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2º CICLO – ATLAN E ÁRCON VOLUME 16 P-75 - 79


O Herdeiro do Universo

O Herdeiro do Universo

O Universo Vermelho

O Herdeiro do Universo

Sob as Estrelas de Druufon

Volume 75

Volume 76

Nas Algemas da Eternidade Volume 77 O Herdeiro do Universo

O Sacrif铆cio de Thora Volume 78

O Herdeiro do Universo

O Inferno At么mico Volume 79 2


O Universo Vermelho Sob as Estrelas de Druufon Nas Algemas da Eternidade O Sacrifício de Thora O Inferno Atômico

2º Ciclo – Atlan e Árcon Volume 16 Episódios: 75 - 79 de 50/99

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Nº 75 De K. H. Scheer Tradução

Richard Paul Neto Digitalização

Arlindo San

Revisão e novo formato

W.Q. Moraes

Sua arma é a velocidade — A cavalgada do cruzador rápido Califórnia...

Na Terra registra-se o ano 2.043 e, com isso, aproxima-se o momento em que, segundo os matemáticos, deve ter início a estabilização dos dois planos temporais, representados pelo Universo dos druufs e pelo Universo einsteiniano... O estado de alarma é dado na base solar de Fera Cinzenta! A Frota Espacial Terrana assume suas posições de combate. A ordem: penetrar naquele Universo... Vermelho!

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pensamentos vagassem pelo passado. Conhecera muito bem o tal do Khan, mas Rhodan não sabia disso. Naquela época nem sonhara com a possibilidade de que um dia ajudaria a equipar uma gigantesca nave que traria seu Eram ativos como as abelhas e obstinados como um nome. lobo faminto, que se encontra na pista de um alce. Por certo, os terranos estavam muito ligados à sua Trabalhavam assiduamente, sem demonstrar um fervor história. Se dependesse dos homens que trabalhavam no excessivo. Os movimentos eram precisos, os cálculos estaleiro, teria de reuni-los ao menos quatro vezes por exatos, e cada um sabia de cor onde devia pôr a mão. semana para contar histórias de minha longa vida. Mas Faziam seu trabalho numa excelente disposição de nem pensava em aceder a esse desejo, pois não me ânimo que, por si só, removia as dificuldades e levava as esquecera dos sofrimentos que nessas oportunidades me relações entre os cientistas, oficiais e tripulantes a um nível eram impostos por meu segundo cérebro. Assim que o excelente de descontração. O observador estranho poderia setor de memória funcionasse a plena potência, o fluxo até ser levado a acreditar que se tratava de uma grande normal dos meus processos normais estaria interrompido. família. O ativador celular demonstrou sua presença por uma Era um amontoado, uma atividade febril, um retumbar, pulsação quase imperceptível. Um tanto surpreso, franzi a martelar e chiar que só se via e ouvia num dos grandes testa. Esse aparelho misterioso, do estaleiros espaciais. tamanho de um ovo, começava a Personagens principais Fiquei profundamente impressionado. funcionar quando meus tecidos celulares deste episódio: Há uma hora o engenheiro-chefe do precisavam de certos estímulos. Estava estaleiro XIV me pedira encarecidamente apenas esgotado? Ou será que, mais uma Atlan — O imortal que fica que abandonasse a cúpula polar superior apavorado com a leviandade dos vez, meu organismo passava por um do novo supercouraçado espacial, a nave terranos. processo que os biólogos terranos Kublai Khan, uma vez que perturbava o identificariam pela expressão serviço de seus colaboradores. Perry Rhodan — Administrador “regeneração tempestiva de células que do Império Solar. Um tanto irritado, saí do recinto. já deviam estar mortas?” Afinal, havia sido eu quem refletira por Era provável que jamais conseguiria Primeiro-Tenente Baldur dias a fio sobre a melhor maneira de decifrar o mistério do micro-ativador, que Sikermann — O homem que retirar o transmissor fictício do velho domina os controles da nave há uns dez mil anos me conservava a couraçado Ganymed e instalá-lo no posto Califórnia. juventude e o vigor. O único ser, que de armamentos da Kublai Khan. poderia esclarecer-me a esse respeito, Mas quando cheguei à pequena Dr. Sköldson — O médico-chefe estava “desaparecido” desde o momento que não encontra entre os comporta de passageiros, situada mil e em que ocorrera o desastre com o planeta tripulantes da Califórnia duzentos metros abaixo da cúpula, meus artificial Peregrino. nenhuma vítima para sua injeção. ressentimentos já se haviam dissipado. Aquilo acreditara poder descansar por Uma coisa não se poderia negar a Fellmer Lloyd — O mutante que um instante de sua dimensão temporal. esses bárbaros: eram honestos! Era deixa de procurar o médico por Eu tinha uma ideia bem nítida daquilo acostumado a submeter meus atos e causa de uma placa. que uma inteligência imaterial deveria sentimentos a uma rigorosa autocrítica e, entender por um instante. Talvez esse por isso, constatei depois de alguma instante demorasse mais de cinquenta reflexão que realmente perturbara o trabalho dos homens anos!... no estaleiro. A coluna de apoio mais próxima da Kublai Khan O cientista foi feito para indicar determinada rota ao ficava a uns cem metros de distância. Aquela construção especialista. Uma vez concluídos meus estudos, minha gigantesca, com o diâmetro de uma torre, obstruía a visão presença se tornara dispensável. Os engenheiros da equipe para o abismo tenebroso que se abria embaixo da calota de Michels não precisavam de conselhos para prender o polar. Homens e materiais desapareciam em quantidades transmissor em suas bases e montar as instalações de força. inacreditáveis por lá. E foi assim que ainda estava sentado na mesma caixa Provavelmente haviam passado pela mesma de plástico, que trinta minutos antes escolhera para experiência que eu. Deveriam ter levado semanas ou até descansar. meses para vencer a claustrofobia. Afinal, não era Dali via perfeitamente os flancos abaulados do gigante nenhuma brincadeira ter alguns milhões de toneladas de esférico de mil e quinhentos metros de diâmetro, ao qual aço de Árcon bem em cima da cabeça da gente. Bastaria fora dado o nome Kublai Khan. Ao que parecia, Perry que uma das colunas de apoio vergasse, ou afundasse no Rhodan fazia uma ótima ideia do grande chefe mongol, solo de concreto, para que houvesse um acidente de que chegara a criar um império mundial. consequências gravíssimas. Com um sorriso no rosto, deixei que meus Assustei-me ao ver subitamente uma sombra. Alguém

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se aproximara por trás. No último instante, o setor lógico de minha mente me avisou de que por aqui não havia inimigos ou atacantes. Meu corpo retesado descontraiu-se. — Olá! — disse com uma lentidão proposital. — Será que viu um fantasma? A gente não deve aproximar-se que nem um felino de uma pessoa nervosa. Virei à cabeça. O engenheiro Michels, chefe do estaleiro XIV, soltou uma estrondosa gargalhada. Seu cabelo louro-claro saía sob o boné, e o macacão dava a impressão de ter sido posto de molho num recipiente com óleo queimado. Fungou ao levantar o pé e colocá-lo sobre a caixa de plástico alongada. Enxugou o suor que lhe corria pela testa. — Que vida de cachorro, não é? — observou. — Querem que a gente faça tanta coisa. — É verdade — respondi ao acaso. Estava tramando alguma coisa; eu sentia. Às vezes, esses terranos desenvolviam um senso de humor capaz de levar um arcônida à beira da loucura. E essa característica sempre me surpreendia, embora já vivesse há tanto tempo entre os homens. Mais cinco aproximaram-se. Atrás deles, uma plataforma antigravitacional de carga planou silenciosamente. Um deles dirigia o veículo com gestos descuidados. Mantinha o pequeno aparelho de teledireção na mão como se fosse um brinquedo. Assim que me viram, os recém-chegados começaram a rir, como que a um comando. Com um leve mal-estar perguntei-me qual poderia ser o motivo de tamanha alegria. Mais uma vez, lamentei não ser um telepata. Michels estava de pé ao meu lado e me proporcionava uma sombra agradável. Faltava pouco para o meio-dia. O céu azul e límpido do antigo deserto de Gobi estendia-se acima de minha cabeça. Do lugar em que me encontrava, não via os arranhacéus da cidade de Terrânia. A silhueta da Kublai Khan era imensa e enchia todo o campo de visão. — Que coisa! — disse um tenente muito jovem do Serviço de Segurança. Era um dos cinco membros do comando de transporte. Fitei-o prolongadamente e comecei a bater nervosamente com as solas grossas das botas contra a caixa de plástico. Depois de algum tempo, Michels disse em voz baixa: — Almirante, o senhor permite que o informe de que está sentado bem em cima do detonador de uma bomba catalítica de quinhentos megatons? Se Sua Excelência quisesse ter a bondade de abandonar esse local tão perigoso para o descanso... Quando dei conta de mim, já estava correndo. Ouvi as gargalhadas estrondosas dos homens atrás de mim. Essa gente nem parecia ter nervos! Agora já compreendia por que aqueles oficiais armados me olharam de forma tão estranha, quando pouco antes sentei naquela maldita caixa. E esses rapazes nem

pensaram em avisar-me de que estava cometendo um engano apavorante. Ainda cabia outra consideração. Como é que se coloca um recipiente de plástico com um conteúdo tão perigoso em um ponto qualquer do estaleiro? “É a fase final do aprovisionamento, seu idiota!”, foi a mensagem lacônica transmitida por meu segundo cérebro. De qualquer maneira só parei de correr quando aquela gente maluca não me via mais. Ofegante, encostei-me contra o quadro de comando de um aparelho robotizado de controle de material, que fazia mais uma verificação de todas as mercadorias entregues, a fim de detectar eventuais erros de fabricação. Dali a poucos instantes eu fui expulso mais uma vez. Cheguei à conclusão de que o estaleiro realmente não era meu lugar. Só vira uma aglomeração como esta durante a grande guerra, há dez mil anos. Naquela época, meu povo lutava pela sobrevivência das raças humanoides. O inimigo encarniçado foram os respiradores de metano do setor das nebulosas da Via Láctea. Isso já fazia muito tempo. Hoje, os problemas eram outros. Mais uma vez, a Galáxia estava tumultuada, mas desta vez não se tratava de nenhum ataque de seres que respiravam gases venenosos. Os seres vindos de outra dimensão temporal foram designados por algum tempo como os uuns. Além de Rhodan, pouca gente conhecia a origem desse nome. Certos animais encontrados assim que se penetrou pela primeira vez na outra dimensão temporal emitiram sons abafados que soavam como “uum”. No mesmo momento, um tenente leviano da Frota Solar teve a denominação na ponta da língua. Neste ponto os humanos costumavam ser muito rápidos. Mais tarde, por intermédio de um robô aprisionado, ficamos informados que os verdadeiros donos da outra dimensão eram os druufs. Estava sacudindo os últimos resquícios de contrariedade e pretendia chamar meu carro voador, quando o pequeno videofone de pulso emitiu o sinal de chamada. O General Deringhouse — um dos colaboradores mais antigos de Rhodan, que se conservara jovem em virtude da ducha celular aplicada no planeta Peregrino — surgiu na minúscula tela. Em seu rosto notava-se uma estranha indiferença. — Mensagem do chefe, Sir — disse em tom lacônico. — Poderia comparecer imediatamente ao quartel-general do Serviço de Defesa? Pode? O.K. Muito obrigado. Perplexo, fitei a tela que se apagava. Deringhouse desligara imediatamente. Fora um convite muito estranho. Sabia que Rhodan se encontrava no sistema de Mirta, com grandes contingentes da frota solar. Nos últimos dez meses, uma base da frota solar fora instalada no planeta Fera Cinzenta, que era o sétimo mundo do sistema que girava em torno do sol distante. Sabíamos perfeitamente que, dentro em breve, ocorreria uma invasão temporal dos druufs nas proximidades dessa estrela, mas desta vez não 6


pretendíamos aguardar de braços cruzados até que o desastre chegasse. Já sabia muito bem qual era o aspecto dos mundos despovoados da Via Láctea... Neles acontecera aquilo que já vira dez mil anos antes, quando exercia as funções de comandante de uma esquadrilha arcônida. Dali a dez minutos, meu veículo pousou na cobertura do grande edifício. Um robusto oficial com cabelos louros cortados à escovinha e olhos azuis e francos me foi apresentado após a conferência. Durante esta, os dirigentes do Império Solar me informaram em palavras lacônicas que, nas proximidades do sistema de Marte, foram avistadas gigantescas zonas de superposição. O homem, que acabara de conhecer, era um coronel chamado Marcus Everson. Um olhar para os distintivos deixou-me ciente de que tinha diante de mim experimentado oficial das forças espaciais, consagrado em inúmeras missões. — Muito prazer, almirante — disse Everson. — Neste momento, o Coronel Everson é investido no comando da Kublai Khan — disse Deringhouse em tom apressado. — Peça que Marcus lhe conte o que aconteceu durante o voo de regresso do planeta Epan. E olhe que sua tarefa consistia unicamente em trazer o agente cósmico Goldstein. Everson sorriu. — Por pouco um homem que usava o nome de Mataal e alegava ser um nativo do planeta Epan não se apodera de minha nave. Conhece alguma raça galáctica cujos membros se pareçam com grandes morcegos? São dotados da capacidade de realizar o reagrupamento das moléculas. Esse nosso “amigo” conseguiu pôr fora de ação um por um dos meus tripulantes. Mas acabou cometendo um erro fatal. Acho que é só isto... Everson fez um suspense, mas manteve-se calado. Parecia pensativo. Imaginei perfeitamente o que deveria ter acontecido a bordo da pequena nave. — Michels comunica que a instalação do transmissor fictício já foi concluída — disse Deringhouse. — Pedimoslhe que decole imediatamente com a Kublai Khan. Neste momento, a nave está sendo levada para fora do estaleiro. Acho que ficará satisfeito com Everson no comando, Atlan. Conhece nossos supergigantes. Bastou lançar-lhe um olhar para convencer-me em definitivo de que ficaria satisfeito. Everson acompanhara a ascensão da antiga Terceira Potência, dirigida por Perry Rhodan. Naquele tempo, eu ainda era de opinião que deveria fazer alguma coisa para dar uma lição à Humanidade. Os tempos estavam mudados. Os três mundos de Árcon, onde ficava minha distante terra natal, estavam sendo governados por um supercomputador, cuja programação evidentemente não era adequada ao exercício de uma política galáctica racional e humana. Dali a alguns minutos, quando conversava com o coronel sobre as possibilidades de utilização da Kublai

Khan, recebemos uma mensagem de rádio vinda das profundezas da Via Láctea. O impulso condensado e codificado vinha do setor de Mirta, situado a 6.562 anosluz da Terra. Assim que a mensagem foi decifrada, vi Deringhouse empalidecer. Estendeu-me a fita de plástico sem dizer uma palavra e com uma expressão de insegurança no rosto. Ocorreu caso Potomaque. Estado de emergência a partir de 1o de agosto de 2.043, 24 horas. Leis de exceção em vigor a partir de hoje. Impedir decolagem frota mercante, segundo instrução A-3, até segunda ordem. Atlan voltará à base. Ass. Rhodan, chefe da Frota Espacial e Administrador do Império Solar. Levei alguns segundos para digerir a informação. Então chegara a hora! Nossos cálculos estatísticos sobre o grau de probabilidade de superposição total no sistema de Mirta revelaram-se corretos. Coloquei a fita de plástico sobre a mesa e fitei um por um os oficiais presentes. As leis de exceção trariam certas conseqüências desagradáveis para os habitantes do planeta Terra. Ainda haveria numerosas indagações, que, por questões de sigilo oficial, não poderiam obter respostas verídicas. Em meio a tais reflexões, disse lentamente: — Então é o caso Potomaque? Isso significa que as frentes se estabilizam. Senhores torna-se necessário que tomem certas providências destinadas a evitar que, em amplos círculos da população, passem a ser considerados como instrumentos dóceis de um grande ditador. Divirtase, Deringhouse! Deringhouse olhou-me com certa insegurança, mas logo voltou a controlar-se. — Conseguiremos — disse com a voz tranquila. — Isso já era esperado. Faça o favor de decolar imediatamente, almirante. No sistema de Mirta, precisarão mais do senhor do que em Terrânia. Por aqui saberemos manejar as coisas. Dali a vinte minutos eu desci do meu planador aéreo. As paredes gigantescas do supercouraçado ergueram-se à minha frente. A Kublai Khan estava pronta para decolar. O imediato do gigante espacial apresentou-se na comporta inferior. Fui recebido com o cerimonial pomposo, introduzido a pedido de Rhodan. Talvez isso não fosse tão errado, pois ajudava a disciplina. Na antiga frota arcônida, vigoravam disposições semelhantes. Observei atentamente as unidades completamente equipadas da esquadrilha de defesa interplanetária, que se encontravam sob o comando do próprio Deringhouse. Entre as naves que permaneceriam por ali, para defender o sistema solar, encontravam-se as mais velhas das supergigantes, a Titan e a General Pounder. Além disso, havia numerosos cruzadores da classe Sol e várias unidades leves e pesadas das novas séries. O que a Terra conseguira criar no espaço relativamente curto de setenta anos não podia ser desprezado. Ouvi o ruído surdo de alguns cruzadores da classe 7


Estado que decolavam. Antes que fôssemos atingidos pelas ondas cálidas de compressão, já me encontrava no elevador antigravitacional da comporta inferior. Acima de minha cabeça, abriu-se o ventre da Kublai Khan, um veículo espacial dotado das conquistas mais recentes da tecnologia. Marcus Everson, o comandante, fez continência, encostando a mão ao boné de serviço. Na grande sala de comando da supernave reinava a atmosfera excitante, formada por uma atividade aparentemente inútil, que me fascinava toda vez que penetrava ali. As informações vindas da sala de máquinas sucederam-se em rápida sequencia. Bem abaixo de nós, os reatores monstruosos das numerosas unidades energéticas começaram a rumorejar. Era um ruído capaz de agitar todos os nervos de um homem da minha estatura mental. Fascinado, fitei as grandes telas da galeria panorâmica. Por enquanto as instalações do maior espaçoporto terrano brilhavam nas superfícies tridimensionais, mas, instantes depois, o quadro modificou-se por completo. O único sinal da decolagem da Kublai Khan era o trovejar potente das unidades propulsoras, que funcionavam a dois por cento de sua potência máxima. O empuxo foi suficiente para fazer a esfera de mil e quinhentos metros de diâmetro penetrar no céu azul do meio-dia. Sabia que no espaçoporto todos se haviam abrigado. As ondas de compressão produzidas pelas grandes naves tinham uma triste fama, muito embora todo comandante fosse bastante cauteloso para levantar voo com o mínimo possível de potência. E com uma nave do tamanho da Kublai Khan, tal cautela teria de ser redobrada. Por isso mesmo, os supercouraçados costumavam decolar sempre das pistas mais afastadas. Os gigantescos mecanismos de absorção de pressão neutralizaram as tremendas energias geradas pela força da inércia. Nem sequer senti os efeitos da lei natural que quase causara a morte de Perry Rhodan, por ocasião do primeiro vôo tripulado à Lua. Apoiada sobre colunas de impulso, a gigantesca bola de aço corria, leve e facilmente, em direção a seu elemento: o espaço livre. Suspirei aliviado e recostei-me na poltrona articulada. Então chegara a hora! Os seres que destruíram minha esquadrilha, dez mil anos atrás, receberiam uma amarga lição. Minha luta não fora em vão. Durante a ligeira sequencia de ideias, meu setor de memória começou a funcionar imediatamente. Até parecia que meu segundo cérebro apenas esperava um impulso da parte consciente de minha mente, para dar início a mais uma dolorosa narração. Com um tremendo esforço, procurei vencer a crise que se iniciava. No momento seria um absurdo relatar coisas que se haviam passado há tanto tempo. O velho Império Arcônida deixara de existir na sua forma originária. Minhas energias pertenciam aos habitantes da Terra,

daquela mesma Terra que ainda chegara a conhecer sob outra conformação geológica. O rugido dos dezoito conjuntos propulsores cresceu. Depois de cruzar a órbita da Lua, a Kublai Khan aumentou a velocidade. Mais uma vez, não senti a pressão provocada pela aceleração. Os novos aparelhos de absorção eram excelentes. Vi um sorriso nos lábios de Marcus Everson. Aquele homem inspirava confiança. Chegava a apresentar certa semelhança com meu antigo mestre, o Capitão Tarts, comandante da Tosoma.

2 Everson era mesmo um sujeito maluco. Não havia nenhuma necessidade de vencer toda essa distância numa única transição. Vencemos num único salto a distância apreciável de 6.562 anos-luz, fato que provocou uma dor de rematerialização bastante intensa. Uma viagem pelo hiperespaço da quinta dimensão, que pode ser compreendida em termos subjetivos, mas nunca chegou a ser inteiramente explicada em termos práticos, muitas vezes deixava as pessoas fortes totalmente arrasadas, enquanto conferia uma sensação de força a indivíduos aparentemente fracos. Ninguém sabia prever a reação de cada indivíduo durante o processo de desmaterialização. Senti-me totalmente abalado, física e mentalmente esgotado. Um engenheiro nervoso procurava controlar o funcionamento do novo neutralizador de vibrações. Tratava-se de um aparelho criado para absorver as vibrações e impedir a localização goniométrica da nave. Lancei um olhar para a tela diagramática dos controles automáticos. A linha verde e recortada era perfeita e uniforme, o que provava que Everson fora bem sucedido. — Isso poderia ter acabado mal, não poderia? — perguntou. A resposta do engenheiro foi proferida em voz tão baixa que ninguém conseguiu entendê-la. Mas, ao que parecia, não dissera nenhuma gentileza. Everson riu numa atitude de indiferença. Mais uma vez, tive oportunidade de constatar que o intercâmbio entre superiores e subordinados era franco e descontraído. Com um gemido, ergui-me da poltrona. Naquele instante viam-se cinco planetas nas telas da galeria panorâmica. Bem à nossa frente, estava a bola incandescente de um estranho sol que, segundo os dados apurados, só poderia ser a estrela Mirta. Cambaleei em direção aos painéis de controle e acomodei-me na poltrona do substituto do comandante. Antes que desse conta de mim, a Kublai Khan estava pousando. 8


Conhecia o planeta Fera Cinzenta por causa de uma tarefa destinada a capturar traidores fugidos. Por pouco, na ocasião, o computador-regente de Árcon não teve conhecimento da posição galáctica da Terra. Graças à intervenção de um homem arrojado, conseguimos impedir a provável destruição dos mundos solares. Assim que penetramos nas camadas mais densas da atmosfera e ouvimos o uivar produzido pelo deslocamento das massas de ar, recebemos também as primeiras mensagens de rádio emitidas, ao que parece, por uma potente estação instalada na superfície do planeta. A mensagem foi transmitida em ondas ultracurtas comuns, que se deslocavam à velocidade da luz, o que era sinal de que já se tornava possível dispensar o hiper-rádio, que facilitava a localização goniométrica. O rosto de Rhodan surgiu numa das telas. Levantou a mão a título de cumprimento. Não gostei de seu sorriso. Parecia uma contração rotineira e indiferente dos lábios, onde não havia a menor cordialidade. Seu rosto estreito tornara-se ainda mais magro. Fazia meses que não o via, já que a tarefa de instalar o precioso transmissor fictício no interior da Kublai Khan me mantivera totalmente ocupado. — Sejam bem-vindos — disse Rhodan. Tive a impressão de que seus pensamentos estavam num lugar muito diferente. — Pouse na pista três. A linha de aproximação lhe será indicada. Peço evitar qualquer demonstração desnecessária de “fogos de artifício”. As ondas de impulsos também emitem certa dose de radiações de choque, que, conforme as circunstâncias, podem ser detectadas pelos instrumentos de medição da quinta dimensão. A observação deixou-me abalado. Desde quando existia esse risco de localização goniométrica? — Mas isso só acontece quando o goniômetro se encontra a uma distância inferior a quatro horas-luz — respondi com a voz tensa. O sorriso que Rhodan passou a exibir parecia triste. — É o que você diz arcônida. É provável que algumas naves inimigas se encontrem na periferia deste sistema estelar. Por isso peço que, na medida do possível, durante o pouso, sejam utilizados apenas os campos antigravitacionais. É só. Daqui a pouco nos veremos. Desligo. A tela apagou-se. Ouvi Marcus Everson soltar um assobio estridente. Seu rosto largo perdera a expressão de autossatisfação. — O senhor compreende isto? — perguntou em tom indiferente. A mão direita comprimia a chave de sistema de intercomunicação. A troca de mensagens com a central energética não me permitiu responder. — Todas as unidades ativarão os campos antigravitacionais — disse o comandante com a voz calma. — O chefe não que saber de ondas de impulsos. Peço confirmação.

Marcus repetiu a pergunta. Contemplei as telas que exibiam as paisagens já conhecidas do antigo planeta colonial. Rhodan mandara transformá-lo numa base avançada da Frota Espacial. O custo chegou a aproximadamente setenta bilhões de solares, que era a unidade monetária do pequeno reino estelar. No momento em que as instalações surpreendentemente extensas do espaçoporto surgiram embaixo de nós, e a Kublai Khan foi reduzindo seu movimento pendular sob a ação dos campos antigravitacionais, compreendi a ordem de Perry. — O senhor acha possível que o computador-regente não tenha percebido nada do surgimento das frentes de superposição? — perguntei em tom apreensivo. — Não? Pois bem; aí está a solução. Pelo que conheço da máquina, a mesma, graças à sua programação unilateral e à “falta de ideias”, mais uma vez recorreu ao velho meio já consagrado. Enviou uma frota gigantesca que deverá atacar e procurar forçar o novo inimigo a submeter-se ao domínio de Árcon. “O cérebro positrônico nunca compreenderá que os tempos mudaram. Por sua própria natureza mecânica é totalmente incapaz de compreender a existência de outra dimensão temporal. Face a isso, temos de contar com o aparecimento de algumas naves de reconhecimento. É claro que Rhodan não está interessado em que a base de Fera Cinzenta seja descoberta logo após sua instalação. O senhor pode imaginar perfeitamente o que isso significa.” Everson não disse mais nada. Dali a alguns minutos, os mecanismos de propulsão situados na protuberância equatorial da Kublai Khan começaram a trovejar. O ruído doeu em nossos ouvidos. Os homens da sala de comando lançaram-nos um olhar apavorado. — Desliguem! Que diabo! — gritou Everson. Já estava tudo terminado. As placas de apoio das colunas hidráulicas tocaram o pavimento de plástico blindado do novo espaçoporto. O rumorejar cessou. Aguardamos com a respiração contida os últimos ruídos. — Isso ainda pode ficar divertido — disse alguém em tom apreensivo. Olhei para trás. As palavras haviam sido ditas por um jovem oficial que ostentava as insígnias da recém-criada Academia Lunar. Caminhei lentamente em direção à escotilha da sala de comando. Sabia que Rhodan já nos esperava. O procedimento de um cérebro eletrônico-positrônico, dotado de controle individual semiorgânico, só pode ser previsto por alguém que tenha informações razoavelmente exatas sobre a respectiva programação. Não sabia o que meus antepassados colocaram há cerca de cinco mil anos nos setores de armazenamento de dados do gigantesco computador. Mas uma coisa era certa: o computador-regente achava-se num estado de enorme confusão. Ao que parecia, seu mecanismo se encontrava 9


em desordem, motivo por que ordenava medidas que poderiam ser consideradas normais numa guerra colonial comum, travada entre diversas inteligências da Via Láctea. Mas parecia totalmente errado aplicar os mesmos princípios numa luta contra inteligências que nem sequer provinham do Universo einsteiniano. *** Encontrávamo-nos a bordo do novo cruzador Califórnia, a menos de dez anos-luz do planeta Fera Cinzenta. Tratava-se do sétimo mundo do sol Mirta, e dessa forma nem sequer havíamos atingido os limites do gigantesco sistema. Ainda tínhamos pela frente as órbitas dos planetas exteriores. Eram gigantescos mundos gasosos, frios e desabitados, que não pareciam preencher a menor finalidade. Um total de quarenta e nove corpos celestes gravitavam em torno de Mirta, mas apenas dois deles eram habitados. Às dez horas-luz foram vencidas em queda livre, independentemente da utilização dos propulsores. Pouco depois da decolagem, alguém me mostrara qual era a capacidade de aceleração dos novos cruzadores da classe Estado. Em pleno espaço interplanetário do sol Mirta, realizamos uma emocionante manobra de frenagem. A desaceleração chegara a mil quilômetros por segundo ao quadrado. A Califórnia era uma nave de reconhecimento ultrarrápida, cuja blindagem e armamento haviam sido grandemente sacrificados em virtude dos propulsores superdimensionados. Ao que parecia, na Califórnia fora aplicado o velho princípio dos construtores de unidades navais: mais rápida que as naves mais potentes, e mais potente que as unidades mais velozes. Já examinara as salas de máquinas do veículo espacial. A rigor, a nave poderia ser considerada uma bomba voadora, ou um gigantesco mecanismo de propulsão fracamente protegido, que bastaria perfeitamente para tanger um gigantesco couraçado pelo espaço. No entanto, a Califórnia representava mais alguma coisa... Suas finalidades eram perfeitamente definidas e, por isso mesmo, limitadas. Poderia surgir com uma rapidez espantosa, atacar e voltar a desaparecer. Só o futuro mostraria se deixara atrás de si danos de monta. Senti-me bastante impressionado pela nave esférica de cem metros de diâmetro. Ela transmitia uma sensação de segurança, desde que na ponte de comando se encontrasse um comandante que não fizesse questão de dar provas de seu arrojado heroísmo. Nesse caso, os campos defensivos bastante débeis do cruzador não resistiriam por muito tempo. Estávamos na espaçosa sala de comando, cujos instrumentos de localização eram outro sinal de poderio do

cruzador. Jamais vira tipos mais eficientes. As telas da galeria panorâmica, cujas dimensões pareciam excessivas para um cruzador, mostravam uma série de ocorrências que quase me deixou sem fôlego. Nelas fervilhava e brilhava o poderio da Via Láctea. Meu segundo cérebro emitiu pulsações fortes e dolorosas, pois manifestava a tendência de levar-me a contar histórias. Começava a ser tomado por uma lembrança muito viva dos acontecimentos desenrolados durante a chamada guerra do metano, travada há dez mil anos da contagem de tempo terrana. Tive de esforçar-me ao máximo para resistir à tendência. Não queria contar, mas realizar uma experiência consciente. Reginald Bell, o representante de Rhodan, encostara o corpo na poltrona do comandante. Pitava as telas com os olhos semicerrados. Essas telas funcionavam segundo o princípio dos impulsos de velocidade superior à da luz e da interpretação dos ecos. Não podíamos ver as naves que se encontravam a vinte anos-luz de distância como se estivessem à nossa frente. No entanto, o tamanho e o formato das manchas verdes e luminosas permitiam uma conclusão sobre o número de naves espaciais de todos os tipos, reunidas na área. Não havia ninguém a bordo que não fosse capaz de conceber um quadro nítido com base nos ecos. — São pelo menos mil unidades da classe Stardust — disse Bell. — É inconcebível! O computador deve ter lançado mão de tudo que se encontrava nos hangares subterrâneos de Árcon III, não é? Olhei o homem gordo e baixo com um sorriso irônico no rosto. Bell tinha uma ideia errônea do poderio do Grande Império. — O senhor está enganado! — observei sem o menor triunfo na voz. Rhodan virou seu rosto expressivo. — Está enganado? Confirmei com um gesto triste. — Não se deve subestimar a capacidade de um império estelar que possui mais de cem mil planetas industriais. Em todos eles há estaleiros espaciais, e em todos os estaleiros estão sendo construídas naves. É verdade que se constrói segundo um esquema preestabelecido, mas sempre se constrói. Se visse cem mil naves à minha frente, não me espantaria nem um pouco. Rhodan lançou-me um olhar de incredulidade, enquanto Bell deu uma risada angustiosa. — Que loucura! — afirmou. Sabia mais que isso, mas preferi ficar calado. Seria inútil tentar explicar aos terranos até onde ia a potencialidade do Império. A central de localização deu o sinal de chamada. John Marshall, chefe do poderoso Exército de Mutantes, estava no aparelho. — São cerca de trinta mil unidades de diversos tamanhos — anunciou. — E o que está havendo não são simples combates, mas verdadeiras batalhas que estão 10


sendo travadas com uma fúria inacreditável. Nunca vi ondas de choque como estas. Os dedos de Rhodan começaram a brincar nervosamente com as teclas do controle de fogo. A Califórnia era uma nave relativamente pequena, e por isso não possuía uma sala especial para o controle de armamentos. — Trinta mil, não é? — repetiu em tom automático. — O que acha disso? Levei alguns segundos para compreender que essas palavras haviam sido dirigidas a mim. Olhava fixamente para os rastreadores estruturais. Nas telas diagramáticas, via-se um chamejar constante, mas este não provinha exclusivamente das inúmeras transições realizadas pelas estranhas naves. Mantendo-se constantemente visível, a suave linha ondulante indicava algo que se parecia com um abalo estrutural. No entanto, não se tratava das ondas de choque produzidas pelos abalos energéticos de plano superior, mas da superposição ameaçadora de dois planos espaçotemporais quase incompreensíveis. Já dispúnhamos da interpretação dos dados. Não havia a menor dúvida de que desta vez não se tratava de uma frente relativista, mas de uma chamada zona de descarga, que se mantinha estável há 36 horas, tempo-padrão. — Quero saber sua opinião — disse Rhodan em tom obstinado. Só se viam vagamente os contornos dos rostos dos homens que nos cercavam. Havíamos desligado todas as luzes, para facilitar a observação das hiperimagens. — Minha opinião? — disse com a voz embargada. — Bem, minha opinião é a seguinte: vocês já conhecem minhas experiências passadas. Acontece que os últimos cálculos demonstram que a dimensão temporal dos druufs, que mantém uma relação de um para setenta e dois mil com a nossa, não admite a ideia de passado, no sentido em que acabei de empregar o termo. Desde o momento em que travamos a batalha em defesa do sistema solar terrano, para essa gente não se passaram mais de dois meses. Formulo estas observações preliminares para deixar clara nossa situação. Rhodan parecia tranquilo. Voltara a colocar uma máscara: a máscara do autodomínio absoluto. — Como vão continuar as coisas? — O tempo das frentes relativistas com a característica típica do rapto temporal já passou. Naquele tempo, numa situação semelhante, vi formações energéticas com o aspecto de funil, em pleno espaço aparentemente vazio. Tratava-se de zonas de descarga, por meio das quais se realizava a compensação da diferença do conteúdo energético dos dois Universos. Os funis correspondiam a condutores de primeira qualidade, que estabeleciam o equilíbrio das forças. Tratava-se de um fenômeno natural, que não era dirigido por seres pensantes. Acontece que, no caso presente, as coisas parecem bem piores. Fiquei calado por um instante, a fim de observar mais

detidamente o fenômeno da curva representativa das ondas de choque, que quase estava tomando a configuração de uma reta. — Se considerarmos a diferença de um para setenta e dois mil nas dimensões temporais e o deslocamento de massa que se verifica nos pontos de concentração materialmente estáveis, situados no plano dos druufs, chegaremos à conclusão de que os fenômenos já verificados foram apenas um precursor daquilo que vemos agora. Infelizmente ainda não podemos realizar a observação ótica do fenômeno, uma vez que a luz comum ainda não teve tempo de percorrer a distância de vinte anos-luz. Se isso já tivesse acontecido, vocês veriam as aberturas de funis luminosos vermelhos, que se confundem umas com as outras até assumirem progressivamente a forma de uma fenda longa e relativamente estreita no negrume do Universo einsteiniano. “É esta a nova zona de descarga, que se mantém estável, e que, segundo nosso cálculo de tempo inteiramente arbitrário, teve início há cerca de dez mil anos. A esta altura, já devemos ter compreendido que essa contagem de tempo não tem validade para outros mundos. Ao que parece, bárbaro, você poderá dispensar daqui em diante a complicada aparelhagem destinada à criação de um campo de refração. Daqui em diante você poderá atravessar livremente essa zona, desde que eles o deixem passar.” Não pude deixar de proferir a observação sarcástica contida na frase final, embora não tivesse a menor intenção de ofender meus amigos. E Rhodan não se sentiu ofendido. Sua resposta foi proferida em tom irônico. — Muito obrigado pela informação, almirante. Já havíamos descoberto isso. Quando pousarmos, encontraremos as primeiras sondas robotizadas, que foram enviadas a estas áreas antes de sua chegada. Elas nos permitirão a obtenção de imagens óticas normais. A finalidade deste voo consistiu exclusivamente em verificar quais as medidas tomadas pelo computador-regente face ao perigo repentino. É claro que enviou uma frota gigantesca. Não conhece outras alternativas. Engoli minha raiva e lancei um olhar furioso para o mutante Wuriu Sengu, que acabara de soltar uma risada de deboche. — Quais são as chances que você vê, bárbaro? — perguntei em tom irônico. Rhodan bocejou, cobrindo a boca com a mão. — Eu? Levantou devagar e chamou a sala de máquinas. Dali a alguns instantes, os propulsores da Califórnia rugiram e a nave aumentou a velocidade. Essa máquina voadora de alta potência era uma construção tão ousada que mesmo um engenheiro arrojado a consideraria maluca. — Olharemos cautelosamente por aí, seremos amigos de todo mundo e apertaremos as mãos de todos, desde que os seres que encontrarmos pela frente tenham mãos. 11


Quanto a você, meu caro, será um dos tripulantes da nave comandada por mim. Passaremos pela fenda do espaço einsteiniano e penetraremos no plano dos druufs. O quê? Você disse alguma coisa? Não; não dissera nada. Rhodan sorriu para mim, endireitou a fivela do cinto com as armas e desapareceu na sala de computação. Mais uma vez, perguntei-me por que esse homem se tornara tão importante. Naquele momento, tinha o aspecto de um aventureiro arrojado e dotado dos reduzidos dotes mentais de um cavaleiro da corte do Rei Artur. Mas logo refleti melhor. Perry Rhodan, um antigo major e piloto espacial da legendária Força Espacial dos Estados Unidos, no fundo, era um jogador genial, que sabia lançar seus trunfos com verdadeira mestria. E, se por acaso não os possuísse, começava a blefar. Naquele instante, não tinha nenhum ás, mas assim mesmo teve a audácia de pôr na mesa a carta denominada “domínio da Via Láctea”. Também me levantei da minha poltrona, lancei mais um olhar para as superfícies luminosas das telas de observação ótica dos setores adjacentes à nave e, dirigindo-me a Bell, disse: — O senhor realmente acreditará que, com alguns supercouraçados e cruzadores, conseguirá subjugar grandes reinos estelares? Antes de proferir sua resposta franca, passou as mãos pelos cabelos ruivos e curtos: — Não me leve a mal, meu velho, mas o senhor está esclerosado. Foi a resposta que deu a uma pergunta séria. Gucky, o rato gigante com cauda de castor, soltou alguns pios fortes. Com uma expressão de perplexidade, fitei o dente roedor colocado à mostra e senti um calafrio pela espinha. Não foi por causa do dente. Não foi mesmo! Pensava-se nos intentos de Rhodan e na resposta que acabara de receber de seu substituto, não me sentia muito à vontade. O que estariam pensando estes selvagens? Estive a ponto de lembrar-lhes que, sem o auxílio de meu venerável povo, há esse tempo teriam criado, quando muito, um ridículo reator termal para propulsionar suas naves. Talvez tivessem mesmo seguido a pista da propulsão com base em fótons. Mas era absolutamente certo que não teriam a menor ideia de um conjunto propulsor capaz de imprimir à nave velocidade superior à da luz. Preferi não dizer nada e dirigi-me à comporta. Quer dizer que eu era para Bell um indivíduo esclerosado. Eu lhes mostraria que um almirante da frota arcônida sabe lidar com as situações mais difíceis.

3

A nova base espacial de Mirta VII parecia um formigueiro! Os terranos, que num assomo de megalomania haviam dado a seu minúsculo sistema planetário o nome de Império Solar, estavam prestes a, num atrevimento por vezes proposital, fazer frente à maior potência da Via Láctea. Chegavam ao ponto de instalar uma base praticamente ao alcance dos canhões de uma grande frota espacial. Esperavam que não fosse descoberta. As intenções de Rhodan eram evidentes. Queria ser amigo de todo mundo, estender a mão a todos, a fim de transformar-se no poder que agiria atrás dos bastidores. Guiar-se-ia pelo velho princípio de que, quando dois brigam, um terceiro fica feliz. Ninguém poderia levar a mal que, ao avaliar todos esses fatores, me sentisse martirizado pelas dúvidas. Se desta vez Rhodan não estava arriscando demais, não queria chamar-me Atlan. Mesmo ele, que costumava raciocinar com tamanha precisão, ultimamente dera para subestimar o computadorregente de Árcon. E, o que me deixava mais nervoso, era o fato de que os outros seres da Galáxia eram considerados, por assim dizer, como fatores desprezíveis. A autoconfiança entre aqueles seres era um mal que tinha sua origem única e exclusivamente na existência dos mutantes. Confiavam demais nessa gente. Esqueciam-se de que outras inteligências também são capazes de aprender com a experiência. Em face de todos esses dados, deduzi que os homens, que haviam se elevado tecnologicamente, ainda não tinham atingido a verdadeira maturidade. Os primeiros êxitos registrados por Rhodan foram o resultado de um efeito-surpresa quase infinito. Sentia que um golpe doloroso estava iminente. Sem dúvida era uma loucura rematada pretender, com alguns poucos couraçados e cruzadores, fazer frente a um Império, cuja indústria funcionava há milênios em função das guerras galácticas. Houve outros homens que fizeram algumas advertências. Rhodan reconhecia a validade dos meus argumentos, mas acreditava que saberia enfrentar os perigos que sem dúvida haviam de surgir. Quem dera que ao menos não tivesse instalado sua base justamente no planeta Fera Cinzenta! Em face de tudo isso surgiu algumas divergências sérias entre mim e Rhodan, mas nossas relações não adquiriram um matiz inamistoso. De resto, não era de meu feitio bancar constantemente a Cassandra. Afinal, o problema era deles. *** Os terranos já haviam conseguido construir os misteriosos transmissores fictícios de matéria, com base 12


nos planos de que dispunham. Até então, a fabricação sempre se tornara impossível em virtude da falta das necessárias microusinas energéticas, uma vez que esses transmissores não podiam funcionar sem suprimento energético próprio. Só em casos raríssimos podia-se recorrer a fontes de energia estacionárias, ou seja, imóveis, que face às exigências técnicas não podiam possuir condutores mais longos. Até aquele momento, não se conseguira desvendar o motivo lógico do problema. Para que um transmissor funcionasse perfeitamente, tornava-se necessário que o suprimento de energia proviesse da base do aparelho. Provavelmente isso decorria de fenômenos de desmaterialização da quinta dimensão, cuja criação só se tornava possível mediante o campo de força ligado a uma fonte de energia. As grandes naves do Império Solar possuíam ao menos um desses aparelhos transportadores. Assim tornava-se possível trasladar pessoas e objetos a grandes distâncias de uma nave para outra, sem que houvesse necessidade de realizar as complicadas manobras de abordagem. O grande bárbaro de olhos cinzentos não poderia atender pelo nome de Perry Rhodan se o novo equipamento não tivesse sido enquadrado imediatamente num planejamento global. E, o modo pelo qual ele o fez, levava-me cada vez para mais perto de uma psicose de angústia. Estava namorando a ideia de desistir do auxílio voluntário, que vinha prestando à Terra, e seguir meu próprio caminho, quando recebi um chamado do quartelgeneral planetário, instalado num abrigo de grande profundidade. Naquele momento, encontrava-me a bordo da Drusus, a nave capitania da frota solar, onde tivera uma palestra prolongada com o Tenente Sikermann. Ao receber o chamado, encontrava-me na pequena cantina, situada ao lado da sala de observação. O rosto de Rhodan apareceu na tela. — “Vossa Alteza” já conseguiu acalmar-se? — disse a título de cumprimento. — Vá para o inferno, homem primitivo — respondi em tom furioso. — A menos de vinte anos-luz daqui, estão mais de trinta mil naves espaciais. Já está provado que os druufs, que penetram em nossa dimensão temporal, sofreram uma terrível derrota. Nenhuma de suas naves conseguiu sair mais de dois minutos-luz da fenda de descarga. Talvez isso sirva para provar-lhe o poderio enorme do Grande Império, muito embora, no momento, Árcon seja dirigido por uma máquina. Será que você realmente acredita que com os mutantes conseguirá tirar do seu caminho tamanha quantidade de unidades de grande poder de fogo? Eles têm uma grande área de influência. Ninguém é invencível, nem eles nem você. Acho que já está na hora de alguém lhe dizer isso claramente. O que deseja? Permaneceu calado por um instante. Depois exibiu seu rosto de jogador de pôquer.

— Suas objeções foram aceitas, almirante. Não estou disposto a arriscar as poucas naves de que disponho. Mas, assim mesmo, pretendo participar do jogo, com sua licença. — Deixe de ironia. Recomendo-lhe que guarde cuidadosamente os poucos trunfos de que dispõe. É bem possível que ainda vá precisar deles para salvar a pele. Eram palavras duras para alguém que estava habituado a registrar êxitos fulminantes. Mas Rhodan não se abalou. — Também aceito essa ponderação, arcônida. Os resultados das medições realizadas pelas sondas teleguiadas acabam de ser interpretados. Não há dúvida de que a zona de descarga pode ser atravessada sem que se torne necessário criar um campo de refração. Isso significa alguma coisa para você? — Pretende penetrar na outra dimensão temporal? — perguntei. — Exatamente — confirmou Rhodan. — A Califórnia está pronta para decolar e plenamente equipada. Resolvemos que, por enquanto, em hipótese alguma, participaremos ativamente dos atos de beligerância entre o computador-regente e os druufs. Ficaremos em segundo plano, na posição de observadores, até que saibamos com quem estamos lidando. — É a coisa mais razoável que você disse nestes últimos dias. Rhodan riu. Logo fiquei mais tranqüilo. Não era louco a ponto de aparecer de repente na frente de combate! — Decolaremos dentro de meia hora. Se quiser pode subir a bordo. — Seu hipócrita! — exclamei. — Você quer que eu suba a bordo. — Eu disse isso? Rhodan desligou. Virei-me para o comandante da Drusus. Baldur Sikermann tossia embaraçado. — Quem dera que vocês tivessem sido tragados por uma frente relativista oito mil anos antes da viragem dos tempos — observei em tom frio. — Nesse caso, teriam evitado muito aborrecimento. Desculpe, tenente, mas você me está deixando nervoso. Será que também faz parte do “clube”? O rosto largo de Sikermann surgiu atrás da mão. Sabia que era um oficial muito competente e um homem extremamente arrojado. Pertencia à classe de homens que sabem usar a inteligência no momento apropriado. — Queira desculpar, almirante. Acontece que cheguei mesmo a ser designado para comandar a Califórnia. Respirei profundamente. De repente, compreendi que Rhodan tinha a intenção de lançar seus melhores elementos naquela missão. Se Sikermann tinha de deixar a Drusus, a fim de comandar um cruzador de importância um tanto secundária, as coisas não estavam nada boas. Provavelmente a elite da raça humana iria reunir-se a bordo da pequena nave. Seria inútil formular outras perguntas. Já tinha certeza 13


de que Rhodan pretendia atravessar a zona de descarga, a fim de verificar na dimensão temporal dos druufs o que realmente estava em jogo. Não havia nada a objetar contra isso. Dali a dez minutos eu passei pela comporta inferior e saí da navecapitânia. Uma noite escura e tempestuosa pesava sobre o planeta Fera Cinzenta. Vez ou outra, uma estrela olhava pelas nuvens. No grande espaçoporto reinava o silêncio. Há algumas horas fora emitida uma proibição de decolagem, uma vez que nas imediações do sistema haviam sido localizadas estranhas naves espaciais. Caminhei a pé em direção à nave Califórnia, quase irreconhecível em meio à escuridão. As máquinas do pequeno cruzador já estavam funcionando. Diante da escotilha da comporta inferior, que estava aberta, dois guardas armados me detiveram. Totalmente perplexo, fitei os canos fluorescentes das armas energéticas. Depois de algum tempo, consegui dizer: — Será que alguém ficou louco por aqui? Pediram a senha. Naturalmente eu a conhecia. Levei alguns segundos para divertir-me com a designação antiquada. O termo palavra-código não soaria muito melhor, embora fosse mais moderno. Um sargento do comando de patrulhas espaciais fitoume com um ar sombrio. Levou algum tempo para baixar a arma mortífera. — O senhor é imprudente, almirante — disse em tom de advertência. — Recebemos ordem para atirar. — Não diga! — Isso mesmo. Ninguém pode aproximar-se a menos de cinquenta metros do cruzador sem uma autorização especial. — Será que a bordo da nave existem superbombons ou petiscos galácticos? — perguntei em tom irônico. O sargento não pôde deixar de rir. — Não é bem isso, almirante. Apenas temos um transmissor de matéria! Um transmissor? Quando finalmente pude entrar na nave, encontrava-me numa atitude pensativa. O que havia de extraordinário nisso? Qualquer nave de grandes dimensões possuía esse aparelho. Mergulhado nos meus pensamentos, dirigi-me ao camarote. Evidentemente haviam reservado meu aposento, do que concluí que Rhodan calculara com minha presença. — Que patife! — balbuciei. Dali a quinze minutos, Rhodan apareceu. Estava acompanhado de Reginald Bell e de John Marshall, um mutante simpático e retraído. Num gesto quase inconsciente reforcei meu bloqueio individual, a fim de resguardar-me da espionagem cerebral desse homem. Marshall logo esboçou um sorriso. Percebera meu gesto de defesa. — Ninguém está interessado em ler seus pensamentos — disse Rhodan em tom irônico. — Para que tanta desconfiança? Limitei-me a fazer um gesto. Afinal, estava

acostumado a controlar meus impulsos cerebrais. Examinei a figura de Rhodan. Ao vê-lo diante de mim, percebi claramente que, apesar da nossa amizade, mundos inteiros nos separavam. — Pretendo romper a frente de combate — principiou sem o menor introito. — Mas desejo não ser localizado. Os resultados da interpretação das medições realizadas pelas sondas são espantosos. Segundo estes, a dimensão temporal do plano dos druufs modificou-se, passando de um para setenta e dois mil para um para dois. Isso significa que nossos movimentos serão apenas duas vezes mais rápidos que os dos desconhecidos. Fiquei muito surpreso. Isso representava uma modificação profunda da situação preexistente. — Acho que com isso podemos considerar superada sua teoria segundo a qual, para os druufs, apenas se passaram dois meses desde os acontecimentos que se desenrolaram há dez mil anos. A não ser que o processo de adaptação das duas dimensões temporais seja muito recente. Mas sempre deveremos contar com um deslocamento. Além do esclarecimento desses aspectos, naturalmente estou interessado em conhecer o fenômeno propriamente dito. Seria inútil formularmos uma série de indagações antes de termos examinado a situação. Essas palavras pareciam razoáveis e não demonstravam o atrevimento de poucos dias atrás. Não gastamos muitas palavras no assunto. Também eu estava interessado em verificar a situação. — Estou curioso para ver como são esses indivíduos. É altamente provável que desta vez tenhamos de nos defrontar com os verdadeiros donos do Universo estranho. Segundo os cálculos realizados com base na lei das massas, o sistema natal dos druufs deve ficar nas imediações da zona de transição. Mais alguma dúvida? Não; não tinha mais nenhuma dúvida. Apenas perguntei pela carga de transmissores de que me falara o guarda. Os olhos de Rhodan começaram a brilhar. Era sinal de que tramava mais alguma coisa. — Se tivermos oportunidade, instalaremos uma base do outro lado. Seria formidável se o transmissor nos permitisse passar despercebidamente de uma zona temporal para outra. Confirmei com um gesto distraído. Ao que tudo indicava, essa ideia arrojada ocupava sua imaginação vivaz. Também refleti sobre a ideia, que de repente nem me parecia tão absurda. O transmissor de matéria funcionava com base no espaço de cinco dimensões. O objeto a ser transportado sofria uma desmaterialização no aparelho transmissor e, reduzido a um feixe de impulsos, era irradiado pelo mesmo. Num receptor perfeitamente ajustado ocorreria o fenômeno inverso. Dessa forma seria praticamente impossível localizar uma transferência realizada pelo transmissor, quanto mais interferir na mesma. 14


— Isso não seria nada mau, não é? — disse Bell em voz baixa, antes de sair do camarote atrás de Rhodan. Nem chegaram a perguntar se nessas condições estava disposto a participar da missão. Rhodan parecia conhecerme muito bem. Dali a alguns minutos eu cheguei à sala de comando. Sikermann ocupava a poltrona do piloto. Ao que parecia Rhodan e Bell não pretendiam interferir nos assuntos diretamente ligados à pilotagem da nave. No momento em que a nave se desprendia do solo, com os propulsores ligados quase na posição zero, lá fora rugia uma violenta tempestade. Era como se o planeta Fera Cinzenta nos desse um feroz adeus. A Califórnia só aumentou a velocidade quando as camadas mais densas da atmosfera de Mirta VII já haviam sido deixadas para trás. Os dados registrados pelo equipamento de localização pareciam satisfatórios. As naves desconhecidas, observadas há pouco tempo, haviam desaparecido. Ao que tudo indicava, os tripulantes consideraram o sistema de Mirta pouco interessante sob o ponto de vista tático. Rhodan ofereceu-me um caneco com café. Olhou-me com uma expressão tão irônica que o sangue me subiu à cabeça. Não precisávamos de palavras para entender-nos. — Aguarde homem das cavernas — falei em tom zangado. — Um dia eles o descobrirão... E já lhe posso dizer o que acontecerá depois disso. Sabe lá de quantos supercouraçados do tipo da Drusus dispõe o regente? Os dois transmissores fictícios lhe adiantarão muito pouco. Se vinte unidades equivalentes abrirem seu fogo cruzado contra você, haverá possibilidade de utilizar sua superarma umas seis ou sete vezes. Com isso sobrariam pelo menos treze naves. Você não terá possibilidade de disparar o oitavo tiro, pois antes disso será destruído. Deixe que um velho almirante arcônida lhe ensine alguma coisa. Já enfrentei mais combates do que você e... — Você derramou seu café — disse Rhodan, esquivando-se ao assunto. Fitei-o com uma expressão pensativa. Parecia que ultimamente descobrira as fronteiras de seu poder. Lembrei-me do que dizia a Enciclopédia Terrana, que registrava a ascensão de Rhodan. Desde aqueles tempos remotos, entre os anos de 1.971 e 1.985, ele já sabia até onde poderia chegar. Procurara e encontrara um caminho que lhe permitisse remover as resistências políticas à instalação de um governo mundial. Agora se encontrava em situação semelhante. Apenas, desta vez, tinha de contar com fatores totalmente diversos. Teria de enfrentar impérios galácticos. Não havia a menor dúvida de que os desconhecidos, vindos da outra dimensão temporal, representavam um poder equivalente ao do Grande Império. Isto eu poderia até afirmar. A Califórnia voltou a acelerar loucamente à razão de 106 km/seg. Prestei atenção ao tremendo rugido dos conjuntos propulsores que, uma vez atingida a velocidade crítica, cresceu ainda mais. Quatro dos cinco grandes

depósitos da nave continham exclusivamente tanques com reservas de matéria físsil. Consumíamos cerca de quarenta e cinco toneladas de bismuto por hora, matéria que, uma vez injetada nos conversores de impulsos, produzia um meio de apoio bastante condensado. Assim que alcançamos a velocidade aproximada da luz, passamos à transição. Observei os engenheiros da equipe de controle, que realizaram mais uma verificação do neutralizador de frequência. Se houvesse qualquer falha no funcionamento desse aparelho, a Califórnia seria inevitavelmente localizada pela frota de bloqueio arcônida. Um homem levantou a mão. Rhodan respondeu com um ligeiro aceno de cabeça. A hora chegara. A transição teve início com uma dor violenta, seguida pelo murmúrio do hiperespaço de cinco dimensões!

