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2º CICLO – ATLAN E ÁRCON VOLUME 17 P-80 - 84


O Herdeiro do Universo

Nas Cavernas dos Druufs

O Herdeiro do Universo

O Herdeiro do Universo

A Nave dos Antepassados

Volume 80

Volume 81

Xeque-Mate Universo Volume 82 O Herdeiro do Universo

Planeta Topsid, Favor Responder Volume 83

O Herdeiro do Universo

Recrutas de Ă rcon Volume 84 2


Nas Cavernas dos Druufs A Nave dos Antepassados Xeque-Mate Universo Planeta Topsid, Favor Responder

Recrutas de Árcon

2º Ciclo – Atlan e Árcon Volume 17 Episódios: 80 - 84 de 50/99

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Nº 80

De K. H. Scheer Tradução

Richard Paul Neto Digitalização

Arlindo San

Revisão e novo formato

W.Q. Moraes

O S.O.S. vem do Universo dos druufs, mas só os terranos conhecem o alfabeto Morse.

Ao que parece, a morte de Thora marcou o início de uma época sombria para a Humanidade. Perry Rhodan e alguns dos principais figurões do Império Solar são tidos como mortos: teriam sido consumidos pelo fogo atômico de Fera Cinzenta? O Marechal-Solar, Freyt, assume a direção do governo provisório; o Marechal Mercant incumbe-se dos serviços de segurança e o General Deringhouse tem sob seu cargo a frota espacial... Porém o fato de que, provavelmente, Perry Rhodan esteja morto, não foi revelado ao público, já que o jovem Império ainda não parece suficientemente consolidado a ponto de absorver, sem profundos abalos políticos, uma notícia tão catastrófica. Mas, por quanto será possível manter em segredo uma notícia tão importante? Ou será que o pedido de socorro, vindo dos subterrâneos de Rolando, representa uma tênue luz de esperança? 4


braço e a pequena chave foi baixada de vez. Alguém gritou. O próprio Perry Rhodan teve vontade de gritar. Alguma coisa comprimia-o inexoravelmente para baixo. Atirou-se para frente e procurou apoiar-se com as O aparelho tinha o aspecto de um órgão de igreja. Era mãos, mas depois de alguns segundos seus braços feito de cilindros metálicos rigidamente ligados, cuja altura afrouxaram-se. Caiu de bruços. A força da compressão diminuía da esquerda para a direita. O aparelho estava deixou-o sem fôlego e desenhou uma profusão de anéis encostado à parede e sua única finalidade parecia consistir em confundir os quatro prisioneiros. coloridos diante de seus olhos. Durante três dias conseguira preencher essa finalidade. A pressão não diminuía. Expelia o ar dos pulmões de Depois disso, os prisioneiros passaram a dedicar-lhe uma Rhodan, tornando quase impossível a respiração. Com atenção que ia além do terreno puramente contemplativo. uma dolorosa clareza, Rhodan percebeu que teria de fazer Procuraram desmontá-lo. Conseguiram fazê-lo em parte. alguma coisa se não quisesse desmaiar. Naquele instante, Perry Rhodan estava ajoelhado à frente Ao mover a chave, calculara com tantas possibilidades de um dos pequenos tubos e perguntou a si mesmo o que que levou alguns segundos para digerir mentalmente o aconteceria se comprimisse a pequena chave que efeito que acabara de produzir. sobressaía entre a confusão de fios, bastões de vidro, Com o aspecto de órgão, aquele aparelho era um lâminas de plástico... gerador antigravitacional, e, ao mover a chave, Rhodan Não que aquela chave representasse alguma alternativa fizera com que a gravidade artificial, reinante no interior para ele. Mas haviam feito um trabalho duro para abrir do recinto, crescesse cinco ou seis vezes. alguns dos tubos, e, a essa altura, seria Isso era uma decepção; não Personagens principais ridículo deixar a chave como estava, pelo correspondia a nenhuma das esperanças deste episódio: simples motivo de que não sabia qual entretidas por Perry Rhodan. Mas, seria o efeito produzido. naquele momento, as esperanças eram o Perry Rhodan, Reginald Bell e Perry Rhodan virou a cabeça. Atrás que menos importava. O que realmente Atlan e Fellmer Lloyd — São dele, Atlan, o arcônida, Reginald Bell e o chamados de hóspedes pelos importava era recolocar a chave na druufs, mas recebem o tratamento mutante Fellmer Lloyd mantiveram-se posição anterior. de prisioneiros. em atitude de expectativa, nas Rhodan sabia que não conseguiria monstruosas poltronas de pernas tortas. apoiar-se nos braços. O peso que lhe era Capitão Marcel Rous — Ao que parecia, nenhum deles sentia conferido pelo campo de gravitação Comandante da base secreta de medo; a curiosidade dominava tudo. artificial era muito elevado. Por isso virou Hades. Durante três dias tinham vagado por uma de lado, deitou sobre o ombro direito e Major Clyde Ostal — Uma das série de recintos subterrâneos, que os procurou levantar o braço esquerdo. velhas raposas da Frota Espacial. druufs colocaram à disposição dos Conseguiu. Mas havia outra dificuldade: prisioneiros. Então se deram conta de que desta vez, a chave tinha de ser empurrada General Deringhouse, Ras não havia qualquer saída que prometesse de baixo para cima, e esse movimento era Tschubai e Gucky — Membros algum êxito na fuga. Por fim, acabaram muito mais difícil que o primeiro. Mas do comando Rolando. voltando para o “órgão” que lhes também conseguiu. despertava a atenção, pois era a única Depois de concluído o trabalho, peça do equipamento subterrâneo cujas funções não Rhodan continuou deitado por mais alguns instantes. conheciam. Precisava de algum tempo para respirar direito e espantar a Recorreram a canivetes, a pequenos parafusos sensação de torpor. Finalmente ergueu-se. metálicos retirados das poltronas e a coisas- semelhantes, e O quadro surgido era de uma esquisitice hilariante. Sob conseguiram remover o revestimento de três tubos. O que o peso multiplicado das pessoas, as poltronas de pernas surgiu debaixo desse revestimento não permitia qualquer tortas haviam quebrado. Inconscientes, Atlan e Lloyd conclusão segura sobre a finalidade do aparelho. A única estavam deitados entre os destroços. Reginald Bell não coisa que poderia ser modificada, sem inutilizá-lo, seria a fora afetado tão intensamente pelo choque gravitacional. posição da chave. Segurava-se em duas peças de madeira plastificada, que Perry Rhodan encostou o dedo à pequena peça eram os únicos componentes inteiros de sua poltrona, e metálica. lançava um olhar de espanto e raiva para o aparelho com — Vamos começar — disse. — Prendam a respiração, aspecto de órgão. pois não sabemos o que Vai acontecer. — Será que é só isso? — perguntou em tom Rhodan intensificou a pressão do dedo. Sentiu que a contrariado. pequena chave começava a ceder. Por um instante — Parece que sim — respondeu Rhodan. espantou-se porque não estava acontecendo nada. De Reginald Bell levantou-se. As peças da poltrona caíram repente teve a impressão de que alguém lhe golpeava ruidosamente ao chão. fortemente o ombro. O braço caiu, a mão acompanhou o — Quer dizer que nosso trabalho foi em vão —

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observou bastante aborrecido. — Ficamos trabalhando nisso um dia inteiro, apenas para constatar que o aparelho regula um campo de gravitação artificial. Deu um pontapé no menor dos tubos. — Você acha que isso não vale nada? — perguntou Perry Rhodan. Reginald Bell e Perry Rhodan já se conheciam muito bem, para que qualquer um deles pudesse depreender do tom de voz do outro se o mesmo tinha alguma novidade ou não. Bell lançou-lhe um olhar de perplexidade. — Por enquanto não vejo nada — respondeu em tom inseguro. — Quem sabe se você não me pode dar uma dica? Rhodan sorriu. Naquele instante, Atlan, que acabara de recuperar a consciência, levantou-se entre os destroços de sua poltrona. Ao que parecia, ouvira as últimas frases do diálogo. — São campos gravitacionais variáveis no tempo — disse em tom indiferente, como se nada tivesse acontecido. — DG é proporcional a dt. A potência do mecanismo gravitacional é diretamente proporcional à indução gravomecânica. Isso não significa nada para o “senhor”? Reginald Bell arregalou os olhos e fitou o canto mais afastado da sala. — Significa, sim — respondeu depois de algum tempo. — Mas acho que os druufs não ficarão muito satisfeitos se o equipamento antigravitacional deles for transformado num aparelho de telegrafia. Perry Rhodan colocou-lhe a mão no ombro. — Resta saber se eles perceberão alguma coisa — disse. O desastre tivera inicio há dez dias, em 23 de outubro de 2.043 do calendário terrano. Os arcônidas descobriram a base de Fera Cinzenta e atacaram-na imediatamente. Naquele momento, a frota terrana encontrava-se num setor afastado, onde aguardava o momento de lançar-se ao ataque contra Árcon. Perry Rhodan, Atlan, Reginald Bell e Fellmer Lloyd ainda se encontravam em Fera Cinzenta. A base não teve a menor chance, face ao ataque maciço das naves inimigas. Numa questão de horas, as bombas de Árcon transformaram o planeta num inferno nuclear. Perry Rhodan e seus companheiros haviam conseguido fugir para uma ilha, de onde irradiaram um pedido de socorro pelo minicomunicador. No último instante, surgira uma nave para retirá-los do planeta. Acontece que não era uma nave terrana, conforme esperavam, mas um veículo espacial arcônida. Escaparam por pouco da morte, porém, mais uma vez, viram-se em situação difícil. Passaram à condição de prisioneiros dos arcônidas. Há poucos minutos-luz de Fera Cinzenta, a nave arcônida que os recolhera transferiu-os para outro veículo, que também se encontrava a serviço do computadorregente de Árcon e, ao que tudo indicava, recebera ordens de conduzir os prisioneiros, o mais depressa possível, a esse planeta. Perry Rhodan notou que o comandante da

segunda nave, um ekhônida chamado de Chollar, não conhecia seu nome. Concluiu que o computador-regente estava interessado em manter o maior sigilo possível sobre a prisão de um inimigo tão importante como ele. Os prisioneiros conseguiram dominar os ocupantes da sala de comando da nave ekhônida num golpe de surpresa. Irradiaram um pedido de socorro muito bem cifrado. Calcularam que só uma nave terrana o entenderia e tomaria qualquer providência diante da mensagem. A nave chegou dentro de quatro horas; acontece que não era uma nave terrana ou arcônida, mas sim um veículo espacial dos druufs. Sob o ponto-de-vista político, as relações entre os terranos e os druufs eram demais estranhas. Cada um via no outro um aliado em potencial na luta contra Árcon, mas a desconfiança ainda era mais forte que o desejo de associar-se. Para os druufs, Perry Rhodan e seus companheiros eram prisioneiros. Levaram-nos para sua nave e trataram de sair o quanto antes do setor espacial controlado pelos arcônidas. Passaram pela área de superposição, que, naquele tempo, representava o único elo entre seu Universo e o Universo einsteiniano, e trancafiaram os prisioneiros num subterrâneo de um planeta gigantesco. O voo durara dois dias. Durante esse tempo, os prisioneiros ficaram a sós e sem serem observados, salvo por ocasião das visitas do robô dos druufs que lhes trazia a comida. Em seus camarotes não havia telas de imagem. Não sabiam nada do que se passava em torno deles. Mas, ao que tudo indicava, a viagem estava sendo realizada sem problemas. Finalmente a nave pousou. Perry Rhodan e seus companheiros já se haviam acostumado um pouco à gravitação de 1.95G, reinante a bordo da nave. Era a mesma gravitação do planeta natal dos druufs. Os prisioneiros tiveram conhecimento do pouso, quando um druuf entrou no camarote e, por meio de sua tradutora eletrônica, lhes pediu que colocassem os trajes trazidos da nave ekhônida e saíssem da nave. O druuf não forneceu qualquer informação sobre o motivo e a finalidade desse pedido. Era um “Mike”, nome que os terranos resolveram dar aos druufs de graduação mais baixa, e não devia estar autorizado a ministrar quaisquer esclarecimentos. Talvez ele mesmo não soubesse do que se tratava. De qualquer maneira, os prisioneiros fizeram o que lhes foi pedido: deixaram a nave. O veículo espacial dos druufs estava pousado numa grande planície de rocha. Enquanto desciam pela escada rolante, Perry Rhodan e seus companheiros depararam-se com um quadro, talvez pintado por um surrealista que não se tivesse conduzido com maiores escrúpulos na escolha das cores. A planície parecia estender-se aos confins do infinito. O cinza-marrom da rocha era a única tonalidade que tinha um correspondente nas cores conhecidas na Terra. Vez por outra, uma rocha em forma de agulha, ou monólito, erguiase na planície e, apesar de seu feitio esbelto, subia a alturas 6


estonteantes. As pontas finíssimas estendiam-se em direção a um céu marrom, sob o qual se viam nuvenzinhas de cor turquesa. Não se distinguia a fonte de luz que iluminava aquele céu. Provavelmente o astro diurno do planeta iria surgir no nascente. À pequena distancia da nave dos druufs, o chão descia, formando uma bacia de várias centenas de metros de diâmetro, na qual se via um lago cor de rubi. Uma brisa ligeira agitava a superfície do lago, e, vez por outra, pequeninas ondas transbordavam para a planície. Era um mundo de fadas, maravilhoso de ser contemplado, mas venenoso como um cálice de cicuta. As formações de rocha, a grande planície, as nuvenzinhas, tudo parecia indicar que a atmosfera do planeta era formada de amoníaco e metano, tal qual acontecia com muitos planetas gigantescos, mas inúteis, encontrados em quase todos os sistemas. Ainda na escada rolante, admiraram-se porque a gravitação do planeta parecia ser igual à que reinava a bordo da nave, Não sabiam que o campo gravitacional artificial da nave a envolvia num circulo bastante amplo. O limite desse círculo ficava vários metros além do pé da escada. Mas, quando ultrapassaram esse limite, perceberam o engano. O punho de um gigante parecia golpeá-los e mantê-los presos ao solo. No primeiro momento sentiramse dominados pelo pânico. Contorceram-se e se esforçaram para pôr-se de pé o quanto antes, porém apenas conseguiram esgotar suas próprias forças. Depois de algum tempo, permaneceram quietos e lembraram-se das regras sobre o comportamento em condições de gravitação anormal que haviam aprendido. Descansaram e obrigaram os pulmões a trabalhar. Depois encolheram lentamente os joelhos e apoiaram a parte superior do corpo sobre os braços, que ameaçavam quebrar sob o peso que tinham de suportar. Ergueram-se centímetro por centímetro. Finalmente puseram-se de pé. Tiveram a impressão de estarem presos no interior de uma armação que os comprimia violentamente para baixo. Mas conseguiram manter-se de pé. Em torno deles, os druufs enxameavam sobre as pernas ciclópicas. Estavam acostumados a uma gravitação mais elevada que os terranos, mas, apesar disso, andavam abaixados e um tanto desajeitados. Perry Rhodan calculou que a gravitação devia ser pouco inferior a 3 G. Bem mais tarde, ficaram sabendo que o valor normal era 2,600. É uma carga que o corpo humano suporta por algum tempo, sem sofrer maiores danos, mas o fará desmoronar caso perdure. Os druufs nem pensaram em facilitar a sorte dos prisioneiros. Tangeram-nos para o monólito mais próximo, e os terranos foram-se arrastando. Se estes, ao descerem pela escada rolante, ainda refletiram sobre a maneira de recuperar a liberdade em meio à solidão colorida do mundo de metano, a essa altura já haviam abandonado tais pensamentos, face ao tremendo esforço da locomoção, que

exigia todas as energias do organismo. Perry Rhodan teve um restinho de raciocínio frio. Sabia que sua situação seria desesperadora, a não ser que conseguissem descobrir onde ficava o planeta em que se encontravam. Era bem verdade que ele mesmo não tinha uma ideia muito clara sobre a maneira de utilizarem essa informação. Até então os conhecimentos humanos sobre o estranho Universo em que viviam os druufs eram mais que modestos. Os terranos conheciam o sistema de Siamed, o berço natal dos druufs. Além disso, conheciam dois mundos distintos, aos quais haviam dado o nome de Solitude e Planeta de Cristal. No entanto, não sabiam qual era a posição desses mundos em relação ao sistema de Siamed. Até mesmo o conhecimento do habitat dos druufs era bastante lacunoso, face à pressa e ao segredo com que tiveram de serem realizadas as respectivas investigações. O sistema de Siamed movia-se em torno de dois sóis, um dos quais era um gigante vermelho e o outro, uma estrela. A potência máxima de radiações dessa estrela correspondia a um comprimento de ondas de cerca de 5 mil angstroms, motivo por que, ao olho humano, tinha uma coloração verde-amarelada. O sistema era formado por sessenta e dois planetas e um número enorme de luas. Pelos padrões terranos era um sistema monstruoso. Possuía vários gigantes de metano, como aquele em que a nave dos druufs acabara de pousar. Mas esse dado não bastava para identificar o planeta. A maior parte dos sistemas possuía planetas de metano, e, certamente, no Universo dos druufs, aqueles não eram menos numerosos que no espaço einsteiniano, habitado pelos terranos e pelos arcônidas. Perry Rhodan lançou um olhar cansado para o céu. Viu os contornos rubros da foice lunar, junto ao monólito em direção ao qual se arrastavam. O que importava não era a existência da lua, mas sua cor. Achava-se praticamente no zênite, mas era vermelha. Poder-se-ia supor que o envoltório atmosférico do planeta de metano fosse tão espesso que provocava nos astros, próximos do zênite, o mesmo efeito que a atmosfera terrana produz naqueles que se encontram perto da linha do horizonte. Talvez a vermelhidão daquela lua tivesse a mesma causa que a do sol terrano no ocaso. Mas também era possível que a coloração da lua tivesse sua origem na cor do sol. Se esse astro fosse vermelho, era quase certo que o gigante de metano, lugar do pouso dos druufs, pertencesse ao sistema de Siamed. Era um detalhe importante, pois o socorro só poderia vir desse sistema. Nele localizava-se a única base que a frota terrana conseguira instalar na outra dimensão temporal. Era a base de Hades, situada numa zona crepuscular semelhante a Mercúrio. Perry Rhodan estava refletindo sobre a coloração estranha do céu e procurava responder se a cor marrom poderia ter sua origem na ação conjunta de dois astros 7


diurnos, um vermelho e um verde. Porém, de repente se ouviu um grito de espanto de Bell em seu rádio de capacete. O pequeno grupo, flanqueado por dez druufs, acabara de chegar ao pé da rocha que se erguia para o céu. A surpresa de Reginald Bell fora provocada por uma abertura do tamanho de um portão, que veio interromper a parede rochosa e que, conforme Rhodan se lembrava, antes não estivera lá. Quer dizer que no monólito existia a entrada de uma caverna ou de um sistema de cavernas, que os druufs haviam construído ou encontrado sob a superfície do planeta. Ao que parecia, achavam que o lugar era suficientemente seguro para abrigar um grupo de prisioneiros importantes. Logo atrás da abertura, já no interior do monólito, começava uma espécie de rampa que descia suave. A pedra estava lisa, provavelmente em virtude da utilização freqüente da rampa. Os quatro prisioneiros tiveram de fazer um tremendo esforço, a fim de manterem-se de pé, em vez de ceder à tração da gravidade, deixando-se rolar rampa abaixo. No momento em que a entrada da caverna se fechou — Perry Rhodan não conseguiu descobrir que mecanismo os druufs usavam para isso — uma luz forte acendeu-se e iluminou a rampa até a sua extremidade inferior. Essa extremidade ficava num recinto quase circular, de vinte metros de diâmetro. Daí saíam doze corredores em sentido radial. As paredes e o corredor estavam fracamente iluminados. Ao que parecia, os druufs não possuíam o menor senso estético. Em compensação, os corredores estavam equipados com fitas rolantes, que permitiam uma locomoção rápida e livrava os prisioneiros do esforço de levantar as pernas a cada passo dado. Enquanto se deslocavam sobre a fita rolante, os prisioneiros não conseguiram descobrir a finalidade e as funções da caverna. Apenas puderam notar que havia uma série de salas, cujas portas se abriam na parede do corredor, e que as instalações subterrâneas eram por demais extensas. Quando os druufs mandaram-nos sair da fita rolante e esperar junto à parede do corredor, até que três portas disformes se abrissem do lado direito do mesmo, achavamse num local distante quatrocentos metros da entrada do sistema de cavernas. E, à luz difusa das lâmpadas ocultas, puderam ver que o corredor avançava pelo menos outros quatrocentos metros para as profundezas da planície rochosa. Verificaram que aquilo que Perry Rhodan calculara serem portas, na verdade não passava de comportas destinadas a evitar que a atmosfera venenosa de metano penetrasse nas cavernas. Atrás das comportas pelas quais os druufs levaram seus prisioneiros havia uma série de aposentos. Os terranos espantaram-se ao notar que os cômodos eram dotados de todas as vantagens proporcionadas pela civilização dos druufs e não deixavam

nada a desejar em relação à comodidade. Ao contrário das paredes do corredor, as dos aposentos eram lisas e revestidas de materiais de isolamento térmico. O soalho estava coberto de folhas de plástico grossas e elásticas, do tipo das que os druufs costumavam usar no lugar dos tapetes. Os móveis eram um tanto grandes e toscos para as concepções humanas, mas eram abundantes e variados. Via-se perfeitamente que os seres-toco haviam feito os maiores esforços com o intuito de preparar alguns aposentos naquele sistema de cavernas, onde eles próprios pudessem viver confortavelmente por algumas semanas ou meses, mesmo que se encontrassem longe da civilização. Ao transmitirem esse conforto aos humanos, estavam agindo apenas por uma questão de conveniência, pois já haviam dado provas de não serem muito amáveis para com os terranos. Um dos druufs, equipado com uma tradutora, disse aos terranos que nesses recintos havia ar respirável, motivo por que poderiam tirar seus trajes protetores. Quanto ao mais, teriam de esperar ali mesmo, até que aparecesse alguém para cuidar deles. Não disse quando poderiam contar com isso. O conjunto consistia em três aposentos. Depois de terem tirado os trajes protetores, que foram levados pelos druufs, examinaram esses recintos. Os móveis tinham, sido concebidos para os corpos dos druufs. As poltronas de pés em X eram tão grandes que nelas caberiam duas pessoas. Em cada uma das estranhas armações, sustentadas por barras presas ao teto, que serviam de cama aos seres-toco, caberiam quatro terranos. E a série de pias redondas, que tomava inteiramente uma das paredes da menor das três salas, bastaria para satisfazer as necessidades higiênicas de um batalhão. Qualquer dessas pias poderia servir de banheira a um terrano não muito robusto. As finalidades de várias outras coisas só foram descobertas depois de algum tempo. Por exemplo, a mesa, que no seu estado normal era apenas uma placa colocada no chão. Ficaram refletindo por muito tempo sobre a serventia dessa placa, até que Reginald Bell, para obter uma visão melhor do objeto, dirigiu-se à cabeceira e, com isso, evidentemente, acionou algum contato oculto. A placa subiu instantaneamente, sustentada por quatro pernas retráteis, transformando-se numa mesa. Os prisioneiros não poderiam usá-la, pois a placa ficava tão alta que mal conseguiam olhar por cima da mesma. Mas haviam desvendado o mistério. Depois de terem inspecionado às instalações durante uma hora, tiveram uma ideia exata das instalações da prisão em que se encontravam. E também tiveram uma ideia bastante nítida do sistema de vigilância dos druufs. Esse sistema era primitivo, mas muito eficiente. Os serestoco haviam carregado seus trajes protetores. Dessa forma, nem sequer precisavam dar-se ao trabalho de trancar as comportas. Perry Rhodan fizera uma experiência a este respeito. As comportas abriram-se sem a menor dificuldade. Apenas acontecia que, para além da porta 8


exterior, existia uma atmosfera de amoníaco e metano com uma pressão de 2.500 torrs. Só mesmo um idiota pensaria em fugir por esse caminho. Os druufs não tinham necessidade de manter guardas no local. Portanto, estava tudo claro, com exceção da finalidade do aparelho com o aspecto de órgão de igreja, preso a uma parede, no aposento situado no centro, parecendo zombar de todas as tentativas de explicação. Mesmo no instante em que, cerca de duas horas após a chegada deles, a gravitação quase insuportável foi diminuindo, passando ao nível normal de 1 G, não lhes acudiu a possibilidade de que o “órgão” pudesse ter algo a ver com isso. Mas, a curiosidade dos terranos fora despertada. Então passaram a desmontar e examinar o “órgão” com a meticulosidade que costumam desenvolver, quando, se trata de satisfazer sua curiosidade. Tomaram conhecimento da finalidade do aparelho e, subitamente, tiveram uma idéia do que poderiam fazer com ele. *** A única criatura, que chegaram a ver durante os três dias de prisão, era um ser mecânico: um robô dos druufs, monstruoso como os seres que o haviam criado. Ele lhes fornecia os mantimentos. Ao que parecia, não sabia falar nem comunicar-se de outra forma. Chegava sempre à mesma hora, sem anunciar-se, colocava uma bandeja com travessa sobre a mesa, que se levantava à sua aproximação, e desaparecia. Voltava regularmente depois de uma hora, para levar os restos de comida. Esse ritual acontecia três vezes, a cada vinte e quatro horas. Perry Rhodan lhe fez algumas perguntas inocentes. O robô não respondeu e nem sequer reagiu às mesmas. Dessa forma, continuavam no escuro sobre o ponto mais importante: Quantos druufs havia na base subterrânea? Procuraram orientar-se por eventuais ruídos, mas tiveram de constatar que os únicos ruídos eram os causados por eles mesmos. Chegaram à conclusão de que, possivelmente, não havia mais ninguém no sistema de cavernas, com exceção deles mesmos e dos robôs. Porém, também era possível que as paredes e comportas tivessem sido feitas à prova de som, ou que os druufs se encontrassem tão longe que os ruídos causados pelos terranos não poderiam chegar aos seus ouvidos. Sabiam perfeitamente que, se houvesse um único druuf vigilante por perto, o plano não teria a menor chance de êxito. O ser-toco perceberia os sinais emitidos — isto é, a modificação do campo gravitacional — e não demoraria em descobrir, sua origem. Perceberia a intenção dos prisioneiros e tomaria todas as providências, para que a fuga não pudesse ser levada avante. Mas se o sistema de cavernas estivesse vazio, a situação seria diferente. Mesmo assim, os druufs captariam os sinais, mas estes também seriam detectados pelas pessoas às quais se destinavam. Restava saber se a primeira nave, que chegasse ao planeta, seria dos druufs ou

dos terranos. Por enquanto só tinham certeza de uma coisa. Não poderiam deixar de dar os sinais, pois estes representavam sua única possibilidade de entrar em contato com o mundo exterior. Então tomaram suas providências. Seria tanto mais fácil receber os sinais, quanto maior fosse a modificação temporária do campo de gravitação artificial ou, em outras palavras, quanto maior fosse a diferença entre dois níveis sucessivos de gravitação. As experiências de Perry Rhodan haviam revelado que o campo de gravitação podia ser reforçado para um máximo de 12 G. O nível mínimo ficava em cerca de 0,3 G, conforme se concluía pela redução do peso corporal. Isso significava que, quando começassem a transmitir, o peso de seu corpo cresceria, numa fração de segundos, em cerca de quarenta vezes, para depois voltar a um quadragésimo do valor anterior. Era claro que o homem manipulador da chave teria de ser revezado a intervalos curtíssimos. Caberia a ele a maior parte do trabalho. Depois de duas ou três modificações do campo gravitacional, o tal homem estaria totalmente exausto. Perry Rhodan foi o primeiro a executar essas funções. Sentou-se no chão e encostou-se à parede, numa posição em que pudesse alcançar a chave, sem levantar-se. Reginald Bell ergueu uma barricada de poltronas junto aos pés de Rhodan, para que a súbita modificação do campo gravitacional não fizesse escorregar seu corpo parede abaixo. As poltronas proporcionariam apoio aos pés. Uma vez concluídos os preparativos, Bell e seus dois companheiros deitaram-se no chão. Nessa posição, seria mais fácil suportar as repentinas modificações no nível de gravitação. Perry Rhodan estendeu a mão e viu que não havia nenhuma dificuldade em atingir a chave. Por um minuto fixou a pequena peça de metal cinzenta. Depois, para que os pulmões estivessem livres, quando viesse o choque, expeliu o ar e colocou a mão sobre a alavanca. Reginald Bell, Atlan e Fellmer Lloyd fitaram-no atentamente. Rhodan fez-lhes um sinal, e os três encostaram a cabeça no chão. Depois moveu a chave. A coisa foi pior do que imaginara! Tivera a intenção de nem deixar que o choque produzisse todos os seus efeitos. Prevenido, puxaria imediatamente a chave para cima. Mas não conseguiu. Sob a pressão do peso, aumentado em doze vezes, a mão escorregou da chave e o braço bateu pesadamente contra a parede. Perry Rhodan teve de recorrer a toda a força dos músculos para levantar o braço e colocar um dedo embaixo da alavanca. De repente, o peso tremendo foi tirado de cima de seu corpo. Mas a modificação, que levou a gravidade de doze vezes seu valor normal para menos de um terço desse valor, foi tão repentina que Perry Rhodan sentiu um súbito mal-estar. A manobra consumiu vinte segundos, e não meio 9


segundo, conforme previra no início. Perry Rhodan fez uma pausa para respirar. Encheu os pulmões e voltou a expelir o ar. Reginald Bell levantou a cabeça e fitou-o. Perry Rhodan fez um aceno com a cabeça e obrigou-se a sorrir. Depois moveu a chave pela segunda vez.

2 O Sargento Peter Rayleigh tinha certeza absoluta de que sua permanência à frente dos instrumentos era inútil. Nas últimas cem horas não havia acontecido nada em Hades, e Rayleigh apostaria que as próximas cem horas não trariam nenhuma novidade. Mas não havia ninguém com quem pudesse apostar. Peter Rayleigh encontrava-se numa pequena ramificação da gigantesca caverna, que os canhões de radiações da Califórnia haviam queimado na montanha rochosa, há três meses, a fim de abrigar a base com seu contingente de homens e equipamentos, Peter Rayleigh vigiava uma série de instrumentos altamente sensíveis, cujas escalas se encontravam à sua frente, sobre uma chapa de plástico. Vez por outra, Rayleigh lançava um olhar indolente para os indicadores luminosos, mas estes permaneciam na escala zero; nem pensavam em sair dessa posição. Peter Rayleigh era um jovem de apenas vinte e dois anos. Fazia um mês que ele e mais alguns homens de seu regimento foram designados para uma missão secreta. Nem Rayleigh e nem qualquer dos outros tinham a menor ideia do que se tratava, e, quando lhes explicaram, continuaram a não entender. Foram designados para reforçar ou revezar a guarnição da base. Disseram que Hades se encontrava em outra dimensão temporal. Peter Rayleigh e seus companheiros já haviam ouvido falar em dimensões temporais, mas não possuíam os conhecimentos matemáticos que lhes permitissem compreender o fenômeno. Para passar o tempo, Peter Rayleigh ficou refletindo sobre qual seria a distância entre a Terra e o ponto em que se encontrava. A indagação era tão interessante, e o quadro — um prado verde com numerosas flores, oferecido por sua fantasia — era tão cativante, que por pouco Rayleigh não notava que, subitamente, um dos indicadores da escala começou a movimentar-se. Tremeu, deslizou um pouco para a direita, voltou à posição original e executou outro movimento... Rayleigh sobressaltou-se. Viu que o indicador luminoso pertencia a um gravímetro, ou seja, um instrumento que mede â intensidade de campos gravitacionais. Era inacreditável que, nas proximidades da base, a intensidade da gravidade tivesse mudado duas vezes, com um pequeno intervalo; por isso, Peter Rayleigh pensou por alguns segundos que seus olhos lhe houvessem pregado uma peça. Manteve-se imóvel e fitou o aparelho.

Muito nervoso, procurou rememorar num raciocínio rápido o que deveria fazer num caso como este. Retiraria do respectivo cilindro os dados registrados pelo gravímetro, calcularia o desvio em relação ao valor normal, procuraria descobrir a origem do fenômeno que provocara a reação do aparelho e, por fim, entraria em contato com o Capitão Rous, comandante da base. Rayleigh ficou recitando esse procedimento, enquanto fitava atentamente a escala luminosa. O ponteiro havia voltado à posição zero e ali permanecia. Peter Rayleigh aguardou mais algum tempo — pelos seus cálculos, mais cinco minutos — lançou um olhar desconfiado para o mostrador e, com um gemido, reclinou-se na sua poltrona. Mal acabou de fazer isso, o ponteiro voltou a reagir. Repetiu tudo que Peter Rayleigh rememorara da primeira vez: um movimento trêmulo, a volta a um ponto próximo ao zero, outro movimento, seguido da volta ao ponto zero. De repente, Peter Rayleigh acordou! Levantou-se de um salto e, com um passo rápido, colocou-se ao lado da armação provisória sobre a qual se encontravam enfileiradas as caixas com os cilindros de medição, que emitiam um brilho fosco. Não teve de procurar muito tempo para localizar o cilindro correspondente ao gravímetro. Os dois ângulos agudos, que o estilete traçara em vermelho sobre a folha de papel deslizante, eram inconfundíveis. Com os dedos trêmulos, mas hábeis, Rayleigh abriu o visor de plástico, separou o pedaço de papel, sobre o qual se encontrava a indicação, cortando-o em cima e embaixo e retirou-o da máquina. Num gesto distraído, voltou a fechar o visor, enquanto fitava o papel. Os dois ângulos ficavam a uma distância aproximada de trinta segundos. Entre os mesmos, o valor registrado pela máquina e, portanto, a curva vermelha, descia em proporção exponencial, sem retornar à posição zero. Por um trecho a curva prosseguia na horizontal, para depois subir quase verticalmente, formando outro ângulo. O quadro era inconfundível. Aqueles dados eram causados pelo fato de alguém ligar e desligar um aparelho. Os pequenos trechos horizontais assinalavam o valor estacionário, propriamente dito, do campo gravitacional que estava sendo ligado e desligado. Esse valor era tão baixo que o gravímetro mal e mal conseguia registrá-lo. A pessoa que estava ligando e desligando os campos gravitacionais, fosse ela quem fosse, devia estar muito longe, ou então seu gerador não valia nada. No momento, Peter Rayleigh não saberia dizer qual das duas possibilidades era a correta. Para isso, precisaria das indicações de pelo menos mais um instrumento. Estava em condições de fornecer indicações apenas sobre a direção da qual provinham os efeitos gravitacionais, pois a folha de papel registrava a posição da antena direcional. Peter Rayleigh fez um cálculo mental dos respectivos ângulos, tentando formar uma imagem, e descobriu que os impulsos vinham de cima. Portanto, era altamente provável que o gerador gravitacional não se encontrava em Hades. Era um dado muito importante. Provava que o registro do aparelho 10


não poderia ter tido sua origem em alguma interferência, que porventura tivesse sido produzida no interior da base. Peter Rayleigh não precisou refletir muito para chegar a essa conclusão. Retornou ao seu lugar e fez uma ligação com o Capitão Rous. No momento exato em que o rosto de Rous surgiu na pequena tela do intercomunicador, Peter Rayleigh viu o mostrador luminoso do gravímetro fazer mais um movimento para a direita. *** O ordenança parecia bastante perturbado. O Marechal Freyt e o General Deringhouse foram levantando os olhos do mapa. Freyt parecia tão absorvido em suas reflexões que nem percebeu o embaraço do jovem oficial. — Pois não — disse em tom distraído. — Perdão, Sir — disse o ordenança. — Lá fora está uma... uma moça que quer falar com o senhor. Freyt parecia perplexo. — Uma moça? Como é que uma moça pôde entrar no edifício-sede do governo? O ordenança respondeu em tom inseguro: — Não... não sei, Sir. Ela tem todos os documentos necessários para entrar no edifício. Eu... bem... — Qual é seu nome? — Toufry, Sir. Miss Betty Toufry. Freyt soltou uma gargalhada. — Por que não disse logo? Mande-a entrar. O jovem oficial fez continência e afastou-se. Parecia ainda mais perplexo que antes. O General Deringhouse levantou os olhos do mapa e sorriu. Dali a alguns instantes, a “moça”, que deixara o ordenança tonto de tanto refletir, surgiu na porta. Era difícil avaliar a idade de Toufry. Alguém poderia pensar que tinha seus dezessete ou dezoito anos, se não fossem os olhos, que contemplavam o mundo com uma expressão sábia demais para essa idade. Pelos olhos Betty parecia ter ao menos trinta. Pouca gente sabia que, na verdade, estava perto dos oitenta anos. O segredo do misterioso ser coletivo do planeta Peregrino, que conferira uma imortalidade relativa a Perry Rhodan e alguns dos seus colaboradores mais chegados, era zelosamente guardado. Quando apertou a mão do Marechal Freyt e do General Deringhouse, Betty Toufry parecia um tanto nervosa. Freyt convidou-a a sentar. — Deixe-me adivinhar — principiou em tom amável. — Aconteceu uma coisa importante. Mas como o assunto não é tão urgente, você julgou melhor vir devagar, pessoalmente. Então, porque achava-se por perto, resolveu entrar... Não é isso mesmo? Betty sacudiu a cabeça. Um sorriso ligeiro surgiu em seus lábios. Conhecia o jeito de Freyt. Cada vez que se encontrava com ela, o general fazia questão de adivinhar seus pensamentos. Era um jogo com que costumavam entreter-se desde o tempo em que Betty Toufry ainda era uma criança; naquela época era a telepata mais competente

do Exército de Mutantes do planeta Terra. — Errou — respondeu Betty; seu rosto voltou a adquirir uma expressão séria. — O assunto é muito importante e muito urgente. Vim o mais rápido possível, a fim de expor o problema com todos os detalhes. Conrad Deringhouse estava sentado sobre a gigantesca escrivaninha. O Marechal Freyt lançou um olhar atento e insistente para Betty. — Mister Ellert deu sinal de vida! — disse Betty em tom exaltado. Deringhouse assobiou entre os dentes. — O que foi que ele disse? — perguntou. Betty parecia embaraçada. — Pois é justamente isso. Não entendi praticamente nada. Os impulsos vieram do mausoléu. Se por acaso não estivesse por perto, não teria percebido nada. Eram tão débeis que pareciam vir de uma distância de mil anos-luz, talvez mais. Os dois homens mantiveram-se calados. — Tudo aconteceu em cinco minutos — prosseguiu Betty apressadamente. — A única coisa que consegui compreender foi isso: “Venham logo!” Acho que não consegui captar sua mensagem sobre o para onde e por quê. Deringhouse e Freyt fitaram-se; pareciam bastante impressionados. — Não se preocupe sobre o para onde — disse Deringhouse, querendo consolar a telepata. — Você não está muito bem informada sobre os acontecimentos que se verificaram pouco antes e pouco depois da morte de Mr. Rhodan, e, por isso, não sabe onde Ellert se encontra. Em compensação, nós sabemos perfeitamente. É bem verdade que gostaríamos de obter alguma informação sobre o por que. Você teve a impressão de que Ellert estava com medo de alguma coisa? Via-se que Betty se esforçava para lembrar-se. — Sim e não — respondeu com um sorriso embaraçado. — Tenho certeza de que estava com medo, mas este medo não se referia à sua pessoa, mas a um terceiro... Deringhouse levantou a cabeça. — Ele disse: “Venham depressa.” Não foi isso? — Sim; foi a única coisa que consegui compreender. Deringhouse estava de pé à sua frente. Virou a cabeça e lançou um olhar indagador para o Marechal Freyt. — Não sabemos o que a frase significa — disse em voz baixa, como se já conhecesse a decisão de Freyt. — Justamente por não sabermos, precisamos cuidar do caso — disse Freyt e levantou-se. — Betty, se eu lhe desse ordem para interromper suas férias, teria alguma objeção? Betty fitou-o com uma expressão de franqueza. — Em absoluto, Marechal Freyt — respondeu. — Pois nesse caso, peço-lhe que por enquanto permaneça nas proximidades do mausoléu — disse Freyt. — Não podemos perder qualquer mensagem que Ellert 11


queira transmitir. Aliás, onde está esse rato-castor convencido? Deringhouse não sabia. — Não sei o que um ser de sua espécie costuma fazer nas férias. Mas tenho certeza de que conseguiríamos entrar imediatamente em contacto com ele... De repente, Betty soltou uma gargalhada. — Pois eu o vi há algumas horas — disse em tom alegre. — Ele me chamou para que desse uma olhada no seu jardim. — No seu jardim! — exclamaram Freyt e Deringhouse a uma voz. Betty fez que sim. — Isso mesmo. Ele comprou um pedacinho de terra e plantou cenouras. Por alguns segundos houve um silêncio estranho no grande gabinete do Marechal Freyt. Mas, de repente, todos irromperam numa gargalhada. O acesso de hilaridade durou bastante tempo. Porém, subitamente, Betty parou de rir e seu rosto assumiu uma expressão de perplexidade. — O que houve? — perguntou Freyt, respirando com dificuldade. Betty não respondeu. Enrugou a testa e ficou com os olhos semicerrados. Evidentemente estava “conversando” com alguém por uma via que ficaria para sempre fechada à maioria dos humanos: a via telepática. Quando Betty voltou a abrir os olhos e fitou Freyt, parecia prestes a irromper em outra gargalhada. — Ele se queixa porque estamos rindo dele — disse. — Ele? Quem? — Gucky, o rato-castor. Freyt arregalou os olhos. — Meu Deus! — disse. — Será que ele conseguiu ouvir a essa distância? — Pelo que diz, nossa disposição alegre foi bastante intensa — respondeu Betty. — Ele pondera que a situação alimentar do Império Solar seria muito melhor se todos fizessem o que ele está fazendo: produzir seus próprios alimentos. Conrad Deringhouse fez uma careta. — Durante a próxima missão insistirá em levar um vagão de cenouras plantadas por ele — disse. O rosto do Marechal Freyt estava sério de novo. — Eu lhe avisarei de que deverá revezar-se com a senhora na vigilância do mausoléu, Betty — disse. — A vigilância deve ser ininterrupta. Não podemos perder nenhuma das mensagens de Ellert. Daqui a alguns minutos, Gucky estará falando com você. Betty estendeu-lhe a mão. — Tomarei cuidado — prometeu. — Se ficar junto à entrada, talvez consiga compreender melhor as mensagens. Freyt fez que sim. Betty despediu-se também de Deringhouse e saiu. — O que pretende fazer? — perguntou Deringhouse, depois que a porta se fechou.

— Vamos dar uma olhada — respondeu Freyt. — Precisamos saber por que Ellert está chamando. Você irá com a Califórnia até a área de Fera Cinzenta e saltará com o transmissor fictício para Hades, que fica do outro lado da frente de superposição. Você sabe o que aconteceu com Ellert. Seu corpo humano jaz no mausoléu, imóvel, aparentemente morto, enquanto seu espírito existe no interior do corpo de um druuf, em outra dimensão temporal. Não sei como poderá fazer, a fim de aproximarse de Ellert. Em hipótese alguma, procure pousar em Druufon. Leve um excelente telepata para que, de Hades, possa entrar em contato com Ellert, que se encontra em Druufon. No mais, faça o que lhe parecer mais acertado. Receio que já lhe tenha dado conselhos e instruções demais. Um sorriso irônico surgiu no rosto de Deringhouse. — Gostaria de receber mais alguns — disse. — Com isso minha responsabilidade diminui. O Marechal Freyt parecia não ter ouvido a resposta. Lançou um olhar pensativo pela janela. — Tomara que Cardif não lhe crie problemas — disse Deringhouse. Freyt fez um gesto de indiferença. — Ele e seus adeptos encontram-se sob observação. Se tentarem qualquer coisa contra o governo, serão presos. Acho que Cardif é um homem com o qual não se deve perder tempo. Deringhouse fez um gesto afirmativo. Conhecia o Tenente Thomas Cardif por experiência própria. Era filho de Perry Rhodan e Thora, a arcônida. Do pai herdara o aspecto exterior, e da mãe, a mentalidade que ela tivera antes tio casamento: a presunção racista e o profundo desprezo que votava aos habitantes primitivos do planeta Terra. Deringhouse constatara que Cardif era um homem competente, que infelizmente não merecia confiança. Um elemento causador de problemas. Poucos dias atrás, quando a notícia da morte de Perry Rhodan, ocorrida na ocasião da destruição da base espacial de Fera Cinzenta, foi oficialmente divulgada na Terra, Cardif compareceu à sede do governo e declarou que era o único sucessor legítimo do pai. Foi um espetáculo! Era bastante inteligente para saber que dessa maneira não conseguiria atingir seu objetivo. Apenas prestara uma declaração que significava simplesmente: Quero o poder. Declarei guerra a vocês. Uma vez que pelo aspecto exterior era parecido com Perry Rhodan, não teve dificuldades em encontrar adeptos. Afinal, Perry Rhodan era o ídolo dos terranos, e havia muitas pessoas tão inexperientes em política que, só por causa da estima que devotavam a Perry Rhodan, também estavam dispostas a dar ouvido a seu filho, Thomas Cardif. Cardif e seus adeptos quiseram realizar uma passeata, mas esta foi proibida pela polícia. Pretendiam atravessar a cidade com alto-falantes, cartazes e tudo mais que despertasse a atenção popular para o ato. A polícia 12


dispersara os participantes e, dali em diante, os cardifianos, nome que Freyt lhes deu, iniciaram um trabalho subterrâneo. — Não — repetiu o Marechal Freyt em tom enfático. — Cardif não me preocupa. Existem pessoas que devem ser levadas mais a sério que ele, ao menos por enquanto. Enrugou a testa, olhou para Deringhouse e, fingindo-se de zangado, acrescentou: — Por que ainda está parado? Faça o favor de trabalhar. Um tanto sem jeito, Deringhouse fez uma continência. — Pois não, marechal! — respondeu. Freyt estendeu-lhe a mão. — Faça os preparativos com rapidez, mas também com cuidado — recomendou. — Não gostaria de ter de procurar outro general na frota. Antes de decolar, dê mais uma chegada até aqui. Deringhouse confirmou com um gesto. Depois se virou e saiu. *** Para dar todos os sinais em que haviam pensado, levaram uma hora e meia. E, depois dessa hora e meia, estavam tão cansados que não conseguiam manter-se de pé. Ficaram deitados no chão e respiravam com dificuldade. Nesse momento de esgotamento total, que não estariam em condições de defender-se nem mesmo de um ataque de uma criança, a porta interna da comporta abriu-se, mostrando um grupo de cinco druufs armados, que se encontravam no interior da comporta. Perry Rhodan levantou a cabeça. Foi a única coisa que conseguiu fazer. Viu os druufs, e compreendeu que seu plano falhara. Uma voz mecânica e monótona se fez ouvir. — É de admirar que, mesmo numa situação tão difícil, os senhores ainda possuam tamanho arrojo. Não podemos deixar de admirar a pertinácia dos senhores. Mas hão de compreender que não podemos ficar inativos, enquanto os senhores põem em polvorosa o Universo, apenas porque não querem continuar a ser nossos hóspedes. Aquela voz foi emitida por uma série de fitas, rodinhas e peças eletrônicas. Seu tom não poderia exprimir o sarcasmo da última frase. A voz falava em inglês. Os druufs já dominavam as línguas dos dois povos com os quais já haviam lidado na dimensão temporal do Universo einsteiniano: o arcônida e o terrano. A voz falava com uma estranha lentidão e tranquilidade. Esse fato não tinha sua origem na circunstância de não conhecerem perfeitamente o inglês. Antes, tinha sua origem na dimensão temporal dos druufs, que era duas vezes inferior à dos prisioneiros. O terrano só gastava cinco segundos para uma reação que, ao druuf, custaria dez segundos. Para estes seres, a velocidade da luz era de cento e cinquenta mil quilômetros por segundo! Enquanto se erguia lentamente, Perry Rhodan lembrouse disso. Fazia votos de que seus companheiros também se

lembrassem. Até então os druufs não haviam notado que os terranos eram mais rápidos que eles, e se estes tinham alguma intenção de usar a vantagem no futuro, seria preferível continuar a manter segredo em torno dela. Lentamente, mas a uma velocidade perfeitamente normal para os druufs, Perry Rhodan pôs-se de pé. Sorriu. — Sinto muito que lhes tenhamos causado problemas — disse. — É claro que jamais iríamos dispensar sua hospitalidade. Pelo contrário. Esperávamos que alguém ouvisse nosso chamado e viesse para cá, a fim de desfrutar a condição de hóspede dos senhores. Os três seres de três metros, que vinham na frente, entraram de vez. Os outros dois pararam no interior da comporta. Perry Rhodan viu os três gigantes aproximaremse dele e perguntou a si mesmo quais seriam suas intenções. Os druufs eram descendentes de insetos. Os quatro olhos facetados distribuídos simetricamente pela parte anterior do crânio, eram a prova evidente dessa descendência, tal qual a boca triangular em cujo interior as arcadas dentárias brancas emitiam um brilho traiçoeiro. O corpo tinha o aspecto de um cubo toscamente trabalhado. Era sustentado por duas enormes pernas, que não fariam vergonha a um elefante, e, por sua vez, sustentava dois braços robustos, cujas mãos terminavam numa série de dedos ridiculamente longos e articulados. Seria tão difícil conhecer a disposição de ânimo do druuf, apenas com base na expressão de seu rosto, como orientar-se numa grande metrópole, sem dispor de uma planta da cidade e nem de conhecimentos da língua ali falada. Perry Rhodan recuou dois passos. Mas, diante da voz saída da pequena tradutora, pendurada no peito do druuf que vinha na frente, logo se tranquilizou. — Não tenha receio. Não somos amigos da violência. Além disso, acreditamos que não terão nenhuma objeção às sugestões que vamos formular. — Que sugestões são essas? — perguntou Perry Rhodan, esticando as palavras para que os seres-toco não desconfiassem de que ele vivia numa outra dimensão temporal. — Acreditamos — respondeu o druuf, usando a tradutora e falando tão devagar quanto Rhodan — que aqui talvez seja muito apertado para os senhores. Se cada um dos senhores dispuser de acomodações separadas, acho que saberão apreciar melhor nossa hospitalidade. Perry Rhodan refletiu instantaneamente. Queriam separá-los, e assim evitar que continuassem a unir forças para a fuga. — Acho — respondeu com um sorriso — que não podemos aceitar a oferta, já que causará muitos incômodos aos senhores. Mas receio que ninguém se interesse por nossa opinião. — É verdade — confirmou a tradutora. — Dê-me a mão! Rhodan sentiu-se perplexo e obedeceu. Levantou a mão e estendeu-a em direção ao druuf. Este a segurou com 13


a direita. No mesmo momento, Rhodan percebeu que a esquerda dele segurou um objeto semelhante a uma seringa. — O que é isso? — perguntou em tom enérgico e falando mais depressa do que pretendia. — Queremos poupar-lhes o incômodo de envergarem esses trajes pesados durante a mudança. Este preparado é totalmente inofensivo. Apenas reduz suas funções orgânicas a um mínimo por alguns minutos. Por exemplo, não terá mais necessidade de respirar. Assim sendo, a atmosfera venenosa de metano não lhe fará mal. Perry Rhodan tentou retirar a mão. Mas seria inútil resistir às forças tremendas do druuf, mesmo para alguém que não estivesse tão cansado quanto Perry Rhodan. Sentiu uma picada curta e dolorosa na palma da mão. Quase no mesmo instante, perdeu os sentidos. Mas antes de cair ao chão, uma ideia-relâmpago atravessou seu cérebro. *** O Capitão Rous julgou a descoberta de Peter Rayleigh tão importante que ele mesmo resolveu ocupar-se detidamente com a mesma. Rayleigh provavelmente nunca teria descoberto o que significava aquele misterioso campo gravitacional, sujeito a modificações tão repentinas. As indicações do gravímetro repetiram-se a intervalos mais ou menos regulares pelo prazo de uma hora e meia. Rous observara os movimentos do indicador luminoso e depois se levantara para retirar do cilindro a linha ali traçada. Durante a hora e meia o gravímetro reagira ao todo nove vezes. Mareei Rous tinha diante de si o registro de oito desses movimentos, inclusive um registro que Peter Rayleigh havia retirado do aparelho. O registro do primeiro impulso geminado, o tal que fizera Peter Rayleigh acreditar que os olhos cansados lhe estavam pregando uma peça, ainda estava no cilindro e tinha sido coberto por várias camadas de papel. Para enorme espanto de Rayleigh, o Capitão Rous fez questão de que esse registro fosse retirado do cilindro. Isso deu uma canseira em Rayleigh. Depois do último movimento do indicador do gravímetro, haviam deixado passar quase uma hora; praticamente tinham certeza de que o gerador gravitacional não estava funcionando mais. Por isso, o cilindro de registro foi imobilizado, a fim de que Peter Rayleigh o pudesse girar para trás e separar o primeiro trecho do registro. Enquanto trabalhava, ficou refletindo constantemente por que Rous se interessara tanto por esse registro, já que todos eles eram iguaiszinhos, salvo as diferenças no intervalo temporal. Durante todo o tempo, Marcel Rous falou apenas o estritamente necessário. Peter Rayleigh ainda não o conhecia muito bem, motivo por que não percebeu o nervosismo do capitão. Seus dedos tremiam de forma quase imperceptível. Quando colocou lado a lado os oito

pedaços de papel e acrescentou o nono, que Rayleigh acabara de lhe entregar, os dedos de Rous tremiam um pouco. Levou alguns minutos estudando a série de registros. Depois virou-se para Rayleigh, que se encontrava atrás dele, olhando por cima de seu ombro, e perguntou: — Está notando alguma coisa, sargento? Peter Rayleigh já previa a pergunta. — Não — respondeu, mantendo-se fiel à verdade. — Não notei nada, capitão. Rous sacudiu a cabeça. — Estes jovens — começou — carregam seu minicomunicador no bolso e logo pensam que podem esquecer os veneráveis métodos de comunicação dos antepassados. A observação era um tanto ingênua, pois Rous não era muito mais velho que Rayleigh, mas este não deu pela coisa. Teve uma ideia. Rous aludira a veneráveis métodos de comunicação. Isso só podia significar... — Compare os intervalos temporais entre os ângulos — disse Rous em meio às suas reflexões. — Estava a ponto de fazer isso, capitão — respondeu Rayleigh. — Nos primeiros três sinais, o intervalo entre os ângulos é de vinte a trinta segundos. Nos sinais de números quatro a seis esse intervalo é de um minuto e meio. E, nos últimos três, volta a ser vinte a trinta segundos. O Capitão Rous confirmou com um gesto; parecia satisfeito. — Muito bem. Isso significa curto, curto, curto... longo, longo, longo... curto, curto, curto. O que vem a ser isso? — São... são... — gaguejou Rayleigh em tom exaltado — são sinais Morse. — Sargento, você é um rapaz inteligente — disse Rous. — Sim, são sinais Morse. E esta mensagem é o velho pedido de socorro da navegação marítima e aérea do planeta Terra: S.O.S.! Levantou-se. — Continue no seu posto, sargento — ordenou a Rayleigh. — A partir deste momento, a estação está em alarma. Chame-me assim que haja alguma novidade. Se não estiver presente, chame um dos outros oficiais. Entendido? — Sim senhor. O capitão saiu com uma pressa extraordinária e deixou Rayleigh mergulhado em suas reflexões. Marcel Rous ainda não sabia o que significavam esses estranhos sinais Morse; a única coisa que sabia era que alguém se encontrava em perigo. Era alguém que conhecia o alfabeto Morse terrano, e, por isso, muito provavelmente, era também um terrano. Dentro de pouco tempo saberiam de onde vieram os sinais. Em Hades havia várias estações observadoras como a que estava sendo guarnecida pelo sargento Rayleigh. Hades era uma base avançada, situada bem atrás das linhas inimigas, dispondo 14


de todo o equipamento de segurança. Bastava que mais um antigravímetro, situado a algumas centenas de metros do de Rayleigh, tivesse fornecido uma indicação para apurar o ponto exato de onde tinha vindo o S.O.S. Marcel Rous voltou ao seu gabinete pelo caminho mais rápido, pegou o microfone, anunciou o estado de alarma para toda a base e enviou alguns técnicos positrônicos para recolher os registros automáticos de todos os gravímetros. A seguir, elaborou um programa para o pequeno computador, positrônico da base. Dessa forma bastaria introduzir os dados fornecidos pelos outros aparelhos nos lugares adequados, a fim de que os mesmos pudessem ser processados imediatamente. Enquanto fez isso, ficou pensando no desconhecido que expedira a mensagem. Há alguns dias estava interrompida, por um tempo indeterminado, a ligação entre a Terra e a base de Hades, realizada por meio de três naves de abastecimento. A interrupção fora ordenada por motivos de segurança. O setor espacial adjacente à área de superposição estava cheio de naves dos druufs e dos arcônidas. Qualquer espaçonave terrana que operasse sozinha teria de assumir um grande risco, para entrar em contato com Hades por meio do transmissor de matéria. O grosso da frota fora retirado para o sistema de Vega, uma vez que ninguém sabia qual seriam os caminhos da política terrana depois da morte de Perry Rhodan. Por isso, as três naves de abastecimento se haviam retirado para um setor menos perigoso, onde aguardavam novas instruções. Marcel Rous concluiu que, a não ser que algum dos três comandantes tivesse desobedecido às instruções que lhe haviam sido fornecidas, nenhuma das naves poderia encontrar-se em situação difícil no Universo dos druufs. Portanto, o S.O.S. devia provir de alguém que não fosse tripulante dessas naves. E de alguém que evidentemente não dispunha dos recursos técnicos usuais, motivo por que teve de recorrer a um meio de comunicação tão inusitado. Suas reflexões foram interrompidas subitamente, quando recebeu os primeiros dados das medições. Um cabo da divisão positrônica trouxe uma pilha de papel especial, na qual estavam registradas, quase exatamente, as mesmas curvas pontudas traçadas pelo aparelho do sargento Rayleigh. A intensidade variava de caso para caso, e variava sensivelmente. Rous ficou satisfeito com isso, pois a posição do estranho transmissor só poderia ser determinada por meio da comparação dos níveis de intensidade. Rous pôs-se a trabalhar. Introduziu os novos dados no seu programa básico e deixou que o mesmo passasse pelo computador. Este forneceu duas coordenadas de ângulo, que, no momento, não significavam coisa alguma para Rous, e uma indicação de distância. Esta era de um bilhão e trezentos milhões de quilômetros. O resultado era tão surpreendente que Rous fez com que a máquina repetisse a operação. Só se convenceu da exatidão da cifra quando ela foi confirmada.

Acrescentou as novas séries de dados à medida em que as mesmas lhe chegavam às mãos. E, dispondo de um maior volume de informações, o computador pôde oferecer um resultado mais preciso. Enquanto o computador positrônico zumbia e dava estalos, ordenou ao cabo, que se mantinha de pé a seu lado, que consultasse o catálogo, a fim de verificar o que havia no lugar correspondente às coordenadas fornecidas pela máquina. O cabo retirou-se com os resultados do processamento, fornecidos por Rous, e voltou depois de alguns minutos. Rous fitou-o com uma expressão de curiosidade. — Trata-se de um dos sessenta e dois planetas deste sistema — disse o cabo. — Qual deles? — perguntou Rous. — O trigésimo sexto, capitão, se adotarmos o critério da distância média crescente ao sol. O planeta ainda não tem nome. — Sabemos mais alguma coisa a respeito dele? — É o maior planeta do sistema — respondeu o cabo. — O diâmetro é superior a duzentos mil quilômetros. A atmosfera é de metano e amoníaco. A gravitação na superfície é de 2,6 G. A temperatura média anual chega a cinco graus centígrados. Vê-se que é um planeta muito frio. Com certeza é desabitado. Rous interrompeu-o com um gesto. — Não diga com certeza. Os sinais vieram de lá! O cabo, que ainda não tinha conhecimento dos significados dos sinais, fitou-o com uma expressão de perplexidade, mas Marcel Rous não se sentiu incomodado com isso. Refletiu intensamente. Como é que um terrano, que conhece ao menos duas letras do alfabeto Morse, foi parar num planeta de metano do sistema dos druufs? Sem dúvida não foi para lá de sua livre e espontânea vontade. Logo, trata-se de um caso de avaria, ou então o expedidor da mensagem é um prisioneiro dos druufs. A hipótese da avaria poderia ser excluída com uma certeza quase absoluta. Desde o tempo em que foi criada a base de Hades, nenhum terrano teve de expor-se aos riscos de um voo direto. Todos foram transportados à base por meio do transmissor de matéria instalado em alguma nave, que se mantinha à espera junto à área de superposição. Então era um prisioneiro dos druufs. Alguma nave terrana caiu nas mãos dos seres-toco? Onde é que estes poderiam ter capturado prisioneiros terranos? Quais os membros da frota terrana que eram dados como desaparecidos? Marcel Rous não podia afirmar se alguém lhe informara ou não sobre o desaparecimento de um soldado raso. Mas Rous não acreditava que um soldado fosse capaz de usar um gerador gravitacional na transmissão de sinais. Mas havia quatro pessoas cujo desaparecimento a Humanidade lamentava há dez dias. Até então se tinha por certo que esses quatro terranos estavam mortos; teriam 15


perecido sob os efeitos das bombas arcônidas, lançadas no ataque-surpresa contra Fera Cinzenta. Seria possível que esses quatro homens tivessem escapado de Fera Cinzenta e caído nas mãos dos druufs? O Capitão Rous fez um exame de consciência. Será que aquilo era apenas um pensamento inspirado pelo desejo? Não. Por enquanto não havia prova objetiva de que Perry Rhodan realmente estivesse morto.

3 Depois da segunda transição, que a transportou a uma distância de mais de seis mil anos-luz, a Califórnia emergiu num setor espacial repleto de sinais de naves estranhas. Os remanescentes do combustível de plasma provocaram verdadeiras avalanches de impulsos nas pequenas câmaras de ionização que registravam a presença de minúsculas partículas na parte exterior da nave. Os detectores de cristal, regulados para faixa de ondas características dos mecanismos propulsores, emitiam seguidos lampejos. Essas cintilações vinham de distâncias situadas entre dez e cem milhões de quilômetros; por enquanto as naves de cujos propulsores provinham não representavam nenhum perigo para o cruzador Califórnia. Mas isso poderia mudar. Para uma nave que alcança facilmente uma aceleração correspondente a 50 mil vezes o valor normal, dez ou mesmo cem milhões de quilômetros tornam-se uma distância ridícula. E a uma distância de milhões de quilômetros, a Califórnia já apareceria como um pontinho de luz no rastreador de matéria da nave inimiga, e, dali em diante, as chances de escapar, sem ser molestada, eram mais que reduzidas. A frota de bloqueio arcônida, que se encontrava em posição para que nenhuma nave dos druufs pudesse atravessar a área de superposição e penetrar no Universo einsteiniano, era formada de trinta mil unidades. Para os arcônidas, não haveria nenhum problema em destacar algumas centenas dessas naves, a fim de caçar o cruzador terrano. A Califórnia era ágil e veloz, porém seu armamento era bastante escasso. Conrad Deringhouse transferiu o comando da nave ao Major Ostal. Clyde Ostal era um daqueles homens que, na gíria da frota, são designados como raposas do espaço. Sabia o que estava em jogo naquela missão. Já acumulara bastante experiência na técnica de combate das naves arcônidas tripuladas por robôs. A transição, que o levou da Terra até a área de superposição onde se verificava o encontro de duas dimensões temporais, era uma verdadeira façanha galatonáutica. O grupo de ação de Deringhouse estava pronto para partir. Era composto de três homens, mas deve-se ressaltar que a palavra homens não pode ser tomada ao pé da letra.

Os três membros do grupo eram o próprio Deringhouse, o teleportador Ras Tschubai e o rato-castor Gucky, o mutante mais competente da frota. Os três já haviam colocado seus trajes protetores e aguardavam o momento em que a Califórnia atingisse o ponto em que o transmissor tornasse possível o salto direto para Hades. A nave estava perfeitamente equipada para a operação. Três transmissores semelhantes a gaiolas enchiam quase toda a sala de comando. O Major Ostal e os três oficiais de elevada patente mal conseguiam mover-se no interior da mesma. Uma vez que não havia lugar para sentar, Deringhouse e seus companheiros já se encontravam no interior dos transmissores, observando pelas gradeadas portas abertas o que se passava na grande tela panorâmica. O aspecto da imensa frente de superposição era medonho. Do lugar em que se encontrava a Califórnia, toda a área era visível. Parecia uma fina nuvem de gases vermelhos incandescentes; atravessava o firmamento de lado a lado e absorvia o brilho das estrelas. Tinha o aspecto de um monstro ameaçador, prestes a devorar o Universo. A luminosidade vermelha provinha das aberturas circulares de inúmeros funis, pelas quais se descarregava a diferença dos níveis energéticos que prevaleciam no Universo einsteiniano e no dos druufs. Com isso, era criada uma ponte que permitia a passagem de uma dimensão à outra. Em virtude do surgimento desses funis de descarga, a passagem de um Universo para outro se tornou possível. O salto executado pelo Major Ostal, que levara a nave para as proximidades da área de superposição, era uma verdadeira façanha; no entanto, a Califórnia ainda se encontrava a mais de quinze milhões de quilômetros do funil de descarga mais próximo, e ninguém iria executar um salto que faria a nave transpor essa distância e parar em lugar incerto. Essas preocupações martirizavam a mente do Major Ostal. Com uma expressão pensativa, examinou os instrumentos. Sabia que a Califórnia seria atacada, caso ligasse os mecanismos propulsores por uma única vez que fosse. Os arcônidas não estavam na área para fazer um piquenique. Mantinham os olhos bem abertos, para que nenhuma nave dos druufs lhes escapasse, e esses mesmos olhos enxergariam prontamente a luminosidade dos mecanismos propulsores da Califórnia. Por enquanto, esta se deslocava livremente, desenvolvendo a reduzida velocidade remanescente, sempre em sentido paralelo à frente de superposição. Clyde Ostal dirigiu-se ao General Deringhouse, que estava sentado tranquilamente em seu transmissor. — Só temos duas alternativas, Sir — disse. — Podemos acelerar por meio do propulsor, ou então realizaremos uma transição a pequena distância que nos levará para junto da frente. Deringhouse viu os lampejos que surgiam constantemente nas superfícies de projeção dos detectores 16


de cristal. — Uma alternativa é tão miserável como a outra — respondeu em tom contrariado. — Se usarmos o propulsor, com o tempo seremos localizados; em compensação poderemos ver o que se passa em torno de nós. Se realizarmos uma transição, não seremos localizados. Entretanto, por outro lado, não sabemos se iremos parar em meio a um enxame de naves. Em minha opinião, poderíamos tirar a sorte, major. — Gosto de tomar decisões baseadas nos aspectos lógicos do problema, mas desta vez tais aspectos parecem estar ausentes — disse. Deringhouse levantou-se e saiu do transmissor. Espremeu-se junto a outra jaula e, praticamente, teve que jogar-se por cima do ombro de Ostal, para ver as indicações dos detectores. O visor ótico trabalhava pelo sistema de radar: quanto mais próximos à periferia da superfície de projeção surgiam os lampejos, maior era a distância da Califórnia. Depois de fitar atentamente a tela por alguns minutos, Deringhouse apontou para o lugar onde vira o menor número de lampejos. — Por aqui o movimento não parece ser muito grande — disse, dirigindo-se a Ostal. — Se saltarmos para este lugar será melhor. — A não ser — ponderou Ostal — que nesta área haja um grupo de naves arcônidas com os propulsores desligados. — É verdade — confirmou Deringhouse. — Mas não podemos deixar de assumir um risco. E tenho a impressão de que este será o risco menor. Clyde Ostal leu cuidadosamente os dados da tela. — Esta área fica a vinte e cinco milhões de quilômetros do lugar em que nos encontramos— constatou. — Mas fica a apenas oitenta mil quilômetros da frente de superposição. — Pois é justamente o que precisamos — disse Deringhouse em tom animado. — Vamos! O que estamos esperando? Clyde Ostal tomou às pressas os preparativos para a transição. Os dados foram introduzidos no piloto automático e o mecanismo de hiperpropulsão foi preparado para entrar em funcionamento. Os homens dos postos de artilharia receberam ordens de redobrar a vigilância. Os homens que se encontravam no interior das jaulas gradeadas dos transmissores instalaram-se o mais confortavelmente que puderam. A dor provocada pela transição foi ligeira e perfeitamente suportável. O quadro surgido na tela sofreu uma modificação repentina. A luminosidade vermelha tornou-se mais intensa e mais escura, e a boca de um gigantesco funil de descarga parecia a de um monstro, tentando devorar a pequena Califórnia. A tremenda figura trêmula e incandescente parecia precipitar-se sobre o cruzador. As paredes vermelhas pulsavam, enquanto se processava a compensação energética. Bem ao longe, a

abertura do funil se estreitava, transformando-se num ponto luminoso. A luz, que fazia brilhar esse ponto, vinha de outro mundo. O ponto era a fronteira entre dois universos. Quem o ultrapassasse estaria na dimensão temporal dos druufs. Conrad Deringhouse inclinou-se para frente, puxou a porta gradeada e fechou-a. Gucky e Ras Tschubai seguiram seu exemplo. O estalo das fechaduras era o único som que se ouvia em meio ao silêncio tenso da sala de comando. Deringhouse fechou o capacete do traje protetor, colocou a mão sobre o pequeno painel de controle, que ficava à direita do assento, e comprimiu o botão que acionava o sinal do transmissor colocado na outra extremidade da trajetória de salto, no subterrâneo da base de Hades. Esse sinal significava que um salto era iminente. Deringhouse sabia que o transmissor de Hades era vigiado ininterruptamente. Dentro de alguns segundos devia iluminar-se o sinal de confirmação, indicando que o operador estava atento e que o aparelho achava-se pronto para receber o objeto do salto. Esses poucos segundos quase bastaram para condenar a operação ao fracasso. A voz de Clyde Ostal e as sereias de alarma soaram ao mesmo tempo. Sobre a superfície verde da grande tela de observação, viu-se o rastro de um ponto luminoso que avançava em direção ao centro. Outros pontos surgiram na extremidade inferior esquerda e também se dirigiram ao centro. A Califórnia estava cercada por naves arcônidas. Estas já haviam localizado o cruzador terrano, e dispuseram-se a verificar qual era o objeto provocador do reflexo em seus aparelhos de localização. O alcance dos aparelhos inimigos era de um milhão de quilômetros. Concluía-se que a nave arcônida, que primeiro localizou a Califórnia, não podia encontrar-se a uma distância maior que esta. E isso significava que a mesma chegaria dentro de alguns segundos. Clyde Ostal interrompeu o ruído estridente das sereias de alarma, a fim de poder comunicar-se com os tripulantes. As ordens foram lacônicas e precisas. Os postos de artilharia da Califórnia obtiveram a liberação do fogo, enquanto a tripulação se preparava para outra transição. Conrad Deringhouse encontrava-se no interior de seu transmissor, aguardando o sinal verde expedido pelo outro aparelho. Estava com a mão pousada na chave que executaria o transporte, assim que o caminho estivesse desimpedido. Olhou pelas grades de sua jaula e viu que Ras Tschubai e Gucky também aguardavam com enorme tensão o momento decisivo. O que estaria acontecendo com o sinal? A Califórnia abriu fogo. O campo antigravitacional absorveu prontamente o choque de aceleração provocado pelo recuo dos canhões de impulsos. Uma pessoa não familiarizada com a nave não acreditaria que os canhões haviam disparado. A única prova do disparo era um pontinho luminoso branco que subitamente surgiu na tela, 17


contrastando com o negrume do espaço. Uma das naves arcônidas fora atingida. — Se o sinal não chegar dentro de dez segundos, desapareça — gritou Deringhouse. Clyde Ostal confirmou com um gesto, sem olhar para Deringhouse. Tinha os olhos pregados na tela verde do aparelho de localização, que constantemente mostrava os reflexos de outras naves arcônidas. Conrad Deringhouse contou mentalmente os segundos: “... cinco... seis... sete...” Conrad Deringhouse tirou a mão de cima da chave. O sinal não chegaria antes que a situação da Califórnia se tornasse crítica. Um único disparo de radiações do inimigo atingiu os campos defensivos do cruzador terrano e fez com que estes se iluminassem. No mesmo instante, a luz verde acendeu-se! A mão de Deringhouse estava apenas a alguns centímetros da chave. Deixou-a cair para frente e gritou: — Já não estamos aqui! Depois moveu a chave, que cedeu com um clique. Naquele instante, a sala de comando da Califórnia desapareceu para Conrad Deringhouse e os dois mutantes. *** O recinto estava frio e escuro. Perry Rhodan acordou com um pensamento pouco amistoso, provocado por aquilo que os druufs chamavam de hospitalidade. Levantou-se. Para seu espanto, isso não lhe custou nenhum esforço. Ao menos o medicamento cumprira aquilo que fora prometido pelos druufs: não apresentava nenhum efeito colateral. Rhodan estendeu a mão e procurou tatear as paredes da cela em que se encontrava. Era simples. O recinto tinha o formato aproximado de um quadrado de quatro metros de lado. Nem mesmo com um salto conseguiu atingir o teto. Devia ficar a quatro ou cinco metros de altura. Numa das paredes parecia haver uma porta. Rhodan sentiu duas ranhuras paralelas. Além disso, havia um campo de gravitação artificial, pois a gravidade no interior do recinto não ultrapassava a intensidade normal da gravidade da Terra. Rhodan ficou espantado. Era estranhável que os druufs, que o haviam trancafiado numa cela fria e pequena, na qual não havia nada além dele mesmo, se tivessem dado ao trabalho de tornar-lhe a situação mais suportável por meio de um campo de gravitação artificial. De repente lembrou-se da idéia que tivera no momento em que a injeção o deixou inconsciente. Agachou-se no chão e começou a concentrar-se. Esforçou-se para imaginar a presença de Fellmer Lloyd. Depois de alguns minutos conseguiu. O rosto de Lloyd surgiu num pálido círculo luminoso que se destacava na escuridão. Estava sorrindo. — Onde está o senhor? — emitiu Rhodan. — Numa cela escura — respondeu Lloyd imediatamente. — Seu tamanho é de quatro metros por

quatro metros. O teto é bem alto, não há móveis, é fria, tem uma porta que está trancada e há um terrível mau cheiro. — É amoníaco — disse Rhodan. Proferiu a palavra em voz alta, porque os pensamentos se formulavam com maior precisão, quando concebidos juntamente com a palavra falada. Também ouvia as palavras de Fellmer Lloyd como se este as pronunciasse à sua frente. Mas isso não passava de uma ilusão dos sentidos. Era o dom telepático de Lloyd que provocava uma espécie de ressonância em suas células cerebrais. Perry Rhodan não era um telepata nato. Ou melhor, sempre possuíra essa qualidade, mas a mesma era recessiva. Só depois de um treinamento intensivo e do apoio de telepatas experimentados, Rhodan pôde colocarse em condições de usar a faculdade. Continuava a ser um telepata fraco, pois só conseguia receber mensagens, quando as condições fossem extraordinariamente favoráveis. Mas o dom lhe permitia entrar em contato com outro telepata. — Preste atenção — disse, dirigindo-se a Lloyd. — Deve haver um meio de abrir a porta. Os druufs não têm nenhuma necessidade de prender-nos. Sabem perfeitamente que nunca sairíamos espontaneamente, pois existe o ar venenoso do planeta. Lloyd parecia fazer um gesto afirmativo. — Isso parece bastante razoável — emitiu. — Acontece que na porta não há maçaneta nem botão. — Lembra-se da mesa? — perguntou Rhodan. — Bastou aproximarmo-nos de determinado lugar e logo a mesa ficou na sua posição normal. — Ah, sim. Então o senhor acha que basta colocar a mão em determinado lugar para que a porta se abra? — Exatamente. Provavelmente para os druufs isso nem chega a ser um mistério. É de supor que estejam acostumados a abrir portas dessa forma. — Mas é possível que esse lugar fique tão alto que nem conseguiríamos alcançá-lo — ponderou Lloyd. — Afinal, os seres-toco têm três metros de altura. — Temos de experimentar — decidiu Rhodan. — Não podemos ficar parados, esperando que os druufs tenham outra ideia. Precisamos sair. Assim que terminou de proferir estas palavras, sentiu a perplexidade de Lloyd. Adiantando-se à pergunta deste, disse: — Por quanto tempo você aguenta sem respirar? Lloyd ficou confuso. — Como? — Quanto tempo o senhor pode passar sem respirar? Uma luz acendeu-se na mente de Lloyd. — Não sei exatamente — respondeu. — Talvez seja mais ou menos um minuto. — Não se esqueça de que terá de trabalhar durante esse tempo — lembrou Rhodan. — De qualquer maneira terá tempo de sobra. Preste atenção. Passarei a expor meu 18


plano. Repita cada frase, para que eu saiba que a transmissão está funcionando. *** Os terranos passaram a chamar esse druuf de Tommy, um comandante político. Na verdade, seu nome era composto de uma série de ultrassons, imperceptíveis ao ouvido e impronunciáveis pela língua do homem. O conjunto usado dava a entender que se tratava de um alto dignitário. Esse conjunto era ao mesmo tempo um traje especial de trabalho e de proteção contra radiações. Para os druufs, o cinza-escuro era a cor mais bela do mundo. Por isso, várias faixas cinza-escuras enfeitavam o traje quase negro do druuf, a fim de indicar sua graduação. Por mais que esses seres diferissem dos homens, os pensamentos de ambas as raças seguiam trilhas idênticas. Este druuf, por exemplo, estava sentado atrás de uma monstruosa mesa, e trabalhava em alguma coisa. Procurava calcular por quanto tempo ainda teria de esperar nos recintos pouco agradáveis da base subterrânea do planeta de metano, antes que viesse o revezamento. Aceitara o posto de comandante da base, pois, assim que voltasse para Druufon, este lhe renderia uma promoção. Para isso, teria de passar meio ano fora de Druufon, no interior das cavernas. E agora só faltavam poucos dias para completar meio ano. Seu sucessor deveria chegar a qualquer momento. Tommy lembrou-se de que a acomodação adequada dos prisioneiros e a frustração da tentativa de fuga — para ele, a manipulação do gerador antigravitacional pelos prisioneiros representava nada menos que isso — seriam atos que pesariam a seu favor, quando chegasse o momento de ser avaliada sua atuação. Quando voltou a dedicar sua atenção ao trabalho que tinha sobre a mesa, seus quatro olhos facetados brilhavam. Uma comissão de altos funcionários anunciara sua chegada. Desembarcariam no planeta de metano dentro de alguns dias de Druufon. Não sabia se nessa oportunidade a base ainda se encontraria sob seu comando ou se seu sucessor já teria assumido as funções. Ao lembrar-se de que devia tomar todas as providências para que os visitantes fossem tratados condignamente, Tommy sentiu-se contrariado. O anúncio da próxima visita trouxe certo mistério. Os funcionários viriam para interrogar os prisioneiros. Entre os nomes anunciados havia os de alguns membros da aristocracia de Druufon. Por que essa gente se daria ao trabalho e aos incômodos de uma visita ao planeta de atmosfera venenosa? Por que não mandaram levar os prisioneiros a Druufon para interrogá-los? Tommy não sabia quem eram os prisioneiros dos quais tinha de cuidar. Uma espaçonave os trouxera e os mesmos lhe foram entregues com a indicação de que se tratava de terranos. Ainda lhe disseram que, em hipótese alguma, deveria deixar que fugissem. Também outras pessoas com

as quais entrou em contato não sabiam qual a grande importância dos prisioneiros. O simples fato de a comissão pretender vir de Druufon parecia indicar que, naquela cidade, desejavam manter em segredo não só a identidade dos prisioneiros, mas até mesmo o próprio ato de prisão. Tommy voltou a estudar a lista dos nomes. Depois de algum tempo, teve a impressão de que deveria procurar um dos subordinados para falar sobre o problema. Pegou o pequeno videofone, que se encontrava sobre a mesa, e comprimiu uma tecla. A tela iluminou-se e o sinal de linha livre se fez ouvir; era um ruído agudo e chiante. Mas a tela continuou vazia. Ninguém respondeu do outro lado da linha. “Que diabo! O que aconteceu?”, pensou irado. A essa hora, seu subordinado, que os terranos teriam chamado de Oscar, um oficial-cientista, devia estar trabalhando. Não tinha autorização para sair do local de trabalho. Por que não respondia? Tommy deixou a ligação em aberto e voltou a dedicar sua atenção à lista. Depois de algum tempo começou a ficar nervoso. Levantou-se e foi até a porta. Para abri-la, colocou a mão finamente articulada na parede junto à porta e à meia altura desta. A porta escorregou para o lado, deixando livre a entrada da comporta. Do outro lado estava o corredor principal do sistema de cavernas. Uma vez no interior deste corredor, o druuf colocou o capacete e fechou-o. Deixou que a porta interna se fechasse e esperou que as bombas aspirassem o ar respirável e enchessem o recinto com a mistura venenosa de metano e amoníaco. Saiu. Nessa parte da caverna existiam as condições de gravitação do planeta Druufon. Mais adiante, no lugar onde ficavam as celas dos prisioneiros, até haviam criado mais um campo gravitacional que reduzia a gravidade a 1 G. Não queriam cansar desnecessariamente os terranos, antes da chegada da comissão. Mas, no resto da caverna, reinava integralmente a gravidade própria do planeta de metano. Seria um desperdício de energia proporcionar proteção antigravitacional para toda a caverna, pois, nas outras partes, só havia peças sobressalentes e matériasprimas, e os homens que trabalhavam lá eram de graduação inferior. Tommy subiu na fita rolante e saltou na terceira porta adiante. Chegou à comporta da sala com a qual procurara entrar em contato pelo videofone. Abriu imediatamente a comporta e entrou. O bombeamento foi repetido, mas em sequencia invertida. Em apenas alguns segundos, a atmosfera venenosa, sob alta pressão, foi expelida pelas bombas. Simultaneamente, o bombeamento encheu o recinto da mistura de oxigênio e nitrogênio. Tommy deixou o capacete cair nas costas e, abrindo a porta interna, entrou na sala. À primeira vista, o recinto parecia estar vazio, com exceção do mobiliário abundante que o guarnecia. Não viu Oscar. Seus gritos furiosos ficaram sem resposta. 19


Contornou a escrivaninha e... Logo viu Oscar. Estava estendido atrás da mesa de trabalho e tinha um olho fechado. Tommy soltou um grito estridente de surpresa e abaixou-se para ver o que havia acontecido com seu subordinado. Apalpou sua mão. Estava mole e fria. Pôs o dedo em determinado ponto do braço onde deveria sentir a pulsação da mistura de sangue e linfa. Durante alguns terríveis segundos, chegou a acreditar que Oscar estivesse morto. Mas comprimiu mais fortemente o lugar e sentiu as ligeiras batidas. Dali a pouco descobriu a ferida, que se encontrava na parte inferior da esfera sem cabelo, perto do lugar em que a mesma se ligava ao corpo. A “esfera” estava amassada. Oscar devia ter sido atingido por uma pancada muito violenta. Ou talvez apenas tivesse caído. De qualquer maneira já sabia por que Oscar não respondera a seu chamado. O ferimento era grave. Se fosse um pouco mais profundo, teria sido mortal. No entanto, era provável que Oscar escapasse com vida. Porém, as funções cerebrais estariam prejudicadas para sempre. O cérebro dos druufs era muito sensível, desde que se soubesse onde golpear. Tommy sabia o que devia fazer. Antes de tudo, teria de avisar o serviço médico, para que este prestasse os primeiros socorros a Oscar. Depois deveria providenciar, a fim de que o paciente fosse levado a Druufon. No planeta de metano não seria possível dispensar-lhe o tratamento de que precisava. Tommy refletiu por algum tempo sobre se esse incidente poderia lançar uma luz desfavorável na sua atuação como comandante. Mas logo concluiu pela negativa. Se Oscar caiu e sofreu ferimentos graves, o único culpado era ele mesmo. Tommy ergueu-se. Isso lhe custou um considerável esforço, pois o corpo dos druufs foi feito exclusivamente para andar ereto. Ficar sentado era bastante desagradável, muito embora essa posição fosse indispensável para muitos trabalhos. Só de noite ficavam deitados. Não foi nada fácil erguer aquele corpo que nas condições gravitacionais de Druufon pesava quatrocentos quilos. Por isso, quando descobriu a pequena criatura, que estava de pé em cima da mesa, já era. Fez um esforço para erguer-se rapidamente. Mas a criaturinha segurava um objeto reluzente e comprido, maior que ele mesmo, brandiu-o ameaçadoramente. Tommy procurou desviar-se do golpe, mas não conseguiu sair em tempo do raio de ação daquela vara. A forte pancada atingiu-o exatamente no mesmo lugar em que Oscar fora atingido, isto é, na junção da cabeça com o tronco. Tommy deu mais um passo, cambaleou e caiu ruidosamente sobre seu subordinado. Nem chegou a ver o pequeno ser atirar para longe a vara reluzente e massagear os braços, praguejando sempre. *** Fellmer Lloyd bem que precisava da massagem.

Acabara de derrubar dois druufs e colocara toda a força de que dispunha nos golpes desferidos. Fellmer Lloyd teve a impressão de que os braços lhe estavam sendo arrancados, mas conseguira escapar ileso. O plano de Perry Rhodan estava funcionando! E era tão simples. A pressão da mistura de amoníaco e metano no interior da caverna era de dois mil torrs, ou seja, 2,7 atmosferas. O ser humano poderia perfeitamente suportar essa pressão, desde que tapasse os ouvidos e prendesse a respiração. Cada recinto da caverna possuía sua comporta independente, e a troca da atmosfera existente no interior desta demorava apenas alguns segundos. Por isso, o ar venenoso nos corredores já não era um obstáculo insuperável. Bastava colocar um pedacinho de pano nos ouvidos e no nariz, comprimir a mão contra a boca, precipitar-se até a comporta da sala mais próxima e entrar. Era verdade que havia um fator de incerteza: a gravitação. Perry Rhodan esperara que fora das celas dos prisioneiros reinasse a gravitação normal do planeta. Nesse caso, provavelmente, teriam de arrastar-se com dificuldade, e talvez levassem mais de quarenta segundos para chegar de uma comporta a outra. Mas, por um feliz acaso, naquela parte do subterrâneo reinava a gravitação de Druufon, correspondente a 0,95 do nível terrano. Uma vez concluídos os preparativos, Perry Rhodan e Fellmer Lloyd puseram-se a caminho simultaneamente. Cada um viu o outro abrir a comporta e sair correndo, um para a direita e outro para a esquerda. As celas eram vizinhas. De início acreditavam que os druufs os houvessem abrigado num canto afastado da caverna. Raciocinavam de acordo com a mentalidade terrana. As celas ficariam no porão e os escritórios no primeiro andar. Fellmer Lloyd não demorou a descobrir que, neste ponto, as ideias dos druufs eram completamente diferentes. Mas, antes disso, teve a sorte de encontrar uma espécie de depósito. Assim que sua comporta se abriu, saiu correndo sem escolher a direção. Não perdeu tempo em escolher a fita rolante mais adequada. Depois, deslocando-se fora das fitas, chegou à primeira comporta. Isso não lhe custou maiores esforços. No momento em que manipulou o mecanismo de abertura — já sabia que todos ficavam à direita da porta, a pouco menos de dois metros de altura — sentiu-se martirizado por fortes zumbidos no ouvido. Mal conseguiu prender a respiração até o momento em que a comporta se encheu com a mistura respirável. A rápida normalização da pressão deixou-o um pouco tonto, mas sentia-se forte e ávido de ação como antes. Na sala que ficava atrás da comporta havia uma quantidade enorme de armações sobre as quais se viam os mais variados objetos, desde minúsculos parafusos até tubos de três metros de comprimento, que provavelmente constituíam peças sobressalentes dos aparelhos de bombeamento. Face ao tamanho dos druufs e às dimensões dos recintos em que viviam, escolheu um pedaço de tubo 20


de pouco menos de dois metros de comprimento. Era bem pesado, mas teve a impressão de que conseguiria segurá-lo e usá-lo para desferir golpes, caso isso se tornasse necessário. Não “ouviu” nada de Perry Rhodan. Captou fragmentos de ideias, mas não conseguiu descobrir de onde e de quem provinham. Concentrou-se fortemente e percebeu que, na sala contígua do lado esquerdo, havia alguém. Reconheceu o modelo de vibrações, mas não foi capaz de ler os pensamentos. Estes provinham de um cérebro estranho. Do cérebro de um druuf. Sentiu-se dominado pelo pânico. Já sabia que a parte do subterrâneo em que se encontrava não era nenhum recanto afastado nem estava vazia. Devia prevenir Perry Rhodan. Este era telepata, mas quando se defrontasse com alguém que pensasse com um cérebro inumano, não reconheceria qualquer pensamento; quando muito sentiria dor de cabeça. Lloyd concentrou-se ao máximo para chamá-lo. Depois de algum tempo, conseguiu estabelecer contato com Rhodan, que, neste meio tempo, havia penetrado nas celas de Reginald Bell e Atlan e os avisara sobre os acontecimentos mais recentes. Há essa hora, os três estavam vasculhando o corredor do lado oposto ao da cela de Lloyd. Fellmer Lloyd pegou o pedaço de tubo e pôs-se a caminho. Desta vez, soube controlar melhor a respiração; quando se encontrava no interior da comporta seguinte, também não sentiu qualquer espécie de mal-estar. Assim que conseguiu respirar normalmente subiu pelas travessas do sistema de bombeamento. Encontrou um lugar em que podia prender as pernas atrás de uma vareta de metal, e assim ficou com as mãos livres. A posição não era muito cômoda. Esperava não ter de suportá-la por muito tempo. Experimentou a melhor maneira de manejar a “arma” de que acabara de apoderar-se e ficou satisfeito com o resultado. Depois bateu fortemente com a peça metálica contra a porta interna. Percebeu que o druuf que se encontrava no interior da sala notara alguma coisa. Voltou a bater. O druuf levantou-se para verificar o que estava acontecendo em sua comporta. Fellmer Lloyd estava pendurado uns três metros e meio acima do chão. O druuf viu-o imediatamente, mas o susto paralisou-o por alguns segundos. Os olhos facetados brilhantes fitaram a estranha e pequena criatura. Fellmer Lloyd teve tempo para levantar o tubo metálico e golpear violentamente a cabeça do druuf. Não esperava que o resultado fosse tão rápido. O fato é que o ser-toco caiu, desfalecendo. Lloyd desceu pelas travessas metálicas e examinou a ferida que causara no druuf. Não parecia muito perigosa. Concluiu que, nessa parte do crânio, devia localizar-se algum órgão muito sensível, talvez o cérebro. Procurou lembrar o lugar. Tinha de contar com a possibilidade de que o corpo do druuf, deitado parte na comporta, parte no interior do recinto, provocaria a desconfiança de qualquer pessoa que

entrasse ali. Por isso fez um esforço tremendo e arrastou-o até a gigantesca escrivaninha. Escondeu-o atrás da mesma e começou a procurar armas. Não acreditava que ele, Perry Rhodan e os dois outros conseguissem conquistar a base subterrânea, se tivessem que derrubar todos os habitantes da caverna, um por um, com a peça de metal. Logo depois, ver-se-ia obrigado a usar pela segunda vez a arma original. Assim que iniciou sua busca, o videofone chamou. Naturalmente deixou de responder ao chamado. Nem saberia como lidar com o aparelho. Tornou-se ainda mais cauteloso. Dali a pouco, captou as vibrações cerebrais de um druuf que se aproximava! Escondeu-se com a “arma”, entre a escrivaninha e uma espécie de arquivo, e ficou observando as ações do “monstro”. Depois, sem que o druuf que se inclinava sobre o companheiro inconsciente percebesse nada, conseguiu subir à escrivaninha. Assim que o ser-toco começou a erguer-se, Lloyd o golpeou com força e obteve excelente resultado: mais um fora de ação. Continuou a procurar armas. A sala estava recheada de armários de todos os tamanhos. O maior deles tinha as dimensões de uma casa de fim de semana dos terranos. As portas abriam-se da mesma maneira que as da comporta. Fellmer Lloyd levou mais ou menos uma hora para revistar todos os armários; não encontrou nada que se parecesse com uma arma. Conhecia perfeitamente os artefatos em forma de pistola usados pelos druufs e tinha certeza de que nenhum lhe tinha passado despercebido. Subitamente teve uma ideia. Que idiota não era ele! Onde é que um homem costuma guardar a pistola? Num lugar em que possa alcançá-la facilmente e com rapidez. Fellmer Lloyd teve de subir ao corpo imóvel do druuf que golpeara por último para alcançar a gaveta da escrivaninha. Examinou-o cuidadosamente. Viu que continuava inconsciente. Também viu meia dúzia de faixas cinzentas que se estendiam sobre os ombros de seu conjunto-uniforme. Se essas faixas fossem divisas, esse sujeito devia ocupar ao menos o posto de comando. Portanto, seria um Tommy, um político. A gaveta não era uma gaveta do tipo que Lloyd imaginava. Consistia de duas peças triangulares, que saíam à direita e à esquerda de quem estivesse sentado atrás da escrivaninha. Para tanto, bastava que se colocasse a mão em determinado lugar. Fellmer Lloyd examinou o conteúdo das gavetas e, após alguns segundos, segurava a pistola. Muito satisfeito, examinou-a e descobriu que não possuía qualquer peça móvel além do pequeno gatilho. Parecia muito simples. Fez pontaria para a porta de um armário e puxou o gatilho. Não aconteceu nada. Fellmer Lloyd voltou a puxar o gatilho. O efeito continuou a ser nulo. Sentiu-se perplexo e examinou a pistola de todos os lados. Finalmente teve a idéia de que talvez se tratasse de uma arma de choque; e 21


ninguém poderia dar um choque de nervos numa porta de armário. Precisava de outro objeto para realizar a experiência. Acontece que não havia nenhum. E não tinha tempo para procurar. Havia coisas mais importantes em jogo. Desceu de cima do druuf inconsciente e voltou a examiná-lo. “Deve haver uma possibilidade de evitar o amoníaco, o metano e a pressão de 2,7 atmosferas”, pensou, depois de recordar-se do ardor que sentira, quando da corrida pelo corredor. Fitou os dois druufs. E teve a ideia salvadora. *** No início, as coisas foram mais fáceis do que Rhodan julgava possível. A distância da comporta de sua cela até o recinto vizinho era de uns cinco metros. Levou menos de três segundos para percorrê-la. Da primeira vez, ficou cinqüenta segundos com a respiração presa. Isso era perfeitamente suportável. Mas os vapores cáusticos do amoníaco eram muito mais desagradáveis. Rhodan procurou avançar com os olhos fechados. Não haveria como errar o caminho. Bastava seguir junto à parede. Encontrou Reginald Bell e Atlan. Reginald Bell demonstrou certa surpresa, enquanto Atlan afirmou que, naquele momento, tivera a mesma ideia. Perry Rhodan não teve a menor dúvida de que falava a verdade. Na mente de cada um deles sempre caminhava uma ideia à frente ou atrás da do outro. Saíram para revistar os arredores. Constataram que quase todos os recintos, situados além de sua cela, eram depósitos. Viram uma porção de coisas, mas nada que lhes pudesse ser útil. Estavam à procura de armas e dos trajes protetores, que os druufs lhes haviam tirado. Se não os encontrassem poderiam voltar à sua cela e esperar até que os “monstros” tivessem outra ideia. Descobriram quatro salas que pareciam ser escritórios. Estavam vazias e, ao que parecia, já há muito tempo não vinham sendo usadas. Uma fina camada de pó cobria o chão e os móveis. Era claro que ninguém deixaria uma arma num lugar como este. O que os tranquilizou foi o fato de não terem visto nenhum druuf. Se isso acontecesse antes que tivessem uma arma, o encontro provavelmente seria desastroso para eles. Depois de duas horas, aproximadamente, chegaram a um lugar em que o corredor parecia terminar. Uma parede de rocha natural fechava-o por completo. Mas as fitas rolantes passavam por baixo da parede, motivo por que Rhodan pensou que ali houvesse uma porta camuflada. Procuraram abri-la, mas a parede não saiu do lugar. Atlan disse que talvez os druufs apenas tivessem instalado o mecanismo de reversão da fita rolante atrás da porta, a fim de não perturbar o movimento no interior do corredor. Haviam chegado ao fim do caminho. Tinham revistado vinte e uma salas e não encontraram nada; só restava uma. Se nesta também não achassem o que estavam procurando,

a situação seria praticamente desesperadora. Penetraram na última sala. Nos fundos do corredor, a atmosfera era tão venenosa como na parte anterior, e assim não podiam colocar ninguém à frente da comporta para ver se porventura aparecia algum druuf. A sala era outro depósito. Nos armários, nas prateleiras e nas gavetas havia milhares de coisas diferentes, todas elas completamente inúteis para os prisioneiros. Bastante abatidos, iniciaram o caminho de volta. Tinham uma pequenina chance de regressar às suas celas, antes que os druufs aparecessem ou o robô lhes trouxesse a comida. Ao aproximarem-se da comporta, esta se abriu. O quadro que se lhes ofereceu era inconfundível. Três maciços druufs encontravam-se à sua frente, segurando aquilo que os prisioneiros procuravam desesperadamente há duas horas e meia: armas.

4 Conrad Deringhouse foi parar no interior do transmissor montado na base subterrânea. Quando alguém procurou abri-la de fora, o fecho da porta gradeada tiniu. Olhando pela grade, Deringhouse viu um homem com um uniforme de capitão. Reconheceu Marcel Rous, comandante da base. — Bem-vindo, Sir — disse Rous laconicamente, enquanto Deringhouse saía do transmissor. Deringhouse apertou-lhe a mão. A seu lado apareceram Gucky e Ras Tschubai. O pequeno rato-castor usava um traje espacial feito exclusivamente para ele. Conrad Deringhouse já se recuperara do nervosismo passado a bordo da Califórnia. A primeira parte da missão fora bem sucedida; não se podia dizer que tudo correra sem incidentes, mas as coisas haviam sido feitas de acordo com os planos. Não havia a menor dúvida de que, a essa hora, a Califórnia já se encontrava em segurança. — O senhor está chegando em bom momento — disse Marcel Rous, dando início à palestra. — Alguma coisa está acontecendo no Universo dos druufs. Deringhouse lançou-lhe um olhar de surpresa. Rous falou em palavras lacônicas no estranho S.O.S. captado há poucas horas. — O lugar de expedição da mensagem só pode ser um gigante de metano do tipo de Júpiter. Parece que os druufs mantêm prisioneiros terranos por lá. Já demos um nome ao planeta. Chamamo-lo de Rolando. — É um bonito nome — disse Deringhouse. Porém o general estava alheio ao assunto. Refletia. Haveria alguma ligação entre a mensagem de S.O.S. e o pedido de socorro emitido por Ernst Ellert? Deringhouse fitou a estação do transmissor. Uns vinte aparelhos desse tipo estavam montados num pavilhão de 22


vinte por trinta metros. Era por meio deles que se fazia a ligação entre a base de Hades, situada no Universo dos druufs, e o Universo einsteiniano. Depois da instalação dos transmissores, já não era necessário que as naves terranas rompessem as linhas de bloqueio dos arcônidas e atravessassem a área de superposição, a fim de penetrar no Universo dos druufs, onde estes ficavam sempre de olho para que ninguém lhes estragasse os planos. A única desvantagem do transmissor consistia no fato de que sua utilização só se tornava possível caso existisse outro aparelho do mesmo tipo, pronto para receber a remessa. Quando isso se desse, bastava comprimir um botão. Então os dois aparelhos forneceriam a energia necessária para que o objeto a ser transportado fosse levado de um aparelho ao outro, numa espécie de hipersalto. — Não vamos ficar parados por aqui — sugeriu Deringhouse. — Nosso amigo de Vagabundo, mais que qualquer outro, precisa de um local adequado, onde ninguém o perturbe. Nas próximas horas, terá que desenvolver uma concentração bastante intensa. Com um sorriso, o Capitão Rous fitou o rato-castor. Este lançava olhares curiosos em torno e fez de conta que não tinha ouvido uma única palavra. Rous levou-os pelo corredor que separava as duas fileiras de transmissores. O ar no interior do pavimento era puro e fresco. Ninguém desconfiaria de que às portas da base reinava um verdadeiro inferno, já que esse mundo sempre voltava à mesma face para seu astro central, motivo por que só conhecia temperaturas elevadíssimas. A jovem tecnologia terrana realizou esforços febris para construir, às pressas, e em meio a um segredo absoluto, uma base situada no território inimigo, e que quase chegava a ser mais que uma simples cabeça-de-ponte. Junto ao pavilhão dos transmissores ficavam as salas ocupadas pela administração, inclusive o escritório no qual Marcel Rous costumava ficar, quando estava de serviço. Às vezes, costumava ficar demais, motivo por que no gabinete havia uma peça muito interessante. Tratava-se de um sofá. E sofá era justamente aquilo que Gucky, o ratocastor, estava procurando. Saltou até a peça e estendeu-se confortavelmente. O Capitão Rous mandou que seu ordenança servisse um lanche aos hóspedes. Deringhouse ponderou que, a rigor, a refeição seria um jantar, pois os relógios indicavam vinte horas, tempo de Terrânia. Rous respondeu com um sorriso embaraçado que em Hades as coisas não podiam ser levadas tão a sério. As lâmpadas solares, brilhando no interior da base, nunca eram desligadas, e dessa forma cada um podia escolher à vontade suas horas diurnas e noturnas. O lanche, composto de alimentos em conserva, foi servido prontamente. Seu sabor era apenas regular. O ordenança retirou-se, sempre pronto a receber novas ordens. O General Deringhouse começou a contar o que havia acontecido na Terra, levando-o a voar para Hades.

— Em sua opinião o chamado de Ellert e a mensagem de S.O.S. têm a mesma causa? — perguntou Marcel Rous. — Não é bem isso — respondeu Deringhouse. — Não tenho essa opinião; apenas afirmo que talvez seja assim. Por isso, a primeira coisa que temos que fazer é entrar em contato com Ellert. Precisamos saber qual foi o motivo de seu chamado. Via-se que Marcel Rous queria dizer mais alguma coisa. — Mais alguma sugestão, capitão? — perguntou Deringhouse. Rous fez que sim. As palavras foram saindo lentamente de sua boca. — Recebemos pelos transmissores as peças de várias naves de reconhecimento a grande distância do tipo gazela. Esses veículos já foram montados e estão em condições de decolar a qualquer momento. Não acho que correríamos um risco excessivo se mandássemos uma das gazelas a Rolando para... Deringhouse o interrompeu com um gesto. — Acho que é uma boa ideia — disse. — Mas não convém que o veículo decole antes que Ellert nos tenha dito o que está acontecendo por aqui. Naquele instante, Gucky, um pouco afastado do grupo, tomou a palavra: — Tenham mais um pouquinho de paciência; já estou “varenando”. Ninguém sabia o que significava varenar. De qualquer maneira, os sinais telepáticos de Gucky deviam estar a caminho de Druufon, onde deveriam ser captados por Ernst Ellert. Dentro de mais alguns segundos, este deveria responder e resolveria o mistério que cercava a mensagem enviada para a Terra pelo mutante; era ao menos o que se esperava. *** Toda a base ficou curiosa. O General Deringhouse havia assumido o comando. Parecia que, depois de tantos dias de calma, algo de importante estava para acontecer. Na grande comporta do hangar havia uma gazela preparada para a decolagem. Não se sabia quem a pilotaria, muito menos para onde deveria voar. Corriam boatos de que o piloto seria Deringhouse em pessoa. Deringhouse em pessoa? De que se tratava? Será que Druufon seria atacada? Será que a Terra se preparava para conquistar o poder também na dimensão temporal dos druufs? E isso logo agora, poucos dias depois da morte de Perry Rhodan? As especulações atropelavam-se no cérebro dos homens. Porém quem sabia alguma coisa, nada dizia. Marcel Rous estava satisfeito com o desenrolar dos acontecimentos. Lembrou-se da suposição que surgira em sua mente, quando procurou descobrir a origem do S.O.S. Se o que estava em jogo era realmente a vida de terranos tão importantes como Perry Rhodan, Reginald Bell e do arcônida Atlan, então seria preferível que outra pessoa assumisse a responsabilidade. As consequências de 23


qualquer erro seriam imprevisíveis. Aliás, até então não havia transmitido sua suposição a ninguém, nem mesmo ao General Deringhouse. Quanto ao mais, às tentativas de entrar em contato com Ernst Ellert, realizadas por Gucky, falharam por completo. A distância entre Hades e Druufon era muito grande. Gucky recebeu alguns sinais telepáticos, mas estes eram quase incompreensíveis. Não pôde identificar qualquer pensamento. Aqui em Hades não podia contar com o corpo humano de Ellert, que na Terra desempenhara as funções de estação retransmissora. Embora a distancia entre Hades e Druufon fosse muito menor do que aquela que separava este último da Terra, aqui não se entendia sequer uma pequena fração daquilo que Betty Toufry compreendera em Terrânia, às portas do mausoléu. Conrad Deringhouse sabia perfeitamente que não poderia perder mais tempo. Não sabia o que Ellert pretendia dizer, mas Gucky sentiu que o assunto era muito importante, e que os pensamentos de Ellert recomendavam pressa. Foi a única coisa que conseguiu entender. Vinte horas após sua chegada a Hades, Deringhouse concluiu que a gazela teria que decolar logo, mesmo sem as informações de Ellert. O destino era Rolando e Deringhouse estaria a bordo. Se o pouso fosse muito difícil, Ras Tschubai procuraria atingir a superfície do planeta por meio da teleportação. Gucky também pertencia à tripulação da nave de reconhecimento de longa distância. Se em Rolando houvesse terranos, ele os reconheceria pelas emanações de seus cérebros. A última conferência foi realizada no gabinete de Marcel Rous. — Como já sabe, vamos correr um risco — disse Deringhouse, dirigindo-se ao capitão. — E o risco atingirá não só os ocupantes da gazela, mas todos nós, inclusive a guarnição da base. Por enquanto os druufs nem desconfiam de que a Terra lhes preparou uma boa, bem no centro de seu sistema. É possível que o voo da gazela atraia a atenção deles para a base e que resolvam atacar. Por isso, toda vigilância será pouca. Se acontecer o pior, procure aguentar até que o transmissor da Califórnia dê o sinal verde e salve o maior numero possível de pessoas. Entendido? Rous fez que sim. Naturalmente entendia muito mais. Desde o primeiro momento de sua existência, a base corria certo risco. Tiveram de manter-se atentos durante todo o tempo. A situação não ficaria pior com a partida da gazela. Marcel Rous procurou imaginar o que aconteceria quando os druufs vissem pela primeira vez um veículo espacial que, em caso de perigo, pudesse desaparecer prontamente, sem deixar o menor vestígio de transição. Tudo que fora transferido do Universo einsteiniano ao plano temporal dos druufs conservaria sua dimensão temporal primitiva. Isso significava que, neste espaço, uma gazela atingiria velocidades que no Universo dos druufs seriam impossíveis, por ficarem acima da velocidadelimite aqui prevalente, isto é, a da luz. Qualquer objeto que

se deslocasse a uma velocidade superior à da luz já não pertenceria ao espaço em que se encontrava antes. Os druufs teriam a impressão de que a gazela desaparecera sem mais nem menos. A ideia divertia Marcel Rous. Gostaria de ver o druuf ao qual acontecesse isso. Rous ouviu que Deringhouse continuava a falar. Procurou afastar as ideias que lhe iam pela mente, a fim de concentrar-se nas palavras de Deringhouse, mas não conseguiu. Como seriam as coisas para o druuf? A partir da sala de comando de sua espaçonave, veria a gazela desaparecer de um instante para outro. Isso representaria uma surpresa enorme. Menos para um dos seres-toco: Ernst Ellert. Este tinha conhecimento da diferença das dimensões temporais e conseguiria imaginar os efeitos que poderiam resultar do fenômeno. Mas Ellert vivia em Druufon, onde era um cientista de renome; nunca subiria a bordo de uma nave de guerra. Alguém disse: — Capitão, tenho a impressão de que o senhor não está dedicando a necessária atenção ao assunto. Rous ouviu estas palavras, mas não pôde deixar de refletir sobre o problema que ocupava sua mente. “É esquisito”, pensou. “Até parece que alguém está segurando minha inteligência.” Pensava em Ernst Ellert. Ernst Ellert, que nunca viajaria numa nave de guerra. Era claro que não. Por que iria viajar? Ou será que poderia vir a viajar? Será que o assunto que o fizera expedir a mensagem para a Terra era tão importante que o faria praticar certos atos que normalmente nunca praticaria? Por que teria chamado? O que estava acontecendo? De repente Marcel Rous viu um druuf à sua frente; tinha pele escura, cabeça redonda e era gigantesco. Parecia aproximar-se dele. Marcel Rous teve certeza absoluta: o druuf era Ernst Ellert. Era o ser-toco, cujo corpo fora tomado pelo espírito de Ellert, enquanto o corpo do próprio mutante jazia no mausoléu de Terrânia, aparentemente morto. O que queria? Marcel Rous fez menção de afastar-se para o lado, mas alguma coisa o travava. O druuf continuava a aproximarse, como se quisesse passar por cima dele. Mas, no momento em que entrou em contato com seu corpo, fundiu-se com o mesmo; ambos passaram a ser um só. Subitamente, passou, a saber, o que o druuf estava pensando. E quando abriu a boca para falar, ele o fez a pedido e com os pensamentos do druuf, cujo corpo era habitado pelo espírito de Ernst Ellert. Para os circunstantes, o fenômeno era estonteante, mas não assustador. Quem primeiro notou que Marcel Rous estava absorto em seus pensamentos foi Conrad Deringhouse. Deixou-o à vontade por algum tempo. Finalmente fez uma observação. Ao que parecia, Rous não 24


a ouvira. Continuava a fitar o ar com a expressão de quem reflete sobre um problema muito importante. Subitamente, seus olhos se arregalaram. Parecia enxergar alguma coisa que os outros não viam! Deringhouse esteve a ponto de pôr as mãos em seu ombro e sacudi-lo para que acordasse. Mas alguma coisa o preveniu para não o fazer. Por um motivo que ele mesmo não conhecia estava convencido de que alguma coisa importante iria acontecer, e seria preferível que ele e os outros se mantivessem em silêncio. Parou de falar e acenou para que todos também ficassem quietos. Marcel Rous fez uma tentativa para sair do lugar. Parecia que desejava dar um passo para trás e para o lado. Deringhouse teve a impressão de que queria desviar-se de alguém. Mas continuou parado. Alguma coisa parecia paralisá-lo. Seu rosto assumiu uma expressão de espanto, e depois de medo. Mas, quando o pavor chegou ao auge, o rosto se descontraiu e Rous suspirou aliviado. Repentinamente, começou a falar. A fala era desajeitada e a voz não parecia ser a de Rous. — Não se assustem — disse a voz. — Não estou bêbedo, mas tenho que me adaptar à constituição da laringe deste homem. Estas palavras pareciam apavorantes. Quem seria o homem que estava falando por Rous? — Sou Ernst Ellert — prosseguiu “Rous”. — Escolhi este caminho para entrar em contato com os senhores, pois todos os outros falharam. Peço-lhes que não fiquem refletindo sobre como consegui apossar-me do corpo de Marcel Rous. Prefiro que prestem atenção às minhas palavras. O assunto é muito importante. De acordo? — De acordo — respondeu Deringhouse em tom automático. — Muito bem. Podemos começar — disse “Rous”. Ellert parecia adaptar-se aos poucos aos órgãos de fonação do corpo estranho. A fala passou a ser fluente, mas o tom de voz continuava a ser estranho. — Há pouco tempo uma das nossas naves, quer dizer, um cruzador dos druufs, conseguiu romper as linhas do bloqueio arcônida e penetrar no Universo de Árcon. Bem além da área de superposição, encontrou uma nave inimiga que ia à deriva. Os tripulantes eram aliados dos arcônidas e, na nave, havia quatro prisioneiros. Terranos. Os druufs deixaram os aliados dos arcônidas no lugar em que os encontraram, mas recolheram os prisioneiros terranos. “Agora, o mais importante. Não consegui descobrir quem são os prisioneiros. O assunto é considerado altamente sigiloso. Os prisioneiros foram colocados no trigésimo sexto planeta deste sistema, que é um mundo de metano semelhante a Júpiter. Nos próximos dias, uma comissão de altos funcionários viajará para lá, a fim de interrogar os prisioneiros”. “A conclusão só pode ser uma: os quatro prisioneiros devem ser gente muito importante. E se são importantes para nós, ou seja, para os druufs, também devem ser

importantes para os terranos”. “Foi por isso que resolvi entrar em contato com os senhores. Pensei que talvez tivessem dado pela falta de quatro pessoas. Talvez possa ajudá-los a encontrá-las.” Ficou calado, e os ouvintes também se mantiveram em silêncio, porque ninguém soube o que responder. O número quatro parecia ter exercido um encanto sobre eles. Desde a perda da base de Fera Cinzenta, destruída num ataque-relâmpago dos arcônidas, dera-se pela falta de quatro homens, e, ao dizer que essas quatro pessoas eram muito importantes, Ellert tinha toda razão. Eram as pessoas mais importantes do Império Solar. A mente do General Deringhouse trabalhava febrilmente. Procurou rememorar o que havia acontecido em Fera Cinzenta. Há quinze dias — quando a Drusus realizou uma viagem arriscadíssima, contornando várias vezes o planeta moribundo, a fim de localizar os sobreviventes da catástrofe — foi irradiado um pedido de socorro. Não encontrara o menor sinal de vida em Fera Cinzenta. Deringhouse teve certeza de que as pessoas que o haviam chamado já não estavam vivas, quando a Drusus chegou. No entanto, o relato de Ellert oferecia um ângulo totalmente novo. Outra nave fora mais rápida que a Drusus; e, conforme Ellert acabara de dizer, essa outra nave era tripulada por aliados dos arcônidas. Pouco importava quem seriam esses aliados. O que realmente importava era que o aliado dos arcônidas não conseguira ir muito longe com as pessoas salvas da catástrofe. Alguma coisa devia ter acontecido com sua nave. Os druufs a haviam encontrado à deriva. Não se sabia como a encontraram. Talvez a nave tivesse transmitido pedidos de socorro, que acabaram atraindo a atenção dos seres-toco. Deringhouse esteve a ponto de abandonar a idéia, mas lembrou-se de uma coisa. Há onze ou doze dias, algumas naves terranas de patrulhamento haviam captado uma transmissão de telecomunicação redigida em arcônida, cujo teor era o seguinte: “Lamira XII chama YNLISS posição Goshun.” Os comandantes examinaram a mensagem. Parecia uma transmissão rotineira realizada por uma espaçonave — provavelmente seria uma nave dos saltadores — chamada Lamira XII, proveniente de um lugar, ou destinada a uma pessoa de nome Ynliss. No entanto, a posição da Lamira XII era bastante estranhável: Goshun! Goshun era o nome do lago em cujas margens ficava a cidade de Terrânia, capital do planeta Terra. Era pouco provável que, em algum ponto da Galáxia, houvesse outro lugar com o mesmo nome, ainda mais numa língua estranha. As naves terranas puseram-se a caminho. Iriam tentar localizar o transmissor que irradiara a estranha mensagem. Os cálculos goniométricos revelaram que a nave terrana mais próxima desse lugar se encontrava a mais de cinco mil anos-luz de distância. Acontece que, depois da estranha mensagem, o transmissor só voltou a chamar uma única vez, irradiando uma mensagem 25


codificada em arcônida. Por isso, seria muito difícil ou talvez impossível que as naves terranas o localizassem. Depois de alguns dias, estas suspenderam as buscas e voltaram às posições anteriores. Face ao relato de Ellert, o episódio ganhava em importância. Deringhouse tinha certeza, quase absoluta, de que a mensagem com a palavra Goshun fora transmitida por um dos quatro prisioneiros. Ele a redigiu dessa forma porque era altamente provável que qualquer mensagem menos corriqueira atrairia um verdadeiro enxame de naves arcônidas. Os prisioneiros deviam ter se apossado de um telecomunicador, instalado a bordo da nave arcônida. Qual não devia ter sido a decepção deles, quando em vez da nave terrana surgiu uma espaçonave dos druufs, fazendo com que fossem de mal a pior? Quer dizer que os seres-toco os haviam levado a Rolando. Ellert soubera disso, embora não conhecesse a identidade dos prisioneiros. Mais tarde, estes puseram a funcionar um gerador gravitacional, a fim de realizar uma transmissão precária para a base de Hades, informando sobre a situação em que se encontravam. O fato de terem realizado a tentativa provava que sabiam da existência da base de Hades. Os sinais transmitidos por meio de um gerador antigravitacional não seriam capazes de atravessar a área de superposição e chegar a uma das naves terranas que se encontravam além da zona de descarga. Acontece que o fato do conhecimento da existência da base delimitava quem seriam as quatro pessoas prisioneiras, pois o projeto Hades era altamente sigiloso. Conrad Deringhouse estava convencido de que os prisioneiros não eram outros senão aqueles quatro homens que permaneceram em Fera Cinzenta até o último instante, quando então pretendiam reunir-se à frota que preparara um ataque a Árcon. E estes homens eram Fellmer Lloyd, Atlan, Reginald Bell e Perry Rhodan! Deringhouse teve de esforçar-se ao máximo, para conservar o autocontrole. Ernst Ellert sabia que os prisioneiros se encontravam em Rolando. Será que conhecia a situação da prisão? Perguntou a “Rous”. Ellert respondeu prontamente: — No planeta de metano existe uma base subterrânea, destinada principalmente à realização de experiências perigosas. É claro que conheço a situação dessa base, pois estive lá muitas vezes. Fez uma pausa. — É bem verdade que tenho de realizar a conversão — prosseguiu. — Os padrões dos druufs são completamente diferentes dos padrões terranos. Um momento. Vamos definir o polo norte. O pólo norte é uma das extremidades do eixo do planeta. Para quem estiver em cima desse ponto, o planeta gira para a esquerda, que nem a Terra. Entendido? Deringhouse procurou visualizar a descrição. — Entendido — respondeu.

