coisa fracassasse, nem mesmo sua grande amizade com Rhodan e Bell o haveria de salvar de uma deprimente expulsão do Exército de Mutantes. — O senhor tem que ir para Vênus, tenente? — o Capitão Eyk ainda continuava perplexo. — Mas, já estamos nos aproximando de Vênus e... Com um gesto espalhafatoso, Gucky o interrompeu. — Que diferença faz? Então eu vou-me teleportar, capitão. — Mas não nesta distância toda. — Por que não? Posso sentar nesta poltrona, capitão? Gostaria de tirar uma soneca, antes. Gucky tirou mesmo sua soneca e continuou dormindo até mesmo durante a transição, que fora realizada dentro do sistema solar e registrada por todas as estações em atividade. Na Terra estavam todos zangados e não menos zangados também estavam todos em Plutão, no satélite Ganimedes e em meia centena de espaçonaves da Frota Solar. Palavrões eram ouvidos, inclusive através dos canais do intercomunicador. A instalação do hipercomunicador da Don-4 estava em atividade. — Eu sabia disso — respondia o Capitão Eyk, acordando o rato-castor que cochilava tranquilamente. — Alô, tenente, ouça um pouco o que estão dizendo através das frequências do hiper-rádio. Gucky ouviu por algum tempo e depois, com muita euforia, começou a falar: — Missão especial, isto justifica tudo. Capitão, você ainda mantém a simples velocidade da luz?

Esta última frase era do vocabulário de Bell. Gucky gostava do modo de falar de Bell, um tanto rude, principalmente quando não havia nenhuma razão para usálo. Mas o Capitão Eyk não estava com disposição para piadas. Estava prevendo complicações. O que se ouvia no hiper-rádio deixava antever o pior. — Não, tenente, não estamos mais voando com a velocidade da luz. Estamos brecando fortemente. Mas terei que mandá-lo para os quintos dos infernos se, devido a suas ordens, tiver mais aborrecimentos. — De acordo! — disse Gucky chiando. Pouco depois, o lugar, onde estivera o singular mutante, achava-se vago. As lamúrias do Capitão Eyk, ele não as ouviu. Da instalação da positrônica, perguntava Brothers: — Não estará ele já em Vênus... este terrível ratocastor? — Pergunte a ele mesmo — respondeu Eyk, zangado. — E agora, por favor, desligue este desgraçado aparelho de hiper-rádio. Não suporto mais esta gritaria de todos os lados. Chame-me somente se for uma ligação de Terrânia. *** Gucky procurou cair de pé. Mas só o conseguindo, porém, na quarta tentativa, deixando-se arrastar pelo chão. — Nunca mais farei isto — disse ele quase gemendo. — É meu primeiro e último recorde em salto de distância por teleportação. Mas Gucky gozava de uma excelente constituição física. Enquanto a chuva da noite se abatia sobre ele, notou que as forças dispendidas no perigosíssimo salto de teleportação se refaziam paulatinamente. Meia hora após sua chegada a Vênus estava pronto para qualquer coisa. Para ele, não tinha importância alguma o local onde se achava. Era questão de somenos importância. Agora procurava, por via telepática, localizar Thomas Cardif, o filho de Perry. Rhodan. Era sua missão especial. Apesar de procurar muito, não o achou. — Devia ter trazido Harno — dizia se lamentando e desejando ter a seu lado o singular ser esférico, o magnífico televisor vivo. Harno, porém, estava na Terra, não podendo por isto ouvir seu apelo devido à grande distância. A chuva continuava forte. Gucky olhou para seu cronômetro e viu as horas. Faltavam ainda quatro horas para a alvorada. Quando, apesar da chuva torrencial, começou a clarear o dia, Gucky estava sentado sob a copa de uma frondosa palmeira, cujas folhas em leque, de mais de um metro, lhe serviram de abrigo. O rato-castor já não media mais um metro de comprimento. Todo encolhido, dava uma impressão deprimente. — Tomei esta iniciativa e tenho que arcar com as 163


consequências. Tinha que se lamentar realmente... Suas forças não eram suficientes para se concentrar e poder ativar seus dons telepáticos. A procura de Thomas Cardif não lhe estava rendendo quase nada, era um esforço inútil. De repente, teve um calafrio e seu corpo estremeceu todo. Soltou um guincho curto e penetrante, como que horrorizado consigo mesmo. — Aguentar firme! — foi o comando que deu a si mesmo. No mesmo instante, o rato-castor era apenas um telepata. Reduziu a um mínimo todas as outras funções mentais, concentrando suas forças disponíveis nos dons telepáticos. Sentiu então como era enorme a distância que o separava de Cardif e foi então que lhe veio ao consciente que o filho de Rhodan não se encontrava mais em Vênus, mas que tinha que estar no espaço, muito acima deste planeta. Para os leigos, parecia sempre uma brincadeira, quando um teleportador, usando de seus dons, se transportava para bem longe. Poucos, porém, sabiam que esforços ingentes eram necessários para se teleportar e quais eram as condições indispensáveis para se atingir o objetivo colimado, evitando assim um salto errado, quase sempre de consequências desastrosas. Thomas Cardif se encontrava a bordo de uma espaçonave. Se esta nave se movia a grande velocidade ou não, isto pouco lhe interessava, mas tinha que fazer uma idéia mais nítida do espaço em que se encontrava o filho de Rhodan, no momento. O rato-castor teve sorte, pois neste momento, os pensamentos de Thomas Cardif se preocupavam exatamente com a pobre instalação de seu camarote, principalmente com o fato de que não existia ali nenhum meio de se comunicar com o resto da nave. E foi neste exato momento que Gucky se teleportou para uma nave cilíndrica que dava voltas em torno de Vênus. *** Allan D. Mercant, chefe da Segurança Solar, foi o primeiro na Terra, a saber, da curta transição realizada pela Don-4. As transições achavam-se suspensas, principalmente, dentro do sistema solar. Mesmo antes que a Don-4 chegasse até a Califórnia, para entregar um medicamento especial para um de seus tripulantes em estado grave, Eyk era chamado ao telecomunicador. — Será que você bebeu demais? — disse Mercant severamente para o capitão. — Não pode haver outra explicação para sua pequena, mas irregular e altamente nociva transição? O nervosismo tomou conta do pobre Capitão Eyk. Gucky o deixara em má situação. Seu ódio contra o ratocastor não tinha mais medidas. Protestando, tentou defender

a pele. — Gucky, o tenente do Exército de Mutantes... — Um momento, capitão — interrompeu-o muito cortesmente Mercant — o rato-castor está a bordo de sua nave e... — Esteve, Sir, já deixou a Don-4 há tempo. Se é verdade o que disse, queria ir para Vênus... — Para Vênus?... — repetiu Mercant horrorizado. — Quanto tempo faz que ele desapareceu da Don-4? O Capitão Eyk perguntou o tempo exato na central de sua nave. — Obrigado! — disse o Marechal Mercant, desligando o telecomunicador. — Que coisa horrível... — disse para si mesmo o Capitão Eyk. Porém, no íntimo, estava contente, pois este incidente já havia passado. *** Com uma única ordem, Reginald Bell mandou interromper toda a programação de televisão do sistema solar, pelo menos das estações oficiais. Estas emissoras perfaziam mais de cinqüenta por cento da cadeia de televisão que, dia e noite, alimentava o Império Solar com notícias, e programas educativos e recreativos. Em resposta ao boato de que Perry Rhodan, tivesse mandado sua esposa, contrariando o conselho dos médicos, para uma perigosa missão em Árcon, com o intuito de ficar livre dela, Reginald Bell havia determinado a retransmissão inteira das cerimônias do sepultamento de Thora no mausoléu da Lua. Quem se lembrasse daqueles momentos angustiantes, tinha que reconhecer que o nojento boato tinha apenas o objetivo de difamar Rhodan, com a imputação de um assassinato moral. Esta apresentação, de duas em duas horas, da solene cerimônia fúnebre não deixava de ser um terrível golpe para Thomas Cardif. A câmara mostrava, numa cena comovente, como Perry Rhodan, tremendamente abatido pela morte da esposa, estendia a mão para o filho, que estava ao seu lado... E a equipe dos operadores de televisão foi realmente sensacional na técnica que usou durante a filmagem. Os homens atrás das câmaras, num instinto de repórteres, devem ter sentido a importância deste gesto de Rhodan, pois com suas possantes teleobjetivas, fizeram a cena ser presenciada bem de perto. E estas cenas foram transmitidas, na época, para milhões de seres humanos, mostrando como Thomas Cardif, retrato fiel de seu pai, Rhodan, recusou a mão que lhe fora estendida. Mas o operador filmou também quando o temperamental Reginald Bell avançou de repente e afastou Thomas Cardif de junto de seu pai, ficando ele, Bell, ao lado do amigo desesperado, enquanto Thomas recuava uma fila para trás. 164


O próprio Bell estava recebendo as confirmações dos horários de retransmissão das diversas estações, quando chegou um chamado de Allan D. Mercant. — ...já falei também com John Marshall. Está tão surpreso quanto eu. Gucky deve estar de fato em Vênus. — E o que pretende ele em Vênus? — perguntou Reginald Bell, que não estava em condições de selecionar as notícias mais importantes para ter uma visão geral dos acontecimentos. — Ora essa, Bell! Que pretende Gucky em Vênus? Ele meteu na cabeça que tem de pegar Thomas Cardif e trazê-lo para Terrânia — respondeu Mercant. Bell conhecia Gucky muito melhor do que Mercant. O gorducho, de cabelos ruivos, balançou a cabeça. — Não, não acredito, Mercant, mas... em todo caso... — qualquer um podia perceber como Bell mudara um pouco de atitude. — Mas, por favor, dê-me a distância exata do local de onde Gucky saltou para Vênus. A resposta veio logo, mas seguiu-se imediatamente a contrapergunta de Bell: — Será que você não entendeu mal? E Gucky saltou sem o uniforme espacial? Mercant, não estou duvidando de suas faculdades mentais, mas tudo isto parece tão utópico, não é? — Tudo parece utópico neste episódio, Sir. Já é estranho o fato de ele ter ordenado ao capitão da Don-4 que executasse uma transição dentro do sistema solar. Os estremecimentos estruturais provocaram uma confusão tão grande nas medições, que todos os valores, nestes poucos segundos, estão alterados. — Bom isto é um assunto que diz respeito mais às estações — Bell não queria perder tempo com coisas secundárias. — Para mim, é da maior importância saber o que pretende este malandro. O chefe está a par desta saída clandestina e proibida de Gucky? — Não, ainda não. Mas vou agora colocá-lo ciente de tudo. — Este trabalho, Mercant, você deixa comigo — atalhou-o Bell. — Chame-me se tiver outras notícias importantes, marechal. — Certamente, Sir — respondeu Mercant, desligando. Estava convencido de que Bell não ia falar nada com Rhodan a respeito das travessuras de Gucky. Se havia quem sempre estendia a mão para encobrir as peraltices de Gucky, era exatamente Reginald Bell. *** Não se ouvia o menor ruído, quando Gucky rematerializou-se no corredor do camarote de Cardif, na Cok-I. Olhou imediatamente para os lados. O amplo convés da nave cilíndrica estava bem iluminado, não havia ninguém. Atrás do mutante, uma porta. A tabuleta indicava que era ali a entrada para um depósito. Gucky era um exemplo vivo da preguiça. Não gostava nada de andar, preferindo sempre usar seus dons de teleportador. Estava