4 Éramos apenas um vírus no sangue de um gigante. Antes de lutar contra esses micro-organismos, o biólogo precisa identificá-los. Só depois disso poderá produzir o respectivo antídoto. No nosso caso, a Califórnia era um vírus, e o gigante correspondia à maior concentração de unidades espaciais que vira nos últimos dez mil anos. Saímos do hiperespaço à velocidade da luz e seguimos imediatamente a rota que nos levaria ao destino. Na área altamente relativista da velocidade próxima à muralha da luz, não se tornava possível a queda livre, independente do empuxo fornecida pelos propulsores. Para mantermos 98,8 por cento da velocidade da luz, nossos propulsores teriam de trabalhar ininterruptamente a plena potência. O corpo esférico do cruzador ligeiro vibrava e retumbava que nem um sino. Até então, nem mesmo os construtores terranos haviam conseguido construir uma nave silenciosa, livre das perturbações produzidas pelas ressonâncias. Os corpúsculos emitidos em compactas ondas pelos propulsores de impulsos prestavam-se perfeitamente a uma rápida localização goniométrica. Isso ainda era acrescido do fluxo de plasma da massa de apoio, que tinha de ser expelida para possibilitar a manutenção de uma velocidade tão elevada. No setor vermelho do cruzador que se deslocava vertiginosamente, as fúrias do inferno pareciam estar às soltas. Mais ou menos em 10 graus vermelho vertical e 22 graus vermelho horizontal, sóis pareciam explodir e mundos submergiam. Uma catástrofe da natureza parecia estar em pleno andamento. Não podíamos observar diretamente a luminosidade ofuscante dos inúmeros canhões de impulsos. Mas cada disparo era registrado na tela de localização energética, 15


sob a forma de um ressalto na curva de eco. A pouco menos de uma hora-luz rugia a maior batalha realizada num “espaço” tão reduzido. Os estalos e rugidos dos rastreadores estruturais indicavam que ali as transições das grandes naves espaciais eram constantes. E outras indicações dos instrumentos deixavam patente que seres estranhos, não galácticos, usavam uma tecnologia de voo à velocidade superior à da luz. Velocidade que era desconhecida de qualquer inteligência do Universo einsteiniano. Mais uma vez, surgiram os misteriosos ecos de ondas de choque, que se revelavam em curvas sinuosas e jamais poderiam provir de uma transição. Esses fenômenos só poderiam surgir se alguém voasse pelo hiperespaço! Nosso localizador de massas da quinta dimensão registrou a presença de um número incrível de naves. Ao que parecia, naquele instante, a frota de bloqueio do computador-regente estava rechaçando outro ataque dos druufs. Imaginava perfeitamente que os desconhecidos deveriam estar ansiosos para, depois da estabilização das zonas de superposição, verificar o que havia em nosso Universo. Mas não deveriam ter contado com tamanha resistência. Provavelmente acreditavam que poderiam atravessar à vontade a zona de superposição, e sem que ninguém os observasse. Bem perto de nós, a menos de dez minutos-luz, o negrume do espaço foi interrompido por uma espécie de fogo-fátuo. Parecia que um pintor maluco acabara de manipular ao acaso um enorme pincel, iluminando em vários pontos a escuridão com manchas e traços vermelhoescuros. Vez por outra, ainda se viam os conhecidos funis. Recordava-me deles em virtude de uma triste experiência. Mas a maior parte das aberturas já se haviam unido, formando uma fenda entrecortada. Era dali que provinha a luminosidade deprimente. As indicações fornecidas pelas sondas teleguiadas haviam demonstrado que a zona de descarga era inconstante. Via de regra, suas dimensões oscilavam entre 0,6 e 1,1 anos-luz. A largura variava entre 20 e 100 bilhões de quilômetros. Em face disso, e considerados os padrões cósmicos, tratava-se de uma minúscula fenda, que apenas permitiria a livre penetração no plano dos druufs. Já colocáramos os trajes especiais arcônidas, uma vez que, numa situação como essa, os trajes espaciais comuns não nos pareciam suficientes. Colocamos os capacetes pressurizados sobre a cabeça e mantivemos os dedos nos botões de contato dos projetores de campos defensivos. Os microrreatores instalados nas mochilas estavam funcionando. Dessa forma, havíamos feito o que estava ao nosso alcance para enfrentar adequadamente uma eventual ruptura do débil envoltório do cruzador. O oficial de localização já desistira de anunciar as indicações recebidas. Um silêncio completo reinava a bordo da ultrarrápida nave Califórnia. No alto-falante de

meu capacete só se ouvia a respiração de homens nervosos. O rosto de Rhodan apresentava uma expressão séria e fechada. Ao que parecia só agora se dera conta dos recursos imensos de que o computador-regente de Árcon podia dispor. Vez por outra alguém praguejava em voz alta. Esses sons surgiam nos alto-falantes de capacete toda vez que havia uma catástrofe nas proximidades. Não conseguíamos realizar a observação ótica das inúmeras naves. Só a hiperlocalização revelava que na escuridão do espaço estavam escondidos numerosos corpos de aço, de cujos flancos se desprendiam o hálito atômico dos pesados canhões de impulsos e de desintegração. Só víamos nitidamente as unidades destruídas. Se a luz chegasse a nós com suficiente rapidez, uma luminosidade ofuscante surgia nas telas óticas. Nos poucos segundos decorridos, desde o momento em que voltamos a mergulhar no espaço comum, contáramos mais de duzentos sóis atômicos artificiais. Devia haver muito mais, pois nem todos poderiam ser observados diretamente. Fugíamos dos raios de luz. A voz de Rhodan rompeu o silêncio, que já se tornava opressor: — Atenção todos! Atingiremos a zona dentro de três minutos aproximadamente. Atem os cintos e só os soltem depois que a tivermos rompido. Devemos atravessá-la em poucos segundos. Não precisamos contar com nenhum ataque. Nossa nave é rápida demais para ficar exposta ao fogo de outro veículo espacial. Só se pode atirar com precisão quando o objeto não desenvolve mais da metade da velocidade da luz. Escaparemos a qualquer disparo de radiações. Quanto ao mais, peço-lhes que cuidem dos nervos. Se nossas sondas conseguiram atravessar a zona intermediária, nós também conseguiremos. Fim. Passei os olhos pela sala de comando fracamente iluminada. Os homens mantinham-se imóveis atrás dos instrumentos, mas em todos eles ardia a excitação. Sabiam os efeitos que podem resultar da travessia de uma zona de descarga. De repente nossos débeis campos defensivos tornaramse visíveis nas telas óticas. Descargas azuladas ofuscaram nossos olhos. Naquele momento compreendemos que a afirmativa de Rhodan, segundo a qual não poderíamos ser atingidos, era ao menos leviana. Ouviu-se uma série de terríveis estalos. O corpo da Califórnia, que já estava sendo solicitado ao máximo, começou a tinir. — Foi um impacto ocasional involuntário. Voamos diretamente para dentro do raio — disse a voz forte de Rhodan, que foi interrompida por uma risada estridente. Concluí que a mesma devia provir de Bell. — Silêncio a bordo! — gritou Perry. Ao que parecia, mesmo ele se sentia um pouco nervoso. 16


A fenda de descarga, que de longe parecera insignificante e inofensiva, transformara-se num abismo devorador. A vista já não conseguia abranger toda sua largura. Antes que os homens ouvissem o grito de advertência de Sikermann, penetramos na luminosidade vermelha. Os inúmeros impulsos de localização apagaram-se tão depressa que até parecia que nunca houvera uma frota arcônida logo atrás de nós. A última unidade energética, que ainda funcionava em ponto morto, começou a participar do rugido geral. Dali em diante, mal se entendiam as palavras transmitidas pelo sistema de rádio. As ordens de Sikermann, emitidas em voz muito alta, submergiram em meio ao barulho infernal. Lá fora, nossos campos defensivos pareciam colidir com uma muralha energética invisível. Cerca de seis segundos depois do momento em que mergulhamos, as luzes de advertência da unidade energética número três acenderam-se. Tratava-se da estação que acabara de ser ligada. O rumorejar surdo tornou-se ainda mais forte, mas os campos defensivos chamejantes ficaram privados de seu suprimento de energia. A pequena tela mostrou um letreiro luminoso: Aviso automático. Usina III transferida para neutralizadores de pressão. As mãos de Sikermann passaram a desenvolver uma atividade febril. Era evidente que a Califórnia estava submetida a uma desaceleração involuntária, cuja intensidade devia ser tamanha... A energia necessária ao funcionamento dos neutralizadores já não podia ser fornecida exclusivamente pelo seu próprio gerador. Vi que o rosto de Rhodan estava ligeiramente desfigurado. Da sala de máquinas veio a informação de que já fora atingida a capacidade máxima dos reatores. Sikermann mandou que os mesmos passassem a funcionar em regime de emergência. Dentro de vinte segundos, a redução de velocidade tornou-se bem perceptível. Logo depois, a velocidade reduziu-se para 79 por cento luz. Terríveis descargas bramiam junto ao envoltório esférico do cruzador. Penetráramos em alguma coisa que ultrapassava nossa compreensão e as possibilidades de nossa tecnologia. Parecia que a goela de um submundo se abrira, para deglutir a nave e os homens. O mutante Ralf Marten foi atirado violentamente para fora do assento, pois num movimento instintivo colocou o braço na abertura de emergência dos cintos. Vi-o escorregar pela sala de comando, até que se detivesse junto a uma calculadora cosmonáutica. Ninguém entendia as ordens e os comunicados. Quando liguei meu campo defensivo individual, uma

fluorescência fantasmagórica rompeu a escuridão da sala de comando. Ao que parecia, o ar fora de nossos trajes de combate estava carregado, pois do contrário o campo individual não se tomaria visível. “Estamos no fim”, pensei. “Arriscamos demais.” Naquele instante, a tremenda retumbância cessou subitamente. Apenas os reatores da nave, que funcionavam a plena potência, continuavam a emitir seu ruído característico. Mais uma vez, o letreiro luminoso surgiu à minha frente. Dispositivo automático de advertência — Gerador III religado para os campos defensivos. Só agora tive tempo de passar os olhos pela sala de comando. Os tremendos abalos haviam colocado fora de ação cerca de trinta por cento das telas de comunicações. Meu rádio, ligado ao volume máximo, parecia estourar-me o ouvido. A voz de Rhodan soou com uma potência apavorante. Soltei um gemido e girei o regulador de volume para a esquerda. Com os outros devia ter acontecido a mesma coisa, pois durante o voo todos haviam tentado captar alguma comunicação. — ...passamos. Cuidem de Marten. Parece ter-se machucado na queda. De resto, tudo O.K.! Bati com a mão espalmada sobre o fecho dos cintos e levantei-me com um gemido. Naquele instante, ouviu-se o comunicado vindo da central energética. — A desaceleração foi de mil e oito quilômetros por segundo ao quadrado. Os neutralizadores trabalharam em regime de sobrecarga. — Como poderia ter acontecido isso? — perguntou Rhodan, respirando com dificuldade. — Os dados captados pelas sondas diziam outra coisa. Não tive necessidade de refletir para encontrar uma explicação plausível. — São diferenças nas influências gravitacionais. A zona de compensação ainda é tão jovem que não se poderia ter estabilizado. Deveríamos ter esperado mais algumas semanas. A equipe técnica da nave começou a reparar as avarias. Na altura da comporta inferior, havia uma rachadura no envoltório da nave. Fora disso, o casco da Califórnia parecia intacto. — Olhem só! — disse Sikermann em tom de surpresa. Virei à cabeça. E o que vi nas telas teria levado qualquer outra pessoa a praguejar fortemente. No entanto, apenas senti meu coração pulsar mais lentamente. — Preparar a nave para o combate! — ordenou Rhodan pelo sistema de intercomunicação do pequeno cruzador. 17


Enquanto as sereias começavam a uivar e os instrumentos indicavam que desenvolvíamos apenas metade da velocidade da luz, fitei as telas. — Bem que poderíamos ter imaginado que os druufs também tivessem postado uma frota em seu universo — disse Reginald Bell. — Será que essa gente sabe “aceitar uma boa brincadeira?” Não souberam. Provavelmente o senso de humor de Bell ficaria afetado pelos acontecimentos que começavam se desenrolar... As longas naves em forma de bastão encontravam-se tão próximas que as distinguíamos nas telas do hiperlocalizador sob a forma de imagens em alto-relevo. Se não estivessem tão perto, a imagem consistiria, quando muito, num pontinho verde. Sikermann trabalhava como um autômato. Suas mãos deslizaram rapidamente sobre as chaves de controle manual. Naquele momento, compreendi perfeitamente por que motivo Rhodan o investira temporariamente como comandante da nave Califórnia. Uma nave, que media pelo menos trezentos metros de comprimento, atingiu-nos em cheio. Um vulcão energético irrompeu nos campos defensivos de nossa nave. Os canhões e radiações do inimigo pegou-nos de surpresa... Numa fração de milésimo de segundo, a Califórnia, uma nave tão bela por fora e tão fraca por dentro, se parecia com uma bola de aço que cuspia fogo. Seu débil armamento defensivo entregou os pontos ao primeiro ataque. É bem verdade que tivéramos azar ao colocar-nos diante dos canhões de uma nave aparentemente muito forte. No momento em que ouvi o ruído infernal e a incandescência irradiada pelas telas ameaçava cegar-me, perdi o apoio dos pés. Uma tormenta varreu-me pelo soalho de plástico da sala de comando. Levei algum tempo para conseguir segurar-me no pé da poltrona do localizador. Gritaria, berros, um estrondo real, foram estas as impressões registradas pelos meus sentidos. Sabia que recebêramos ao menos quatro impactos térmicos ao mesmo tempo; era demais para o pequeno cruzador, cuja força consistia exclusivamente em suas máquinas. Dali a alguns segundos, a nave começou a girar em torno de seu eixo transversal. O espaço sombrio do Universo desconhecido com suas inúmeras estrelas transformou-se numa roda de fogo. Já desistira de ter esperanças, quando finalmente as unidades energéticas da Califórnia voltaram a entrar em funcionamento. Só agora se tornava possível recorrer a toda a força titânica dos propulsores, pois já não havia o perigo de que a força da inércia nos reduzisse a pó. Uma dor aguda atravessou meu corpo. Os neutralizadores de pressão entraram em funcionamento com um atraso de cerca de um milésimo de segundo.

A forte luminosidade dos nossos campos defensivos estava cessando. Se os druufs acelerassem com a mesma rapidez que nós, não haveria salvação. Acontece que nem de longe conseguiram acompanharnos. Afastamo-nos em velocidade tresloucada, antes que outras naves pudessem enquadrar-nos em sua mira. Os mecanismos automáticos de estabilização fizeram cessar o giro do corpo da nave. Quando o processo foi concluído e a imagem se ajustou, consegui ver novamente o estranho espaço. Enquanto nosso Universo era negro, aqui predominava o tom vermelho-escuro. A luminosidade das estrelas era idêntica à do nosso Universo, mas sua luz natural sofria uma distorção... — Transição ligeira! — ordenei com um gemido. — Vamos logo! Temos que dar o fora daqui. Estamos entrando diretamente nas falanges do inimigo. Será que isto lhe servirá de lição, homem das cavernas? Nem sempre a audácia sai vencedora, e seus mutantes serão mortos pelo fogo dos canhões como qualquer outra criatura. Entre logo em transição! Rhodan ouvira minhas palavras, que provavelmente eram desnecessárias. Sikermann já estava comprimindo o botão do chamado autômato de saltos de emergência. Então teve início uma transição matematicamente incontrolável, que nos levaria a algum lugar. Podia-se realizar uma avaliação aproximada da distância que seria percorrida, mas não da direção. A dor da desmaterialização surpreendeu-me enquanto estava deitado. Segundo as leis válidas em nosso Universo, a posição em que a pessoa se encontrava durante o salto era totalmente indiferente. No entanto, até neste ponto, o Universo dos druufs parecia oferecer algumas surpresas. Antes que pudesse formular algo sobre a percepção desse fato, dei-me conta de que acabáramos de cometer mais um erro. Qualquer homem inteligente deveria abster-se de transferir as leis do espaço einsteiniano para qualquer outra estrutura espaço-temporal. Foi um verdadeiro milagre termos desaparecido no hiperespaço. Notei a falta do murmúrio e do farfalhar que surgia em toda transição, logo após a desmaterialização. Mas a dor continuou. Parecia que o sistema nervoso escapara ao processo de desmaterialização. Quando iniciamos o mergulho no espaço druufiniano, ainda estávamos gritando. O que se seguiu depois excedeu minha capacidade de sofrimento. O desmaio provavelmente foi uma bênção. Éramos uns idiotas! De que servia a nave mais rápida, se o homem não conseguia acompanhar seu desempenho? Era o velho problema que, segundo ensinava a experiência, costumava ser negligenciado, pois a tecnologia amortecia o sentimento natural de medo do indivíduo.

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2 Fui o primeiro a despertar a bordo da Califórnia. Meu organismo arcônida parecia recuperar-se depressa dos efeitos do choque. Fiquei surpreso com isso. Em outras oportunidades notara-se que as reservas de energia do organismo de um terrano são bem maiores. Ergui-me com um gemido. Diante dos meus olhos, um céu estrelado parecia girar loucamente. Meu subconsciente registrou as fortes batidas do ativador. Ao que parecia, o aparelho funcionava a plena força, a fim de transmitir os necessários estímulos às minhas células. Depois de alguns segundos, comecei a sentir-me melhor. A visão clareou. Rhodan estava estendido no chão, com o corpo contorcido. Sikermann, que desencadeara o impulso para o salto de emergência, estava pendurado nos cintos de segurança. A sorte dos outros homens não foi melhor. Arrastei-me até a poltrona mais próxima e procurei refletir sobre o que poderia fazer. Não havia necessidade de cuidar dos homens inconscientes, já que nossos robôs médicos já saiam dos poços estreitos, situados ao longo do teto da sala de comando. Perguntei-me se os estimulantes de circulação, aplicados aos doentes, os favoreceriam naquela situação em que nos encontrávamos. Se ignorávamos quase tudo sobre as leis físicas reinantes no espaço dos druufs, nossos conhecimentos fisiológicos e biológicos também poderiam revelar-se inúteis ou até nocivos num ambiente como este. Procurei controlar-me e aproximei-me de Sikermann. Bati com a mão sobre o fecho de seus cintos de segurança. Sikermann caiu para frente. Retirei-o da poltrona de comando e tomei assento diante dos importantes elementos manuais. A Califórnia deslocava-se em queda livre, desenvolvendo apenas metade da velocidade da luz. Uma vez realizada a transição de emergência, todas as máquinas se haviam desligado automaticamente. Nas telas de visão global, brilhava uma gigantesca estrela vermelha, que tinha uma companheira verde. Essa estrela dupla não podia ficar a mais de dois anos-luz da zona de descarga, pois a transição ligeira não nos faria percorrer uma distância maior que essa. Concluí que, ao menos, o mecanismo regulador de distância funcionara perfeitamente, embora tivesse havido alguns efeitos estranhos. Prestei atenção às sinetas claras da aparelhagem astronáutica de localização de massas. Comprimi a chave e a grande tela de imagem especial iluminou-se. Transmitiu um modelo bastante nítido, produzido pelos ecos dos impulsos de rastreamento hiper-rápidos que haviam

detectado e medido o astro. Vi primeiramente oito planetas. As escalas que funcionavam simultaneamente registravam os dados apurados pelos medidores automáticos. Raras vezes vira órbitas tão malucas e excêntricas! Parte dos numerosos planetas desse sistema que, ao que tudo indicava, era de proporções gigantescas, passavam por vezes entre os dois sóis. Esse fato deveria produzir uma influência catastrófica sobre as condições meteorológicas. Havia outros planetas que gravitavam em torno das duas estrelas, e suas órbitas me pareciam mais “favoráveis”. Dentro de dez minutos, o rastreador automático de massas constatou a presença de 58 planetas. Um fenômeno despertou minha atenção. As medições gravosféricas levavam à conclusão de que muitos dos planetas possuíam numerosas luas. As telas diagramáticas de observação localizada apresentavam, constantemente, linhas em ângulo, que interrompiam a imagem nítida projetada pelos ecos. Sem dúvida, as luas maiores tinham seus próprios satélites, que descreviam órbitas em sentido contrário. O pior era que já penetráramos profundamente no sistema desconhecido. Ao que parecia, o salto nos havia levado para seu interior. O gigantesco sol vermelho já preenchia todo o setor verde das telas dianteiras. Meu cérebro, ainda afetado pelo choque, começou a funcionar melhor sob a proteção de todo o potencial de força de vontade. Compreendi que provavelmente havíamos saltado por cima da zona de perigo. Se minha avaliação dos rastreamentos de massas era correta, já havíamos deixado para trás as órbitas de mais de quarenta planetas. O companheiro verde da estrela central saiu lentamente de trás da grande curvatura de seu irmão maior. A luz refletida nas telas era uma verdadeira curiosidade espectroanalítica. Só agora me dava conta plenamente de que não estávamos em casa. Depois de algum tempo, o dispositivo automático de localização de energia também emitiu um zumbido insistente. Segundo a máquina, o planeta que começava a surgir na tela de informação era o de número 16 do sistema em que nos encontrávamos. Nas imediações do corpo esférico, começou um relampejar ininterrupto. Se o autômato não tivesse perdido seu “bom senso” mecânico, o planeta número 16 devia ser o mundo principal da família. Ao menos, minha experiência indicava que um astro com aquela intensidade de energia sempre corresponde a um mundo habitado e altamente tecnificado. “É o ambiente dos druufs!”, anunciou meu segundo cérebro num laconismo excitante. Não tinha o menor motivo de duvidar da conclusão a que chegara o setor lógico de minha mente. O relampejar e a luminosidade, que surgiam em torno da semiesfera, só poderiam ser produzidos por naves que pousavam e 19


decolavam. Os impulsos provinham de corpúsculos, que indicavam sem a menor dúvida a presença de propulsores em funcionamento. As coisas ainda poderiam ficar bem divertidas... Atrás de mim, os robôs médicos continuavam a trabalhar. Suas injeções de alta pressão chiavam continuamente. Porém nem Rhodan nem os outros homens despertaram da estranha rigidez. Chamei os outros setores pelo videofone. Mas a única resposta que recebi foi a das fitas automáticas, que me informaram em termos lacônicos de que a tripulação humana fora colocada fora de ação. Dali em diante, meu raciocínio voltou a funcionar com a precisão de sempre. Não me arriscaria a realizar outro hipersalto para abandonar esse setor que, segundo tudo indicava, era bastante perigoso. Por enquanto tornava-se provável que a presença da Califórnia não tivesse sido detectada. Do contrário alguém já teria cuidado de nós. Surgiu-me outra indagação. Por que fomos sair justamente no interior do sistema dos druufs? Teria sido simples coincidência? Enquanto refletia, o setor lógico de minha mente deu sinal de si: “Lei das massas do sistema dos druufs. Num salto descontrolado realizado sem programação, ocorre um desvio em direção à matéria estável rodeada de campos hipergravitacionais.” Dali a alguns segundos, cheguei à conclusão de que não havia melhor lugar para a Califórnia esconder-se que a própria cova do leão. Já estava quase convencido de que, ao localizar o décimo sexto planeta, descobrira o mundo dos druufs. O número dos pousos e decolagens era tão grande que passava dos limites do tráfego normal de um espaçoporto. E, ao que tudo indicava, muita coisa estava acontecendo nas luas do número 16. Pensei em colocar em funcionamento os conjuntos propulsores, que estavam parados, mas preferi não fazê-lo, pois me lembrei dos dados fornecidos pelas sondas teleguiadas. De acordo com esses dados, o velho fator tempovelocidade se reduzira de um para dois. Se havíamos trazido nossa própria dimensão temporal, estaríamos viajando à velocidade máxima que as naves dos druufs conseguiam desenvolver, muito embora nossa nave se deslocasse a apenas metade da velocidade da luz. Dessa forma os desconhecidos ficariam privados de um excelente objeto para seus instrumentos de localização. Provavelmente nossas ondas de impulsos provocariam no décimo sexto planeta os efeitos de uma bomba. Havia outro motivo para deixar que as máquinas permanecessem em silêncio. Bem à nossa frente, a apenas trinta milhões de quilômetros, um planeta do tamanho aproximado de Marte interpôs-se em nossa trajetória. Esperei que o dispositivo automático me fornecesse os dados solicitados. Tratava-se de um dos planetas em que a velocidade de

rotação e translação são idênticas; em outras palavras, a cada movimento completo de translação corresponde uma rotação completa. Dessa forma a face voltada aos dois sóis era sempre a mesma. Naturalmente as condições climáticas desse planeta seriam extremamente desfavoráveis. Sem dúvida um mundo desse tipo permaneceria desabitado para sempre. Era o número 13 do sistema dos druufs. Guardadas as proporções em relação às dimensões gigantescas da estrela vermelha, na face diurna, o calor devia ser insuportável. Este e outros motivos fizeram-me corrigir a rota da Califórnia por meio de cautelosos impulsos dos propulsores auxiliares de plasma. Dali em diante, o aparelho automático de aproximação passou a executar o trabalho do primeiro-piloto. A única coisa a ser feita era ajustar as duas linhas verdes de tal maneira que seu ponto de interseção correspondia ao planeta perfeitamente reconhecível. Com a mente preocupada, ouvi o rumorejar vindo das salas de máquinas da protuberância equatorial da nave. O conteúdo energético das partículas de plasma não era muito elevado. Talvez não fossem detectadas pelos goniômetros. Recorri à ótica eletrônica e trouxe o número 13 para mais perto. No momento em que o planeta ocupou toda a tela, comecei a tremer. Ao que parecia, não possuía atmosfera. A temperatura média na face diurna era de cerca de 168 graus centígrados. Na face noturna, a temperatura deveria ficar próxima do zero absoluto. No entanto, havia uma zona de penumbra cujas dimensões, face à intensa vibração do planeta, naturalmente estavam sujeitas a variações acentuadas. Pousaria ali, para esperar com calma e relativa segurança os efeitos da preocupante rigidez dos membros da tripulação. Seria insensato e irresponsável continuar a passear na área controlada pelas inteligências desconhecidas. Minhas juntas doíam quando me levantei da poltrona do piloto. Os pequenos robôs médicos já haviam cessado suas atividades. Isso constituía sinal evidente de que nos encontrávamos diante de um fenômeno desconhecido. Com um gemido inclinei-me sobre Rhodan. Fitei seus olhos arregalados. Tinha o rosto terrivelmente desfigurado. Meus conhecimentos médicos eram insuficientes para formular um diagnóstico preciso. Mas cheguei à conclusão de que talvez a rigidez não decorresse de um estado de inconsciência total. Já vira homens que, numa situação destas, conservavam a mobilidade espiritual, embora não pudessem mover um dedo. A musculatura de Rhodan estava dura como uma tábua. Tinha o aspecto de alguém atingido pelo choque de uma arma fisiológica. Inclinei-me ainda mais e disse em voz alta: — Talvez você consiga ouvir-me e compreender minhas palavras. Devemos aguardar que a paralisia cesse por si? Pousarei no décimo terceiro planeta do sistema em 20


que acabamos de penetrar. Trata-se de um corpo celeste desconhecido que gira em sintonia com o movimento de translação. O sistema de localização energética não acusa nada. Levarei a nave à zona de penumbra e procurarei escondê-la da melhor forma possível. Será que pode darme um sinal de ter entendido? Fitei atentamente os olhos abertos, mas não notei qualquer reação. Desesperado por dentro, embora por fora me mostrasse calmo e risonho, voltei a erguer-me. O piloto automático emitiu um sinal sonoro. Estava na hora de entrar na elipse de frenagem. Desta vez não tive outra alternativa senão recorrer aos potentes mecanismos propulsores centrais da Califórnia. Os conjuntos, que funcionavam com base de plasma, não seriam capazes de eliminar, num tempo relativamente curto, a velocidade que correspondia à metade da luz. Assumi o risco porque não poderia deixar de fazê-lo. Os conversores de impulsos emitiram um rugido. A luz verde dos neutralizadores de pressão acendeu-se. Desacelerei ao máximo, embora soubesse que devia provocar um fogo de artifício no sistema de localização energética de ao menos um observador atento. Era possível que, com o movimento reinante no número 16, isso não despertasse a atenção de ninguém. Havia inúmeras possibilidades, mas não estava em condições de realizar a interpretação matemática das mesmas, uma vez que não dispunha dos respectivos valores-base. O cruzador ligeiro parecia um monstro que chispava fogo ao precipitar-se em direção ao planeta escaldante, que batizei com o nome de Hades. Deu-me a impressão de um submundo das lendas gregas. Se havia alguma coisa de que não gostava, eram as zonas de penumbra desses corpos celestes. Pouco antes de chegar à superfície, a Califórnia alcançou a velocidade de aterrissagem. Descrevi uma única elipse, e durante a mesma, tive de constatar que Hades tinha vestígios de um envoltório atmosférico. Ao que tudo indicava, os gases se haviam depositado na face noturna, enquanto se evaporavam junto aos pontos de aquecimento, em virtude das modificações da área de penumbra. Dessa forma, a faixa sombreada devia ser fustigada por tormentas violentíssimas. Era exatamente a pior das hipóteses que eu imaginara. Tive de dedicar toda minha atenção à pilotagem da nave, pois se tornava necessário equilibrar seu movimento pendular sob a influência do campo antigravitacional. Depois de algum tempo, consegui pousar por meio de um dos conjuntos auxiliares. Fomos parar numa ampla planície rochosa, que no momento ficava no centro da zona de penumbra. No horizonte via-se a coroa chamejante da gigantesca estrela vermelha. Seu companheiro verde não assumia qualquer importância na área meteorológica. Sua energia

não seria capaz de aumentar ainda mais a temperatura. Além disso, Hades contornava ambos os sóis ao mesmo tempo. Dessa forma, também a estrela verde iluminava apenas a face diurna do planeta. Quando, no curso de sua órbita, a mesma sobressaía no horizonte, surgia a luminosidade verde que me chamara a atenção por ocasião do pouso. Acabara de pousar num planeta infernal. Depois que as placas de apoio dos suportes telescópicos penetraram no solo, comecei a recuperar o autocontrole. Do lado de fora, o silêncio era total. A tempestade que observara antes já amainara. Tiritei de frio ao levantar-me da poltrona. As travessas e longarinas da Califórnia estalavam e crepitavam, conforme costuma acontecer numa nave forçada ao máximo. Ao que tudo indicava, o esfriamento era extremamente rápido. — Perry, você me ouve? Seu rosto permaneceu rígido como uma máscara de pedra. Se estivesse em condições de sentir e pensar, devia sofrer terrivelmente.

6 Tive de esperar mais algumas horas Até que os primeiros terranos acordassem. Rhodan foi o quinto a recuperar os sentidos. Os que mais sofreram foram os mutantes, cujos cérebros ligeiramente alterados, provavelmente, eram ainda mais sensíveis que os dos outros homens. Toda a tripulação se encontrava a postos. Não houve nenhum caso fatal, mas o Dr. Sköldson, médico da Drusus, levado neste voo, recomendou repouso total. Depois de falar com ele, compreendi por que recuperara os sentidos tão depressa, tinha estrutura cerebral era diferente. O médico garantiu que, durante a paralisia, os homens atacados pelo choque não sentiram nada. Mas ninguém se atreveu a perguntar o que aconteceria em futuras transições. Não havia dúvida de que nos encontrávamos a cerca de dois anos-luz da zona de descarga. Antes do pouso, ainda a vira nitidamente sob a forma de uma linha reluzente. Se quiséssemos renunciar à transição, teríamos de viajar pouco mais de dois anos para atingir a abertura. Face à dilatação verificada, apenas uns poucos dias se haviam passado para nós. Mas, num outro plano de referência, o tempo se teria mantido estável. Nem podíamos pensar no que aconteceria na base espacial Fera Cinzenta. Sem dúvida acreditariam que estávamos mortos. Por isso nossa tarefa mais urgente consistia em encontrar uma proteção eficaz contra os perigos resultantes de outro hipersalto. Bell, que permanecera durante horas a 21


fio no centro de computação, juntamente com o matemático Kenius, afirmou que as condições do Universo dos druufs se estabilizavam a cada dia que passava. A paralisia geral só teria surgido em virtude da perturbação do equilíbrio das forças naturais. Não nos parecia que conseguiríamos encontrar um antídoto de caráter bioquímico. Por isso resolvemos permanecer o maior tempo possível em Hades. Cada hora que se passava faria avançar o processo de estabilização gradativa das diversas formas de energia. Se necessário, teríamos de realizar a transição nas condições existentes. Caso as coisas não dessem certo, o salto seria efetuado por mim e, assim que acordasse, caberme-ia a tarefa de tomar todas as providências para evitar que a Califórnia fosse destruída. Mas, se eu pensara que esses sujeitos malucos do planeta Terra se deixariam abater pela situação nada brilhante, estava muito enganado! O que fizeram assim que conseguiram colocar os pés no chão? Em vez de se manterem em resguardo, não pensaram em outra coisa senão iniciar a construção da chamada base de transmissores. O Dr. Sköldson praguejou e correu por toda a nave, mas a tripulação conseguiu esquivar-se com tamanha habilidade, que não conseguiu agarrar nem um único dos homens. A arma de Sköldson, que não era outra coisa senão uma seringa com pelo menos quinhentos milímetros de calmante, não produziu nenhum efeito, porque não conseguiu encontrar uma única vítima. Eu mesmo só consegui livrar-me da injeção por trazer na ponta da língua a ponderação de que meu organismo de arcônida era de constituição diferente. Quando uma porta blindada que se fechava quase o cortou em dois, Sköldson resolveu desistir. Dali em diante, via-se sobre a porta da clínica de bordo uma enorme placa com os seguintes dizeres: Entrada permitida somente de quatro. Era a vingança do médico. Apenas, este teve o azar de que ninguém entrou de quatro em sua clínica. Tinha certeza de que essa gente preferiria fazer uma operação em si mesmo a ceder à exigência de Sköldson. Normalmente se poderia rir a valer sobre esse incidente, que constituía uma amostra típica do comportamento dos astronautas terranos. Mas na situação desesperadora em que nos encontrávamos, não achei graça. Era esta a situação há oito dias, tempo-padrão, depois do pouso no planeta Hades que, conforme já tivéramos oportunidade de perceber, tornava-se martirizante. *** Só faltava instalar no espaço oco o grande transmissor, cujo alcance era pouco superior a dois anos-luz. Não se podia negar que esses terranos tinham senso prático. Colocaram a Califórnia ao pé da grande cadeia de

montanhas, com a qual procurara não entrar em contato durante o pouso. Cordilheira da Esperança foi esse o nome que Rhodan deu ao maciço que atravessava a zona de penumbra com seus oitenta quilômetros de largura. A leste do lugar em que nos encontrávamos, os picos se erguiam para dentro da luz implacável do sol, enquanto a oeste os cumes desapareciam na escuridão eterna da face gelada. De qualquer maneira, a rocha natural não pôde resistir quando Rhodan em pessoa manipulou um canhão de impulsos de tamanho médio e fundiu uma abertura em forma de túnel nos flancos do complexo montanhoso. Os gases produzidos pela evaporação da rocha foram ionizados. Depois os captamos por meio de campos magnéticos. Muito além da faixa de vibração, os vapores voltaram a solidificar-se e choveram ao solo sob o efeito da gravidade. As paredes da abertura foram revestidas pelo processo de pistola de plástico blindado e providas de uma comporta de ar de dimensões relativamente reduzidas. É claro que, antes disso, o grande transmissor foi colocado na abertura, que media vinte metros de altura e quase cinquenta metros de profundidade. Naquele momento, os homens estavam camuflando a parede externa artificial. Mais uma vez a rocha natural foi gaseificada. Um raio de tração a captou em estado ionizado e a comprimiu contra o abaulamento de plástico blindado. Como a aderência fosse perfeita, surgiu um reboco tão irregular e de aspecto tão natural que só pude fazer um gesto de admiração. Esses pequenos bárbaros sabiam como defender-se. Era pena que sua leviandade não conhecia limites. Pelos meus planos, já devíamos ter decolado no dia anterior para tentar o salto. É que o cuidadoso controle que levei a efeito parecia revelar que os cálculos de Bell tinham uma base aceitável. Mas não. Não quiseram partir enquanto esse maldito transmissor não tivesse sido instalado. A vibração do planeta era bem mais intensa do que supúnhamos. Há três dias notáramos que a extremidade superior do sol gigante sobressaía cada vez mais sobre a linha do horizonte. Em consequência disso, a face diurna passou a estender-se na direção do lugar em que estávamos. Era um fenômeno inconveniente. Ficava cada vez mais claro. Já se distinguiam perfeitamente os contornos das montanhas e ao ar livre liam-se trechos impressos em caracteres pequenos. E ainda pressentíamos o hálito escaldante que nos envolveria dentro de alguns dias. Não nos demos ao trabalho de realizar as observações minuciosas que se tornariam necessário para calcular a sequencia exata das oscilações. O planeta Hades não nos parecia suficientemente interessante para isso. Bastava saber que seu diâmetro era de 6.385 quilômetros, e que a gravitação chegava a 0,35G. As 22


condições seriam muito semelhantes às de Marte, se não fosse a lentidão de seu movimento de rotação em torno do próprio eixo. Protegera-me atrás da Califórnia. Pouco acima do solo sempre havia vestígios tênues de gases, resultantes da evaporação das precipitações atmosféricas. Até chegamos a constatar a presença de oxigênio, mas sua percentagem era tão reduzida que não havia como aproveitá-lo. Envergávamos os pesados trajes espaciais equipados com um gerador automático de campo defensivo. Dessa forma, a eliminação da gravidade nos permitia fazer voos restritos. Além disso, estávamos protegidos contra o ambiente hostil. O medidor de pulso indicou que a temperatura estava sujeita a fortes variações. O calor aumentava à medida que a extremidade superior do sol vermelho se erguia acima do horizonte. Por ali, a poucos quilômetros do lugar em que nos encontrávamos, reinava um calor mortífero. Todas as substâncias, cujo ponto de fusão fosse baixo, entravam em ebulição, e o solo deserto era tão quente que só se podia pisá-lo com botas especiais e blindadas. Até então fizera uma única tentativa de submeter a um exame detido o deserto iluminado pelo olho mortífero do sol vermelho. Mas como as investigações praticamente não se revestissem de qualquer interesse, logo desisti das mesmas. Quando o pequeno canhão de impulsos da Califórnia voltou a trovejar, recuei apressadamente. Ao que tudo indicava, Rhodan ainda não julgava suficiente o reboco de rocha, cuja grossura chegava a quase três metrôs. Há poucos minutos avisara-me pelo rádio de capacete que ainda havia um pequeno risco de que as substâncias estranhas fossem localizadas. Esperei que o raio energético ofuscante se apagasse. Só depois fui à parede de rocha, muito bem camuflada, para passar pela minúscula comporta e penetrar no interior do túnel. A instalação do transmissor já fora concluída. Um pequeno gerador de emergência forneceria luz e, se necessário, calor, mas o problema do suprimento de ar respirável ainda não fora solucionado. No dia seguinte seria montado o equipamento de oxigênio e de climatização, e também o equipamento de regeneração de ar. Por isso as duas escotilhas de aço da comporta de ar ainda estavam abertas quando finalmente cheguei à parede de rocha. Face à reduzida gravitação do planeta, o peso do traje espacial ficou reduzido a tal ponto que quase não sentia a carga. Fiquei espantado ao encontrar Rhodan e o mutante Fellmer Lloyd no interior da grande galeria. Eles estavam controlando os contatos do transmissor, cuja unidade energética autônoma e os elementos de regulagem nos deixavam bastante preocupados. Pretendia-se utilizar essa base para o recebimento de peças de novos transmissores,

que poderiam ser montados ali mesmo. Se tudo corresse segundo os planos, seria perfeitamente possível que, um belo dia, os terranos possuíssem uma fortaleza oculta em pleno coração do sistema dos druufs. — Será que vocês estão loucos? — gritei para dentro do microfone de meu capacete. — Talvez vocês se tenham esquecido, mas acontece que há cerca de dez minutos Reginald Bell atirou contra este morro com o canhão de radiações, a fim de obter material de camuflagem. Rhodan virou o corpo para ver-me melhor. Lloyd, no qual a mutação só produzira a capacidade de percepção das vibrações cerebrais de outros seres, até que um treinamento adicional lhe conferisse o dom da telepatia, soltou uma gargalhada. Era um tipo moreno e apático, de olhos inteligentes e estatura baixa e robusta. Gostava dele porque nunca tentara romper meu bloqueio mental para sondar o conteúdo de minha mente. — É verdade! — disse Rhodan em tom indiferente. — Acontece que aqui dentro não percebemos nada. Onde estão esses dorminhocos? Respirei profundamente. Esse bárbaro talvez pensasse que outras pessoas também sabiam passar quarenta e oito horas sem dormir. — Mandei-os para os camarotes, se é que você me dá licença a posterior!. Sabe lá como vai a saúde de seus homens? Afinal, eles não são robôs. Seus olhos cansados e injetados de vermelho brilharam alegremente atrás do visor do capacete. — Está bem — respondeu. — Amanhã o equipamento de aeração será instalado na caverna. Depois verificaremos a exatidão de sua teoria da compensação. Não quero passar mais uma vez por aquela paralisia! Você compreende? Sim, compreendia muito bem. Levarei muito tempo para esquecer a terrível visão. Vindos de fora, ouviram-se ruídos fracos. Os vestígios de ar conduziam o som permitindo que se pudesse detectar a presença de fontes de ruídos. Pelo rádio de capacete fomos advertidos de que não devíamos abandonar nossa posição. Os especialistas da nave estavam aplicando mais uma camada de rocha. Dali a quinze minutos estava tudo terminado. À frente da comporta aberta, surgira um dique formado pelos pingos de rocha, que quase chegava a impedir a entrada. — É um trabalho caprichado e preciso — constatou Lloyd em tom satisfeito. Fiquei encantado ao notar que os tripulantes da Califórnia nos haviam deixado uma pequena saída. Rhodan cometera uma leviandade imperdoável ao manterse no interior da galeria durante a ação de camuflagem. No momento em que Rhodan colocava no chão uma ferramenta especial, o inferno irrompeu do lado de fora. Uma onda de compressão atravessou a pequena abertura com tamanha violência que nos atirou para trás. Antes que as dores vindas das costas me deixassem quase inconsciente, ainda ouvi o grito estridente de Lloyd. Apenas Cheguei a compreender que o ataque, que já não 23


esperávamos mais, acabara de ocorrer. Apenas, viera de forma totalmente diversa da que esperávamos. Ouvi a voz exaltada de Rhodan pelo rádio de capacete. O conteúdo da ordem enervou-me tanto quanto o volume excessivo da voz. Apenas sentia a dor. — Decolem! Decolem imediatamente! Bell, Sikermann, subam com a nave e entrem imediatamente em transição. Esperaremos aqui até que a estação do transmissor da Drusus dê o sinal verde. Vamos logo! Decolem! Isto é uma ordem. Não podemos perder tempo. Estou dando ordem para decolar. Voltou a gritar as mesmas palavras, até que de repente se ouviu o rugido profundo das potentes máquinas da nave. Ao que parecia, o cruzador não fora danificado, ou apenas sofrera avarias leves. Sikermann desenvolveu toda a potência dos propulsores ao decolar, o que quase fez desabar nosso pequeno túnel. O tremor de terra me fez gemer. Naquele momento, pouco me importava que a Califórnia decolasse sem nós ou não. Pensava apenas no ferimento que sofrerá com o forte impacto, e que talvez pudesse ser grave. No ambiente em que nos encontrávamos, não havia a menor possibilidade de abrir o traje espacial hermeticamente fechado para tratar de ferimentos ou fraturas. Minhas reflexões ditadas pelo pânico foram interrompidas pela voz nervosa de Lloyd: — Foram embora! Meu Deus eles foram embora! Rhodan ergueu-se lentamente. Lá fora, junto à comporta, via-se uma incandescência ofuscante. Ao que tudo indicava, haviam disparado contra o cruzador com um pequeno canhão de impulsos. Apesar das dores que sentia, não pude abster-me de uma observação. — Então, bárbaro, o que me diz? Tivemos uma bela surpresa, não é? Será que você poderia fazer o favor de verificar se por acaso fraturei a coluna?