— Pois bem. A base fica no hemisfério norte, ou melhor, a quarenta e cinco graus de latitude norte. Também compreendeu esta parte? — Naturalmente. — Vamos prosseguir. Será mais difícil fixar a longitude, porque o respectivo ponto de referência foi escolhido ao acaso. Mas o senhor não poderá deixar de notar um lago em forma de ferradura, que fica quase exatamente no equador. O lago é grande; na Terra, quase chegaria a ser um oceano. Cada lado da ferradura tem dois mil quilômetros de comprimento, e sua largura, no ponto mais largo, também tem dois mil quilômetros. O meridiano zero passa pelo ponto extremo da curva da ferradura. Há esta hora, convém lembrar que os druufs dividiram o círculo em quinhentos e doze graus, uma vez que usam um sistema octonal. O número quinhentos e doze corresponde a oito na terceira potência. Pois bem. Dentro deste sistema, a base subterrânea fica em cento e vinte graus de longitude leste. Acho que o senhor poderá fazer a conversão. — Poderei, se alguém tiver anotado — respondeu Deringhouse com a maior tranquilidade. — Eu anotei — disse Ras Tschubai, que se encontrava num ponto mais afastado. — As informações que lhe posso dar são só estas — prosseguiu Ellert. — Apenas posso acrescentar que deve agir com cautela. Para os druufs, a base subterrânea é muito importante, motivo por que ela tem uma guarnição permanente de dois mil homens. E o socorro, vindo de Druufon ou de outra base espacial, poderá chegar dentro de poucos minutos. Se alguma coisa acontecer no planeta de metano, o senhor pode ter certeza de que, dentro de uma hora, no máximo, a frota chegará ao local. Ah, sim. A gravitação do planeta de metano corresponde a um vírgula três, quatro vezes a de Druufon. O senhor também poderá fazer a conversão deste dado. É um nível bastante elevado. — Obrigado; já conhecíamos este detalhe — respondeu Deringhouse. — Neste caso, minha missão está concluída — disse Ellert. — Nós todos lhe somos muito gratos — disse Deringhouse. — Já lhe devemos muito. Se um dia pudermos fazer alguma coisa por você, não deixe de nos avisar. O rosto de Rous continuou impassível, mas a voz de Ellert soou como a de alguém que está sorrindo: — Será um prazer. Se um dia estiver em apuros, não deixarei de avisar. Neste momento, Marcel Rous estremeceu. Deu um passo desajeitado, tropeçou, conseguiu firmar se sobre os pés, olhou em torno com uma expressão de perplexidade e passou a mão pela testa. — Onde... como? Era novamente a voz de Rous. Ernst Ellert se havia retirado de seu corpo. Durante um momento de perplexidade, Deringhouse perguntou a si mesmo o que 26


teria feito com seu corpo de druuf, enquanto estivera ali. A memória de Rous começou a funcionar. — Ellert esteve aqui, não esteve? — perguntou, ainda um tanto perplexo. Deringhouse fez um gesto afirmativo. — Esteve em seu interior — disse em tom enfático. Rous não parecia surpreender-se com a notícia. — Tive a impressão... — respondeu em tom distraído, quase sonhador. Ao que parecia, consideravam o caso liquidado. Deringhouse e Ras Tschubai atribuíram maior importância ao relato propriamente dito de Ellert que à maneira pela qual conseguiu aproximar-se deles. Não foi necessário informar Rous. Depois de um momento de reflexão, o capitão se lembrou de tudo que Ernst Ellert acabara de dizer. Deram-se ordens definitivas para que a gazela decolasse.

5 Com a segunda tentativa de fuga, os druufs pareciam ter perdido a vontade de Ironizar. Um dos três disse por intermédio da tradutora: — Os senhores não terão outra oportunidade de fugir. Daqui por diante, ficarão amarrados. Os terranos não responderam. A única coisa que lhes interessava naquele momento era saber o que havia acontecido com Fellmer Lloyd. — Venham conosco! — ordenou o druuf. — E é bom avisar que ao menor movimento suspeito atiraremos. Não havia ninguém que duvidasse disso. A comporta fechou-se atrás dos druufs. Ameaçando-os com as armas, eles tangeram os prisioneiros para um canto da sala. O que carregava a tradutora automática disse: — Os senhores receberão outra injeção igual à primeira. Estamos aguardando o preparado. Perry Rhodan foi de opinião que não convinha protestar contra isso. Encostou-se à parede e lançou um olhar de tédio para as prateleiras. Ainda tinha um resquício de esperança de que pudesse ter uma ideia que lhe permitisse enganar os druufs. Procurou estabelecer contato telepático com Fellmer Lloyd, mas a tentativa resultou num fracasso completo. Lloyd devia estar muito longe ou “desligara” sua mente, o que poderia significar perfeitamente que os druufs já o tinham prendido e lhe aplicaram a injeção. Alguns minutos se passaram. Perry Rhodan viu a porta externa da comporta abrir-se. “Deve ser o druuf com a injeção”, pensou, sem olhar sequer para o lugar. A porta externa abriu-se com um forte ruído, e, dali a alguns segundos, a interna também abriu-se. Perry Rhodan nem virou o rosto. Seu olhar passou pelas prateleiras e foi

pousar num dos druufs, que mantinha a arma engatilhada e não tirava os olhos deles. Perry Rhodan tentou dar a seu olhar uma expressão de escárnio e desprezo, embora não tivesse certeza sobre se o “monstro” compreenderia a mímica facial dos homens. Seu olhar de desprezo pareceu produzir um efeito surpreendente! O druuf deu um pequeno passo para frente e caiu. Quando seus quatrocentos quilos atingiram o chão, ouviuse um forte estrondo. E não foi apenas este estrondo. O mesmo ruído foi ouvido mais duas vezes, quando os outros druufs caíram. Perry Rhodan estava estupefato. Evidentemente não cometeria a tolice de acreditar que os derrubara com seu olhar. Levantou os olhos e viu uma criatura estranha sair da comporta. Esta estava enfiada num traje espacial dos druufs, mas este parecia engoli-lo. Só um dos componentes do quadro não era ridículo: a arma que o “ser” segurava, e com a qual, num movimento seguro e conseqüente, pusera fora de ação os três druufs. Perry Rhodan lançou um olhar perplexo pelo visor do capacete. Viu o rosto sorridente do “ser”, e disse: — Como foi que o senhor fez isso, Lloyd? *** Fellmer Lloyd abriu o capacete e jogou-o para trás com tamanha habilidade que até parecia que nunca usara outra coisa senão trajes espaciais dos druufs. Antes que começasse a falar, lançou um olhar demorado e pensativo sobre os druufs. — Isso aconteceu mais ou menos por acaso — disse com um sorriso embaraçado. — Nem sabia se esta pistola iria funcionar. — Pois funcionou — respondeu Reginald Bell, que começava a recuperar-se da surpresa. — Parece que é uma arma de choque. Perry Rhodan passou por cima do corpo de um dos druufs e examinou de perto o traje de Fellmer Lloyd. — É claro que isso também pode ser uma solução — disse. — Como está se arranjando com esse traje? — Não é tão confortável como o meu — confessou Lloyd. — Mas, de qualquer maneira, é melhor andar com este do que andar sem nenhum. — Como estão as coisas lá fora? O corredor continua livre? — Quando cheguei, estava livre — respondeu Lloyd. — Mas a situação pode mudar de um instante para outro. Parece que eles descobriram nossa fuga. — O senhor é um menino inteligente! — exclamou Bell, que se encontrava em lugar mais afastado. Estava inclinado sobre um dos druufs desmaiados, e começava a abrir o traje protetor do mesmo. — Encontrou alguma coisa que nos possa ser útil? — indagou Atlan. Fellmer Lloyd sacudiu a cabeça. 27


— Apenas a pistola. Não vi nem sinal de um transmissor, se é a isso que o senhor se refere. — Mas deve haver um transmissor! — disse Rhodan. — Ninguém me convencerá que os druufs não têm nenhuma possibilidade de entrar em contato com Druufon. Atlan colocou-se a seu lado. — Esta caverna tem pelo menos mil salas — ponderou. — Por enquanto conhecemos menos de trinta. O transmissor pode ficar em alguma das novecentas e setenta salas restantes. Reginald Bell acabou de abrir o traje. Fez uma tentativa para retirá-lo do corpo do druuf, mas o peso tremendo do “monstro” frustrou todos os esforços. Fellmer Lloyd viu o que estava acontecendo. — Gire o corpo, Sir — aconselhou. — Basta girá-lo uma vez em torno de seu eixo longitudinal para que se desenrole do traje. Reginald Bell constatou que Lloyd estava com a razão. Naturalmente, bastava alguém segurar o traje. — Estou vendo — disse Bell em tom contrariado. — Mas como posso girar um “monstro” destes? — Eu usei um pedaço de tubo — disse Lloyd em tom solícito. — Usei-o como alavanca. Bell levantou-se e arranjou um pedaço de tubo. Enfiou uma das extremidades sob o corpo do druuf e começou a erguer a outra. O corpo levantou-se lentamente, virou para o lado, rolou e pronto: o traje protetor estendido no chão estava vazio. Neste meio tempo, Perry Rhodan já havia avaliado a nova situação. — Cada um de nós tem um traje — disse. — E cada um de nós tem uma arma. Portanto, conseguimos o que queríamos. Só uma coisa não correu conforme os planos: os druufs descobriram nossa fuga. Bem, isso é um fato consumado. Devemos conformar-nos com o mesmo. De qualquer maneira continuaremos a procurar o transmissor. Precisamos avisar a base de Hades. É a única maneira de sairmos daqui. Refletiu e prosseguiu: — Quer dizer que nos “enfeitaremos” com trajes protetores, tal qual Lloyd, e continuaremos a tentar a sorte. Temos de voltar pelo mesmo caminho pelo qual viemos. Uma vez que não dependemos mais das comportas, avançaremos muito mais depressa que antes. No entanto, ainda nos resta uma grande preocupação. As armas destes druufs são iguais à de Lloyd. Portanto, também devem ser armas de choque. Isso significa que não temos nada com que possamos defender-nos contra um robô. Os “monstros” não demorarão em descobrir esse dado e mandarão que seus robôs nos ataquem. Quando isso acontecer, as coisas começarão a ficar pretas. No momento em que Rhodan concluiu Reginald Bell já havia entrado no traje espacial. Tinha-se a impressão de que estava enrolado em cinquenta metros quadrados de tecido plástico. Atlan livrou-o do aperto. Foi ajeitando o traje até que a cabeça de Reginald Bell aparecesse no capacete. Grande quantidade do tecido plástico estava

arrastando no chão. Toda vez que Bell dava um passo, tropeçava. — Até parece que o senhor é nada menos que Sua Alteza, o Imperador — disse Atlan em tom de “reconhecimento”. — Ninguém lhe recusará o devido respeito. Reginald Bell lançou-lhe um olhar contrariado. — A utilidade é uma coisa e a beleza é outra muito diferente — respondeu. — O senhor não perde por esperar. Quando tiver colocado este negócio, eu lhe direi com quem o senhor se parece. Perry Rhodan riu. — Não percam tempo com piadas! — disse. Seguiu o método ensinado por Fellmer Lloyd e libertou outro druuf de seu traje protetor. Depois o envergou. Encontraram arame e usaram-no, amarrando o que sobrava da vestimenta. Pegaram as armas dos druufs e saíram da sala. O corredor estava vazio. O murmúrio das fitas rolantes era o único ruído. Subiram à fita mais lenta e passaram a mais rápida, assim que se adaptaram à velocidade. Fellmer Lloyd ia na ponta. Os outros seguiam-no a uma distância de vários metros. Assim procediam, intencionando que Lloyd pudesse concentrar suas “antenas” telepáticas naquilo que se encontrava à frente. Para isso, as interferências mentais dos terranos não deviam ser muito fortes. Avançaram cerca de cem metros e passaram pelas portas de suas celas. Desconfiavam do silêncio apavorante, que desgastava seus nervos. O perigo estava no ar, naquele ar fedorento e venenoso, feito de metano e amoníaco, que enchia o corredor. Subitamente Fellmer Lloyd saltou, sem qualquer aviso, da fita rápida para a mais lenta e dali para o chão. O salto foi tão inesperado que seus companheiros passaram por ele antes de saírem das fitas. Estavam com os radiotransmissores e receptores de capacete ligados. Ouviram Lloyd dizer: — Há alguma coisa pela frente! Ninguém tinha a menor ideia do comprimento do corredor. A luz que o enchia vinha de todos os lados e não projetava nenhuma sombra, motivo por que, a partir de certa distância, os contornos se apagavam a ponto de não se reconhecer mais nada. Esperaram. Naquela altura, dependiam de Lloyd. — Estão se aproximando — cochichou este. — Como estão as coisas nas salas próximas a nós? — perguntou Rhodan. — Estão vazias? Lloyd fez que sim. — Não senti nada ao passar por elas. Isso queria dizer que tinham uma saída. Bastaria que, assim que constatassem que os druufs estavam acompanhados de robôs, entrassem numa sala próxima e se mantivessem escondidos, até que os serestoco tivessem passado. A coisa não poderia ser mais simples. 28


Até então, Fellmer Lloyd se mantivera confortavelmente encostado à parede. De súbito, adiantouse um passo, virou a cabeça e olhou pelo corredor. Naturalmente não viu nada. O movimento fora puramente reflexo. — Tenho a impressão de que de repente ficaram muito nervosos — disse. — Ao que parece, descobriram algo de novo. Referia-se aos druufs. Rhodan sabia que Fellmer Lloyd não podia identificar qualquer pensamento desses seres. Não era por causa de sua mentalidade; acontecia apenas que a estrutura do cérebro dos “monstros” era tão estranha que, nessa área, a capacidade telepática do mutante falhava. No entanto, Lloyd conseguia identificar as categorias gerais dos pensamentos, e isso lhe bastava paira saber se alguém se encontrava em estado normal ou se estava em estado de excitação. Perry Rhodan refletiu para adivinhar o que os druufs poderiam ter descoberto. Estavam à sua frente. Logo, o motivo do nervosismo não poderia ter relação com os prisioneiros, que nunca haviam estado lá. Acontecia que os druufs usavam trajes protetores. Os radiotransmissores de seus capacetes estavam desligados. Será que um dos indivíduos desmaiados recuperara os sentidos e transmitira algum sinal? Mas os três druufs da última das salas que ladeavam o corredor já não possuíam capacetes. Não poderiam entrar em contato com ninguém. No entanto, segundo o relato de Fellmer Lloyd, este derrubara dois druufs e tivera que deixar para trás o traje protetor de um deles. Será que este tinha dado o alarma? Rhodan ainda estava refletindo, quando subitamente levou uma forte pancada no ombro. Ouviu alguém gritar de dor. Ele mesmo perdera o equilíbrio. Cambaleou e caiu. A ação da gravitação duplicada fez com que a queda fosse muito forte. A pontada sentida no tornozelo eliminou um pouco a dor provocada pela pancada que levara no ombro. Subitamente compreendeu o que estava acontecendo. Durante todo o tempo, seu raciocínio seguira por uma trilha errada. Ninguém havia dado o alarma. Ninguém recuperara os sentidos e avisara os druufs. Estes haviam descoberto, talvez por acaso, os prisioneiros. Agora estavam acompanhados de robôs, e estes não dependiam da iluminação, para ver o que havia no corredor. Seus órgãos de visão eram diferentes. A amplitude de seu espectro visual correspondia ao do olho humano multiplicado por dez elevado a algumas potências. Enxergavam no escuro. Além disso, o componente ultravioleta da luz projetada pelas lâmpadas correspondia a uma bateria de holofotes. Os robôs haviam avistado os fugitivos. A pancada que Perry Rhodan sentira no ombro não era outra coisa senão o impacto de uma arma de choque, disparada apressadamente, quando a distância ainda era muito grande. — Para trás! — gritou Rhodan. — Eles nos veem! Olhou para trás e viu Reginald deitado no chão, contorcendo-se de dores. Fora atingido pela maior parte da

energia liberada pela arma de choque. A distância que o separava do atirador era muito grande para que o disparo pudesse produzir um desarranjo total do sistema nervoso; mas era suficientemente pequena para que a dor produzida pelo impacto se manifestasse em toda plenitude. Ajudado por Atlan, Perry Rhodan colocou o amigo sobre as pernas. Bell gemia e rangia os dentes. Fellmer Lloyd estava pronto para saltar sobre a fita transportadora, que o levaria a lugar seguro. Seria inútil lutar contra inimigos invisíveis. Só encontrariam segurança num lugar em que as armas inimigas não pudessem atingi-los, isto é, nos fundos do corredor. Empurraram Reginald Bell para cima da fita. Não teve forças para manter-se de pé. Caiu, mas ficou deitado na fita que o carregou. Fellmer Lloyd, Atlan e Perry Rhodan encontravam-se um pouco atrás dele. Deitaram, para que os robôs dos druufs não tivessem um alvo fácil. Não foram atingidos mais. O inimigo deixara de disparar, ou então os disparos passavam por cima deles. Perry Rhodan concluiu que o rumo que estavam tomando os acontecimentos podia ser tudo, menos agradável. Seria inútil esconder-se em qualquer sala, uma vez que os robôs os haviam reconhecido. Os druufs revistariam todas as salas pelas quais passassem, por menores que fossem. Só lhes restava o caminho pelo corredor. Mas, lá atrás, a uma distância inferior a cem metros do lugar em que se encontravam, o corredor terminava numa parede rochosa. Era o ponto final. Não teriam outra alternativa senão tomar posição naquele lugar e esperar até que os druufs se aproximassem o suficiente, e assim pudessem pô-los fora de ação com suas armas de choque. Estes ao menos não estavam interessados em matar os prisioneiros. Era o único consolo. Enquanto Perry Rhodan refletia intensamente, o quadro da fita rolante que passava por baixo da parede surgiu em sua mente. Lembrou-se da explicação que deram ao fato. Os druufs não queriam que o mecanismo de retorno da fita ficasse no corredor, onde perturbaria o trânsito. De repente, deu-se conta de que esse raciocínio era bastante superficial! O fato de a fita rolante desaparecer embaixo da parede obrigava qualquer pessoa, que de lá quisesse voltar, a dar alguns passos bem difíceis! Havia algum motivo para esse tipo de construção! E esse motivo era patente. A parede não passava de uma porta muito bem camuflada. E atrás da parede não havia nenhum mecanismo de retorno. A fita continuava a correr, desta vez por um corredor secreto. Isso representava novas esperanças para os fugitivos. Se conseguissem descobrir o mecanismo que afastava a parede teriam outra chance. Restava saber se conseguiriam descobri-lo com a necessária rapidez. Reginald Bell já se sentia melhor. *** 29


No setor espacial em que se encontravam, parecia haver mais naves que estrelas. Os instrumentos de localização da gazela funcionavam ininterruptamente para determinar a localização de veículos espaciais desconhecidos e transmitir os resultados ao observador. Conrad Deringhouse, que pilotava a gazela, acelerara ao máximo a partir da decolagem. Dentro de poucos minutos, a gazela atingiu a velocidade de 180 mil quilômetros por segundo. Dessa forma, ultrapassara a velocidade-limite do Universo dos druufs, ou seja, a da luz. Com isso, a nave deixara de existir para os seres-toco. Por outro lado, a velocidade de 180 mil km/seg não abalava sensivelmente as matérias, mesmo num setor em que a concentração de matéria é relativamente elevada, como, por exemplo, um sistema planetário. Por isso a gazela estaria em segurança até o momento em que atingisse as áreas adjacentes do planeta de metano. Durante a hora que antecedeu a decolagem, dois transmissores foram montados a bordo do veículo. Além disso, Deringhouse ordenara que dois outros transmissores, instalados em Hades, se mantivessem constantemente preparados para o recebimento de remessas, enquanto a gazela não tivesse retornado à base. Deviam contar com a possibilidade de os druufs descobrirem o veículo terrano durante a ação a ser desenvolvida em Rolando. Nesse caso, teriam de verificar se, diante de um ataque, ainda havia chances para uma fuga rápida, ou se seria preferível que os ocupantes da gazela se pusessem a salvo por meio do transmissor. Não receberam mais nenhuma mensagem de Ernst Ellert. Então concluíram que não houvera qualquer modificação importante na situação reinante em Rolando. Depois de duas horas de voo, a gazela se aproximara a trinta e cinco milhões de quilômetros do destino. Conrad Deringhouse iniciou a manobra de frenagem, e a realizou pela forma que lhe parecia mais razoável na situação em que se encontravam. Utilizou na frenagem toda a força dos mecanismos propulsores. Depois de alguns minutos, a distância que separava a nave de Rolando ficou reduzida a algumas centenas de milhares de quilômetros, e a velocidade desceu o suficiente para que a gazela entrasse numa órbita estável. Não era que Conrad Deringhouse pretendesse contornar Rolando. Não havia dúvida de que, se ele fizesse essa manobra, seria descoberto pelos druufs. A gazela percorreu um pequeno trecho de sua órbita, a fim de se orientar sobre as indicações fornecidas por Ernst Ellert. Depois mergulhou na densa atmosfera de metano e amoníaco. Antes disso, a velocidade foi reduzida ainda mais. Devia-se evitar que o impacto do campo defensivo da gazela provocasse a ionização das moléculas de ar, com o que surgiria certa luminosidade. Em atmosferas densas, esse fenômeno tornava-se muito intenso e podia ser visto a grande distância. Os homens que se encontravam a bordo da gazela — ou melhor, os dois homens e o rato-castor — não

dispensaram, a menor atenção à configuração estranha da superfície do planeta ou à mescla surrealista das cores. Sabiam perfeitamente o que estava em jogo. Por estranho que pudesse parecer, até Gucky deu-se conta da gravidade da situação. Sem Perry Rhodan, a Terra, a Humanidade e o Império Solar estariam condenados ao desaparecimento. Por alguns dias Perry foi considerado morto. E esses poucos dias foram suficientes para mergulhar a Terra na discórdia e na confusão. Nesse estado de coisas, algumas semanas bastariam para deixá-la à mercê do Império Arcônida. Acontece que Perry Rhodan estava vivo; era ao menos o que acreditava Conrad Deringhouse. E o melhor serviço que alguém poderia prestar à Humanidade seria encontrálo, libertá-lo e levá-lo de volta à Terra. Deringhouse fez a gazela baixar a menos de cem metros da superfície e, vindo do leste, aproximou-se da base subterrânea. Deringhouse não tinha a intenção de pousar bem à frente da entrada das instalações subterrâneas. Achou que a melhor ideia seria esconder a gazela em algum lugar e pedir a Ras Tschubai, o teleportador, que fosse à frente e fizesse um reconhecimento da base subterrânea. Gucky ficaria encarregado de estabelecer contato telepático com o mutante Fellmer Lloyd, sempre com base na suposição de que os quatro prisioneiros dos druufs realmente fossem os homens que tinham ficado no planeta moribundo, chamado Fera Cinzenta. Se as indicações fornecidas por Ernst Ellert fossem corretas, a entrada da base ficava numa imensa planície rochosa, entremeada de monólitos rochosos pontudos. Nas proximidades do ponto em que, segundo acreditava Deringhouse, ficava o lugar procurado, havia um pequeno lago cuja água brilhava num vermelho Intenso. Era bem verdade que Ellert não mencionara esse lago. Deringhouse teve suas dúvidas sobre se as indicações fornecidas por Ellert se revestiam da necessária precisão. A gazela aproximou-se do lago vermelho, deslocandose pouco acima da planície rochosa e realizando hábeis manobras de última hora, para desviar-se dos monólitos. Deringhouse reduziu a altura para cinco metros. Tinha certeza quase absoluta de que nenhum dos instrumentos usuais de observação conseguiria localizá-lo tão próximo à superfície. Deringhouse parou a nave a uns dez quilômetros da entrada. Colocou-a na sombra de uma das agulhas de rocha e deixou que descesse à superfície. Colocou o mecanismo de propulsão em ponto morto. Era bem possível que, nas próximas horas, tivesse de recorrer a eles com grande urgência. Agora que chegara ao destino, ou melhor, a um lugar próximo ao mesmo, não teve de prestar atenção à outra coisa senão a eventuais vestígios da presença dos druufs. Então o panorama estranho daquele mundo de metano começou a agir sobre sua mente. Examinaram atentamente a tela panorâmica e, aos poucos, foram perdendo a noção 30


do tempo. A tensão foi substituída por uma atitude de contemplação. Conrad Deringhouse sentiu o perigoso cansaço que se espalhava pelo corpo. Assustado e perplexo desprendeu os olhos da tela de imagem e olhou para Ras Tschubai. — Ei, Ras! — exclamou. — Não durma! O africano sobressaltou-se. Deringhouse viu que o mutante sentira a mesma coisa que ele. Não havia dúvida de que o quadro da planície rochosa colorida produzia um efeito soporífero e hipnótico. Será que esse efeito era natural? Será que da composição das cores e das formas resultava esse efeito sobre o homem? Ou teriam os druufs instalado uma arma hipnótica e tranquilamente punham seus amigos a dormir? — Vá andando, Ras! — ordenou Deringhouse. — Salte ao acaso. O senhor sabe que nada lhe acontecerá se for parar num lugar em que haja matéria sólida ou líquida. Dirija sua atenção obliquamente para baixo. Se por acaso for parar num corredor ou outro recinto subterrâneo, procure lembrar-se do lugar e volte para relatar suas observações. Entendido? Ras Tschubai fez um gesto afirmativo. Levantou-se da poltrona estofada, deu alguns passos para o lado e fechou os olhos. Não se percebia a dificuldade que enfrentava ao preparar o salto de teleportação para um lugar que lhe em totalmente desconhecido. Deringhouse observou o teleportador. Viu que os contornos de seu corpo começaram a desmanchar-se. Antes que tivessem tempo de desaparecer de vez, voltaram a adensar-se, fazendo ressurgir a figura em sua nitidez habitual. De repente, pingos de suor surgiram na testa de Tschubai, que abriu os olhos. — Nada — disse com a voz cansada. — Parece que fui parar no meio da rocha. Mas devia haver um espaço oco por perto. Eu senti. Deringhouse acenou com a cabeça. — Muito bem. Tente de novo. Tschubai descansou um pouco; depois fez a segunda tentativa. Fechou os olhos e procurou enxergar na escuridão, que reinava atrás de suas pálpebras, o lugar ao qual queria chegar. Naturalmente o quadro era totalmente fantasioso, já que não o conhecia. Mas até mesmo o quadro imaginário seria capaz de ativar no momento adequado o lugar do cérebro, que sofrera o processo de mutação, e provocar a teleportação. E Ras Tschubai saltou. Depois, a primeira coisa sentida por Ras foi a impressão de que um peso de mais de cem quilos comprimia seu corpo. Para colocar-se de pé, teve de vencer esse peso. O esforço foi tremendo. Logo percebeu que aquilo não passava da elevada gravitação reinante em Rolando, e dispôs-se a ligar o gerador antigravitacional de seu traje protetor. Levou cinco segundos para recuperar-se do choque gravitacional, perceber que se encontrava num corredor subterrâneo, dotado de fitas transportadoras, e estender a mão que deveria ativar a chave do gerador

antigravitacional. Mas algo aconteceu... Ras Tschubai levou uma pancada violenta nas costas. Girou o corpo e sentiu-se dominado por uma dor cruciante. Caiu e perdeu os sentidos. A última coisa avistada foi o vulto medonho de um druuf, que se encontrava num ponto mais afastado. *** — Estão a menos de cinquenta metros — disse Lloyd. — É possível que os robôs já tenham chegado mais perto. Ao que parecia, nem mesmo a dianteira, resultante da dimensão temporal mais lenta dos druufs, seria suficiente para que descobrissem o mecanismo que movia a parede de rocha. Haviam apalpado de cima para baixo e da esquerda para a direita muitas vezes. Comprimiram as luvas de plástico em tudo quanto era lugar, mas a rocha continuava imóvel. Cinquenta metros eram pouco mais que a distância a qual se poderia fazer um disparo seguro com a arma de choque. Perry Rhodan encurvou o corpo e entesou os músculos, tentando preparar-se para o golpe que receberia logo ou dentro de alguns segundos. Pelo rádio de capacete ouviu a respiração pesada do mutante. Para observar ininterruptamente os estranhos modelos de vibrações cerebrais dos druufs, Fellmer Lloyd teve de fazer um esforço tremendo. — Faltam quarenta metros! — exclamou. — Meu Deus, daqui a pouco começarão a atirar. Os robôs já devem estar bem perto. Ainda não se via nada. A luminosidade uniforme fez com que as partes mais afastadas do corredor se transformassem numa mancha luminosa, que fazia desaparecer todos os contornos. Vez por outra, surgia um lampejo em meio à luminosidade. Eram os reflexos produzidos pelos corpos metálicos dos robôs. Seis mãos tateavam ininterruptamente a pedra, enquanto Fellmer Lloyd se mantinha em ponto mais afastado, prestando atenção aos druufs. Seis mãos vagavam desordenadamente de um lugar para outro, procurando descobrir o local secreto do mecanismo que abria a parede. De repente, duas das seis mãos caíram sem ânimo. Alguém praguejou em voz rouca e deu um pontapé na parede. E a porta abriu-se! Subitamente viram outro corredor à sua frente. Ainda na porta, o corredor descrevia uma ligeira curva e começava a subir. Prosseguia em aclive. Era evidente que, em algum lugar, devia levar à superfície do planeta. Perry Rhodan hesitou. O plano não fora este. Queriam encontrar um transmissor para falar com Hades. E seria um absurdo rematado acreditar que os druufs tivessem construído o transmissor na superfície. Mas não havia outra alternativa. Teriam de subir pelo corredor. A qualquer momento, os seres-toco ou seus robôs poderiam abrir fogo. Se Reginald Bell, que já fora atingido uma vez, sofresse mais um impacto, não 31


conseguiria manter-se sobre as pernas. — Vamos andando! — ordenou Perry Rhodan. Nessas palavras soava uma raiva e uma resolução que outra pessoa não conseguiria exprimir numa frase. Subiram à fita e penetraram no segundo trecho do corredor. Bell ia à frente. Fellmer Lloyd se encontrava na retaguarda. Mal passou pela porta de rocha, esta voltou a mover-se e se fechou sem que nenhum dos fugitivos tivesse feito qualquer coisa para que isso acontecesse. No corredor reinava a mesma gravidade que se fazia sentir mais atrás, ou seja, a gravitação de Druufon, que correspondia a 1,95 vezes o normal. A iluminação era idêntica à dos demais corredores pelos quais haviam passado. O alcance da vista não chegava a mais de vinte ou trinta metros. Perry Rhodan refletiu intensamente. Chegou à conclusão de que o desenrolar dos acontecimentos era inquietante. Bastaria que os druufs voltassem a abrir a parede de rocha, para prosseguirem na perseguição. Teriam de apertar o passo, e, quanto mais rápido andassem, mais depressa chegariam ao fim do corredor e à saída que levava à superfície. Acontece que lá fora a gravitação correspondia a 2,6 vezes o normal, com o que estariam ainda mais indefesos diante dos druufs. Será que valia a pena? Não seria preferível ficarem parados e esperarem até que os inimigos se aproximassem? Mas num canto recôndito da mente, ainda havia uma esperança: a porta pela qual entraram no corredor estava camuflada. Por quê? A quem deveria ficar oculta a existência do corredor? Com toda certeza, os druufs nunca contaram com a presença de visitantes de fora. Portanto, a existência do corredor deveria permanecer em segredo para os membros de graduação inferior da guarnição da base. Só os druufs qualificados saberiam dizer qual era a finalidade do mesmo. Restava saber se os seres que os perseguiam sabiam da existência do corredor. Em caso negativo, ainda haveria uma esperança. Os perseguidores atingiriam a parede de rocha e não encontrariam os fugitivos. Isso os deixaria surpresos, e começariam a procurar nas salas mais próximas. Não poderiam ter visto a parede abrir-se... O único fator de insegurança eram os robôs. Estes não poderiam ter deixado de ver com seus superolhos que os seres estranhos haviam fugido pela porta oculta. Restava saber se seu programa lhes permitiria revelar a existência da porta secreta aos druufs que os acompanhavam. Quando o corredor e as fitas rolantes descreveram uma curva suave, Perry Rhodan interrompeu suas reflexões. O corredor tornou-se ainda mais difícil de ser abrangido com a vista do que já o era, em virtude da luminosidade uniforme. Se no fim da fita rolante alguns druufs os estivessem esperando, eles só os enxergariam depois que, praticamente, se tivessem jogado em seus braços. O corredor terminava num recinto bem amplo,

escavado na rocha. As fitas desapareceram numa fenda do chão e descarregaram seus passageiros. Do lado oposto ao lado em que a fita desembocava no corredor, parecia haver uma espécie de passagem. Numa rápida decisão, Perry Rhodan caminhou em direção à mesma, colocou a mão no lugar em que os druufs costumavam esconder os mecanismos de abertura e aguardou em atitude tensa. As duas partes da porta começaram a mover-se com um rangido. Ao que parecia, fazia alguns anos que essa passagem não era utilizada. A porta abriu-se de vez com um estalido perfeitamente perceptível, oferecendo uma superfície ampla de chão rochoso em aclive. As rochas eram inundadas pela luz de um sol vermelho e de um sol verde. Perry Rhodan saiu. No mesmo instante, a tremenda gravitação desceu sobre ele, com a força de um martelete mecânico. Caiu de joelhos, foi se estirando e deitou. Esperou que os outros o alcançassem e disse: — Daqui em diante, será preferível andarmos de quatro. Será mais fácil. Olhou para trás, tentando decifrar em que lugar haviam saído. A porta do recinto de pedra já se fechara atrás deles. Adaptava-se perfeitamente ao paredão de um monólito vertical. Este subia a uma altura estonteante, ocultando o cume em meio a um grupo de pequenas nuvens marromavermelhadas. Ao que parecia os druufs tinham uma predileção toda especial pelos paredões dos monólitos, quando queriam ocultar as entradas de sua base subterrânea. O lugar em que haviam saldo não era aquele pelo qual haviam penetrado, após a chegada da nave dos druufs. Rhodan voltou a olhar para frente. Lançou os olhos pela superfície rochosa, que descia lentamente, e, bem embaixo, viu uma estreita faixa vermelha. A faixa cintilava como se estivesse em constante movimento. Lembrou-se do lago vermelho, observado no momento em que saíram da nave dos druufs. O que agora estava vendo era um trecho da superfície desse lago. Ficava a oitocentos metros. Isso era mais um ponto de referência. Não viu a nave dos druufs. Provavelmente só viera para desembarcar os prisioneiros e partira logo depois. Isso o tranquilizou, pois se a nave continuasse no mesmo lugar, as pessoas que se encontravam no interior da mesma já os teriam descoberto. Perry Rhodan procurou elaborar um plano. Era uma tarefa difícil, pois, praticamente, não dispunham de qualquer dado que lhe permitisse saber qual seria o procedimento mais adequado. Uma coisa era certa. Teriam de afastar-se, o quanto antes, da entrada do subterrâneo. Os druufs poderiam aparecer a qualquer momento. Teriam de ir ao lago. Poderiam abrigar-se nas margens. Uma vez lá, poderiam observar continuamente a entrada do subterrâneo, até que lhes acudisse uma ideia. Isso, naturalmente, se os druufs tivessem perdido a pista dos fugitivos. Explicou o plano aos companheiros. 32


— O que podemos fazer no momento não é muito — disse. — Mas é bem possível que um de vocês tenha uma idéia melhor. Atlan respondeu em tom irônico: — Na situação em que nos encontramos, devemos darnos por satisfeitos por termos ao menos uma ideia, administrador. Você tem razão. Vamos rastejar até o lago e esperar até que aconteça alguma coisa. Reginald Bell concordou. — Vamos logo. O que estamos esperando? Digam-me uma coisa: alguém pode dizer quanto tempo durará o suprimento de oxigênio dos tanques? Ninguém sabia. Não conseguiam ler as indicações dos instrumentos que marcavam o volume da reserva de ar respirável. Mas ainda lhes restava uma esperança... Talvez essas reservas ainda dessem para algumas horas, já que os druufs, que tinham pulmões maiores que eles, precisavam também de maior quantidade de ar. Fellmer Lloyd limitou-se a acenar com a cabeça. Não tinha nada a dizer. Foram descendo com movimentos pesados. Toda vez que se apoiavam sobre os braços para avançar meio metro, sentiam uma forte dor nas juntas. Suas forças mal davam para encostar os pés à rocha lisa e empurrar o corpo. As pernas arrastavam-se no chão. Quando os homens haviam vencido metade da distância, descobriram que, nos joelhos, a espessura de seus trajes espaciais diminuía perigosamente. Foram rastejando com mais cuidado. Vez por outra, um deles olhava para trás, a fim de verificar se os druufs já haviam aparecido junto à entrada do subterrâneo. Mas tudo continuava em silêncio. Ao que parecia, os perseguidores tinham perdido sua pista. Depois que tinham percorrido três quartos dos oitocentos metros que os separavam do lago, chegou à vez de Reginald Bell levantar a cabeça e verificar se os druufs já haviam aparecido. Ao fazê-lo, gemia ininterruptamente. De repente viu que desta vez o esforço valera a pena. Enfim, conseguiu enxergar para além do monólito que até então lhes tolhera a visão. E viu duas coisas ao mesmo tempo. Avistou um grande contingente de robôs sair de trás da rocha escarpada, onde ficava o recinto subterrâneo. E, mais à direita, viu os contornos achatados e esguios de uma nave terrana de reconhecimento do tipo gazela. Soltou um grito de surpresa e continuou com a cabeça levantada, embora isso lhe custasse um tremendo esforço.

6 Quando Ras Tschubai não voltou, Conrad Deringhouse compreendeu que alguma coisa devia ter acontecido. Ras

Tschubai não seria capaz de desobedecer a uma ordem. Se não voltava, isso acontecia porque estava sendo impedido pela força. Deringhouse ficou nervoso, e por isso cometeu o erro decisivo, que por pouco não condena ao fracasso toda a missão. Pediu a Gucky que verificasse o que estava acontecendo com o africano. O rato-castor descobrira por via telepática em que ponto Ras Tschubai se concentrara antes do salto. Não teve qualquer dificuldade em rememorar os pensamentos de Ras Tschubai. Achou que não seria nada demais saltar atrás do africano e verificar o que lhe havia acontecido. Suas capacidades teleportadoras eram mais intensas e desenvolvidas que as de Tschubai. Não teve que fazer outra coisa senão fechar os olhos por alguns segundos, repensar os pensamentos de Ras Tschubai e... saltar. Saltou para a desgraça... A pancada violenta, causada pela gravitação elevada, por pouco não o deixa inconsciente. Era bem verdade que já se acostumara à gravitação da Terra, que para ele era muito elevada. Mas nem por isso deixava de ser uma criatura vinda do planeta Vagabundo, onde a gravitação era de 0,53 G. Caiu estendido no chão duro e, no mesmo instante, “sentiu” os pensamentos de um ser muito estranho. Perplexo, abriu os olhos e viu um par de botas pertencente, sem dúvida, a um traje espacial terrano. Era Ras Tschubai! Ao que parecia, estava inconsciente. Gucky não teve tempo para refletir sobre a sorte de Tschubai. Sentiu-se atingido por um golpe violento, vindo de trás, e por um impulso mental que representava triunfo, vindo da criatura estranha, e caiu nas trevas da inconsciência. Ao notar que Gucky também não voltava, Deringhouse deu-se conta do erro que acabara de cometer. Agora dependia exclusivamente de si mesmo. Não possuía qualquer dom parapsicológico ou paramecânico que pudesse conferir-lhe, alguma superioridade sobre o inimigo. Se saísse da gazela para verificar o que estava acontecendo, seria descoberto e morto numa questão de minutos. Refletiu ligeiramente e concluiu que só lhe restava uma coisa: esperar. Se Gucky e Ras Tschubai não estivessem mortos, mas inconscientes, acabariam por recuperar os sentidos e se valeriam da teleportação para voltar à gazela. Antes de fazer qualquer coisa, precisaria de informações, e um dos mutantes lhe traria as mesmas. Deringhouse acreditava que Gucky e o africano tivessem sido descobertos pelos druufs. Ao que parecia, já estavam preparados para a chegada da gazela e a teleportação dos dois mutantes. Se fosse assim, dentro de alguns minutos abririam fogo contra a gazela. Esse fato não representava maior perigo para Deringhouse. O primeiro disparo seria absorvido pelos campos defensivos, e antes que outro tiro atingisse o alvo, a gazela já se teria 33


colocado fora do alcance do fogo inimigo. Mas, se depois os mutantes resolvessem saltar de volta ao lugar de onde saíram, não encontrariam a nave e voltariam a cair nas mãos do inimigo. Mesmo que a situação não fosse tão difícil, não seria nada fácil permanecer inativo por horas a fio num planeta estranho e deserto, esperando que acontecesse alguma coisa. Mas Deringhouse logo percebeu que não soubera calcular o tempo... Meia hora depois do salto de Gucky, o quadro monótono da planície modificou-se de repente. Bandos de reluzentes e estranhos robôs dos druufs saíram de uma fenda que Deringhouse acreditara ser natural. A primeira ideia de Deringhouse foi a de decolar e afastar-se o mais depressa possível. Porém logo viu que os robôs nem se interessavam pela gazela. O objetivo deles era outro. Seguiram na direção em que, segundo a opinião de Deringhouse, apenas havia alguns monólitos e um lago vermelho. Deringhouse não percebeu o que realmente estava despertando a atenção daqueles “monstros” metálicos. Depois de alguns minutos de indecisão, resolveu continuar a esperar. Na situação em que se encontrava, seria perigoso agir ao acaso. Os robôs não deram a menor atenção à gazela, muito embora não pudessem deixar de vê-la. Deringhouse compreendeu o motivo. Estavam programados para perseguir um objetivo bem definido. Concluiu que os robôs não representavam qualquer perigo. Restava saber que curso tomariam os acontecimentos, se um dos druufs saísse da fenda. Essas reflexões consumiram algum tempo. Ainda pensativo, Deringhouse contemplou o grupo de robôs que desaparecia atrás de um monólito para reaparecer logo depois. Continuavam a deslocar-se em direção ao lago. Deringhouse levantou a cabeça e examinou os arredores. Em seu subconsciente, alguma coisa despertaralhe a atenção. Assim que contemplou os outros setores da tela panorâmica, viu do que se tratava. Alguma coisa se aproximava vinda do sul. Parecia uma parede marrom. De início, Deringhouse sentiu-se estupefato. Não sabia ao certo o que era aquilo; parecia-lhe uma coisa compacta. Tinha-se a impressão de que um gigante estava empurrando velozmente uma enorme muralha de barro. Só depois de algum tempo percebeu que a parte superior da parede era formada por nuvens revoltas e a parte inferior por poeiras turbilhonantes. A parede atingia os cumes dos monólitos. Deringhouse ficou perplexo ao notar que alguns destes foram devorados pela parede marrom e desapareceram por completo. Não havia a menor dúvida. Uma tormenta horrível aproximava-se, vinda do sul. Deringhouse viu a coluna de robôs desaparecer em meio à poeira. O quadro projetado na tela panorâmica escurecia cada vez mais. Segundo os cálculos de Deringhouse, a velocidade da tormenta devia ser de duzentos e cinqüenta a trezentos quilômetros por hora.

Receava que, sem auxílio dos mecanismos propulsores, a gazela não pudesse resistir à mesma. Então realizou as respectivas ligações. De qualquer maneira, a tormenta lhe era muito conveniente, pois reduzia as possibilidades de ser descoberto pelos druufs. Quanto mais demorada a tormenta, melhor para a gazela. *** Foi Tommy quem pôs as coisas em andamento. Ficou inconsciente por algumas horas. Nesse meio tempo, seus subordinados descobriram a fuga e tomaram algumas providências apropriadas para recapturar os prisioneiros. Pelo relato oferecido a Tommy, depois que este voltou a aparecer em cena, os prisioneiros haviam fugido por um corredor construído para que o comandante e a alta oficialidade da base pudessem escapar, caso a caverna fosse atacada por um inimigo. Era bem verdade que, nos últimos duzentos anos, não houvera nenhum ataque, pelo simples motivo de que no Universo dos druufs já não havia inimigos. No entanto, a existência do corredor continuou a ser mantida em segredo, e os robôs foram programados de maneira a não revelarem a qualquer pessoa o que haviam descoberto. Conforme já dissemos, Tommy recuperou os sentidos. Constatou que lhe haviam tirado o traje protetor. Mas Oscar, em cima do qual estava deitado, continuava a envergar seu traje. Tommy descobriu que Oscar estava morto. Talvez tivesse morrido em virtude das lesões que sofrerá, ou então fora esmagado por ele. Isso não importava. Tommy tirou o traje do ex-companheiro e colocou-o no próprio corpo. Não se sentia muito bem. O lugar em que fora golpeado por aquela criaturinha traiçoeira doía terrivelmente. Todavia, Tommy compensou a ausência do bem-estar físico aumentando a consciência do dever que devia cumprir. Saiu da sala em que fora derrubado, voltou a seu gabinete e deu o alarma. A seguir teve uma ligeira conferência com os oficiais e foi informado sobre os acontecimentos que se haviam desenrolado neste meio tempo. Ao que tudo indicava, os terranos tinham escapado para a superfície e estavam de posse de armas de choque. Por isso seria preferível que fossem recapturados por robôs. Tommy ordenou que duas companhias de robôs, saídas de quatro lugares diferentes, fossem no encalço dos fugitivos. A ordem foi cumprida imediatamente. Tommy teve tempo para cuidar da sua ferida. Tinha certeza de que tudo acabaria bem, e que, dentro de algumas horas, os prisioneiros estariam guardados em lugar seguro. Mas dali a pouco, foi surpreendido pela tempestade que naquele instante teve início bem ao sul. A tormenta fustigava parte do planeta com suas terríveis forças naturais. *** Era incrível. Por mais que olhassem, sempre receosos 34


de que a miragem fosse desaparecer, o quadro manteve-se constante. A gazela continuava no mesmo lugar. Os robôs a ignoravam e prosseguiam correndo atrás dos fugitivos. Perry Rhodan fez uma ligeira tentativa de entrar em contato com os ocupantes da gazela por meio do rádio de capacete. A tentativa não foi bem sucedida. O transmissor dos druufs trabalhava em faixas desconhecidas, e não havia tempo para repetir a tentativa, até que o operador de rádio da nave por acaso regulasse seu receptor na frequência adequada. Já conheciam a direção em que deviam locomover-se. E todos sabiam perfeitamente o que deveriam fazer. Restava saber como poderiam fazê-lo. Como chegar à gazela sem cair nos braços dos robôs? Perry Rhodan levou apenas alguns segundos para elaborar seu plano. — Vamos separar-nos — disse. — Com isso, os robôs ficarão confusos ao menos por algum tempo. Vamos tentar nos aproximar da gazela. Não pensem muito. Andem logo! Sabiam que, se existia alguém que soubesse fazer um bom plano, este alguém era Perry Rhodan. Quando necessário tornava-se capaz de, num segundo, pensar tanto quanto outras pessoas pensam num minuto. Atlan, o arcônida, confiava plenamente na capacidade de Rhodan. Espalharam-se para todos os lados. Havia uma disparidade grosseira entre a velocidade de seu deslocamento e a pressa que sentiam. Perry Rhodan manteve-se no caminho que seguira a partir do pavilhão subterrâneo. Os robôs vinham da esquerda. Ainda havia uma possibilidade de alcançar o monólito de onde poderiam ser vistos pelos ocupantes da gazela. Mas essa possibilidade era insignificante. Respirando com dificuldade, Perry Rhodan foi avançando metro por metro. A cada segundo, a distância que o separava dos robôs diminuía. Era bem verdade que, em virtude da dimensão temporal mais lenta em que existiam, os “monstros” metálicos se moviam com uma estranha lerdeza. Mas a cada passo que davam avançavam quase dois metros, e a gravidade opressora parecia não incomodá-los nem um pouco. Perry Rhodan teve a impressão de que sentia o chão tremer sob os passos das criaturas mecânicas. Parecia que novas levas vinham de outra direção. Ficou deitado por alguns segundos e levantou a cabeça. Realmente, em mais três lugares diferentes, viu robôs saindo de fendas no solo ou de portas abertas na rocha. Mas ainda estavam muito longe para provocar o ruído que ouvia. Perplexo, lançou os olhos para outro lado e compreendeu por que o chão tremia. Uma gigantesca muralha marrom-acinzentada corria vertiginosamente na direção em que se encontrava. Esperava que a qualquer momento a tal muralha fosse engolir primeiro os robôs e depois a ele mesmo. Mas observou melhor e viu que a mesma se encontrava a alguns quilômetros de distância e era bem maior do que supusera. Ultrapassava as cumeeiras das rochas mais elevadas.

Neste momento, os robôs perceberam que os fugitivos se haviam separado. A confusão estabeleceu-se em suas fileiras. Alguns minutos se passaram até que chegassem a um acordo, resolvendo dividir-se em grupos. Rhodan aproveitou o tempo. Desenvolvendo forças sobre-humanas, avançou rapidamente e ganhou mais alguns metros de dianteira. Mas, assim que os robôs adotaram a nova tática, esta vantagem não demorou a ser anulada. Perseguiram-nos a passos lentos, mas amplos. Realmente parecia que não haveria salvação, a não ser que a tempestade chegasse a tempo... Sempre que a força da tormenta o atingia, deixava-se rolar, tangido pela fúria dos elementos. Se não fosse assim, dentro de alguns minutos o traje protetor se romperia, deixando-o exposto à atmosfera poeirenta e venenosa do planeta de metano. Em torno dele reinava a escuridão. A força da tormenta só era comparável à da tempestade desencadeada pelo incêndio atômico de Fera Cinzenta. Se tivesse com seu peso normal não adiantaria segurar-se. Teria sido levantado do chão e tangido pelo vento. Desejara a tempestade para que a escuridão o protegesse, permitindo que chegasse são e salvo à gazela. Mas agora ele a maldisse, pois nem sabia se a escuridão lhe permitiria manter o rumo que lavava a gazela. Não via os robôs. Sem dúvida, as máquinas tinham olhos mais potentes que ele, e o mundo fustigado pela tormenta não lhes pareceria tão escuro assim. No entanto, tinham uma desvantagem. Estavam acostumados a andar de pé, e por isso ofereceriam maior área de impacto à tormenta. Perry Rhodan não sabia se a força do robô seria suficiente para resistir a este cataclismo. Não deixou que a situação o perturbasse; continuou a avançar, locomovendo-se sobre os joelhos. Pelos seus cálculos já deveria ter vencido a distância que o separava do monólito onde ficava o recinto subterrâneo. Mas dentro de seu raio de visão, que chegava a um metro, não notou o menor sinal de que o chão estivesse em aclive. Perry Rhodan não sabia se suportaria o cansaço. O peso de seu corpo exercia uma forte tensão sobre seus braços. Por mais de uma vez, sentiu-se tentado a soltar-se do lugar em que se segurava e deixar que o vento o tangesse. Por várias vezes procurou falar com os companheiros, mas o barulho provocado pela poeira que batia contra seu capacete não o deixava ouvir nem mesmo suas próprias palavras. Sentiu mais uma rajada que vinha na direção, certa e soltou-se. Foi tangido pelo vento. Rhodan forçou a posição da cabeça, para que a lâmina do visor de seu capacete nunca batesse no chão. Depois de alguns segundos, a rajada diminuiu. Estava na hora de segurar-se de novo, para que a rajada seguinte não o deslocasse na direção errada. Estendeu os braços e procurou reduzir a velocidade com que se deslocava, a fim de segurar-se em alguma coisa. Mas antes que conseguisse, bateu num obstáculo 35


sólido. Ficou tonto por alguns segundos e não conseguiu realizar o menor movimento. Mas o obstáculo, surgido diante dele, protegeu-o contra a fúria da tempestade. Olhou para trás. Uma parede subia para a escuridão. Era a agulha de pedra. Não errara o caminho. Ainda estava seguindo na direção certa. Se não fosse a tempestade, bastaria caminhar mais quinhentos metros para atingir um lugar em que os ocupantes da gazela pudessem vê-lo. Sentiu uma alegria furiosa. Já vencera metade do caminho. Bastaria rastejar mais um pedaço e ficar deitado, aguardando o fim da tempestade. Enquanto fazia estas reflexões, alguma coisa bateu com um forte estrondo na rocha. Abaixou-se instintivamente e sentiu uma chuva de peças pequenas e pesadas desabar sobre o capacete e o traje protetor. Quando viu que não iria acontecer mais nada, voltou a erguer-se e ficou perplexo ao notar um pedaço de metal prateado todo amassado. Não havia dúvida de que, há alguns segundos, aquilo pertencia a um robô. A tempestade o havia agarrado, atirando-o contra o paredão. A placa amassada foi um dos poucos componentes do homem mecânico que escapara à destruição. Quem dera que isso acontecesse com todos os robôs! Subitamente sentiu um cheiro causticante. Era amoníaco! Não demorou a compreender o que significava isso. Seu traje protetor estava vazando. Um dos estilhaços metálicos devia ter perfurado o revestimento plástico... E o ar venenoso do planeta penetrava pelo buraco! *** No início, Tommy não acreditou que a tormenta pudesse prejudicar a operação de busca. Afinal, o serviço nunca fora afetado pelas tormentas que neste mundo infernal costumavam desabar com um intervalo médio de dois dias de Druufon. Havia recebido uma notícia que o deixara perplexo. Duas criaturas estranhas foram surpreendidas e presas num corredor da caverna. Um desses seres tinha o aspecto de um terrano, mas sua pele era escura como a dos druufs. A outra criatura era indescritível. Ambos usavam traje protetor, talhado segundo as medidas de seu corpo. Ninguém sabia como tinham entrado na caverna. O “Mike”, que os deixara inconscientes per meio de um disparo de arma de choque, afirmava que se materializaram à sua frente. Naturalmente isso não passava de uma tolice. Tommy achou que seria importante dar uma olhada nos prisioneiros. Subiu na fita transportadora, foi ao lugar no qual os dois intrusos haviam sido recolhidos e fitou-os. Constatou que a descrição que lhe haviam fornecido era correta. Não havia dúvida de que um dos prisioneiros era terrano. Já o outro, segundo as concepções estéticas dos druufs, só podia ser designado como um pesadelo. O terrano continuava inconsciente, mas o “pesadelo” já recuperara os sentidos. Olhando pelo visor de seu capacete, fitava Tommy com uma expressão inamistosa.

Tommy estava acompanhado de vários oficiais. Muito desconfiado, andou em torno da estranha criatura e examinou-a de todos os lados. O prisioneiro o acompanhou com o olhar. Estava com a boca aberta e exibia um único dente roedor. Tommy teve uma sensação desagradável... E esta sensação fez com que nem percebesse que seu peso estava diminuindo. Só notou alguma coisa quando, sem que fizesse qualquer coisa, levantou-se do chão e subiu ao teto. Seu instinto lhe disse que a criatura estranha tinha algo a ver com o incidente. Ficou furioso e deu um pontapé no “pesadelo”. O prisioneiro foi atingido embaixo do capacete, na altura do pescoço. A violência do impacto foi tamanha que a pequena criatura foi levantada e atirada contra a parede. Ao que tudo indicava, perdera os sentidos. No mesmo instante, Tommy caiu ao chão. E a queda foi tão repentina que por pouco não perde o equilíbrio. Lançou um olhar de pavor para seus oficiais, que o fitavam e soltavam cicios de surpresa. Na confusão geral, ninguém percebeu que o prisioneiro terrano estava recuperando os sentidos. Moveu cuidadosamente a cabeça, para não chamar a atenção de ninguém, e olhou em torno. Também o “pesadelo”, que levara o pontapé de Tommy, voltou a abrir os olhos. Os olhares dos prisioneiros se encontraram. Não precisaram de palavras para comunicar-se. Ativaram simultaneamente os setores específicos do cérebro e, antes que Tommy e seus oficiais compreendessem o que havia acontecido, desapareceram. Quando perceberam, não acreditaram no que seus olhos viam. A sala em que se encontravam estava trancada. Os prisioneiros não poderiam ter passado por eles sem serem notados. A única saída era a comporta, que se achava fechada. Mas, apesar de tudo isso, desapareceram sem provocar o menor ruído e sem deixar qualquer vestígio. Tommy começou a matutar sobre se a pancada que levara poderia ter afetado certas partes de seu cérebro. Seu pânico era tamanho que nem se deu conta de que seus oficiais haviam observado a mesma coisa! *** O furo ficava na altura do antebraço esquerdo. Conseguiu tapá-lo com a mão direita, evitando que o amoníaco continuasse a penetrar no interior do traje espacial. Mas seria possível rastejar com os braços nessa posição? No entanto, Perry Rhodan tentou. A tempestade ainda não amainara. Fustigava a planície numa fúria constante e uivava ao quebrar-se nos monólitos. A poeira continuava a bater ruidosamente no capacete de Perry Rhodan, abafando qualquer outro ruído. Rhodan saiu de trás da rocha e deixou que uma rajada o arrastasse. Com toda força, comprimiu o furo com o 36


dedo da mão direita e procurou avaliar a intensidade do cheiro do amoníaco, como se tal precaução adiantasse alguma coisa. O cheiro continuava inalterado. De qualquer maneira, porém, o amônio provocava dores no nariz e o fazia espirrar constantemente. Não sabia por quanto tempo tinha sido tangido pelo vento, quando ficou preso ao obstáculo seguinte. Tratavase de um sulco que atravessava a planície de lado a lado. Esta oferecia certa proteção contra a tempestade. Rhodan não se lembrava de já ter visto essa depressão do terreno. Tinha certeza absoluta de que não ficava na direção da gazela. O cheiro de amoníaco ressecou-lhe a boca. Procurou proferir uma palavra, mas não conseguiu. Estava próximo ao esgotamento total. Sabia que, se não acontecesse um milagre, estaria perdido. E Rhodan nunca acreditara em milagres. Rolou para fora do sulco e deixou-se tanger por outra rajada de vento. Esta o fez rolar pela rocha. Rolava sobre os ombros, com a cabeça levantada — o capacete não podia ser danificado — e com a mão sobre o furo do traje espacial. Rolou por um tempo infinitamente longo. Sentiu tonturas e o enjôo martirizava seu estômago. As glândulas salivares deram o máximo de si. A saliva escapava-lhe da boca e escorria pelo queixo. Subitamente parou. Em torno dele havia um líquido viscoso e agitado. E então percebeu que voltara à margem do lago vermelho. Movera-se em círculo. A tempestade tangera-o de volta ao lugar do qual partira para atingir a gazela. Era o fim! *** Em virtude da rápida evolução dos acontecimentos, Deringhouse por pouco não perdeu o controle da situação. Quando menos esperava, Gucky e Ras Tschubai voltaram ao mesmo tempo. Ras Tschubai fez um relato apressado, enquanto Gucky se recolhia a um canto, onde parecia prestar atenção a alguma coisa. Antes que Tschubai concluísse seu relato, Gucky interrompeu-o em voz alta e ciciante. Disse que conseguia identificar os pensamentos de quatro terranos que se encontravam nas proximidades da gazela. Afirmou que essas pessoas eram as que estavam desaparecidas desde a catástrofe de Fera Cinzenta. O rato-castor, cuja cabeça ainda zumbia por causa do tremendo pontapé do druuf, proferiu estas palavras com a maior tranquilidade. Mal concluiu sua fala, desapareceu sem que ninguém lhe tivesse dado ordens para isso... Quando reapareceu, um ser de aspecto estranho agarrava-se a ele. De início, Deringhouse fitou o traje espacial que antes parecia uma sanfona. Só depois de algum tempo, passou a dedicar sua atenção ao gigantesco capacete esférico e ao visor. O rosto pertencia a Fellmer Lloyd, um homem que na Terra era considerado morto há quinze dias.

Acontece que estava bem vivo. Fitou Conrad Deringhouse com iam sorriso tímido, que parecia exprimir um pedido de desculpas pelo estranho traje em que se apresentava. Dali em diante, a evolução dos acontecimentos foi rapidíssima. Graças à sua capacidade telepática, Gucky conseguiu localizar os outros desaparecidos, apesar da escuridão e da tempestade. Três saltos de teleportação foram suficientes para colocá-los em segurança. O último a chegar foi Perry Rhodan, que Gucky encontrara totalmente esgotado nas águas viscosas do lago vermelho. Conrad Deringhouse agiu prontamente. Assim que o último homem desaparecido estava a bordo, decolou com a gazela. Não tomou as precauções usuais, motivo por que os instrumentos dos druufs localizaram prontamente o veículo dos terranos. Deringhouse contava com esse fato, que se enquadrava em seu plano. Os transmissores de matéria estavam prontos para efetuar a remessa. O primeiro a sair da gazela foi Perry Rhodan, que no mesmo instante rematerializou-se, ainda ligeiramente atordoado, na base de Hades. Atlan, o arcônida, seguiu-o no momento em que o primeiro impacto produzido pelos canhões energéticos dos druufs fez chamejar o campo defensivo da gazela. Conrad Deringhouse segurou os controles até o último instante. Os druufs já haviam calibrado a pontaria. O número das salvas que atingiam o campo energético da nave aumentava constantemente; dentro de alguns segundos, os geradores do campo defensivo entrariam em colapso em virtude da sobrecarga a que estavam submetidos. Cinco segundos antes do momento em que a nave sofreu o impacto final, Deringhouse abandonou-a. Enquanto Deringhouse procurava orientar-se atrás das grades do transmissor de Hades, a gazela explodiu sob o fogo concentrado da artilharia dos druufs, enviando à superfície do planeta uma chuva de metais incandescentes. *** Para Perry Rhodan, aquilo que veio depois até parecia um belo sonho. Quando materializou-se no transmissor de Hades, ainda estava quase inconsciente. Puseram-no sobre os ombros e carregaram-no em marcha “triunfal” pelo pavilhão dos transmissores. Atlan, Reginald Bell, Fellmer Lloyd, Ras Tschubai, Gucky e Conrad Deringhouse juntaram-se ao cortejo, assim que saíram do aparelho. Durante algumas horas, a gigantesca caverna de Hades deixou de ser uma base avançada em território inimigo e transformou-se num ambiente que transbordava de alegria. Dois médicos garantiram que, antes de tudo, Rhodan precisava de descanso. Mas Deringhouse já lhe havia fornecido um relato resumido sobre a situação política reinante na Terra. Por isso, disse aos médicos que era bem possível que ele, Rhodan, tivesse necessidade de descanso, mas que a Terra tinha necessidade premente de sua presença. 37


O Major Ostal compareceu na hora combinada com a Califórnia. Um dos transmissores do grande pavilhão subterrâneo deu o sinal verde. Em menos de dois minutos, as sete pessoas que participaram da aventura de Rolando foram trasladadas de Hades para bordo do cruzador. A Califórnia estava preparada para saltar. Antes que Gucky, que veio por último, tivesse tempo de sair do transmissor, Clyde Ostal iniciou a transição. Os arcônidas já haviam percebido que uma nave desconhecida costumava aparecer em intervalos irregulares no setor em que se encontrava a frota de bloqueio. Ali, a tal nave permanecia por pouco tempo para desaparecer subitamente. Algumas vezes recorreram aos cálculos de probabilidade para prever o lugar em que surgiria a Califórnia, e, em duas oportunidades, aproximaram-se perigosamente de Ostal. Desta vez erraram nos cálculos; se não fosse assim, Ostal não poderia ter assumido o risco de permanecer durante dois minutos no mesmo lugar. Só depois que Gucky concluiu a “longa viagem” de Hades até a Califórnia, Ostal sentiu o fato. *** Dali a algumas horas, Perry Rhodan chegou ao espaçoporto militar de Terrânia. Sua chegada foi mantida em segredo. Somente o Marechal Freyt e alguns dos oficiais mais importantes do estado-maior foram informados a respeito. O Marechal Freyt teve de trazer-lhe uma notícia desagradável. Na manhã daquele dia, a polícia dissolvera uma gigantesca passeata realizada em Terrânia e dirigida pelo Tenente Cardif. Cardif fora preso. Perry Rhodan sentia-se exausto com os acontecimentos das últimas semanas. Mas não deixou perceber se a notícia transmitida pelo Marechal Freyt o comovia. Tomou conhecimento da mesma e elogiou a circunspeção de Freyt. Pela sua reação ninguém notaria que o preso era seu filho.

De repente, Rhodan demonstrou muita pressa em submeter-se ao tratamento médico. Queria reaparecer em público, mas sua disposição física e psíquica não estava excelente... Sabia que, quando se mostrasse ao público, a crise política chegaria ao fim. Refletiu sobre isso e sobressaltouse ao perceber que o bem da Terra, da Humanidade e do Império Solar dependia muito de sua pessoa. Achava que isso representava um tremendo erro. Resolveu que no futuro isso seria modificado. Se o destino da Humanidade dependesse da personalidade de um indivíduo, o futuro desta Humanidade, em longo prazo, seria sombrio. Enquanto pensava nisso, recuperou a tranquilidade e adormeceu. Bem longe da Terra, num mundo situado em outra dimensão temporal, uma comissão de altas autoridades arquivou os planos através dos quais pretendiam obrigar os terranos a colaborarem com sua raça. O mais importante dos terranos, que se encontrara em seu poder, estava morto. O comandante de uma base espacial afastada não compreendeu a importância dos acontecimentos e mandou derrubar o veículo espacial no qual o terrano procurava fugir. Assim que esse comandante voltasse para Druufon, receberia uma reprimenda por sua incompetência e seria rebaixado. *** A uns seiscentos milhões de quilômetros do lugar em que as autoridades arquivaram os planos, certo Tommy — privado dos seus distintivos, porque uma criatura pequena e insignificante o derrubara com uma barra de metal e lhe tirara o traje protetor — refletia sobre como deveria agir para reconquistar as boas graças das altas autoridades de Druufon! Por mais que refletisse, não descobriu a menor falha em seu procedimento. Concluiu que fora enganado por alguém.

No momento em que o administrador retorna à Terra, depois de seu drástico resgate em Rolando, as agitações políticas haviam se amainado.. Em A Nave dos Antepassados, título do próximo volume, Gucky torna-se um detetive galáctico.

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Nº 81

De Clark Darlton Tradução

Richard Paul Neto Digitalização

Vitório

Revisão e novo formato

W.Q. Moraes

Os homens servem à máquina... na astronave do passado!

Há milênios uma nave vaga pelo espaço, longe das rotas normais de navegação. É um gigantesco couraçado. Mas, em comparação com a amplidão do espaço, não passa de uma partícula de pó. E ninguém a localizou... Que nave será essa? Terá tripulação? Será o testemunho de uma catástrofe espacial ocorrida numa época em que a Humanidade ainda não sabia da existência do Universo? Porém Gucky, o mais competente mutante de Rhodan, afirma que alguém pensou em voz alta e “localiza” A Nave dos Antepassados...

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PREFACIO A gigantesca esfera metálica vagava pela imensidão infinita do Universo. Se traçássemos sua rota passada, chegaríamos ao halo galáctico, onde se situam os gigantescos grupos estelares esféricos. Mas se acompanhássemos sua rota futura, iríamos parar no vazio desolado da extremidade oposta da Via Láctea. Se mantivesse a velocidade atual, a esfera só chegaria ao destino dentro de algumas dezenas de milênios. Além de gigantesca, a esfera era artificial. Quem a visse pela primeira vez poderia ter a impressão de estar observando um pequeno planeta. Porém, um exame mais cuidadoso logo revelaria que essa impressão seria simplesmente falsa. A esfera era um objeto artificial, construído e posto em movimento por seres pensantes. Ao que parecia, seus tripulantes também eram criaturas inteligentes. Vez por outra, o observador veria uma sombra que se movia atrás das vigias iluminadas. Essas sombras possuíam formas humanoides, fato que levava à conclusão de que, no interior da esfera, não habitavam monstros, e sim homens. A esfera era uma nave espacial. É bem verdade que a nave tinha um diâmetro de mil e quinhentos metros e seria capaz de abrigar alguns milhares de homens. Seguia firmemente a sua rota, sem preocupar-se com os acontecimentos que se desenrolavam nos milhares de planetas habitados, situados nas vizinhanças. As placas energéticas de radiações, que permaneciam ligadas, ininterruptamente, evitavam sua localização eletrônica à distância, e nenhuma nave de patrulhamento espacial, fosse de que raça fosse, descobriu o peregrino incansável que voava para um destino desconhecido. Não havia ninguém que jamais tivesse posto os olhos no interior da misteriosa navefantasma, com exceção, é claro, das pessoas que viviam e trabalhavam no interior da mesma. Mas estas pessoas só conheciam o interior da nave; não sabiam o que se passava no mundo situado além de suas paredes metálicas. É bem verdade que viam as estrelas que desfilavam lentamente ao longo da trajetória da nave; mas estas pertenciam às suas vidas e não representavam qualquer mistério. O negrume eterno do cosmos era seu dia, e os sóis reluzentes eram seus companheiros constantes. Por maior que fosse a nave, em comparação com a imensidão do Universo, ela não passava de uma partícula de pó, que seguia com vagar uma trajetória previamente traçada, e nela prosseguiria até que um dia fosse devorado pela eternidade. Ninguém daria por sua falta...


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já havia formulado as mesmas perguntas. — Só para o quê? M-7 parecia embaraçado. — Nada — disse laconicamente e saiu do elevador. Pouco importava que não fosse o corredor ao qual pretendia ir. Apenas desejava escapar do olhar penetrante e desconfiado do médico. Viu as pernas de D-3 subirem à sua frente e esperou dois minutos. Depois voltou a entrar no elevador e, dali a dez minutos, penetrava no camarote que partilhava com M-4. Via de regra, os turnos de trabalho dos dois eram diferentes. Quando os turnos coincidiam, M-4 costumava ficar deitado na cama sem fazer nada e sem mostrar-se disposto a entreter qualquer palestra. M-7 suspirou, lavou-se e foi para a cama. Para que estava vivendo?

O Maquinista Sete havia terminado seu turno de trabalho e saía em direção ao alojamento. Foi substituído pelo Maquinista Quatro, um moço robusto, mas de poucas palavras; difícil de diálogo. O Maquinista Sete gostava de bater um papo entre um turno e outro, mas o Maquinista Quatro não era um bom companheiro para esse tipo de entretenimento. Um tanto contrariado, M-7 caminhou pelo estreito corredor, até atingir o elevador antigravitacional. Penetrou imediatamente no negrume do poço e logo se sentiu atingido pelo suave fluxo ascendente, que o levou para cima. Dali a alguns segundos, outro homem colocou-se a seu lado; com um ligeiro aceno de cabeça, deu a entender que não gostava de prolongadas discussões. *** M-7 conhecia o homem. Era um dos médicos que O comandante estava a sós em seu velavam pela saúde do pessoal de bordo. camarote. Personagens principais Se não se enganava era o Doutor Três, O corpo robusto, ligeiramente deste episódio: um homem geralmente amável e inclinado para a frente, revelava sua comunicativo, especialmente com quem idade. Essa impressão era reforçada pelos D-3, Ps-5, M-4 e R-75 — Os estivesse doente e confiado aos seus cabelos brancos que emolduravam um primeiros tripulantes da nave dos cuidados. antepassados que se rebelam rosto, estreito e oval, com um par de Naquele instante, o Maquinista Sete contra a vida bitolada. olhos avermelhados e um nariz quase lamentou-se de não estar doente. feminino, que encimava a boca estreita. O Gucky — Um rato-castor — O senhor não acha que hoje o ar queixo revelava energia e força de mutante que se apresenta como o está mais abafado que de costume? — vontade, mas os traços suaves que Imperador da Nebulosa de indagou cautelosamente, para dar início à circundavam a boca pareciam indicar o Andrômeda. conversa. — Tenho a impressão de que contrário. está fazendo mais calor que nos outros Wilmar Lund — Comandante do As mãos do comandante estavam dias. cruzador ligeiro Arctic. pousadas sobre uma pequena pilha de — É apenas impressão! — respondeu finíssimos documentos de plástico. Cadete Brugg — Que não sabe o médico laconicamente. Parecia querer segurá-los, com medo de que Gucky é vegetariano. Ao que parecia, o doutor não tinha a que alguém os tirasse. As pernas Rhodan, ou melhor, Alf Renning. menor vontade de conversar com o estendidas quase chegavam ao lado maquinista. Mas M-7 não desistia tão oposto da mesa metálica, firmemente depressa. presa ao chão. A única peça móvel era a leve poltrona. — Como é que a gente pode se enganar tanto, D-3? — A parede, feita de material transparente, mostrava o retrucou, usando a abreviatura simbólica, formada pela espaço cósmico. Duas das outras paredes estavam cobertas indicação da função e pelo número. — Quem sabe se não de instrumentos de controle, em fileiras de pequenas telas, estou doente? quadros de comando, chaves e indicadores. Além disso, D-3 lançou um olhar perscrutador para M-7 e sacudiu a havia botões, mecanismos de regulagem e equipamento de cabeça. comunicação. Na última parede, existiam apenas duas — Por que acha que está doente? Se estiver sentindo portas. Uma delas levava a uma sala na qual ninguém podia alguma coisa, avise sua seção e apresente-se a mim. Depois penetrar, a não ser o comandante. veremos o que... Levantou os olhos ao ouvir um leve zumbido. A tela — Avisar que estou doente? — M-7 parecia assustado. superior do lado esquerdo iluminou-se. Fez um gesto de — Tanta coisa só para... cansaço e girou o botão que existia embaixo da tela. No Estacou. Por pouco não fala demais. Não poderia dizer mesmo instante, surgiu o rosto de um homem que, apesar ao médico que apenas estava com vontade de abrir-se com dos cabelos brancos, parecia jovem e sadio. O rosto alguém. Seu mundo era feito apenas de indagações que enérgico provava que aquele homem gostava de decidir nunca obtinham resposta. É bem verdade que nem mesmo o depressa, e, nos olhos avermelhados, havia um brilho médico seria capaz de lhe dar as respostas que estava penetrante que deveria servir de advertência a qualquer procurando, mas sempre seria interessante saber se alguém inimigo.


— Por que me perturba, Oficial Um? O rosto não demonstrou a menor comoção. — Preciso falar com o senhor, C-l — disse. — É importante. O comandante soltou um suspiro. — Já sei o que deseja — disse em tom de resignação. — Por que será que a juventude nunca sabe esperar sua vez? Sei que meu tempo está quase no fim, mas para que tanta pressa, O-l? O senhor será meu sucessor... — Pois não percebo nada disso — retrucou o oficial em tom zangado. — Como é que a juventude pode progredir se a velhice não lhe dá oportunidade para isso? O comandante sorriu. — Progredir, O-l? Você quer progredir? Se soubesse... — Pois eu quero saber. O senhor tem tempo para falar comigo? O comandante recusou em tom resoluto. — No momento não, O-l! Quando estiver na hora, avisarei. Você nem imagina o peso da responsabilidade que terá de assumir. Quando estiver no meu lugar, se arrependerá de sua afoiteza, mas então não haverá como voltar atrás. Qualquer um que ocupe meu lugar será a pessoa mais solitária do Universo. — Não há ninguém mais solitário que aquele que se isola voluntariamente. E é o que o senhor está fazendo, comandante. — Você fará a mesma coisa, porque não terá outra alternativa. Um dia compreenderá. Até lá só lhe posso pedir que tenha paciência. Permita que eu o previna O-l: qualquer insistência de sua parte poderá ter conseqüências funestas. Ainda não chegou a hora... O jovem acenou com a cabeça... parecia zangado. — É o senhor quem decide o momento da substituição? O comandante sorriu. — Faça de conta que sou eu quem decide. Desta forma, não terá um peso na consciência. Você só saberá de toda a verdade quando ocupar meu lugar — olhou para o relógio que se encontrava em cima do painel de instrumentos. — Com licença; tenho o que fazer. A tela apagou-se subitamente, antes que o oficial tivesse tempo para responder. O comandante voltou a acomodar-se em sua poltrona. Apoiou a cabeça nas mãos, como se esta pesasse demais. Compreendia perfeitamente o jovem oficial que um dia ocuparia seu lugar. O regulamento não permitia qualquer exceção, sob pena de morte no conversor. O sucessor teria de esperar até que fosse dado o sinal. Só depois disso, poderia assumir o cargo, a fim de que só uma pessoa de cada vez conhecesse o segredo. “De qualquer maneira terei de morrer”, pensou o comandante com uma amargura cada vez maior. “É o preço que tenho de pagar. Os que vieram antes de mim morreram, e os que vierem depois também morrerão.” Não havia nada que pudesse interromper a sequencia. Mais uma vez sobressaltou-se com o zumbido do

videofone. Tinha a obrigação de dar atenção a todo e qualquer chamado. Levantou-se para verificar se não era o Oficial Um. Desta vez, era o Oficial Dois, porta-voz da tripulação. — Comandante, Ps-5, D-3 e R-75 querem falar com o senhor. Pode recebê-los? O comandante refletiu rapidamente. Não havia nada de extraordinário em que o doutor e o psicólogo desejassem uma entrevista. Isso acontecia quase todas as semanas. Mas o fato de o Reparador Setenta e Cinco querer falar com ele não era corriqueiro. Por isso falou num misto de curiosidade e estranheza: — Conceda a permissão. Aguardo estas pessoas na hora de costume. Teve um pressentimento e acrescentou: — Só quero falar com as pessoas que acabam de ser nomeadas, O-2. Tome as necessárias precauções para que O-l não venha, sob qualquer pretexto. — Entendido, senhor — disse o interlocutor e desligou. O comandante voltou a sentar-se e refletiu intensamente. Desconfiava de que uma desgraça estava para desabar sobre ele. Porém não sabia de que espécie era essa desgraça... *** Alguns dias antes... O psicólogo levantou os olhos, perplexo, quando a porta se abriu e o Doutor Três entrou em seu gabinete sem fazerse anunciar. Os dois homens tinham aproximadamente a mesma idade, e, se não fosse seus trajes profissionais, seria difícil distingui-los. — Ora, D-3. É uma visita rara... — Preciso falar com você, Ps-5. Só você pode responder às inúmeras perguntas que formulo a mim mesmo e que outros me formulam. — Perguntas? Desde quando a gente costuma formular perguntas a si mesmo? — É a vida que coloca estas perguntas diante de nós, e compreendo qualquer pessoa que queira transmiti-las aos círculos dirigentes. E os círculos dirigentes somos nós, que não devemos responder. O psicólogo sorriu. — Não devemos meu caro? Mesmo que quiséssemos, que resposta poderíamos dar? O que sabemos da vida? Nascemos aqui, aqui vivemos e trabalhamos, e é aqui que morreremos quando chegar nossa hora. — Mas por quê? Por que vivemos e morremos aqui? Que sentido tem nossa existência? São estas as perguntas que ouvi repetidamente nos últimos dias, Ps-5. Que resposta poderia dar? Sei que perguntas deste tipo são proibidas, e sempre que alguém as ouve deve avisar o comandante. Mas também sei que o comando da morte sai à procura das pessoas que formulam tais questões e... Se nos ativéssemos às ordens que nos são dadas, dentro de pouco 42


tempo não haveria uma criatura viva em nosso mundo. O médico fez uma pausa, inclinou-se para frente e fitou os olhos de seu interlocutor. — O que vem a ser este mundo? Você sabe? — Ninguém sabe — respondeu o psicólogo, sacudindo a cabeça e voltando a sorrir. — Por que quer saber? Nascemos e somos criados neste mundo, nele recebemos nossas tarefas e as cumprimos. Nosso mundo nos sustenta nos dá comida, bebida e oxigênio; nos veste e, uma vez por ano, permite que entremos em contato com as mulheres. Por fim ainda nos concede uma morte rápida e indolor. Devemos agradecer a este mundo por cuidar tão bem de nós. Você não acha? — Acho. Concordo plenamente com você. Mas gostaria de saber por que as coisas são assim e quem rege nossos destinos. — Quem rege nossos destinos? — o psicólogo refletiu por algum tempo e parou de sorrir. — Ora, é o comandante; quem poderia ser? É ele que dá as ordens e, felizmente, tem de morrer da mesma forma que nós. Muita gente se sente reconfortada com esta ideia e, quando chega sua vez, morre alegre. — Não é o comandante quem rege nossos destinos — disse o médico em tom tranquilo. O psicólogo estremeceu. Seus olhos estreitaram-se; com uma expressão de pavor fitou as fendas do equipamento de renovação de ar, situado no teto, como se acreditasse que ali havia alguém que os escutasse. Seu rosto assumiu uma expressão de dúvida misturada com medo. — Psiu! Que bobagem é essa? Você ainda acabará por nos levar ao conversor. A morte no reator atômico seria a estação final de sua vida. Ninguém poderia escapar a esse destino, mas quem não soubesse conduzir-se com a necessária cautela apressaria o destino inevitável. O comandante não hesitava muito em proferir uma sentença de morte, e sua vontade era lei. O médico afastou a objeção com um gesto da mão. — Tolice, Ps-5! Não somos crianças às quais se possa meter medo com o conversor. Somos homens para nos defendermos se quiserem levar-nos. Tomei minhas precauções. Você acredita que andei pensando sobre isso e não arranjei armas? — Armas? — perguntou Ps-5 em tom de espanto, ao qual se misturava uma fagulha de medo. — Você sabe que a posse de armas é proibida. Aliás, como é que você poderia tê-las arranjado? Neste mundo ninguém tem armas, a não ser... — Isso mesmo! Ninguém possui armas, a não ser os guardas. Eles as trazem ocultas em seus corpos mecânicos. Para nos apossarmos das armas de um guarda, temos de destruí-lo. O psicólogo fitou o médico com uma expressão de espanto. — Não venha me dizer que... — Pois é isso mesmo. Atraí um robô para uma

emboscada e o coloquei fora de ação. Depois desmontei-o e fiquei com suas armas energéticas. Um maquinista me ajudou. Ele é de confiança. — Um maquinista?! Será que ele não o trairá? Desta vez, o médico sorriu. — Ele não pode meu caro. Fiz dele um viciado. Sei que isso é proibido. Se descobrirem, serei punido. Mas M-4 ficaria sem drogas e definharia miseravelmente. Como vê, tomei minhas precauções. E estou decidido a descobrir a verdade. Quer me ajudar a descobri-la, Ps-5? Reflita sobre isso. Caso não pense como eu, esqueça-se de nossa conversa. Confio em sua palavra. — Quem, além de você e M-4, está agindo? — Mais ninguém. O psicólogo recostou-se na poltrona e lançou um olhar pensativo para o teto de seu gabinete. Era aqui que trabalhava e dava suas ordens à Divisão de Psicologia. Gozava de certo renome. Deveria arriscar tudo isso apenas para satisfazer a curiosidade? Não se encontrava junto à fonte das informações? Não era ele que, juntamente com o comandante, era informado sobre todas as novidades em virtude de sua profissão? Por que teria de bancar o curioso? Lançou um olhar pensativo para o amigo, que o fitou com uma expressão de expectativa, cheia de fé e esperança, mas também com temor. De repente, teve uma ideia. — Você tem aí a arma? — perguntou. D-3 fez que sim. Pôs a mão no bolso e tirou um bastão pequeno e jeitoso, em cuja extremidade havia uma lente de vidro. — Você nunca viu esta arma em funcionamento, Ps-5. Mas eu lhe garanto que seus efeitos são terríveis. Se quiser, poderei perfurar a parede externa de nosso mundo e dar entrada à morte gelada. Seria facílimo matar um homem com ela. O psicólogo sentiu um calafrio. Desconfiava de que nunca estivera tão próximo da morte como naquele instante. Mas o médico era seu amigo... Seria mesmo...? Fitou detidamente a lente e procurou imaginar como seria a morte que se ocultava naquele bastão prateado. Seria uma morte rápida e indolor? Seria mesmo...? Mais uma vez, surgiram perguntas. Porém todas ficaram sem respostas. — Ontem fui procurado por um homem — principiou Ps-5, rompendo o silêncio reinante após as indagações. — Sua divisão encaminhou-o a mim porque não se conduziu com a necessária cautela durante o trabalho. Não consegui tirar nada dele, pois mantinha um silêncio obstinado sobre os motivos de sua distração. Não tive outra alternativa: apliquei-lhe o radiador psíquico. Com isso, sua língua se soltou. Descobri por que já não pode cumprir suas obrigações com toda dedicação. Está interessado em ouvir a história que ele me contou? 43


O médico limitou-se a acenar com a cabeça. Continuava a segurar o bastão prateado. Até parecia que se esquecera dele. — Pois bem. Preste atenção, D-3. O homem pertence ao comando de reparos do setor dez. É um simples trabalhador. Há cerca de meio ano, um dos aparelhos de exaustão falhou e teve de ser reparado. R-75 foi incumbido de fazer os reparos. Com o auxílio de um colega procurou descobrir a causa das avarias e repará-las. Era a primeira vez que a instalação entrava em pane. Por isso, não foi fácil descobrir o defeito. Depois de algum tempo, viram que seria necessário romper uma parede para atingir as instalações propriamente ditas. D-3 inclinou-se para frente; parecia muito interessado. — Espero que não tenha sido a parede externa. — Não; nem poderia ter sido, pois nesse caso R-75 e seu colega teriam morrido imediatamente. Usaram o aparelho de solda para cortar a parede e fizeram uma abertura capaz de dar passagem a um homem. É claro que estavam contrariando as ordens vigentes, segundo as quais não deve ser realizada qualquer modificação. Porém uma abertura na parede é uma modificação... Passaram pela abertura e foram parar num recinto em que reinava uma penumbra. Segundo o relato de R-75, havia no teto pequenas luzes, que espalhavam uma débil luminosidade. De qualquer maneira, a parte dos fundos do exaustor estava exposta à sua frente. Logo descobriram a causa do defeito e conseguiram removê-la. “Mas os dois não voltaram imediatamente para fechar a abertura, como deviam ter feito. Começaram a examinar a misteriosa sala; ou ao menos, tiveram essa intenção. Porém foram impedidos. Isso mesmo, D-3, foram impedidos. Os guardas andam até mesmo nos setores inexplorados de nosso mundo. R-75 conseguiu colocar-se em segurança, mas seu colega foi atingido por um raio energético e teve morte instantânea”. “Os guardas não saíram em perseguição de R-75, como este receava. Talvez tivessem recebido contraordem, pois se retiraram imediatamente. R-75 soldou a abertura e apresentou-se a seu superior. Relatou os acontecimentos e descreveu a morte de seu colega, mas não contou o que havia visto no tal recinto. Porém não pôde deixar de contar a mim, já que estava submetido ao tratamento psíquico. Dessa forma, consegui saber o que o atormentava. Era um terrível segredo, que inevitavelmente acarreta a morte de quem o descobre. E é por isso que R-75 ainda está vivo.” — Não compreendo — confessou o médico. O psicólogo sorriu. — Você logo compreenderá. O reparador revelou-me um segredo que ninguém deve conhecer. Se transmitisse o segredo a alguém, R-75 não escaparia à morte. Mas eu teria de entrar no conversor a seu lado, pois também conheço o segredo. E comigo entrariam outras pessoas, caso eu as comunicasse de... Já compreendeu por que R-75 ainda está vivo? — Compreendo. Mas prossiga; que segredo é este?

O psicólogo voltou a fitar o perigoso bastão prateado. — Será que você poderia guardar isso, D-3? Se eu tiver de olhar constantemente para a lente de um aparelho que expele raios mortíferos, fico nervoso. Obrigado, amigo. Bem, vamos ao segredo. É claro que R-75 não conseguiu distinguir todos os detalhes, porque a iluminação não era boa. De qualquer forma, conseguiu distinguir na penumbra duas fileiras de blocos transparentes, entre os quais havia espaço suficiente para que os guardas se locomovessem à vontade. Cada bloco estava ligado por meio de fios e tubos de plástico a uma máquina embutida na parede. Nos blocos havia um líquido turvo, que devia ser mais viscoso que a água, pois permanecia imóvel. E, nesse líquido, boiava... gente! — O quê?! — exclamou o médico, empalidecendo. — Havia gente?! O psicólogo fez um gesto afirmativo. — Em cada bloco havia uma pessoa nua — um homem ou uma mulher. Você sabe quem são essas pessoas? Não, você não sabe. Pois eu lhe direi, D-3. Essas pessoas são nossos antepassados que, segundo reza a história, teriam morrido há dez mil anos. É isso mesmo. Depois de terem colocado nosso mundo na rota certa, eles não morreram, mas ficaram mergulhados naquele líquido e ali dormem até hoje. São vigiados por guardas metálicos que, além de nos dominar, impõem também sua vontade ao comandante. E a vontade que nos impõem é a vontade de pessoas que, segundo se diz, teriam morrido há muito tempo. Pense bem, D-3! Nós fomos logrados! O médico estava estupefato. — Não é possível, Ps-5. Sei que você acredita nisso, mas não consigo imaginar que realmente seja assim. Então nós somos escravos de pessoas que morreram há muito tempo? — Acontece que não morreram! O psicólogo quase chegou a gritar estas palavras. Mas logo se calou assustado. Se alguém o ouvisse, estaria perdido. — Você quer dizer que ainda estão vivos? A voz com que o médico proferiu estas palavras quase chegava a ser incrédula. Subitamente deu-se conta de que, face aos seus conhecimentos médicos, estaria em melhores condições de pronunciar-se sobre o assunto que seu interlocutor, e prosseguiu. — Naturalmente. De que serviriam seus corpos, perfeitamente conservados, mas mortos? Quer dizer que estão vivos! Mas por quê? O psicólogo inclinou-se para frente. — Nós sabemos D-3. Nós sabemos! Nós e R-75. Mas este nem desconfia de que consegui apoderar-me de seu conhecimento. Ainda bem. Suspendi seu tratamento sem informar seus superiores sobre os motivos de seu estado de perturbação. Talvez saiba ficar com a boca calada; neste caso ainda viverá algum tempo. — Quer dizer que nós sabemos. Como vamos utilizar esta descoberta? 44


— Bem, o que sabemos realmente? Em algum ponto inexplorado deste mundo, jazem nossos antepassados, mergulhados num sono profundo e conservados através dos séculos; ao menos, à primeira vista, parece-me assim. É possível que na verdade estejam mortos. Talvez tenham morrido em virtude de algum erro imprevisto e apenas seus corpos se tenham conservado. Seja como for, a esta hora já podemos fazer uma ideia sobre suas intenções. Um belo dia, quando nosso mundo chegasse ao destino, desejavam ser despertados. Ao que suponho as gerações intermediárias só preencheriam uma finalidade: manter o maquinismo em funcionamento. Sempre acreditamos que vivíamos e trabalhávamos para nós, mas na realidade nós o fazemos pelas pessoas que dormem no centro de nosso mundo metálico. Gostaria de saber se o comandante conhece a verdade, ou se também está sendo enganado. D-3 lançou um olhar pensativo para o psicólogo. — Com a arma na mão eu me sinto seguro. Mas quem mais tem uma arma? Só os guardas. E estes não podem ser conversados, pois não são homens, mas simples máquinas. Porém não tenho apenas um radiador, mas três. Posso darlhe um. Dessa forma poderemos arriscar-nos a fazer perguntas ao comandante, face a face, e pedir que ele nos explique tudo. — Você tem coragem — disse o psicólogo em tom de inveja. Refletiu por alguns segundos e prosseguiu: — Nos tempos de escola, meu maior problema era a indagação sobre a finalidade de nossa existência. Sabia que nascíamos nos asilos e nunca veríamos nossos pais. Ao sermos levados para a instituição educadora, não mais veríamos nossa mãe. Vinha a escola, o aprendizado e o estudo. Por fim, o trabalho, que prossegue até o momento em que alcançamos a idade adequada para morrermos no conversor. Até mesmo depois de mortos, servimos ao nosso povo, pois nossos corpos fornecem energia. O circuito de nossa vida é claro e prefixado, mas não preenche qualquer finalidade. Para que serve tudo isso? Por que as coisas se passam dessa forma? Qual é nosso destino? Ou será que nosso mundo vaga ao acaso pelo Universo dos sóis? — O que sabemos sobre os sóis é muito pouco — disse D-3, lembrando os ensinamentos recebidos na escola. — Apenas conhecemos as tradições, e quem sabe se estas não são falsas? Talvez tenham sido inventadas por aqueles que dormem no centro deste mundo e aguardam a chegada de sua hora. Hesitou por um momento e prosseguiu lentamente: — Acho que perguntar ao comandante não seria a melhor solução. Vamos tomar nossas providências. Ps-5 inclinou-se para a frente. Parecia muito interessado nas palavras de seu interlocutor. — Que providências serão estas? — Iremos mais uma vez, com R-75, à sala onde dormem nossos antepassados. Talvez consigamos descobrir seus planos. O psicólogo deu sinais evidentes de susto, mas logo conseguiu vencer o medo.

— Talvez você esteja com a razão, D-3 Antes morrer com uma certeza no coração que viver na incerteza. Quando iremos? — Ainda hoje — respondeu o médico e levantou-se. — Mande chamar R-75. Ficarei escondido na sala ao lado e aparecerei assim que seja necessário. Ao sair, tirou do bolso a arma de radiações e destravoua. Não estava disposto a assumir qualquer risco. Ps-5 concordou plenamente. A seguir, o psicólogo comprimiu a tecla do intercomunicador e deu suas instruções. *** O Reparador Setenta e Cinco não conseguia tirar da cabeça a lembrança daquele acontecimento de alguns meses atrás. Seu sono era repleto de pesadelos. Via constantemente o colega ser atingido e morto pelos ofuscantes raios energéticos. Ouvia sempre os passos metálicos dos vigias saídos da escuridão, que pretendiam agarrá-lo com suas mãos frias. Porém acordava em tempo para não ter de viver o terrível momento. Talvez um dia, seus sonhos se tornariam realidade: viriam realmente para levá-lo ao conversor. Ainda bem que ninguém conhecia seu segredo. Enquanto se mantivesse em silêncio, estaria em segurança. E as longas fileiras de blocos com os corpos imóveis. O que vinha a ser isso? Seria gente morta há muito tempo, que estava sendo guardada para um fim todo especial? Que fim poderia ser este? O que significavam esses cadáveres, guardados há milênios naquela câmara mortuária? Ou não estariam mortos? R-75 formulara esta pergunta inúmeras vezes, mas nunca conseguira descobrir a resposta. Seus conhecimentos estavam restritos à área tecnológica. Pouco entendia das ciências médicas. Quando o intercomunicador chamou, estremeceu. A voz de seu superior, saída do alto-falante, disse: — Apresente-se à Divisão de Psicologia, R-75. Imediatamente! Faça o favor de confirmar. — Entendido — respondeu R-75, um tanto apreensivo. Suas mãos nervosas ajeitaram a roupa. Caminhou até a porta. O que queriam? Não passara bem pelo teste? Ou teriam desconfiado de alguma coisa e desejavam submetê-lo a outro exame? O elevador deixou-o no respectivo andar. Enquanto caminhava pelo corredor, esforçou-se em vão para lembrar qualquer fato que pudesse ter provocado suspeitas na Divisão de Psicologia. Sabia que ninguém tremia por nada na frente de um psicólogo. E era isso que o preocupava. Quando fechou a porta atrás de si, compreendeu que sua situação não era tão séria como receara. O psicólogo sorriu; sorriu para ele, que era um simples trabalhador. — Faça o favor de sentar-se, R-75 — disse Ps-5 em tom amável e apontou para uma cadeira. — Quero formular algumas perguntas. Peço-lhe que responda conforme a 45


verdade. Não tenha receio, mas é bom que saiba que, na situação em que se encontra o silêncio só poderá prejudicálo. Será que me exprimi com suficiente clareza? R-75 sentiu sua tranquilidade desvanecer-se de uma hora para outra. Era bem verdade que o psicólogo continuava a sorrir, porém esse sorriso parecia agora uma armadilha. — Não sei... — principiou R-75, mas logo foi interrompido. — O senhor logo saberá meu caro. Antes de iniciarmos nossa conversa, propriamente dita, quero dizer-lhe uma coisa. Depois de terminada a presente palestra, só haverá duas alternativas. O senhor e eu poderemos viver, ou então ambos teremos de entrar no conversor. Tudo depende do senhor. — No conversor? O psicólogo repetiu: — Isso mesmo; no conversor. Vamos resumir as coisas. Há alguns dias, esteve aqui porque alguém o mandou. Eu o submeti a um tratamento psicológico e fiquei sabendo da verdade sobre a morte de seu colega. Com isso, também fiquei conhecendo seu segredo. Não se assuste; o segredo está em boas mãos. Se eu o denunciar, terei de morrer também. Espero que isto o deixe mais tranquilo. R-75 realmente parecia mais calmo. Teve bastante inteligência para avaliar o significado das palavras do psicólogo. — Pois bem; vejo que estamos de acordo — prosseguiu Ps-5. — Vejo que o senhor compreendeu em que situação se encontra. Por isso, não há nenhum motivo para não conversarmos abertamente — virou a cabeça e, falando em direção à porta que levava à sala ao lado, disse: — Venha, doutor. Acho que poderemos expor nosso plano a R-75. D-3 guardou a arma energética. Entrou na sala e cumprimentou R-75 com um gesto. Naquele momento, R-75 compreendeu que o número das pessoas que eventualmente seriam condenadas à morte já subira para três. *** Não se encontraram com nenhuma pessoa ou vigia. R-75 os guiava; não se sentia muito à vontade. Sabia que, à sua retaguarda, havia dois homens armados que não hesitariam em matar qualquer inimigo, sem medir as conseqüências. Acontece que R-75 ainda não confiava plenamente nas armas que não conhecia. Nunca as vira serem usadas por um ser humano. Entraram no elevador e deslizaram em direção ao centro do gigantesco mundo esférico. Foram-se aproximando das regiões desconhecidas em que ficavam as salas de máquinas. Nem o médico e nem o psicólogo jamais haviam chegado até lá. Seu mundo resumia-se aos corredores limpos e reluzentes dos setores científicos. Quanto a R-75, este, por assim dizer, conhecia todos os lugares. O exercício de sua profissão exigia sua presença em todos setores. Parou.