agora com tanta preguiça de abrir a porta com a força de seus músculos, que pôs em ação seu dom de telecinese. E, como num passe de mágica, a porta se abriu com suavidade e Gucky desapareceu no interior do depósito. Ali também estava tudo bem iluminado. O compartimento era um depósito médio, lotado até os dois terços com mercadorias. Curioso como era, queria saber o que havia nos recipientes de plástico. Mais uma teleportação de poucos metros e ele estava no ponto mais alto do grande empilhamento. Daí, via bem os fundos do depósito e foi olhando para lá que avistou algo... Assustou-se com a visão de tantas bombas, que estavam bem empilhadas no fundo, tendo na frente, para despistar, os recipientes de plástico. — Puxa! E a gente acredita sempre que os comerciantes das Galáxias só fazem transação com goma de mascar, botões de camisa, pílulas para o fígado e outras bugigangas. Mas, quando se olha atrás das cortinas, encontram-se estas bombas, das quais uma só bastaria para arrasar meio planeta. Mas, espere um pouco, seu Cokaze, que você não terá muita “alegria” com estas bombas! O rato-castor estava, tal qual um ser humano, em cima da grande pilha de bombas. O movimento de suas patas dianteiras, Gucky havia conseguido, imitando o andar dos homens. Aliás, tinha uma grande queda para imitar e representar. Podia-se dizer que sua grande paixão era brincar. Mas, conforme ele mesmo dizia, quase não tinha oportunidade para isto, e poucas vezes dava cordas ao seu instinto brincalhão. Mas aqui estava uma ótima oportunidade para isto. E ele pensou: “Onde há bomba, tem de haver também detonador por perto. Uma bomba sem o dispositivo de disparo é um simples ferro velho. E essas bombas vão mesmo ser reduzidas a simples ferro velho.” Ouviu um ruído. A porta, que ele havia fechado, foi aberta por cima. No mesmo instante, Gucky captou os pensamentos de dois saltadores. Além disso, captou também ondas de computação. Mas não as conseguia entender, até que percebeu que eram vibrações incompletas de uma máquina positrônica, que deviam originar-se de algum robô. Num rápido movimento, Gucky desapareceu atrás de um recipiente de plástico. O que os dois saltadores estavam falando era de pouco interesse para ele. Muito mais rendoso era pegar seus pensamentos e o que conseguiu captar, obrigou-o a sorrir com o dente roedor à mostra. O patriarca Cokaze tinha dado ordens a sua gente de levar para a escotilha de descarga um terço das grandes bombas, acompanhadas dos respectivos detonadores, a fim de distribuir este perigoso material, nas próximas horas, para as naves de sua frota, que formariam fila ao lado da grande Cok-I. Num mal falado intercosmo, Gucky ouviu um dos saltadores: — Eu acho que nosso chefe quer extorquir o contrato de 165


monopólio comercial destes terranos, sob a ameaça de milhares de bombas atômicas. Os robôs dos comerciantes das Galáxias começaram a remover os recipientes de plástico que camuflavam as terríveis bombas nucleares. Gucky preferiu abandonar o recinto, antes que fosse visto por algum saltador. Apesar de sua inclinação natural para a brincadeira, Gucky — sem deixar de ser prudente — era um estrategista ousado, que dificilmente arriscava tudo. Controlando o pensamento dos dois saltadores, conseguiu saber onde estavam os detonadores. O espaço interno de uma nave cilíndrica, como a de Cokaze, era dominado por Gucky tão bem como o de um aparelho arcônida. A fabricação em série destas naves cilíndricas exigia que todas fossem rigorosamente iguais, como dois ovos. Gucky não correu nenhum risco, quando, dois andares mais para baixo, se teleportou e se rematerializou no convés superior. Lá estava ele, pairando no ar, enquanto a seus pés, um saltador controlava o trabalho de três robôs que embalavam, em recipientes especiais, à prova de choque, os pesados detonadores das bombas nucleares. Enquanto suas forças telecinéticas o mantinham pairando no ar, Gucky estava refletindo de que maneira poderia anular melhor a ação dos detonadores. Não queria agir com violência, mas, talvez fosse obrigado a isso! Gucky estava abusando de seus poderes paranormais. Neste momento, fazia uso de seu mais novo poder: a hipnose... O mercador galáctico nem reparou que dois de seus três robôs de serviço haviam “recebido” de repente a ordem de tirarem os detonadores da caixa de plástico, onde já estavam acondicionados, colocando-os onde estavam antes. Foi um trabalho de poucos minutos. Gucky, flutuando pouco abaixo da cobertura, sorria feliz com seu dente roedor. Depois veio a segunda ordem do saltador hipnotizado. Cada robô saiu carregando uma caixa com os detonadores, deixando o depósito, que normalmente era trancado três vezes. Atrás dos dois robôs, vinha o saltador hipnotizado, enquanto o terceiro robô fechou a porta, travando-a novamente, sem perceber a presença de uma sombra de mais ou menos um metro, que se assemelhava a um grande rato. Gucky se rematerializou junto da escotilha de carga, esperando pelo saltador hipnotizado e pelos dois robôs com as duas caixas contendo os detonadores. Gucky estava preparado para qualquer incidente e para estender seu domínio hipnótico também sobre outros saltadores. Mas felizmente não foi preciso, não houve nenhum contratempo. O próprio saltador hipnotizado acionou a escotilha, cuja porta interna se abriu lentamente. Apareceram os robôs com as duas caixas. — Mais depressa! — ordenou Gucky ao saltador, que ainda estava sob total domínio hipnótico.

Enquanto isto, apesar de sua concentração, Gucky não se esqueceu de que o simples movimento de abrir uma comporta haveria de produzir na central da nave cilíndrica um alarme automático, luminoso ou sonoro. Gucky ativou suas forças telepáticas, para controlar o que se passava na central da Cok-I. Até o momento, o sinal de alarme ainda não tinha tocado. Abriu-se então a comporta externa da escotilha de carga, depois que duas bombas sugaram o ar no espaço entre as duas comportas. Pela tela de visão direta, o rato-castor viu quando os dois robôs atiraram ao espaço, com toda força, as duas caixas com os detonadores nucleares. Mas as duas caixas com a perigosa carga ainda não haviam saído totalmente. A nave cilíndrica Cok-I, tinha, como todas as demais espaçonaves, o envoltório de proteção. De repente, Gucky sentiu telepaticamente que o alarme havia soado na central da Cok-I. Viu, de baixo para cima, o saltador hipnotizado que estava ao lado dele, com uma expressão abobalhada, sem nenhum movimento, sem mesmo ouvir o alarme. O alarme fez com que a comporta externa se fechasse no mesmo instante. Gucky dispunha de poucos segundos para destruir os detonadores atômicos. Suas poderosas forças telecinéticas entraram em ação, pegaram as duas caixas que estavam caindo normalmente no envoltório de proteção e as atiraram com uma velocidade inaudita de encontro ao mencionado envoltório. Estes campos magnéticos de proteção, construídos principalmente com o objetivo de aparar o choque de asteroides de pequenas dimensões, reagiram normalmente ao impacto das duas caixas. Apenas não se podia saber onde se localizavam as duas caixas de plástico. Quando o comandante converteu em gás os dois invólucros retidos nos campos magnéticos de proteção, foram os detonadores que se dissolveram. Simultaneamente, este envoltório magnético, feito para suportar os mais terríveis raios energéticos térmicos ou nucleares, foi solicitado até o limite de seu poder de resistência. Bem rente da Cok-I, surgiram dois pontos minúsculos, de incandescência amarelada, espalhando fortes raios de luz para todos os lados. A confusão surgida na central da Cok-I atingiu o próprio patriarca Cokaze, que estava ali casualmente. Do posto de radiogoniometria vinham gritos desesperados, dando conta de que os instrumentos de medição não estavam funcionando. Através das telas panorâmicas irrompiam os lampejos ofuscantes dos dois pontos de incandescência amarelada. Ninguém conseguia saber o que tinha sido atirado de dentro da Cok-I e o alarme deixava todo mundo nervoso. Entre os muitos que acorreram para a central, estava Thomas Cardif. — Para fora, para fora — ouviu o patriarca berrando. Quatro ou cinco saltadores deixaram a central correndo, 166


menos Thomas Cardif. — Para fora, terrano — gritou o chefe da estirpe dos Cokaze, na cara de Thomas. Neste momento, ali estava de novo o arcônida Thomas Cardif. Um simples gesto bastaria para lembrar Cokaze de que a mãe de Cardif era uma princesa arcônida. — O que está acontecendo? E esta pergunta não saiu dos lábios de Cokaze, mas de Thomas Cardif. O rato-castor não estava mais nas proximidades da escotilha de carga, escondera-se numa cabina afastada da sala de comando da Cok-I e “ouvia” o que se passava na sala de comando. — Todos os comerciantes das Galáxias são tão nervosos assim? — continuou Cardif, em tom de zombaria, depois de Cokaze não lhe responder. — Então só me resta recomendar-lhes um curso na Academia Espacial da Terra. Lá vocês podem aprender como não perder a cabeça numa hora difícil. Meu Deus, quanto tempo vai levar ainda até que vocês sejam donos dos seus cinco sentidos? Com uma fúria insana, que se confundia com ódio, o patriarca encarava o jovem terrano. Soltou um palavrão em arcônida, fazendo o sangue subir à cabeça de Thomas Cardif, que no primeiro rompante teve ânsias de sacar sua pistola energética para atingir Cokaze. Mas acabou controlando-se. Do seu esconderijo, Gucky estava recebendo tudo de primeira mão. — Agradeço-lhe pela “fina” expressão, saltador — disse Thomas, frio e duro como aço. — Como desertor, não espero receber outra coisa. Mas, já recuperou seus cinco sentidos? — Não foi nenhum ataque — afirmou o saltador que estava de serviço na goniometria. — Foi algo que não veio de fora. Tive impressão de serem dois invólucros que flutuavam no envoltório magnético... — E eu venho ouvir isto somente agora? — interrompeu-o Cokaze gritando. — Você disse dois invólucros... tem certeza de que eram dois...? — Perfeitamente, senhor, duas peças e acho que vinham da escotilha maior de carga. — Arcônida, venha comigo. Dizendo isto, o patriarca saiu correndo na frente. Agachado e imóvel em seu esconderijo, Gucky sorria feliz. A brincadeira lhe dava ótima disposição e quando pensava que as terríveis bombas, que estavam três andares abaixo, seriam agora totalmente inofensivas, sentia vontade até de assobiar de alegria. Continuou mantendo contato com Cokaze e Cardif. A suspeita do patriarca tinha razão de ser. Cokaze temia pelos detonadores de suas bombas atômicas. Já estavam chegando ao depósito camuflado, garantido por três sistemas de travamento, onde se guardavam as bombas e os detonadores, Cokaze na frente e Cardif atrás.