7 — Quando eu o vejo assim, chega a estranhar que a mãe de meu filho também seja uma arcônida — disse Rhodan em voz alta. A onda de choque provocada pelo tiro de radiação enchera o túnel com uma massa de gases comprimidos. Lá fora soprava uma brisa ligeira. Provavelmente o raio térmico escaldante acelerara o fenômeno já iniciado da evaporação dos gases, De qualquer maneira, consegui entender Rhodan, do que se concluía que havia um meio propagador de som. Eu estava deitado de bruços. Fellmer Lloyd estava agachado junto à entrada da caverna e olhou para a planície rochosa ondulada, na qual há quinze minutos

estivera a Califórnia. Poucos segundos depois da decolagem de emergência, havíamos recebido uma mensagem pelas ondas normais de rádio. O cruzador devia ter disparado para o espaço com a aceleração louca que lhe era peculiar e, por isso, mal conseguimos ouvir a transmissão. Afinal, as ondas ultracurtas sofrem uma grave interferência das partículas expelidas pelos mecanismos de propulsão, e não possuíamos nenhum hiper-rádio. Sikermann e Bell comunicaram que haviam conseguido romper o bloqueio. Arriscariam a transição. Passariam pela fresta e penetrariam no Universo einsteiniano, de onde voltariam de qualquer maneira com a Drusus. Assim que ouvimos o último fragmento da mensagem, as comunicações de rádio foram interrompidas em definitivo. Sem dúvida, a Califórnia já saltara, pois não levava mais de cinco minutos para atingir a velocidade da luz. Restava saber se Sikermann conseguiria fugir do plano temporal dos druufs. Provavelmente as tempestades gravitacionais no interior da zona de descarga já teriam amainado. Se tivéssemos muita sorte, a Drusus poderia chegar ao espaço dos druufs, dali a algumas horas. E, uma vez que trazia a bordo excelentes transmissores de elevada potência, provavelmente conseguiríamos escapar daquele inferno... Os dedos de Rhodan voltaram a comprimir minhas costas. Não pude deixar de gemer baixinho. Fellmer Lloyd virou a cabeça para nós. A luz, que penetrava pela abertura da caverna, permitiu-me ver seu rosto coberto de suor. Procurei sorrir, para fortalecer o moral do homem que provavelmente estaria sofrendo muito mais que eu. Rhodan cochichara ao meu ouvido que, há algumas horas, o mutante sofria um princípio de disenteria. Não avisara imediatamente da doença, porque o Dr. Sköldson continuava a insistir na norma de “andar de quatro”. Evidentemente fora uma loucura rematada não avisar imediatamente o médico sobre um assunto desagradável como este. Depois da partida da Califórnia, Lloyd passou a contorcer-se em violentas cólicas intestinais. Senti-me deprimido e envergonhado ao mesmo tempo, ao ver que soubera dominar seu sofrimento com tamanha hombridade. Ao que parecia, já estava passando melhor. Ao menos se esforçou para retribuir meu sorriso. Mas, a essa hora, ainda não sabíamos que as instalações sanitárias do traje espacial de Fellmer não estavam funcionando. Provavelmente durante a queda esse equipamento vital sofrera avarias tão graves que já não podia executar suas importantes funções. Nós não podíamos fazer nada pelo mutante. Ele dependia exclusivamente do estoque reduzido de medicamentos que se encontravam na cápsula de suprimento automático de seu capacete. Mas 24


provavelmente entre esses remédios não havia nenhum medicamento para os intestinos. Dali em diante, eu não movi nenhum músculo da face, até que Rhodan concluísse o exame. Tateou minhas costas através do material grosso de meu traje espacial, método que era bastante deficiente. — O que é isso? Você conhece minha estrutura óssea? — Mais ou menos. Uma vez que seu tórax não é normal, a sua placa óssea deve ir até, mais ou menos, a altura da costela inferior direita de um ser humano... Será que está fraturada aqui? Bateu com o dedo no lugar a que se referira. Levanteime com um grito. Se apenas a placa dorsal estivesse rompida, as coisas não seriam tão ruins assim. A regeneração daquele tecido forte, mas altamente elástico, era extremamente rápida. Provavelmente algumas horas de repouso seriam suficientes. — Você seria um excelente médico — disse com um gemido, assim que consegui colocar-me de pé. Caminhei cautelosamente em direção à comporta de ar, que, do lado de fora, estava encoberta por uma elevada parede. Só podíamos olhar para o exterior através de uma fenda estreita. O soterramento, que antes era considerado uma desvantagem, agora representava uma vantagem considerável. Se os druufs tivessem um pouquinho de inteligência, gostariam de saber o que viera fazer neste mundo a tripulação daquele cruzador desconhecido, que fugira tão depressa. Se além do mais não tivessem apreendido ou destruído a Califórnia, sem dúvida estariam interessados em obter outras indicações. E essas indicações só poderiam ser encontradas no lugar em que antes estivera a nave, ou seja, a menos de seiscentos metros da abertura da caverna, da qual 75 por cento haviam sido fechados pela rocha derretida. Não nos entregamos a qualquer ilusão sobre o que poderia acontecer, caso resolvessem realizar uma investigação minuciosa. Em virtude da excelente camuflagem, em hipótese alguma, a grande parede de plástico poderia ser vista. E a localização da matéria estranha também me parecia impossível, a não ser que resolvessem colocar o respectivo aparelho junto à entrada do túnel. Mas isso seria um simples acaso. Os lugares mais perigosos eram aqueles em que o material fora retirado para servir no revestimento da parede de plástico. Era bem verdade que esses lugares ficavam a uma distância regular. Neles existiam amplas superfícies vitrificadas, que permitiriam certas conclusões. Se nos defrontássemos com seres humanos, a estes talvez ocorresse a ideia certa. Mas não tínhamos nenhuma certeza sobre a reação dos druufs. Talvez os mesmos não soubessem o que pensar diante do fenômeno das rochas fundidas expostas. Era nossa única esperança, pois a realização da

investigação tornava-se tão certa quanto a própria existência dos druufs. Deitamos na comporta e subimos a forte rampa. A fenda não tinha mais de quarenta centímetros de largura. Com alguma dificuldade, se conseguiria ultrapassá-la. Mas nem por isso se poderia dizer que a mesma era visível do lado de fora. Provavelmente a fenda se encaixava com tamanha perfeição na parede rochosa entrecortada, que só uma pessoa que passasse por perto poderia notar alguma coisa. Nessas condições não tínhamos o menor interesse em entrar em contato com os druufs. Comprimi meu capacete contra o de Fellmer Lloyd, a fim de usar o respectivo material como condutor de som e obter uma comunicação mais perfeita. Ouvi-o gemer baixinho. Seu corpo executava movimentos convulsivos. Provavelmente estava sofrendo mais um ataque de cólicas. — Fique calmo, meu filho — gritei. — Daqui a algumas horas, a Drusus penetrará no espaço dos druufs. As instalações de nosso transmissor são perfeitas. Funcionará perfeitamente. — Tomara almirante — respondeu em tom hesitante. Ouvi que respirava com dificuldade. — Peço desculpas por ter falado num tom pouco otimista. Mas afinal sou apenas um ser humano e meu corpo... — É claro; não há nada para desculpar — interrompi-o em tom constrangido. Meu constrangimento não era provocado pela doença, que era tão natural como qualquer outra. Tinha sua origem no fato de aquele homem ter julgado necessário formular um pedido de desculpas. — O senhor terá de aguentar, Lloyd. No momento estamos condenados à inatividade. No interior da caverna reina um vácuo quase perfeito. O que dizem os controles das suas instalações sanitárias? Faremos uma limpeza das mesmas. Fique deitado e acalme-se. Entendeu? — Entendi sim senhor. Farei o que o senhor acaba de dizer. Apenas receio que não haja mais nada para limpar, almirante. Rhodan encostou seu capacete ao meu. Ainda não compreendera, mas ele já parecia desconfiar do que estava acontecendo... Dali a alguns segundos, Lloyd confessou em tom hesitante que o aparelho se quebrara ou sofrera outro tipo de avaria durante a queda provocada pela onda de choque. E foi assim que ouvimos a notícia catastrófica. A sintomatologia de sua doença poderia causar dentro de pouco tempo o envenenamento do ar respirável. Para produzir a necessária pressão externa, os aparelhos estavam cheios de gases intestinais, que transmitiam ao corpo uma pressão de cerca de quinhentos milibares. — Aguente, Lloyd, a Drusus não demorará a chegar — disse Rhodan a título de consolação. Naquele momento não encontrei nenhuma palavra que pudesse trazer alívio. O mutante virou a cabeça e esforçou-se para sorrir. Eu 25


já sofrera uma disenteria bacilar, e por isso sabia perfeitamente o que esse homem devia estar sofrendo no seu envoltório hermeticamente fechado. Comigo o desastre acontecera num acampamento de Wallenstein. Naquela oportunidade tratava-se de uma epidemia, e não dispúnhamos de qualquer meio para debelar o mal. — Onde o senhor contraiu a infecção? — perguntou Rhodan. — Isso deve ter alguma causa. — Talvez tenha sido a água de Fera Cinzenta, Sir — disse Lloyd com a voz débil. A suposição podia perfeitamente ser correta. Caso Lloyd se tivesse deixado seduzir pela água límpida das fontes, havia uma boa probabilidade de ter contraído a infecção por lá. Caso ainda tivesse oportunidade, sugeriria aos membros da equipe médica da frota que incluíssem nas provisões dos trajes espaciais certos antibióticos de amplo espectro de ação. A disenteria de Lloyd só podia ser infecciosa. A limpeza impecável reinante nas naves e o estado excelente das instalações sanitárias colocavam para trás até mesmo aquilo que vira nas unidades de meu povo. Estive a ponto de perguntar a Lloyd por que não se apresentara ao médico assim que surgiram os primeiros sintomas da doença. Mas preferi não fazê-lo. Não adiantaria falar sobre coisas que não podiam ser remediadas. Naquela hora já deveria estar sendo torturado pelas autorrecriminações. Sem dizer uma palavra, Rhodan começou a quebrar algumas pedras pontudas que se encontravam na cumeeira do “dique”. Observei-o. Durante a breve palestra que mantivera com Lloyd, esquecera totalmente minhas dores. E, a essa hora, já não eram tão fortes, pois não me impediam de executar qualquer movimento. — Darei uma olhada lá fora, para ver como está nossa camuflagem — disse. — Você ficará aqui. O.K.? Fez um ligeiro sinal para Lloyd, que se mantinha deitado a nosso lado. Rhodan atravessou a estreita fenda. O material de seu traje espacial era resistente. Dificilmente se rasgaria. Observei-o tranquilamente enquanto caminhava por entre as rochas. Minha mão segurava a pesada arma térmica automática, que os terranos costumam chamar de radiador de impulsos. Na situação em que nos encontrávamos, qualquer resistência seria inútil. Apesar disso, estava firmemente decidido a dar-lhe cobertura, se houvesse algum ataque. Lá fora, o sol escaldante já alcançara o lugar em que se encontrava nossa base. As poucas sombras restantes desapareceram, e, dali a alguns minutos, senti-me ofuscado ao contemplar a ampla paisagem do deserto. Rhodan desapareceu ao longe. Vista daqui, aquela área parecia um profundo abismo onde era impossível enxergar nitidamente.

— Tudo bem, almirante — comunicou o telepata. Comprimiu seu capacete ainda mais fortemente contra o meu. Fiz um sinal para Lloyd. Talvez um pouco de atividade mental até lhe fizesse bem, pois lhe faria esquecer os sofrimentos. Dali a uns três minutos ouvi o sinal de meu receptor. Rhodan estava chamando pelo rádio. — Você está louco? — interrompi-o assim que proferiu as primeiras palavras. — Poderão fazer a localização goniométrica. — Que nada! Estou transmitindo com 0,2 watts. Além disso, não vejo nada que pudesse captar a transmissão. Estou a cerca de um quilômetro, dentro da área de sombra. Como são as coisas vistas do outro lado? — Do meu lado? — É claro que sim! — Que linguagem grosseira — observei. — Fique tranquilo; não o vemos e nem a qualquer outra coisa que esteja no lugar onde você se encontra. O sol ofusca tremendamente. Para mim, por aí só existe a noite. — Excelente. Em compensação, visto daqui, o paredão de rocha é um quadro confuso e apagado. Da parede da caverna não se vê nada; só consigo identificar o local de entrada por determinados sinais. Aposto que não nos encontrarão. — Se você continuar transmitindo, eles logo nos encontrarão. — O.K. Já vou parar seu pessimista. Não, não fique nervoso. Realmente poderíamos ter decolado um dia antes. Assim teríamos evitado tudo isto. Lloyd, como vai? Quer sair um pouco? Isso talvez possa distraí-lo. — Prefiro não sair, Sir — disse Fellmer em voz baixa. — Sinto-me muito mal. Será que poderia ajudar-me a conseguir um pouco de oxigênio? Senti que empalidecera. Oxigênio? Por que estaria pedindo oxigênio? Havia uma norma estrita segundo a qual o sistema de regeneração de alta pressão devia ser carregado e verificado todos os dias. Será que negligenciara essa norma primária? Não, não era possível. A reação de Rhodan também foi de espanto. — Oxigênio? Não, Lloyd, isso não é possível. O regenerador fica sob o revestimento do traje. Não conseguiremos alcançá-lo. O que houve? Está com falta de ar? Virei a cabeça para ver o doente. No momento em que sentiu meu olhar, ficou muito embaraçado. Desconfiei de alguma coisa. — Não senhor — gaguejou Lloyd. — Meu aparelho está em ordem. Será que posso arriscar-me a soltar o enchimento pressurizado de meu traje pela válvula de regulagem? Depois faria a recarga com o suprimento das garrafas. — Está certo; mas por quê? — Não se faça de criança — intervim em tom grosseiro. — Seu ar está gasto; procure compreender. 26


Quando surge uma disenteria e simultaneamente ocorre a falha das instalações sanitárias, isso pode acontecer. Está bem, Lloyd, solte o gás. O suprimento de oxigênio de seu traje normalmente daria para oito dias, tempo terrano. Prepare-se para ter oxigênio apenas para quatro dias. Comece logo! Ponha para fora esse ar envenenado. Ajudei-o a abrir a válvula de regulagem na parte traseira do capacete. A pressão baixou rapidamente. Assim que a zona de perigo foi atingida, injetei o oxigênio das supergarrafas no circuito regenerador. Os recipientes de aço de Árcon estavam aferidos para uma pressão de dez mil atus. Rhodan praguejava baixinho e em tom amargurado. Suas palavras não se dirigiam contra Lloyd, mas contra a situação em que nos encontrávamos. Interrompi-o em tom mordaz: — É interessante que alguém ainda ache que tem de praguejar. Parece que, durante suas alegres expedições de conquista espacial, vocês nunca passaram por uma como esta, não é? Depois dos êxitos iniciais, vocês ainda conhecerão muitos reveses. Tenho plena certeza do que estou afirmando. — Cale-se, arcônida. — Não pude deixar de dizer isto. Procure voltar à galeria. Na minha opinião, a qualquer momento poderá aparecer uma nave dos druufs. Rhodan não disse mais nada, pois não havia mesmo o que dizer. Em compensação vi-o de repente, quando saía da sombra. Uma luminosidade ofuscante surgira no firmamento sombrio. — Não está com medo, mas sabe correr — falei em tom irônico. Lloyd soltou uma risadinha. Achei-o muito simpático. Rhodan apareceu fungando e com as pernas cambaleantes. Arrastei-o rudemente pela abertura. Seu rosto estava coberto de suor. Comprimi um botão e desliguei seu transmissor. Dali a alguns minutos, um monstro negro, banhado pela luz forte do sol, desceu sobre as colunas chamejantes feitas das partículas de impulsos. Ouvia-se perfeitamente o rugido profundo do mecanismo propulsor. O impacto dos raios de empuxo fez a montanha estremecer. Lancei um olhar preocupado para o revestimento das paredes. Mas estas nem sequer apresentavam as fendas características de solicitação excessiva. No momento em que a nave dos druufs mergulhou na sombra da Cordilheira da Esperança, apenas percebi-lhe vagamente os contornos. Pousaram na área de penumbra, tal qual esperávamos. Nenhuma criatura dotada de mediano bom senso desceria justamente sob os raios escaldantes do sol. — Ainda bem! — disse Rhodan em voz baixa. — Agora vão dar uma olhada. Também dei uma olhada; apenas, minha atenção foi dedicada ao aparelho de múltiplas finalidades que trazia no pulso.

Estávamos sendo atingidos em cheio pelos raios do sol. Dentro de alguns minutos, a temperatura subira para 68 graus centígrados. Lá fora o calor devia ser ainda maior. Nossos trajes protetores estavam equipados para proteger-nos de temperaturas até quinhentos graus por meio da simples reflexão e do funcionamento do sistema de condicionamento. Se as coisas ficassem piores que isso, não haveria outra alternativa senão ativar o campo energético defensivo, mas este, sem dúvida, possibilitaria nossa localização. Fazia votos de que não fôssemos obrigados a recorrer a esse equipamento. Bastava que o microrreator destinado ao suprimento de energia estivesse em funcionamento. O corpo de Fellmer Lloyd contorceu-se sob os efeitos de mais um ataque de cólicas intestinais. Assim praticamente se tornara inútil como telepata. Segui o olhar de Rhodan, mas tive de notar que a luz verde do transmissor de matéria continuava apagada. Trocamos um olhar indagador. O que teria acontecido com a Califórnia? Será que não conseguira atravessar a barreira? Conseguiu-se, por que a Drusus ainda não chegara? Num movimento muito lento, Rhodan tirou o radiador de impulsos do cinto. No momento em que a luz vermelha de carregamento da arma se acendeu, compreendi que não estava disposto a tornar-se prisioneiro dos druufs sem lutar. Aliás, nem tínhamos certeza de que esses seres conhecessem o aprisionamento de inimigos. Durante a grande guerra do metano, travada há dez mil anos, poucos prisioneiros foram capturados. Nenhuma das partes dispunha de meios que permitissem criar condições adequadas de vida para os inimigos subjugados. Se o inimigo respirasse oxigênio, ou se nós respirássemos metano, as coisas teriam sido melhores. Ficamos à espera. Da grande nave, que se erguia uns trezentos metros em direção ao céu da área de penumbra, só se via a ponta em semiesfera. A nave dos druufs repousava sobre as largas aletas de popa que, segundo tudo indicava, só haviam sido escamoteadas pouco antes do pouso. — Gostaria de conhecer o hiperpropulsor dessa gente! — disse Rhodan em tom tranquilo. O bárbaro mantinha uma calma admirável. Naquele momento eu não me interessava nem um pouco por esse aparelho. Estava refletindo — atividade que, segundo as palavras de um homem inteligente, é a própria arte da inteligência. Na planície branca tudo continuava imóvel. À medida que fixávamos o olhar, os contornos da nave estranha se destacavam na sombra da zona intermediária. Aos poucos, a vista se acostumava à estranha iluminação. Fellmer Lloyd estava quase inconsciente. O último ataque pusera-o fora de ação. Os dotes telepáticos de Rhodan eram tão reduzidos que não permitiam qualquer conclusão precisa. Esforçava-se para captar os pensamentos dos druufs, mas não conseguiu identificar os 27


impulsos cerebrais que chegaram à sua mente. — De qualquer maneira são totalmente inumanos — constatou depois de algum tempo. — Não sei o que fazer? Quando será que essa gente vai aparecer? Vieram dali a quinze minutos. Provavelmente, antes disso, haviam dado uma busca rigorosa com seus instrumentos de localização. Foram bastante inteligentes para desistirem desde logo de andar a pé sob aquele sol escaldante. Apenas vimos vários veículos achatados, de forma elíptica que, segundo tudo indicava, se locomoviam sobre campos magnéticos. Não dispunham de rodas ou esteiras. Mais uma vez, me convenci de que esses seres deviam ter desenvolvido uma tecnologia bastante avançada. Era claro que sabiam perfeitamente o que os esperava em seu próprio sistema solar. Por isso usavam o tipo de aparelhamento que melhor se prestava às tarefas que teriam de executar. Prendemos a respiração quando três dos veículos deslizantes passaram lentamente pela abertura de nossa caverna. Vi as antenas giratórias e as lentes vermelhas das objetivas, que provavelmente faziam parte de um sistema de imagens óticas. Muito tensos, ficamos com as armas engatilhadas até que tivessem passado. Dali a três horas, a nave estranha decolou com um ruído trovejante. Assim que o silêncio voltou a reinar, suspirei aliviado. Rhodan voltou a colocar a arma no cinto. — O.K., então foi isso — disse. — Não voltarão. Provavelmente eu também não teria tido a ideia de que bem embaixo de meu nariz houvesse uma pequena base de uma raça desconhecida. É um atrevimento, não é? Não pude deixar de concordar. Passamos a cuidar do mutante. Seu ar respirável já estava poluído de novo. Se as coisas continuassem assim, o suprimento de oxigênio de Lloyd não duraria muito. Lançamos um olhar ansioso para o transmissor. Mas a luz verde não se acendera, o que demonstrava que ninguém havia ajustado um aparelho receptor. Dirigi-me ao local de pouso da nave dos druufs. Tinha a esperança de encontrar alguns objetos esquecidos. Mas não descobri nada além da superfície vitrificada, que ainda se mantinha incandescente.

8 Durante 72 horas passamos acordados ou em cochilos, esperando sempre que a luz verde do transmissor se acendesse. Não havia nada que tanto preenchesse a escala dos nossos desejos ardentes como o surgimento daquela luz de controle. Ainda havia a doença de Lloyd. Esta não só representava uma ameaça indireta à sua vida, mas

constituía uma carga adicional. Seu ar pressurizado teve de ser renovado muitas vezes. Não encontramos nenhuma possibilidade de limpar os gases impregnados de toxinas. O regenerador de ar não previa uma hipótese como esta. Sem dúvida tratava-se de um erro de nosso traje. O ar de Fellmer Lloyd não daria para mais de doze horas. Se até lá não pudesse tirar seu traje, estaria irremediavelmente perdido. Há dois segundos a lâmpada finalmente começara a tremeluzir. E agora brilhava tão fortemente como se nunca tivesse ficado apagada. Não perdemos tempo. Se a Drusus finalmente conseguira romper a barreira, até os segundos deveriam ser contados. Rhodan e eu erguemo-nos de supetão do leito improvisado, montado por meio do material abandonado. Lloyd repousava apaticamente a nosso lado. Seu rosto estava pálido e flácido. Parecia ter perdido todas as energias. — Levante-se, Lloyd! — gritou Rhodan. — Lloyd, a luz de controle está acesa. A Drusus ligou para a recepção. Venha! O exemplo de Lloyd demonstrou que, conforme o caso, a criatura humana sabe mobilizar reservas imensas de energia. Até parecia que, no interior do mutante, estivesse sendo ligado um motor de enorme desempenho energético, que até então ficara parado. Subitamente seus olhos clarearam. Olhei pelo visor de seu capacete e vi um rosto de traços duros, com rugas profundas entre a boca e o nariz. — O.K. — limitou-se a dizer. Naquele instante era a concentração em pessoa. Percebi que guardara para esse momento todas as energias orgânicas restantes. Sem precisar de auxílio, correu para os fundos da galeria, aonde o transmissor de elevada potência quase chegava até o teto. Rhodan havia colocado em funcionamento o sistema de suprimento de energia. Já estava tudo preparado. Bastava mover algumas chaves para que o aparelho entrasse em funcionamento. As coordenadas de transporte foram fixadas com uma precisão de três casas decimais. Nos últimos três dias verificáramos e corrigíramos constantemente as tolerâncias no dispositivo de entrada. Rhodan foi o primeiro a subir à grande plataforma metálica que ficava numa grade circular. As traves da grade chegavam bem acima de nossas cabeças, e nela se apoiava a cúpula polar que emitia um brilho semelhante ao do cobre. Era ali que o campo de desmaterialização desceria sobre nós. Com as mãos trêmulas enfiei os pés de Lloyd nos contatos das presilhas do solo. Bastou comprimir um botão para fechar a entrada. Pela primeira vez compreendi por que esse tipo de transmissor foi construído de modo a depender de um 28


suprimento de energia autônomo. Na situação em que nos encontrávamos, não poderíamos contar com outra fonte de energia. Rhodan fez as ligações preliminares. Demorou apenas alguns segundos até que o leve zumbido que saía da base do aparelho se transformasse num ruído trovejante. Uma parede energética vermelho-pálida desceu pela grade e entrou em contato com o campo luminoso que se formara junto aos pólos do piso. Nossos sentidos ainda funcionavam. Mas no momento que antecede um salto de transmissor, o raciocínio é encoberto por angústias dificilmente controláveis, que irrompem das profundezas do subconsciente. O sentimento natural do indivíduo rebelava-se contra a desmaterialização. Quanto mais desenvolvido o instinto de autoconservação, mais difícil se tornava controlar a angústia da desmaterialização. Colocáramos Lloyd entre nós. O campo energético luminoso parecia incendiar a caverna. Rhodan aparentou uma calma tocante. Esforcei-me para também parecer calmo. Nunca realizara um salto de transmissor por uma distância de dois anos-luz, muito menos com um instrumento montado na superfície. Lembrei-me da instabilidade física do Universo dos druufs. Se enfrentáramos tamanhas dificuldades com uma simples transição, o que não poderia acontecer num processo de transporte físico-mecânico? Rhodan talvez pensasse nos mesmos problemas. Sempre que seu rosto assumia um ar tão indiferente como nessa hora, refletia intensamente sobre assuntos importantes. A campainha soou dentro de três segundos, que me pareceram uma verdadeira eternidade. Lloyd fitou-me. Seus olhos escuros pareciam chispar. Fazia um esforço total para controlar-se. Meu sorriso deve ter sido um pouco desanimado. Comprimi o acionador do mecanismo de salto, que ficava do meu lado. Os últimos pensamentos fugazes, que me acudiram à mente, foram dedicados ao desempenho energético do transmissor. Não seria possível localizá-lo com um rastreador estrutural comum, porque seu funcionamento não causava ondas de choque estruturais. Mas se havia inventado um aparelho adequado... A dor da desmaterialização foi tão intensa que ouvi meu próprio grito. Parecia que um cirurgião iniciara uma operação antes que a anestesia estivesse completa. A última impressão transmitida por meus sentidos foi a figura contorcida de Rhodan. No momento em que teve início o processo de desmaterialização, seu corpo tornouse quadrado e alargou-se. Depois senti apenas a dor lancinante. Ao que parecia, o Universo dos druufs ainda não se estabilizara inteiramente. Finalmente não houve mais nada. Era possível que a tessitura dos nervos muito sensíveis fosse a última a dissolver-se. Na verdade, um organismo dissociado nos

átomos que o compõem não deve sentir mais nada... Porém, tem-se a impressão de cair no interior de uma espiral de fogo. *** A dor ardente de todos os nervos parecia ter acompanhado o processo de transporte fictício. Assim que este teve início no aparelho receptor, ao choque costumeiro de rematerialização juntou-se o remanescente do processo de dissolução. Não via nada, embora já tivesse voltado a existir fisicamente! Devíamos estar na plataforma há algum tempo, em estado de semi-inconsciência, ou então alguma coisa não estava em ordem com o aparelho. Fiquei aliviado ao perceber que conseguia mover as mãos e os braços. Alguém tateou em minha direção. Era Fellmer Lloyd, que me apertava fortemente. Compreendi que estava mais ou menos bem. Névoas vermelhas passavam diante dos meus olhos. Por aqui tudo parecia ser vermelho. Aos poucos, comecei a odiar essa cor. Tive a impressão de ouvir alguém chamar ou gritar. Levei algum tempo para ouvir meu nome. Dali a pouco consegui enxergar. O rosto de Lloyd foi surgindo em meio à névoa. Depois vi Rhodan sentado no chão do transmissor. Com movimentos inseguros, Perry procurava desprender os contatos dos pés. Não; aquilo nem eram contatos. E também não nos encontrávamos numa plataforma redonda como a de qualquer transmissor terrano. O que tocávamos com as grossas solas de aço plastificado parecia ser feito de pedra polida. Em meu cérebro surgiu uma dor surda e opressiva, que recrudesceu fortemente assim que o setor lógico de minha mente despertou, para logo a seguir desaparecer de súbito. “Erro de salto. Ambiente estranho, que não se identifica com o da nave terrana”, anunciou meu segundo cérebro. Finalmente despertei da estranha rigidez. Os ruídos que acreditara serem sons trovejantes eram causados por minha unidade energética individual. O gravômetro de capacete indicava uma compensação de 0.95G. Isso significava que nos encontrávamos num mundo ou numa nave onde a gravidade chegava a 1.95G. Esse fato indiscutível me fez acordar de vez. Afinal, não é uma característica exclusivamente humana de, numa situação imprevista, pegar antes de tudo e quase inconscientemente a arma. Antes que Fellmer Lloyd compreendesse o que estava acontecendo, segurava meu radiador de impulsos. — O que houve? — perguntou em tom apressado. A voz que saía do capacete pressurizado soava abafada. Rhodan seguiu meu exemplo. Também parecia ter-se recuperado da estranha debilidade. 29


Só depois olhei em torno. Encontrávamo-nos num recinto muito grande, escassamente iluminado, com teto abaulado e sem emenda. À nossa frente, uma abertura em arco levava para o ar livre. Mas lá a escuridão era ainda mais forte que no interior do recinto. A instalação existente na sala consistia unicamente em alguns conjuntos de gigantescas máquinas, dispostas ao longo das paredes, e no aparelho em que nos encontrávamos naquele momento. Tratava-se de uma “prisão” sem teto visível. Nossos pés tocavam a pedra nua, que não nos transmitia a sensação de conforto nem de segurança. Bem acima de nossas cabeças, junto ao teto abaulado, uma esfera metálica vermelha e incandescente pairava no ar. Era dali que saía a luz repugnante. A “prisão” era cercada por uma área circular de cerca de dez metros de diâmetro, mas as respectivas barras ficavam tão longe umas das outras que poderíamos passar sem qualquer esforço. Uma das características de Perry Rhodan consistia em, numa situação complexa como aquela, fazer observações que nada tinham a ver com as primeiras impressões que investiam sobre a mente. — Temos ar respirável! — disse em voz tão alta que consegui entendê-lo perfeitamente. — Lloyd, abra o capacete. Isso é uma chance para você. Lancei um olhar rápido para o analisador automático. Até então as reações do mesmo sempre haviam sido precisas. Realmente, por aqui havia oxigênio, nitrogênio e uma quantidade surpreendente de gases raros. O teor de hélio e argônio quase chegava a ser excessivo. Era bem verdade que o barômetro indicava 830 milibares. Lloyd poderia arriscar-se a poupar seu ar engarrafado, que começava a ficar escasso. Mantinha-se de pé a meu lado, em atitude apática. Bati com a mão no fecho magnético de seu capacete. Este se abriu silenciosamente. Um fluxo de ar poluído e venenoso foi expelido do traje. O mutante aproveitou o momento para reunir as últimas reservas de energia, a fim de transmitir uma notícia alarmante. — Viemos parar entre os druufs. Alguém se aproxima, vindo de fora. Sinto perfeitamente impulsos mentais estranhos. Não percebo com nitidez o que o desconhecido está pensando. Seus pensamentos são muito estranhos, totalmente inumanos. Até parece um animal semiinteligente que esteja sendo controlado por meio de campos corporais superpostos. É só, Sir! Também abri meu capacete. Fiquei surpreendido com a boa qualidade do ar, mas tive de acostumar-me à elevada pressão externa. Senti um zumbido nos ouvidos. Cutuqueios com os dedos, abri fortemente a boca e finalmente limpei os olhos incrustados. Para um arcônida, era muito agradável manter-se por um tempo prolongado no interior de um traje espacial, pois o estado de excitação aumenta o

teor de umidade de nossos olhos. Rhodan foi o primeiro a passar pela grade. Com alguns saltos, colocou-se junto à entrada, abrigando-se atrás da base do caixilho da porta. Gritei apressadamente atrás dele que cuidasse do seu gravômetro. Só então percebeu que nos encontrávamos submetidos à gravitação de 1.95G. Lloyd arrastou-se atrás de mim. Sua capacidade de resistência quase chegara ao fim. Depois que percebi o cheiro exalado por seu traje, compreendi o que ele já sofrera. Estacou atrás de Rhodan e encostou-se à parede. Quanto a mim, procurei abrigar-me do outro lado da entrada. — Onde será que viemos parar? — cochichou Rhodan. Ergui levemente os olhos. — Não estou tão interessado em saber onde viemos parar; o que gostaria de saber é por que viemos parar aqui? — retruquei também aos cochichos. — A regulagem do transmissor estava em perfeitas condições; não há a menor dúvida. E a luz verde estava acesa. Logo, a outra estação devia estar em recepção, e isso exatamente em nossa hiperfrequência. — Pois a outra estação foi esta — disse Rhodan, lançando um olhar contrariado para o aparelho disforme. — Como pode afirmar isso? Existem milhões de possibilidades — respondi em tom exaltado. — Alguma coisa não está certa. — Foi de certa forma o que aconteceu com nossa transição realizada em pleno sistema dos druufs. Por aqui devem existir energias superpostas das quais não temos a menor ideia. E possível que esta máquina tenha sido ligada para um fim totalmente diverso. Ligamos o contato do salto e fomos captados por ela. Tenho certeza absoluta de que as frequências não foram idênticas. Apesar disso, fomos atingidos por elas e capturados no local errado. Uma coisa é certa: a Drusus ainda não apareceu. É uma coincidência diabólica. Meu fígado revoltou-se, se é que no meu caso essa expressão tipicamente terrana poderia ter aplicação. Segundo os resultados de nossas investigações não poderia haver nenhuma coincidência. — Aproxima-se — anunciou Lloyd, que mais uma vez parecia olhar rigidamente através da parede. — Não posso interpretar-lhe o conteúdo mental. Trata-se antes de um grupo de impulsos, que, no presente caso, exprime expectativa. O que estará esperando? Rhodan refletiu por um instante. — Espera aquilo que este transmissor deveria trazer. O aparelho foi ligado por algum motivo. Houve uma estranha superposição de campos energéticos, e por isso recebemos o sinal verde. Quer dizer que esta gente também domina a técnica da irradiação na quinta dimensão. É interessante! — Não acredito que este aparelho seja capaz de muita coisa. Antes, parece um conjunto experimental... Rhodan manteve-se cético. Nenhum de nós sabia 30


exatamente do que se tratava. Por outro lado, não podíamos realizar um exame detido, pois para tanto nos faltava o tempo e os instrumentos. — Cuidado! — cochichou Lloyd. Subitamente também vi uma arma de radiações em sua mão, mas esta estava equipada com um dispositivo de choque. — Experimente o choque — disse Rhodan apressadamente. — Se não resolver a situação, ainda poderemos recorrer às armas de impulsos. Lá fora, no corredor quase completamente escuro, soou o ruído de passos pesados que se arrastavam. Parecia que alguém desenvolvia uma força desnecessária ao colocar os pés no chão. “A gravitação é de 1,95G; isso é apenas um efeito natural”, informou meu segundo cérebro. Será que, tal qual eu, Rhodan também imaginava que provavelmente encontraríamos pela frente criaturas enormes e musculosas? Segundo as experiências já colhidas, nos planetas habitados em que a gravitação é elevada sempre surgiram inteligências de constituição muito estável. Afinal, aqueles seres teriam de deslocar-se com certa facilidade e respirar sem esforço. Dali a alguns segundos, vimos o druuf! Olhamos cautelosamente para o outro lado da porta. Nos fundos do corredor vimos uma sombra escura e apagada de formato quadrático. Fiquei muitíssimo espantado. Lentamente, lentamente demais para as nossas concepções, aquele ser de pelo menos três metros de altura caminhava em direção ao lugar em que estávamos. Minha surpresa só durou até que me lembrasse da diferença entre as dimensões temporais reinantes em nosso Universo e no plano temporal dos druufs. Cochichei apressadamente para meus companheiros: — Não se esqueçam de que é duas vezes mais lento que nós. Para seus padrões, ele provavelmente se desloca com uma rapidez apreciável. Pelo que diz Lloyd, se encontra numa disposição de expectativa. Geralmente a pessoa que está nessas condições apressa o passo. Quer dizer que, quanto à velocidade de locomoção, possuímos certa vantagem sobre essa gente. Finalmente o druuf foi atingido pela luz que saía do recinto em que estávamos. Só então pudemos vê-lo perfeitamente. Apesar da estranha configuração de seu corpo, examinei-o com calma. Lloyd soltou um gemido de pavor, enquanto Rhodan se manteve em silêncio. Numa situação como esta, o treinamento arcônida em psicologia de raças estranhas a que eu fora submetido representava uma grande vantagem. Já não me espantava com as criaturas que a natureza, aparentemente pródiga, criava numa imensa variedade. — Santo Deus! — foram as únicas palavras que o mutante conseguiu proferir.

Depois se calou sob os efeitos de meu olhar recriminador. A altura do druuf chegava a uns três metros, e sua largura era equivalente à altura. Foi-se aproximando sobre as pernas disformes que antes pareciam um par de colunas. As pernas eram apenas duas, o que já representava um fator tranquilizador. Havia dois braços muito robustos, que terminavam em estranhos órgãos preênseis finos e articulados, que pelo aspecto exterior correspondiam aproximadamente à forma humanoide. Mas era este o único elemento de semelhança com as criaturas humanas... O que infundia pavor era a cabeça redonda de cerca de cinquenta centímetros de diâmetro, na qual havia quatro olhos enormes que agora refletiam a luz. Dois deles estavam no lugar “costumeiro”, enquanto os outros dois se encontravam no lugar onde ficam as têmporas humanas. Não havia nariz ou orelhas. Além disso, não existia nenhum cabelo. A boca triangular e estreita incutiu-me uma certa idéia. Sem dúvida, esses seres descendiam de insetos. Dali resultava a incapacidade de Lloyd apreenderlhes os pensamentos por meio de sua capacidade telepática. Ainda bem que o druuf nos dera oportunidade de examinar seu corpo grosseiro e monstruoso. Se não fosse a horrível cabeça, seu aspecto nem seria tão amedrontador, apesar do tamanho descomunal. Acontece que eu conhecia os homens, e também sabia definir meus sentimentos. Muito embora a inteligência nos dissesse constantemente que não devemos julgar um ser pelo aspecto exterior, mas sim pelo espírito, nosso instinto sempre se rebela diante de uma visão como esta. E, o que maior desconfiança nos causava era um ser estranho que apresentava sinais evidentes de descender de insetos ou lagartos. Num caso desses, o sentimento humano não acompanhava a inteligência. A repugnância, desconfiança e ódio, que surgiam numa oportunidade como esta, só podiam ser reprimidos pela força da inteligência, desde que o intelecto dispusesse de força suficiente para isso. Olhei discretamente para Rhodan. Conforme esperara, parecia lutar com seus sentimentos. Evidentemente estaria dizendo a si mesmo que o druuf não poderia ser responsabilizado pelo seu aspecto exterior. Provavelmente, na opinião daquele ser estranho, éramos também figuras monstruosas. Rhodan conseguiu controlar-se muito depressa, mas o rosto de Lloyd ainda continuava a retratar a repugnância. Talvez isso ocorresse devido a suas faculdades especiais. Afinal, captava muito melhor que nós a essência propriamente dita do druuf. Voltamos a abrigar-nos, pois o sentido visual do desconhecido devia ser excelente. Deslocava-se na escuridão com a mesma segurança com que nós nos movemos à luz do sol. — Faça boa pontaria, Lloyd — disse apressadamente. — Não sabe falar como nós. Provavelmente sua base de 31


comunicação é outra. Não deve ter tempo para emitir um pedido de socorro. Lloyd confirmou com o rosto enojado. Os passos retumbantes cessaram por um instante. O druuf entrou tateando pela porta. Só agora compreendi por que era tão larga e alta. Comprimi meu corpo contra a parede lisa. Rhodan também se abrigou. Quando as pernas-coluna entraram em meu campo de visão, percebi que essa raça tem pele marrom-escura semelhante ao couro, que parece uma blindagem elástica. A roupa apertada do druuf era quase totalmente transparente. Não compreendi por que achavam necessário recorrer a um envoltório artificial para cobrir o corpo. Lloyd hesitou em disparar seu tiro de radiações. Estive a ponto de intervir com minha arma de impulsos. Mas percebi que o mutante tentava captar os impulsos do “monstro” numa posição mais próxima. Naquele instante, o druuf parou de repente. Vi que os olhos laterais também se viraram para a frente. Com o corpo rígido fitava a grade feita de barras metálicas brilhantes. Percebi que notava a falta daquilo que esperara encontrar ali. Estava na hora de Lloyd intervir. No momento em que pretendia passar ao ataque ouvi o estando forte da arma de choque. Minha intervenção tornou-se desnecessária, pois o gigantesco corpo tombou que nem uma árvore derrubada. O druuf caiu pesadamente. Segurei o crânio esférico, a fim de impedir que sofresse qualquer lesão. Rhodan saiu de trás de seu abrigo. Os grandes olhos do desconhecido estavam muito arregalados. Lloyd aproximou-se lentamente e a passos cambaleantes. Seu rosto estava desfigurado. Ao que tudo indicava, outro ataque de disenteria estava iminente. — Resolvi esperar mais um pouco — disse em voz hesitante. — Pensou em alguma coisa que não entendi. Parece que se tratava de alguma carga. Sua mente estava ocupada com uma caixa ou coisa que o valha. Eu... Subitamente Lloyd ficou calado. Gemeu e dobrou os joelhos. Arrastei-o rapidamente e deitei-o junto à entrada. Os sofrimentos experimentados pelo mutante eram horríveis. A idéia de uma possível infecção passou pela minha cabeça, pois, com a abertura do traje espacial, seria perfeitamente possível. Mas, no momento, isso não importava. Dirigi-me a Rhodan. O mutante disse num gemido: — Cuidado, Sir. Este sujeito deve ter transmitido algum impulso de advertência. Não foi uma mensagem puramente telepática. Sem dizer uma palavra, Rhodan apontou para as minúsculas saliências que havia na parte superior dianteira do crânio. Naquele instante, pendiam frouxamente para baixo. — São tentáculos ou antenas, conforme se queira — disse. — Será que os druufs se comunicam por meio de

frequências ultracurtas? — Comunicação pelo ultrassom? — respondi em tom nervoso. — É possível. Conheço seres que usam esse tipo de comunicação em vez dos órgãos de fala. Ou melhor, para eles, os respectivos órgãos são usados para a fala assim como as cordas vocais o são para nós. Já que Lloyd não captou qualquer impulso telepático, deve ser isso mesmo. Dessa forma a voz do druuf só será compreensível por meio de algum aparelho auxiliar. O que acontecerá agora? Quando mudei de assunto de modo abrupto, Rhodan estremeceu levemente. Apontou para a grade. — Você poderia pôr isso a funcionar? Prefiro minha residência de Hades. Sem uma série de experiências minuciosas, não saberia manipular o estranho aparelho. Nem sequer fazia a menor ideia sobre a respectiva fonte de energia. — Seria inútil tentar. Rhodan levantou-se lentamente. Fitou o corpo do gigante escuro, que se tornara rígido como ferro. — Ele poderia matar-nos, apertando os braços — constatou em tom objetivo. — Está bem. Vamos colocá-lo em lugar seguro. Uma vez que tombou com facilidade, seu sistema nervoso deve ser muito sensível. Pelo que calculo, a paralisia durará pelo menos duas horas. Até lá nossa situação deve estar decidida. Em outras palavras, não há necessidade de amarrá-lo. — Isso nunca aconteceria a um herói de romance — respondi, embora não estivesse disposto a ironizar. — Vamos olhar por aí, até que eles nos peguem. Lloyd, fique deitado aqui na entrada. Defenda-se com a arma de choques conforme e até quando puder. Como se sente? — Miseravelmente mal, almirante. Nunca imaginei que uma coisa destas pudesse existir. Desejo-lhes tudo de bom. Sinto outra série de impulsos cerebrais estranhos. Desta vez vêm em grande quantidade. Essa gente não tem pressa de aparecer. Verificamos nossas potentes armas de impulsos. O mutante era o único que possuía arma de choque. — Sir, tire este monstro daqui! — gritou Lloyd em tom histérico. Arrastamos o corpo gigantesco do druuf para o interior da sala. A “figura” era por demais anormal. Mas Rhodan resmungou: — Não fique fazendo fita, homem! Ele apenas é um pouco diferente. — Seja como for, Sir, sempre que o vejo não posso deixar de pensar no inferno. Ninguém vai entrar aqui! Preferi não informá-lo de que as coisas seriam muito fáceis para os druufs. O que poderia fazer com sua arma de choque? Era bem verdade que, apesar das armas de impulsos, nossas chances não eram muito melhores. Fez-nos mais um sinal. Depois fomos saindo. Seria inútil andar abaixado no longo corredor para escapar aos olhos dos desconhecidos. 32


Por isso caminhamos eretos. Rhodan sabia que o jogo estava definitivamente perdido. Até então, ninguém nos molestara ou atacara. Mas era certo que, se não acontecesse um milagre, nunca mais sairíamos dali. Rhodan disse em tom indiferente: — Acho que estamos bem abaixo da superfície do planeta. A gravitação é tremenda. Talvez tenhamos “pousado” no número dezesseis do sistema dos druufs, ou seja, no planeta principal, onde você constatou tantas fontes de energia. Lá na frente há máquinas. Também já ouvira o ruído surdo. Caminhamos mais uns cem metros e vimos diante de nós uma gigantesca sala, que possuía numerosas saídas. Ao que parecia por aqui as portas eram desconhecidas. A finalidade dos mecanismos à nossa frente era evidente. Os druufs construíam seus reatores atômicos de forma mais ou menos semelhante à dos nossos. No entanto, não vimos qualquer conversor acoplado aos mesmos. As máquinas instaladas nessa sala eram gigantescas. Utilizavam-se condutores sem fio, cuja luz ultra-azul representava a primeira iluminação razoável que víamos. O vermelho sombrio havia desaparecido. Examinamos a grande unidade energética sem dizer uma palavra. Dali a alguns segundos, até mesmo Rhodan com suas reduzidas capacidades telepáticas sentiu a aproximação dos druufs. — São impulsos temíveis — afirmou. — Não é de admirar que Lloyd tenha enlouquecido. Se fôssemos sensatos, jogaríamos fora as armas e ficaríamos de braços erguidos na porta, esperando essa gente. Pisquei o olho e vi uma expressão matreira em seu rosto. — Somos; sensatos? Rhodan lançou-me um olhar sombrio e sacudiu a cabeça. — O senhor poderá abrigar-se ali. Ficarei atrás da base do reator que está à minha direita. Rhodan foi ao local indicado sem dizer uma única palavra. Procurei um lugar apropriado e tentei avaliar a situação. Pouco atrás de mim começava o corredor pelo qual havíamos vindo. Quando o atravessamos, não notamos qualquer abertura. Portanto, poderíamos resistir por algum tempo. Posteriormente voltaríamos à sala onde se encontrava a grade energética. Lá provavelmente nos esperaria o fim inevitável. Se conseguíssemos encontrar algum conhecido, ou ao menos alguém que nos desse alguns esclarecimentos sobre a tecnologia totalmente diversa dos druufs, provavelmente poderíamos arriscar uma escapada. Mas, na situação em que nos encontrávamos não nos restava outra alternativa senão ficar na ratoeira e esperar pelo que estava por vir. Se tivesse certeza de conseguir manobrar uma das

naves espaciais dessa raça, teríamos uma pequena chance de fuga. Preferi não brincar mais com essa ideia! Estávamos indefesos diante do que nos esperava e não teríamos outra alternativa senão pôr as mãos para o alto. Mas não queríamos fazer isto. Se os druufs fossem humanoides, talvez valesse a pena assumir o risco. Caso eles fizessem questão de apoderarem-se de nossos corpos sadios para realizar suas experiências, que viessem buscálos, e isso no lugar por nós escolhido. Lancei um olhar para Rhodan, que também encontrara um bom local de refúgio. Era claro que nossa resistência era insensata. Fatalmente haveria de chegar a hora em que conseguiriam pôr as mãos em nós. A rigor, não se deve fazer uma coisa da qual se sabe de antemão que está condenada ao fracasso. Mas, quanta coisa não se faz sem uma finalidade específica? Para nós, poderia valer muito respirar por mais uma hora, em liberdade, esse ar surpreendentemente bom. Isso não era de desprezar!