— Não falta muito. Aliás, nenhum homem deveria chegar até aqui. Admiro-me de não termos encontrado nenhum vigia. — Os vigias são máquinas às quais falta o pensamento impulsivo. Apenas sabem pensar logicamente. Não suspeitam de que alguém ande por aqui, pois ninguém tem nada a fazer por estes lados. Não nos esqueçamos de que, provavelmente, vêm desempenhando suas funções há dez mil anos. E, pelo que sabemos da história de nossa raça, nunca houve um acontecimento como o que se verifica agora. Somos os primeiros que procuram desvendar o mistério. — É bem possível que outros o tenham feito antes de nós — ponderou o médico. — Nesse caso teriam morrido com seu segredo, motivo por que ninguém chegou a ter conhecimento do mesmo. — Isso é pouco provável, meu caro. Aposto que nem mesmo os vigias conhecem o segredo. Quando muito, apenas os que vivem atrás da parede e cuidam das pessoas que dormem ali estão informados a respeito. — Talvez — disse D-3 e calou-se. — Vamos andando — disse Ps-5 em tom impaciente, pesando a arma na mão. O médico lhe ensinara como usá-la, mas a verdadeira potência do artefato só seria revelada por meio de uma experiência. A iluminação tornou-se cada vez mais escassa. Mal se enxergava um palmo diante do nariz. Dificilmente alguém penetrava nestas regiões da nave, motivo por que havia boas razões para economizar energia. As reservas não deviam ser inesgotáveis. R-75 prosseguiu na caminhada e parou à frente de uma porta. Era grossa e estava firmemente encaixada no batente, mas à primeira tentativa deixou claro que não havia sido trancada. — Atrás desta porta fica a sala onde terminam os dutos do sistema de renovação de ar. Será que devemos entrar? — Foi para isso que viemos! — disse Ps-5 em tom impaciente e entrou à frente dos outros. O psicólogo mantinha a arma engatilhada, mas a precaução revelou-se desnecessária. Na sala só havia os gigantescos blocos de geradores e os enormes quadros de comando. A penumbra bastou para mostrar a solda retangular da parede oposta. Via-se perfeitamente que, naquele lugar, alguém fizera uma abertura e voltara a fechá-la. — Foi ali — disse R-75 e estremeceu ao rememorar os acontecimentos. Subitamente seus pesadelos pareciam transformar-se em realidade. — Como pretende abrir passagem? Ps-5 não respondeu. O médico levantou a arma energética. — Com isto! — disse em tom resoluto. — A energia existente nesta arma é suficiente para derreter a parede. Mas não precisaremos chegar a tanto. Basta remover a chapa soldada. 46


R-75 hesitou. De repente, as dúvidas pareciam surgir em sua mente, mas quando olhou para o rosto de seus companheiros, compreendeu que não havia como voltar atrás. A decisão fora tomada e era irrevogável. D-3 fez um gesto para Ps-5 e R-75. — Recuem um pouco; será preferível que fiquem neste canto. É possível que os raios energéticos sejam refletidos. Devemos agir com cautela. Ainda não estou familiarizado com o manejo da arma. Esperou até que os companheiros se colocassem em segurança, agachou-se atrás de um bloco de metal e dirigiu a lente para o setor assinalado pela marca de solda. O raio pálido desmanchou-se na parede. Pingos grossos de metal liquefeito caíam ao chão. De início D-3 não viu nada, porque a luminosidade o ofuscava, mas seus olhos logo se acostumaram à claridade. Sabia que, assim que desligasse a arma, não enxergaria mais nada. Ao menos por dez minutos, ficaria cego. A abertura custou a esfriar nas bordas. Com isso, os homens tiveram tempo para acostumar-se à penumbra. R75 fitou a abertura com um ar obstinado. Depois de algum tempo, disse: — Se soubesse o que iria encontrar lá atrás, nunca teria passado por esta parede. É estranho, mas naquela oportunidade não tive medo. Hoje as coisas são diferentes. — Não há perigo. Não precisa ter medo — disse Ps-5, procurando aparentar maior frieza e apalpando a borda entrecortada da abertura pela qual pretendiam passar. — Já está fria. Acho que não devemos esperar mais. Se houver algum dispositivo de alarma, os guardas não demorarão a aparecer. Quanto tempo demoraram daquela vez, R-75? — Não sei dizer com exatidão. Fiz os reparos e depois fui dar uma olhada por aí. Deve ter sido mais ou menos uma hora. D-3 olhou para o relógio. — Meia hora já se foi. Quer dizer que não temos muito tempo. Quem irá na frente? O psicólogo sabia que um dos membros do grupo deveria exercer as funções de chefe, pois só assim teriam alguma chance de serem bem sucedidos. Quando se deu conta disso, as dúvidas que ainda sentia desapareceram. O que se apossou de sua mente não foi propriamente a coragem, mas antes a consciência de que, naquela altura, já não havia como escapar ao destino. Pouco lhe importava o que acontecesse com ele, desde que descobrisse o segredo escondido no centro da gigantesca nave. — Irei na frente — disse e abaixou-se para passar pela abertura estreita. — Sigam-me se quiserem. Não esperou resposta. Espremeu-se pela abertura e voltou a erguer o corpo do outro lado da parede, depois de ter dado um passo para o lado, a fim de que seus companheiros tivessem lugar para segui-lo. Além da penumbra, reinava um silêncio total. Os ruídos da nave não chegavam até lá. O ar era puro, mas gelado. Há intervalos regulares viam-se pequenas lâmpadas embutidas no teto, que espalhavam uma débil luminosidade. Os

quadros de comando, embutidos na parede, indicavam que havia instalações ocultas, cuja finalidade era desconhecida. O psicólogo olhou para as duas longas fileiras de blocos de vidro. O líquido existente no interior destes devia ser de densidade muito elevada pois os corpos imóveis quase não tinham penetrado no mesmo; jaziam na superfície. Eram como pedaços de madeira, boiando num vaso com mercúrio. — É fantástico! — exclamou D-3, que se encontrava ao lado do psicólogo. — Se não visse com meus olhos, não acreditaria. Ps-5 parecia despertar de um sonho. — Não temos tempo a perder. Vamos andando. Manteve a arma engatilhada, enquanto caminhava em direção ao primeiro bloco. O médico seguiu-o, enquanto R75 ficou parado junto à abertura, para cobrir a retaguarda. Também recebera uma arma energética e sabia como lidar com a mesma. Pararam junto ao primeiro bloco. Os dois homens olharam para o corpo esbelto do jovem de cabelos brancos, que dormia na superfície do líquido. Os olhos estavam fechados, mas parecia ser capaz de abri-los a qualquer momento e, com uma expressão de espanto, fitar os intrusos. A boca estreita, combinando perfeitamente com o queixo pequeno e enérgico, também estava fechada. Nas narinas não se notava o menor movimento que pudesse dar a entender que naquele corpo imóvel ainda havia um vestígio de vida. O homem estava nu. A cor pálida da pele quase não se distinguia da do líquido. Os braços jaziam ao lado do corpo, como se não pertencessem a este. As pernas estavam encolhidas; parecia que antes de adormecer o desconhecido fizera mais um movimento. Os condutores e tubos terminavam na parte superior do bloco de vidro. Só agora, Ps-5 e D-3 perceberam que um fluxo quase invisível de gás penetrava constantemente no recipiente, e era aspirado por outro tubo. A iluminação não permitia verificar se o homem adormecido aspirava esse gás. Ps-5 encostou cautelosamente a mão ao bloco. Retirou-a abruptamente. — Isso é muito frio! — cochichou. — O líquido deve ser mais frio que gelo. — É mais frio que gelo, mas continua em estado líquido — disse o médico em tom pensativo. — O processo vital foi detido subitamente por meio do congelamento. Pode ser reiniciado a qualquer momento. Não se sabe quando isso acontecerá. Mas deverá acontecer. Pode ser hoje ou num futuro distante. O psicólogo manteve-se calado. Lançou mais um olhar sobre a pessoa adormecida e saiu andando. No bloco seguinte havia uma mulher. Ps-5 e D-3 fitaram-na com um ar de estupefação e notaram que era de uma beleza extraordinária. Só uma única vez na vida, durante o tempo de aprendizado, os homens de seu mundo podiam ver uma mulher... 47


Concluído o estudo ou o treinamento, tinham um ano de férias. Durante esse ano, conheciam uma espécie de vida familiar; só tinham uma obrigação: providenciar para que chegasse um filho. Depois os casamentos temporários eram dissolvidos e os cônjuges nunca mais se viam. O homem era encaminhado ao setor de trabalho, correspondente a seu aprendizado, e ali permanecer até que o comandante o mandasse eliminar. A mulher permanecia no setor infantil até que, depois de alguns anos, lhe fossem concedidas férias pela segunda vez. Depois de parir o segundo filho, seu ciclo de vida estaria cumprido. Caso não se tivesse destacado em algum setor e pleiteado um lugar nos serviços de criação e educação de crianças, seria levada ao conversor para morrer. Além de bela, a moça que se encontrava no recipiente de vidro corporificava os desejos e anseios mais recônditos dos dois homens que apenas conheciam uma vida inútil e já agora perdida. O psicólogo falou com a voz trêmula: — É uma maravilha! Até parece milagre! É muito jovem... — Tem alguns milhares de anos — disse o médico em tom frio. — Parece jovem porque as células de seu corpo não ficaram expostas ao processo de degenerescência. O psicólogo fitou a figura nua. Seus dedos crisparam-se em torno da arma energética. Um brilho perigoso surgiu em seus olhos e disse em voz baixa: — Que monstros! Não sei quem são, mas vejam a que tipo de vida eles nos condenaram — fitou o companheiro. — Agora já sabemos por que sempre nos ocultaram a verdade. Sabiam que não aguentaríamos esse tipo de... A vida que levamos é uma farsa. Só podemos saber aquilo que vemos e sempre nos dizem que isso é a coisa mais bela que existe no Universo. Acontece que agora já sabemos... — O que é que sabemos? — interrompeu o médico, procurando aparentar calma. — Aqui vemos as pessoas mergulhadas num sono eterno. E daí? Será que são culpados da existência que levamos? Ou será que os culpados são os...? — Quem poderia ser? — O comandante, por exemplo. Não tenho certeza, mas acho que ele deve saber mais que eu. Ps-5 sacudiu a cabeça e voltou a fitar a moça. — O comandante é tão mortal como nós. Quando chegar a hora, o conversor também estará à sua espera. Refletiu um pouco e acrescentou: — De qualquer maneira, perguntaremos ao comandante se sabe alguma coisa. Finalmente criamos coragem para isso. — É claro que perguntaremos — concordou D-3. — Mas pelo que sabemos isso será o fim da nossa vida. Não venha me dizer que você acredita que, uma hora depois de nossa palestra com o comandante, ainda estejamos vivos! — Aceito o risco, meu caro. Afinal, possuímos armas. Se nos colocarmos em posição favorável, poderemos

defender-nos contra um exército de guardas. — Está pensando num motim? — disse D-3 num cochicho. — Você quer rebelar-se contra a ordem estabelecida? — Nunca tive esta intenção. Porém cada vez melhor, compreendo que, se não nos defendermos, jamais sobreviveremos às perguntas que pretendemos formular ao comandante. Não o conheço profundamente. Nossos únicos contatos foram mantidos durante várias palestras, e nestas nem uma única vez se tocou em qualquer assunto particular. É possível que ele mesmo esteja sendo martirizado pelas dúvidas. Mas também pode ser que não passe de um autômato insensível, que se limita ao cumprimento mecânico do dever, ou daquilo que acredita ser seu dever. O psicólogo lançou mais um olhar, que quase chegava a ser triste, para a moça nua e virou-se. Olhou para a pequena abertura pela qual tinham vindo. R-75 continuava a manter guarda junto à mesma. Por enquanto ainda reinava o silêncio. — São mais de duzentos blocos de vidro — disse D-3. — Será que há outras salas desta espécie? — Você deve ter notado que a sala descreve uma ligeira curva — respondeu Ps-5, em tom de superioridade. — Meus conhecimentos matemáticos não são muitos extensos, mas pelos meus cálculos deve haver ao menos nove ou dez salas como esta no setor em que nos encontramos. Não sei como são os outros setores da nave, mas não há nada indicando que as instalações frigoríficas existam apenas neste setor. D-3 teve um calafrio. — A palavra que você acaba de usar me fez lembrar o frio. Não aguentarei por muito tempo. Vamos dar uma olhada nas outras criaturas adormecidas? — Em algumas — respondeu o psicólogo que, de repente, parecia um tanto taciturno. — Dificilmente descobriremos qualquer coisa além do que já sabemos, e os guardas poderão aparecer a qualquer momento. Eu me admiro de que isso ainda não tenha acontecido. Mais uma vez prestaram atenção a eventuais ruídos, vindos da semiescuridão, mas não ouviram nada. R-75 lançou-lhes olhares indagadores e apavorados. Fez um sinal com a mão. Quase uma hora já se passara! — Será preferível que nos apressemos — disse Ps-5, dirigindo-se ao médico. — Quero evitar qualquer encontro com os guardas, ao menos por hoje. Algum dia, teremos de defrontarmo-nos com eles. — Um confronto com esses monstros metálicos? — D-3 sacudiu-se. — A ideia não me deixa muito à vontade. O psicólogo fingiu-se de perplexo. — Mas como? Você não liquidou um deles? — Liquidei. Mas acho que há uma diferença entre os guardas que ficam deste lado da parede, e os que ficam do outro. É verdade que ainda não vi nenhum dos primeiros, mas o relato de nosso amigo R-75 basta... 48


De repente, calou-se. Não ouvira um ruído? Lançou um olhar rápido para o lugar em que R-75 montava guarda. O reparador mantinha-se imóvel, procurando ouvir o que se passava na penumbra, para além dos recipientes de vidro. Em algum lugar, ouvia-se um esfregar de metal contra metal. Parecia que alguma coisa se esfregava no chão. Subitamente a luminosidade aumentou. E então viram! Do outro lado da sala, abriu-se uma fresta que aumentou rapidamente, transformando-se numa porta. O recinto, atrás dessa porta, estava profusamente iluminado. Cinco ou seis sombras gigantescas destacavam-se contra a luz e puseramse em movimento. — São os guardas! — berrou R-75 em tom de pavor. Passou pela estreita abertura o mais rápido que pôde, soltando ininterruptamente gritos de pavor. — Vamos embora! — gritou D-3 e pegou o braço do psicólogo. — O que está esperando? Se eles nos pegarem... — Já sabem que estamos aqui — respondeu Ps-5 com uma tranquilidade apavorante. Talvez a perspectiva do perigo lhe infundisse medo, mas agora que via o perigo diante de si, logo recuperou a calma. Empurrou para trás a trava de sua arma. — É bom que saibam que seu tempo de espera também terminou. Liquidaremos ao menos um deles. D-3 hesitou. Não queria fugir só e abandonar o amigo à sua sorte. Porém amava a sua vida, mesmo que fosse uma vida sem sentido. Num gesto resoluto, também se preparou para enfrentar o inimigo. — Procuremos ao menos garantir nossa retirada — sugeriu apressadamente. — Vamos até a abertura! — Muito bem; mas ande depressa! O psicólogo lançou mais um olhar para a moça adormecida e correu atrás do médico. Chegaram ao lugar em que poderiam sair para os recintos habitados. Ficaram à espera do que estava para vir. Não tiveram de esperar muito. Seis robôs aproximaram-se entre as fileiras de esquifes de vidro. Seus braços estavam curvados num ângulo de noventa graus. Não possuíam mãos; no lugar das mesmas, estavam as lentes traiçoeiras das armas energéticas. Eram verdadeiros gigantes; mediam quase dois metros e meio. Os guardas das partes habitadas da nave não mediam mais de dois metros. A diferença era notável. E havia outra diferença: os guardas que viram diante de si sabiam falar. De repente, uma voz dura e metálica gritou: — Fiquem onde estão. Não tentem fugir! Ps-5 teve a impressão de que estava despertando de um sonho. Quando levantou a arma e a apontou para o robô, sua mão tremia levemente. O médico, que já tinha uma perna enfiada na abertura por onde pretendiam fugir, seguiu seu exemplo. — Se vocês ficarem onde estão, poderemos conversar! — respondeu Ps-5 o mais alto que pôde. Suas palavras ressoaram pelo recinto e foram refletidas

pelas paredes. Atingiram os ouvidos mecânicos dos robôs, pois os seis vultos estacaram de repente. Um deles deu mais dois passos, mas também acabou parando. — Você não pode impor condições — ressoou seu barítono metálico. — A partir do instante em que penetraram neste recinto, vocês estão condenados à morte. Ninguém poderá salvá-los. Por que vieram? — Será que você não consegue adivinhar? — perguntou Ps-5 e conseguiu dar um tom irônico à sua voz, embora estivesse todo arrepiado. Nunca vira a morte tão de perto como naquele instante. — Quem é essa gente que está dormindo nos recipientes de vidro? O que aconteceu com eles? Qual é a tarefa que vocês devem executar? Por um instante, reinou o silêncio; mas a resposta não tardou. — Talvez você e seu amigo ainda ouçam a resposta de nossa boca, mas somente quando estiverem a um segundo da morte. Venham cá; não procurem fugir. Sabemos que um homem conseguiu escapar, mas este será alcançado pela lei do comandante. — Não se movam! — ordenou Ps-5, quando os robôs fizeram menção de pôr-se em movimento. — Por que não perseguem nosso amigo que fugiu? — Não podemos sair do setor proibido — confessou o robô. Não sabia mentir; seus criadores haviam cuidado disso. Era uma precaução que a esta hora se voltava contra eles mesmos. — Virão até aqui, ou será que teremos de buscá-los? — Vocês ainda não responderam às nossas perguntas. — Eu já lhe disse que a resposta será dada mais tarde. D-3 cochichou para Ps-5: — Não adianta discutir com eles. Os robôs se orientam exclusivamente pelas ordens que receberam; só modificam seu comportamento quando são reprogramados. Entendo disso, pois um conhecido meu, um físico... — Nesse caso, devemos ao menos dar-lhes uma lição — interrompeu o psicólogo em tom decidido. — Vamos fazer o possível para pôr fora de ação ao menos duas dessas máquinas. Depois vamos dar o fora. Eles não poderão ir atrás de nós. Não esperou resposta; comprimiu o gatilho de sua arma. Os seis robôs, que estavam de costas para a luz, eram nitidamente perceptíveis. O feixe energético disparado pela arma do psicólogo atingiu o peito do robô que usara a palavra e com um chiado penetrou no metal frio. Antes que o médico pudesse abrir fogo, ouviu-se uma leve detonação, que literalmente esfacelou o chefe do grupo de robôs. O gigante caiu ao chão. O barulho foi tamanho que os dois homens receavam que este pudesse ser ouvido em todos os cantos da nave. O psicólogo fez pontaria contra o segundo robô. Antes que as criaturas mecânicas pudessem responder ao fogo, três delas haviam sido destruídas. De repente, D-3 sentiu um ardor no quadril direito. Ao notar que sua roupa começava a pegar fogo, ficou apavorado. Dominado pelo pânico, fugiu pela abertura que 49


dava para a sala dos geradores. Pouco lhe importava o que Ps-5 fizesse... O psicólogo teve bastante inteligência para perceber que não estava em condições de enfrentar sozinho os três inimigos que ainda restavam. Seguiu o médico e ajudou-o a recolocar a peça de metal na abertura. Só agora notaram a presença de R-75, que saiu todo trêmulo detrás de um gerador. Ao que parecia, estava envergonhado por ter sido tão covarde. Mas os companheiros o compreenderam e não levaram a mal a sua fuga. Afinal, também ficaram em pânico. — Ajude-nos, R-75! Solde a emenda. Dali a dez minutos estavam voltando aos seus camarotes. Mais de uma vez sentiram os olhares curiosos dos trabalhadores e cientistas com que se encontravam, mas ninguém formulou perguntas. Antes de despedir-se, Ps-5 disse a R-75: — Daqui a dois dias, você comparecerá à minha presença para ser submetido a novo exame. Venha assim que terminar seu turno de trabalho. Mais uma coisa: não fale com ninguém sobre o que acaba de acontecer. Se não ficar com a boca calada... — Guardarei silêncio e comparecerei depois de amanhã — prometeu o reparador e despediu-se. Afastou-se tranqüilamente. D-3 seguiu-o com os olhos. — É um homem simples, mas podemos confiar nele. O psicólogo confirmou com um gesto. — Temos de confiar. Sabe por que não procuramos o comandante ainda hoje? — Acho que sim — respondeu D-3. — Você quer descobrir se os robôs realmente mantêm contato com ele e se o avisarão. — Isso mesmo! — confirmou Ps-5. — Não tenho tanta certeza de que eles o farão. Despediram-se com um aperto de mão. *** A porta da esquerda abriu-se e os três homens entraram no santuário da nave: a sala de comando. O comandante estava sentado atrás de sua escrivaninha e fitou-os. Assim que viu as marcas de identificação que os homens traziam no peito, percebeu que realmente eram as pessoas anunciadas. Fez um sinal para os dois guardas, que haviam acompanhado os visitantes até a porta. Os dois colossos viraram-se e desapareceram em silêncio. A porta fechou-se. Seguiram-se alguns tensos segundos, mas logo o ambiente se descontraiu. O comandante fez um gesto amável em direção às poltronas. — Façam o favor de sentar, senhores. São as únicas pessoas que solicitaram uma entrevista para hoje. Pela data da entrevista concluo que não se pode tratar de um assunto rotineiro. Por isso, estou muito curioso para saber o que os trouxe à minha presença. E o que me deixa ainda mais

curioso é o comparecimento do Reparador Setenta e Cinco. Realmente era muito raro que um simples trabalhador desejasse falar com o comandante. Os três haviam combinado que Ps-5 seria seu porta-voz. Conhecia a alma das pessoas e saberia reagir adequadamente até mesmo aos impulsos mais estranhos de um coração. — Antes de o informarmos sobre o motivo real de nossa presença, queremos formular algumas perguntas — principiou o psicólogo, subvertendo propositadamente a ordem estabelecida. Não era costume formular perguntas ao comandante. — Se responder segundo a verdade, talvez possamos ter uma conversa franca. O comandante manteve-se impassível. É verdade que, em seus olhos avermelhados de albino, surgiu uma expressão de espanto. Porém o rosto não traiu o espanto causado por tão estranha proposta. Lançou um olhar curioso para os três homens e disse em tom tranquilo: — Formule sua pergunta, Ps-5. Foi a vez de o psicólogo espantar-se. Esperara encontrar maior resistência. A extraordinária disposição de contornar as leis, demonstrada pelo comandante, parecia indicar que estava informado sobre o incidente ocorrido no centro da nave. No entanto, era possível que tal atitude fosse ditada apenas pela curiosidade. — Minhas perguntas se referem a um assunto muito banal, comandante. São formuladas não apenas por mim, mas ocupam a mente de milhares de seres humanos que nascem, vivem e são eliminados nesta nave. Estas perguntas podem ser resumidas numa só: Para que vivemos? O homem de cabelos brancos, que era senhor absoluto dos destinos, fitou o psicólogo. Suas mãos estavam pousadas sobre a mesa. Ps-5 notou que os dedos tremiam nervosamente. Era um sinal animador. — Para que vivemos? Ora, esta é uma pergunta muito estranha, Ps-5, se é que me permite falar assim. Mas sua tarefa especializada desculpa a curiosidade que o fez formular essa pergunta. O que me admira é que R-75 também me venha com uma pergunta desse tipo. Atrevendo-se a vir à minha presença para ver respondida essa pergunta! O senhor, que afinal é um psicólogo, pode andar refletindo sobre isso, mas... — Estou esperando sua resposta — interrompeu-o o psicólogo abruptamente. Seu braço pendia junto ao corpo e a mão sentiu a presença tranquilizadora da perigosa arma energética. — Não se esquive à minha pergunta, comandante. Desta vez, o comandante mostrou sem rebuços seu espanto. De acordo com as leis vigentes, era senhor absoluto da vida e da morte dos seres que habitavam o mundo metálico. Uma palavra sua bastava para que a pena mais severa fosse imediatamente executada. E a desobediência sempre era punida com a morte. O que estava presenciando agora era mais que a desobediência. Era um motim! 50


— Muito bem, Ps-5, o senhor terá sua resposta. Cada um de nós vive para um dia prestar um serviço à comunidade por meio da morte. A decomposição de um organismo no conversor fornece novas energias às máquinas da nave. Os vivos têm de respirar, comer e beber; os geradores precisam ser alimentados e a rota deve ser mantida. — Por quê? Para quem serve isso, se todos vamos morrer? Desta vez, o comandante não deu atenção às palavras de seu interlocutor. — Qualquer pessoa que só pensa em seu insignificante destino comete um crime contra nossa comunidade. O indivíduo não conta. Quem não quiser submeter-se terá de entregar sua energia física, antes que esteja terminado o tempo que lhe foi concedido. Ninguém vive sem preencher uma finalidade. — Que objetivo é esse? — O objetivo de cada um consiste em terminar seus dias no conversor. E o destino de nosso povo é desconhecido. — Quero conhecer esse destino; foi por isso que vim até aqui. O comandante lançou um longo olhar pensativo para Ps5. Finalmente sacudiu a cabeça. — Mesmo que quisesse, não poderia atender a seu desejo. Também não conheço o objetivo supremo. Apenas estou cumprindo a tarefa que me foi confiada pelo destino. É só o que posso fazer. Não demorará muito, e meu lugar será ocupado por outra pessoa. Não sei se essa pessoa teria paciência para ouvi-los por um segundo que fosse. O psicólogo sentiu que a palestra estava entrando num estágio crítico. Estava na hora de pôr as cartas na mesa para forçar a decisão. — No momento em que outra pessoa ocupar seu lugar, o senhor terá de morrer. Será que o senhor espera esse momento com uma alegria e satisfação toda especial, comandante? A resposta demorou mais de um minuto. — O inevitável me deixa frio e indiferente. Quando, uma geração atrás, aceitei o lugar, já conhecia essa norma. Fui eu quem levou ao conversor a pessoa que me precedeu. Portanto, não poderei escapar ao mesmo destino. Escolho um rapaz inteligente da nova geração e faço dele o O-l e, portanto, meu sucessor. Para demonstrar sua gratidão, assim que eu lhe der o sinal, ele me matará. — Será que o senhor nunca pensou em retardar esse desfecho, a fim de viver mais um pouco? — perguntou Ps5. — Quer nos fazer crer que encara este tipo de morte, sem a menor comoção? Não acredito! — Com os senhores acontece a mesma coisa — retrucou o comandante. — No momento em que resolveram dirigir-me estas perguntas, os senhores se conformaram com o fato de que seriam mortos imediatamente. Ou será que acreditam que ainda verão o fim deste dia? — Sim, comandante, acreditamos nisso. E digo mais.

Não viveremos só até hoje de noite, até amanhã ou até o dia em que o senhor resolva mandar-nos ao conversor. Viveremos até que a natureza decida nossa morte. Viveremos nossa vida até que chegue o fim natural. O comandante sacudiu a cabeça; estava muito sério. — Não viverão, não! O que estão pedindo é uma rematada loucura. Os senhores envelheceriam e representariam uma carga para a comunidade. Na fase final de sua vida, seriam inúteis para nosso povo e destruiriam todas as vantagens que conseguimos criar em muitos anos de atividade. Ninguém de nós deve ter uma morte natural, pois isso representaria o fim de nossa raça. É o que nos diz o raciocínio. Haveria crianças demais, gente demais, e o lugar seria escasso. — Quem terá de decidir isso é a natureza. Se suas palavras fossem verdadeiras, ela, a natureza, nos faria morrer na flor dos anos. Acontece que não faz nada disso. Por quanto tempo pode viver o ser humano, comandante? O senhor saberia dizer? Se não sabe, como pode fixar nosso tempo de vida? Será que não pronuncia as sentenças de morte antes da hora? — O tempo de vida não se determina pelo tempo de vida biológico, mas pelas circunstâncias espaço-físico de nosso mundo. Nunca podemos permitir que o número de nascimentos fosse excessivo, nem que o de mortes seja insuficiente. Nosso destino resulta da necessidade de mantermos o equilíbrio... — É um destino cruel e injusto, comandante. Viemos para promover uma radical modificação. Não queremos assistir mais ao desprezo e ao desperdício das vidas. O que está em jogo não é apenas nossa vida, mas a de nosso povo. A natureza concedeu a cada um de nós o direito de viver até que chegue a hora da morte, se é que me posso exprimir assim. Não sei quem criou as leis que regem nossa existência, mas acho que o Criador do Universo há de maldizer o senhor e essa pessoa. O comandante empalideceu. — Eu lhe proíbo que fale assim! — gritou em tom indignado. Mas Ps-5 resolveu jogar todas as cartas. — O senhor não me pode proibir nada, comandante. Sabemos perfeitamente que nossa vida estará perdida, se nos submetermos à sua vontade. Portanto, se resolvermos eliminar as leis antigas e substituí-las por outras melhores, não temos nada a perder. E o senhor nos ajudará a fazer isso. A título de recompensa nós o presentearemos com o resto de sua vida natural. É esta a proposta que lhe fazemos. O senhor poderá recusá-la se tiver coragem e for suficientemente louco. A mão do comandante ergueu-se da mesa e aproximouse de um botão. O psicólogo sorriu. — Não o impedirei de dar o alarma para os guardas. Quanto mais cedo eles aparecerem, tanto mais cedo todos os homens desta nave saberão o que aconteceu. Posso garantir-lhe que eles não se manterão inativos quando virem que estamos sendo trucidados. Se não der o alarma, 51


ainda teremos oportunidade de discutir o assunto e chegar a uma solução harmoniosa. Aliás — tirou do bolso a arma energética e destravou-a — como vê, não estamos indefesos. O comandante ficou perplexo ao ver a arma. Hesitou um pouco e recuou a mão. O psicólogo sorriu. — Muito bem — disse em tom amável. — Vejo que é um homem razoável. Podemos continuar a falar francamente. — Não se entregue a qualquer ilusão, Ps-5 — advertiu o comandante. — Ainda não dei o alarma porque quero evitar um derramamento de sangue. Este exerceria uma influência nefasta sobre a ordem estabelecida. A redução excessiva do número de habitantes de nosso mundo seria tão perigosa como seu aumento desmedido. O senhor já deve ter compreendido que o segredo de uma vida bem regrada é o justo equilíbrio... — Justo? — indagou Ps-5, numa ironia mordaz. — É menos injusto evitar o nascimento de uma criança que matar, antes da hora, um ser já formado. — O senhor quer negar os direitos da vida adormecida? — disse o comandante em tom resignado. Ao que parecia, estava convencido de ter razão sob o seu ponto de vista. — Os senhores só sairão desta sala em companhia dos guardas do conversor... — Esperemos! Aliás, isso me faz lembrar outra coisa. O senhor acaba de falar em “vida adormecida”. Isso traz à tona outro problema. O senhor poderia dizer quem elaborou as leis que nos regem? Foi um dos homens que o precederam no cargo? — O senhor não tem direito de formular essa pergunta! — Esse aspecto é secundário. Tenho o poder! — o psicólogo ergueu a arma. — Posso matá-lo! Um sorriso de desprezo surgiu no rosto do comandante. — Meu tempo terminará dentro de poucos dias, e então morrerei de qualquer forma. Não receio a morte, para a qual me preparei durante toda a vida. Com isso, o senhor não me obrigará a revelar o segredo que tem garantido a existência de nosso povo. — Diga-me uma coisa, comandante. Será que só a pessoa que está no comando tem direito de conhecer os segredos? — Perfeitamente — confirmou C-l, irrefletidamente. — Excelente! — respondeu Ps-5. — Quer dizer que, antes de morrer, o senhor terá de informar seu sucessor. Se não o fizer, a ordem estabelecida entrará em colapso. Se eu o matasse, o segredo morreria com o senhor. Não é isso? O comandante reconheceu o terrível engano que acabara de cometer. Ficou ainda mais pálido. — O senhor não se atreveria... — Atrevo-me, sim. Mataremos o senhor e seu sucessor nunca terá oportunidade de conhecer a verdade pela sua boca, mesmo que isso nos leve à morte. Assim seu sucessor se veria totalmente desamparado. Acho que não será difícil imaginar as consequências. Para que o comandante tivesse oportunidade de refletir

sobre as consequências de seu comportamento obstinado, Ps-5 calou-se. Viu que o médico recuperara a confiança. R75 manteve-se imóvel, com a arma apontada. Em seu rosto havia uma expressão resoluta. Depois de algum tempo, o comandante disse: — Está bem; os senhores ganharam. Não vejo nenhuma saída. Se eu violar as leis, revelando aos senhores o segredo de que só meu sucessor deveria ter conhecimento, estarei servindo melhor ao meu povo e ao espírito dos antepassados — levantou-se e manteve-se em atitude orgulhosa diante dos conspiradores que exigiam a morte natural. — Mas garanto-lhes que os senhores não viverão muito tempo com esses conhecimentos. — Deixe isso por nossa conta — respondeu Ps-5 em tom tranquilo. — Fale! — Falarei muito pouco, mas eu lhes mostrarei uma coisa — apontou para uma segunda porta, firmemente embutida no metal. — Venham comigo. O psicólogo demonstrou certa hesitação, porque desconfiava de que se tratasse de uma armadilha, mas logo percebeu que não lhe restava outra alternativa senão confiar no comandante. Viu-o caminhar em direção à porta e girar a roda. — Não se preocupem; atrás desta porta fica apenas a cabine-dormitório; e, lá nos fundos, fica aquilo que os senhores querem saber. A pesada porta abriu-se, pondo à mostra um aposento. Seguiram o comandante. O camarote era praticamente igual ao que já conheciam e àqueles ocupados por eles mesmos. Mas havia uma diferença. Possuía mais uma saída. Havia uma porta situada bem em frente à entrada. Era um verdadeiro monstro metálico dotado de fechaduras eletrônicas e outros mecanismos de segurança. Só mesmo a pessoa que a conhecesse estaria em condições de abri-la. O comandante apontou para a porta. — É ali que fica o segredo de nossa vida. Só o comandante pode entrar neste recinto. Qualquer outra pessoa que o fizer terá de morrer. Não posso modificar a lei; mesmo que quisesse poupá-los, não escapariam ao castigo. A sentença será executada pelos vigias. — Como é que os vigias iriam saber que estivemos aqui? — perguntou o psicólogo. — Não são seres feitos de carne e osso; não passam de máquinas construídas por nossos antepassados. Por que temos de submeter-nos à sua vontade? As máquinas não foram feitas para servir ao homem? Por que aqui tem de ser o contrário? O comandante não respondeu. Continuou a caminhar e parou em frente à porta. Sem dizer uma palavra, pôs-se a mexer nos controles. Pela primeira vez, D-3 fez uso da palavra. — Meu amigo Ps-5 não se lembrou de mencionar que, caso o senhor esteja tramando algo, nós o mataremos imediatamente. As armas que temos nas mãos são mortais. Tirei-as de um vigia. O comandante estacou em meio ao movimento. 52


— Um vigia? E ele não reagiu? — Como poderia ter reagido? Coloquei-o fora de ação. Por dentro está transformado num monte de sucata. — Um vigia... — Os vigias são fáceis de enganar, comandante — disse o médico em tom irônico. — Dentro de pouco tempo não haverá mais nenhum vigia nesta nave, e então o homem voltará a reinar. O comandante não hesitou mais. Girou repentinamente a roda, desligou as barreiras eletrônicas e abriu a porta. Entraram na sala. Estava completamente vazia. As paredes estavam nuas... com exceção de uma. Nessa parede havia uma grande tela. Nela viram a imagem aumentada de um velho de cabelos brancos. Parecia observá-los, e logo depois, começou a falar... *** Fazia quatro dias que o Maquinista Quatro não via o médico. A droga maravilhosa, que despertara sonhos tão belos, já terminara. Se não conseguisse logo uma nova provisão, acabaria enlouquecendo. M-4 sabia perfeitamente que sua vida não seria suportável sem sonhos. Avisou que estava doente, mas quem o atendeu não foi D-3, mas um médico desconhecido. De qualquer maneira conseguiu um dia de folga. Mas isso não lhe deu muito prazer, pois os olhares de M-7, que também não estava de serviço, podiam ser tudo menos agradáveis. — Você realmente não parece nada bom, M-4. O que há com você? — Muita coisa — respondeu o viciado, em tom lacônico. — Antes de tudo, preciso de sossego. Mas M-7 não se deu por vencido. — A mim você não engana meu velho. Até um cego enxerga que alguma coisa o preocupa. Poderá usar de franqueza comigo, embora quase não nos conheçamos. Afinal já vivemos juntos neste camarote há alguns anos e provavelmente o faremos até o fim de nossas vidas. — Vivemos? — exclamou M-4 em tom de surpresa. Estacou assustado. Já dissera demais. Mas M-7 apenas sorriu. — Sou da mesma opinião que você. Acho que a vida que levamos é inútil e sem esperanças. Posso falar sem receio, já que você pensa como eu. Afinal, o que estamos esperando? O comando da morte, que nos levará ao conversor? Você não acha que estou com a razão? — Se está! — disse M-4. Desconfiava de que uma decisão estava iminente. Se M7 não fosse um espião, seria um amigo. Se ele, M-4, ainda estivesse vivo no dia seguinte, poderia ter certeza de que contava de fato com um amigo. — Muito bem! Então diga o que o deixa tão deprimido. É a vida que levamos? Ou existe algum motivo especial? — Por que vou incomodá-lo com meus problemas?

Acho que todo mundo tem de carregar os seus. — Um peso carregado por duas pessoas torna-se mais leve. M-4 estava de acordo. Refletiu por alguns segundos e disse: — Juntamente com o Doutor Três atraí um vigia para uma cilada e o coloquei fora de ação. Desmontamos suas armas e nos apoderamos das mesmas. Depois disso, D-3 me deu um calmante, e eu me acostumei ao mesmo. Não posso viver mais sem sonhar. Acontece que D-3 está desaparecido há dois dias. M-7 começou a desconfiar do que havia atrás deste relato lacônico. Será que, além dele, havia outras pessoas que não concordavam com a ordem vigente e haviam resolvido acabar com o domínio dos robôs e do comandante? Foi por puro acaso que estabeleceu contato com uma dessas pessoas. Mas, ao que parecia, o papel de M-4 era secundário. Entretanto assumia certa importância como elemento de ligação. — É fácil destruir um vigia? — Não é difícil. Os robôs foram construídos de maneira tal que ninguém lhes pode fazer nada, mas seus criadores não se esqueceram de incluir neles um fator de segurança. E, com a inclusão desse fator, seus construtores cometeram uma pequena falha. Na nuca dos robôs existe um parafuso quase imperceptível. Girando-o, o vigia fica desativado. Se necessário, uma forte pancada pode produzir o mesmo resultado. Com isso, ele se transforma num montão de lata indefeso, apesar das perigosas armas energéticas embutidas. — Quer dizer que, se desejássemos, poderíamos colocar fora de ação todos os robôs? A simples ideia deixou M-4 assustado. Chegou até a empalidecer. — Seria uma loucura...! — Seria mesmo, M-4? O que aconteceria se um grupo de homens decididos resolvesse eliminar todos os vigias? Esses homens poderiam apoderar-se das armas e enfrentar o comandante. Com isso, o regime de terror chegaria ao fim. — Pois já estamos acostumados. Nossos antepassados viveram como nós vivemos hoje. Quando será que isso começou? — Já andei quebrando a cabeça sobre isso. Mas não adianta mais. Chegou a hora de agir. Por coincidência D-3 escolheu-o para seu homem de confiança. A fim de levar avante seu intento, precisava de um maquinista, e escolheu você. Agora também pertenço ao grupo. Precisamos falar imediatamente com D-3... — Ele está desaparecido há dois dias, M-7. Não sei o que aconteceu. Quem sabe se o crime foi descoberto? — Se fosse assim, você também já estaria morto — M-7 sacudiu a cabeça. — Será que você acredita que o médico ficaria calado? — Talvez ficasse quieto — disse M-4 um tanto inseguro. — Onde estará se ainda estiver vivo? — Não será difícil descobrir. Afinal, é o médico de 53


nossa seção. Se eu disser que estou doente... — Há alguém que o representa. M-7 calou-se obstinadamente. Esquecera esse detalhe. Depois de algum tempo, disse: — Pois vamos agir! Durante nosso próximo turno de serviço, começaremos a eliminar os vigias. Enquanto ninguém descobrir, tudo bem. E, quando os incidentes se tornarem conhecidos, outras pessoas se juntarão a nós. Na verdade, ninguém está satisfeito com a existência que levamos, já que não nos dizem qual é o destino de nossa viagem. Antes que pudessem transformar seu plano em realidade, o aparelho de intercomunicação soou no camarote. Uma voz evidentemente disfarçada disse: — Alô, M-4. Responda! M-7 fez um sinal ao companheiro. — Aqui fala M-4 — disse o maquinista, depois de ter ligado o videofone. — O senhor está só no camarote? M-7 acenou vigorosamente com a cabeça. M-4 disse: — Sim, estou só. Quem fala? O tom de voz do outro interlocutor mudou e, de repente, os dois maquinistas tiveram a impressão de que o mesmo já lhes era conhecido. — Preste atenção, M-4! Pegue suas ferramentas e compareça imediatamente ao setor central. Dirija-se à sala de comando. Estamos esperando o senhor. — É o Doutor Três? — Sim, sou eu. Ande depressa! — Não desligue! — gritou M-4 em tom desesperado. — Quero dizer mais uma coisa. — O que houve? — Posso levar um amigo? Houve uma ligeira pausa. — Como é que ele soube? — perguntou D-3. — Neste momento não posso explicar nada, mas ele está conosco. Estou precisando do meu tranquilizante... — Traga seu amigo — disse D-3. — Mas não perca tempo. É uma questão de vida e morte, não só para mim ou para o senhor, mas para todos que vivem nesta nave. Entendido? — Iremos imediatamente! — Outro detalhe, M-4! Passe pelo Instituto Médico e pegue um embrulho já preparado, que se destina a mim. Basta citar seu nome. — E se alguém formular perguntas? — Diga que está obedecendo ordens do comandante. Diga isso a qualquer pessoa que procurar detê-lo. Entendido? — O comandante? — perguntou M-4 em tom de perplexidade. Mas o médico já havia desligado. Olhou para M-7. — O que será isso? Você compreendeu? M-7 acenou lentamente com a cabeça. — Sim, acho que compreendo. Finalmente apareceu um

homem que tem coragem de dar um sentido à existência inútil que levamos. Apressemo-nos, M-4, pois do contrário seu trabalho terá sido em vão. Precisamos ajudá-lo. Saíram correndo para o corredor.

2 O rosto fitou-os de cima. Era um rosto de velho. Estava profundamente enrugado, e seus traços mostravam certa resignação. Os olhos avermelhados irradiavam bondade e inflexibilidade. Seus lábios pareciam estar sempre cerrados, revelando um gênio cruel... ou seria apenas enérgico? O comandante inclinou-se para a tela. Ele, que era o senhor absoluto da vida e da morte de seu povo, inclinou-se diante de uma simples imagem. Ou será que não era uma imagem? Não, não era; o rosto moveu-se. A boca começou a falar. Um alto-falante oculto transmitiu uma voz agradável e simpática. — Comandante, você abriu a porta e trouxe três homens. O que significa isso? Esperava que viesse com seu sucessor. Qual é o motivo da presença desses homens? O comandante voltou a inclinar o corpo. Estava pálido e parecia deprimido. Devia sentir um medo enorme do desconhecido que aparecia na tela. — Eles me obrigaram senhor. Se não os tivesse trazido, eles me teriam matado antes que eu pudesse transmitir o conhecimento do segredo a meu sucessor. Nosso povo ficaria acéfalo. O rosto lançou-lhe um olhar colérico. — Você falhou comandante! A morte seria uma pena muito suave para você, mas, de qualquer maneira, ela o aguarda. Seguiu-se uma ligeira pausa. O rosto permanecia impassível. Finalmente a voz prosseguiu: — O que desejam de mim e quem são vocês? Ps-5 procurou libertar-se do encanto irradiado pelo rosto, cuja rigidez o deixou bastante impressionado. Parecia morto, mas a imagem não poderia mentir. O homem que aparecia na tela vivia num setor desconhecido da gigantesca nave... ...e era o verdadeiro soberano de seu povo. O comandante não passava de uma marionete. O psicólogo principiou em tom hesitante: — Viemos para saber a verdade. Até hoje acreditávamos que o comandante fosse o guardião de um corpo de leis velhas e superadas. Mas agora descobrimos que há alguém que está acima dele: o senhor. Sou eu que pergunto: quem é o senhor? E por onde anda escondido? O rosto demonstrou espanto, que logo se transformou em cólera. Mas a voz não revelou essas emoções. Começou 54


em tom calmo e objetivo: — Suas perguntas são monstruosas e contrárias às leis vigentes. Neste momento condeno-os a morrerem no conversor. Comandante, providencie a execução desta ordem; convoque o comando da morte. A sentença será executada imediatamente. Ps-5 sorriu e dirigiu a arma contra o comandante. — Muito bem, Mestre — disse em tom frio. — Se é assim, vou matar o comandante diante de suas vistas. Vejamos o que acontecerá depois disso. O médico e R-75 continuavam parados na porta que dava para o aposento particular do comandante. Mantinham as armas engatilhadas e fitavam o grande rosto. Esperavam ouvir a qualquer momento o ruído forte dos passos metálicos, mas tudo permaneceu em silêncio. — Não se preocupem amigos — disse Ps-5 por cima do ombro. — Não virá ninguém. Quem poderia alarmar os robôs? Só o comandante. O grande Mestre que aparece na tela não o fará, pois ninguém sabe de sua existência. É possível que nem mesmo os vigias saibam — voltou a dirigir-se à tela. — Então, o que me diz? Realmente terei de matar o comandante? Ou está disposto a negociar? — O que deseja? — soou o alto-falante, enquanto os lábios do desconhecido se moviam para formular as palavras. Ao que parecia, tinha uma habilidade extraordinária para adaptar-se às situações mais variadas. — Qual é o segredo que só pode ser conhecido pelo Cl? Deve ter uma importância tremenda, pois se há duas pessoas que o conhecem, uma delas terá de morrer. Mas a situação ficará melindrosa se o comandante morrer sem revelar o segredo a alguém... Por isso quero fazer uma pergunta a você... Sem que se desse conta disso, Ps-5 estava usando o tratamento íntimo que o desconhecido usara para com ele. Porém tal tratamento não exprimia intimidade, e sim desprezo. — Quero fazer uma pergunta a você: qual é o segredo? Por um instante não aconteceu nada, mas finalmente veio a resposta: — Você mesmo acaba de dizer que o segredo só pode ser conhecido por uma criatura mortal de cada vez. Se houver mais de uma criatura que o conheça, todas terão de morrer. Você está com vontade de morrer? — Deixe isso por minha conta, Mestre — respondeu Ps5 em tom irônico. — Responda à minha pergunta! — Seja o que você quiser. Eu sou a corporificação da vontade de seus antepassados e transmito esta vontade ao comandante. Ele é apenas um intermediário entre os vivos e os mortos. Cabe-lhe manter a ordem vigente e escolher seu sucessor. Feito isso, morrerá. É só. Ps-5 acenou com a cabeça. Se é que estas palavras o decepcionaram, não deu mostras disso. — Então é só? E os vigias? São seres mecânicos feitos para controlar os homens. Por ordem de quem estão agindo?

— Por ordem minha. — Quer dizer que é por ordem dos antepassados, não é? Pois eu lhe digo uma coisa: se os antepassados recorrem a máquinas para nos impor sua vontade, eles não merecem que nos lembremos deles. Nós os esqueceremos e criaremos nossas próprias leis. A morte violenta será banida; não permitiremos que a vida natural cesse prematuramente. Seremos nossos senhores e faremos com que a máquina volte a ser aquilo que sempre deveria ter sido: o servo do homem. Uma mudança assustadora ocorreu com o rosto. A expressão do desconhecido cambiou entre a raiva, a decepção e um tremendo ódio. Quando a voz voltou a falar, era fria. Porém também era agradável e melódica. O contraste era tão flagrante que não havia como tirar qualquer conclusão em relação às verdadeiras ideias de quem falava. — Vocês subestimam o valor da máquina e de seus recursos positrônicos. A máquina e o sistema de computação positrônica substituem o homem e até chegam a ser superiores ao mesmo. Quando criaram os vigias, nossos antepassados sabiam disso. Se ignorarmos a vontade deles, estaremos condenando nossa civilização ao desaparecimento. — Pois que desapareça! — exclamou Ps-5 em tom furioso e decidido. — Se não souber defender-se deve desaparecer imediatamente. — Antes de você, já houve pessoas que tentaram isso. Todas elas terminaram no conversor. — Sim, o conversor! Também é uma máquina. No dia em que atirarmos no conversor todos os robôs que se encontram a bordo, teremos uma grande festa. Os robôs fornecerão energia para várias gerações. Mais uma vez, o rosto foi desfigurado pelo ódio. Os olhos vermelhos brilharam como um par de brasas. — Você está condenado à morte, rebelde! Comandante! Chame os guardas! O comandante empalideceu. — Ele me matará, senhor. Quem instruirá meu sucessor? — Seu covarde! Caso seja necessário, saiba ao menos morrer como um homem. Mas antes disso cumpra seu dever e dê o alarme para os vigias. Ps-5 mantinha a arma apontada. Sua mão não tremia. — Comandante, o senhor estará morto antes que tenha tempo de dar um único passo. Como poderia chamar o comando da morte? Apesar da situação desesperada em que se encontrava, o comandante sorriu. — O senhor não poderá evitar isso, psicólogo. Está vendo a caixinha que tenho na mão? — levantou dois dedos e pôs à mostra um pequeno objeto que até então ficara oculto em sua mão. — Peguei isto há muito tempo. Mesmo que eu morra, logo os vigias estarão aqui. Se eu largar esta caixa, a trave se soltará e o circuito elétrico se fechará. O sinal de rádio convocará o comando da morte. Pode 55


disparar psicólogo. O comandante já se sentia mais seguro. Sabia que os conspiradores não cometeriam um ato irrefletido, nem o matariam na situação em que se encontravam. Não se atreveriam a tanto. Se é que a vida do comandante pudesse representar qualquer vantagem para eles, não o matariam. Seu raciocínio foi correto. — Se eu não atirar o senhor também dará o alarma? — perguntou Ps-5 em tom de expectativa. Continuava a apontar a arma para o comandante. — Se obedecer ao sujeito que aparece na tela, está liquidado. Ele mesmo acaba de dizer que providenciará sua morte. Para que morrer, se isso em nada ajudará seu povo? Ainda não percebeu que estamos sendo enganados? Não está na hora de cuidarmos do nosso destino, em vez de continuarmos a obedecer às leis de uma geração passada, que hoje já não têm a menor validade, porque estão superadas pelos acontecimentos? O comandante parecia indeciso. A voz do alto-falante disse sem a menor ênfase: — Obedeça às minhas ordens, comandante. Chame os vigias! Mas a semente lançada pelo psicólogo já havia germinado. Durante toda a vida, o comandante se conformara com a perspectiva de um fim violento, por considerar o mesmo como um pressuposto da própria existência. E de repente se lhe oferecia a oportunidade de continuar a viver! De continuar a viver até o dia em que a própria idade lhe trouxesse a morte natural. Sem olhar para o rosto que aparecia na tela, disse: — Se não chamar os vigias, vocês garantem minha vida? O psicólogo suspirou aliviado. A luta estava decidida. — Damos nossa palavra — disse e abaixou o cano da arma. Apontou para a porta. — Vamos à sala de comando. Não convém que as medidas a serem adotadas sejam discutidas na frente deste fantasma — voltou a dirigir-se à imagem. — Nós o avisaremos do resultado da nossa conferência. Até lá, só podemos pedir-lhe que tenha paciência. — Pela última vez, comandante: dê o alarma! Ps-5 segurou o comandante pelo braço e levou-o para fora. Sem dizer uma palavra, D-3 e R-75 seguiram-no e fecharam a porta atrás de si. As ordens do desconhecido soaram pelo recinto, sem produzir o menor resultado: — Dê a ordem, comandante! Dê o alarma! Depois a voz calou-se. Ps-5 respirou aliviado. — Ainda bem que o senhor agiu razoavelmente, comandante. Não tenho a menor dúvida de que é um homem honesto e cumpridor do dever. O que foi que o levou a mudar de opinião? Terá sido apenas a perspectiva de viver mais algum tempo? Fale com franqueza. Será preferível que, antes de responder, largue o aparelho de alarma. O comandante fez que sim. Comprimiu o dedo contra

um botão quase invisível do instrumento que trazia na mão e colocou-o cautelosamente sobre a mesa. Depois suspirou aliviado e sentou. — Serei sincero. Peço-lhes que me permitam que comece do início. Quando fui chamado à presença do comandante, que me informou sobre a tarefa a ser cumprida, eu ainda era muito jovem. Levei-o ao conversor, conforme era minha obrigação, e assumi minhas funções. Desde então, sou um homem solitário. Eu lhe garanto que minha vida é mais monótona que a sua. Afinal, todos vocês conhecem o trabalho e a companhia de outras pessoas. Nem sequer tenho direito às férias e também não tenho descendentes. A única variação que ocorre na minha vida são as conferências diárias, a elaboração da lista das pessoas que devem morrer e a emissão das ordens recebidas pelo Mestre. É assim que ele quer ser chamado. — Quem é esse Mestre, C-l? — perguntou o psicólogo. — O senhor tem alguma ideia de onde ele vive, ou de qual é a parte da nave em que se esconde? — Infelizmente não. Ele só apareceu na minha frente sob a forma que os senhores já conhecem. A tela é a única forma de contato. — Como foi que ele pôde exercer uma influência tão forte sobre o senhor? — Isso é fácil de explicar, Ps-5. Desde jovem, não conheço outra coisa senão esse rosto que aparece na tela. Todos os dias eu recebia suas instruções, e, caso não o obedecesse, aquele rosto me ameaçava com os castigos mais cruéis. Mas o que mais me impressionava era a alusão constante à herança dos antepassados. O Mestre sempre fazia questão de ressaltar que devíamos colocar nossas vidas a serviço do povo, até que a nave chegue ao destino. Nunca fiquei sabendo qual é esse destino. Nunca me encontrei pessoalmente com o Mestre. Porém sua imagem ampliada exerce um poder tão forte que sempre me tem sido impossível subtrair-me à sua influência. Além disso, ninguém tem coragem de romper com uma tradição antiga. — Pois nós temos! — respondeu Ps-5 com um gesto zangado. — Compreendo o senhor. Entretanto, por mais estranho que possa parecer, o Mestre não exerceu sobre mim uma impressão tão marcante. Notei nele alguma coisa que me incomodava. Não sei o que foi, mas a imagem não parecia viva e autêntica. Além disso, há certa dissonância entre som e imagem; tive a impressão de que a transmissão não funciona bem. Não sei se consegui fazer-me entendido... — Sei o que você quer dizer — interveio o médico. — Tive uma impressão semelhante, mas não sei o que me incomodou. De qualquer maneira estou convencido de que há algo de errado naquilo. O que é que você acha R-75? — Concordo plenamente com vocês. Infelizmente não sou especialista em aparelhos eletrônicos, mas os homens da Seção Mecânica deveriam ser capazes de ajudar-nos. — Os homens da Seção Mecânica são os maquinistas — disse D-3, refletindo em voz alta. — Sim; talvez a solução seja esta. 56


— Está pensando em seu elemento de confiança M-4? — perguntou o psicólogo, adivinhando os pensamentos do amigo. — É verdade; devíamos consultá-lo. Sem compreender nada, o comandante assistira à discussão. Sua mente teria de realizar uma tremenda adaptação para ver na imagem do Mestre, que até então fora seu soberano absoluto, apenas uma transmissão defeituosa de televisão, cuja sincronização não funcionava como devia. — Não sei se devemos atribuir tanta importância a esse fato... — principiou em tom hesitante. — Devemos, sim! — retrucou Ps-5 em tom resoluto. — Acho que este ponto se reveste da maior importância. Devemos descobrir se o defeito realmente existe. É bem possível que o equipamento de transmissão esteja em perfeito estado. Os homens fitaram-no sem compreender nada. Não sabiam onde pretendia chegar. Mas o psicólogo não teve tempo de abordar o assunto com maiores detalhes, pois nesse instante o interfone deu um sinal. Alguém desejava falar com o comandante. — Quer que responda? Ps-5 fez que sim. — Naturalmente. Enquanto não tivermos chegado a uma conclusão sobre as medidas que devemos adotar, não devemos provocar suspeitas. Talvez seja apenas um chamado de rotina. O comandante levantou e comprimiu um botão embutido na armação. A tela da esquerda iluminou-se. Era o oficial de ligação. — O que houve O-2? O jovem de cabelos brancos fez um gesto vago, como se quisesse pedir desculpas pelo incômodo. — O-l quer falar com urgência com o senhor. Eu lhe disse que o senhor se encontra na conferência diária, mas ele insiste. O que devo fazer? — Diga-lhe que terá de esperar — respondeu o comandante, lançando um olhar indagador para o psicólogo. — Quando puder falar com ele, eu lhe avisarei. — Está bem, C-l — disse O-2 com certo alívio na voz. A tela apagou-se. — Quem é esse O-2? — perguntou o médico. — Tive uma boa impressão dele. Você não concorda comigo, Ps-5? — Você acha que poderia ser nosso aliado? — Acredito que sim. Até chego a acreditar que quase todos os homens serão nossos aliados quando souberem da verdade, isto é, quando souberem quais são nossos objetivos. — Tenho certeza disso — concordou Ps-5 e dirigiu-se ao comandante. — Que tal O-l? Será que estará disposto a colaborar? — Não tenho certeza. Está aguardando o momento de ocupar meu lugar. Como já viu, quer falar comigo. Tenho certeza de que está louco de vontade para matar-me. Nem pode esperar a hora. Ps-5 refletiu intensamente. Depois levantou a cabeça.

— Quando é que O-2 deverá ser eliminado no conversor? O comandante parecia espantado, mas não formulou nenhuma pergunta. Levantou-se e foi à parede, onde havia um bloco com uma placa inclinada, na qual se via uma série de controles eletrônicos. Os dedos ágeis do comandante manejaram esses controles, até que o aparelho expelisse uma ficha de plástico. Pegou-a e leu os dados consignados na mesma. Depois disse: — O tempo de vida que resta a O-2 corresponde ao quinto de uma geração. — Quer dizer que ele se sentirá grato se estendermos o tempo que lhe resta. Com O-l as coisas são diferentes. Ele quer ser comandante, mesmo que, um belo dia, tenha de ser morto por seu sucessor. Aceita esta perspectiva porque deseja o exercício temporário do poder. Quer dizer que será nosso inimigo. — É isso mesmo — confirmou o comandante. — O que devemos fazer? — Por que não lhe comunicamos oficialmente a decisão que tomamos? — perguntou D-3, em tom apaixonado. — Acho que seria mais simples se... — Não será simples — disse Ps-5, sacudindo a cabeça. — Você se esquece dos vigias. Eles possuem armas. E, diante delas, nosso povo fica indefeso. Além disso, não sabemos quais as medidas tomadas por nosso amigo do aposento ao lado. Nós, que estamos na sala de comando, podemos defender-nos, pois esta foi feita para isso. Mas nenhum de nós pode sair deste recinto, sem expor-se ao risco de ser morto assim que chegue lá fora. Os vigias atêm-se estritamente às velhas leis, pois não conhecem outra coisa. Obedecem ao Mestre, pouco se importando quem seja ele. Não; devemos encontrar outros caminhos para acabar com o domínio do desconhecido. E não deveremos usar a violência, mas a astúcia. Devemos eliminar discretamente os vigias, um após o outro. Seu amigo M-4 ajudará a fazer isso. O rosto do médico iluminou-se. — Você tem razão, Ps-5; como sempre. Mandarei chamar M-4. Será que, sem sair daqui, podemos fazer isso, comandante? Talvez possamos enviar-lhe o recado por intermédio de O-2... — Acho preferível não recorrer a ele — disse Ps-5. — Devemos chamá-lo diretamente. Faça a ligação, comandante. — Falarei com ele — sugeriu o médico. — Pedir-lhe-ei que traga ferramentas e alimentos concentrados. Instruirei minha seção — sorriu. — São ordens do comandante. E foi assim que, dali a quinze minutos, os quatro conspiradores receberam reforços. Só depois disso, chamaram O-2 e o informaram sobre o plano. O Oficial Dois colocou-se ao lado dos amigos e prometeu fazer tudo que estivesse ao seu alcance para garantir o êxito do plano. Resolveram mandá-lo para fora, a fim de que pudesse aliciar novos aliados. Os dois maquinistas receberam ordens de pôr fora de ação os vigias, 57


que estivessem em posições isoladas, e levar à sala de comando as armas, depois de desembuti-las da carcaça dessas máquinas. O ataque contra os soberanos da nave só seria lançado quando o grupo dispusesse de um número suficiente de armas. Até então não havia acontecido nada que pudesse justificar a suspeita de que o Mestre estava tomando qualquer providência para impedir a atuação do grupo. Ao que tudo indicava, resolvera aguardar. Será que seu único meio de comunicação com o povo era a tela de imagem que ficava atrás da sala de comando? Essa questão tornava-se importante, e teria de ser esclarecida o quanto antes. De qualquer maneira, a ação morte natural para todos acabara de ser desencadeada. E não haveria mais nada que pudesse detê-la. *** Por enquanto a máquina implacável, posta em funcionamento pelos antepassados, continuava em ação. Emitidas pelo comandante, as ordens de matar foram executadas pontualmente pelos comandos da morte. Nunca se assistira à revogação de uma ordem desse tipo, e seria inconcebível que esta fosse verificar-se agora. Os seis robôs marchavam em passo cadenciado pelos corredores do mundo metálico e aproximavam-se do setor técnico. Um indivíduo chamado T-39 já vivera bastante. Hoje teria de morrer, a fim de que, com a energia de seu corpo, retribuísse à comunidade aquilo que era devido à mesma. A comunidade o vestira e alimentara, e agora chegara a hora de pagar por isso. Nesse mundo impiedoso não se dava nada de graça; nem mesmo a vida. T-39 não sabia que sua hora já havia chegado. Ninguém sabia. Qualquer um poderia imaginar a época em que seria eliminado, pois a expectativa de vida aproximada era conhecida, mas a data da execução era mantida em segredo até o último instante. T-39 não estava só em seu camarote. Espantou-se ao reconhecer o visitante que desejava falar com ele. Não era todos os dias que O-2 entrava em contato com o pessoal técnico, nem mesmo com os chefes da respectiva divisão. T-39 apontou para uma cadeira. — Sente-se, O-2. Espero que sua visita não signifique nada de mau. — Não se preocupe — respondeu o jovem oficial, que já havia informado os chefes das outras divisões sobre os acontecimentos mais recentes. — Vim para trazer uma notícia alegre e para pedir sua ajuda. É uma história comprida, que pode ser encurtada. T-39 ouviu-o em silêncio, sem interrompê-lo uma única vez. Lembrou-se do comando da morte, que poderia aparecer qualquer dia para levá-lo. A morte era encarada com tanta naturalidade que não tinha nada de apavorante. Mas, de repente, surgiu a possibilidade de continuar a viver em vez de morrer no conversor. De um instante para

outro, o quadro do futuro modificava-se por completo. Não teria de morrer: poderia viver. A morte já não era aceita como uma coisa natural. Levantou-se abruptamente. — Conte comigo, O-2! O que posso fazer para ajudar o senhor e seus amigos? Os vigias... — Os vigias devem ser mantidos na ignorância até o último momento. Tudo deve continuar como antes. Não provoque suspeitas, T-39! Informe as pessoas nas quais possa confiar. E não hesite em eliminar imediatamente um possível traidor. Só quando tivermos armas em quantidade suficiente, poderemos declarar guerra aos vigias. T-39 lembrou-se da situação em que se encontrava. Não queria que O-2 percebesse que a pergunta a ser formulada desse a entender que ele se referia à sua própria pessoa. — O que vamos fazer quando o comando da morte aparecer para levar alguém? Procuraremos salvar a vítima? — De forma alguma! Isso seria a coisa mais errada que poderíamos fazer. Os seis vigias pertencentes ao comando reagiriam imediatamente e entrariam em contato com o comando. E esse comando, meu caro, não tem nada que ver com nosso comandante. Precisamos sacrificar as pessoas que estejam prestes a ser levadas ao conversor, para que os outros possam viver. Infelizmente não podemos alterar isto. — Compreendo — disse T-39 em tom desanimado. Subitamente sentiu uma coisa comprimir-lhe a garganta, mas esforçou-se para evitar que o segundo oficial percebesse alguma coisa. — Não devemos fazer nada que possa despertar a atenção dos vigias. A rotina costumeira não deve ser interrompida... — Por enquanto! — disse O-2 com uma estranha ênfase e levantou-se. — Permita que me despeça. Cumpra seu dever; e o senhor há de reconhecer que é um dever mais nobre que o que vínhamos cumprindo. Teremos uma vida livre e segura pela frente. T-39 viu a porta fechar-se. De repente, teve a impressão de estar só no mundo ou na nave. Nunca se sentira tão abandonado e desamparado. Onde deveria começar? Evidentemente com os homens de sua divisão. Ele os esclareceria e os prepararia para o momento inicial da resistência contra os vigias! Ouviu passos... T-39 aguçou o ouvido e empalideceu de repente. Lá fora, no corredor, soaram passos. Eram passos regulares e metálicos. Só podiam ser os vigias. Eram ao menos seis vigias! Ao perceber o significado daquilo que se aproximava T39 sentiu-se dominado pelo pânico. Era bem verdade que ainda havia uma esperança: talvez viessem para levar outra pessoa de sua seção. Mas quem mais residia nesse corredor? Somente T-18, que entrara no exercício de suas funções há poucos dias, para um belo dia... Subitamente T-39 deu-se conta de que T-18 seria seu sucessor. Enquanto instruía aquele jovem e o transformara em seu assistente, a idéia nunca lhe ocorrera. 58


Seu sucessor... Os passos cessaram abruptamente. Dedos metálicos bateram fortemente à porta. Estava na hora! Subitamente T-39, que nutria a esperança de mais alguns anos de vida pacata e feliz, teve uma amarga decepção: o comando da morte ainda não desconfiava da revolução e continuava a agir da mesma forma que vinha agindo há milênios. T-39 foi incapaz de emitir um som. Seus lábios estavam enrijecidos. Encontrava-se no centro do recinto em que vivera durante toda a vida. Era uma moradia pobre e apertada, mas nunca conhecera outra coisa. Apesar de tudo, achara que a vida valia a pena de ser vivida, embora não visse um sentido especial na mesma. O que tinha um sentido grandioso era morrer uma morte natural. Nesse caso, a morte não seria um fim cruel da vida, mas uma redenção. Quando tivesse completado sua existência, o homem se deitaria para dormir. Para sempre. Era apenas isto. Mas agora... A porta abriu-se. Um dos vigias entrou. Os outros permaneceram no corredor, bloqueando todos os caminhos de fuga. Não o faziam por uma simples questão de rotina, pois havia pessoas que resistiam ao inevitável e tinham de ser levadas à força. — Não! — gritou T-39 e recuou até bater com as costas contra a cama. — Não! Agora não! As lentes brilhantes do vigia fitaram-no com uma expressão indiferente. O robô não conhecia sentimentos. Fora construído para essa tarefa, e a cumpria fria e precisamente. — O comandante mandou que o senhor fosse eliminado — disse com a voz automática. — Venha conosco. T-39 refletiu intensamente para descobrir uma saída. Será que, se soubesse o que estava acontecendo, O-2 poderia salvá-lo? Ou o comandante? — Por que não me avisaram antes? — respondeu com a maior calma de que foi capaz. Um súbito lampejo de esperança restituiu-lhe um pouco de sua tranqüilidade, embora em seu interior rugisse a tormenta do desespero. — Não posso abandonar os projetos em andamento sem expor a comunidade a um grave risco. Tenho de transmitir algumas instruções da maior importância. Será que posso falar com o comandante? — O comandante ordenou sua morte — respondeu o robô com a voz fria. — Ele deve ter providenciado para que não haja nenhuma lacuna. Venha conosco! — Talvez ele se esqueceu... — O comandante é infalível. “Sim”, pensou T-39 com o coração amargurado, “o comandante é infalível, mas ele se esqueceu de que me condenou à morte. E agora só me resta morrer sem poder recorrer ao seu auxílio.” Por que não?

Não perdeu tempo. Saltou para o lado e comprimiu fortemente o botão do interfone, estabelecendo uma ligação direta com o oficial de serviço. — Aqui fala o comandante! — respondeu uma voz. — Quem está chamando O-2? — T-39. O comando da morte chegou e quer levar-me. Há cinco minutos falei com O-2. O senhor sabe... — Sei, sim — interrompeu-o o comandante. Seguiu-se uma pequena pausa. — Não posso fazer nada pelo senhor, T-39. O senhor sabe por quê. Acompanhe os vigias. O mundo parecia desmoronar a frente de T-39. Viu que os robôs se puseram em movimento e se aproximaram dele. Desesperado, procurou segurar-se na cama. — Não quero, não quero! Faça alguma coisa, comandante. O senhor pode. Agora, que o futuro... Não conseguiu prosseguir. Subitamente alguma coisa pareceu fechar-lhe a boca. Lembrou-se dos milhares de seres que se encontravam nos corredores e nos camarotes da nave. Todos eles teriam diante de si o mesmo destino que ele, mas agora contariam com a possibilidade de um futuro melhor. Desde que ele, T-39, não os traísse. Deixou cair os braços. O interfone continuava ligado. T39 sabia que o comandante ouvia e esperava que ele se conformasse com o destino... O desespero do técnico transformou-se num heroísmo inconcebível. — Está bem, vigias — disse com a maior tranquilidade. — Não resistirei mais; irei com vocês. Passe bem, comandante. E... tudo de bom para o senhor. — Tenha coragem, T-39! — disse a voz saída do altofalante, revelando uma tristeza evidente. — O que o senhor está fazendo não será em vão; reverterá em benefício de toda a comunidade. Boa sorte! — Obrigado — respondeu T-39 em voz baixa e voltou a dirigir-se aos vigias. — Vamos embora. O vigia não demonstrou o menor espanto diante da repentina modificação na atitude de sua vítima. Afastou-se para dar passagem ao técnico. Sem olhar para trás, T-39 saiu e, uma vez no corredor, seguiu para a direita. Sabia que os robôs do comando da morte tinham vindo dessa direção. Com a vítima no centro, estes seguiram por inúmeros corredores. O débil zumbido dos potentes mecanismos situados no interior da nave tornou-se cada vez mais forte. Cruzaram com mecânicos e outros homens da equipe técnica. Estes pararam para dar passagem ao grupo macabro. Quase todos os dias encontravam-se com o comando da morte. T-39 olhou para frente; não lançou os olhos para a direita nem para a esquerda. Preferia não ver ninguém, pois tinha receio de trair o plano. Entraram num corredor estreito que terminava numa única porta. Esta se abriu automaticamente, deixando livre a passagem para uma sala. T-39 prosseguiu em sua caminhada e parou no centro da sala. Olhou em torno, perplexo. Os vigias entraram em 59


forma, depois que a porta de entrada fechou-se atrás deles. T-39 sabia que ninguém podia presenciar as execuções. Nunca ninguém soubera dizer como era a sala da morte. Aquela tampa oval na parede devia ser a entrada do conversor. O chefe dos vigias foi até lá e acionou o controle eletrônico. A tampa metálica abriu-se lentamente, pondo à mostra uma abertura negra, pela qual poderia passar um homem. Atrás dela, viu-se um plano inclinado que levava para baixo. Era fácil adivinhar o que havia lá embaixo. T-39 estremeceu. De súbito, a ânsia de viver voltou a dominá-lo, fazendo com que se esforçasse febrilmente para descobrir uma saída. Mas, de repente, teve a impressão de que ouviu a voz de O-2, falando-lhe do futuro de seu povo. Também ouviu a ordem do comandante, e os votos de felicidade que lhe dedicara. “Não! Não há nenhuma saída! Tenho de conformar-me com o destino!”, pensou desesperado. — Coloque a cabeça na abertura! — disse a voz insensível do vigia. T-39 teve a impressão de que oferecia a cabeça ao cutelo do carrasco, muito embora nunca tivesse ouvido falar numa decapitação. Ouviu os passos dos robôs que se aproximaram, vindos de trás, e sentiu que alguém o segurava pelas pernas. Levou um forte empurrão... e escorregou pelo plano inclinado, para as profundezas negras e incertas do reator. A morte aguardava-o... Lá em cima, a tampa voltou a fechar-se, e tudo foi escuridão. Mas subitamente viu uma luz! Seria a fogueira atômica? O calor dessa fogueira atômica deveria devorá-lo? Não sentiu nada. Talvez fossem os nervos que já não reagiam como antes. Quem sabe se não perdera os sentidos? De repente, parou de escorregar...

3 A nave-patrulha do Império Solar materializou-se, saindo do hiperespaço e retornando ao Universo normal. Vencera mais de dois mil anos-luz num único salto, e agora os tripulantes levariam pelo menos trinta minutos para calcular os dados do próximo salto e introduzi-los no computador positrônico do aparelho de navegação. Quando viu o imediato levantar-se e “sacudir” as últimas dores da transição, o comandante Wilmar Lund respirou aliviado. — É sempre a mesma coisa — disse para consolá-lo. — Comigo também acontece isso. Entre em contato com a enfermaria e pergunte se houve algum acidente.

Isso era raro, mas acontecia vez por outra. A passagem da quinta dimensão para a quarta e a materialização ligada à mesma traziam certas modificações estruturais. Via de regra, estas eram insignificantes e não exigiam uma atenção especial. Enquanto o imediato ligava o interfone, Lund deleitouse com a visão ampla do Universo estrelado. A gigantesca tela panorâmica dava ao observador a impressão de estar fitando diretamente a profusão de sóis. Na verdade, apresentava apenas a imagem produzida pelos impulsos eletrônicos. Em outras palavras, via-se apenas um quadro, não o espaço propriamente dito. Encontravam-se a vinte mil anos-luz da Terra. A nave Arctic, um cruzador ligeiro do Império Solar, era capaz de realizar hipersaltos até a distância de dois mil anos-luz. Dali a seis ou sete horas, estariam pousando na Terra. Depois de um voo de patrulhamento, trazendo de volta alguns agentes do Serviço de Segurança Solar, que vinham à Terra para apresentar seu relatório, a Arctic retornava ao sistema solar. Entre tais agentes, havia um tenente do Exército de Mutantes, um rato-castor chamado Gucky. Conforme já foi dito, Gucky não era um ser humano. Em algum lugar do planeta do sol Moribundo viviam os últimos indivíduos de sua raça, condenada à extinção, aguardando o destino que os esperava. Um belo dia aquele sol frio se extinguiria de vez, ou então se transformaria num sol novo, que consumiria tudo. Isso poderia durar alguns milênios ou alguns anos. Gucky era uma mistura feliz entre um rato gigantesco e um castor. Tinha pele cor de ferrugem e alcançara um domínio espantoso da linguagem humana. Via de regra, ficava agachado sobre as pernas traseiras e se apoiava sobre a cauda achatada de castor, para não perder o equilíbrio. Sempre que sorria exibia o único dente roedor, que também preenchia a função de triturar cenouras cruas, isto é, seu alimento predileto. Tudo isso não representaria nada de notável, se não houvesse outras circunstâncias que faziam de Gucky uma criatura milagrosa. Não era por nada que esse ser despretensioso tornara-se membro do temido Exército de Mutantes, uma tropa especial do administrador-geral do Império Solar, Perry Rhodan. Gucky era telepata. Sabia absorver e compreender os pensamentos de seres que se encontravam a grande distância. Além disso, era telecineta. Movia um objeto sem tocar nele, e isso por uma distância considerável. Por fim, gozava da fama de ser um dos melhores teleportadores do Universo. Suas forças espirituais lhe permitiam transferir seu corpo de um lugar para outro. Para isso, ele se desmaterializava e voltava a materializar-se no local escolhido. Graças a essas três qualidades, Gucky gozava entre os terranos maior fama que qualquer outro membro do Exército de Mutantes. Seu aspecto esquisito e sua estatura que não ultrapassava um metro em nada abalavam sua fama. Todos o tratavam com o devido respeito. Era bem 60


verdade que, muitas vezes, esse tratamento era inspirado no medo. É que não se pode deixar de ressaltar que Gucky tinha o hábito de brincar com seus dons. Geralmente ele o fazia para divertir-se; mas dali não se poderia concluir que a pessoa que se tornasse objeto das suas brincadeiras também se alegrasse com as mesmas. Quando a Arctic materializou-se, Gucky estava a caminho do depósito de mantimentos. Sentia fome e pretendia saciá-la o quanto antes. Desde o momento em que viera dar em Blisher III, um planeta situado nos confins do Saco de Carvão, que em sua opinião não se revestia da menor importância, seu dente roedor não se exercitara em mais nada que valesse a pena. Estava na hora de que houvesse uma modificação no que dissesse respeito às suas provisões de mantimentos. O cadete Brugg gostava muito de animais, mas não foi por isso que lhe confiaram o cargo de oficial aprovisionador. No entanto, quando de repente a porta de seu “reino” se abriu, dando passagem a um pequeno monstro de pêlo cor de ferrugem, que sorria com seu dente roedor, por pouco o cadete não sofre um ataque. Nunca vira Gucky, embora soubesse que a bordo da Arctic havia membros do Exército de Mutantes. Por outro lado, um animal ou mesmo uma inteligência com aspecto de animal não era nada de extraordinário. Todavia, Brugg nunca teria a ideia de acreditar que Gucky fosse uma criatura inteligente. — De onde você fugiu? — perguntou em tom desconfiado, assim que se recuperou do susto. — Seu dono se esqueceu de trancá-lo? Abaixou-se para acariciar o estranho visitante. — Venha logo e conte ao titio onde é seu lugar... No primeiro instante, Gucky perdeu a fala, mas logo percebeu, por via telepática, que o cadete Brugg era bondoso e inofensivo. Deixou-se cair sobre os pés e ficou sentado que nem um coelho. Deixou as patas dianteiras na horizontal, com as “mãozinhas” caídas, mais ou menos como um cão bassê que fica sentado sobre as pernas traseiras. Lançou um olhar devoto para o cadete e sorriu numa atitude de expectativa. — Ora veja! Que engraçadinho! — disse Brugg, meneando a cabeça. — O que é que o bichinho quer por isso? Gucky teve vontade de dizer-lhe que algumas cenouras bem fresquinhas não lhe fariam mal, mas resolveu continuar com a brincadeira. Não era todos os dias que se encontrava com alguém que ainda não o conhecia. Ergueu as orelhas pontudas e bateu com a cauda no chão. Parecia uma foca à qual se oferece um peixe. — Que tal um pedacinho de açúcar? — perguntou o cadete Brugg, sem esperar resposta. Afinal, quem fala com cachorros e gatos não costuma esperar resposta. Quando o estranho visitante sacudiu violentamente a cabeça, o espanto de Brugg foi tamanho.

— Ah; não quer um pedacinho de açúcar? — Brugg admirou-se e ficou refletindo sobre quem teria ensinado isso a esse bichinho engraçado. — Quer um pedaço de linguiça? Gucky sacudiu a cabeça com mais força. Não fazia segredo da repugnância que sentia pela alimentação não vegetariana. O cadete Brugg começou a acreditar que seu visitante só sabia sacudir a cabeça. Teria de adivinhar o que deveria oferecer-lhe. Subitamente abriu o pequeno armário de mantimentos e descobriu os restos de seu almoço, guardados num prato. Era uma confusão de verduras, e um pedaço de carne. — Veja só que gostosinho! — disse Brugg e colocou a bacia diante do nariz de Gucky. O rato-castor não acreditou no que seus olhos viam! Nunca ninguém lhe havia oferecido uma coisa dessas. Era pior que o mingau que lhe fora oferecido por TchimLa-Djen e que depois soubera ser... Não! Era preferível não pensar nisso. Gucky engoliu a recordação. Seu dente roedor desapareceu de repente. Deixou-se cair de quatro, segurou a bacia e a atirou para dentro da lixeira aberta. Depois voltou a pôr-se sobre as pernas traseiras. Sorriu para Brugg. O cadete sentiu-se perplexo. — Que bicho mimado! — disse antes de compreender o que o rato-castor acabara de fazer. Ia em direção ao interfone, mas estacou em meio ao caminho e fitou Gucky. Viu um par de olhos castanhos, bondosos e um tanto travessos. Continuou a andar com uma estranha sensação de insegurança e ligou para a sala de comando. — Aqui fala o comandante Lund. O que houve? — Aqui fala o cadete Brugg, do setor de aprovisionamento. Estou chamando para comunicar o aparecimento de um animal. Alguém avisou o desaparecimento de algum bicho? — Um bicho? — ao que parecia, o comandante Lund não sabia o que pensar. — A bordo do cruzador não se permite a presença de cães e gatos. — Não se trata de cão nem de gato — disse Brugg fitando Gucky de lado. O rato-castor continuava agachado junto à porta, mantendo as patas dianteiras estendidas e exibindo um sorriso desavergonhado. — Não sei como descrever o animal que está aqui. Tem as orelhas de um filhote de elefante, focinho pontudo e cauda achatada. Seu aspecto é bastante estranho... Subitamente teve a impressão de que alguém lhe puxava as pernas. Caiu violentamente sobre o traseiro. O comandante Lund ouviu o ruído. — Ei, Brugg. Deixe-se de tolices! Está ouvindo? — Ai, minhas costas! — gemeu a voz saída do altofalante na sala de comando. — Acho que por aqui há algum fantasma... — Bobagem! Crie juízo, homem! Sabe quem é a criatura que está com o senhor? É Gucky, o rato-castor! 61


Nunca ouviu falar nele? O que é que ele deseja? Durante dez segundos, não se escutou nada. Finalmente Brugg respondeu com a voz perturbada: — Gucky? O mutante? Isso é o célebre Gucky? — É claro que sim! — respondeu Lund em tom contrariado. — Dê-lhe tudo que pedir. O próximo salto será realizado dentro de vinte minutos. Entendido? — Entendido! Ouviu-se um clique, e o cadete Brugg viu-se novamente a sós com seu visitante. Levantou-se lentamente, apalpando as costas, e fitou Gucky com uma expressão de embaraço. — Des... desculpe, Tenente Gucky — ouvira dizer que o rato-castor gostava de ser chamado assim. — Não podia saber... por que não se apresentou? — Você também não se apresentou meu filho. Logo se vê que é um homem. Não poderia ter percebido que sou Gucky? Não havia argumento contra essa lógica arrasadora. O cadete Brugg suspirou desesperado e sacudiu a cabeça. — O que posso oferecer-lhe? Para falar com franqueza, pensei... — Já sei: pensou que eu fosse um bicho qualquer. Você tem cenouras frescas? — Se tenho... o quê? — Cenouras! — repetiu Gucky. — Prefiro que sejam congeladas. Sei fazer o descongelamento. Podem ser uns dois ou três quilos... Estacou de repente. O cadete Brugg percebeu que, subitamente, os olhos castanhos do rato-castor congelaram-se. Parecia que olhavam para longe e viam algo de horrível, incompreensível. O sorriso desapareceu de sua boca. Parecia escutar para dentro de si mesmo. — O que houve? — Silêncio! — gritou Gucky indignado e voltou a mergulhar no seu transe. Parecia ter esquecido tudo que o cercava. Brugg sacudiu a cabeça e dirigiu-se à despensa para buscar as cenouras. “Esses mutantes têm hábitos bem esquisitos”, pensou. “Bem, vou dar as cenouras a esse sujeito, e depois será melhor que ele dê o fora. Talvez fosse preferível não pensar tanto. Os telepatas não são companheiros muito agradáveis.” Quando voltou com um saco de plástico cheio de cenouras, viu Gucky dissolver-se no ar. O rato-castor desapareceu diante de seus olhos; desmaterializou-se. O que ficou para trás foi um cheiro delicado de sabonete. Certo Reginald Bell costumava dizer que o fedor do ratocastor era tamanho que até mesmo as pulgas fugiam dele diretamente para a eternidade. — Ainda bem! — balbuciou o cadete Brugg, perplexo e aliviado ao mesmo tempo. — Não é telepata, mas teleportador — fitou o saco de plástico que tinha na mão. — Por que será que não pôde esperar? Sacudiu a cabeça e voltou a colocar as cenouras no

frigorífico. *** O comandante Wilmar Lund levou um susto quando Gucky materializou-se na sala de comando, a dois metros do lugar em que se encontrava. Levantou o dedo num gesto de ameaça. — Não gosto que os tripulantes de minha nave sejam molestados — disse numa suave repreensão. — Você deu um susto daqueles no cadete Brugg. Ele lhe deu as cenouras? Para seu espanto, o rato-castor não reagiu a estas palavras. — Recebi um pedido de socorro, comandante. A vida de um ser humano corre perigo! Por um instante Lund fitou Gucky. Depois soltou uma gargalhada. — Não é possível! Quem poderia estar em perigo a bordo da Arctic? O imediato acaba de receber o aviso de que tudo está em ordem. Não sei quem... — Não é na Arctic, comandante — interrompeu Gucky. — O pedido de socorro vem de outra nave. Lund sacudiu a cabeça e fitou a tela panorâmica. — Num raio de 0,2 anos-luz não existe nenhuma nave ou planeta. Quer dizer que você.... — Quer dizer que eu me enganei? — completou Gucky. — É impossível! O pedido de socorro foi intenso, concentrado e foi pensado num estado de extrema angústia. O homem estava próximo à morte violenta. Preciso salválo, ou ao menos saber quem são os assassinos. Além disso, quero saber em que nave ocorreu o pedido. Deve ter sido uma nave, pois o homem pensou em robôs e no conversor atômico. — Ainda acontece que neste setor não existe nenhum planeta habitado — reforçou o comandante. — Quer dizer que é uma nave. Hum! Você está com a razão, Gucky. Seria interessante sabermos de que se trata. Talvez sejam arcônidas. Gucky girou lentamente a cabeça, até olhar diretamente no sentido do deslocamento da nave. — Posso indicar a direção, mas não a distância. Não tenho experiências precisas a este respeito. Não sei qual é a distância máxima à qual consigo captar os impulsos telepáticos. Quem sabe se a Arctic poderia executar alguns saltos pequenos em linha reta? Se tivermos sorte, daremos com a nave desconhecida. — Para que servem nossos instrumentos de localização acoplados com o hipertransmissor, que funcionam instantaneamente a uma distância de vários anos-luz? — perguntou Lund com um sorriso. — Providenciarei para que o setor da proa seja examinado detidamente. Está satisfeito, Gucky? O rato-castor sacudiu a cabeça. — Só estarei satisfeito quando tivermos encontrado a outra nave. Lund transmitiu suas instruções à sala de rádio. Voltou a dirigir-se a Gucky. 62


— Se não houver nenhum engano de sua parte, isso não demorará muito. Você tem certeza absoluta de que não se trata de uma brincadeira de alguém que se encontre a bordo da Arctic? — Consegui determinar a direção, comandante — disse Gucky, apontando para o centro da tela panorâmica. — A sala de comando da nave fica no setor externo. Você sabe de alguém que poderia estar à nossa frente? Lund compreendeu que a constatação de Gucky não admitia a menor dúvida. Mas não teve tempo para responder. O intercomunicador emitiu um zumbido. — Há um objeto desconhecido a 1,57 anos-luz à nossa frente. Desloca-se em diagonal, em direção ao setor BC-JS78. Dimensões e formato: cerca de um mil e quinhentos metros, esférico. Material: ligas metálicas e substâncias plásticas. Supomos que se trate... — Sim, já sei! — piou Gucky. — Trata-se de um couraçado dos arcônidas. Era o que eu imaginava — refletiu por um instante. — Alguém está precisando de auxílio. Cuidarei disso. O que mais interessava o comandante Lund era o fato de que nesse setor havia um couraçado do Império Arcônida. O que estaria fazendo aqui? Será que se encontrava em missão oficial? — Saltaremos o mais perto que pudermos — disse, dirigindo-se a Gucky. Passou a falar ao imediato, que se encontrava à frente do computador de astronavegação. — Calcule os dados para o salto em conformidade com os dados da sala de rádio. Dali a dez minutos, a Arctic realizou a transição a curta distância. Dentro de alguns segundos, materializou-se a um ano-luz e meio de sua posição anterior. Agora a outra nave já aparecia nitidamente na tela. Voava muito devagar, motivo por que foi fácil segui-la. Realmente tratava-se de uma das gigantescas naves esféricas, cujo armamento era moderno apesar dos milênios que contava, e que era capaz de destruir todo um sistema solar. O Império Arcônida, governado por um gigantesco computador, constantemente enviava essas naves para o espaço, a fim de descobrir o planeta Terra. Mas, até então, nada conseguira. Será que esse gigante também se deslocava pelo espaço a fim de descobrir a Terra? O comandante Lund mandou ativar o campo defensivo da Arctic e manteve a nave preparada para o hipersalto, com a intenção de afastar-se, caso a nave desconhecida resolvesse atacar. Por enquanto não havia o menor indício disso. Pelo contrário. A nave esférica prosseguia em sua rota, como se nem tivesse notado a presença da Arctic. Mas isso era praticamente impossível. A nave terrana seguia o colosso a uma distância pouco inferior a duzentos quilômetros. A tripulação da nave terrana aguardava a primeira reação dos arcônidas.

Mas essa reação não veio. O comandante Lund estreitou os olhos e disse: — Qual será o truque que eles estão experimentando? Você tem alguma ideia, Gucky? O rato-castor já estava controlando os pensamentos dos tripulantes da outra nave. Mas houve certas dificuldades! Seu cérebro pequeno, mas altamente eficiente, teve de absorver e classificar milhares de impulsos dos mais diversos tipos. Como é que Gucky poderia saber o que era e o que não era importante? — A bordo da nave há uma disposição de alarma — disse. — Mas isso não nos diz respeito. Gostaria de saber... Mais uma vez, concentrou-se intensamente. Subitamente ergueu o corpo. — Saltarei para lá — disse numa súbita decisão. — Mantenha a rota, comandante, para que eu possa voltar a qualquer momento. Se alguma coisa me acontecer — um sorriso travesso surgiu em seu rosto — transforme esta bola gigante num montão de sucata. — Nesse caso precisaríamos de reforços — respondeu Lund um tanto deprimido. — Esperaremos por você, Gucky. Não demore demais. Gucky fez um gesto afirmativo e concentrou-se. Depois desapareceu; parecia ter-se dissolvido no ar. *** Antes de desmaterializar-se, Gucky concentrou-se no lugar do qual vieram os pedidos de socorro telepáticos. Isso bastou para orientar sua teleportação. Seu corpo desmaterializou-se e percorreu na quinta dimensão os duzentos quilômetros que o separavam da outra nave. Tudo não durou mais que uma fração de segundo. O comandante Lund desapareceu diante de seus olhos. Quando as neblinas confusas desapareceram, o rato-castor viu-se no centro de uma sala desconhecida. Logo notou que os seis vultos à sua frente eram robôs. De um lado, isso o deixou satisfeito; se tivesse de usar violência, preferia fazê-lo contra máquinas, não contra homens. De outro lado, porém, não seria capaz de captar os pensamentos dos robôs por via telepática. As ideias e os planos das máquinas permaneceriam em segredo. Acontece que um robô nunca mente. Quando responde a uma pergunta, sempre o faz segundo a verdade. Gucky não estava armado; confiava nas suas faculdades. Um dos robôs esteve a ponto de fechar uma tampa oval embutida na parede. Não constatou qualquer impulso mental que tivesse alguma relação com essa tampa ou com os robôs. O homem que pedira socorro já devia estar morto ou inconsciente. — O que aconteceu com o homem? — perguntou na linguagem universal dos arcônidas, que é entendida por todos os povos coloniais. Não havia a menor dúvida de que os robôs que tinha à sua frente eram de construção arcônida. Os homens mecânicos olharam-no sem dizer uma única palavra. A seguir, três deles bloquearam a única porta 63


existente na sala, dois postaram-se junto às paredes e o último, que acabara de fechar a tampa, dirigiu-se a Gucky. Falando com a voz metálica, disse: — O comando especial acaba de eliminar T-39. Quem é você? — Sou o Imperador da Nebulosa de Andrômeda — respondeu Gucky, observando atentamente o robô. Seus olhos não perderam o menor movimento. — Qual foi o crime desse homem? — Atingiu a idade necessária. O comandante mandou que fosse eliminado. Gucky percebeu que teria de aplicar padrões inteiramente novos para avaliar as condições reinantes nessa nave. A estrutura sociológica desta parecia reservarlhe algumas surpresas. Esteve a ponto de prosseguir em suas perguntas, mas o robô disse: — É proibido entrar nesta sala — foi até a parede, abriu a tampa e prosseguiu: — Enfie a cabeça na abertura. Gucky poderia sentir-se ofendido, pois os robôs nem se admiravam com o aspecto de sua pessoa. Simplesmente constataram que alguém havia penetrado na sala proibida e o condenavam à morte. Pouco importava quem era o intruso. Mas Gucky sabia que um robô não é capaz de sentir curiosidade; limita-se a agir e pensar em acordo com a programação nele introduzida. Isso não excluía a possibilidade de pensar com independência, desde que os pensamentos se movessem no âmbito das tarefas que lhe foram atribuídas. — Foi o comandante que me mandou — disse com a maior energia de que sua voz fina era capaz. — A sentença de morte do tal do T-39 foi revogada. Ao dizer isso, nem desconfiava o que estava arranjando. Até então nunca acontecera que uma ordem de eliminação fosse revogada, pelo simples motivo de que isso era impossível. Significaria uma revolução. E uma revolução... O robô-chefe disse: — T-39 já foi eliminado. O comandante está infringindo as leis. O caso será examinado. Enfie logo a cabeça nesta abertura. Gucky perdeu a paciência. — Seu idiota! Se existe alguém que deve olhar para dentro desse buraco esquisito, será você. Vamos embora; dê uma olhada para ver como são as coisas lá embaixo. Lançou mão de sua faculdade telecinética. Um fluxo mental invisível atingiu o robô, o levantou, e o fez entrar na abertura negra. Dali a um segundo, Gucky o soltou. Subitamente ouviu-se um arrastar, que logo se tornou mais fraco e cessou. — Também querem brincar de escorregar? — perguntou o rato-castor em tom amável, dirigindo-se aos cinco robôs restantes. — Isso não lhes custará nada. Os braços com as armas levantaram-se abruptamente. Gucky percebeu que estava na hora de mudar de posição. Teleportou-se às cegas antes que os pálidos feixes

energéticos alcançassem o local exato em que estivera uma fração de segundo antes. Materializou-se num recinto bem iluminado, situado não sabia onde. Vários homens estavam reunidos em grupos e discutiam apaixonadamente. Os quadros de comando e as telas presas à parede revelavam que se tratava de um centro técnico. Um robô arcônida semidesmontado jazia no centro da sala. Por enquanto ninguém havia percebido a presença de Gucky. O rato-castor permaneceu imóvel e procurou extrair dos pensamentos das pessoas ali presentes as informações de que precisava. O que descobriu era bastante estranho, mas ainda não bastava para obter uma visão global. Ao que parecia, o Maquinista Quatro queria convencer os presentes de que havia necessidade de encetar um motim ou revolta. O estranho era que vivia dizendo que o comandante da nave estava de seu lado. O que significava isso? Um motim só podia ser realizado pelos tripulantes da nave e dirigido contra o comandante. Acontece que desta vez o comandante se amotinava juntamente com os tripulantes! Contra quem? Gucky sabia combinar os fatos. Lembrou-se do encontro que tivera com os seis robôs e das palavras proferidas pelos mesmos. E aqui estava um robô desativado; ao que tudo indicava, fora desmontado pelos homens que estavam reunidos. Só agora Gucky notou que as armas embutidas haviam sido retiradas. O quadro se completava. Se havia um motim, este se dirigia contra os robôs. Ouviu M-4 dizer: — Antes de qualquer coisa, torna-se necessário que os vigias não descubram o que está acontecendo. Nunca devem saber que o comandante está do nosso lado. Só poderemos combatê-los frente a frente, quando tivermos uma quantidade suficiente de armas. Gucky compreendeu que cometera um erro que poderia prejudicar os revoltosos. Então, tentando reparar a gafe, adiantou-se e disse: — Bom dia, amigos. Vim para ajudar vocês. Ao vê-lo e ouvi-lo, os homens se assustaram. A conversa cessou de repente. Todos os olhos dirigiram-se para o rato-castor. Os homens pareciam paralisados. Gucky percebeu que estavam com medo dele porque acreditavam que fosse um enviado do Mestre. Sacudiu a cabeça e esboçou um sorriso. — Não, venho de outra nave. Pretendo ajudá-los. Os robôs já conhecem seus planos. Eles agirão. Agora fechem a boca, ou melhor, deixem-na aberta e contem o que houve. Acho que esta é uma nave do Império, não é? Os impulsos provocados por estas palavras logo lhe revelaram que aqueles homens nunca haviam ouvido a palavra império. — Não são arcônidas? Nem sabiam que no Universo existiam arcônidas. As coisas estavam ficando cada vez mais esquisitas. 64


Bastava um relance de olhos para notar que esses homens eram arcônidas. Os cabelos brancos, os olhos albinos avermelhados, os membros delicados, tudo isso indicava que os indivíduos à frente de Gucky eram seres dessa raça humanoide. Gucky percebeu que, para compreender a situação, teria de agir metodicamente. Dirigiu-se ao homem que já lhe despertara a atenção. — Vamos logo, M-4! Procure controlar-se e conte o que houve. Não tenha medo de mim. O maquinista fez das tripas coração. Adiantou-se um passo, com um gesto tímido enfiou no bolso um pequeno bastão prateado com uma lente na extremidade, e disse em arcônida: — Seu aspecto me causa estranheza, mas não temor. Acho que podemos confiar em você, embora não saibamos de onde veio. Deixe-me contar o que aconteceu... Gucky ouviu-o com um espanto crescente. Embora não descobrisse tudo, começou a desconfiar de que por um simples acaso ele se defrontava com um dos grandes segredos do Universo!

4 A fim de fazerem um relato, O-2 e M-7 apresentaram-se ao comandante e a seus novos amigos. Dois dias se haviam passado, e, nesses dois dias, foram várias vezes à sala ao lado. A imagem do Mestre não modificara seu aspecto e nem a maneira de exprimir-se. Continuava a ameaçá-los com os castigos mais cruéis, mas não fazia nada. Ao menos não perceberam que estivesse fazendo alguma coisa. O-2 contou como fizera para informar os chefes das diversas seções a respeito da nova situação e de que forma distribuíra as tarefas entre eles. Até então não se haviam deparado com ninguém que não se mostrasse entusiasmado e disposto a romper com a cruel tradição. Se todos os chefes de seção tivessem transmitido a mensagem, a essa hora o povo já estaria informado. O relato de M-7 também foi positivo. Graças ao trabalho preparatório, realizado pelo segundo oficial, já encontrara um bom número de pessoas dispostas a ajudá-lo. E juntamente com ele, passaram a espreitar os vigias que ocupassem postos isolados e colocá-los fora de ação. Nem sempre isso fora fácil; por mais de uma vez tiveram de recorrer às armas de que já se haviam apoderado a fim de destruir um robô. Tudo tinha de ser tão rápido que a máquina não tivesse tempo de expedir um aviso. Sabia-se que os robôs mantinham contato permanente entre si, por meio de aparelhos embutidos de rádio. De qualquer maneira, a operação não poderia continuar em segredo por muito tempo, já que os robôs desativados deixariam de transmitir os dados relativos à sua posição.

Mal os dois homens acabaram de apresentar o relato, ouviu-se o zumbido do interfone. Nos últimos dois dias, isso acontecia constantemente. Era O-l que desejava falar com o comandante. Ps-5 fez um gesto afirmativo. — Acho que deve saber a verdade; não podemos ocultar-lhe a ação por mais tempo. Se for um homem razoável, poderá ser nosso aliado. Caso contrário, terá de morrer. — Se isso acontecer eu incumbirei o comando da morte de sua execução — disse O-1. Mas ainda não chegara a hora de pensar nisso. — Antes de tudo, vamos ver como reage à nossa proposta, comandante — sugeriu Ps-5. — Peça-lhe que venha até aqui. Dali a dez minutos, O-l entrou na sala de comando. Parou diante da porta que se fechava, e fitou os presentes com um olhar de espanto. Finalmente disse em tom indignado: — O que é isso? Quero falar a sós com o comandante. Ps-5 incumbiu-se de informar o oficial sobre o ocorrido. — Sente e preste atenção. O senhor poderá levar uma vida pacata, segura e feliz, ou poderá ser levado pelo comando da morte; tudo depende do senhor. Não me interrompa. Só depois que eu tiver concluído, tome sua decisão. O senhor não demorará a compreender que... Com a voz calma e indiferente, narrou os acontecimentos e não se esqueceu de entremear a narrativa com suposições impressionantes, que pudessem influenciar o jovem. — É claro que, quando tudo tiver passado, o atual comandante continuará no exercício de seu cargo — sentenciou Ps-5, depois de algum tempo. — O senhor continuará a ser seu sucessor, caso queira compartilhar de suas ideias. Antes de entrar no exercício do cargo, terá de esperar bastante. Mas em compensação vai ter a chance de viver mais. Nenhum de nós sabe quanto tempo viverá. Talvez seja por três ou quatro gerações, talvez mais. Nossa existência só terminará com a decadência física das células do organismo. D-3 terá muito prazer em expor-lhe as respectivas teorias. Aguardamos sua decisão. O-l ouvira-o com um nervosismo cada vez maior. Por várias vezes fez sinais de concordância, mas a seguir notava-se que as dúvidas o martirizavam. Assim que Ps-5 concluiu, disse: — Isso é uma revolução que significará o fim de todas as tradições. Será difícil a gente se adaptar com a necessária rapidez. Devo confessar que, em muitos pontos, minhas opiniões coincidem com as suas, mas receio que nossos desconhecidos governantes oferecerão resistência. Será que dispomos de força para enfrentá-los? — Esperamos que sim — respondeu Ps-5 em tom sério. — Esperamos e acreditamos. O comandante estava a ponto de acrescentar alguma coisa quando se ouviu um zumbido. No primeiro instante, acreditaram que fosse o interfone, mas o comandante olhou 65


para a porta... — Os vigias nunca anunciam previamente sua chegada. Só aparecem quando acham que devem fazê-lo. Levam dez segundos para entrar. É o tempo que demora a fechadura eletrônica para abrir a porta. Todos têm de ir ao aposento contíguo, com exceção de O-1. A ordem foi cumprida imediatamente. Quando a porta se abriu para dar entrada ao robô, só o comandante e seu sucessor se encontravam na sala. Mas o robô não veio só. Mais quatro vigias estavam em sua companhia. Se fossem seis, o comandante talvez teria desconfiado que era o comando da morte que o visitava. Mas, da forma como estavam as coisas, pensou que fossem vigias como quaisquer outros. Nem desconfiou que era o próprio comando da morte que Gucky havia desfalcado de um membro... — Desde quando o comandante tem poderes de revogar uma eliminação já determinada? — perguntou o vigia que entrou em primeiro lugar. — As infrações à lei sempre recebem o castigo adequado. Iremos... — Nunca dei uma ordem desse tipo — interrompeu o comandante. — Quem foi a pessoa que deveria ter sido liquidada? — T-39, que já foi levado para ser eliminado. — Isso é impossível. T-39 solicitou um adiamento que não pude conceder. Nunca dei ordem para suspender sua morte. — Não acreditamos no que está dizendo — respondeu o robô em tom frio. — Você virá conosco e sofrerá o justo castigo. Seu sucessor entrará no exercício do cargo. — Ele ainda não foi informado — disse o comandante. Os vigias pareciam confusos. Enquanto não houvesse um sucessor devidamente informado, o comandante não podia ser morto. Ps-5, que viera da sala contígua sem ninguém o perceber, disse em meio à pausa de indecisão: — O comandante está dizendo a verdade, vigias. Posso testemunhar isso. M-7 também entrou sem que ninguém o notasse e comprimiu-se junto à parede, atrás dos robôs que já haviam entrado na sala. Segurava a chave com a qual poderia soltar o parafuso que desativava os robôs. Se conseguisse fazê-lo em tempo... E desativou dois robôs! O terceiro devia ter notado o primeiro contato da chave, pois virou-se lentamente, dirigindo o braço com a arma para M-7. Ps-5 agiu imediatamente. O raio energético de sua arma portátil atingiu a cabeça do terceiro vigia e com um forte chiado derreteu o cérebro positrônico. Dali a alguns segundos, o quarto robô também foi colocado fora de ação. O robô que se portara como chefe foi o único a ter uma pequena chance, mas não conseguiu aproveitá-la. Nesse meio tempo, D-3 saíra de seu esconderijo e passou a intervir nos acontecimentos. Só desligou a arma energética depois que o último robô se transformou num montão de

metais derretidos. Um calor quase insuportável tornava difícil a respiração. — O senhor teve sorte — disse Ps-5 em tom tranquilo, enquanto guardava a arma. — Por pouco o senhor não se transforma na vítima de suas próprias instruções, ou das instruções emitidas pelo grande Mestre. O senhor já tomou uma decisão, O-l? O oficial fez um gesto afirmativo. Estava muito pálido. — Estou com os senhores. Mas tenho um desejo. Gostaria de ver a pessoa que vocês chamam de Mestre. Isso é possível? — Até é seu direito — disse o comandante. Fora tudo tão rápido que nem tiveram tempo de ficar chocados. Antes que compreendessem o que estava acontecendo, o perigo fora eliminado. Os cinco guardas inutilizados eram a única lembrança de que estiveram tão próximo à morte. — Venha comigo, O-l, eu lhe apresentarei o Mestre. Os dois homens dirigiram-se à sala contígua. Ps-5 seguiu-os com os olhos. — Acho que não demorará muito — disse. — Os robôs já devem ter descoberto nossos planos e passarão à ação. É possível que o Mestre esteja em contato com eles. Quem dera que eu soubesse. Por enquanto não existe o menor indício, quanto mais uma prova. D-3 foi até a parede e abriu a porta de correr de um armário embutido. — As armas que temos bastam para rechaçar qualquer ataque dos robôs. Além disso, todos os chefes de seção estão armados. Seria inútil continuarmos a manter nossos planos em segredo. Vamos apresentar uma declaração de guerra formal ao Mestre. Antes que os outros pudessem manifestar sua concordância, ouviu-se o zumbido do interfone. Ps-5 comprimiu o botão. A tela iluminou-se e M-4 disse: — Estou falando da seção de laboratório. Acabamos de ganhar um aliado com o qual não contávamos. Surgiu de repente entre nós. Vem de outra nave. Não é como nós... — De outra nave? — interrompeu o psicólogo em tom de perplexidade. — O que quer dizer isso? Existe mais alguma nave além da nossa? — O Universo está cheio de naves — disse M-4. — Existem mundos habitados e verdadeiros impérios estelares. Mas isso é tão complicado que não posso explicar em poucas palavras. Quando os problemas terminarem, o desconhecido explicará. — Ainda não compreendi. Não notamos a presença de outra nave. Onde ela está? E como foi que o desconhecido chegou aqui? — Ele mesmo lhes contará. Não se espantem quando o virem. Eu já lhe disse que não é como nós. É menor e tem o corpo coberto de pelo, mas fala nossa língua. Ps-5 teve uma suspeita. Prosseguindo em tom cauteloso, disse: — Talvez nem venha de outra nave. Em nosso mundo existe muita coisa que ainda não conhecemos. Nas regiões 66


inexploradas... O rosto de M-4, que aparecia na tela, foi substituído por outro. Ao vê-lo, o psicólogo calou-se abruptamente. Pasmo de espanto fitou os olhos castanhos de uma criatura como nunca vira igual. Não descobriu o menor sinal de maldade nesses olhos, apenas uma alegre curiosidade. O que mais chamou a atenção de Ps-5 foi o dente roedor. — Você pode acreditar no que M-4 acaba de dizer — disse o forasteiro com uma voz fina que em outras circunstancias teria provocado uma risada de Ps-5. — Não, não tenho nada que ver com seu Mestre. Quem é mesmo esse Mestre? Ps-5 estreitou os olhos. — Você sabe ler pensamentos? — perguntou em tom assustado. — Sei — disse Gucky. — E sei fazer outras coisas. Irei até aí e levarei M-4. Não demoraremos; no máximo levaremos cinco segundos. — Cinco segundos... — disse Ps-5 em tom de perplexidade. O setor de laboratório ficava a mais de oitocentos metros da sala de comando. Mas o rosto de Gucky já havia desaparecido. No mesmo instante surgiu um fenômeno no centro da sala de comando! O ar começou a tremeluzir e dois vultos saíram dos círculos turbilhonantes: M-4 e Gucky. — Cá estamos! — piou o rato-castor às costas do psicólogo, que continuava a fitar a tela de imagem. Virouse como se tivesse sido picado por uma tarântula e fitou os dois intrusos como se fossem fantasmas. — Pelo espírito dos antepassados...! — exclamou em tom de espanto. D-3 tivera oportunidade de assistir à materialização. Não conhecia explicação do “milagre”, mas tinha bastante imaginação para formar uma ideia sobre as faculdades de outros seres. A criatura à sua frente não infundia medo; parecia pacata e inofensiva. — Deixe seus antepassados em paz — disse Gucky, dirigindo-se ao psicólogo e aguçou os ouvidos em direção ao camarote do comandante. — Ali há dois homens. Quem são eles? — Como é que você sabe? — perguntou Ps-5 em tom de espanto, esforçando-se para recuperar o autocontrole. — Eu já lhe disse que sei ler pensamentos — disse Gucky. — Ah, já sei. É o comandante e um jovem oficial. Estão conversando, mas a conversa não faz muito sentido. Até parece que se dirigem a uma terceira pessoa que não os ouve e não responde. Ps-5 já se recuperara da surpresa. Seu cérebro voltou a funcionar normalmente. Compreendeu que o pequeno forasteiro à sua frente sabia ler pensamentos. Talvez seria essa a chance de desmascarar o Mestre. Ficou tão alegre por ter encontrado um caminho que não ouviu as últimas palavras de Gucky. — Os dois homens estão conversando com o Mestre... — começando a explicar em poucas palavras o que estava acontecendo na sala contígua.

Logo depois concluía com as seguintes palavras: — Eles dominam nosso povo há tempos imemoriais; além disso, o governo é exercido por intermédio do comandante. Eles nos deram as leis que regem nossa vida e nossa morte. Vivem em alguma região desconhecida desta nave e só aparecem sob a forma da pessoa que chamamos de Mestre. — Surgem numa tela de imagem — disse Gucky. — Preciso dar uma olhada nisso! Dali a alguns segundos, entrou juntamente com Ps-5 e com D-3 na sala em que ficava a grande tela de onde o rosto do Mestre os fitava. Por alguns minutos, Gucky acompanhou a palestra que se desenvolvia em círculo, sem que se chegasse a qualquer resultado positivo. O Mestre recusava-se obstinadamente a dar qualquer explicação. Limitava-se a exigir obediência e o restabelecimento do estado anterior. Com os olhos semicerrados, o rato-castor escutava. Seu dente roedor desapareceu. Mantinha-se imóvel embaixo da tela e fitava a imagem. Mas por mais que se esforçasse para identificar, entre os impulsos mentais que investiam sobre ele, os do Mestre, seus esforços não produziram o menor resultado. Não era nada fácil identificar os pensamentos de um homem que aparecia na tela. O corpo deste se encontrava em outro ponto, que tinha de ser determinado. Mas, até então, Gucky nunca levara mais de dois minutos para localizar um interlocutor que se achasse nessas condições. Nunca levara; mas agora estava levando. Concentrou-se durante dez minutos. Depois sacudiu a cabeça e caminhou tranquilamente para perto da imagem. Ps-5 esclareceu o comandante e O-l com poucas palavras, e os mesmos se mantiveram em atitude de expectativa. O Mestre interrompeu o discurso que estava desfiando como se o tivesse decorado. Depois de uma ligeira pausa perguntou: — Quem é você? — Era o que eu queria perguntar a você — piou o ratocastor. — Onde está? Na nave? Enquanto o Mestre respondia, Gucky mais uma vez se esforçou em vão para identificar a fonte dos pensamentos. A explicação só podia ser uma... — Sou o Mestre, o representante dos antepassados que construíram esta nave e a fizeram decolar. Assim que a nave chegar ao destino, certos segredos serão esclarecidos. Até lá exijo obediência. Mas você não é um dos nossos. Quem é você? Gucky já tinha certeza, mas assim mesmo queria uma prova definitiva. — Talvez seus objetivos sejam bons, mas será que você julga conveniente que o homem seja dominado pela máquina? Por que é que todos ignoram as origens do povo? Por que é que ninguém sabe que os indivíduos desta nave são arcônidas? O rosto do Mestre demonstrou espanto, mas sua voz continuou tranquila e indiferente: 67


— A máquina merece mais confiança que o homem, pois está menos sujeita a erros. Mas agora eu lhe faço uma pergunta: o que é que você sabe a respeito dos arcônidas? Gucky acenou com a cabeça. Esperara exatamente isso. Sem dar a menor atenção à imagem do Mestre, que o fitava rigidamente, virou-se para os homens, ou melhor, para os chefes da revolução, que aguardavam tensamente suas palavras. — Acho que no futuro não precisaremos entrar mais nesta sala. Não precisaremos tomar conhecimento da existência do Mestre que alega ser o representante dos antepassados. Acredito que, na oportunidade em que esta nave decolou, alguma coisa não deu certo. O que está acontecendo não estava previsto. Bem, não demoraremos em descobrir. Ps-5 adiantou-se e parou à frente de Gucky. — Simples palavras não poderão eliminar o Mestre. Ele está ali, na tela; vê e ouve tudo que se passa. — Até que você tem razão — disse Gucky em tom irônico. — Por isso mesmo não entraremos mais nesta sala. Depois disso, o Mestre estará cego e surdo. E também estará mudo. Por enquanto não entendiam o que Gucky queria dizer, mas aceitaram a sugestão do mutante. Fecharam a porta da sala e voltaram à sala de comando. Uma vez lá, o comandante perguntou. — E agora? O psicólogo apontou para D-3. — Talvez esteja na hora de pensarmos na terrível descoberta que fizemos no centro da nave. Deve haver alguma ligação entre aquilo e o Mestre. Nossos antepassados estão dormindo por lá... Gucky esperou que o psicólogo contasse sua história e viu que o quadro se completava. Restava saber qual era a finalidade daquilo. Se é que havia alguma finalidade! — Acho que vou dar uma olhada nisso — disse o ratocastor assim que Ps-5 concluiu seu relato. — Aproveitaremos a oportunidade para deixar o Mestre sem energia. — Deixar o Mestre sem energia?! — repetiu M-7 em tom de espanto. — Isso mesmo. Será que vocês podem imaginar um robô que funcione sem energia? Pouco importa que o rosto desse robô seja de metal ou de plástico. Enquanto se deleitava com o espanto provocado pela revelação, Gucky exibiu o dente roedor. Com uma única frase, desvendara o grande mistério.

5 O técnico Trinta e Nove só caiu durante um segundo, mas este segundo transformou-se numa eternidade. Teve oportunidade para ter uma percepção nítida do fim

que o aguardava. E esse fim parecia ser muito diferente do que ele supusera! O escorrega não terminava na fogueira atômica do reator. Enquanto T-39 descia em direção ao centro de gravitação da nave, a temperatura não subia, mas baixava ininterruptamente. Numa questão de segundos, começou a fazer um frio insuportável. O técnico ainda não sabia que seu corpo já estava sendo atingido pelo sopro do gelo eterno que avançava rapidamente pelas suas carnes. Enquanto caía velozmente, percebeu abaixo de si um gigantesco pavilhão no qual havia vigias imóveis à sua espera. Estes se encontravam postados em torno de uma tina retangular feita de um metal branco que lembrava o mármore. Ao que parecia, a tina estava cheia de água sobre a qual havia uma névoa. T-39 mergulhou na névoa e, depois disso, na água. Não chegou a sentir o tremendo frio que congelou seu corpo e esfacelou a roupa sintética... Era o momento pelo qual os vigias haviam esperado. Moveram-se lentamente em direção à tina. Pegaram instrumentos parecidos com varas e puxaram o corpo para junto de si. Depois o retiraram cautelosamente do líquido. T-39 foi colocado numa maca especialmente trazida ao pavilhão. Os robôs agiam com a maior cautela, pois sabiam que qualquer descuido poderia quebrar o corpo congelado. Dois guardas levaram a maca para fora. Os outros continuaram postados junto à tina, onde esperavam a próxima vítima. Nem desconfiavam de que a vítima que acabavam de retirar do líquido era a última. *** Ps-5, D-3 e R-75 acompanharam Gucky, enquanto os outros permaneceram na sala central, com o comandante, para que pudessem alarmar a tripulação, caso houvesse uma revolta dos robôs. R-75 apontou para a parede. — Foi aqui que abrimos o buraco. Os esquifes ficam atrás desta parede. Mas os guardas armados também estão à espera por lá. Gucky acenou com a cabeça; parecia satisfeito. — Acho que terão uma surpresa. Vocês estão fortemente armados e lhes armarão um fogo de artifício que será um deleite para seus olhos de lente. Quanto a mim, bem, acho que vou ter uma boa brincadeira. — Quer brincar? — o psicólogo lançou um olhar de dúvida para Gucky. Até então, Ps-5 não recebera qualquer resposta satisfatória às seguintes perguntas: quem era e de onde vinha o rato-castor. Ps-5 limitara-se a aceitar o fato de ter encontrado mais um aliado. — Você acha que conseguirá espantar os guardas com suas brincadeiras? — Minha brincadeira tem o nome de telecinese — 68


explicou Gucky enquanto via R-75 abrir a chapa da parede a maçarico. — Basta concentrar os pensamentos para descolar a matéria sem pôr as mãos nela. Com isso já pus fora de ação verdadeiros exércitos de robôs. Aquilo era um exagero. Mas verdade seja dita: por meio de sua capacidade telecinética Gucky já dominara muitos inimigos que poderiam tê-lo massacrado com os punhos. O pedaço de metal retirado da parede caiu ruidosamente ao chão. — Via de regra, os guardas levam cerca de uma hora para aparecer — disse Ps-5 em tom apressado. — É possível que desta vez sejam mais rápidos. — Bem, veremos — piou Gucky e espremeu-se pela abertura na parede assim que as bordas esfriaram um pouco. — Vamos logo, amigos. Desta vez, não precisavam vigiar a retaguarda. Dirigiram sua atenção para a frente, onde as longas fileiras de blocos de vidro, com as pessoas adormecidas, continuavam a aparecer na penumbra. Gucky deu alguns passos e parou à frente do primeiro bloco. Saltou para a borda do recipiente e fitou o corpo nu do arcônida. Para ele, não havia nenhum mistério naquilo que permanecia oculto aos seus companheiros. Antes de entrar no pavilhão, já sabia o que estava sendo feito ali; apenas não conhecia a finalidade daquilo. Ps-5 também se aproximou e fitou a pessoa adormecida. Estreitou os olhos e lançou um olhar de perplexidade para D-3. — Dê uma olhada nisso — disse com a voz embaraçada. — Depois diga se estou louco. O médico acenou lentamente com a cabeça. — Você não está louco — disse com um tremor na voz. — Sei perfeitamente o que você quer dizer. Mas antes de cometermos um engano vamos procurar a prova. Em qual dos blocos estava guardada a moça? — No bloco que se segue a este — respondeu Ps-5 e caminhou até o bloco vizinho. Olhou para dentro do mesmo e recuou apavorado. — Sim, é isso mesmo. Foram trocados. Por quê? Gucky, que além de acompanhar a conversa lia os pensamentos dos dois homens, levou apenas alguns segundos para descobrir toda a história. Procurou certificarse: — Vocês têm certeza de que não há nenhum engano? É a mesma sala? — Temos certeza absoluta — respondeu Ps-5. — Há poucos dias havia outras pessoas nestes recipientes. Gucky teve de confessar que já não compreendia mais nada. Há um instante tivera a impressão de que, no setor central, um grupo de arcônidas hibernava no frio. O líquido turvo parecia indicar esse fato. Devia suportar temperaturas bem abaixo de zero sem modificar seu estado, que continuava líquido. Até ali estava tudo em ordem. Mas por que de repente eram outras as pessoas que se encontravam nesses estranhos recipientes? Subitamente o raciocínio de Gucky foi interrompido

pela exclamação do médico: — Conheço este homem. É T-39; eu o tratei várias vezes. Ocupa o lugar da moça. Mas... O psicólogo estremeceu e recuou apavorado. Em seu rosto havia uma expressão de horror e uma indagação. — Há uma hora o comando da morte levou o técnico e o empurrou para dentro do conversor — disse em tom seco. — Ele está morto. Aos poucos, Gucky começou a orientar-se em meio aos fatos. — Há uma hora? Estava condenado à morte? E aqui está deitado à nossa frente? Então, Ps-5 e D-3, será que vocês já começam a compreender? Os dois homens lançaram um olhar de perplexidade para o rato-castor. — Pois é simples — piou Gucky em tom exaltado. — Eles sempre lhes contaram que vocês têm de morrer quando chega a hora. Na realidade, ninguém morre. Já sei que as pessoas condenadas à morte não vão parar no reator, mas sim na câmara de congelação. Foi o que aconteceu com este técnico. Acho que até aí o mistério está esclarecido. Mas vemo-nos diante de outra indagação. O que aconteceu com as pessoas que se encontravam neste recipiente antes que o mesmo fosse ocupado por T-39? Devemos descobrir isso, pois só assim poderemos acompanhar a pista. Ps-5 acenou lentamente com a cabeça. Embora fizesse bastante frio, começou a transpirar. De um instante para outro, os vigias deixavam de ser impiedosos homensmáquina para transformarem-se em benfeitores. Mas qual seria a finalidade daquilo? Gucky percebeu o conflito que lavrava na mente do psicólogo e disse: — É perfeitamente possível que tenhamos cometido uma injustiça contra os robôs, mas afinal estes permitiram que vocês ficassem na incerteza. Acho que não importa o que irá acontecer daqui em diante. Vim apenas por ter recebido um pedido de socorro transmitido por via telepática. Este pedido foi expedido por um homem que corria perigo de vida. Provavelmente foi este homem que vocês chamam de T-39. Ao que parece, ainda está vivo e continuará vivo por muito tempo. Suponho que viva até que esta nave chegue ao destino. Quer dizer que posso voltar à minha nave e deixar que vocês continuem como antes. — Em hipótese alguma desejamos que o estado anterior volte a reinar — protestou o médico. — No futuro cuidaremos do nosso destino; não nos deixaremos governar pelas leis do Mestre. Quem é mesmo esse Mestre? — Antes de despedir-me de vocês, pretendo descobrir isso — disse Gucky com a voz tranquila. — Esperem aqui mesmo. Antes que alguém pudesse responder, o rato-castor desapareceu. Ficaram a sós na penumbra do pavilhão. *** Enquanto isso, na sala de comando, a situação 69


começava a tornar-se crítica. Mal Gucky e os três homens partiram para a expedição, tiveram de dar o alarma. Anunciou-se que os vigias se reuniam e marchavam em direção à central. Atiravam contra tudo que se interpunha em seu caminho. Era a declaração de guerra! O comandante deu ordens de resistir. Os chefes das diversas seções distribuíram as armas e organizaram os grupos de combate. Acabara de chegar o temível momento do confronto aberto. Enquanto o comandante transmitia suas instruções, a ligação pelo interfone foi interrompida de repente. O suprimento de energia fora suspenso. O verdadeiro chefe acabara de desferir seu golpe. Mas desferira o golpe alguns minutos depois da hora adequada. Os homens revoltosos já sabiam o que fazer. Um dos grupos de choque, dirigido por M-4 e M-7, correu à frente dos vigias e chegou antes deles ao corredor que dava para a sala de comando. Uma vez lá, montaram uma armadilha e passaram a aguardar os robôs num estado de tensão febril. Não esperaram por muito tempo. Os vigias vieram andando com os braços em ângulo reto e as armas prontas para disparar. Os dois mecânicos sabiam que não haveria mais lugar para as artimanhas. Agora só importava saber quem era mais rápido e mais forte. Os vinte vigias, marchando na devida ordem, ofereciam um quadro apavorante. A vontade de matar parecia ter-se gravado em suas cabeças metálicas, embora os rostos permanecessem impassíveis. M-7 esperou que a primeira fila passasse pelos atiradores ocultos e se encontrasse a menos de dois metros do lugar em que estava para dar o sinal combinado. O raio energético por ele disparado derrubou o primeiro colosso e atirou-o contra a parede. A detonação seguinte destruiu mais alguns robôs. Os raios energéticos chiavam de todos os lados, colocando fora de combate os desajeitados robôs. Foi tudo muito mais fácil e rápido do que esperavam. Antes que os vigias tão temidos pudessem organizar a defesa, estavam todos destruídos. Era bem verdade que a luta também custara a vida de três homens. A porta da sala de comando abriu-se. Acompanhado de O-l e O-2, o comandante saiu e ficou apavorado com o cenário à sua frente. Parecia dominado pelo pânico enquanto dizia: — Foi o primeiro ataque dos vigias. Quanto tempo demorará até que voltem? M-7 disse com um sorriso forçado, que ao mesmo tempo exprimia certo alívio. — Estes aqui não atacarão mais ninguém — disse, apontando para os corpos metálicos imobilizados. — Acho que conseguiremos. Quantos vigias existem ao todo?