— Vazio, vazio... pelos deuses do espaço, tudo vazio! Não pode ser verdade! Onde está Foggzi, com seus três robôs? Foggzi, Foggzi! Mas Foggzi não estava em condições de responder. Ainda estava sob forte controle hipnótico, parado diante da escotilha de carga. Seus olhos petrificados encaravam a comporta interna, sem nada ver. Atrás dele, os dois robôs de serviço esperavam rígidos, como era natural em máquinas automatizadas. Alguns minutos mais tarde, localizaram Foggzi em seu estado hipnótico. A notícia chegou até o patriarca que, ofegante de tanto correr, foi até a escotilha maior. O estado de Foggzi lhe era um mistério. Gucky, em seu esconderijo, se contorcia de rir. Neste mesmo tempo, Thomas Cardif tentava fazer com que o patriarca compreendesse que, dentro de sua Cok-I, devia haver um dos elementos do Exército de Mutantes de Perry Rhodan. Cokaze não se atrevia mais a zombar dos mutantes, e recebeu com certo temor as ponderações do terrano. — Então vamos procurá-lo, arcônida — disse resoluto. — Permita-me perguntar-lhe antes, o que você pretendia fazer com estas bombas atômicas, saltador? — Queria dar um ultimato a Rhodan: ou o monopólio comercial para minha estirpe ou a destruição total da Terra, Vênus e Marte. Mas acho que isto não vai agradar muito a você, terrano, não é? — indagou Cokaze, ao ver a cara fechada de Cardif, diante de tamanho horror. — Não, saltador, não pode agradar nem ao diabo. Mas uma coisa eu lhe digo: com estes meios não dominará Rhodan. Vocês, comerciantes galácticos, são e continuarão sendo leigos em tudo que diz respeito aos terranos. Ainda estão muito longe de conhecerem este grande povo da Terra. A raça terrana é a mais firme e determinada do Universo. — Por que você não ficou com os terranos, se os aprecia tanto? — disse o velho patriarca, meio admirado, meio enraivecido. — Será que você precisa ouvir mais uma vez, patriarca? Já se esqueceu de que Perry Rhodan é o assassino de minha mãe? — Acabe de uma vez com esta história sem cabimento — atalhou Cokaze em tom de irritado. — Qual destes mutantes você acha que está a bordo de minha nave? — Procurem vocês mesmos! — disse Thomas Cardif, tremendamente decepcionado. — Se acha saltador, que eu ando atrás de uma quimera ou de um fantasma, por que você finge então estar do meu lado? Não se esqueça de quem foi minha mãe e também não se esqueça de que você não passa de um mercador galáctico, Cokaze. O arcônida estava de novo se confrontando com o saltador. E mais uma vez, o comerciante das Galáxias se curvou perante o orgulhoso arcônida. Um jovem, nascido para líder, com determinação e inteligência, apenas ainda não bem amadurecido, estava ali de pé, diante do velho e experimentado patriarca, olhando para o saltador, como se 167


fosse seu servo. — Não estique o arco demais, arcônida — disse o patriarca. Gucky estava ouvindo tudo isto telepaticamente. O fato de quererem procurá-lo, não o assustava. Vênus não estava tão longe assim. Um salto bastaria para o teleportar ao planeta. Não tinha mais nada que fazer aqui. O chefe havia proibido expressamente levar Thomas Cardif para Terra de maneira violenta e Gucky não ia desobedecer a uma ordem de Rhodan. Concentrou-se e partiu de volta para Vênus.

4 Quatro horas antes do início dos debates no Parlamento, Gucky aparece de repente ao lado de Rhodan. — O que você quer? — perguntou admirado. Não sabia nada da fuga de Gucky para Vênus, pois Bell não lhe contara nada a respeito. — E como vai você? Está doente? O rato-castor que brincava com todos e não respeitava nem a presença de Perry Rhodan, ajeitou-se na poltrona mais próxima. — Não estou nada doente, Perry, apenas um pouco cansado. Mas isto não tem importância. Estou voltando da espaçonave de Cokaze. Este malandro tencionava lançar centenas de bombas atômicas sobre a Terra, Vênus e Marte, caso você não lhe concedesse o monopólio comercial sobre o sistema solar. Mas eu lhe estraguei este prazer, jogando fora todos os detonadores... — Quem foi que mandou você para Vênus e depois para a Cok-I, Gucky? Foi Marshall, por acaso? — Ninguém, chefe. Eu... — Como é que você é capaz de se afastar assim, por conta própria, Tenente Guck, numa situação como esta em que estamos? — Perry, por favor, não use este tom comigo. Foi unicamente por sua causa que arrisquei a vida e passei por maus momentos... Os olhos de Rhodan começaram a cintilar de um modo diferente. — Tenente Guck, não me agrada que, ultimamente, venha tomando certas liberdades que não se coadunam com os deveres de um tenente do Exército de Mutantes... — Por favor, Perry — implorou Gucky com a coragem do desespero — você não pode falar comigo menos formalmente? Chefe eu controlei os pensamentos de Thomas Cardif... Seu filho crê cegamente que você enviou Thora, já desenganada pelos médicos, para morrer em Árcon e... O resto ficou preso na garganta, não teve coragem de dizer. Rhodan esticou o braço para Gucky, pousando-lhe a mão no lombo, em sinal de reconhecimento.

— O que você está dizendo? Como? — Sim — disse sem medo — ele crê exatamente o que é espalhado por aí neste boato nojento. — E o que mais, Gucky? Você ainda tem alguma coisa para falar. Não tenha receio. — Não tenho mais nada, não, mas uma pessoa que procede erradamente baseada na sua convicção, deve ser julgada muito diferentemente da que age com má intenção. — Quer dizer então que devo deixar o desertor Thomas Cardif fazer o que quer? Você também já pertence ao grupo dos que me vêm pedir para perdoá-lo, só porque é meu filho? Gucky não aguentou mais e fazendo uso de seus poderes telecinéticos, tomou, pela primeira vez na vida, uma atitude quase hostil para com Rhodan... Todos sabiam que o melhor amigo do administrador era Gucky, igualando ou mesmo superando Reginald Bell. Porém, pela força telecinética de Gucky, o braço de Rhodan foi lançado para o lado e o rato-castor se afastou um pouco, por medida de segurança, tomando a seguir a posição de sentido. — Administrador... Tenente Gucky se apresenta de volta de sua missão espontânea. Nesta operação, por conta e risco do operante, pude constatar que Thomas Cardif não se colocou do lado dos saltadores por motivos condenáveis. O desertor, Tenente Thomas Cardif, está convencido de que o senhor condenou sua mãe à morte. E mesmo que o senhor me mande para os quintos dos infernos, tenho de perguntar: quem é o maior culpado das coisas chegarem a este ponto, o senhor ou seu filho, Thomas Cardif? Perry, por que razão ele se chama Cardif e não Rhodan? E agora, se quiser pode me mandar embora. O rato-castor, mantendo sempre a posição de sentido com o tronco apoiado nas patas traseiras e na volumosa cauda, mirava firme Rhodan, demonstrando sinceridade. Esperava pela decisão. Percebeu que o grande homem, sentado à sua frente, travava uma verdadeira batalha íntima, pesando agora tudo que ouvira. De repente seu corpo deu um leve galeio para trás, como se estivesse despertando de um sonho, e seus olhos revelaram um brilho, afetuoso. Aflorou-lhe o primeiro sorriso. Respirou profundamente e vieram-lhe as primeiras palavras: — Desapareça, Gucky, você é um sujeito extraordinário, mas não beba todo o conhaque de Bell. — Não estou com sede não, chefe — chilreou e no mesmo instante estava lá em cima. — Oh! O gorducho está vindo... Havia captado os pensamentos de Bell, que realmente chegou instantes depois. Parecia tresnoitado e sobrecarregado de aborrecimentos. Só quando passou a seu lado, foi que notou a presença de Gucky. — Oh!... Você por aqui? — disse olhando demoradamente para o rato-castor, que, como sinal de grande contentamento, exibiu seu dente roedor. — É claro que estou aqui, felizmente, e não mais na 168


nave de Cokaze. — Que bobagem que você está dizendo, Gucky? Bell não estava com a consciência tranqüila de haver ocultado a Rhodan a missão empreendida pelo rato-castor. Gucky naturalmente estava lendo todo o pensamento do amigo. — Gorducho, todos nós estamos muito cansados, mas não tanto como o malandro do Cokaze, lá na Cok-I. Bell lhe chamou a atenção para que não usasse tais expressões, pois Rhodan se aproximava. Mas o rato-castor não deu muita importância. Estava contente demais, para modificar seu modo de falar. — Chefe, onde é que parei mesmo? Ah! É verdade, estava falando de Cokaze. Ele estava preparado para lançar bombas atômicas sobre a Terra, Vênus e Marte, caso não conseguisse o contrato do monopólio comercial. Como é que você acha que ele se sentiu ao saber que os fogos de artifícios, no envoltório de proteção da Cok-I, foram causados pelas caixas de detonadores atiradas da escotilha? E depois, quando Cokaze já estava quase desanimando, Cardif o obrigou a se levantar para continuar a luta. Cardif está com o patriarca dos saltadores da estirpe dos... — O nome não tem importância, Gucky — interveio Rhodan — mas não venha nos contar histórias de fadas, hein? Bell olhou admirado para Gucky, mas mais admirado ainda para Rhodan. Pela primeira vez, desde a fuga de Thomas Cardif para Plutão, o administrador do Império Solar não demonstrava nenhum constrangimento ao ouvir o nome de Cardif. — Chefe — continuou Gucky entusiasmado — o mais arrogante arcônida não poderia criticar o patriarca Cokaze, como Thomas Cardif o fez. E antes, na sala de comando da Cok-I, quando os saltadores estavam em pânico, tremendo de medo, devido às grandes faíscas dos detonadores no envoltório energético, Thomas lhes disse que precisavam fazer um curso na Academia Espacial de Terrânia, para aprenderem a se dominar na hora do perigo... Pois é — disse o rato-castor, completando seu relato — Cokaze será um osso duro de roer. — Concordo com você, Gucky — falou Rhodan, entregando a Bell uma tira de papel com um hiperradiograma. Seu rosto se anuviou ao ler a mensagem. — O quê? O maluco do Cokaze está exigindo o contrato sobre o monopólio comercial à base de antigas leis das Galáxias? E este radiograma foi também enviado para o Parlamento? — Não, Bell, este radiograma, não. O Parlamento recebeu dele uma informação. Nossa estação a captou e decifrou. Aqui está ela: Bell passou os olhos. — Uma raposa esperta e um péssimo sujeito. Tenta seduzir o Parlamento, apresentando Thomas Cardif como novo administrador. Viu o gesto confirmativo de Rhodan como também o