9 —Tínhamos de vigiar ao todo quatro entradas. A quinta dava para o corredor que começava atrás de mim. Há poucos instantes fundira a entrada à minha direita com os raios de minha arma térmica, transformando-a num bolo escaldante de pedras, sob o qual foram atirados os corpos metálicos de dois robôs de formato estranho. Os druufs não haviam penetrado na linha de fogo. De outro lado, também não realizaram qualquer tentativa séria de expulsar-nos de nossa posição. Ao que tudo indicava os robôs por eles enviados nem sequer eram máquinas destinadas especificamente ao combate. Tive a impressão de que, de propósito, haviam utilizado algumas máquinas de reparos, a fim de sondar nossas reações. Bem, nossa opinião foi expressa de forma bastante enfática: abrir fogo sem cessar. Com isso minha consciência, que queria que enviasse aos druufs uma declaração oficial de guerra, ficou tranquilizada. Afinal Rhodan e eu representávamos uma grande entidade estatal, cujas leis estabeleciam distinção nítida entre homicídio e ato de guerra. Quer dizer que os druufs já sabiam como estava a situação. Dependia de eles tomarem as providências que julgassem adequadas. A coronha isolada de meu radiador de impulsos já estava morna. Na câmara de fusão em miniatura, uma pequenina carga catalítica aguardava a fagulha elétrica que produziria a ignição. Uma fração da energia liberada seria 33


absorvida pelo microconversor, que geraria a eletricidade necessária para que os campos energéticos fossem dirigidos para a câmara de reação e o cano direcional. Se não fosse assim, uma pequena bomba atômica explodiria na minha mão direita, pois, no processo de fusão a frio, a carga catalítica começava a reagir a uma temperatura pouco inferior a quatro mil graus. Meu alvo, que era a entrada situada mais à direita, ficava a cerca de cem metros do lugar em que me encontrava. Apesar disso, o calor liberado pelo disparo já começava a atingir-nos. Nuvens de fumaça malcheirosa espalharam-se pela sala. As máquinas foram desligadas pouco depois do momento em que abri fogo. Dessa forma, ouvimos perfeitamente o borbulhar e o chiar da lava incandescente. Ao que tudo indicava, o cheiro penetrante vinha dos robôs que fervilhavam. Rhodan foi o primeiro a começar a tossir. Fitei-o com os olhos lacrimejantes e, num acesso de humor fúnebre, gritei: — Que heróis nós somos! Chegamos a empestear o ar que para nós é tão precioso! Rhodan interrompeu-me com um gesto e resistiu a outro acesso de tosse. Depois gritou: — Você já compreendeu que não querem danificar a unidade energética? Se a usina em que nos encontramos for muito importante, estaremos muito bem guardados em seu interior. Soltei uma risada de escárnio pelo seu otimismo. Mas, afinal estes bárbaros eram assim mesmo. Só desistiriam depois que o mundo desabasse à sua frente. Pouco antes do primeiro disparo, arrisquei-me a chamar Fellmer Lloyd pelo rádio de capacete. A resposta foi imediata. Comunicou que conseguira limpar seu traje espacial. Mas as instalações sanitárias estavam danificadas, motivo por que os reparos só poderiam ser realizados com ferramentas especiais. De resto estaca passando mais ou menos bem. Tinha certeza de que sé sentia muito mal. Era, claro que, na situação que nos encontrávamos, preferia não nos dizer isso. O druuf, que sofrera o choque, continuava duro. Esse fato me convenceu de que realmente o sistema nervoso desses gigantes era muito sensível. Olhei para o teto, onde devia haver as aberturas dos dutos do equipamento de climatização. Descobri algumas aberturas, mas a fumaça, que começava a tornar-se insuportável, não estava sendo aspirada pelas mesmas. Face a isso, tive certeza de que os druufs haviam desligado o sistema de renovação de ar. Ficara escuro. A iluminação do pavilhão consistia unicamente nas esferas brilhantes vermelhas, que também aqui pairavam logo abaixo do teto. Acreditei tratar-se de antenas. O grito de advertência de Rhodan soou em meio às minhas reflexões. Baixei a cabeça com tamanha violência que meu queixo bateu na saliência da base do reator atrás

da qual me abrigara. Furioso, ajoelhei-me e levantei a arma. Desta vez, os robôs estavam aparecendo ao mesmo tempo nas três entradas ainda não derretidas. Ouvi o trovejar surdo da arma de Rhodan. O raio incandescente ofuscou-me. Quase não consegui enxergar. Só apertei o gatilho quando a cruz da minha mira cobria um robô esférico, que se aproximava velozmente pelo corredor largo, existente entre os grandes reatores. No momento em que foi atingido pelo raio energético, encontrava-se a uns cinquenta metros de distância. O disparo produziu uma ressonância dolorosa no meu ouvido. Vi o corpo esférico explodir. Um relâmpago fulgurante subiu ao teto. Antes que fosse atingido pela onda de compressão, atirei-me ao solo e segurei a base do reator. Seguiu-se uma série de estouros tão fortes que até parecia que todo esse mundo desconhecido estava prestes a explodir. Rhodan voltou a disparar. Percebi os raios energéticos luminosos cobrindo metodicamente as duas entradas que ficavam de seu lado. Voltei a ocupar meu posto e vi que, da entrada situada de meu lado, saíam novas levas de máquinas esféricas. Disparei duas vezes. Do outro lado surgiu o caos. Mas antes que outra máquina detonasse, os robôs recuaram tão depressa que não consegui visar mais nenhum alvo. Cobri os contornos da entrada com um tiro prolongado; a mesma também se desfez numa massa borbulhante. Estava na hora de fechar o capacete. O calor já se tornava insuportável e as nuvens de fumaça eram tão densas que mal conseguíamos respirar. A cobertura de minha cabeça emitiu um clique e se ajustou ao fecho magnético. O suprimento de oxigênio começou a funcionar automaticamente. — Então é isso — disse a voz de Rhodan, vinda pelo alto-falante. — Tem certeza de que não há nenhum robô escondido por aqui? — perguntei. — Tenho certeza quase absoluta. Pelo que consegui notar durante a confusão, não há nenhum. Acho que vamos recuar para a sala com a grade energética. — Que ideia maluca! Vamos resistir na usina de energia enquanto for possível. Se para os druufs as máquinas são tão importantes que preferem não destruílas, então... A palestra foi interrompida pela voz de Lloyd. — O ar por aqui está ficando muito poluído, Sir — disse com a voz tranquila. — Tentei fechar os “portos”, mas não consegui. Compreendi aquilo que ele disse em sentido figurado. Se fosse obrigado a fechar seu capacete, teria de recorrer mais uma vez ao suprimento de oxigênio das suas garrafas. Conforme constatamos logo após a rematerialização, seu suprimento de ar daria para umas seis horas. Apenas via a sombra de Rhodan. Mais adiante, o robô que explodira estava ardendo. 34


— Está bem; vamos andando — respondi em tom de desânimo. Mas teremos de derreter a entrada que ficará atrás de nós, para evitar que a fumaça penetre lá dentro. O.K., bárbaro, cuide dessa parte. Irei para onde está Lloyd. — Acho surpreendente que os druufs não chamem pelo rádio para pedir que capitulemos — respondeu, esquivando-se às minhas palavras. — Estou transmitindo com cinco watts. Devem ser capazes de captar minha transmissão. — Não tenha a menor dúvida. Mas dificilmente saberão fazer qualquer coisa com a língua inglesa. Talvez conheçam o arcônida. — Não diga! — Será que você acredita realmente que é o centro do Universo? Por que não iriam conhecer o arcônida? Bilhões dos nossos foram levados para o plano temporal dos druufs. Estou perfeitamente lembrado das frentes de superposição. Em face disso, os quadráticos talvez tenham criado algo parecido com uma máquina tradutora. Pelo que me consta, até hoje nenhuma população de língua inglesa foi atingida pela zona de superposição. Passou a falar em arcônida, mas isso também não adiantou nada. — O ar está ficando cada vez mais poluído! — disse Lloyd. Rhodan caminhou lentamente em direção à porta que ficava à nossa retaguarda. Depois de lançar mais um olhar para as máquinas fracamente iluminadas, segui-o. Por um instante brinquei com a ideia de inutilizá-las, mas logo compreendi que a destruição não me serviria para nada. Quando nos encontrávamos a um metro da passagem, o mutante começou a berrar. — Sir, alguém está passando pelo teto do corredor. Atlan, chefe, não estão ouvindo? Já estão entrando. Estão atrás de vocês. Estou captando perfeitamente impulsos cerebrais. Conheço as intenções deles! Já estávamos disparando pelo corredor que devia ter uns cinquenta metros em linha reta. Ligamos os potentes holofotes de nossos capacetes, cujo feixe de luz mergulhava o trecho de caminho que tínhamos pela frente numa forte luminosidade. Mais ou menos no centro do túnel, havia uma abertura no teto. Mas antes que pudessem abrir fogo contra nós, já havíamos passado. Gritamos para Lloyd, a fim de evitar que ele nos confundisse com os inimigos. A seguir, entramos cambaleantes na sala com a grade energética. O mutante ainda não fechara o capacete, embora, mesmo no lugar em que se encontrava o ar já estivesse cheio de finas nuvens de fumaça. Também virei meu capacete para trás. Rhodan atirouse ao chão a meu lado, ao abrigo das robustas colunas que ladeavam a entrada. Respirava pesadamente. — Foi duro, não foi? — perguntou Fellmer. Virei-me e examinei atentamente seu rosto. Estava pálido, mas naquele momento parecia ter um instante de

descanso. — Como vai? Fellmer não gostava de dar mostras de fraqueza. — Não é nada agradável, almirante. Quanto tempo ainda falta? Queria saber quanto tempo faltava até que nossa situação se tornasse insustentável. Mas eu não estava em condições de esclarecê-lo a este respeito. — Aos poucos, acabarão perdendo a paciência — constatou Rhodan. — Se estivesse no lugar deles, não permitiria que isso acontecesse em minha casa. Atlan, nós nos entregaremos no último instante. Entendido? Aquilo soara como uma ordem. Acontece que eu não estava disposto nem era obrigado a aceitar ordens, a não ser que me encontrasse a bordo de uma nave da frota solar que estivesse em batalha, quando então, evidentemente, haveria uma graduação hierárquica. Lancei-lhe um olhar perscrutador. — Ainda pensarei sobre isso, meu caro. Não estou interessado em sofrer a dissecação que esses descendentes de insetos talvez pretendam realizar. O rosto de Lloyd mudou de cor. Rhodan cerrou os dentes, fazendo-os ranger fortemente. — Mesmo assim devemos assumir este risco! — disse, insistindo em seu ponto de vista. — Dessa forma, ainda teremos uma chance de escapar. — Tolice! Se nos encontrássemos no Universo einsteiniano e encurralados por uma raça conhecida, ainda diria que sim. Mas aqui... Sacudi a cabeça e voltei a olhar para a entrada. Lá fora estava tudo em silêncio. Estive a ponto de levar mais um comprimido de alimento concentrado do depósito do capacete à boca, quando os druufs fizeram nova tentativa. Da abertura do teto saiu uma forte luminosidade. Ouviu-se um rumorejar surdo. Prendemos a respiração e ficamos escutando. — Até parece um tanque que está andando — cochichou Lloyd. — Ou então como robôs pesados dotados de campos defensivos — acrescentei. — Se utilizarem esse tipo de máquina, podemos jogar fora nossas armas portáteis. O.K.? Pensem bem se querem entregar-se ou não. Quanto a mim, só decidirei no último instante. Mais uma vez, o rosto de Fellmer mudou de cor. Engolindo em seco e lutando com as náuseas, virou o rosto para outro lado. Dali a pouco, contorcia o corpo junto à parede. A pedra ia caindo do teto do corredor. Tratava-se de rocha natural entremeada pelo material de revestimento. Estavam ampliando a abertura. Em minha opinião isso era um absurdo. Por que não mandavam suas tropas, ou fosse lá o que fosse pelo pavilhão dos reatores? Preferi não refletir mais sobre isso. Pouco importava a direção de que vinham. Fiquei com a arma engatilhada, regulada mais uma vez 35


na potência máxima. O polegar da mão esquerda repousava sobre o botão que acionava o mecanismo automático de fechamento do capacete. Subitamente Rhodan tocou-me com o pé. Seu rosto revelava uma tensão extraordinária. Olhei-o. — Você não ouve? Alguém me chama pelo nome. — Hein? — É o que acabo de dizer. Alguém me chama pelo nome. Trata-se de uma mensagem telepática. Com um sorriso inseguro voltou-se para o mutante. — Lloyd, ouviu? — Ouvi sim senhor, mas a mensagem é muito fraca — disse Fellmer. — Alguém o está chamando pelo nome de Perry Rhodan. Diz que o perigo se aproxima e que sente muito ter-nos capturado involuntariamente com seu transmissor. Mas, apesar de tudo, foi bom, pois só assim conseguiu vencer suas resistências internas. Ele não sabe quem é o senhor... Poucas vezes vi um rosto tão espantado. Rhodan parecia fora de si. Para mim aquilo não passava de uma brincadeira de mau gosto. — Santo Deus! Quem pode conhecer meu nome por aqui? E que formulações místicas são estas? O sujeito deve saber quem sou! — Isso mesmo! — reforcei sem o menor senso de humor. — Trata-se de um truque dos druufs; apenas isso. — Acabo de receber outra mensagem! — exclamou Lloyd. — Ele quer que nos coloquemos novamente atrás das grades. Diz que faria a ligação inversa. É isto mesmo, usou a expressão ligação inversa. Mas ainda não sabe dizer de onde conhece seu nome ou por que quer ajudar-nos. Desta vez, fiquei aborrecido de verdade. — Preste atenção! — gritei para Rhodan. — Alguma coisa está passando pelo buraco. Reconheci as pernas grosseiras de um gigantesco robô. Era feito à semelhança e imagem dos druufs. Isso provava se tratar de uma máquina de guerra. Qualquer inteligência que constrói robôs vale-se das suas características anatômicas para construir esses artefatos armados. Não perdi tempo. A arma de radiações emitiu um rugido. O raio energético atingiu as pernas balouçantes, e foi refletido pelas mesmas. O segundo disparo de minha arma fundiu o teto, mas naquele momento a máquina já descia lentamente. Ondas de pressão superaquecidas passavam ruidosamente pela abertura do recinto. Não tivemos necessidade de acionar as chaves, porque o dispositivo térmico fechou automaticamente nossos capacetes. Arrisquei o terceiro ataque, mas o robô apenas cambaleou ligeiramente para trás. Sem que tivesse havido qualquer comunicação entre nós, saltamos para dentro do grande pavilhão. No momento em que a máquina estava a ponto de entrar, o portão desmoronou sob a ação de nosso fogo atômico. O ar, que até então ainda era respirável, começou a ferver. Os projetores de campos defensivos de nossos trajes entraram

em funcionamento. Era uma rematada loucura recorrer a armas térmicas num ambiente como este. — Outra mensagem — disse Lloyd pelo rádio de capacete. — Diz que não devemos perder mais tempo. Quer que entremos, pois nos ligará imediatamente de volta. Outros robôs se aproximam. Santo Deus, o senhor ao menos poderia experimentar! Não sabia se estas palavras foram dirigidas a mim ou a Rhodan. Lancei um olhar para a “jaula” energética. Não confiava mais nela. Nesse instante, as grossas barras de metal começaram a brilhar. Devia ser o calor, ou então realmente alguém acabara de ligar o aparelho parecido com um transmissor. — Acabo enlouquecendo! — disse Rhodan fora de si. — Será que há alguma coisa atrás...? — Isso será uma aventura — ironizei, apesar da situação desesperadora em que nos encontrávamos. — Quem sabe o que acontecerá depois que entrarmos ali? Lloyd passou por nós, cambaleando. Aproximou-se lentamente das barras de metal e ultrapassou-as. Por um momento contemplamos estupefatos o quadro. Não, não aconteceu nada. Um trovejar soou na abertura soterrada. Alguém estava removendo as rochas incandescentes com algum aparelho. — Falta um minuto, arcônida! Os olhos de Rhodan chisparam fogo. Finalmente levantou-se devagar e também caminhou em direção à grade. Segui-o de perto. Lloyd prestou atenção ao que se passava em sua mente. — Ele nos deseja muitas felicidades — disse o mutante. — Repete que tudo foi fruto de um equívoco. Quer acrescentar que... Não consegui ouvir as palavras que se seguiram. Uma força tremenda apoderou-se de meu corpo.

10 Nosso subterrâneo no planeta Hades continuava escuro e sem ar. Reencontramo-nos no transmissor, mas não sabíamos que estiváramos inconscientes por tanto tempo. Lloyd ainda não recuperara os sentidos. Rhodan gemeu de dor. Levamos muito tempo sem dizer uma palavra, pois não encontrávamos explicações para o fenômeno. Minha lógica recusava-se a absorver acontecimentos tão inacreditáveis. A salvação na hora mais difícil parecia uma nota dissonante. De qualquer maneira, naquele mundo desconhecido devia haver alguém que conhecia Rhodan. Quem seria? Tratava-se de uma pessoa sequestrada pelo campo relativista do plano dos druufs? A tentativa de prosseguir no raciocínio me dava tonturas. 36


Subitamente Rhodan chamou pelo rádio de capacete. — O ar de Lloyd dá para menos de cinco minutos — ouvi-o dizer com a voz embargada. — Isso significa que ficamos inconscientes por mais de cinco horas. A notícia deixou-me profundamente abalado. Então era por isso que o mutante ainda não tinha recuperado os sentidos. Gritamos e o sacudimos fortemente para acordá-lo. Não deixamos de notar a luz verde do transmissor, que continuava acesa. Apenas não era mais uma luz constante, mas acendia-se a intervalos irregulares. Levei alguns segundos para compreender o sentido da mensagem. Alguém estava transmitindo sinais Morse pelo aparelho, ligando-o e desligando-o num ritmo determinado. Rhodan começou a soletrar. — D-R-U-S-... Ora essa, isso quer dizer Drusus! — berrou com tamanha força que senti os ouvidos doerem. — É a Drusus; chegaram. Gritando sempre, saltou para frente e bateu sobre a chave que acionava o mecanismo do transmissor. Fizemos força juntos para empurrar os pés de Lloyd para dentro dos contatos. Assim que conseguimos, o levantamos pelos braços e o apoiamos com nossos corpos. Depois apertei rapidamente o botão de contato... Desta vez a dor da desmaterialização representou uma bênção para mim. Pouco me importava o que aconteceria depois. Antes de nos desfazermos, colhi uma última impressão do rosto de Rhodan. Estava radiante no sentido literal da palavra. *** Acordamos entre as cobertas brancas, que sem dúvida deviam pertencer à excelente clínica de bordo da Drusus. Não vimos Lloyd. Ergui-me sobre os cotovelos e olhei em torno, perplexo. Um homem corpulento, de cabelo louro-claro e jaleco muito grande fitou-me. — Olá, doutor. Está por aqui de novo? — perguntei. O médico encheu as bochechas e, em vez de responder a meu cumprimento, disse: — Por todos os santos do firmamento, onde foi que Lloyd arranjou essa disenteria bacilar? Estava quase sufocado quando o retiramos do transmissor. Tive certeza de que estávamos em segurança. Falar primeiro sobre a pessoa mais doente era uma atitude típica do Dr. Sköldson. — Não faço a menor ideia, doutor; realmente não faço. Pelo que diz Lloyd, talvez seja da água de uma nascente de Fera Cinzenta? — O quê? A água daqui? A observação deixou-me sobressaltado. — A água daqui? Será que estamos no planeta Fera Cinzenta?

— Onde o senhor pensa que está? Afinal, dormiu quatorze horas. A Drusus pousou há bastante tempo, isso depois que ficamos cruzando durante uma eternidade no espaço dos druufs, unicamente por causa dos senhores. Bem, então ele acha que foi a água da nascente... Pôs a mão no queixo sem barba e fitou-me prolongadamente. — Se é assim, não compreendo por que não veio falar comigo antes da decolagem de emergência. Naquela oportunidade, a infecção já devia ter revelado seus sintomas. — É verdade, doutor. Talvez tivesse sido preferível o senhor não ter pendurado na porta da clínica de bordo da Califórnia aquela placa que dizia: “Entrada somente permitida de quatro.” Os terranos possuem um orgulho muito estranho. Desta vez ficou realmente perplexo, mas não teve tempo de esboçar uma resposta. Uma matilha ruidosa de homens entrou na sala. Na frente, vinha Reginald Bell, seguido de perto por Sikermann, o gigante louro. Não pude constatar quem mais apareceu. Uma torrente de perguntas foi despejada sobre nós. Rhodan respondia num estado de semissonolência. Perguntei por que a Drusus demorara tanto. Uma expressão séria surgiu no rosto de Bell. — O salto com a Califórnia foi bem sucedido, e conseguimos romper as linhas inimigas sem maiores problemas. Não ficamos inconscientes, do que se conclui que a teoria da compensação progressiva é correta. Acontece que, depois disso, não conseguimos atravessar as linhas de bloqueio da frota robotizada. Até pouco tempo atrás, mais de cinquenta mil naves encontravam-se diante da fenda da zona de descarga. Para romper essas linhas, a Drusus teria de arriscar uma batalha. Preferimos não tentar a batalha, pois conhecíamos as reservas de ar de que vocês dispunham. É claro que, se tivéssemos sabido algo da doença de Lloyd e das consequências da mesma, teríamos aparecido imediatamente. Mas, da forma pela qual vimos as coisas, o risco parecia excessivo face ao resultado. Ficamos informados de que a solução do enigma era muito simples. Contávamos com a possibilidade da ocorrência de problemas insolúveis por ocasião do hipersalto. — Como vai Lloyd? — perguntou Rhodan com a voz cansada. Também se sentia muito mal. — Muito bem — respondeu Sköldson. — A disenteria já foi debelada. Dentro de alguns dias estará totalmente recuperado. Aplicamos algumas vacinas nos senhores. Estava mesmo na hora. — E a frota arcônida? — Foi retirada juntamente com boa parte das naves dos saltadores. No momento os druufs não estão atacando — respondeu Bell em tom impaciente. — O que aconteceu com vocês? Levei quase seis horas telegrafando o nome da 37


nave pelo receptor do transmissor fictício. Afinal, havíamos combinado isso. — Combinado? — perguntei em tom de espanto. — Como? Não sabíamos disso. — Logo depois da decolagem da Califórnia eu os avisei pelo rádio. — Seu engraçadinho! — disse Rhodan em tom indignado. — Mal e mal conseguimos ouvir que vocês galgaram romper as linhas dos atacantes. Depois não entendemos mais nada. Bell deixou cair o queixo. Mas atrás, o rato-castor Gucky soltou gritos estridentes. Parecia divertir-se a valer com a gafe que seu grande amigo acabara de cometer. Não lhe demos atenção. As palavras de Fellmer, que nos transmitia a mensagem telepática de um desconhecido, ainda soavam em nossos ouvidos. — Perdemos algum dos homens da Califórnia? — perguntou Rhodan. Em torno de nós, os homens fitaram-se com uma expressão de perplexidade. Não, a tripulação estava completa. — Desista, Perry — pedi em voz baixa. — Provavelmente nunca saberemos. — O que houve mesmo? — gritou Bell. — Mais tarde contarei — respondeu Rhodan em tom sonolento. — Mais tarde. Mas ainda hei de descobrir. Eu lhe dou minha palavra.

O Dr. Sköldson expulsou os curiosos, usando palavras ásperas e fazendo valer sua autoridade incontestável de médico-chefe da Drusus. Quanto a mim, fiquei refletindo por mais algum tempo no sentido de nossa missão. Bem, pelo menos já sabíamos com quem estávamos lidando. Foram estas as inteligências que há um tempo imenso destruíram minha frota. Obrigaram-me a passar alguns milênios em estado de hibernação bioquímica. Foram os culpados de eu ter vagado pelo planeta Terra, então ainda bárbaro e inculto, desde os tempos do apogeu do Império Romano. Sempre estive empenhado em transmitir ensinamentos aos terranos, a fim de reunir os meios que me possibilitassem ao menos a construção de um hiper-transmissor. Foi inútil. Ninguém pôde fazer nada por mim, e não me era possível fabricar de uma hora para outra um transformador de campo de quinta dimensão. Agora já sabia onde procurar os culpados. Uma coisa era certa: tinha uma boa conta a ajustar com eles. Adormeci com estes pensamentos. Estava na hora de reunir as forças para as tarefas que estavam por vir. A base espacial instalada por Rhodan no planeta Fera Cinzenta, do sistema de Mirta, continuava a ser uma ideia maluca. Talvez conseguisse avisá-lo de que, por ocasião da descoberta, que sem dúvida era iminente, já não estávamos neste mundo. Talvez!

Pela primeira vez Perry Rhodan viu-se no verdadeiro e perigoso Universo Druufiniano, mas conseguiu salvar-se graças a um amigo desconhecido. Quem seria este amigo? Em Sob as Estrelas de Druufon, título do próximo livro, surpresas e mais surpresas acontecem...

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Nº 76

De Clark Darlton Tradução

Maria Madalena W. Texeira Digitalização

Arlindo San

Revisão e novo formato

W.Q. Moraes

Onot, o espírito amigo, ignora o porquê — mas auxilia os terranos!

Não foi totalmente por acaso que Perry Rhodan encontrou pela primeira vez o misterioso desconhecido de outra dimensão temporal. Desse encontro resultou uma situação quase fatal para ele próprio, para Atlan, o arcônida, e para Fellmer Lloyd, o mutante. Só mesmo a intervenção inesperada do amigo ainda desconhecido permitiu-lhes salvarem-se. Para Perry Rhodan, toda ajuda é preciosa, principalmente agora que planeja um confronto entre o robô-regente de Árcon e os druufs. As duas poderosas frotas espaciais inimigas já lutam encarniçadamente na linha de encontro das duas dimensões temporais... E Perry Rhodan precisa resguardar o Império Solar do aniquilamento ou da escravização. De retorno à base em Fera Cinzenta, Perry Rhodan lembra o ser misterioso que há muitos decênios já prestara auxílio aos terranos. O administrador do Império Solar transmite um convite a este ser: acompanheme em meu novo empreendimento Sob as Estrelas de Druufon.

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Rhodan continuava sorridente. Everson tinha a impressão de viver novamente toda a cena. — Um momento! Com alguns gestos, Rhodan escureceu a pequena peça Sete planetas contornavam Tatlira, a estrela número que lhe servia de escritório durante a estadia em Mirta VII. 221, a 1.012 anos-luz da Terra. Fazia mais de sessenta anos Um projetor começou a zumbir. Uma das paredes serviu de que nenhuma nave terrana visitava aquele sistema. Porém, tela. em sua primeira incursão, ajudaram os nativos de seu — As cenas foram tomadas na central de comando da segundo mundo, o planeta Goszul, a sacudir o jugo dos Stardust, com a presença do sargento Harnahan, de mercadores galácticos. Reginald Bell e eu próprio. Bell só aparece depois. Pronto? Impossível saber se, depois de todo esse tempo, Tatlira Marcus Everson confirmou expectante. conservava todos seus planetas, ou se também ali algum A parede adquiriu vida, trazendo o passado para o cataclismo cósmico varrera os habitantes do sistema solar presente. da dimensão temporal vigente. Perry Rhodan fitava um homem de traços rudes, porém Sobre a mesa de navegação da supernave de guerra simpáticos, de pé à sua frente. Kublai Khan encontravam-se os dados referentes a Tatlira; — Fale, sargento! O que foi que encontrou no quarto bem diante dos controles do pequeno planeta? cérebro positrônico encarregado de fazer Personagens principais — Numa lua do quarto planeta, Sir — os cálculos para os hipersaltos, um retificou o sargento. — Uma bola, Sir, deste episódio: homem ocupava o assento. com meio metro de diâmetro. Estava ao Vestia o uniforme verde-pálido do Perry Rhodan — Administrador sopé de um morro, e me chamou, sim, ela do Império Solar. Império Solar, com divisas de coronel. me chamou para perto. Telepaticamente, Sobre o peito, um distintivo bordado a conforme já falei. Fiquei sabendo que era Reginald Bell — Amigo ouro identificava-o como comandante da um ser vivo, nutrindo-se de energia. inseparável de Rhodan. nave. Esta, com seu diâmetro de Além disso, a bola era capaz de ver a quilômetro e meio, era uma das potentes Gucky — Rato-castor mutante. distâncias ilimitadas, e projetar em sua unidades da classe Império. superfície o que via. Portanto, a bola O cérebro positrônico zumbia Atlan — O arcônida imortal. poderia servir de receptor de televisão... baixinho. Estava iminente o último salto não se acharia melhor por aí. Tommy — Ser de Druufon; corpo para o sistema quase esquecido. Dentro — Se ela quiser — comentou Rhodan, quadrangular. de dez minutos... Então seria verificado o cético. que havia de verdadeiro na velha história. — Mostrou-se amistosa — afirmou Harno — O televisor vivo; ser em Não bem uma história, a rigor. Pois a forma de bola. Harnahan, convicto. — Senti isso quando expedição fora devidamente documentada falou comigo, por telepatia, naturalmente. em som e imagem por um filme rodado Onot — Um espírito... Além disso, ela me salvou quando fui em 1.983. atacado pela nave dos saltadores. Basta O comandante Marcus Everson guardava nitidamente na olhar para a tela, Sir. Lá está o quarto planeta... memória o momento em que fora chamado à presença de A projeção tridimensional mostrou a tela. Um ponto Perry Rhodan. Com a face carregada de preocupação, o luminoso atravessou-a lentamente e mergulhou nas administrador do Império Solar falara deprimido: profundezas do espaço. — Diante de situações difíceis e quase insolúveis, os — Sua bola...? — indagou Rhodan. — Qual era mesmo amigos são os primeiros lembrados, coronel. A luta contra o alcance telepático dela? os druufs exige todos os nossos recursos e esforços; mesmo — Duzentos anos-luz. Pelo menos foi o que ela me assim, o inimigo parece ser superior a nós. Sei de um disse. sistema solar onde alguém aguarda a oportunidade de nos — Curioso. Sempre se considerou ilimitado o alcance prestar um favor. Se bem que isso se deu há sessenta anos da capacidade telepática. Porém não é o que se tem atrás... verificado na prática. Nem mesmo Marshall pode Sorrindo, o coronel replicou: comunicar-se daqui com a Terra. Imaginem... duzentos — Um bocado de tempo, Sir. Sei lá se nestas seis anos-luz! décadas alguém teria a paciência de... Neste momento, a imagem projetada ficou fixa. Em — Este amigo teria, caso Harnahan falasse a verdade! escrita arcônida, via-se a explicação: “Transcrição da — respondera Rhodan, sorrindo igualmente. — Vou exibirmensagem telepática do ser-bola!” O texto dizia: lhe um filme feito na época, enquanto retornamos na Stardust-III de Tatlira para a Terra. Com segundas Acredita agora, Perry intenções, evidentemente, coronel. Pois vou encarregá-lo de Rhodan? Harnahan não ir buscar o tal amigo. mentiu! Ele lhe disse que — Posso saber de quem se trata, Sir? estou à sua espera? Mas

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retorne à Terra primeiro, isso é mais importante. Porém não me esqueça, Perry Rhodan, apesar de ser imortal. Espero por você. Espero durante uma pequena eternidade se for preciso. — Quem é você? — perguntou Rhodan, em voz alta e clara. Novamente surgiu um texto escrito. Vocês homens são curiosos. E a curiosidade é a mola mestra do progresso de sua civilização. Creio, portanto, que será a curiosidade a causa de sua volta algum dia. Até lá! Passe bem! O Coronel Everson suspirou. O documentário do passado durara mais de uma hora, e ele já não se lembrava de todos os pormenores. Perry Rhodan preencheu as lacunas com alguns comentários. Ele fez questão de repetir só um trecho do filme. O sargento Harnahan explicava justamente que de maneira alguma o ser-bola poderia ser considerado perigoso. Ao que Rhodan respondera, pensativo: — Também me parece. E, não representando perigo, o ser-bola talvez nos possa ser útil algum dia. E o sargento Harnahan, o único amigo humano do misterioso ser, explicara: — Prometeu-nos ajuda quando quer que necessitássemos: hoje ou só daqui a cem anos. Lembre-se disso, Sir, caso a situação apertar. Finda a projeção, e restabelecida a iluminação, Rhodan dissera, pensativo: — O sargento Harnahan está morto. Já não pode nos levar até a lua desconhecida do quarto planeta de Tatlira. Você é que irá, Everson, para achar a bola! Mantenha o pensamento concentrado em Harnahan até o ser se manifestar. Depois cumpra sua missão. Esclarecimentos adicionais estão à sua disposição. Faça suas perguntas. Entre perguntas e respostas, tudo ficou esclarecido. — Hei de achá-la — prometeu o coronel, por fim. — Acharei o misterioso amigo de Harnahan, mesmo que tenha de virar todo o sistema pelo avesso! Pode confiar em mim, Sir! Rhodan limitou-se a sorrir. — Claro que confio, coronel...! *** Marcus Everson lançou apenas um breve olhar à tira de papel ejetada pelo cérebro de navegação, passando-a a um

oficial que aguardava ordens em silêncio. — Transição em dez minutos, Tenente Gropp! Encarregue-se da navegação da Kublai Khan. Sabe como proceder. — Entendido, coronel! Acenando-lhe brevemente, Everson aprofundou-se nas instruções escritas recebidas de Rhodan. A lua na qual a bola se abrigara há sessenta anos tinha o diâmetro aproximado de 80 quilômetros. Sem recursos para calcular com maior precisão, Harnahan dera uma estimativa. Porém o quarto planeta de Tatlira possuía cerca de cinquenta luas, que contornavam o mundo desabitado, nas órbitas mais desordenadas. Como é que ele, Everson, ia poder encontrar justamente a lua apropriada? Além disso, talvez a bola nem estivesse mais na mesma lua, já que revelara a Harnahan sua intenção de buscar um mundo mais próximo do sol, a fim de reabastecer-se de energia. Possibilidade que dificultava a tarefa a cumprir. Mas a bola era um telepata ativo e, portanto, de certa forma, um hípno. Poderia transmitir seus pensamentos até a um não telepata. Rhodan mostrara-se certo de que ela se manifestaria assim que percebesse as intenções de Everson. Os derradeiros preparativos foram tomados. A transição decorreu segundo a programação feita. Quando a aguda dor da rematerialização começou a ceder paulatinamente, o Coronel Marcus Everson dirigiu sua atenção para as telas. O sol Tatlira flutuava a poucos minutos-luz de distância. No primeiro momento foi difícil distinguir os planetas, mas com a ajuda da seção astronômica da Kublai Khan a dificuldade foi rapidamente superada. O quarto planeta se encontrava por trás do sol. — Continuamos à velocidade da luz, Gropp — decidiu Everson, por fim. — Passe próximo ao planeta dois e rume para o quatro. Depois darei novas ordens. Quando a gigantesca nave de guerra singrava ao longo do planeta Goszul, a central radiofônica captou algumas frases, indício seguro de que a pequena base terrestre ainda existia. Portanto o sistema ainda não fora engolfado pela outra dimensão temporal. Depois o planeta habitado tornou a mergulhar nas profundezas do espaço. O sol se aproximou, deslizou para o lado da tela e sumiu. À frente, surgiu uma estrela de luz clara. Crescendo rapidamente, tomou a forma de um globo de brilho opaco: Tatlira-4, o planeta desabitado. — Reduzir velocidade! — ordenou Everson. O Tenente Gropp, agora ocupando o lugar de piloto, efetuou a manobra. A Kublai Khan diminuiu a marcha. Tudo correspondia ao relato outrora feito por Harnahan. O planeta estava cercado por uma “multidão” de luas; de pequenas a diminutas, traçavam órbitas irregulares em torno dele. Colisões não provocariam o menor dano à nave, mas mesmo assim Everson mandou diminuir ainda mais a velocidade. Receava pulverizar casualmente alguma que 41


servisse de paradeiro para a bola. Prova evidente de quanto menosprezava o misterioso e incompreensível ser. A Kublai Khan atravessou o pequeno cinturão de asteroides a mil quilômetros por segundo, até avistar uma lua maior. Sua superfície acidentada e irregular mostrava extensas cordilheiras e profundos vales; neles jamais penetrava a luz do sol distante, e nem mesmo seus raios debilmente refletidos pelo planeta. Everson avaliou o diâmetro em cerca de oitenta quilômetros. Devia tratar-se da lua mencionada por Harnahan. Everson determinou uma órbita em torno dela. Depois começou a concentrar-se. — Estamos à sua procura, ser de energia! Somos amigos de Harnahan e Perry Rhodan, lembra? Há sessenta anos, na nossa contagem de tempo, Harnahan o encontrou nesta lua. Você o socorreu contra os saltadores, e Rhodan lhe deu energia! Caso ainda esteja aqui, esperando, manifeste-se! Por diversas vezes Everson repetiu suas tentativas de concentração, porém não recebia resposta. Conhecedor da missão, o Tenente Gropp mantinha silenciosa expectativa junto aos controles. Sem tirar os olhos da tela, perscrutava incessantemente a superfície acidentada da lua que ia passando à sua frente. Em lugar algum viu uma bola. Everson continuou a pensar: — Caso se encontre neste sistema, e esteja recebendo minha mensagem, manifeste-se! Corremos sério perigo, e necessitamos de sua ajuda! Recorda ainda seu 20 primeiro amigo humano, Harnahan? Ele já está morto há bastante tempo, mas trago-lhe uma mensagem dele... Foi com um choque que Everson sentiu a pressão inicialmente leve, e depois mais forte, sobre o cérebro. Parecia que uma mão imaterial e invisível o pressionava suavemente. E depois a voz muda e inorgânica lhe disse: — Recebi sua mensagem, Everson! Procura-me no lugar errado. Espero-o aqui no primeiro planeta. A proximidade do sol me forneceu energia. Mas é quente demais para vocês. Pousem na lua que estão circundando. Estarei lá quando descerem. Atônito, Everson não conseguiu formular resposta imediata. No íntimo, nutria a certeza de que as esperanças de Rhodan eram infundadas... e eis que o incrível sucedia. — Aterrisse naquela lua, ali na planície! — ordenou a Gropp, que executou a ordem em silêncio. Não queria perturbar seu superior. — Como pretende vir para cá? — pensou Everson, intensamente. Porém, desta vez, ficou sem resposta. A gigantesca nave esférica desceu para a superfície da lua, aterrissando com suavidade no solo relativamente plano da vasta planície, que se estendia até o horizonte 21 próximo. Do outro lado a visão era barrada por montes abruptos e escarpadas cordilheiras.

Everson ergueu-se. — Vou lá para fora — disse, com um olhar indeciso para o armário embutido onde eram guardadas as armas portáteis. Depois meneou a cabeça e saiu da central sem dizer mais palavra. O elevador deixou-o numa das numerosas comportas de ar, onde enfiou às pressas um traje espacial. Este possuía jatos retropropulsores, podendo funcionar como uma espécie de mininave autônoma até no espaço desprovido de gravidade. A força gravitacional da pequena lua era mínima. De pé na borda da escotilha, Everson examinou o chão, uns trinta metros abaixo. Apesar de ser ainda dia, reinava pouca claridade. O sol estava afastado demais para fornecer muita luz. Sorrindo de leve, Everson soltou-se e flutuou para baixo com a suavidade de uma pluma. Pelo relatório de Harnahan, sabia que este procedera de maneira idêntica. Poderia dar saltos de até cento e cinquenta metros de altura ali, se quisesse. Portanto os jatos do traje espacial eram supérfluos. Estava debaixo da imensa esfera, que se erguia acima de sua cabeça como uma gigantesca montanha de aço arcônida. Alguns poucos saltos deixaram-no a céu descoberto; sem obstáculo atmosférico, as estrelas cintilavam livremente sobre o mundo morto. E, no entanto, repentinamente se deu o impossível! Uma estrela cadente flamejou no horizonte, aproximando-se com alucinante rapidez. Depois sua velocidade diminuiu perceptivelmente, e ela descreveu um amplo arco na direção de Everson. O coronel assustou-se. “Em primeiro lugar, em espaço desprovido de ar não pode haver meteoros incandescentes”, pensou automaticamente. “Além disso, meteoros jamais voam em curvas. E ele é rápido demais também!” Porém suas considerações foram abruptamente interrompidas. O meteoro em brasa se precipitou para perto, freou instantaneamente e pousou sobre as pedras da planície, a escassos dez metros de Everson. Era a bola! Não media mais de um metro, e brilhava em tom negroazulado à luz das estrelas distantes. Na superfície polida não se viam emendas, mas a luz refletida parecia pulsar. Everson não teve muito tempo para pensar no fenômeno. — Que aconteceu a Harnahan? — vibrou a pergunta em seu cérebro. O coronel tomou consciência da irrealidade da situação. Encontrava-se numa lua morta e selvagem. Diante dele estava uma bola que lhe falava. Percebeu repentinamente que Harnahan devia ter tido os nervos em perfeitas condições. Qualquer outro sofreria provavelmente um acesso de loucura. — Foi envolvido com sua nave por uma tempestade 42


cósmica, nos limites da Via Láctea, vinte anos após aquele encontro. Jamais se soube de detalhes sobre sua morte, pois não houve sobreviventes. Por consenso geral, supõe-se ter ocorrido falta de energia, o que levou a nave a perder-se no vácuo existente entre as vias lácteas, totalmente desarvoradas. Nunca mais houve sinal de vida dele. Sem refletir, Everson falara em voz alta. Com a vantagem de poder ser ouvido por Gropp na central, deixando-o a par do que ocorria. Naturalmente Gropp não escutava as respostas da bola. — Então Harnahan está morto! Quem sabe eu encontre a nave dele algum dia! Não teria acontecido, caso eu estivesse atento. Seguiu-se breve pausa, durante a qual Everson se pôs a calcular a provável distância do primeiro planeta daquele sistema. Quando chegou a um resultado aproximado, novos impulsos partiram da bola: — Quer dizer que os homens não me esqueceram? Perry Rhodan se lembrou de mim? Ele precisa de ajuda? — Sim — disse Everson, absorto. Preocupava-se com uma questão intrigante. — Como é que você veio para cá? O primeiro planeta fica a três anos-luz. Você pode saltar pelo hiperespaço como nossas naves? Sentiu algo semelhante a risadas invadir-lhe o cérebro. — Não salto pelo hiperespaço, Everson; vôo através dele. A diferença é enorme. Mas agora diga-me por que veio? Porque a Terra precisa de ajuda? Everson retardou a resposta. Fitava a superfície da bola, porém não via nada parecido com as afirmações de Harnahan. Não passava de uma superfície escura, que parecia absorver toda a luz. Não, agora ela refletia novamente. As pulsações eram irregulares, como se a bola respirasse. “Será que respira luz?”, pensou. Novamente ecoaram risadas na cabeça de Everson. — Você é ainda mais curioso do que Harnahan, Everson. Gostaria de conhecer, algum dia, um homem que não fosse curioso. Mas, provavelmente, isto me causaria tremenda decepção. Um homem desprovido de curiosidade, desinteressado da busca à verdade, e indiferente à razão de ser das coisas... será que tal homem existe mesmo? Everson despertou de seu estado de transe. Ignorou a pergunta feita. — Tenho uma mensagem de Perry Rhodan para lhe transmitir. Refere-se à promessa feita a Harnahan. Rhodan pede-lhe que vá até ele. Necessita de sua ajuda, senão o Universo estará perdido. Os druufs atacam. — Quem são os druufs? — Não sabemos propriamente quem são eles, apesar de já os termos encontrado. Vivem em outra dimensão temporal, que se prepara justamente para “raptar” a nossa. Existem zonas de superposição em vários pontos, pelas quais é possível passar de uma dimensão à outra sem empecilhos, e sem apelar para recursos técnicos. Os druufs valeram-se desta circunstância, e lançaram enormes frotas de guerra para nosso Universo, que planejam conquistar.

Revidamos, porém o inimigo é superior. Depois de uma pausa, a bola emitiu o pensamento: — Repousei longamente, e ignoro o que tem acontecido. Porém tenho a impressão de saber quem são os que chama de druufs. Bem, sigo-o a fim de ajudar Rhodan. Onde está ele? Everson suspirou de alívio. — Não aqui nesta nave, porém no sétimo planeta de um sistema solar bem distante, que denominamos Mirta. Como... como conseguirá entrar na nave conosco? — Ora, até que eu poderia fazer o trajeto todo sozinho, mas isso me custaria muita energia, que levaria tempo para tornar a armazenar. Portanto, viajarei na nave junto com vocês. A fim de não pô-los em perigo, precisam me tratar como um objeto. Não me locomovo pelos próprios meios, quando pode ser evitado. Vou contrair-me também, para ocupar menos espaço. Retorne à nave, que eu o seguirei. Logo depois se passou algo que até aos olhos de Everson, mais do que habituado a presenciar cenas estranhas, pareceu milagre. A bola começou a encolher visivelmente. Tornou-se menor e mais negra. Por fim reduziu-se ao tamanho de uma bola de tênis, porém continuava deitada no chão pedregoso. Seria impossível adivinhar onde fora parar a massa anterior, mas se estivesse concentrada naquele diminuto volume, o objeto devia ter-se tornado incrivelmente pesado. Conclusão evidentemente errônea, pois a bola subiu de repente, como se não tivesse peso algum. Alçando-se vagarosamente, parou na altura da face de Everson. — Processo rotineiro — avisou-a telepaticamente, como de costume. — E meu peso não aumentou. Energia e tempo são imponderáveis. Que esperamos ainda? Everson não deu resposta. Deu um passo atrás, e olhou para cima. Com um pulo oblíquo alcançaria a escotilha de embarque. Caso falhasse, teria que pular de novo. Acenou para a bola e tomou impulso. O cálculo fora quase exato — falhou por pouco. Antes de chegar à escotilha, tornou a afundar para o chão. Olhou ao redor. A bola preta se alçava lentamente e emparelhou com ele. Continuou a ascensão... e Everson a seguiu! Como se uma mão invisível o puxasse para a escotilha, depositando-o no umbral. E logo, por efeito do campo gravitacional artificial da nave, ele readquiriu o peso natural. A bola já entrara na câmara de pressão. Suspensa no meio da peça emitia reflexos escuros, mas de cores cambiantes. Everson apertou um botão, fechando a escotilha externa. A câmara foi invadida por ar, até equilibrar a pressão. Só então a escotilha interna se abriria. Desembaraçando-se do pesado traje pressurizado, o coronel falou: — Daqui à central existe uma série de passagens e elevadores. Acha que pode seguir-me sem perigo? — Segure-me em sua mão, Everson! 43


O oficial hesitou. Confiava no estranho e inexplicável ser, certo de que não faria nada que o prejudicasse. Não obstante, intimidava-se um pouco diante da perspectiva de segurar na mão nua uma porção de energia ou tempo. Estendeu o braço com certa relutância, e abriu a mão. A bola “rolou” no ar e pousou suavemente na palma da mão de Everson. Ele teve a sensação de tocar algo frio e leve. — Isso é tudo — emitiu a bola, divertida. Everson cerrou os dedos sobre a pequena esfera e saiu para o corredor. Percorreu as passagens da nave como num sonho, acabando por atingir a central. O Tenente Gropp suspirou aliviado ao ver entrar o superior. — Graças aos céus, coronel! Achou a bola? — Está aqui na minha mão — replicou Everson, estendendo o braço na direção do tenente. A bola repousava calmamente no côncavo da mão. — É esta a bola de Harnahan. Gropp fitou-a, aturdido. — Isto... isto é... — Rhodan espera! — ecoou o pensamento urgente nos cérebros dos dois homens. — Não devemos tardar mais, já se desperdiçou tempo em demasia. Não sei se minha ajuda será decisiva, mas quero tentar, pelo menos. Caindo em si, o Tenente Gropp voltou a ocupar-se com o cérebro positrônico, a fim de calcular os dados para a transição. Everson disse à bola: — Será que é capaz de ajudar? Rhodan conta firmemente com isso... — Talvez eu devesse ter dito que espero que aceitem minha ajuda — veio à resposta meio misteriosa.