— Pelo que sei, devem ser mais ou menos cem — respondeu o comandante em tom hesitante. Teve de confessar que não sabia exatamente. — E por enquanto ainda não ganhamos a batalha. — Sabemos disso — respondeu M-7 e fez um sinal aos seus homens. — Acontece que não estamos sós. Em todos os cantos da nave nossos grupos de choque esperam os vigias. Daqui a pouco seremos os donos desta nave e poderemos viver nossa vida, até atingirmos nosso objetivo. O comandante fez um gesto e voltou à sala de comando. Os dois oficiais seguiram-no. — E agora? — perguntou O-l com a voz insegura. — A energia para o intercomunicador falhou. Estamos cegos e mudos... — Vou dar uma olhada para ver o que diz o Mestre — respondeu o comandante e abriu a porta que dava para a sala ao lado. — Talvez ele nos ofereça a capitulação. Nunca podemos saber... Mas quando entrou na sala e contemplou a grande tela quase caiu de susto. Quem o fitava, com o rosto sorridente e as orelhas em pé, era a estranha criatura que tão inesperadamente acorrera em seu auxílio. Gucky ocupara o lugar do Mestre! *** O rato-castor conhecia perfeitamente esse tipo de nave esférica, da qual o Império Solar possuía várias unidades. Sabia orientar-se em todos os cantos da mesma. Ps-5 lhe dissera que devia haver mais nove ou dez salas ligeiramente curvas, e que, em algumas dessas, talvez também estivessem guardados os recipientes com pessoas adormecidas. Mas Gucky sabia fazer cálculos. Aquela nave errava pelo espaço há vários milênios. As gerações se sucediam, e os indivíduos iam “desaparecendo” no interior do conversor. Era ao menos o que sempre se acreditara. Mas agora as coisas mudavam de figura... As pessoas condenadas à morte não estavam mortas. Viviam, sendo conservadas para o futuro. Os arcônidas do interior dos recipientes de vidro não eram apenas os antepassados, mas também os que haviam morrido neste meio tempo. Gucky conhecia a nave esférica e soube calcular perfeitamente que os recintos, onde eram guardados os blocos de vidro, não formavam o centro da nave, mas circundavam-no. Ainda havia um espaço livre, em forma esférica, com um diâmetro de cerca de duzentos metros. Se esse espaço fosse bem dividido, nele caberiam mais de cem mil pessoas. A ideia fez Gucky estremecer. Nunca ninguém se lembrara dessa possibilidade. A pessoa que concebera esse plano tresloucado devia ser louca, ou então era um gênio em estado de desespero. E ele, Gucky, acabara de romper a corrente! Saltou às cegas, mas sempre com um máximo de 70


concentração. Ao materializar-se, percebeu imediatamente que seu raciocínio fora correto. Sentiu um frio insuportável que atravessou seu pelo e investiu contra a pele. Sabia que não poderia permanecer ali por mais de um segundo, pois do contrário seria vitimado pelo frio. E um ligeiro olhar bastou para que percebesse a verdade. Milhares de arcônidas, aparentemente mortos, estavam empilhados na gigantesca sala. Eram mulheres e homens nus. Mesmo que Gucky não soubesse que essas pessoas apenas estavam dormindo, aquela visão não o teria deixado mais assustado. Era aqui que estavam as gerações que há milênios desapareciam nas profundezas da nave. Por quê? Ninguém sabia dar uma resposta satisfatória. Logo teleportou-se e foi parar num recinto recheado de máquinas que zumbiam. Esse recinto ficava fora do círculo em que se encontravam os recipientes de vidro. Os robôs caminhavam silenciosamente de um lado para outro, sem tomar conhecimento de sua presença. Verificavam os geradores e os quadros de comando. Devia ser a gigantesca sala de máquinas do centro da nave. Nos fundos havia uma porta larga; verificou que esta não estava fechada. Gucky atravessou a sala e entrou rapidamente no recinto que ficava atrás da mesma. Suas suspeitas se confirmaram. Viu diante de si a solução do enigma... *** Tanto Ps-5 como D-3 não se lembraram de que os robôs são capazes de aprender. Nem mesmo R-75 teria desconfiado disso. Por isso, o próximo ataque veio colhêlos de surpresa. De início ouviram o arrastar de pés vindo dos fundos da sala. A porta abriu-se lentamente e alguns vigias entraram. Caminharam devagar na direção em que se encontravam. O psicólogo deu mostras de pânico. — Estão chegando! Onde será que ficou nosso amiguinho? Se não aparecer, teremos de fugir sem ele. — Poderemos resistir por alguns minutos — garantiu o médico e pegou a arma. — Procuraremos abrigar-nos atrás dos recipientes de vidro. Não se atreverão a destruí-los. R-75 juntou-se a eles, mas depois de algum tempo resolveu fugir, enquanto era tempo. Correu em direção à saída, e foi recebido por um raio fulgurante, que apagou sua consciência e sua vida. Dois robôs colocados junto à saída cortavam a retirada. Ps-5 viu R-75 morrer. Quando viu que estavam encurralados, seu coração quase parou de bater. Os outros vigias aproximaram-se e pararam. Mais uma vez fizeram ouvir sua voz fria e metálica. — Não resistam! Vocês penetraram nas regiões proibidas da nave e não escaparão à morte. É o que diz a lei. Ps-5 recobrou o ânimo. — Essa lei não existe mais! — exclamou em voz alta,

na esperança de que o rato-castor pudesse ter a atenção despertada para o perigo. Não sabia onde estava o aliado. Talvez pudesse ouvi-lo. — Nem pensamos em capitular. Lutaremos até o fim. — É inútil resistir. Abriram fogo sem mais aviso, mas os disparos passaram acima do alvo, pois não desejavam atingir os recipientes. Mas logo reconheceram a situação. Os guardas começaram a andar, tentando contornar o obstáculo, isto é, os recipientes. Os robôs que se encontravam junto à saída também se aproximavam com as armas levantadas. Os dois homens olharam-se por algum tempo e acenaram com a cabeça. Se tivessem de morrer, não queriam que isso acontecesse em vão. Haviam desencadeado a revolta e posto as pedras para rolar. Sua vida preenchera uma finalidade, e a mesma coisa deveria acontecer com sua morte. Concentraram seu fogo sobre os vigias. Mas estes não responderam ao fogo. Mantiveram-se imóveis em sua nova posição, com as armas levantadas. Mas foi só isso. Dois ou três robôs caíram sob o fogo dos raios energéticos. Depois disso os dois homens suspenderam o fogo. Por que destruir um inimigo que não se defendia mais? — Por que não lutam? — gritou Ps-5 com a voz nervosa. — O que aconteceu? A estas palavras seguiu-se um silêncio completo. Ninguém respondeu. De repente, o ar começou a tremeluzir entre o lugar em que se encontravam e os robôs. O rato-castor voltou a aparecer. Sem dar a menor atenção aos inimigos, arrastou os pés para junto do psicólogo e piou em tom orgulhoso: — Estes estão liquidados. Desliguei a força na sala de máquinas. Estes robôs são teleguiados. Vocês estão livres. — Teleguiados? — indagou Ps-5 em tom de perplexidade. — O que significa isso? O que foi que você descobriu? Por onde andou? Um sorriso alegre surgiu no rosto de Gucky. — Nós nos encontraremos na sala de comando. Esperem-me lá. Ainda tenho de liquidar outro assunto. E desapareceu de novo.

6 — Dei uma olhada no Mestre — disse Gucky dali a meia hora aos homens reunidos na sala de comando. Todos os oficiais e chefes de seção haviam comparecido para serem informados sobre a nova situação. — Consiste num filme de plástico sincronizado com um robô falante. Com isso, aqui na tela, surge a impressão de que uma pessoa viva 71


está falando diante da câmara. Na verdade quem fala é um robô. É um processo bastante complicado, e durante vários milênios o espetáculo produziu os efeitos desejados. Era esse robô-imagem que dava as ordens e comandava a nave. Por isso tinha-se a impressão de que pelo menos um dos antepassados continuava vivo e dirigia o voo da nave. Na verdade, todos os antepassados estão vivos, embora não tenham uma vida consciente. Foram postos a hibernar no frio e só serão despertados quando a respectiva maquinaria for ligada. “A morte no conversor foi apenas um pretexto. Todas as pessoas levadas pelo comando sinistro foram congeladas, ficaram em observação durante algumas semanas no interior dos recipientes de vidro e depois foram literalmente empilhadas no depósito. Dessa forma, as pessoas adormecidas ocupam menor lugar. No centro da nave repousam cerca de cem mil criaturas. Isso corresponde ao núcleo de uma população planetária, e era o que se planejava. Mas houve uma coisa que não correu segundo os planos...” Gucky fez uma ligeira pausa para deleitar-se com o espanto dos ouvintes. Eram arcônidas, conforme suspeitara, mas por que afirmar-lhes isso agora? Por que teriam de saber que sua raça dominava a Via Láctea, ou ao menos a dominara até que foram atingidos pelo destino que...? Um belo dia, eles mesmos descobririam o segredo. — Durante os primeiros séculos do voo, que seria apenas uma experiência, os robôs colocados a bordo obedeciam ao comandante. Um dia enganaram a pessoa que se encontrava no comando e investiram o sucessor em suas funções. Recorreram ao transmissor de imagens para transmitir-lhe as instruções que vigoram até hoje. Os homens ouviram-no em silêncio. Não estavam compreendendo nada. Gucky prosseguiu: — Não sei por que a nave voa com uma relativa lentidão. É possível que as instalações de hipersalto tenham entrado em pane, motivo por que a viagem teve de prosseguir apenas em vôo normal. Acontece que a nave também não conhece qualquer tipo de astronavegação ou pilotagem. Se a presente rota for mantida, dentro de dois séculos a nave penetrará no campo de gravitação de um grande sol circundado por vinte planetas. Mandei verificar isso pelo computador de minha nave. Quer dizer que dentro de duzentos anos, aproximadamente, vocês chegarão ao destino. E depois disso, acontecerá aquilo que seus antepassados desejavam. Vocês entrarão em órbita em torno do sol. O processo que fará despertar as pessoas congeladas será iniciado automaticamente. Essas pessoas despertarão uma após a outra. Depois de algum tempo, a nave pousará. Os homens povoarão o planeta. Uma nova civilização terá início, se é que o planeta pode sustentar a vida. O comandante lançou um olhar de perplexidade para Ps5. Muito confuso, perguntou: — E se esse planeta não puder sustentar a vida? Gucky interrompeu-o com um gesto.

— Não se preocupem. É possível que seus antepassados tenham escolhido a rota por simples acaso, mas a mesma justifica certas esperanças. O sol de que acabo de falar possui pelo menos três planetas adequados à vida. — Quem foi o Mestre? — perguntou o médico em tom curioso. Mais uma vez, o rato-castor sorriu. — Um enorme computador que fica no centro da nave, e que assumiu o poder há milhares de anos. Tinha a intenção de pousar no planeta, despertar as pessoas adormecidas e transformá-las em escravos. Pretendia formar uma verdadeira civilização de robôs. O planeta, colonizado por vocês, se transformaria no centro de um gigantesco império que seria governado pelo computador. Seria uma bela surpresa; ainda bem que a mesma não se concretizou. No fundo devemos isso a um único homem. “Refiro-me a T-39, que ainda dorme no seu esquife de vidro. Se o mesmo não tivesse pensado em sua morte, e se eu não me encontrasse por perto, tudo poderia ter saído muito diferente. Os robôs haviam notado a revolta que se esboçava, e estavam preparando sua reação. No último instante consegui desligar a central energética. Se não dispusesse da capacidade telecinética, isso teria sido totalmente impossível. Basta realizar uma pequena reprogramação, e a energia pertencerá a vocês, ou seja, aos humanos. Com isso, a missão que tenho de cumprir aqui estará concluída; trata-se de uma missão que me foi trazida pelo acaso. Talvez ainda nos encontremos. Talvez consigamos conferir à nave de vocês a velocidade que lhes permita atingir o planeta dentro de alguns anos. Talvez... conforme acabo de dizer.” O comandante adiantou-se. Estendeu as mãos para Gucky. — Seus pensamentos são muito humanos, embora você não pertença a nenhuma raça humana — disse muito comovido. — Nós lhe agradecemos. Transmita nossos cumprimentos ao seu povo. Gucky fez um gesto condescendente. A ideia de ser considerado o representante da Terra divertia-o. — Faremos o possível para ajudá-los e sempre estaremos empenhados em que entre nós reine a paz eterna. Mas tenham cuidado para que os robôs continuem sempre a ser seus servos; nunca mais deverão assumir o poder. Antes de retirar-me, ainda falarei com os técnicos e os cientistas. Se vocês não puderem contar com os robôs reprogramados, estarão perdidos. Quanto ao Mestre — um sorriso de triunfo surgiu em seu rosto — bem, ele está liquidado. O acesso às instalações frigoríficas está livre, e um de vocês terá de ocupar o lugar do Mestre. “Deixem que as pessoas adormecidas descansem até que vocês cheguem ao destino. Se algum falso alarma os despertasse, haveria uma catástrofe de proporções inimagináveis. Nestas naves cabem mais de cem mil pessoas adormecidas, mas poucos milhares de pessoas vivas. Como veem, o raciocínio dos robôs também se desenvolve segundo as trilhas humanas. Eles tomaram 72


todas as providências para que apenas alguns milhares de pessoas estivessem vivas de cada vez. E deixaram que vivessem por muito tempo: aquilo que vocês designam como uma geração corresponde a cem anos em nosso planeta. Os padrões de tempo estão bastante deslocados.” Gucky respondeu a mais algumas perguntas, orientou os técnicos sobre as tarefas que teriam de cumprir e despediuse. — Passem bem, amigos, e procurem ser dignos da liberdade reconquistada. Obedeçam ao comandante, mas nunca se submetam às ordens de uma máquina. O homem sempre deve ser o senhor da máquina; no momento em que esta “começa a pensar”, inicia-se um terrível perigo. Mas, embora a máquina saiba ser mais lógica, em longo prazo ela nunca consegue ser mais inteligente que o homem. Passem bem... Diante dos olhos perplexos da assistência, Gucky desmanchou-se como um espírito bondoso que, uma vez cumprida sua missão, retornasse ao reino do invisível. O que ficou para trás foi um novo presente, que garantia um futuro razoável. A porta abriu-se e um vigia entrou. O comandante dirigiu-se ao mesmo e disse: — O setor RC está sujo. Providencie para que o comando de limpeza imediatamente inicie o trabalho. A voz do robô soou com a monotonia de sempre: — A ordem será executada imediatamente. Há outras instruções, senhor? O comandante sorriu. — Sim, há muitas instruções. Você as receberá dos setores competentes. Retire-se. O robô saiu sem dizer uma palavra. *** O cadete Brugg quase morreu de susto, quando uma voz soou às suas costas: — Será que você já se esqueceu de mim, cadete? Gucky exibiu o dente roedor e foi arrastando os pés em direção ao cadete perplexo. Plantou-se à sua frente, apoiando-se sobre o rabo. — Então? — Pensei... — principiou o cadete muito confuso, procurando em vão uma explicação sobre o lugar em que o rato-castor estivera nestas últimas horas. — Pensei...

— Ora esta! Quem não sabe pensar deve deixar isso para outras pessoas — recomendou Gucky em tom paternal. Subitamente sua voz assumiu um tom penetrante: — Onde estará às cenouras, meu filho? O cadete Brugg tinha quase o dobro do tamanho de Gucky, mas preferiu não responder. Girou sobre os calcanhares. Sem dizer uma palavra entregou dali a dez segundos o saco de plástico a Gucky, e este desapareceu tão depressa como viera. Brugg viu-se novamente a sós em seu “reino”, mas não se sentia como um rei. Para evitar novos problemas preparou nada menos de cinquenta quilos das malditas cenouras, pois se fosse necessário pretendia... Enquanto isso, Gucky materializava-se na sala de comando. Ao contrário de Brugg, desta vez Wilmar Lund não se assustou. — Então? — perguntou. — O que houve com essa nave? Afinal, você demorou muito. Quase três horas... — O que são três horas para quem tem de corrigir uma história de dez milênios? — perguntou Gucky por sua vez. Gucky não pretendia informar Lund sobre tudo que vira e soubera. Só Perry Rhodan poderia tomar uma decisão sobre isso. Uma nova civilização poderia representar um apoio importante para o Império Solar, mas também poderia acarretar um perigo. — Essa nave está à deriva. Um belo dia nós teremos de cuidar dela. — Se é que conseguiremos encontrá-la. — Os dados já foram armazenados no computador — disse Gucky, sacudindo o saco de plástico com as cenouras. O comandante Lund esteve a ponto de irritar-se, mas resolveu calar-se. Logo depois, fez o registro no diário de bordo: Data: ...Posição CM-13-HB. Houve um atraso no vôo porque um couraçado arcônida que está à deriva cruzou nossa rota. O exame não trouxe qualquer resultado. Dados relativos à rota do barco arcônida foram armazenados. O próximo salto será realizado dentro de...

Gucky sempre detestou os robôs. E, mais uma vez, fazendo uso de suas “brincadeiras”, esclareceu a situação... Em Xeque-Mate: Universo, título do próximo volume da insuperável série Perry Rhodan, novas emoções o aguardam...

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Nº 82 De

Kurt Mahr Tradução

S. Pereira Magalhães Digitalização

Arlindo San

Nova revisão e formato

W.Q. Moraes

A batalha espacial na zona de superposição — Um novo golpe da sagacidade terrana.

Depois que Perry Rhodan voltou de sua prisão entre os druufs, à situação política do sistema solar se estabilizou. Por motivos ponderáveis, porém, não seria de bom alvitre que os terranos fizessem uma visita oficial aos druufs, que eram adversários declarados do regente de Árcon, muito menos que celebrassem com eles um tratado de aliança. Os responsáveis pela sobrevivência do Império Solar concebem então um plano maravilhoso: enfraquecer substancialmente os dois grandes pretendentes ao domínio das Galáxias, os arcônidas e os druufs. O plano vai necessitar novamente da “grande astúcia cósmica”. E o “velho” Julian Tifflor, conservado jovem pela ducha celular do planeta Peregrino, como outros grandes líderes do Império Solar, não hesita um instante em colocar o Universo em xeque.

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braços e o seguraram. Ouviu então uma voz, que lhe parecia vir de muito longe: — Não podemos perder tempo com piadas bobas. O Julian Tifflor tinha certeza de que jamais vira estes dois senhor vai fazer o que lhe mandarmos. homens antes. Eram jovens, vestidos de maneira mais do Tifflor não teve mais dúvida. Como poderia ele se que simples, cada um deles com uma pistola de raios defender, se, de antemão, eles já o deixaram quase térmicos na mão, apontando-lhe para o peito. desacordado com um soco? Liberou-se dos braços que o Num relance de vista, Tifflor percebeu que, nestas apoiavam e foi para o carro. Com a chave-segredo circunstâncias, não podia fazer outra coisa do que obedecer destravou as portas e o contato para a ignição. Entrou pela aos dois rapazes, por absurdas que fossem suas pretensões. porta de trás e se sentou no segundo banco. Sentiu-se Não estava, porém, com medo. Encontrava-se mais ou melhor quando se sentou. O soco fora forte e exigia menos no centro da metrópole Terrânia. repouso. É verdade que a rua, onde se localizava o restaurante em Um deles colocou-se a seu lado, enquanto o outro, ao que acabara de jantar, não tinha mais movimento. Já era volante, já tinha posto o carro em marcha. Quando a tarde demais para se ver gente andando pelas ruas. Dois pequena tela do interceptador de micro-ondas, que servia carros disparavam nas faixas de alta velocidade, mas já iam para rastrear as pistas de alta velocidade, isto é, para indicar longe, para seus ocupantes poderem notar o que dois se estavam ou não livres, lhe indicou que assaltantes faziam com um senhor a pista estava vazia, o carro disparou uniformizado, à beira da calçada. numa delas, bem no centro da estrada, Personagens principais Neste sentido, a situação era mesmo ficando entregue a si mesmo. O fato de o deste episódio: muito desfavorável para Tifflor. O assaltante ter escolhido uma faixa interna restaurante, a esta hora, também estava convenceu Tifflor de que o objetivo de Coronel Julian Tifflor — quase vazio e certamente ainda levaria Comanda a expedição dos 14 seus algozes não ficava muito próximo. muito tempo até que mais um freguês “desertores”. Tentou fazer perguntas ao homem a saísse. seu lado. Começou com perguntas diretas, A princípio, julgou se tratar de Tenente Lubkov e sargento e quando notou que ele não respondia, Fryberg — Intrépidos militares simples raptores. Queriam apenas passou a soltar indiretas provocativas. terranos. dinheiro e acreditavam que nas Mas o seu companheiro de banco estava imediações de um restaurante de Door-Trabzon — Tem sob seu bem escolado, não abria a boca. Não categoria podiam consegui-lo. No dia comando 20 mil naves arcônidas. respondeu uma palavra, nem mostrou a seguinte, pela manhã, quando se menor reação. espalhasse a notícia do desaparecimento Gucky — O rato-castor mutante Depois disso, passou pela cabeça de do Coronel Julian Tifflor, da Frota que “interpreta” as irradiações. Tifflor a ideia de, com muito jeito, sem Espacial Terrana, o mecanismo que o rapaz reparasse, pegar a arma num John Marshall, Ras Tschubai e gigantesco da polícia se poria em coldre sob seu uniforme. André Noir — Mutantes movimento e os dois coitados, com medo “desertores”. Tentou meter a mão no bolso do das consequências, o haveriam de soltar, casaco, onde havia um furo no caso ele mesmo, até lá, não arranjasse enchimento que ia dar no coldre. outra solução para o caso. De repente, o rapaz deu uma rápida virada, pôs o cano Quando um dos dois lhe perguntou se o belo carro de sua pistola bem rente ao rosto de Tifflor e disse com cinza, estacionado ao longo do meio-fio, lhe pertencia, calma: respondeu bem-humorado: — Coloque as mãos na posição normal, em cima das — É meu, sim. É um grande carro, não? pernas. Mister, sabemos muito bem como os uniformes da Mas o outro assaltante parecia não gostar de conversa Frota Espacial são feitos. Não perca tempo com bobagens. fiada: Tifflor acabou desistindo. Teve, então, tempo para —- Abra-o e entre — disse o segundo rapaz, fazendo o pensar com mais calma em outras coisas, principalmente gesto com a arma na mão. — Sente-se atrás. nas primeiras impressões que os dois rapazes lhe causaram. Tifflor não se intimidou. De pé, diante da porta, olhou Da maneira como agiram, deixaram supor que sabiam para os dois, dizendo: muito bem o que queriam. O posto hierárquico de Tifflor e — Sou coronel, talvez os senhores sejam mais do que suas ponderações de que, no mais tardar, dentro de cinco isto, para me darem ordens. horas toda a polícia secreta estaria em seu encalço, nada Não se preocupou muito com o que os dois iriam fazer. disso os impressionou. Porém um deles deu uns passos à frente e desferiu-lhe uma Tifflor já não tinha muita certeza se eram assaltantes forte pancada na cabeça. Cambaleou e quase caiu. No comuns. Lembrou-se da inquietação que se apoderou de último instante, mãos fortes o pegaram por baixo dos toda a Terra, quando, há poucas semanas, correu o boato de 75

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que Perry Rhodan tinha morrido. Quando Perry Rhodan apareceu de novo em público, demonstrando à Humanidade que não havia nenhum motivo de preocupação, os boatos foram se dissipando, até desaparecerem completamente. Chamou a atenção de todos para não darem ouvidos aos “pescadores de águas turvas”, que aproveitavam toda oportunidade para seus fins egoístas. Será que ele teria caído em mãos de gente assim? O pensamento lhe parecia absurdo. Ele era coronel, alta patente, é verdade, mas nem por isso se podia esperar que Perry Rhodan e o Conselho Supremo Solar haveriam de mudar suas determinações, só pelo fato de os adversários políticos terem tomado como refém um coronel da Frota Espacial. A situação não deixava de ser confusa e desagradável. Já era um pouco tarde para isso, mas Tifflor chegou à conclusão de que, há minutos atrás, quando ainda estava na rodovia de Goshun, devia ter provocado algum “barulho”. Tinha impressão de que, daí para frente, não teria mais oportunidade de dar sinais que avisassem alguém de seu sequestro. *** Julian Tifflor tivera as aventuras mais emocionantes de sua vida nas profundezas da imensidão galáctica. Ainda não havia enfrentado os bandidos da Terra. Imaginava que a viagem que os sequestradores faziam no seu carro particular fosse terminar na solidão da estepe, numa casa em ruínas, constantemente batida pelos ventos. Mas a casa que servia de esconderijo não correspondia muito à imaginação de Tifflor. Parecia mais um abrigo, construído há quatro séculos, para uso de bandos de nômades, geralmente assaltantes. Mas Tifflor sabia muito bem que, há pouco menos de setenta anos, não existia nenhuma casa nesta região. Porém tal fato não alterou esta singular impressão. Quando entrou e se deparou com um moderno hospital, sua surpresa aumentou. Os corredores reluziam de tanta limpeza, e a iluminação era simplesmente exuberante. O salão para onde foi levado estava equipado com os instrumentos mais sofisticados que a psicofísica moderna podia oferecer. A finalidade de todos aqueles aparelhos não passou despercebida a Julian Tifflor. Compreendeu que tinha de agir imediatamente, caso quisesse recuperar a liberdade. Depois de ser submetido ao tratamento em um daqueles aparelhos, seria tarde. Não teria mais o domínio de sua vontade e passaria a fazer tudo que lhe fosse exigido, pois estaria sob forte influência hipnótica. O momento tinha de ser este. E Tifflor mostrou que era um homem de coragem, quando começou a agir, mesmo sabendo que os dois sequestradores não o perdiam de vista. Assim que entraram na casa, ladearam-no. Enquanto transpunham o andar térreo, pararam só uma vez, exatamente para tirar a pistola de raios térmicos que Tifflor trazia sob o casaco. Teve de permiti-lo, sem opor qualquer resistência.

Agora, continuavam andando ao lado dele. Já estavam penetrando no salão repleto de instrumentos psicofísicos. Um deles o apanhou pelo ombro e continuou levando-o através do salão. O outro ficou uns metros para trás, para trancar a porta. Devia ser o momento decisivo. Não interessava a Tifflor que o da frente o olhasse firme e desconfiado. Colocou o pé direito atrás do esquerdo e fez como se tivesse tropeçado, levando o corpo arqueadamente para frente, de tal modo que a mão do sequestrador escapou de seu ombro. Ergueu-se de novo e, aliás, com toda a força que a ira lhe podia fornecer. Não precisou usar o punho. Só o choque violento de seu ombro atirou o rapaz ao chão. Tifflor sabia do que precisava para sua garantia. Pulou para cima dele, levantou-o e o colocou à sua frente, para cobrir-se do ataque do outro, que estava trancando a porta. O homem usado como cobertura estava meio zonzo, mas não inconsciente. Ao perceber o que acontecia, fez um esforço ingente para prejudicar Tifflor. Tentou livrar-se da bem aplicada gravata que o prendia e aplicou uma canelada em seu adversário. Tifflor foi mais ágil. Deu uma virada com ele e, com muita força, chocou sua cabeça contra a base metálica do encefalógrafo. Ouviu-se o estalo da pancada; e o rapaz, ainda preso ao braço de Tifflor, desmaiou. Tifflor recuou um pouco. O braço que sustinha o rapaz inconsciente já lhe estava doendo muito. Olhou para a porta e viu surpreso, que o outro homem, que devia estar ali, havia desaparecido. Olhou em volta, deixou cair o corpo do inconsciente e se agachou entre dois grandes aparelhos, a fim de cobrir-se. Começou então a se preocupar com o paradeiro do outro rapaz. A única coisa que conseguia ouvir era sua respiração ofegante. Fez esforço para se controlar, e passou a respirar pela boca, com a intenção de não provocar ruído. Mas ainda lhe ficaram as fortes pulsações na fonte e as dores do soco. Seu maior desejo era arranjar uma arma. Qualquer uma. Não precisava ser sua pistola de raios térmicos. Uma granada de mão, um fuzil, ou qualquer outra coisa. Devagar, para não fazer nenhum ruído, conseguiu se virar. O rapaz inconsciente estava a dois metros dele e a mais dois metros se via a arma que deixara cair. Quatro metros, portanto. Pôs-se em movimento. Tinha que sair da proteção daqueles aparelhos, quase tão altos como ele, e passar ao lado do rapaz desmaiado. Fez tudo isto com cuidado, olhando sempre em volta. Onde estaria o segundo homem? Julian Tifflor não conseguiu saber, nem teve mais tempo para isto. Quando já estava quase pegando a arma, bastando-lhe apenas esticar o braço, sentiu um impacto violento, que fez seu corpo estremecer de dores lancinantes. Ainda teve tempo de reconhecer que aquele tipo de dor só podia provir de raios portadores de forte descarga elétrica. Logo depois perdeu os sentidos. Despencara num abismo tenebroso e profundo. *** 76


De repente, em plenas trevas, surgiu uma luz clara, porém, sem contornos visíveis. Não era real. Tinha dores terríveis nos olhos. Procurou mover as pálpebras, constatando, no entanto, que os olhos estavam fechados. Não era, pois, uma luz comum. Também não vinha de fora. Ouviu então uma voz. Porém, não se via o dono da tal voz. — Julian Tifflor — dizia — preste bem atenção! Falava ridiculamente baixo e vagaroso. Era enorme a vontade que Tifflor sentia de rir. Mas antes que começasse a rir, a voz continuou a falar. E quanto mais falava, mais fascinado ficava com a solene lentidão e o tom cavernoso da voz. E não podia fazer outra coisa a não ser ouvir, ouvir... Sugava as palavras como uma esponja absorve a água e jamais se esqueceria de uma só delas. E além de tudo, o que a voz dizia era extremamente desconcertante, para não dizer sensacional... *** Com a naturalidade costumeira, Reginald Bell entrou no salão, de onde Perry Rhodan dirigia os destinos do Império Solar, desde sua volta à Terra. Da mesa à qual Rhodan estava sentado, descortinava-se o belo panorama de Terrânia. Seu gabinete estava no último andar do edifício da administração. Rhodan fez questão de instalar aí seu local de trabalho. — Tudo em ordem — explicou Reginald Bell, depois que a porta se fechou atrás dele. Estava certo de que Rhodan sabia de que estava falando. Rhodan interrompeu o que estava fazendo. — O que ele disse? Bell sorriu malicioso: — Um dos rapazes ele já nocauteou, quando ainda não sabia de que se tratava. Também o outro não teve melhor sorte. Ambos estão recebendo tratamento. Creio, porém, que você compreende como Tifflor deve se sentir, ou devia se sentir. Perry Rhodan concordou. — Que dizem os guardas de Mercant a tudo isto? Suspeitam de alguém? A resposta de Reginald Bell foi um tanto evasiva: — Viram alguns vultos suspeitos que seguiam o carro de Tifflor um pouco além da periferia da cidade, não, porém, até o posto psicofísico. Mercant anotou estes poucos em sua lista particular. Provavelmente se trata de espiões galácticos. Não sabem o que está acontecendo. Mas quando Tifflor entregar os pontos haverão de compreender. Parece assim que tudo está em ordem. Bell chegou mais perto e sentou-se numa cômoda poltrona que ali estava para as visitas. — Ainda não sei... — disse pensativo. — O que se pode esperar deste negócio? Parece que Rhodan não ouviu a pergunta. Seu olhar se perdia na amplidão do panorama. O sol claro e pálido de inverno estava a quase dois palmos do horizonte. Eram nove horas da manhã. Há meia hora, ainda havia geada nos

telhados. O ano estava chegando ao fim. — Muita coisa — respondeu finalmente Perry Rhodan. — Um sensível enfraquecimento do potencial militar de nossos dois adversários: os druufs e os arcônidas. Reginald Bell pigarreou: — Lembro-me de que ainda há dois meses tínhamos a intenção de atacar diretamente Árcon. Tudo já estava pronto. Um mero incidente nos fez desistir de levar a cabo nosso plano. Por que não o realizamos agora? Rhodan fitou longamente seu amigo. — O que você chama de pequeno incidente — disse Rhodan bem-humorado — por um triz não custou a vida de nós dois e de muitos outros. Você esquece as coisas assim tão depressa? Você se recorda do quadro horroroso quando todo o planeta Fera Cinzenta parecia explodir aos nossos pés? Bell concordou. — Bom, para nós foi sério. Mas, tendo-se em mira o grande conjunto da política galáctica, foi de fato um mero incidente. Conseguimos sobreviver a esta aventura e podemos um dia retomar o plano, não é verdade? A resposta de Rhodan não tardou — Não, não podemos não — fez uma pausa, acendendo um cigarro. Ficou pensativo, olhando as volutas da fumaça. — Temos que compreender que nossos pés ainda não têm o tamanho suficiente para calçar as botas arcônidas. Bell se inclinou para frente. — É uma bela comparação, mas não creio que corresponda à realidade. Rhodan apontou para uma pilha de papel plastificado, que estava sobre sua mesa, dizendo: — Não me admiro de seu ponto de vista, pois você ainda não leu os resultados dos cálculos da positrônica de Vênus. Bell se levantou. — Não, realmente ainda não li. Não sabia que Atlan tinha trabalhado tão depressa. Rhodan apenas sorriu para seu amigo. — Foi gente de sua raça que construiu a positrônica em Vênus, há mais de dez mil anos, e não há ninguém que lide com ela melhor do que ele. Bell sabia disso. — Ah! Foi por isso então que você o mandou para lá. E o que diz a maravilhosa positrônica? — Acabei de lhe dizer há pouco: Nossos pés ainda não têm o tamanho suficiente para calçar as botas arcônidas. Sem dizer uma palavra, Bell foi pegando nas folhas. Tinham o tamanho das folhas de papel de carta, divididas em vinte colunas estreitas por linhas verticais, formadas por pontinhos fracos. Estas colunas estavam repletas de pontos, cruzes, traços alongados e pequenos círculos, sinais estes que pertenciam ao código dos computadores arcônidas. Era mister muita prática para ler diretamente estes sinais, sem uso da transcrição positrônica. Bell leu apenas algumas páginas, deixando o resto intacto sobre a mesa. Durante esta rápida leitura, seus traços fisionômicos 77


foram se fechando. Seus olhos se fixaram na visão panorâmica da cidade, como se um pensamento muito sério o preocupasse. — O Império Arcônida está em pé de guerra — repetia ele mais para si mesmo o que havia lido. — O regente robotizado acabara de mobilizar suas últimas reservas para enfrentar o perigo iminente dos druufs. Este robô que dirige o Grande Império não sabe, nem pode saber que o perigo dos druufs é uma coisa muito passageira. A zona de superposição, em que o nosso Universo e o deles se encontram, se dissolve e caminha para o interior da Via Láctea. “Com o desaparecimento desta zona de superposição, não haverá mais nenhuma possibilidade natural de se passar do espaço de Einstein para o plano espacial dos druufs, ou vice-versa. Isto quer dizer então que, a partir daí, os druufs não representarão mais nenhum perigo para nós.” Olhou para o lado e mediu a expressão fisionômica de Rhodan. — Não li mais do que isto, mas acho que as conclusões que daí podemos tirar são mais do que cristalinas, não é verdade? — Só lhe posso dar uma resposta, depois de saber o que realmente você pensa. — O regente robotizado de Árcon — recomeçou Bell — mobilizou todo seu império. Isto significa primeiramente que ele reuniu oitenta mil belonaves. O robô não está em condições de compreender o fenômeno da existência dos diversos planos temporais. Ele se detém apenas no que vê de concreto, isto é, nas espaçonaves dos druufs que, de vez em quando, penetram em nosso Universo, e na zona de superposição, por onde sua frota chega até os druufs. Quando os druufs não derem mais sinal de si, pelo fato de haver desaparecido a zona de superposição, o regente robotizado vai pensar que isto é mais um truque e vai continuar na expectativa de um assalto a qualquer momento, crente no reaparecimento dos druufs. Bell fez uma pausa, passando a mão nervosa por entre os cabelos. Parecia muito abatido. Depois continuou: — Quem quer que ataque Árcon, agora ou em futuro próximo, terá de enfrentar uma frota de oitenta mil cosmonaves. Não estão incluídas aí as novas construções que saem diariamente dos estaleiros. Quando se considera que a frota terrana não passa de poucos milhares de naves, então... sim, então a gente tem de chegar à conclusão de que não é hora ainda de mexermos nesta casa de marimbondos. Rhodan não disse nada. Reginald Bell, esperando por uma resposta, perguntou pouco depois: — Era isto que você estava pensando, não é verdade, Perry? — Sim, foi isto mesmo. Estamos ainda muito fracos. Se calcularmos apenas pelo número das espaçonaves, sentimos que o regente robotizado mantém uma supremacia arrasadora, com uma proporção de vinte para um. Isto, porém, não diminui o moral de nossas forças e ninguém duvida de que o espírito de luta de nossa gente é muito

superior ao de todas as raças arcônidas. É um fato indiscutível. Mas, apesar deste espírito de luta destemido, ficaríamos em pior situação do que Frederico, o Grande, na Guerra dos Sete Anos. E... não podemos contar com o milagre que outrora salvou o velho Frederico da ruína total. Bell deu uma volta e parou diante da janela. — Você acha que Tifflor vai nos conseguir estas forças aliadas? — Tifflor não passa de uma pedrinha neste grande mosaico. Daqui para frente a Terra vai se limitar a pequenos golpes. Somente passo a passo é que conseguiremos chegar ao nosso objetivo. Como os ratos no queijo, temos que continuar beliscando o Império Arcônida. Até que um dia, os ratos roerão o queijo todo. — Não estou gostando desta comparação — disse Bell — mas sei que você está certo. Voltou para a mesa de Rhodan e pegou as outras folhas que ainda não tinha lido.

2 Franklin Lubkov era tenente da Frota Espacial Terrana, tinha vinte e sete anos e estava com o queixo inchado, e agora, depois de ter executado a parte mais desagradável de sua missão, mostrava o maior respeito por seu superior. Quando Tifflor lhe ordenou que tirasse a mão do queixo e exibisse um semblante mais alegre, obedeceu prontamente. — O senhor sabe isto dói bastante. Nunca pensei que o senhor tivesse um soco tão firme assim. Tifflor não deu maior importância a esta afirmação. — Diga-me o que você sabe sobre todo este negócio. Lubkov fez um gesto afirmativo. — Não é tanta coisa assim. Deram a mim e ao sargento Fryberg a incumbência de apanhá-lo na noite do dia dez de dezembro, após seu jantar no Restaurante Tai Wang e de conduzi-lo para uma casa, cuja localização nos foi dada com todos os detalhes. Instruíram-nos ainda que isto tinha que ser feito à maneira dos assaltos comuns. Camuflaramnos os traços fisionômicos e nos cederam roupas velhas, dizendo sempre que era muito importante que tudo desse a impressão de verdadeiro. — Sim — interrompeu Tifflor — mas quem foi que lhes deu estas ordens ou instruções? Lubkov sorriu desajeitado: — Marechal Mercant, senhor, ele pessoalmente e com muitos detalhes. Tifflor soprou por entre os dentes. — Quer dizer, então, que não lhes restou nada, a não ser obedecer, não? Bem, mas depois que vocês me trouxeram para cá, o que devia acontecer? — Isto não seria mais nossa missão, senhor — respondeu Lubkov. — Devíamos colocá-lo lá sobre a mesa, 78


amarrá-lo bem e depois desaparecer. O Marechal Mercant nos dissera que viria outra pessoa para cuidar do senhor. — E nunca lhes passou pela cabeça a ideia de que o que vocês estavam fazendo era uma coisa ilegal e, sob certas circunstâncias, poderiam prejudicar o Império Solar? — Não, senhor. Para isto teríamos de supor que o Marechal Mercant estivesse superembriagado. Além disso, enquanto ele nos dava as instruções, estava presente o Marechal Freyt. Eu, pelo menos, estava certo do que fazia. Tifflor se virou para o lado e começou a andar de um canto para o outro. — E como vai continuar o negócio? — perguntou ele depois de algum tempo de reflexão. — Não sei, senhor. Disseram-me que receberíamos novas instruções do senhor mesmo. — Onde estão os outros? — Lá embaixo, no porão, senhor, esperando pela ordem de partida. Tifflor se virou para ele: — Vá lá para baixo e diga-lhes que dentro de uma hora e meia estará tudo pronto. Partimos às vinte e quarenta. O Tenente Lubkov fez continência e foi embora. Agora, já de uniforme e sem as pinturas de camuflagem, da noite anterior, em frente ao Restaurante Tai Wang, junto com o sargento Fryberg, ele dava uma impressão muito mais simpática. Julian Tifflor sentou-se na beira da cama, onde durante muitas horas recebera o tratamento psicofísico. Só olhar para a cama lhe despertava recordações desagradáveis, mas no quarto todo não havia uma cadeira. Tenente Lubkov, sargento Fryberg e mais doze homens seriam a tripulação com a qual, dentro de hora e meia, obedecendo a ordens superiores, teria de partir para a aventura mais arriscada de sua longa e gloriosa carreira. Sabia como devia agir. Estava a par de sua situação e da de sua gente. Por estas horas, em Terrânia, os jornais deviam estar circulando com notícias sensacionais sobre quatorze homens que, sob o comando de um alto oficial da Frota Espacial — homem este conhecido em toda a Terra — haviam se desgarrado da Humanidade e dos ideais políticos de Perry Rhodan, tornando-se traidores. Acreditava-se, ou melhor, os jornais acreditavam que os desertores já haviam se apossado de uma espaçonave para deixar a Terra. Apesar disso, estavam sendo procurados por todos os cantos da Terra. O Coronel Tifflor, portanto, não ignorava que qualquer policial terrano tinha o direito de atirar nele, assim que o reconhecesse. Ele e os quatorze lá embaixo no porão já estavam automaticamente condenados ao exílio. Tudo foi tramado com muita inteligência. Quando os arcônidas pusessem sua gente nas pegadas de Lubkov, chegariam certamente à seguinte conclusão: De início eram somente quatorze homens que pretendiam renunciar à cidadania terrana: Lubkov, Fryberg e doze outros. Precisavam de um líder e escolheram Tifflor. É claro que não passaria pela cabeça de Tifflor trair seu mundo, a Terra

e o Império Solar. Para este fim, Lubkov e sua gente teriam de “condicioná-lo”. Sequestraram-no e o arrastaram bem para fora da cidade e o “prepararam” de tal maneira, que não lhe restava outra coisa senão aderir às ideias de Lubkov. Quando, alguns minutos após a partida, a casa fosse pelos ares, certamente haveriam de sobrar alguns fragmentos da instalação que seriam suficientes para convencer os melhores espiões de que Lubkov possuía um aparelhamento capaz de transformar o homem mais fiel num reles traidor. E tudo estava caminhando conforme o previsto. Julian Tifflor estava realmente “condicionado”. Através de meios mecano-sugestivos, tinham-lhe inculcado todo o plano, que era a base do empreendimento. Isto levou muitas horas. Mas agora, cada detalhe do plano repousava tão firme na cabeça de Tifflor, como se desde sua infância não tivesse pensado em outra coisa. De acordo com a própria opinião de Tifflor, o plano era tão perfeito que nada nele podia dar errado. Mesmo assim, nem tudo estava ao seu gosto, mas, o exemplar oficial terrano estava habituado a obedecer. Compreendia que as coisas tinham de ser feitas assim e não de outra maneira, para se atingir um grau de quase perfeição. Sentia falta apenas de algumas palavras amigas de algum dos responsáveis, que haviam colocado em seus ombros uma missão tão árdua. Fazia mais de sessenta anos que Tifflor servia na Frota Espacial. Pertencia ao número dos privilegiados que haviam recebido, no planeta Peregrino, a ducha celular conservadora da juventude. Estava agora com oitenta anos, mas sua aparência, sua elasticidade corporal e sua agilidade mental eram as de um jovem de trinta anos. O processo de envelhecimento parou no ponto em que recebeu a primeira ducha celular. Com oitenta anos, era um homem de larga experiência. Mas apesar de toda sua vivência, gostaria que alguém lhe dissesse amigavelmente: “Não se preocupe, Tiff, nós estamos acompanhando você!” Deitou-se de costas e acendeu um cigarro. Pensativo, soprava a fumaça, olhando para o teto. Ouviu de repente uma voz estranha. Aliás, não era tão estranha assim. Já a conhecia e sabia de quem era. Surpreso, levantou-se e olhou em volta, mas não havia ninguém no quarto e a voz também não vinha de nenhum alto-falante. Era Perry Rhodan quem estava “falando” e suas palavras ressoavam dentro do cérebro de Tiff. Deitou de novo e ficou prestando atenção. — Você necessita de uma explicação, Tifflor — “disselhe” Rhodan em tom amigável. — Sei disso e faço questão de transmiti-la. Não estranhe o meio de comunicação. Você agora passa por um proscrito e eu não posso procurá-lo diretamente. Esta mensagem foi gravada em fita e lhe está sendo transmitida por meio de mecano-sugestão. É inerente a este processo um comando pós-hipnótico, que provoca a recepção da mensagem só algum tempo depois. Suponho 79


que, em volta de você, agora, reine plena calma, a calma que precede sempre à tempestade. Portanto, você tem tempo para me ouvir. “A Terra se encontra numa enrascada, num beco sem saída, para lhe falar bem claramente, Tifflor. Vivemos em paz internamente. Mas Árcon, de armas até nos dentes, está de prontidão, e quando o regente robotizado descobrir qual a posição da Terra, vai nos acontecer o mesmo que aconteceu com o planeta Fera Cinzenta. Com os druufs o perigo é mínimo: o caminho para nosso Universo logo lhes será fechado. A zona de superposição desaparece e muda para outro lugar. Aí, então, o robô vai recomeçar a se preocupar conosco. Temos que aproveitar toda oportunidade que nos possa fazer ganhar mais tempo e que nos possibilite prejudicar os interesses de Árcon”. “Uma oportunidade destas, aliás, magnífica, está agora diante de nós, enquanto os druufs não ficarem separados de nosso Universo”. “Sobre o plano em si não lhe preciso explicar nada, Tifflor. Você o conhece nos mínimos detalhes. Pode confiar plenamente nos homens que estão com você. Pertencem à elite da Terra, mesmo que ainda não tenha visto a maior parte deles. Todos estão „condicionados‟. Caso o plano fracasse e eles caiam nas mãos dos inimigos, não poderão fazer nada que prejudique a Terra, como você também, Tifflor. Tivemos que tomar todas estas providências, pois estamos diante de um Império superarmado. O ser coletivo do planeta Peregrino, o único que nos poderia ajudar, não se manifesta. Não podemos obrigá-lo a vir em nosso auxílio. “Portanto, Tifflor, não considere sua missão como qualquer patrulha de emergência. Do seu sucesso depende muito do futuro da Terra. Por isto, vamos acompanhá-lo constantemente. Dois encouraçados estarão sempre por perto. Você levará o sinalizador telepático que permitirá aos nossos mutantes localizá-lo prontamente até uma distância de dois anos-luz. Fique sabendo que você e os seus não se perderão”. “Bem, é o que lhe queria dizer. Desejo-lhe boa viagem, meu jovem. Volte logo e com muita saúde.” A voz silenciou. Julian Tifflor se levantou, dizendo, perdido em seus pensamentos: — Muito obrigado, Sir. Esta frase foi supérflua. Perry Rhodan não estava por perto. Não poderia ouvi-lo. Tifflor, de um momento para o outro, começou a se sentir melhor. Sorriu e se encaminhou para o porão, para conversar com os quatorzes homens, que com ele rumariam em direção aos druufs. *** Além do Tenente Lubkov e do sargento Fryberg, que Tiff já conhecia, encontravam-se, entre os quatorzes, mais quatro homens conhecidos: John Marshall, o telepata; Ras Tschubai, o teleportador; André Noir, o hipno e Tama Yokida, o telecineta. Julian Tifflor estava admirado. Perry Rhodan havia privado o Exército de Mutantes, durante o

período da missão secreta, dos seus elementos mais competentes. Marshall, Tschubai, Noir e Yokida representavam uma força tal que podia enfrentar um regimento inteiro. Foi um grande motivo de tranquilidade para Tifflor. Mutantes eram auxiliares extremamente valiosos, mormente para esta situação, pois tanto os arcônidas como os druufs não estavam muito “avançados” neste importante setor dos poderes paramecânicos e parapsicológicos. Das dezenove e trinta até quase vinte horas, Tifflor revisou com os homens todo o plano. Fez muita questão de frisar que tudo tinha sido minuciosamente preparado e que não havia motivo de temor, enquanto não estivessem ainda na zona de superposição, que distava da Terra mais de seis mil anos-luz. Esta explicação tinha que ser prestada, pois o primeiro ponto do plano não tratava de outra coisa, a não ser do sequestro de uma espaçonave dos estaleiros de reparo da Frota Espacial. *** Às vinte horas, o sargento Cooper revezou o sentinela que montava guarda diante do portão de entrada para os estaleiros onde estava o cruzador espacial Infant. Geralmente havia só um vigia para todo o estaleiro. Não era mesmo necessário ficar vigiando espaçonaves que se achavam em reparo. Já o fato de necessitarem de conserto, impedia que fossem roubadas. O caso da espaçonave Infant era diferente. Os consertos ficaram prontos hoje à tarde, mas não deu mais tempo de levá-la para o espaçoporto. Foi por isto que recebeu mais um vigia, além do vigia geral dos estaleiros. O sargento Cooper não estava muito conformado com o fato de ter sido ele o sorteado para passar duas horas de uma noite tremendamente fria de pré-inverno, ao lado de uma nave, andando de um canto para o outro. Além disso, a Infant era uma nave velha, esférica, com um diâmetro de dezenove metros. Naves de dimensões tão reduzidas não existiam mais, só por aí se podia ver como era antiquada. Seu mecanismo de propulsão era fraco, produzindo uma aceleração de apenas 17 mil unidades, enquanto as modernas apresentavam uma aceleração normal de 50 mil. A Infant necessitava de meia hora para elevar sua velocidade até a diferença habitual de 0,2% da velocidade da luz. E, conforme a opinião do sargento Cooper, nada disso justificava colocar um guarda especial só para a Infant. Os vinte passos que dava de um lado para outro, constantemente, para não sentir o frio, pareciam ter a cadência do protesto. Depois de muito tempo, chegou à conclusão de que dava os vinte passos exatamente em quinze segundos. Portanto, cada dois movimentos de ida e volta faziam exatamente um minuto. E assim começou a contar os minutos. De agora até o final de sua vigília, faltavam-lhe ainda setenta e três minutos. Duncan viria então rendê-lo. “Coitado do pobre Duncan! É um rapaz da Flórida e vai estranhar muito o frio”, pensou o sargento. 80


De repente, Cooper interrompeu suas passadas. Ouvira um ruído como se fosse um carro pesado que se aproximava. Este estranho ruído vinha da entrada principal, estranho porque a gente devia notar os faróis do carro. Mas não se via nada. Cooper saiu da sombra da Infant e aguardou. Fosse qual fosse o carro, o oficial de sentinela o teria deixado passar e Cooper não precisava se preocupar com isto. Finalmente, surgiu da escuridão o tal carro, parando a alguns metros de Cooper. A carroceria estava encoberta por uma lona e Cooper não pôde ver o quê ou quem se encontrava lá dentro. Alguém saltou da cabina do motorista e veio na direção de Cooper, que conseguiu ver os galões da hierarquia militar. Não deu para distinguir direito qual a patente, mas não havia dúvida de que era alguém do estadomaior. Cooper fez a continência. Para isso, tirou a mão da cintura onde estava o revólver e a apoiou na aba do capacete. Nesse meio tempo, o oficial chegara mais perto, de modo que Cooper pôde ver nitidamente sua patente. Era um coronel, e Cooper sentiu mais respeito ainda. Por fim, reconheceu Julian Tifflor, e num estalo de sua memória se lembrou de ter ouvido, de manhã, qualquer coisa absurda sobre Tifflor. O que seria mesmo? Cooper precisava de alguns segundos para se recordar. Mas Tifflor não lhe deixou este tempo todo. Cooper não representava nenhum perigo para ele, enquanto mantivesse a mão na posição de continência. Sem que ele percebesse, aplicou-lhe um tremendo soco no queixo, com tanta força, que não precisou repetir. Cambaleando, Cooper rolou no chão. O fuzil lhe escapou dos ombros, caindo a seu lado. De repente o Tenente Lubkov se aproximou. Tifflor viu seus dentes reluzirem no escuro. — Peço-lhe desculpas, senhor. Só queria ver de perto como se dá um soco destes. Vejo agora que é melhor assistir do que receber. Tifflor apenas sorriu. — É, houve muita pancadaria nas últimas horas e infelizmente sempre contra os inocentes. Este pobre homem não se lembrará de mim com muito amor, quando voltar a si. — É este o objetivo do empreendimento — disse Lubkov. Voltou ao carro, batendo palmas perto da lona que o cobria. — Desçam todos — disse. — Já chegamos ao nosso destino. Depois disso, Tifflor não ficou mais parado ao lado de Lubkov. Já havia aberto uma pequena escotilha para a tripulação e ligado uma lâmpada de emergência, para mostrar o caminho a Lubkov e aos outros. “Para Lubkov e para os outros”, pensava Tifflor, “mas aposto que Tschubai já está há muito na sala de comando.” O embarque não demorou mais do que dez minutos. Julian Tifflor foi o último a entrar. Antes, ergueu o sargento desmaiado e o levou nos ombros, colocando-o na cabina do

carro, descendo depois um pouco mais com o carro, até ao portão de entrada. Voltou a pé. Pensativo, passou pela escotilha, travando-a por dentro. Entrou num velho elevador antigravitacional que o levou para o convés do meio. A segunda parte do plano se encerrava aí com êxito. Os “amotinados” estavam de posse da espaçonave. Iniciava-se o caminho para os druufs! *** A tela estava ligada, havia o clarão branco, mas não se via ninguém, pois quem estava falando não era nenhum ser que precisasse ser visto. A voz mecânica era de um timbre profundo, forte e com as mais refinadas modulações. Ninguém, que de antemão não soubesse que a voz pertencia ao regente robotizado de Árcon, chegaria a ideia de que estava falando com um interlocutor não orgânico. Era um dos traços característicos da política galáctica o fato de o regente robotizado de Árcon estar sempre disposto a receber uma mensagem de Perry Rhodan, embora Árcon e a Terra estivessem em franca hostilidade e se digladiassem, quando havia oportunidade para isto. Mesmo esta hostilidade era sui generis. Não excluía, por exemplo, que, em algum ponto da Galáxia, naves terranas e arcônidas se aliassem contra um inimigo comum, enquanto que, simultaneamente, a alguns milhares de anos-luz, uma frota robotizada dos arcônidas bombardeasse uma base terrana. Quanto à troca de mensagens, porém, Perry Rhodan sabia muito bem a verdadeira causa da solicitude do regente: mensagens eram irradiadas pelo telecomunicador. Acontece, porém, que as conversas pelo “telecom” proporcionavam a oportunidade de se determinar a localização do transmissor, e a coisa que o regente robotizado mais desejava no momento era determinar a posição galáctica da Terra. É claro que Rhodan já havia tomado suas providências para que, ao menos por este veículo, Árcon nada conseguisse. Os diálogos, que mantinha com o regente, passavam por várias estações de relê, antes de serem transmitidos para Árcon. Partindo da Terra, a mensagem era transmitida por raios direcionais para uma estação a dois mil anos-luz de distância. O feixe de ondas do “telecom” tinha um diâmetro de pouco menos de quarenta metros. A cobertura do feixe de ondas atingia cerca de três décimos milionésimos de segundo. Isto queria dizer que, numa distância de dois mil anos-luz, o feixe de quarenta metros abria-se para trinta mil quilômetros e passava a possuir um diâmetro por poucos por centos maior que o feixe do planeta onde se encontrava a estação do relê repetidor. O ponto capital em tudo isto, era que um observador inimigo, que estivesse captando uma mensagem assim transmitida, e, aliás, neste caso com muita facilidade, somente poderia localizar o transmissor se ele mesmo, casualmente, estivesse dentro deste raio direcional. A possibilidade de isto acontecer era tão reduzida que nem 81


precisava ser levada em consideração. A Terra estava, pois, tranquila. A transmissão do diálogo de uma estação de relê para outra, seguia o mesmo princípio. Além disso, para cada nova irradiação, mudavase a ordem destas estações de relê. O regente robotizado não tinha, portanto, nenhuma chance de descobrir, por esta via, a localização da Terra. O próprio regente emitia suas mensagens por um transmissor comum multidirecional, pois não poderia saber em que direção usar os raios. A conversa, que Perry Rhodan tivera esta tarde do dia 11 de dezembro com o regente robotizado, fora curta, mas de conteúdo importante. Rhodan dizia: — Encontro-me numa situação bem desagradável. Um oficial de alta patente da minha frota revelou-se, de repente, um traidor e mancomunado com um punhado de descontentes deixou a Terra numa nave sequestrada. Não sabemos até agora para onde foram. Eu lhe seria grato se me avisasse tão logo ele se aproxime de uma de suas naves. Não que estes homens tenham muita importância para nós, pois não possuem nenhuma informação que nos possa prejudicar. Trata-se apenas de um princípio básico de nossa disciplina terrana: um desertor tem que ser punido. Reconhecendo as circunstâncias, o regente prometeu auxílio. Já que sua voz, apesar de toda sua variada modulação, não deixava perceber nenhum sentimento, que realmente não possuía não se poderia saber suas impressões sobre as alegações de Rhodan. Não se podia dizer que um oficial de alta patente era um homem sem importância. O regente de Árcon sabia muito bem que este desertor se caísse em suas mãos, lhe seria um elemento muito útil, lhe prestaria enormes serviços. Por este motivo, pediu a Rhodan que lhe desse maiores informações sobre os quinze desertores. Depois de lhe satisfazer este pedido, Rhodan acrescentou: — Acho que lhe posso dar outra informação para lhe facilitar a compreensão de toda a situação. Há poucas semanas, tive uma longa conversa com o desertor. Este oficial graduado da Frota Terrana era de opinião de que a melhor coisa que a Terra poderia fazer era se aliar aos druufs. Parecia estar obcecado por esta aliança. Presumo, pois, que ele procurará penetrar no Universo dos druufs. Todo este diálogo foi feito em arcônida. O regente agradeceu as informações e se despediu com a fórmula de sempre. Naturalmente, logo após este diálogo, o regente deve ter ativado o setor de lógica, para analisar profundamente as notícias que recebera. Como supunha, constatou-se a possibilidade de que a mensagem de Perry Rhodan não passasse de um truque. Mas, de qualquer maneira, tinha que aceitar também a hipótese da veracidade daquelas palavras. Poderia acontecer mesmo que um oficial superior chegasse a esta conclusão e desertasse. As duas alternativas se equilibravam. O melhor que podia e devia fazer era mandar aprisionar a espaçonave dos desertores. Assim não incorreria em nenhum erro.

A frota arcônida de bloqueio estava nas proximidades da zona de superposição que os terranos tinham de atravessar para chegar até os druufs. Estavam lá reunidas trinta mil espaçonaves de Árcon. Podia-se mandar para o local mais dez mil unidades e destacar vinte mil delas para procurar a nave dos desertores. *** Quando Franklin Lubkov chegou com os outros “desertores” ao posto de comando, Ras Tschubai já lá estava realmente. Tinha o dom de transportar a si mesmo ou outros, que se firmassem bem nele, a qualquer distância, com as forças de sua mente. Esta força surpreendente, que possibilitava este transporte miraculoso, residia numa parte especial de seu cérebro de mutante e estava permanentemente à sua disposição. A única coisa indispensável para este “pulo”, como dizia Tschubai, considerando seu dom maravilhoso, eram certo grau de concentração e uma ideia aproximada do objetivo a ser atingido. Aliás, este incompreensível dom da natureza estava aliado a uma segurança fantástica. Se o salto de Ras Tschubai encontrasse pela frente uma matéria impenetrável, entrava então em ação uma velha lei da física de que, onde está um corpo, outro não pode ficar simultaneamente. Neste caso, Tschubai se materializava de novo no mesmo local de onde havia saltado. Fora disso, Ras Tschubai era um cosmonauta muito experimentado. Quando, alguns minutos depois, o Coronel Tifflor chegou ao posto de comando, as turbinas de propulsão já estavam pré-aquecidas e prontas para partir. Quando notassem a partida de uma espaçonave diretamente dos estaleiros de reparo, Tifflor sabia que haveria uma grande confusão no espaçoporto. O piso do estaleiro não fora construído para decolagem de espaçonaves. O revestimento plástico haveria de rebentar sob a forte pressão das turbinas e mesmo derreter completamente. Já do outro lado do espaçoporto, haveriam de presenciar uma enorme fogueira. Julian Tifflor estava informado de que nos serviços de rotina do espaçoporto, esta noite, haviam sido tomadas certas providências, que na hora da decolagem da Infant, impediriam os caças espaciais de, como seria seu dever, sair imediatamente no encalço dos desertores. Portanto, a Infant sairia com uma boa vantagem de tempo, que naturalmente não poderia ser grande demais, para não dar na vista. Era importante aproveitar esta pequena dianteira para se obter um máximo de segurança. O coronel distribuiu o pessoal em seus locais de trabalho. Todos estavam preparados para sua função. O Tenente Lubkov fazia o papel de primeiro oficial e copiloto. O sargento Fryberg controlava com mais dois outros as instalações de rádio, rastreamento e orientação. Não deixariam de perceber qualquer caça espacial que a Terra lhes mandasse no encalço. Os mutantes se mantinham calmos, afastados. Em caso de extrema urgência, Ras 82


Tschubai se teleportaria para a nave que os estivesse perseguindo, causando nela tanta confusão até que a Infant ficasse em plena segurança. Seria tudo questão de quinze minutos. Após este tempo, a Infant atingiria a velocidade para entrar em transição, isto é, para penetrar no hiperespaço. Se conseguisse superar estes quinze minutos críticos, tudo estaria salvo. Enquanto sua mão repousava na alavanca principal, percebeu que tudo aquilo não passava de um sofisma. De agora até sua volta à Terra, não teriam realmente um segundo de garantia. A perseguição por parte dos caças espaciais terranos não passaria de uma simples brincadeira de pique, em comparação com o que os arcônidas lhes estavam preparando, quando a Infant fosse aprisionada. Julian Tifflor consultou o cronômetro. Que importância teria se ater rigorosamente a um horário? Podia muito bem decolar às vinte e duas e quatorze ou às vinte e duas e quinze, dava na mesma. Para o cálculo da rota propriamente dita, teria muito tempo no espaço lá fora. Comprimiu o pequeno botão que encimava a alavancageral e ouviu a sirene que indicava a partida. Fechaduras rangiam durante o controle e quando as sirenes silenciaram, parecia que todos tinham a respiração presa. Pela última vez, Tifflor examinou as luzes de controle do painel. Tudo em ordem. De que lhe interessava saber se tudo estava em ordem, se um míssil atômico de um caça espacial o atingisse ou um raio de desintegração de uma belonave arcônida viesse lhes dar as boas-vindas? A Infant datava dos primórdios da Frota Espacial Terrana e seu envoltório de proteção não era dos mais modernos. Puxou então a alavanca central. Não lhe interessava o que iria acontecer com o revestimento plástico do chão do estaleiro. Que rebentasse e voasse pelos ares em milhares de pedaços. Nas telas tremulava toda sorte de faíscas. As turbinas de propulsão cumpriam seu dever. Mas na cabina de comando não se percebia nada, pois os absorventes antigravitacionais funcionavam a contento. A Infant estava a caminho.

3 Não havia duvida de que o destino tinha conjurado contra Julian Tifflor e sua gente. A Infant necessitou de três transições para vencer o espaço de seis mil anos-luz, até a zona de superposição nas proximidades do sistema Mirta. E quando a nave terrana emergia pela terceira vez do hiperespaço, a menos de vinte mil quilômetros dela havia uma enorme espaçonave, provavelmente de origem arcônida. A Infant mantinha pequena velocidade. A nave

arcônida determinou em poucos segundos sua posição, disparou um tiro de advertência, exigindo que parasse. Um pelotão de apresamento viria a bordo. Tifflor protestou energicamente contra este tipo de tratamento, sem resultado, porém. A nave arcônida repetiu a advertência, com o mesmo tom de indiferença. E como a velha Infant não tinha a menor chance para enfrentar a moderna nave de oitocentos metros de diâmetro, Julian acabou cedendo e parou sua nave, isto é, adaptou sua velocidade à da nave arcônida. Com isto, estavam entrando numa situação que, para a missão ter sucesso, devia ser evitada a todo custo. Os arcônidas deviam saber que uma nave terrana com desertores estava a caminho dos druufs. Mas não podiam de maneira alguma aprisioná-la. Tifflor manobrou a Infant até uma distância de cinco mil quilômetros para junto da nave arcônida. A voz com que esta nave transmitia suas mensagens era nitidamente mecânica. Falava na língua arcônida e julgava que o comandante terrano tinha obrigação de compreendê-lo. Com toda certeza, pois, devia se tratar de uma espaçonave robotizada. Teria, no máximo, cinquenta tripulantes a bordo e estes cinquenta arcônidas teriam funções bem secundárias. A pilotagem da nave e distribuição de ordens deviam ser assunto exclusivo dos robôs programados. O pelotão de combate devia também ser constituído de robôs móveis. Quanto ao comandante da nave, seria um sonolento arcônida ou outra pessoa das raças irmãs de Árcon. Mas, de qualquer forma, este comandante não teria voz ativa em nada. Assim era a situação a bordo da nave arcônida. Tifflor sabia de tudo isto. O que ele não sabia era como aproveitar estes conhecimentos para salvar a Infant daquela situação. A casualidade de uma espaçonave, emergindo do hiperespaço, ir parar exatamente diante de outra nave já no espaço de Einstein, era uma coisa tão rara que Tifflor não estava preparado para isto. Perderam-se minutos preciosos, até que se preparasse outro plano, naturalmente um plano de desespero, o único que cabia nesta situação. Do pelotão de aprisionamento, provavelmente feito de robôs arcônidas, não se via nenhum sinal. A nave arcônida agia com segurança e não tinha necessidade de ter pressa. Tifflor dirigiu-se ao sargento Fryberg: — Já houve algum sinal? Fryberg entendeu de que ele estava falando. Meneou a cabeça e sorriu contente. — Não, nem uma palavra. — Bem, continue atento. O arcônida podia estar convencido de que sozinho resolveria a questão. Sendo uma nave robotizada, parecia razão suficiente para ele considerar completamente supérfluo chamar outra nave em auxílio ou simplesmente comunicar o que estava ocorrendo. Os robôs com sua lógica ajudariam em tudo. E somente quando terminasse a ação e toda a tripulação da Infant já estivesse presa, o comandante apresentaria seu relatório ao computador-regente. Supondo 83


isto foi que Tifflor formulou seu plano. *** Panjel Dreeb era um homem de Iriam. Pelos padrões da Terra, teria um metro e meio de altura, cabeleira densa e cabeça ovalada. Já pelo seu aspecto, Panjel Dreeb não acreditava na balela de que os habitantes de Iriam eram descendentes de colonizadores arcônidas. Não podia, porém, negar que estava a bordo de espaçonave arcônida, e aí trabalhando como qualquer outro. Não sabia nada do que se passava em torno dele. A nave possuía absorvedores antigravitacionais, mas Panjel Dreeb nem ao menos conhecia o aparelho. Também não poderia dizer se a nave estava parada ou em movimento. Os serviços que Panjel executava eram muito humildes — tinha de apanhar o lixo miúdo e jogá-lo no conversor. Era um trabalho para cuja execução seria antieconômico o uso de um robô. E um homem como Panjel Dreeb parecia nascido para esta função. Estava mesmo contente com seu novo emprego. Fazia poucos dias que pertencia à tripulação da nave arcônida, achando o ambiente muito interessante. Tinha medo apenas dos homens-máquina, mas felizmente era raro se encontrar com eles. Panjel Dreeb deslizava por uma esteira transportadora num corredor onde não se via ninguém. Na mão direita segurava uma pinça automática e ia apanhando tudo que havia de sujeira dos dois lados da esteira. Não era muita coisa. Aqui e ali um pedaço de plástico, um parafuso, ou coisas semelhantes. Quase não fazia esforço para isso. Mas, por distração, acabou deixando passar o local onde devia saltar da esteira. Ficou indeciso. Não sabia se saltava à esquerda ou à direita, ou mesmo se continuava no mesmo corredor. Ainda não tinha chegado a uma decisão, quando lhe surge um homem estranho à sua frente. Sim, estava realmente na sua frente. Não tinha vindo nem de cima, nem de baixo, mas estava ali. Panjel tremeu e seu rosto mudou de cor. O susto foi tão grande que, por uns instantes, não conseguiu ver nada. Depois notou que o estranho parecia com um arcônida, nos traços gerais. Era bem mais alto que ele, de ombros muito largos. Usava também um uniforme, que Panjel Dreeb já conhecia. Só uma coisa que parecia muito estranha: sua pele era preta. — Não tenha medo — disse o tal sujeito em arcônida. — Não lhe vou fazer nenhum mal. Diga-me apenas onde é que estou. Panjel Dreeb começou gaguejando. Só depois de algumas tentativas foi que sua língua voltou ao normal e conseguiu dizer algumas palavras claras. Disse que estava numa nave dos arcônidas, mas isto não interessou muito àquela aparição, pois este o interrompeu. — Sei disso. Quero saber agora onde é a cabina de comando. A pequena cabeça de Panjel Dreeb começou a funcionar. Quem seria este preto? Por que se interessava

pela cabina de comando? Será que queria fazer alguma coisa contra a nave? — Vamos, diga logo — insistiu o estranho. Panjel Dreeb estendeu o braço para indicar a direção. — Ali — disse hesitante. — Para cima ou para baixo? — perguntou o preto. Panjel Dreeb respondeu prontamente, pois seu medo aumentava. Depois de pouco tempo, o preto já estava certo quanto ao caminho. “Não tem importância”, pensava Panjel Dreeb, “enquanto ele estiver caminhando para lá, eu aperto o sinal de alarme, e num instante ele será preso.” — Muito obrigado — disse o preto — você me prestou um grande favor. Infelizmente sou obrigado a lhe causar um pequeno sofrimento. Estou com receio de que você me traia. Não tenha medo, não vai acontecer nada com você. Vai apenas dormir uns minutos. Panjel queria gritar, mas não houve tempo. O preto apontou-lhe um negócio luzidio. Panjel Dreeb levou um choque, sentiu uma forte dor em todo o corpo. Depois foi tudo escuridão. Seus sentidos deixaram de funcionar. *** Grande tensão nervosa imperava na cabina de comando da Infant. O pelotão de aprisionamento não havia aparecido ainda. Tranquila e ameaçadora lá estava a grande nave arcônida — um ponto minúsculo de brilho fosco, em comparação com o mar de estrelas fulgurantes. O novo plano de Julian Tifflor estava entrando em ação. Só poderia dar certo se o arcônida continuasse calado. O sargento Fryberg, a pedido do comandante, tentava medir, através da captação de toda a radiotelefonia, a potência dos transmissores e descobriu que a energia de irradiação era muito restrita e condicionada a pequenas distâncias. A mais de cem mil quilômetros, não era possível ouvi-los. A frota de bloqueio, portanto, não sabia nada do que uma de suas naves havia feito a um cruzador terrano. Não foi fácil para Tifflor dominar a tensão. Seu olhar atento não perdia aquele ponto de luminosidade fosca no meio das estrelas brilhantes, passando dali para a mancha pardacenta da zona de superposição, que, apesar dos rigorosos cálculos para as transposições, ainda estava a dois anos-luz da Infant. Os arcônidas levariam dez minutos para fazer chegar até ali o pelotão de aprisionamento. Será que este tempo daria para Ras Tschubai realizar seu intento? *** Ras Tschubai não pensava em fazer o trajeto para a cabina de comando a pé. Sabia qual era a direção. Depois de esconder o homem de Iriam num local onde tão cedo ninguém o acharia, concentrou-se uns segundos, procurando mentalizar seu objetivo e saltou. Foi parar exatamente onde queria, mas a situação que encontrou não era bem a que imaginara. Materializou-se bem no centro da sala de comando e 84


esbarrou num objeto rígido e bem grande. Cambaleando, abriu os olhos e viu que tinha “atropelado” um robô arcônida. O homem-máquina voltou-se imediatamente contra ele, apontando-lhe a arma. Ras Tschubai retesou os músculos! Porém não aconteceu nada do que esperava. A arma continuou apontada para ele; parecia, no entanto, que o robô não tinha ordem para atirar. A sala de comando estava repleta de robôs. Mas depois que um deles já se ocupara com o invasor, os demais não se preocuparam com o incidente e cada um continuou tranqüilo seu trabalho. Mas havia ali mais um ser orgânico, além de Ras Tschubai. De boa estatura, sentado numa poltrona baixa e confortável, este homem de cabelos brancos fazia como se nada do que estava acontecendo lhe dissesse respeito. Era indiscutivelmente um arcônida, talvez até o comandante nominal da espaçonave. Ras Tschubai o examinou atentamente, apesar da arma do robô apontada para ele. Mas, mesmo que o arcônida tivesse notado seu aparecimento na sala de comando, isto não lhe interessava agora. Seu rosto inteligente dava mostras de indiferença, parecendo até aborrecido. Notando que do robô não podia advir nenhum perigo imediato, Ras Tschubai começou a raciocinar mais calmamente. Passou a pensar por que os robôs estavam todos na sala de comando, se a presença deles ali se tornava desnecessária, pois ali era o local de onde a positrônica governava a nave. Descobriu logo. Viu uma chapa de metal plastificado, que estava desparafusada, e notou que dois robôs desciam por um enorme poço para cabos de comando. A situação era bem cômica para ele: alguma coisa não funcionava bem no possante encouraçado arcônida e os robôs estavam preocupados em consertar o defeito. Em conseqüência da intensa movimentação dos robôs, o barulho era muito grande. Teve de gritar para que o arcônida de cabelos brancos o pudesse ouvir: — Você não pode ordenar a seu robô que me deixe em paz? — perguntou ele em arcônida. Vagarosamente, o arcônida virou a cabeça e fitou Ras, com olhar de indiferença. — Pelo que estou vendo, ele não o está incomodando. Ras deduziu as palavras mais pelos movimentos labiais, do que pelo que ouviu, pois o arcônida não fez o menor esforço para aumentar um pouco a voz. — Quero dizer, será que o senhor não pode mandá-lo embora? — Não, isso eu não posso fazer, meu filho. Não sei por que os robôs não me obedecem. Ras desistiu. Este arcônida não lhe podia ser útil. Ras tinha de contar com suas próprias forças, se quisesse ter sucesso. E isto parecia difícil. O robô, com o braço levantado e a arma pronta, não o perdia de vista. E Ras Tschubai sabia que não havia a menor possibilidade de distraí-lo, muito menos de dominá-lo.

Nem por isso, porém, tinha a intenção de desistir de sua missão. Sabia de sua responsabilidade, do que estava em jogo. Custasse o que custasse, tinha que sair vitorioso. Olhando em volta, veio-lhe uma ideia à cabeça. O negócio não era nada seguro, mas para a situação em que estava, bastava uma chance, por menor que fosse. Não podia mudar o quadro que ali estava. O plano do Coronel Tifflor supunha que Ras encontraria a cabina de comando vazia e era só desligar o robô central e ligar o comando manual. Aí, então, ele executaria uma transição que o levaria para fora das fronteiras das Galáxias, de onde a nave arcônida não conseguiria mais voltar, nem dar sinais de si. O suprimento energético de cada nave tinha um determinado limite. Se esta reserva fosse consumida numa longa transição, a nave chegaria a um ponto de onde não podia mais sair por força própria. Este era o plano de Tifflor. Mas bastava que Ras Tschubai desse um passo na direção do comando manual para que o vigilante robotizado o matasse com uma descarga energética. Só lhe restava uma única possibilidade. Ras fechou os olhos, não sabendo se o robô ia estranhar este procedimento. Esperou ansioso uns segundos, e quando percebeu que nada acontecia, começou a se concentrar. Conhecia as naves deste tipo e sabia onde se localizava o conjunto de propulsão... *** O sargento Fryberg deu um pulo. — Um rádio, senhor! Tifflor virou para trás. — Em código? — Não, senhor. Normal e bem legível. O mecanógrafo acoplado ao rádio mostrava também uns sinais gráficos da escrita dos arcônidas. Fryberg nada entendia desta língua. Sabia, porém, que o aparelho não funcionaria se o rádio fosse cifrado. Foi com grande admiração que Tifflor leu: Avaria positrônica. Enguiço no canal principal. Pedimos ajuda técnica. Tifflor estava perplexo. Seria isto obra de Ras Tschubai? Se o fosse, por que razão não fez o que lhe fora ordenado? E mais, por que motivo uma nave robotizada iria se utilizar da língua arcônida a fim de chamar a atenção de outras naves também robotizadas para sua situação de emergência? Os robôs se comunicavam por intermédio de simples impulsos eletrônicos. Para que então esta mensagem tão explícita? — Captou ainda qualquer outra coisa, Fryberg? — perguntou-lhe Tifflor. — Sim. Havia ainda uma série de pequenos impulsos. “Que naturalmente devem significar a mesma coisa”, completou mentalmente Tifflor. — Quer dizer então que enviaram a mensagem em dois canais: primeiro para as antenas dos robôs e depois para os 85


ouvidos dos arcônidas. E por quê? Qual é o arcônida que exerce um cargo tão importante que tem de estar informado de tudo que se passa nas milhares de naves? Esta questão de avaria podia explicar o motivo do atraso do pelotão de aprisiona-mento, embora já fossem decorridos vinte minutos depois da primeira advertência dos arcônidas ou de seus robôs. Se o canal central estava enguiçado, poder-se-ia deduzir que não lhes era possível abrir nenhuma escotilha. Ou seria tudo isto um truque? Estariam tentando forçar a Infant a empreender a fuga, para então terem um pretexto para destruí-la? Um defeito positrônico deixaria fora de uso alguns postos de canhões e baterias, mas não todos. Talvez esperassem que a Infant fosse tentar a fuga. Tifflor tinha no rosto um sorriso zombeteiro. Não iria de maneira alguma dar-lhes esta oportunidade. *** Trabalhando com rapidez, Ras Tschubai foi “abrindo” seu caminho para o conjunto de propulsão. Ao perceber que o corredor que dava para lá estava vazio, ainda deteve-se por cinco minutos, refletindo, cheio de escrúpulos, se estava certo fazer o que planejava. Teve que se conscientizar de que se tratava do destino da Humanidade. Lembrou-se de que o regente robotizado, conforme as coisas iam se encaminhando, haveria de descobrir, através da confissão forçada de um ou outro membro da tripulação da Infant, a verdadeira posição da Terra. Procurou imaginar o que aconteceria quando uma frota de cinquenta mil naves arcônidas atacasse o sistema solar terrano e fosse destruindo um planeta após o outro. Depois disso, não teve mais escrúpulos. Estava resolvido a fazer o que se propusera. Para um homem experimentado, profundo conhecedor da técnica galatonáutica, não era difícil fazer com que os reatores nucleares funcionassem com sua capacidade máxima e vedassem de tal modo todos os escapamentos. Pelas suas dimensões, isto levaria uns quinze minutos até a plena saturação e até que a fusão controlada se tornasse incontrolável e, sob a pressão de um acúmulo exagerado de energia, viesse a explodir, destruindo a nave arcônida com a violência de cem bombas de hidrogênio. Provavelmente, aquele robô, de cujas lentes eletrônicas ele conseguira escapar, já teria ligado o alarme no posto de comando lá em cima. Certamente, todos os robôs estavam agora à sua procura, tentando descobrir o que ele tencionava fazer. Haveriam então agora de procurá-lo por toda parte, e até que os robôs chegassem ao recinto dos propulsores, a nave já teria explodido. Já que a positrônica não estava funcionando, ninguém poderia descobrir lá em cima que os reatores estavam funcionando de tal modo que, em pouco tempo, haveriam de explodir. Com a calma de sempre, Ras reexaminou detalhadamente tudo que fizera ali no mecanismo de propulsão. O africano de boa estatura parecia um anão ali,

aos pés daquelas máquinas monstruosas. Outra vez foi assaltado pela dúvida se tinha agido honestamente. Na realidade, estas dúvidas agora não adiantavam mais nada. A esta altura, o destino da nave arcônida já estava selado. Ras não podia fazer mais nada. A energia nuclear ali gerada seguia seu curso. Ras só tinha uma opção: sair dali o mais cedo possível. Cerrou os olhos e se concentrou para o f pulo. Mas ao invés da Infant, surgiu diante de seus olhos mentais aquele homenzinho, que encontrara no convés de baixo e que lhe indicara o caminho para a central de comando. Havia-lhe prometido que nada lhe aconteceria, quando o imobilizou com a pistola energética! Tentou banir esta visão. Dos quinze minutos, pelo menos dez já haviam passado. Ainda mais, se tomasse em consideração que não marcara bem o tempo exato, já poderia estar correndo perigo... Conseguiu fazer desaparecer a imagem do homenzinho da pinça automática de recolher lixo, voltando-lhe novamente a figura da Infant. Deixou o quadro crescer, até poder ver nitidamente através da parede da cabina de comando. Foi então que pulou. *** Julian Tifflor não percebeu o que se passava atrás dele. Ouviu um barulho qualquer e sentiu que alguém dera dois passos às suas costas. Mas seu olhar e sua atenção estavam concentrados na tela panorâmica onde se via o ponto de luz fosca da nave arcônida. O que até agora se distinguia tanto das estrelas, por seu tipo de claridade opaca — uma poeirazinha no infinito — se estufou de repente, centuplicou sua luminosidade, transformando-se num sol radiante. Um disco de luz intensa, duas vezes maior que a lua cheia da Terra, surgiu subitamente das trevas e Tifflor foi obrigado a cerrar os olhos, pois a claridade era de ofuscar. Não se ouviu o menor ruído. O homem acostumado às maiores explosões, não estava compreendendo o que se passava lá ao longe. Uma espaçonave explodia. Silenciosa, fulgurante como um sol, ia pelos ares num inferno atômico de proporções nunca vistas. Esgotado e muito tenso, Julian Tifflor se virou para trás. A dois passos dele, estava imóvel Ras Tschubai. Foram seus passos que ouvira antes. O africano correspondeu a seu olhar, com sentimento de culpa, e explicou: — Não foi possível fazer de outra maneira. A sala de comando estava repleta de robôs, que consertavam alguma coisa. Não podia nem mexer um dedo, sem que algum deles o percebesse. Tifflor compreendeu a situação. — É difícil para a gente — disse ele pensativo — poder julgar se você agiu corretamente. Mas não tenho nenhuma dúvida de que você fez o melhor possível. Ras Tschubai respirou aliviado. “Santo Deus!”, pensava Tifflor zangado consigo 86


mesmo. “Que está acontecendo comigo? Os arcônidas mandam pelos ares planetas inteiros, destruindo tudo, sem pestanejar, e eu aqui cheio de escrúpulo só porque uma de suas naves robotizadas foi espatifada?” Tifflor procurou tirar estes pensamentos da cabeça. A nave arcônida, pouco antes de explodir, havia enviado mensagem pedindo socorro. Este socorro chegaria a qualquer momento e seria muito conveniente para a Infant não ficar na proximidade do “acidente”. Aliás, o próprio pedido de socorro devia servir de explicação suficiente às naves que viessem em auxílio de sua irmã acidentada. A grande nave esférica estava com uma avaria positrônica, conforme o rádio enviado. Num caso destes, podia acontecer de tudo, inclusive uma super expansão dos reatores nucleares. Não poderiam nunca culpar a Infant. Assim, mais uma parte do plano tinha sido bem sucedida. Restava-lhe ainda outra fase, a mais espinhosa. Tinha de penetrar na zona de superposição e cumprir sua missão junto dos druufs. Julian Tifflor tocou sua nave para frente. Acelerou rumo à indecisa neblina avermelhada, provocando a transição, ao atingir a velocidade necessária. Até aí, não havia nenhum indício de que alguma nave arcônida houvesse localizado os “desertores” da Terra. E o grupo desejava que tudo continuasse assim.

4 Para os conceitos arcônidas, Door-Trabzon era um homem esquisito, embora parecesse muito com um arcônida. A expectativa geral era de que ele apenas assumiria o comando da frota de reconhecimento, composta de vinte mil unidades, e, no mais, deixasse todo o trabalho entregue aos robôs, ficando ele comodamente sentado, observando o desenrolar da interessante programação do projetor fictício. Door-Trabzon realmente aceitou o comando, mas não fez nada daquilo que se esperava dele. Era um ekhônida. Os ekhônidas, descendentes de emigrantes arcônidas, conservaram a estatura e a língua de seus antepassados. Porém, em suas ações, eram muito diferentes de seus “primos”, os arcônidas legítimos. Estes últimos, devido a muitos milênios de paz, de bem-estar e de total poder sobre a Galáxia, tornaram-se uma raça decadente, preguiçosa e apática. Já os ekhônidas eram homens de ação. Principalmente Door-Trabzon, um alto oficial da frota, composta de pelo menos trezentas naves, a quem não se podia oferecer coisa melhor do que o comando da armada arcônida de vinte mil unidades. Ele, homem de iniciativa, tinha a intenção de se mostrar digno do cargo. Fazia questão de estar a par de tudo que acontecesse na frota de reconhecimento e queria que

pelo menos a metade das decisões dependesse dele. A outra metade — e aí não podia fazer nada, estava fora de sua alçada — pertencia à positrônica central. Desde que Door-Trabzon havia assumido o comando, as naves arcônidas não se comunicavam mais com simples impulsos de hiperrádio, mas transmitiam suas mensagens diretamente em arcônida, de maneira que ele mesmo as pudesse entender. A nave capitania de Door-Trabzon era uma espaçonave esférica do tipo mais possante. Ao tomar posse dela, seu nome era simplesmente KK XVII. Chamava-se agora WaKelan, nome do maior guerreiro da história ekhônida. Door-Trabzon, sentindo-se orgulhoso da nave e de seu nome, mantinha sua tripulação, entre a qual se contava um batalhão de robôs, em constante movimento. Soube do defeito positrônico que acontecera com uma de suas naves, a três anos-luz da Wa-Kelan. Não lhe foi nada agradável deslocar uma nave de reconhecimento só para realizar o conserto positrônico. Mas, não havia outra solução. Mandou um transporte bem armado. Depois de alguns minutos, a nave enviada comunicou que não encontrara mais o grande couraçado de oitocentos metros de diâmetro. Avisou que, no local onde tal nave estava, uma nuvem fina espalhava-se rapidamente. Os tripulantes analisaram esta nuvem e chegaram à conclusão de que, com pequenas variações, era a mesma composição da nave de oitocentos metros. Ocorrera, pois, uma explosão. Door-Trabzon soltou impropérios quilométricos, sem com isto perder a calma. Era senhor de mais de vinte mil aparelhos e mesmo se um ou outro desaparecesse, ainda seriam vinte mil. — Foi um bom castigo para a tripulação. Mesmo com falha positrônica, pode-se fazer com que os reatores sejam reduzidos ao mínimo, para não acumular excesso de energia — balbuciou. Para Door-Trabzon havia coisas muito mais importantes do que a perda de um aparelho. Estava no encalço de um terrano. Não sabia bem por que se mandava vinte mil naves atrás de um único aparelho terrano, mas já que a vantagem era toda para ele, estava tudo bem. Porém, o regente lhe havia garantido que não se tratava propriamente de vida e morte para Árcon. Contudo, era muito importante que se pegasse a nave terrana. Door-Trabzon não tinha a menor dúvida de que o inimigo não lhe escaparia. A frota de reconhecimento não estava dormindo. Movia-se de um canto para o outro, esquadrinhando cada quilômetro cúbico do espaço. “Se o terrano aparecer”, pensou, “vou lhe preparar uma recepção honrosa.” *** Fora bem sucedida à transição. Ali estava a muralha vermelho-escura do trecho de superposição, na tela panorâmica da Infant. A poucos milhares de quilômetros, abria-se o abismo em forma de uma garganta afunilada; mostrando o caminho que levava para o Universo dos 87


druufs. Era a primeira vez que Julian Tifflor ia percorrer este caminho. Já tinha formado a mentalidade para considerar este fenômeno como um problema físico-matemático. Mas, agora, ao ver diante de si a boca escancarada do abismo, não se sentiu muito bem. Aquela garganta de um vermelho estranho, pulsando lentamente, parecia mais com a entrada do inferno. Antes disso, porém, a Infant ainda tinha outra tarefa. Teria de averiguar se seu salto fora captado pelos arcônidas. Com este objetivo, movia-se agora com o mínimo possível de velocidade, na direção da garganta incandescente. O sargento Fryberg, com seus dois soldados, estava ocupado em captar qualquer mensagem pelo telecomunicador. Esta tarefa era antes de tudo uma questão de estatística. A frota terrana já conhecia a “densidade de comunicação” neste setor do espaço. O número de telecomunicações que se realizavam por segundo entre as naves da frota arcônida era quase constante. A bordo da Infant, logo após o encontro com o aparelho avariado dos arcônidas, constatara-se que tal número aumentara, a partir da última medição feita por naves de patrulhamento da Terra, pelo fator 1,333. Mas isto não tinha nada a ver com o aparecimento da Infant, pois o valor não aumentara depois do aparecimento da Infant, mas permanecera igual ao que era desde o começo. Também não havia diminuído a partir de então. Tudo isto apenas queria dizer que o número dos aparelhos arcônidas também havia aumentado pelo fator 1,333. Era um bom sinal, pois provava que o regente de Árcon tinha caído na armadilha dos terranos e fazia um esforço ingente para capturar a nave dos “desertores”. Fryberg fez algumas experiências. Decifrou algumas das mensagens dos arcônidas e achou que giravam em torno de coisas sem importância, instruções que eram dadas de uma nave a outra para fins de orientação e assuntos particulares. Tudo indicava que a Infant não tinha sido localizada. E parecia que ninguém suspeitava da autoria da destruição da nave avariada. Com novo ânimo, Tifflor voltou para seu trabalho. O destino parecia ter abrandado sua severidade para com os terranos. Preparava-se para prosseguir a viagem com a Infant, quando o sargento Fryberg se apresentou: — Há alguma coisa perto de nós — disse ele desconfiado e com voz trêmula. — Não consigo, porém, descobrir o que é. — Sintonize bem — ordenou Tifflor alarmado — e ligue para cá. Logo apareceu na tela do intercomunicador de Tifflor a imagem do rastreador de Fryberg. Nos primeiros instantes, além do verde-escuro da tela vazia, Tifflor não conseguiu ver nada. — Do lado direito, em cima, Sir — explicava o sargento. — Uma mancha fraca, bem esmaecida. Tifflor apagou a lâmpada de sua escrivaninha e olhou de

novo. Conseguiu ver no canto superior direito o que Fryberg apontava. Não era propriamente uma mancha, mal se aproximava de um halo pouco perceptível, como se fosse um vidro embaciado de uma tela. — Que dizem os outros instrumentos? — perguntou ele. — Nada, senhor. O rastreador de matéria não diz nada, mas talvez seja porque o objeto esteja longe demais. O espaço aqui em volta está isento de resíduos de combustíveis. Somente as micro-ondas é que registram o fenômeno. Tifflor constatou que o objeto se movia e vinha na direção da Infant. Segundo o rastreador, não estava a mais de dez mil quilômetros. Ali, tão perto da zona de superposição, onde a luz das estrelas penetrava apenas num diminuto ângulo, não se podia esperar que este objeto fosse visto na tela a não ser quando já estivesse a poucos quilômetros de distância. O comandante Tifflor quebrava a cabeça para descobrir alguma coisa. Pensava numa nuvem de poeira cósmica, mas com seu tamanho restrito, tinha que ser de uma densidade improvável para refletir, em micro-ondas, a mais de dez mil quilômetros, um halo reconhecível na tela. Tifflor se negava a aceitar a hipótese de uma espaçonave. Não havia nenhum sistema de proteção capaz de esconder uma espaçonave dos aparelhos de rastreamento em distância tão reduzida. Se houvesse tal sistema, então uma frota de espaçonaves que dispusesse dessa proteção estaria de antemão infinitamente superior a seu adversário. Tifflor reconheceu que tinha abandonado o caminho impessoal da lógica. Assustou-se, de repente. O que lhe passava pela cabeça era tão aterrador que não conseguia conservar-se calmo. Tinha de saber o que estava acontecendo. Ordenou que os homens ficassem de prontidão nos pontos de defesa. Disse-lhes que Fryberg tinha percebido um objeto estranho e a Infant haveria de examiná-lo agora. Não havia perigo por enquanto, mas deviam estar de olhos abertos. Sabia que tinha abandonado o caminho rigorosamente traçado, com todas as prescrições e instruções. O que estava fazendo agora, inclusive, podia ajudar os arcônidas a descobri-lo e assim fazer com que todo o plano fracassasse. Apesar de tudo, tinha que averiguar os fatos e não lhe restava outra opção. Os homens que lhe traçaram o plano e lhe deram as instruções não contavam naturalmente com um incidente como este. Com as turbinas em ritmo reduzido, a Infant começou a descrever uma curva. Tomando-se como ponto de referência a garganta afunilada, o estranho objeto se encontrava agora atrás da nave terrana. A Infant descreveu um ângulo de cento e sessenta graus e quando iniciou seu movimento, bem reduzido no começo, para não ser percebida, fê-lo na direção da frota de bloqueio dos arcônidas, ao invés de se afastar dela, como era seu dever. Tifflor ainda estava preocupado com o halo da tela. Podia ser um truque dos arcônidas. Então tentou imaginar o 88


que um estrategista arcônida pretendia com isto, que efeito esperava, quando nas imediações de uma garganta afunilada, aparecia um objeto misterioso, que mal podia ser visto pelos instrumentos da nave terrana. Caso houvesse qualquer espécie de efeito psicológico atrás de tudo isto, estava muito acima da percepção de Tifflor. Com pequena aceleração, a Infant se encaminhou para a mancha esmaecida da tela, que continuava seu movimento no mesmo sentido de antes. A rota da Infant foi calculada para um encontro com o estranho objeto dentro de trinta minutos. Os homens na sala de comando esquentavam a cabeça, imaginando o que iria acontecer dentro em breve. Um silêncio pesado cobria todos os semblantes. O leve ruído das turbinas, que ninguém mais estranhava, era a única coisa que quebrava a monotonia. Na tela de rastreamento do sargento Fryberg, a mancha esmaecida se aproximava do centro. Fryberg olhava fixo para ela e sua boca estava seca, como a de um caminhante no deserto. Se o objeto misterioso fosse realmente uma espaçonave, haveria de esperar calmamente até que a Infant se aproximasse, para depois reduzir a pedaços seu envoltório energético com uma salva de tiros bem certeiros. “Não teremos tempo nem de piscar o olho”, pensava Fryberg. Levantou a cabeça para olhar melhor a tela panorâmica, cada vez mais preocupado. A imagem ainda era a mesma. De um lado, o setor de um vermelho-escuro da zona de superposição; do outro, o emaranhado fulgurante das estrelas. Não se via em nenhum ponto um brilho diferente. Em nenhum lugar se podia perceber o brilho fosco das paredes de uma cosmonave. “Talvez não seja nenhuma nave”, pensava Fryberg. “Tomara que não seja mesmo. Gostaria de ficar livre de um encontro com uma nave que se pode tornar tão invisível como um pedaço de carvão em plena escuridão!” Percebeu que seus nervos estavam para explodir. Encostou-se a poltrona e respirou profundamente. O ar do assobio passava por entre os dentes, fazendo um ruído de panela de pressão. “Coragem, homem”, pensava Fryberg. “Não é nenhuma espaçonave. Move-se em órbita, como um corpo inerte. Não há nenhum indício de que seja tripulado ou dirigido por alguém. É um meteorito de fibra de vidro ou algo semelhante.” De repente, um grito quase fez estremecer toda sala de comando: — Ele se move! Vem direto em nossa direção! — gritou Fryberg, completamente fora de si. *** Tornava-se uma sensação horrível ver o objeto vir a seu encontro e não saber o que era. Primeiramente, era uma mancha esmaecida na tela e a ótica não mostrava outra coisa, no local onde tinha que

estar a não ser sempre a mesma imagem. A distância diminuía depressa. Fosse o que fosse a tal mancha esmaecida, devia ter um bom mecanismo de propulsão. Julian Tifflor teve de sufocar o desejo de fazer uma curva com a Infant e fugir o mais depressa possível. Quando determinou a rota de encontro ao objeto, já devia prever uma espaçonave estrangeira. Agora que não lhe restava mais dúvidas, seria um ato inconsequente tentar uma fuga e inconsequente era uma palavra que não existia no vocabulário de Tifflor. Também não deu aos homens das vigias nenhuma ordem de atirar, embora estivessem esperando por isto, sentados nos seus abrigos, tentando ocultar o medo e o nervosismo. Tifflor compreendeu o que eles queriam. Balançou-lhes a cabeça e todos entenderam. A mancha se aproximava e finalmente chegou o momento em que o astronavegador gritou: — Alguma coisa está errada com a nossa rota. Estamos nos desviando! Julian Tifflor reagiu pronta e instintivamente. Colocou o conjunto de propulsão em ponto morto e ficou olhando como os ponteiros dos mostradores pararam. A velocidade da Infant continuou a mesma. As turbinas pareciam continuar funcionando! Isto não queria dizer nada, pelo menos nada a respeito da verdadeira velocidade da nave. O astronavegador tinha melhores valores, isto é, os oriundos dos desvios das paralaxes. — Diga alguma coisa mais exata, assim que você puder — ordenou Tifflor. O astronavegador se inclinou sobre seus instrumentos. Trabalhava febrilmente. Tifflor continuou de olhos fixos na tela do rastreador e averiguou que a mancha esmaecida tinha parado. Fryberg notou seu olhar. Sabia qual a pergunta que então viria e respondeu com antecipação: — Distância: mil trezentos e vinte quilômetros, Sir. Tifflor olhou para cima. A tela panorâmica ainda não mostrava nada de concreto do objeto. No entanto a uma distância tão pequena, já devia mostrá-lo bem nítido, caso tivesse as dimensões normais de uma espaçonave. Já havia muito tempo que Tifflor não se sentia assim tão desesperado. Não lhe passava mais nenhuma ideia nova pela cabeça. Era um fenômeno estranho. — Uma coisa é certa — disse o astronavegador, de repente. — Nós nos movemos tal qual o objeto para dentro da garganta afunilada. Tifflor ouviu com atenção e pensou: “Por isso é que o objeto parece parado. A Infant se move na mesma direção e com a mesma velocidade. Sem nenhuma manobra, manual ou automática, alterou seu rumo. Ao invés de se afastar da garganta afunilada, encaminha-se para ela... A explicação”, concluiu mentalmente, “só pode ser uma: o tal objeto a está arrastando como que rebocada. Deve irradiar um campo magnético de atração que dá para rebocar a 89


Infant.” Julian Tifflor não tinha nada contra este tipo de “tratamento”, pelo menos por enquanto o trajeto fosse idêntico ao que ele planejara. Mas estava preocupado em saber que medidas o estranho objeto iria tomar para conseguir seus objetivos. Usou o alarme chamado SA, usual em tais emergências. SA não queria dizer outra coisa, a não ser “súbita aceleração”. O alarme SA significava para a tripulação que, a partir deste momento até o final do alarme, tinham de estar prevenidos para os choques de aceleração, que, em certas condições, podiam ser tão violentos que mal poderiam ser absorvidos pelos dispositivos antigravitacionais, chegando às vezes a danificar tais dispositivos. Após dar este alarme, Tifflor acionou novamente às turbinas de propulsão. Com a energia ampliada, de uma hora para a outra, a Infant lutava para se libertar do campo de atração que a arrastava. Num período de poucos segundos, elevou ao máximo a potência do mecanismo de propulsão. Via, pela oscilação dos ponteiros, como suas turbinas e o campo de atração magnética travavam uma luta renhida entre si. Viu também quando os ponteiros oscilaram mais forte e começaram a movimentar-se. A Infant livravase do campo de atração e agora continuava sua própria trajetória. O astronavegador soltou um grito de triunfo. Com a voz rouca, disse uma sequencia de números que comprovavam que o golpe de surpresa dera bom resultado. O objeto não tivera tempo de reagir rapidamente à aceleração-relâmpago executada por Tifflor. Assim, a nave terrana escapara do campo de atração. Tifflor não queria saber de outra coisa. Ordenou uma curva de cento e oitenta graus e colocou a Infant novamente no encalço do estranho objeto. Conduziu-a até ao local em que se encontraria se não tivesse escapado do campo de atração, e depois se entregou de novo, espontaneamente, à mesma força. Gostaria de saber agora a cara que o desconhecido estaria fazendo. Ele teria de compreender que a nave terrana escapara com seus próprios meios e, agora, voltava espontaneamente para se entregar como prisioneira. Julian Tifflor, porém, duvidava de que o desconhecido fosse capaz de compreender seu gesto. *** Duas coisas diferentes deixaram Tifflor pensativo, enquanto a nave terrana deslizava mansamente pela garganta afunilada, aproximando-se de seu ponto mais estreito. Primeiro, o objeto desconhecido reagira muito lentamente à sua tentativa de fuga, portanto não era algo comandado por robôs, pois, do contrário, em milésimos de segundo, o robô teria reagido para se adaptar à nova situação de reforçar a potência do campo de atração. Não era, portanto, uma nave robotizada e por isso não seria

também nenhuma nave arcônida. Mesmo que se aceitasse a hipótese de haver um ser orgânico no comando do objeto estranho, a reação de tal indivíduo estaria classificada como extremamente lenta, como se estivesse muito distraído ou mesmo dormindo. Tifflor estava admirado que só agora, depois de passados quinze minutos, é que esta ideia lhe vinha à cabeça e não muito antes. Pois eram bons indícios sobre as qualidades de quem estava no comando do estranho objeto. Uma pessoa normal, nestas circunstâncias, não ficaria distraída ou dormindo, mas reagiria com grande atenção. Reações muito lentas podiam significar também a impossibilidade de tomar resoluções próprias e no momento. Talvez pelo simples motivo de que seu tempo próprio fosse diferente do terrano. Uma coisa que um terrano faria em um segundo, ele precisaria de dois. Pois ele provinha de outro Universo, de um outro plano temporal, e o fator através do qual seu tempo próprio se diferenciava do tempo do espaço de Einstein, era exatamente dois. Isto, porém, era uma acepção que valia para todos os druufs. Julian Tifflor, a esta altura, não tinha mais nenhuma dúvida de que este objeto desconhecido devia ser uma nave dos druufs. Apenas não sabia como é que a nave conseguia permanecer invisível a todos os instrumentos de rastreamento, com exceção do aparelho de micro-ondas. Mas estava crente que também isto ele descobriria. “No momento”, refletiu ele, “o essencial é que a Infant está na rota certa.” *** Reinava muita agitação sob o céu marrom de Druufon. Um gigantesco sol avermelhado e outro esverdeado, menor, mas de intensa luminosidade, brilhavam sobre um povo que olhava para o futuro com muita apreensão. Ainda há alguns dias atrás — naturalmente dias do tempo de Druufon — os druufs acreditavam que lhes estava aberto o caminho fácil para um novo mundo, como que preparado para ser ocupado por eles. Penetraram num Universo diferente, através de uma brecha no espaço. Tudo aquilo que havia de inteligência orgânica caíra-lhes, sem dificuldade, nas mãos sedentas de conquistas. Mas chegou o dia em que, ao invés de uma brecha, abrira-se um gigantesco rombo, e aí começou a fatalidade. Cada vez que os druufs tentavam atravessar o paredão para invadir o outro espaço, uma frota de naves desconhecidas se abatia sobre eles e os expulsava prontamente. Paravam prontamente. Paravam por algum tempo, mas logo depois voltavam à carga, sempre com o mesmo resultado. O inimigo, que espreitava do outro lado do paredão, era poderoso demais. E pior ainda, era muito mais rápido do que os druufs podiam imaginar. Os druufs conheciam, naturalmente, o fenômeno. A velocidade muito superior do adversário não era outra coisa do que a consequência dos diferentes planos temporais. Caso os druufs não tivessem feito esforços ingentes para dominar este fenômeno, teriam sucumbido completamente. 90


Pois, originariamente, seu tempo corria 72 mil vezes mais lento que o do inimigo. O tempo de que precisavam, por exemplo, para uma respiração, era suficiente para os adversários reunirem uma grande frota e destruírem todas as naves dos druufs, tão logo botassem o nariz para fora da zona de descarga. Com grande esforço, conseguiram os druufs dominar o problema até certo ponto. Seus cientistas criaram um campo temporal que lhes modificava o tempo próprio. Podiam então, conforme as condições, apressar ou retardar a passagem do tempo. Naturalmente, para eles, o mais importante era apressar. Chegaram até a proporção de dois para um. Mais não lhes era possível obter com o campo temporal. Tinham, pois, que deixar nas mãos dos adversários a vantagem de uma velocidade duas vezes maior. Não se atreviam mais a penetrar no Universo estranho com grandes frotas. Não podiam mais se arriscar a grandes prejuízos. Enviavam naves avulsas, que, dependendo da experiência da tripulação, conseguiam furar o bloqueio do adversário e executar longos voos de patrulha pelo outro espaço. Depois das grandes baixas sofridas com frotas numerosas, restringiam-se a estas saídas e estavam felizes pelo fato de o adversário ainda não haver feito “pesadas” incursões em seu Universo. Mas parece que a situação estava mudando. A última nave que viera de fora falava de enorme aglomeração e movimentação de frotas em torno da zona de superposição. A frota de bloqueio adversária tinha sido reforçada. Tudo fazia supor um ataque iminente. Entre os druufs havia uns poucos otimistas, entusiasmados com os primeiros resultados da vanguarda de robôs, que acreditavam que este ataque redundaria em total fracasso. Entretanto, já pela simples comparação numérica, se podia ver a uma grande inferioridade dos druufs, acrescida da dura realidade de seu tempo próprio, duas vezes mais lento. Não havia dúvida de que os druufs tinham de temer por sua própria sobrevivência. Nos últimos momentos, porém, chegou inesperadamente à capital do planeta Druufon uma nova mensagem. Depois de examiná-la com cuidado e muita reserva, os técnicos chegaram à conclusão de que o que a última nave de patrulhamento havia conseguido em seu regresso era um ponto de apoio estratégico importante, para uma guinada definitiva à vitória. Pois, em última análise, se tratava apenas de se obter um grupo de pessoas que estivesse em condições de reagir a um ataque inimigo com a mesma presteza que os adversários. Este punhado de pessoas parecia estar agora à disposição dos druufs.