brilho de seus olhos, indicando disposição para a luta. — Já estão em andamento operações contra a frota dos saltadores? — perguntou Bell com cautela. — Sim, mas quem está em atividade é somente o Exército de Mutantes e estas operações serão simultâneas em Marte e Vênus, e vão deixar os saltadores de cabelos brancos. *** Se havia alguém que sabia tirar grandes proveitos de pequenas vantagens, era Perry Rhodan. A Frota Espacial do Império Solar estava de prontidão. Unidades pesadas e superpesadas circunvoavam Marte e Vênus em queda livre. A cem mil quilômetros, caças e destróieres do Comando Espacial patrulhavam os dois planetas ocupados pelos saltadores. Ao aparecimento de uma espaçonave cilíndrica, mergulhavam na imensidão do espaço. A Frota Espacial tinha ordem de abrir fogo só se as naves dos saltadores saíssem dos planetas para atacar a Terra. Os comandantes de Rhodan não tinham nada a ver com as confusões políticas. Obedeciam apenas as ordens de Perry Rhodan e estavam voltados exclusivamente para os problemas da Frota Espacial Solar. Quantas vezes, Perry, em pessoa, a guiou em lutas renhidas e quantas provas deu de ter sido seu competente comandante. A vida em comum nas horas difíceis era o grande elo de união de toda a Frota Espacial. E por mais abalada que estivesse a posição de Rhodan nos assuntos políticos, tanto mais estreitos eram os laços que uniam a pequena, mas bem preparada força terrana. Uma parte dos radiogramas, trocados entre as unidades pesadas, vinham em código simples. O patriarca Cokaze devia estar em condições de decifrá-los e realmente as decifrava. As mensagens davam conta de que Rhodan havia dado ordem à frota para que abrissem fogo sobre qualquer nave dos saltadores que apenas tentasse se aproximar da Terra. Numericamente, a frota de Cokaze era muito maior do que o conjunto das unidades terranas, embora os saltadores não possuíssem nada para enfrentar os gigantescos encouraçados esféricos de 1.500 metros de diâmetro, com sua tremenda potência de fogo. Estas ponderações impediam, no momento, uma operação relâmpago das naves cilíndricas dos saltadores contra os pontos estratégicos da Terra. Quando, há dias atrás, deixara espontaneamente a Terra e se contentara com a ocupação de Marte, Vênus e de alguns satélites dos planetas maiores, Cokaze cometera um grande erro. A frota dos saltadores estava também de prontidão. Os saltadores, a bordo de suas naves cilíndricas, estavam habituados a impor sua vontade a todos. Achavam, portanto, um fato inaudito que este diminuto reino estelar pudesse lhes opor resistência. A maioria dos saltadores não 169


compreendia a hesitação de seu patriarca, mas ninguém se atrevia a protestar contra sua tática. Cokaze já havia, há mais tempo, entrado em contato com todas as naves de sua frota. Havia dado instruções curtas mas precisas, para cada comandante, indicando-lhes o que tinham de fazer ou de deixar de fazer. Mas, quando irrompeu um incêndio no mecanismo de propulsão da CokCXXX, o comandante saltador Solam ordenou de uma maneira muito singular que deixassem a nave pegar fogo, devendo a tripulação abandoná-la. Nenhum dos trezentos e cinquenta saltadores a bordo estranhou a ordem de Solam. Com incrível serenidade, cada um reuniu seus pertences e abandonou o aparelho. Ao chegarem ao ar livre, viram a um quilômetro, outra nave de sua frota em chamas. E os incêndios foram se multiplicando. Era um atrás do outro. Mas ninguém se preocupava com a repetição do fenômeno. No espaçoporto de emergência K-f 3, aconteceram outras coisas misteriosas. Não foram apreciadas em toda a sua extensão por grande parte da frota, em compensação, imperava entre as tripulações de trinta outras naves uma verdadeira situação de pânico. Em sua Cok-I, o velho patriarca estava mais do que alarmado. Zugan, comandante da Cok-DV, gaguejava no telecom, o telecomunicador, seu desconexo relatório: — ...Senhor, há dez minutos, a Cok-CXVI decolou deste sistema e não responde mais a nenhum chamado. O Capitão Gudin, com toda a tripulação, entrou nos aparelhos auxiliares, dizendo que ia explorar as matas virgens de Vênus. Procuramos retê-los à força, mas os homens da nave de Gudin responderam com as armas de raios hipnóticos. No momento... A estação central da Cok-I interrompeu a transmissão. O telegrafista de bordo informou com voz nervosa a seu patriarca que seu neto Kacozel pedia com urgência para ligar para Marte, onde aconteciam coisas terríveis. — Como? Também lá? Não ouviu o que está se passando em Vênus? Ligue-me com meu neto Kacozel, mas focalize bem seu rosto na tela, melhor do que a última imagem de Zugan. Cokaze, um modelo vivo de autocontrole, sentia que os nervos lhe iam estourar. Via-se completamente desarmado e impotente diante destes acontecimentos inexplicáveis. Para ele, o realista, que nunca se deparara com fenômenos parapsicológicos, tudo parecia uma monstruosidade sem nenhuma explicação. A tela do hipercom tremeluziu, mostrando o rosto de seu neto que comandava um grupo de aparelhos no espaçoporto da Cidade de Marte. — Senhor — começou Kacozel com voz suplicante — não me julgue um louco, se eu... O chefe da estirpe de Cokaze não tinha mais nervos suficientes para agüentar longos rodeios. — Que aconteceu? Quero ouvir fatos. O que houve? Enquanto o patriarca falava, Thomas Cardif entrou no

posto de comando. O desertor ouviu tudo que Kacozel tinha para contar sobre os fatos misteriosos no espaçoporto da Cidade de Marte. Oito naves ali estacionadas ou foram misteriosamente incendiadas ou tiveram suas turbinas destruídas. — ...conjuntos mecânicos ou eletrônicos foram arrancados da sustentação, portas se entortaram e peças metálicas pesadas foram atiradas como bombas contra conversores e transformadores. E, pior ainda, senhor! Quatro tripulações abandonaram simplesmente suas naves e foram para a cidade. É como se os maus espíritos do espaço se abatessem de repente contra nós e... Aí interveio Thomas Cardif: — Os maus espíritos do espaço são os mutantes de Rhodan, saltador. Kacozel, em Marte, como que petrificado diante do aparelho de hipercom, silenciou completamente, enquanto que o patriarca dos saltadores, circunvoando à grande altura o planeta Vênus, olhava estarrecido para o jovem terrano. — Sim, Cokaze, este é o contra-ataque de Rhodan — repetiu, calmamente, Thomas Cardif. — Está usando seus melhores hipnos e telecinetas contra sua frota, e, se você não conseguir se livrar deste terrível grupo de assalto, em breve haverá de presenciar uma explosão que mandará pelos ares sua Cok-I, como aconteceu há poucas horas com os detonadores que explodiram de encontro ao envoltório magnético. — Mutantes... Mutantes! — exclamou Cokaze alarmado. Parecia-lhe impossível imaginar algo de real em tudo isto. Mas quando se lembrou do relato de seu neto, e também da destruição do mecanismo de propulsão de uma espaçonave, começou a ver uma relação entre tudo isto e a explosão dos detonadores de suas bombas atômicas. — ...quer dizer então que aqui esteve também um telecineta, não é, Cardif? O desertor lhe riu em pleno rosto, demonstrando de novo sua arrogância arcônida. — O mutante que esteve a bordo da Cok-I não era somente um telecineta, mas também um teleportador, saltador, e ainda por cima um hipno. E talvez nem fosse um só, não podemos saber, pois os mutantes não deixam rastros... Talvez este mutante nem tivesse a aparência humana... podia ser Gucky, o rato-castor. — Podia ser o quê? Um rato-castor, rato-castor... que é isto? — perguntou o patriarca gaguejando, assustado. — Parece com um animal, uma mistura de rato com castor. Saltador, caso um dia se depare com um ser assim e não puder destruí-lo imediatamente, aconselho-o então a não querer entrar em luta com ele. Fatalmente, você será derrotado. Este ser inteligente que domina bem a língua terrana, o intercosmo e o clássico arcônida, é telecineta, teleportador, telepata e já andam dizendo que também é hipno... Num impulso violento, Thomas Cardif deu um pulo para o lado e queria acionar suas duas pistolas energéticas 170


que sacou rapidamente, quando uma força irresistível as arrancou de suas mãos, projetando-o para o teto do posto de comando. Ao lado de Thomas Cardif, ouviu-se um ruído no forro do teto. Era o patriarca Cokaze que ia fazer companhia ao terrano... Alguns metros abaixo, estava Gucky, com sua voz chilreante: — Thomas Cardif, você é o maior boateiro das Galáxias. Mas, quando olho para você assim, sinto-me realmente feliz por não pertencer à raça do Homo Sapiens. Fora disso, está gostando do ar aí em cima? E o cacique dos saltadores, já compreendeu agora o que é um mutante? Mas acho que não compreendeu ainda que a sua Cok-I será um montão de ferro velho em cinco minutos. Repare bem que confusão doida reina em sua nave. Recomendo a vocês, saltadores, que, antes de programarem uma nova série de roubos, passem uma temporada na Academia Espacial Solar, para ficarem um pouco mais corajosos. “Cardif, é pena que minhas mãos estejam atadas, por uma promessa que fiz a Rhodan. Prometi não maltratá-lo e, infelizmente, não posso arranjar o pretexto de sofrer de falta de memória, senão vocês dois iam me pagar à sujeira que fizeram na Terra.” Cokaze, o patriarca da mais rica estirpe dos saltadores, os mercadores galácticos, não estava nem mais em condições de rezar para seus deuses estelares. Estava vivendo os minutos mais cruciantes de sua vida. Seu sistema nervoso estava caminhando rapidamente para a pane total. E não era para menos, pois não havia mesmo nenhuma explicação pelo fato de, após uma leve cintilação do ar, surgir de repente um animal e, no mesmo instante, ser atirado para o teto da sala de comando e lá ficar pairando, sem poder descer... Horrorizado e cheio de medo, olhava para o estranho animal abaixo dele. Viu que, de vez em quando, passava a língua no único dente roedor que possuía. Os olhos brilhantes do rato-castor, que se dirigiam no sentido dele e de Thomas Cardif, pareciam ir além, vendo outras coisas muito distantes. Passou-se mais um minuto angustiante e nada aconteceu, até que, no telecomunicador de bordo, se ouviu um estalo diferente. O rato-castor desapareceu no mesmo instante, para surgir, após um rápido cintilar, atrás da tela de televisão do intercomunicador. — Senhor... — alguém estava chamando o patriarca no telecomunicador — os geradores de onze a quatorze estão escapando de suas bases e... O resto perdeu-se numa enorme gritaria e num estrondo infernal. Contente com os acontecimentos, Gucky falou através do telecomunicador: — Este foi o primeiro golpe e o segundo não vai demorar. Depois de se achar preso ao teto, Thomas Cardif não fez nenhuma tentativa para se mover. Sabia que qualquer resistência seria inútil. Mas já o velho patriarca não agia assim. Gemia o resfolegava. Tentava, sempre inutilmente,