2 Há vários milhares de anos-luz da Terra, existia uma brecha no Universo. Brecha de bilhões de quilômetros de comprimento e largura, oscilando entre meio e pouco mais de um ano-luz. Resultara da superposição parcial das duas dimensões temporais e mantinha-se, surpreendentemente, em total estabilidade. Bordejava apenas a Via Láctea, progredindo com a velocidade relativamente reduzida de cento e cinquenta mil quilômetros por segundo. Tratava-se de uma chamada zona de descarga no Universo einsteiniano, e permitia tanto o acesso quanto o retorno do Universo dos druufs, sem recorrer a artifícios técnicos. Porém os druufs se mantinham alertas. Diante da brecha postara-se uma poderosa frota bélica do robô-regente de Árcon, que compreendera finalmente o perigo que ameaçava seu império. Eram mais de cinquenta mil naves, tripuladas em sua maioria por robôs; atacavam ferozmente as unidades invasoras dos druufs, procurando aniquilá-las. Venciam às vezes, porém também se viam naves-robôs

espalhar-se desarvoradas espaço afora. Neste embate de dimensões galácticas, era Rhodan que desempenhava o papel de observador oculto. Tornava-se um terceiro partido, por enquanto ainda neutro. Com o grosso de sua frota de batalha terrana, tomara posição no sistema Mirta, a vinte e dois anos-luz do cenário da gigantesca batalha. No sétimo planeta, Fera Cinzenta, existia uma base terrana muito bem camuflada. Era ali que Perry Rhodan recebia as informações enviadas por suas naves de observação. O quadro ia se completando. O cruzador ligeiro Líbano comunicou: — Unidades dos druufs avançam para o nosso espaço, sendo engajadas em violenta luta com a frota do regente de Árcon. Baixas de ambas as partes. Comunicado do girino K-28: — As dimensões temporais não sofreram maior aproximação. A diferença se mantém constante. Os druufs se movem com metade de nossa velocidade. Bell recebia os comunicados com ar aborrecido. Junto com Perry Rhodan e alguns oficiais, ocupava a central de comando subterrânea em Mirta VII. No recinto brilhantemente iluminado, destacavam-se as inúmeras telas e instrumentos que recobriam as paredes. Rhodan, pelo contrário, irradiava atividade. Apertou vivamente um botão abaixo de uma das telas, sobre a qual acabara de acender-se uma luz vermelha. O rosto de um oficial apareceu. Nova mensagem do cruzador ligeiro Líbano. — Calculadas em dez mil as unidades arcônidas concentradas num mesmo ponto. Planejam aparentemente avançar para a dimensão dos druufs. Continuamos em nosso posto de observação, a 1,5 anos-luz da brecha. — Pronto! — exclamou Bell, com os cabelos ruivos nervosamente eriçados. — Passaram-nos à frente! Sorrindo, Rhodan replicou: — Pouparam-nos parte do trabalho, no máximo. Não se afobe Bell, dificilmente conseguirão arrasar o sistema pátrio dos druufs. Este é grande e poderoso demais para isso. Mas talvez os druufs consigam capturar e examinar algumas das naves do regente... — E que proveito espera disso? — quis saber Bell. — Um bocado, meu caro. Os druufs constatarão, por exemplo, que não lutam contra viventes normais, porém contra robôs. Fato que abre perspectivas inteiramente novas para nós. A curiosidade de Bell se inflamou. Estava certo de que iria conhecer agora a solução do segredo que Rhodan deixara entrever, porém para sua decepção Rhodan disse: — Acho que os velhos provérbios continuam válidos. Devia memorizar alguns deles, Bell. Sem se importar com a fisionomia desiludida do amigo, atendeu a próxima chamada da central radiofônica, e estabeleceu a comunicação desejada. Na tela surgiu um rosto conhecido. — Comunicado da Kublai Khan, Coronel Everson: 44


Missão no sistema Tatlira cumprida com êxito. Aterrissamos dentro da meia hora necessária para o voo regular de aproximação. — Obrigado — replicou Rhodan, evidenciando seu alívio. — Aguardamos sua presença na central de comando de Mirta VII. A tela escureceu. Os homens se entreolharam em silêncio. Rhodan disse: — Agora resta verificar se a herança do sargento Harnahan tem algum valor ou não. — Eu não esperaria demais — opinou Bell. — Afinal, trata-se apenas de um espírito. E um espírito do passado, ainda por cima. Uma “bola” que vive da luz das estrelas! Que que há!? Rhodan permaneceu sério. — Eu não falaria assim, Bell. A bola pode estar escutando, e tentar vingar-se. Com um choque elétrico, quem sabe? Visivelmente encabulado, nem por isso Bell reprimiu uma observação zombeteira: — Prefiro contar com as armas energéticas, e com os mutantes. Sabe lá o que é que o tal Harnahan andou imaginando naquela ocasião? — Não ouviu Everson confirmar o êxito da missão? E dei-lhe a incumbência de trazer a bola... Bell recolheu-se ao silêncio. Um dos oficiais levantou a mão. — Atenção, Sir, uma mensagem! Rhodan calcou o botão. Um homem com o distintivo de cientista surgiu na tela. Integrava o grupo de sábios que desempenhava importante papel naquela gigantesca briga pelo poder no Universo. — Sir, submeti ao cérebro positrônico as perguntas apresentadas. Posso dar-lhe as respostas agora? Rhodan compreendeu a hesitação do homem. Não sabia se todos os presentes na central de comando deveriam ser iniciados. — Fale à vontade — instruiu Rhodan. — Não temos segredos para com nossos oficiais dirigentes. Com um aceno, o cientista começou a ler uma fita. — Para melhor compreensão, repetirei as perguntas feitas originalmente — explicou. — Primeira pergunta: que teria acontecido caso o regente de Árcon e sua frota não tivessem descoberto a brecha para o Universo dos druufs? Resposta à primeira pergunta: o regente prosseguiria em suas tentativas de encontrar a posição galáctica da Terra, a fim de atacar o Império Solar, e submetê-lo à sua soberania. “Segunda pergunta: existe possibilidade de Árcon derrotar os druufs? Resposta à segunda pergunta: as possibilidades são escassas. Não há base para tal suposição”. “Terceira pergunta: existe possibilidade de os druufs derrotarem a frota de Árcon? Resposta à terceira pergunta: as possibilidades são mínimas. Novamente, não há base para a suposição”. “Quarta e última pergunta: o regente emite incessantes

pedidos de socorro a Perry Rhodan. Por que requisita auxílio contra os druufs, se acha suficientemente poderoso para vencer o adversário? Resposta à quarta e última pergunta: a tomada de contato com a Terra visa unicamente determinar a posição deste planeta. A ajuda contra os druufs não passa de um meio para um fim. Fator de probabilidade cerca de 98,7964 por cento.” Fez-se um silêncio expectante na central de comando. Por fim, Perry Rhodan disse: — Obrigado, Henderson. Tenho mais perguntas para processamento, mas não são urgentes. A tela escureceu. Bell remexeu-se, inquieto. — Quer dizer que o cérebro-robô continua querendo encontrar-nos! — constatou. Sua voz sem expressão não revelava nada. — Dir-se-ia que se entrementes ele tivesse percebido que... — Espera do cérebro positrônico, do maior cérebro positrônico da Galáxia, algo como percepção? — perguntou Rhodan, admirado. — Engano seu, Bell. O regente do império dos arcônidas só se guia pela lógica. E justamente a lógica lhe diz que representamos um perigo. Logo, o perigo precisa ser afastado. Assim é que ele foi programado há milênios. E mantém tal linha de conduta, pelo menos enquanto não passar por uma reprogramação. — Ele não nos garantiu sua amizade? — Amizade! — Rhodan colocou na voz todo o desprezo que sentia. — Pode imaginar uma máquina sentindo amizade? O regente conhece apenas objetivo e finalidade, mas não sentimentos. Precisamos pensar de maneira idêntica, caso quisermos sobrepujá-lo. Este é o truque! — Bem, de momento, o regente tem outras preocupações. Os druufs estão lhe dando tanto trabalho quanto a nós. — Portanto os druufs vêm a serem inimigos comuns do regente e da Terra — concluiu acertadamente um dos oficiais presentes. Com ar matreiro, Rhodan respondeu, sorrindo: — Conforme já comentei com Reginald Bell, os velhos provérbios continuam válidos. Refiro-me ao conhecido “onde dois brigam, o terceiro tira proveito”. Reflita general! Afirmou que o regente e nós possuímos um inimigo comum nos druufs. Isto significa que deveríamos aliar-nos a Árcon. — Apenas aparentemente, é claro! — apressou-se a assegurar Deringhouse. Sentia certo constrangimento por ter dado ocasião ao surgimento de um mal-entendido. Rhodan continuava a sorrir. — Que acha de nos aliarmos, aparentemente, é claro, com os druufs contra Árcon? O profundo silêncio que se seguiu foi quebrado pelas risadas de Bell. O general parecia chocado, porém não disse palavra. Talvez por esta mesma razão. — Com os druufs contra Árcon! — Bell não conseguia acalmar-se. — Genial Perry! Verdadeiramente genial! — 45


após uma pausa, ele acrescentou de repente: — Mas como assim? Que significa isso tudo? — Muito simples. Teríamos contato com os druufs, e oportunidade para conhecer na maior calma a terra natal deles. Nossa breve estadia lá, de caráter meramente acidental, não nos deixou ver grande coisa. Desta vez percorreríamos Siamed como visitantes oficiais. Siamed era um sistema de estrela dupla, situado além da barreira de tempo. No 13o planeta já existia uma base secreta de Rhodan. Já o berço natal dos druufs media o dobro da Terra e possuía gravidade duas vezes mais forte. — E como imagina fazer isso? — perguntou Bell, a quem evidentemente não agradava nem um pouco aquela ideia de ir procurar os druufs. — Acha que esses hipopótamos inchados esperam justamente por nós? — Não exatamente. Mas sem dúvida surgirá alguma oportunidade de demonstrar-lhes nossas intenções amistosas. Isto os poria intrigados e curiosos. Bell mergulhou em profundas cogitações. Rhodan olhou para os oficiais. — Podem retornar a suas naves, senhores. O estado de alarma continua em vigor. Aguardem novas instruções. Sozinho com Bell, ele disse: — As próximas horas trarão momentos decisivos. Ao contrário de você, espero que a bola outrora encontrada por Harnahan nos seja útil. Desconheço a natureza dela, mas estou certo de que não é nossa inimiga. Ela própria me afirmou isso. O Coronel Everson deve aterrissar a qualquer momento. Vá recebê-lo. Eu aguardo aqui, e aviso John Marshall e os demais mutantes na Califórnia. Gostaria de tê-los presentes por ocasião da chegada de nossa hóspede. Levantando, Bell encaminhou-se para a porta. — Hóspede! — exclamou, zangado. — Quem diria! A decepção será tanto maior depois! Rhodan viu-o sair, com um sorriso nos lábios. Com toda a sua inteligência, Bell ainda não conseguira habituar-se totalmente a raciocinar em termos cósmicos, conforme se fazia necessário na era das viagens espaciais. Vitalmente necessário! *** Ao penetrar na sala iluminada, o Coronel Everson viuse diante de uma série de fisionomias ansiosas. À esquerda, sob as telas, sentavam-se Perry Rhodan e Bell; logo em seguida, John Marshall, Fellmer Lloyd, Wuriu Sengu e Ralf Marten. Um pouco distante Atlan estava de pé, com um sorriso ligeiramente desdenhoso nos lábios. Bem à frente, o rato-castor Gucky acocorava-se nas patas traseiras, apoiando-se na grossa cauda de castor; suas orelhas estavam empinadas, e não se via sinal do dente roedor. Everson tomou posição de sentido. — Apresento-me de volta da missão, Sir — disse, dirigindo-se a Rhodan. — Ordens cumpridas. — Obrigado — falou o administrador do Império Solar.

— Por favor, tome lugar e relate o que aconteceu. Everson sentou-se com estranha cautela, como se levasse ovos frescos no bolso. Depois contou laconicamente e em poucas palavras suas experiências no sistema Tatlira. Quando terminou, Rhodan acenou com a cabeça. Everson pôs a mão no bolso. Ao estendê-la para diante, via-se nela uma bolinha negra com mais ou menos seis centímetros de diâmetro. Ficaria oculta num punho cerrado. A superfície era lisa e inteiriça, e parecia pulsar levemente. — Isto — declarou Everson calmamente — é nosso velho amigo Harno, e tem cinco milhões de anos. É assim que ele deseja ser chamado, em memória de seu primeiro amigo humano, Harnahan. Os homens fitavam a bola, espantados. Rhodan ergueu-se lentamente, encaminhando-se para Everson. Seus olhos descansaram pensativos e interessados sobre a bola preta. Estacou diante do coronel. — Não é a aparência, e sim as ações e intenções que determinam o valor de um amigo — falou, acentuando significativamente as palavras. — Harnahan dizia em seu relato que a bola media meio metro de lado a lado. Além disso, ela falou com ele, e comigo. Ainda é capaz disso? Não apenas Rhodan, porém todos os presentes compreenderam a resposta muda que lhes invadiu repentinamente o cérebro: — Tem razão, Perry Rhodan! Não é a aparência que determina o valor. Mas se sabe disso, não precisaria ter-se preocupado com o fato de me ver tão pequena hoje. Bolinhas não são mais fáceis de transportar do que bolas grandes? — Perdoe-me — replicou Rhodan, inclinando-se ligeiramente diante da bola. — Alegro-me por encontrá-lo, Harno. Conhece os motivos... — Conheço-os — veio a resposta muda, antes que Rhodan pudesse completar a frase. — Necessita de ajuda contra os druufs, como vocês os chamam. A mensagem telepática cessou bruscamente. A bola se alçou devagarzinho das mãos de Everson, e ficou suspensa diante da face de Bell, que a fitava de olhos esbugalhados. — Que é um ventríloquo? Bell foi alvo de todos os olhares. Com os cabelos eriçados como cerdas rubras, o lugar-tenente de Rhodan sentia-se imensamente constrangido por se ver centro das atenções. Rhodan tirou-o do embaraço. — Precisa perdoá-lo, Harno, ele se enganou. Julgou que um de nós estivesse se divertindo com ventriloquia telepática. Ou seja, ele ainda não acredita plenamente em você. Mas mudará de ideia. A bola recuou e subiu até as proximidades do teto. Sua cor mudou de repente, e começou a crescer visivelmente, até alcançar meio metro. Reluzia agora em tom esbranquiçado. E depois surgiu na curvatura externa uma imagem 46


colorida. Confusa de início ajustou-se até adquirir nitidez, como se alguém tivesse regulado a televisão. Com um grito, Bell apontou para a bola. — Não...! Não é possível! Todos viram o quadro, que, no entanto, não justificava tamanha excitação. Afinal, muita gente tinha em casa, como animais de estimação, os graciosos possoncais de Vênus. Facilmente domesticáveis, mantinham-se escrupulosamente limpos, e obedeciam à risca. Estirado num sofá, o possoncal dormia, com uma fita vermelha atada ao pescoço. Distinguia-se claramente o nome, gravado a ouro. — Mas é Wutzi! — exclamou Bell, cheio de assombro. — Céus! Como é que Wutzi foi parar, em tamanho quase natural, naquela bola lá em cima? Claro que se trata de Wutzi! Então não vou reconhecer meu quarto em Terrânia? Ninguém se manifestou. Só aos poucos os presentes foram tomando consciência da significação do que viam. A bola suspensa no teto mostrava algo que se encontrava presentemente a 6.562 anos-luz dali. Harno, o misterioso ser-bola, aceitara o desafio de Bell e provara sua capacidade. — E então? — piou alguém, com mal disfarçado sarcasmo. — Que diz agora, gorducho? Era Gucky, o rato-castor. Careteando, exibia agora seu dente roedor. O que demonstrava excelente disposição. Atitude, aliás, adotada costumeiramente sempre que via seu amigo do peito Bell em maus lençóis. Rhodan olhou para cima. — Está bem, Harno. Creio que agora também meu amigo Bell reconhece seu valor. Preciso falar com você. A imagem desapareceu da bola. Porém ela manteve o mesmo tamanho ao flutuar lentamente para baixo, detendose diante de Rhodan. Continuava alva e opaca como uma das telas na parede. — Da mesma forma poderia mostrar-lhes o fim do Universo — veio o já conhecido impulso de pensamento. — Basta um dos presentes concentrar o pensamento nisso. O tema foi bruscamente trocado. — Sou-lhe grato por não ter me esquecido, Rhodan. Apesar de poder praticar uma série de proezas que lhe pareceriam misteriosas, e me fariam parecer onipotente aos seus olhos, também a mim a natureza fixou limites. Juntos talvez possamos sobrepujá-los. Pelo menos, os que não são proibidos. — Proibidos? — perguntou Rhodan, estremecendo como se uma corrente de ar gelado tivesse soprado pelo recinto. — Proibidos por quem? Não se surpreendeu demais com a ausência de resposta. De repente, a voz de Atlan se fez ouvir no silêncio reinante. — Harno, nós já nos encontramos alguma vez? — Conheço-o, almirante dos antigos arcônidas — dizia a voz telepática. — Na última vez que nos vimos sua farda ainda era autêntica.

Assombrado, Atlan percorreu com olhos seu vistoso uniforme de almirante, fielmente copiado por profissionais terranos. Desistiu de fazer novas perguntas. Gucky careteou mais uma vez. Parecia estar se divertindo à grande. Rhodan foi direto ao assunto. — Creio que as apresentações estão feitas, Harno. Sabe por que mandei buscá-lo Necessito de seus conselhos e ajuda para luta contra os druufs. Conhece-os? — Sim, conheço-os, Rhodan. A aparência deles é diversa da de vocês, apesar de o parentesco ter sido maior há um milhão de anos. Naquela época, a dimensão temporal deles era independente, e era difícil encontrá-los. Nos últimos milhares de anos, as superposições vêm representando sério perigo; mas não vai se prolongar por mais muito tempo. No entanto, ocorrerá ainda uma justaposição de tempo; porém esta não facilitará a invasão mútua. Algo como encontro de dois imensos enxames de estrelas cujas bordas se roçassem por um momento, para prosseguir cada qual e seu rumo. Haveria colisões entre alguma estrelas, mas depois a calma retornaria, e nenhum dos grupos seria afetado pelo outro. Entendeu a imagem formulada pelo meu pensamento, Rhodan? — Nossos cientistas imaginaram algo semelhante — confirmou Rhodan. — Só ignorávamos que o perigo decresce. — Decresce, sim, de modo relativo. Por que quer atacar os druufs? Rhodan hesitou. — Estão penetrando em nosso Universo, e tentam valerse das zonas de superposição para seus próprios fins. Despovoaram, intencionalmente ou não, mundos inteiros. Ameaçam nossa existência. — Prometi a Harnahan ajudá-los se alguma vez necessitassem de auxílio, terrano. Mantenho a promessa feita. O segundo adversário de vocês é o cérebro-robô de Árcon. A luta contra ele é mais importante do que bater os druufs. Só quando o cérebro for posto fora de combate é que os dois poderosos reinos estelares poderão ser unidos. — Está se adiantando à evolução dos latos — disse Rhodan, em tom acusador. — Tratemos dos druufs primeiro. É nosso problema mais premente. Acabou de darnos prova de sua capacidade, Harno. Podemos contar com você para ver o que se passa à distância? Mais não lhe peço. — Eu sou Harno, o televisor. A seguir, o incompreensível ser se manteve mudo. Mas Rhodan tinha a inabalável certeza de que podia confiar em Harno. — Há meia hora esbocei diante de Bell um plano que gostaria de executar o mais depressa possível — começou ele, dirigindo-se aos mutantes. O Coronel Everson e Atlan manifestaram seu assentimento; compreendiam que por ora era melhor ignorar Harno. — Os inimigos de vocês são também nossos inimigos, portanto somos amigos. Esta frase antiga ainda é válida 47


hoje. O regente de Árcon é nosso inimigo tradicional; os druufs lutam contra ele. Portanto, vamos aliar-nos aos druufs. O Coronel Everson aprontou-se para falar, mas depois preferiu ficar calado. Atlan sorriu significativamente. Os mutantes olharam para Rhodan espantados. Nem mesmo John Marshall, dirigente e melhor telepata do corpo de mutantes, entendeu. Rhodan “blindara” seus pensamentos. — Aparentemente apenas, claro — explicou Rhodan, desistindo de atormentar por mais tempo seu pessoal. — Não faltará oportunidade para lhes demonstrarmos nossa inimizade. Durante as negociações; com os druufs, fortalecemos nossa base no sistema deles. O 13o planeta de seu sol, ao qual demos o nome de Hades, fica em posição favorável. Escavamos uma montanha, onde instalamos, entre outros instrumentos, um transmissor fictício. Via de remessa para os reforços... Coronel Everson! Encarregue-se de pôr a Drusus, a Kublai Khan e o cruzador ligeiro espacial Califórnia em condições de decolagem. Receberá instruções mais detalhadas posteriormente. John Marshall e os mutantes irão comigo. Assim como Atlan, Bell e... — ...Gucky! — interrompeu o rato-castor. — ...e Harno — continuou Rhodan, impassível. Só depois se voltou para o rato-castor. — Não faz parte dos mutantes, por acaso, Gucky? Uma alegre careta mostrou que este não se sentia ofendido. — Quase esqueci que sempre costumam me incluir erroneamente entre os humanos — comentou-o, piscando para Bell. — Formaremos uma boa turma! Vai ser divertido! — Eu não me mostraria assim tão otimista — recomendou Rhodan, gravemente. — O que nos espera não é nenhuma excursão recreativa. Conforme se diz tão apropriadamente, vamos nos meter na cova do leão. — E daí? — piou Gucky, com ar de pouco caso, bamboleando em direção à porta. Pouco se lhe dava o que acontecia desde que houvesse novidades. *** O Coronel Sikermann passara novamente o comando do cruzador leve especial a Mareei Rous, já promovido a capitão; retornou à Drusus, nomeada nau capitania do empreendimento. A bordo encontravam-se Rhodan, Atlan, Harno e os mutantes. A Kublai Khan, sob as ordens do Coronel Everson, completava o grupo. Quando as duas supernaves de guerra, com seus diâmetros de quilômetro e meio, dispararam sem aparente esforço para o alto, a Califórnia, de cem metros de largura, parecia uma mera bolinha diante delas. Muito abaixo, na superfície de Mirta VII a camuflagem tornou a deslizar sobre a base subterrânea, deixando ver apenas uma área plana com vegetação rala. Nem o mais desconfiado observador poderia suspeitar que ela ocultasse uma das mais poderosas bases militares dos terranos.

À medida que as naves ganhavam velocidade, o planeta ia mergulhando nas profundezas do espaço. O salto iminente através do hiperespaço, cobrindo vinte e dois anos-luz, não poderia ser detectado por sensor estrutural algum; todas as naves terrestres estavam equipadas atualmente com os novos neutralizadores de frequência, que absorviam qualquer abalo tempo-espacial. Cada qual possuía também instalações de transmissão de matéria, que lhes permitiam enviar gente e materiais a grandes distâncias, desde que no local de destino houvesse estação correspondente, devidamente sintonizada. Sentado diante dos controles da gigantesca Drusus, Sikermann mantinha contato radiofônico permanente com a Kublai Khan e com a Califórnia. Rhodan, Bell e Atlan encontravam-se igualmente na central da Drusus, pois evidentemente as frotas do regente não tardariam a dar por sua presença nas vizinhanças da zona de descarga. Junto ao teto, pequenino e insignificante, flutuava Harno. Os mutantes tinham se instalado com John Marshall na cantina menor, e matavam o tempo com xadrez tridimensional. Jogo tremendamente complexo, se comparado com o xadrez tradicional. Em vez de bidimensional, o tabuleiro era cúbico. Os 64 quadrados, alinhados oito a oito, multiplicavam-se por oito. Desprovido de peso por efeito de um radiador antigravitacional, o cubo flutuava no ar. As peças obedeciam a impulsos teleguiados. Quem visse pela primeira vez o novo jogo, ficaria confuso diante da multiplicidade de figuras encerradas no cubo transparente. Do ponto de vista matemático, a diferença entre o xadrez tradicional e o tridimensional não consistia simplesmente em multiplicar por oito a dificuldade da partida. Com a passagem de um plano a outro, as variações iam ao infinito. Unicamente jogadores excepcionalmente hábeis conseguiam chegar ao fim de uma partida, levando horas, ou até dias. Por outro lado, a maioria dos mutantes era telepata. Mesmo jogando contra parceiros de mente bloqueada, o adversário acabava achando jeito de dar uma espiada nos pensamentos do rival, adivinhando-lhe as intenções. No entanto, tal espionagem mental em nada facilitava o jogo, nem influía no resultado final. A estrutura era complexa demais para beneficiar-se de dicas tão insignificantes. Depois de acompanhar a partida por algum tempo, Gucky bocejou, lutando contra a sonolência que o invadia. Ainda faltava meia hora para as naves alcançarem a velocidade necessária à transição. Saiu da cantina e andou um pouco pelo corredor. Depois teleportou-se com um curto salto para uma parte afastada da nave, onde achou uma cabina desocupada. Pulou para o leito, planejando tirar um cochilozinho naquele recanto sossegado. Enrodilhou-se e fechou os olhos. No entanto, caso quisesse realmente dormir, precisava bloquear a mente contra os pensamentos da tripulação. Seu 48


cérebro zumbia como uma colmeia. Sua consciência captava todo e qualquer impulso mental de cada ser inteligente a bordo e... Gucky era dotado de generosidade suficiente para incluir os homens entre os seres inteligentes. “O pensamento desse pessoal atrapalha meu sono”, pensou. Era uma mistura infernal. Mas, como cada “transmissor” possuía “frequência” individual, bastava sintonizar de maneira adequada o “receptor”. Desta forma, era fácil isolar com clareza e nitidez cada impulso. Mais ou menos como num aparelho de rádio. Gucky viu que, afinal, não estava tão cansado quanto supunha. Começou a achar graça na seleção dos diversos impulsos mentais. — ...se, pelo menos, eu não tivesse tratado Betty tão... Gucky gemeu, desalentado. Poxa, será que os homens só sabiam pensar em mulheres? Ainda mais ali, a seis mil anos-luz da Terra! Como se não existisse outro assunto... Mudou a “frequência”, e continuou a escutar. — ...maravilhosas, as mulheres de Terrânia... Era o rotundo cozinheiro da Drusus! Devia estar pairando com algum de seus ajudantes. E falavam de quê? Suspirando, Gucky continuou na escuta. — ...quero se mico de circo se a tal bola nos vai servir para alguma coisa! Gucky não gemeu nem suspirou. Endireitou-se no leito como se algo o tivesse mordido. Era Bell! O rato-castor captara casualmente o “comprimento de onda” do lugar-tenente de Rhodan. E, como de hábito, Bell pensava em Harno, de cuja capacidade não parecia muito convencido. “Injustamente, aliás,”, refletiu Gucky. “Harno não provou justamente àquele ruivo suas qualidades? E de maneira bastante conclusiva...” Rindo, Gucky recordou a expressão apalermada de Bell ao ver refletido na superfície abaulada de Harno justamente Wutzi, seu possoncal domesticado. E continuava duvidando! Gucky perdeu a vontade de rir. Recostando-se na parede, concentrou o pensamento: — Harno, pode me entender? Dê um sinal, caso estiver me ouvindo. Harno! Sou eu, Gucky! Sem contar com resposta imediata, surpreendeu-se ao sentir os fortes impulsos mentais: — Sim, Gucky, ouço e vejo você. Por que fecha os olhos para falar comigo? O rato-castor olhou em torno, sobressaltado. Não havia ninguém na cabina além dele próprio. Nem sinal da bola. — Para mim, é mais fácil fazer contatos telepáticos com os olhos fechados. Talvez não possa compreender isso, Harno, pois não possui olhos. Aliás, como é que enxerga sem olhos? Harno riu. O incrível ser era realmente capaz de rir, se bem que as risadas fossem apenas uma impressão na consciência do interlocutor. — Existem numerosos seres que enxergam sem olhos,

falam sem boca, e escutam sem ouvidos. O Universo está repleto de maravilhas, basta saber descobri-las. Gosto de você, Gucky! Onde fica sua pátria? Gucky se engasgou encabulado. Depois falou em voz alta e comovida: — Quer ser meu amigo? — Com prazer, Gucky. Mas já não somos amigos? — Pode vir para onde estou? — Lamentavelmente não posso teleportar-me. Matéria sólida representa obstáculo para mim; não posso atravessá-la sem causar destruição. Mas você pode vir me buscar. — É pra já! — replicou Gucky, satisfeito por constatar as limitações de Harno. Concentrou-se e saltou. Ficou meio chateado por ninguém se assustar quando rematerializou-se na cabina de comando. Bell levantou o olhar e riu. — Bem que você poderia vir a pé uma vez, como qualquer pessoa normal. Gucky sorriu maliciosamente. — Em primeiro lugar, não sou gente; em segundo, não se meta na minha vida, mico de circo! Bell deixou cair o queixo, ficando com um ar cômico. — Que... foi... que... disse? — gaguejou, com evidente perturbação. Sem lhe conceder a menor atenção, Gucky voltou-se para o teto, onde a pequena bola continuava flutuando, em total imobilidade. — Não tenho razão, Harno? Concorda comigo que de ora em diante o gorducho só deve ser chamado de mico de circo? Foi ele mesmo que quis... Bell perdeu a compostura. — Esse bicho é um espião mental! Não se pode mais nem pensar em paz... Desviando o olhar da tela, Rhodan captou de relance o olhar divertido de Atlan, e levantou ameaçadoramente o indicador. — Atenção, pessoal! Transição dentro de vinte minutos... Não sabem senão brigar? Gucky apontou para Bell. — Foi ele que começou! Por que formula mentalmente coisas tão tolas? Essas coisas a gente não diz nem para si mesmo... — Com voz melosa, continuou: — Vamos indo, Harno? O rato-castor estendeu a pata, e a bola desceu suavemente do teto, pousando na “mãozinha” aberta. — Espero que a desmaterialização não o afete — disse Gucky. — Estou verdadeiramente curioso por verificar — falou a voz telepática, ouvida por todos os presentes. — Salte! — Até logo mais! — disse Gucky, concentrando-se. — Até logo, mico de circo! — depois teleportou. A última imagem visível do rato-castor foi um brilhante e sorridente dente incisivo. O hipersalto decorreu perfeito e sem complicações. 49


Quando o Universo e as estrelas reapareceram, os rastreadores estruturais entraram em ação automaticamente. Valendo-se do hiper-rádio, funcionavam à velocidade da luz. Os avisos de posição começaram a chegar. — Esquadrilha numerosa 25° à nossa direita. Rumam em sentido oposto, obliquamente. Não há perigo de colisão. Zona de descarga a 0,2 anos-luz de distância. Naves isoladas à frente, em rumos diversos. Devem aparecer nas telas agora. Sikermann hesitou, até receber sinal de Rhodan. Entendendo imediatamente, o comandante ligou o telecomunicador. — Aviso à tripulação! Postos de combate, atenção! À Kublai Khan e à Califórnia: prontidão para combate! Vieram as confirmações. Em questão de segundos, as três naves se transformaram em fortalezas inexpugnáveis, cujo poder de fogo seria capaz de arrasar sistemas solares. Harno ocupava novamente seu lugar junto ao teto. Estivera em companhia de Gucky por vinte minutos, e ninguém sabia o que haviam conversado. Bell sentiu um friozinho na boca do estômago ao pensar nisso, porém logo afastou deliberadamente a lembrança incômoda. Afinal, tudo não passara de brincadeira... A grande tela panorâmica mostrava agora alguns pontinhos, arrastando-se lentamente pela superfície curva. Deviam ser as naves do regente de Árcon, bloqueando a entrada para a outra dimensão temporal. Nada indicava luta iminente entre os dois adversários. Tudo parecia calmo e tranquilo. Evidentemente, a tentativa de invasão dos druufs tinha sido repelida. Rhodan disse a Atlan: — Tudo seria bem diferente se Árcon estivesse sendo governado por arcônidas autênticos, e não por um traiçoeiro cérebro-robô. Unidos a Árcon, afastaríamos rapidamente a ameaça dos druufs. O grotesco da situação é que nós, os terranos, nos vemos forçados a lutar contra e a favor de ambas as partes! O terceiro poder, por assim dizer... Atlan concordou. — Do ponto de vista do Império, os druufs são o maior perigo. Se eu fosse imperador de Árcon, aliar-me-ia aos terranos para aniquilar os druufs. — O cérebro-robô chegou à conclusão idêntica, só que não cumprirá o acordo quando o perigo for afastado. Não hesitaria em jogar suas frotas contra a Terra, assim que descobrisse nossa posição. Atlan assentiu, acenando com a cabeça. — Enquanto o Império for governado por uma máquina, os arcônidas não poderão inteirar-se da localização do setor da Via Láctea no qual se encontra a Terra. Por mais digna de confiança que seja uma máquina jamais altera seu modo de pensar, justamente por ser digna de confiança. Quer governar, e não conhece amizade. Apenas o objetivo a atingir. Julgo, portanto, que agimos acertadamente. Voltando-se, Rhodan fitou Atlan. — Analisa a situação sob o ponto de vista terrano,

almirante...? Atlan confirmou. — Que mais poderia fazer bárbaro? Como Crest, sou praticamente terrano. Situação que só pode mudar quando a ordem for restabelecida em Árcon, com um arcônida autêntico no poder. Até lá, porém... A frase ficou incompleta, mas todos compreenderam o que Atlan queria dizer. Sikermann falou: — Três naves à frente. Aproximam-se de nós, com metade da velocidade da luz. Devo alterar o curso? — Pode identificá-las? A resposta veio da central radiofônica: — Duas naves arcônidas atacam uma nave menor dos druufs. Vão destruí-la. A decisão de Rhodan foi instantânea — Aproxime-se mais, Sikermann! A tela mostrou maiores detalhes. Não havia dúvida de que as duas naves do regente eram tripuladas exclusivamente por robôs. O tipo lhes era familiar por encontros anteriores: torpedos de arconite, em forma de fuso, com duzentos metros de comprimento, de funcionamento inteiramente automático. A nave dos druufs era menor, com o habitual formato cilíndrico, de proa e popa arredondadas. Disparava incessantemente contra o inimigo mais forte, cujos anteparos energéticos desviavam a radiação recebida. — A nave dos druufs tem pouca chance — observou Atlan. — Excelente! — fez-se ouvir a voz de Rhodan. Viu a nave dos druufs mudar de rumo e lançar-se em direção da zona de descarga. Os robôs perseguiram-na. Iniciava-se a feroz caçada. — Mantenha-se o mais perto possível, Sikermann. Voavam a pouca distância das três naves. Era de supor que os comandantes das naves fusiformes tomassem os três cruzadores esféricos de Rhodan por unidades arcônidas. Atitude facilmente compreensível, visto que as unidades terranas haviam sido construídas segundo os modelos de Árcon. Um fulminante jato energético emergiu da proa de um cruzador-robô, rompendo o anteparo da nave dos druufs. Devia ter aproveitado, puramente por acaso, o breve instante em que os aparelhamentos do adversário reabasteciam o armamento. Chamas ergueram-se da popa da nave dos druufs. No entanto, os seres da outra dimensão temporal não entregaram os pontos tão depressa. Retribuindo o fogo, continuaram a precipitar-se velozmente para a brecha salvadora. Fugindo do universo relativista, tentavam retornar ao próprio mundo. Rhodan não perdeu tempo. — Sikermann — ordenou. — Avise a Kublai Khan! Abrir fogo imediatamente contra a nave-robô da esquerda! Nós atacaremos a da direita. Com cautela... Nada de destruí-la de vez. Tem que ser aos poucos. Ainda não quero revelar aos druufs a excelência de nossas armas. 50


Em menos de dez segundos, os dois cruzadores espaciais abriram fogo. Fizeram uso apenas da artilharia mais leve, mas mesmo os raios mortíferos desta foram suficientes para romper os anteparos energéticos das duas naves-robôs. Ao mesmo tempo, rasgavam enormes rombos nos cascos. A voz calma e objetiva da central de rastreamento anunciou: — Novas unidades-robôs em aproximação. Estamos sendo atacados por um esquadrão. Rhodan tomou uma decisão-relâmpago: — Ordem para Everson e Sikermann: Destruir as duas naves-robôs! Imediatamente! A nave dos druufs avariada não aumentara a velocidade. Continuava a precipitar-se para a zona de descarga, sem mudar de curso. Restava-lhes vencer menos de uma horaluz. No entanto, voando com metade da velocidade da luz, ainda estavam distantes da salvação. Porém o comandante da nave dos druufs parecia ter percebido que ganhara um aliado. Cessou o fogo. O desfecho foi rápido! O fogo destruidor da Drusus e da Kublai Khan abateuse sobre as naves oblongas de Árcon. A reação atômica instantaneamente desencadeada transformou a matéria em sóis radiativos, que se afastaram em velocidade inalterada. Depois fundiram-se num só, e a nuvem incandescente se expandiu gradualmente. Aos poucos decresceu, ficou mais rala e sumiu. Rhodan declarou, friamente: — Estou curioso por saber se os druufs conhecem algo como gratidão. Seja como for, já é bastante significativo que o sujeito aí na frente ainda não nos tenha alvejado. Aproxime-se, Sikermann! Com toda a cautela e prontos para disparar, avançaram lentamente para perto da nave salva. Alguns quilômetros apenas as separavam. Pouco restava da popa da nave dos druufs; no entanto, havia ainda alguns jatos, ou o que quer que fosse funcionando. A nave não se transformara propriamente num destroço, e tinha condições para chegar à sua base pelos próprios meios. Novamente informações da central de rastreamento: — Nave do regente se aproximando. Distância... Rhodan acenou. — Parece que vamos ter oportunidade de salvar mais uma vez o druuf avariado. Ótimo, “nó duplo segura duas vezes melhor”! A espera foi breve. Menos de uma hora. Sete unidades menores emergiram de repente, do vazio lateral, e atacaram sem o menor aviso. Pela tática, depreendia-se que não eram pilotadas exclusivamente por robôs. Ao menos o comandante devia ser arcônida ou saltador, o que era mais provável. — Pelo visto, já suspeitaram que não somos arcônidas — opinou Bell. — Talvez tenham captado mensagens radiofônicas das naves-robôs abatidas. Rhodan não respondeu. Preocupava-se em iniciar o contra-ataque.

O druuf alterou ligeiramente o curso, dando a nítida impressão de que viria em auxílio do salvador desconhecido; porém logo retomou o rumo inicial, buscando célere a própria segurança. A luta foi breve. Seis dos agressores incendiaram-se por trás dos anteparos energéticos rompidos. Apenas o sétimo recebeu um tiro de raspão, e desviou. Rhodan poupara intencionalmente a nave na qual se encontrava um homem. O que lhe proporcionava ainda uma “vantagem” adicional: o regente seria informado acerca do novo aliado dos druufs. Uma hora após, romperam junto com o druuf o cerco dos arcônidas e mergulharam sem empecilhos no Universo estranho. Por trás deles, a brecha tremeluzia, ocultando as estrelas. Outras surgiram no lugar delas. As estrelas dos druufs!

3 No Universo dos druufs, o compasso temporal era diferente do terrano. A adaptação reduzira gradualmente a diferença. Enquanto a princípio toda a vida neste Universo decorria 72 mil vezes mais devagar, atualmente a relação era apenas de um para dois. Em outras palavras: um druuf vivia e andava com a metade da rapidez despendida por entes do Universo relativista. No meio da tela frontal cintilava uma estranha estrela dupla. Sua luz era avermelhada, com ocasionais reflexos verdes. Era o sistema natal dos druufs, conforme Rhodan sabia. Antes de procurar entrar em contato com os donos desse Universo, Rhodan pôs em execução seu plano original. A base secreta em Siamed-13 — o planeta Hades — necessitava de reforços. O diâmetro de Hades correspondia à metade do terrestre, sua gravidade era de apenas 0,35G, e voltava sempre à mesma face à estrela-mãe. Devido à libração excepcionalmente elevada, a largura da faixa crepuscular media 80 quilômetros. Enquanto a temperatura chegava a 168 graus na face iluminada, reinava frio insuportável no lado perpetuamente mergulhado nas trevas. Apenas na zona crepuscular a vida se tornava possível por períodos mais prolongados. A compensação das massas contrastantes de ar ocasionava tempestades de inaudita violência. Mais uma razão para instalar a base debaixo do solo. A caverna na Cordilheira da Esperança — nome escolhido por Rhodan — era uma bandeira terrana no seio do reino dos druufs. O Tenente Stepan Potkin fez-se anunciar na central da Drusus. 51


— Mandou chamar-me, Sir? — Chegou a hora, tenente — informou Rhodan. — Seu pessoal está pronto? — Tudo preparado para a decolagem, Sir! — Bem — corrigiu Rhodan. — Não se trata de uma decolagem na acepção usual da palavra. Vocês serão transferidos para Hades por meio dos transmissores fictícios. A estação na Cordilheira da Esperança foi notificada, e já se encontra sintonizada em recepção. Da Kublai Khan e da Califórnia está sendo remetido o material. Você e seus homens irão por último. Desejo-lhe boa sorte, tenente. Pela primeira vez Potkin também sorriu. — Acha que vamos precisar dela, Sir!? — Com toda a probabilidade, Tenente Potkin. Sem sorte, não seríamos o que somos hoje. Apenas poder e conhecimentos não nos levariam tão longe. O Tenente Potkin perfilou-se, fez continência e saiu. Atlan seguiu-o com olhar pensativo. — Homem valente! — elogiou. — Não é qualquer um que pisa num transmissor fictício, sem piscar olho, sabendo que vai ser “desarticulado” em átomos. Dizem que já houve casos com resultados bem surpreendentes na extremidade oposta... Quando imagino que posso entrar na cabina como Atlan, e sair mais além como Bell... — Você é insubstituível, Atlan — disse Rhodan, acentuando peculiarmente as palavras. — Mas quando imagino a possibilidade de ter dois Bells ao meu lado... a ideia é verdadeiramente sedutora. Atlan ficou perplexo. Por trás dele, Bell comentou, satisfeito: — Taí, viram? — Não se preocupe, porém — continuou Rhodan. — Acidentes desta espécie podem ter ocorrido no início; hoje são praticamente impossíveis. Não vou dizer que tenham acontecido transformações totais de identidade, porém mutilações sim. No entanto, jamais soube de fato concreto sobre isso. Quando achamos os transmissores no sistema Vega, já funcionavam com perfeição. — Ainda bem! — exclamou Atlan, numa débil tentativa de curar a vaidade ferida. — Quando imagino viver o resto da vida sob a forma de Bell... — Transmissor pronto para funcionar! — anunciou a voz indiferente no intercomunicador. Rhodan deu novas instruções. — Enviar continuamente a seguinte mensagem radiofônica, não codificada, e em idioma arcônida: “Aos druufs! Pedimos oportunidade para parlamentar! O adversário de vocês é também o nosso! Podíamos unirnos para derrotá-lo. Caso possam me compreender, respondam no mesmo comprimento de onda.” Quando a tela escureceu, e o grande jogo começou, Rhodan sentiu-se assaltado pela dúvida. Não que duvidasse do êxito de seu plano, no qual acreditava firmemente. Mas, se os druufs fossem mais desconfiados do que imaginava? Bem que poderiam atraí-lo a uma bem arquitetada cilada.

Mesmo o caso da nave salva podia deixar de produzir o efeito esperado. “Que farei então?”, indagou-se mentalmente. Decidiu relegar esta pergunta ao momento em que se tornasse necessária. No entanto, podia-se tentar obter mais esclarecimentos desde já. Enquanto o transmissor de matéria trabalhava a plena capacidade, lotando a caverna com armas, gêneros e gente, Rhodan determinou vigilância radiofônica em torno da nave avariada, mas ainda capaz de manobrar. Mensagem alguma partiria dela sem ser interceptada pela central de rádio da Drusus. E mais um fator trabalhava a favor de Rhodan. A própria natureza! O ritmo de vida dos druufs correspondia à metade do terrano. E suas naves eram duas vezes mais vagarosas enquanto se mantinham abaixo da velocidade da luz. Também as ondas de rádio levavam o dobro do tempo. Porém o rádio da Drusus comunicava-se com Hades à velocidade normal da luz. Portanto, a mensagem de Rhodan chegaria primeiro à pátria dos druufs. Bem, talvez isso não representasse vantagem, afinal. Dependia do que o comandante da nave atacada, e depois salva por Rhodan, contasse aos seus superiores. Saberiam em breve. O intercomunicador zumbiu. Rhodan atendeu. Era o radioperador. — Sir, a nave dos druufs chama! Em arcônida! Rhodan não se surpreendeu. — Eles aprendem depressa — constatou. — Que é que querem? — Agradeceram, Sir — continuou o operador. Sua voz revelava surpresa e incredulidade. — Agradeceram segundo o figurino, assegurando o envio de um relatório elogioso aos seus superiores. Seguiu-se uma mensagem mais longa, num código desconhecido. Provavelmente o relatório anunciado. — Obrigado — disse Rhodan, desligando. Fitando Atlan e Bell, perguntou: — Então, que acham disso? Atlan foi cauteloso na resposta. — Pode tratar-se de um truque, para conquistar nossa confiança. Eles pressupõem, naturalmente, que os sigamos. Talvez sejam bastante espertos para adivinhar nosso jogo... — Duvido — replicou Rhodan. — Nenhum ser inteligente pode ser tão desconfiado. Prestamos-lhes um favor... — E daí? — Atlan continuava cético. — Podiam, pelo menos, demonstrar certa cautela, e estudar-nos de perto, antes de cair nessa de que agimos desinteressadamente. — Quem foi que falou em desinteresse? — perguntou Rhodan, admirado. — Em minha mensagem aos druufs, acentuo que os inimigos deles são também nossos inimigos. De onde se conclui, obviamente, que agimos por necessidade, e não por amizade. Argumento que os convencerá. — Hum, é possível... — concordou Atlan, o eterno 52


suspeitoso. Bell, até então calado, opinou: — Nessa eles caem! Rhodan lhe acenou, sem dar resposta. Olhava pensativo para a tela. A nave voava próximo à Drusus. Apesar de faltar metade da popa, os estragos não pareciam ser graves. Mais atrás vinha a possante Kublai Khan, e, diante dela, a Califórnia. Externamente, não se percebia o menor sinal de atividade; porém lá dentro os transmissores funcionavam sem parar, transportando armamento e mercadorias de vital importância para Hades. — A propósito, que nome daremos a Siamed-16, a pátria dos druufs? — perguntou Bell, de repente. — Afinal, batizamos Siamed-13, não foi? Que tal Terra-Dois? Afinal, ali tudo tem o dobro do tamanho habitual em nosso mundo. O diâmetro, a gravidade, e até os habitantes, os druufs... — Mas também é só isso que o planeta apresenta em comum com a nossa Terra. Apesar de o conhecermos só subterraneamente, a superfície não deve ser mais bela. A breve visita, devida à superposição de área com um transmissor estranho, me bastou. Se soubesse ao menos quem foi que nos socorreu na ocasião... Rhodan entregou-se às recordações. Relembrou em resumo o episódio. Haviam penetrado na cabina energética do transmissor em Hades, com a intenção de retornar para a Drusus, e haviam ido parar na central de calculação subterrânea dos druufs, em Siamed-16. Um desconhecido entrara em contato telepático com eles, orientando-os na fuga. Ninguém sabia de quem se tratava. Algum prisioneiro dos druufs? Mas quem? Um telepata? — Bem, deixem pra lá — falou Bell, emburrado, vendo sua sugestão rejeitada. Rhodan despertou como de um sonho. — Ora, simplifiquemos... Podia chamar-se simplesmente Druufon. — Druufon? — repetiu Bell, entusiasmando-se logo. — Mas claro, sua sugestão é bem melhor do que a minha — confessou generosamente. — Batizemo-lo de Druufon. — Nada a opor — comentou Atlan, indiferente a nomes de batismo. Afinal, nos catálogos a designação oficial continuaria sendo Siamed-16. — Se lhes parece mais simples... A estrela dupla se aproximara, permitindo diferenciar a olho nu os dois sóis. A rubra estrela-mãe era contornada por outra menor, de cor verde. Em órbitas regulares, 62 planetas se esforçavam para equilibrar a complexa atração gravitacional. Muitos deles, a rigor a totalidade dos planetas, possuíam luas, que por sua vez tinham satélites menores. Um sistema gigantesco, até então oculto por trás da muralha invisível de tempo. — Mais algumas horas — disse Atlan, aproximando-se de Rhodan, e fitando a tela — e saberemos se nosso plano deu certo. — Talvez venhamos, a saber, antes — disse Bell, expressando suas esperanças. Semiestirado em sua

confortável poltrona, espreguiçou-se. — Por mim, eu iria dormir um pouco. Sob o teto, a bola Harno alterou lentamente o volume. Cresceu e flutuou para baixo. — Posso mostrar-lhes Druufon, se quiserem. Rhodan voltou-se bruscamente, com a surpresa estampada na face. — Quase me esqueci de você, Harno — confessou, respondendo desta forma à fala telepática do novo aliado. — Pode mostrar-nos o mundo dos druufs? Claro, eu gostaria bastante de saber como é. — Então olhem para mim. Vou mostrar-lhes Druufon... *** Nas cavernas da Cordilheira da Esperança, o transmissor de matéria parecia transbordar. Remessas incessantes chegavam das três naves de Rhodan; a tripulação da base cuidava do descarregamento e arrumação. A chegada do Tenente Potkin, acompanhado por cem homens e 500 swoons, foi saudada com enorme alarido. Claro que a comoção não era causada pelos homens, e sim pelos swoons. Os diminutos seres, de estatura inferior a meio metro, e parecidos com pepinos, vinham a ser os mais capazes microtécnicos do Universo. Trabalhavam para o Império Arcônida, porém Rhodan conseguira conquistar a amizade de grande número deles, levando-os para a Terra. O grupo de swoons do Tenente Potkin recebera o encargo de inventar e construir, com a máxima urgência, um neutralizador das vibrações inevitavelmente resultantes da operação dos transmissores de matéria. De modo algum a base de Hades podia ser detectada ou descoberta pelos druufs. Quase no mesmo momento em que as derradeiras remessas chegavam a Hades, e os transmissores eram desligados, apagou-se também a imagem na face do televisor vivo Harno. Rhodan recostou-se para trás, e esperou que Harno tornasse a murchar, até ficar do tamanho de uma maçã. Atlan, Sikermann e Bell voltaram aos respectivos lugares. — Fantástico! — disse Rhodan, sem esclarecer se falava da capacidade de Harno, ou das cenas que acabara de ver. — Verdadeiramente fantástico! Bell concordou: — Druufon se parece mais com a Terra do que eu supunha. Até a vegetação apresenta paralelos. As cidades dos druufs são formações maciças de metal e concreto. E tão “maciços” como suas moradias são também os druufs. Preciso reconhecer que ergueram uma impressionante civilização. — O que nos seria totalmente indiferente, desde que nos deixassem em paz! — observou Atlan, amargamente. — E quando imagino que estamos às voltas com os mesmos druufs outrora implicados na destruição da Atlântida... justamente porque para eles se passaram apenas alguns 53


meses, enquanto no nosso Universo a Terra viu passar dez mil anos... Vocês têm razão... é realmente fantástico! — Mas que são dez mil anos...? — começou Rhodan, mas foi interrompido pelo zumbido do intercomunicador. Era o radioperador. — Ligação dos druufs — anunciou, excitado. — Captamos uma mensagem dirigida a nós. No entanto, não procede da nave avariada, e sim do planeta dos druufs. Rhodan pôs-se de pé num salto. — Continua ligado? Na tela via-se agora o sistema Siamed. Num dos cantos, o sol duplo vermelho-esverdeado exibia seu vivo colorido. Redondo, imenso, e recebendo em cheio a luz refletida por suas 21 luas, Druufon assemelhava-se a uma Terra ampliada. Apenas os contornos dos mares e continentes apresentavam traçado diverso. O planeta ainda ficava a cinco segundos-luz. — Ligação mantida — replicou o operador. — Espere! — gritou Rhodan. — Vou falar com eles pessoalmente. O radioperador de plantão se chamava David Stern. Apontou para a tela, onde se viam apenas padrões coloridos em movimentos vagarosos, enrolando-se em esquisitas espirais. — Lamento, porém não consigo captar imagem alguma; talvez as frequências sejam diferentes demais. — A causa deve ser mais a diferença de tempo — replicou Rhodan. — O raciocínio lógico conduz qualquer raça inteligente a conclusões idênticas, e todas usam métodos semelhantes para alcançar objetivos de igual caráter. Só me admira podermos receber normalmente a língua deles... David Stern sorriu de leve ao explicar: — Intercalamos um regulador, Sir. Comprime para a metade as emissões oriundas de Siamed-16; e, em operações inversas, dobra a duração de nossas falas para lá. Rhodan expressou palavras de louvor. — Vamos lá, então! Estou curioso por saber o que eles têm a dizer. Stern regulou o aparelho, e logo os alto-falantes diziam alta e nitidamente: — ...repetimos. Aos desconhecidos do outro Universo. Recebemos sua mensagem, assim como o relatório de nosso comandante que salvaram da morte certa. Estamos interessados em parlamentar. Apresentem suas condições. Fim. Rhodan acenou para Stern. — Câmbio. Vou tentar. Depois falou ao microfone: — Aos druufs, é assim que chamamos vocês! Mensagem recebida. Desejamos permissão para pousar em seu planeta, e garantia de poder decolar quando quisermos. Gostaríamos de escolta protetora para a aterrissagem. Fim. A resposta veio em vinte segundos. — Concedido. Enviaremos uma esquadrilha ao encontro de vocês. Fim. Daí por diante, o rádio ficou mudo. David Stern olhou

interrogativamente para Rhodan. Este acenou. — Continue na escuta, tenente. Porém não creio que tornem a se manifestar, pelo menos em nosso benefício. Entre si, devem usar um idioma desconhecido para nós. E ainda não sei como funcionarão nossas máquinas tradutoras. Depois retornou à central de comando, onde informou Sikermann, Atlan e Bell. A espera durou menos de meia hora. Neste intervalo, as naves reduziram drasticamente a velocidade, passando a avançar apenas poucos quilômetros por segundo. A nave druufiniana avariada desaparecera de vista há bastante tempo, e já devia ter aterrissado. Por fim, surgiu ao longe a esquadrilha anunciada, formada por uma centena das unidades cilíndricas. Vinham em formação cerrada, e envolveram as três naves terranas. Em velocidade uniforme a frota desceu para o planeta Druufon e preparou-se para a aterrissagem. Revelava-se agora bastante proveitosa a visão do planeta que Harno lhes proporcionara. Além disso, as capacidades peculiares do ser-bola permitiam-lhe agora bisbilhotar pelo interior das naves que os escoltavam. Constataram que não eram pilotadas, como de costume, por povos subjugados, e muito menos por robôs, mas exclusivamente por druufs. Prova concludente de que se aproximavam do centro nervoso principal dos druufs. Ali os escravos não eram admitidos. E, pelo visto, não confiavam nem nos robôs. — A maneira de eles pensarem rege-se pela lógica — disse Rhodan. Ainda se passariam dez minutos até o pouso. — Perceberam claramente que além da brecha da zona de descarga uma grande potência os tocaia. E precisam afastar esta potência caso desejem penetrar em nosso Universo. Nossa oferta chegou ao instante adequado, mais do que bem-vinda. Atlan continuava cético. — Não lhe dei aviso algum até agora — falou com gravidade. — Claro que suas considerações táticas são corretas, e concordo plenamente com a fingida aliança com os druufs; será uma boa lição para o cérebro-robô de Árcon. Mas não se esqueça de uma coisa, Rhodan: se o cérebrorobô sofrer uma derrota decisiva nas mãos dos druufs, também o Império Solar estará perdido. Os druufs se espalharão por toda a Galáxia, e seremos subjugados. Impressionado, Rhodan respondeu: — As coisas não chegarão a tal ponto, Atlan. No momento propício estaremos prontos para mudar de bandeira. Não que seja uma atitude muito honrosa, mas é a única solução racional. E então, unidos ao regente derrotado, bateremos os druufs. Vamos deixá-los tão enfraquecidos que nunca mais se lembrarão de nos enfrentar. — De fato, desta forma poderia dar certo — concordou Atlan. No entanto, ainda não parecia totalmente convencido. — Pode deixar que me encarrego de lhe refrescar a memória quando o momento chegar, a fim de 54


que não os deixemos fugir. Rhodan envolveu-se em silêncio. Observava a superfície do enorme planeta, que se aproximava lentamente. Algumas das naves da escolta já aterrissavam. — Vá buscar os telepatas, Bell. Tenho uma ideia. Da porta, Bell comentou: — Sendo telepatas, já poderiam estar aqui. Se eu pudesse ler pensamentos... — ...ninguém estaria a salvo de sua xeretagem! — concluiu Rhodan por ele. — Ninguém poderia mais sonhar sem que você se intrometesse! Que nada, não quero saber de gente curiosa telepateando por aí, e... As palavras lhe ficaram presas na garganta. O ar tremeluziu no meio do recinto, e Gucky materializou-se. O dente roedor exposto traduzia um sorriso. — Desculpem, mas captei, por puro acaso, o pensamento... — Por acaso! — ironizou Bell, lançando olhares significativos para Rhodan. — Só mesmo rindo! Já vi que por aqui existe gente muito mais curiosa do que eu. Muito bem, vou buscar Marshall. Ele, pelo menos... Abriu a porta, e chocou-se com John Marshall, que se afastou com um sorriso amável, e entrou na central. Bell deu meia-volta. — Gucky me avisou — disse Marshall. Bell gemeu. — Grudados como queijo e marmelada, esses dois! — queixou-se. — Vê lá se uma pessoa normal pode concorrer com eles! — Voltando-se para Rhodan, concluiu: — Ordem executada, sem mover um dedo, Sir. Rhodan ia dizer alguma coisa, mas calou-se de repente. Seu cérebro foi invadido por impulsos estranhos, de tamanha força e intensidade que tudo o mais se apagava. Um olhar aos circunstantes provou-lhe que todos ouviam igualmente a mensagem. — Está me ouvindo, Perry Rhodan? Sou eu, o amigo que te socorreu na semana passada. Pense em mim, para que eu saiba que está me captando! Em benefício dos demais presentes, Rhodan respondeu em voz alta: — Ouço amigo. Quem é você, e onde está? — Talvez nos encontremos em Druufon. Não é assim que chamam este mundo? Quem sou...? Nem eu sei, Perry Rhodan. Porém tenho a impressão de que já nos conhecemos há muito tempo. Aviso-lhe, volte antes que seja tarde demais! Não desça em Druufon! — Aconselha-me a não pousar em Druufon... e ao mesmo tempo manifesta esperança de nos encontrarmos lá. Que significa esta contradição? — Porque sei que não vai seguir meu conselho! — Como faço para encontrá-lo? — Conta com a colaboração de telepatas capazes, Perry Rhodan. Eles que me detectem, pois qualquer outra indicação de local deixaria você confuso.