5 Era um Universo totalmente diferente. Podia-se percebê-lo pela cor do céu, onde o mar de estrelas refulgia num brilho insólito. Para Julian Tifflor, que realizara pela primeira vez na vida a transição do espaço de Einstein para o dos druufs, a visão era qualquer coisa de descomunal, para não dizer assustadora. O espaço teria de ser preto, pois não era outra coisa a não ser o próprio vácuo que se plasmara numa determinada forma. Mas não era preto, era de um vermelho-escuro. Brilhava incandescente, como se alguém ou alguma coisa o fizesse arder por fora. Julian Tifflor dominou a perplexidade que causava nele e em todos os seus tripulantes, que aqui estavam pela primeira vez, o espetáculo daquele Universo singular, e começou a reparar no estranho aparelho. Não era mais a mancha esmaecida da tela do aparelho de micro-ondas. Tinha se transformado num ponto luminoso que a ótica agora mostrava como uma estrela pequena, de coloração avermelhada, porém, bem diferente das estrelas reais. Os druufs haviam acabado de retirar o véu de camuflagem. A nave terrana não tomou nenhuma iniciativa. Os druufs tinham de saber que haviam sido descobertos pela Infant. Tinham arrastado o cruzador terrano; portanto, a eles cabia iniciar o diálogo. O campo de sucção, ou melhor, de atração, ainda funcionava, mas a nave dos druufs estava em operação de frenagem e, uma hora depois de transpor a garganta afunilada, parou completamente. Os rastreadores da Infant assinalaram todos os dados referentes à velocidade, conjugados com o sistema dos dois sóis de Druufon. Mais uma meia hora se passou sem novidade alguma. Tifflor tinha resolvido que chamaria a nave dos druufs, se dentro de dez minutos não se manifestassem. Não precisou, porém, esperar tanto. Dos dez minutos, havia passado apenas um, quando da escuridão avermelhada surgiu uma numerosa frota de unidades alongadas e cilíndricas, fechando um círculo estreito em torno da Infant. Tifflor havia dado severas instruções aos pontos de defesa para que não atirassem, a não ser em caso de extrema necessidade. Pouco depois deste “abraço” pouco fraterno, o telecomunicador começou a funcionar. Tifflor ligou para a escuta, declarando em inglês que estava disposto a ouvir qualquer um que desejasse falar com ele. A tela do vídeo continuava apagada. Ou os druufs não davam nenhuma importância ao videofone ou seu transmissor não estava acoplado com a projeção da imagem. Apreensivo, Tifflor via como o tempo passava, depois de ter declarado estar à disposição de quem quisesse falar. Enquanto isto imaginava como lá do outro lado, a bordo de uma daquelas estranhas naves, agrupadas em volta deles, um druuf falava num aparelho, esperando depois que o 91


referido aparelho traduzisse suas palavras para o inglês, diretamente no microfone que estava sobre a mesa. Tifflor ainda estava pensando se os druufs já sabiam se a nave por eles arrastada era arcônida ou não. Só pelo formato, não podiam deduzir com certeza. Com raríssimas exceções, todas as naves no espaço de Einstein eram esféricas. Seria, pois uma conclusão lógica se os druufs considerassem a nave atraída por eles como oriunda de Árcon. Mas parece que não estavam muito certos disso, do contrário não perderiam tanto tempo, depois de transpor a garganta afunilada. Seus devaneios foram interrompidos. O receptor parou de chiar e uma voz, quase que de além-túmulo, disse: — Os senhores são uma nave terrana. Que desejam aqui? Tifflor já estava com a resposta engatilhada: — Avisá-los de uma coisa importante — disse ele, depois de uma pequena pausa, para não confundir os druufs no seu lento sentido de tempo. — Qual é o aviso? — foi a contra pergunta. Entrementes, Tifflor notou com surpresa que o instrumento de tradução que os druufs estavam usando funcionava com toda perfeição, pelo menos no tocante ao inglês. As frases eram fluentes e corretas. Somente a voz é que podia provocar calafrios ou visões de além-túmulo. — De um ataque maciço dos arcônidas — respondeu Tifflor. — Este ataque está iminente e eu acho que os senhores ficariam gratos se alguém os advertisse a respeito. Desta vez, levou alguns minutos, até que os druufs respondessem. Mais uma vez, aquela voz fria e imóvel. Mas do contexto se percebia nitidamente a desconfiança: — Os senhores esperam um determinado tipo de gratidão? Também para uma frase desta, Tifflor tinha a resposta conveniente. — Caso os senhores pensem que nós pretendemos ganhar dinheiro através da denúncia, não. Além disso, para que tanta desconfiança? Os senhores pretendem manter todo este diálogo através do intercomunicador? Novamente uma grande pausa. — Venha o senhor, acompanhado de dois homens, todos desarmados, para bordo de nossa nave. Os senhores possuem uma nave auxiliar ou devo mandá-los buscar? Tifflor não se conteve: — Primeiramente — começou um tanto brusco — irei assim como estou, ou não irei de maneira alguma. Ando sempre com minha arma na cintura. Ou os senhores vão supor que com uma simples pistola vou lhes tomar toda a frota espacial? Segundo, tenho minhas naves auxiliares. Também não se preocupem em me querer mostrar, entre as naves todas que me cercam, qual é a sua. Parece que o druuf desistiu de fazer novas exigências. — Eu o espero. Sua nave auxiliar receberá um sinal para me encontrar. Julian Tifflor interrompeu a ligação. Voltou-se para seus homens e disse:

— Começa a ficar sério. Tschubai e Marshall preparemse para ir comigo. *** Comunicaram a Door-Trabzon que num setor do espaço, não muito distante da Wa-Kelan, que vagarosamente estava sobrevoando a zona de superposição, foram localizadas duas naves estranhas. Door-Trabzon sentia-se tremendamente confuso. Estas duas naves deviam pertencer ao mesmo povo, por voarem assim sempre juntas. Mas até agora Door-Trabzon não sabia de outra coisa a não ser que deveria encontrar, mais cedo ou mais tarde, uma nave dos terranos. Quando os rastreadores lhe deram as dimensões exatas destas duas naves, sua confusão chegou ao clímax. Não eram em nada inferiores às poderosas unidades de DoorTrabzon. Eram verdadeiros gigantes do espaço com uma potência de fogo que poderia obscurecer, por algum tempo, um sol de grandeza média. Um tanto precipitado, Door-Trabzon ordenou que os dois aparelhos estrangeiros fossem cercados e atacados. Para agir com maior segurança, colocou à disposição do ataque duzentos encouraçados. Mal, porém, iniciaram a perseguição, uma das duas naves entrou em contato com Door-Trabzon, afirmando que ali se achavam em missão de paz e, no tocante a seus planos, estavam de comum acordo com o regente de Árcon. Isso esfriou o ânimo de Door-Trabzon. Cancelou suas ordens e deu instruções para que os duzentos encouraçados se mantivessem a uma distância maior, aguardando o desenrolar dos acontecimentos. E, logo em seguida, se dirigiu pessoalmente para o local, para ver de perto as coisas. Mas antes que lá chegasse, recebeu uma mensagem sucinta de Árcon, dizendo que o comandante supremo da Terra tinha resolvido tomar parte pessoalmente na caça à nave desertora e que esta resolução de Perry Rhodan parecia muito plausível e mesmo desejável ao regente robotizado. Esta notícia deixou Door-Trabzon boquiaberto. Primeiro, porque Perry Rhodan era um nome que já havia penetrado nas Galáxias já há muitos decênios e segundo, porque Door-Trabzon sabia das relações entre a Terra e Árcon, ou melhor, entre Perry Rhodan e o regente, para compreender como Rhodan podia andar livremente entre as unidades arcônidas da frota de reconhecimento e da frota de bloqueio. Door-Trabzon sabia, porém, que os avisos de Árcon valiam por ordens. Tinha que se sujeitar incondicionalmente a eles. Sua opinião, porém, era de que Perry Rhodan não faria uma viagem tão longa só por causa de uma nave de desertores, se não houvesse atrás de tudo isto uma vantagem muito substancial. Mas sua opinião particular não valia nada, se não conseguisse convencer o regente da veracidade de seus argumentos. Tentou fazer isto, mas o momento lhe era muito inoportuno. 92


O regente estava ocupado demais para atendê-lo. *** Door-Trabzon não podia imaginar com o que o regente estava tão ocupado no momento. O regente se recordou da suspeita externada pela teoria das combinações, quando se soube pela primeira vez da comunicação de Perry Rhodan sobre a nave desertora. Certa taxa de possibilidade, que de maneira alguma podia ser desprezada, falava que o negócio dos desertores era simplesmente um blefe. Até agora, porém, a teoria das combinações não podia se pronunciar sobre quais os objetivos deste blefe, isto é, se este seria de tal importância, podendo, a partir dele, ser montado um plano de grande envergadura. Neste sentido é que eram dadas as instruções do regente. Todos tinham de estar muito atentos, agora, para descobrir a rota das duas naves terranas. Tinham que se comunicar imediatamente com o regente, sobre qualquer manobra das duas naves de Perry Rhodan. Entretanto, o regente esperava impaciente que os trabalhos com a teoria das combinações, devido às mais recentes informações, pudessem adiantar maiores possibilidades, a fim de que houvesse tempo suficiente para formular um plano de emergência. É claro que o regente não ignorava que a Terra sobreviveria ou desapareceria com Perry Rhodan, isto é, o destino de Perry Rhodan se identificava com o da Terra. Ainda há poucos meses, quase que Rhodan caiu prisioneiro em suas mãos. Aqui estava uma segunda oportunidade. Talvez com esta viagem, estaria selado o fim da carreira gloriosa de Rhodan. O regente era um robô. Como tal só podia agir segundo o princípio da maior vantagem. Assim, não conhecia a palavra escrúpulo. *** Por sua vez, Perry Rhodan seria um louco ou bobo se não soubesse de tudo isto. Os dois gigantes do espaço, Drusus e Kublai Khan estavam de prontidão permanente. Em qualquer fase dos acontecimentos, sua velocidade era suficiente para uma transição imediata. Uma grande quantidade de postos de rastreamento controlava os movimentos das naves arcônidas e dariam logo o alarme, assim que se aglomerassem ou se aproximassem demais, pondo em risco a garantia da Drusus ou da Kublai Khan. Mas não era ainda este o caso. Rhodan calculara bem: o regente não tomaria nenhuma iniciativa, enquanto não soubesse o que os terranos pretendiam. Quando soubesse, haveria de atacar, com a rapidez de um raio e com muita ganância. Isto é, um ataquerelâmpago, feito por milhares de naves e de tal forma que os envoltórios de proteção dos dois gigantes terranos seriam ultrapassados e, sob a violência do fogo concentrado, tais gigantes seriam destruídos. Perry Rhodan sabia que sua vida não valeria um vintém, se fosse confiar nas promessas do regente. Falavam de união para a cooperação, de boa vontade, etc. Mas, melhor

do que ninguém, Rhodan sabia que se podia programar um grande computador para uma mentira perfeita. A presença das duas espaçonaves terranas tinha dupla finalidade. Primeiro, era dar assistência a Julian Tifflor e à Infant, tão logo eles precisassem. Segundo, era necessário manter ligação com a base Hades, situada no Universo dos druufs. Ninguém podia prever os acontecimentos que se desencadeariam com a penetração da Infant no espaço dos druufs. De um momento para o outro, podia surgir um ambiente que forçasse Hades a intervir nos acontecimentos. E já que Hades quase não tinha possibilidade de informar sobre a situação, a Drusus e a Kublai Khan ficariam de prontidão. Rhodan estava consciente dos riscos que assumia neste empreendimento. Estava certo de não se ter descuidado de nada. Mas não sabia que chegaria o momento em que todas as precauções se tornariam inúteis... *** Já o tinham avisado de que o druuf era como um personagem de pesadelos. Mas, apesar de tudo, quando um deles lhe apareceu diante dos olhos, teve que fazer força para disfarçar o choque. Aquele que estava ali na sua frente devia ter mais de três metros de altura! Mas logo lembrou-se do tamanho das construções desses seres, e sentiu-se menos chocado. O druuf estava de pé, sobre suas pernas-colunas. Somente elas já passavam da cabeça de Tifflor. As pernas sustentavam um corpo quase cúbico, em cima do qual achava-se uma cabeça redonda, um pouco maior que uma bola oficial de futebol. A cabeça, completamente sem cabelo, tinha quatro cavidades oculares e uma boca triangular. No restante do corpo também não havia pelo. Da forma cúbica do tronco, pendiam dois longos braços, que, como Tifflor sabia, terminavam em dedos muito finos. Não se podia notar agora a tal finura dos dedos, devido à luva do uniforme espacial. Como Tifflor já esperava, o oficial druuf trazia o pequeno transdutor idiomático. Parecia que já tinha gravado alguma coisa, pois quando os terranos entraram, ainda ouviram um ruído qualquer, depois o aparelho falou: — Estou sozinho, mas pode perder as esperanças, pois meus homens estão a postos. Tifflor fingiu não ter ouvido esta advertência. Precisava de algum tempo para contemplar o druuf e reprimir o choque inicial. Fez depois um aceno com a mão e respondeu à altura: — Não tenha receio. Não viemos para cá com a finalidade de prejudicá-los. Olhou em volta. O aspecto do ambiente dava uma impressão estranha, quase grotesca, para os parâmetros terranos. Bem no meio do recinto havia uma construção, do tamanho aproximado de uma pequena casa de campo, que devia ser o posto de comando, devido aos dispositivos de 93


alavancas, interruptores e medidores. As alavancas eram mais compridas que uma barra de ginástica. A maior parte dos aparelhos, do ponto de vista dos terranos, só poderia ser manobrada com as duas mãos. Ao longo de toda a parede, corria uma enorme tela panorâmica, mostrando o fundo vermelho-escuro do espaço, com uma infinidade de estrelas. Dos muitos instrumentos que se viam abaixo da tela panorâmica, Tifflor não conseguiu identificar nenhum. A tecnologia dos druufs era muito diferente da dos terranos. No posto de comando não havia nenhuma poltrona. Para os druufs, com um peso médio de quatrocentos quilos, só mesmo um grande esgotamento podia levá-los a procurar uma cadeira para sentar. E, geralmente, quando se sentavam para descansar, o esforço para se levantar era tão grande, que ficavam mais cansados ainda. A gravitação em Druufon era de 1,95 do normal, portanto, quase o dobro da gravitação terrana. Provavelmente, dentro das naves dos druufs, a gravitação era a mesma do planeta. No entanto os terranos nada sentiram isto porque usavam uniformes com absorvedores automáticos antigravitacionais, que lhes garantiam a mesma gravitação habitual da Terra, onde quer que estejam. — O senhor possui, portanto, informações de que os arcônidas, como os senhores os chamam, pretendem nos atacar. Julian Tifflor olhou para o druuf. Era difícil saber em que direção ele estava olhando. Os druufs eram descendentes de insetos. Seu campo de visão era dividido em centenas de pequenas facetas. Isto deixava Tifflor um tanto constrangido. — Sim — foi sua resposta seca. — Qual é sua fonte de informações? As palavras que o druuf pronunciava no transdutor não podiam ser ouvidas pelos terranos. Os órgãos fonadores dos druufs produziam ruídos em ultrassom. A língua dos druufs era uma confusão de fonemas em ultrassom de alta frequência. — Participei de algumas conversações que se realizaram por meio de intercomunicação, entre a Terra e Árcon — explicou Tifflor. — Qual foi o assunto tratado nestas conversações? Tifflor não podia saber o quanto os druufs entenderiam da mímica dos terranos. Mas de qualquer maneira, tentou dar a impressão de estar impaciente e aborrecido. — Preste atenção — disse ao druuf. — O perigo é iminente. O ataque dos arcônidas virá de repente, e o senhor fica aí fazendo perguntas supérfluas como se ainda dispusesse de meio ano para estudar o assunto. O senhor tem credenciais para receber minhas informações? Desejo que me leve para seu país, para que lá eu possa expor a seu governo o que me traz até aqui. Não se podia perceber se o druuf estava ou não impressionado. Mas Tifflor respirou mais tranquilo. Tinha acabado de executar a parte mais importante de sua

incumbência. E estava certo de tê-la feito com perfeição. Nenhum psicólogo da Terra teria percebido que todo aquele seu rompante de cólera era fruto de um frio raciocínio, bem calculado, cuja finalidade era apenas convencer o druuf de que sua fuga da Terra tinha realmente algo que interessasse aos objetivos de Druufon. Após curta hesitação, veio a resposta do druuf: — Como posso saber se você não é de fato um falso amigo? Tifflor estava exultante de alegria. A resistência estava quebrada. Ele teria de entrar em contato com Ernst Ellert, que era um cientista de Druufon, e por intermédio dele fazer chegar sua mensagem ao governo de Druufon. Só aí sua missão poderia ter sucesso, isto é, conseguir convencer as altas autoridades do perigo iminente dos arcônidas, iniciando imediatamente um contragolpe fulminante. — Isto o senhor não conseguirá saber — respondeu Tifflor, evasivo. — Mas o senhor pode se informar a respeito. Além disso, devo lhe dizer que esperava mais consideração por sua parte. Expus-me a uma série de perigos para vir preveni-los da iminência do ataque arcônida. Parece que isto interessou muito ao druuf. — Perigos? O senhor não teve escolta de proteção? “Santo Deus” pensou Tifflor, “será que o homem que nos arrastou para cá não observou o que aconteceu?” — Claro que não tínhamos nenhuma escolta. Saímos da Terra como fugitivos, como desertores, se é que o senhor vai compreender isto. — O senhor fugiu? Por quê? — Porque de outra maneira não podíamos preveni-los do perigo. A Terra está em negociações com Árcon, não que ela vá auxiliar os arcônidas, mas espera deles apenas um armistício. É claro que estaria fora da linha de conduta da Terra avisá-los do ataque iminente de Árcon. O senhor compreende isto? — Não muito. Dizem que na sua terra há liberdade de expressão. Cada um pode manifestar seu pensamento. Por que então os senhores não poderiam ter também uma opinião diferente de seu governo? Pela primeira vez Tifflor teve a impressão de que o druuf estava querendo brincar de gato e rato. Julian Tifflor olhou para John Marshall, que era telepata. Mas Marshall lamentou nada poder fazer. — Sou oficial da Frota Terrana — respondeu Tifflor, medindo bem as palavras. — Somente a frota dispõe de espaçonaves com que se pode penetrar no Universo. Mas todo elemento da frota depende das ordens do comandante. E estas ordens dizem claramente que todas as negociações entre a Terra e Árcon sobre o ataque iminente são extremamente sigilosas. Quem obedece às ordens, não pode, pois alertá-los do perigo, e quem não obedece será julgado e condenado. Nós tivemos que sequestrar uma espaçonave e, aproveitando uma noite de muita neblina, fugimos. Assim estão as coisas para nós. E agora, vem o 94


senhor e nos trata como bandidos ou assaltantes de rua. Quero ser levado para Druufon para falar com as autoridades responsáveis e não perder tempo aqui no espaço com um simples capitão. Esta última frase foi dita de propósito para fazer o druuf perder a calma, obrigando-o a “destampar” seus pensamentos mais secretos. Mas isto só daria resultado se os druufs fossem tão vaidosos como os homens. E certamente não o eram. O druuf continuou completamente calmo e descontraído: — Sou pessoa mais importante do que o senhor pensa e, dentro em pouco, o senhor se convencerá disso. Julian Tifflor ouviu uma série de ruídos diferentes. Olhou em torno e percebeu que as portas da sala de comando se abriam. Entravam mais druufs, verdadeiros gigantes de pele parda, ao todo quinze. Fecharam um círculo em volta dos três terranos. Tifflor pressentiu que algo não estava saindo certo, mas não sabia o que era. Os quinze druufs não davam impressão de hostilidade. Estavam ali e ninguém podia saber em que direção estavam olhando. — Responda-me ainda, por favor, só mais uma pergunta — disse o comandante. Tifflor observou que estava usando pela primeira vez a palavra, “por favor”. — Por que razão o senhor fez tanto sacrifício para nos alertar do perigo do ataque arcônida? Por pura amizade? Tifflor comprimiu os olhos. Esta pergunta tinha que vir, e ele não se atrapalhou: — Não! — disse numa excitação simulada. — É porque odeio os arcônidas. Houve algum movimento, de repente, entre os druufs em volta. Cabeças se levantaram e os olhos facetados brilharam. Tifflor tinha certeza de estarem confabulando entre si. Seus sons, porém, não penetravam nos ouvidos humanos. Somente depois de alguns instantes foi que o comandante se virou para Tifflor. Do transdutor idiomático veio a voz mecânica: — Somos de opinião de que o senhor está falando a verdade. Tínhamos também quase a certeza de que sabíamos do ataque, mesmo antes de sua chegada aqui. Todos os preparativos já foram tomados para nos defendermos do ataque arcônida. O senhor não precisa mais convencer nossas autoridades, já estão convencidas. “Em vista disso, não lhe será mais necessário o penoso caminho para nossa pátria. Nós lhe somos muito gratos e estamos certos de que os senhores nos vão auxiliar. Por isso lhe fazemos um pedido: fique aqui conosco e assuma o comando de uma parte da frota. O senhor está a par de nossa inferioridade em relação aos arcônidas, no tocante à presteza de reação e, consequentemente, no que diz respeito à velocidade de nossas naves. Fique conosco e nos ajude, para que pelo menos uma parte da frota reaja com presteza às manobras dos arcônidas e possa ter mais sucesso. É o

que lhe pedimos.” Tifflor sabia agora que todo seu plano estava se diluindo. E não havia como escapar. Causaria enorme suspeita se recusasse o pedido. Além disso, o pedido era justo e ele deveria ter pensado nisto, antes que os druufs chegassem a esta ideia. Não podia voltar atrás, tinha que dizer sim. Uma recusa não iria adiantar nada para os objetivos do plano. Os druufs teriam razão para suspeitar e o haveriam de levar à força para Druufon. Estaria então tudo perdido. Sem a participação de Ernst Ellert não haveria sucesso, nem mesmo parcial. Tifflor fez um grande esforço para esconder seu desânimo. — Naturalmente e com todo prazer, haveremos de ajudá-los a derrotar os arcônidas — disse num grande esforço para simular sinceridade.

6 O plano era deixar os druufs desesperados. Não havia dúvida alguma de que Ernst Ellert, isto é, o cientista druuf Onot, conseguiria tal ação com o auxílio dos supostos desertores. Os druufs deveriam ser induzidos a realizar uma incursão no espaço de Einstein: uma coisa naturalmente com que os arcônidas não contavam. Os terranos haveriam de instruí-los como prejudicar os interesses dos arcônidas, por exemplo, atacando separadamente suas bases mais afastadas e destruindo seus pontos de grande comércio. É claro que os arcônidas pagariam na mesma moeda, mas também isto estava dentro dos planos, pois toda a estratégia das idéias terranas tinha a intenção de fazer druufs e arcônidas se digladiarem alucinadamente, causando mutuamente pesados danos. Assim, a Terra, fora da briga, seria realmente a vencedora, a maior beneficiária. Mas este plano já estava caducando! Os arcônidas, naturalmente, não pensavam em atacar os druufs no Universo que era seu habitat. Pelo menos não em futuro próximo. Toda a movimentação da enorme frota arcônida, que tanto tinha impressionado os druufs, possuía como único fim, para o regente robotizado, prender a espaçonave terrana, tripulada pelos “desertores”. Assim sendo, não se chegaria a nenhum combate, a não ser de um ou outro posto avançado. O enfraquecimento substancial do poderio arcônida e das forças dos druufs, realmente não se daria, pois, sem os documentos falsificados, que o cientista Onot forneceria ao governo de Druufon, apontando o calcanhar de Aquiles do Império Arcônida, os druufs jamais teriam coragem de sair para o espaço de Einstein e atacar seu grande adversário. Conheciam de sobra suas limitações e não duvidavam de sua inferioridade. Julian Tifflor estava, pois, de mãos atadas. Poderia tentar fazer com que os comandantes druufs fizessem uma 95


ou outra investida contra os arcônidas e os pegassem de surpresa. Mas mesmo nestes casos avulsos, os comandantes não podiam agir sem instruções do governo. A aprovação dos projetos de Tifflor era uma coisa que levava muito tempo, e exatamente tempo era a mercadoria que não sobrava para a Terra... Dentro de poucos meses estaria fechada a brecha na região de superposição. Não haveria então mais ligação entre os dois Universos e nenhuma possibilidade para que os dois adversários se desgastassem em ataques mútuos. Visivelmente abatido, Julian Tifflor se preparava para sua nova função de comandante de uma frota dos druufs. Estava certo de que nesta nova posição não poderia fazer nada. Não conseguiria tramar nenhum combate de vulto. Os druufs ficariam de um lado e os arcônidas de outro, e até que a brecha na zona de superposição se fechasse o máximo que podia ocorrer eram simples escaramuças, sem maiores consequências. Mas a linha básica do plano era a destruição de quarenta ou cinquenta mil naves! *** Gucky, o rato-castor, deu uma olhada para dentro da sala de comando, através do gradil dos aparelhos de transmissão. Depois fechou os olhos e comprimiu o botão que já estava há tempo sob a sua pata. Não sentiu nada. Mas quando abriu de novo os olhos, estava num recinto de grandes blocos de pedra, onde havia uma série de aparelhos, iguais àquele onde ele se encontrava, há pouco, a bordo da Drusus. Viu alguns homens de pé diante da grade do transmissor. Mas não se demorou com eles. Queria “ouvir”. Concentrou-se em seus sensores telepáticos, tentando captar os sinais que o homem irradiava. E conseguiu captá-los. Era um zunido muito baixo, mas nítido. Vinham dos fundos do recinto, e Gucky não teve dificuldade em perceber, por estes sinais, que o homem que os irradiava ainda gozava de saúde perfeita. O sinalizador que ele trazia no próprio corpo era um aparelho semiorgânico, cujo funcionamento dependia totalmente da capacidade física de seu portador. Gucky sentiu-se feliz. Julian Tifflor encontrava-se nas imediações, pelos cálculos de Gucky, a alguns bilhões de quilômetros, e o sinalizador telepático, que Tifflor carregava como uma espécie de radiofarol parapsicológico funcionava com a capacidade normal. Neste meio tempo, os homens lá fora abriram a porta do transmissor. Gucky saiu equilibrando elegantemente sua volumosa cauda, para a qual havia um abrigo especial no seu uniforme espacial. É claro que os homens começaram a rir. Gucky percebeu e respondeu com um olhar de indiferença. Estava, há muito, acostumado com o fato de os homens o acharem engraçado e rirem de sua aparência. Era uma mistura de rato com castor, que, por um descuido da natureza, crescera demais. É verdade que os homens tinham

uma infinidade de lendas nas quais apareciam animais inteligentes que falavam e agiam racionalmente. Mas, quando davam de cara com um rato-castor que falava e pensava igual ou melhor do que eles, não sabiam o que fazer de estupefação, a não ser... rir. Gucky sentou-se sobre as patas traseiras, apoiando-se com a longa e volumosa cauda. Fez um grande esforço para emprestar ao seu focinho de rato, com olhos arregalados, um ar de grave seriedade e explicou com sua voz chiada: — Deram-me a incumbência de entrar imediatamente em contato com o Capitão Rous. Peço comunicar isto ao capitão. Os homens começaram a rir, mas antes que Gucky pudesse responder, à sua maneira, a esta risada, os homens pararam de repente. O Capitão Rous vinha atravessando o corredor dos transmissores. — Já estou informado — disse ele. — Nossos transmissores captam muito raramente sinais verdes. Deve ter acontecido algo de estranho lá fora, não é? O capitão sabia como Gucky gostava de ser tratado como ser humano e lhe estendeu a mão para cumprimentálo. O rato-castor correspondeu à saudação com um gesto quase gracioso. — Se há alguma coisa por lá? — repetiu com gravidade. — Há, e muito. O Coronel Tifflor e mais quatorze homens penetraram no Universo dos druufs com um velho couraçado. Deve estar falando aos druufs do ataque iminente dos arcônidas. Dizendo isto, piscou um olho, como havia aprendido com os homens. O Capitão Rous não pôde deixar de rir. — Não estou compreendendo bem o conjunto das coisas. Mas você me haverá de explicar tudo, não é verdade? — Naturalmente — confirmou Gucky. — Assim que receber alguma coisa para comer. Marcel Rous contraiu o semblante: — Que pena — disse com voz sincera — não temos cenoura. Gucky deixou à mostra o dente de roedor e esboçou uma espécie de sorriso. — Não tem tanta importância assim — disse Gucky concordato. — Em caso de emergência eu me contento com qualquer tipo de conserva. Todos riram. Cada um dos homens procurava descobrir o que podia oferecer ao hóspede. E Gucky, que adorava todo tipo de brincadeira, principalmente as alegres “escaramuças” verbais, deu sua contribuição para que todos se divertissem. Cessada a brincadeira, atravessaram o recinto dos transmissores e chegaram ao setor da administração e dos aposentos da tripulação, localizados mais ou menos no centro de uma caverna da base secreta. Durante todo este tempo, Gucky continuava ouvindo o leve ruído do sinalizador telepático que Julian Tifflor trazia “embutido” em seu corpo. Gucky deu a entender que pretendia ficar mais tempo 96


em Hades, pelo menos até que a missão de Tifflor tivesse dado bom resultado e pudesse voltar seguro à Terra com a Infant. Deram-lhe um alojamento e lhe trouxeram boa comida. O Capitão Rous lhe fez companhia por muito tempo, enquanto os outros homens voltaram para seus postos. Gucky aproveitou o ensejo para expor ao capitão a situação no Universo dos druufs e no espaço de Einstein. O plano era bem claro, e o Capitão Rous o compreendeu facilmente. Compreendeu também que a base secreta de Hades, instalada num dos planetas do sistema Siamed, passaria a ter então uma importância capital nos acontecimentos, assim que a situação de Tifflor se tornasse perigosa ou no caso de sua missão se tornar falha. Enquanto o capitão se preocupava com a seqüência dos acontecimentos e procurava prever os golpes futuros, Gucky, com toda a calma e com todas as boas maneiras de um cavalheiro, saboreava o conteúdo de duas latas de conserva. Não dava mais atenção a Rous nem ao fino sibilar dos sinais dos transmissores. Estava mesmo com fome e queria apenas saciá-la. Talvez, quando Gucky acabasse de comer, Rous já teria recebido as notícias pelos rádios, devendo estar a par de tudo. — Diga-me uma coisa — disse Rous depois de uma longa pausa, completamente contra as expectativas de Gucky — o que é... Gucky não ouviu mais nada. Rous continuou falando, mas Gucky não prestava atenção. Alguma coisa estava se passando. Não sabia o que era, mas como possuísse um grande senso de prudência, insistiu em descobri-la. Era como se um relógio parasse de repente. O ouvido habituado ao permanente tic-tac não “sentia” mais seu ruído. Se, porém, o ruído cessasse, o ouvido haveria de perceber uma grande alteração, embora, de início, a pessoa não soubesse do que se tratava. A comparação com o relógio levou Gucky a pegar a pista certa. Como que de um estalo, sabia de repente do que se tratava. Os finos sinais do sinalizador embutido em Tifflor haviam perdido muito em intensidade. Às vezes sumiam completamente, para voltar instantes depois. Isto só poderia ter uma explicação: Tifflor estava em perigo. *** Antes de Gucky deixar a Drusus, para iniciar sua estada de alguns dias em Hades, Perry Rhodan falara muitas vezes com o regente robotizado de Árcon. Sempre conversaram sobre o mesmo assunto: descobrir o paradeiro da nave dos desertores. O regente perguntava admirado por que ainda não tinham chegado à zona de superposição, se sua rota era o planeta dos druufs. E Rhodan dizia que não poderia haver outra explicação a não ser que, se dirigindo de encontro aos druufs, tivessem passado despercebidos pela frota arcônida de bloqueio. Recorrendo à sua teoria das combinações, o computador-regente elaborou para si esta pergunta e a

resposta foi a seguinte: não era realmente impossível a uma nave de porte médio para pequeno passar imperceptível pela frota de bloqueio. A teoria das combinações admitia ainda uma quota de probabilidade não desprezível de que a nave terrana já tinha conseguido penetrar no Universo dos druufs, nas últimas horas. O regente estava então diante de uma situação completamente nova. O que lhe interessava até agora era capturar a nave dos desertores. Não pelo fato de serem desertores. O que o regente tinha em mira eram informações sobre a posição exata da Terra na Galáxia. Fizera tudo para impedir a passagem dos desertores. Tinha mobilizado todo seu poderio espacial. Mais de trinta mil espaçonaves, no encalço de uma só nave terrana. E agora estava quase certo de ter perdido esta oportunidade, pois os desertores já se encontravam no meio dos druufs. O regente começou então a pensar seriamente numa invasão ao Universo dos druufs. Até então havia tentado esquecer esta ideia. O regente robotizado era um computador monstro, uma maravilha da positrônica, mas seus construtores se esqueceram ou julgaram desnecessário lançar nele os conhecimentos científicos, relativos à teoria dos diferentes planos de tempo. Na época em que o regente foi montado, a teoria dos planos temporais ainda estava engatinhando e era considerada pura fantasia de matemáticos malucos. Ninguém poderia imaginar que, um dia, surgiriam problemas que só seriam resolvidos através desta teoria. Foi por este motivo que ela não constava no cabedal, quase infinito, do grande cérebro positrônico. A tudo isto, acrescia ainda o fato de que o regente não tinha o menor senso de tempo. Era uma máquina, uma máquina imortal. Podia contar segundos, mas isto não lhe representava nada. Não podia fazer nada com o conceito tempo. Foi por este motivo que o problema dos druufs, desde o primeiro instante, lhe foi difícil de compreender, para não dizer impossível. Foi obrigado a pedir o auxílio de Perry Rhodan. Quando surgiu a tal zona de descarga, reuniu sua imensa frota em torno dela, contentando-se com o fato de os druufs não tentarem invadir o espaço de Einstein. A questão agora era medir os prós e os contras. De um lado, a incerteza sobre as consequências que podiam surgir de uma invasão maciça do Universo dos druufs. De outro, a possibilidade de aprisionamento da nave dos desertores terranos e, com isso, a obtenção da posição certa da Terra na Via Láctea. Depois de muitas horas de hesitação, o regente se decidiu pela segunda opção. Já que estava provado que a simples presença da frota arcônida na abertura da zona de superposição — a zona de descarga — impedia os druufs de tentarem uma saída para o espaço de Einstein. Estava, pois resolvido que a imensa frota arcônida invadiria o espaço dos druufs. Achou prudente não retirar toda a frota de bloqueio, mas tão-somente a frota que estava sob o comando de Door-Trabzon. Além disso, estavam ali, junto à entrada da zona de 97


superposição, os dois maiores couraçados da Terra, Drusus e Kublai Khan. E o regente esperava matar dois coelhos com uma só cajadada: saber da posição exata da Terra e, ao mesmo tempo, destruir a espaçonave em que estava Perry Rhodan. Rhodan, naturalmente, não poderia saber nada destes planos, embora suspeitasse de que o regente invadiria o Universo dos druufs à procura da Infant. Somente alguns momentos após o salto de Gucky para os transmissores, foi que Rhodan soube que suas suspeitas tinham razão de ser: a frota arcônida estava se movimentando. Vinte mil naves foram mobilizadas para atravessar a zona de superposição e invadir o espaço dos druufs. Vinte mil belonaves estavam a caminho de uma aventura de desfecho duvidoso. E tudo isto para capturar uma velha nave terrana com quatorze desertores. Foi dado o alarme na Drusus e na Kublai Khan! Havia começado a grande jogada. Dentro de poucos instantes se daria o choque das naves arcônidas com a linha de defesa dos druufs. A tática de Perry Rhodan era um exemplo maravilhoso de como, por meio de golpes de inteligência, até mesmo a máquina da lógica, o monstro positrônico imbatível, tinha que se sujeitar à vontade de um homem. A única dúvida era saber se Julian Tifflor e a Infant se achariam no meio da confusão, quando começasse o ataque, ou se já estariam seguros em Druufon. *** Julian Tifflor teve que se desfazer da Infant. Fê-lo com muito pesar no coração, e somente depois de ponderar todas as hipóteses. Os doze homens restantes, sob a liderança do Tenente Lubkov, tinham sido levados para bordo de uma nave druuf, enquanto que a Infant, poucos minutos após, de acordo com os planos de Tifflor, fora destruída por uma explosão. Foram dois os motivos principais que levaram Tifflor a esta resolução: ele iria ficar a bordo de uma nave druuf, e mais do que nunca iria precisar da tripulação terrana, caso quisesse ter alguma esperança de sucesso. Por outro lado, não podia deixar a Infant nas mãos dos druufs. Ninguém poderia prever o quanto os druufs iriam aprender da tecnologia terrana sobre a construção de espaçonaves. A Infant foi pelos ares. O Tenente Lubkov, o último a deixar a velha nave, ligou o automático das bombas. A nave se reduziu a uma nuvem incandescente de gás, espalhandose pelo espaço e perdendo rapidamente a luminosidade. Meia hora após a explosão, não havia mais o menor vestígio do velho couraçado. Parece que os druufs estavam de acordo. Provavelmente, estes se achavam impressionados com a declaração sincera do coronel de que ele, Tifflor, aderira aos druufs, mais por ódio contra os arcônidas do quê por simpatia pelos habitantes deste Universo tão diferente do seu. Colocava-se como um homem que, apesar de agir

contra a vontade de seus superiores, tudo fazia para não causar nenhum dano à sua pátria, que deixara como desertor. Julian Tifflor já tinha, naturalmente, um novo plano. Embora seu objetivo principal parecia ter fracassado, não queria voltar à Terra de mãos vazias. Havia duas coisas pelas quais valia a pena correr algum risco: primeiro, a proteção antirrastreamento, que facultava às naves druufs se tornarem quase invisíveis; segundo: o misterioso sistema de propulsão que capacitava os druufs a voos mais rápidos que a luz, sem transição, ou seja, sem os saltos para o hiperespaço. Tifflor estava convencido de que a posse destes dois segredos haveria de garantir a supremacia à frota terrana, apesar da superioridade numérica dos arcônidas. Confiaram-lhe o posto de comando. Um grande número de robôs druufs estava à sua disposição, preparados para executar qualquer ordem sua, também prontos para manejarem os instrumentos, caso ele tivesse alguma dificuldade, por desconhecer a tecnologia druuf. Depois que Tifflor assumiu o comando, nenhum druuf mais apareceu na cabina do piloto. Em poucos segundos, Tifflor avaliou bem a situação. Os robôs ali estavam, não somente para executarem as ordens de Tifflor, mas, e talvez principalmente, para a alta missão de controlarem os terranos, impedindo qualquer abuso dos poderes que lhes foram atribuídos. Pois a parcela da frota que havia sido colocada sob o comando de Tifflor tinha ao todo quatorze mil unidades. Equivalia a três vezes mais do que toda a frota terrana reunida. Julian Tifflor ainda estava convencido de que não chegaria a nenhum confronto direto com os arcônidas. Havia instruído sua tripulação sobre seus planos e aguardava a oportunidade para pô-los em execução. É claro que, com a destruição da Infant, alguma coisa lhes estava faltando. Não tinham mais meio de locomoção próprio, com que pudessem escapulir rapidamente, em caso de emergência. Não sabiam manobrar uma nave druuf, e os robôs haveriam de se abster de fazer isso tão logo notassem o que estava em jogo. No entanto, Tifflor via uma remota possibilidade de entrar em contato com a base clandestina de Hades e, no momento decisivo, receber apoio de lá. Naturalmente, mais cedo ou mais tarde, os druufs descobririam que seus hóspedes não aspiravam à outra coisa a não ser ao roubo de dois importantes segredos da tecnologia druuf. Haveriam de comprovar isto no momento em que, em qualquer ponto, à volta da nave capitania druuf surgisse uma espaçonave de Hades para receber os terranos e colocá-los a salvo. Não eram lá muito grandes as chances de conseguirem tal ação. Mas Tifflor era de opinião que a vantagem obtida, a partir daí, poderia ser grande, e valia arcar tranquilamente com o risco inerente.

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7 Ainda não sabia das medidas que Perry Rhodan havia tomado neste meio tempo, para apressar o desenrolar dos acontecimentos. Não podia, pois, supor que suas preocupações, em breve, não teriam mais razão de ser, porque os próximos acontecimentos as dissolveriam. Também não lhe era possível adivinhar a desgraça que se abateria sobre ele... *** E o Universo presenciou a um grande espetáculo! O Firmamento se tornou incandescente, quando a frota arcônida, sob o comando do Almirante Door-Trabzon, irrompeu pela brecha da zona de superposição, a imensa zona de descarga. A garganta afunilada, que até então era de um vermelho-escuro, resplandeceu como sob a claridade de milhares de raios, quando a frota de vinte mil unidades interrompeu, quase extinguindo, a corrente compensadora de energia. O Universo parecia partido em duas metades. De uma, uma parte escura, recebendo apenas a tênue cintilação das estrelas, e, de outra, de um vermelhoamarelado, refulgindo com a energia dos íons. O próprio Perry Rhodan assistia, de respiração presa, àquele espetáculo sem par. Já havia previsto que a invasão de uma quantidade tão exagerada de espaçonaves haveria de alterar a estrutura da zona de contato, provocando uma série de conseqüências de grande alcance. Mas não podia prever que uma destas conseqüências seria tão nítida e de tamanha visibilidade como era o clarão ofuscante de toda a zona de superposição. Dava a impressão de que, num determinado local, o Universo rebentara e na região do rompimento se podiam ver as chamas rubras do verdadeiro inferno. Uma visão inesquecível. Esse fogo infernal durou mais de uma hora. Aos poucos, a excessiva luminosidade foi se reduzindo, voltando ao normal depois de uns vinte minutos. Tudo terminado, ali estava de novo a região de superposição como uma nuvem vermelho-escura, no meio do espaço. A frota de Door-Trabzon já tinha partido e passado pela região de superposição. Havia ficado para trás o resto da frota arcônida, ao todo vinte mil unidades, e as duas espaçonaves terranas, a Drusus e a Kublai Khan, ambas poderosas e majestosas, com energia para dar e vender. Mas em caso de emergência, que podiam fazer sozinhas no meio das vinte mil? Dez minutos após o desaparecimento das naves de Door-Trabzon, Gucky, o rato-castor, regressava para bordo da Drusus, trazendo notícias alarmantes... Julian Tifflor estava procurando familiarizar-se com as instalações técnicas da cabina de comando, quando um dos robôs equipados com transdutores idiomáticos começou a falar:

— Estão surgindo naves estrangeiras. Uma gigantesca frota de espaçonaves cruzou a linha de superposição. Começa, portanto, o ataque arcônida. Julian Tifflor, a princípio, se sentiu meio atordoado, inclinado até a julgar que o alarme fosse uma brincadeira de mau gosto. Lembrou-se, porém, logo depois, que nem mesmo o mais sofisticado robô conseguiria fazer uma brincadeira e, quase ao mesmo tempo, viu na parede, pouco abaixo da tela panorâmica, uma tela menor que se acendeu, mostrando uma infinidade de pontos vermelhos que se moviam no fundo azul. Julian Tifflor conhecia este aparelho. A tela estava acoplada com um dispositivo de rastreamento e outro de registro. O rastreador funcionava na maneira convencional, enquanto o dispositivo de registro determinava se o objeto rastreado era conhecido ou desconhecido. Tratava-se de uma espaçonave inimiga. De acordo com a determinação do registrador, que estava sempre a par da rota das naves dos druufs, o objeto localizado surgia na tela com um sinal verde ou vermelho. Vermelho significava perigo e verde queria dizer amigo ou aliado. Tifflor não perdeu tempo em querer saber de que maneira os arcônidas penetraram no Universo dos druufs. Estavam próximos e era bastante. O que ele tinha de fazer agora era pensar no seu novo cargo de comandante druuf, do contrário os arcônidas haveriam de esmagá-los com suas vinte mil naves, sem que os druufs tivessem tempo de desfechar um só tiro. Deu outra olhada para a tela do rastreador, procurando ter uma ideia do número das naves arcônidas. Oito dos quatorzes companheiros de Tifflor estavam presentes no posto de comando. Os outros seis, ele os distribuíra pelas torres blindadas da nave capitania, colocando-lhes à disposição robôs equipados com transdutores idiomáticos, para que os terranos pudessem transmitir suas ordens. Julgou que isto fazia parte de seu papel como comandante. Mas, de uma hora para a outra, não havia mais papel, o que havia era a dura realidade. Tifflor começou a agir. Depois de receber algumas instruções a respeito, não teve mais dificuldade em ler a tela do rastreador. Notou então que o núcleo da frota arcônida se encontrava no momento a quase cinco horas-luz de distância e se movia a uma velocidade média de trinta e cinco mil quilômetros por segundo. A velocidade estranhamente baixa era para Tifflor uma prova de que os arcônidas estavam hesitantes, com medo. Isto daria aos druufs uma boa chance. — Todas as naves prontas para a partida! — explicou Tifflor ao robô que lhe estava mais próximo. Uma pessoa estranha teria ali a impressão de que o robô não mostrava a menor reação ao comando recebido. Mas Tifflor sabia que o robô estava transmitindo a instrução por via rádio, e os comandantes das outras naves recebiam a mensagem. Para os conceitos de Tifflor, demorou muito até que o robô respondeu: 99


— Todas as naves prontas para a largada. Tifflor se viu obrigado a expor seu plano de combate. Os robôs druufs possuíam uma qualidade fantástica: a duplicidade mental. E isto lhes possibilitava simultaneamente ouvir e transmitir. Tifflor sabia, portanto, que, com a transmissão de suas explicações, não se perdia tempo algum. — Vamos acelerar, dentro de poucos instantes, para velocidade superior à da luz. Não adianta nada chegarmos até os arcônidas como alvos visíveis em campo aberto. São superiores a nós em velocidade e no poder de reação. Só começaremos as manobras de frenagem depois que tivermos deixado para trás a vanguarda da frota arcônida. Desta maneira, vamos aparecer de repente, bem no meio deles. No momento em que aparecermos, abrimos fogo. Os arcônidas ficarão surpresos, embora esta surpresa não dure muito, pois quase todas as naves deles são robotizadas. Depois de rápidos ataques, ficaremos um pouco abaixo da velocidade da luz, a fim de podermos desaparecer a qualquer momento. É tudo. Cada um deve cuidar de si. E agora... vamos! A fantasia de Tifflor tentava imaginar como, nos quatorze mil aparelhos druufs, neste momento, os comandantes agigantados, estariam ouvindo suas palavras através dos receptores de telecomunicação. Que haveriam de pensar, recebendo ordens de um terrano? Tifflor não gostaria de ouvir e receber ordens de um arcônida. Mas as coisas aqui eram diferentes. As naves dos druufs também estavam equipadas com amortecedores antigravitacionais, como as da Terra. Não se sentia nada, mesmo com a nave na mais alta velocidade. Nem mesmo a imagem da tela panorâmica sofria qualquer influência. Os pontos de luminosidade fosca das demais naves moviam-se na mesma direção e com a mesma velocidade, tal qual a nau capitania. Já há uns instantes atrás, o Tenente Lubkov tomara seu lugar numa mesa de comando. Precisava fazer grande esforço para acionar a grande alavanca e os demais controles. O principal, porém, era que ele sabia a função de cada um daqueles comandos. — Diga a Fryberg que o barulho vai começar — ordenou-lhe Tifflor. — Precisa explicar aos druufs que devem atirar o mais rápido possível e sem parar. Diga-lhes que temos à nossa frente mais ou menos vinte mil espaçonaves arcônidas e que nossa vida depende da velocidade de nosso ataque. — Perfeito, senhor — respondeu ele. Depois se levantou e, passando para o outro lado da mesa, pegou no cabo da enorme alavanca, que ultrapassava o quadro de comandos. Pegou-o no ponto mais alto possível, levantando-se para isso nas pontas dos pés, de maneira que todo o peso de seu corpo ficou dependurado na alavanca. Isto fez com que esta cedesse um pouco. Foi abaixando devagar. Lubkov veio-lhe em auxílio, conseguindo os dois abaixá-la completamente.

Pela viseira do capacete, Tifflor viu que o suor escorria pela face do tenente, que continuava sorrindo. Lubkov repetiu palavra por palavra o que Tifflor dissera. Fryberg fez um gesto afirmativo e acrescentou: — Se eles souberem atirar tão rapidamente como nós, os arcônidas serão facilmente aniquilados. Tenho receio de que o negócio não vai depender só de nós. Julian Tifflor ouviu sua resposta e lhe deu razão. Quando aparecessem no meio dos arcônidas, os druufs começariam a atirar. Mas como? Levariam mais tempo para localizar o alvo, do que os robôs arcônidas para se refazerem da surpresa e organizar a resistência. Como é que os aparelhos de Árcon penetraram assim tão depressa e em tão grande quantidade no espaço dos druufs? Julian Tifflor estava correndo este risco todo, para se apoderar de dois segredos e poder transmiti-los à tecnologia terrana. Mas, enfrentar uma gigantesca frota dos arcônidas a bordo de uma nave druuf, com uma tripulação cuja capacidade de reação era exageradamente lenta, era bem outra coisa. Seu nome verdadeiro seria suicídio. Mesmo sem se deixar abater, Tifflor estava pensando neste assunto, enquanto a nave mantinha sua aceleração e enquanto na tela panorâmica já se podiam ver as consequências do duplo efeito. O mecanismo de propulsão dos druufs era muito potente. Bastariam poucos minutos para se atingir a velocidade do ponto crítico, ultrapassar o contínuo quadridimensional e começar a mover-se num espaço superior, sem contudo perder de vista o Universo de quatro dimensões. O tempo era curto demais e os acontecimentos se precipitavam de tal forma, que Tifflor não podia tomar uma resolução clara sobre se continuava na rota inicial ou se devia tentar chegar até à base de Hades. A única coisa, bem clara no seu subconsciente, era o seguinte: no plano primitivo estava previsto que os druufs e os arcônidas deviam se dizimar em ataques recíprocos. O plano como tal falhara, mas seu objetivo verdadeiro estava se concretizando por si mesmo. Os arcônidas iriam atacar e, dentro de quinze minutos, teria lugar uma batalha espacial, como nunca houve na história. Vinte mil naves arcônidas investiriam contra quase o dobro de naves druufs. Os danos seriam pesados, dos dois lados. Frotas inteiras seriam destruídas — tal e qual previa o plano primitivo. E os quinze terranos, envolvidos nesta catástrofe, não teriam função nenhuma? Não, eles tinham uma missão muito importante. Os druufs, de antemão convencidos de sua flagrante inferioridade, iriam logo ao começo dar a batalha como perdida e haveriam de fugir. Os prejuízos dos arcônidas seriam relativamente pequenos. Somente quando a frota comandada por Julian Tifflor provou que era possível enfrentar com sucesso os arcônidas, foi que o resto da força espacial druuf se mostrou inclinada a tomar parte ativa na luta e causar grandes danos ao adversário. Tifflor chegou à conclusão de que, absolutamente, não 100


era possível voltar atrás. “Aqui está a oportunidade que nós esperávamos”, pensou o coronel, “e, mesmo que nos custe a vida, ainda é um preço muito pequeno para a sobrevivência da nossa querida Terra.” Resolveu não pensar mais no assunto e dedicou toda sua atenção em observar o que acontecia com a nave enquanto a aceleração atingia o ponto crítico. *** O acontecimento em si não foi nada de sensacional. A alteração do colorido na tela panorâmica foi a única coisa que aconteceu. Desapareceu o vermelho-escuro, dando lugar a um preto nebuloso, contra o qual cintilavam com maior brilho as estrelas. A nave druuf já havia deixado o Universo quadridimensional e rumava, com uma velocidade superior à da luz, para o ponto em que pretendia encontrar-se com a frota arcônida. A visão das naves inimigas — os pontos vermelhos na tela do rastreador — ainda era a mesma. O aparelho de rastreamento funcionava independente do meio em que a nave se achasse. Julian Tifflor estava calmo. Não imaginara que as coisas pudessem correr tão bem, como até então. A princípio, julgava que teria de ser comandante de uma nave, cujo curso lhe fosse imposto e cuja direção estivesse nas mãos frias de estranhos robôs. Só o fato de ele poder ver para onde ia sua nave, já lhe parecia uma grande vantagem. Na tela do rastreador, a avalancha dos pontos vermelhos se aproximava com incrível velocidade. Tifflor procurava perceber qual seria a primeira manobra dos arcônidas, quando as espaçonaves inimigas surgissem no meio deles. Mas seus pensamentos estavam confusos. Não conseguiu se concentrar. Olhou para o Tenente Lubkov, que lhe sorriu tranquilamente. Neste momento, ouviu-se o intercomunicador. Era Fryberg quem estava falando: — Não sei — disse para Lubkov — se isto ainda tem importância. Mas o cabo Mainland descobriu nas proximidades da torre blindada um hangar de naves auxiliares. O hangar tem... — Não — interrompeu-o Lubkov. — A esta altura isto não tem mais importância alguma. — Continue falando, sargento — ordenou-lhe Tifflor antes que Fryberg desligasse. — O assunto me interessa muito. Fryberg pigarreou e continuou: — Há um grande aparelho aqui no hangar, Sir. O cabo Mainland informou-se com um dos robôs e ficou sabendo que este aparelho está sempre preparado para decolar. Há um druuf sentado no posto do piloto, vigiando o aparelho. Ele faz o papel de piloto quando esta nave auxiliar é utilizada. E... parece que este aparelho alcança a velocidade da luz, senhor. Tifflor olhou de novo para a tela do rastreador. Conforme seus cálculos faltariam poucos segundos para

que as naves druufs começassem a frenagem e iniciassem o fogo cerrado. — Avise a Mainland — ordenou ele — que não se preocupe mais com o aparelho auxiliar. Informe a todos, com muita discrição, que se a situação ficar impossível aqui, nós fugiremos com este aparelho. Lubkov ou eu daremos a ordem para isto. Ninguém deve agir por conta própria, entendeu? — Entendido, senhor — respondeu Fryberg, desligando logo após. Julian Tifflor virou-se para trás. Fez todo o possível para manter a conversa em tom muito baixo. Os robôs estavam tão preocupados com seus afazeres — iniciar a frenagem e aparecer de novo no espaço quadridimensional no momento certo — que não podiam prestar atenção em outras coisas. Mas ele não estava muito seguro disto. Esperou ainda uns instantes e só depois que não havia nenhum robô por ali, dirigiu-se a Ras Tschubai, o teleportador. — Tschubai, chegou sua hora — disse ele baixinho e apressado. — Leve Noir com você. Ele tem que tentar sugestionar o piloto. André Noir, o sugestor ou o hipno, como era chamado, estava encostado comodamente contra a parede, ao lado da grande comporta. Ao ouvir seu nome, se aproximou. — Não posso garantir que isto vai dar certo, Sir — disse pensativo. — É um cérebro completamente diferente do nosso. — Tente Noir — insistiu Tifflor. — Agarre-se bem firme em Tschubai. Noir obedeceu. Parou na frente de Tschubai, enlaçou os braços em seu pescoço e deixou que Tschubai o agarrasse pela cintura. O africano fechou os olhos e quase no mesmo instante, os dois, Ras Tschubai e André Noir, dissolveramse. Julian Tifflor esperava que os dois chegassem sem dificuldade a seu objetivo. Dedicava agora toda atenção, novamente, aos robôs. Um dos homens-máquina virou-se e disse: — Estamos no momento exato. A luta pode ser iniciada. No mesmo instante, o firmamento vermelho-escuro do Universo druuf iluminou-se nas telas da sala de comando. Entre as estrelas cintilantes, pairavam os pontos luminosos da frota arcônida. Eram como uma nuvem de gafanhotos, alucinantemente numerosos. — Fogo com todas as baterias! — exclamou Tifflor. — E vamos para frente. Um dos robôs transmitiu suas palavras na língua dos druufs. Tifflor não tirava os olhos das telas, aguardando com grande excitação os primeiros relâmpagos. E eles vieram. A pouca distância das naves druufs surgiu um novo sol de uma claridade ofuscante. Era uma bola incandescente que se avolumava, crescendo em poucos segundos até o tamanho de uma lua cheia e depois se desfazendo numa nuvem de gás. Outra bola de fogo surgiu ao lado. Quando a 101


primeira estava se apagando, a segunda atingiu o maior grau de incandescência. De um momento para o outro, o Universo vermelhoescuro estava congestionado de bolas incandescentes. E num avanço curioso, a frota dos druufs ia ceifando, às centenas, as filas imensas das naves arcônidas. Sem serem vistos, os raios energéticos das baterias atingiam os adversários, transformando-os em pequenos sóis. Morte e destruição reinavam nas hostes arcônidas. Em poucos minutos, haviam perdido mais de oito mil naves. Mas, de qualquer maneira, já se haviam refeito da surpresa inicial e estavam se adaptando à nova situação. Sabiam agora onde estava o inimigo e a positrônica central indicava que somente um contra-ataque imediato poderia salvar a gigantesca frota de um colapso total. E veio o contra-ataque! As bolas incandescentes iluminaram de novo o espaço. Mas desta vez a destruição e a morte se espalhavam mais pelo lado dos druufs. Julian Tifflor ordenou retirada imediata para o espaço superior. As naves druufs aceleraram novamente e tomaram outra rota, que, num ângulo agudo com a órbita de até então, conduzia para fora da zona ocupada pelos arcônidas. Mais ou menos doze minutos depois de surgirem repentinamente entre os arcônidas, desapareceram de novo. Nestes doze minutos perderam cerca de dois mil aparelhos. Tifflor parou para respirar. O primeiro round lhes fora plenamente favorável. Sabia que o resto da frota teria agora coragem para repetir outro golpe semelhante. Já conheciam a receita: surgir de repente, atacar rapidamente e fugir. Mas de qualquer maneira, o resultado final do combate ainda era um ponto de interrogação. É claro que, no segundo ataque, os arcônidas não iam levar mais três minutos para se adaptar à situação. E os druufs sabiam muito bem que eles eram muito mais rápidos e muito mais concentrados no seu ataque. Julian Tifflor deu algum tempo para que as naves que se haviam desgarrado durante a peleja, se reunissem novamente. Nas telas, tendo como fundo o preto nebuloso do hiperespaço, ainda se viam os últimos vestígios das naves destruídas, em forma de pequenas nuvens alvacentas. Julian Tifflor estava mesmo resolvido a um segundo ataque. Pela movimentação dos pontos vermelhos na tela do rastreador, era evidente que os arcônidas não tinham desistido de sua intenção, isto é, penetrar ainda mais no Universo dos druufs. A frota arcônida vinha em linha reta da zona de descarga, na direção do centro do sistema Siamed. A velocidade havia também aumentado. Deviam estar a oitenta mil quilômetros por segundo. Por parte dos druufs não havia nenhuma objeção contra um novo ataque. Julian Tifflor manteve a frota que estava sob seu comando em posição de alerta, até que na tela panorâmica surgissem novos pontos brilhantes, indicando que também o restante das naves já estava em condições de partir. Só então permitiu a partida de suas naves. Duro e sem

piedade, como na primeira vez... Quando sua frota, depois da manobra rápida de frenagem, emergiu do hiperespaço e entrou de rijo na luta, o Universo vermelho-escuro incandescia no brilho ofuscante de milhares de sóis. O número de pontos verdes na tela do rastreador havia diminuído. Os arcônidas não se deixaram mais surpreender, como na primeira vez. Mais de três quartos das bolas incandescentes provinham das naves druufs. A lentidão de suas tripulações era-lhes uma verdadeira desgraça. Mas o ataque mais rápido da nau capitania de Tifflor pelos flancos do inimigo deu novo alento aos druufs. A frota arcônida, atacada simultaneamente e maciçamente dos dois lados, abriu-se, formando duas alas. Assim, os arcônidas não conseguiam mais concentrar o fogo de dez ou mais naves sobre um único alvo, destruindo assim seu envoltório de proteção logo na primeira saraivada de disparos. Os druufs se recuperaram um pouco do desânimo sobre suas primeiras perdas. A nau capitania de Julian Tifflor, juntamente com cinqüenta naves dos druufs, abriu caminho por entre um grupo de aparelhos arcônidas, desgarrados dos demais, grupo este de mais ou menos quarenta unidades. Tifflor sabia que estava enfrentando um grande risco. Se os arcônidas tivessem a oportunidade de concentrar o fogo de dez aparelhos numa única nave druuf, era uma vez uma espaçonave... O que estava dando mais força a Tifflor nestes momentos era a coordenação verdadeiramente surpreendente das unidades dos druufs entre si, durante as refregas. Dava a impressão de que aquela infinidade de naves de origens diferentes pertencessem a uma só frota e estivessem muito treinadas. Os enormes danos que as forças de Árcon estavam sofrendo deviam ser atribuídos mais a esta coordenação dos druufs do que à reação inteligente e rápida de Tifflor. Tifflor deu a ordem de atacar, ainda quando as forças arcônidas estavam a uma distância de quarenta mil quilômetros. As naves dos druufs tinham ajustado sua velocidade pela dos arcônidas. Era como se os aparelhos estivessem parados no espaço. Mais uma vez, luziam as bolas de fogo. Seu clarão ofuscante se estendia até ao centro da grande aglomeração das forças arcônidas, que pareciam completamente desorientadas. Não se notava o menor sinal de reação por parte delas. Pelo menos assim pensava Tifflor, até que, de repente, faltou-lhe o chão sob os pés e foi atirado para cima. Bateu com a cabeça no teto, com bastante força. Um pouco mais lentamente do que a catástrofe que sobre ele se abatia, seu amortecedor antigravitacional reagiu à nova situação, colocando-o de novo de pé no chão da nave. A cabeça lhe doía barbaramente e seu estado geral era péssimo. Ouvia muita gente gritando, inclusive a voz de Lubkov, mas não entendia nada do que diziam. Foi aí que se lembrou da nave auxiliar, já de prontidão 102


lá no hangar. Deu uma olhada para a tela e viu o brilho amarelado do envoltório de proteção que estava sendo destruído. A nave capitania fora atingida em seu flanco. Não estava totalmente destruída, mas podia se considerar perdida. Ouviu-se um forte estalo, como que um impacto de metal com metal. Julian Tifflor sentiu um novo abalo. Apoiou-se no último instante numa alavanca. De repente havia alguém a seu lado. Através dos olhos embaciados por dores atrozes, reconheceu vagamente a figura de Lubkov. Viu que os lábios de Lubkov se moviam, mas levou muito tempo para compreender que o que estava ouvindo eram as palavras dele: — Temos de fugir, a nave foi destroçada. Fez um gesto de confirmação, esperando que Lubkov o entendesse. Lubkov o deixou ali e saiu correndo. Parece que corria ao longo da parede. Tifflor tentou reunir toda sua força. Sacudiu a cabeça para afugentar a dor e se dirigiu para a porta. No recinto, só havia robôs. Alguma coisa devia ter acontecido com o soalho. Tifflor tinha a impressão de estar pisando numa rampa de cascalho. Quem sabe seu aparelho antigravitacional estava com defeito, após o choque? Subiu com dificuldade até a porta, sem olhar para trás. Tinha só uma preocupação, que lhe era martelada pelo subconsciente: “Você tem que chegar até a nave auxiliar”. Não percebeu que um dos robôs se levantou. O grande impacto o obrigara a cair e certamente algumas de suas funções ficaram prejudicadas. Mas ainda sabia qual era a sua obrigação, quando o estrangeiro tentasse fugir. Postouse de tal maneira que uma de suas armas apontava diretamente para a porta, e quando Julian Tifflor ia ultrapassá-la, ele atirou. Julian Tifflor sentiu que uma dor lancinante se espalhava por todo o corpo. Gritou e segurou no batente da porta. Mas os braços foram perdendo as forças, parece que não lhe pertenciam mais. As mãos escaparam no seu ponto de apoio e Tifflor rolou no chão inclinado, até encostar na parede. Quando ali chegou, já estava inconsciente.

8 Perry não tinha dúvida do que devia fazer. Tifflor corria perigo, Rhodan tinha de socorrê-lo. As duas naves terranas, a Drusus e a Kublai Khan, deviam penetrar no Universo dos druufs para procurar por Tifflor e seus auxiliares. Deu ordens para isto. Não sabia, porém, que uma grande parte da frota arcônida estava de olho e registrava com cuidado cada passo que ele dava. Quando as duas naves alteraram a rota e se dirigiram para a zona de superposição, os arcônidas logo perceberam. O regente robotizado foi colocado a par de tudo e julgou que o momento era oportuno. Quando a Drusus e a Kublai Khan estavam a um décimo de ano-luz da região de

superposição, surgiu na frente delas uma frota de belonaves pesadas e os arcônidas abriram fogo sem nenhum aviso. Rhodan sabia que estava em inferioridade numérica. Ordenou uma transição imediata, não tendo nem tempo para se preocupar com a direção a ser tomada. O essencial era escapar da armadilha dos arcônidas. Os envoltórios de proteção da Drusus já estavam incandescentes sob o fogo cerrado da primeira saraivada, quando a gigantesca nave deu o salto para a quinta dimensão, desaparecendo no hiperespaço. Não foi um mero acaso o fato de a Drusus e a Kublai Khan terem realizado o mesmo salto, com transição igual. Ao voltarem para o espaço de Einstein, estavam novamente próximas uma da outra. Medições exatas feitas na hora, constatavam que, tomando-se como ponto de referência sua rota anterior, a zona de superposição estava quinze anos-luz atrás delas. Isto queria dizer, primeiramente, que estavam a salvo. Mas que adiantava isto, se Tifflor e seus companheiros estavam em perigo, precisando de seu auxílio? As duas naves tinham que voltar. Rhodan não perdeu tempo com considerações inúteis. Era supérfluo falar de sua responsabilidade com Julian Tifflor. Jamais poderia ignorá-la. E de nada valia o argumento de que iria arriscar duas das maiores belonaves da Terra, na tentativa de salvar Tifflor. É verdade que não havia nenhum plano de combate para resolver o problema. Havia um único caminho: avançar e procurar abrir uma brecha na “nuvem” de naves arcônidas. Perry Rhodan instruiu a Kublai Khan de como coordenar seus movimentos com os da Drusus. As duas naves terranas juntas tinham uma fantástica potência de fogo. Não precisavam ficar preocupadas com o número de naves arcônidas que tinham de enfrentar, desde que esse não fosse superior a quinze unidades. A desgraça era que os arcônidas também sabiam disso e mandavam sempre um número bem grande de naves no encalço dos terranos. Perry Rhodan tomou sobre seus ombros toda a responsabilidade e deu ordens para o voo de volta. As duas naves partiram e, dentro de poucos minutos, já estavam em transição. *** A grande nave druuf sacolejava. Diante do painel dos instrumentos, estava o piloto druuf, olhando petrificado para frente, sem desviar a atenção da tela escura, como se a confusão ali dentro não tivesse nada com ele. A seu lado, estava sentado André Noir, o hipno. Seu rosto estava assustadoramente pálido. Os olhos fechados. O suor escorria pela sua testa. O Tenente Lubkov, apesar dos estremeções da nave capitania, tentava ficar sempre ao lado do mutante. Sua preocupação era se o hipnotizador André Noir iria suportar toda aquela carga nervosa. Se ele falhasse, seria uma desgraça para todos. Pois ninguém, fora o piloto druuf, estaria em condições de manejar o aparelho e de conseguir 103


tirá-los dali. Podiam matar o piloto, caso André Noir fracassasse, mas isto não resolveria nada. John Marshall foi o último a entrar. O telepata subiu rápido a escada que dava para o posto de comando e a primeira coisa que os homens ouviram de seus lábios foi: — Coisa muito perigosa! Tifflor sofreu um ataque. Lubkov não perdeu tempo. Sabia que o telepata estava em condições de, mesmo a grande distância, saber se alguém estava acordado ou dormindo, se estava doente ou com saúde. Os pensamentos captados indicavam tudo. — Onde está ele? — gritou Lubkov. — É difícil dizer — respondeu Marshall. — Estou recebendo apenas sinais muito fracos, quase imperceptíveis. Aparentemente, está inconsciente. Nas proximidades do posto de comando, acho eu. Um novo abalo percorreu toda a grande nave. Lubkov foi atirado para o alto, caindo depois com muita força. — Tschubai! — disse ele, sem dar importância a sua queda. — A nave está se rebentando. Você não quer procurar Tifflor? Temos de levá-lo conosco. Ras Tschubai nem perdeu tempo em responder. Apenas se concentrou, mentalizando a imagem da cabina de comando, e desapareceu. *** Não conseguiu encontrar Tifflor. O posto de comando estava com o chão e as paredes entortados. Os robôs achavam-se ocupados em consertar um aparelho rebentado. A tela panorâmica havia caído da parede. A iluminação estava piscando. Qualquer um podia ver que a nave capitania estava sendo destruída. Mas, pelo menos os tiros tinham cessado. Ras Tschubai gostaria de saber o que estava acontecendo lá fora. Será que os arcônidas voltariam a um novo ataque para desfechar o tiro da misericórdia na pobre nave druuf? Mas não havia meios de se saber isso. Os instrumentos não funcionavam mais e de Julian Tifflor ninguém tinha mais notícia. Os robôs não deram maior atenção a Ras Tschubai. Estavam muito ocupados. Assim sendo, Tschubai não tinha nenhum receio deles. O africano subiu despreocupado para a cabina de comando, olhou em volta com calma e descobriu o corpo de Tifflor, deitado entre a parede e o chão rebentado. Estava sem sentidos. Num só escorregão, Tschubai chegou lá embaixo e auscultou Tifflor. Tinha impressão que seu peito subia e descia lentamente; estava, portanto, vivo. Alguma coisa o devia ter atingido, mas o esquisito era que não se achava o menor sinal de ferimento. A nave druuf tremia como se tivesse um ataque de malária. Parecia, nestes últimos instantes, ter se transformado num ser vivo que lutava contra a morte. Ras Tschubai pegou Tifflor e o carregou nos ombros. Sabia que não podia perder um segundo. Olhou mais uma vez em volta. Lá na frente vinha um robô, caminhando com cautela. Ras não sabia por que, mas de repente ficou com medo de ser visto pelo robô. Fechou os olhos, segurou

firmemente o corpo inerte de Tifflor e se concentrou na diminuta cabina de comando da nave auxiliar. Quando o quadro se apresentou bem nítido em sua mente, a parte especial de seu cérebro lhe forneceu aquela energia extraordinária e Ras desapareceu, deixando o robô ali parado, sem saber o que fazer. O tiro, com que o robô pretendia aniquilar Ras Tschubai e o terrano inconsciente, abriu uma fenda na parede da sala de comando da nave druuf de mais de um metro de diâmetro. Quando Ras Tschubai chegou à nave auxiliar, André Noir jazia no chão. Sua resistência física não deu para agüentar mais. Mas o druuf continuava petrificado, olhando para frente, sem tomar conhecimento do que se passava em torno dele. Queria dizer então que os influxos hipnóticos de Noir ainda continuavam ativos. Mas até quando? Para o Tenente Lubkov, que havia assumido o comando, a volta de Ras Tschubai com Tifflor era o sinal para a partida. Inclinou-se para André Noir e lhe gritou no ouvido: — Partida, imediatamente! Noir piscou os olhos por um segundo. Era o único sinal de que ele havia compreendido. Momentos depois, o druuf começou a se mexer. Com as mãos fortes, puxou a alavanca tão grande que parecia uma barra de ginástica. Seus dedos exageradamente longos apertaram botões. O chão começou a vibrar, a tela se iluminou, mostrando o interior do hangar. A comporta se abriu para a pequena nave sair. O Tenente Lubkov ainda não tinha visto o funcionamento das comportas druufs. Ao entrar na nau capitania, a comporta já estava aberta. Ficou encantado com a velocidade com que as duas partes da comporta interna recuaram para os lados, deixando livre o caminho para o espaço. O druuf na poltrona do piloto atirou a pequena nave para o espaço. Lubkov olhou para a nave semidestruída e viu a parte superior da comporta de repente tombar para o lado. A imagem da tela panorâmica da nave auxiliar lhe provou que não estava tendo alucinações. A queda da parte superior da comporta não fora ilusão ou sugestão. A grande nave capitania estava desintegrando-se, exatamente quando o aparelho auxiliar saltou para o espaço. A fuga deu-se literalmente no último instante. Um segundo mais tarde, a nave auxiliar seria também destruída. O capacete do Tenente Lubkov estava bem fechado, de maneira que seu gesto de enxugar o suor foi mais simbólico. Depois de se recuperar do susto, passou a observar o comportamento do piloto druuf. Constatou, muito surpreendido, que em volta da nave auxiliar havia poucos pontos de luz fosca, que pelo tipo de seu brilho se diferenciavam das estrelas. Muito menos do que imaginara. Bem para o fundo, muito longe, ainda brilhavam algumas bolas de fogo das naves destruídas e, a cada segundo, outras mais se incendiavam. Mas o setor para onde se dirigia a pequena nave, achava-se incrivelmente calmo. Lubkov, não muito acostumado com os instrumentos druufs, procurou inutilmente por uma tela de rastreador, 104


como na nau capitania, mas não encontrou. Teria que dar ordem a André Noir para que arrancasse telepaticamente do piloto druuf o que desejava saber, mas cada pergunta custaria um grande esforço para o já debilitado hipnotizador. Assim, Lubkov acabou desistindo. Noir já havia sugestionado ao druuf o destino do voo e isto devia ser suficiente. De fato, o piloto dirigia aparentemente certo do que fazia. Os pontos luminosos dos aparelhos no espaço — arcônidas ou druufs, de qualquer maneira ambos inimigos — foram ficando para trás. A pequena, mas veloz nave foi deixando o teatro de operações bélicas, onde o terrano representara um papel importante. Infelizmente Lubkov não tinha nenhum meio de saber como havia terminado a luta, isto é, os prejuízos de ambos os lados. Deu-se por feliz em saber que Tifflor e os seus estavam fora de perigo. Mas isto não era bem verdade. Dez minutos depois de saírem dos destroços da grande nave druuf, quando as estrelas começaram a luzir com maior brilho na pequena tela, André Noir interrompeu repentinamente sua atuação telepática sobre o druuf. Com um soluço quase imperceptível, descontraiu-se e perdeu os sentidos. No mesmo instante, o druuf começou a se virar de um lado para o outro. Parece que estava se lembrando de que, originariamente, não deveria ser sua missão obedecer cegamente a um grupo de terranos. Virou-se e olhou para Lubkov. Este nada entendia da mímica dos druufs, mas deu para entender que o até então tranquilo piloto estava resolvido a se opor a eles. *** Já tinham feito três tentativas de furar a frente inimiga e três vezes foram rechaçados. Aliás, a Drusus foi atingida por um projétil que deixara fora de funcionamento um dos motores de seu envoltório de proteção. Daí para frente, a Drusus teria de agir com mais cautela. O gerador podia ser reparado na Terra em um dia, mas no espaço era totalmente impossível. A quarta investida foi realizada para, por meio do transmissor, enviar Gucky para Hades. Combinaram um determinado tempo para que a Drusus ou a Kublai Khan ficassem preparadas, nas proximidades da zona de superposição, para receber Gucky de volta. O resto do tempo ficariam aguardando. Gucky teria de informar-se sobre o que acontecera com Julian Tifflor. Havia três hipóteses: ou o sinalizador do corpo de Tifflor continuava funcionando com a força de sempre, ou estaria trabalhando com muito pouca força e com intermitência, ou então não funcionava mais. A primeira e a última hipótese significava que seria completamente inútil a intervenção dos dois grandes couraçados. A segunda hipótese, porém, os obrigava a tentar, pela quinta, sexta, centésima ou milésima vez, irromper pela frente inimiga e penetrar no Universo druuf. Os arcônidas não se limitaram a ficar esperando pelas

duas naves terranas nas proximidades da zona de superposição. Pelo menos a metade da frota de bloqueio, isto é, cerca de dez mil unidades, estava sempre em movimento, pesquisando todo o espaço em volta para destruírem os dois couraçados, assim que os localizassem. Por este motivo, Perry Rhodan fazia com que toda transição que a Drusus e a Kublai Khan fizessem, fosse terminar, pelo menos, a dez anos-luz da garganta afunilada da região de superposição. Naturalmente ele pensava que os arcônidas não o fossem procurar tão longe assim. Os minutos de espera pela chegada de Gucky foram momentos de terrível tensão nervosa. O nervosismo ia num crescendo constante a bordo dos dois couraçados. Pois a maior infelicidade para o homem é ficar sem poder fazer nada numa hora das mais importantes decisões. *** O druuf não tinha nenhum transdutor idiomático para se entender com os terranos. O Tenente Lubkov fez o que supôs ser o mais indicado. Ordenou que quatro de seus homens se postassem de armas embaladas na frente do piloto, esperando que com isso ele compreendesse qual era sua obrigação. Depois se aproximou dele, pegou no seu tronco quase cúbico e tentou virá-lo para a posição em que estava antes. O druuf devia entender toda esta movimentação tão “palpável” para qualquer tipo de cérebro. Entendeu-se ou não entendeu, o fato é que o druuf fez apenas um pequeno movimento com seu corpo e com os longos braços. O Tenente Lubkov recebeu um tremendo golpe e foi atirado para frente, rolando no chão. Ao bater com o ombro em qualquer coisa dura, deu um grito de dor. Mas logo a seguir se levantou e viu como o druuf virou para frente, levando a mão à alavanca de comando. Depois de um soco daquele, a mão do druuf na alavanca de comando somente poderia significar a alteração da rota. Lubkov sacou da arma e atirou. A violência do tiro seria suficiente para matar um homem instantaneamente, mas para o druuf mal foi suficiente para obrigá-lo a curvar-se e cair no chão. E não passou disso. Depois que o druuf rolou no chão com grande ruído, passou a reinar silêncio total na diminuta cabina de comando. Parecia que na cabeça de todos só havia um pensamento: como conseguiremos agora chegar ao nosso objetivo? De repente, porém, soou um grito agudo de Marshall, que lhes fez gelar o sangue nas veias: — Cuidado! Deixem-no em paz. Ele está pensando... e eu o posso compreender. *** Ao chegar a Hades, Gucky se admirou do chiado estridente do sinalizador telepático de Julian Tifflor. Pois realmente Gucky estava muito temeroso sobre o estado do coronel. E de fato não lhe tinha passado pela cabeça uma possibilidade de encontrar Tifflor em boas condições. Comunicou apressadamente ao Capitão Rous o objetivo 105


de sua segunda vinda a Hades. Explicou-lhe que, entretanto, tudo estava bem com Julian Tifflor e que tinha a impressão de que ele se aproximava da base de Hades. Não sabia, porém, explicar como isto era possível. Em vista disso, o Capitão Rous deu ordem para que as estações de rastreamento estivessem bem atentas, principalmente no setor da zona de superposição, chamando atenção especial para um objeto desconhecido que se deslocava a grande velocidade na direção da Base Hades. Devido à comparação das mais diversas estações, isto é, do observado por seus aparelhos de rastreamento, com o que Gucky estava percebendo, podia-se afirmar que Julian Tifflor estava mesmo a bordo do objeto desconhecido. Como ele tinha penetrado neste aparelho, que pretendia ali dentro, por que vinha em linha reta para Hades — isto ninguém podia explicar. A batalha espacial nos limites do sistema Siamed tinha sido observada pela base de Hades. Ela mesmo se mantivera calada, sem tomar parte na luta. As diversas bolas de fogo das explosões foram filmadas. Este filme, mais tarde, seria utilizado para estudo do andamento da batalha e seu resultado. Ninguém até agora sabia ao certo o que acontecera por lá, e quais as consequências que daí podiam advir. O maior interesse no momento se concentrava em Tifflor que, provavelmente numa nave druuf, estava a caminho de Hades. *** Apesar das enormes dificuldades, estavam conseguindo o que queriam. Lubkov fez como se quisesse manobrar as alavancas do quadro de comando, e o druuf ferido começou, em pensamentos, a zombar dele: — Desta maneira o aparelho vai se perder no espaço. No entanto, Marshall conseguira captar-lhe os pensamentos. A dor que o piloto druuf sentia, a ira que crescia dentro dele, rebentaram o possível envoltório mental que até então impedira a comunicação telepática entre os terranos e o druuf. Marshall era um telepata experimentado. Assim, o druuf ali deitado não sabia que seus pensamentos estavam sendo lidos por Marshall. Logo que notava um pensamento importante, comunicava-o a Lubkov. Lubkov largou as alavancas, e tentou mexer em outros comandos. Logo veio o pensamento do druuf: — Desgraçado, como é que você sabe que são estes os certos? Mas ainda está faltando uma coisa. Tem de “ligar também a outra alavanca” Marshall não compreendeu bem o termo técnico, mas disse a Lubkov simplesmente o que ouvira. E Lubkov começou a procurar, entre outras, as tais alavancas. Procurou tanto até que o druuf, todo encolerizado, pensou: — Com os diabos! Acertou outra vez! Desta maneira aprenderam, passo a passo, como funcionava o comando da nave druuf. Tão logo tudo lhes estava claro, ultrapassaram a velocidade da luz e se

aproximaram de Hades, em vôo mais rápido que a luz, através do hiperespaço. As manobras de frenagem correram normalmente. O temperamental druuf, que levado pela dor e pela cólera não descobriu que era ele mesmo quem fornecia todas as dicas, continuou sendo uma fonte inesgotável de informações. Depois que emergiram do hiperespaço, Julian Tifflor voltou a si. Levou alguns minutos para compreender a nova situação. A seguir, assumiu o comando. Lubkov ficou muito contente, porque daí em diante tinha todo o tempo para prestar atenção nas complicadas alavancas e botões. Finalmente surgiu no canto de dentro da tela panorâmica a base de Hades. A pequena nave auxiliar, em menos de duas horas, venceu uma distância de quase doze bilhões de quilômetros — devendo-se notar que foi pilotada por terranos que há duas horas antes não tinham a menor noção da astronáutica dos druufs. Aliás, ainda lhes restava uma parte substancial de sua missão: a aterrissagem em Hades. O Capitão Rous haveria de tomar a nave como pertencente aos druufs, como de fato era, e teria todo o direito e mesmo o dever de abrir fogo contra ela. Não poderia permitir que uma nave druuf se aproximasse demais da entrada das cavernas onde se escondia a base terrana. Tifflor tinha muitas ideias de como evitar este erro, mas todas elas eram de execução demorada. Uma destas ideias, por exemplo, era descrever com a nave no espaço voltas enormes para formar letras da escrita terrana, com um S ou um R, qualquer letra, enfim, até que Rous chegasse à conclusão de que não eram os druufs. Mas havia um caminho aparentemente mais garantido. Assim como os terranos aprenderam o segredo da navegação através do truque da telepatia, podiam tentar fazer o mesmo para aprender a lidar com os transmissores de bordo. Havia muita coisa que podia ser feita. Mas enquanto Tifflor e Lubkov discutiam qual seria a mais prática, surge à voz de Marshall, trazendo uma grande sensação: Havia “percebido” a voz de Gucky, por via telepática. Gucky estava em Hades e tinha notado a aproximação da nave dos druufs. As comportas da base de Hades já se achavam abertas para acolher a nave. Portanto, tudo certo. *** No momento predeterminado, a Drusus e a Kublai Khan estavam com seus transmissores fictícios já preparados para receber Gucky da base de Hades. No exato segundo, Hades solicitou o sinal verde e o recebeu. Um momento após, Gucky já se encontrava a bordo da Drusus, justamente oito horas depois de sua última despedida. As novidades que trazia eram importantes e mesmo excitantes. Julian Tifflor não somente estava fora de perigo, como tinha “aprisionado” uma nave druuf, equipada com a assombrosa turbina de velocidade superior à da luz. O Capitão Rous compreendera a importância do fato e instruíra seus homens para desmontarem todo o mecanismo, o mais depressa possível, e acondicionar as 106


diversas peças de modo a facilitar um transporte rápido. Fizeram tudo isto em apenas oito horas. Quando Gucky estava penetrando na Drusus, as quinze toneladas de todo o maquinismo já achavam-se acondicionadas em fardos de duzentos quilos cada um. Iriam para bordo dos dois couraçados terranos pelo mesmo meio como Gucky viajara há poucas horas. Enquanto Gucky estava “despejando”, emocionado, suas novidades, o setor de rastreamento anunciou que havia uma formação de cerca de cem belonaves arcônidas voando em direção ao local onde se encontravam os dois couraçados e que, dentro de doze minutos, já estariam em distância de atirar. Perry Rhodan não titubeou. A posse do novo tipo de mecanismo de velocidade acima da luz era importante demais para a Terra. Tinham, pois, que topar a jogada. Hades recebeu sinal verde. Marcel Rous mandou carregar todos os transmissores fictícios, para que, de sua parte, não se perdesse um segundo. A Kublai Khan foi avisada e começou o transporte. E, peça por peça, todo o pesado mecanismo foi “pulando” de Hades para os dois encouraçados, numa distância fabulosa. Numa agitação febril, homens e robôs iam recebendo os fardos de duzentos quilos dos transmissores. É claro que Marcel Rous, em Hades, não podia estar a par da difícil situação dos dois couraçados, mas mesmo assim fez tudo para não perder um segundo. Os homens da Infant eram incansáveis no transporte das peças do mecanismo. A última coisa a ser transportada foi o druuf ferido. Dez minutos depois, havia acabado todo o trabalho. A esquadra arcônida estava se formando para o ataque. Mas antes de chegarem à distância de fazer fogo, as duas supernaves partiram para o espaço. Os arcônidas tentaram ir ao seu encalço. Mas Perry ordenou a transição, e as naves terranas desapareceram, diante dos inimigos boquiabertos. Não era a primeira vez, nem seria a última, que Perry Rhodan zombava da supremacia numérica dos arcônidas. *** É verdade que eles pretendiam muito mais. Mas, deviam estar contentes com o que conseguiram. Queriam que os arcônidas e os druufs se aniquilassem mutuamente e não deixassem de lutar, senão depois que, dos dois lados, não houvesse ninguém mais em condições de se levantar. Esperavam, com um único empreendimento, criar uma situação em que o poderio terrano pudesse ficar igualado ao dos arcônidas. Não chegaram até isto. E era mesmo impossível. Conforme cálculos bem ponderados, o Império Arcônida perdera em toda a refrega dezoito mil naves. Era realmente um número respeitável, conforme os parâmetros da Terra, mas de maneira alguma uma perda irreparável, capaz de colocar em jogo o poderio de Árcon. As perdas dos druufs foram também elevadas, mas isto não interessava a ninguém na Terra. Conforme as previsões

da positrônica de Vênus, a zona de descarga estaria em pouco tempo fechada e, a partir daí, os druufs não representariam nada mais para a Terra. O dever da Terra continuaria sendo, portanto, de acompanhar de longe a política da Galáxia. Ainda não era chegado o momento em que a frota terrana podia entrar em cena e impor, pela força, sua vontade. O grande dia da Terra ainda iria demorar um pouco. Estas considerações eram uma boa lição que se podia tirar da missão de Julian Tifflor. De outro lado, porém, havia dois grandes sucessos a registrar: a captura de uma nave druuf, com o mecanismo de propulsão de velocidade superior à da luz e do aprisionamento de um piloto druuf, que podia fornecer informações sobre o desenvolvimento tecnológico de sua raça. Os cientistas e técnicos terranos haveriam de se lançar com grande ardor para estudar o fabuloso mecanismo que a Drusus e a Kublai Khan lhes estava desembarcando. E teriam uma função dupla: tentariam procurar compreender uma tecnologia estranha e transmitir o modo de funcionamento de um dispositivo, cujo princípio lhes era totalmente desconhecido. Quatro semanas após, já haviam desvendado o essencial e, em pouco tempo, estariam construindo mecanismos iguais. Uma das exposições mais conhecidas, explicando o funcionamento da propulsão druuf de velocidade superior à da luz, era a do professor Lawrence, do Instituto de Tecnologia de Terrânia. O trabalho deste mestre começava clareando o incompreensível através de um exemplo da física: — Pode-se aquecer um pedaço de matéria sólida. Podese transferir calor para ela e, para cada caloria que se adiciona ao pedaço de matéria, aumenta sua temperatura, conforme o calor específico de cada corpo, num determinado número de graus. Mas se chegará a um ponto em que o calor adicionado não servirá mais para aumentar a temperatura do objeto, mas tão somente para alterar o estado da matéria. “Tomemos como exemplo um pedaço de gelo, H2O em estado sólido, para falarmos mais exatamente. Comecemos com dez graus abaixo de zero grau Celsius a aquecer o gelo. Quanto mais calor lhe adicionarmos, tanto mais sobe sua temperatura, até atingirmos grau zero de Celsius. Se ao gelo de zero grau adicionarmos mais calor, ele passa a não se aquecer, mas apenas se derrete. Continua com a temperatura de zero grau, até se liquefazer todo, portanto, H2O líquido. Somente depois disso, é que o calor adicionado à matéria será aplicado para elevar a temperatura da água. A quantidade de calor que adicionarmos ao grau zero, sem que a temperatura da matéria aumente, chamamos de calor da fusão do gelo e, com relação ao peso molar, chamamos de calor da fusão molar. “Os senhores, futuros galatonautas, como certamente o 107


serão, haverão de me perguntar o que o gelo derretido tem a ver com a sua vocação de cosmonauta. Permitam-me explicar um pouco mais. Os senhores adicionam mais energia ao motor da nave e este motor aumenta-lhe a velocidade. Este princípio não funciona indefinidamente, como os senhores sabem. Até hoje, nós acreditávamos que não podíamos ultrapassar um determinado limite, isto é, o da velocidade da luz”. “Já os druufs estão um passo à frente. Do mesmo modo que nós, eles adicionam energia ao mecanismo, para aumentar a velocidade de suas naves. Mas chega então o ponto em que a energia fornecida não é mais utilizada para aumentar a velocidade, e sim para mudar o estado do aparelho. É claro que a nave sólida não se transforma em nave líquida, como é o caso do gelo, mas o estado da nave se altera de tal maneira, que depois do acréscimo de uma determinada quantidade de energia, ela, a nave, não pertence mais ao contínuo quadridimensional, mas passa para um espaço superior”. “É, pois, como o fenômeno do gelo. A função, que o aumento de temperatura possui com relação à massa e com a dimensão do calor fornecido, permanece contínua até o ponto de fusão, quando tem então um momento de instabilidade. Diz-se então que para qualquer alteração na temperatura, por menor que seja, é necessário um aditamento de certa dose de calor”. “O mesmo se dá com a nave dos druufs: aumento de velocidade de acordo com o tamanho da massa e da quantidade de energia, como função da velocidade imprimida, é uma função contínua, até um ponto-limite. Ali chega o clímax, semelhante a uma função delta. Esta função delta marca o ponto em que a energia adicionada é utilizada para levar a nave para outro estado espacial”. “Por favor, meus senhores, não julguem toda esta complicada explicação mais do que como uma comparação, pois toda comparação é falha em algum ponto. Deve-se tomar também em consideração a estrutura da energia fornecida ao mecanismo, além do tipo de propulsão e muitas coisas mais”. “Tudo que lhes disse tem o único propósito de lhes dar um quadro rudimentar do processo. Não se esqueçam de que estamos tocando num setor da ciência onde uma demonstração concreta se torna impossível. A tentativa de dar um modelo do fenômeno ou um esboço claro tem de falhar sempre.”

Foi este o quadro esquemático do professor Lawrence. Assim mesmo, apesar de parecer um tanto irreal, os conceitos do professor entraram para os manuais de técnica e aí ficaram por muito tempo, imutáveis. A inquirição do piloto druuf aprisionado não trouxe grandes elucidações sobre o fenômeno ou sobre a técnica de camuflagem com que a nave druuf pôde, sem ser vista, arrastar a Infant para dentro da garganta afunilada. O druuf sabia que o aparelho ainda estava em fase experimental — um dos motivos por que os terranos ainda não tinham dificuldades em determinar a posição das naves druufs. Eram pouquíssimos os aparelhos que já estavam equipados com os novos dispositivos. O druuf sabia ainda que o funcionamento do aparelho se baseava no fato de que ele só podia absorver dois setores restritos e bem determinados do feixe de ondas eletromagnéticas. Estes setores pertenciam à parte visível do espectro. Eram ondas cujo comprimento variava de 4.000 a 7.500 unidades de angstrom, sendo que uma parte delas também pertencia ao pequeno setor em que se moviam as frequências dos rastreadores terranos. Se fosse utilizada outra frequência de rastreamento, a nave invisível dos druufs certamente aparecia nítida na tela do rastreador. Em outras palavras, no tocante ao rastreamento com microondas, o novo aparelho druuf oferecia apenas a vantagem de operar numa faixa muito raramente utilizada pelos operadores dos postos de rastreamento. Esta constatação não chegou a ser uma novidade sensacional para os terranos. Tudo que se pôde concluir sobre o processo druuf foi encaminhado aos técnicos em alta frequência, com a sugestão de se aprofundarem mais no assunto. Ninguém, porém, acreditava que surgisse alguma coisa útil de tudo isto. Apenas três semanas depois de ter chegado à Terra, o druuf morreu, recusou-se a ser atendido por um médico. Seu ferimento foi piorando mais do que os responsáveis podiam supor. Fora disso, não se tomou muito a sério sua obstinação em recusar tratamento, do mesmo modo que a inquirição também foi feita contra sua vontade. A Terra havia, pois, dado mais um passo em busca da supremacia galáctica. Estava de posse do mecanismo de velocidade superior à da luz, graças aos druufs. E os cientistas terranos estavam em vias de dar, também, mais um passo para vencer a superioridade numérica dos arcônidas.

Mais uma vez, Perry Rhodan conseguiu executar uma arriscada missão: enfraquecer os dois grandes adversários do Império Solar. No entanto, o potencial bélico de que dispõe o Império de Árcon é ainda superior ao do Império Solar. Em Planeta Topsid, Favor Responder, próximo volume da série, tal poderio bélico é mostrado de modo inesquecível. 108


Nº 83

De

Kurt Brand Tradução Richard Paul Neto Digitalização Arlindo San Nova revisão e formato W.Q. Moraes

A Kublai Khan e o Exército de Mutantes em missão suicida — ...é uma questão de segundos!

O ano-novo chegou... Poucos desconfiam de que tal ano, tão efusivamente comemorado, será um período importante para os destinos da Humanidade. Será o ano da grande decisão... O Império Solar, que é uma organização minúscula em comparação com o Império dos arcônidas ou com o Universo dos druufs, vê-se literalmente entre dois fogos. Bastava uma fagulha para desencadear a guerra que atingiria o sistema solar. E, por uma falha, esta fagulha já está acesa há 73 anos... e se chama tópsidas!

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chegada do ano-novo. Não estavam em condições de 1 conversar sobre os sucessos e os fracassos do passado e refestelar-se nas recordações, pois a situação geral não estava para isto. Apesar de tudo, conservavam uma boa Tudo começou a dois dias, na festa do ano-novo. dose de otimismo. A morte de Thora ainda lançava sua sombra sobre o A única exceção era Bell, do qual nunca se teria reduzido número de homens que comandavam os destinos esperado uma atitude desse tipo. do Império Solar. No entanto, mesmo estes celebraram a — Você deu para ficar supersticioso gorducho? — despedida do ano de 2043, embora não o fizessem nos perguntou Rhodan, dirigindo-se ao amigo corpulento, cujos moldes usuais. cabelos ruivos e curtos mais uma vez estavam arrepiados. E foi durante esses festejos que aconteceu... — Não — respondeu Bell, descansando o copo. — Mas Com um movimento infeliz, Reginald Bell derrubou um olhem só! cálice de conhaque que se encontrava sobre a mesa. O Apontou para os cacos de vidro espalhados pelo chão. conteúdo esparramou-se e o vidro esfacelou-se no chão. — Este cálice foi feito de vidro inquebrável. E aí estão Bell abaixou-se para reunir os cacos e... sofreu um pequeno os cacos de sua indestrutibilidade. Não sou supersticioso. corte na ponta do polegar esquerdo. Acontece que estes cacos, que em hipótese alguma Todos esperavam ansiosos pelo deveriam provocar cortes, me feriram ano-novo. Chupando o dedo o dedo. Isso só pode ser mau sinal. ensanguentado e fitando o grande Personagens principais deste — E ainda vem me dizer que não é relógio, Bell parecia uma estátua. episódio: supersticioso? — perguntou Rhodan, — Tomara que isso não signifique sorrindo para seus amigos e uma desgraça — disse, proferindo as Perry Rhodan — Administrador do colaboradores, que se divertiam com a Império Solar. palavras com certa dificuldade, atitude de Bell. porque continuava com o dedo na — Nunca fui! — afirmou o Reginald Bell — O melhor amigo de boca. Perry Rhodan. gorducho em tom enérgico. Perry Rhodan, Crest, Freyt e Bell esteve a ponto de começar Mercant lançaram-lhe um olhar meio Gucky — Toda vez que o rato-castor é tudo de novo, mas nessa altura Allan alegre, meio irônico. Mas todos se chamado de Tenente Guck, a barra está D. Mercant, chefe do Serviço Solar de sentiram tocados por essas palavras, pesada. Segurança, interveio na palestra. pois ninguém estava acostumado a ver — Cadê sua lógica, Mister Bell? Atlan — O imortal que não tem a menor Bell acreditar nas feitiçarias dificuldade em desempenhar o papel de O gorducho respondeu astrológicas ou em maus presságios. um arcônida típico. prontamente: A conversa agradável do pequeno — Os maus presságios nunca grupo foi interrompida pelo incidente. Tgex-Go — Presidente de Topsid. tiveram lógica! Perry Rhodan também olhou para o Perry Rhodan deu uma risada. relógio. Gallus — Especialista em campos de — Desisto! — disse. — À saúde ionização. Dali a três minutos começaria o do ano de 2.044, gorducho! ano de 2.044; estava na hora de encher Joe Pasgin — Comandante da nave Levantou o cálice de champanha e os cálices de champanha. Burma, que dá início à missão suicida. brindou para seu melhor amigo. Finalmente Bell tirou o dedo da Este esvaziou o cálice de um só boca, pegou um lenço muito bem gole. Ao descansá-lo, disse: dobrado e enrolou-o. — Só desejo uma coisa: que o ano de 2.044 passe o — Tomara que isso não... quanto antes e que estejamos em condições de festejar a As outras palavras foram abafadas pelo barulho infernal próxima passagem de ano. vindo de fora. O ano-novo havia chegado! Para — Está falando isso só por ter machucado o dedo? — cumprimentá-lo, a cidade de Terrânia, capital do Império perguntou Rhodan em tom irônico. Solar, recorreu a tudo que pudesse produzir barulho. As Perry usou de certa aspereza, pois Bell estava prestes a sereias uivaram, as buzinas de alarma começaram a berrar. espantar a disposição alegre dos convidados. Nessas poucas Os fogos de artifício subiam ao céu límpido, produzindo horas em que os homens que respondiam pelos destinos do um barulho infernal. No mesmo instante foram ligados os Império Solar se reuniam em caráter particular, não se propulsores de impulsos das naves esféricas, cujo trovejar devia falar dos problemas do dia-a-dia. Perry Rhodan dera a participou do coro de cumprimentos, enquanto os campos entender em termos bem claros que desejava mudar de de tração bem regulados mantinham as naves da frota assunto. terrana presas ao campo de pouso. Mas Bell devia ter cera nos ouvidos. Em meio à atmosfera acolhedora da residência de — Não é por isso — disse, voltando ao mesmo assunto. Rhodan, raras vezes utilizada, cinco homens brindaram a — É porque este copo, que devia ser inquebrável... 110


— Chega, gorducho! — interrompeu Rhodan. Pegou a garrafa de conhaque, colocou-a à sua frente, enquanto com a outra mão trazia outro cálice, em substituição ao que se quebrara. Depois num tom que quase chegava a ser de comando: — Sirva-se, meu velho. Tome uns tragos. Você está precisando! *** As primeiras horas do ano foram muito agradáveis a todos. Mas quando se separaram, pelas três da madrugada, Bell fez questão de dizer a última palavra. — As coisas irão engrossar, ou então eu não me cortei nestes cacos de vidro inquebrável... Nesse caso, apenas terei sofrido uma alucinação. Ninguém o contestou. Todos estavam ansiosos por uma boa cama, mas ninguém conseguiu esquecer o súbito pessimismo de Reginald Bell, cujas brincadeiras lhes custaram ao menos uma hora de sono. *** — Devagar! — gritou O’Keefe, supercansado, para dentro do microfone da estação de transmissão de matéria número D-18, situada no setor lunar Han/456. Dirigia-se ao colega, que operava a estação sincronizada localizada na Terra. — Será que logo no primeiro dia do ano vocês querem quebrar um recorde? Esperem um minuto para mandar a peça 762 da fita rolante. Meus robôs estão esquentando e os campos antigravitacionais começam a transpirar. É claro que na Lua não havia robôs que esquentassem ou campos antigravitacionais que transpirassem, mas O’Keefe não conseguia acompanhar o ritmo da estação com a qual estava sincronizado. Apesar do cansaço, proveniente de uma animadíssima festa de ano-novo, acabara de constatar que, a dois quilômetros dali, acabara de ocorrer uma pane na montagem da fita rolante número 66. Um espaço oco situado pouco abaixo da superfície lunar ruíra silenciosamente, arrastando e, provavelmente, soterrando parte da estrada rolante e alguns robôs de trabalho. Naquele instante, viu o sinal vermelho. A estação transmissora de matéria, situada na Terra, foi paralisada. A central de vigilância positrônica da Lua deu sinal. Esse centro de computação controlava o processo extremamente complicado de montagem. Estava em condições de registrar até 250 mil fatos por segundo, ocorridos nos mais diversos lugares, e compará-los com o cronograma de montagem introduzido em seu setor de programação. Cabia ao centro de computação intervir no caso de uma pane, recorrendo, se fosse o caso, às reservas de robôs de trabalho, a fim de que o atraso no cronograma pudesse ser compensado dentro de duas horas. A velha lua terrana estava transformada num único canteiro de obras.

E com isso estava perdendo suas feições. O homem, que habitava a Lua, teve de mudar de residência, pois Perry Rhodan estava tomando seu lugar. O Administrador-Geral via-se numa situação de emergência. Na Terra não havia mais lugar para nada. Não havia onde montar as gigantescas fitas rolantes nas quais se realizava a produção em série de naves esféricas. Ao lado delas ficavam as indústrias acessórias de elevado potencial de produção, nas quais se fabricavam os conjuntos, peças e pecinhas necessárias à fabricação das naves. Na Lua havia espaços imensos. De início, foram instalados no satélite da Terra grandes estações transmissoras de matéria, sincronizadas com as respectivas estações da Terra. Uma vez concluída essa tarefa, teve início um fluxo de materiais da Terra à Lua. Tal fluxo faria supor que o planeta se privaria de todas as suas indústrias. O satélite da Terra transformou-se no grande arsenal do Império Solar. Rhodan investira nesse grande centro de produção de armamentos mais de cem milhões de solares. Naquele momento surgira uma pequena pane durante a construção da fita rolante número 66. Os incidentes desse tipo aconteciam cem vezes por hora e não seriam capazes de perturbar a execução do plano. Mais de cinquenta faixas rolantes já estavam completamente instaladas. Algumas centenas de milhares de robôs especializados cumpriam seus programas, que previam a construção de naves esféricas destinadas ao Império Solar. A ideia de transformar todo um mundo num arsenal não fora concebida por Rhodan. Árcon já a praticara há mais de 15 mil anos. No entanto, não utilizou nenhuma lua, mas um planeta, que foi arrancado de sua antiga órbita e introduzido em outra. Dezoito minutos depois que a luz vermelha se acendeu no transmissor de matéria da D-18 e na estação sincronizada da Terra — ou seja, dezoito minutos depois do desmoronamento de um espaço oco na altura da linha de montagem avançada da fita rolante 66 — tudo voltara a correr como antes. Uma hora e meia depois disso, o atraso no cronograma foi recuperado, apesar do cansaço de O’Keefe. Cullins, que naquele momento tinha a seu cargo a produção de sondas-foguete, sentiu-se desesperado. — Por que é que os druufs e os arcônidas não vão para o inferno? — disse com a voz martirizada, mas logo se esqueceu tanto dos druufs como dos arcônidas. O que lhe interessava era o pedido lacônico vindo de Terrânia, que solicitava a remessa imediata, pelo transmissor de matéria, de 4.500 sondas-foguete de determinado número, a serem expedidas para o espaçoporto da capital do Império Solar. Cullins não as tinha. Acontece que junto à zona de descarga havia uma necessidade desesperada das mesmas. A luta rugia sem cessar: arcônidas e druufs procuravam forçar uma decisão. Os veículos espaciais robotizados do Grande Coordenador, o computador-regente de Árcon, faziam caça às sondas-foguete com a mesma energia que os 111


druufs. Os foguetes-espiões de Perry Rhodan eram derrubados em série. Mas alguns deles retornavam da área de superposição, trazendo informações preciosíssimas às naves terranas estacionadas nas profundezas do espaço, mantendo a Terra cientificada sobre a movimentação das frotas inimigas e sobre o tipo das tripulações. As naves incumbidas das observações eram cruzadores ligeiros da classe Cidade. Tinham uma tripulação bem treinada, mas seu armamento era bastante débil. Em compensação seus mecanismos propulsores eram extremamente fortes, permitindo-lhes que, dentro de cinco minutos, atingissem a velocidade da luz. Cullins tamborilou sobre a escrivaninha. Imaginava o que aconteceria quando informasse a Terra de que dispunha apenas de pouco menos de 3 mil sondas. A indagação visual só agora lhe trouxe o resultado da consulta formulada ao computador positrônico. As 1.500 sondas que faltavam só estariam prontas para serem remetidas dali a 27 horas, 42 minutos e 7 segundos. Com um nervosismo tremendo, aguardou a ligação radiofônica com a Terra. O chefe do depósito H-89, Mister Gibbons, apareceu na tela. Fora ele que pedira o elevado número de sondas. Exibiu um rosto de jogador de pôquer. — Pois nesse caso tenho pena do senhor, Cullins, mas não poderei deixar de informar o chefe... — Informar quem? — disse Cullins, interrompendo o tal do Mister Gibbons que se encontrava na Terra. — Pretende informar Perry Rhodan? — Quem poderia ser? Pois foi ele que deu ordem para enviar 4.500 sondas-foguete à zona de descarga. Parece que não se trata de um pedido rotineiro. Não é sempre que Rhodan cuida desse tipo de assunto. Ao que parece, o ambiente está “engrossando” em algum lugar e, ao que supomos, eles precisam das sondas para verificar quem será atingido por tal ambiente. Prepare-se para ouvir umas boas, Cullins. Cullins estremeceu quando o sinal de identificação da Administração surgiu na tela, indicando que um personagem muito importante queria falar com ele. Mas quando viu o rosto largo de Reginald Bell suspirou aliviado. Ninguém o chamava assim. Todos só o conheciam como Bell, mas isso em nada afetava sua personalidade. Ele mesmo não levava muito a sério as questões de etiqueta, e não se importava se vez por outra alguém soltava um palavrão. — Cullins — exclamou Bell, sacudindo a cabeça com os cabelos curtos e arrepiados. — Se daqui a duas horas as duas naves-transportadoras com as 4.500 sondas não puderem decolar, eu o cortarei em pedacinhos. Não me venha com desculpas! Não as posso aceitar. Bem que eu imaginava que uma coisa dessas iria acontecer. Não foi por nada que cortei o dedo. Repito: esses foguetes estarão aqui embaixo dentro de uma hora, Cullins! Cullins prendeu a respiração e gritou com a coragem do

desespero: — Não estarão, Bell... Acabara de contrariar uma ordem do lugar-tenente de Perry Rhodan, o segundo homem do Império Solar. Reginald Bell nunca lhe perdoaria tamanho atrevimento. Mas Bell soltou uma gargalhada. — O que está acontecendo aí em cima? Por que nossos dados não conferem com os de vocês? A Lua sempre era em cima, onde qualquer homem a via no céu; em consequência, a Terra era embaixo. Quando Cullins ouviu a risada de Reginald Bell, o peso de uma lua parecia cair-lhe em cima. E a pergunta sobre a diferença nos registros deixou-o ainda mais aliviado. — Acontece que modificamos a linha de produção, Mister Bell. Todo o estoque de sondas foi transformado em sucata, porque eram muito fáceis de serem localizadas. Eu os informei sobre isso pelos canais competentes. Foi há três... não, há quatro dias. — Pelos canais competentes! — Bell soltou estas palavras num gemido. — Cullins, não posso culpá-lo por isso. Seu procedimento foi absolutamente correto. Acontece que sempre que ouço as palavras “canais competentes” lembro-me de uma tremenda surra que levei de meu pai, porque este soube pelos “canais competentes” que seu filho era o “engraçadinho” que há dois meses fazia aparecer todas as noites um fantasma em nosso bairro. Na oportunidade, meu pai mandou criar um setor especial na polícia, a fim de localizar o autor desse fenômeno, que já provocara a mudança de mais de vinte filhos... Canais competentes! Quando é que poderemos contar com as sondas, Cullins? — Dentro de vinte e oito horas, Sir. Reginald Bell fez um gesto de resignação. — Está bem. Quero ouvir agora os dados mais importantes sobre as novas sondas. Então? — Até hoje, de cada cem sondas enviadas ao espaço, retornavam na melhor das hipóteses 7,38 peças. Na nova versão essa proporção mudou para 21,83. — Os engenheiros costumam usar uma linguagem rebuscada — disse Bell, sacudindo levemente a cabeça. — Quer dizer que, com as modificações realizadas nas sondas, costumam retornar vinte e duas de cem, em vez de sete por cem. E o senhor tem em estoque três mil dessas novas sondas? — Sim senhor. São exatamente três mil sondas. Bell soltou uma estrondosa gargalhada. Pitou Cullins e sacudiu a cabeça. — Vocês são de amargar! — disse subitamente com a voz irônica e satisfeita. — Para que vamos querer mais de quatro mil sondas, se o produto novo é três vezes mais eficiente que o antigo? Mande duas mil sondas cá para baixo, Cullins. Elas equivalem a seis mil peças do tipo antigo. Se sua previsão não for correta, acho que o senhor sabe para onde terá de ir, não sabe? — Mister Bell — disse o homem em sua defesa — as indicações que acabo de fazer provêm de cálculos 112


positrônicos... — ...e o corte que levei no dedo provém de vidro inquebrável. Desligo. Cullins suspirou aliviado e enxugou o suor da testa. Lançou um olhar perturbado para a tela que acabara de apagar-se. — Por todas as estrelas e galáxias! — cochichou. — O que é que um cálculo positrônico tem a ver com uma peça de vidro inquebrável? Cullins jamais obteria resposta a essa indagação. Mas, hora e meia depois da palestra entre Cullins e o lugar-tenente de Rhodan, uma moderada nave mercante decolou do espaçoporto de Terrânia, levando a bordo 2 mil sondas-foguete do novo tipo, destinadas ao aprovisionamento dos cruzadores ligeiros da classe Cidade, estacionados nas profundezas da Via Láctea. A barra realmente estava pesada em determinado ponto da Galáxia. Dentre as inúmeras notícias recebidas havia duas que Rhodan passou a Bell e Atlan, sem dizer uma palavra. — Acho que isso é apenas um fenômeno isolado — disse Atlan num assomo de otimismo. — É apenas o começo! — contestou Bell em tom convicto, sem deixar que os rostos de Rhodan e Atlan o fizessem vacilar em sua opinião. — Não posso deixar de pensar em meu dedo. Perry Rhodan perdeu um pouco de seu admirável autodomínio. — Deixe-nos em paz com suas infantilidades. Nem mesmo Gucky engoliria uma bobagem dessas. Por que acha que esse acaso representa o início de um processo? A irrupção temperamental de Rhodan não abalou o homem maciço de cabelos cortados à escovinha. — Representa um começo porque estamos lidando com o grande Coordenador de Árcon. Como sabemos, é um computador, e nunca me constou que uma máquina desse tipo fosse capaz de deixar-se levar por qualquer das inúmeras fraquezas humanas. Pelo que diz esta notícia, uma das naves do Império, que até aqui tem sido dirigida por robôs, passou a ser guiada por três mercadores galácticos. E a outra notícia diz que o robô-comandante de outra nave foi substituído por um ara. Para mim isso apenas permite uma conclusão: “Sua Majestade, o Grande Coordenador” achou que estava “gastando” muitos robôs. Esse monstro mecânico julga mais vantajoso contar com a previsão humana que com a programação dos robôs que leva a luta até o fim, isto é, até a destruição total da nave. O cérebro positrônico diz: se minhas naves farejarem os druufs... — Será que não poderíamos usar uma expressão mais elegante? — interveio Rhodan em tom áspero. Naquela situação não estava disposto para brincadeiras e, além disso, tinha verdadeira alergia pelas expressões grosseiras. — Podemos Perry, mas o faro continua a ser um fato. Pois bem. Prossigamos no raciocínio do computador. O mesmo há de dizer o seguinte: se as naves dos druufs forem

avistadas, os robôs lutarão para vencer ou perecer, enquanto os condutores humanos, ao perceberem que a situação se tornou desesperadora, procurarão salvar sua pele e, com isso, a nave que comandam. “Por isso mesmo o conteúdo das duas notícias relativas ao remanejamento da frota arcônida representa o início de uma evolução muito inquietante da situação. O desgaste de material causado pelos autômatos já deixou o computador com o focinho...” Rhodan interrompeu-o com a voz áspera; seu rosto enrubesceu ligeiramente. — Caramba, Bell, exijo que você se exprima em melhores termos! — É claro que você tem razão, Perry — confessou Bell com uma espantosa rapidez. — Somente porque o computador-gigante de Árcon não tem focinho... Enquanto os dois se digladiavam no duelo verbal, Atlan manteve-se em silêncio. Naquele instante sentiu inveja porque Perry Rhodan tinha um amigo como Reginald Bell. Rhodan, um homem disciplinado até a ponta dos dedos e duro para consigo mesmo, sentia-se dominado pela missão de fazer da Humanidade terrana a dominadora do Universo. E esse homem tinha a seu lado um amigo que nunca negligenciava seu dever, mas que sabia recuperar-se das fainas incessantes, apresentando-se como realmente era: generoso, desinibido, mas esquentado. Face a seu gênio impulsivo, não se importava de vez por outra soltar uma expressão pesada. Com isso, não apenas aliviava sua própria tensão. Também proporcionava a Rhodan uma válvula que lhe permitia aliviar a carga psíquica, mesmo que fizesse apenas por meio de uma resposta violenta como a que acabara de dar. Nessa altura, Atlan interveio nos debates: — Bárbaro, seu amigo de falas indisciplinadas avaliou a situação melhor que você e eu... Bell observou, falando de propósito com a voz tão alta que Atlan não poderia deixar de ouvi-lo: — Um dia eu retribuirei isso, almirantezinho. Continue a falar. Gosto tanto de ouvi-lo! Atlan não se deixou perturbar pela observação, mas não se esqueceu de registrar a ameaça de Bell. Se havia alguém que costumava cumprir uma promessa desse tipo era o amigo de Rhodan. — Temos de contar a qualquer momento com a possibilidade de que por alguma circunstância ou coincidência, cujas consequências seriam graves para nós, o computador-regente fique sabendo que o Império Solar está por trás dos ataques incessantes dos druufs, e que este Império os induz aos ininterruptos atos de agressão. Rhodan parecia cético. — Almirante, eu não posso concordar com isso por que... Atlan respondeu em tom grave: — No episódio de Fera Cinzenta minhas advertências não foram levadas a sério. Se não conservarmos ao menos 113


uma chance de enganar Árcon com um blefe ou um truque, poderemos ter certeza de que, talvez, seis meses após a última batalha junto à área de superposição, as naves de Árcon pousarão neste espaçoporto. Nesse caso, a luz do sol mal conseguirá chegar à Terra, porque algumas dezenas de milhares de naves estarão em torno do planeta... — Até parece que foi ele que cortou o dedo numa peça de vidro inquebrável... Com isso conseguiu fazer que até mesmo Atlan se descontrolasse: — Mister Bell, cale a boca! Caram... Bell levantou-se devagar, com um sorriso impertinente no rosto. Fez um gesto conciliador para Atlan, que se martirizava com auto-recriminações pelo deslize que acabara de cometer, lançou um olhar para o administradorgeral e dispôs-se a sair. — Amigos — disse num tom irônico e altivo. — Pela disciplina de nossa linguagem merecemos a nota dez. Porém, se alguém fosse avaliar nosso desempenho em relação ao receio pelo destino do Império Solar, todos receberíamos a nota insuficiente. Já estava junto à porta. Não ria mais. E também já não falava no dedo cortado. Limitou-se a dizer: — Graças aos ataques dos druufs, o computador-regente de Árcon hoje é mais forte que nunca. Os povos que compõem o Grande Império, e que são mais de mil, obedecem-lhe sem restrições. Quantas naves têm na frente de luta? Oitenta mil? Cem mil? Pouco importa que até o fim da luta Árcon perca a metade dessas naves. Para nós isso é totalmente indiferente, pois não temos condições de enfrentar cinquenta mil veículos espaciais, ou dez mil. “Mas não é isso que me tira o sono. Perry, em certa oportunidade, você e eu deixamos de considerar um fator muito importante. Desde o primeiro dia do ano não consigo livrar-me dessa ideia. E, desde então, fico dando tratos à bola para descobrir o que deixamos de perceber. Ainda não consegui saber. Apenas sei que tem algo a ver com Árcon. Boa noite, Império Solar!” “Não temos motivo para entreter a esperança de dispormos de um prazo de espera até o fim das lutas junto à zona de descarga. É bem verdade que vez por outra tenho chamado o computador-regente de montão de lata. Hoje já sei por que andei fazendo isso. No meu subconsciente sempre tenho certo receio por esse gênio desalmado. Usei a expressão difamatória somente para enganar a mim mesmo. Desde o ano-novo, os dados foram lançados”. “Basta que, entre as centenas de milhões de conjuntos de processamento de dados de que dispõe, o computador positrônico ponha em funcionamento apenas um. Esse conjunto começará a calcular, e todos sabemos que o faz muito depressa. Também sabemos que nunca se esquece de qualquer detalhe. O cérebro registrou a identidade de quem se dispôs a adquirir cem naves esféricas. O cérebro-monstro não levará mais de um segundo para calcular o tamanho de nossa frota espacial, e então as coisas começarão a ficar pretas para nós, mesmo que haja uma guerra galáctica junto

à área de superposição. “De uma hora para outra, as naves arcônidas estarão aqui, e então você e eu, Perry, poderemos fazer continência para os robôs, enquanto uma dessas máquinas transformará o almirante numa nuvem de gás por ver nele um traidor. Isso será inevitável, a não ser que hoje ou amanha descubramos o que nos passou despercebido há certo tempo”. “Até logo mais.” Perry Rhodan fitou-o pensativo. Atlan não disse uma única palavra. As advertências e as previsões sombrias de Reginald Bell o haviam atingido mais fortemente do que queria dar a perceber. Depois de algum tempo, Rhodan disse: — Então este é Bell! Desde a festa de ano-novo transformou-se num pessimista. — Será que isso realmente não passa de pessimismo? Rhodan lançou um olhar de surpresa para o arcônida. — O que quer dizer com isso? — O que eu quero dizer, Perry, é que sem Reginald Bell você nunca teria criado o Império Solar. Ele tem a sensibilidade correta no momento adequado, e, além disso, tem coragem de dizer que está com medo. Perry, será que um homem que prevê as nossas futuras dificuldades é um pessimista? Ou será um realista? O administrador-geral refletiu intensamente. Os traços de seu rosto estavam fortemente desenhados. As mãos pousavam suaves sobre as braçadeiras de sua poltrona. — Por enquanto ainda não sei dizer se ele é um pessimista ou um realista, arcônida. Tenho que dormir sobre isso. Atlan parecia satisfeito com essa decisão, pois acenou com a cabeça. Mas depois de algum tempo perguntou: — Perry, será que poderia dizer o que vocês esqueceram ou deixaram de considerar? O rosto de Rhodan demonstrou uma leve surpresa. — Será que você também já se impressionou com esse dedo ridículo de Bell? — perguntou em tom indignado. O arcônida respondeu com a maior calma: — Ora, bárbaro, acho que essa pergunta ficará sem resposta. Mas não quero fazer pouco das previsões algo confusas de Bell. Devemos preparar-nos para podermos reagir com uma extrema rapidez a qualquer surpresa desagradável com que nos deparemos. Isso se torna necessário à segurança do Império Solar. — Hum — fez Rhodan. — Sei a que está aludindo: a Fera Cinzenta. Antes da destruição desse mundo, eu deveria ter dado mais importância a seus avisos. Caso dissesse que ninguém poderia prever que uma pane num neutralizador de vibrações fosse apontar o caminho às naves de Árcon, apenas estaria apresentando hoje uma desculpa barata. O.K.? Bell não é nenhum pessimista, mas um realista. — Seu zombador! — respondeu Atlan.