pegar uma de suas pistolas de raios energéticos. Porém não conseguia nem mover um dedo. Neste meio tempo, Gucky empregou a maior parte de suas energias telecinéticas nos motores e transformadores da Cok-I. Nada escapou da destruição. Diante dos olhos estupefatos do último saltador que ainda estava de serviço no setor das máquinas de propulsão e que, tolhido de pavor, não conseguia dar um passo, como se fosse uma terrível bomba, o gerador do campo antigravitacional rebentou a parede divisória de duas polegadas. A tubulação principal de distribuição da energia das turbinas fora destruída. Uma faísca do curto-circuito atingiu no mesmo instante o teto de material plástico, derretendo-o por completo. As centelhas e estampidos livraram do estarrecimento nervoso o pobre saltador, que ainda se encontrava no setor das máquinas e que via com olhos arregalados o desastre em volta dele. Soltando um grito lancinante, pulou para fora, como que acuado por mil cães furiosos. As sirenes começaram a soar na Cok-I. Apitavam, alternando-se em agudo e grave que mesmo os saltadores mais viajados, jamais tinham ouvido. Esta alternância significava que todos tinham que abandonar a grande nave em aparelhos auxiliares. Também Cokaze ouviu os apitos da sirene em sua cabina e sabia seu significado. Os olhos de Gucky brilhavam felizes. — Devia deixar os senhores esturricarem aí em cima — disse cheio de desprezo. — Fosse eu um ser humano como vocês, este seria seu destino: morrerem carbonizados. Felizmente, porém, não pertenço à laia de vocês, como Cardif mesmo já frisou minutos atrás. Assim poderão ainda escapar no último aparelho auxiliar. Mas isto vai demorar um pouquinho e vocês ainda terão de esperar mais alguns instantes, aí em cima. Ouviram-se, no convés superior, passos rápidos e pesados. Desesperados, os tripulantes que se encaminhavam para as naves auxiliares procuravam também por seu chefe. Três homens irromperam no posto de comando, lugar onde ficava geralmente Cokaze. — Também não está aqui! — exclamou o primeiro deles, depois de dar uma rápida olhada no ambiente. Os três saltadores davam a entender que já haviam procurado o patriarca em outros lugares. Ninguém viu Gucky, pois, quando a porta da central de comando se abriu, procurou abrigo atrás de um armário. Mas nenhum dos três saltadores teve a ideia de olhar para cima. No entanto, o próprio Cokaze alertou-os. E no mesmo instante, os três receberam um safanão na nuca! Os jovens saltadores, homens de boa constituição, ficaram atônitos. Um deles gritou e correu. Os outros saíram atrás, como se a morte os perseguisse. Do seu esconderijo no armário, veio a ironia de Gucky: — Sempre imaginei os heróis de outra maneira. Cessara o barulho ensurdecedor da sirene, mas os fortes estrondos, o fogo e os abalos produzidos pelas explosões eram cada vez mais intensos. O rato-castor saiu de sua toca 171


improvisada. — Dentro de três minutos, sua nave vai explodir e sair de órbita, saltador. Vou tomar a liberdade de fazer uma regulagem nos instrumentos para que ela caia exatamente em Vênus, o mais depressa possível. E porque não quero ter a fama de ser um monstro, dou-lhe a oportunidade de vestir seu uniforme espacial, patriarca. Não se esqueça, porém, de que estou lendo seus pensamentos e de que um raio energético desta pistola não é brincadeira. Preste atenção e não queira bancar o esperto. Cokaze soltou um grito, quando sentiu que estava caindo do forro. Mas no meio do caminho, as forças telecinéticas de Gucky o apararam e o conduziram para a direita, libertando-o depois. A cadeira, onde o patriarca caiu, espatifou-se. — Você...! — exclamou o patriarca depois de se levantar com dificuldade e nos seus olhos, junto com o pavor, havia o ódio indomável. Neste momento, Gucky captou as ondas cerebrais de uma meia dúzia de saltadores que, vindos da escotilha principal, se aproximavam da sala de comando, em passo acelerado. O rato-castor não tinha nenhum interesse em se mostrar a esta gente. — Cardif, pule — disse para o filho de Rhodan, deixando-o descer um terço da distância do solo, e depois o libertou da telecinese. Thomas Cardif, muito bem treinado na Academia Espacial, desceu corretamente, como se tivesse molas nas pernas. Fez questão de não dar pela presença de Gucky, que lendo seus pensamentos, disse: — Você ainda tem traços de terrano, Cardif e também traços de boa educação. É pena que você pensa tão erradamente a respeito de seu pai... Não teve mais tempo de continuar sua conversa. O grupo de saltadores, que viera para salvar seu chefe, já estava perto. Gucky se concentrou, fechou o capacete de seu uniforme espacial e desmaterializou-se exatamente no momento em que o primeiro mercador irrompeu pela porta da cabina de comando, dando de cara com o patriarca de pé, no meio da sala. — Senhor, acho que três guardas foram vítimas de alucinação e... — Não — atalhou Cokaze, ríspido — aqui ninguém foi vítima de alucinações. Fiquei preso com Cardif lá em cima, dependurado como roupa no varal. Ah!... se eu pudesse pegar este rato-castor! Cokaze percebeu como os homens, que vieram para libertá-lo daquela situação incrível, se afastaram assustados, deixando a cabina de comando. Compreendeu logo qual a razão de seu pânico. Acreditavam que seu chefe havia enlouquecido. Tinha falado de um rato-castor e viram nisso o indício claro de insanidade mental. Foi aí que Cokaze deu mais uma prova de sua personalidade. Não prestou nenhum esclarecimento, era de fato o senhor absoluto da grande estirpe. Perguntou

secamente: — Em que nave auxiliar ainda há lugar para mim e para Cardif? — Na nave seis, senhor — balbuciou um dos homens. — Então esperem por nós e... A frase parou por aí. Na nave parcialmente destruída houve no momento uma alteração sensível. Os instrumentos de absorção de pressão falharam. Além disso, a Cok-I devia ter saído de órbita e aumentado muito a velocidade. Os dois fatores da lei da gravidade se abateram sobre eles, fazendo com que cada movimento, que tentassem fazer, se transformasse num suplício. — Que é isto? — gemeu Cokaze, num esforço de suas últimas energias. — Será que ainda podemos controlar o aparelho? Mas um estrondo ensurdecedor, vindo da parte traseira da Cok-I, fê-lo compreender que o rato-castor, com suas inauditas forças, estava fazendo o que prometera: converter a Cok-I num montão de ferro velho. Thomas Cardif reconheceu que a situação em que estavam era muito perigosa. Sabia também que Gucky não estava ali para brincadeira, que lhes havia dado um prazo mais do que suficiente para chegarem até os aparelhos auxiliares. O rato-castor não estaria disposto a lhes dar possibilidade de um contra-ataque. Cardif, que já havia posto o capacete do uniforme espacial, exigiu que Cokaze abandonasse a Cok-I o mais rápido possível. — ...ou vamos esperar até que a pressão seja tão intensa, que não consigamos nos movimentar? Mas Cokaze, que aos poucos estava se refazendo do choque, não quis perder a oportunidade de dar uma boa resposta a Thomas Cardif: — Terrano — disse com desdém — você está com medo, acho que precisa voltar para a Academia Espacial de Terrânia para aprender a enfrentar o perigo e... A Cok-I que até então circunvoava Vênus a uma altura de cinqüenta mil quilômetros, mudou de repente de direção. Eram novamente as forças telecinéticas do rato-castor, que pairando no espaço, a uns dez quilômetros da nave de Cokaze, a conduzia diretamente para a queda, acabando de destruir o que ainda restava dela. A partir daí, Gucky não se preocupou mais com a Cok-I, que irremediavelmente se projetava com aceleração crescente de encontro ao planeta. Teleportou-se e chegou com cinco minutos de atraso ao local combinado com John Marshall, que já o esperava impaciente à beira do espaçoporto de Vênus, para “fazer uns consertos” em outras grandes naves dos saltadores.

5 No curto espaço de três horas e sob a proteção da noite, cem mil homens, todos especialistas em voo espacial, 172


embarcaram no supercouraçado Titan e em outras naves gigantescas. Cokaze, que através de seus agentes estava a par do aquartelamento destes cem mil homens selecionados, apesar de todas as suas indagações, não conseguia compreender por que razão Perry Rhodan os mantinha enclausurados nos quartéis. Somente os auxiliares imediatos de Rhodan sabiam qual a missão que estava reservada a esta gente. O Marechal Freyt, meia hora antes da decolagem, reunira na cabina de sua Titan os oficiais superiores, inculcando-lhes que somente poderiam comunicar a seus comandados o destino da missão, quando estivessem já aterrissando. Três horas depois da partida, os cinco gigantescos transportes esféricos já tinham alcançado a velocidade necessária para a transição. Com os absorvedores de vibrações ligados, o pequeno grupo de supernaves desapareceu entre os astros, para abandonar novamente o hiperespaço já no centro da nebulosa esférica M-13. Um radiograma de um quinto de milésimo de segundo, captado através do hipercomunicador, contendo três mensagens importantes, informava Perry Rhodan de que o Marechal Freyt, com seus cem mil homens selecionados, estava prestes a aterrissar em Árcon III. Recebeu esta mensagem uma hora após terminarem os debates no Congresso, debates estes encerrados por uma votação. Com 365 votos a favor e 198 contra, ao lado de numerosas abstenções e votos nulos, Rhodan foi confirmado como administrador, não obstante toda a especulação do Parlamento. *** Allan D. Mercant e John Marshall trabalhavam de mãos dadas. A Segurança Solar e o Exército de Mutantes não deixavam um minuto de descanso aos saltadores, que haviam se instalado principalmente em Vênus e em Marte. Não eram grandes operações bélicas, levadas a cabo contra a numerosa frota de Cokaze, mas eram suficientes para desnortear toda sua estratégia. E, pela primeira vez na vida, aconteceu que o grande poder do riquíssimo patriarca não foi bastante para acalmar seus comandados. Aqui e ali, eram destruídos constantemente, pelos meios mais misteriosos, os grandes aparelhos cilíndricos dos saltadores, sem que com isso as famílias, que residiam nestas naves fossem feridas ou mortas. Era freqüente o fato de tripulações inteiras serem dominadas por forças hipnóticas, agindo como inofensivos débeis mentais. Porém, quando se tratou de impedir que os saltadores desvendassem o cérebro positrônico de Vênus, os homens de Allan D. Mercant e os mutantes de Marshall tiveram que fazer uso dos direitos de guerra. Foi realmente um verdadeiro milagre que este computador ultrapotente, com