Rhodan ergueu os olhos para o teto, onde flutuava Harno. O ser esférico não precisou captar mensagem alguma a fim de compreender o que Rhodan queria. Desceu e aumentou de volume, até transformar sua superfície em tela. Imagens fugazes correram por ela, acabando por estabilizar-se. Surgiu um quadro nítido. Evidentemente uma central técnica, repleta de aparelhagem desconhecida e instrumentos irreconhecíveis. Diante de um enorme painel de controle via-se um druuf. Era dele que partiam as mensagens amistosas para Rhodan. — Claro que sou um druuf! Que mais poderia ser? Sou druuf desde que posso me lembrar. Podem ver-me?! Rhodan compreendeu que o momento não se prestava a mistificações. Estas só serviriam para irritar o prestativo amigo. — Um de nós é capaz de trazer-nos sua imagem até aqui, permitindo-nos vê-lo. Por que um druuf nos demonstra amizade? — Não sei! Aquilo já nem era mais estranho; chegava a ser absurdo! — Não sabe? — indagou Rhodan, intrigado. — Mas você deve ter alguma razão para nos oferecer ajuda! — É porque preciso, mas não sei por que me vejo obrigado a fazê-lo. Gucky disse de repente: — Ele é o físico-chefe dos druufs! Imensas responsabilidades pesam sobre ele, e a soma de seus conhecimentos é verdadeiramente espantosa. É o maior gênio vivo dos druufs. Porém ignora de onde nos conhece. É o mais sábio dos druufs, mas não se conhece a si próprio. Rhodan fitou severamente o rato-castor. — E de onde é que você sabe disso? — Meu amigo Harno me contou, com o pedido de passar adiante a informação. Assim economiza energia. — Vocês se comunicam sem que percebamos os impulsos? — indagou Rhodan, cujo poder telepático era limitado. — Como? — Geralmente, não telepatas nem sentem os impulsos telepáticos; para que percebam alguma coisa, o emitente precisa irradiar ao mesmo tempo um pouco de sugestão. Depois de demorada reflexão, Rhodan exigiu: — Procurem saber mais sobre o amigo desconhecido. Onde está ele? — Na central subterrânea dos druufs. Dá para reconhecer aproximadamente a direção em que fica... e agora o contato foi interrompido! Gucky parecia assustado. Os demais também haviam notado a interrupção. Os impulsos cessaram bruscamente, e não se repetiram. Na superfície de Harno, a imagem desaparecera, dando lugar a profundo negrume. Encolhendo, ele tornou a alçarse para o teto, retornando à habitual imobilidade. No entanto, seu contato com Gucky parecia continuar, pois o 55


rato-castor disse vagarosamente, como que repetindo o que o ser-bola lhe ditava: — O ajudante desconhecido é druuf, sem a menor dúvida. Rebusca a memória, em procura de algo que não consegue encontrar. Fato inexplicável, por ora. Precisamos aguardar o próximo contato, e até lá não podemos tomar qualquer iniciativa a respeito. Gucky calou-se. Rhodan olhava absorto para a tela panorâmica. Mostrava agora, claramente, o espaçoporto de Druufon, rodeado de gigantescas construções. Em torno do campo estacionavam centenas das esbeltas naves de guerra cilíndricas. No centro, uma extensa área estava sendo desimpedida. Rhodan ordenou a Sikermann: — Determine a aterrissagem da Kublai Khan e da Califórnia. Pousamos de maneira a flanquear o cruzador, a fim de garantir sua integridade com nossas armas, em caso de necessidade. Aguardou que Sikermann desse as instruções necessárias, e depois disse, dirigindo-se aos demais: — Mas duvido que seja necessário. Jamais os druufs precisaram tão desesperadamente de um aliado quanto hoje. — Esperemos que sim! — Atlan não abdicava de seu ceticismo. Depois observaram calados a capital dos druufs, estendida abaixo deles como um mapa aberto. Uma cidade na qual a vida decorria em ritmo duas vezes mais lento do que o da Terra.

4 O enorme espaçoporto parecia abandonado. Os druufs aguardavam, evidentemente, a reação dos desconhecidos. Não deram sinal de vida, nem tentaram novo contato radiofônico. Entretanto, o laboratório físico da Drusus trabalhava febrilmente, enviando para a central os dados obtidos. Rhodan recebeu as mensagens, e resumiu: — A atmosfera é respirável, mais ou menos semelhante à terrestre. Portanto, podemos desembarcar sem trajes protetores, nem aparelhos respiratórios. O dia dura exatamente 48,6 horas: o dobro de um dia terrano. Acho que não precisamos preocupar-nos com o compasso de tempo dos druufs. A diferença agora é pequena, e mal vão perceber que caminhamos duas vezes mais depressa do que eles. Nossa estatura é menor, e mais delicada. Além disso, é provável que tenham consciência da diferença, pois já realizaram frequentes incursões em nosso Universo. — Mas como é que vai ser? — perguntou Bell, impaciente. — Vamos esperar aqui até criar mofo? — Calma, eles acabarão aparecendo — afirmou

Rhodan, procurando tranquiliza-lo. — Afinal, são eles que precisam de aliados; pelo menos, é o que supõem. — As máquinas tradutoras estão preparadas? — indagou Atlan. — Não temos a menor ideia... — Vão funcionar — assegurou Rhodan, confiante. — Por outro lado, nem sabemos ainda se os druufs falam o que, no entanto, não implica na inutilidade das máquinas. Acho que só devemos preocupar-nos com isso no momento apropriado. Sikermann, que estivera observando o espaçoporto, avisou: — Um druuf vem vindo. Está desacompanhado. O olhar de Rhodan se voltou para a tela. Pela segunda vez oferecia-se oportunidade de contemplar de perto um druuf, e na maior calma. O ser media no mínimo três metros de altura. O corpo era quadrangular e pesado. Não havia cabelos, mas reconhecia-se claramente a cor da pele coureácea; variava entre marrom e negro, talvez devido à estranha luz crepuscular da tarde. O corpo maciço repousava sobre duas informes pernas em formato de coluna. A cabeça redonda media meio metro de lado a lado. O mais surpreendente eram os quatro olhos. Dois ficavam sob a testa, e dois na região correspondente às têmporas dos humanos. Arranjo que ampliava grandemente seu campo de visão, apesar de não lhes permitir olhar diretamente para trás. Não possuíam orelhas nem nariz, mas havia boca, em formato de triângulo equilátero. Da extremidade dos braços roliços pendiam dedos delicados, estranhamente desproporcionais à massa corporal. Há passos lentos e comedidos, o druuf se aproximou das três naves. Não trazia arma nem instrumento de espécie alguma. — Um parlamentar — supôs Rhodan. — Vamos dar a entender que o vimos. Bell vá à escotilha de desembarque B-4 e desça a escada. — Mas é uma escotilha de carga... — E acha que aquele “monstro” passa pelas escadas previstas para gente? — Será que vai entrar de livre e espontânea vontade na nave...? — Claro basta convidá-lo! Bell pôs-se a caminho, visivelmente desalentado. Rhodan determinou as providências necessárias, e mandou cessar nas outras naves qualquer movimento que pudesse despertar as suspeitas dos druufs. Dez minutos depois o monstruoso ser pisava na central de comando da Drusus, escoltado por Bell. Não se poderia classificar de exíguas as portas, passagens e dependências da nave bélica, mas mesmo assim o druuf era obrigado a andar curvado, a fim de não bater com a cabeça no teto. Rhodan ofereceu-lhe um sofá. O emissário tomou lugar com extremo cuidado, preocupado em não causar dano algum. Teve lugar suficiente para sentar. Bell constatou visivelmente contrafeito: 56


— Ele me entendeu logo, mas não pronunciou palavra. Bem que gostaria de saber para que lhe serve essa boca triangular. — Para ingerir alimento, certamente — replicou Rhodan. — Eles se comunicam por meio de frequência ultraelevada, gerada por transmissores embutidos no próprio corpo, conforme Harno acaba de me explicar. Possuem igualmente um receptor, de sintonia adequada. Eles vêm a ser, portanto, uma espécie de estação radiofônica orgânica, porém seu alcance é reduzido. Não são telepatas, pois não captam pensamentos, pelo menos, até o presente não tivemos prova disso. — Entendem o que falamos? — perguntou Bell, preocupado. — Só através de nossas máquinas tradutoras, às quais temos que acrescentar ainda um acessório. Já vamos ver se funciona. Atlan ligou a máquina, de utilidade já comprovada em outros pontos do Universo, e aguardou que se acendesse a luz indicadora. Quando a viu pronta para funcionar, acenou para Rhodan. A tensão chegara ao auge, quando Rhodan disse: — Bem-vindo à nossa nave, druuf. É com satisfação que o recebemos. Pode ouvir e compreender-nos? A boca triangular não se moveu quando o alto-falante emitiu clara e nitidamente a resposta. Artificialmente produzida pela máquina, a voz tinha tom metálico. — Aceitamos o nome de druufs que nos deram. Como se chamam vocês? — Pode chamar-nos de terranos, druuf. Após curta pausa, o visitante foi direto ao assunto: — Dois Universos diversos se tocam ocorrência rara. O choque de duas raças estranhas só pode resultar em luta. Defrontamo-nos com duas raças de temperamento bastante aguerrido. Uma avança presentemente para nosso Universo, e precisa ser derrotada, caso quisermos sobreviver. Possuem naves tripuladas por robôs. — E a outra? — perguntou Rhodan, ansioso, vendo o druuf calar. — Faz pouco tempo que encontramos a outra. Penetrou em nosso Universo valendo-se de recursos técnicos. Raptaram prisioneiros e escravos... — Prisioneiros? — Rhodan fingiu espanto. — Como é que vocês tinham prisioneiros, se esta raça foi a primeira a tomar contato com vocês? Houve uma pausa, durante a qual o druuf parecia refletir. Depois disse: — Nossos cientistas chegaram à conclusão de que seres orgânicos de outra dimensão temporal podem se adaptar à nossa. Não sou cientista, e não posso explicar o processo. — Quem é você? — perguntou Rhodan, incisivamente. — Eu sou... — do alto-falante saiu um ruído indefinido, meio arrastado — ...e, portanto, político. Rhodan inclinou-se para frente, e mexeu na máquina de traduzir. Por experiência anterior, sabia que existiam conceitos intraduzíveis. O serviço de colonização elaborara

uma tabela comparativa para eles. O enquadramento se efetuava automaticamente. — Repita a frase, por favor. O druuf entendia depressa. Compreendeu logo o que Rhodan queria; ou, pelo menos, adivinhou o objetivo do pedido feito. — Eu sou Tommy, e, portanto, político. Rhodan recostou-se na poltrona, examinando o druuf com maior atenção. Segundo a tabela, “Tommy” significava alto dignitário e dirigente. Portanto, pertencia à classe governante. — Vou chamá-lo de Tommy-1. Eu sou Rhodan. O druuf mal tomou conhecimento disso, e falou: — Vocês nos oferecem ajuda? O comandante de nossa nave informou que destruíram oito naves inimigas. Por que fizeram isso? — A fim de ajudar vocês, e prejudicar nossos inimigos. Estamos em guerra com eles há decênios. — Quer dizer que também precisam de aliados? — Tanto quanto vocês! Novamente o druuf tirou tempo para pensar. Rhodan aproveitou a pausa para enviar uma mensagem mental a Harno: — Pode ler os pensamentos do druuf? A resposta veio imediata e perceptível: — Sim, posso. Os pensamentos dele conferem com o que diz. É isso que queria saber? Rhodan podia ter consultado igualmente Gucky ou John Marshall, seus dois telepatas, porém isso lhe custaria esforço maior. E não queria desviar desnecessariamente a atenção do druuf. Acenou em direção ao teto, onde Harno conservava discretamente sua posição. Finalmente o druuf Tommy-1 disse: — O Conselho dos Sessenta e Seis resolveu falar francamente com você. Tencionamos adaptar o outro Universo ao nosso. Nenhuma das partes sofrerá dano físico com o processo, e o resultado é indiferente. Sem pontos de referência, tanto faz o tempo passar depressa ou devagar. — Sem dúvida — concordou Rhodan, com aparente displicência. — Mas então por que desejam esta unificação? O druuf refletiu novamente. As pausas eram longas. Não que o “monstro” necessitasse de prazo mais dilatado para pensar; apenas, o tempo passava mais devagar para ele. — Queremos conquistar o reino dos nossos agressores — explicou, por fim. — São seus inimigos, também. Você quer ajudar-nos a destruí-los. Logo, fazemos um favor a vocês. — Realmente — disse Rhodan pensativo. — E depois, o que aconteceria? — Que quer dizer? — Muito simples: depois de derrotar em conjunto o inimigo, vocês prosseguiriam a guerra? Contra nós? Expressei-me com suficiente clareza? 57


— Não, não faremos tal coisa! — afirmou o druuf, convicto. — Desta vez, ele mente! — avisou Harno. Rhodan já sabia. Eles pretendiam conquistar o reino arcônida, e depois subjugar todas as raças inteligentes da Galáxia. E alcançariam seu objetivo, caso não fossem tomadas a tempo medidas para deter o avanço. Evidentemente, Rhodan não viera para Druufon com o objetivo de oferecer aliança aos druufs, e muito menos para lutar ao lado deles. A finalidade era, em primeiro lugar, pousar livre e desembaraçadamente no planeta a fim de localizar o amigo desconhecido. E se pudesse abalar internamente o reino dos druufs, muitos sacrifícios seriam poupados. — Talvez eu esteja disposto a lutar contra os arcônidas ao lado de vocês — replicou Rhodan. — Porém antes de firmar o acordo, gostaríamos de conhecer melhor sua raça. Espero que compreendam isso. — Nós compreendemos. Sentimos igual necessidade. Vocês nos falarão de seu planeta, a fim de esclarecer-nos. De acordo? — Falaremos, sim; em troca, queremos inteira liberdade de movimentos. Aceitam nossa sugestão? O druuf levantou-se com cuidado; ficou de pé, curvado. — Vou conferenciar com os outros Tommys a respeito. Até lá, preciso exigir que não deixem suas naves. Volto quando a decisão for tomada. Rhodan fez sinal para Bell, e manteve silêncio até ambos se retirarem da central. Depois perguntou: — Que pensava ele, Harno? Fale através de Gucky, para que todos possam ouvir a resposta em linguagem falada. Gucky concentrou-se por um momento, e disse: — Eles nem pensam em nos conceder a liberdade de movimentos exigida, mas ainda não sabem como nos convencer a lutar ao lado deles contra Árcon. Por isso pediram tempo para pensar. — Foi o que imaginei! — disse Rhodan. — Neste caso, é melhor aproveitar bem o tempo que nos resta. Aqui no espaçoporto estaremos seguros. Seremos apenas vigiados. Só que eles não sabem que temos Gucky! — E Harno! Ao erguer os olhos para o teto, Rhodan já sorria novamente. — Mas claro! E Harno! *** Nas três horas seguintes não houve sinal do retorno de Tommy-1 com o resultado da decisão dos Sessenta e Seis. Rhodan decidiu-se, então, pela ação. Gucky ocultou seu dente roedor, traduzindo simbolicamente sua opinião de que a situação se tornava séria. Pelo menos para ele. Ninguém seria capaz de adivinhar que atitude Harno tomaria em caso de perigo. Porém Gucky precisava de Harno, sem o qual nunca conseguiria localizar o alvo proposto — faltariam os

impulsos mentais orientadores. O rato-castor estendeu a pata direita. Vagarosamente Harno desceu do teto, pousando na palma aberta. Os dedos de Gucky se cerraram em torno da bola do tamanho de uma noz. Rhodan desejou-lhes boa sorte. — Não se esqueçam de nos dar notícias de vez em quando. Marshall e Lloyd, postados em locais diversos da nave, vão tentar estabelecer o paradeiro de vocês. Tentem encontrar nosso amigo! Só por um segundo viu-se brilhar o dente de Gucky, depois ele se desmaterializou. Junto com ele sumiu Harno. Gucky não saltou ao acaso. Adivinhou que na superfície da cidade veria apenas a paisagem permitida a estranhos. As instalações importantes dos druufs, assim como seus segredos, se encontravam escondidos sob o solo. Da mesma forma, o amigo desconhecido que precisava encontrar. Teleportou-se para o centro da cidade, e foi dar numa praça retangular, contornada por prédios maciços. O movimento era escasso. Lentos e pesados, alguns druufs percorriam as ruas quase desertas; nem prestaram atenção no diminuto ratocastor, que apressadamente meteu-se num recanto sombreado. Não se via veículo de espécie alguma. As paredes a pique abaulavam-se para fora à medida que subiam. Lá no alto havia outra via de trânsito. “Reservada aos automóveis, provavelmente”, pensou Gucky. “Esta aqui embaixo é só para pedestres.” Seu diálogo com Harno baseava-se exclusivamente na telepatia, porém era como se conversassem de viva voz. — Bela cidade, Harno. Estou curioso por saber onde fica o próximo bar. Harno transmitiu uma risada a Gucky. — Temos outras preocupações, amiguinho. Lá vem um druuf! Gucky olhou na direção indicada e sobressaltou-se. A menos de vinte metros de distância, um gigantesco druuf se aproximava a passadas largas e majestosas... e vinha direto para onde estavam. — Damos o fora caso a coisa aperte, Harno. Mas gostaria de ver que impressão lhe causo. Isso facilitará nossa tarefa. — Para mim é indiferente — replicou Harno. — Posso pôr-me a salvo a qualquer instante. — Eu também — disse Gucky, preparando-se para uma fuga imediata. Tinha plena certeza de poder escapulir sem maiores esforços a um druuf correndo atrás dele; se é que aqueles colossos eram capazes de correr. O druuf aproximou-se e estacou ao dar com Gucky. Seus quatro olhos detiveram-se no estranho ser tão inocentemente recostado contra a parede, observando-o. Jamais vira um animal daquela espécie! Seria mesmo um animal? Os druufs tinham subjugado uma série de outros povos. 58


Havia no reino uma infinita variedade de seres, e ninguém poderia conhecer todos eles. O extraordinário era dar com um representante da classe escrava circulando livremente na capital. — Cuidado! — sinalizou Harno. — Ele pretende pegálo! Gucky reagiu de acordo com a situação. Preferiria, naturalmente, apelar para suas faculdades telecinéticas, e fazer o druuf voar pelo ar, mas aquilo chamaria demais a atenção. O mais conveniente era desaparecer. O druuf se julgaria vítima de uma ilusão de ótica, e esqueceria o incidente. Concentrou-se, e teleportou para o outro lado da rua. Durante dez segundos, o druuf ficou com os olhos cravados no lugar onde acabara de ver o estranho ser; depois seu cérebro se dispôs a analisar o caso. De maneira estritamente lógica, claro! Sim, devia ter sido uma ilusão... não havia outra explicação. Pessoa alguma seria capaz de dissolver-se no ar. Sacudindo a cabeçorra, prosseguiu seu caminho. De onde estava, Gucky via tudo claramente. — Não passam de seres semi-inteligentes — observou baixinho, mas Harno compreendeu assim mesmo. — Se fossem mais espertos... — Jamais se deve subestimar o adversário — acautelou Harno. — Captou o pensamento dele? — Não! Em que pensava? — Pensava nas três naves estranhas pousadas no espaçoporto. Por uma fração de segundo, julgou que você podia ter vindo de uma delas. Como vê, precisamos ser cautelosos. Já escurecia, porém nenhuma luz foi acesa. Tudo parecia indicar que os druufs se recolhiam muito cedo. — E nosso amigo? — perguntou Gucky. — Pode vê-lo? — Este local é inseguro demais, Gucky. Temos que achar algum canto onde não corramos risco de sermos descobertos. — Que tal as instalações subterrâneas? — sugeriu Gucky, fitando o chão. Harno não deu resposta. Cresceu de repente, pairando sobre o revestimento de pedra lisa da rua, à altura de Gucky. A superfície negra se tornou leitosa. Transformarase novamente em tela de televisão. — Não percebo nenhum impulso do desconhecido. Gucky também não percebia. Ainda recostado na parede, fitou a bola em silêncio. À sua frente estendia-se a amplidão da praça deserta. Não se via mais um único druuf. Lá fora, na planície, o sol devia estar se aproximando da linha do horizonte. Harno mostrava laboratórios imaculadamente limpos, e imensas instalações técnicas, tudo efusivamente iluminado. Os corredores e ruas cobertos com tetos abobadados eram infindáveis. Luz em toda a parte, lançando sombras negras. Enquanto os druufs da superfície se entregavam ao sono, a atividade começava debaixo da terra.

Ou talvez druuf algum se mantivesse na superfície durante a noite... Bruscamente a tela de Harno escureceu. Gucky estremeceu. O impulso foi fugaz, porém muito nítido: — Abandonem Druufon ou estarão perdidos! Os druufs pretendem atraiçoá-los! Farei novo contato, se puder... Antes que Gucky pudesse esboçar qualquer tentativa de contato, Harno disse: — Localizei-o, e sei onde encontrá-lo. Vou mostrar a direção... Em dez segundos Gucky teleportou-se. Harno se reduzira novamente ao tamanho primitivo, e foi assim que rematerializou. *** A luz poente do sol gêmeo coloria pitorescamente a pista espelhada do espaçoporto e os edifícios vizinhos, muitos deles em forma de colméia ou cúpula. Torres espiraladas lançavam sombras estranhas sobre as três naves terranas, como se pretendessem agredi-las. De traçado amplo, vias curvas de trânsito cruzavam a cidade, interligando os subúrbios. A Drusus constituía ótimo posto de observação, visto que as câmaras fotográficas ficavam a quilômetro e meio do solo. Nada ali sobrepujava a Drusus em altura. Marshall concentrou-se, tentando entrar em contato com Gucky. Sacudiu a cabeça. — Ainda há pouco eles se achavam na superfície, e encontraram um druuf. Depois Gucky saltou, rematerializando-se poucos metros adiante. Houve ainda um terceiro salto, mas desde então não há pista. — Mas é impossível! — objetou Rhodan. — Gucky tem que estar pensando! Todo ser vivo pensa ininterruptamente! Os impulsos deviam chegar até aqui, e atingir seu cérebro. — No entanto, ele não registra nada — desculpou-se Marshall. — Não sei como explicar, mas Gucky emudeceu. — Mesmo supondo que Gucky esteja morto, ao menos Harno nos daria algum sinal. — Harno é capaz de pensar sem que seu corpo transmita impulsos — lembrou Marshall. — Porém não deixaria de manifestar-se, caso houvesse razão para preocupações. Portanto, só pode tratar-se de uma espécie de barreira, impermeável a impulsos telepáticos. — Sim, uma barreira — concordou Rhodan. — Bem possível... Resta saber se foi erigida artificialmente, ou se é de origem natural. Se pelo menos o amigo desconhecido desse sinal! Talvez pudesse nos dar a resposta do enigma. Sikermann entrou na central. Repousara durante algumas horas, e retornava a seu posto. Ocupando seu assento, perguntou: — Nunca sente necessidade de dormir, Sir? Rhodan ignorou a pergunta. — Gucky não responde mais. Encontra-se em missão na cidade. 59


Sikermann mostrou-se preocupado. Estava a par do caso, naturalmente, porém julgava que o rato-castor já estivesse de volta. — Podem tê-lo agarrado. — Agarrar um teleportador, Sikermann? Mais do que improvável... Bell observou: — Não devíamos subestimar os druufs, Perry. Sabe lá que espécie de artifícios eles têm à mão. Afinal, já lutavam com os arcônidas há dez mil anos. — Dois meses, segundo a contagem de tempo deles! Não podem ter aprendido tanto assim neste curto prazo! — Mas antes disso já sabiam um bocado de coisas! — Bell silenciou por um instante, depois exclamou, com determinação: — Gostaria de ir à cidade, para verificar o que aconteceu! Rhodan sacudiu a cabeça. — Vá esquecendo essa ideia, velho! — Mas se Gucky... — Mesmo se Gucky...! De modo algum os druufs podem vir, a saber, que possuímos mutantes. Gucky saberá se safar sozinho, caso se tenha metido num aperto. Tudo que podemos fazer é esperar! Voltando-se para Marshall, continuou: — Fique atento para qualquer impulso telepático! Eles vão ter que se manifestar, mais cedo ou mais tarde. Ou pelo menos nosso amigo desconhecido, o misterioso druuf. *** De início, Gucky julgou ter errado o pulo. Materializou-se num imenso recinto, com Harno firmemente seguro na mão. Além do teto abobadado, só se via uma perturbadora quantidade de máquinas e aparelhagem técnica. Pesados blocos de metal e geradores sussurrantes encobriam as paredes, além de bancadas de trabalho e painéis de controle. Estreitas passagens entremeavam aquela confusão. No ar pairava estranha vibração. Depois Gucky avistou o druuf. De pé diante de um imenso painel de instrumentos, o colosso contemplava “cantarolando” a dança dos ponteiros nas escalas. Mais além, uma série de telas brilhava opacamente. Luzes de cores diversas acendiam e apagavam em rápida sucessão. “É ele!”, pensou Gucky, e soltou Harno. A bola flutuou vagarosamente para o teto. Postou-se junto a um reluzente conduto que ia do painel de controle para o fundo da sala. — Estou captando os impulsos dele — avisou Harno. — Nada indica que é nosso amigo. Gucky foi obrigado a dar-lhe razão. O druuf junto ao painel ocupava-se com um problema científico totalmente incompreensível para Gucky. Algo relacionado com tempo. Aquele druuf vinha a ser um pesquisador, e procurava entender a natureza do tempo.

Gucky vira o amigo desconhecido uma única vez. Mas quem seria capaz de diferenciar um daqueles seres de outro? Talvez se tratasse dele, talvez não... No entanto, o laboratório lhe pareceu familiar. Mas não poderia haver centenas do mesmo tipo? Tomando coragem, acercou-se do druuf pelas costas. Como se faria entender? Ele próprio captava e compreendia os pensamentos do “monstro”, porém estes não eram telepatas. A conversa — se é que ia haver conversa — acabaria sendo unilateral. De que jeito podia fazer-se ouvir por um druuf desprovido de orelhas? Gucky pigarreou e disse: — Olá, encouraçado! A gente não se conhece? O druuf não reagiu. Continuou a manipular seus instrumentos, e a examinar atentamente as escalas. Pouco depois, porém, virando um pouco a cabeça, deu com o visitante. Com inesperada agilidade, surpreendente naquele corpanzil, virou-se para o rato-castor de olhos arregalados. — Por todos os Sessenta e Seis! — disse clara e nitidamente um impulso mental a Gucky. — Mas o que vem a ser isso? Gucky respondeu, concentrando-se ao máximo: — Somos aqueles a quem deu aviso! Entende-me? A resposta provou conclusivamente que não havia a menor identidade com o ajudante desconhecido — este, pelo menos, era bom telepata. — ...nunca vi coisa igual! Será que tem relação com minhas experiências, ou trata-se de um acaso? Gucky certificou-se de que aquele druuf não era telepata. Bamboleou para trás alguns passos, e preparou-se para sumir num salto teleportado. — Desça daí, Harno! Nós nos enganamos! — Impossível! Detectei os impulsos mentais de nosso amigo lá da superfície. Só pode se tratar deste aqui! Gucky ficou desorientado. Aproveitou o intervalo para enviar notícias a Marshall na Drusus. Não recebendo resposta, ficou perplexo. Mas Marshall devia ter escutado! Por que se mantinha tão passivo? — Venha, Harno! — Espere um pouco! O druuf pensava sem parar, mas não fazia sentido para Gucky. Não havia a menor relação com o que pensara o desconhecido ajudante. Apesar de possuírem corpos semelhantes, os dois não eram idênticos. Mas depois a face do “monstro” começou a repuxar-se, como se sentisse dor. Os “delicados” dedos se contraíram nervosamente, fechando e abrindo de novo. Voltou-se lentamente. Erguendo com dificuldade os possantes braços, apertou uma chave para baixo. Tudo se passava em ritmo de câmara lenta, como se o druuf agisse em sonhos, ou fosse forçado a agir contra sua vontade. Resistia, mas acabou sendo dominado pela ordem de seu inconsciente. O sussurro das máquinas cessou abruptamente. 60


Ao mesmo tempo, Gucky captou as palavras de alívio de Marshall: — Aí está você, Gucky! Que foi que aconteceu? Não conseguíamos detectar nem ouvi-lo! — Não perturbe agora! — replicou o rato-castor, apressadamente. — Tudo em ordem! Os impulsos de Marshall cessaram imediatamente. Tinha compreendido. Mas também Gucky compreendera. O desligamento das máquinas restabelecera o contato com a Drusus, permitindo a passagem das mensagens telepáticas. Mas como estas não haviam sofrido interrupção entre Harno e ele próprio, podia-se deduzir que o recinto subterrâneo era isolado do mundo exterior por uma espécie de campo energético. Nenhum impulso telepático passava através dele. Mas ainda não era tudo. Um nítido impulso mental penetrou no cérebro de Gucky e não procedia de Harno, que permanecia ainda imóvel sob o teto. — Vocês me acharam! Empreitada arrojada! Não sei como conseguiram, mas vocês correm sério perigo! Não posso ajudá-los no presente momento! Este druuf aqui não tardará a me “enxotar” de novo... Gucky fitou o druuf, que parecia estar petrificado no meio do movimento. Estava rígido, com uma das mãos ainda pousada sobre a chave que acabara de mover. — Você não é o druuf? Quem é então? Sem que o monstro executasse o menor movimento, partiu dele o pensamento: — Sou e não sou! Estou no corpo dele, e ele ignora. No entanto, a mente dele continua sendo mais forte quando tento agir contra sua vontade. — Quem é você? — repetiu Gucky, insistindo na pergunta não respondida anteriormente. — Por que quer ajudar-nos? Desta vez, o druuf levou alguns segundos para responder: — Não sei quem sou. Só sei que vivo neste corpo. Sem ele, eu seria um espírito simplesmente, uma sombra, um fantasma. Tem sido assim desde tempos imemoriais! — E... antes disso? — Não sei se houve um antes — dizia a resposta. — Sempre vivi em corpos estranhos. Inteligências sempre diversas, quando eu tinha sorte. Às vezes meu espírito residia no cérebro de seres menos inteligentes, que eu aprendia a dominar logo. Porém não era interessante. — Mas você tem que saber por que nos oferece apoio contra os druufs! — Não, não sei! Mas conheço Perry Rhodan! Era o primeiro indício direto! — De onde, e há quanto tempo o conhece? Nova hesitação. A resposta veio muito lentamente: — Não sei... ah, se eu soubesse! Gucky sentiu os impulsos enfraquecerem, sobrepujados por outros mais fortes, que só podiam partir do druuf

autêntico. — Não poderia apossar-se de outro corpo? A resposta ficou sem relação com a pergunta. — Vocês precisam desaparecer! Não consigo dominar o druuf por mais tempo. Aguardem novo comunicado. Ponham-se a salvo! Este druuf aqui é o físico-chefe deles, posição que conquistou graças a meus conhecimentos. Se eu o abandonar, ele fica tão ignorante como no dia de seu nascimento; ou então morre. Passem bem... Imediatamente o druuf recomeçou a se mover. O tempo não devia ter passado para ele, pois retomou o fio dos pensamentos no ponto antes interrompido pelo amigo desconhecido. — ...é, só pode ser acaso! Mesmo que eu crie artificialmente planos de tempo, e os sobreponha depois, nenhum ser poderia materializar-se aqui, vindo do passado ou do futuro. Vou agarrá-lo... Harno desceu apressadamente do teto, e aconchegou-se entre os “dedinhos” de Gucky, que se aprontou para a fuga. Antes que o druuf chegasse perto, o rato-castor desmaterializou-se com Harno. Para trás ficou apenas um druuf desconcertado, de olhos presos num recanto do teto onde nada mais havia para ver.

5 — A maior parte de seus nomes e ocupações é impronunciável — continuou a expor John Marshall. Passara a noite toda sondando as mentes dos druufs que circulavam pela cidade. Sem saber quem eram, nem onde se encontravam, colhia seus impulsos mentais, que enfeixava como as peças de um quebra-cabeça. Obteve assim uma série de informações bastante úteis, que permitiam traçar um panorama geral. — Temos uma tabela comparativa com nomes genéricos para isso; já me apareceu um “Tommy”. “Oscar” significa oficial ou cientista; e o druuf comum é classificado como “Mike”. Com estes três grupos esgota-se a estrutura social da civilização deles. Rhodan escutava atentamente. A luz do dia banhava novamente o espaçoporto e a cidade. A noite decorrera tranqüila e sem acidentes. De volta, Gucky e Harno relataram suas experiências. Não esclareceram o mistério que envolvia o desconhecido, mas levaram Rhodan a profundas cogitações quando se retirou mais tarde para sua cabina. A barreira mental erigida em torno de seu cérebro não pôde ser atravessada nem pelo bisbilhoteiro Gucky. — Os druufs conquistaram todos os mundos deste Universo, e são senhores absolutos em sua dimensão temporal. Portanto, não é de admirar que seus Tommys tenham decidido subjugar também nossa Galáxia. Suas 61


armas são de natureza essencialmente destrutiva, mas até onde pude constatar, os arcônidas e nós possuímos armamento melhor, se bem que em quantidade insuficiente. Rhodan acenou. — Tem certeza disso, Marshall? — Sim! Sondei um alto oficial, preocupado com a ofensiva iminente contra Árcon. Pertence ao Conselho dos Sessenta e Seis, portanto deve estar bem informado. Tencionam aliar-se a nós, caso possamos comprovar a posse de uma frota poderosa. Em caso contrário, seremos aprisionados para que possam apoderar-se de nossas três naves. “Enquanto refletia sobre a luta por vir, o oficial passava em revista, mentalmente, as armas disponíveis. Eles não possuem nem a bomba gravitacional, nem a bomba arcônida. Seus canhões energéticos são mais fracos do que os nossos. Se os atacássemos com toda a nossa frota reunida, talvez fosse possível...” Marshall estacou de repente, fitando Rhodan. — E então...? — Talvez eu tenha me mostrado excessivamente confiante, Sir, pois por outro lado há aspectos que recomendam cautela. Os druufs têm armas que desconhecemos. O oficial pensou nelas apenas superficialmente, e não deu para saber maiores detalhes. Seja como for, eles são capazes de transferir um planeta inteiro para uma dimensão temporal onde o tempo fica parado. Qualquer tentativa de reação por parte dos habitantes deste planeta seria inócua. Passar-se-iam milhares de anos antes que conseguissem disparar um canhão. Rhodan escutava atentamente. — Mas isso seria espantoso, Marshall! Mal posso crer que disponham de tais recursos. Fazer uso do tempo... — Não pude determinar claramente se a arma era experimental, ou se já existe efetivamente. De qualquer forma, a hipótese é alucinante. — Nosso amigo, o ajudante desconhecido, hospeda-se na pele de um pesquisador do tempo — lembrou Gucky, que repousava sobre um leito na central, ainda meio zonzo. Rhodan olhou para cima. — Existe alguma relação, Harno? — O amigo e Oscar-1 são uma mesma pessoa. — Ideia maluca — comentou Bell, que dormira um bom sono depois do regresso de Gucky, e parecia bem disposto. — Primeiro o cara nos ajuda, e depois inventa uma arma que pode acabar conosco a qualquer momento. Isso cheira a esquizofrenia no mais alto grau! — Será? — indagou Rhodan, ceticamente. — Harno, que faz nosso amigo no momento? Porém a resposta, dada por Gucky, foi decepcionante: — Provavelmente tornou a ligar seu campo de tempo artificial, a fim de prosseguir em suas experiências, pois pensamento algum chega até aqui. Harno também não consegue trazer a imagem dele. Rhodan aprontou-se para dizer qualquer coisa, mas

Sikermann, de volta a seu posto, avisou: — O druuf está voltando, Sir! A tela mostrava nitidamente a cena: o mesmo druuf do dia anterior vinha na direção das naves, a passos lentos e ritmados. Mas também podia tratar-se de outro, pois era impossível diferenciar aqueles “monstros”. Só a máquina tradutora lhes daria a certeza. Mais uma vez Bell foi destacado para receber o emissário, e conduzi-lo à central. O tradutor estava ligado. A conferência podia ter início imediato. — Alegramo-nos com sua volta, Tommy-1 — começou Rhodan, abrindo a palestra cujo conteúdo todos já adivinhavam. — Que resolveu o Conselho dos Sessenta e Seis? O druuf acomodou-se no amplo sofá. Seus quatro olhos examinavam, atentos, os presentes, e depois correram perscrutadoramente a multiplicidade de controles da central. Olhou por muito tempo para a tela panorâmica, onde se viam os arredores do espaçoporto. Depois falou: — Resolvemos aceitar sua oferta. Unidos, infligiremos uma derrota arrasadora ao inimigo. Quando a guerra acabar, faremos novo acordo, apropriado às circunstâncias. Até lá, faremos troca de experiências. Se estiverem dispostos a aceitar, o comandante de vocês pode ir comigo até o Conselho dos Sessenta e Seis, a fim de assinar o tratado. — Não basta enviar um representante? — perguntou Rhodan. — Não, só o próprio comandante pode cuidar das negociações. Portanto, é o senhor que deve ir! Aquilo podia ser um truque, uma cilada! Uma vez de posse da figura principal, eles poderiam estabelecer as condições que bem entendessem. E contavam certamente com meios para transformar qualquer acordo em ligação indissolúvel para o parceiro. A natureza destes meios permanecia secreta, por enquanto. Harno transmitiu o mudo aviso: — Você vai ser aprisionado, Rhodan! E eles nomearão novo comandante, submisso às ordens deles. Chantagem... Rhodan ergueu-se. — Muito bem — disse ao druuf. — Não percamos mais tempo; vou comparecer logo diante do Conselho. Estou pronto a cumprir as condições apresentadas. Necessitamos de um aliado poderoso, caso contrário nós não conseguiremos derrotar o inimigo. O druuf levantou-se com cuidado. — Vamos, então. — Vai mesmo com ele? — perguntou Harno, mudamente. Rhodan desligou a máquina tradutora, e colocou debaixo do braço o pequeno aparelho de metal prateado. — Claro que vou com ele, Harno. Gucky, não me perca de vista um só segundo! E vá buscar-me assim que eu der ordem. Entendeu? — Vou pular nas panças desses monstrengos de couro até que sua última refeição... — Marshall permanecerá em vigília com você — 62


interrompeu Rhodan, seguindo o druuf que já ia saindo. — Bell! Substitua-me no comando das três naves enquanto eu estiver ausente. Todos os olhares o seguiram quando desapareceu na curva do corredor em companhia do druuf. *** Não que Rhodan esperasse algum proveito da entrevista com o Conselho, mas concordara em acompanhar o druuf unicamente com a intenção de tentar novo contato com seu estranho amigo. Além disso, estava curioso por ver a reação dos governantes druufs diante de suas propostas. Quando deixaram o espaçoporto e desceram os largos degraus para a rua de contorno, Rhodan ressentiu-se com a gravidade quase dobrada do planeta. Suportara-a melhor nos minutos iniciais. Uma onda de aborrecimento o invadiu por ter esquecido de vestir seu traje especial, que permitiria neutralizar a diferença. Numa via próxima do espaçoporto, um veículo os aguardava. Tinha forma de torpedo, e uma única porta. O druuf apertou um botão oculto, e ela abriu, revelando um amplo assento, suficiente para acomodar lado a lado pelo menos três druufs. Sentiu-se infinitamente pequeno e desamparado ao escorregar para o banco, que mal e mal cedeu ao peso de seu corpo. O estofamento estava habituado a suportar cargas bem maiores. O druuf embarcou e fechou a porta. Nova pressão num botão do painel; e o veículo se colocou em movimento. Era teleguiado, controlado certamente por alguma central técnica no coração da cidade. Tudo correspondia à descrição feita por Gucky. As ruas vazias, sem movimento. Muito raramente Rhodan avistava algum druuf, avançando a passos lerdos e pesados ao lado das paredes a pique, buscando algum rumo ignorado. O carro disparou em velocidade relativamente elevada pelas ruas desertas; depois subiu por um plano inclinado. Do alto, Rhodan contemplou o imenso complexo formado pelo espaçoporto. Centenas de naves estacionavam na orla, prontas para decolar. Pequenos tratores transportavam armas, munições e equipamento. Em algum ponto, à luz crepuscular do sol gêmeo, marchava uma coluna de druufs. Os movimentos lerdos e arrastados causavam impressão irreal e fantástica, como que projetados em câmara lenta. A cidade se distanciava cada vez mais, e o carro alcançou a via superior. Ali o trânsito era mais intenso, mas não chegava a atrapalhar. O telecontrole automático funcionava com perfeição. O veículo disparou velozmente em direção de um prédio em formato de cúpula, situado aproximadamente no centro da cidade. Um desvio da rua principal conduzia direto para lá. Sem que se visse druuf algum, um largo portão se abriu, e o carro entrou. Imediatamente o portão voltou à posição inicial.

A luz do dia não penetrava ali dentro. Porém, a cúpula inteira emitia radiante luminosidade. — Alô, Gucky, Marshall! Que tal o contato? — emitiu Rhodan. Caso tivesse ido parar, como Gucky anteriormente, dentro de um campo defensivo, a situação se tornaria crítica. Como é que Gucky o encontraria neste caso? Porém a resposta foi imediata: — Contato ótimo! Aguardamos a ordem! — Desnecessária por enquanto! — replicou Rhodan, voltando novamente a atenção para o que se passava a sua volta. O carro deteve-se no meio da arena circular, com cerca de cem metros de diâmetro. Um muro de três metros de altura cercava-a. Rhodan sentiu-se tal e qual um antigo gladiador romano, lutando pela vida no circo. As descomunais arquibancadas reforçavam essa impressão. Erguiam-se até o teto, a cinquenta metros do chão. Com um gesto, o druuf mandou-o sair do veículo. Rhodan ligou a máquina tradutora e indagou: — Que significa isso? Julguei que seria apresentado ao Conselho, a fim de discutir o acordo. — Espere aqui até que o Conselho compareça. Encontra-se no grande salão do Conselho. “Outras terras, outras maneiras...”, pensou Rhodan, resignado, desembarcando. O druuf voltou a ocupar seu lugar, e o carro se afastou. Rhodan viu-se só e abandonado no meio da arena, como um lutador já vencido. — Já posso ir? — perguntou Gucky, que acompanhava tudo mentalmente. — Podíamos organizar um belo espetáculo circense, obrigando esses caras a executar alguns saltos mortais! — Não há ninguém por aqui para executar saltosmortais — respondeu Rhodan. — Fique onde está e aguarde meu chamado! A luz forte incomodava Rhodan. Ofuscado e irritado, olhou para cima, constatando que uma porta se abria junto ao teto, perto da última fila de arquibancadas. Deixou passar, um após outro, uma fila de compenetrados e vagarosos druufs, que se postaram em torno da arena. Evidentemente o povo era às vezes admitido às reuniões, mas hoje a sessão seria exclusivamente para o Conselho interno dos Sessenta e Seis. Os dirigentes druufinianos tomaram lugar na fila mais elevada. Ficavam pelo menos a setenta metros de Rhodan; semicego com a intensidade das luzes, este os via como que envoltos em sombras protetoras. Os olhos dos chefes druufs pousaram contemplativamente sobre o minúsculo terrano que ousava vir apresentar-lhes sugestões. Forçado a ficar de pé no meio daquela arena, e tendo que olhar para cima, Rhodan sentiuse completamente desamparado. Diante do sistema de comunicação sem fio dos druufs, a distância era irrelevante. Além disso, os “Tommys” possuíam equipamento próprio de tradução, que foi ligado com o de Rhodan. Desta forma, a conversação não se 63


tornava difícil. — Você é o terrano que comanda as três naves estranhas? — foi à primeira pergunta emitida pelo altofalante dos tradutores. — Veio pedir-nos ajuda contra seu inimigo? Intimamente, Rhodan achou graça naquela maneira atrevida de formular a questão, e bem que gostaria de pôr as coisas nos devidos lugares. Porém precisava controlar-se. Por enquanto, de certo modo, os druufs ainda eram mais poderosos do que os terranos. E mais poderosos do que as frotas de Árcon, talvez... — Unidos poderíamos derrotá-lo — respondeu. — De que armas você dispõe? A pergunta devia ter vindo de outro druuf, apesar de ser difícil perceber entonação diferente através da voz mecânica do tradutor. — Eu poderia fazer-vos a mesma pergunta. Por alguns segundos reinou silêncio. Em vão Rhodan tentou nova comunicação com o amigo desconhecido durante o intervalo. Não obteve resposta. — Você está em nosso poder, terrano! Mais primitivo era impossível... No íntimo, Rhodan esperara maneira de agir bem mais inteligente. Por que os druufs deixavam cair a máscara tão depressa? Faltar-lhes-ia tempo? Rhodan percebeu repentinamente que não poderia haver outra explicação para aquela maneira pouco diplomática de levar as conversações. Para os druufs, o tempo urgia. Cada segundo contava. Algo devia ter acontecido! Mas o quê? — Enganam-se, druufs! Não estou no poder de vocês! Indagaram acerca de nossas armas. Pois bem, vou exibir uma delas imediatamente. Sabem tornar a matéria invisível? — Não podemos nos desviar do assunto agora! — gritou um dos druufs. — Vamos aprisioná-lo e assim forçar seus homens a nos entregar as naves. Depois travaremos conhecimento com suas armas. Talvez se ache entre elas a “porta” para outra dimensão temporal. Bruscamente Rhodan percebeu o que eles queriam: o gerador de campo de refração. Deviam suspeitar que os terranos o possuíssem. Mas teriam realmente certeza? Bem que gostariam de apossar-se do segredo da janela de tempo! — Perry Rhodan! É tarde demais! O impulso mental dominou claramente a mente de Rhodan, excluindo totalmente o som das palavras ditas pela máquina tradutora. E pouco importava naquele instante o que os druufs tinham a dizer. O contato com o ajudante desconhecido fora restabelecido. — Preciso falar com você! — emitiu Rhodan, intensamente. — Ponha-se a salvo junto com suas naves, caso ainda possa! As naves-robôs de Árcon atacam! Irromperam em quantidades inimagináveis através da grande brecha, e

avançam para Druufon. Dentro de uma hora será desencadeada a mais gigantesca batalha espacial, e as naves dos druufs já estão levantando vôo... O impulso enfraqueceu aos poucos. — Posso levar você comigo, Oscar-1? Novos impulsos, vacilantes e débeis: — Chame-me de Onot, Perry! Esse é meu nome espiritual! Procure-me quando regressar! Depois a comunicação cessou definitivamente. O verdadeiro druuf devia ter reconquistado o domínio de sua mente. Rhodan sabia que seria inútil esperar novas mensagens. As derradeiras e inúteis palavras dos druufs ecoaram em seus ouvidos. Nem sabia o que tinham dito, porém constatou o efeito da fala. Em torno dele abriram-se portas até então ocultas nas paredes da arena. Pelo menos vinte musculosos druufs avançaram em sua direção, levando nas mãos instrumentos de aparência ameaçadora. Pareciam armas e algemas de aço. “Então é assim que esses „monstros‟ tratam seus aliados?”, pensou Perry. Agarrou nervosamente a máquina tradutora. — Gucky! O primeiro “monstro” estava apenas a dez passos quando Gucky materializou-se. O reluzente dente roedor denotava-lhe a evidente intenção: dar uma lição de mestre aos druufs. Porém Rhodan estragou a brincadeira. Não podiam desperdiçar um único segundo! — Fora daqui, Gucky! Imediatamente! Os sessenta e seis governantes da assustadora raça e os vinte carrascos postados na arena haviam visto o inexplicável aparecimento do pequenino ser. Mas antes que pudessem compreender o fato, viram o prisioneiro desaparecer diante de seus olhos. Os possantes holofotes iluminavam um ponto vazio na arena.