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2 A situação estratégica da Terra piorava a cada dia que passava. Rhodan e seus homens estavam perdendo o controle da situação. Em virtude da colisão de dois Universos que se distinguiam pela diversidade das dimensões temporais, o Império de Árcon se tornara mais forte que nunca, apesar de toda decadência e dos movimentos de independência das centenas de raças que o compunham. Os ataques incessantes da frota dos druufs, que lançava mão de todos os recursos disponíveis para forçar a penetração no Universo einsteiniano, fizeram com que, depois de cinco mil anos de decadência ininterrupta, o Grande Império governado por um computador positrônico voltasse a alcançar a união. A frota de guerra de Árcon, até então separada em centenas de pequenos grupos que operavam em todos os setores da Via Láctea, voltara a constituir uma força compacta, que realizava o bloqueio junto à zona de descarga, onde dois Universos se tocavam e se sobrepunham em pequena extensão. Enquanto duravam as batalhas entre os druufs e os arcônidas, nas quais os gastos eram astronômicos, não havia um perigo imediato para o Império Solar. Acontece que, segundo os cálculos dos peritos em tempo e espaço de Rhodan, a zona de descarga se tornaria instável dentro de uns doze meses. Então a passagem de um Universo para outro seria fechada. Isso representava o alarma máximo para a Terra e uma liberdade de ação absoluta para o Grande Coordenador, que poderia lançar 80 mil naves de guerra para vasculhar a Galáxia à procura do tal Império Solar, que, segundo os cálculos do gigantesco computador, representava uma ameaça mais forte para Árcon que a luta feroz contra os druufs. Rhodan, que esperara tirar proveito da luta entre os dois gigantes, já se convencera, depois da destruição de Fera Cinzenta, de que isso jamais poderia acontecer. Todas as precauções destinadas a manter oculta a posição galáctica da Terra já haviam sido tomadas. Depois do episódio da pane do neutralizador de vibrações, ocorrida nas proximidades de Fera Cinzenta, o intercâmbio comercial com outros mundos, que vinha se tornando cada vez mais intenso, fora reduzido a um mínimo. No entanto, Rhodan, Bell e Atlan estavam convencidos de que essas medidas apenas lhes proporcionariam um ganho de tempo. Um belo dia, Árcon descobriria a Terra. O Marechal Allan D. Mercant, chefe do Serviço Solar de Segurança, que se conservara jovem graças à ducha celular aplicada no planeta artificial Peregrino, estava reunido com John Marshall, chefe do Exército de Mutantes, Perry Rhodan e Atlan. Allan D. Mercant comparecera à entrevista sem levar qualquer anotação. Neste ponto assemelhava-se a Perry Rhodan, que raramente recorria a dados fixados por escrito,

pois preferia buscar, em reuniões como esta, soluções obtidas de improviso. Apesar dos grandes méritos alcançados nas ações empreendidas a favor da Galáxia, Allan D. Mercant era um homem modesto. Criara um serviço de comunicações que dificilmente encontraria par. Seus agentes estavam espalhados pelos planetas mais importantes do Grande Império, e as mensagens de rádio transmitidas por tais especialistas refletiam a verdadeira situação do Império Arcônida. Enquanto Mercant apresentava seu relatório, Rhodan e Atlan mantiveram-se em silêncio. John Marshall parecia distraído. Mas os homens, ali reunidos, já o conheciam bastante para não se deixar iludir pela expressão de seu rosto. Naquele momento, John Marshall estava captando os pensamentos de Reginald Bell. Ficou sabendo de que forma este se cortara durante a festa de passagem de ano. Marshall levou o incidente a sério. Lembrou-se da oportunidade em que Bell manifestou ruidosamente sua antipatia instintiva contra o planeta Honur, bloqueado pelos arcônidas. Daquela vez, ninguém, nem mesmo Rhodan, o levara a sério. E, quando a catástrofe desabou sobre a tripulação da Titan, e oitocentas pessoas, entre elas Thora, Crest e Bell tiveram a vida ameaçada por um estado de hipereuforia, já era tarde para dar atenção às advertências de Bell. Enquanto Mercant prosseguia no seu relatório, Marshall continuava a “ouvir”. “Corremos à velocidade da luz para uma situação que ameaça devorar-nos. Os mutantes devem ser chamados de volta à Terra o mais cedo possível, a fim de que possam intervir nos acontecimentos”, pensava Reginald. Depois Bell, a alguns andares abaixo do lugar em que estava Mercant, passou a dedicar sua atenção a outros problemas, e o chefe do Exército de Mutantes voltou a participar integralmente da palestra. A visão do futuro deixava evidente que o Império Solar se encontrava em situação defensiva. — Se nos limitarmos a esperar, estaremos praticando a política do avestruz — disse Rhodan. — O grande computador deve ser posto fora de ação antes que sejam travadas as últimas batalhas espaciais entre os arcônidas e os druufs... — Ora, bárbaro! — interrompeu Atlan em tom enérgico. — Justamente isso é impossível. Deixar o Grande Império sem o computador-regente seria a mesma coisa que detonar no grupo estelar M-13 uma bomba de fusão de dimensões galácticas. Assim não é possível. Aliás, seria ocioso discutimos este ponto, pois ainda não encontramos nenhum meio que nos pudesse levar a Árcon III. Estamos... Olhe, o interfone está chamando. A tela cinzenta tremeluziu ligeiramente e mostrou o rosto do chefe de uma das grandes estações de hiper-rádio de Terrânia. — Sir, eu não consegui entrar em contato com Mister 115


Bell. Recebi certas notícias vindas do espaço que, no meu entender, devem ser consideradas imedia... — Transmita pelo vídeo! — ordenou Rhodan. O rosto do chefe da estação de hiper-rádio desapareceu da tela. Em seu lugar surgiu um texto. 0005-1 ao chefe. Resumo das observações, após o retorno das sondas-foguete 45618, 19, 34 e 65. O 82o grupo de naves ligeiras da frota CCDXII de Árcon foi retirado das linhas de combate hoje, às 5h54m34seg tempo de Terrânia. Todos os oficiais robotizados abandonaram suas unidades e foram colocados a bordo da nave de carga H-56 874. Às 11h3m21seg, tempo de Terrânia, o comando das unidades do 82o grupo de naves ligeiras foi assumido por tópsidas. Às 14h33m06seg, o grupo voltou à frente de combate. 0005-1 ao chefe. Naquele instante, Perry Rhodan teve a impressão de ver seu Império Solar esfacelar-se sob os golpes de fogo das gigantescas naves de Árcon. — Obrigado! — disse para dentro do microfone. — E as outras notícias, Perry? — perguntou o arcônida, um tanto contrariado. Allan D. Mercant e John Marshall não conseguiram ler a mensagem projetada na tela. Não sabiam do que se tratava. Rhodan não tomou conhecimento da pergunta de Atlan. Pálido e nervoso, dirigiu-se a Mercant e Marshall. — O 82o grupo de naves ligeiras da frota CCDXII de Árcon passou a ser tripulado por tópsidas. O Marechal Allan D. Mercant, que era um exemplo de autocontrole, levantou-se de um salto. A reação de John Marshall não foi tão forte. Pôs as mãos na cabeça e murmurou: — Tópsidas... tópsidas...! Atlan fez soar sua voz forte. — Será que também posso ser informado? Como é que esses lagartos podem tangê-los para dentro das tocas? Perry Rhodan levou apenas alguns segundos para recuperar sua calma proverbial. Fitou Atlan, que lhe lançava um olhar provocador. — Os lagartos do planeta Topsid não nos tangerão para as tocas. Mas, com o auxílio de Árcon, que lhes será prestado de boa vontade, eles nos obrigarão a sair do nosso esconderijo. É que os tópsidas conhecem a posição da Terra há mais de setenta anos, com um erro de medição de apenas vinte e sete anos-luz. — Ora, bárbaro! — revidou Atlan em tom penetrante.

— Vocês têm certo humor grosseiro. Acontece que desta vez minha inteligência arcônida não consegue compreender. Esta piada... — É uma piada da história, Atlan — completou Rhodan em tom amargurado. — Será que vocês não me poderiam dizer logo onde está a graça? — perguntou o arcônida em tom áspero. Em seus olhos amarelentos havia um perigoso brilho. — Como é que os lagartos têm conhecimento da posição da Terra, com um erro de apenas vinte e sete anos-luz? Por que ainda estão sentados em seus lugares? Rhodan, será que o que você acaba de dizer não é nenhuma piada? Será que vocês realmente se esqueceram de que os tópsidas conhecem o local aproximado em que a Terra gira em torno do Sol? — Isso mesmo — confessou Perry Rhodan. — Nestes últimos setenta anos ninguém se lembrou disso. E agora o computador-regente fez dos tópsidas os comandantes de alguns dos couraçados arcônidas. Basta que alguém cite meu nome, para que certa lembrança seja despertada. E, com toda certeza, três horas depois, alguns milhares de naves arcônidas vasculharão este setor da Via Láctea, partindo da fixação goniométrica de um ponto situado a vinte e sete anos-luz daqui. Perry Rhodan apresentou um relato resumido dos acontecimentos anteriores. Tudo começou quando a nave exploradora de Thora foi obrigada a realizar um pouso de emergência na lua terrana, isso porque os tripulantes degenerados se haviam esquecido de levar certos acessórios. Uma mensagem de hiper-rádio foi dirigida ao sistema estelar M-13, a fim de informar Árcon, naquele tempo ainda não governado por um computador. Mas Árcon não prestou atenção à mensagem, ou então esta não chegou ao destino, em virtude de um dos raríssimos fenômenos de interferência. Acontece que a raça inteligente de lagartos, que vivia no planeta Topsid, no sistema de Orion-Delta, realizou a localização goniométrica do ponto de expedição da mensagem. No entanto, tal raça não se deu conta de que, em virtude de um erro na determinação da coordenada chi, havia uma divergência de vinte e sete anos-luz. Logo depois, os lagartos de Topsid foram procurar a Terra e o cruzador arcônida no sistema de Vega, onde encontraram uma raça semelhante aos humanos e aos arcônidas, que eram os ferrônios. Este povo adorável e inofensivo não conseguiu defender-se da invasão vinda de uma distância de cerca de oitocentos anos-luz. Mas Perry Rhodan conseguiu, com uma força extremamente reduzida, infligir uma derrota arrasadora aos tópsidas que se encontravam no setor de Vega. Isso representou um de seus primeiros triunfos, que parecia abrir o caminho à realização do grande objetivo, isto é, um dia transformar-se no soberano do Universo. — O planeta Topsid fica a oitocentos e quinze anos-luz da Terra, Atlan. O erro de medição que os tópsidas cometeram na coordenada chi é de apenas 3,4 por cento. Bem, no sistema de Betelgeuze tivemos mais um confronto 116


com esses lagartos... — Isso mesmo — confirmou Atlan. — Naquela oportunidade Árcon, os saltadores e os médicos galácticos acreditaram que a Terra tivesse sido devorada pelo fogo infernal das reações atômicas. Tratava-se de uma Terra que, numa manobra hábil, você “transferiu” para esse lugar. Mas quando chegou a hora de fazer isso, você deveria ter-se lembrado do resultado das medições realizadas pelos tópsidas. Como é que você pôde esquecer uma coisa dessas? É difícil de compreender. — Acontece que os humanos não são como os arcônidas, almirante — respondeu Perry Rhodan com a voz tranquila e voltou a dirigir-se ao chefe do Exército de Mutantes. — Chame seu pessoal de volta, John! — O que pretende fazer? — perguntou Atlan em tom curioso. — Quero aproveitar a última chance de apagar as consequências de nossa omissão, desde que o tempo ainda seja suficiente para isso. — Quer ir a Topsid, onde estão os lagartos? — perguntou Atlan em tom de surpresa. Mais uma vez sentiu admiração por esses terranos obstinados, cuja audácia muitas vezes lhes permitia enfrentar problemas que um intelecto arcônida não conseguia compreender. — Não quero Atlan, preciso ir para onde estão os tópsidas. — Hoje em dia, Topsid pertence ao Grande Império — ponderou o arcônida. — Você também pertence, não pertence? — perguntou Rhodan sem a menor comoção. Mais uma vez Rhodan não aguardou resposta. Dirigiuse a Allan D. Mercant. — Quantos agentes se encontram em Topsid? — Dois — respondeu Mercant imediatamente. — Ho Kwanto e F. C. Curtiss. O fato de Topsid pertencer ao Império Arcônida é de importância secundária. Os lagartos podem sentir tudo, menos contentamento, quando alguém lhes fala em Árcon. Gostariam de desligar-se o quanto antes do Grande Império. — Será que é por isso que fornecem os comandantes para um grupo de naves? — perguntou Atlan em tom irônico. — Não posso contestar o que o senhor acaba de dizer — disse Mercant com um gesto de cortesia. — Acontece que minha afirmativa não envolve qualquer contradição. Caso os tópsidas se tivessem atrevido a não atender à solicitação do regente, que desejava o fornecimento de tripulantes para as naves, o planeta não mais existiria. Perry Rhodan não participou da discussão. — Mercant, mande verificar se em Topsid já existem arcônidas. Preciso dessa informação dentro de cinco horas. Mais alguma coisa a discutir, senhores? Essas palavras representavam o sinal de que a conferência estava terminada. O administrador-geral viu-se a sós com Atlan.

— Bem — começou Atlan usando, sem que o percebesse, uma expressão a que Bell costumava recorrer. — Até eu já não sei o que dizer. Mas gostaria de repetir a pergunta que acabo de formular. Como foi que todos vocês se esqueceram que os lagartos conheciam, aproximadamente, a posição galáctica da Terra? Perry Rhodan manteve-se em silêncio. O arcônida nunca obteria uma resposta. O fato fora esquecido, e agora os homens do Império Solar teriam de arcar com as consequências.

3 Desde o momento em que foi travada a palestra memorável, vinte e quatro horas já se haviam passado. E nessas vinte e quatro horas os mutantes chegavam ininterruptamente a Terrânia. John Marshall chamou seu pessoal de volta. Quando viram que não eram os únicos que estavam sendo convocados, compreenderam que em algum lugar havia um perigo gravíssimo. Bell preferiu não falar mais em seu dedo. Nem teve tempo para isso. Na última noite não vira a cama, mas em compensação elaborara um plano detalhado, que provocou uma expressão de perplexidade e pavor em Atlan: — O quê? Vocês pretendem ir a Topsid disfarçados de arcônidas? — Será que é tão difícil fazer o papel de um arcônida sonolento e arrogante? — perguntou Bell em tom zombeteiro. Atlan preferiu não dizer nada; estudou o plano. Na sala contígua, Rhodan conferenciava com John Marshall. O chefe do Exército de Mutantes anunciou ao administrador do Império Solar que todos os mutantes já se encontravam em Terrânia, com exceção de alguns que não podiam sair do lugar em que se encontravam. — Harno veio? — Sim senhor. — Gucky ainda não se apresentou a mim. Será que não veio? — Veio. Acontece que há algumas horas está a bordo da Kublai Khan. Ao que parece, o rato-castor mais uma vez anda espionando os pensamentos de alguém. — Como chegou a essa conclusão, Marshall? — perguntou Rhodan em tom curioso. Perry fazia questão de que fosse cumprida sua ordem de que, com exceção de John Marshall, ninguém devia ler os pensamentos dos personagens mais importantes de Terrânia. E essa ordem também se aplicava a Gucky. — Faz uma hora que me encontrei com ele na sala de comando da Kublai Khan. Estava deitado numa poltrona e contemplava suas botas especiais. Quando me viu, disse com a cara mais inocente deste mundo: “John, será que 117


estas botas quadráticas não deveriam ser substituídas por botas aquecidas? Não acredita que depois de concluída esta missão todos estaremos com os pés frios?” Quando ouvi estas palavras da boca de Gucky, compreendi que ele havia arranjado certas informações. — Quer dizer que descobriu que pretendemos utilizar a Kublai Khan — disse Rhodan em tom pensativo. — Marshall, o senhor estava a sós com Gucky na sala de comando ou... — Estávamos a sós, Sir. — Qual foi à resposta que você lhe deu, John? — Fiquei contrariado, Sir. O pessimismo do rato-castor foi a célebre gota que entornou o caldo. Eu lhe disse em tom indignado: “Se quiser, mande fazer uma calça especial para certas emergências!” Acontece que, com isso, admiti de forma indireta que tínhamos pela frente uma missão arriscada. Gucky sorriu com seu dente roedor e disse: “A barra será pesada como nunca. Quando me lembro do dedo cortado do gorducho, meus pés esfriam logo.” Depois indaguei junto a Mister Bell se havia comentado algo com Gucky, mas ele me disse que não lhe contou nada do dedo machucado. Logo... Nesse momento, Gucky chamou pelo telecomunicador. Encontrava-se a bordo da Kublai Khan e anunciou, com um atrevimento a toda prova, que escutara a conversa entre Rhodan e Marshall. — E daí? Muito pior que isso é a porcaria que estão fazendo aqui. Se a Kublai Khan tem de ser transformada num supergigante arcônida, poderíamos esperar ao menos que essa gente dominasse a ortografia arcônida... On-Tharu é escrito com th. É claro que disse umas boas a esses cabeças de minhoca... Eram as expressões de Reginald Bell, que o rato-castor usava com uma alegria infernal. Mas ao ouvir a expressão “cabeças de minhoca”, Perry Rhodan interrompeu-o em tom áspero. — Tenente Guck, a situação é séria demais para... — Bem — interrompeu o rato-castor. — Se você me chama de tenente, a barra realmente deve estar pesada. Mas não acho nada bonito que Marshall tenha feito minha caveira junto a você. Posso ir até aí, Perry? — Venha imediatamente. Isto é uma ordem. John Marshall e Perry Rhodan perceberam que o ratocastor não estava mais presente na tela. Já devia estar a caminho num salto de teleportação. Mas não viram Gucky sair em meio a um tremeluzir do ar. Rhodan mandou que Marshall o procurasse, isto é, que captasse seus impulsos mentais. Depois de alguns minutos, o chefe do Exército de Mutantes teve de confessar que não conseguia encontrá-lo. — Um dia destes preciso ter uma conversa com Gucky! Desta vez não o tratarei com luvas de pelica — disse o Administrador-Geral em tom contrariado. Esforçou-se para voltar ao assunto. Ele e John Marshall voltaram a discutir o plano elaborado por Bell, cujo ponto principal residia na utilização dos mutantes.

Marshall teve suas objeções. — Essa concentração de mutantes não representaria um risco extraordinário? Se alguma coisa nos acontecer, e o senhor não pode desprezar esta possibilidade, poderá ver-se na contingência de ser privado de todo o Exército de Mutantes. — John — respondeu Perry Rhodan, sacudindo levemente a cabeça. — Acho que você ainda não compreendeu que o pecado que cometemos por omissão nos obriga a adotar este procedimento. Faz apenas setenta anos que se verificou a invasão dos lagartos no setor de Vega. Isso não basta para demonstrar que o perigo de sermos localizados por eles ou pelo computador-regente é muito grande? “É bem verdade que o ditador que então exercia o governo e os membros de sua junta militar provavelmente já terão morrido. Em compensação deve haver alguns milhares de tópsidas que guardam uma lembrança muito viva dos acontecimentos por que passaram. Além disso, não nos devemos esquecer dos registros. Mesmo que a memória dos tópsidas não represente nenhum perigo, os registros poderão representar nossa desgraça. Para remover esse perigo iminente, temos de lançar mão de todos os recursos, a fim de desenvolvermos em Topsid uma ação que não conste de nenhum documento histórico. “Sei que estou assumindo um risco muito grande, Marshall. Também sei que o senhor e seu Exército de Mutantes terão uma tarefa muito difícil. Caso apenas um homem falhe, todo o Império Solar estará irremediavelmente perdido. Pois, nesse caso, os arcônidas virão o mais depressa possível.” Acontece que John Marshall tinha outras objeções contra a utilização maciça dos mutantes. E, graças ao seu senso de responsabilidade, ele as formulou. Perry Rhodan tinha todos os motivos para felicitar-se por ter um comandante do Exército de Mutantes que era incômodo, porém honesto. — Sir, acaba de dizer que todos os tripulantes da nave serão escolhidos pelo aspecto exterior. Quer dizer que todos devem ser homens cujo corpo se pareça com o dos arcônidas. Acontece que o tamanho da maioria dos mutantes é inferior à média. Peço-lhe que considere este ponto. — O senhor tem outro plano que seja mais fácil e tenha iguais chances de êxito, Marshall? — Acho que não seria difícil instalar em Topsid uma rede de emissoras hipnóticos que influencie os lagartos até o momento em que o computador-regente não represente mais nenhum perigo para nós. — Ora, Marshall! — respondeu Perry Rhodan com certa perplexidade, lançando-lhe um olhar de recriminação. — O senhor sabe perfeitamente qual é minha opinião sobre esse tipo de influência em massa. Só recorro a esse recurso quando não tenho outra alternativa, e mesmo então o faço a contragosto. No presente caso, ainda acontece que nossos dados a respeito dos lagartos são muito escassos. Não 118


sabemos se uma hipnose, que dure algumas semanas ou meses, provocará algum dano em seus cérebros. Será que mais tarde terei de recriminar-me por ser responsável pela doença mental de cem mil lagartos? Afinal, não sou nenhum computador desalmado. Perry Rhodan nem se deu conta de que, com estas palavras, acabara de passar por uma prova através da qual alcançaria a consagração dos desejos de domínio do Império Solar, enquanto certa construção artificial existente em Árcon III nunca poderia passar de um fenômeno transitório, condenado a desaparecer em pouco tempo. Antes que Marshall pudesse dar uma resposta, a porta abriu-se e Allan D. Mercant entrou ao lado do rato-castor. A rigor, Gucky deveria esperar algumas repreensões extremamente duras. No entanto, sorria amavelmente com o dente roedor. Foi saltitando pela sala sobre os pezinhos enfiados em botas especiais e apoiando-se levemente sobre a cauda larga. Com um gesto grandiloquente, deixou-se cair numa das poltronas. Rhodan, que recorreu à sua capacidade telepática pouco desenvolvida para ler os pensamentos do rato-castor, encontrou um forte bloqueio. Gucky não permitiria que qualquer espia atingisse seus pensamentos. — Sinto incomodá-lo, Sir — disse Allan D. Mercant ao entrar. — Gucky me procurou depois de pôr em alarma o Serviço de Segurança. A ação por mim desencadeada ainda está em andamento. Mas espero que seja concluída em breve. “Gucky impediu Ulbers, o especialista em telecomunicações, e Huang-Lu, o técnico em mecanismos de propulsão, de transmitirem ao grupo estacionado na Lua o sinal convencionado para o lançamento de uma sonda. O Serviço de Segurança já apreendeu essa sonda. Tal aparelho levaria um emissor de hiper-rádio programado para começar a transmitir, cinco minutos após o lançamento, a posição galáctica da Terra.” Allan D. Mercant, que costumava ser a calma em pessoa, forneceu estas explicações com a voz trêmula. Por um instante Perry Rhodan empalideceu, e John Marshall estremeceu visivelmente. O rato-castor refestelou-se na poltrona, deixou girar os olhos inteligentes e exibiu o dente roedor num sorriso ainda mais gentil. Encostara a pata dianteira esquerda à braçadeira da poltrona e mantinha a cabeça apoiada na mesma. Estava de olhos fixos no administrador. Mas Rhodan olhava para além de Gucky. Levou apenas um segundo para absorver a notícia chocante. — Mercant, por que o senhor supõe que a ação estará concluída dentro de pouco tempo? — perguntou. — Gucky forneceu ao Serviço Solar de Segurança os nomes de todas as pessoas ligadas à conspiração contra o Império Solar. Ulbers e Huang-Lu haviam sido destacados para servir na Kublai Khan e encontravam-se na nave, mais precisamente na sala de rádio, quando Gucky interveio e os segurou por meio da telecinese. Depois pôs o Serviço de Segurança em alarma e providenciou para que Ulbers e

Huang-Lu fossem “recepcionados” pelo pessoal de bordo. Após isso voltou a aparecer à minha frente. O interfone chamou. A imagem da tela estabilizou-se e um homem, que trazia na lapela do uniforme o pequeno distintivo do Serviço Solar de Segurança, disse em tom lacônico: — Sir, operação Flauta Mágica concluída. Os dezoito conspiradores estão presos. Fim da mensagem. Alguma pergunta, Sir? Q chefe do Serviço Solar de Segurança não teve mais nenhuma pergunta, mas Rhodan indagou com certa admiração na voz: — Por que deu esse nome ao caso? — Não faço a menor ideia — respondeu Mercant meio embaraçado. — Por que será mesmo? O rato-castor, que continuava em sua poltrona, piou: — Por que não iríamos chamar a operação de Flauta Mágica? É claro que, numa questão dessas, devemos dar asas à fantasia. Afinal, essa gente queria chamar os arcônidas com sua flauta. Foi por isso que mobilizei tão depressa seu Serviço de Segurança, Allan. No momento em que berrei para dentro do microfone que a operação Flauta Mágica iria ter início, os sujeitos saíram correndo. Ninguém fez perguntas. Absorveram que nem umas esponjas os endereços que lhes forneci, e a coisa começou a rolar. Acontece que não havia nada de especial em tudo aquilo. Você, John, fez minha caveira junto a Perry. Por isso fiquei com uma tremenda raiva e, para acalmar-me, soltei minha telepatia. Fiz uma visita à sala de rádio e peguei Ulbers e Huang-Lu, quando estes pretendiam levar avante seu plano infame. Foi só isso. Depois os homens da Kublai Khan cuidaram desses porcalhões e... — Gucky! — interrompeu Perry Rhodan em tom de recriminação e esteve a ponto de dizer mais. Porém o ratocastor retificou-se no mesmo instante e prosseguiu: — Depois os homens da Kublai Khan cuidaram desses cavalheiros. Eu os coloquei num estado favorável às confissões e retirei de suas vibrações cerebrais os nomes dos cúmplices. — O que foi que você fez com eles? — perguntou Rhodan. Gucky continuou acomodado em sua posição. Falando num tom imponente, disse: — Perry, você é o administrador do Império Solar. Deixe essas ninharias por nossa conta. Não se preocupe com isso. Quando terá início a operação Dentista? — O que é isso? — perguntou Rhodan com uma contrariedade perceptível. — Será que essa palavra não é clara, Perry? — perguntou o rato-castor com uma ingenuidade fingida. — Não resolvemos arrancar todos os dentes desses lagartos de Topsid, para que eles não nos possam machucar mais? — Ponha-se daqui para fora, seu fingido... O ar começou a tremer em redor da poltrona onde Gucky estava sentado. No mesmo instante, este desapareceu da poltrona e da sala. Ele, que chamava todo 119


mundo de você, sem fazer exceção com relação a Perry Rhodan, percebeu imediatamente que as condições atmosféricas no interior do gabinete de Rhodan pioraram para ele, e então saiu sem despedir-se. O instrumento de Allan D. Mercant, ou seja, o Serviço Solar de Segurança trabalhou com a precisão de um computador positrônico. Poucos minutos depois de Gucky ter-se retirado, chegou um relatório pelo interfone, que esclareceu inclusive os motivos da conspiração. Nos últimos três anos, os dezoito conspiradores haviam sido advertidos, e, em alguns casos, até mesmo punidos por infrações disciplinares dos tipos mais variados. Nunca houve qualquer queixa quanto à eficiência do trabalho deles. Ulbers chegava mesmo a gozar da fama de ser um dos melhores especialistas em hipercomunicações, e os três aperfeiçoamentos introduzidos por ele no estágio final do aparelho provavam que essa fama tinha sua razão de ser. Com o correr do tempo sua disposição oposicionista face à política de Rhodan transformara-se em ódio, que o levou a conceber a revelação da posição da Terra aos arcônidas por meio de uma hipermensagem permanente, que seria irradiada por uma sonda disparada para o espaço. — Uma desgraça quase nunca vem só — disse Rhodan em tom deprimido assim que leu a mensagem. — O que vamos fazer com Gucky? Não posso puni-lo, por ter evitado uma terrível catástrofe. Por outro lado, uma pequena lição não lhe faria mal, pois assim talvez no futuro tenha cuidado e não volte a exorbitar. Por que está rindo, Marshall? — Sir — disse o telepata. — Gucky sempre vive nos enganando. Isso faz parte de sua personalidade; no dia em que não o fizer mais, deixará de ser Gucky, o rato-castor.

4 Rhodan destacou três mil swoons e igual número de criaturas humanas para a tarefa de, no menor prazo possível, criarem um aparelho que permitisse manter estáveis no hiperespaço gigantescos campos ionizados. Bell, que também elaborara esta parte do plano contra Topsid, mais uma vez deu prova de que sabia lidar muito bem com gente — ou, se necessário, com os swoons, também conhecidos como homens-pepino. De início só colheu olhares de perplexidade. Sempre que falava no seu plano de criar gigantescos campos ionizados, defrontava-se com palavras de incompreensão. Deixou que se divertissem, não se indignou, não fez nenhuma alusão irônica, mas dentro de duas ou três horas voltava a falar com os peritos, debatendo sempre o mesmo problema. — Preciso de hipercampos de interferência de

dimensões astronômicas. Preciso de campos desse tipo que não entrem em colapso em uma hora, nem em cem horas, e nem mesmo em mil horas. Em outras palavras, preciso de aparelhos que me permitam paralisar o tráfego de hiperrádio de todo um planeta. É bem possível que, se estes aparelhos não forem fornecidos, dentro de um prazo muito curto, os senhores mudem de patrão. É só por isso que acredito que dentro de três dias terei uma série de aparelhos aptos a entrar em funcionamento. Afinal, não há nenhum obstáculo teórico à construção de um aparelho desse tipo. Até mesmo os swoons, os micromecânicos — verdadeiros gênios em suas especialidades — disseram que a exigência de Bell era impossível de ser atendida. Mas, por isso, tiveram de travar conhecimento com outra faceta da personalidade de Bell: sua teimosia insuperável. — Meus caros — disse em tom condescendente — não sou nenhum leigo no assunto e sei que minha ordem é quase inexequível. Quase... Esta palavrinha deveria servirlhes de estímulo para procurarem tornar possível o impossível. “Se partirmos do pressuposto de que, no hiperoscilógrafo, a constante hy e as curvas formam...” Reginald Bell obrigava os peritos a falar de assuntos profissionais. Entendia do assunto, menos que eles, mas o suficiente para estimulá-los. Mas nunca conversava mais de meia hora, pois sabia perfeitamente que o tempo urgia, e que a qualquer momento a desgraça poderia surgir sob a forma de várias esquadrilhas arcônidas que sobrevoassem a Terra. Terrânia, que, para o observador superficial, era apenas uma metrópole agitada, passou a ser um verdadeiro inferno de apressados preparativos. As panes surgiam em todos os lugares. Havia incidentes com os quais ninguém contara. Planos detalhados tinham de ser modificados. As ordens eram substituídas por contraordens. Um item, que há meia hora ainda figurava da agenda com um grau máximo de urgência, era abruptamente retirado das linhas de produção. Um pequeno exército de robôs obteve um aspecto arcônida. Toda a programação dos mesmos teve de ser reformulada. A nova programação baseava-se no fato de que o orgulho e a arrogância constituem características fundamentais dos arcônidas. Os dois mil tripulantes da Kublai Khan foram submetidos a um processo intensivo de aprendizado hipnótico. Apresentar-se-iam como arcônidas no planeta de Topsid, e por isso deveriam ser arcônidas, não só pelo aspecto exterior, mas também pelo gênio e pelas atitudes. A Kublai Khan, rebatizada com o nome de On-Tharu — o erro de ortografia foi corrigido — não seria a única nave que participaria da operação. Seria acompanhada por oito naves da classe Estado, com cem metros de diâmetro e tripuladas com cento e cinqüenta homens, além de dois cruzadores pesados. Em seus envoltórios esféricos havia letras e cifras arcônidas. Embora não devessem pousar em Topsid, Rhodan não desejava que, na hipótese de um 120


encontro casual com uma nave do Grande Império, algum erro mínimo representasse o princípio do fim. O plano de Bell, que nas linhas gerais merecera a aprovação de Rhodan, previa quatro dias para os preparativos. Mas quando o segundo dia chegou ao fim, teve-se a impressão de que, nem dali a uma semana, as naves poderiam decolar em direção ao planeta de Topsid, situado no sistema de Orion. Uma pane sucedia-se à outra. Novas notícias alarmantes surgiram da zona de descarga, onde as lutas entre os druufs e os arcônidas continuavam a consumir quantidades enormes de materiais. O computador-regente de Árcon estava mobilizando todos os povos auxiliares do Grande Império e os obrigava a enviar ao front os comandantes espaciais e os oficiais mais competentes. Só os tópsidas estavam guarnecendo nada menos de dezenove esquadrilhas! Perry Rhodan avisou Bell, que acabara de suspirar aliviado porque conseguira desatar em três horas de lutas um nó cego de incidentes imprevistos. — Ah, é? Dezenove esquadrilhas? Todas estão guarnecidas com oficiais tópsidas! Você está só, Perry? — Estou — respondeu Rhodan. — Pois então faça-me o favor de não me contar mais nada. Estou com medo. Não sei o que houve comigo. Alguma coisa vem em nossa direção e nos atropelará. Santo Deus, Perry, será que negligenciamos ou esquecemos mais alguma coisa? Rhodan lembrou-se da pergunta de Atlan, sobre se os pressentimentos desastrosos de Reginald Bell representavam uma atitude pessimista ou realista. Acontece que nunca vira Bell nesse estado. Era bem verdade que, antes do pouso no planeta de Honur, Bell também desempenhara o papel do homem das advertências incessantes, mas as coisas não chegaram ao ponto em que agora estavam alcançando. — Para a operação especial a ser realizada em Topsid não foi esquecida ou negligenciada coisa alguma — respondeu Rhodan com a voz firme. — O centro de computação de Vênus também realizou seus cálculos a este respeito e, em todos os pontos importantes, chegou à conclusão de que as chances de êxito eram de 85 a 97,5 por cento. — Ora, o computador — disse Bell fungando. — Minha aversão por esses monstros positrônicos cresce a cada dia que passa. Como instrumentos de cálculos são formidáveis, mas como profetas... Perry, neste ponto eu preferiria que eles fossem para o inferno. Prometi a mim mesmo que durante esta operação seguiria o meu instinto, sem dar qualquer atenção às recomendações do computador positrônico. — Provavelmente você não terá tempo de desenvolver qualquer atuação positiva, Bell — exclamou Perry Rhodan pelo videofone. — Seu plano sofreu uma única modificação. Nem você, nem Atlan, nem eu dirigiremos

oficialmente a operação a ser desenvolvida em Topsid. Isso ficará a cargo de nossos técnicos e mutantes. Bell soltou um assobio. — O que restará para nós, Perry? — Apenas o trabalho miúdo, as filigranas. Temos diante de nós uma tarefa quase insolúvel: devemos tomar todos os preparativos para enganar o computador-regente de Árcon. Você já imaginou o que significa fornecer dados falsos ao gigantesco computador positrônico? Quero ajudá-lo a recuperar a autoconfiança que, pelo que vejo, está profundamente abalada. É bom que saiba o que o centro de computação de Vênus acha de nossos planos. Quando trouxe o resultado, Atlan estava bastante deprimido. É impossível falsificar uma série de fatos incorporados à história, e que o povo tenha vivido em toda a extensão. Os cálculos de probabilidade produziram uma série de resultados situados entre 78 e 98,46 por cento, o que equivale à negativa de uma possibilidade de êxito. “Se admitirmos que a corda bamba pela qual teremos de andar durante a operação Topsid deve ter uma espessura de cem, tal corda em certos lugares está reduzida a 1,54 por cento desse valor. E a esses 1,53 por cento se contrapõem esses 98,46 por cento.” — Perry — interrompeu Bell em tom enérgico — você nunca se admirou de que no curso dos decênios nós, do Império Solar, nunca sofremos um revés de verdade? E olhe que já o merecemos. Sim, é isso mesmo. Não adianta olhar-me com esse ar de espanto. O que é que costumamos fazer antes de qualquer ação? Procuramos a Pítia moderna e pedimos que ela nos diga em números e frações decimais se nossas chances são boas. Estamos no melhor caminho para transformar-nos em arcônidas. Engolimos sem a menor resistência tudo que um computador construído, segundo a mentalidade arcônida, joga à nossa frente e nos esquecemos de que somos homens, seres pensantes, sensíveis. “Faça-me o favor de não me vir com o argumento de que a operação de Topsid poderá trazer certas consequências graves, e que foi este o motivo de ter sido formulada à consulta ao cérebro positrônico montado em Vênus. Qualquer ato traz suas consequências. Está na hora de deixarmos de aceitar o papel de escravos do computador, para voltarmos a ser homens que aproveitam integralmente sua capacidade de agir. Assim seremos superiores a qualquer cérebro positrônico e conseguiremos vencer o desafio que nos espera em Topsid. “A preguiça mental e a degenerescência dos arcônidas é devido principalmente aos cérebros positrônicos. Será que nossos netos e bisnetos deverão ser tão indolentes como eles? Por isso pouco me interessa o que o grande centro de computação de Vênus tenha dito a respeito da ação que 121


planejamos. Caramba, Perry! Não somos arcônidas, mas homens. E devemos saber agir como seres humanos.” Perry Rhodan não deu qualquer resposta. Limitou-se a levantar uma folha e colocá-la à frente da lente da objetiva. Bell leu ao lado da percentagem de 98,47 a seguinte observação manuscrita de Perry Rhodan: “Resultado incorreto. Valores humanos não foram considerados. PR.” — Por que deixou que eu falasse tanto? — disse Bell com um sorriso largo. — Porque gostei de ouvi-lo, Bell. Acho que vez por outra temos de chamar à lembrança esse tipo de verdade. Aliás, como vai o projeto de criação de campos de ionização? — Não poderemos contar com qualquer resultado antes de amanhã de noite. A dificuldade consiste em manter estáveis as camadas de reflexão no hiperespaço. A coisa não quer funcionar. O que sabemos sobre o hiperespaço ainda é pouco. E ainda há um detalhe bastante desagradável, de que só agora tomamos conhecimento. Os hipercampos de interferência permanecem no hiperespaço sob a forma de campos de fuga circulares e giratórios, que, de repente e sem qualquer motivo plausível, se afastam do raio vetor e desaparecem. Será que a ideia dos campos de ionização foi exclusivamente minha, Perry? — Foi, gorducho. Você pode tirar a patente. Por isso seus problemas não me interessam muito. Quando começará a fabricação em série dos aparelhos de interferência? Amanhã de noite? — Se houver um milagre, sim; do contrário... A essa altura, Perry Rhodan mostrou sua impetuosidade! Com a voz fria e implacável transmitiu sua exigência: — A produção em série terá de ser iniciada amanhã de noite o mais tardar, Bell. Confio inteiramente em você. Desligo. Crest, o velho cientista arcônida, entrou no gabinete de Rhodan. Ele e Thora não obtiveram a ducha celular regeneradora do planeta Peregrino. E para Crest, estavam chegando os dias em que um indício após o outro anuncia o fim que se vai aproximando lentamente. Mas sua energia psíquica continuava a ser a mesma dos melhores anos de vida. Tomou lugar ao lado de Rhodan; demonstrou a calma e a tranquilidade que Perry e Reginald Bell haviam observado há muitos decênios, quando travaram conhecimento com esse arcônida na Lua. — Voltei a examinar a lista dos mutantes que deverão participar da operação — principiou. — Não seria recomendável levar para Topsid apenas metade desses elementos insubstituíveis? Atlan não é da mesma opinião que eu; acabo de falar com ele. Mas em John Marshall encontrei maior compreensão. Ele acredita que a utilização maciça de todos os mutantes representa um risco excessivo. — Crest — respondeu Rhodan em tom resoluto — a operação Topsid tem de ser concluída o mais cedo possível. Não se esqueça de que agora somos obrigados a agir.

Avançamos a partir de uma posição defensiva. Isso sempre representa um mau começo... Um instante; a estação de hiper-rádio está chamando. Mais uma vez chegaram notícias da frente de luta, onde as armadas espaciais dos arcônidas bloqueavam a área de superposição e se envolviam em lutas infindáveis com os druufs. Rhodan tinha ã sua frente mais de três dezenas de mensagens. Essa torrente de notícias só se tornou possível graças às novas sondas-foguete, difíceis de serem localizadas e derrubadas. Além disso, os aperfeiçoamentos introduzidos na ótica de campos magnéticos, que em seus efeitos tinham uma semelhança espantosa com as lentes de borracha, já superadas, aumentaram em mil por cento o potencial de observações óticas. — Sir — disse o chefe da estação de hiper-rádio de Terrânia, dirigindo-se a Rhodan. Em sua voz soava certo orgulho. — Agora já dispomos de uma visão completa de todas as formações de naves arcônidas que se encontram na frente de combate. Apuramos que Árcon mantém em luta oitenta e três mil naves de guerra, sem computar as naus auxiliares e as de aprovisionamento. “Mais de cinquenta mil dessas naves já estão sendo pilotadas por criaturas humanoides. A cada hora que passa, mil robôs são substituídos por inteligências vivas. Hoje de noite estará concluída a substituição total do comando de todas as naves de guerra arcônidas”. “Há duas horas chegou um contingente de seis mil lagartos vindos do planeta Topsid. É o terceiro transporte que chega nestas últimas dez horas”. “Ainda não concluímos a interpretação dos dados. Porém, desde já, posso dizer com absoluta segurança que, nos setores em que os lagartos comandam as naves de guerra de Árcon, as perdas materiais são mais reduzidas. De outro lado, os druufs estão sendo rechaçados com uma violência nunca vista”. “Permita, Sir, que lhe forneça as notícias detalhadas...” Rhodan interrompeu-o e agradeceu. Esta parte do relatório foi suficiente para orientar sua ação. Desligou. Crest acompanhara a palestra. — Então — disse, dirigindo-se ao velho arcônida. — Não acha que as coisas estão ruins? A base de Hades e Ellert, o mutante, terão que intervir. O computador-regente não deve ter nenhuma pausa para respirar, pois do contrário, amanhã ou depois, teremos naves arcônidas pousando na Terra... — O que pretende fazer, Rhodan? — perguntou Crest, que desde o primeiro encontro vinha tributando uma admiração muda a esse terrano. — Nossa base no Universo dos druufs receberá ordens, por intermédio de uma sonda, para recorrer a todas as possibilidades, especialmente à influência que Ellert pode fazer valer perante os druufs, a fim de que eles continuem a realizar ataques maciços contra as linhas de bloqueio de Árcon. Será que não devemos atirar uma isca aos druufs? Poderíamos fazer chegar-lhes a informação de que, nos 122


próximos dias, o inimigo aparecerá com campos defensivos superpotentes, praticamente indestrutíveis? Crest, quanto tempo será preciso para obter os dados numéricos necessários ao lançamento da isca? — Três horas, cinco no máximo, Rhodan, mas... — Perdão, Crest. Neste momento não posso aceitar nenhum “mas” com o sentido que o senhor atribui ao termo. Quer dizer que aguardo os dados por cinco horas. Mais alguma coisa? Crest respondeu que não e retirou-se. — Até hoje de noite, o grande cérebro de Árcon colocará inteligências vivas no comando da maior parte de suas naves de guerra, gorducho. Você precisa dar um jeito para que amanhã possamos dispor dos primeiros aparelhos geradores de campos de hiperinterferência, a fim de que as primeiras naves estejam prontas para partir em direção ao planeta Topsid. Não lhe posso conceder prazo maior que este. É só. Depois Rhodan ligou para Allan D. Mercant. — Algo de novo sobre Topsid? — Não senhor. Por enquanto nenhuma nave arcônida apareceu no setor de Orion ou foi anunciada pelo grande computador. Mas meus dois agentes constataram por meio do goniômetro que, nas últimas vinte e quatro horas, o computador-gigante entrou três vezes em contato com os tópsidas. Não foi possível decifrar as mensagens. — Como está a situação geral, Mercant? O rosto do interlocutor de Rhodan não anunciava nada de agradável. — Muito má, Sir. A cada hora que passa, o computadorregente fica mais forte. Nem mesmo na época do apogeu, o Império foi comandado com tamanha energia como agora. Nem os aras se atrevem a levantar a voz, quanto mais os saltadores e os superpesados. Os druufs e seus ataques ininterruptos amalgamaram o Grande Império que se esfacelava. Meus agentes, que não têm uma visão geral da situação, veem-se diante de um enigma. Os movimentos separatistas, as revoltas contra Árcon e outros acontecimentos semelhantes já não ocorrem no grupo estelar M-13. — Obrigado, Mercant. Rhodan redigiu uma ordem que, dentro de duas horas, deveria chegar a Hades, um planeta situado no Universo dos druufs. O tráfego de carga para Hades foi suspenso a partir da destruição da base de Fera Cinzenta. O contato resumia-se às comunicações de rádio. Acontece que Rhodan não gostava de utilizá-las, pois conhecia perfeitamente o risco de uma localização goniométrica. Por isso, preferia transmitir as notícias através de uma sonda, que, na pior das hipóteses, apenas poderia ser derrubada. Jamais alguém poderia apoderar-se dela, porque o aparelho se autodestruiria, sem fornecer a menor indicação sobre a ordem de que era portadora. Quando o planeta Plutão chamou por outra tela, Rhodan estava transmitindo o texto à estação de hiper-rádio. — Um momento! — gritou Rhodan; virando-se de lado,

concluiu o texto. A seguir, deu ordem para que este fosse transmitido por intermédio de pelo menos dez estações retransmissoras. Só depois respondeu ao chamado de Plutão. As estações retransmissoras eram cruzadores de reconhecimento da classe Estado, distribuídos a grandes distâncias pela Galáxia. Estas recebiam, muitas vezes em zigue-zague, as mensagens codificadas e condensadas, e as irradiavam no mesmo segundo a outra nave, por uma freqüência diferente. Assim, as mensagens chegavam ao destino com uma demora de cinco segundos. Nenhum serviço goniométrico inimigo conseguiria saber o ponto de partida e de chegada da transmissão. — Pode falar — disse Rhodan, olhando para a tela na qual se via o rosto do chefe das instalações de Plutão. — Queira desculpar, Sir... — O que houve? — perguntou Rhodan em tom impaciente, dando a entender que a interrupção vinha em má hora. O rosto do chefe da guarnição tornou-se ainda mais frio. Pigarreou e, usando o tom lamentoso que Rhodan não apreciava nem um pouco, disse: — Sir, há alguns dias o Tenente Thomas Cardif vem tentando... Rhodan sentiu um calafrio. — Thomas Cardif — sua voz não traía a emoção que surgia em sua alma quando interrompeu o major da base de Plutão. — O senhor não é o superior imediato do tenente, major? Trate-o da mesma forma que trataria qualquer outro oficial! — Sir — Perry Rhodan não pôde deixar de notar que o major recorria às últimas reservas de coragem para expor seu problema. — O exame psiquiátrico do tenente levou à conclusão de que, em virtude do ódio que ele tem contra o senhor, o rapaz só tem uma responsabilidade restrita por seus atos. Por isso pediria licença para... Perry Rhodan inclinou-se para frente. Subitamente seus olhos cinzentos pareciam expelir chispas. As rugas da testa aprofundaram-se, dando mostras da emoção que sentia. Apenas a voz continuou inalterada, embora nela passasse a vibrar um tom gelado. — Se o lugar do Tenente Thomas Cardif for um estabelecimento psiquiátrico, ele não poderá continuar a ser um oficial da frota espacial do Império Solar. Caso não esteja doente e só sofra de certos complexos de ódio artificiais, criados por ele mesmo dê uma ocupação ao jovem, major. O senhor tem filhos? — Tenho; dois rapazes e uma moça. — O.K. O que pretende fazer com ele, major? — O rapaz costuma proferir palavras ofensivas à sua pessoa. O major ainda não se atrevera a expor ao pai de Thomas Cardif os atos de que este se fizera culpado. — Isso não é novidade, major. Mas não estou satisfeito com o procedimento do senhor, já que o fato de Thomas Cardif ser meu filho lhe tolhe a liberdade de movimentos. O 123


que quero é que aja livremente. Coloque-o diante de uma corte marcial. Depois que tenha cumprido a pena que lhe venha ser imposta, dê-lhe um tratamento que lhe faça perder a vontade de fazer discursos subversivos. — Permite mais uma observação, Sir? — perguntou o major. — Pois não! — O Tenente Cardif possui a energia do senhor... Mais uma vez Perry Rhodan interrompeu o major. — Isso é um fato positivo que me deixa muito satisfeito. Procure conduzir essa energia para canais adequados. Faço votos de que o senhor o consiga, pois isso seria um grande benefício para Thomas Cardif... Bem, major, acho que os filhos vêm ao mundo para dar aborrecimentos aos pais. Obrigado. Desligo. A ligação entre Plutão, o planeta gelado, e a Terra deixou de existir. Mas os pensamentos de Rhodan, que se encontrava em Terrânia, giraram por alguns minutos em torno do filho, que só em Silico V, uma fortaleza planetária dos arcônidas, ficou sabendo que era filho de Thora e Perry Rhodan. E, desde então, se recusara a renunciar ao nome Cardif, sob o qual fora criado. Rhodan estava com a alma revolta. Thomas, sempre Thomas, dizia seu pensamento. Perry sabia que o filho não conseguiria romper a herança arcônida que a mãe lhe deixara. Thomas Cardif, filho único de Perry Rhodan, odiava o pai. Quando viu Bell entrar em seu gabinete, Rhodan sentiuse aliviado. O gorducho estacou ao ver o amigo tão abatido. — Alguma novidade? — perguntou em tom mais cauteloso do que costumava usar. — Bell, Thomas terá de enfrentar a corte marcial. — Não diga! — a voz de Bell parecia um toque de atacar. — O que foi que você fez? É claro que concordou, não é, Perry? — Pois como administrador do Império Solar não poderia... — Perry! — interrompeu Reginald Bell. — Você é um sujeito formidável, mas como pai não é tanto. Meu pai me esquentava os fundilhos quando fazia alguma coisa que não devia. Porém, mais tarde, se houvesse necessidade, teria ido até o presidente dos Estados Unidos para interceder por mim. E o que é que você está fazendo? Deixe-me usar esse aparelho. Empurrou Perry para o lado. A tecla fez clique. A estação respondeu. Reginald Bell pediu uma ligação com o major que servia nas instalações de Plutão. A imagem não demorou a surgir na tela. — Major — principiou Bell. — Estou chamando por causa de Thomas Cardif. Esse jovem não pode ser colocado diante da corte marcial. Estou falando do mesmo lugar em que o administrador falou com o senhor há pouco. Está sentado a meu lado. Quer dizer que estamos entendidos, não estamos? Deve-se dar uma lição a esse jovem? É claro que sim; e que lição? Bem, o senhor entende disso melhor

que eu. De qualquer maneira estamos conversados, não estamos? — Entendi perfeitamente, Mister Bell! — disse a voz vinda de Plutão, com um suspiro de alívio. — O.K. Desligo major! — gritou Bell para dentro do microfone e desligou. Bell não mais tocou no assunto Thomas Cardif. Afinal, não foi por isso que veio falar com Rhodan. — Amanhã de manhã será iniciada a produção em série dos novos aparelhos, Perry! O trabalho dos especialistas progrediu bem. Agora está na vez de os homens práticos, os técnicos mostrarem o que sabem fazer. Acho que, depois de muito tempo, esta noite será a primeira em que conseguiremos dormir bem. Enquanto proferia estas palavras examinava o polegar direito, que já sarara da ferida. De qualquer maneira parecia não gostar, pois vivia sacudindo a cabeça. Perry Rhodan preferiu não perguntar a Bell por que motivo ele vivia sacudindo a cabeça. Não fazia nenhuma questão de voltar a ouvir as previsões sombrias do amigo. — Bem — disse para desviar a atenção de Bell. — Acho que hoje conseguiremos dormir...

5 Oito cruzadores ligeiros da classe Estado decolaram em direção ao sistema de Orion. Tratava-se de veículos espaciais esféricos de apenas cem metros de diâmetro. Da operação ainda participavam duas naves da classe Terra. O supercouraçado Kublai Khan, que pelo aspecto exterior passara a ser uma nave arcônida com o nome On-Tharu, era o único que se mantinha à espera. Só poderia entrar em ação depois de concluídos os complicados preparativos da visita ao planeta Topsid. Gallus, principal especialista em campos de ionização no hiperespaço, voava na Burma. Não conseguiu sair de seu minúsculo laboratório, até o momento em que Joe Pasgin, que naquele momento comandava essa nave da classe Estado, o convocara pelo intercomunicador para comparecer à sala de comando. Gallus era um homem pequeno e franzino, hipersensível e extremamente excitável. Porém possuía uma competência extraordinária em seu setor. Era a primeira vez que se encontrava no espaço. Joe Pasgin sabia disso, e, por esse motivo, quando Gallus entrou na sala de comando, deixouse ficar à frente da tela de visão global. O técnico não poderia deixar de ver o brilho dos milhares de sóis que se destacavam contra o fundo escuro. Mas o perito em campos de ionização não deu a menor atenção à imagem do Universo projetada na tela. Só se interessava pelas notícias relativas aos campos de interferência, que agora teriam de passar pelo teste prático. Pasgin viu-se obrigado a dizer: — As experiências só serão realizadas quando 124


chegarmos ao setor de Orion. São ordens expressas do chefe, Mr. Gallus. Afinal, não vamos forçar as coisas para trazer os arcônidas à Terra. Está ouvindo a contagem regressiva? Daqui a vinte segundos entraremos em transição para sair no setor de Orion. Acredito que possa ter paciência para esperar mais dois minutos. *** Oito cruzadores ligeiros e duas naves da classe Terra saltaram sob a proteção dos neutralizadores de vibrações e voltaram ao espaço normal, a uma distância pouco superior a oitocentos anos-luz. Assim que passou o choque da rematerialização e as dores na nuca cessaram, a Sambo transmitiu o sinal para a primeira experiência a ser realizada com os novos aparelhos, que deveriam gerar e manter estáveis campos de ionização de dimensões astronômicas. A distância entre a Burma e a Sambo era de 1,1 milhões de quilômetros. Sem o auxílio dos instrumentos uma nave não seria capaz de ver a outra. Mas a Sambo adquiriu existência no interior da sala de comando da Burma, onde Gallus e Pasgin observavam os novos instrumentos acoplados ao receptor de hiper-rádio. Uma curva dupla de formato estranho, que se modificava constantemente na lâmina do oscilógrafo, fez com que Gallus exclamasse: — Olhe a Sambo! Joe Pasgin, que não entendia nada dessa técnica de comunicações, limitou-se a fazer um gesto cortês de assentimento. Essas curvas lhe diziam muito pouco, e seu aspecto lhe parecia estranho. Mas Gallus dedicou-lhes uma atenção entusiástica. Quando subitamente a lâmina oval negra, junto ao instrumento semelhante a um oscilógrafo, emitiu uma luminosidade verde e, depois de algumas oscilações, passou a brilhar numa intensidade constante, o técnico soltou algumas exclamações de arrebatamento. Ao que parecia, o operador de rádio da Burma fora instruído antes da decolagem sobre as funções da lâmina oval, pois disse em tom de surpresa: — Ora vejam! Aqui não se consegue nada com o hipercomunicador. Nunca teria acreditado! Naquele instante, Gallus era exclusivamente o pesquisador. — Mantenha o raio direcional! Quero medir os reflexos. Quase a contragosto Joe Pasgin começou a interessar-se pelas experiências de Gallus. Afinal, a possibilidade de interromper todas as comunicações de rádio com o mundo dos lagartos, a ponto de que este planeta só pudesse receber as mensagens conduzidas através da zona de bloqueio pelas naves terranas, e novamente irradiadas atrás dessa zona, dependeria apenas do resultado dessas experiências. Enquanto a pequena formação mista da Frota Espacial Terrana se aproximava do mundo dos lagartos, desenvolvendo metade da velocidade da luz, a bordo da Burma e da Sambo, estavam sendo concluídas as últimas

experiências. O pequenino Gallus estava irreconhecível; parecia crescer para além de si mesmo. Com um zelo quase furioso foi ampliando as séries de experiências. Passou a aplicar padrões cada vez mais rigorosos. Porém por mais que se esforçasse para romper os campos de ionização gerados do hiperespaço, todas as tentativas realizadas para esse fim falharam. O que mais o espantou foi a estabilidade dessas zonas de interferência, e o fato de que tais zonas se deslocavam em sentido horizontal e vertical, sem que para isso se precisasse recorrer a um grande dispêndio de energia. — O maior efeito útil é alcançado numa distância de vinte e oito a trinta e quatro vírgula cinco minutos-luz — explicou Gallus a Joe Pasgin, que o ouvia atentamente. — Três cruzadores bastarão para interromper todas as comunicações de rádio com o grupo estelar M-13 e as linhas de bloqueio. Caso surja um imprevisto, duas naves terão de ser mantidas de prontidão para logo entrarem em ação. E constatou em tom quase exultante: — Mister Pasgin, o chefe ficará satisfeito com nosso trabalho. Pasgin não tomou conhecimento da observação. — Como faremos para transmitir as mensagens que os lagartos deverão receber? — indagou. — Os campos de ionização, que acabam de ser criados por nós, não deixarão passar qualquer mensagem de hipercomunicação, seja qual for a sua potência de irradiação. Afinal, uma das características desses campos de ionização consiste no fato de refletir cem por cento das ondas. É bem verdade que essa característica envolve um perigo... — Qual é esse perigo? — indagou Joe Pasgin. — O perigo resultaria o ângulo incorreto da superfície do campo de reflexão em relação ao ângulo de incidência. Neste caso, o mesmo seria facilmente refletido a plena potência para o ponto de saída... — Por todos os santos da Via Láctea! — exclamou Pasgin em tom de alarma. — Nesse caso, a resposta que o computador-regente receberia a qualquer mensagem seria a própria mensagem. — Naturalmente! — disse Gallus em tom de espanto, pois não sabia explicar o motivo do espanto do oficial. — O chefe conhece essa possibilidade, Gallus? — É claro que não conhece. Como poderia conhecer? — Ora essa! Só mesmo um cientista que anda com a cabeça nas nuvens seria capaz de criar uma coisa destas! — exclamou Pasgin. — O que acha que o computador fará se em vez de uma resposta receber o texto da indagação que acaba de formular? Enviará uma esquadrilha ao lugar em que foi refletida sua mensagem. — Para onde? Para o hiperespaço? — perguntou Gallus com a maior ingenuidade. Era um homem sem a menor malícia, cujo único interesse consistia na ciência. Joe Pasgin procurou dominar-se. Sua voz exprimia o 125


martírio que sentia porque esse cientista não tinha o menor contato com a áspera realidade. — Não — respondeu. — Mas as naves arcônidas aparecerão no lugar em que se localiza a fonte das interferências no tráfego de hipercomunicações e golpearão implacavelmente. Por isso o chefe terá de ser informado o quanto antes. O interfone de bordo transmitiu uma mensagem da sala de comando, segundo a qual a formação terrana alcançaria dentro de cinco minutos a posição que lhe fora designada. O oficial despediu-se apressadamente de Gallus. Quando Pasgin entrou na sala de comando, no interior desta desenvolvia-se uma atividade febril. Os dados e as notícias chegavam ininterruptamente de todos os cantos da nave. Constituíam o prelúdio de uma das manobras mais arrojadas de que lançara mão Perry Rhodan. Vários homens da sala de comando da Burma já tinham participado de outras missões, motivo por que possuíam uma intuição apurada, que lhes dizia se determinada operação era ou não perigosa. A operação que estavam realizando não era apenas extremamente perigosa; representava um atrevimento elevado à última potência. Nenhum dos presentes desejava um confronto direto com o inimigo, mas o golpe audacioso pelo qual se adiantariam ao computador-regente alegrava todos. Por isso aceitaram prazerosamente o risco ligado à operação. Essa operação recebera um nome já consagrado em casos dessa natureza: Comando Suicida. O nome dizia tudo, mas isso pouco importava à equipe de Perry Rhodan. Estavam acostumados às horas de turbulência. Embora a operação em que estavam envolvidos não fosse propriamente um piquenique, não viam nela aquilo que realmente era: uma tentativa desesperada de Rhodan, isto é, desejava salvar o que pudesse ser salvo. Joe Pasgin foi recebendo as mensagens das outras naves. Examinou os dados relativos à posição e fez um sinal de confirmação em direção ao computador de bordo. Para o oficial de computação, isso significava que as outras naves se encontravam na posição prevista, e que ele poderia dar início a seu trabalho. Ao contrário das outras naves da classe Estado, a Burma possuía um computador positrônico de tipo especial, cujo forte era a hipermatemática arcônida, que permitia os cálculos relativos ao hiperespaço. Naquele momento estava ocupado numa operação extremamente complexa: o cálculo do ângulo de incidência do raio direcional do hipertransmissor de Árcon III, que o regente utilizava constantemente. Para cada segundo de operação tinha de ser considerada muita coisa, além das centenas de movimentos que por vezes se desenvolviam em sentido contrário. O caráter problemático da operação também não resultava do fato de o sistema de Topsid ficar a pouco mais de 33 mil anos-luz do mundo central de Árcon. O principal fator de complicação consistia na necessidade de

determinar o ângulo de incidência dentro do hiperespaço, já que, em conformidade com a matemática arcônida, no hiperespaço não havia nada que se assemelhasse ao caráter espaço-temporal normal, e nele não podiam ser aplicados os conceitos que se identificassem com aqueles adotados em nosso Universo. Se não fosse a máquina positrônica, um homem de nosso sistema solar não se atreveria a iniciar a execução da tarefa. Mas, no interior da Burma, tal missão não infundia o menor receio. Puseram mãos à obra sem a menor hesitação ou constrangimento. Quando a fita perfurada foi expelida pelo computador, Pasgin perguntou: — Não seria preferível recorrermos ao especialista, Ylers? Há pouco Gallus me falou na possibilidade de um reflexo de cem por cento. — Pelo amor de Deus, tragam o homem. Não quero assumir o risco sozinho! — exclamou o oficial do computador em tom nervoso, sacudindo a cabeça, num gesto de ceticismo. Pasgin o observou, enquanto dava ordem para que Gallus fosse chamado à sala de comando. — Ylers, o senhor não acreditava nesses cem por cento? — perguntou em tom curioso. Ylers respondeu prontamente: — Uma reflexão de cem por cento não existe! O processo de retorno das radiações consome certa quantidade de energia. — Mesmo no hiperespaço? — perguntou Pasgin. — Ora! — respondeu Ylers. — Com essa o senhor me pegou. Ninguém poderá responder sim ou não a essa pergunta. — Pare aí, Ylers! Nosso especialista afirma que é assim. Pelo que diz a retribuição das radiações sem qualquer perda é uma das características do hiperespaço. — Ele deve saber — confessou Ylers a contragosto. Não conseguia livrar-se do ceticismo. Gallus entrou. — Mister Gallus, queira conferir os resultados fornecidos pelo computador. — Um instante, Mister Pasgin — disse Gallus. — Parece haver um mal-entendido. Não estou em condições de conferir a interpretação fornecida pelo computador de bordo. Nem mesmo um arcônida seria capaz disso. Tudo a respeito do hiperespaço não passa de um cálculo de fatores estranhos que se processa no desconhecido. Mas nem mesmo um arcônida sabe explicar por que o cálculo correto fornece um resultado que revela sua exatidão também no terreno prático, como, por exemplo, numa transição. — Quer dizer que posso transmitir minha mensagem à Terra para avisar que concluímos nossos preparativos? — Perfeitamente — disse o perito em ionização. — Não há nenhum inconveniente. — Pois bem. Nesse caso, o Comando Suicida pode entrar em ação — disse Pasgin, fazendo uma ligação de interfone com a sala de rádio. — Transmita o texto combinado ao chefe, usando as estações retransmissoras. A mensagem será distorcida e condensada. O código já é de 126


seu conhecimento. Solicito confirmação. Câmbio. A sala de rádio confirmou. No mesmo instante foi expedida a mensagem previamente combinada. A operação tinha sido iniciada!

6 No dia 6 de janeiro de 2.044, às 23 horas, 31 minutos e 9 segundos, hora de Terrânia, a grande estação de hiperrádio da metrópole terrana recebeu a mensagem da Burma, que foi retransmitida imediatamente para a Kublai Khan, que se mantinha preparada para decolar a qualquer momento. Às 23 horas, 35 minutos e 14 segundos decolou o supercouraçado Kublai Khan, que, com exceção da nave capitania Drusus, era o único veículo espacial que dispunha de um transmissor de matéria. O envoltório esférico de 1.500 metros de diâmetro, feito do melhor aço, abrigava uma tripulação de dois mil homens, que para essa operação não havia sido selecionada com muito rigor. Os uniformes dos homens diziam o suficiente: pareciam disfarces. Só Atlan viu neles algo de familiar e começou a sentir algo parecido com saudades de Árcon. Em qualquer lugar da Kublai Khan se viam os uniformes arcônidas, e em todos os lugares se falava o arcônida ou o intercosmo, que era a língua usada no intercâmbio interestelar. Os tripulantes da Kublai Khan pareciam não conhecer a língua inglesa. No dia 7 de janeiro de 2.044, às 02h 01m 34seg o supercouraçado realizou a transição, protegido pelo potente neutralizador de vibrações. Saiu do hiperespaço nas imediações do sistema de Orion e a menos de um minutoluz do grupo que tinha ido à frente. Enquanto o doloroso choque do salto ainda maltratava dois mil terranos disfarçados de arcônidas, o transmissor automático forneceu o sinal de identificação ao grupo de naves. Os membros mais importantes do comando que participaria da operação encontravam-se em companhia de Perry Rhodan, na sala central da Kublai Khan. Naquele momento, ouviam o relato de Joe Pasgin sobre as experiências realizadas com os hipercampos de interferência. Bell, que em virtude de sua pequena estatura não fazia boa figura no uniforme de membro do estado-maior arcônida, disse em voz baixa: — Se não houver nenhuma pane com estes campos de ionização, quero chamar-me de Smith. Oh, Via Láctea, como estão nossas perspectivas! Ninguém o contestou, nem mesmo Gucky, o rato-castor, que se refestelava no sofá e envergava seu uniforme de inspetor arcônida. A seu lado tinha uma esfera. Era Harno,

seu novo amigo. Ao que parecia, só Perry Rhodan e Atlan tinham algo a fazer. Bell, que elaborara o plano de ação contra Topsid, estava reduzido ao papel de espectador, tal quais as outras pessoas que se encontravam na sala de comando. O ratocastor chegou mesmo a bocejar acintosamente, e nem sequer teve o cuidado de cobrir a boca com uma das patas... O pessoal da sala de rádio estava ocupadíssimo. As ordens se atropelavam. As naves de Perry Rhodan começaram a promover o fechamento hermético do planeta Topsid contra qualquer tipo de tráfego de rádio. A criação dos campos de ionização progredia rapidamente. A uma distância de trinta minutos-luz, uma esfera fechava-se em torno do planeta. Tratava-se de uma esfera que não existia no espaço normal e fazia com que os lagartos não pudessem receber qualquer mensagem vinda do espaço e nem estivessem em condições de fazer chegar um raio direcional a uma distância superior a trinta minutos-luz. Tal raio sempre acabaria atingindo o hipercampo esférico de interferência, que causava seu desvio e reflexão, segundo as leis prevalentes no hiperespaço. Na sala de rádio da Kublai Khan, que segundo os caracteres arcônidas gravados em seu envoltório esférico passara a chamar-se de On-Tharu, as máquinas complicadíssimas, com regulagens ainda mais complicadas, transformavam simples pios em mensagens de extensão e importância consideráveis. O sistema de intercomunicação de bordo transmitia-as prontamente à equipe que cercava Perry Rhodan. No dia 7 de janeiro, às 03h 42m 04seg, hora de Terrânia, completou-se o isolamento do mundo dos lagartos. Perry Rhodan já poderia pensar em reparar o erro cometido no passado. Enquanto a On-Tharu, que desenvolvia metade da velocidade da luz, avançava lentamente em direção ao sistema de sóis germinados de Topsid, o grupo-tarefa da Frota Terrana permaneceu na sua área de atuação, situada antes e depois da zona de interferência. No supercouraçado foram tomados os últimos preparativos para que, por ocasião de seu pouso no mundo dos lagartos, a nave não fosse recebida com disparos dos potentes canhões de radiações. Rhodan inclinou-se em direção ao microfone e, dirigindo-se à sala de rádio, disse: — Ligue a faixa de hiperfrequência do computadorregente e irradie em seu comprimento de onda. Trinta segundos serão suficientes. O regente nunca nos dirigiu qualquer chamado com maior duração. Quase ao mesmo tempo ouviu atrás de si o passo pesado de um robô. Atlan exibiu um sorriso forçado, enquanto um sorriso alegre surgia no rosto de Bell, que parecia ter esquecido tudo que se relacionasse com o dedo machucado. O rato-castor não parecia sentir o nervosismo gerado 127


pela situação. Rolara Harno, o ser esférico, para junto de si e colocara a pata sobre a superfície lisa de seu corpo. Os olhos de Gucky continuavam fechados. Apenas o dente roedor permanecia visível. Dali se concluía que Gucky se sentia à vontade. O alto-falante do sistema de intercomunicação transmitiu a mensagem: — Disfarce montado! Rhodan confirmou o recebimento. O robô estava parado a seu lado. Parecia ter sido programado especialmente para a situação. Na tela surgiu o tristemente afamado modelo de ondas do computador-regente de Árcon III. Nos últimos vinte segundos, esse modelo devia ter ficado visível em algumas telas especiais dos lagartos. Depois de algum tempo, o mundo dos tópsidas expediu o primeiro sinal de rádio, em resposta à mensagem de comando do Regente de Árcon. Assim que terminaram os trinta segundos, o robô que se encontrava ao lado de Perry Rhodan começou a falar com sua voz metálica, que tinha uma semelhança espantosa com o órgão vocal do computador-regente: — Aqui fala o Grande Coordenador. A On-Tharu, comandada por meu representante Attor, pousará ainda hoje em Topsid, a fim de realizar certas investigações no local. Atendam a qualquer pedido, a qualquer ordem, forneçam todo auxílio que lhes seja solicitado. A consequência de uma eventual recusa será a destruição do planeta. A comunicação foi interrompida. Qualquer tópsida acreditaria que o chamado vinha diretamente do Grande Coordenador, sediado em Árcon III. O robô especialmente preparado para esse tipo de engano desapareceu. A On-Tharu continuava a aproximarse do sistema de sóis geminados, desenvolvendo a metade da velocidade da luz. Esse sistema, com seus vinte e sete planetas, não poderia ser chamado de pequeno. Quinze desses mundos pertenciam ao grande sol, que emitia uma luz branca e ofuscante e tinha seis vezes o tamanho de seu companheiro violeta. Seis planetas corriam em torno do astro que emitia uma luz violeta-pálida e, à primeira vista, tinha o aspecto de um anão. A um exame mais detido percebia-se que se tratava de um sol muito quente, de massa reduzida, gravitação insignificante e pequeno diâmetro. Os seis planetas restantes gravitavam em torno dos dois sóis, e um deles era o mundo central dos lagartos, enquanto outros cinco planetas, situados no mesmo sistema, eram de importância secundária sob todos os pontos de vista. O enorme computador de bordo de On-Tharu, que recebera seu saber arcônida da velha Titan, estava transmitindo ao sistema de pilotagem da nave os últimos dados sobre a rota do mundo dos tópsidas. Naquele instante, o veículo esférico foi localizado pelas naves de vigilância espacial dos lagartos. — Localização!

— Abalo estrutural! — Seis naves no amarelo, duas no verde. Os três homens ali reunidos, dos quais dependia o êxito ou o fracasso da operação, fitaram-se ligeiramente. — Sala de comando de artilharia — gritou Atlan pelo intercomunicador, para chamar a gigantesca central de controle de fogo da enorme nave. — Pois não — respondeu o oficial, mas logo retificou: — Às ordens, almirante! — Se os lagartos se aproximarem demais, faça um disparo de advertência com todas as armas na frente de sua proa. Não daremos nenhum aviso prévio pelo rádio. Se quisermos afirmar que somos arcônidas, teremos de agir como indivíduos dessa raça. Dispare sem prévio aviso, sem atingir os tópsidas. Entendido? — Entendido, almirante. Se quisermos fazer o papel de arcônidas, deveremos agir como arcônidas. Essa resposta causou uma sensação desagradável em Atlan. Não teve necessidade de olhar para os lados para saber se Rhodan e Bell estavam rindo. Estavam sorrindo. Procuraram disfarçar, mas não conseguiram. — Que sujeito insolente! — disse Atlan em tom furioso. — Não sabia que o homem mais importante do nosso setor de armamentos também é um poeta. Só mesmo um poeta conseguiria exprimir em tão poucas palavras o caráter de um povo, tornando desnecessárias quaisquer perguntas. Atlan, o senhor não acha que estas palavras exprimem tudo? — Se quisermos fazer o papel de arcônidas, deveremos agir como ar... Não conseguiu completar a palavra! A Kublai Khan disparou com todas as armas das duas torres polares, colocando alguns tiros de advertência diante da proa das naves tópsidas. Embora a distância entre as duas torres fosse de pelo menos mil e quinhentos metros, o ruído dos disparos era perfeitamente perceptível na sala de comando. Assim que o ruído amainou um pouco, Atlan inclinouse para Bell e cochichou ao ouvido do mesmo: — Gorducho, ainda direi umas boas a seu poeta e... Reginald Bell, um homem que apreciava a boa vida, mas nem por isso costumava fugir à aventura, colocou a mão sobre o braço de Atlan. — Você não vai tratar nosso oficial de artilharia como um arcônida. Apesar de toda compreensão pela Humanidade, você muitas vezes não compreende os homens e sua mentalidade. O Major Crafford, acho que é este seu nome, não teve a intenção de ofendê-lo. Apenas quis ressaltar a enorme tolice e arrogância de seu povo. Almirante Atlan, hoje em dia os arcônidas poderiam ser donos do Universo, se soubessem fazer amigos. Devíamos... A segunda série de disparos sacudiu a nave sob a forma de várias ondas sonoras. O Major Crafford expediu o 128


segundo aviso sob a forma de alguns feixes de raios mortíferos. Os alto-falantes transmitiram a mensagem vinda da sala de rádio. — Os lagartos solicitam o nome da nave, Sir... Crest aproximou-se rapidamente de Perry Rhodan e esteve a ponto de dizer alguma coisa, quando os altofalantes transmitiram uma voz potente: — Localização energética, Sir. No planeta Topsid procuram criar problemas para nós. A mensagem era pouco clara. — Problemas? O que quer dizer com isso? — perguntou Rhodan em tom áspero. No mesmo instante, o alarma de solicitação máxima dos campos defensivos fez soar as sereias. No interior da nave, os conversores começaram a rugir. Uma série de conjuntos de reserva entrou em funcionamento a fim de absorver as energias de características desconhecidas vindas de fora, que investiam contra os campos defensivos superpotentes da Kublai Khan, e conduzi-las através dos conversores para os depósitos vazios. Tudo não demorou mais de alguns segundos. Mais uma vez, o alto-falante transmitiu notícias vindas da sala de rádio. — Topsid pede desculpas por não ter reconhecido antes a On-Tharu. Deu ordem a todas as naves para que se afastem de nós. O comentário de Bell foi o seguinte: — Isso é uma mentira tola e infame. Devíamos... Nesse momento houve outro chamado da sala de rádio. — A estação de hiper-rádio de Topsid está chamando o computador de Árcon. — Não tome conhecimento do chamado! — ordenou Perry Rhodan. Lembrou-se de que também já chamara em vão o regente de Árcon. — Sir, existe a zona de interferência... A zona de interferência era a área esférica de ionização que fechava o sistema dos dois sóis contra o resto do Universo. — Não tomem conhecimento do chamado. Desligo. No mesmo instante, Perry Rhodan voltou a falar nos problemas energéticos. — Então, senhores, será que poderiam fornecer uma explicação sobre o motivo por que nossos campos defensivos quase chegaram a entrar em colapso? Queria informações precisas. Seus olhos cinzentos brilhavam, exprimindo uma raiva controlada, isto é, o aborrecimento que sentia por ter de formular uma pergunta como esta. — Sir, aqui fala a Divisão 184/t — disse pelo interfone a central de pesquisa energética, dirigida pelo Dr. Bansfield. O rosto jovem do cientista, que não contava mais de trinta anos, estava marcado pela excitação. — Topsid deve ter descoberto um novo meio de defesa. Se as primeiras interpretações dos fatos forem corretas, devem possuir um tipo de corrente bifásica...

— O que vem a ser isso? — disse Rhodan em tom contrariado. — Sir, queira desculpar... — Fale logo! — disse Rhodan em tom impaciente. — O uso da expressão “corrente bifásica” representa um recurso de emergência. Na realidade, não sabemos como os lagartos conseguiram solucionar o problema extremamente complexo de medir a capacidade de absorção de nossos campos energéticos por meio de um raio-eco. Pelo que pudemos constatar, a energia transportada pelo raio-eco regula sua tensão pela de nossos campos defensivos... — Isso não passa de uma grande tolice! — interveio Bell. — A tensão dos campos defensivos nunca se mantém constante. O jovem cientista parecia ter muita certeza do que estava dizendo. — Foi o que eu pensei Sir. Porém, quando constatamos que os acumuladores vazios destinados a entrarem em ação no caso de uma solicitação excessiva continuavam vazios, enquanto alguns dos grandes acumuladores perderam mais de vinte por cento de sua carga, e isso em menos de dois segundos, só encontramos uma explicação: os lagartos devem ter descoberto um meio de que os campos defensivos se autodestruam, por meio de uma interferência leve vinda de cima. Ao contrário das experiências anteriores, os mecanismos de absorção não conduziram ao campo defensivo a energia vinda de fora. Entretanto, numa reação verdadeiramente absurda, levaram a esses campos imensas quantidades adicionais de energia dos acumuladores, deixando-os supersaturados em menos de dois segundos e fazendo com que quase entrassem em colapso em virtude de uma reação interna. Atlan ergueu-se abruptamente. Bell aproximou-se da tela. Rhodan foi o único que permaneceu em sua poltrona. — Doutor — disse e, como muitas vezes acontecia quando a situação se tornava crítica, sua voz irradiava uma calma fascinante. — Resumindo, deve ser o seguinte: um raio-eco atingiu nosso campo defensivo e mediu sua intensidade. No mesmo instante, a tensão da energia conduzida por esse raio adaptou-se à do nosso campo. Se eu cometer um erro de raciocínio, avise imediatamente. Com isso, aparentemente esses campos são reforçados por meio de um suprimento de energia vindo de fora. Não compreendo como é que os mecanismos de absorção podem inverter sua função de uma hora para outra, conduzindo quantidades adicionais de energia ao campo defensivo, em vez de absorver a energia excessiva. — Sir — o Dr. Bansfield respirou profundamente. — Depois de identificar-se com os nossos campos, o raio-eco rompeu-os e, conforme se depreende dos diagramas, inverteu os pólos dos conversores dos mecanismos de absorção. É possível que esse fenômeno só encontre explicação no âmbito da hipertórica, que é uma ciência a qual se dedicaram alguns velhos matemáticos arcônidas. Perry Rhodan, que, tal qual Reginald Bell, recebera um 129


máximo de treinamento hipnótico arcônida, lembrou-se desses cientistas e espantou-se de que o Dr. Bansfield estivesse tão bem informado. Mas não deu a perceber. Agradeceu a Bansfield e animou-o para que prosseguisse com o máximo de dedicação nas suas investigações relativas à nova energia. — No momento não tenho tempo para cuidar do caso, mas já vimos que o esclarecimento cabal do mesmo é de importância vital para nós. Assim que seja possível, pedirlhe-ei que me forneça informações mais detalhadas. Posso garantir-lhe uma coisa, doutor. Em Topsid esforçar-nosemos ao máximo para encontrar a nova arma defensiva. Fico-lhe muito grato. Obrigado.

7 A On-Tharu soltou as colunas de apoio telescópicas, que pareciam verdadeiras torres. O rugido dos propulsores de impulsos, situados na protuberância equatorial da gigantesca nave, foi substituído por um leve trovejar. Os projetores antigravitacionais fizeram com que a nave perdesse o peso. Quando se encontrava trezentos metros acima do espaçoporto de Kerh-Onf — segundo os catálogos estelares dos arcônidas, esta era a cidade mais importante do sistema de sóis gêmeos e ali ficava o único espaçoporto que permitia o pouso de supernaves, sem que seu pavimento fosse danificado — a On-Tharu começou a descer com uma lentidão encantadora. Perry Rhodan mandou chamar John Marshall, Gucky e Harno, a criatura esférica. Pediu aos primeiros que recorressem às suas faculdades telepáticas para analisar a disposição de ânimo da multidão de lagartos que os esperava na periferia do campo de pouso, a Harno que fizesse uso de sua faculdade natural — tornando-se televisão — e tentasse localizar o posto de combate que irradiara o raio-eco. Atlan e Bell pousaram a gigantesca nave, que pelas suas dimensões representava uma expressão condigna da grandeza do Império. Todos os postos de combate estavam guarnecidos. Até mesmo os transmissores de matéria estavam prontos para entrar em ação. Subitamente o rato-castor exclamou: — Perry, esses lagartos estão com uma raiva danada. Gostariam de transformar tudo quanto é arcônida num foguete que errasse pelo espaço. E sua opinião sobre o Grande Coordenador é ainda mais desfavorável... — É verdade! — confirmou Marshall, chefe do Exército de Mutantes. — Com o recrutamento forçado levado a efeito no sistema de Topsid, Árcon perdeu o que ainda lhe restava de simpatia. Crest resolveu intervir na palestra. — No curso da história os lagartos têm violado todos os tratados que celebraram com Árcon.

Gucky encostou-se a Perry Rhodan. Era o único que podia permitir-se esse tipo de liberdade. Afinal, não era uma criatura humana, e nem queria ser. Muitas vezes dava a entender que se sentia orgulhoso por seu corpo de animal, embora nessas oportunidades não fizesse propaganda de suas faculdades fenomenais e de sua extraordinária inteligência. Qualquer pessoa que travasse conhecimento com Gucky teria de libertar-se da ideia de que existe uma ligação entre inteligência e aspecto humanoide. — Chefe, a delegação do governo está sendo organizada. O nome do primeiro-xeque é Xxal-Ri. Não sei se a pronúncia está correta. Como Xxal-Ri gosta dos arcônidas, e como sua consciência está pesada! Ele só vive pensando nas fraudes cometidas contra o sistema Árcon! O fato de nossa descida ser um tanto demorada deixa-o muito assustado. Naquele momento, a On-Tharu pousou suavemente. Os ruídos dos propulsores foram cessando, e a intensidade do campo antigravitacional foi diminuindo. Harno entrou em contato telepático com Rhodan. A criatura esférica parecia flutuar na altura de seu peito e lhe exibia uma estranha posição de artilharia, cujas peças não apresentavam a menor semelhança com desintegradores ou geradores de raios térmicos. — Perry Rhodan, é este o lugar do qual foi disparado o raio-eco que atingiu a Kublai Khan, — emitiu Harno. — Há alguns minutos os lagartos concluíram, com base nos cálculos por eles realizados, que esse raio seria capaz de eliminar os campos defensivos de nossa espaçonave. Neste momento a notícia está sendo transmitida a alguém. — Se esses lagartos estivessem em condições de agir segundo sua vontade, eles nos transformariam em espinafre, Perry. Neste momento estão conversando sobre o passado. Comentam os processos criminais a que responderam no sistema de Betelgeuze. Sentem-se como quem está em cima de um coqueiro... Gucky viu-se interrompido por Bell. — Em Topsid não existem coqueiros; logo, os tópsidas não poderiam estar em cima de um coqueiro. Está na hora de você procurar exprimir-se com maior precisão. Há pouco você disse que o chefe da delegação dos lagartos é um xeque. Ora, Gucky, um tenente do Exército de Mutantes não deve usar expressões deste tipo. — Queira desculpar, representante do administrador — piou Gucky em tom tão sério que até Perry Rhodan admirou-se e lançou um olhar interrogativo para o ratocastor. Não estavam acostumados a vê-lo agir com tamanha moderação. Via de regra defendia-se energicamente assim que era atacado. — No futuro, eu me guiarei exclusivamente pelo senhor. O chamado da sala de rádio não permitiu que as gargalhadas surgissem. — Sir, acabamos de receber uma mensagem da Sambo! 130


— a nave encontrava-se antes da zona de interferência. — Um grupo de naves mercantes tópsidas procura entrar em contato de hiper-rádio com o quarto mundo do sistema de sóis gêmeos. Rhodan respondeu em tom contrariado: — Diga à Sambo que não complique desnecessariamente as coisas. Diga-lhes que apliquem imediatamente o sistema de travessia. Pelo sistema de travessia, uma nave que se encontrasse antes da zona de ionização atravessaria a mesma com a mensagem de qualquer nave espacial, e irradiaria tal mensagem atrás dessa zona, em direção ao ponto de destino. Era um processo bastante complicado. Mas, as cabeças mais competentes de Terrânia não encontraram um meio melhor, motivo por que acabaram concordando com o plano de Bell, embora não o julgassem inteiramente satisfatório. Nesse meio tempo, no interior da On-Tharu foram tomados todos os preparativos para sair da nave. As mensagens recebidas sucediam-se rapidamente. As coisas corriam às mil maravilhas. Atlan e Rhodan dispuseram-se a sair da sala de comando. — E eu? — piou Gucky em tom enérgico. — Pensei que fosse representar o papel principal diante dos lagartos, Perry! Será que sua memória deu para falhar? — Mensagem urgente para o chefe! Mensagem urgente para o chefe! — berraram os alto-falantes, abafando qualquer palestra que se desenvolvesse no interior da nave. Depois desse anúncio de emergência, o Tenente Elp, que estava de serviço na sala de rádio, desfiou o texto da mensagem: — Aviso de F. C. Curtiss, agente do Serviço Solar de Segurança em Topsid. Acabamos de saber que há três dias duas naves robotizadas arcônidas se encontram no planeta, a fim de receber seis mil astronautas tópsidas. Fim da mensagem transmitida por F. C. Curtiss. Atlan e Rhodan fitaram-se. Bell, que continuava sentado na poltrona, assumiu uma postura tensa. Na gigantesca sala de comando da On-Tharu houve alguns segundos de total silêncio. Perry Rhodan respirou profundamente, olhou para John Marshall e deu sua ordem: — Os mutantes entrarão em ação! Bell contemplou o polegar direito. De repente sentiu-se dominado de novo pela terrível sensação que por pouco não lhe estragou a festa de passagem de ano. Enquanto Rhodan e Atlan saíam da sala de comando, Gucky aproximou-se lentamente de Reginald Bell e pioulhe: — Gorducho, bem que eu deveria ter trazido sapatos quentes, pois nossos pés esfriarão como nunca. Os pés de todos nós! Se acredita que pode resmungar por causa das expressões que uso, devo ponderar com todas as vênias que você sempre vive falando de seus sapatões... O rato-castor saltou para o lado, desviando-se da mão de

Bell. Marshall gritou para Gucky: — Permaneça em contato com o chefe até que eu esteja de volta! Saiu da sala de comando para destacar alguns mutantes que deveriam cuidar das duas naves arcônidas. Procurariam saber antes de qualquer coisa, qual era a idade-limite dos lagartos astronautas que o computador-regente estava usando na frente. John Marshall não se esquecera do motivo que levara Perry a lançar no último instante essa operação desesperada. Rhodan e Atlan desceram pelo elevador antigravitacional e chegaram à comporta principal, que ficava bem em frente ao lugar em que se encontrava a delegação dos tópsidas. Cento e cinqüenta robôs, que pelo aspecto em nada se distinguiam das máquinas de guerra arcônidas, dividiram-se em dois grupos iguais e puseram-se em movimento ao lado de Rhodan e Atlan, enquanto estes desciam pela larga rampa de plástico. Bem ao longe, as construções da cidade de Kerh-Onf destacavam-se contra a silhueta das grandes montanhas, que tomavam mais da metade da linha do horizonte. A menos de dois quilômetros, um grupo de mais de duzentos lagartos aguardava-os na periferia do campo de pouso. Rhodan e Atlan, que envergavam seus vistosos uniformes arcônidas, caminharam em direção a esse grupo, demonstrando orgulho e arrogância. À sua direita e à sua esquerda, cento e cinquenta robôs de guerra faziam o pavimento de plástico ressoar. Atrás deles veio um grupo de nove pessoas, das quais só três tinham o aspecto de arcônidas. Os seis restantes pareciam ser membros de algum povo colonial arcônida. Essas pessoas pertenciam ao exército mais estranho da Galáxia: o Exército de Mutantes. Sua missão não consistia em proteger Rhodan e Atlan. Teriam de cumprir a difícil tarefa de, por ocasião do primeiro contato com os lagartos, verificar qual era a lembrança que estes guardavam dos acontecimentos desenrolados há setenta anos no setor de Vega. Os anfitriões, que se encontravam na periferia do espaçoporto, foram-se aproximando do grupo saído da nave. Os tópsidas caminhavam como homens. Possuíam mãos e pés, mantinham o corpo ereto e respiravam a mesma mistura gasosa que os homens. Estes eram os únicos pontos de semelhança. O crânio achatado e pelado, os lábios finíssimos e os olhos salientes davam-lhes um aspecto de animais selvagens. Era difícil acreditar que esses lagartos fossem inteligentes, e ainda mais difícil se tornava acreditar que seu nível de inteligência correspondia à média da inteligência humana. Em seu mundo, os padrões éticomorais aplicados pelo homem não tinham validade. Sua língua não conhecia a palavra compaixão. Mas, em certas áreas estranhas aos conhecimentos dos terranos e dos 131


arcônidas, suas realizações eram importantes. A pele escamosa marrom-escura que cobria os corpos magros desses seres servia para reforçar seu aspecto medonho. A cabeça de lagarto era outra característica que realçava sua natureza não humanoide. Não haveria dificuldades de comunicação. Qualquer tópsida que trabalhasse para o governo devia ter o domínio completo do intercosmo, a língua interestelar. Por isso Rhodan e Atlan preferiram não trazer tradutoras positrônicas. No entanto, antes de decolarem em direção ao sistema dos sóis gêmeos fizeram um curso hipnótico intensivo da língua dos lagartos. Mas pretendiam não informá-los a este respeito. Os dois grupos encontraram-se a meio caminho. Onze criaturas humanoides acompanhados de cento e cinquenta robôs viram-se diante de cerca de duzentos lagartos. Entre os dois grupos havia uma zona neutra de dez metros de largura. Atlan adiantou-se meio metro. Encarnava o protótipo do arcônida: era orgulhoso, arrogante e insolente. — Quem é Xxal-Ri? Quero que ele se apresente imediatamente! — disse num tom de voz que, até mesmo em Perry Rhodan, provocou uma sensação desagradável. Uns duzentos lagartos esguios e imóveis deram mostras de seu nervosismo. Seus olhos grandes e salientes emitiram um brilho frio e giraram para todos os lados. Um lagarto de uniforme verde-oliva, sem distintivos, adiantou-se. — Você é Xxal-Ri? Por ordem do Grande Coordenador exijo que seja iniciada imediatamente uma investigação para descobrir quem foi o tópsida que deu ordem de tatear a On-Tharu. Xxal-Ri, você sabe qual é o incidente ao qual me refiro? — Sei... No mesmo instante, Atlan lhe fez uma advertência em termos bastante ásperos. — Quando falar comigo, use sempre o tratamento Alteza, e — apontou para Perry Rhodan — quando falar com o representante do Grande Coordenador, chame-o de Grande Arcônida Attor! Quando me serão apresentados os tópsidas que tiveram a audácia de tatear uma nave do Grande Coordenador? Não esperarei mais de duas horas. Agora quero ir à cidade. Saiam do meu caminho, lagartos...! Só mesmo um arcônida poderia desempenhar esse papel com a perfeição que Atlan estava demonstrando. Perry Rhodan ouviu às suas costas os suspiros de alívio. Todos os detalhes haviam sido discutidos e todos os mutantes conheciam os arcônidas e seu orgulho misturado com presunção, mas o procedimento de Atlan deixou-os chocados. O mesmo era incompatível com a mentalidade humana. E o tratamento de lagartos, que Atlan acabara de dar aos tópsidas, era a pior ofensa que alguém poderia fazer a esse povo não humanoide. Apesar de tudo, porém, os lagartos só esbravejavam em pensamento. Ainda era cedo para um confronto aberto com

Árcon. Os golpes mortais que sua frota espacial recebera no sistema de Betelgeuze ainda ardiam em sua memória, e sua inteligência não lhes permitia praticar qualquer ato de resistência. Caso tentassem opor-se ao domínio de Árcon, seu planeta correria o perigo de ser destruído. — Sir, não há qualquer indício de uma resistência ativa, mas o tal do Xxal-Ri nem pensa em realizar a investigação exigida por Atlan. Pretende entregar-nos três lagartos já condenados à morte. A mensagem telepática foi transmitida por Harno. No mesmo instante, Atlan gritou para Xxal-Ri, que chefiava a delegação: — Lagarto, se você se atrever a simular que os culpados do rastreamento são três tópsidas condenados à morte, o Grande arcônida Attor solicitará ao Grande Coordenador o envio de três esquadrilhas de couraçados espaciais que varrerão este sistema da Galáxia. O procedimento de Atlan era chocante, e todos os lagartos acreditaram na arrogância do arcônida. Pela primeira vez Xxal-Ri mostrou que sabia estremecer e abaixar-se de medo, que nem um humanoide. Seus olhos enormes já não giravam; fitavam Atlan com uma expressão de pavor. Perry Rhodan nunca vira uma expressão de medo tão bem marcada como a que se desenhava no “rosto” de Xxal-Ri. Falando sua língua materna, o lagarto disse: — O Regente enviou-nos o diabo em pessoa... ele sabe ler pensamentos! O desassossego passou a dominar o círculo dos tópsidas mais chegados a Xxal-Ri. Rhodan e Atlan não lhes deram oportunidade de fazer crescer esse desassossego. Os cento e cinqüenta robôs aproximaram-se e obrigaram os lagartos a espalhar-se. Os onze homens e sua escolta não demoraram a atingir a periferia do espaçoporto. De repente Rhodan tocou de leve a mão do arcônida. Atlan acenou discretamente com a cabeça. Estavam recebendo a notícia de Gucky, transmitida por intermédio de Harno, que servia de estação telepática retransmissora: — Chefe, F. C. Curtiss acaba de avisar que as duas naves arcônidas se aproximam do espaçoporto de KerhOnf. Pelo que diz, há cerca de mil e quinhentos lagartos a bordo. Rhodan respondeu por meio do microfone de pulso. Entrou em contato diretamente com Bell. — Enquanto for possível, não tome conhecimento das duas espaçonaves tripuladas por robôs. Avise imediatamente a zona de interferência. Desligo. Atlan, que ouvira a troca de mensagens, lançou um olhar pensativo para Rhodan. — Bárbaro receio que uma trovoada esteja para desabar sobre nós. Em minha opinião, a Kublai Khan deveria manter-se preparada para decolar a qualquer momento. Isso representará certa tranquilidade. De qualquer maneira, ainda ensinarei a esses tópsidas como se deve receber e tratar um grupo de arcônidas que representa o Grande 132


Coordenador... *** Enquanto Perry Rhodan e Atlan voavam em direção à cidade, acompanhados por dois mutantes e quatro robôs, o arcônida disse em voz baixa, para que só Rhodan o ouvisse: — Há pouco, quando destratei os lagartos e fiz o papel do arcônida arrogante, tive nojo de mim mesmo. Mas descobri uma coisa, bárbaro: não foi tão difícil desempenhar esse papel... Um súbito trovejar vindo do céu tópsida, ligeiramente violeta, o interrompeu. Eram dois couraçados arcônidas que desciam sobre o espaçoporto de Kerh-Onf. Os dois veículos tripulados por robôs vieram a Topsid para recrutar à força seis mil lagartos que tivessem experiência na astronáutica, a fim de levá-los o mais rápido possível à zona de descarga, onde rugia a batalha devoradora de gente e materiais. Rhodan olhou tranquilamente em direção às duas naves, enquanto pousavam na extremidade oposta do espaçoporto. Ao contrário de Atlan, acreditava que estas não representavam qualquer risco para a arrojada operação. Olhou para trás e viu que os outros membros do Exército de Mutantes e os robôs de guerra seguiram-nos em cinco planadores tópsidas. As bizarras construções da grande metrópole Kerh-Onf foram surgindo em meio à névoa que cobria todo o planeta. Enquanto a Kublai Khan descrevia três círculos em torno do planeta, ela constatara que essa névoa também existia na face noturna do planeta, e que se tratava de neblina, simplesmente. O eixo polar de Topsid media 14.708 quilômetros, ou seja, dois mil quilômetros mais que o da Terra. Apesar disso, sua gravitação não ultrapassava l,3G. Não se constatara a presença de massas de gelo nas regiões polares. Não havia oceanos de dimensões iguais a dos terranos, mas apenas alguns lagos que se comunicavam por meio de canais artificiais. Quatro gigantescos complexos montanhosos davam a impressão de que Topsid era um planeta entrecortado por montanhas. No entanto, entre esses complexos estendiam-se enormes planícies. Três luas gravitavam em torno de Topsid. Eram minúsculos satélites, de 600, e 900 quilômetros de diâmetro. — Diga-me uma coisa, almirante. No seu tempo os tópsidas já eram conhecidos no Grande Império? — Não, ao menos que eu saiba. O que é isso que vem vindo do espaçoporto? — num gesto nervoso, apontou para a esquerda. Cinco pequenas naves esféricas de construção arcônida pareciam interpor-se no caminho dos planadores. No mesmo instante o ar começou a tremeluzir à frente de Rhodan e Atlan. Gucky, o rato-castor, surgiu à sua frente. Segurava Harno, o ser esférico, sob o braço esquerdo.

— Perry — piou antes que Rhodan tivesse tempo para dizer qualquer coisa. — Os tópsidas estão desmontando as instalações de raio-eco. Eu gostaria de ajudá-los nesse trabalho. Você permite? — Os tópsidas são mais traiçoeiros que o computadorregente! — exclamou Atlan. — É justamente por isso que quero cuidar para que todas as peças desmontadas cheguem em boas condições à Kublai Khan — disse Gucky, sorrindo com o dente roedor solitário. — Com isso poderemos evitar aborrecimentos. — Deixe Harno aqui mesmo, Gucky! — ordenou Rhodan. — E não assuma qualquer risco. Entendido? — Ótimo! — disse o rato-castor em tom de júbilo. — Cuide bem de Harno, chefe. O ar voltou a tremeluzir, e Gucky desapareceu num salto de teleportação que o levaria ao posto de rastreamento dos tópsidas. Enquanto falavam com Gucky, Rhodan e Atlan se haviam se esquecido das cinco naves arcônidas. Agora Rhodan lembrou-se das mesmas. Naquele instante recebeu o chamado de Bell. — Três pequenas naves arcônidas estão em cima de nós. Não respondem aos nossos chamados pelo rádio. A OnTharu está de prontidão para abrir fogo a qualquer momento. Se descerem mais ou pousarem perto de nossa nave, eu lhes darei uma recepção condigna com nosso raio de tração mais potente. De acordo? — De acordo, mas o raio de tração só deverá ser usado depois que... — Acho que demos um alarma falso — interrompeu Bell. — As naves se afastam. Por que é que duas delas estão nos calcanhares de vocês? Estão uns seis mil metros acima de vocês. Ainda não as viram? Bell estava utilizando todos os instrumentos de observação da Kublai Khan. Valendo-se da ampliação positrônica direta, conseguiu um aumento tão grande dos dois pequenos veículos esféricos que os mesmos pareciam estar a três metros de distância. — Não façam nada! — exclamou Atlan antes que Rhodan dissesse qualquer coisa. — Acabo de ter uma ideia. As cinco naves que vimos estão atrás de tópsidas recrutáveis. — É uma bela expressão, almirante — disse Bell em tom de escárnio. — Acho que você não consegue esquecer o tempo de serviço militar arcônida. O.K.! Desligo. Deslocando-se a oitocentos metros de altura, os planadores tópsidas corriam velozmente em direção à grande metrópole. Atlan fitou com uma expressão de desagrado as construções alongadas e altas. — Que estilo maluco será este? — perguntou-se. Perry Rhodan formulara a mesma pergunta há alguns minutos. Tal qual Rhodan e Atlan, seus companheiros esperavam que a qualquer instante tudo aquilo iria desabar, pois aquele estilo arquitetônico contrariava todas as leis da Estática. 133


Subitamente Rhodan exclamou: — São estalagmites! Estalactites! Será que isso constitui uma indicação da procedência dos lagartos? Por um instante Atlan fitou o terrano com uma expressão de perplexidade. As construções de Kerh-Onf tinham o mesmo aspecto das colunas de calcário que se formavam no interior das cavernas. Mas nem por isso se explicava como tudo aquilo não desabava à primeira rajada de vento. — Deve ser um dispositivo antigravitacional que evita o desmoronamento das construções — afirmou Atlan. — Acho que é a única explicação. De qualquer maneira, é uma loucura rematada construir assim. — Talvez seja o instinto, Atlan. Pode ser uma lembrança inconsciente dos tempos imemoriais em que os tópsidas viviam em cavernas. — É uma pena que não vivam mais — disse Atlan. Por acaso o arcônida olhou para baixo através do visor transparente. Seu planador e os outros se preparavam para pousar junto ao maior edifício de Kerh-Onf. A uma altura de trinta metros, havia uma plataforma de pouso que circundava o estranho edifício, como se fosse um prato. Mas os dois canhões de radiações que se encontravam junto à grande entrada pela qual saía um grupo de lagartos não poderiam deixar de ser vistos. Um preciso mecanismo fez pousar os planadores em fila. O desfile de robôs, que pelo aspecto exterior eram máquinas de guerra arcônidas, reforçava o orgulho que Atlan tinha de demonstrar durante sua visita a Topsid. Em seu vistoso uniforme, Atlan chegava a causar melhor impressão que Rhodan. Em cada passo, em cada movimento, havia a expressão da arrogância arcônida. Rhodan teve de forçar sua representação, enquanto Atlan apenas deixava vir à tona uma disposição natural. Os lagartos, cujo número chegava a aproximadamente quarenta, estavam submetidos à força simbólica, corporificada no representante do Grande Coordenador. De qualquer maneira, eram bastante inteligentes para reconhecer que qualquer resistência só poderia resultar na destruição de seu sistema. As frases de cumprimento foram trocadas em intercosmo. Rhodan apenas proferiu umas poucas palavras. Na terceira frase de sua fala anunciou o motivo de sua presença em Topsid. — Exijo que todos os tópsidas que participaram da batalha espacial no setor Vega me sejam apresentados. Além disso, quero examinar todos os documentos relativos ao fato. Agora quero ser conduzido, juntamente com minha delegação, a um recinto condizente com a importância da missão que estou desempenhando. Será que os tópsidas ainda não aprenderam como receber um representante do Grande Coordenador? Os rostos indiferentes dos lagartos não traíam a impressão causada pelas palavras do arcônida Attor. O tópsida Tgex-Go, cujo uniforme verde-oliva se distinguia dos outros, limitou-se a dizer:

— Queiram seguir-nos. Quando Perry Rhodan, Atlan e os mutantes deram os primeiros passos, os robôs aproximaram-se e protegeramnos de todos os lados. Dali a dez minutos saíram do poço do elevador central e entraram numa grande sala de conferências. Tgex-Go e os outros lagartos continuavam a seguir na frente do grupo. Caminhavam do lado direito do recinto e pararam diante de poltronas feitas especialmente para humanoides. — Tgex-Go, o senhor é presidente ou ditador? — perguntou Rhodan, depois de sentar-se ao lado de Atlan. — Altezas — respondeu o lagarto. — O sistema de Topsid já não é oprimido por um ditador; o povo... — Não quero lições, Tgex-Go — interrompeu Rhodan. — Já que não é o ditador, exerce as funções de presidente? Os olhos do lagarto começaram a chispar fogo. O tom usado por Rhodan representava uma insolência; no entanto, era este tom que os arcônidas usavam para comunicar-se com os povos coloniais. Quem não gostasse, acabaria sentindo o poderio do Grande Império. — Alteza... Mais uma vez, Tgex-Go violara a etiqueta dos arcônidas. Atlan interrompeu-o em tom áspero: — Já expliquei a seu representante Xxal-Ri, no espaçoporto, que eu devo receber o tratamento de Alteza, e Attor, o representante do Grande Coordenador, o de Grande Arcônida. Será que esse povo de lagartos não é capaz de lembrar-se disso? Pela primeira vez houve um ligeiro tumulto entre os tópsidas, mas Tgex-Go fez cessar todos os ruídos com um simples movimento de braço. — Grande Arcônida — principiou sem pronunciar-se sobre as palavras de Atlan. — Não temos nada a esconder perante o Grande Império... Foi interrompido por Rhodan, que fazia o papel do arcônida Attor. — Não perca tempo com mentiras, Tgex-Go! Por que é que vocês procuram remover às pressas o novo rastreador capaz de destruir os campos defensivos das naves? Será que não é para esconder esse aparelho de nós? — Isso, bárbaro! Mostre-lhes! — cochichou Atlan em inglês. Tgex-Go estremeceu como se fosse um ser humano. A mesma coisa aconteceu com seus companheiros. — Grande Arcônida... Mais uma vez não pôde concluir a frase. O pavor fechou-lhe a boca. Subitamente um dos acompanhantes do arcônida colocou-se diante de seu secretário e disse em tom enérgico: — Durante a grande batalha travada junto ao mundo dos ferrônios você comandou uma nave. Venha comigo, tópsida. No mesmo instante, dois robôs aproximaram-se. As medonhas máquinas de guerra estenderam as mãos em direção ao lagarto, que “brincava” com a idéia de fuga, e seguraram-no. 134


O tópsida não se atreveu a fazer o menor movimento. Os outros também não. — Sir — dizia uma mensagem telepática reforçada por Harno. — Tgex-Go está pensando num recinto que deve ficar uns cem metros abaixo do lugar em que o senhor se encontra. É lá que se encontram os principais registros sobre a batalha do setor de Vega. O tópsida procura descobrir o motivo do interesse de Árcon por essa velha história. E está apavorado por estarmos informados sobre o segredo do rastreador. Tgex-Go reage muito bem aos fenômenos parafísicos... Naquele instante, o rádio de pulso de Rhodan começou a chamar. Atlan também recebeu um chamado. Os dois ligaram para a recepção. Reginald Bell estava diante da estação transmissora. — Faz cinco minutos que John Marshall não consegue entrar em contato com Gucky. Há cinco minutos aconteceu, junto às duas naves robotizadas, uma coisa que não conseguimos explicar. Estou chamando para... — Um momento! — gritou Atlan para dentro do microfone de pulso. Entre ele e os tópsidas o ar começou a tremeluzir ligeiramente e Gucky, o rato-castor que Reginald Bell procurava localizar, surgiu à sua frente. — Que diabo! — gritou Rhodan, mas sua raiva passou logo. — Por que está assim? O rato-castor, que tinha um metro de altura, procurou ajeitar-se, mas não conseguiu. — Missão cumprida, chefe. Infelizmente tive problemas com os robôs. Eles estão mais doidos pelo novo aparelho do que nós. Ao que parece, sabiam que fiz desaparecer tudo. De repente procuraram pôr as mãos em mim. Meu aspecto deve ser terrível, Perry. Por pouco não levo a pior sova da minha vida. Atlan transmita cumprimentos meus ao seu computador-regente e pergunte-lhe quando é que ele vai resolver criar robôs capazes de resistir a uma queda de mil metros. Mandei para o alto quatorze dos dezesseis robôs e deixei-os cair. Arrebentaram que nem tomates maduros. Não consegui agarrar os dois últimos e por isso vim pelo caminho mais rápido. Trata-se de novos tipos, Perry. Esses robôs são muito espertos. Eles... Bell voltou a chamar pelo rádio de pulso. — Desta vez, o rato Jerry não contou nenhuma lorota. Lá fora estão oito robôs e exigem que nós os deixemos entrar na nave. Estão transmitindo sua exigência ininterruptamente pelo rádio. Epa! Está chegando outro bando. Quantos são? Uns trinta ou quarenta... — Deixe isso por minha conta! — piou o rato-castor que se encontrava ao lado de Rhodan. Antes que Perry tivesse tempo de responder, Gucky teleportou-se. O desaparecimento de uma criatura, que se dissolvia no ar instantaneamente, provocou um calafrio nos lagartos. Quem mais se perturbou foi Tgex-Go, presidente do sistema de sóis gêmeos. Rhodan, que lia seus pensamentos, aproveitou a chance e deixou Tgex-Go ainda mais perturbado ao dizer:

— Presidente, quando chegar a hora você saberá por que o Grande Coordenador de Árcon está interessado nestes fatos. Eu mesmo levarei meu colaborador ao arquivo situado uns cem metros abaixo do lugar em que nos encontramos. No momento, você e seu governo só têm uma coisa a fazer: reunir todos os tópsidas que participaram ativamente desses acontecimentos e trazê-los para KerhOnf, onde deverão ficar à minha disposição. “Exijo, em nome do Grande Coordenador, que dentro de uma hora o governo ordenará que todos os tópsidas nos prestem toda ajuda na busca de documentos e de pessoas que testemunharam os fatos”. “Ainda quero acrescentar uma coisa, Tgex-Go. Minha missão deve ser concluída dentro de dois dias. Se tiver de permanecer por mais tempo em Topsid, cada hora que exceda a esse tempo lhes custará três mil pilotos espaciais experimentados que serão encaminhados imediatamente à frente de combate.” Era uma ameaça violenta. Rhodan não teve nenhum prazer em proferi-la, mas não havia outro meio de fazer jus à sua aparência de arcônida. Um arcônida nunca pede; exige! — Grande Arcônida! — respondeu Tgex-Go, que ainda se sentia abalado pelos misteriosos fenômenos que acabara de presenciar. — O povo e o governo dos tópsidas farão tudo para cumprir o mais rapidamente possível a tarefa que nos foi confiada pelo Grande Coordenador. Permite que me retire com o Conselho do Povo para tomar as necessárias providências? O aceno de cabeça de Perry Rhodan foi quase imperceptível, mas todos os lagartos o notaram. Dali a pouco, quando Rhodan se viu a sós com Atlan e os mutantes, disse: — Tenho a impressão de estar sentado em cima de um barril de pólvora!