suas amplas instalações, demorou a ser descoberto pelos homens de Cokaze. Somente depois das primeiras horas estafantes, Rhodan conseguiu tomar as providências necessárias para que estas instalações continuassem ignoradas pelos ávidos saltadores. Após a destruição da Cok-I, sua nave capitania, Cokaze aterrissou em Vênus com as sete naves auxiliares, como um verdadeiro náufrago, enquanto os restos da Cok-I se espalhavam como fumaça na densa atmosfera do planeta. Uma hora depois de sua chegada a Vênus, já havia se transladado para a Cok-II. Já era o terceiro dia em que se reunia com seus parentes. Em confabulações ininterruptas, traçavam planos de batalha para a conquista da Terra. Desta vez, Cokaze seguiu as orientações de Cardif e por este motivo, a Cok-II agora pousada tranquilamente a 3.460 metros de profundidade, no fundo do oceano de Vênus, permanecia protegida contra qualquer ataque por parte dos mutantes. O resultado da votação no Parlamento Solar decepcionou tanto a Cardif como a Cokaze. Ambos estavam crentes de que com os boatos espalhados maldosamente, causariam, no mínimo, tanta dificuldade ao administrador, que este se veria obrigado a assinar o contrato de monopólio com a estirpe de Cokaze. Por confiarem demais nestes boatos, não deram importância ao contragolpe de Reginald Bell, que havia ordenado a todas as emissoras de TV do governo que transmitissem de duas em duas horas as cerimônias do sepultamento de Thora no mausoléu da Lua. Assim, não era sem razão que estranhavam o resultado da votação e não podiam compreender como Rhodan obteve tão facilmente a prorrogação da Lei de Calamidade Pública. — Saltadores, temos que ocupar a Terra! Era a palavra-chave de Thomas Cardif, sempre repetida. E na sua voz vibrava o ódio. Thomas Cardif tornou-se o “advogado do diabo”, o porta-voz e, simultaneamente, o conselheiro número um do patriarca. A admiração de Cokaze, sempre crescente, pelo amplo saber do jovem terrano, por sua lógica concludente, por sua capacidade de persuadir, era um fato inegável. O plano estabelecido foi o de ocupar a Terra num assalto-relâmpago e não deixar pedra sobre pedra de sua brilhante capital. Estavam ali sentados para dar os últimos retoques na ação e resolver detalhes do plano de ataque. Cokaze achava-se mesmo disposto a sacrificar no ataque um quinto de sua frota, se necessário fosse. Duzentas espaçonaves cilíndricas deveriam não somente entrar em combate com as belonaves terranas, mas também tentar levá-las para bem longe da Terra. O estrategista Thomas Cardif estava mostrando assim, na elaboração deste plano, que era filho de Perry Rhodan. O próprio experimentado administrador do Império Solar não faria um planejamento melhor. O velho patriarca, no seu íntimo, dava graças a Deus de contar no seu ataque à Terra com este fantástico conselheiro: o tenente desertor da Frota Espacial Terrana. 173


Mas Perry Rhodan já havia alcançado o pensamento de Cokaze e, há dez horas, ordenara à Frota Espacial para que não se deixassem encurralar, quer por um ataque simulado, quer por um ataque parcial de alguns grupos de aparelhos dos saltadores, pois a Terra não podia ficar sem a cobertura dos supercouraçados. Concomitantemente a estes preparativos, prosseguia com urgência urgentíssima a construção, na Lua, de um grande parque industrial bélico para armas espaciais. Com os debates no Parlamento, surgira um novo problema, de solução aparentemente impossível. Foi levantada a grande questão do paradeiro das três mil naves dos druufs que, com quase absoluta certeza, não conseguiram regressar às suas plagas, após a pretensa invasão da Terra. Sem olhar para interesses particulares, Rhodan deu ordem de que se tomassem todas as providências para a solução deste inquietante problema. Pessoalmente, acreditava que os druufs ainda vagavam pelo Universo de Einstein e uma boa parte dos técnicos estava a favor de sua opinião. Tanto antes como agora, estas três mil naves druufs representavam um perigo latente, não apenas para o sistema solar, mas também para o próprio Império de Árcon, cuja frota gigantesca continuava ainda na zona de superposição, tentando impedir a invasão dos druufs. Árcon não iria permitir que aquelas três mil naves continuassem vagando em nosso Universo, pois correria o risco de sofrer um ataque de surpresa. Atlan, o administrador do Grande Império, apesar da aprovação incondicional do cérebro positrônico, não gozava ainda de uma boa posição, e era obrigado a dirigir o Império praticamente no anonimato, pois toda a Galáxia estava crente de que quem dava as ordens era o cérebro positrônico. Para dar um apoio substancial ao amigo Atlan e ajudá-lo na difícil missão de combater o ímpeto invasor dos druufs, era indispensável que Rhodan descobrisse o paradeiro das três mil naves. *** Tanaka Seiko, o mutante japonês, especialista em auscultar ondas magnéticas, estava em Marte, com o único objetivo de interceptar as comunicações de hiper-rádio dos mercadores galácticos, comunicações estas que eram transmitidas exclusivamente para Vênus. Depois de ter observado que as grandes estações de goniometria do Império Solar ainda estavam intactas, Tanaka estranhou que, a partir das 14 horas e 45 minutos, tempo de Marte, o movimento de hiper-rádio com Vênus havia subitamente aumentado em mais de cem vezes. Não estava, porém, em condições de decifrar nem um só destes constantes rádios, pois vinham codificados, fragmentados e retorcidos. Somente com aparelhamento apropriado lhe seria possível entendê-los. Durante dez minutos, Tanaka ficou ouvindo aquela confusão toda no hiper-rádio, até sentir certo mal-estar.

Resolveu então fazer uso de seu hipercomunicador portátil. A central do Exército de Mutantes de Terrânia respondeu no mesmo instante. Na tela em miniatura de seu aparelho, reconheceu o rosto do Major Shenk, que devia também estar vendo o rosto alongado de Tanaka Seiko. Tanaka não se apresentou nem com seu nome, nem com seu número de código. — 165 745-Lb-876/56 — disse ele em perfeito arcônida. Quem captasse esta mensagem, haveria de pensar que se tratava de um sol gigantesco no catálogo sideral de Árcon. Para a Terra, porém, este número significava alarme de primeiro grau. Quase simultaneamente com a combinação numérica de Tanaka, John Marshall, que dirigia as operações dos mutantes em Vênus, recebeu notícias alarmantes. Observava-se nos espaçoportos de Vênus uma atividade muito intensa dos saltadores, pessimamente camuflada. Os mutantes repararam frequentemente que os saltadores, de uma hora para a outra, não estavam mais se preocupando com as catástrofes ocorridas em certos aparelhos de suas frotas. Era evidente que tinham recebido ordens do patriarca para não darem mais importância a estes fenômenos desconcertantes. Isto significava que uma grande ação estava em andamento. John Marshall, que estava na beira da mata virgem, com dois homens da Segurança Solar, transmitiu para a Terra, através de seu hipercomunicador, estas novidades, naturalmente em código. Sua mensagem chegou poucos segundos após o aviso de alarme de Tanaka Seiko. Até a Frota Espacial tinha reparado em coisas estranhas. Todas as naves cilíndricas, em menos de meia hora, abandonaram a órbita em que estavam há muito tempo e se preparavam para aterrissar em Vênus e Marte. Perry Rhodan e Reginald Bell estavam sentados, estudando as últimas mensagens. — São os passos finais para o ataque — disse Bell convicto, esticando o dedo da mão direita que ele, no réveillon havia ferido com os cacos de uma taça. — Não precisa mostrar o dedo, gorducho — disse Rhodan sorrindo — nas próximas horas Cokaze vai se dar mal. E, por favor, me dê aí uma ligação para o hiper-rádio. — Por que não? Mas diga-nos antes que pretende fazer. — Você vai ver logo. A tela já está acendendo, obrigado. Perry Rhodan estava falando no grande microfone. Bell ia arregalando os olhos cada vez mais. De repente deixou escapar a frase: — ... sem-vergonhice deslavada. Foram dez as frases de Rhodan, cada uma mais grave do que a outra. Sua mensagem fora endereçada a Cokaze, no planeta Vênus. Perry Rhodan dera ao patriarca dos saltadores um ultimato para abandonar Marte e Vênus incondicionalmente dentro de cinco horas, e desaparecer no espaço. A mensagem terminava com a ameaça de destruição total da estirpe de Cokaze. 174


— ... a partir deste momento, todas as naves terranas receberam ordens de, ao avistarem um aparelho dos saltadores, abrir fogo incontinenti, com todos os meios possíveis. Um fraco estalo indicou que a ligação do escritório de Rhodan para a central de hiper-rádio estava desfeita. Bell ria à bandeira despregada, até que, de repente, sua expressão se transformou, dando sinais de apreensão. — Thomas Cardif está com Cokaze, Perry, e conhece muito bem seus truques. — Tanto pior para Cokaze e para sua estirpe — respondeu Rhodan laconicamente, sem contra-argumentar. — Quero ver se o patriarca se atreve a atacar ou se depois de cinco horas... — Perry — interrompeu Bell excitado — para mim, você não precisa expor seus truques e golpes. E se o chefe do clã resolve mesmo atacar dentro de meia hora, com toda sua frota? Que vai ser então? Em duas horas o velho chegaria à Terra com a maioria de suas naves e transformaria nosso planeta numa grande fogueira. Com os diabos! Eu e você sabemos melhor do que ninguém que nossa frota não suportaria um ataque sério. Reginald Bell estava nervoso. Acompanhara suas palavras com fortes murros na mesa de Rhodan. Mas nem isto impressionou o ponderado administrador. Olhou pensativo para seu amigo de todas as horas e, fazendo um gesto com a mão direita, lhe entregou uma tira de papel. Sua fisionomia mudou os olhos lhe começaram a brilhar. Excitado, passou uma das mãos pelos cabelos, depois bateu com a outra estrondosamente nas coxas e disse sorrindo: — Gostaria agora de ver a cara de Cokaze. Acho que o momento deve ser celebrado com um trago de conhaque. A ligação direta de emergência do hiper-rádio fez acender a luz vermelha. — Sir, nossa frota já travou combate em cinco lugares de Marte e em três outros de Vênus. Perdemos com toda certeza um destróier do Grupo de Caças Espaciais. Das naves cilíndricas que nos atacaram, três ficaram fora de combate, as restantes se retiraram. — Obrigado — disse Rhodan, secamente. Sentado ao lado de Rhodan, Bell estava assobiando baixinho, mas muito desafinado. Não havia mais otimismo no semblante do gorducho. — Perry, seu plano não deu certo e eu apostaria qualquer coisa que por trás da resposta de Cokaze ao seu ultimato, deve haver certamente o dedo de Thomas Cardif. — Não precisa apostar. Tenho certeza de que Thomas Cardif haverá de influenciar e já influenciou o velho patriarca. Sua voz soava tão naturalmente como se estivesse dizendo que o sol lá fora estava bem forte. Reginald Bell, porém, resfolegava inquieto. — Perry, às vezes, você me parece meio misterioso. Gostaria mesmo de acreditar que ainda conseguiremos salvar alguma coisa, mas quando olho para a ponta do meu