6 As forças invasoras de Árcon deviam ter surpreendido os druufs, pondo-os em pânico. Nem se preocuparam mais com as três naves de Rhodan. Precipitando-se para seus cruzadores cilíndricos, lançavam-se para o colorido céu de Druufon. Rhodan fez soar o alarme, e deu ordens para decolar. Refletindo melhor, enviou a Califórnia, sob o comando do Capitão Marcel Rous, para a provável zona de batalha. O cruzador ligeiro dispunha de incrível capacidade de aceleração quando se tratava de operar abaixo da velocidade da luz. Serviria de estação de relê, assegurando comunicação visual permanente com a Drusus. 64


Dez segundos depois, a Califórnia desaparecia no céu, e nova tela entrou em funcionamento na central da Drusus. Rhodan suspirou, aliviado. — Também poderia ter requisitado os serviços de Harno, porém isso o distrairia. Quero que ele tente mais uma vez comunicar-se com Onot. É assim que se chama o físico-chefe dos druufs. Curioso, o nome dele é pronunciável. Fato insignificante na aparência, mas que poderia assumir eventualmente grande importância. Gucky acomodou-se no sofá e fechou os olhos. Sua tarefa era “fazer ligação” com os druufs do Conselho. — Eles planejam rechaçar a frota de Árcon e aniquilála, pois jamais terão oportunidade igual. O cérebro-robô deve ter enlouquecido, para arriscar metade de sua frota. Isto feito será nossa vez! Rhodan comentou, sombriamente: — Admiro-me por nos deixarem à vontade. Afinal, devem supor que imitemos a Califórnia. — Não entendi bem, mas parece que pretendem segurar-nos. Onot já se encontra em ação. Um campo de tempo, ou coisa parecida... — falou Gucky. Rhodan encarou Sikermann. — Decole, coronel! A Kublai Khan também! E rápido! Gucky abriu languidamente os olhos, dizendo: — Logo vi que isso o interessaria! Aquele seu esquizofrênico amigo fantasma tem muitas caras! Primeiro nos ajuda, depois quer nos pregar no lugar. Até parece que se trata de uma mulher... Ninguém deu atenção à sábia observação do rato-castor, nem mesmo Rhodan. Enquanto Sikermann distribuía instruções, Atlan fitava a tela panorâmica, com a fisionomia contraída. Parecia esperar que lá fora tudo passasse a se mover em ritmo milhões de vezes mais acelerado, o que significaria que o campo de tempo de Onot entrara em funcionamento. Cada segundo dos druufs valeria então anos para eles. O tempo de inspirar uma vez, e o Universo teria envelhecido milhares de anos. E neste intervalo os druufs poderiam fazer deles o que bem entendessem. Tranquilamente, sem medo de serem perturbados... Porém Rhodan se antecipara, pois compreendera tudo depressa demais! As duas naves se elevaram, ganhando altura rapidamente. Abaixo deles, na orla do espaçoporto, as frotas defensivas dos druufs continuavam a decolar. Rhodan percorreu com o olhar a cidade. Sabia que não seria a última vez que a via. Depois se voltou para a tela que mostrava as imagens da Califórnia. O cruzador ligeiro se mantinha nos limites do setor no qual a batalha seria provavelmente travada. Uma nuvem de cintilantes pontos prateados irrompia pela brecha, emergindo gradualmente da transição. Rhodan logo desistiu da tentativa de contá-los. O cérebro-robô atacava com milhares de naves.

As unidades de Druufon avançavam contra elas. O planeta se reduzira a uma bola do tamanho de um punho quando a vanguarda da ofensiva arcônida cobriu de bombas atômicas o mundo principal dos druufs. Refulgentes raios energéticos traçavam riscos de fogo através das ruas da cidade, fundindo a superfície até expor as cavernas subterrâneas. Porém as reservas ainda disponíveis dos druufs revidaram. Travou-se um feroz combate, cujo desenlace Rhodan não chegou a ver, pois a distância era grande demais agora. Mas não havia dúvida de que os druufs repeliam as navesrobôs de Árcon. Atlan tornou a recomendar: — Vejo-me na obrigação de alertá-lo mais uma vez, Rhodan! Caso Árcon sofra sério revés nas mãos dos druufs, a Terra correrá grave perigo. Não podemos presenciar impassivelmente a inundação de nosso Universo por estes “monstros”. Rhodan sorriu. — Você deixa-se influir pelo passado, se não me engano. Não consegue esquecer que os druufs deram um trabalhão aos arcônidas há dez mil anos passados. Não, não me julgue mal. Não lhe estou lançando acusações de tolo ou vingativo. Mas certamente os druufs lhe trazem amargas recordações. Entraremos em contato com o cérebro-robô a tempo de pôr um fim ao avanço dos druufs. Por outro lado, um pequeno revés não fará mal algum ao regente. E é exatamente o que ele vai sofrer agora, meu amigo. Atlan desistiu de dar resposta. Apesar de seu coração pertencer aos terranos, também continuava a bater por Árcon. Por uma vez a Drusus e a Kublai Khan viram-se entre o fogo de dois grupos combatentes. Apenas os superreforçados anteparos energéticos impediram que ambas se transformassem em fogo e fumaça. Esquivaram-se assim que lhes foi possível, deixando para trás os ferrenhos litigantes. — Que curso eu devo tomar Sir? — perguntou Sikermann, quando estavam a muitos minutos-luz de Druufon. — Mirta? — Ora, que idéia! — protestou Rhodan. — Ainda temos algumas coisinhas a resolver por aqui antes de ir embora. Rume para Hades. — Siamed-13? — certificou-se Sikermann, sem revelar sua surpresa. — Não chamaríamos a atenção, aterrissando lá? — Quem foi que falou em aterrissar? Quero apenas vistoriar a nova base, levando alguns homens. Quanto ao senhor, regresse para Fera Cinzenta com o Coronel Everson, e aguarde o desenrolar dos acontecimentos. Atlan levantou os olhos. — Vamos para Hades por meio do transmissor? Rhodan confirmou. Fitava atentamente a tela na qual surgiam as imagens retransmitidas pelo Capitão Rous. As duas frotas de guerra tinham se encontrado, travando 65


uma luta encarniçada. O desfecho era previsível, pois das profundezas do sistema gêmeo emergiam sempre novas esquadrilhas de reforço. As naves do regente-robô foram rapidamente cercadas e bombardeadas com uma tempestade de raios energéticos. — Pavoroso! — comentou Bell, até então calado. — De fato, é pavoroso, mas não havia maneira de evitar este conflito. Tinha que acontecer algum dia. E sempre é melhor ver os druufs destruir naves robotizadas não tripuladas do que as nossas. Além disso, eles sairão enfraquecidos desta luta, o que virá a representar inapreciável vantagem para nós. A Drusus acelerou, seguida pela Kublai Khan. Desviaram-se das esquadrilhas dos druufs atacantes, até não haver mais possibilidade de fuga. As esbeltas naves dos “monstros” se aproximavam de todos os lados. Que diferença entre o produto e seus criadores! Rhodan ia mandar abrir fogo, quando David Stern comunicou da central radiofônica: — Sir, uma mensagem dos druufs! — Pode dizer! O Tenente Stern leu: Ao comandante dos terranos! Vocês não respeitaram o acordo! Retornem imediatamente ao nosso planeta, ou serão destruídos! Tommy-1. Rhodan sorria friamente ao dizer: — Stern, ligue-me com os druufs. Tenho algo a lhes dizer. A ligação não tardou a ser feita. Rhodan falou ao microfone: — A Tommy-1! Aqui fala Rhodan, comandante dos terranos. Se alguém desrespeitou o acordo, foram vocês! Permitam-nos retirada livre, ou vamos aliar-nos ao adversário de vocês. Sabemos um bocado de coisas sobre vocês... inclusive o projeto desenvolvido por Onot! Campos de tempo não representam mais segredo para nós. Esperaram em vão por resposta. Porém as unidades dos druufs, desimpedindo o caminho e espalhando-se em todas as direções, sumiram em questão de segundos. — Nossa! — exclamou Bell, impressionado. — Que susto lhes pregou! — Sim, mas o que foi que os assustou? — indagou Rhodan, pensativo. *** A estação transmissora de matéria em Hades declarouse em prontidão. Rhodan fez sinal para Atlan, Bell, Marshall, Lloyd e Marten.

— Está na hora. Sengu permanecerá na Drusus. Gucky e Harno seguirão por conta própria; eles dispensam o transmissor fictício. Sikermann siga seu curso assim que o transmissor for desligado e tivermos alcançado Hades sãos e salvos. — Entendido, Sir! — replicou Sikermann. Apesar de adivinhar que Rhodan não planejava só uma simples vistoria à base, absteve-se de perguntas. Os seis homens entraram pouco depois na cabina energética do transmissor. Estes aparelhos tinham sido aperfeiçoados através de dezenas de anos de trabalho desde as seis décadas decorridas de seu descobrimento no sistema Vega; sobretudo a capacidade fora grandemente ampliada. Atualmente um transmissor levava cargas que originalmente exigiriam dez destes aparelhos. A despeito dos elevados índices de segurança, pisar na cabina energética ainda causava certo mal-estar. Afinal, o trajeto até a estação receptora seria feito, por assim dizer, sem fio. Toda matéria era transformada em hiperimpulsos imateriais, e desta forma transportada através da quinta dimensão. Não é do agrado de qualquer um deixar-se decompor em impulsos. Quando a grade foi fechada, e a lâmpada verde brilhou, Bell disse: — Chego a sentir náuseas quando penso no que está sendo feito conosco neste momento. Sorrindo displicentemente, Rhodan explicou de modo irônico: — Qual, não há razão para preocupar-se! Não acontece coisa alguma! Basta apertar este botão... assim... — acompanhou a palavra com o gesto, e recolheu lentamente a mão — ...e tudo já passou. Este botão já não é o mesmo que apertei. Um segundo atrás, ele ficava a meia hora-luz daqui. A lâmpada verde brilhava ainda, mas sabiam que se tratava agora da luz da estação receptora. Sem que o percebessem, tinham sido transferidos a uma distância de aproximadamente meio bilhão de quilômetros. E em tempo zero. *** A Drusus e a Kublai Khan já se encontravam em voo de regresso para Fera Cinzenta. A cabina energética da Drusus estava vazia. *** Rhodan colocou a mão sobre determinado ponto da grade, e a porta abriu sozinha. O Tenente Stepan Potkin veio ao encontro de Rhodan, marcialmente perfilado. — Bem-vindo a Hades, Sir! Apesar de estar aqui há pouco tempo, posso garantir-lhe que se trata de um mundo verdadeiramente “infernal”. Espero que não pretenda passar suas férias nele. A fisionomia de Rhodan permaneceu séria. — Não é hora de pensar em férias, tenente. O sistema dos druufs está sendo cenário de uma tremenda batalha 66


espacial. Árcon resolveu atacar os druufs em sua terra natal. — Desculpe Sir, eu não sabia...! — disse Potkin, consternado. — Pois é por isso que estou lhe dizendo — replicou Rhodan. — Tem contato com a Califórnia? — Acaba de pedir permissão para aterrissar. Dei ordens de preparar a comporta de ar subterrânea. — Muito bem, tenente — olhou em torno, com ar interrogativo. — Aliás, Gucky já chegou? Potkin não conseguiu disfarçar o riso. — Sim, chegou, Sir! Mas parece ter errado surpreendentemente os cálculos para o salto; não desceu na central de comando da base, conforme era de esperar, e sim no depósito de gêneros, bem no meio das verduras frescas congeladas. — Comilão! — a expressão escapou involuntariamente da boca de Bell, que logo olhou em torno, receoso. Gucky detestava ser chamado de comilão. A vingança se manifestava, em geral, sob a forma de um involuntário giro aéreo, sustentado pela força telecinética do rato-castor. Porém Gucky manifestou disposição pacífica. Limitouse a materializar-se por trás de Bell, e espetar-lhe um dedo nas costas. — Melhor calar o bico, invejoso. Para mostrar que não sou mesquinho, tome uma pra você! E enfiou uma cenoura semirroída na mão do atônito Bell. Harno aproximou-se flutuando, e aumentou rapidamente de volume. Sua superfície passava a ser mais uma vez uma tela branca e leitosa. — Chegou nova esquadrilha do regente-robô para entrar na luta. Rhodan contentou-se com um breve olhar à cena mostrada por Harno, e comentou calmamente: — O regente ainda constatará bastante cedo que subestimou o adversário. Quase incorremos no mesmo erro. Pois bem, que perca também estas naves. Creio que depois estará disposto a negociar. Mordiscando obedientemente sua cenoura, Bell disse, mastigando: — E não sem tempo! Os druufs começam a dar-me arrepios! Rhodan voltou-se para ele, dizendo: — Você, Gucky e Harno irão comigo. Faremos uma segunda incursão a Druufon, a bordo da Califórnia. Quero tentar resgatar Onot. Bell abriu a boca e fechou-a sem comentário algum. Gucky, pelo contrário, piou: — Oba, formidável! E mais não tinha a dizer sobre o assunto. *** A Califórnia pousou menos de uma hora depois. Neste tempo, Rhodan procedera a uma rápida vistoria da caverna agora ampliada, escavada por raios energéticos

na rocha da Cordilheira da Esperança. Ali debaixo da superfície, o ambiente hostil do planeta era menos evidente. Havia instalações para fornecer luz e calor. Sensores postados na superfície transmitiam à central da base um quadro exato do que ocorria lá em cima. Mas por enquanto nada estava acontecendo. Rhodan reduziu a tripulação do cruzador ligeiro ao mínimo indispensável, a fim de arriscar o menor número de vidas possível. Sabia que aquela segunda viagem a Druufon equivaleria a um voo para o inferno. Bell dava evidente demonstração de não se sentir nada à vontade. Gucky, ao contrário, assobiava estridentemente, e fora de tom, algumas melodias aprendidas ao acaso em Terrânia. Insistiu tanto que Bell perdeu a paciência e lhe passou uma descompostura. Para espanto de Rhodan, o rato-castor dispensou a habitual reação vingativa. Finalmente o momento chegou. O Capitão Marcel Rous comunicou que a Califórnia estava pronta para decolar. Dez minutos após, a esfera espacial emergia de uma abertura camuflada no chão, lançando-se em alucinante aceleração na direção do céu crepuscular de Hades. Harno desempenhava papel de tela universal, alertandoos ainda, com a devida antecedência, contra as naves das facções em luta. A incrível taxa de aceleração da Califórnia permitia-lhes escapar sempre de novo aos agressores, esquivando-se de escaramuças. Druufon se aproximava rapidamente. E com isso crescia também o perigo de serem descobertos. — Consegue localizar Onot? — indagou Rhodan. Gucky lamentou sua incapacidade. Encolheu-se no assento, de olhos fechados. Até então tentara em vão fazer contato com o amigo desconhecido. Nem sequer o verdadeiro físico-chefe conseguira encontrar. Provavelmente estaria de novo entregue a suas experiências, e devia ter ligado o bloqueador de impulsos telepáticos. Ainda bem que Gucky sabia que este aparelho não impedia saltos telecinéticos. Rhodan foi intransigente: — Só quando estivermos suficientemente perto você poderá saltar. Gucky abriu os olhos, interessado, e deu com a expressão interrogativa de Rhodan. Bell contemplava-o de lado, meio receoso. Percebia-se que por nada no mundo queria estar na pele de Gucky. — Vou tentar — replicou o rato-castor, em voz estranhamente baixa. Não denotava o menor sinal do costumeiro entusiasmo. Seu gosto por aventuras parecia ter sumido de repente. — Saltar é o que é de menos, pois posso pôr-me a salvo a qualquer instante. Mas caso vocês sejam forçados a fugir de repente...! Que será de mim então? Levantando-se, Rhodan foi alisar carinhosamente o pêlo de Gucky, assegurando: — De maneira nenhuma ultrapassaremos o limite de 67


segurança, enquanto você não voltar a bordo. Pode confiar em nós! Gucky escorregou do sofá. — Pois bem! Quando devo ir? Rhodan sorriu e recuou um passo. — Dentro de cinco minutos, mais ou menos, caso não consiga contato com Onot, até lá. A esperança não se concretizou. Onot continuava mudo. Como se jamais tivesse existido... Três... quatro minutos decorreram. Nem Harno conseguia ajudar. Até parecia bruxaria. Como se Onot tivesse desaparecido de repente. Por mais de uma vez Harno captou a imagem do laboratório do físico-chefe, mas do druuf não “via” o menor sinal. — O melhor mesmo é você ir até lá — decidiu Rhodan. Gucky acenou, olhou para o relógio e concentrou-se para o salto. Depois desapareceu.

7 Porém reapareceu imediatamente. Pelo menos na superfície leitosa e arredondada de Harno. O contato telepático entre o ser-bola e o rato-castor não se rompera, de modo que a detecção se fez sem dificuldade. E enquanto este contato não fosse interrompido, não havia perigo de se perder Gucky de vista. Gucky sabia que estava sendo observado. Sabia por meio de Harno, com o qual se mantinha em contato. Aterrissou direto no laboratório já conhecido. Painéis de controle e aparelhagem técnica jaziam abandonados na estação experimental subterrânea. Nem sinal de Onot. E localizá-lo no meio dos milhares de excitados impulsos mentais era querer um milagre, já que o verdadeiro Onot nem pensava em Gucky. — Não procure entender o funcionamento do congelador de tempo — veio o aviso mudo, porém eloquente, de Harno. Sem se mover do lugar, Gucky fitou com profunda atenção a refulgente caixa de metal sobre a mesa, junto ao painel de controle principal. Recoberta de botões de vidro e alavancas coloridas; as luzes das escalas estavam apagadas. Diversos condutos levavam a geradores e outros aparelhos. “Congelador de tempo?”, pensou Gucky, admirado. Harno explicou: — A invenção na qual Onot trabalha. Não consegue localizá-lo? Gucky fez que não, e deu alguns passos na direção da mesa. Congelador de tempo? Então era esta a mais poderosa arma dos druufs, aguardando a vez de ser usada? Com ela poderiam reduzir mundos inteiros à imobilidade, e até conquistar o Universo.

Bastaria desligar o tempo do adversário para fazer dele um mundo indefeso, exposto ao bel-prazer dos druufs. — Que invenção diabólica! — balbuciou o rato-castor. Mais ainda! Uma arma inimaginavelmente eficaz, contra a qual jamais haveria defesa. — Devo destruí-lo, Harno? Fez-se uma pausa, que Harno aproveitou para consultar Rhodan. Depois comunicou a Gucky: — Onot ainda não concluiu as experiências. Quem sabe se poderá prosseguir nelas quando o espírito de nosso amigo o deixar? Não é conveniente destruir a invenção, pois não se trata apenas de uma arma; é também um meio para decifrar o fenômeno tempo. Talvez necessitemos da invenção de Onot algum dia, para nossos próprios fins. Gucky respondeu que agiria de acordo. Pouco versado em tecnologia, era incapaz de entender o funcionamento do congelador de tempo. Ficando de pé, com a caixa de controle à altura da face, contemplou atentamente as inúmeras alavancas e chaves. “Será que posso fazer uma tentativa?”, pensou. Harno “escutara”. — Eu seria cauteloso, amiguinho! — Ora, deixe-me brincar um pouco, Harno! Gucky virou com a pata a alavanca mais próxima, e algumas lâmpadas se acenderam. Um leve sussurro invadiu o recinto, agora cheio de vibrações. A caixa recebia agora corrente elétrica. Só então Gucky se lembrou de verificar onde iam dar os fios e condutos ligados à caixa. Alguns deles terminavam num objeto redondo, parecido com um holofote, preso ao teto. A superfície interna do enorme bocal parecia ser feita de inúmeros pedacinhos de metal prateado. Decididamente, o rato-castor mexeu em mais algumas alavancas. Foi então atingido por forte impulso mental, que se intensificava a cada segundo. Alguém se aproximava do laboratório, da direção oposta à de Gucky. Porém entre ele e a porta achava-se a área atingida pelo holofote; perfeitamente circular, e grande bastante para iluminar quem quer que entre. Seria Onot, de volta ao seu laboratório? Fosse quem fosse Gucky estava firmemente decidido a verificar com os próprios olhos a eficácia do campo de tempo que fizera funcionar. A porta foi aberta. Um druuf penetrou no recinto. Seria Onot? O druuf não avistou de imediato o rato-castor. Fechando a porta atrás de si, estacou por um instante no limiar do pretenso círculo de tempo. Gucky procurou sondar-lhe a mente. Sua suposição foi confirmada. Era de fato Onot! Porém não pensava em Rhodan e na ajuda que poderia lhe dar; toda sua preocupação era levar a raça dos druufs a uma retumbante e decisiva vitória sobre o inimigo. Seu invento estava testado e aprovado. Bastava 68


criar os necessários ampliadores e meios de transporte para empregá-lo na prática. E por enquanto, aquele era o único aparelho existente. Se fosse avariado, levaria anos para fabricar um substituto. — Pode ouvir-me, Onot? — emitiu Gucky com toda a força. Devia haver um jeito de comunicar-se com a mente do amigo metido no corpo de Onot. Ou os impulsos cerebrais do druuf se impunham a ponto de impedir o contato? Era bem provável, pois não houve resposta. Gucky suspendeu a respiração ao ver Onot movimentarse novamente. Vinha diretamente em sua direção. Mais alguns passos, e seria descoberto. Por via das dúvidas, ficou pronto para teleportar repentinamente. Onot avistou-o precisamente no instante em que pisava no círculo indistintamente delineado do campo de congelamento. O efeito não foi imediato... funcionou um segundo após, quando o druuf chegou ao centro de projeção e recebeu em cheio a radiação. Onot teve apenas tempo de arregalar os olhos antes de imobilizar-se. Lembrava neste momento os seres outrora encontrados pelo Tenente Rous no planeta de cristal. Porém nele o ritmo de vida era apenas 72 mil vezes mais lento. O observador atento poderia verificar que as estátuas aparentemente rígidas se moviam com infinita lentidão. O caso presente era totalmente diverso. Parado no lugar, Gucky observava o druuf. Não se sentia tentado a ir parar pessoalmente sob a influência do campo de congelamento de tempo. Se bem que isso lhe permitisse uma pequena troca de cortesias com o druuf... Mas certamente passariam mil anos antes que chegassem a apertar-se as mãos. Nada se movia. As pálpebras do druuf — verdadeiros tampos de couro — estavam imóveis sobre os olhos mortiços. E o “monstro” também parecia ter deixado de respirar. Braços e pernas imobilizados em pleno movimento lembravam uma estátua inacabada. — Funciona! — emitiu Gucky, triunfalmente, como se ele próprio tivesse sido o inventor da maravilha tecnológica. — Mas se eu quisesse atacar o druuf agora, mergulharia igualmente num sono de Bela Adormecida. De que adianta, então? — Já constatamos que a criação de campos de tempo ainda se encontra no estágio experimental — observou Harno. — Desligue-o, e tente trazer Onot para cá, Gucky acenou, pois sabia que Rhodan o observava na face de Harno. — Sim... apesar de eu ter certeza de que... Exatamente neste segundo aconteceu! *** Os impulsos de Gucky emudeceram tão bruscamente no cérebro de Rhodan que ele se assustou. De modo algum, o

campo de tempo podia ser acusado pelo fato, pois a imagem de Harno provava que Gucky não saíra do lugar. Também o druuf continuava imóvel e rígido. Gucky, num gesto evidentemente mecânico e automático, inclinou-se para frente e empurrou a alavanca da caixa de controle de volta à posição inicial. Depois se voltou e encarou o druuf. Onot completou o movimento iniciado e “caminhou” em direção a Gucky. — Fuja! — aconselhou Rhodan, alarmado. — Como pôde cometer a leviandade de libertá-lo? Traga-o para cá, caso ainda seja possível! Porém novamente Gucky não deu resposta. Todos viram que o rato-castor aguardava o druuf. E repentinamente impulsos mentais estranhos atingiram o cérebro de Rhodan: — Fiquei livre quando Oscar-1 foi atingido pelo campo de tempo, permitindo-me dominá-lo. Mas seu espírito não tardará a reconquistar a superioridade. Dentro do círculo de retardamento de tempo, consegui abandonar até o corpo dele, e entrar no de Gucky. Foi sob a forma dele que desliguei o campo de tempo, pois agora sei o que pretendia! Talvez agora eu possa reencontrar meu corpo original, caso ainda exista! Gucky mexeu-se novamente, e recuou um pouco. Seus pensamentos voltaram imediatamente. E sua primeira reação, uma pergunta, provava concludentemente que o “espírito” falara a verdade. — Quem foi que desligou o campo de tempo? O próprio Onot respondeu: — Fui eu! E agora ponham-se em segurança, pois as naves robotizadas atacam nosso mundo. Precisam dar-me tempo, pois descobri algo. Graças a você, Gucky! Indicoume o caminho, apesar de eu ainda não me recordar claramente de quem sou, e porque conheço você, Perry Rhodan... — Começo a adivinhar — replicou Rhodan. — Mas seria fantástico demais! Os impulsos de Onot cessaram abruptamente. O autêntico druuf avançou mais uns passos para Gucky. Os braços informes se estenderam na direção do rato-castor. Este nem esperou segunda ordem. Teleportou-se de volta à Califórnia. *** Através uma barragem de fogo, a nave disparou à velocidade da luz, deixando para trás os espantados druufs e as esquadrilhas atacantes do regente-robô. Dentro de pouco, Druufon não passava mais de uma pequena estrela. Rhodan olhou para a tela. — Receio que não seja a última vez que vemos Druufon. Nossa tarefa está apenas começando. Instruiu o Capitão Rous: — Volte para Hades. Demoraremos lá algum tempo, e depois seguimos para Mirta VII. Gostaria de presenciar 69


daqui o desenrolar da batalha. — E Onot? Que faremos com ele? — perguntou Bell. Rhodan respondeu indeciso: — Viu-o dizer que fez uma descoberta, não foi? Talvez saiba agora, graças a Gucky, como dominar a mente do corpo em que se hospeda. Ainda não sei por que ele preferiu não vir conosco. Por consideração, talvez, pois neste caso teria que apossar-se do corpo de algum terrano. Bell observou, pensativo: — Dizem que possuo boa memória, Perry. Se isto é exato, permita-me retornar a uma observação que fez há pouco. — Ah, é? — fez Rhodan, sorrindo maliciosamente. — Ora, não me venha com evasivas — reclamou Bell. — Você deu a entender que adivinhava a verdadeira identidade do tal de Onot. Rhodan bloqueou instantaneamente os pensamentos, antes que Gucky ou Harno tivessem oportunidade de tomar conhecimento do enigma, que, afinal, talvez não fosse segredo algum. Sempre sorridente, replicou, ocultando o verdadeiro modo de pensar: — Ah, isso...! Esqueça, Bell. É uma hipótese maluca, sem relação alguma com o momento presente. Deixemos o passado em paz até que se transforme em presente. Bell sacudiu a cabeça. — Fala através de charadas, grande mestre! Quem é que pode entender? — Você, quem sabe...! — disse Rhodan, rindo. — Só que lhe falta imaginação para tirar determinadas conclusões, meu caro. E é o que não me falta! Voltou-se para a tela. O Capitão Rous desviou-se habilmente de um pequeno grupo de druufs, e realizou uma curta transição, que os levou até a proximidade de Hades. Até então, o 13o planeta do sistema tinha escapado à atenção dos druufs. Ninguém suspeitava que Rhodan construísse nele uma base que bem poderia vir a ser algum dia o ponto de partida de uma invasão em massa. A Califórnia entrou em contato radiofônico com Hades, recebendo a informação de que tudo estava preparado para o pouso.

A informação de que tudo estava preparado para o pouso. Rhodan não protestou quando Gucky teleportou-se para o planeta já próximo com Harno. O Capitão Rous veio arrancá-lo do devaneio. — Fera Cinzenta no hiper-rádio, Sir. Um comunicado. — Passe para cá. Rous estendeu a Rhodan a tira de plástico com a mensagem gravada. Rhodan leu em voz alta: Tenente Stern, Drusus, para Perry Rhodan! O cérebro-robô em Árcon emite incessantes pedidos de socorro. Segundo as ordens recebidas, não respondemos. Árcon parece encontrar-se em sérias dificuldades. Aguardamos instruções a respeito. Fim. Rhodan colocou a tira vagarosamente sobre a mesa de comando. Viu que Bell quase estourava de curiosidade. — Hum! — fez, significativamente. Bell remexia-se inquieto no sofá. — Que hum, coisa nenhuma! Que tal sair com uma resposta? Acho que é mais do que tempo. Rhodan sacudiu a cabeça. — Deixemos o regente curtir sua preocupação por mais catorze dias. Penso em ficar em Hades durante este tempo. Até lá, muita coisa se esclarecerá; em parte, pelo menos. A batalha entre Árcon e Druufon pode durar dias, ou até semanas. Nós, meu caro Bell, temos tempo, pois ele trabalha a nosso favor. Bell perguntou pensativo: — Tempo? Afinal, Perry, o que vem a ser tempo? Rhodan sorriu ironicamente. — Algum dia perguntaremos a Onot... acho que ele vai poder nos revelar. Após novo olhar às telas, acrescentou sonhadoramente: — Talvez...

Harno, conforme o ser esférico do sistema Tatlira queria ser chamado, em memória de seu primeiro amigo terrano, tornou-se íntimo de Perry Rhodan e Gucky. A renovada amizade entre Harno e os terranos já produziu os primeiros frutos... Em Nas Algemas da Eternidade, próximo volume da série Perry Rhodan, Harno desempenha importante papel!

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Nº 77

De

Clark Darlton Tradução

Maria M. Würth Teixeira Digitalização

Vitório

Nova revisão e formato

W.Q. Moraes

Extraviado no tempo por 70 anos... — reencontra o rumo da Terra.

O Robô Regente mobilizou o tremendo poder ofensivo do reino estelar arcônida! Milhares de espaçonaves de todos os tipos, tripuladas principalmente por robôs, postaram-se perto da zona de superposição, isto é, na faixa fronteiriça entre o espaço relativista e o Universo dos druufs. A batalha entre as duas superpotências galácticas pende ora para um lado, ora para outro. Às vezes, é a frota do regente que consegue penetrar no Universo estranho; depois são as naves dos druufs que avançam com êxito para o espaço relativista. Perry Rhodan, o administrador do Império Solar, desempenha “papel duplo” neste conflito de gigantes. Resta ver se este jogo duplo beneficiará ou não a Terra. Mas, desde já, um fato é certo: entre os druufs existe um ser que tomou o partido de Perry Rhodan — um ser Nas Algemas da Eternidade...

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reveladores, agora interceptados e abafados pela rede defensiva. — Sei o que o preocupa, Atlan — começou Rhodan. — Receia que os druufs se tornem poderosos demais caso não Distante 6.500 anos-luz da Terra, o planeta apresentava intervenhamos, continuando a permitir a destruição das semelhanças com Mercúrio. Principalmente quanto à naves atacantes de Árcon. Não, não fale ainda! Deixe-me gravidade, de 0,35G, e à característica de voltar sempre a terminar, Atlan. O robô regente de Árcon, nosso velho e mesma face para a estrela-mãe. O que lhe conferia persistente inimigo, sofre revés sobre revés. Emite perenemente um gélido lado noturno, e uma escaldante face incessantes pedidos de socorro, solicitando ajuda nossa. Até diurna. Só um cinturão crepuscular de 80 quilômetros de agora mantivemos as armas ensarilhadas, deixando-o largura delimitava o frio absoluto do espaço da zona enfrentar sozinho os druufs. Por motivos estratégicos, tórrida, e era açoitado por tempestades de inaudita almirante! Mais um ou dois meses, e Árcon estará tão violência. enfraquecido que os druufs simplesmente inundarão o No entanto, um simples olhar bastava para constatar que Império, e com ele, nossa Galáxia. ali acabava a semelhança com Mercúrio: o sol do sistema Recostado contra a parede, de braços cruzados ao peito, Siamed era formado por uma estrela dupla. Em torno da o imortal fitava os frios olhos cinzentos de Rhodan. Ele, o rubra estrela principal, gravitava outra, verde. E, ao redor antigo arcônida de dez mil anos de idade, descendente da do centro gravitacional comum dos dois sóis, giravam 62 extinta dinastia reinante, ficou repentinamente amedrontado planetas, cada qual com uma infinidade de luas, que por sua com a calma de Rhodan. vez também contavam com satélites. — Exagera seu jogo estratégico, Um destes planetas era Hades, o que Personagens principais deste bárbaro — disse lenta e incisivamente. se parecia com Mercúrio. episódio: — Admiro os homens e sua capacidade Por mais inóspita que fosse sua de resolver qualquer situação, porém superfície, e por mais que distasse da Perry Rhodan — Administrador receio que subestime os druufs. Algum Terra, em Hades havia vida. Secreta e do Império Solar. dia encontrarão meios para derrubar o clandestina, no entanto; abrigada em regente... Atlan — O arcônida imortal. gigantescas cavernas subterrâneas, — Com o que nos facilitariam a escavadas na rocha por possantes tarefa — observou Rhodan, sorrindo Reginald Bell — Melhor amigo e radiadores energéticos. A estação colaborador de Rhodan. abertamente. — Mas saiba que suas receptora do transmissor de matéria preocupações são injustificáveis; jamais despejava nelas um incessante fluxo de Harno — O misterioso esférico. permitirei que as coisas cheguem a este armas e material. ponto. Os druufs nunca sairão de seu Tommy 1— Porta-voz dos druufs. No seio do planeta Hades, estava Universo, a fim de avançar para nossa sendo instalada uma base de Perry Galáxia. A única via de acesso é a zona Gucky — O rato-castor mutante. Rhodan. de descarga entre nossa dimensão A menos de uma hora-luz do mundo Onot — Físico dos druufs ou... temporal e a deles, zona que acompanha natal do mais impiedoso dos inimigos... a Via Láctea com metade da velocidade Pois Hades era o 13o planeta do sistema da luz. Por quanto tempo ainda...? No estelar gêmeo Siamed, cujo 16o planeta se chamava entanto, a frota bélica de Árcon monta guarda diante desta Druufon. fenda no Universo, poupando-nos tal tarefa. De onde se Druufon, sede principal de um povo verdadeiramente conclui, obviamente, que tanto os druufs quanto os estranho, os druufs! arcônidas nos prestam um favor. Que mais poderíamos *** querer? Perry Rhodan fitava impassível a tela que lhe mostrava — Não deve enfraquecer demasiado o regente — a superfície daquele mundo infernal. Ali, na central de lembrou Atlan. — Os druufs são nossos piores inimigos. controle da base, ouvia-se o leve zumbido dos geradores, Rhodan sabia que Atlan tinha razão. Mas preferiu fabricando a energia necessária para o condicionamento do manter-se na expectativa ao surgir ocasião de passar de um ambiente. Dentro do recinto, o ar era fresco, sem ser frio Universo a outro, sem recorrer a recursos técnicos, e ver as demais. O liso piso metálico vibrava quase naves dos druufs e arcônidas se encarniçarem umas contra imperceptivelmente. Nas profundezas da rocha, os as outras diante da zona de descarga. Despercebidamente infatigáveis microtécnicos trabalhavam em suas oficinas; postado com sua frota de guerra terrana entre os dois preparavam um sistema de camuflagem eletrônica para adversários, presenciava, impassível, o espetáculo da envolver o planeta numa rede protetora pentadimensional. destruição mútua. Esta impediria a passagem de qualquer abalo na estrutura — Em breve responderemos os apelos do regente — espaço-temporal, passível de ser detectada pelos druufs. assegurou-o. Pois também o transmissor de matéria emitia ecos Atlan suspirou, aliviado. 72

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— O cérebro-robô não nos recusará um acordo honesto caso ajudemos Árcon a rechaçar os invasores. Unidos ao atual governante de Árcon, poderemos repelir os druufs. Rhodan não deu resposta. Olhava para a porta, por onde acabava de entrar um homem, trajando o uniforme verdepálido de tenente da frota espacial do Império Solar. — Sir, a Drusus está pronta para decolar! — comunicou ele. Rhodan agradeceu. — Está bem, Tenente Potkin. Vou empreender um voo de observação com Atlan e alguns mutantes; iremos até Druufon. Aguarde nossa volta para daqui a algumas horas. Virando-se para Atlan, indagou: — Pronto almirante? Há dez mil anos, Atlan ocupara o posto de almirante na frota espacial arcônida, muito antes de alcançar a imortalidade, e repousar por longo tempo numa cúpula pressurizada no fundo do Atlântico, à espera que a Humanidade progredisse o suficiente para estender a mão às estrelas. Aliara-se a Rhodan ao saber que seu império galáctico já não era mais governado por arcônidas autênticos, e sim por um gigantesco cérebro positrônico. — Pronto! — confirmou Atlan. *** A Drusus, esfera espacial de quilômetro e meio de diâmetro, emergiu do hangar subterrâneo e lançou-se para o céu negro de Hades. A atmosfera rala permitia a coexistência da luz do sol gêmeo e das estrelas. Vendavais de inimaginável violência uivavam sobre a paisagem escarpada, equilibrando as diferenças de pressão entre as duas metades contrastantes do planeta. Diante dos controles da gigantesca nave, o Coronel Sikermann conduzia-a com mão firme espaço a fora, rumo ao ponto matematicamente calculado da transição. Um curto salto os deixaria nas proximidades de Druufon. O vôo não seria puramente de observação. O principal objetivo de Rhodan era tentar mais uma vez obter contato com o amigo desconhecido, que vivia entre os druufs. Tratava-se de um fato curioso. Impulsos telepáticos lhes haviam invadido os cérebros durante a estadia em Druufon. Não havia dúvida de que provinham do corpo de um druuf. No entanto, o indivíduo em questão, físico-chefe de sua raça, nada sabia a respeito. Logo, dois espíritos residiam em seu corpo! O rato-castor Gucky, um dos mais capazes mutantes de Rhodan, defrontara-se com o druuf, tentando em vão esclarecer o mistério. Nem mesmo Harno, o ser feito de energia — descoberto pelo sargento Harnahan há sessenta anos, e agora resgatado por Rhodan — sabia o que fazer. — Não sei quem sou! — sinalizara o desconhecido ajudante. — Mas conheço você, Perry Rhodan! Meu espírito está desprovido de corpo, e vaga pela eternidade desde tempos imemoriais; de mundo para mundo, de raça para raça, para achar o que perdeu há anos ou há milênios. Presenciei o início de todos os tempos, e vi os

horrores do momento final. Todos os sóis calcinados e apagados. E com eles apagou a vida... — De onde me conhece? — perguntara Rhodan. — Não sei... eu não sei! E depois os impulsos mentais cessaram. Resultaram inúteis todos os esforços enviados para retomá-los. Mas ainda houve um aviso final: — Abandonem o sistema dos druufs! Torno a manifestar-me... Posteriormente, quando se discutia a possível identidade do misterioso ser, Rhodan se envolvera em silêncio. Sabia que não havia resposta. Ocultava cuidadosamente sua própria opinião, pois seria fantástica demais. Mais do que isso, chegava a ser rematada loucura! Sikermann, comandante da Drusus, comunicou com voz calma: — Transição em dez segundos, Sir! Ninguém respondeu. Atento, Rhodan fitava a tela, na qual veria o planeta dos druufs após o hipersalto. Um mundo duas vezes maior que a Terra, de atmosfera respirável, e gravidade dobrada em relação à terrestre. Vinte e uma luas contornavam Druufon. Salto! E Druufon! O planeta estava a menos de um minuto-luz. A Drusus reduziu rapidamente a velocidade, e entrou em órbita. Os anteparos protetores, ligados, anulariam qualquer tentativa de ataque por parte dos druufs. Porém os druufs tinham outras preocupações no momento. Continuavam a repelir o incessante avanço das naves do robô regente, já menos intenso, mas ainda em andamento. Agora, só algumas poucas naves robotizadas conseguiam romper o bloqueio e penetrar na dimensão temporal dos druufs. Quase todas eram aniquiladas imediatamente. A Drusus traçava suas órbitas sem ser percebida. Mesmo que fosse, ninguém se preocuparia. Os druufs sabiam que não seriam agredidos pela nave de Rhodan. Gucky espreguiçava-se no sofá da central de comando, de costas para a parede, acocorado sobre as patas traseiras, e com a larga cauda de castor enrolada nelas. De olhos cerrados, parecia ouvir seu íntimo. Ninguém o perturbava, pois todos sabiam que tentava obter contato com o amigo desconhecido. Junto ao teto flutuava Harno, o ser encontrado no sistema de Tatlira. Suas incríveis qualidades representavam sempre novo enigma, porém, até então, ninguém ousara fazer a menor tentativa para decifrá-las. Harno, que escolhera tal nome em memória do sargento Harnahan, seu primeiro amigo humano, afirmava ter cinco milhões de anos, e ser feito de tempo e energia. Comunicava-se através de telepatia e servia de “televisor”. Sua superfície esférica era capaz de mostrar qualquer ponto do Universo. Rhodan sacudiu a dor provocada por toda transição. Seu 73


olhar pensativo deteve-se sobre Atlan, sentado ao lado de John Marshall. Também ele contemplava atentamente a tela. — Harno, pode ver Onot? Onot era o nome do físico-chefe em cujo corpo se abrigava o amigo desconhecido. A resposta veio sob a forma de silenciosos impulsos, captada igualmente por não telepatas. — Vejo Onot, mas ele pensa como Onot. — Faça-o aparecer — pediu Rhodan. Harno, a bola negra do tamanho de uma maçã, desceu lentamente e foi aumentando gradativamente, até medir meio metro de diâmetro. E não foi só a forma que sofreu alteração; a superfície até então preta e opaca, reluzia agora num branco, igual a uma tela de verdade. Reflexos coloridos relampejaram, ordenaram-se e formaram imagens discerníveis. Reprodução exata do que ocorria naquele instante há um minuto-luz dali. Diversos druufs moviam-se lenta e pesadamente por entre as imensas instalações técnicas. Geradores e aparelhos dividiam em verdadeiras ruelas o vasto recinto, abrigado no subsolo. Os druufs eram figuras estranhas, o que no entanto conferia certa naturalidade aos movimentos duas vezes mais vagorosos de sua dimensão temporal. Mediam três metros de altura, sua cabeça redonda possuía quatro olhos, e boca triangular. Orelhas, nariz e cabelos não existiam. A pele coureácea e lisa parecia ser bastante espessa. Comunicavam-se por meio de transmissores-receptores orgânicos. Com o auxílio de complexos aparelhos tradutores, a comunicação se tornava possível entre druufs e terranos. Os druufs mostrados por Harno pareciam ocupados em importante tarefa. Obedeciam às silenciosas instruções de um exemplar particularmente robusto, de pé sobre um tablado erguido diante do painel de controle. — Que fazem? — indagou Rhodan. Gucky respondeu: — Não entendo muito bem, mas conheço o aparelho que manejam. Trata-se do gerador que produz o campo de congelamento de tempo. A maior e mais poderosa arma dos druufs, quando estiver disponível para uso. — O congelador de tempo... — murmurou Rhodan, baixinho. — Ainda em estágio experimental, sem condições de influir sobre a situação presente. Foi por isso que votei contra sua destruição. Quem sabe da utilidade que poderia ter para nós no futuro... Gucky tornou a concentrar-se, tentando captar os pensamentos daqueles druufs tão distantes. Harno ajudava, sem que ele percebesse, catalisando os débeis impulsos dos druufs. — Estão entregues a importante experiência. Todos estes druufs são cientistas, e pouco se interessam pelo que sucede na superfície de seu planeta. Sua preocupação é outra. São indiferentes a problemas políticos, apesar de saberem que seu trabalho tem finalidade bélica. No entanto,

representa a única maneira de satisfazer-lhes a curiosidade científica. — Conheço um caso semelhante... — interferiu Atlan, ao fundo. — Não era o pretexto favorito de seus cientistas atômicos há alguns decênios, bárbaro? — Sem dúvida, almirante! — concedeu Rhodan. — No entanto, pensando bem, parece-me mais aceitável do ponto de vista ético do que confessar abertamente que trabalham para a guerra; qualquer cientista se revoltaria se fosse obrigado a dizer que o resultado de suas pesquisas não tem outra finalidade! — Como em Árcon! — confirmou Atlan, dando-se por vencido. — Chego a crer que você tem razão. — O druuf “gordo” é Onot — informou Gucky. — Posso captar claramente seus pensamentos. Mas ele pensa só em sua invenção. Portanto, presentemente não possui a menor identidade com nosso amigo. — Conforme eu temia — disse Rhodan. — Confesso que, apesar disso, eu contava com algum efeito da irradiação sofrida no campo de tempo. Lamentavelmente, parece não ser o caso. O Coronel Sikermann, até então calado, ia dizer qualquer coisa, mas foi subitamente interrompido pelo brilho de uma lâmpada vermelha. Estendeu automaticamente a mão para estabelecer contato com a central radiofônica. A voz do Tenente David Stern, chefe de rádio da Drusus, disse: — Mensagem secreta para Perry Rhodan, Sir. Hiperrádio e em código. Sikermann olhou indeciso para o sistema de altofalantes e para a luz vermelha, depois voltou a cabeça para captar o olhar de Rhodan. Não sabia que atitude tomar. Rhodan deu um pulo na poltrona. Sua mão avançou para perto da de Sikermann, e calcou uma tecla. — Tenente Stern! Grave a mensagem em fita. Não tente decifrá-la. Estarei aí num minuto. Entendido? — Entendido, Sir! — veio a resposta. Gucky olhou para Rhodan. — Que será que eles querem? O rato-castor sabia que hiper-rádio só poderia significar Fera Cinzenta — a base a vinte e dois anos-luz — ou a Terra. — Puxa, agora fiquei curioso! Rhodan não estava menos curioso, porém não o demonstrou. — Continuem observando Onot — disse a Gucky, Harno e Marshall. Dirigindo-se a Atlan, acrescentou: — Vou ver o que há. Atlan permaneceu sentado. Seria difícil deixar de perceber a discreta sugestão de ficar onde estava. Seu olhar pensativo acompanhou Rhodan. “Será que ele estava esperando essa mensagem?”, indagou-se mentalmente. Cerca de duas semanas antes, Rhodan fizera uma observação relacionada com o enigmático amigo que vivia no corpo de um druuf. Aquele espírito — ou o que quer que 74


fosse — inquietava Atlan. Além disso, interessava-o ardentemente. Quais haviam sido mesmo as palavras de Rhodan na ocasião? “— Creio saber quem é nosso amigo...” Atlan refletira longamente sobre aquilo. A quem poderia estar se referindo Rhodan? Afinal, nenhum membro do corpo de mutantes andara vagando durante milênios pela eternidade, e nem um só estava extraviado. A inquietude tomou conta de Atlan, impedindo-o de concentrar-se nos problemas mais urgentes do momento. Harno voltou a ser pequenino e negro. Alçou-se lentamente para o teto, na habitual posição de repouso. Gucky continuou alerta, porém parte de suas atenções seguiam Rhodan, que chegara à central radiofônica e falava com David Stern. Porém, então, repentinamente, os impulsos mentais de Rhodan se apagaram. Blindara os pensamentos, adivinhando a indiscreta curiosidade de Gucky. Decepcionado, o rato-castor voltou a sua tarefa. Certamente viria a conhecer, no devido tempo, o conteúdo da misteriosa mensagem endereçada a Rhodan. Cinco minutos depois, Rhodan retornava à central de comando, mostrando-se profundamente pensativo. Nos olhos cinzentos brilhava uma luz estranha. Cruzou com os olhos de Atlan, e desviou intencionalmente os seus. Gucky indagou: — Qual foi a mensagem? Era de Fera Cinzenta? Rhodan sacudiu a cabeça. — Da Terra, então? Rhodan acenou. — Algo errado? — insistiu Gucky, persistentemente. Em vão tentava romper a barreira colocada em torno do cérebro de Rhodan. — Não perca tempo, Gucky — disse este, por fim. — Você não saberá de nada, enquanto eu não quiser. A mensagem veio num código que apenas eu conheço. Além de nosso amigo Mercant, na extremidade oposta do hiperrádio, naturalmente. Lá na Terra... — Mercant!? — exclamou Gucky, interrogativo. Allan D. Mercant era chefe do Serviço Solar de Segurança. As mensagens dele tinham sempre importantes significações. E Rhodan devia ter suas razões para não comentá-las. Rhodan olhou para a tela, onde ainda figurava Druufon. — Nenhum sinal do desconhecido, Gucky? Foi com relutância que o rato-castor respondeu: — Não, nenhum sinal de nosso amigo-fantasma. Pelo jeito, não quer mais nada conosco. Senão já teria “falado”... — Bem, não se pode estar em dois lugares ao mesmo tempo — explicou Rhodan, batendo no ombro de Sikermann. — Rume para Hades, comandante! Dali saltaremos para Fera Cinzenta, de onde faremos uma pequena excursão. Atlan, Gucky e Harno irão comigo. Atlan olhou para John Marshall antes de adiantar-se e parar diante de Rhodan.

— Não acha que já basta de mistificações? Quando é que vai se dignar a nos dar a informação? Rhodan encarou-o. Um fugaz sorriso iluminou-lhe o rosto magro, desaparecendo rapidamente. — Claro que vocês têm direito a isso, mas não quis aborrecê-los com suposições. Como estas foram confirmadas pela mensagem de Mercant, precisamos ir à Terra. Lá aconteceu algo que ninguém mais esperava. — O quê? — quis saber Gucky. — Atlan não conhece o caso, portanto não compreenderia Gucky. Para que ele possa ter um entendimento dos fatos, teremos que retornar a um passado muito remoto, isto é, ao tempo em que ele ainda repousava no fundo do oceano, aguardando uma época mais favorável... Foi então que isso aconteceu... — Naquele tempo também eu ainda não morava na Terra — disse Gucky. — E não conhecia você. Rhodan acenou. Quase esquecera tal detalhe. — Mais uma razão para não complicar a situação. Vou fazer-lhes um relato detalhado, quando voarmos para a Terra. Sikermann, para Hades! Ainda preciso fazer alguns preparativos lá. Deixarei Bell como meu substituto. — Ele vai ficar bem chateado com isso! — comentou Gucky, maliciosamente. — Talvez nem tanto! — replicou Rhodan, secamente, enquanto a Drusus manobrava para sair da órbita, e tomar o curso de Hades. — Tenho até certeza de que ele não vai se aborrecer nem um pouquinho, Gucky! Bell sempre teve pavor de fantasmas. E nós vamos para a Terra a fim de visitar um fantasma! Gucky fitou Rhodan espantado, depois cerrou os olhos como se quisesse dormir. Sabia que por ora não obteria mais nenhuma informação. Atlan continuou calado. Também sabia que, no momento, seria inútil insistir com Rhodan. Porém adivinhava que o amigo desconhecido em Druufon tinha algo a ver com o “fantasma”. *** Instantes depois, a Drusus cruzou velozmente a zona de descarga. Antes tiveram de romper a linha de unidades dos druufs em prontidão, sem atentar para os sinais radiofônicos que os intimavam a dar meia-volta. Depois atravessaram pelo meio da frota de guerra do regente. Novamente Rhodan não obedeceu aos chamados, ignorando totalmente as naves robotizadas. Alguns disparos energéticos resvalaram pelos anteparos protetores, e a seguir a Drusus entrou em transição. As estrelas e as naves do robô regente desapareceram. Apenas as estrelas tornaram a reaparecer, mas então a Drusus se encontrava a vinte e dois anos-luz do local dos acontecimentos. O sétimo planeta do sistema Mirta, também chamado Fera Cinzenta, acolheu-os. Por poucas horas, no entanto, pois Rhodan não tardou a levantar voo novamente. 75


Desta vez, rumo à Terra. E, ainda enquanto aguardavam o momento de atingir a velocidade da luz, Rhodan começou a falar, trazendo para o presente um passado de há muito olvidado... Gucky e Atlan escutavam tensos. Um relato tão inacreditável, que os dois ouvintes quase esqueciam de renovar o ar dos pulmões. E, lá no teto, flutuava Harno, o estranho ser, composto de tempo e energia. E Harno escutou igualmente a história narrada por Rhodan.