8 Nas primeiras vinte e quatro horas parecia que a desesperada operação em grande escala que Perry Rhodan lançara em Topsid realmente seria capaz de deter a marcha da história através de uma falsificação que repararia as consequências da omissão que acontecera há setenta anos. Durante as primeiras vinte e quatro horas, tudo correu às mil maravilhas. Até mesmo os robôs desembarcados das duas naves arcônidas, que tinham vindo ao sistema para recrutar astronautas entre os lagartos, pareciam ter dominado sua curiosidade em relação a isto, mesmo depois de mais trinta e nove desses robôs serem destruídos. Durante vinte e quatro horas, Gucky, o rato-castor, entregou-se ao deleite indescritível de sentir-se mais forte que as modernas máquinas de guerra de Árcon. Sua fantasia viva exibia-lhe continuamente o espetáculo da eliminação 135


dos robôs por meio de suas capacidades telecinéticas. Durante vinte e quatro horas, os especialistas da Kublai Khan, com exceção daqueles cuja presença a bordo era indispensável, registraram um êxito após o outro nas ações desenvolvidas sob a direção dos mutantes. Dos tópsidas que haviam participado ativamente e em posições de destaque da ação no setor de Vega ainda viviam oito. Dois desses oito lagartos pertenciam à equipe de radiogoniometria que na época captou o pedido de socorro da nave de exploração arcônida que realizara um pouso de emergência na Lua. Mal esses dois tópsidas foram interrogados pelos mutantes, uma gazela voou em direção ao pólo sul do planeta. A estação de goniometria ali localizada foi ocupada numa operação-surpresa e oito terranos disfarçados de arcônidas deixaram o arquivo e o banco de dados de pernas para o ar. A operação foi dirigida pelo próprio John Marshall. — Repita a reprodução! — ordenou com a voz rouca, embora tivesse certeza absoluta de ter ouvido bem. Mais uma vez, o registro foi reproduzido. Uma fita que não media mais de três milímetros de comprimento correu. A tradutora automática acoplada ao aparelho pronunciou todas as palavras num inglês impecável. As palavras foram repetidas: — Phi 43:72, 6458... Chi 09:79,3852... Psi 18:00, 9851. Freqüência do hipercomunicador: 4763 0086 a 0999. Faixas das naves exploradoras galácticas. Tempo: 456,7385.886, tempo padrão de Árcon. Margem de tolerância astronômica 0,000.031 ± Intensidade do campo na entrada 3d ± 2. Posição em relação a Topsid: 456,735.886 Phi... — Obrigado — disse Marshall e o Dr. Benthuys desligou apressadamente. Além de detentor da patente de comandante de cruzadores ligeiros e perito em positrônica dos intervalos, que era uma área fronteiriça da positrônica geral, Benthuys era astronavegador de primeira classe. Seu principal hobby era a hipermatemática dos arcônidas. No entanto, com seu rosto sempre vermelho e a barba malfeita, Benthuys parecia um campônio simplório que, comedor das maiores batatas, saía correndo sempre que alguém pretendia exigir alguma coisa de sua inteligência. Acontece que aqui o Dr. Benthuys era gênio da Ciência. Sentado ao lado de John Marshall, tinha um bloco antiquado sobre os joelhos e segurava na mão um lápis ainda mais antiquado, com o qual escrevia cifras e fórmulas. — Marshall — disse, enquanto calculava febrilmente. — Preciso conhecer com urgência a posição da Terra, para...

Antes que pudesse concluir, Marshall ligou o rádio e o próprio Benthuys entrou em contato com a sala de comando da Kublai Khan. Dali a cinco minutos recebeu os dados que havia solicitado. — Hum — dizia constantemente, mas não anotou uma única cifra. Marshall acreditava que os cálculos fossem demorar mais meia hora. Mas subitamente Benthuys levantou-se, arrastou-o para junto do grande mapa estelar, apontou com o lápis para o lugar em que ficava o planeta Topsid e disse: — É aqui que nós estamos. O senhor ouviu os dados relativos às coordenadas. Uma mensagem de hipercomunicação quase nunca permite a determinação do lugar em que foi expedida, mas esta mensagem irradiada há setenta anos contém todos os elementos necessários a tal determinação. Isso acontece porque os tópsidas conseguiram medir a intensidade do campo de entrada, o que via de regra é impossível. Basta considerar meia dúzia de movimentos e traçar num bom mapa estelar uma reta que, partindo de Topsid, siga na direção correspondente aos dados da goniometria. É isto! Desta forma fomos parar no sistema de Vega, bem próximo à Terra... Com isso, as vinte e quatro horas durante as quais a missão de Rhodan foi protegida por uma boa estrela chegaram ao fim. Os rádios transmitiram o sinal de alarma. O Dr. Benthuys ficou calado. Marshall sentou à frente do rádio. O chefe estava junto ao transmissor. — Quanto tempo deverá demorar, Marshall? — perguntou laconicamente. — Umas quatro ou seis... O chefe dos mutantes não conseguiu prosseguir. — Dou-lhe duas horas, Marshall. Não dispomos de muito tempo. A gazela foi camuflada? Todos colocaram os trajes espaciais? Ao que parecia, havia um perigo gravíssimo. Se Perry Rhodan falava nestes termos, a situação estava para lá de ruim. O que teria acontecido? John Marshall preferiu não perguntar. Se o chefe não fornecia as explicações por iniciativa própria era porque não havia tempo para isso. Marshall lançou um olhar indagador para Benthuys. Dependeria exclusivamente do doutor a tarefa ser ou não concluída dentro de duas horas. Benthuys fez que sim. — O.K., chefe, dentro de duas horas modificaremos tudo. O Dr. Benthuys acredita que conseguirá e... Mais uma vez foi interrompido por Rhodan. — Daqui a uma hora coloque a gazela em condições de decolar imediatamente. Repito: coloquem os trajes espaciais. Temos de contar com a possibilidade de ataques vindos do espaço. — Ataques vindos do espaço? — repetiu Benthuys. — O que é que eu tenho com isso? Meu trabalho consiste em falsificar estes registros. Faça o favor de me avisar quando a barra ficar pesada por aqui, Marshall. E agora não me perturbe mais. Dê o fora com seu rádio. Tenho de 136


concentrar-me. Até logo mais. *** Mais uma vez Atlan, o almirante arcônida, admirou o terrano Perry Rhodan, enquanto Bell não viu nada de extraordinário na atitude do administrador, pois se estivesse no seu lugar teria agido da mesma forma. — Vamos aguardar! — acabara de decidir Rhodan. — Aguardar e preparar-nos. É a única coisa que podemos fazer no momento. Daqui a duas horas, Marshall e sua equipe concluirão o trabalho na estação goniométrica polar. Fellmer Lloyd, que está trabalhando em Kerh-Onf, também espera não levar mais de duas horas para destruir ou falsificar os dados do arquivo. Você está rindo, almirante. Há alguma coisa que não lhe agrade? Atlan nem se dera conta de que estava rindo. — Ah, então eu ri? Será mesmo? Mas isso aconteceu apenas por causa da ingenuidade infantil de vocês. Acreditam realmente que conseguirão enganar Árcon com suas falsificações grosseiras? Ainda não sabem de que meios dispõe o Grande Império para verificar a autenticidade dos documentos e bancos de dados? Vocês nunca deixarão de ser uns... Bell lançou um olhar para Atlan; em seu rosto surgiu um sorriso malicioso. O arcônida calou-se. Não iria cometer o erro de subestimar o terrano. Às vezes, essa gente tinha ideias formidáveis. — Você ainda perderá a vontade de rir, gorducho! — gritou Atlan, já que Reginald Bell não se dispôs a falar. — Será que já se esqueceu do dedo cortado? Bell, o homem impulsivo, não abandonou a atitude reservada que impusera a si mesmo. Atlan constatou que Rhodan também não dizia mais nada. — O que houve com vocês? — perguntou em tom de perplexidade. — Tenho pena de você, almirante — respondeu Bell. — Apesar dos dez mil anos que você passou com os terranos, continua a viver nas nuvens. Arcônida, seu Grande Império não passa de um conjunto podre de raças e interesses, cuja coesão ainda é mantida em virtude do perigo representado pelos druufs... — Esses argumentos são de quitandeiro! — interrompeu Atlan em tom áspero. — Não sei qual é a ligação entre seu sorriso não muito inteligente e... — É verdade! Meu sorriso não foi nada inteligente — interrompeu Bell. — Por ele apenas quis exprimir minha compaixão. Para você, Árcon é e sempre será um non plus ultra. Segundo sua opinião bem fundamentada, nós, os terranos, evidentemente não poderemos enganar o computador-regente. Nem que nos próximos dez anosnovos, eu corte o dedo, estou disposto a apostar, Atlan, que enganaremos seu cérebro positrônico de uma forma que ninguém jamais o enganou. Qualquer um pode mentir e tapear. Qualquer pessoa que mente é tola, e quem tapeia também é. Acontece que nós, os terranos, não queremos

fazer nem uma coisa, nem outra. Apenas queremos impedir que as naves arcônidas usem nossa linda Terra como alvo para seus exercícios de tiro. Por isso mesmo neste mundo dos lagartos tudo continuará como antes, com uma pequenina diferença. Todos os elementos, sejam eles quais forem, indicarão de forma precisa o lugar em que fica a Terra que Árcon tanto quer encontrar. Ela fica do outro lado da Via Láctea, dois mil anos-luz para dentro de um braço secundário da grande espiral. É lá que plantaremos a boa Terra, e o computador-gigante ficará azul de tanto procurála. O discurso de Bell foi interrompido pela sala de rádio. Joe Pasgin, que se encontrava a bordo da Burma, estacionada próxima do hipercampo de interferência, estava chamando. — Sir, uma nave-correio acaba de trazer a notícia de que três grandes grupos de naves dos mercadores galácticos tentam há algumas horas entrar em contato com Topsid. Uma das naves cilíndricas chamou a estação arcônida G98765-0 e pediu que investigasse a causa das estranhas interferências. — A estação G-98765-0 fica a trinta e oito anos-luz deste sistema, na direção do Pequeno Cavaleiro. — Há mais de vinte minutos G-98765-0 vem bloqueando nossos receptores situados do lado de fora da zona de interferência, usando mais de cem hiperfrequências. Por enquanto não houve nada de grave. Acontece que a estação arcônida informou os mercadores galácticos de que não havia a menor interferência, e por isso frotas de dois ou três clãs resolveram dirigir-se ao planeta. Aproximam-se à velocidade de 0,8 luz; deverão atingir a zona de interferência dentro de quarenta minutos aproximadamente. — Quais são as ordens que o senhor tem para nós? — Deixe-os passar, Pasgin. Providencie para que nenhuma das nossas naves seja descoberta. Mais alguma novidade? A palestra com a Burma havia chegado ao fim. Outra pessoa já aguardava o momento em que Rhodan pudesse receber sua mensagem. Era Kitai Ishibashi, o sugestionador, que se encontrava em Din-Kop, a segunda cidade do planeta dos tópsidas. Ficava nas margens do lago Gun-Ki, que era o maior mar mediterrâneo desse mundo. Era o maior centro industrial do sistema. — Sir — disse a voz do japonês saída do alto-falante. — Acabamos de captar uma mensagem. Três técnicos de rádio demonstram seu espanto por certos fenômenos de interferência; além disso, chegam bem perto da verdade, pois falam numa interdição do tráfego de rádio... — É só isso, Ishibashi? — interrompeu Rhodan. — Não senhor — Ishibashi respirou fortemente. — Não terminaremos dentro de uma hora. Tama Yokida e sua equipe descobriram mais de trinta naves de guerra que participaram dos combates no setor de Vega. Nenhuma dessas naves está em condições de voar. Por outro lado, 137


porém, elas não foram transformadas em sucata. São trinta e duas naves com trinta e dois... — Ras Tschubai ainda está aí, Ishibashi? — perguntou Rhodan. Numa fração de segundo, Perry reconheceu o perigo representado pela existência dessas naves. Seria impossível que o japonês “trabalhasse” todos os bancos de dados com a pequena equipe de que dispunha, a fim de falsificar os dados astronômicos relativos ao sistema de Vega. — Sim senhor; Tschubai está aqui... — Eu lhe mandarei Gucky, que deverá chegar dentro de cinco minutos. Tschubai e Gucky deverão destruir os computadores de bordo das velhas naves. Você fica encarregado de tomar todas as providências para que nenhuma das naves que participaram da ação de setenta anos atrás escape à sua equipe. Sabe perfeitamente quanta coisa depende disso... — O senhor pode confiar em nós. — Mantenha-se em recepção. Estou chamando o ratocastor. Esta criatura era o único membro do Exército de Mutantes que tomava a liberdade de transportar-se ao camarote de Rhodan por meio de um salto de teleportação. — Chefe — piou Gucky em tom animado e empertigou o corpo no uniforme vistoso e colorido que, agora, já lhe assentava muito bem. — Sei o que fazer. O senhor me dá carta branca? Não havia nada que Gucky fizesse com tanto prazer como brincar. Pelo que se dizia, havia gente que via em suas brincadeiras apenas uma fúria destrutiva. Mas havia muito mais gente que num aperto desejava um Gucky brincalhão que, como telepata, teleportador e telecineta era o “homem” que possuía maior volume de parafaculdades. Além disso, possuía um bom coração. Ninguém poderia desejar um parceiro melhor que o rato-castor. — Ah, é? — perguntou Rhodan. — Então você quer carta branca? Olhe que você desobedeceu mais uma vez as minhas ordens expressas, pois acaba de ler meus pensamentos, Tenente Guck. Sempre que o Y era omitido em seu nome, a barra estava pesada. Mas ao que tudo indicava, hoje o Tenente Guck não parecia importar-se muito com isso. Ria descontraidamente com seu único dente roedor. — Chefe, a sola dos nossos pés está ardendo. Preciso sair! Está gostando das minhas botas? E você, gorducho? Têm aquecimento elétrico. Quer dizer que não terei pés frios. Bem, então tenho carta branca. Até logo mais. Mais uma vez, o ar tremeluziu. No mesmo instante em que Gucky, o rato-castor, desaparecia do camarote de Perry Rhodan, materializava-se a 12 mil quilômetros de distância, ao lado do sugestionador japonês Kitai Ishibashi. Piou para o homem alto e magro: — Pode desligar Kitai! Onde poderei encontrar... Já estou captando seus pensamentos. Vou... O último sinal da presença de Gucky foi um ligeiro tremeluzir do ar, que logo se desfez numa tênue nuvem de

fumaça. Reginald Bell levantou-se. — Que acha da notícia alarmante vinda do espaço? Três couraçados arcônidas dirigem-se ao sistema de Topsid. Nossos homens não costumam enxergar fantasmas... Esta notícia, recebida há pouco mais de uma hora, fora transmitida por um dos dois cruzadores pesados. Trinta minutos depois veio a retificação, proferida em tom embaraçado, segundo a qual aquilo que se acreditava serem naves arcônidas deviam ser asteroides com um elevado teor de ferro. Mas ainda não se havia obtido um esclarecimento cem por cento seguro sobre o que realmente teria sido localizado. — Nossos homens estão sobrecarregados de trabalho — disse Rhodan a título de explicação. — Arcônida, você ainda receia que o computador possa descobrir que manipulamos os dados relativos a Vega? — Sim. A notícia desagradável que acabamos de receber de Kitai Ishibashi não prova como é fácil negligenciar alguma coisa no curso de uma ação violenta? Continuo a acreditar que um dia a frota de Árcon aparecerá sobre a Terra. — Almirante, uma pessoa que não está disposta a arriscar alguma coisa jamais alcança nenhuma vantagem. Desejo até que o computador chegue à conclusão de que tentamos falsificar alguns dados, mas também quero que acredite que nos esquecemos de algo importante. Se conseguirmos isso, a operação desesperada que estamos realizando em Topsid terá sido bem sucedida. Nesse caso, o regente não terá outra alternativa senão procurar a Terra em algum lugar na extremidade oposta da Via Láctea. Quanto aos tópsidas que ocuparam funções de destaque durante a batalha no sistema de Vega, tomamos as providências necessárias para que a memória desses fatos fosse apagada em seu cérebro. Os poucos lagartos, que estão nestas condições, não guardarão a menor lembrança do setor de Vega; apenas se lembrarão de urna luta travada com Rhodan há setenta anos, nos confins da Galáxia. O alto-falante do sistema de intercomunicação de bordo transmitiu o seguinte aviso: — Sir, nossa frota informa que houve localizações por meio dos medidores de abalos estruturais. Uma frota arcônida aproxima-se do sistema de sóis gêmeos. A chegada está prevista para daqui a trinta e cinco ou quarenta minutos. O grupo é formado por mil ou mil e quinhentas naves de guerra de todas as classes. — Ai, meu dedo! — observou Bell e fitou o alto-falante como se fosse uma criatura inimiga. Atlan quis dizer alguma coisa, mas não teve tempo. Sem demonstrar a menor comoção, Perry Rhodan falou para dentro do microfone: — Alarma para todos! Alarma para todos! Retirar nossas naves. Evitar o combate. Chame Pasgin e peça informações precisas. Face à atividade febril provocada pelo alarma, a ligação 138


com a sala de rádio da Kublai Khan foi mantida por mais alguns segundos. Os três homens do camarote ouviram o que foi falado no grande recinto. — Santo Deus, a Via Láctea está conflagrada...! Alô Burma, alô Burma, entre imediatamente em recepção... Alguns milhares de mensagens de hiper-rádio estão cortando o espaço! — ...Veja só! Os tópsidas já devem ter percebido alguma coisa! São mais de mil naves arcônidas! Nunca vi tamanha salada de mensagens de rádio... Finalmente a ligação com a sala de rádio foi interrompida. As palavras, que os três homens haviam ouvido, deixaram-nos preocupados, mas ninguém disse nada. Saíram em silêncio. Quando entraram na enorme sala de comando da Kublai Khan, os preparativos para a decolagem já haviam sido feitos. Perry Rhodan podia confiar, em qualquer situação, nos homens da frota. O trovejar, os zumbidos e os rugidos dos gigantescos mecanismos encheram a nave de mil e quinhentos metros de diâmetro. John Marshall, que ainda se encontrava, juntamente com sua equipe, na estação goniométrica polar, transmitiu uma mensagem concisa: — Precisamos de mais dez minutos, chefe! Pedimos seu consentimento. — De acordo, Marshall, desde que esteja aqui cinco minutos depois de concluído o trabalho. Desligo. Atlan esteve a ponto de lançar um protesto exaltado contra a decisão de Rhodan, mas sentiu a mão de Bell pousada em seu braço. O homem ruivo lançou-lhe um olhar enérgico, e o arcônida preferiu engolir o protesto. Mas não conseguiu reprimir estas palavras: — Esta leviandade dos terranos é o diabo! Joe Pasgin chamou da Burma. — Sir, somos a última nave que mantém sua posição mediante um forte dispositivo protetor contra a localização. A força de Árcon é composta por duas mil unidades. Procuram bloquear todo o sistema de Topsid. Até agora constatamos a presença de cento e trinta supercouraçados. O número dos cruzadores pesados deve chegar a quinhentos ou seiscentos. Só no verde sessenta e sete e oitenta e cinco resta um corredor de saída, mas esta... Temos de entrar em transição, Sir. Há um ataque maciço vindo de... Depois de um forte estrondo, as hiper-comunicações entre a Burma e a Kublai Khan cessaram. Em compensação, o couraçado captou um pedido de socorro vindo de Kerh-Onf. O grupo de vinte homens, que trabalhava no arquivo, estava sendo impedido de deixar o edifício. Kitai Ishibashi chamou de Din-Kop, uma cidade situada a doze mil quilômetros de distância. — Iniciaremos vôo de regresso. Os teleportadores Ras Tschubai e Gucky são os únicos que não estão aqui. Irão depois. O Tenente Gilbert, que estava de serviço no setor de rastreamento, anunciou:

— Um grupo de couraçados tópsidas aproxima-se do amarelo quarenta e três. São dezoito naves... Rhodan ordenou imediatamente: — Sala de comando de artilharia. Faça alguns disparos de advertência para obrigar os tópsidas a mudar de rumo. Repito: disparos de advertência. Bell, que ocupava o assento do copiloto, ligou para a estação do transmissor de matéria. — TFM está preparado para entrar em ação? — Sim senhor. — Pois fique atento. Daqui a pouco terão muito trabalho. Atlan sentiu-se como um espectador. — Estes bárbaros... — disse várias vezes a si mesmo. — Estes terranos... — não podia deixar de admirá-los. Uma frota arcônida composta de duas mil unidades aproximava-se velozmente, vinda do espaço, e estes homens, que há alguns segundos estelares ainda viviam na Idade da Pedra, faziam de conta que poderiam enfrentar tamanha superioridade de forças ou ao menos enganá-la. — Seu dedo não está doendo, gorducho? — Atlan não pôde deixar de formular esta pergunta. Uma salva de advertência dos canhões térmicos da Kublai Khan interpôs-se no caminho da frota tópsida que se aproximava. Em sua trilha, a atmosfera do planeta entrou em ebulição. O supercouraçado apenas levou uma leve sacudidela. Depois de uma breve pausa disparou a segunda salva. As naves dos tópsidas já apareciam sob a forma de pontinhos reluzentes na grande tela de visão global da Kublai Khan. Continuavam a demonstrar a mesma falta de manobrabilidade e de aceleração que já haviam dado mostras no setor de Vega. — Sir, todas as posições de defesa dos tópsidas estão de prontidão — anunciou o posto de rastreamento energético. — Dei ordem para que as gazelas se mantenham sempre a menos de trezentos metros de altitude. O ar começou a tremeluzir entre Bell e Atlan. Dois teleportadores surgiram ao mesmo tempo. Eram Gucky e Ras Tschubai. — Perry — disse o rato-castor — os computadores positrônicos dos velhos calhambeques espaciais foram transformados em sucata. Tem mais algum serviço para nós? Bell dirigiu-se ao rato-castor. — Entrem em ação em Kerh-Onf, no arquivo histórico. Dêem apoio ao grupo que se encontra lá. Os lagartos estão atacando com armas térmicas e de impulsos. Dentro de dez minutos, o mais tardar, vocês deverão estar aqui juntamente com todo o grupo. Depois daremos o fora... — Ótimo, gorducho. Mal Gucky acabou de proferir estas palavras, segurou a mão do africano e desapareceu. Os hangares da Kublai Khan transmitiam seguidamente várias notícias. As diversas equipes estavam regressando com as gazelas. Faltavam apenas três grupos: o de John 139


Marshall, o de Kitai Ishibashi e o que fora destacado para trabalhar no arquivo histórico. — Daqui a quinze minutos, a frota arcônida aparecerá nos céus do planeta! — advertiu Atlan. — Quando isso acontecer, não estaremos mais aqui — respondeu Bell, mas sua voz parecia menos segura e confiante do que costumava ser. A sala de rádio transmitiu outra notícia: — Sir, a movimentação da frota foi providenciada pela estação G-98765-0. Neste momento, o computador-regente de Árcon está falando com o presidente de Topsid. Infelizmente ainda não consegui decifrar a mensagem... O oficial de artilharia Crafford utilizou a linha de emergência e falou em meio à mensagem: — Chefe, preciso de autorização para abrir fogo! A gazela de Ishibashi poderá ser destruída a qualquer momento. Não conseguirá passar... — ...mas não quero nenhum impacto direto! — decidiu Rhodan e lançou um olhar rápido para o relógio. O tempo corria vertiginosamente. A cada segundo que passava, a proximidade da frota de Árcon tornava-se mais ameaçadora. Onde estava John Marshall e sua gazela? Por que não anunciava sua decolagem da estação polar? Subitamente, as posições de artilharia estacionaria dos tópsidas, localizadas em torno do espaçoporto, dispararam contra um alvo que não aparecia nas telas de visão global da Kublai Khan. Outra mensagem foi transmitida pela linha de emergência da sala de comando da artilharia: — Chefe, estão abrindo fogo. No mesmo instante, os gigantescos canhões de impulsos começaram a trovejar. Alvejavam as posições de artilharia dos tópsidas. Um traço reluzente, vindo do alto, atravessou a tela. Seria uma espaçonave derrubada? A sala de rádio transmitiu uma notícia: — Marshall anuncia que seu pouso no hangar é iminente, Sir! Então era a gazela de Marshall que descia em velocidade tresloucada das camadas mais tênues da atmosfera e, desenvolvendo o máximo de aceleração, procurava colocar-se sob a proteção da Kublai Khan. — A frota dos tópsidas está mudando de rumo, Sir... Rhodan lançou um olhar para o grande cronômetro. Dentro de onze minutos, no máximo, as primeiras naves arcônidas apareceriam nos céus de Topsid. Um objeto em forma de disco aproximou-se velozmente da Kublai Khan. O hangar 18 anunciou: — John Marshall e sua equipe acabam de regressar da estação polar! Dali a três segundos veio outra mensagem: — Kitai Ishibashi acaba de pousar com a equipe de DinKop! Rhodan limitou-se a olhar para Bell. Este compreendeu.

Também não sabia por que Gucky e Ras Tschubai ainda não haviam voltado. — Sala de rádio... — a voz de Rhodan parecia um tanto rouca. — Procure entrar em contato com o arquivo histórico de Kerh-Onf. Apressem-se. Nesse instante, o rato-castor piou as costas de Rhodan: — Não há nenhuma pressa, Perry. Daqui a trinta segundos poderemos dar o fora. Rhodan virou-se abruptamente na sua poltrona. — Tenente Guck, poderia fazer o favor de dar uma informação em termos razoáveis? Seus olhos cinzentos fitavam o rato-castor com uma expressão enérgica. No mesmo instante, o dente roedor de Gucky desapareceu. O rato-castor esforçou-se para ficar em posição de sentido. A pata direita foi levada apressadamente ao quepe arcônida. — O Tenente Guck, membro do Exército de Mutantes, acaba de regressar de sua missão. Demos uma boa sova nos tópsidas. Livramos o grupo-tarefa da fria em que se encontrava. Foi uma brincadeira bonita... Para Perry Rhodan já bastava. Fez um gesto de contrariedade. Atlan, que há 10 mil anos já exercia as funções de almirante arcônida, e que voara num sem-número de missões, já não suportava a indiferença ostensiva dos terranos. — Não se esqueçam — observou em tom mordaz — de que, dentro de dez minutos, duas mil naves de guerra estarão acima de nossas cabeças! Perry Rhodan respondeu com a maior tranquilidade. — Acontece que não decolaremos antes que o último homem esteja a bordo. Há dez mil anos não se costumava agir assim na frota arcônida? — O que acontecerá se durante a decolagem os tópsidas utilizarem o novo rastreador e eliminarem nossos campos energéticos? — objetou Atlan. — Não poderão fazer isso — piou Gucky. — Os lagartos tinham um único aparelho, e eu lhes tirei o mesmo, quando tentavam levá-lo a outro lugar. Aposto que eles poderão procurá-lo em qualquer lugar, menos nos depósitos da On-Tharu. Afinal, sou um telecineta muito competente e... O hangar 18 voltou a chamar. — O grupo do arquivo histórico acaba de chegar. A escotilha da comporta está fechada. Era o sinal de decolagem. Os propulsores de impulsos situados na protuberância equatorial da gigantesca Kublai Khan começaram a trabalhar a plena potência. Ao mesmo tempo, entraram em funcionamento os neutralizadores de pressão, os campos antigravitacionais e alguns milhões de relês e dispositivos positrônicos. De um instante para outro, a Kublai Khan perdeu todo o peso, graças aos dispositivos antigravitacionais. O supercouraçado da frota solar ergueu-se quase 140


imperceptivelmente do espaçoporto de Kerh-Onf. A potência do empuxo foi crescendo cada vez mais. O indicador de aceleração subia aos saltos. O planeta Topsid parecia cair num abismo. A gigantesca nave afastava-se velozmente. Alguns segundos depois se verificaram os primeiros ataques das posições de artilharia dos lagartos. Quantidades enormes de energia descarregavam-se nos campos defensivos da nave esférica. Cascatas de fogo e de energia eram lançadas para todos os lados e provocavam um rugido no interior da nave. Sob a ação das ondas sonoras, o corpo do supercouraçado começou a trepidar ligeiramente. Mas as forças controladas, que se desenvolviam no interior da gigante solar, eram mais intensas e ruidosas que o inferno crepitante na parte exterior dos campos defensivos. — As naves tópsidas nos perseguem! Foi a primeira de uma série de notícias alarmantes. Rhodan chamou o setor da nave que distinguia a Kublai Khan de todos os veículos espaciais de tipo arcônida que pertencessem à mesma classe. — Caso a Kublai Khan for atacada, o transmissor de matéria tem permissão para disparar. Neste instante, o rato-castor disse em voz alta ao ouvido de Bell: — Vou ligar o aquecimento elétrico das minhas botas. Não quero ficar com os pés frios... Perry Rhodan não ouviu essa observação supérflua do rato-castor, ou então preferiu fazer de conta que não a ouvira. Sua voz era áspera, mas controlada, quando disse: — Colocar trajes espaciais! Isso se aplicava a todos, inclusive a Bell, Atlan e ao rato-castor. Apenas não se aplicava a Harno, a criatura esférica que se encontrava no bolso do uniforme de Rhodan. A Kublai Khan atravessou as camadas mais elevadas da atmosfera. O uivo enervante das superaquecidas massas de ar foi diminuindo. Em compensação vinha da sala de máquinas o rugido cada vez mais forte dos mecanismos que trabalhavam a toda potência. De um instante para outro, a imagem projetada na grande tela de visão global do supercouraçado modificouse. O negrume do espaço parecia irromper na sala de comando. Os dois sóis pareciam olhos ofuscantes, nitidamente desenhados. Topsid, o mundo central do povo de lagartos, desaparecera na escuridão do Universo. — Localização! As naves de Árcon deveriam chegar dentro de oito minutos! Os aparelhos de rastreamento da Kublai Khan estabeleceram contato com a frota que se aproximava. — Localização com o rastreador estrutural. Isso significava que as naves continuavam a emergir do hiperespaço, a fim de barrar o caminho do misterioso

veículo espacial que enganara os tópsidas. — O que diz o controle das mensagens de rádio? Rhodan estava interessado em saber se as naves arcônidas que se aproximavam e os tópsidas ainda não sabiam quem fora o autor do blefe. Os homens da sala de rádio da Kublai Khan eram verdadeiros feiticeiros. Em apenas cinco frases, o Tenente Jouffre forneceu ao administrador do Império Solar um relato minucioso sobre esta interrogação. Nas mensagens até então captadas, não foi mencionado uma única vez sequer o nome de Perry Rhodan ou o do planeta Terra. O regente de Árcon acreditava tratar-se de um povo colonial que se revoltara e, agora, queria tirar proveito de certos conhecimentos que os tópsidas não vinham utilizando. Mas não foi por isso que o Grande Coordenador resolveu enviar uma gigantesca frota; foi porque alguém usou indevidamente sua faixa de hiperfrequência. Em face disso, Árcon não podia deixar de impor ao transgressor um castigo exemplar. E o computador desalmado de Árcon III já demonstrara por mais de uma vez com que disposição sabia golpear. — Senhor administrador — não era costume usar tal tratamento para com Perry Rhodan. Na situação em que se encontravam, este fazia prever uma notícia alarmante. — Mais de vinte supercouraçados aproximam-se do verde cento e cinquenta e seis graus. As torres de canhões das regiões polares da Kublai Khan começaram a disparar. Na tela de visão global surgiram raios verdes, vermelho-pálidos e vermelhoescuros que cortavam o negrume do espaço. A Kublai Khan disparava todos os tipos de radiações. Um sol surgiu no céu. Um dos supercouraçados de Árcon foi atingido pelo fogo concentrado e desmanchou-se numa fogueira atômica. Naquele instante, as energias desencadeadas começaram a rugir em torno da nave terrana. Na sala de comando, as sereias uivaram. Devido ao tamanho da nave, a capacidade dos campos defensivos tinha proporções astronômicas. De qualquer maneira, porém, era limitada, e agora que o campo estava sendo atingido simultaneamente por mais de dez disparos de radiações, ameaçava entrar em colapso. — Cadê o transmissor de matéria? — gritou Bell para dentro do microfone, dirigindo-se à estação do TFM. A resposta não veio em forma de palavras. O fim abrupto do ruído das sereias respondia a tudo. O campo energético defensivo voltou a estabilizar-se. O ataque de uma frota de supercouraçados cessou de um instante para outro. — Metade das naves sumiu! — gritou um dos oficiais do posto de localização. Rhodan e Bell fizeram um gesto afirmativo. O transmissor de matéria representava a única chance de romper a frente extensa e profunda de naves arcônidas. — Se estas naves tiverem uma tripulação de robôs, poderemos de qualquer maneira fazer nosso testamento... 141


— cochichou Bell ao ouvido de Perry Rhodan. O velocímetro da Kublai Khan aproximou-se da marca que indicava metade da velocidade da luz. Não demoraria muito até que pudessem entrar em transição. Os postos de artilharia de números 35 a 62 começaram a disparar. No interior da nave, os conversores uivaram e os geradores rugiram. Os campos defensivos foram banhados por um mar de fogo. Até mesmo os impactos nesses campos pareciam fazer balançar a Kublai Khan. Evidentemente isso não passava de uma tolice. De qualquer maneira, Atlan observava atento o indicador de capacidade do campo. Noventa e sete por cento...! — Santo Deus...! Era mais uma expressão de surpresa infinita, vinda do posto de observação. Os instrumentos mostravam que algumas das naves inimigas se haviam dissolvido literalmente no nada. O transmissor de matéria, a arma mais terrível, voltara a golpear. Essa arma não fora criada por homens. Provinha de Peregrino, um planeta artificial no qual vivia Ele ou Aquilo. Além da Kublai Khan, o transmissor de matéria só era encontrado a bordo da Drusus, nave capitania de Perry Rhodan. Oitenta e sete por cento da velocidade de transição! — Conseguiremos! — disse Bell à meia voz. Gucky estava de pé ao seu lado. O rato-castor fitava Bell com uma expressão indagadora. Já não sorria com o dente roedor, mas também não demonstrava medo. A frota arcônida lançou um ataque concentrado. O posto de observação já não conseguia anunciar os grupos que se aproximavam. Não parecia o fim; realmente era o fim. Mais de duas mil naves, vindas de todas as direções, aproximaram-se velozmente da rota da Kublai Khan. Na sala de comando do supercouraçado terrano, soaram alguns gritos. De repente surgiram trezentos, quatrocentos, quinhentos raios destruidores e eliminaram os campos defensivos da Kublai Khan. Assim mesmo a nave de Perry Rhodan não desapareceu. Porém estava girando em torno de seu próprio eixo! Sofrerá mais de duas dezenas de impactos. O posto do TFM não respondia. O posto de artilharia da região polar superior deixara de existir. Os canhões de impulsos, situados no verde, deviam ter desaparecido. Os postos de desintegradores anunciaram uma perda de vinte por cento. No interior da nave, as sereias de alarma uivaram, anunciando uma situação catastrófica. Os robôs tentavam reparar os gigantescos vazamentos provocados pelos raios energéticos. — A potência dos neutralizadores de pressão está diminuindo... Era apenas uma entre cem notícias catastróficas vindas de todos os cantos da nave. Até mesmo Perry Rhodan empalideceu... A velocidade

fora reduzida para 0,48 luz! — Perdas... Mortos... Feridos... Outra notícia: — Sir, a terça parte da protuberância equatorial foi destruída... A Kublai Khan sofreu novos impactos. Oitenta por cento da sala de máquinas fora destruída por um raio de impulso de trinta metros de diâmetro. A Kublai Khan era apenas um corpo mutilado. — Abandonar a nave! Perry Rhodan repetiu a ordem. Será que alguém conseguiria sair da nave? Será que o próximo impacto não transformaria a Kublai Khan numa nuvem de gases? — Abandonar nave! Usar girinos! Abandonar nave! Usar girinos... Perry Rhodan parecia uma máquina, um robô que só soubesse proferir estas palavras: — Abandonar nave! Usar girinos! A grande tela de visão global apagou-se no momento em que oito raios gigantescos fizeram com que a parte inferior da Kublai Khan se volatilizasse numa fração de segundos. O supercouraçado girava que nem um pião. A cada segundo que passava, os efeitos da força centrífuga se tornavam mais intensos. Dali se concluía que os neutralizadores de pressão já não funcionavam. Bell continuava sentado ao lado de Perry Rhodan. Gucky estava de pé ao lado de Bell, enquanto na última poltrona estava sentado Atlan, que há 10 mil anos ocupara o posto de almirante. Eram as últimas pessoas que se encontravam na sala de comando. Só podiam comunicar-se pelos rádios de capacete. E foi pelos rádios de capacete que ouviram uma das últimas notícias calamitosas: — Sir, só resta um girino em condições de ser usado. Não conseguimos tirar os outros dos hangares. É impossível abrir as comportas. Bell gemeu sob o capacete. Os girinos eram naves de sessenta metros de diâmetro. A Kublai Khan tinha uma tripulação de 2 mil homens. Nem a metade desse número poderia ser abrigada no único girino que estava em condições de ser usado. Subitamente Atlan, Bell e o rato-castor estremeceram. Rhodan gritou para dentro do microfone de seu rádio de capacete: — Todos encontraremos lugar no... Rhodan foi interrompido por alguns gritos estridentes. Vinham de algum lugar no interior do já semidestruído supercouraçado, em cuja construção a Terra gastara anos e anos. Depois de algum tempo, os gritos se tornaram compreensíveis. A Kublai Khan estava ardendo. Não se tratava de um fogo comum. Uma série de ocorrências infelizes devia ter deflagrado um incêndio atômico no setor de armazenamento de energia da nave. 142


— Fora! — gritou Rhodan para Gucky e os dois amigos. — Não digam nada. Deixem a faixa desocupada... Os elevadores antigravitacionais não estavam funcionando. Tiveram de fazer um tremendo esforço para descer de um convés a outro, utilizando as passagens de emergência. Rhodan transmitia ininterruptamente suas instruções pelo rádio de capacete. — Não se preocupem com o incêndio. Acho que é nossa última chance. Se não fosse o fogo, já teríamos sido transformados numa nuvem de gases. Deitem no girino que nem sardinhas em lata. Formem uma camada acima da outra e ponham o campo antigravitacional a funcionar suavemente, a fim de que os que ficarem embaixo não sejam esmagados. Tenham cuidado com os feridos! Gucky poderia teleportar-se. Era uma criatura que não apreciava os movimentos normais, mas agora resolveu permanecer ao lado dos amigos. Nem pensou em adotar outro procedimento. Rhodan, Bell e Atlan acharam apenas natural que Gucky permanecesse a seu lado. A luz apagou-se. Sentiram-se envoltos numa escuridão ameaçadora. Encontravam-se a oitocentos metros do hangar, no interior do qual quase dois mil homens procuravam enfiar-se num girino que media sessenta metros de diâmetro. Só agora compreenderem que a Kublai Khan ainda servia de alvo ao fogo do inimigo. Um impacto após o outro atingiu o supercouraçado, que balançava que nem um navio desarvorado com mar grosso. Além disso, girava em torno de seu eixo. Em quase todos os pontos, o grosso revestimento desprendia-se da nave. — Não conseguiremos... — fungou Bell de repente. Colocou-se ao lado de Rhodan e apontou para baixo. Encontravam-se junto a um poço de elevador. Três homens e um rato-castor lançaram os olhos para as profundidades. Lá embaixo rugia o inferno atômico, que prosseguia implacavelmente na sua faina destruidora. — Vamos andando! Acho que é só por isso que ainda estamos vivos. Provavelmente os arcônidas pensam que a nave foi transformada num mar de chamas. — Quando você estiver morto, bárbaro — começou Atlan — alguém terá de matar seu otimismo, senão ele continuará a viver. Naquele instante, Gucky parecia adquirir vida. — Os últimos homens estão entrando no girino, Perry. Vou teleportar-me com Atlan. Depois voltarei para levar o gorducho e, por fim, você. O.K., chefe? Com estas palavras, Gucky deu a entender que, durante todo o tempo, estivera em contato com um telepata, que se encontrava ao lado do girino. Antes que Atlan tivesse tempo para esboçar um protesto, Gucky agarrou-se nele e “saltou”. Dali a três minutos, Rhodan já se achava no assento do piloto do girino. Viu na tela à sua frente a escotilha bem aberta da comporta do hangar, que fornecia um recorte do preto aveludado do espaço e dos pontos luminosos nitidamente desenhados. Pela primeira vez teve a impressão

de que estes o fitavam com uma expressão de ódio. No momento em que um impacto esfacelava ainda mais a Kublai Khan, Rhodan fez o girino sair ruidosamente do hangar, acelerando ao máximo. Naquele instante, só desejava uma coisa: que os postos de observação das naves arcônidas o identificassem como sendo um pedaço da nave destroçada, e não como um veículo espacial que se afastava. Os propulsores, situados na pequena protuberância equatorial, uivavam, dando o máximo de si. Porém Rhodan teve a impressão de que a nave auxiliar se arrastava preguiçosamente. De súbito surgiram quatro raios, que dividiram o negrume do espaço em compartimentos distintos e passaram a alguns milhares de quilômetros do girino. Atingiram os destroços da Kublai Khan, que se transformou numa bola de fogo alaranjada, passando a emitir um brilho cada vez mais intenso. — Você estava com a razão, bárbaro — disse o arcônida, sacudindo a cabeça sob o capacete. — Meus patrícios só não nos deram o tiro de misericórdia porque a Kublai Khan parecia um inferno. Caramba, Perry! Onde é que você arranja a sabedoria e o otimismo numa situação infernal como esta? Rhodan teve tempo para dar uma resposta bem pensada: — Um ser humano só desiste depois de morto... E a morte voltara a rondá-los... Uma espaçonave arcônida localizou o girino e disparou todas as peças de seu costado. Rhodan praguejou coisa que não costumava fazer. Desviou a nave da rota. Pouco importava a direção que tomava, pois o inimigo estaria à espreita em qualquer lugar. — Chefe! — exclamou John Marshall, que se encontrava junto ao rádio. — Acabo de captar uma mensagem interessante. O computador-regente ordenou à sua frota que capturasse a nave desconhecida e a levasse para Árcon, a fim de descobrir quem está atrás desta operação. Bell soltou uma risada amarga. — Um a zero a nosso favor, regente! A ordem chegou tarde! Atrás deles, o produto de dezesseis anos de trabalho duro dos terranos desmanchou-se numa cascata de fogo. Com isso queimou-se o único sinal que poderia revelar ao regente quem se atrevera a utilizar sua faixa de hiperfrequência para pescar em águas turvas. — Zero vírgula nove! — piou Gucky, que não tirava os olhos do velocímetro. — Faltam... Um terrível raio de desintegração passou à frente do girino, perdendo-se nas profundezas do espaço. — Chefe, parece que fomos localizados por dois cruzadores ligeiros, que seguem em... A suspeita de Marshall transformou-se em certeza. Subitamente, a nave auxiliar foi atacada de ambos os lados. Perry Rhodan colocou a chave do piloto positrônico na posição “desligado”. Passou à pilotagem manual. 143


Mais uma vez jogava tudo numa só cartada, como já fizera várias vezes, desde o início da operação. Se não conseguisse escapar, seria o fim... Os neutralizadores de pressão do girino uivaram, quando arrancou a nave de sua rota. O girino descreveu uma curva fechada. O piloto positrônico foi ligado e pôs em funcionamento o mecanismo de contagem regressiva para a transição. A morte tentava agarrá-los com seus dedos de radiações. Abriu o campo defensivo do girino e fê-lo desmoronar por alguns segundos! Mas logo se seguiu a transição. Com o neutralizador de vibrações ligado, pouco mais de 1.700 sobreviventes transferiram-se para o hiperespaço, que representava a salvação. *** A operação Topsid custara a vida de duzentos e quarenta e três homens da frota solar. Em comparação com isso, a perda da Kublai Khan e do insubstituível transmissor de matéria não representava nada. O material sempre é substituível, os homens nunca! E Atlan respondeu a esta observação. — Se não nos tivéssemos esquecido tão depressa que o homem é mais importante que a máquina, Árcon hoje dominaria o Universo. Nós mesmos fabricamos nosso destino e não merecemos outra coisa: acabamos dominados pela máquina desalmada... Perry, você tem certeza absoluta de que em Topsid seus homens não se esqueceram de nenhum detalhe?

Lançou-lhe um olhar de expectativa; Rhodan retribuiu com um olhar sério. — Sim, Almirante, eu tenho certeza absoluta de que em Topsid não existe mais nenhuma indicação de que o computador possa deduzir o caminho à Terra. Daqui a pouco continuaremos a conversar. Passarei à última transição, que nos levará ao sistema solar. Pronto, Bell? Bell se encontrava junto ao pequeno computador de bordo, no qual acabara de introduzir os dados para a transição. — Pronto Perry... A luz verde já se acendeu! Mais uma vez, a voz metálica do mecanismo de contagem regressiva começou a desfiar os segundos, em direção ao zero. Transição e rematerialização! O choque e o lento despertar de um estado indescritível. Ouviu-se uma praga. Foi Bell quem soltou a praga. Gucky levantou-se, perplexo. Atlan fitou o homem baixo e ruivo com uma expressão de espanto. Rhodan examinou o amigo da cabeça aos pés. Todos tiveram uma sensação desagradável, embora a pequena tela de visão global mostrasse o sol terrano. Tinham todos os motivos para suspirar aliviados. Mas ninguém o fez. Atlan chegou mesmo a dizer: — Isso ainda pode ficar muito divertido... Foi o único que abriu a boca. Os outros se contentaram em olhar o polegar direito de Bell. Ele o cortara de novo. E estava sangrando...

A missão foi cumprida. O último indício, que poderia levar à localização correta da Terra, foi removido. Falta eliminar a fonte de todos os males: o computador-regente de Árcon! Em Recrutas de Árcon, título do próximo volume, técnicos e mutantes do Império Solar vivem momentos de extremo perigo.

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Nº 84 De

Clark Darlton Tradução

Richard Paul Neto Digitalização

Vitório

Nova revisão e formato

W.Q. Moraes

Todos unidos por um ideal — O segundo passo: rumo a Árcon!

Rhodan, em manobra fantástica, conseguiu destruir os últimos dados referentes à localização galáctica da Terra. Entretanto, este ano será o da decisão, pois o comando suicida do Império Solar está movido por um só pensamento: derrubar o robô regente...

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jovem que Crest, ao menos no aspecto exterior. Na verdade, Atlan tinha mais de dez mil anos e adquirira a imortalidade 1 graças ao ativador celular que, num passado remotíssimo, lhe fora dado por um desconhecido. Vivia na Terra desde a destruição de Atlântida e transformara-se no melhor aliado — As coisas não estão nada boas! de Rhodan. E ele o seria pelo menos enquanto seu mundo, Perry Rhodan levantou a cabeça e viu o rosto sério da que era Árcon, fosse governado por um robô. pessoa que pronunciara estas palavras. Fez uma constatação Atlan disse em voz alta e bem compreensível: objetiva: os cabelos ruivos e curtos não estavam arrepiados; — Devemos eliminar o computador; receio que não quase pareciam cabelos normais. O rosto redondo haverá outra saída. apresentava uma coloração vermelha, e um brilho nervoso Todo mundo prendeu a respiração. marcava os olhos azul-pálidos. Essa sugestão, saída da boca de um arcônida, tinha algo — Bell, você acaba de usar uma expressão drástica, mas de terrível. Além disso, era inexequível. Havia dispositivos totalmente adequada. As coisas realmente não estarão nada de segurança que protegiam o regente de Árcon contra boas para a Terra, se não acontecer logo alguma coisa. qualquer ataque vindo de fora. O velho de cabelos brancos, que estava sentado à mesa Mas também estaria protegido contra de conferências, do lado direito de Personagens principais deste ataques vindos de dentro? Rhodan, acenou lentamente com a cabeça. episódio: Rhodan imediatamente começou a Em seus olhos avermelhados ardia um raciocinar em torno desta idéia. fogo eterno de confiança recôndita. O Perry Rhodan — Administrador do Império — Só nos restam sete supercouraçados vulto magro parecia encurvado, mas o Solar: do tipo da Titan e da Drusus. Perdemos um brilho dos olhos continuava juvenil e dos transmissores de matéria que vigoroso. Jeremy Toffner — Um agente possuíamos. E não há como substituí-lo. Rhodan dirigiu-se a esse homem. cósmico que, depois de uma Nossa frota espacial é grande, mas, em — Então, Crest? solidão prolongada, recebe uma comparação com a de Árcon, é O velho arcônida, que descendia de visita importante. insignificante. Acho que só poderemos uma família real de Árcon, há muito Almirante Calus — O atacar Árcon por dentro. extinta, voltou a acenar com a cabeça. verdadeiro soberano de Zalit. — Por dentro? — repetiu Atlan em — Concordo plenamente com Reginald tom interrogativo. Seus olhos Bell no ponto em que ele definiu a Roger Osega — Um sargento avermelhados se iluminaram. — Talvez situação. Por outro lado, porém, quero que sabe desempenhar o papel seja a solução. ressaltar que a perda da Kublai Khan foi de almirante. À esquerda de Bell, estava sentado um compensada por uma vitória relativa. homem que também tinha cabelos ruivos. Gucky, Ras Tschubai e Tako Conseguimos destruir os últimos sinais Kakuta — Cujas capacidades Evidentemente era pura coincidência. que poderiam fornecer ao computadorde teleportação permitem a Quanto ao mais, o Capitão Hubert Gorlat regente alguma indicação sobre a posição realização de um transporte poderia ser considerado um tipo comum. da Terra. Nenhum tópsida vivo, que tenha muito importante. Ao menos quanto ao aspecto exterior. Na participado da invasão do sistema de Vega, verdade, Hubert Gorlat era especialista de saberá dizer qualquer coisa a este respeito. Kharra e Markh — Dois defesa do Serviço de Segurança Solar, É bem verdade que perdemos a Kublai homens que se esquivam à prestação do serviço militar. submetido diretamente a Mercant. Seu Khan... aspecto exterior não mostrava suas — Bell pretendia dizer mais alguma capacidades. coisa — anunciou Rhodan. — Ele se referia à situação — Quem sabe se isso não seria um serviço para mim? geral. E esta não oferece margem a qualquer dúvida. Em — disse em tom indiferente, mas com a voz trêmula de toda a Galáxia só existem três fatores que devem ser excitação. considerados no jogo de forças. O primeiro é representado Rhodan sorriu. pelos druufs, que constituirão um perigo por mais doze — Fui eu que convoquei a reunião, e posso garantir que meses, ou, ao menos, enquanto existir a área de ninguém está aqui por acaso — fitou os presentes um por superposição entre as duas dimensões temporais. Segundo: um. — O senhor também receberá sua tarefa, Gorlat. temos de considerar o gigantesco computador que governa — Você tem algum plano? — perguntou Bell em tom Árcon. É verdade que, no momento, o cérebro-robô está de curiosidade. plenamente ocupado com a invasão dos druufs, mas um dia Seu rosto ficou ainda mais vermelho. Seus cabelos voltará a dedicar-se àquilo que considera sua tarefa começaram a arrepiar-se. principal: localizar-nos e subjugar-nos. Por fim, o terceiro — O plano surgirá no curso desta discussão — disse fator somos nós. Rhodan, dando a entender que cada um tinha de contribuir À direita de Rhodan, havia outro arcônida. Era mais para a elaboração do mesmo. — Antes de qualquer coisa, 146


estabeleçamos os fatos. Os tópsidas já não poderão fornecer ao regente qualquer indicação sobre a posição da Terra. De qualquer maneira, porém, um belo dia o regente nos encontrará. Isso vai acontecer quando não tiver mais nenhum perigo para enfrentar e puder concentrar-se exclusivamente sobre nós. Neste caso, não haverá nada que possa impedir tal descoberta, já que hoje em dia o Império de Árcon é forte e unido. Chegará o dia em que alguma nave se deparará com a Terra e transmitirá as respectivas coordenadas para Árcon. E depois? Ninguém respondeu. Crest, que já estava muito velho, começou a falar com o rosto sério. — Não sobreviveremos ao ataque que vier depois disso — respondeu. — Não existe a menor dúvida. Árcon destruirá a Terra, muito embora os dois impérios unidos pudessem ser donos do Universo. A loucura, que costumava ser cometida pelos políticos terranos, será repetida no âmbito cósmico. — Qual é sua sugestão, Crest? Rhodan formulou o pedido em tom calmo e indiferente, embora em seu interior rugisse uma tempestade. Não deu a perceber nada. Crest soltou um suspiro. — Acha que devo ter alguma sugestão? Talvez possa fornecer uma indicação que possa servir de base a uma sugestão? Quem é nosso inimigo? Os arcônidas. Não, não é essa raça governada por um computador. Nosso inimigo é exclusivamente o computador, o regente de Árcon. Quer dizer que, se quisermos viver em paz com Árcon, teremos de eliminar o regente. “Acontece que o computador foi concebido e construído por arcônidas, e foram estes que fizeram dele o regente, quando a atividade dos arcônidas começou a diminuir. Todavia, quem construiu o computador foram os valentes arcônidas de outros tempos. No meu entender, este ponto representa a chave de qualquer ação bem sucedida. Acho impossível que os cientistas que construíram o regente não tenham previsto qualquer dispositivo de segurança”. “Vamos raciocinar logicamente, senhores. O computador foi construído pelos arcônidas para que assumisse o governo do Império, quando eles mesmos degenerassem a ponto de não serem aptos para a condução dos negócios públicos. Conclui-se que na época ainda possuíam inteligência suficiente para reconhecerem suas próprias fraquezas. Por isso, é de supor que também tenham tido inteligência suficiente para não se submeterem irremediavelmente ao domínio de um cérebro positrônico. Por certo esperavam que um dia voltariam a existir arcônidas capazes. E estes assumiriam o governo. Vê-se que deve haver algum comando de segurança, que pode ser localizado. Acho que me fiz entendido.” Olhou em torno com uma expressão indagadora e deparou-se com os olhos brilhantes dos outros. Rhodan respondeu com um aceno de cabeça. — Sim, Crest. Compreendemos perfeitamente o que quer dizer. Restaria descobrir como é esse dispositivo de

segurança e de que forma deve ser manipulado. Acha que será fácil? Crest parecia um tanto inseguro. — Em minha opinião não será fácil, mas será possível. Gorlat continuou a raciocinar em torno de fatos concretos. — Antes de quebrarmos a cabeça sobre isso, devemos verificar se há uma possibilidade de nos aproximarmos do regente. Subitamente Atlan voltou a participar da discussão. — Estou inclinado a concordar com Crest. O principal é que tenhamos certeza absoluta de que realmente existe um dispositivo de segurança. Em minha opinião, essa possibilidade existe. O dispositivo de segurança existe! Por isso deverá ser possível colocar o computador-regente fora de ação exclusivamente por meio da astúcia, independentemente de qualquer luta, libertando o Império de Árcon de um ditador maquinal. — Resta saber — ponderou Bell — como faremos para chegar a Árcon, sem que antes sejamos desmanchados em átomos. — Foi justamente por isso que convoquei esta reunião — disse Rhodan, dirigindo-se a Atlan com um visível interesse. — Quer dizer que tanto você como Crest têm certeza de que existe um dispositivo de segurança? — Certeza absoluta, bárbaro — respondeu Atlan, servindo-se do tratamento costumeiro, mais por costume que por ironia. — Não se esqueça de que há dez mil anos fui almirante do Império Arcônida. É bem verdade que naquela época ainda não pensávamos em construir um computador que nos pudesse exercer o governo sem o menor trabalho, mas tais planos já existiam no âmbito teórico. E nesses planos se aludia a um dispositivo de segurança que permitisse à pessoa indicada à reprogramação do computador. Rhodan acenou com a cabeça; parecia pensativo. — Pois é isso: pela pessoa indicada. Quem será essa pessoa indicada? Conforme já acontecera tantas vezes, a única resposta foi o silêncio. Rhodan fitou seus interlocutores com um sorriso nos lábios. — Agradeço a Crest e Atlan pelas opiniões que acabam de formular, já que estas correspondem inteiramente às minhas suposições. Devo comunicar-lhes alguma coisa que até agora tenho guardado para mim. Há alguns meses ando pensando muito em Jeremy Toffner, que é um dos nossos agentes. Será a figura principal, que deverá abrir-nos o caminho para a fortaleza inexpugnável de Árcon. O sistema de Árcon ficava a 34 mil anos-luz da Terra, e pertencia ao grupo estelar M-13, situado fora da Galáxia propriamente dita. — Jeremy Toffner? — repetiu Bell. Ao que parecia não se lembrava. Não era de admirar, pois os agentes cósmicos do Império Solar estavam 147


espalhados pelos mais diversos pontos da Galáxia. — Quem é este? — É um homem nascido em Vênus. O Capitão Gorlat poderá extrair os dados necessários dos nossos registros. Mas não é o que nos interessa. O que interessa é sabermos onde se encontra Toffner. Rhodan fez uma pausa. Bell quase chegou a estourar de curiosidade. — Onde ele está? — Em Zalit, o quarto planeta do sol Voga. Os homens fitaram Rhodan com uma expressão de perplexidade. Zalit apenas distava pouco mais de três anos-luz de Árcon... *** ... e os zalitas eram súditos fiéis do regente de Árcon. Quando o largaram às escondidas no planeta estranho, deixando que se arranjasse conforme pudesse Jeremy Toffner já teve oportunidade de constatar este fato. O Serviço de Segurança Solar lhe fornecera documentos impecáveis, o que lhe permitiria enfrentar tranquilamente um eventual controle. Os especialistas do setor de pesquisa médica haviam modificado seu aspecto exterior a tal ponto que nem mesmo sua avó o reconheceria. Qualquer pessoa pensaria que se tratava de um zalita genuíno, raça que por sua vez descendia dos arcônidas e com estes se assemelhava. Tinham certa semelhança com os homens; geralmente seu corpo era esbelto e possuía a pele marrom-avermelhada. O que mais chamava a atenção era o cabelo cor de cobre que, conforme a incidência da luz, por vezes apresentava um tom verde oxidado. Os zalitas eram considerados a raça colonial mais inteligente dos arcônidas e contava-se entre os aliados mais fiéis dos mesmos. Jeremy Toffner não teve a menor dificuldade em desaparecer em meio à população de Tagnor, uma cidade que contava trinta milhões de habitantes. Tagnor era a capital do planeta Zalit, e cobria uma área maior que muitos países terranos. A população total do planeta era muito superior a oito bilhões de habitantes, motivo por que uma aglomeração de trinta milhões não tinha nada de extraordinário. Da mesma forma que em Árcon, também aqui predominavam as construções em forma de funil. A entrada ficava na boca do funil, e por ela o visitante penetrava num mundo completamente isolado do exterior. As residências localizavam-se em cima de degraus presos à parte interna das paredes inclinadas do funil. A forma afunilada dos edifícios correspondia ao desejo dos arcônidas, que queriam uma residência individual e isolada. Os zalitas adotaram e conservaram este costume dos antepassados. O maior dos edifícios-funis era o do governo, que era

dirigido por um Zarlt. Esse Zarlt estava submetido ao computador-regente de Árcon e cumpria-lhe todos os desejos. Toffner conseguiu escapar à atenção dos numerosos guardas, mas não conseguiu livrar-se de uma sensação desagradável. Mantinha-se sempre próximo à toca do leão. Árcon ficava perto, perto demais. Se o descobrissem, isso poderia acontecer tão de repente que não teria tempo de destruir seus documentos secretos. Talvez nem tivesse tempo para matar-se, a fim de escapar a um interrogatório que poderia trazer as piores consequências para a Terra. A supercivilização dos zalitas manifestava-se num retorno à barbárie. Não eram tão degenerados como os arcônidas, mas sofriam do tédio resultante de toda e qualquer perfeição. Certas medidas foram tomadas para vencer esse tédio e, como houvesse tecnologia de sobra, abusava-se desta para promover um regresso ilusório de condições que de há muito pertenciam à História. Quando se fixou em Tagnor, Jeremy Toffner jogou com estas circunstâncias. Não poderia dedicar-se a qualquer ramo de atividade oficialmente reconhecido sem despertar ao menos a atenção das autoridades, eternamente desconfiadas. Mas bastaria dedicar-se a um negócio, que só em parte fosse legal, para travar conhecimento com zalitas e mesmo com órgãos do governo, que não levavam muito a sério o cumprimento da lei. A manutenção de arenas de gladiadores era permitida e chegava mesmo a ser estimulada pelo governo. Apesar disso, as mesmas cheiravam a ilegalidade, e tratava-se de uma ilegalidade que não era confirmada ou negada por ninguém. Era uma situação estranha, que Toffner não sabia explicar. Encontrou uma residência num dos edifícios-funis, mas via de regra permanecia embaixo da superfície, nos amplos pavilhões e vestiários da arena principal. Por ali conhecia todos os cantos, todos os esconderijos, todos os corredores. E era ali que escondia o equipamento secreto que qualquer agente cósmico do Império Solar possuía, fosse qual fosse o lugar em que se achava. Na caixa metálica, que não era muito pequena, havia o hiper-rádio. Por meio dele, Toffner transmitia, a intervalos regulares, às estações retransmissoras espalhadas pelo espaço a informação de que ainda estava vivo. E era por meio dela que recebia ordens e instruções. Era o único terrano em Zalit, e esse rádio constituía seu único elo de ligação com a Humanidade. Fazia quase quatro anos que estava no local. Quando chegara, obtivera das autoridades licença para promover lutas entre os sanguinários haraks e os gladiadores voluntários. Sua fama crescia cada vez mais, ao menos aos olhos das pessoas que faziam um bom negócio com essas lutas. Estas pessoas o elogiavam pelas boas ideias que costumava ter e lhe garantiam uma percentagem elevada dos lucros esperados. Toffner bem que gostava disso. Também em Zalit precisava-se de dinheiro para viver, e as reservas com que 148


viera não eram inesgotáveis. Antes de ir para casa, resolveu visitar seu cubículo secreto nas profundezas da rocha. Não era hora de transmitir a notícia rotineira, mas talvez fosse o instinto que o prevenia. De qualquer maneira, não se sentiu muito surpreso quando, ao entrar no recinto, notou que a luz vermelha estava acesa. Isso significava que havia uma hipermensagem para ele. Trancou apressadamente a porta e ligou o aparelho. Menos de um minuto depois, viu na tela o rosto de um homem desconhecido. Esse rosto contemplou-o com uma expressão de curiosidade e sorriu. — O senhor é o agente Toffner, código ZV-4? ZV-4 significava Zalit-Voga — 4o planeta. — Sou — disse. O homem disse: — O chefe que falar com o senhor. Espere trinta segundos. — O chefe? Só havia dois homens que costumavam ser designados como chefe. O primeiro, naturalmente, era Perry Rhodan, administrador do Império Solar. O outro era Mercant, chefe do Serviço de Segurança Solar. O que Mercant poderia querer dele? Subitamente Toffner sentiu um calafrio. “Será que o chefe que deseja falar comigo é Rhodan?”, pensou. Aguardou à frente da tela. Passaram-se vinte segundos. Trinta... Quando o rosto voltou a aparecer, Toffner percebeu que sua suposição fora correta. Perry Rhodan fitou-o atentamente. Seus olhos frios pareciam penetrar em seu corpo e enxergar até o canto mais recôndito de sua mente. — O senhor é Jeremy Toffner? — Sim senhor — Toffner não conseguiu dizer mais que isso. — Estou falando de bordo de uma nave, e a mensagem foi distorcida. Apesar disso, prefiro que não indiquemos nenhum lugar. O perigo seria muito grande, principalmente para o senhor. Faz três anos que o senhor está por aí. Notou algo de extraordinário nestes últimos dias? Toffner sentiu-se perplexo. Respondeu em tom hesitante: — Não senhor. Não que eu me lembre. Os z... os habitantes estão tranquilos e tudo está normal com o governo. Não houve qualquer acontecimento extraordinário. — Vou formular a pergunta em termos mais específicos, para que o senhor compreenda o que quero dizer — disse Rhodan, logo depois. — Existe outro sistema solar que não fica muito longe do lugar em que o senhor se encontra. Acho que compreendeu o que quero dizer. Procure descobrir se o mundo em que o senhor se encontra recebe visita desse sistema, uma visita com intenções especiais. Se isso acontecer, avise imediatamente. — Não sei se estou compreendendo...

— Pois é simples, Toffner. Quero saber se os habitantes do planeta são deixados à vontade, ou se há alguém que se imiscui nos assuntos internos de ZV-4. Toffner fitou o rosto de Rhodan com certa perplexidade. — É claro que os habitantes do planeta são livres, mas estão sendo vigiados. O governo local tem pouco a ver com isso. Não sei se me fiz entendido. — Compreendi muito bem. Obrigado; é só. Entrei em contato com o senhor principalmente para que compreenda a importância da posição que ocupa, ou melhor, a importância que essa posição poderá ter no futuro. O senhor é meu posto avançado numa guerra que ainda não começou. Passe bem, Toffner. A tela apagou-se, mas Toffner ficou fitando-a pelo menos por mais dez minutos. Parecia que, de um instante para outro, fora tomada uma decisão sobre seu destino. Sua permanência em Zalit era perigosa, e ela o fora desde o momento da chegada. Mas sempre havia certa diferença entre um perigo remoto e um perigo iminente. Continuou a dedicar-se àquilo que pareciam ser suas tarefas normais, mas passou a prestar maior atenção ao que se passava em torno dele. No início não percebeu nada de anormal. As naves de Árcon chegavam com a mesma freqüência dos anos anteriores. Traziam mercadorias, robôs de trabalho, equipamento técnico e alimentos sintéticos. Naturalmente também traziam soldados que deviam revezar os que estavam acantonados em Zalit. Via de regra, os oficiais eram arcônidas ou membros de outros povos auxiliares. Já a tropa propriamente dita incluía mais robôs que seres orgânicos. Há tempos imemoriais Árcon mantinha esse tipo de guarnição nos planetas coloniais. Tais guarnições atuavam sob o disfarce de forças policiais ou elementos auxiliares. Só a contragosto os zalitas se submetiam a esse suave jugo, mas não se atreviam a provocar a ira do todo-poderoso regente de Árcon, que estava tão próximo. A lembrança das expedições punitivas ainda estava viva na memória dos habitantes do planeta. As instruções de Rhodan eram claras. Toffner passou a observar as tropas de Árcon. Mas, por mais que se esforçasse, não descobriu qualquer modificação. Ao que tudo indicava as suspeitas de Rhodan não tinham fundamento. As mensagens dirigidas ao Serviço de Segurança Solar prosseguiam normalmente, mas permaneciam no campo da rotina. Os dias foram passando, enfileiraram-se em semanas e em meses. Rhodan não chamou mais. Toffner começou a acreditar que só queriam despertá-lo de uma suposta letargia. Era possível que os agentes solitários precisassem, vez por outra, de uma ducha de perigo. Podia ser. Exatamente três meses depois do dia em que recebeu o chamado de Rhodan, Toffner alugou um dos planadores com piloto automático, que costumavam ser usados no planeta, e foi a Larg, uma das maiores cidades situadas ao leste de Tagnor. Larg, que tinha apenas cinco milhões de habitantes, era 149


um dos principais centros comerciais de Zalit. As feiras mensais eram visitadas por caravanas modernas, comerciantes ricos, vigaristas... e pela polícia. Toffner alugou um quarto num hotel e foi ao mercado, a fim de procurar os objetos de que precisava para as futuras lutas de gladiadores. O mercado de animais estava bem sortido como sempre. Levou apenas algumas horas para fazer alguns pedidos. Pagou adiantado, pois conhecia a maior parte dos comerciantes. Uma vez fechado o negócio, o mesmo costumava ser regado com bebida. Por isso não era de admirar que, ao anoitecer, Toffner se encontrasse no meio de um grupo alegre, indo parar num bar. O treinamento hipnótico, recebido na Terra, habilitara Toffner a falar o genuíno dialeto zalita, que não passava do arcônida com um ligeiro sotaque. Conhecia todas as nuances do linguajar do planeta. — Ei, Garak! Fico satisfeito em vê-lo em Larg — gritou alguém que se encontrava numa mesa do outro lado do recinto cheio de mercadores, compradores e outros tipos de gente. Em algum canto alguém cantava uma canção triste, mas ninguém lhe dava atenção. — Veio para comprar novas atrações? — Vim — respondeu Toffner. — E você, Kharra? Arranjou bastante vinho para dar banho em toda a família? Kharra, o mercador de vinho, soltou uma estrondosa gargalhada e deu um gigantesco copo para Toffner e seus amigos. Toffner voltou a prestar atenção à conversa dos homens sentados à sua mesa. — Não estou gostando muito — disse Markh, o caçador de animais vivos em tom exaltado. — Até parece que toda a Galáxia está em rebuliço, e que precisam de muitos soldados. Não estou com vontade de ser enfiado numa nave... — Não quer que lhe façam o que você faz com os animais — gritou alguém na intenção de fazer uma piada, mas ninguém riu. Markh prosseguiu sem dar atenção ao falso humorista. — Pelo que ouvi dizer, todos os dias são formados novos comandos. É claro que são de voluntários. Mas tenho a impressão de que o Zarlt já está exercendo uma suave pressão, ou melhor, vem transmitindo a pressão suave que recebe de Árcon. Todos falaram ao mesmo tempo, dando sua opinião. Ao que parecia ninguém concordava com a guerra que estava sendo travada na distante Via Láctea. Hhokga, um opulento comerciante de tecidos, formulou sua opinião nos seguintes termos: — Em Zalit estamos passando bem, e ninguém nos ameaça. Nenhuma nave mercante nossa foi atacada. O que temos a ver com a guerra de Árcon? Eu nunca me apresentarei voluntariamente. — Nem eu! — disseram os demais, quase em coro. Depois de uma ligeira pausa, Markh disse: — Receio que, dentro de pouco tempo, os voluntários não serão suficientes, e então recorrerão à violência

propriamente dita. Tenho um pressentimento de que vai acontecer isso mesmo, amigos. Toffner sentiu-se aborrecido por ter perdido o início da conversa. — De que estão falando? — perguntou. — Está havendo alguma guerra? O caçador lançou um olhar de espanto para seu melhor freguês e respondeu: — Você deveria interessar-se mais pelo que acontece em Tagnor e arredores, pois do contrário um belo dia será atropelado pelos acontecimentos. Será que você não lê os jornais? Todos os dias são publicados apelos do governo, para que os cidadãos ingressem voluntariamente na frota espacial. E o que acontece com os pobres coitados que atendem aos apelos? São colocados nas naves robotizadas de Árcon e desaparecem para sempre. Calou-se de repente e olhou para a porta. Toffner empalideceu sob a pele colorida. Dois zalitas uniformizados entraram no botequim e olharam para os lados em atitude provocadora, como se estivessem à procura de alguma coisa. As conversas nas outras mesas cessaram. Todos fitaram os policiais do Zarlt. Pareciam ter a consciência pesada. Mas os dois homens uniformizados viraram-se e foram saindo. Seguiu-se uma forte sensação de alívio. Markh suspirou e disse mais baixo que antes: — Ficam espiando a gente em tudo quanto é lugar. Acho que já estão escolhendo as vítimas. O Zarlt não passa de um criado de Árcon. Éramos tão felizes sem a proteção dos arcônidas, que são governados por um computador desalmado. Gostaria de saber por que temos de obedecer a uma máquina. Toffner inclinou-se para frente e cochichou: — Fique quieto, Markh, senão acabaremos todos na cadeia. Não estamos passando bem? Não deveríamos sentir-nos satisfeitos? Que importa se alguns malucos se apresentem voluntariamente para servir na frota espacial para morrer em algum mundo distante? Enquanto nos deixarem em paz... — Acontece que não nos deixarão em paz! — exclamou Markh. O caçador manteve uma atitude obstinada, o que deixou Toffner satisfeito no seu íntimo. — Dentro de pouco tempo não nos perguntarão se queremos ir ou não. Eles nos obrigarão. — Você está exagerando! — Hhokga demonstrou vontade de levar a palestra a outra trilha. — Por enquanto trata-se de voluntários; isto é um fato incontestável. Se as coisas mudarem, ainda teremos tempo de tomar nossas providências. — Caramba! — gritou Markh em tom zangado. — Que providências podemos tomar? Dali em diante, a palestra passou a arrastar-se. O bom humor dos negociantes se fora; cada uma estava entregue aos seus pensamentos. Toffner logo se despediu e voltou ao hotel, onde procurou digerir aquilo que acabara de ouvir. Seriam estas as informações que Rhodan desejava 150


receber? Resolveu enviar na noite seguinte um relatório sucinto ao Império Solar. A estação retransmissora mais próxima o captaria, fosse qual fosse o lugar em que se encontrasse a respectiva nave. E foi assim que Perry Rhodan recebeu, um mês antes da conferência realizada em Terrânia, a notícia de que o regente de Árcon estava substituindo seus robôs por voluntários recrutados entre todas as raças. O computador reconhecia que não poderia arranjar-se sem inteligências orgânicas. Era um fator de pouca importância, que convidava a certas reflexões e infundia alguma esperança... *** Das janelas de seu gabinete, Rhodan via perfeitamente a capital da Terra, ou ao menos um lado desta. Terrânia crescera e continuava a crescer a cada dia que passava. As construções não eram realizadas ao acaso; os edifícios e as ruas iam surgindo em conformidade com planos previamente traçados, circunstância que concorria para melhorar o aspecto da cidade. Terrânia parecia ter atravessado um processo de crescimento orgânico... e realmente atravessara. Bell entrou no gabinete. Viu Rhodan parado junto à janela e aproximou-se do mesmo. — Esta cidade parece uma fábula — disse em tom sonhador, o que não combinava com seu caráter. — É aqui que vêm ter todos os fios, e estes passam por nossas mãos. É a metrópole do Sistema Solar. Temos motivo para orgulhar-nos... Rhodan virou ligeiramente a cabeça e disse: — Devemos pensar em descobrir um meio de conservar Terrânia. Bell fitou-o com uma expressão de perplexidade no rosto. — O que quer dizer com isso, Perry? Conservar a cidade? Quem...? — É Árcon! Acho que você já sabe, pois os termos de nossa palestra foram muito claros. Ou destruímos o cérebro positrônico, ou seremos destruídos por ele. Não existe outra alternativa. Seria inútil firmarmos outro tratado, pois sabemos perfeitamente quais são as intenções do regente. E não haverá ninguém que o demova disso. Já refletiu sobre todas as possibilidades? Bell parecia embaraçado. — Para dizer a verdade, devo confessar que não. Pensei que isso não tivesse tanta pressa. — Temos muita pressa! — Rhodan voltou a olhar para a cidade, que se estendia até o horizonte. Para além da metrópole começava o grande deserto, que atualmente era cortado por grandes estradas. — O computador-regente tem mais tempo que nós, mas vem se apressando. Acho que chegou a hora de agir. — O que pretende fazer? — A palestra que tivemos concorreu para reforçar

minha decisão. Devemos lançar um ataque direto contra Árcon. O computador-regente tem um ponto vulnerável: o dispositivo de segurança. Se o descobrirmos, o regente estará liquidado. — Não será fácil — ponderou Bell. — Não será fácil? — repetiu e deu uma risadinha, mas seu rosto logo voltou a tornar-se sério. — Diria que é quase impossível. Pelo que se depreende dos relatórios enviados por nossos agentes, é totalmente impossível romper o anel de fortificações que cerca Árcon. Por meio da violência não conseguiremos nada. Nem mesmo o transmissor de matéria seria capaz de romper os campos de radiações. Para chegarmos a Árcon, teremos de recorrer aos meios legais. — Aos meios legais? Quer dizer que teríamos de obter a permissão do regente? Não sei como... — Eu também ainda não sei — respondeu Rhodan em tom preocupado. — Mas havemos de encontrar um caminho. Bell não respondeu. Lançou um olhar para o movimento da cidade, para as ruas largas com os carros pilotados automaticamente, para os táxis planadores e para a multidão que se comprimia no bairro comercial. Esteve a ponto de dizer alguma coisa, mas o silêncio foi rompido por uma campainha estridente. De um salto, Rhodan colocou-se à frente do quadro de comando que ocupava toda uma parede. Num movimento rápido moveu para baixo uma pequena chave. A tela iluminou-se e um rosto apareceu. — Mensagem para o chefe! Mensagem para o chefe! Mensagem para... — Aqui fala o chefe! — disse Rhodan em tom impaciente, interrompendo a frase repetida. — O que houve? O rosto na tela quase não se modificou. — É uma ligação de Vênus, Sir. No momento, o Marechal Mercant se encontra lá. — Já sei. Pode completar a ligação. Não demorou dez segundos até que a coroa de cabelos ralos de Mercant surgisse na tela. O chefe do Serviço de Segurança Solar mantivera-se jovem, pois recebera tal qual Rhodan e Bell, a ducha celular rejuvenescedora. — Ainda bem que a ligação está boa — disse em tom satisfeito. — Tive a intenção de esperar até que a Burma chegasse aí, mas concluí que é melhor informá-lo imediatamente. — A Burma? — ao que parecia, Rhodan não conseguia lembrar-se. Mercant ajudou-o a lembrar-se. — A Burma está estacionada nas proximidades da área de superposição entre nosso Universo e o dos druufs. Funciona como estação retransmissora para nossos agentes cósmicos. Meu elemento de confiança informou que deseja fazer chegar ao senhor uma mensagem pessoal. Daqui a alguns minutos, a Burma deverá pousar em Terrânia. Era o que eu lhe queria dizer. Como vai o senhor? — Bem, obrigado — respondeu Rhodan. Ao que 151


parecia, não estava disposto a dar uma resposta mais detalhada à pergunta de Mercant. — Dentro de poucos dias nos veremos. Até lá se mantenha livre dos sáurios. Mercant compreendeu, e desligou. A tela apagou-se. Bell saíra de junto da janela. — O que significa isso, Perry? A Burma tem algo a ver com nossos planos relativos a Árcon? — Talvez, Bell. Não sei. Está trazendo uma mensagem. De quem pode ser essa mensagem? De Árcon? De algum dos nossos agentes? Se for assim, por que motivo a mensagem deve ser transmitida pessoalmente? Sinto muito, mas não posso responder à sua pergunta. Só nos resta aguardar. — Mercant disse que a Burma deverá pousar dentro de poucos minutos. Ele deve saber, mesmo que esteja em Vênus. Rhodan estava pronto para sair. — Acho que precisamos de ar puro. Quer ir comigo até o espaçoporto? *** Nada aconteceu nos vinte dias que se seguiram à visita ao mercado, mas Toffner teve tempo para convencer-se da veracidade das informações de Markh, o caçador. Realmente, todos os dias saíam grandes naves transportadoras do regente com voluntários destinados a Árcon. Mas no vigésimo segundo dia aconteceu. Dois supercouraçados pousaram no espaçoporto de Tagnor. Tratava-se de veículos espaciais esféricos de mil e quinhentos metros de diâmetro, acompanhados de uma série de gigantescas naves de transporte. Um exército de robôs de guerra — monstros metálicos de três metros de altura — saiu das duas naves de guerra e entrou em formação. Os braços armados situados na altura do ventre, capazes de girar num ângulo de cento e oitenta graus e supridos de energia pelas baterias arcônidas, giraram lenta e ameaçadoramente. Assim que o exército acabou de entrar em formação, imobilizou-se de uma hora para outra. Alguém desativara os robôs. Esse alguém não demorou a aparecer. Um arcônida, inconfundível pela arrogância e pelo uniforme vistoso, no qual mal havia lugar para os distintivos e condecorações, dirigiu-se à superfície do planeta Zalit e exigiu que o levassem imediatamente ao palácio do Zarlt. Toffner não soube o que aconteceu e o que foi discutido por lá, mas os acontecimentos dos próximos dias não deixaram dúvidas sobre isso. O Zarlt publicou uma proclamação dirigida a toda a população, na qual ordenou que todos os homens jovens se apresentassem à comissão de recrutamento dirigida por Calus, um almirante arcônida. Os exames seriam iniciados ao amanhecer do dia seguinte. Qualquer recusa daria lugar à

aplicação de penas gravíssimas. A proclamação foi publicada na imprensa diária e transmitida constantemente durante as programações de televisão. Qualquer pessoa tomaria conhecimento da mesma, e não se admitiria desculpa. Indicou-se um prazo, e a ordem da apresentação seguia certos critérios, baseados na idade ou na profissão. Jeremy Toffner calculou que disporia exatamente de dez dias; depois desse prazo estaria sujeito a penalidades. Seriam dez dias tão longos e tão terrivelmente curtos em Zalit. Na noite do mesmo dia passou apressadamente pelas ruas de Tagnor, a fim de alcançar seu esconderijo. Por várias vezes notou grupos que discutiam acaloradamente, e que conversavam sobre assuntos sem importância, enquanto passava por eles. Mas não se iludiu. Sabia sobre o que estavam falando. Irradiou a notícia alarmante e solicitou novas instruções. Por uma questão de precaução ligou o gravador automático. Se durante sua ausência chegasse alguma mensagem, esta seria gravada, depois de decodificada. Poderia ouvi-la a qualquer momento. Dessa forma não perderia nenhuma mensagem que viesse fora da hora marcada. Saiu do cubículo, trancou-o cuidadosamente e deixou que a parede de rocha natural voltasse a encobrir a porta. Nem mesmo os olhos desconfiados de um policial descobririam a fenda que, além de ser muito fina, corria num traçado irregular. Caminhou o mais depressa que pôde pelos corredores debilmente iluminados, pois desejava chegar à superfície o quanto antes. Se alguém o encontrasse por ali, teria de responder a algumas perguntas. Mas isso não era o pior. Nesses subterrâneos ficavam as jaulas dos animais, os vestiários e os aposentos dos gladiadores e os pavilhões de treinamento. Cabia-lhe andar por ali para verificar se tudo corria bem. No entanto, preferia evitar qualquer contato com as autoridades de Tagnor. Chegou à sua residência, situada num edifício-funil, sem que ninguém o incomodasse. O número de policiais que patrulhavam a cidade era maior que nos outros dias, mas ninguém o abordou. Depois das pequenas demonstrações a que já assistira, não era de admirar que o policiamento fosse intensificado. Tirou a chave do bolso e esteve a ponto de enfiá-la na fechadura, quando uma sombra se destacou em meio à escuridão do corredor. A sombra aproximou-se e parou a seu lado. Toffner quase morreu de susto. Teria sido descoberto? Será que seu jogo chegara ao fim? Quando ouviu a voz que se dirigiu a ele, suspirou aliviado. — Não se assuste Garak, sou eu. Era Markh, o caçador! Tratava-se de um amigo de Toffner, com o qual costumava fazer negócios. — Você me deu um susto — disse Toffner e apertou a mão de Markh. — Por que resolveu esperar-me aqui? Você 152


sabe onde encontrar-me de dia. — Vamos entrar Garak. O que tenho a lhe dizer não deve ser ouvido por mais ninguém. Toffner sentiu a insistência que vibrava na voz de seu interlocutor e não fez outras perguntas. Começou a desconfiar de que o acaso viera em seu auxílio, embora sua situação começasse a tornar-se crítica. Devia tentar reunir os dois fatores, para extrair o maior proveito possível da situação. Abriu apressadamente a porta e deixou que o caçador entrasse. Voltou a fechá-la e certificou-se de que, durante sua ausência, ninguém entrara para instalar algum microfone. Costumava proceder assim todas as noites; tal procedência não passava de uma rotina de importância vital. Markh contemplou-o em silêncio. — Tudo em ordem. Vamos sentar. Sobre a mesa havia uma garrafa bojuda com vinho. Tomaram alguns goles. Toffner lançou um olhar indagador para o caçador. — O que o trouxe até aqui, Markh? Fale à vontade, pois ninguém poderá ouvir-nos. Suponho que você deva ter um bom motivo para vir a esta hora; não deve ter vindo por puro prazer. O rosto de Markh, que costumava ser tão juvenil e tostado pelo sol de Voga, mostrava uma palidez espantosa. Apesar disso, porém, era mais escuro que o de um europeu que acaba de passar um mês na zona do equador. No entanto, faltava-lhe a tonalidade do cobre, característica de todos os zalitas. Em seus olhos havia uma expressão de pavor. Markh devia ter sentido muito medo. Por quê? Pois o recrutamento só seria iniciado no dia seguinte. — Você viu as naves que se encontram no espaçoporto? — principiou. Toffner limitou-se a acenar com a cabeça. — Eu sabia que isso acabaria acontecendo. Levarão todos os jovens. Estão travando uma guerra e não conseguem vencêla. Ou então preparam um grande golpe contra alguém que deve ser mais forte que Árcon. E querem que nós os ajudemos. — Deve ser mais ou menos isso — disse Toffner. — Pois então. O que pretende fazer? Ir com eles para morrer? — Quem lhe disse que eles nos levarão? — disse Toffner para estimular o espírito de contradição do amigo. Só assim poderia saber tudo que precisava saber. — Talvez seja apenas um exame de rotina, para qualquer eventualidade. — Será que para isso teriam de trazer um exército de robôs? — Talvez não. Acontece que Árcon gosta de fazer demonstrações de força. Você não acha que a presença dos robôs constitui prova de que o Império não corre qualquer perigo? Do contrário, o regente não poderia dispensar suas tropas. — Eu já lhe disse o que estão tramando — disse Markh, insistindo em sua suspeita. — Talvez só precisem dos robôs de guerra mais tarde. E

quando isso acontecer, estaremos ao lado deles. Toffner refletiu. — Suponhamos que sua suposição seja correta. O que pretende fazer? Recusar-se e correr o risco de enfrentar os fuzis energéticos dos arcônidas? — Pouco importa que eu morra agora ou dentro de pouco tempo, a bordo de alguma nave e em meio a um grupo de robôs desalmados. — Vai arriscar-se? — Toffner lançou um olhar indagador para Markh. Quando notou o gesto afirmativo de Markh, acrescentou: — Por que veio falar justamente comigo? O que posso fazer por você? Terei de apresentar-me daqui a dez dias, e não tenho a menor dúvida de que me julgarão apto. Markh inclinou o corpo. — Fiquei sabendo há poucas horas. Deverei apresentarme dentro de dois dias, Garak! Dois dias! — E daí? Toffner fingiu-se de indiferente, mas em seu interior rugia uma verdadeira tormenta. Seria esta a chance de, depois de três anos de faina, conseguir um verdadeiro amigo e aliado? Ou estaria próximo ao fim? — E daí? Não quero ir com os arcônidas. Prefiro viver nas catacumbas que ficam embaixo de sua arena, proscrito e escondido, procurado pela polícia, transformado num prisioneiro voluntário. Será que ainda não compreendeu? Toffner compreendia perfeitamente. Evidentemente o caçador sabia que para ele só havia uma possibilidade de escapar aos comandos de recrutamento. Teria de esconderse num lugar em que ninguém o encontrasse. E que lugar poderia ser melhor que as catacumbas existentes embaixo da cidade de Tagnor? Muitas delas eram antiquíssimas, e parte delas desabara parte fora esquecida. — Nas galerias que ficam embaixo da arena? — repetiu o agente, para ganhar tempo. — O que espera conseguir com isso? Afinal, você não pode passar o resto dos seus dias sem sol e longe dos homens. — Nem pretendo fazer isso, Garak. Um belo dia, quando tiverem arranjado um número suficiente de soldados, os arcônidas irão embora. Depois poderei sair do esconderijo e começar vida nova. Quando o tal do Calus tiver dado o fora, os policiais do Zarlt já não terão o menor interesse por mim. Toffner teve suas dúvidas. — Não sei se devo concordar com você. Muita gente terá a mesma ideia. Se o afluxo de recrutas diminuir muito, procurarão localizar os elementos faltantes. E onde serão iniciadas as buscas? É claro que será nas catacumbas. Markh não respondeu imediatamente. Manteve um silêncio obstinado. Toffner via perfeitamente que o zalita já se arrependera por ter informado alguém sobre seus planos. Mas depois de alguns minutos, o caçador voltou a levantar a cabeça. — Sempre fizemos bons negócios e somos amigos. Se eu lhe pedir, você me ajudará? Tenho dinheiro, Garak. Só lhe peço que me forneça mantimentos. Prefiro um cubículo 153


nas pedras a uma luxuosa nave arcônida. Acho que você compreende. Toffner percebeu que não deveria forçar a situação. — É claro que quero ajudá-lo e sei muito bem onde poderei escondê-lo. Mas, de uma hora para outra... — Ainda disponho de dois dias. Voltarei a Larg e providenciarei para que alguém cuide dos meus negócios. Será um velho, que ninguém convocará para o exército. Ele dirá que estou numa caçada e ainda não voltei. É bem possível que se esqueçam de mim. Trarei minha fortuna em dinheiro, que não é pequena. Além disso, trarei um amigo. Trata-se de uma pessoa que também não está interessada em entrar para o serviço das armas. — Revelou seus planos a alguém? — perguntou Jeremy em tom apavorado. — Não acha que foi uma leviandade? — Trata-se de Kharra, o negociante de vinhos. Você o conhece. Bem, ver-nos-emos daqui a dois dias. Pode ser aqui em seu apartamento, à mesma hora? Toffner apertou a mão de Markh. — Confie em mim. É possível que vocês não fiquem sós em seu esconderijo. Também não estou com a menor vontade de dizer adeus ao planeta Zalit. Um belo dia, Calus terá de ir embora. Markh levantou-se; parecia muito satisfeito. Agradeceu efusivamente e, ao despedir-se, prometeu tomar cuidado para não provocar suspeitas. Jeremy Toffner voltou a ficar só. Quando se viu na cama e fechou os olhos, teve um desejo ardente: queria receber instruções concretas pelo hiper-rádio. Encontrava-se num beco sem saída...

2 O cruzador ligeiro Burma, da classe Estado, deu alguns hipersaltos que o levou a vários pontos da Via Láctea, e acabou pousando no espaçoporto de Terrânia. Ao proceder dessa forma, o comandante seguia uma regra geral, segundo a qual não se devia confiar exclusivamente no neutralizador de vibrações, montado em série, muito embora tal aparelho neutralizasse os abalos causados pelos hipersaltos, tornando impossível a localização goniométrica da nave. Mas a experiência havia dado aos terranos uma amarga lição: um aparelho desse tipo está sujeito a falhas, e quando estas ocorrem, todas as tentativas de camuflagem se tornam inúteis. E a descoberta da posição da Terra representaria o fim. O comandante da Burma emitiu uma ordem geral no sentido de que ninguém deveria sair da nave. Fundamentou a medida com o fato de que o cruzador ligeiro voltaria a decolar dentro de trinta minutos no máximo. Depois pediu a presença do Tenente Behrends, encarregado da estação retransmissora destinada ao tráfego

com os agentes. Dali a cinco minutos, Rhodan e Bell entraram no convés de comando da Burma e, depois de cumprimentarem ligeiramente o comandante, acompanharam o Tenente Behrends para a sala de rádio. Behrends era um oficial jovem, mas muito competente e experimentado. Há anos pertencia à equipe que mantinha contato com os agentes espalhados por todos os cantos. Rhodan conhecia-o pessoalmente e sabia que podia confiar nele. As precauções tomadas por Behrends constituíam a melhor prova disso. Afinal, a importantíssima mensagem poderia ter sido transmitida como qualquer outra. Havia uma probabilidade de 99 por cento de que esta não fosse captada por qualquer pessoa não autorizada. Mas Behrends achou que o um por cento que sobrava ainda representava um risco excessivo. — Foi o senhor que recebeu a mensagem? — perguntou Rhodan para certificar-se, quando finalmente se viram a sós na sala recheada de equipamentos técnicos e aparelhos de todos os tipos. — Quem a expediu? Será que foi Jeremy Toffner, nosso agente em Zalit? O Tenente Behrends interrompeu o que estava fazendo e virou-se abruptamente. Fitou Rhodan como se o administrador fosse um fantasma. — É de Toffner, Sir — gaguejou. — Como foi que o senhor soube? Rhodan sorriu. — Era o que eu imaginava. Behrends recuperou-se do espanto. — Não falei com ninguém sobre isso e tratei o assunto com o maior sigilo. Por motivos de segurança preferi não retransmitir o texto da mensagem ao Marechal Mercant. E, apesar de tudo, o senhor já sabe de que se trata. Não compreendo, Sir. — Foi apenas uma suposição, tenente. Vejo que se confirmou. Mas tranquilize-se; eu já esperava notícias importantes de Zalit. Na verdade, já as esperava há algumas semanas. O Tenente Behrends parecia mais tranquilo, pois chegou à conclusão de que não cometera nenhum erro. Aliás, isso seria incompreensível... Com as mãos ágeis ligou o projetor sonoro e colocou o dedo sobre os lábios. A transmissão não era muito nítida; havia interferências. Faltavam algumas palavras, mas o sentido era claro. Era fácil substituir os fragmentos. Rhodan e Bell mantiveram-se em silêncio, prestando atenção à voz de um homem solitário, que dependia exclusivamente da própria capacidade para prestar seus serviços à Terra. Vivia em meio a uma raça estranha e nunca sabia se assistiria ao amanhecer do dia seguinte. Os agentes cósmicos mereciam todo respeito, pois eram os homens mais valentes e mais solitários do Universo. — Há algumas horas Árcon vem obrigando os zalitas a entrarem no serviço da frota. Não fazem exceções. A ação vem sendo dirigida por certo Almirante Calus. É relativamente jovem e desenvolve uma atividade espantosa 154


para um arcônida. O Zarlt submeteu-se sem oferecer a menor resistência. Kosoka, o Zarlt, é um velho debilitado que faz tudo que Árcon lhe pede. Aguardo novas instruções. Rhodan estava prestando atenção, mas a voz de Toffner já silenciara. — Como soube que esta notícia é tão importante? — perguntou, dirigindo-se a Behrends. — Seu texto não parece ser muito sigiloso. — É possível — respondeu o tenente, que já tinha vencido o espanto. — Acontece que Zalit é o mais importante dos nossos postos avançados e o mais exposto. Em hipótese alguma, devemos perdê-lo, e é por isso que agi com tamanha cautela. Além disso, a mensagem confirma que Árcon está recrutando tropas, fato que também resulta das mensagens recebidas de outros mundos coloniais. Fiz questão de evitar que alguém saiba que em Zalit existe um terrano. E o regente deverá ter exatamente essa suspeita se ficar inteirado de nossa reação. — Muito bem — disse Rhodan e lançou um olhar benevolente para o jovem tenente. — Agiu com grande circunspeção; merece elogios. É bem verdade que tomaremos nossas medidas, mas quando Árcon perceber alguma coisa, já será tarde. Isto é, se tudo correr de acordo com os planos. E faço votos sinceros de que seja assim. O Tenente Behrends levantou-se. — Quer voltar a ouvir a mensagem, ou posso apagá-la? — Apague-a, Behrends. E volte a seu posto. Nos próximos dias, você receberá uma mensagem relativa a Toffner. Providencie para que seja transmitida imediatamente. Deve ser condensada e codificada ao extremo. É muito importante. — Posso imaginar — respondeu Behrends e fez continência. Rhodan e Bell saíram da sala de rádio. Do lado de fora encontraram-se com o comandante. — Decole dentro de cinco minutos — ordenou Rhodan. Quando voltou a sentir o pavimento do espaçoporto sob os pés, sentiu-se aliviado. Sem dizer uma palavra, subiu ao planador juntamente com Bell. O campo de pouso foi ficando para trás. — E agora? — perguntou Bell. — Vamos acelerar nossos planos? Rhodan respondeu com a maior tranquilidade: — Não aceleraremos tanto nossos planos, mas principalmente a execução dos mesmos. Ainda bem que já preparei tudo. A ação infiltração será iniciada ainda hoje. — Tomara que ela seja bem sucedida — disse Bell, olhando atentamente para frente, de onde os telhados de Terrânia se aproximavam velozmente. O comando que executaria a operação estava preparado. Tratava-se de duzentos homens muito bem treinados para a execução da tarefa. Ninguém sabia de que se tratava, mas todos desconfiavam de que a operação a ser executada assumia a maior importância. Há vários meses os homens estavam sendo submetidos a intensos treinamentos hipnóticos que lhes transmitiriam todos os conhecimentos

que um zalita deve possuir. Falavam sem o menor sotaque a língua do planeta Zalit, entendiam o arcônida e estavam familiarizados com a respectiva tecnologia. Entre esses duzentos homens havia competentíssimos astronautas, operadores de rádio, cientistas de todas as especialidades, mutantes e ex-agentes do Serviço de Segurança. Um dos oficiais mais importantes era o Major Art Rosberg, especialista em transmissão de matéria. Sabia como se construía um transmissor, aparelho que desempenharia um papel importantíssimo na operação a ser executada, fosse ela qual fosse. O major, um tanto ranzinza, baixo e grisalho, era uma sumidade em sua área de especialização, mas não gostou de ser investido de uma hora para outra no comando de duzentos homens. Supervisionava, juntamente com um amigo, o Capitão Gorlat, o treinamento do grupo de especialistas. Naquela noite, os dois mais uma vez estavam reunidos e se entregavam às suas especulações. Gorlat sabia mais do que queria confessar. Afinal, participara regularmente das conferências realizadas com os dirigentes do Império. Mas o sigilo a que estava obrigado também se aplicava às suas relações com Rosberg. — Tomara que a coisa não demore muito — disse o major em tom contrariado. — Já estou ficando nervoso de tanto esperar. — Receio que seus nervos ainda terão de suportar cargas bem maiores — respondeu Gorlat em tom contrariado; realmente estava falando sério. — Se não estou muito enganado, não teremos de esperar muito tempo pela ordem de entrar em ação. A Burma chegou hoje de tarde. Sabe que se trata de um cruzador da classe Estado que serve de estação retransmissora. — E daí? O que é que nós temos com isso? Gorlat não queria revelar demais, mas aproveitava todas as oportunidades para animar o major. — É claro que também não sei exatamente. Mas o fato é que Rhodan e Bell subiram a bordo e permaneceram no cruzador durante meia hora, aproximadamente. Depois disso a Burma partiu. — Isso pouco me importa — disse o Major Rosberg e encheu o cachimbo. — Tenho inveja do pessoal que viaja nas naves. Bem que gostaria que o vento de Marte voltasse a fustigar meu rosto. — Talvez isso aconteça muito em breve — disse Gorlat em voz de oráculo, sem desconfiar de que essa profecia se cumpriria com tamanha rapidez. — O treinamento propriamente dito está concluído em todos os setores. Só estamos esperando a ordem de entrar em ação. Antes que Art Rosberg tivesse tempo para responder, o aparelho de comunicação que se encontrava sobre a mesa emitiu um zumbido. Tratava-se de um videofone do tipo usual, que dispunha de pequena tela de imagem. Com um movimento um tanto preguiçoso, Rosberg pôs a mão na caixa e comprimiu o botão. Quem estaria chamando àquela hora da noite? Só poderia ser alguém que quisesse pedir licença para sair, ou 155


então... Quando reconheceu o rosto de Rhodan, estremeceu de susto. — Major Rosberg? O Capitão Gorlat está aí? Ah, já o estou vendo. Preste atenção, Gorlat! Neste momento entra em vigor a ordem X. Providencie tudo que se torne necessário. Decolaremos dentro de três dias, com a Drusus. Gorlat levantou-se de um salto. — Entendido, Sir! — respondeu, ficando em posição de sentido. — Tomarei todas as providências. — Lançou um olhar ligeiro para Rosberg e perguntou: — Já posso informar o major? Rhodan sorriu. — Informe-o, Gorlat, senão acaba estourando de curiosidade. Ainda precisaremos dele. A tela apagou-se. Rosberg fitou a superfície leitosa, virou-se lentamente e olhou para Gorlat, que retribuiu o olhar com um sorriso. — O que foi que o chefe disse? Gorlat fez um gesto vago. — Disse que já lhe posso contar tudo. Aguarde um momento; tenho que dar minhas ordens, a fim de que não haja qualquer atraso no cronograma. Usou o videofone de Rosberg. O major ficava mais pálido a cada minuto que passava, mas em seus olhos ardia a chama da excitação. A espera e a inatividade haviam chegado ao fim! *** Trabalhava-se dia e noite. Especialmente nos laboratórios químico-biológicos a atividade era muito intensa. Os biomédicos estavam modificando as aparências do comando especial. Usavam um preparado especial para alterar a cor dos olhos e da pele. Os cabelos também não foram esquecidos. A cada hora, oito terranos completamente modificados saíam do laboratório e procuravam acostumar-se a seu novo aspecto. Ainda bem que Rhodan proibira as saídas, pois do contrário certamente haveria barulho nos bares de Terrânia. Do laboratório bioquímico os homens passavam aos vestiários. Cada participante da operação a ser realizada recebia vestes zalitas, confeccionadas em conformidade com dados minuciosos. As roupas eram diferentes umas das outras, conforme teriam de ser para os paisanos. As calças largas incomodavam, mas todos acabavam por acostumarse. Foi principalmente Bell, que, da mesma forma que Rhodan, não escapou ao procedimento rotineiro, que teve de ouvir uma série de conselhos. E, enquanto ele ouvia-os, as calças incomodavam menos. Houve uma única exceção, com a qual todos concordaram. Gucky, o rato-castor, continuou a ser o mesmo. Não havia possibilidade de transformá-lo num zalita. Afinal, era um rato gigantesco com rabo de castor. Consciente da situação excepcional em que se encontrava, Gucky

caminhava orgulhosamente entre os homens e distribuía francamente suas piadas sobre as máscaras dos outros. Rhodan deixou que agisse à vontade, pois sabia que os homens precisavam de algo que os animasse. Depois de dois dias, a operação foi discutida pela última vez. No dia seguinte já estariam a caminho. — Quer dizer que, além da Drusus, que levará o transmissor fictício, decolará a Califórnia, com cinco transmissores de matéria a bordo. Quanto menor o numero de naves que se dirigem ao grupo estelar M-13, menor será o perigo de sermos descobertos. Precisamos conseguir o máximo possível com o uso do menor volume possível de recursos. Não pode haver nenhuma pane, pois do contrário iremos parar no inferno. Nossa vida dependerá da capacidade de nosso agente Toffner. Este recebeu ordens para colocar um transmissor de sinais goniométricos em qualquer ponto de Zalit que se preste às finalidades que temos em vista. Os homens fitaram Rhodan sem dizer uma palavra e esperaram. Depois de uma pausa o administrador prosseguiu: — Com apenas umas poucas transições chegaremos ao sistema de Voga. A Drusus executará uma operaçãorelâmpago, no curso da qual usará o transmissor fictício para colocar uma estação receptora de matéria num ponto de Zalit onde Toffner tiver instalado o transmissor de sinais goniométricos. Depois disso, a Drusus terá de desaparecer do local, o mais rápido possível. O resto será simples. Na Califórnia estão instaladas cinco estações de transmissão de matéria. E nós também estaremos a bordo da Califórnia, com todo o equipamento. Agiremos rapidamente. Dentro de dez minutos deveremos estar em segurança em Zalit, pois é de se esperar que nossa aproximação não deixará de ser registrada. Quando iniciarem a perseguição da Califórnia, já deveremos estar em lugar seguro. Acho que todos compreenderam o que está em jogo. Só nos resta desejarmos boa sorte uns aos outros. Bem que precisaremos. Alguma pergunta? Duzentos homens e um rato-castor fitaram Rhodan. Ao que parecia ninguém tinha perguntas. Ou será que tinha? A voz resmunguenta do Major Rosberg interrompeu o silêncio carregado de expectativa. — O que vamos fazer em Zalit, Sir? Muito bem; somos iguaizinhos aos zalitas. Mas qual é o objetivo da operação? Acho que não iremos a Zalit para meter um susto nos habitantes do planeta... — Sem dúvida, major — respondeu Rhodan em tom irônico. — Mas não se esqueça de que Zalit fica a apenas três anos-luz de Árcon. Em termos cósmicos é apenas um pulo. Para nós, Zalit representa a porta de entrada de Árcon. — Ou a entrada para o inferno — acrescentou Rosberg e envolveu-se num silêncio apreensivo. — Talvez — limitou-se Rhodan a dizer. *** 156


A existência do Império Solar estava por um fio! Jeremy Toffner parou na porta. — Vocês quiseram assim, amigos; não me venham com recriminações. Garanto que ninguém os encontrará aqui, mas a permanência neste lugar não será nada agradável. Vocês terão comida e bebida à vontade, e também não sentirão falta de livros. Em compensação não terão liberdade. — O vinho dá para seis meses — respondeu Kharra em tom animado. — Tenho certeza de que antes disso Calus terá saído de Zalit. Não quero ser enfiado num uniforme. Nunca gostei de uniformes. — Nem eu — disse Markh e sacudiu o corpo. — Prefiro viver numa caverna a morrer por Árcon. O que é que você fará Garak? — Ainda tenho oito dias para decidir — respondeu Toffner e refletiu febrilmente sobre o que deveria fazer nesses oito dias. Em hipótese alguma poderia permanecer na superfície. — De qualquer maneira arranjarei alimentos para mim e procurarei encontrar um zalita que nos avise quando a barra estiver limpa. — Fale com Hhokga, um comerciante de tecidos de Larg! — exclamou Markh. — É muito velho para ser recrutado pelos arcônidas. E posso garantir que é digno de confiança. — Falarei com ele — prometeu Toffner. — É bem verdade que temos aparelhos de telecomunicação com os quais podemos entrar em contato com a superfície, mas quem sabe se os locutores dirão a verdade? E possível que trabalhem por ordem dos arcônidas e procurem atrair os zalitas, que vivem na ilegalidade, a uma armadilha. Por isso acho que não podemos dispensar um aliado de confiança. Voltarei amanhã ou depois. Fez um gesto para os amigos e saiu para o corredor. Trancou cuidadosamente a porta de pedra e certificou-se de que também este esconderijo era praticamente perfeito. Depois se dirigiu o mais rápido possível a seu cubículo em meio à rocha. Ao entrar, percebeu imediatamente que a notícia pela qual tanto ansiava já chegara. *** Sem dizer uma palavra, Rhodan contemplou David Stern, chefe da equipe de rádio da Drusus, enquanto este irradiava a mensagem codificada. Naquele mesmo instante, essa mensagem seria captada pela Burma, que a retransmitiria imediatamente. Dentro de um minuto tal mensagem poderia chegar às mãos de Jeremy Toffner, se ele por acaso se encontrasse perto do aparelho. Mas havia boa margem de tolerância. A Drusus e a Califórnia circulavam em torno do sistema solar a que pertenciam, a uma distância de dez bilhões de quilômetros. Rhodan permaneceria ali para aguardar o último sinal de Zalit, que representaria a confirmação do recebimento da ordem e a data. Só depois valeria a pena iniciar a operação.

*** Enquanto subia os poucos degraus que levavam à residência de Hhokga, o coração de Jeremy Toffner batia fortemente. Tinha de arriscar todas as chances numa só carta. Se Markh se tivesse enganado quanto ao caráter do negociante de tecidos, tudo estaria perdido. Naturalmente, caso se recusasse a ajudar, poderiam matar Hhokga. Mas Toffner sentia certo constrangimento em matar uma pessoa inocente. Ainda acontecia que o negociante era um velho indefeso. Quer dizer que, se obedecesse às leis vigentes, não assumiria qualquer risco. Toffner passara a noite em Tagnor e preparara tudo para poder responder o mais cedo possível à indagação de Rhodan. Sabia que esperavam por isso, e que a operação só começaria depois que chegassem as indicações a serem fornecidas por ele. De outro lado estava cônscio de suas responsabilidades e não daria o sinal para que a operação se iniciasse antes que a segurança fosse total. O tempo urgia, e por isso resolvera harmonizar a visita a Hhokga com a execução de seus planos. Com um gesto hesitante, acionou a campainha. Por um instante tudo permaneceu em silêncio. O negociante de tecidos residia num daqueles edifícios afunilados. Cada inquilino levava sua própria vida e gozava de um máximo de independência. Era como se morasse numa cabana situada na selva, pois cada apartamento possuía entrada independente. Quem utilizasse a escada, dispensando o elevador, poderia ter certeza de escapar aos olhares curiosos dos moradores do edifício. Ouviu passos atrás da porta. Será que o próprio Hhokga viria abrir a porta? Talvez morasse só. Markh dissera que o comerciante era solteiro e que de noite dispensava sua criadagem. A porta abriu-se, e o rosto espantado de um homem idoso fitou Toffner. — É o senhor, Garak? O que veio fazer em Larg? — Apenas queria... — Entre, Garak — deu um passo para o lado, para que Toffner pudesse passar. Voltou a trancar a porta. — Não deve ter vindo apenas para dar boa noite a um velho. — O senhor não é tão velho assim — objetou Toffner e sentou-se na poltrona que lhe foi oferecida. — Até acho que está na melhor idade... Nos dias que correm muita gente gostaria de ser tão velho quanto o senhor... Hhokga não era um homem que tivesse dificuldade de compreender as coisas. Fitou atentamente seu interlocutor, acenou algumas vezes com a cabeça e foi a um armário do qual tirou dois copos e uma garrafa. Colocou tudo sobre uma pequena mesa oval, sentou-se, removeu a rolha da garrafa e disse: — Isso é uma questão de ponto de vista, Garak. Se fosse mais jovem, bem que gostaria de ser recrutado pelos arcônidas. 157


— Qualquer pessoa está disposta a fazer um tremendo sacrifício em troca de alguma coisa impossível, Hhokga. Mas os jovens de Zalit não pensam assim, justamente por serem jovens. Hhokga sorveu o primeiro gole de vinho. — Tudo depende da maneira de encarar as coisas, meu jovem amigo. Aliás, receio que não seja tão velho que possa escapar para sempre aos arcônidas. Compreende o que quero dizer? Toffner compreendeu, mas não compartilhava os receios do comerciante. — O senhor ainda tem muito tempo, Hhokga. Alguns anos se passarão até que todos os jovens de Zalit tenham sido arrastados para o serviço militar. Até lá o senhor envelhecerá ainda mais. Portanto, não vejo motivo... — O senhor tem visto Markh? — interrompeu Hhokga subitamente e fitou Toffner. — Anteontem era o dia em que costumávamos jogar, mas ele não apareceu. Podia ser uma coincidência. Ou uma armadilha. Toffner fitou os olhos do velho e percebeu que Hhokga nunca seria capaz de trair alguém. Resolveu confiar nele, jogando todas as chances numa só carta. Afinal, não poderia deixar de proceder assim, pois o momento parecia favorável. — Sim, tenho visto Markh. Foi a Tagnor a fim de pedir que eu o ajudasse. Escondi-o nas catacumbas, juntamente com Kharra, o mercador de vinhos, que o senhor conhece. Os dois não querem apresentar-se aos arcônidas. Foram eles que me pediram que o procurasse. Hhokga refletiu por algum tempo. Subitamente seus olhos ligeiramente avermelhados se iluminaram. — O senhor tem confiança em mim; o senhor e meus amigos. Mas por que jogam esse problema nos meus ombros? Por que tenho de participar de um segredo que pode ser mortal? Toffner explicou a situação e concluiu: — O senhor receberá parte da fortuna de Markh. A única coisa que terá de fazer é providenciar para que ele seja abastecido regularmente de alimentos. E, o que é o principal: quando os arcônidas, especialmente o tal do Almirante Calus, saírem de Zalit, o senhor deverá avisar Markh. É só o que terá de fazer. — Se eu me recusasse, não seria um amigo de verdade — disse o negociante, apertando a mão de Toffner. — Confie em mim. Não acredite que concordo com o procedimento desses arcônidas arrogantes. Pelo contrário! Mas o que posso fazer? A resistência passiva já representaria um perigo. Mas ajudarei meus amigos no que puder. No entanto, não preciso de dinheiro. Toffner sentiu-se aliviado por ter liquidado sua incumbência nessa parte. Mas restava esclarecer um ponto relacionado com a hipermensagem de Rhodan. Embora Markh lhe tivesse fornecido uma descrição minuciosa do planeta, seus conhecimentos não eram suficientes para encontrar um lugar que se prestasse aos fins que tinham em vista. Por isso ainda aqui tinha de recorrer ao auxílio de

Hhokga. — Tenho outro assunto a tratar com o senhor. Tenho necessidade absoluta de achar um esconderijo bem camuflado no deserto, que fica ao oeste daqui, entre Larg e Tagnor. Durante um voo constatei que há uma cadeia de montanhas, não muito elevadas, que divide o deserto. Pelo que diz Markh, na encosta oeste dessa cadeia de montanhas existem cavernas. O senhor conhece essas cavernas, pois já fez excursões por lá. Poderia levar-me até lá? Hhokga sacudiu a cabeça. — Não me leve a mal se deixo de atender a esse pedido, Garak. Se chegassem a desconfiar, tanto o senhor como eu seríamos presos. E se eu andasse pelo deserto, isso seria inevitável. Para um caçador a presença no deserto não tem nada de extraordinário, mas, para um velho como eu, tem. No entanto, embora não esteja disposto a acompanhá-lo, terei o maior prazer em fornecer algumas informações que por certo lhe serão úteis. Conheço as cavernas a que está aludindo. Parecia que alguém tirara um peso de cima de Toffner. Talvez fosse mesmo preferível que se dirigisse sozinho ás cavernas. Assim despertaria menos atenção do que saindo da cidade juntamente com o negociante. Se alguém fosse no seu encalço, poderia dizer que estava à procura de Markh, o caçador. — É claro que ficaremos satisfeitos com isso. Estaria pronto a fornecer uma descrição minuciosa das grandes cavernas, a fim de que possa localizá-las sem maiores problemas? — Pois não. Toffner inclinou-se para frente. — Por que não me pergunta o que quero fazer nas cavernas? Um sorriso sábio surgiu no rosto de Hhokga. — Quanto menos sabe o homem, melhor para sua saúde, Garak. Eu o ajudo, cumprindo um desejo seu. Não me interessa por que está interessado em encontrar as cavernas. Um momento; vou pegar uma folha para desenhar um mapa. Toffner reclinou-se na poltrona e tomou um gole do excelente vinho que tinha à sua frente. Sentia-se muito satisfeito com o rumo que estavam tomando os acontecimentos. Se conseguisse encontrar uma caverna que se prestasse aos fins que tinha em vista, amanhã mesmo poderia avisar Rhodan. Pôs a mão no bolso e apalpou uma caixa metálica retangular. Era o emissor de raios goniométricos que seria depositado na caverna. Uma vez ligado, transmitiria sinais por semanas a fio, numa frequência de que só Rhodan tinha conhecimento. Só mesmo por um acaso, altamente improvável, outra pessoa poderia captá-los. E essa pessoa não saberia o que tais sinais significavam. Hhokga voltou. Empurrou os copos para o lado e colocou uma folha de metal finíssima sobre a mesa. Tinha um lápis magnético na mão. — Acho que o senhor não vai a pé, não é, Garak? 158


— Isso mesmo. Aluguei um planador. — Muito bem. Preste atenção. Aqui fica Larg — desenhou um círculo do lado direito da folha — e aqui fica Tagnor. O segundo círculo, bem maior, ficava do lado esquerdo. Depois Hhokga fez um traço irregular que percorria o centro da folha, em sentido vertical. — Aqui fica a cadeia de montanhas que atravessa o deserto. A distância entre as duas cidades é de mil quilômetros, aproximadamente. No deserto não mora ninguém, especialmente na parte montanhosa. Nossos antepassados não julgaram conveniente transformar aquela área em terras férteis, e hoje não há mais necessidade disso. Para quem faríamos isso? Para os arcônidas! Soltou um suspiro e voltou a olhar para o mapa. — As cavernas ficam mais ou menos por aqui. A maior delas quase pode abrigar uma espaçonave. Em algumas há vestígios de que foram, em épocas remotas, habitadas. Sorriu para Toffner. — Seja lá o que o senhor pretende fazer nas cavernas, estará em segurança. Ninguém o encontrará. Toffner compreendeu que Hhokga estava tirando uma conclusão errada. Acreditava que pretendia esconder-se nas cavernas. Talvez o zalita pensasse que existia uma passagem subterrânea das galerias sob a arena à cadeia de montanhas. — Não há problema; saberei encontrar as cavernas — asseverou o agente sem dar outras explicações a Hhokga. — Amanhã mesmo começarei a procurá-las. Tomaram mais um pouco de vinho. Finalmente o negociante convidou Toffner a dormir em sua casa. Toffner aceitou com o maior prazer. Dormiu um sono tranquilo e profundo na segurança do lar. Na manhã do dia seguinte despediu-se e tomou um táxi que o levou à área de estacionamento, onde encontrou o planador alugado em perfeitas condições. Antes de partir fez um vultoso depósito bancário em nome de Hhokga. Inseriu a programação da rota no piloto automático. O veículo aéreo desprendeu-se suavemente do solo e subiu em alta velocidade. Não demorou para que a cidade de Larg desaparecesse atrás dele. Não imaginava se, e quando, iria revê-la... O deserto deslizava abaixo dele. Muito raramente era interrompido por platôs de pedra e vales secos. Certa vez chegou mesmo a ver uma mata rala. Toffner viu uma manada de animais que fugiu em desabalada carreira quando o planador se aproximou. Já sabia que lá embaixo encontraria carne, se precisasse dela. Finalmente a linha comprida do complexo montanhoso surgiu à sua frente. A cadeia não era tão baixa como parecia, quando vista de uma altitude maior. Pelos cálculos de Toffner, a altura média dos cumes devia chegar a dois mil metros. O ar límpido parecia reduzir as distâncias. Examinou a programação e corrigiu a rota. O planador desceu e a velocidade foi reduzida. Passou rente aos cumes

e seguiu as encostas do lado oposto. Tagnor ficava em algum lugar, atrás da linha do horizonte. O planador pousou num vale escondido. Antes disso, Toffner dera algumas voltas e se certificara de que o vale se ligava ao deserto por uma passagem estreita, passagem essa que era praticamente invisível a quem se encontrasse no deserto. O vale era quase circular e tinha um diâmetro de pelo menos quinhentos metros. As cavernas negras interrompiam a uniformidade das paredes lisas de rocha. Chegara ao destino. Dali a duas horas encontrou o lugar que procurava. Não era a maior das cavernas, mas seu tamanho era suficiente para os fins que tinha em vista. Além disso, a entrada não apresentava maiores problemas; a passagem era fácil. Um exército poderia abrigar-se no fundo do vale, sem que houvesse o menor perigo de ser descoberto. Toffner pegou cautelosamente o pequeno emissor, ativou-o e colocou-o no interior — e bem no centro — da caverna. Rhodan ressaltara em suas instruções que era muito importante tal colocação. Toffner lançou um olhar pensativo para a caixinha metálica, que passou a irradiar seus sinais. Era verdade que estes só se propagavam à velocidade da luz, mas isso não tinha importância. Se Rhodan dependia dos sinais para achar a caverna, era sinal de que já se encontrava nas imediações do planeta Zalit. Subitamente, Toffner começou a tremer de nervosismo. Compreendeu que não ficaria só por muito tempo...