polegar ferido com o... e quando penso em todo o azar que nos vem perseguindo neste ano pesado, desde primeiro de janeiro de 2.044... — Por que você não estudou astrologia, seu gorducho? Tem tudo para um astrólogo, inclusive o físico baixo e arredondado. Podia ter sido uma brincadeira, mas o olhar firme e sério de Rhodan indicava o contrário. É que já estava saturado com esse tipo de agouro. Bell estava tomado por um exagerado pessimismo. Desde o último réveillon que Bell vinha aterrorizando todo mundo, devido ao acidente com a taça de champanha. Daí deduzia um ano de desgraças para o Império Solar. É verdade que o gorducho não era supersticioso, mas estava cismado com aquele incidente sem nenhuma importância. Assim foi que não deu a mínima à observação de Rhodan, e continuou com seu pessimismo: — Perry, Thomas vai destruir todo seu plano. Novamente o ruído de alarme do hiper-rádio. Era John Marshall, falando de Vênus: — Já estão ligados os motores de propulsão de todas as naves e as comportas já estão fechadas. Calculo a partida de Vênus, no máximo para dentro de meia hora. Fim. Marshall. — Como está otimista, este Marshall — disse Bell. — Em dez minutos eles vão para o espaço. Perry, você tem um filho diabolicamente inteligente. Parece que Thomas conhece-o melhor do que eu. Não quero mais apostar. Digo apenas que, atrás desta pressa, está o dedo de Thomas. Não havia mais dúvida de que o plano de Rhodan tinha ido água abaixo. A própria expressão de Rhodan o demonstrava. Bateram à porta. A comissão técnica dos relatores, composta de quatro homens, entrou. Eram os maiores especialistas em direito arcônida de que dispunha o Império Solar. Seus conhecimentos no assunto eram realmente mais amplos do que tudo que estava armazenado no grande conjunto de computação da Terra. — Por favor, senhores, sejam sucintos — pediu Rhodan. Era um fato muito singular quando ele não oferecia lugar para os visitantes sentarem-se. Tinham muito pouco para falar e este pouco não iria agradar a Rhodan. Tratava-se da resposta à pergunta, se o cérebro positrônico de Árcon estava autorizado a dar ordens expressas à estirpe de Cokaze para que abandonasse imediatamente o Império Solar e, no futuro, jamais importunasse seus habitantes com qualquer tipo de exigência. O parecer técnico da comissão de juristas foi negativo. — ... se o almirante arcônida Atlan não quiser ser prematuramente descoberto na função de mandatário do Império Arcônida, terá que dar plena liberdade de ação ao patriarca Cokaze. As leis obrigam a positrônica a isto e, concomitantemente, também o Almirante Atlan. Com simples aceno de cabeça, despediu os integrantes 175


da comissão. De pé, calado, ao lado da janela, Bell não se manifestou. Mas assim que a porta se fechou atrás dos juristas, ele disse: — É mais uma esperança que desaparece diante de nossos olhos sofredores. Dá vontade de a gente arrancar os fios de cabelo. Perry, por que você foi tão afobado com seu ultimato de apenas cinco horas? Se meu polegar... — Pare de uma vez por todas com esta bobagem de polegar — gritou na cara do amigo, dando um forte soco na mesa. Este rompante de raiva em Rhodan foi uma novidade. Ninguém jamais o vira tão nervoso assim. O homem ponderado, modelo da serenidade, perdera o cavalheirismo por causa de uma bagatela. Mas o verdadeiro motivo foi o fato de que, pelo ultimato, havia imobilizado a si mesmo e não dispunha mais da possibilidade de ganhar tempo. Chegou então uma mensagem de Marte: — A frota dos mercadores galácticos está decolando. Dois minutos depois veio outro rádio de Vênus: — A frota dos saltadores está decolando. Bell ainda acrescentou com sarcasmo: — E a nossa vassoura de ferro precisará ainda de três horas para estar em condições de começar a varrer os saltadores para fora do sistema solar. Santa Via láctea, quantos reveses teremos que aguentar ainda este ano de 2.044. Mais um rádio e, desta vez, com bem mais volume: — A frota dos saltadores, num fogo cruzado de curtos e indecifráveis rádios, fica agora parada a uma altura de três a cinco mil quilômetros acima de Vênus. Antes que Bell pudesse dizer qualquer coisa, manifestou-se também o quartel-general dos agentes em Marte. Ali se dera a mesma coisa: — As naves cilíndricas de Cokaze, após receberem o alarme de decolagem, ficaram de repente paradas no espaço. Bell e Rhodan se entreolharam, com a mesma pergunta nos olhos. O gorducho de cabeleira ruiva parecia atônito. — Por que nossos telepatas não conseguem ler os pensamentos de Cokaze? — Você esqueceu ou quer esquecer que nossos telepatas até agora não descobriram onde se encontram o patriarca Cokaze e Thomas Cardif. Sabemos apenas que fizeram uma aterrissagem forçada em Vênus. — Não sabia disso não — respondeu Bell com tranqüilidade. — No espaço não podem estar, isto é mais do que certo. Também não podem andar por Vênus, senão já teriam sido descobertos. Temos que tirar da cabeça a idéia de ver Thomas Cardif apenas como desertor. O desgraçado do rapaz é seu filho, Perry, e acho que ele é muito ladino... Conclusão: o jovem tenente e o velho patriarca devem ter se escondido debaixo d‟água, ou melhor, nas profundezas do oceano de Vênus. Pois somente aí é que estariam a salvo dos nossos mutantes. — Está bem. Mas nada disso explica o fato de os saltadores terem retido sua frota, de um momento para o

outro, em volta de Vênus e de Marte. — Gostaria de saber também a razão disso, Perry. *** Foi com uma leve cintilação nos olhos que Cokaze ouviu a notícia do ultimato dado por Perry Rhodan. Olhou em volta e se deteve contemplando a figura tranquila de Thomas Cardif. Era o único que conseguia falar francamente com o temido patriarca. — Ocupe a Terra, saltador! Ataque imediatamente. Conheço muito bem a tática de Rhodan. A finalidade de seu ultimato é apenas ganhar tempo. Transcorrido o prazo do ultimato, você não terá mais chance. Isso, eu lhe posso garantir. Ou agora ou nunca. O modo de argumentar de Cardif fascinava e aterrorizava ao mesmo tempo. Falava sempre sem nenhuma excitação, frio e racional como um computador. Sua voz não era impulsiva, pelo contrário, dava a impressão de total desinteresse. Porém, atrás de todos seus pensamentos, tudo convergia para um ponto: destruir o homem que assassinara sua mãe. Nada mais lhe interessava. Se depois da destruição de Rhodan, ele seria ou não seu sucessor, como administrador do Império Solar, isto não tinha nenhuma importância. Seu orgulho, ou melhor, sua ambição política, ainda não tinha nascido. Neste particular, Cardif não se conhecia ainda. Aguentou serenamente o olhar penetrante do patriarca. Depois de seu breve apelo para que Cokaze atacasse, Cardif silenciou. Não podia supor o que os demais saltadores estavam pensando: Estavam vendo o jovem Perry Rhodan sentado com eles. Nunca o filho estivera tão semelhante com o pai. — Saltador, você se esqueceu de que Rhodan até hoje sempre sofreu derrotas, uma após a outra, quer dos saltadores, quer dos aras. Vocês foram sempre os mais fortes. Rhodan nunca foi forte e todos já sabem qual é a potência de sua frota. No entanto, sempre conseguiu tapeálos e continua conseguindo hoje, Cokaze. Com seus olhos de arcônida, Thomas fitou o patriarca com altivez, com a altivez de sangue real. — Bem — disse Cokaze resoluto — darei ordem para minhas naves atacarem. Mas você, terrano — e nos seus olhos acenderam-se chispas ameaçadoras — você viverá num permanente inferno se ficar positivado que Rhodan o mandou para cá como um simples espião ou quinta-coluna. — Velho estúpido! — atreveu-se Thomas a dizer, fazendo como se não tivesse ouvido o soluço de espanto dos demais saltadores. Levantou-se lentamente, depondo as duas pistolas de raios energéticos, com gestos comedidos, sobre a mesa. — Você deve estar agora mais ou menos contente, não é, saltador? — perguntou cheio de ironia. — Resolva suas coisas sem mim, já que sabe tudo melhor que os outros. Vou interrogar os dois prisioneiros terranos que se salvaram do destróier abatido. Com passadas largas, saiu pelo convés central afora, pegando o elevador antigravitacional que o levou três andares para baixo. Diante da porta do camarote, 176


onde estavam detidos os dois prisioneiros terranos, postavase um robô de combate, que automaticamente lhe permitiu entrada. — Sir!... — com esta exclamação, um jovem que estava sentado na cama, deu um salto. Mas logo reconheceu que não era Perry Rhodan quem estava entrando, porém o filho do administrador. O segundo terrano, também vestido com o uniforme da Frota Espacial, se levantou de trás da mesa tosca, olhando para Thomas com desdém, mantendo nos lábios um sorriso de ironia. — Meus senhores... — começou Cardif e não conseguiu ir além. O primeiro rapaz, Val Douglas, que havia dado um salto pensando tratar-se de Perry Rhodan, interrompeu-lhe as palavras. — Com desertores nós não falamos. Livre-nos de sua incômoda presença, traidor. Imperturbável, Thomas Cardif nem piscou. — Desapareça daqui, seu malandro! — exclamou o outro cheio de selvagem desprezo. Com a palavra malandro, Thomas se curvou involuntariamente. Seus olhos arcônidas se afoguearam. — Os senhores dois serão os primeiros que, por ordem do regente robotizado, terão de obedecer-me. — Que regente robotizado o quê... — disse Val Douglas sorrindo sarcasticamente. — Este negócio não existe mais. O Almirante Atlan haverá de entregá-lo ao chefe, como traidor. Os caminhos tortuosos do destino quiseram que este jovem fosse um dos cento e cinquenta terranos que tomaram parte na campanha, comandada por Rhodan, Atlan e Bell, em Árcon III, contra o regente robotizado. Thomas Cardif, que não era apenas externamente o retrato do pai, mas era-lhe a cópia fiel também em suas qualidades psíquicas, não se deixou trair, dominando a grande surpresa que a notícia lhe causou. — Atlan não pode agir contra a vontade do cérebro positrônico — revidou drástico. O jovem terrano da Frota Espacial não percebeu a malícia de Thomas Cardif. O desertor o provocava para obter informações. Sorrindo com desprezo, o prisioneiro disse: — O que Atlan pode ou não pode, ele haverá de mostrar a vocês todos, principalmente aos traidores de sua laia. A enorme positrônica de Árcon não tem mais nada para dizer. Silenciou totalmente, já no tempo em que estávamos em Árcon não havia mais o grande cérebro positrônico. E não tenho dúvida nenhuma de que Atlan o pegará, seu desertor. Os pensamentos ferviam na cabeça de Thomas. Deixou a cabina sem dizer uma palavra, voltando para seu camarote. Neste momento, ainda não estava em condições de comunicar esta grande novidade a Cokaze. Tinha que refletir um pouco. Neste meio tempo, Cokaze havia enviado duas sondas de rádio da Cok-II, que ainda estava submersa no oceano de