3 A paciência do comando especial foi submetida a uma prova muito dura. A Drusus e a Califórnia circularam em torno do sistema solar durante quase dois dias; aguardavam a resposta do agente Jeremy Toffner. Os membros do comando já se encontravam a bordo da Califórnia, um cruzador ligeiro com os conjuntos propulsores superpotentes, que lhe permitiam uma enorme aceleração. A nave levava apenas cinco minutos para alcançar a velocidade da luz. Rhodan era o único que continuava a bordo da Drusus; aguardava a mensagem de Toffner. Gucky permanecia a seu lado já que, quando chegasse a hora, Rhodan desejava transportar-se imediatamente, por meio de um salto de teleportação, para a Califórnia. O Coronel Baldur Sikermann, comandante do supercouraçado, acabara de designar um jovem oficial para pilotar a nave, pois queria pedir a Rhodan que lhe fornecesse as últimas instruções para a operação. Os dois homens estavam sentados num compartimento contíguo à sala de rádio, na qual David Stern se mantinha à 159


espera junto ao hiper-receptor. Não havia o menor perigo de que o impulso condensado a ser transmitido pela Burma fosse captado indevidamente por outra pessoa. Sua duração não ultrapassaria um décimo de milésimo de segundo. Antes que alguém pudesse dirigir as antenas goniométricas para o transmissor, a transmissão cessaria. Sikermann voltou a repetir: — Quer dizer que sairei dez minutos antes, emergirei do hiperespaço a um minuto-luz de Zalit e, durante a aproximação, cuidarei simultaneamente da frenagem e da localização do transmissor de sinais goniométricos. Nosso transmissor de matéria se situará dentro do raio de ação do transmissor fictício, que será direcionado exatamente sobre o transmissor goniométrico a ser colocado por Toffner. Depois de um minuto, no máximo, o transmissor fictício será acionado para colocar o receptor de matéria em Zalit. Depois tratarei de colocar a Drusus em lugar seguro. Rhodan confirmou. — É só o que terá de fazer. Realize uma transição a pequena distância e aguarde a chegada da Califórnia, que deverá concluir sua tarefa dentro de dez minutos, aproximadamente. Depois, você se dirigirá à posição de espera, previamente fixada, acompanhado pelo cruzador ligeiro. Caso precisemos de você, Toffner chamará. Acho que está tudo claro. Sikermann parecia um tanto desolado. — Tudo claro; ainda bem. Rhodan sorriu. — Está tudo claro quanto à execução do plano. Não me atreverei a formular profecias sobre o resultado da operação. A porta abriu-se e Gucky pôs a cabeça para o interior da sala. — A mensagem chegou Perry. Stern está fazendo a decodificação. Rhodan levantou-se com uma lentidão que chegava a parecer excessiva. Fez um sinal para Sikermann e, ao lado de Gucky, saiu para o corredor. O comandante levantou-se de um salto e seguiu-os. — Mais dois ou três minutos, Sir, e teremos o texto. A Burma agiu com uma precaução toda especial; realizou uma condensação dupla. Sikermann manipulou a decodificadora automática e procurou encontrar as regulagens adequadas. O aparelho complicado começou a zumbir; chaves estalaram e entraram ruidosamente na posição de descanso. Rhodan aguardou paciente, enquanto Sikermann saltitava nervoso, de um pé para o outro. Inabalável, Gucky mantinha-se ao lado. Finalmente a máquina expeliu uma fita. Stern pegou-a e passou-a imediatamente ao administrador. Transmissor goniométrico em funcionamento. Hora: 14,00.

Só isso. Sikermann pegou a fita. — Quer dizer que chegou a hora, Sir? — Voltarei agora mesmo para a Califórnia juntamente com Gucky. Comece a acelerar dentro de três segundos. Percorra o trecho que nos separa de Zalit em quatro transições, conforme foi previsto. Levará duas horas para chegar ao planeta — olhou para o relógio. — Às dezessete horas, tempo de Terrânia, o receptor estará em Zalit, pronto para entrar em funcionamento. Boa sorte, Sikermann! Bem que precisaremos. Sikermann apertou a mão de Rhodan. Depois se virou abruptamente e saiu correndo em direção à sala de comando. David Stern viu o pequeno rato-castor colocar-se ao lado do administrador e segurar-lhe a mão. Subitamente o ar começou a tremeluzir. Quando voltou a olhar, Rhodan e Gucky haviam desaparecido. Quase no mesmo instante, os conjuntos propulsores da Drusus começaram a uivar. Compensando totalmente a enorme pressão produzida pela aceleração, a nave saiu da órbita solar e tomou a rota do primeiro ponto de transição. Rhodan e Gucky já se haviam materializado a bordo da Califórnia Três minutos depois, o cruzador ligeiro também saiu velozmente em direção ao espaço interestelar. O jogo entre os impérios estelares teve seu início. Era um jogo de vida e morte... *** No momento em que desligou o hipertransmissor e voltou a guardá-lo no interior da caverna, Toffner compreendeu que já não havia ninguém que seria capaz de deter o curso dos acontecimentos. Pegou seu planador e chegou são e salvo a Tagnor, de onde irradiou imediatamente a mensagem combinada. Não sabia quando chegaria Rhodan e o grupo que o acompanharia. E não tinha a menor ideia do número dos membros do grupo ou de seus planos. Apenas executara as instruções recebidas e estava esperando. O transmissor de sinais goniométricos funcionava há oitenta minutos. Saiu de seu cubículo cavado sob a rocha e, dando algumas voltas, foi ao lugar em que se encontravam seus amigos, a fim de informá-los sobre a palestra que tivera com Hhokga. Markh e Kharra ficaram satisfeitíssimos ao saberem que o negociante de tecidos estava disposto a ajudá-los. Insistiram junto a Toffner para que não perdesse tempo: deveria fazer seus preparativos o mais depressa possível e desaparecer, da mesma forma que tinham feito. Toffner disse que tinha de liquidar mais alguns assuntos e despediu-se apressadamente. Sabia que seus dois amigos não desempenhariam qualquer papel importante nos acontecimentos que se desenrolariam dali a pouco. Eram 160


apenas figuras marginais de uma operação de âmbito galáctico. No momento em que passou pela saída oficial e seus pulmões voltaram a encher-se de ar puro, respirou profundamente. As catacumbas contavam com algumas instalações de renovação de ar que ainda funcionavam, mas estas eram insuficientes para abastecer todos os recintos. Com o tempo, a atmosfera abafada comprimia os pulmões que nem uma nuvem de poeira, dificultando a respiração. A pessoa só conseguia acostumar-se ao ambiente depois de algumas horas. Fizera todos os preparativos. Nas proximidades de seu esconderijo havia alguns recintos maiores, que poderiam servir de abrigo e oficina. Não tinha a menor ideia sobre os planos de Rhodan, mas sua intuitividade bastava para formar uma ideia aproximada da futura evolução dos acontecimentos. Talvez fosse preferível voltar ao deserto e aguardar a chegada de Rhodan. Seu planador estava estacionado numa área situada nas proximidades da arena. Toffner caminhou vigorosamente, a fim de atingi-lo o mais depressa possível. De repente teve a impressão de que, caso não se apressasse não chegaria a tempo. Quando dobrou a última esquina e viu a área de estacionamento à sua frente, estacou. Alguns guardas do Zarlt costumavam patrulhar a área e não provocavam maiores suspeitas. Por outro lado, não constituiriam motivo para preocupações. Mas naquele momento, um verdadeiro cordão de robôs arcônidas fortemente armados cercava a área de estacionamento. Entre eles caminhavam alguns oficiais que envergavam o uniforme do Império e controlavam toda a área. Toffner viu que alguns zalitas que queriam dirigir-se a seus veículos eram mandados de volta. Outros eram presos e levados por um robô. Será que esses zalitas cometeram a leviandade de realizar uma viagem de negócios sem a necessária documentação? Toffner sentiu-se tranquilizado. Sorriu e pôs a mão no cartão de identificação que trazia no bolso. Estava registrado como habitante de Tagnor, nascido em Zalit, e exercia uma profissão permitida. Possuía numerosos amigos e protetores entre os soldados do Zarlt, pois todos apreciavam as lutas que se travavam na arena. Continuou a caminhar em direção aos planadores estacionados e viu que o seu continuava no mesmo lugar. Um oficial, cujo rosto exprimia a arrogância habitual dos arcônidas, interpôs-se em seu caminho. — Não está vendo que é proibido entrar nesta área? — disse em tom autoritário. — Ninguém pode sair de Tagnor sem nossa permissão. Toffner assustou-se. Aquilo não parecia ser apenas um controle rotineiro de documentos. Por que ninguém podia sair de Tagnor? Apenas quando havia alguma guerra ou revolução, isso

costumava acontecer. E no momento, o clima político de Zalit não estava marcado por nenhum desses fenômenos. Guerra? Se é que havia uma, não era em Zalit. — Preciso ir a Larg para tratar de negócios — respondeu Toffner com a maior tranqüilidade e apresentou seu documento de identidade. — Meus documentos estão em ordem, oficial. O arcônida pegou o documento, estudou-o detidamente e fitou o rosto de seu interlocutor com uma expressão desconfiada. — O senhor explora a arena de gladiadores de Tagnor? — Por aqui todo mundo me conhece. Será que o senhor tem alguma dúvida quanto à autenticidade dos meus documentos? — Toffner apontou para seu documento de identidade. — Pergunte aos soldados zalitas. — Não tenho nenhum motivo para isso — respondeu o oficial. Fitou Toffner e prosseguiu: — Quando concluirá seus negócios e irá conosco para Árcon? Já conhece a data de seu recrutamento? De repente, Toffner deu-se conta de que caíra, tolamente, numa armadilha! A operação não era de controle de documentos, mas tinha por fim recrutar soldados para o exército arcônida. Toffner respondeu com a maior tranquilidade: — É claro que conheço a data. Ainda disponho de sete dias. Por que faz essa pergunta? O arcônida ficou visivelmente impressionado com a calma de Toffner. — Ah, então ainda dispõe de sete dias? Por que quer viajar para Larg? — Já lhe disse que preciso tratar de negócios. Quando viajar para Árcon a fim de receber meu treinamento, alguém me substituirá na direção da arena. Tenho de instruí-lo e arranjar alguns animais para as lutas. O senhor há de compreender que mesmo no curso de uma guerra, se é que uma guerra está sendo travada, um povo não deve ser privado dos seus prazeres. — E o senhor não deve ser privado dos seus negócios; compreendo perfeitamente. Mas quem me garante que o senhor não vai desaparecer, e que, daqui a sete dias, o esperaremos em vão? — Desaparecer? — o rosto de Toffner exprimiu tamanha perplexidade que o oficial não conseguiu reprimir uma risada. — Onde é que poderia desaparecer? — O senhor não seria o primeiro. Muita gente constante das listas não compareceu no dia designado. Nós os encontraremos e castigaremos. Tome seu documento. Quando chegar a Larg, apresente-se ao chefe da seção de recrutamento. Se não o fizer, terá problemas. Toffner procurou dissimular o alívio que sentiu e pegou sua carteira de identidade das mãos do oficial. Numa atitude que simbolizava a autoconfiança e a consciência tranqüila, passou pelos guardas robôs e dirigiu-se a seu planador. Sentiu o olhar do oficial na nuca, mas não se virou. Abriu a porta num gesto lento e indiferente, entrou na cabina e decolou. 161


Os robôs, os aviões, os zalitas e o oficial, tudo recuou rapidamente, quando descreveu uma curva e tomou a rota leste, que levava para Larg. Subiu mais e olhou em torno para ver se havia aeronaves policiais, mas não descobriu nenhuma. Bem embaixo dele, viu uma coluna que marchava; eram robôs. Tagnor parecia um acampamento militar. Naquele instante, Toffner começou a desconfiar de que nunca mais deveria aparecer “oficialmente” na capital, a não ser que quisesse correr o risco de ser obrigado a prestar serviço militar aos arcônidas. Imprimiu ao veículo a velocidade máxima e, depois de quinze minutos, chegou à cadeia de montanhas. Certificou-se de que não havia nenhum planador nas proximidades e deixou seu veículo cair subitamente, detendo-o no último instante e pousando suave. Por enquanto tudo continuava em silêncio; não se via nada. Lá em cima notava-se um trecho circular do céu límpido e transparente. Era o único lugar do qual poderia vir algum perigo. De súbito, Toffner estacou. Não vira um lampejo metálico lá em cima? Viera de uma altitude considerável... Ali... mais outro! Seguiu-se uma luminosidade ofuscante, que logo se apagou. Estaria sofrendo de alucinações? Sacudiu a cabeça e dirigiu-se à caverna na qual fora colocado o transmissor de sinais goniométricos. Quando estava prestes a entrar, viu um vulto que saía da penumbra. Era um zalita! Num movimento rapidíssimo pegou a arma que trazia escondida sob as vestes. Haviam encontrado seu esconderijo! Estava tudo perdido... Deu um enorme salto e abrigou-se atrás de uma pedra. Resolveu defender-se até o fim, pois queria vingar-se da traição de que se julgava vítima, fosse quem fosse o traidor... Parou e levantou a arma. *** Quando a Drusus emergiu da quarta transição, Zalit era uma grande esfera, situada a menos de vinte milhões de quilômetros. Naturalmente, uma esfera somente na tela, pois, a olho nu, o planeta era apenas uma estrela muito luminosa. Afinal, um minuto-luz é uma distância nada desprezível. Sikermann era a calma em pessoa. Sabia que só tinha três minutos de vantagem. A Drusus deu início imediatamente à manobra de desaceleração. O transmissor de matéria, que se encontrava no âmbito de ação do transmissor fictício, foi ligado. Assim que chegasse a Zalit,

teria de estar pronto para a recepção. Rhodan possuía um único transmissor fictício. Recebera-o do grande imortal do planeta Peregrino. Até então, tentara em vão construir outro exemplar. O aparelho trabalhava na quinta dimensão e realizava o transporte instantâneo de objetos para qualquer lugar. Com os transmissores comuns, a coisa era diferente. Já eram fabricados na Terra. Porém seu alcance era limitado e só funcionavam quando havia um transmissor e um receptor. O transmissor fictício da Drusus transportaria um receptor desse tipo para o planeta Zalit. Rhodan desejava que houvesse um receptor apto para entrar em funcionamento nesse planeta do sol Voga. Sikermann exibiu um sorriso. No que dependesse dele, as coisas dariam certo... O alarma soou na sala de comando. — Duas naves aproximam-se à velocidade da luz, Sir! Transmitem no código arcônida. Exigem que nos identifiquemos. Sikermann continuou a ser a calma em pessoa. Olhou tranqüilamente para o relógio. — Rechacem-nas! — disse. Ainda dispunha de quarenta segundos. — Usem todo o armamento. A Drusus tinha uma superioridade enorme sobre as duas naves de reconhecimento. Antes que os arcônidas — talvez se tratasse de um povo colonial — iniciassem o ataque, um punho imaginário tangeu-os vários milhões de quilômetros pelo espaço a fora. Seus conjuntos propulsores falharam e as naves ficaram impossibilitadas de manobrar. Há muito custo conseguiram manter a rota por meio do suprimento energético de emergência. Contentaram-se em avisar o Almirante Calus de que uma nave desconhecida de tipo arcônida penetrara no sistema e não fornecera sua identificação. Trinta segundos depois do momento em que a Drusus emergiu do hiperespaço, o alarma soou em todo o sistema solar de Voga. Sikermann reduziu fortemente a velocidade e penetrou na atmosfera de Zalit. Até que Stern o avisasse de que o receptor estava captando o sinal goniométrico, ficou circulando em torno do planeta. Antes que o transmissor fictício fosse ativado, o dispositivo de mira adaptou-se automaticamente a esses sinais. Em um segundo, o campo de descarga do transmissor ficou vazio. A estação receptora de matéria fora transportada para algum lugar do planeta Zalit. Se tudo tivesse corrido de acordo com o programa, naquele momento devia encontrar-se a dez metros do transmissor de sinais goniométricos que continuava a funcionar. A Drusus descreveu uma curva e voltou a disparar para o espaço. Não se aproximara a mais de cem quilômetros da superfície de Zalit. Mas os arcônidas não estavam dormindo. Seu sistema de alerta funcionava muito bem. Mais de duzentas unidades robotizadas reagiram ao alarma transmitido pelos dois cruzadores atacados. O regente de Árcon desconfiava de 162


que, caso surgisse um supercouraçado da classe Império, só poderia tratar-se de arcônidas — ou dos malditos terranos! Era claro que o computador-regente não sabia praguejar. Se possuísse qualidades humanas, não teria deixado de fazê-lo. Mas, como não as tinha, contentou-se com a lógica dos seus cálculos. Calus recebeu a ordem prosaica de abrir fogo contra qualquer nave do tipo arcônida que se recusasse a fornecer a identificação. Quando a ordem chegou a Zalit, a Drusus já havia desaparecido no hiperespaço, sem deixar o menor vestígio. Mas, praticamente no mesmo instante, surgiu a Califórnia e correu diretamente para o cinturão defensivo das naves robotizadas colocadas em estado de prontidão. No momento em que Zalit surgiu na tela, Rhodan viu ao mesmo tempo, por assim dizer, as bocas dos canhões energéticos de mais de trinta cruzadores ligeiros e outras naves de guerra. A solicitação de fornecer a identidade não obteve resposta. Os robôs cumpriram as instruções que haviam recebido. Abriram um fogo mortífero contra a nave esférica, que acabara de emergir do hiperespaço e procurava romper suas linhas. A Califórnia parecia precipitar-se contra um muro feito de energia.

4 O Zarlt Kosoka estava sentado em seu trono. A importância desse trono era puramente simbólica; em termos reais não valia um centavo. Dirigiu seus olhos, apenas ligeiramente avermelhados, para um jovem oficial, que falava de modo autoritário. — Zarlt, tenho a impressão de que você ainda não se deu conta da gravidade da situação. Não basta transmitir minhas ordens de má vontade; você tem de cuidar para que elas sejam executadas. Em toda parte, seus soldados praticam uma espécie de resistência passiva. Ainda ontem permitiram que um desertor fugisse. — Sim, trata-se de um homem ao qual nem sequer deram oportunidade de despedir-se da família, antes de ser levado para Árcon. Submeto-me às ordens de Árcon a contragosto, porque não tenho outra alternativa, Almirante Calus, mas não posso deixar de manifestar meu desagrado pelos métodos que estão sendo usados pelo Império. — Você terá de obedecer, caso queira continuar no cargo — respondeu Calus em tom frio. — E, o que é o principal, você deve deixar de pensar. Quem pensa é o regente, e ele o faz por todos nós. O Zarlt fez um gesto afirmativo. — Sei, almirante. Mas tenho a impressão de que o computador não quer dispensar o auxílio humano. Por que

será que de repente sente tanta necessidade de soldados e oficiais? Até agora os robôs sempre conseguiram arranjarse sozinhos. — O regente não governa por ele, mas por nós. E no momento que um perigo grave nos ameaça, todos devem colaborar para removê-lo. Calus proferiu estas palavras sem pestanejar. Teve o cuidado de não revelar que havia outros motivos para que o computador passasse a incluir os arcônidas e os zalitas em seus planos. O regente chegara à conclusão de que não conseguiria arranjar-se sem o auxílio de seres orgânicos. Um império estelar não poderia ser defendido indefinidamente apenas com exércitos de robôs. Tornava-se necessário empregar seres humanos. Mas o fato também representava o primeiro sinal da derrota do computador-regente. — Por que Árcon não se contenta com os voluntários? — Porque os homens, voluntariamente dispostos a lutar por nosso Império, são poucos. Os zalitas andam moles; em Árcon trataremos de endurecê-los de novo. O treinamento é curto, mas abrange todas as áreas da arte da guerra. O Zarlt fitou atentamente o Almirante Calus, e perguntou: — Que naves foram estas que hoje atacaram ou procuraram atacar Zalit. Não pertencem ao Império? Calus fez um gesto de desprezo. — Devem ser piratas ou terranos. Sei lá. Talvez quisessem desembarcar agentes, talvez pretendessem apenas testar nossas defesas. Seja lá quem forem não voltarão. O Zarlt esteve a ponto de dizer alguma coisa, mas viu-se interrompido pela entrada de um oficial arcônida. Calus respondeu com um gesto indiferente à continência de seu subordinado e perguntou: — O que houve? Por que me incomoda? — Trata-se do exame dos recrutas, almirante. Hoje faltaram mais de duzentos. Suas residências foram revistadas, mas estão desaparecidos. Os membros de suas famílias não têm a menor ideia de onde possam estar. — É o que dizem! — disse Calus em tom furioso e caminhou nervosamente de um lado para outro. — Acho que devemos abandonar toda e qualquer consideração e responsabilizar os membros da família pela insubordinação dos homens. Onde poderão estar escondidos? — Dirigiu-se ao Zarlt: — Você sabe dizer? O Zarlt respondeu que não. Calus refletiu por algum tempo. Depois se dirigiu ao oficial: — Nos próximos dias falarei ao povo de Zalit. Providenciarei para que todas as estações de telecomunicação se mantenham de prontidão para uma transmissão de âmbito planetário. Acho que depois de minha fala as dificuldades diminuirão. O oficial retirou-se. Calus disse em tom irônico: — Aliás, para que Zalit precisa de um exército? Não existe o menor perigo de revolução e o planeta goza de 163


proteção do Império. Para que soldados? Acho que incorporaremos o exército zalita à frota. Alguma objeção, Zarlt? Surgiu uma ligeira pausa. Os dois homens fitaram-se por algum tempo. Finalmente o Zarlt sacudiu a cabeça. — Não. É claro que não tenho nenhuma objeção. Calus sorriu, parecia satisfeito. *** A solicitação dos campos defensivos da Califórnia foi tão intensa que praticamente não sobrou energia para o armamento. O resto da energia armazenada foi conduzido para os conjuntos propulsores, para que a nave conservasse a capacidade de manobrar. O General Deringhouse estava sentado à frente dos controles. Procurava desviar a nave das unidades de bloqueio. Normalmente isso seria praticamente impossível, mas a Califórnia era mais veloz que as naves dos arcônidas. Mais veloz e mais ágil. Rhodan sabia que os homens que deveriam participar do comando se encontravam junto aos transmissores, onde aguardavam suas ordens. Não poderiam desperdiçar um segundo sequer. — Romper! Foi a única palavra que dirigiu a Deringhouse. E este rompeu as linhas. A nave realizou uma tremenda aceleração, descreveu uma curva fechada e afastou-se velozmente dos atacantes. Até parecia que iria entrar em transição. Os atacantes transformaram-se em perseguidores, mas foram ficando para trás. Os disparos de radiações erravam o alvo ou se desfaziam no campo defensivo. Zalit crescia rapidamente. Pouco importava onde se encontrava o receptor que participaria da transmissão de matéria, da mesma forma que, numa transmissão de rádio, a localização do receptor não assume qualquer importância. Rhodan falou para dentro do microfone do sistema de intercomunicação: — Primeiro comando: saltar! Quase cem homens comprimiam-se nas cinco jaulas energéticas dos transmissores de matéria. No momento em que soou a voz de comando de Rhodan, o impulso de transmissão foi desencadeado. Em apenas um segundo, as jaulas ficaram vazias. Os cem homens se materializariam em algum lugar na superfície do planeta. Mais precisamente, no lugar exato em que o agente Toffner colocara o transmissor de sinais goniométricos e em que agora se encontrava a estação receptora. Em algum lugar... Conforme Harno lhe mostrara, era uma caverna. Rhodan esperou dez segundos, a fim de que os outros membros dos comandos tivessem tempo de preparar-se. — Segundo comando: saltar! Levantou-se e, dirigindo-

se a Deringhouse, disse: — Espere exatamente cinco minutos. Depois dê o fora daqui e coloque-se na posição de espera, onde encontrará a Drusus. Faça um trabalho bem feito. — Sim senhor — disse o general. — Desejo-lhe boa sorte. — Obrigado. Até breve. Rhodan virou-se apressadamente e saiu da sala de comando. Teria de apressar-se, a fim de que a operação não sofresse um retardamento desnecessário. Quando chegou ao hangar, as últimas peças de equipamento dos tripulantes da Califórnia estavam sendo colocadas nos transmissores. Rhodan seria o último a arriscar o salto. Levaria as armas e o equipamento especial. Entrou na quinta jaula energética e olhou para o relógio. Os outros já deviam ter saído das jaulas do receptor. Esperaria mais vinte segundos... O oficial que comandava a operação de transporte cumprimentou-o. — Tudo de bom, Sir! — Obrigado — respondeu Rhodan. Faltavam dez segundos. O alarma encheu a nave. A voz de Deringhouse anunciou pelos alto-falantes: — Atenção, atenção! Voltamos a ser atacados por grupos muito fortes. Transição dentro de vinte segundos. Transição dentro de vinte segundos. Rhodan dispunha de cinco segundos! Era tempo de sobra. Empurrou a chave transportadora para baixo... e no mesmo instante viu-se no interior do receptor colocado em Zalit. Não sentiu a desmaterialização. Apenas o quadro que via diante dos olhos modificou-se. No lugar em que pouco antes se encontravam as paredes lisas da Califórnia, surgiram as rochas ásperas da gigantesca caverna. Os homens corriam apressadamente de um lado para outro. Alguns se aproximaram rapidamente para cuidar do equipamento. Com um ligeiro olhar, Rhodan certificou-se de que tudo correra de acordo com o plano. O receptor estava muito bem escondido. Dificilmente se poderia imaginar um lugar melhor. A caverna podia abrigar todos os homens e sua situação devia ser tal que não poderia ser descoberta. Saiu da jaula energética e encontrou-se com Atlan e Bell, que supervisionavam a descarga. — Até agora tudo correu conforme planejamos — disse Bell e saltou para o lado, quando alguém passou com um volume pesado. — Gostaria de saber onde estamos. Toffner não nos forneceu qualquer detalhe... — Aparecerá por aqui; foi o que combinamos — disse Rhodan em tom tranquilizador, embora por dentro não se sentisse muito tranquilo. Caso alguma coisa tivesse acontecido a Toffner e caso ele se encontrasse num lugar do qual não pudesse sair, estariam numa armadilha. — Seja como for, estamos em Zalit e por enquanto ninguém desconfiou. Podemos dar-nos por satisfeitos. 164


Bell sorriu e, dirigindo-se a Atlan, disse: — Almirante, como se sente alguém que se parece com um zalita e deverá ser, futuramente, um dos soldados do exército do computador? Atlan retribuiu o sorriso. — Não deve sentir-se muito pior que meu gordo amigo que, dentro em breve, se transformará num recruta que ficará marchando pelo pátio do quartel. — Mais uma vez sinto-me satisfeito por não ser um homem — piou Gucky, que se aproximou no seu andar balouçante. — Os arcônidas não poderão levar-me. Nunca serei um recruta. — É claro que não; pois os arcônidas não querem perder a guerra — constatou Bell e olhou atentamente em torno. — Onde estamos? Essa pergunta chamou de volta a presente realidade. Rhodan mandou que, antes de tudo, as armas fossem desempacotadas e distribuídas. Se houvesse um ataque, deviam estar preparados. Subitamente, Gucky disse em meio ao nervosismo: — Alguém se aproxima lá fora; está junto à entrada da caverna. Rhodan orientou-se num instante e constatou que a caverna possuía uma única saída. Colocou um radiador portátil no bolso largo de seu traje, que o caracterizava como um zalita típico passou a mão pelos cabelos cor de cobre e foi caminhando em direção à saída. — Verificarei quem é — disse e acrescentou: — Gucky mantenha-se ao alcance da vista. Assim perceberá quando chegar a hora de fazer alguma coisa. Era claro que o rato-castor não deixaria de perceber, pois era telepata. Um pensamento de Rhodan seria suficiente. E Rhodan, que era um genuíno zalita, saiu da caverna ao ver um único homem aproximar-se. Ao que parecia, também era uma criatura nascida em Zalit. Mas os primeiros impulsos mentais captados por Rhodan confirmaram sua suspeita de que o homem que tinha à sua frente era Toffner. Acontece que Toffner segurava uma arma, que ia apontando lentamente para Rhodan. Isso era bom sinal, pois provava que o disfarce era bom, tanto que chegava a enganar até Toffner, que se encontrava em Zalit há três anos. — Bom dia, Jeremy Toffner — disse em inglês. — Não precisa gastar sua munição. Toffner sentiu-se aliviado ao ouvir as palavras pronunciadas em sua língua materna. Baixou a arma e guardou-a no bolso. — Graças a Deus! — disse num suspiro e aproximou-se de Rhodan. — Permite que lhe pergunte quem é o senhor? Parece um zalita... — Rhodan — disse o administrador e apertou a mão do agente. — Acho que já nos encontramos antes. — Já. Foi quando em Terrânia recebi ordens de ir para Zalit. Naquela oportunidade, o senhor me disse que eu

ficaria sozinho por muito tempo. Ao que parece, esse tempo chegou ao fim. Olhou para a entrada da caverna, onde alguns homens conversavam de pé. Gucky encontrava-se em meio ao grupo. Já sabia que as ordens que Rhodan lhe dera haviam perdido a finalidade. — Deu tudo certo? — Até agora sim — respondeu Rhodan com um sorriso. — Como faremos para ir a Tagnor? Já pensou sobre isso? — Não sabia quantos homens participariam do comando — disse Toffner a título de desculpa pela omissão. Em Tagnor existe um lugar em que poderão abrigar-se, mas será muito difícil entrar na cidade sem que ninguém o perceba. As sentinelas estão espalhadas em toda parte, e elas fazem o controle de todas as pessoas que passam. — Não há problema quanto aos documentos. — Os documentos não bastam, Sir. Também possuo um documento válido. Acontece que os arcônidas passaram a prender as pessoas que se encontrem na faixa etária adequada, a fim de que não possam subtrair-se ao serviço militar. Rhodan refletiu um pouco. O Major Rosberg e o Capitão Gorlat já haviam saído da caverna. Olhavam em torno com um grande interesse. Ao que parecia, gostaram do vale com os paredões elevados. No interior da caverna, o equipamento estava sendo arrumado. — Quer dizer que o problema se resume em saber como entraremos na cidade para chegar ao esconderijo preparado por você. O transmissor de matéria não servirá de nada, pois só temos este exemplar. Além disso, seria muito difícil levá-lo a Tagnor, sem chamar a atenção. Será que não podemos chegar até a cidade sob a proteção da noite? — Talvez consigamos. Acontece que Tagnor fica a quinhentos quilômetros. E, sem dúvida, a marcha pelo deserto seria observada por alguém. — Naturalmente; o senhor tem razão — Rhodan levantou os olhos para o céu límpido. Os raios do sol iluminavam a borda superior das rochas íngremes que fechavam o vale. — Será que aqui estamos em segurança? — Sim; aqui nos encontramos numa segurança razoável. Caso não tenha necessidade, ninguém vem ao deserto. É bem verdade que os aviões costumam sobrevoar a área, mas dificilmente notarão este vale. Rhodan não respondeu. Lançou um olhar pensativo para Gucky, que passou por eles para trocar algumas palavras com o teleportador africano Ras Tschubai. John Marshall estava conversando com Bell. Os homens iam saindo da caverna. Parece que o trabalho de arrumação estava praticamente concluído. — Gucky! Ras! — gritou Rhodan, aproximando-se dos seres cujo nome acabara de pronunciar. — Quero fazer algumas perguntas. — Fique à vontade! — disse o rato-castor. — Se quiser saber minha opinião, estamos numa ratoeira. 165


— Gucky tem razão — disse o africano. — Um vale como este os protege dos olhares dos outros, mas quando tivermos sido descobertos não teremos qualquer saída. Rhodan fez um gesto afirmativo. — Justamente por isso temos de dar o fora. Quando os arcônidas começarem a procurar os zalitas que querem fugir do serviço militar, vasculharão também esta cadeia de montanhas. No momento em que isso acontecer, já deveremos encontrar-nos num lugar seguro. Acontece que Toffner acaba de explicar que é muito difícil chegar à cidade. Há sentinelas por toda a parte. Quanto tempo vocês levarão para carregar todos os homens e o equipamento até a cidade de Tagnor? A pergunta tinha sua razão de ser. Gucky e Ras eram teleportadores, mas também estavam sujeitos aos limites traçados pela natureza. Um teleportador poderia levar dois homens num salto, mas o cansaço das células nervosas era considerável. O processo não podia ser repetido à vontade. As pausas de descanso eram indispensáveis. A distância era indiferente. Pouco importava que o salto fosse de quinhentos ou de cinco mil quilômetros. Gucky alisou o pelo. O gesto parecia exprimir certo embaraço. — Será muito cansativo — disse. — Se Tako ajudar, poderemos terminar em um ou dois dias. O destino já é conhecido? — Toffner o mostrará. — Nesse caso não haverá problema. O equipamento não inclui nenhum objeto muito pesado. Os volumes maiores serão transportados por Ras e por mim em conjunto. Quando poderemos começar? Rhodan sentiu-se aliviado ao perceber a calma com que os dois teleportadores encaravam a tarefa. Não a julgavam muito fácil, pois isso seria uma irresponsabilidade. Todavia... Fez um sinal para Toffner, que se encontrava num ponto mais afastado. O agente aproximou-se e lançou um olhar curioso para Gucky. Já ouvira falar no rato-castor, mas nunca tivera oportunidade de vê-lo. — Estes são Gucky e Ras Tschubai. Ambos são teleportadores. Eles nos levarão para Tagnor. Primeiro iremos nós quatro, a fim de conhecermos o local. Os outros seguirão depois. Explique aos dois como é Tagnor. Enquanto isso eu instruirei os homens sobre como proceder nesse meio tempo. Deixou que Toffner ficasse a sós com os dois mutantes e foi para junto de Rosberg, Gorlat e Bell. Os três encontravam-se na entrada da caverna, de onde podiam ver o vale e a maior parte do subterrâneo. Ao que parecia não se sentiam muito à vontade no lugar em que estavam. — Bell, você ocupará meu lugar por algumas horas. A fim de examinar nossos alojamentos, irei a Tagnor com Toffner, Gucky e Ras Tschubai. Se houver algum ataque, defenda-se com todos os recursos de que possa dispor. Se isso acontecer, teremos de modificar nossa tática. Talvez os arcônidas acreditem que somos zalitas que querem fugir do

serviço militar. — Por que não vamos todos? — perguntou Rosberg. Rhodan sacudiu a cabeça. — É impossível. Pelo que diz Toffner, os controles são mais rigorosos e eficientes do que supúnhamos. É bem verdade que nem por isso nossos planos sofrerão maiores alterações. Investigarei a situação e voltarei. Espero que, dentro de dois ou três dias, todos estejamos sãos e salvos nas catacumbas de Tagnor. As despedidas foram breves. Rhodan pegou a arma de radiações e não se esqueceu de entregar Harno aos cuidados de Bell. Depois saiu caminhando ao lado de Toffner, Ras Tschubai e Gucky em direção à entrada do vale. Os que ficaram para trás viram-nos desaparecer em meio às rochas. John Marshall, que lera os pensamentos de Rhodan e por isso conhecia-lhe as intenções, disse: — Quer dizer que, se não surgir uma alternativa melhor, os teleportadores nos levarão um por um para Tagnor. Por que não ficamos no deserto? Acho que seria mais fácil. — Seria muito mais difícil operarmos daqui. Se ficarmos em plena cidade de Tagnor, as coisas se tornarão mais fáceis. Bell levantou os olhos para o céu. — Quando deverá anoitecer aqui? — Dentro de, aproximadamente, quatro horas — respondeu Rosberg, que já colhera informações detalhadas. — Até lá o chefe deverá estar de volta. Bell lembrou-se das obrigações que lhe cabiam como representante de Rhodan. Entrou na caverna e certificou-se de que, junto à parede da caverna, todo o equipamento estava bem arrumado e empilhado. Cada membro do comando saberia o que teria de fazer e quais os objetos que teria de levar, quando chegasse a hora para isso. Na caverna havia uma boa quantidade de volumes com armas, um laboratório bioquímico, um laboratório físico, mantimentos e equipamento especial. Quando o Major Rosberg, o Capitão Gorlat e John Marshall entraram correndo na caverna, Bell verificava os volumes. — Um avião! — gritou o major em tom exaltado, agitando os braços. — Passou sobre o vale em voo baixo; parece que estão procurando alguma coisa. Tomara que não desconfiem de nada. Bell olhou para as caixas. Seria inútil desempacotar um pequeno canhão de radiações. Além disso, a montagem seria muito demorada. Se fossem utilizados, racionalmente, numa ação maciça... — Ninguém deverá aparecer fora da caverna! — gritou e correu para a entrada. Avançou cautelosamente até um ponto em que podia ver todo o vale. Enxergou também um pedacinho do céu. Era um planador de asas curtas. A maneira de voar revelava que possuía campos antigravitacionais. O veículo aéreo foi descendo e quase chegou a tocar o chão no fundo do vale. 166


Bell escondeu-se atrás de uma rocha e fez um sinal para o interior da caverna. — Dez homens para cá! — gritou e destravou sua arma. — Tenham cuidado. Não deveremos ser descobertos antes da hora. John Marshall foi um dos que rastejaram para junto de Bell. — Quantos serão? — perguntou já deitado ao lado de Reginald. — Veremos. Estou curioso para ver se são arcônidas ou zalitas. Sua paciência não foi submetida a uma prova muito prolongada. O planador pousou. O ruído do motor cessou. Dali a pouco, uma escotilha da cabina abriu-se e quatro vultos saltaram. Eram robôs. — O piloto é um arcônida; um oficial — Marshall estava oferecendo seu relato. — Consigo captar seus pensamentos. Trata-se de uma verificação de rotina. Pousaram aqui por puro acaso. — Que azar! — disse Bell. — Se vierem para cá, teremos de colocá-los fora de ação. O que deveremos fazer com o piloto? Se escapar, o diabo estará às soltas. Virão com bombas e verdadeiros exércitos. Quer dizer que ninguém deverá escapar. — André Noir! — disse Marshall, falando no minúsculo transmissor de laringe. O hipno do Exército de Mutantes logo captou o sinal. Rastejou para junto de Marshall. — Você me chamou? — Devemos impedir o piloto de decolar quando destruirmos os robôs. Você será capaz disso? Noir fez um gesto afirmativo. — Farei o possível. Talvez consiga fazer com que abandone o aparelho. Mais tarde aplicar-lhe-ei um bloqueio hipnótico, e ele se esquecerá de tudo. Talvez consiga mesmo mandá-lo para Tagnor com uma lembrança falsa dos fatos. — Excelente — disse Bell e passou a concentrar-se sobre os robôs que se aproximavam. Subitamente um dos homens-máquina parou e chamou a atenção dos outros para alguma coisa que vira na areia. — São os rastros dos nossos pés! — Marshall compreendeu imediatamente do que se tratava. — Encontraram nossas pegadas. — Ótimo! — disse Bell numa súbita resolução. — Assim escaparemos ao sofrimento de uma espera prolongada. Noir tente a sorte. Quanto a nós, cuidaremos dos robôs curiosos. Os robôs conferenciaram através dos aparelhos embutidos em seus corpos. Os círculos de armas começaram a rodar. Ao que parecia, procuravam um alvo. Voltaram a colocar-se em movimento. Separaram-se, já que ainda não haviam identificado o objetivo. Bell avançou e levantou a arma de radiações. Um dos robôs caminhava em direção à entrada da caverna.

— Abriremos fogo ao mesmo tempo, a fim de pegá-los de surpresa — cochichou para os outros. — Antes que possam ativar seus campos defensivos, deverão estar liquidados. Era perfeitamente possível destruir um robô de guerra com uma arma de radiações portátil, desde que se conhecesse os pontos sensíveis dos monstros eletrônicos. E desde que se acertasse logo. Uma vez ativados os campos energéticos dos colossos, eles se tornariam praticamente invulneráveis. Bell levantou a mão esquerda. Os homens estavam distribuídos de maneira tal que cada robô poderia ser alvejado por dois ou três deles. Bell baixou a mão, e, no mesmo instante, as fúrias do inferno ficaram soltas. Num instante, os raios energéticos saíram das armas, perfuraram a blindagem dos robôs, atingiram peças vitais e as gaseificaram. Um cérebro eletrônico reage com uma rapidez espantosa. Porém, quando não está em condições de funcionamento, deixa de reagir. Foi o que aconteceu com três dos robôs. O quarto teve mais sorte. Ativou o campo defensivo que o encerrou numa campânula invisível, feita de energia de elevada potência, que não deixaria passar qualquer porção de matéria ou outras formas de energia. O robô logo começou a responder ao fogo. Bell abaixou-se e sentiu as costas esquentarem. O bombardeio energético atingira a parede de rocha, da qual começaram a cair pingos grossos. O segundo tiro foi mais baixo; quase chegou a atingir Bell de raspão. Os feixes energéticos disparados pelos homens “tatearam” em direção ao robô, mas o campo defensivo refletiu a energia. — Betty! — cochichou Bell em tom assustado. Sabia que sem a intervenção da telecineta não teriam a menor chance contra o monstro. Betty também era telepata e seria capaz de ler seus pensamentos. — Betty Toufry! Betty era uma mulher jovem — e continuaria a sê-lo. A ducha celular aplicada no planeta Peregrino prolongara sua vida por seis decênios. Captou os impulsos desesperados de Bell e compreendeu imediatamente. Não perdeu tempo. Correu em direção à entrada da caverna e, com um ligeiro olhar, avaliou a situação. Três robôs haviam sido colocados fora de ação. Estavam no chão, destruídos. Mas o quarto robô caminhava em direção a Bell, que se achava deitado atrás de uma pedra e lhe enviara o pedido de socorro. Estava em cima da hora! Bell ouviu os passos pesados da máquina de guerra que se aproximava. Nunca saberia por que escolhera justamente a ele, ignorando as outras pessoas que atiravam. Se Betty não agisse logo... De repente, os passos cessaram. Um dos membros do comando soltou um grito; era um grito de alívio. Bell arriscou-se a levantar a cabeça acima da pedra e respirou aliviado diante do que viu. Betty ouvira e compreendera seu pedido de socorro. O robô cambaleou. Subitamente perdeu o apoio dos pés 167


e tombou. Com a queda, o campo defensivo foi desligado. O robô procurou reativá-lo. Entretanto, nesse instante, uma grande pedra levantou-se a poucos metros dele, como se tivesse sido agarrada pela mão de um fantasma. Subiu rapidamente, parou bem em cima do robô e subitamente caiu, como se a mão a tivesse soltado. Atingiu com toda força a cabeça supersensível do monstro e esmagou o importante dispositivo positrônico. O corpo do robô amoleceu, como se fosse o de um homem, e estirou-se ficando completamente imóvel. Mas o perigo ainda não havia passado. Assim que irromperam as hostilidades, o planador levantou voo. Parou vinte metros acima do fundo do vale. Ao que parecia, o piloto estava refletindo sobre o que deveria fazer. Mas logo descreveu uma espiral descendente e voltou a pousar. O piloto saiu da cabina e num caminhar duro e estranho seguiu em direção à entrada da caverna. André Noir, que estava deitado perto de Bell, levantouse. — Tenho o piloto sob controle, Mr. Bell — disse com certo triunfo na voz. — Foi fácil entrar em seu cérebro, pois o rapaz parece ser muito degenerado. Não tem muita coisa na cabeça. — Excelente! — disse Bell e também se levantou. Enfiou a arma de radiações no cinto do uniforme. — Vamos dar uma olhada nesse sujeito. Dirigiu-se ao telepata. — Marshall, o senhor e Noir tentarão extrair dele tudo que possa assumir certa importância. Depois colocaremos dados falsos em sua memória e deixaremos que volte para casa. — Não seria conveniente ficarmos com o planador? — indagou Noir. — Não. Sentiriam falta dele e começariam a procurá-lo. O que faríamos com isso? Afinal, o planador de Toffner está escondido embaixo dessa rocha saliente. Acho que será mais vantajoso deixarmos que o piloto regresse à base com informações falsas. Precisará de uma explicação plausível para a falta dos quatro robôs. Noir soltou um suspiro. — Está bem; cuidemos do arcônida. Dali a meia hora, quando o planador levantou voo e saiu em direção a Tagnor, o arcônida sentado atrás dos controles era o mesmo de antes... Mas esse arcônida sofrerá o implante de uma memória artificial! *** — Dê-me a mão. — Ras Tschubai impacientou-se diante da hesitação de Toffner. — Para podermos saltar, precisamos do contato físico — fitou o rato-castor. — O objetivo já foi identificado? Gucky fez que sim. — Se Toffner continuar a pensar intensamente nas catacumbas, iremos parar lá. Acho que podemos começar.

Os dois teleportadores concentraram-se. O salto foi efetuado sem o conhecimento direto do destino, mas a seu lado estava alguém que conhecia esse destino e transmitia seu conhecimento a Gucky por via telepática. E entre Gucky e Ras havia um contato físico. Os três homens e o pequeno rato-castor desmaterializaram-se. Mais ou menos uma hora depois, o Almirante Calus recebeu uma notícia alarmante. No setor norte da cadeia de montanhas que se estendia entre Tagnor e Larg havia um grande grupo de rebeldes, que atacara o veículo aéreo dos arcônidas e destruíra quatro robôs de guerra. Quando fez o piloto do planador comparecer à sua presença e começou a interrogá-lo, Calus tremia de raiva. Conseguiu controlar-se a custo e ouviu em silêncio o relato que lhe estava sendo apresentado. — Saímos à procura de homens capazes de pegar em armas, conforme as ordens que havíamos recebido senhor. Procuramos principalmente nos lugares mais afastados do deserto. Supõe-se que por lá estejam escondidos zalitas que se recusam a servir ao Império. Juntamente com outros oficiais vasculhei a parte sul e central da cadeia de montanhas, mas não descobri nada. Naquela área existem poucos locais em que alguém possa esconder-se. Mas, mais ao norte, torna-se difícil examinar o terreno, mesmo do alto. Separamo-nos. Incumbi-me das encostas do leste, em direção a Larg. Subitamente começaram a atirar contra mim. Descobri um grupo de zalitas escondido num vale. Segui as ordens que me foram fornecidas: pousei e mandei que os robôs avançassem. Foram todos destruídos. Levantei voo para evitar que a aeronave caísse nas mãos dos rebeldes e voltei imediatamente. Calus fitou-o com uma expressão zangada. — Na parte norte da cadeia de montanhas? — o almirante refletiu por algum tempo e perguntou: — Verificou a posição exata? — Saberei encontrar o vale, senhor. — Muito bem! Ainda hoje, antes do escurecer, uma esquadrilha de caças ligeiros decolará e atacará os rebeldes que se esconderam nas montanhas. Procure pegá-los vivos. Precisamos de soldados, não de cadáveres. Entendido? — Pode confiar em nós... — É o que espero. E não me venha com a alegação de que de repente não consegue encontrar o vale. Eu o previno para que isso não aconteça. Se a operação não for coroada de êxito, o senhor será rebaixado para soldado raso. Dali a dez minutos, a esquadrilha de caças decolou. O sol já descia para o horizonte. Os aviões corriam para o leste, em direção à noite que iria cobrir o planeta. O infeliz oficial com a memória “falsificada” acompanhou-os. Foi seu último dia como oficial. Calus costumava cumprir suas promessas e suas ameaças. Acontece que o lugar, onde o oficial acreditava que estivessem escondidos os rebeldes, ficava dois mil quilômetros ao norte do pequeno vale em que Bell e o 168


restante do comando esperavam ansiosamente pela volta de Rhodan. Perry e seus companheiros rematerializaram-se nas grandes cavernas, situadas embaixo da arena de Tagnor. Rhodan soltou a mão de Gucky e lançou um olhar para Toffner, a fim de certificar-se de que estavam no lugar certo. Depois olhou em torno. O recinto era quadrado e nele se viam vários muros que o dividiam em nichos. O teto era de pedra pouco trabalhada, mas parecia ser muito forte. Era ligeiramente abobadado. Nas paredes, que eram lisas e estavam revestidas com um verniz transparente, viam-se pequenas portas. — Aqui poderia ser instalado o quartel-general — disse Rhodan e prestou atenção ao eco de sua voz. — A que profundidade estamos? — Vinte metros no máximo — respondeu Toffner. — Existem várias saídas. As portas foram embutidas na parede de tal maneira que são quase invisíveis. As fechaduras são eletrônicas ou de vibrações orgânicas. Estamos bem embaixo da arena e, portanto, do centro da cidade. Não se leva mais de cinco minutos para chegar ao palácio do governo. Rhodan fez um sinal de concordância. — Excelente. Daqui podemos operar. Os laboratórios serão abrigados nas diversas salas. Lançou um olhar penetrante para Toffner. — Quem conhece este subterrâneo além do senhor? Por que os arcônidas ainda não tiveram a ideia de procurar fugitivos por aqui? — Acredito que não tenham conhecimento da existência das catacumbas. Só as cavernas exteriores são conhecidas, e estas já foram revistadas. A parte interna é fechada por portas que não foram descobertas. Aqui estamos em segurança. Há três anos meu esconderijo fica neste lugar. — Não foi por desconfiança que perguntei Toffner, mas precisamos ter cuidado. Não podemos desprezar qualquer fator. Traremos nossos homens e equipamentos. Gucky e Ras, saltem de volta. Ficarei aqui com Toffner. O rato-castor esteve a ponto de dizer alguma coisa, mas acabou acenando com a cabeça e segurou a mão de Ras. Teleportaram-se ao mesmo tempo. — Muito bem, Toffner — disse Rhodan com uma ênfase estranha. — Conte-me alguma coisa dos dois zalitas que o senhor mantém escondidos. Gucky leu seus pensamentos. O que houve com eles? Toffner logo venceu o embaraço. — São meus amigos, e deveriam ser recrutados. Pediram que os ajudasse, e eu os escondi. É só. Não têm a menor ideia do que está acontecendo aqui embaixo. O cubículo em que estão escondidos não tem nenhuma ligação com o pavilhão em que nos encontramos. — Talvez, um belo dia, possam ajudar-nos — disse Rhodan, dando a entender que não condenava o gesto de solidariedade de Toffner. — Têm todo motivo para não entreterem sentimentos amistosos em relação aos arcônidas.

Oportunamente darei uma olhada neles. Toffner sentiu-se aliviado. Mas antes que tivesse tempo de responder Gucky materializou-se juntamente com Bell. — Que é isso? Vocês fizeram exercícios de campo? Bell procurou endireitar o uniforme amarrotado. — Foi mais ou menos isso. Um oficial arcônida procurou arrancar-nos da caverna. Estava acompanhado por quatro robôs de combate. Depois de oferecer um relato sucinto dos acontecimentos, concluiu: — O piloto contará uma fábula a Calus. Se tivermos sorte, morrerão de tanto procurar a dois mil quilômetros do vale. — Tomara — disse Rhodan, enquanto Ras Tschubai materializava-se com um técnico do comando. Gucky desapareceu no mesmo instante. A seguir, apareceu Tako Kakuta, um teleportador japonês. O grande reagrupamento teve início... Demorou dois dias. Finalmente instalaram-se no grande pavilhão de pedra e puderam dar início ao trabalho propriamente dito, que os levaria a Árcon.

5 O Almirante Calus mandou que o turboveículo parasse à frente do edifício e desceu. Enquanto subia pelos largos degraus e entrava pelo portal, dois oficiais de alta patente, que traziam armas de radiações, acompanharam-no. As sentinelas zalitas que guardavam o edifício fizeram continência em atitude respeitosa. Em cima do telhado, uma antena esférica estendia-se para o céu. A emissora de Tagnor era a maior e a mais potente do planeta. As estações retransmissoras garantiam a perfeita recepção dos programas irradiados dali. Nos últimos dias, os programas recreativos haviam sido sacrificados grandemente em benefício dos apelos militares. Calus comparecia quase diariamente ao edifício em que funcionava a estação de rádio e fazia uma de suas alocuções autoritárias e ameaçadoras. A fim de impedir um eventual atentado contra a vida do almirante, dois oficiais o acompanhavam constantemente. No fundo, Calus não acreditava que pudesse haver tal atentado. Afinal, apoiavase no poderio de Árcon. Ninguém se atreveria de atrair sobre si as iras do computador-regente. Dali a dez minutos, o rosto do arcônida apareceu em milhões de telas. Todos entendiam sua língua, que era a língua do Império Arcônida. Era uma língua clara, inequívoca e, acima de tudo, dura. Na caverna subterrânea, situada embaixo da arena, Rhodan e seus colaboradores mais chegados também estavam sentados à frente da tela. Naquele dia, era a 169


segunda vez que viam e ouviam Calus. No dia anterior haviam examinado seu aspecto exterior e encontraram alguém que tinha certa semelhança com ele. Agora o sargento Roger Osega estava sentado ao lado de Rhodan e observava todos os movimentos de Calus. Os bioquímicos já haviam realizado algumas modificações anatômicas em seu rosto. O sargento Osega tinha uma semelhança espantosa com Calus. Era fácil confundi-los. — O Almirante Calus pertence à conhecidíssima família dos Monizas — disse Toffner, quando Calus fez uma ligeira pausa. — Há muito tempo essa família serve ao computador-regente e goza de uma confiança irrestrita. — Isso logo mudará — disse Bell com a voz zangada. Depois o silêncio voltou a reinar. Calus estava dizendo: — Se as ordens de apresentação não forem cumpridas, agiremos com todos os meios que estão ao nosso alcance. A recusa de prestar serviço no exército imortal de nosso regente será punida com a morte. Até agora preferi não me valer do direito que me cabe como juiz supremo, mas no futuro não terei a menor contemplação: mandarei fuzilar qualquer desertor ou insubmisso. Concedo mais um prazo de dez dias a todos os zalitas que estejam em condições de pegar em armas, a fim de que se apresentem à circunscrição de recrutamento de Tagnor. Quem for encontrado depois disso e não puder dar explicações satisfatórias enfrentará os pelotões de fuzilamento. Acho que me fiz entendido. A tela apagou-se. O sargento Osega soltou um suspiro. — Então terei de fazer o papel desse monstro? Isso não será nenhum prazer. — Pouco importa que sinta ou não sinta prazer — disse Rhodan em tom de repreensão. — O fato é que o êxito de nossa missão dependerá de seu desempenho como ator. Os bioquímicos voltarão a ocupar-se com você. Posso garantir que depois disso ninguém conseguirá distingui-lo do verdadeiro Calus. Osega confirmou com um gesto. — É claro que compreendo que não há outra alternativa, Sir. Apenas acontece que não me sinto muito à vontade em constranger inocentes zalitas a se apresentarem para o serviço militar de Árcon. Rhodan soltou uma gargalhada. — O senhor também encaminhará voluntários a Árcon. E nós estaremos entre eles. Acredito que gostaremos muito mais do novo Calus. O antigo receberá um tratamento especial. Com isso, o plano já estava delineado. Apenas faltava aguardar a oportunidade de realizá-lo. E essa oportunidade surgiu dali a quatro dias. *** Antes disso, o sargento Osega passou algumas horas desagradáveis no interior do laboratório. O doutor Tschai Toung, que era o melhor confeccionador de máscaras do Serviço de Segurança Solar,

cuidou dele. Quando se tratava de transformar um homem em outro, o chinês tornava-se pedante. Os filmes tirados da imagem televisada foram rodados incessantemente; Osega teve oportunidade de estudar atentamente seu sósia. E o Dr. Toung também teve. Sacudiu a vasta cabeleira negra. — Não estou gostando do nariz, sargento. O senhor já possui um documento de identidade plenamente válido, que o apresenta oficialmente como Calus, mas seu nariz ainda não é o nariz dele. Colocarei mais um enxerto de bioplástico. Osega gemia de fazer dó. — Vocês ainda acabam me estragando por completo — disse, embora não estivesse falando sério. — Minha própria mãe acabará por não me reconhecer. — Pois é exatamente o que queremos — disse Toung em tom sério. O professor Eric Manoli serviu de assistente na operação inteiramente indolor. Quando a mesma foi concluída, Tschai Toung tinha todo motivo para orgulhar-se de sua obra. — Agora estou satisfeito — anunciou. — Ninguém conseguirá distinguir um almirante do outro. Esfregou as mãos e passou os olhos pelos mutantes e especialistas do comando, que estavam sentados em torno dele. — Agora está na hora de vocês mostrarem do que são capazes. Troquem meu pupilo pelo verdadeiro Calus. Se agirem com bastante habilidade, ninguém perceberá. — Tomara! — disse Rhodan e adiantou-se. — Osega também terá que desempenhar o papel de Calus por ocasião das aparições na televisão. Acredita que será capaz disso? — Tive boas oportunidades de estudar suas ameaças e suas frases — asseverou o sargento. — Não gosto de fazer isso, mas acho que consigo. — É só o que importa. Aliás, apesar do risco que isso representa, Toffner saiu para investigar a situação. De início tive a intenção de fazer a troca durante um discurso, mas depois elaborei um plano melhor. Calus reside no palácio do Zarlt e é constantemente cercado por guardas, mas muitas vezes fica a sós em seu gabinete. Olhe! Harno, o ser esférico vindo do sistema de Tatlira, desceu do teto. Era uma bola branca de superfície polida. Nela se viu uma imagem que parecia projetada numa tela. Harno possuía uma faculdade espantosa. Era capaz de tornar visível em sua superfície qualquer ponto do Universo, independentemente de uma câmara de televisão. Era o televisor vivo do Exército dos Mutantes. Viram um recinto com móveis pesados, algumas peças de equipamento técnico e, mais ao fundo, a cabeceira de uma cama. Uma ligeira visão através da porta mostrou dois guardas pesadamente armados que estavam postados no corredor. — A troca terá de ser realizada neste recinto — disse Rhodan. — Não deverá haver maiores problemas, pois não teremos necessidade de passar pelos guardas. Os dois soldados serão capazes de jurar que ninguém poderia ter 170


entrado no quarto. Aliás, nem será necessário que prestem esse tipo de declaração. Ninguém formulará perguntas a este respeito, pois não se dará pela falta do verdadeiro Calus. Gucky o levará ao palácio, Osega. Por uma questão de cautela mandarei que Ras Tschubai vá com o senhor, pois é possível que Calus tente resistir. O trabalho terá de ser muito rápido. O sargento Osega observava Harno. — Quando será? Rhodan olhou para o relógio. — Daqui a pouco, Calus fará seu discurso costumeiro na televisão. Que faça! Amanhã o discurso será feito pelo senhor. Será amanhã às quatorze horas, tempo de Terrânia. Ao anoitecer, Toffner regressou são e salvo. Encontrara alguns amigos convocados para o serviço militar e dois soldados do Zarlt que conhecera na arena. Ao que parecia, dentro de três dias outro contingente de tropas seria enviado a Árcon. Esse contingente já estava completo. Pelo que se dizia, a próxima chegada das naves transportadoras já fora anunciada. O treinamento dos recrutas era feito num planeta de Árcon. No subterrâneo só se notava a diferença entre o dia e a noite em virtude de uma pausa para dormir. Rhodan aproveitou o tempo que ainda lhe restava para, juntamente com Toffner, fazer uma visita aos dois zalitas. No início, os dois levaram um tremendo susto, mas logo se mostraram dispostos a cooperar na execução do plano. Espantaram-se com a existência de uma organização secreta que operava em Zalit, mas logo se conformaram com o fato. Rhodan teve bons motivos para não lhes contar que eram os únicos zalitas pertencentes à organização. A noite passou e um novo dia teve início. Todos esperavam que esse novo dia marcasse o início de uma nova época. *** Pouco depois do meio-dia, o Almirante Calus recebeu uma mensagem do regente. Tal comunicado lhe foi entregue por um oficial, vindo diretamente da nave capitania dos arcônidas, ao qual cabia a supervisão dos serviços de rádio da unidade. Parecia estar muito nervoso. — Esta mensagem foi recebida há trinta minutos, almirante — disse e entregou o bilhete a Calus. Naturalmente valia-se dos padrões arcônidas que correspondiam aproximadamente a meia hora. — O regente já começa a impacientar-se. Calus fez um gesto autoritário e leu a mensagem. Depois disse em tom de contrariedade: — Acha que estamos enviando poucas tropas. O treinamento é muito prolongado. O regente quer bastante oficiais. Refletiu intensamente. O oficial mantinha-se à espera a uma distância respeitosa da escrivaninha. Lançou um olhar tímido para o superior, representante imediato do regente. Calus levantou os olhos.

— O próximo transporte parte depois de amanhã, não é? — Sim, almirante. — Muito bem! No discurso de hoje farei sentir a necessidade de serem recrutadas pessoas mais idosas. O regente precisa de astronautas e oficiais experimentados. Quem sabe se não foi descoberto finalmente o tal do planeta Terra, que tantos aborrecimentos nos tem causado? Os preparativos estarão sendo adotados por isso... Seja como for, temos de cumprir nosso dever. Apenas isso. Envie a seguinte mensagem ao regente... O Almirante Calus refletiu por alguns segundos e começou a ditar: — Calus ao regente! Transporte especial de aspirantes a oficiais está sendo preparado. O critério de seleção será a experiência espacial. Em Zalit não há problemas. Tudo normal. Almirante Calus — fitou seu interlocutor. — Providencie para que a mensagem seja transmitida imediatamente para Árcon e, assim que cheguem novas notícias, avise-me. Obrigado. O oficial retirou-se. Calus ficou só. Estava sentado atrás de sua escrivaninha. Não desconfiava de que suas palavras foram ouvidas uma por uma. E também não podia saber que cada um dos seus movimentos, cada um dos seus gestos foi observado atentamente. Era como se estivesse sentado à frente de uma câmara que registrasse todas as fases de sua existência. Faltavam duas horas para o discurso de hoje. Queria aproveitar o tempo. A situação não era tão brilhante como acabara de relatar ao regente. Mas se tivesse contado a verdade, isso só teria resultado em desvantagem para ele. Nesse caso, o computador talvez tivesse a ideia de colocar outro oficial em seu lugar... Ainda havia em Árcon muitos homens ambiciosos que descendiam das famílias antigas e que disputavam ferozmente os bons lugares no Império. Naturalmente só o faziam com vistas a uma eventual queda do computadorregente. E quando isso acontecesse, alguém teria de ser o imperador de Árcon. Suspirou. Nos últimos anos, os arcônidas voltaram a evoluir ou ao menos alguns deles. Até parecia que o computador governante não exercia qualquer influência desfavorável sobre o espírito humano... Pelo contrário! As resistências internas haviam crescido. Muitos arcônidas lembravam-se do passado glorioso e envergonhavam-se do presente humilhante. A nova geração reconhecia o domínio do cérebro positrônico. Mas nas profundezas das almas começava a surgir o plano de um dia substituí-lo por outro tipo de governo. Calus acreditava ser o homem indicado para um belo dia assumir o governo. Suspirou e fez suas anotações. As classes mais jovens de Zalit haviam sido abrangidas pelo recrutamento, com exceção dos que não se haviam apresentado. Mais de cem mil zalitas deviam ter desaparecido. Ao que tudo indicava, seria impossível pôr a mão neles. Talvez fosse conveniente 171


alegar esse fato para justificar o recrutamento das classes mais antigas. Podia-se perfeitamente jogar um grupo contra o outro. Os astronautas experimentados eram bastante procurados. Estranho! Será que de repente as naves dirigidas por robôs positrônicos não eram capazes de enfrentar o inimigo? Por que de repente passou a precisar de gente? Isso era de estranhar no regente que até aqui se conhecia. Será que um computador era capaz de aprender alguma coisa? Calus ouviu um ruído e levantou os olhos. Viu seu próprio rosto. Com um ar estupefato fitou o arcônida que se encontrava a dois metros dele, entre a escrivaninha e a porta. Calus não sabia explicar como viera parar ali. Tinha certeza absoluta de que no recinto em que se encontrava havia uma única porta. E o arcônida não estava só. Em sua companhia estava um zalita de pele escura e um ser estranho e pequeno, que o fitava com uma expressão insolente. Calus ficou sentado e não se mexeu. Seu cérebro esforçou-se em vão para encontrar uma explicação racional do fenômeno inexplicável. — Está admirado? O animal lhe dirigiu a palavra em arcônida! Mais um milagre! Primeiro o aparecimento que não conseguia explicar, e agora isso... Mas as coisas ainda ficariam piores. — Não, meu nobre almirante, não sou um animal doméstico falante, e nem penso em deixar que alguém me adestre. O senhor não devia pensar tolices. Isso pode estragar nosso relacionamento. “Será que o bicho sabe ler pensamentos?”, pensou Calus. Porém não encontrou a resposta, pois não lhe deram tempo para isso. Aproximou a mão direita discretamente de uma pequena caixa escura que se encontrava sobre a mesa. No momento em que pretendia apertar o botão com os dedos bem abertos, a caixa subiu levemente, como se tivesse perdido o peso. Planou para o lado, como se um fantasma a segurasse, e caiu ao chão. Ouviu-se um ruído suspeito. Os cacos de vidro e de plástico espalharam-se pelo chão. O aparelho de intercomunicação acabara de ser inutilizado. — Sentimos muito, almirante, mas seu tempo de serviço nesse posto chegou ao fim. Permita que me apresente como seu sucessor — Osega proferiu estas palavras num tom irônico e adiantou-se um passo. — Queira ceder-me seu lugar. O senhor se retirará juntamente com meus amigos. Se for razoável, nada lhe acontecerá. Calus ainda não se recuperara da surpresa, mas as explicações podiam ficar para mais tarde. O que importava no momento era escapar ao perigo que o ameaçava. — Quem é o senhor? — gritou em tom exaltado. — E quem são as criaturas que estão em sua companhia? É meu

sucessor? Só pode estar louco. O animalzinho caminhou em torno da mesa, apoiandose na cauda larga. Sob os olhos vivos surgiu um dente roedor solitário, que parecia sorrir. Calus não sabia que, quando Gucky exibia esse dente, estava de bom humor e pretendia pregar uma peça a alguém. — O homem que está à sua frente é o Almirante Calus, seu tolo! — chiou Gucky com a voz muito aguda. — Não vai levantar-se e fazer uma mesura? Calus engoliu em seco. Ele era Calus! O outro era um sósia. — É o que você pensa! — prosseguiu o rato-castor. Naquela altura Calus teve certeza quase absoluta de que aquela criatura lia seus pensamentos. — Se por aqui existe um Calus falsificado, é você. Será que pode provar o contrário? O almirante começou a desconfiar de que a situação não seria muito fácil de resolver, ainda mais que seus pavorosos visitantes pareciam possuir algumas “qualidades” que não conhecia. De qualquer maneira... Num gesto rapidíssimo tirou do bolso a mão com a pequenina pistola que disparava agulhas, mas antes que pudesse apertar o gatilho, a arma escapou de sua mão e, como que conduzida por um fantasma, foi parar na mão do animal cujo dente roedor sobressaía ainda mais. — Ora, almirante, que métodos são estes? Afinal, você é um soldado ou um assassino? Vamos logo! Levante-se para que o verdadeiro Calus possa sentar. Ele precisa preparar um discurso. Vejo que já fez algumas anotações. Que gentileza! Provavelmente Calus teria permanecido em seu lugar, mas de repente teve a impressão de que alguma coisa se movia embaixo do prolongamento da coluna. Teve a impressão de que a cadeira subia juntamente com ele. Levou um tremendo susto, levantou-se de um salto e deu um ou dois passos. A cadeira voltou ao seu lugar. O sósia — ou seja, o sargento Osega — caminhou em atitude compenetrada em direção à cadeira e acomodou-se. Depois olhou para os companheiros. — Acho que vocês devem dar o fora o quanto antes — disse, dirigindo-se a Gucky e Ras Tschubai. — Se de repente aparecer alguém... Dois Calus são demais. — Um já é demais! — constatou Gucky e apontou para o almirante arcônida, para o genuíno. — Este é demais! Vamos levá-lo logo. Aproximou-se de Calus e segurou a mão que pendia frouxamente junto ao corpo. — Está duro de pavor. Assim será fácil transportá-lo. Vamos, Ras, dê-me a mão. O africano não se fez de rogado. — Boa sorte, Osega! Ficaremos em contato com o senhor. Os dois teleportadores desmaterializaram-se juntamente com Calus, antes que este tivesse tempo de pensar qualquer coisa. Osega, que estava transformado no falso Calus, ficou 172


só. Felizmente não se sentia solitário. Mantinha contato permanente com Perry Rhodan, através do telepata John Marshall. Dessa forma recebia prontamente ás instruções que se tornavam necessárias. Isso acontecia graças à habilidade de Harno, que sabia reproduzir em sua superfície a imagem de Osega e dos arredores do lugar em que o falso almirante se encontrasse. — Atenção, Osega! — “disse” um impulso mental captado assim que Gucky e Ras desapareceram com o prisioneiro. — Um oficial aproxima-se do gabinete. Quer falar com o senhor. — Ótimo; assim tenho oportunidade de submeter-me a uma prova — respondeu Osega e passou a dedicar sua atenção às anotações do discurso que teria de proferir. Quando a porta se abriu, mal levantou os olhos. Teve a habilidade de fazer surgir uma ruga de contrariedade em sua testa. Tomara que o oficial pensasse que realmente se tratava da testa de Calus. — Trago uma ótima notícia, almirante — principiou o oficial na esperança de melhorar o humor de seu superior. — Um transporte de homens recrutados à força acaba de chegar das cidades do ocidente. Estão sendo escoltados por robôs. Devem ser cerca de cinco mil. Osega recebeu a informação com a maior tranquilidade. De certa forma, a notícia era lamentável, pois significava que mais cinco mil zalitas inocentes seriam arrastados para Árcon. Mas, por outro lado, também podia significar que Rhodan e seus homens não teriam de esperar muito para serem transportados para Árcon. — Excelente! — respondeu. — Providencie para que a notícia seja transmitida imediatamente ao regente. Agora prefiro ficar só, pois preciso preparar meu discurso. O oficial suspirou aliviado e retirou-se. Também Osega sentiu-se bastante aliviado. Dera certo. Também passaria pelo teste da câmara de televisão, especialmente se anunciasse as drásticas medidas que deveriam atingir as classes mais antigas. Os zalitas ficariam pasmados. Mas o importante era os arcônidas e seu regente não se admirarem. *** E bem verdade que o verdadeiro Calus tinha motivos de sobra para admirar-se com uma porção de coisas. Além de ter sido levado por meio da teleportação a um lugar totalmente desconhecido, que parecia ficar embaixo da superfície, fitou alguns rostos estranhos e nada amistosos. Num canto do recinto em que se encontrava, havia uma espécie de impressora, que com intervalos de alguns minutos expelia passaportes zalitas autênticos. Um grupo de homens de guarda-pó branco prendia fotos e modelos de vibrações cerebrais aos documentos, preenchia-os e os empilhava. Num ponto mais afastado, um grupo de zalitas estava sentado em torno de uma mesa tosca e conversava. Alguns liam. Calus viu que à esquerda um nicho fora separado por

meio de plásticos negros. Não podia ver o que havia atrás desses panos. Uma única vez um homem passou por baixo desses panos e disse a um zalita: — Os aparelhos estão prontos para entrar em funcionamento, Sir. Se quiser podemos começar. — Muito bem. Com uma expressão indefinível, o zalita ao qual haviam sido dirigidas essas palavras fitou Calus. Depois de algum tempo começou a falar: — O senhor já deve ter compreendido o que aconteceu, Calus. Um sósia foi colocado em seu lugar. O senhor encontra-se em nosso poder e só depois de atingirmos nossos objetivos, será libertado. Em grande parte, dependerá do senhor quando isso acontecerá. O senhor se dispõe voluntariamente a prestar as informações que desejamos, ou teremos de recorrer a uma suave coação? Calus tinha certeza absoluta de ter caído nas mãos dos rebeldes. Talvez tais rebeldes contassem com o apoio de seres vindos de outros mundos, que dispunham de faculdades parapsicológicas. Nem pensou na possibilidade de ter à sua frente os temíveis terranos dirigidos por Perry Rhodan! — Pode perguntar — disse em tom tranquilo. — Não terei dúvida em dizer aquilo que posso revelar. Quanto ao resto... — Quanto ao resto, não se preocupe — disse o zalita, que não era outro senão Perry Rhodan. — Sua saúde não será prejudicada, pois nossos métodos de interrogatório hipnótico são totalmente inofensivos. As primeiras perguntas são: qual é o motivo do recrutamento forçado? Qual é o inimigo contra o qual Árcon está lutando? Os olhos de Calus estreitaram-se. — Recuso responder essa pergunta. Aliás, tenho de preveni-lo de que os senhores acabam de sequestrar um almirante arcônida, e por isso sofrerão um castigo rigorosíssimo. Se concordarem em libertar-me, terei muito prazer em usar minha influência para... Rhodan sacudiu a cabeça e lançou um olhar para os homens que estavam reunidos num canto. Já não estava sorrindo. — Manoli! Sinto muito, mas não temos outra alternativa. Vamos recorrer ao tratamento hipnótico. Enquanto um Calus relutante estava sendo submetido aos efeitos dos campos de choque eletrônicos, caminhava pelas ruas de Tagnor um homem ao qual cabia testar as primeiras ordens do falso Calus. Tratava-se do mutante japonês Tako Kakuta, um teleportador. Ninguém desconfiaria de que aquele corpo pequeno pertencesse a um terrano, quanto mais a um japonês, pois o tratamento especializado fizera de Tako um verdadeiro zalita. Seus cabelos pretos e vastos haviam desaparecido. Em vez disso, tinha uma cabeleira cor de cobre. O brilho esverdeado foi imitado com uma perfeição enganadora. Bastava que Tako inclinasse a cabeça para que os raios do sol gigantesco de Voga se quebrassem nos microcristais acrescentados à cabeleira artificial. 173


Tako passeava tranquilamente pelas ruas como quem não tem nada a fazer. Viu poucos zalitas com a sua idade. Os que não estivessem a caminho de Árcon deviam estar escondidos. Por mais de uma vez conseguiu esquivar-se das patrulhas de busca. Geralmente essas guarnições, compostas por robôs ou soldados zalitas, eram comandadas por oficiais arcônidas. O êxito desse tipo de controle já era muito reduzido. Um zalita que se arriscasse a andar pela rua só poderia ser um doido, a não ser que tivesse uma boa idade. Ainda se viam muitos velhos, mas por enquanto estes não tinham nada a recear. Os arcônidas até chegavam a tratá-los com muita consideração, naturalmente porque esperavam que poderiam encontrar traidores entre os velhos zalitas. Quando os alto-falantes públicos começaram a transmitir o discurso diário do almirante, Tako entrou num restaurante. Sentou a uma mesa e pediu o vinho do planeta, que era muito saboroso graças ao sol gigantesco que fazia amadurecer as uvas. O rosto conhecido de Calus parecia fitá-lo da tela. Ouviu algumas pessoas praguejarem baixinho, mas logo a voz do arcônida superou os cochichos. Contemplou Calus e não pôde deixar de reconhecer que, raras vezes, um disfarce fora tão bem sucedido. Calus era Calus; não havia a menor dúvida. Até mesmo a voz, a maneira de expressar-se e a entonação eram semelhantes às do verdadeiro almirante. Os gestos, que serviam para reforçar os trechos mais importantes do discurso, haviam sido tão bem estudados por Osega que ninguém poderia ter dúvidas sobre a identidade do almirante. — Nesta oportunidade mando que todos, repito: todos os homens de Zalit se apresentem para serem examinados pelas comissões de recrutamento. Só estas decidirão quem é inapto para o serviço da frota. Dentro de uma semana, todo zalita deverá estar devidamente registrado. Qualquer um que for encontrado sem um documento visado será preso. Tako divertiu-se ao pensar como a situação estava ficando esquisita. Os documentos a que Calus se referia estavam sendo fabricados na caverna, situada embaixo da arena, e seriam entregues às comissões de recrutamento. — Pelo que se diz, existem zalitas que se recusam a prestar serviço voluntário ao Império. Portanto, para o computador, todos estão sujeitos às leis de guerra, daqui para frente. Qualquer sujeito apto para a prestação do serviço militar, mas que se negue a prestá-lo poderá ser condenado à morte. Tako notou que alguns zalitas mais idosos o fitavam. Devia pertencer à categoria das pessoas a que acabara de aludir o almirante. Calus prosseguiu. Ressaltou que a paciência do regente de Árcon estava definitivamente esgotada. O Império estava sendo ameaçado por uma potência estranha, e o computador era generoso a ponto de confiar os postos mais importantes aos arcônidas e zalitas. Portanto, seria uma ingratidão... e o discurso prosseguia neste diapasão. Quando Calus concluiu, houve alguns segundos de

silêncio no interior do restaurante. Finalmente um zalita idoso levantou-se, atirou uma moeda para o dono do restaurante e dirigiu-se à porta. Antes de sair, virou-se e disse: — Quem se juntar aos arcônidas será um traidor e um escravo do computador! Uma vez proferidas estas palavras, desapareceu. Os que ficaram para trás pareciam suspirar aliviados. Começaram a discutir apaixonadamente; procuravam convencer uns aos outros. Tako aproveitou a confusão generalizada para sair do local. Não podia deixar de confessar que Osega fizera um trabalho perfeito. Estava convencido de que teria enganado até mesmo o regente de Árcon, se o computador tivesse tido oportunidade de ouvir o discurso. Tako não se encontrou com nenhuma das patrulhas, que vasculhavam as ruas, e por isso tornou-se mais arrojado. Foi-se aproximando do espaçoporto e, subitamente, viu-se diante de uma fileira de guardas. Eram todos robôs. Seus olhos frios e inexpressivos dirigiram-se para ele como se fosse uma caça pela qual esperavam há muito tempo. Um deles veio em sua direção. Seria inútil correr. Um robô sabe deslocar-se com uma rapidez espantosa. — Documento! — disse a voz rangedora da máquina. Naturalmente Tako possuía documento. A identidade fora fabricada no dia anterior, no laboratório situado embaixo da arena. Toffner fornecera todos os dados para isso. Acontece que não era o documento que importava. Tako tinha a idade apropriada. Enquanto entregava o documento ao robô, o japonês falou sem pestanejar. — Quero apresentar-me à comissão de recrutamento. Onde fica? O robô examinou o documento. Sua programação, que no início previa a prisão do homem que tinha diante de si, foi modificada. Aquele indivíduo queria apresentar-se. Para este caso, as instruções eram outras: — Atravesse a barreira que fica junto ao edifício principal. Ali encontrará um oficial. Tako se transformaria em cobaia! Enquanto caminhava, procurou entrar em contato com John Marshall ou outro mutante através do microtransmissor. Pouco antes de chegar ao edifício que lhe fora designado, alguém respondeu: — Faça de conta que se apresentou para ser examinado. Se lhe perguntarem por que só apareceu hoje, alegue doença. Estamos cuidando de você. Harno tem sua imagem. Não se preocupe, dentro em breve o seguiremos. Tako continuou a caminhar. Sentiu-se tranquilo. Enquanto Rhodan e seus colegas do Exército de Mutantes estivessem atrás dele, nada lhe poderia acontecer. Chegou na hora exata para assistir à chegada do almirante arcônida, que iria realizar uma inspeção de surpresa na sede da comissão de recrutamento.

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6 No dia seguinte, mais dez homens do grupo de Rhodan apresentaram-se para o serviço da frota de Árcon. Possuíam documentos válidos e estavam em condições de provar que, nos dias anteriores, viram-se impedidos por motivos ponderáveis a apresentar-se às comissões de recrutamento. Foram encaminhados aos alojamentos e examinados sem maiores formalidades. O resultado do exame foi um só: aptos para o serviço da frota. Dali a dois dias, aquele grupo de dez homens, entre os quais se encontrava o hipno André Noir, começaram a “trabalhar” os oficiais das diversas unidades. Não foi muito difícil chamá-los um por um ao aposento em que os terranos haviam sido alojados. Uma vez lá, foram submetidos a um “tratamento” e regressaram às suas unidades com uma memória renovada e com ordens estranhas. E foi assim que o grupo de dez terranos, e posteriormente Tako, fizeram carreira muito rápida e logo se transformaram em chefes, subordinados diretamente aos oficiais de Árcon. Até mesmo os robôs deviam obedecerlhes, isso principalmente depois que seus dispositivos foram reprogramados às escondidas. Enquanto isso, Osega continuava a desempenhar o papel de Calus. Anunciou ao regente que outro grupo estava pronto para ser transportado. E logo depois, uma grande nave esférica decolou, levando muitos recrutas de Zalit. Os homens do grupo de Rhodan não embarcaram nessa nave. Nem mesmo Calus possuía poderes para decidir sobre o transporte dos recrutas. E a hora ainda não havia chegado. Na caverna situada sob a arena, Rhodan e seu grupo estavam realizando uma conferência. Harno estava aceso. Há vários dias não descansava. Constantemente havia alguém perto dele e observava o que se passava na superfície esférica de seu corpo. Tristemente agachado num canto, Gucky mastigava uma planta nativa do planeta, que Bell lhe oferecera, dizendo que eram cenouras. Mas não era isso que o deixava aborrecido. Seus problemas eram bem mais graves. Rhodan fornecera o nome de cinquenta pessoas que não poderiam ir a Árcon. Fora decidido em definitivo que ele, Gucky, era uma dessas cinquenta pessoas. Não havia meio de transformá-lo num zalita. — Ainda hoje subiremos à superfície e nos apresentaremos. Com isso, seremos cento e cinquenta homens ao todo. Acho que será suficiente. — Rhodan olhou em torno. — Toffner ficará aqui. O Major Rosberg assumirá o comando e dirigirá as ações em Zalit. Se houver algum imprevisto, o Major Rosberg usará o aparelho de Toffner para avisar a Drusus, que virá buscá-los. Acho que está tudo claro. — Este ponto será o único que poderá levar-me a recusar o cumprimento de uma ordem — observou

Rosberg. — Acredita que seríamos capazes de deixá-lo preso numa armadilha somente porque alguma coisa não deu certo? Arrancá-lo-emos de lá e... — Não farão nada disso, Rosberg! — a voz de Rhodan soou com uma estranha aspereza. — Saberemos resguardarnos. Além disso, seu sacrifício seria inútil. Se formos agarrados, você não poderá fazer nada. Exijo que se atenha às instruções que lhe são fornecidas. Mais alguma pergunta? O Major Rosberg voltou a falar. — Como deveremos guarnecer o transmissor que se encontra na caverna? — Ainda bem que se lembrou, Rosberg. Acho que você deverá destacar três homens que permanecerão lá, depois de terem avisado a Califórnia. Precisaremos de suprimentos de armas e materiais. Em Zalit deve ser instalada uma verdadeira base, capaz de defender-se até mesmo dos ataques de Árcon. Não sei se as coisas chegarão a este ponto, contudo deveremos estar preparados para qualquer eventualidade. Mas peço-lhe que só cuide dessa caverna depois que estivermos a caminho de Árcon. Outros detalhes foram discutidos, até que tudo ficou esclarecido. Nenhum ponto deixou de ser examinado. O contato fônico entre os dois grupos seria mantido ininterruptamente, embora Harno pudesse transmitir sempre a Rhodan a imagem dos homens que permaneciam em Zalit. A missão tornava-se cada vez mais, menos perigosa, pois os homens já recrutados haviam preparado o terreno. A maior parte dos oficiais arcônidas recebera um bloqueio hipnótico e quase todos os robôs foram reprogramados. Duas telepatas, Betty Toufry e Ishy Matsu, que permaneceriam em Zalit, manteriam o contato entre Calus e o Major Rosberg. Gucky também se dedicaria a essa tarefa. Dali a dois dias, os últimos “voluntários” puseram-se a caminho. Além de Rhodan e Bell pertenciam ao grupo o Capitão Gorlat, Atlan e Fron Wroma. Tal qual os outros, levavam um passaporte falso no qual estava consignado um nome zalita. Não havia nada que pudesse sair errado. Passaram pelos primeiros controles e chegaram à entrada principal, onde foram recebidos por um arcônida arrogante. Robôs de guerra patrulhavam as áreas adjacentes à cerca provisória. No interior do acampamento enxameavam os zalitas, que haviam realizado o treinamento preliminar ali mesmo e aguardavam o momento de serem transportados para Árcon. Uma vez lá, talvez fossem incorporados definitivamente na frota do Império. O oficial arcônida fitou os recém-chegados com um misto de alegre surpresa e de arrogância insuportável. Apesar disso, esforçou-se para encontrar uma forma de tratamento aceitável. — Quer dizer que resolveram entrar para a gloriosa frota do Império? — disse e fez um sinal para os vigilantes robôs. — Serão examinados, registrados e transportados o mais depressa possível. Qualquer homem capaz poderá fazer uma carreira rápida. Também temos lugar para o 175


pessoal técnico. Estendeu a mão. — Os documentos, por favor. Depois de algum tempo, devolveu os papéis. — No primeiro edifício fica o setor de registro. Apresentem-se ao sargento de plantão. Ele os encaminhará. Desejo-lhes um futuro repleto de vitórias. Rhodan agradeceu, voltou a guardar o passaporte e passou pelos robôs, sem saber se estes haviam sido reprogramados ou não. Naquele momento, isso ainda não importava muito. Eram recrutas e qualquer gesto estranho provocaria suspeitas. Por enquanto tinham de submeter-se às normas vigentes. Felizmente o sargento incumbido do registro já fora “preparado” por Noir. Um dos homens do grupo de Rhodan, que já se encontrava no acampamento há alguns dias, ajudou o hipno no registro dos recém-chegados. Apresentaram seus passaportes e tiveram o cuidado de não proferir uma única palavra suspeita. Os aparelhos de escuta poderiam estar escondidos em qualquer lugar, e os arcônidas que os ouvissem certamente não estavam condicionados. O sargento levantou a cabeça e piscou ligeiramente os olhos. — Como vejo, já serviu na frota de Zalit. Foi major, não foi, Sesete? — era o nome que Rhodan estava usando. — Excelente! Precisamos de homens experientes como o senhor. Acho que ocupará o mesmo posto. Examinou os passaportes dos outros. — Comandante Ighur, da frota mercante — o nome pertencia a Atlan, que se limitou a confirmar com um aceno de cabeça. — Pelo que vejo, foram todos oficiais. Major Roake — lançou um olhar ligeiro para Bell. — Capitão Norvt, Tenente Likro... excelente. Empurrou os passaportes para seu assistente. — Providencie alojamentos de primeira. Não é todos os dias que aparece um grupo formado exclusivamente por exoficiais. Sem dúvida resolveram esperar um pouco antes de resolver juntar-se a nós, não é? Bem, não importa. O que vale é que atenderam ao nosso apelo. O exame médico será realizado amanhã. Acredito... bem, parecem todos muito sadios. O assistente devolveu os passaportes. Além disso, entregou-lhes um papel com uma planta do acampamento, pela qual poderiam orientar-se. Os algarismos indicavam a sequencia dos locais em que teriam de apresentar-se. Constataram que realmente lhes forneceram alojamentos condignos, a que tinham direito por serem antigos oficiais. Parecia pura coincidência... Os outros homens do comando terrano foram alojados em local bem próximo! *** Toffner levou a sério a tarefa que lhe foi confiada. Sabia quanta coisa dependia da execução da mesma. O Major Rosberg o prevenira quanto a isso. Se fosse preso pelos

arcônidas ou pelos soldados de Zalit, não poderia contar com qualquer auxílio. Além disso, deveria evitar que sua pista levasse às catacumbas. Dessa forma, Toffner voltara a ficar só; dependeria exclusivamente de sua habilidade. O documento, que Calus assinara, era a única coisa que o tranquilizava, pois atestava que a comissão de recrutamento o julgara inapto para o serviço da frota. Não foi por nada que o Almirante Calus baixou tal ordem, que admitia certas exceções e permitia a emissão dos respectivos documentos... Toffner teria de preparar os jogos da arena, que seriam realizados no outono. O terrano, ou melhor, Garak, tinha necessidade premente de gladiadores. Onde arranjá-los, se em Tagnor quase não restavam homens capazes? Não teve outra alternativa senão viajar por aí. Foi a uma agência e alugou um planador. Desta vez escolheu um modelo maior. Talvez tivesse de realizar alguns transportes. Por duas vezes as patrulhas o pararam e controlaram seus documentos. O atestado produziu verdadeiros milagres. Deixaram-no passar sem dificuldades. O planador estava estacionado na área de parqueamento. Achava-se cercado por uma fileira de guardas. E tal situação provocou um sorriso discreto em Toffner. O que poderia acontecer-lhe? Conforme esperava, o controle foi rápido e fácil como os anteriores. Permitiram-lhe que decolasse, depois de ter informado seu destino: a cidade de Larg. Descreveu uma curva a baixa altitude e constatou que o tráfego civil estava praticamente paralisado. Vez por outra encontrava-se com um planador militar. Mas estes não se interessaram por ele. Logo atingiu a periferia da cidade e dirigiu-se para o leste, para o deserto. Resistiu à tentação de pousar nas proximidades da caverna. Pelo que se sabia, ninguém aparecera por lá. Isso só aconteceria nos próximos dias. Seria necessário colocar o transmissor em recepção e descarregar os volumes que chegassem. A cadeia de montanhas foi avistada e voltou a desaparecer. Finalmente, Toffner pousou em Larg sem maiores incidentes. Estacionou o planador e regulou o fecho positrônico para seu número de identificação. Nenhuma pessoa estranha seria capaz de abrir a cabina, a não ser que possuísse seu modelo de vibrações cerebrais, o que era totalmente impossível. Hhokga, o negociante de tecidos, ficou não apenas surpreso, mas assustado ao rever tão depressa o homem que conhecia como Garak. Pediu silêncio e levou o inesperado hóspede à sala de estar. A tarde findava; dentro de mais algumas horas, escureceria. Os robôs patrulhavam as ruas. — Sua vinda representa um tremendo perigo para mim! — as palavras de Hhokga foram ditas em voz tão baixa que Toffner mal conseguiu entendê-las. — Por que veio? Nos últimos dias, a situação tornou-se muito mais crítica. Devo apresentar-me amanhã para ser submetido a exame médico. 176


Os homens velhos estão sendo recrutados... — Não se preocupe! — interrompeu Toffner com a voz tranquila e sentou-se. — O senhor não será incorporado em hipótese alguma. Acredite em mim e não faça perguntas. Tome este papel. Trata-se de um documento emitido em seu nome, no qual se lê que o senhor se apresentou em Tagnor e foi julgado inapto. Apresente-o a qualquer patrulha que venha abordá-lo. Hhokga lançou um olhar de espanto para o documento. — O senhor deve ter amigos muito influentes — disse o negociante de tecidos em tom respeitoso. — Quem sabe se pode proteger Markh e Kharra dos arcônidas? — Ambos poderão andar à vontade em Tagnor, pois também receberão hoje um documento igual a este. Ainda obterão licença para viajar para Larg. É por isso que estou aqui. Hhokga foi pegar o vinho e sentou-se. — Não compreendo como foi que o senhor conseguiu isso. O que sei é que não tenho a menor esperança de poder retribuir este favor. O senhor é mais poderoso que eu, que apenas sou um velho sem confiança no futuro... — O futuro é muito mais brilhante do que o senhor imagina — asseverou Toffner, esperando que não tivesse dito demais. — O Almirante Calus também é mortal — comentou Hhokga. Toffner assustou-se. Será que planejavam o assassinato do almirante arcônida, do qual ninguém sabia que, na realidade, era um terrano e um grande amigo dos zalitas? Isso complicaria a situação. Talvez Hhokga soubesse dizer alguma coisa. — Pretendem matá-lo? — Como é que o senhor pode dizer uma coisa dessas, Garak? Não se trata disso. Apenas estou falando em termos gerais. Qualquer pessoa terá de morrer um dia — suspirou. — Posso ajudá-lo em algo? — Markh me disse que o senhor tem relações com as autoridades locais. É bem verdade que o mercador de animais pode locomover-se livremente, mas achamos preferível que por enquanto mantenha uma atitude mais discreta. Preciso de animais selvagens e de gladiadores que se disponham a lutar na arena. Não posso contar com presos políticos ou comuns, pois os arcônidas esvaziaram as prisões. E quem mais concordaria em ir voluntariamente para a arena? Quer dizer que tenho pouca gente. E, se não consigo gladiadores, terei de fazer os animais lutarem contra outros animais. — O que posso fazer pelo senhor? — Pode ajudar-me a formar uma expedição. Basta que um dos seus veículos de transporte, destinados a Tagnor, pouse em determinado ponto nas montanhas e receba as cargas que expedirei em nome de Markh. Será feito tudo legalmente e com licença das autoridades. Eu mesmo poderia organizar tudo, mas tenho de voltar o quanto antes para Tagnor. “Entrego-lhe dez documentos assinados pelo Almirante

Calus. Tais identidades dizem que o portador, depois de examinado pela comissão de recrutamento arcônida, foi julgado inapto para o serviço ativo. Os documentos foram emitidos em branco. Utilize-os à vontade. O senhor deve ter dez bons amigos que estejam dispostos a trabalhar nesses transportes em troca da garantia de não serem molestados pelos arcônidas.” — Se o documento realmente for bom, posso garantir que uma caravana chegará às montanhas. Vou desenhar um esboço. Dali a trinta minutos, Toffner saiu da residência de Hhokga. Quando pousou em Tagnor já estava escurecendo. A fim de apresentar seu relato a Rosberg, dirigiu-se furtivamente ao esconderijo situado embaixo da arena. O Major elaborou seu plano. — Daqui a dois dias, Gucky saltará para a caverna juntamente com três especialistas e ligará o transmissor. Antes disso, entraremos em contato com a Califórnia para mandar que as coisas nos sejam enviadas. Daqui a três dias, o tal do Hhokga sairá de Larg. Dali a mais dois dias, chegará às montanhas. Carregará as caixas. Acontece que a carga poderá ser controlada. Não seria preferível incluir alguns animais? Seu amigo Markh poderia cuidar disso. Toffner prometeu confiar essa tarefa ao caçador. — Como estão as coisas lá em cima? — perguntou Rosberg, depois que tinham discutido todos os detalhes. — Hoje ouvi o discurso de Osega. Metade da população de Zalit deve ter sido levada do planeta. — As coisas não são tão ruins, Sir. A maior parte dos homens está escondida. A vida econômica de Zalit está um tanto paralisada, mas a situação não chega a ser crítica. Os habitantes do planeta são ricos e têm suas reservas. Agüentarão mais algum tempo. — Até lá o perigo terá sido eliminado, ou nada mais importa — disse Rosberg em tom tranquilo. *** O comando era formado por quatro robôs de guerra e um arcônida. O grupo vasculhou sistematicamente os porões de uma rua de Tagnor que levava diretamente do palácio do governo à arena. O fato em si não tinha nada de inquietante, pois todos os dias surgiam as patrulhas que andavam à procura de desertores. E nada teria acontecido se não... O guarda zalita, que estava de folga e viera visitar a família em Tagnor, correu bem para dentro dos braços do comando. Seus documentos foram controlados e foi dispensado. Pretendia seguir seu caminho, mas o arcônida chamou-o de volta. — O senhor deve conhecer Tagnor muito bem, soldado. O zalita estava muito interessado em servir aos seus senhores, e por isso fez um gesto afirmativo. — Conheço a cidade como a palma de minha mão, oficial. Deseja alguma informação? O arcônida apontou para a arena. 177


— É ali que são realizadas as lutas? — Atualmente não, senhor. Não há animais e gladiadores. — A arena tem instalações subterrâneas. — Existem algumas catacumbas, senhor. Quando há jogos, é lá que costumam alojar-se os lutadores. E as jaulas dos animais também ficam lá. — Não seria possível que alguns desertores se escondessem nessas catacumbas? O soldado sacudiu a cabeça. — Dificilmente, senhor. Revistamos atentamente as catacumbas, na parte conhecida. Não encontramos nenhum sinal da presença de fugitivos. O oficial aguçou o ouvido. — Na parte conhecida? Isso quer dizer que nem todos os subterrâneos são conhecidos? — Isso mesmo. Antigamente havia muitas passagens secretas que davam para o palácio. Em parte, tais entradas foram fechadas. A arena não precisa de tanto espaço. Seria muito dispendioso providenciar calefação e ventilação para todas as catacumbas. Era só o que o arcônida queria saber. Suas suspeitas se confirmaram. Embaixo de Tagnor havia esconderijos que eram completamente desconhecidos... ao menos da maior parte das pessoas. — Obrigado — disse, dirigindo-se ao soldado. — Pode retirar-se. O zalita afastou-se. Estava satisfeito por não ter causado uma impressão desfavorável. Pelo contrário: prestara um serviço ao arcônida. Talvez um dia, isso lhe trouxesse alguma vantagem. Dificilmente a informação causaria qualquer prejuízo a seu povo. A entrada tinha ao menos dez metros de largura. Os degraus levavam para baixo. — Então é este o acesso às catacumbas! — balbuciou o arcônida. Lembrou-se de que as galerias já haviam sido revistadas, mas não se esqueceu da observação do soldado zalita: na parte conhecida. Era o ponto decisivo, que o animava a empreender a ação que estava iniciando. — Sigam-me — ordenou aos robôs. — Mantenham os radiadores térmicos prontos para disparar. Estava muito escuro, mas as luzes fortes dos robôs dissiparam a escuridão. Antigamente havia luminárias aplicadas nos tetos abaulados, e que apareciam a intervalos regulares. Mas agora, todas estavam apagadas. Vez por outra, um corredor estreito saía para a direita ou para a esquerda. O arcônida deixava um robô na bifurcação, enquanto juntamente com os outros examinava o corredor lateral. Via de regra, tais passagens terminavam depois de poucos metros numa parede lisa. O fato de não encontrar nenhum desertor por ali apenas reforçou suas suspeitas. Se nesse lugar não havia gente escondida, deveria haver esconderijos melhores mais embaixo. Precisava encontrá-los. Seus passos ressoaram, mas não conseguiram

sobrepujar o ruído dos outros passos... — Parem! Os robôs imobilizaram-se abruptamente. As armas dirigiram-se para a escuridão que surgia à sua frente. O arcônida aguçou o ouvido. Era isso mesmo! Alguém vinha ao seu encontro. — Apaguem as luzes. A escuridão foi completa. Porém, lá na frente, surgiu uma luminosidade que se tornou mais forte, à medida que se aproximava. Finalmente, um vulto saiu de um dos corredores laterais. Aproximou-se do grupo e, quando avistou os quatro robôs, parou de repente. A lanterna balançou ligeiramente. — Quem é você? — perguntou o arcônida e adiantouse. No mesmo instante, as luzes dos robôs acenderam-se e mergulharam o vulto numa luz ofuscante. Era um zalita. Quando descobriu o comando, Toffner levou um susto tremendo... Tarde para pôr-se a salvo! Acabara de atravessar a porta secreta a fim de visitar um amigo em Tagnor. E agora acontecia isso! — Sou Garak, o administrador disto. — O que veio fazer aqui de noite? — Meu negócio é este... — Talvez seja — disse o arcônida em tom desconfiado. — De onde veio? Desse corredor lateral? Vamos até lá. Mostre-me onde esteve. Toffner sabia que só mesmo um milagre poderia evitar a descoberta do recinto secreto. O corredor era curto e, tal qual os outros, terminava numa parede de rocha lisa. Foi caminhando devagar, seguido pelo oficial e pelos robôs. Desta vez todos os quatro foram com o oficial; nenhum ficou para trás. Era uma sensação desagradável saber que as armas de radiações dos monstros estavam apontadas para suas costas. — O corredor termina aqui — disse quando atingiram a parede atrás da qual ficava o esconderijo. Toffner só poderia fazer votos de que o arcônida não notasse as pequeninas fendas, e de que um metro de rocha fosse suficiente para deter os robôs. Acontece que o arcônida não era nenhum tolo. Sabia raciocinar logicamente. — Quer dizer que você esteve num corredor em que praticamente não existe nada? — Sim; eu me perdi. — É muito estranho que isso tenha acontecido com o administrador da arena, que deve conhecer todos os cantos destes subterrâneos, não acha? Fale logo, zalita! O que veio fazer aqui? E onde está a saída? Onde está a saída... Toffner refletiu febrilmente para encontrar uma solução. Gucky! Betty! Ishy! — foi esta a mensagem silenciosa que enviou aos três telepatas. — Há um perigo gravíssimo bem à porta: Quatro robôs e um arcônida. Cuidado! A resposta veio pelo microcomunicador colocado em seu ouvido: — Já percebemos Toffner. Mantenha a calma. Procure 178


detê-los. Devia ter sido Gucky. — Entendido — “respondeu” Toffner. — Responda zalita! — disse o arcônida em tom grosseiro, quando viu que o silêncio de Toffner se prolongava demais. — O que veio fazer aqui? Mostre a porta oculta, senão darei ordem aos robôs para que derretam a parede. Era apenas uma ameaça. Nem mais nem menos. O arcônida ameaçava ao acaso, na esperança de amedrontar seu interlocutor. — Atrás dessa parede não há nada — asseverou Toffner, e fazia votos de que logo fosse acontecer alguma coisa. Os homens no esconderijo haviam sido avisados. Saberiam defender-se. Mas quando a parede tivesse sido derretida, o esconderijo não valeria mais nada. — Mande seus robôs entrarem em ação. Talvez assim fique sabendo se por aqui realmente existem passagens secretas. O arcônida hesitou. Será que um zalita sabia fingir com tamanha perfeição? Mas não era esta a hora de refletir sobre isso. Transmitiu suas ordens aos robôs. — Intensidade reduzida, contra a parede que está à nossa frente. Iniciar dentro de dez segundos. O feixe energético atingiu a parede de rocha e foi-se espalhando por igual. A rocha foi-se derretendo lentamente e começou a pingar. No chão do corredor surgiram poças reluzentes. Toffner começou a suar de aflição. “O que Gucky e os outros estavam esperando para agir?” pensou. “Se não tomassem logo providências...” — Psiu! Não pense tão “alto”! — era Gucky. — Eu trouxe Betty. Precisamos de dois telecinetas para pôr os robôs fora de ação. Você conhece a disposição de suas peças. Enquanto nós os “seguramos”, procure pôr a mão na chave que os desliga. Mais tarde mudaremos sua programação e mandaremos que voltem à superfície, com o oficial submetido ao tratamento hipnótico, que há esta hora já está dormindo. Toffner ficou calado. Caminhou às apalpadelas em direção ao fim do corredor, que estava bem iluminado, a fim de colocar-se atrás dos robôs. Um pedaço da parede já havia sido derretido. O chiado do raio energético sobrepujava os outros ruídos. — Pegarei dois, enquanto Betty se encarregará de um. Vamos, Toffner, gire o parafuso... Realmente era um parafuso que podia ser girado com a mão, desde que a gente conseguisse aproximar-se do robô por trás. Nem mesmo os arcônidas quiseram dispensar esse dispositivo de segurança. Se necessário, um robô poderia ser desativado de um instante para outro. Toffner deu dois ou três passos e tateou para encontrar o parafuso do primeiro robô. Gucky saltara para o lado de Toffner. — Não está mesmo dando certo! — cochichou

apressadamente, pois havia lido os pensamentos de Toffner. — Rápido! Pegue os outros dois. Estão sob controle, mas não por muito tempo. Os outros dois não ofereceram a menor dificuldade. Toffner conseguiu pô-los fora de combate. O quarto e último dos robôs apresentaria maiores problemas. Estava em posição inclinada e não poderia deixar de ver as ações de Gucky e Toffner, desde que girasse levemente para o lado. Além disso, sua arma estava funcionando. Um movimento do corpo significaria a destruição inevitável. O calor quase chegava a ser insuportável. Metade da parede já devia estar derretida. Gucky passou rapidamente por Toffner e colocou-se bem atrás do robô. Fitou o parafuso que sobressaía na nuca do monstro. Tal peça começou a girar muito lentamente sob a ação das energias mentais de Gucky. Segurava o robô por meio da telecinese e, simultaneamente, pelo mesmo processo, fazia girar o parafuso. Ao apagar-se num bruxulear, o raio energético atingiu o rato-castor! Gucky soltou um grito estridente e teleportou-se rapidamente até a entrada. Betty correu para junto dele e abaixou-se. — Coitado! Está doendo muito? Gucky levantou-se e mal conseguiu disfarçar o embaraço. — Se você me consolar nada mais poderá doer, Betty. — ergueu-se de vez. — O que aconteceu com o arcônida? — Levou apenas uma leve pancada de um dos robôs, quando este parou de funcionar. Acho que devemos primeiro colocar-nos em segurança. Além disso, temos de remover os vestígios. Aquele buraco na parede... — Nós o taparemos — completou Gucky com a voz tranquila. Soprava as patas que ainda ardiam. — Primeiro vamos reprogramar os robôs, e depois aplicaremos um bloqueio hipnótico no arcônida. Toffner sentiu-se satisfeito por não ter de ouvir recriminações. De certa forma era culpado pelo que acontecera a Gucky, se é que no caso se podia falar em culpa. Abriu uma porta lateral do corredor. Felizmente tal porta não fora afetada pelos raios energéticos disparados pelos robôs. Os outros membros do comando terrano cumprimentaram Toffner e os dois mutantes com certa sensação de alívio. Não sabiam o que tinha acontecido do lado de fora. As informações que Ishy Matsu lhes pôde fornecer foram muito escassas. E foi assim que, dali a quatro horas, um comando de busca voltou ao espaçoporto e anunciou ao oficial arcônida que exercia o comando: — Revistamos a rua que dá para o palácio. Sem resultado. Além disso, vasculhamos as chamadas catacumbas. Todos os corredores terminam em paredes. Não há a menor possibilidade de que por lá exista um esconderijo. É impossível que haja desertores embaixo da 179


arena. O oficial, que transmitiu estas informações, foi elogiado pela operação de busca e recebeu ordens para, no dia seguinte, patrulhar outras ruas. Garantiu que essa incumbência também seria executada de maneira a satisfazer seus superiores.

Com certo orgulho afirmou que não havia melhores robôs que os seus. Seu superior acreditou nisso, pois também já havia recebido um “tratamento”. Dessa forma, Rhodan iniciou sua caminhada para Árcon...

A primeira parte dos preparativos estava concluída. Tratava-se dos preparativos que, segundo a intenção de Rhodan, deveriam levar à conquista de Árcon e ao término do governo do robô. Cento e cinquenta homens estavam preparados para abalar um império estelar. E o próprio regente daria a ordem para isso. A ordem para que o cavalo de Tróia fosse transportado de Zalit para Árcon! Em Escola de Guerra Naator, título do próximo volume, Rhodan tentará neutralizar as ações defensivas do computador-regente.

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A Queda do Regente – Volume 18

Nº 85/86/87/88/89

Escola de Guerra Naator A Chave do Poder As Cavernas do Sono O Caso Columbus A Grande Hora de Gucky De

William Voltz Kurt Mahr Kurt Brand Clark Darlton e K. H. Scheer

2º CICLO – ATLAN E ÁRCON VOLUME 18 P-85 - 89

A descoberta da espaçonave arcônida acidentada na Lua, foi ponto de partida para a unificação política da Humanidade. Hoje, a Terra tornou-se centro de um império... o Império Solar! O novo império — minúsculo em comparação com as numerosas outras potências cósmicas — subsistiu unicamente devido às inteligentes jogadas de Perry Rhodan e de seus colaboradores. No grande jogo galáctico, impediram que a Terra desaparecesse num inferno de destruição atômica, ou fosse degradada à condição de colônia de Árcon. E a sorte costuma ser fiel a quem se mostra capaz... Confiando nesta sorte, Perry Rhodan traça o ousado plano de penetrar, com um grupo de combatentes terranos, até a central de seu maior oponente, o robô regente! Porém antes que os “Recrutas de Árcon” — designação sob a qual os especialistas terranos foram alistados, após terem se radicado no planeta dos zalitas — possam efetivamente se aproximar do cérebro-robô, a fim de executar sua ação destruidora, espera-os a Escola de Guerra Naator.

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