Vênus, sondas estas que, com seus sinais, dariam a ordem de decolar para todas as naves, que esperavam em torno de Marte e de Vênus. Esta ordem de partir incluía a de ataque à Terra com o grosso da frota, enquanto um grupo de mais ou menos duzentas espaçonaves tinha a incumbência de manter a Frota Solar em combate no espaço, impedindo-a de defender a Terra. Tocado por súbita intranquilidade, coisa que nunca sentira antes, Cardif procurou o camarote do Cokaze. A Cok-II, que durante muitas horas estivera parada, sem nenhum ruído, achava-se agora em grande agitação, com os transformadores zumbindo e os motores aquecendo. A nave capitania estava prestes a deixar seu esconderijo no fundo do oceano. Thomas Cardif irrompeu subitamente na cabina de Cokaze, que se encontrava sentado com seus parentes mais próximos, diante do receptor de hipercomunicação. Estavam ouvindo as mensagens oriundas de Marte e de Vênus. — Qual é a novidade? — perguntou Cokaze, virando-se para o lado e dando com o rosto transtornado do tenente desertor. Atrás de Cokaze ainda havia um lugar livre. Thomas o ocupou. — O que há de novo, terrano? — perguntou novamente o patriarca, dando vazão à pressão nervosa que o oprimia. Num gesto de orgulho, Thomas ergueu a cabeça e sorriu forçado, disfarçando sua inquietação: — Saltador, ganhamos a guerra! O regente robotizado de Árcon foi substituído pelo Almirante Atlan. Para conservar as aparências, Atlan ainda se oculta sob o manto do antigo cérebro positrônico. — Ficou louco, terrano? — disse-lhe com rispidez o velho patriarca. Pegou Cardif pelos ombros e o sacudiu. — Então vá perguntar aos dois terranos aprisionados. Quando Atlan desligou o computador gigante em Árcon III, o cabo estava presente. Cokaze se levantou de um pulo e correu para o microfone direto da central de radiotelegrafia da Cok-II: — Para toda a frota: cancelar a partida para o espaço. Permanecer em posição de espera, aguardando novas ordens. Mas atenção transmitam esta ordem em código. Meia hora mais tarde, o cabo Val Douglas despejou, sob a coação do soro da verdade dos aras, tudo que ele e mais cento e cinqüenta terranos, em companhia de Atlan, haviam presenciado em Árcon III. Mais de trinta saltadores ouviram fascinados e quase de respiração presa o relato gaguejado e muitas vezes confuso do cabo Val Douglas. Cokaze insistia nas mesmas perguntas, de maneira que lhes ficou cada vez mais claro, pela repetição, o momento decisivo em que Atlan desligou o gigantesco conjunto positrônico de Árcon III. Tão fascinante era tudo, que os saltadores não sentiram o tempo passar. O espetáculo terminou quando Douglas, sob a atuação das terríveis drogas dos aras, dando um grito 177


lancinante, desfaleceu. O patriarca ainda demonstrou algum sentimento de humanidade, ordenando ao médico de bordo que cuidasse do jovem terrano, administrando-lhe todos os antídotos necessários. Foi aí que o patriarca reparou o avançado da hora. Com um palavrão, partiu apressado para a sala de comando. Lá estava Thomas Cardif diante do hipercomunicador. — Algo de novo? — foi à pergunta de Cokaze. — Nada de importante, saltador. Suas naves esperam pela ordem de ataque. A Cok-II está a uma altura de dez quilômetros de... — Está bem! — disse o velho, batendo-lhe no ombro. — Jovem inexperiente! Cardif já estava com uma pergunta na ponta da língua, mas Cokaze não lhe deu tempo. — Vocês só enxergam o hoje, o imediato e se esquecem do amanhã. O regente robotizado está extinto e então chega este Atlan e declara-se imperador. Oh! Deuses do espaço! Esta é a hora sideral dos comerciantes das Galáxias. O velho patriarca juntou as palmas das mãos, como se faz para rezar, ergueu-as na direção do céu, dando a impressão de estar mesmo numa prece de ação de graças. Thomas Cardif não entendia mais nada. E Cokaze notou que o terrano não o estava compreendendo. — Jovem inexperiente! — repetiu com certo ar de triunfo — esta é a nossa hora, a hora dos mercadores galácticos. Este ridículo Império Solar de Perry Rhodan não me interessa mais. Ele que viva em paz por aqui. Retiro-me do Império Solar sem exigir nada, para... para fazer o que, terrano? Você acha que, por causa de um miserável contrato comercial, iria perder a oportunidade de, junto com meus irmãos e os aras, conquistar o imenso, riquíssimo Império de Árcon? Quem é este Atlan? — Senhor — ouviu-se do alto-falante do intercomunicador de bordo — estamos registrando inúmeros estremecimentos estruturais. Está se aproximando uma frota gigantesca do hiperespaço. Já conseguimos contar duas mil naves. — Cale a boca! — gritou o patriarca, encobrindo a voz forte e nervosa de seu telegrafista. — Comunique a Rhodan que eu aceito seu ultimato e estou dando ordens à minha frota para que entre em transição na direção de 45 GH 32. Preste atenção para não cometer nenhum erro. Para Cardif, ordenou apenas: — Venha comigo. Dirigiram-se à sala de comando. A Cok-II deixara o esconderijo nas profundezas do oceano de Vênus e estava agora a dez quilômetros do solo de Vênus. Os saltadores, que estavam em volta do rastreador estrutural, foram se retirando assim que viram seu patriarca entrar. Por sobre os ombros de Cokaze, Thomas Cardif olhava para a tela, cheia de diagramas. O dispositivo de contagem, ao lado, que registrava os estremecimentos estruturais, pulara no momento de 2.185 para 2.318. Isto queria dizer que, a partir dos últimos cinco minutos, isto é, a contar do primeiro estremecimento, 2.318 supernaves já

haviam saltado do hiperespaço para o sistema solar. — Isto é a ajuda de Atlan para Perry Rhodan — disse Cardif nas costas de Cokaze, esbravejando de cólera. O velho patriarca enxugou o suor do rosto. — Deuses do espaço! — disse com voz rouca. — Eu vos agradeço. Agradeço também a você Cardif. Batia afavelmente com a mão direita nos ombros de Thomas. — Não fosse você, terrano, que teve a idéia de interrogar os dois prisioneiros do destróier abatido, esta novidade chegaria tarde demais para nós. Teríamos atacado a Terra e seríamos destroçados por esta frota recémchegada, até o último aparelho. Obrigado, terrano. Você merecerá a eterna gratidão da estirpe de Cokaze. Acoplado ao rastreador, o totalizador estrutural estava, no momento, parado exatamente no número 2.500. Duas mil e quinhentas naves apareceram em poucos minutos, para se unirem à Frota Solar e resguardarem o pequeno sistema. — Soltem os dois prisioneiros e os coloquem numa nave auxiliar — foi a última ordem de Cokaze, antes que a Cok-II iniciasse a aceleração, para se afastar do sistema solar com toda a frota dos saltadores. Cerca de quatro mil naves tinham o mesmo destino: iam para 45 GH 32, um local qualquer no espaço, que não devia ser identificado facilmente. Uma hora e quarenta e oito minutos antes de esgotar o prazo dado pelo ultimato, o espaço, nas proximidades do sistema solar, foi fortemente abalado por intensos estremecimentos, indicando que as naves de Cokaze estavam desaparecendo. Os cem mil homens de esmerada formação, que deixaram a Terra secretamente na Titan e em cinco outras supernaves de carga, estavam voltando com mil novas belonaves arcônidas, novinhas em folha. Traziam também uma frota de mil e quinhentas naves robotizadas. Foi o máximo em auxílio militar que Atlan podia fornecer à Terra. Mas foi também um verdadeiro milagre da técnica o fato de cem mil especialistas em espaçonáutica chegaram a Árcon e não terem outra coisa a fazer a não ser entrar nas supernaves, já prontas, e voltar para a Terra. Os cem mil especialistas se sentiam à vontade nestas moderníssimas criações arcônidas, e, abstraindo-se de pequenos incidentes normais em grandes transições, tudo correu com perfeição. O repentino aparecimento deste auxílio de Árcon poderia causar a impressão de que Cokaze tivesse mudado de opinião em vista desta força imensa que vinha em socorro da Terra. Mas Rhodan e Bell sabiam perfeitamente que o velho saltador dera ordem de sustar a decolagem para o ataque, muito antes de chegarem as duas mil naves de Árcon. — Perry — disse Bell — meu dedo polegar da mão direita está comichando. Creio que temos de passar ainda por surpresas desagradáveis. Antes já tivesse acabado este carregado ano 2.044. 178


— Prefiro que você me diga por que razão Cokaze sustou a decolagem de suas naves, já prontas para o ataque da Terra. É melhor do que esta bobagem do seu dedo polegar. — Estou quebrando a cabeça há muito tempo com isto. É exatamente este o motivo por que meu polegar está... — Bell! Por favor, somos amigos, não somos? — Claro que somos amigos — disse Bell distraído. —

Mas tenho que lhe explicar que... — Então conservemos nossa amizade, Bell, ponha uma pimenta bem forte na boca, quando pensar em falar do seu dedo polegar. Você vai me prometer isto, não é? — Posso prometer sim. Mas neste exato momento meu polegar esta comichando demais. Rhodan deu um suspiro e sacudiu a cabeça resignado.

Para ajudar seu lider e amigo, o rato-castor Gucky empreende um perigosíssimo salto até Vênus e, penetrando na nave capitania de Cokaze, desativa as centenas de bombas nucleares, destinadas a arrasar não só a Terra, como todo o sistema solar. Enfraquecida pelos ataques inteligentes de Gucky e de seus companheiros, a frota dos saltadores abandona o sistema solar. Mas pouco antes de decolar, seu chefe, Cokaze, fica sabendo de algo que certamente trará amargas conseqüências para o novo chefe do Império Arcônida, Atlan, o grande amigo de Rhodan... Em “Atlan em Perigo”, título do próximo volume da série, a posição do amigo número um do Império Solar corre sério risco...

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O Inimigo Oculto – Volume 19

Nº 90/91/92/93/94

Atlan em Perigo O Retorno de Ernest Ellert

Missão Secreta Moluque O Inimigo Oculto O Sol Chamejante De

William Voltz Kurt Mahr Kurt Brand e Clark Darlton

2º CICLO – ATLAN E ÁRCON VOLUME 19 P-90 - 94

A ameaça mais grave com que já se defrontou a Humanidade, representada pela invasão do Império Solar, pôde ser vencida graças ao auxílio dos arcônidas. Da mesma forma, a perigosa situação política, criada pela atuação de Thomas Cardif, foi solucionada graças a uma ação isolada de Gucky. A frota dos saltadores retirou-se do sistema solar. Rhodan alcançou mais uma vitória sem derramamento de sangue. No entanto, o Império de Árcon, governado por Atlan, o imortal, vê-se diante de um perigo gravíssimo, quando a Galáxia toma conhecimento de que o computador-regente, que costumava golpear implacavelmente, não governa mais! Por isso vemos Atlan em Perigo. E Perry Rhodan tem de intervir nos acontecimentos!

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