2 O relato de Rhodan teve início com a Terceira Potência, que posteriormente deu origem ao Império Solar. Há cerca de setenta anos, em fevereiro de 1.972. Perry Rhodan organizava seu Exército de Mutantes. Em toda a parte do mundo, devido às explosões atômicas efetuadas, as características hereditárias dos recém-nascidos sofriam alterações, fazendo nascer pessoas dotadas de capacidades anormais. Surgiram telepatas, telecinetas, teleportadores, teleóticos, teleauditivos, videntes e hipnos. E apareceu um homem chamado Ernst Ellert. Ellert era um mutante cujos poderes ultrapassavam tudo que a imaginação humana pudesse conceber. Enquanto seu corpo descansava, o espírito podia sair do organismo em repouso e invadir o território desconhecido do tempo. Desta forma, foi ao futuro, regressando com a ciência dos fatos ainda por acontecer. Talvez fosse o que se costuma denominar de vidente; porém, na realidade, era muito mais do que isso. Rhodan classificou-o de teletemporário ou teletemporador. E certo dia se deu a desgraça. No decorrer de uma experiência, Ellert sofreu tremendo choque elétrico, e morreu instantaneamente. Morreu, mas não estava morto! Seu espírito — ou sua alma — deixara o corpo e vagava sem rumo pelo futuro e pelo passado; no entanto o corpo sem alma não apresentava o menor sinal de decomposição. Apesar da ausência de palpitações cardíacas, o sangue continuava morno. A temperatura corporal não sofreu alteração. Pessoa alguma sabia explicar o ocorrido. O espírito de Ellert não retornou ao presente. Não achou mais seu corpo. Tudo que se poderia supor era que se extraviara na eternidade. Mas, caso ainda regressasse algum dia, e não encontrasse mais seu corpo? Rhodan encontrara solução para esta possibilidade. *** Nos arredores de Terrânia, então ainda chamada Galáxia, os robôs operários tinham concluído a tarefa

constante da programação recebida. A galeria aprofundavase a cinquenta metros na rocha viva do deserto de Gobi. O revestimento esmaltado das paredes, duro como aço, garantia para todo o sempre a perfeita impermeabilidade. Nem uma só gota de água se infiltraria na galeria. No fundo, Rhodan mandou escavar um recinto quadrangular provido de aparelhos produtores de oxigênio, material de informação, instruções, e reservatório de energia. Um sistema de alarme automático — aperfeiçoado nos anos subsequentes — assegurava o aviso imediato, caso Ellert retomasse posse de seu corpo algum dia. No meio da câmara fúnebre, de quatro por quatro metros, havia um leito, acoplado ao complexo sistema de alarme. Bastava respirar uma vez dentro da câmara para fazê-lo entrar em funcionamento. Sobre o leito repousava o corpo de um homem. Era Ellert quem jazia sob os instrumentos eletrônicos, com cintas metálicas presas ao pulso esquerdo e aos dois tornozelos. Um capacete envolvia a cabeça. Próximo da boca haviam colocado um espelho, ligado a células de selênio. Um resquício de hálito seria suficiente para ativar todo o sistema de alarme. O mausoléu mandado construir para Ellert por Perry Rhodan não se equiparava ao de nenhum outro mortal. No entanto — e Rhodan já pressentia isso na época — Ellert não era mortal na acepção comum do termo. Sentia vagamente que algum dia, num futuro próximo ou remoto, tornaria a rever o teletemporário. Encheram a galeria com uma massa pastosa imediatamente solidificada. Nada no mundo poderia perturbar agora o descanso do morto. E, no entanto, existia um acesso para a câmara fúnebre, conhecido exclusivamente por Rhodan. E mesmo que Ellert acordasse realmente algum dia, não levaria mais de meia hora para livrar-se de sua prisão. Mas o que encontraria, quando “acordasse”? Uma terra estorricada por um sol vermelho, tão perto dele que poderia precipitar-se no disco de fogo a qualquer instante? Ou um planeta privado de toda a vida por invasores espaciais? Absorto em cogitações, Rhodan presenciara o erguimento do marco em forma de pirâmide, que os robôs colocavam sobre o mausoléu. Depois dera meia-volta, retornando à povoação que seria um dia a mais poderosa cidade da Terra: Terrânia. *** Durante setenta anos, nada aconteceu. Surgiu o Império Solar, e o poder de Perry Rhodan chegou às raias do incomensurável. No entanto, sob a cúpula energética de Terrânia, continuava existindo um recinto onde iam dar os terminais de todos os sistemas de alarme. E uma minúscula lâmpada no imenso painel jamais se acendera. Sob a lâmpada via-se um nome: Ernst Ellert. *** 76


Naquele dia, 14 de setembro de 2.043, dava plantão na sala de alarme, conforme era conhecida a central de vigilância, um sargento de nome Stootz. Stootz não conhecia Ellert, evidentemente, mas conhecia suas obrigações. Estas nada tinham de excitante ou difícil. Resumiam-se em verificar quais das lâmpadas se acendiam no painel. Não que o sargento fosse um leigo, incompetente para qualquer outro serviço. Pelo contrário! Casualmente era seu dia de plantão, obrigação que tocava, em rodízio, a todos. Na realidade Stootz era um dos mais competentes técnicos em rádio e eletrônica da seção de telecomunicações. Além de saber que uma das lâmpadas poderia acender, sabia também por que ela acendia. Pois, atrás do painel, aparentemente singelo, se escondia um sofisticado sistema de instalações positrônicas e eletrônicas. Dali, os fios partiam nas mais diversas direções, terminando em geral diante de um hiper-receptor. Mesmo que dessem alarme no sistema solar XY, a milhares de anos-luz, a luzinha correspondente brilharia diante de seus olhos. E Stootz conhecia a série de providências que deveria tomar em semelhante caso. Com um gesto, acionou igualmente a sinalização acústica, a fim de assegurar que nenhum eventual alarme lhe escapasse à atenção. Tranqüilizado, abriu um livro e pôs-se a ler. Em torno dele, reinava a calma da noite incipiente. Apenas da central de rádio vinha um ou outro zumbido, produzido pelos hiper-registradores ou pelo transmissor de imagens. O centro nervoso do Império Solar jamais dormia. Não podia dormir nunca, caso não quisesse mergulhar para sempre no sono da morte. *** A dois quilômetros da galeria de Ernst Ellert, Allan D. Mercant descansava em seu confortável lar. Mercant conservava a mesma aparência jovem — ou melhor, idosa, mas sadia — de sete décadas atrás. Junto com os mais chegados colaboradores de Rhodan, recebera no planeta artificial Peregrino a ducha celular prolongadora da vida. O cabelo ralo continuava louro, e, em seus olhos, luzia a perene vivacidade que praticamente o predestinara ao posto de chefe da defesa no Império Solar. Na tela de seu estereotelevisor, evoluía um grupo de bale da ópera russa. Aconchegado numa poltrona, suficientemente afastada para poupar a vista, Mercant apreciava o espetáculo. Não gostava de deitar muito cedo. Só perto de meia-noite seu organismo atingia o estado de fadiga necessário. E então costumava desligar bruscamente o aparelho, às vezes até no meio de um programa, e ia dormir. Eram onze e meia, agora. Também na casa de Mercant existia uma terminal das linhas de alarme — desde que não esquecesse de ligar a chave adequada em seu escritório, antes de deixar o serviço no prédio central da administração. Como sempre, tomara

tal providência. Mercant bocejou. — Ah, o cansaço chegando, afinal! — balbuciou. Por pouco lhe passaria despercebido o estridente som da campainha, ecoando pela casa. Alarme! Saltou da poltrona, esquecendo instantaneamente o cansaço. Algo devia ter acontecido, para que o chamassem em plena noite! Enquanto se precipitava para seu gabinete, onde estava instalado o aparelhamento de comunicação, passou em revista, mentalmente, as possíveis probabilidades... Algum problema num recanto perdido da Terra, talvez; se bem que tal hipótese fosse bastante improvável. Ou um inferno desencadeado em algum sistema solar, nos confins do Universo. Por outro lado, o alarme poderia provir do próprio Rhodan — afinal, ele não partira exatamente para um piquenique ao levantar voo com metade da frota bélica do Império... Sim, as possibilidades eram infindas. Só não lhe ocorreu a que acontecera agora. Aproximou-se rapidamente de um aparelhinho embutido no tampo da escrivaninha e calcou um botão. O vidro fosco iluminou-se imediatamente, mostrando o rosto um tanto perplexo do sargento Stootz. — Fala a central de rádio, sala de alarme, Sir! — Que foi? — gritou Mercant, interrompendo as formalidades regulamentares de introdução. — Por que me acordou? Todo mundo sabia que Mercant não se recolhia antes da meia-noite, e o sargento Stootz não desperdiçou tempo em protestos. — Alarme, Sir! Faz dez segundos que uma lâmpada vermelha está acesa... — Qual delas, que diabo? O sargento inclinou-se ligeiramente — movimento que o videofone mostrava claramente — a fim de examinar de perto a luzinha vermelha. — Debaixo da lâmpada só há um nome, Sir: Ernst Ellert. Mercant teve a sensação de sentir uma mão gelada apertar-lhe o ombro. Conhecia bem o caso do teletemporário desaparecido. E sabia o que significava o alarme desencadeado no mausoléu! Suas ordens foram imediatas e precisas. — Acordar imediatamente o professor Haggard e alguns membros de seção médica! Haggard deve procurar-me o mais depressa possível. Iremos ao mausoléu. Depois chame Rhodan pelo hiper-rádio, sistema Mirta ou Siamed, urgentemente. Passe a ligação para cá assim que for feita. Preciso irradiar uma mensagem. A seguir... — hesitou, e concluiu: — É tudo! Mercant desligou o videofone, e ficou parado, imóvel e rígido. Da sala, vinham os derradeiros acordes da segunda sinfonia de Tchaikovsky. 77


Depois, o silêncio caiu pesadamente sobre ele. *** Na central de comando da Drusus, depois que Rhodan concluiu sua narrativa, o silêncio falou mais alto. Atento aos controles, Sikermann absteve-se de qualquer comentário; não tirava os olhos das escalas e instrumentos de medida. A Drusus aproximava-se, à velocidade da luz, do ponto de transição. Encostado na parede, Atlan fitava Rhodan. Gucky preferiu aguardar. Acocorado de olhos fechados sobre o sofá, parecia dormir. Mas Rhodan sabia que se tratava de puro fingimento. O rato-castor vibrava de excitação. Discreto como sempre, Harno ocupava seu lugar junto ao teto. Rhodan percorreu um a um com o olhar. — Pois é, é esta a história de Ernst Ellert. E agora brilha a lâmpada vermelha que anuncia seu retorno. Mercant me avisou sem tardança pelo hiper-rádio. Não sei se chegaremos a tempo em Terrânia, mas temos de tentar... Não pode haver dúvida de que o espírito de Ellert retornou ao corpo depois de setenta anos. Acho que não preciso mais revelar a ninguém o teor de minha suposição... Atlan levantou os olhos. — Acha que Ellert e Onot são uma só pessoa, não é? — disse, com voz sem expressão. Rhodan acenou. — Tudo indica que sim, em especial, as alusões feitas por nosso amigo desconhecido. Conhecia-me, sem saber de onde. Dizia-se peregrino da eternidade, testemunha visual do começo e do fim do mundo. Ellert podia viajar no tempo... mais uma coincidência. Não, não duvido mais; por fim achamos Ellert... — ...ou ele nos achou! — emendou Gucky. Sua voz clara tinha um acento peculiar. — Ele deve ter estado à nossa procura. — É bem possível — concordou Rhodan, percebendo que Sikermann dava início à transição. A primeira dor das ondas de choque percorreu-lhe o corpo. Depois disso, nada mais se sentia. E quando tornaram a olhar para a tela, ela mostrava o sistema solar terrestre. Aterrissar era questão de rotina. Mal trocaram algumas palavras enquanto a Terra crescia, preenchendo por completo a tela. Com leve solavanco, a imensa nave tocou o solo. Tinham chegado ao destino. Rhodan desembarcou com Atlan e Gucky, colocando disfarçadamente Harno no bolso da túnica. Mercant veio-lhes ao encontro. Parecia exausto. O sol acabava de apontar ao leste, e ele não dormira um único minuto na última noite. — Bem-vindos à Terra! — exclamou, estendendo a mão aos homens. Depois abaixou-se e cumprimentou também Gucky. — Felizmente não chegaram tarde demais. Por

enquanto não aconteceu nada. Era o que Rhodan queria saber. Suspirou, aliviado, e embarcou no veículo providenciado para a viagem até o mausoléu. Este fora judiciosamente erigido no coração do deserto, a uma segura distância da expansão imobiliária de Terrânia. Jamais poderia ser engolfado pelas novas construções. Enquanto paredes passavam em disparada à direita e à esquerda, e o veículo estendia as asas para fora da fuselagem, a fim de subir obliquamente, Mercant sumariou a situação, em frases curtas e concisas. — Haggard aguarda junto ao mausoléu, com toda sua equipe; mas por ora, nada aconteceu. A luz de alarme continua acesa. Nenhuma alteração na pirâmide. O concreto protetor parece continuar intato. Rhodan acenou. Conferia mais ou menos com o que esperara, sem ter completa certeza. De qualquer forma, caso suas suposições fossem corretas, ainda era cedo para Ellert retomar posse do próprio corpo. A cidade foi se distanciando. Abaixo do planador, desfilava velozmente a monótona área desértica. Por fim surgiu no horizonte a esbelta silhueta do obelisco, nitidamente delineada contra o céu da manhã. O mausoléu! O planador perdeu altura rapidamente, e pousou a menos de vinte metros da reluzente pirâmide metálica. Um grupo de homens acorreu; por trás deles, via-se uma camioneta com a insígnia da Cruz Vermelha. Também o professor Haggard pertencera ao grupo beneficiado por Rhodan com a ducha celular, durante a estadia no planeta Peregrino. Seu vulto magro adiantou-se, um tanto curvado; fato, no entanto, sem relação alguma com sua idade real. Estendeu a mão a Rhodan, dizendo: — Nossa vigília se revelou infrutífera! Cumprimentou também Atlan e Gucky, que saiu imediatamente gingando em direção da pirâmide. Rhodan percebeu o ligeiro tom de ceticismo na voz do médico, sentimento bastante compreensível. Qualquer pessoa normal se sentiria cética ao escutar a história de Ellert. — Eu não esperava outra coisa — replicou, contemplando pensativo a pirâmide. Atlan e Gucky faziam o mesmo. — No entanto, creia-me, Ellert não tardará a reaparecer. Talvez já daqui a poucos dias. Haggard não se convenceu. — Sabe que sou um cientista, Perry. Portanto, desconfiado por natureza. Não posso crer que um organismo enterrado há setenta anos volte à vida. — Sabe tão bem quanto eu que Ellert não morreu realmente. Foi você mesmo quem o examinou, juntamente com Manoli, naquela ocasião. Porventura encontrou explicação para o fenômeno? — Não, nenhuma... — concordou o médico, com relutância. — Evidentemente que não! Mas sete décadas é tempo demais... 78


— Não para quem viu a eternidade de perto! — disse Rhodan, encerrando a inútil discussão. Seu olhar deteve-se absorto sobre a pirâmide, cujo cume começava a dourar-se aos primeiros raios do sol. Sabia como chegar às profundezas do mausoléu sem danificar a camada de concreto. Sentiu certo constrangimento diante da perspectiva de penetrar na câmara fúnebre, mas depois o raciocínio lógico venceu. — Esperem aqui, vocês todos — disse. — Quero apenas Atlan por companhia. Vislumbrou de relance a face ansiosa de Gucky, e sacudiu quase imperceptivelmente a cabeça. Sua mão direita cerrou-se em torno de Harno dentro do bolso. Deveria levá-lo? Resolveu que sim. Avançou alguns passos, seguido por Atlan, detendo-se diante das altas e lisas paredes da pirâmide. Com a mão esquerda, alisou o metal frio. Passou-a de um lado a outro repetidas vezes. Por um momento, parou. Depois fez mais uma leve pressão e, a cinco metros da base do monumento, uma placa deslizou no chão do deserto. Mercant praguejou baixinho ao presenciar a cena. Nem sequer suspeitava da existência de uma entrada secreta; muito menos que fosse conhecida por Rhodan. Este lhe acenou amistosamente, como se tivesse adivinhado os pensamentos do amigo. Depois segurou o braço de Atlan, conduzindo-o para a abertura surgida no solo rochoso. Uma íngreme e iluminada escada levava ao fundo. Rhodan tivera que revelar seu segredo, fato que, agora, já não lhe importava. Sabia que em breve a pirâmide teria cumprido sua função. Tomou a frente, e Atlan seguiu-o, sem hesitar. Os dois homens, que algum dia poderiam dominar o Universo, desciam ao encontro de um morto que não estava morto, e tinha muito a lhes dizer. *** Ao “morrer”, recebendo em cheio uma descarga de milhares de volts, Ernst Ellert não perdeu a consciência um só instante. Sentiu tremenda dor, porém apenas por uma fração de segundo. Depois foi lançado fora de seu corpo, projetado para a intemporalidade do espaço sem fim. Tudo a seu redor mergulhou no vazio infinito, sem começo nem fim. Redemoinhos coloridos vinham em sua direção e tornavam a afastar-se. A despeito de não possuir mais ouvidos, escutou estranhas melodias eletrônicas. Todas estas impressões iam e vinham ritmicamente, como se tivesse caído no seio de um Universo em pulsação. Flutuava no nada absoluto, e uma vez pareceu ver passar ao longe um sol rodeado de planetas. Vias lácteas giravam lentamente em espiral, ficando para trás no espaço. A própria eternidade parecia encolher. E depois mergulhou na corrente do tempo, em velocidade sempre crescente. Perdera por completo o

contato com o elemento que até então julgava dominar. Desamparado, precipitava-se num infinito que já não podia ter relação alguma com matéria. O presente ficou para trás, longe, longe... Nada podia deter sua queda para o futuro. Bruscamente sucedeu a primeira encarnação. Tão rápida e inesperada que caiu ao sentir o próprio peso — ou melhor, o peso do ser em cujo corpo penetrara. O espírito lançado ao mais remoto futuro encontrara nova morada, porém o corpo que o abrigava não era humano. O ente tinha quatro patas, e escassa inteligência. Ao lado dela, o intelecto de Ellert pôde acomodar-se facilmente. Conseguira até conversar com o ser. Chamava-se Gorx, e informou que também seu planeta se chamava Gorx, assim como o sol e o Universo. Tudo tinha o nome de Gorx, porque naquele mundo existia um único Gorx. Ellert procurou concentrar-se, e o inacreditável aconteceu: podia abandonar o corpo de Gorx. Ainda viu o vulto lerdo e peludo engatinhar pelo chão, em direção de uma caverna rochosa. Não, não seria ali que encontraria resposta para suas perguntas. Concentrou-se novamente, e disparou para o espaço, que era simultaneamente tempo. Turbilhonou através da corrente do infinito, mas desta vez de volta, conforme lhe provavam as vias lácteas que ultrapassava. Quando parou, estava suspenso no nada. De que forma orientar-se agora? Não existiam pontos de referência. Era uma gota no mar do tempo. Foi então que Ellert compreendeu que jamais haveria possibilidades de voltar. Tinha-se transformado em prisioneiro da eternidade. E a questão crucial não era saber onde se encontrava, mas sim quando... Pergunta aterrorizante, que ninguém podia responder. E, portanto, Ernst Ellert, o prisioneiro da eternidade, percorreu milhões de anos em busca do presente... *** O alçapão tornou a fechar-se, com um baque surdo. Atlan só não estremeceu porque previra o ruído. Além disso, não queria dar a impressão de fraco diante de Rhodan. Estreita e apertada, a escada parecia levar a um poço sem fundo. Rhodan precedia Atlan, a passos decididos. Deteve-se diante de uma parede inteiriça, esperando que o amigo o alcançasse. — A câmara fúnebre fica aí atrás, almirante. — Está melhor guardada do que a maior arca de tesouros do mundo — disse Atlan, impressionado. Rhodan acenou gravemente. — O corpo de Ellert é um tesouro, mesmo desprovido de alma. Mas quando ela regressar... Deixou a frase incompleta, e pôs a mão sobre a fechadura embutida no metal. O calor de seu corpo, e as 79


vibrações individuais do cérebro ativaram o mecanismo. A porta abriu para um exíguo corredor, em cujo extremo havia outra porta. Esta se abriu sem dificuldade. Rhodan entrou na câmara fúnebre um passo adiante de Atlan. Ernst Ellert achava-se sobre o leito, como se tivesse acabado de adormecer. O rosto estava um tanto pálido, mas não exangue. Os cabelos escuros e bem ordenados davam-lhe boa impressão. Os olhos estavam fechados, os lábios firmemente cerrados. Ernst Ellert não respirava. O espelho diante de sua boca não estava embaçado. Rhodan deteve-se longamente diante do mutante. De pé, a seu lado, Atlan mal ousava respirar, assombrado com o que via. Haviam sido chamados por um morto, e o apelo tinha sido atendido, através de mais de seis mil anos-luz. Depois surgiram os primeiros impulsos mentais, débeis e tateantes, sondando a consciência dos dois homens. Aos poucos, tornaram-se mais fortes. — Perry Rhodan, você veio? Esperei-o por muito tempo. Foi um verdadeiro choque para Rhodan, pois desta vez ele sabia quem silenciosamente e por telepatia, lhe falava. Com voz rouca e comovida, respondeu: — É você, Ernst Ellert! Eu sabia que voltaria algum dia, porém nunca imaginei que demorasse tanto. Ocupava o corpo de Onot, o físico-chefe dos druufs, não é? — Ainda o ocupo, Rhodan! Só pude libertar metade de meu espírito. Porém um dia eu ficarei totalmente liberto. Mas até lá... — Até lá...? — perguntou Rhodan, ansioso, sentindo os impulsos fugir. — Não posso deixar os druufs sozinhos, pelo menos enquanto existir a passagem para a nossa dimensão temporal. Quando os dois Universos tiverem passado um pelo outro, minha tarefa estará concluída. Rhodan estremeceu. As palavras tinham sido pronunciadas em voz audível. Às suas costas! Voltou-se abruptamente, e viu Atlan encostado à parede, lívido e abalado. Apesar disso, sua boca se movia, e disse! — Sim, Rhodan, falo através de seu amigo Atlan. Estou livre, conforme já mencionei, porém ainda não de todo. Entretanto, o suficiente para apossar-me do corpo de Atlan. O que não o impede de me ouvir. Rhodan esforçava-se por compreender a situação. — Conte-nos o que aconteceu — pediu. E Ellert contou, usando a voz de Atlan: — Enquanto vogava na corrente de tempo, inteiramente desorientado, andei sem descanso de Universo para Universo, de era para era. Conseguia mover-me com inteira liberdade, porém não encontrei mais o que chamamos de presente. Estava extraviado, conforme julgava. Até encontrar certo dia os druufs. O único povo existente no Universo, em minha opinião. Após breve pausa, Ellert prosseguiu:

— Eu estava enganado. Não havia apenas um tempo, mas diversas dimensões temporais, coexistindo lado a lado. Numa das dimensões, a nossa, eu teria sido capaz de orientar-me, e achar o caminho de volta para o presente. Porém o choque recebido me jogou para fora de nosso tempo; cruzando o nada, fui parar na dimensão dos druufs. E, de lá, não havia retorno. Eu estava definitivamente perdido. Fez-se prolongado silêncio. Rhodan começava a compreender gradualmente o que ocorrera. Ninguém poderia ter dado descrição tão objetiva dos fatos como Ellert, pois pessoa alguma no mundo vira ou vivera coisa semelhante. — E vai poder retornar definitivamente para junto de nós em breve, retomando a posse de seu corpo? — Sim, Perry! Retornarei, sem a menor dúvida. No entanto, mesmo que pudesse voltar hoje, eu não o faria. Os druufs representam perigo muito maior do que imagina. Tenho certa influência sobre eles, pois sob a forma de Onot pertenço à elite governamental. Se eu não tivesse agido, eles teriam dominado a Terra há três meses, e com ela nossa Via Láctea. — Há três meses? — indagou Rhodan, procurando lembrar. — Claro! Eles saíram de seu Universo por uma brecha repentinamente surgida, e atacaram o reino de Árcon. Muitos planetas pereceram entre fogo e fumaça nessa ocasião, e vários perderam alguns continentes... A voz de Atlan estacou de repente, e ele olhou admirado para Rhodan. Depois Ellert continuou a “falar”, mas voltando à telepatia. — Agora me lembro de onde conheço Atlan, por cuja boca eu falava. Há três meses ele ainda era comandante de uma frota de guerra arcônida, encarregada de colonizar um sistema solar. Antes de formular sua resposta, Rhodan lançou rápido olhar a Atlan. — O sistema solar, Ellert, era “o nosso”. E seu encontro com Atlan não ocorreu há três meses, mas sim há dez mil anos. Precisou viajar a tão remoto passado a fim de reencontrar o presente? Ellert levou tempo para responder: — Minha memória ainda está falha, e perdi por completo a noção do tempo. Duvido que ainda seja capaz de viajar ao passado ou ao futuro. O que por si já garante minha volta para junto de vocês, pois não perderei a Terra de vista. Porém não podemos deixar os druufs entregues a si mesmos. Só após o fechamento da zona de descarga, não haverá mais perigo. Rhodan lembrou-se de um detalhe importante. — Como Onot, você trabalha num projeto interessante. O congelador de tempo, conforme o chamamos. Que vem a ser isso? — Como Onot, eu poderia explicar; mas como Ellert não disponho de informações suficientes. Caso as consiga, talvez eu possa construir um aparelho idêntico na Terra. 80


— Mais uma pergunta — disse Rhodan. — Os druufs dispõem de um tipo de propulsão que evita transições bruscas. Sabe dizer-me algo a respeito? Mais uma vez, Ellert valeu-se de Atlan para falar: — Saberei, quando recuperar totalmente minha liberdade. Por enquanto, só sei que os druufs rompem a fronteira do hiperespaço, que existe igualmente na outra dimensão temporal, sem o menor choque. Assim que é alcançada a velocidade da luz, entra em ação um compensador automático, que além de neutralizar o tempo, ainda impede modificações na massa. Em tempo mínimo, a nave acelera para milhões de vezes a velocidade da luz. Apesar de voar pelo hiperespaço, o Universo normal permanece visível. Vantagem inapreciável para a orientação, dispensando os exaustivos cálculos atualmente exigidos para todo hipervôo. Além disso, elimina a dor resultante da rematerialização. Voo visual! Experiência única! A despeito da intensa excitação, Rhodan manteve-se calmo e objetivo. — Acha que pode conseguir-nos os planos deste tipo de propulsão? — Não voltarei para meu corpo sem os planos. Muito obrigado, aliás, por tê-lo conservado tão cuidadosamente. Não tive a menor dificuldade em localizá-lo. — O que foi que lhe deu liberdade parcial? — Creio que sabe, não...? O campo do congelador de tempo, no qual fui parar graças à curiosidade de Gucky — Ellert calou por um instante, depois acrescentou pensativo: — Curioso, sou capaz de lembrar nomes e coisas que jamais conheci, por não existirem naquele tempo. Rhodan contemplou a face imóvel do mutante. Tão morta e rígida como antes. Mas um dia tornaria a viver... — Que me aconselha? — perguntou. Ellert voltou à telepatia. Talvez não quisesse sobrecarregar demais Atlan. — Continue a combater os druufs, e providencie a destruição da grande central de cálculos abaixo da capital, em Druufon. No entanto, sem que recaiam suspeitas sobre você. Alie-se a Árcon, e deixe os robôs cuidar da tarefa. Caso Onot pereça nesta operação, não fará muita diferença. Acho que ele morrerá de qualquer maneira quando eu o abandonar totalmente. — E se o regente não concordar? Quando Ellert falou, Rhodan achou os impulsos mentais mais fracos. — Faça o que digo! Não resta muito tempo... até a vista, Perry, Atlan. Preciso voltar para Druufon. Onot desmaiou. Preciso... Os impulsos cessaram de repente. Ellert se retirara, ou fora forçado a retirar-se. Porém um dia... Rhodan contemplou mais uma vez a face sem vida, debaixo dos aparelhos eletrônicos de alarma. Depois virouse bruscamente, dizendo a Atlan: — Podemos ir.

Atlan seguiu-o calado. Passaram pelas duas portas, subiram os estreitos degraus e suspiraram de alívio ao atingir a superfície. O sol agora alto no céu lhes pareceu verdadeiro símbolo. Seus raios significavam vida e esperança. Por trás deles, a placa rochosa tornou a ocultar a entrada do poço. Pardo junto à pirâmide, Gucky declarou: — Acompanhei telepaticamente toda a conversa. Rhodan acenou-lhe amistosamente. Mercant veio ao encontro de Rhodan. — E então? — indagou ansioso. Suas qualidades telepáticas eram fracas demais para permitirem participação nos acontecimentos ocorridos no interior da câmara fúnebre. — Que aconteceu? Onde está Ellert? Rhodan fitou o cume da pirâmide ao responder: — Ellert retornará, quando for chegado o momento. Ele e nós ainda temos uma tarefa para cumprir. Ele falou conosco, Mercant, porém seu corpo ainda precisa continuar em repouso. Mande colocar guarda permanente em torno do mausoléu. Na próxima vez em que a lâmpada vermelha se acender, será a hora! Olhando em torno, avistou Haggard. Cumprimentou-o igualmente. — Não tardará muito, doutor, e poderá realizar um exame médico em Ellert. Exame físico, bem entendido, pois quanto ao estado mental... Rhodan silenciou repentinamente. Depois fez meia-volta e encaminhou-se sem mais uma palavra para o planador. Gucky já se encontrava na cabina.

3 Levado por uma inquietude interior para a qual não achava explicação, Rhodan voltou no mesmo dia para Mirta VII. Talvez conscientizado pelas palavras de Ellert, compreendendo agora, claramente, o quanto eram ameaçadores os druufs. Era mais do que tempo de infligir uma derrota significativa aos monstros. Ainda antes de atingirem a velocidade exigida para a transição, Harno lhes trouxe uma imagem do sistema Siamed. Inflada para o dobro do tamanho de uma bola de futebol, a superfície curva mostrou primeiro as naves assediantes do regente. Postadas diante da zona de descarga, tocaiavam as unidades dos druufs que tentavam passar por ela. Rhodan inspirou profundamente ao ver a nuvem cintilante. Lançou um olhar interrogador a Atlan. — Quantas são? Pode dar uma estimativa? O imortal arcônida respondeu: — Trinta mil unidades, pelo menos, entre grandes e 81


pequenas. Também há naves dos saltadores entre elas. Uma frota e tanto! — Não obstante, os druufs dariam conta dela, caso não sejam impedidos — replicou Rhodan. — Acho que atenderemos finalmente os pedidos de socorro do regente. Após refletir um pouco, acrescentou: — Trinta mil naves! Com isso, pode-se conquistar um Universo inteiro. Jamais imaginei que Árcon dispusesse de tamanhas reservas. Na voz de Atlan, havia um tom de orgulho, quando respondeu: — Que aliado será Árcon, quando o reino for novamente governado por um imperador, e não por uma máquina! Harno trocou de imagem. Surgiu Druufon, circundado por vigilantes cruzadores cilíndricos; sua missão era proteger o planeta, já agredido, de futuros ataques. Seria muito difícil romper a poderosa barreira. Talvez até inteiramente impossível. Diante de tão manifesta superioridade, Rhodan imaginou quantas vítimas seriam feitas numa possível batalha. Harno mostrava agora a base subterrânea de Hades. Já haviam sido instalados doze transmissores-receptores de matéria, com alcance máximo de dois anos-luz. O que significava que homens e materiais podiam ser introduzidos no Universo dos druufs, sem ser necessário a nave transportadora passar pela perigosa zona de descarga. Transmissores de matéria...? Na mente de Rhodan, começou a delinear-se um plano tão arrojado e fantástico que não levou a ideia adiante. Mas, afinal, por que não...? Por coincidência, Atlan formulava, no mesmo instante, idéias semelhantes. Tendo em vista a similitude de caráter daqueles dois homens, o fato dificilmente poderia ser atribuído a um acaso. — Também os druufs conhecem o transmissor de matéria, não é? — perguntou Atlan, rompendo o silêncio. Rhodan levantou rapidamente os olhos, dando com o ar indagador de Atlan. De seu sofá, o rato-castor pigarreou. Harno deu sua tarefa por encerrada, “murchou” e subiu para o teto. — Possuem um, pelo menos — confirmou Rhodan, Por quê? Atlan sorriu. — Aposto que sabe por que pergunto bárbaro. Viu tão bem quanto eu a frota bloqueadora dos druufs, e deve ter imaginado uma maneira de chegar à central de cálculos, sem perder metade de seus efetivos na tentativa. Há dois modos: tentar novo acordo, a fim de poder aterrissar, ou atacar abertamente. Fora disso, ainda existe uma terceira possibilidade! — Foi exatamente esta que me ocorreu também — confessou Rhodan, retribuindo o sorriso. — O acordo com os druufs, nos moldes do anterior, está fora de cogitação, já que pretendemos entender-nos com Árcon. Restaria,

portanto, o ataque aberto. E como prefiro contorná-lo, por razões compreensíveis, só nos fica a terceira possibilidade: os transmissores. Não é isso que pensa? — Exatamente, Rhodan! Mas como? Rhodan disse simplesmente: — Ellert-Onot! Atlan acenou em silêncio. Depois se calaram. Apenas ficaram observando o Coronel Baldur Sikermann iniciar a transição que os levaria a Mirta VII, também chamado Fera Cinzenta. *** Ainda na noite do mesmo dia — tempo terrestre — a Drusus decolou novamente, vencendo com uma curta transição o trajeto de vinte e dois anos-luz até a zona de descarga. Distância esta que, meramente por acaso, pouco se modificara, apesar do contínuo deslocamento da faixa de superposição ao longo da Via Láctea. Ela seguia com metade da velocidade da luz; no entanto também o sistema Mirta se movia, com velocidade e rumo idênticos. A Drusus materializou-se bem no meio de uma formação de cruzadores ligeiros do Império Arcônida. Pela reação um tanto indecisa, Rhodan percebeu que se encontrava diante de unidades tripuladas por seres vivos, e não por robôs. Antes que os saltadores — indubitavelmente se tratava dos aliados do regente — pudessem tomar atitude, Rhodan entrou em contato radiofônico com eles. Foi com imensa surpresa que os saltadores constataram estar mais uma vez diante do endiabrado terrano: e mais surpresos se mostraram, quando Rhodan manifestou o desejo de falar com o regente. Asseguraram-lhe que podia fazer contato com Árcon sob a proteção da poderosa frota de batalha, sem o risco de ser molestado. Além disso, Rhodan sabia que os saltadores podiam ouvir igualmente a conversação que iria ser travada. E essa circunstância era a principal razão para sua maneira de agir. Rhodan, Atlan, Reginald Bell e Gucky dirigiram-se para a central radiofônica da Drusus. O receptor do hiper-rádio já estava ligado. A tela oval mostrou o conhecido símbolo do cérebrorobô de Árcon: a imensa semiesfera metálica pousada sobre um pedestal. Simultaneamente se ouvia a gravação da frase captada há semanas: — O regente de Árcon chama Perry Rhodan, o terrano! Nosso inimigo comum ataca com forças superiores! Se não nos aliarmos, estaremos perdidos! Solicito a ajuda de Perry Rhodan! Manifeste-se, Rhodan! A mensagem era repetida ininterruptamente, a breves intervalos. Até então Rhodan não respondera. — Eu já teria enjoado disso há muito tempo — comentou Bell, observando com interesse profissional a semi-esfera. — Claro, você não tem temperamento de robô — esclareceu Gucky, acomodando-se confortavelmente num canto, a fim de observar com exatidão os acontecimentos. 82


— Felizmente...! Sem lhe dar atenção, Rhodan aproximou-se do transmissor. — Aqui, Rhodan! Que proposta tem para me apresentar, regente? Depois aguardaram. Não porque as ondas de rádio necessitassem de algum tempo para percorrer o incomensurável trajeto. Pelo hiperespaço, alcançavam Árcon instantaneamente; captadas pelo equipamento local, eram conduzidas ao regente. O cérebro-robô tinha ampla capacidade para realizar simultaneamente centenas de conversações daquele tipo. Um dos canais receptores ficara permanentemente livre para Rhodan. No entanto, até mesmo o robô precisava de algum tempo para refletir e pesar toda a gama de possibilidades. A pergunta de Rhodan devia tê-lo pegado de surpresa. Apesar disso, dali a cinco segundos, a voz mecânica se fez ouvir na central radiofônica da Drusus. — É você, Rhodan! Meus cálculos me diziam que continuava vivo. Conhece os druufs? — Sim, conheço-os. Que sugere? — Minha frota está em prontidão. Reforce-a com a totalidade de suas naves, para um ataque conjunto. Nós destruiremos os druufs. — Não estou tão certo disso — declarou Rhodan decididamente, percebendo que, mais uma vez, o regente tentava matar dois coelhos com uma cajadada. Aniquilados os druufs, seria a vez da Terra. — Tenho plano melhor! — Se for melhor que o meu, está aprovado. — Destaque uma nave de guerra do tipo Titan para atravessar a brecha, e entrar no Universo dos druufs. A tripulação será formada exclusivamente por robôs guerreiros. Providencie para que pelo menos uma ou duas dúzias deles desçam em Druufon, e desencadeiem uma confusão infernal. Depois de curto silêncio, veio a resposta: — Não vejo sentido nesta ação, Rhodan... — Verá, se continuar a ouvir. — Então fale. Rhodan expôs ao cérebro-robô todo o plano anteriormente discutido com Atlan. Tudo foi dito em poucas frases. A ideia era tão óbvia e lógica que o regente respondeu imediatamente: — O plano é bom; concordo com ele. Receberá o que pede. — Eu espero. As naves dos saltadores os envolviam por todos os lados. Seu número era tão grande que ocultava as estrelas. Rhodan, Atlan e Bell estavam novamente na central de comando. Gucky ficou na sala de rádio. — Estou curioso por ver o que vai acontecer — disse Atlan, afundando com um suspiro na poltrona mais próxima. — Por que não funcionaria? Rhodan não deu resposta, atento em observar, na tela, as naves dos saltadores. Havia alguns cruzadores-robôs entre

elas. Unidades das mais perigosas, pois atacavam sem a menor preocupação com a própria perda. Os tripulantesrobôs limitavam-se a obedecer ordens, e desconheciam o medo. Enquanto esperavam, algumas modificações foram feitas a bordo da Drusus. Um dos imensos porões de carga foi desocupado; era bastante amplo para acomodar vários cruzadores ou outra espécie de material. Passou-se meia hora. E depois, a menos de um segundo-luz da nave, materializou-se um cargueiro. Vindo do hiperespaço, freou assustadoramente perto da Drusus, dando a impressão de catástrofe iminente. Deteve-se bem próximo a ela. Pelo rádio, Rhodan entrou em contato com o comandante. — Trago os robôs de combate pedidos. — Obrigado. Direto de Árcon? — Exato. Ordens do regente. — Ótimo; vou abrir as escotilhas de carga. Pode mandar transferir os robôs. E quanto à segunda exigência? — Uma nave bélica de Árcon está à disposição. Rhodan agradeceu e cortou o contato. O resto era mera rotina. As duas naves foram interligadas com cabos magnéticos. Pela prancha gravitacional, 500 possantes robôs de combate marcharam da abertura do cargueiro para o compartimento de carga da Drusus. Tratava-se de colossos do modelo mais recente, com quase três metros de altura. Na altura do peito possuíam uma protuberância rotativa, eriçada de armas, permitindolhes atirar simultaneamente em todas as direções. Os quatro braços terminavam em radiadores energéticos. Depois de ativado, cada um daqueles monstros metálicos era um inferno ambulante, espalhando fogo e destruição. Bastava programar adequadamente seus cérebros positrônicos. Uma hora depois, as escotilhas foram fechadas, e os cabos desamarrados; as duas naves separaram-se vagarosamente, tomando rumos opostos. Novamente Rhodan entrou em contato com Árcon. — Tudo pronto, regente. Marque o ataque para amanhã. Tempo: meio-dia, hora da Terra. — Tempo já convertido! Tudo entendido! — após imperceptível pausa, o regente acrescentou: — Boa sorte, Rhodan da Terra! — Muito grato — replicou Rhodan, com certa frieza. Não havia razão para supor que o regente expressara tal voto movido por sentimento. Pura vontade de se fazer de bonzinho... A Drusus ganhou velocidade, afastando-se algumas horas-luz da coligação de saltadores e robôs. Depois Rhodan ligou para Hades. O Tenente Stepan Potkin, comandante substituto da base secreta no seio do reino dos druufs, já estava devidamente instruído. Comunicou que o transmissor III se encontrava em prontidão. Rhodan e Atlan dirigiram-se para o compartimento de 83


carga da Drusus. Não era por acaso que ficava vizinho ao transmissor de matéria da nave. — Bem, vamos à viagem — disse Atlan, abrindo a porta da sala. Ao mesmo tempo, disse aos robôs: — os primeiros vinte entram comigo na cabina. Dentro de exatamente dez segundos segue o segundo grupo. Em duzentos e cinquenta segundos, a operação de transferência estará completada. Então receberão nova programação. De pé junto à porta, Rhodan viu Atlan entrar na cabina com os vinte guerreiros mecânicos. Dois segundos após, todos tinham desaparecido. Materializariam-se no mesmo instante em Hades, a dois anos-luz de distância. Os próximos vinte, os próximos.... Com a última leva, também Rhodan deixou a Drusus. Sikermann colocou-se em posição de espera. Seria uma dura prova de paciência para ele próprio, para Bell e Gucky. Especialmente para o rato-castor, impaciente por natureza. Em Hades, tudo decorreu conforme o programado. Enquanto os técnicos tratavam de preparar os robôs para a tarefa em perspectiva, Rhodan e Atlan foram procurar o Capitão Rous, companheiro de Potkin no comando da base. O hangar de Hades abrigava o cruzador ligeiro Califórnia. Marcel Rous pertencia ao grupo de pioneiros na exploração da dimensão temporal dos druufs, muito antes do aparecimento da tal zona de descarga. Mediante um gerador de campo lenticular, tinham conseguido romper a barreira de tempo, proeza que quase lhes custara uma sentença de prisão perpétua no cárcere do tempo. Suspirou de satisfação ao ver Rhodan e Atlan, lhes vindo ao encontro de mão estendida. — Alegro-me, Sir... — Tudo em ordem — disse Rhodan, em tom tranquilizador, apertando-lhe a mão. Atlan cumprimentou igualmente Rous, e, a seguir, Rhodan resumiu os acontecimentos ocorridos na Terra, concluindo: — Precisamos agora de um contato telepático com Ellert. Nem sei como seria possível sem o concurso de Harno. Enfiando a mão no bolso, retirou a bolinha negra. Atlan nem percebera que Rhodan trouxera Harno. — Pode achar Onot? Harno inflou, transformando-se em tela. — Vou tentar — disse o impulso no cérebro dos três homens. Névoas coloridas ziguezaguearam pela superfície curva e leitosa, acabando por condensar-se na imagem de um planeta, que crescia visivelmente. Druufon! No entanto, Harno avançou mais, até o interior do planeta. Todas as instalações importantes dos druufs localizavam-se nas profundezas do solo, resguardadas pela sólida rocha de Druufon. Ali pulsava o coração da poderosa tecnologia que ambicionava sobrepujar até o tempo. Onot aparecia bem em evidência. O físico-chefe dos druufs repousava. Estava deitado, de

olhos fechados. “Portanto”, refletiu Rhodan, “deve ser especialmente fácil estabelecer contato com Ellert, se é que seu espírito não está também dormindo. Será que ele dorme alguma vez?” Rhodan não teve tempo de formular resposta para sua dúvida, pois já sentia o cauteloso tatear de impulsos estranhos em sua consciência — prenuncio da aproximação de Ellert. Também o Capitão Rous e Atlan entenderam o que Ellert dizia: — Seu plano, Rhodan, é muito hábil! Pode ver-me? — Vemos Onot, o cientista. Harno encontrou-o. — Seus pensamentos são fragmentos apenas. Diga coerentemente o que devo fazer, para que engano nenhum comprometa o plano. Eu ouço. Rhodan disse: — A frota do regente de Árcon atacará novamente Druufon; no decorrer da ação, tentará fazer descer uma nave de guerra cheia de combatentes-robôs. Operação que visa apenas fazer camuflagem, pois dificilmente os robôs conseguirão chegar à central de cálculos. Esta parte será reservada aos robôs distribuídos por nossos doze transmissores de matéria. Ligaremos os aparelhos pouco depois do início do ataque arcônida. Seu único encargo será colocar “casualmente” a ligação da estação receptora na central de cálculos, em sintonia com a nossa. Pode fazer isso? — Devo poder, pois afinal eu sou Onot — veio a resposta clara e decidida. — Renovarei o contato a tempo, Rhodan. O plano não pode falhar. Tudo em ordem, fora disso? Rhodan não tinha mais perguntas a fazer. — Fora disso, tudo em ordem, Ellert. Até amanhã... Não houve resposta. Talvez os contatos fossem cansativos para Ellert, e ele evitasse desperdiçar energia desnecessariamente. Atlan perguntou de repente: — E que papel nós desempenharemos na ação planejada? — O Capitão Rous irá conosco, Atlan. Faremos uma visita sem compromisso aos druufs, bem na hora da confusão. Gostaria que continuassem nos considerando amigos... Pelo menos até conseguirmos o segredo da propulsão estelar — Rhodan sorriu, deliciado. — Belo nome, não acha? — E o congelador de tempo? — Um presente que não seria de desprezar, caso possamos obtê-lo — replicou Rhodan, que atribuía pouca importância àquela invenção. — Menos interessante do que a propulsão estelar, com a qual gostaria de equipar nossas naves. Em comparação com os hipersaltos, apresenta uma série de vantagens. — Quando partimos? — indagou Rous, excitado. — Amanhã — prometeu Rhodan. Porém, logo emendou-se: — Receio ter que desapontá-lo, meu caro. 84


Parece-me mais conveniente seguir para Druufon na Drusus. Os druufs já conhecem a nave de guerra, e ela imporá mais respeito do que a insignificante Califórnia. Não leve a mal... — Razões estratégicas pesam mais — declarou Rous, escondendo a decepção. Ou talvez nem sentisse decepção alguma, pois certamente aquele vôo infernal não constituiria prazer algum. Rhodan deu-lhe as derradeiras instruções, a fim de assegurar a perfeita coordenância de horários, e retornou com Atlan e Harno para junto do Tenente Potkin, que dirigia a programação dos robôs. — Iniciarão sua tarefa destrutiva, assim que pisarem na central de cálculos subterrânea dos druufs. Cada um destes robôs-combatentes possui a força de fogo nuclear de um pequeno destróier. Quando imagino os 500 em ação simultânea... — Melhor não pensar nisso — aconselhou Rhodan, contemplando as máquinas enfileiradas. Semelhavam-se a seres pré-históricos e, no entanto, faziam parte de um futuro recém iniciado para a Terra. Harno desceu, deixando que Rhodan o colocasse no bolso. Parecia sentir-se bem lá dentro, evidentemente. Rhodan nem sentia seu peso. — Retornaremos ainda hoje para a Drusus, permanecendo em contato através do hiper-rádio. Assim que a frota de Árcon atacar, amanhã cedo, começa nossa grande partida contra os druufs. Espero que eles não recusem participar do jogo! — É disso que tudo depende — comentou Atlan. Porém a opinião de Rhodan era diversa. — Ora, não fará diferença. De uma ou de outra maneira, nossos quinhentos lutadores alcançarão a central de cálculos, arrasando tudo à sua frente. Porém isso me colocaria na posição de inimigo dos druufs, o que eu lamentaria imensamente. Atlan não respondeu. Acompanhou-o calado até o transmissor que os levaria de volta para a Drusus. Continuava cético, fiel à sua natureza. *** Ainda lhes restavam quatro horas até o começo do ataque. Após repousante sono, Atlan e Gucky chegaram quase juntos ao camarote de Rhodan. Bell já estava presente, sonhadoramente reclinado num assento. Gucky se encaminhou para lá, e, num salto, se instalou ao lado do amigo. Aconchegou-se a Bell, sem ligar para seu olhar meio desconfiado. Rhodan tomara o desjejum, e sentia-se bem disposto. O plano estava traçado, e nada podia alterá-lo. Tinham diante de si quatro horas ociosas, sem maiores preocupações. Sob o teto flutuava Harno, o enigmático ser de energia e tempo, reduzido a uma inofensiva bola. Atlan tomou lugar diante de Rhodan.

— Agora falta pouco, bárbaro. — Em determinadas circunstâncias, quatro horas podem representar longo espaço de tempo... A Drusus ainda se mantinha a alguma distância da frota espacial de Árcon. A menos de um ano-luz de distância, tremeluzia a zona de descarga. Imóvel em relação à Drusus, à frota e ao sistema solar do Universo relativista; porém, na realidade, deslocava-se com metade da velocidade da luz através do Universo. Unicamente graças a este acaso permanecera estável por tanto tempo. Durante os fugazes contatos entre os dois Universos, estas zonas de superposição duravam apenas horas ou dias. Às vezes, até poucos segundos. — Sinto-me contente com a pausa — confessou Rhodan. — As derradeiras horas e dias foram verdadeiramente exaustivos. E não sei se o futuro será mais tranqüilo. — Dificilmente — opinou Atlan. Lançou um olhar a Bell, ocupado em acariciar a nuca de Gucky. — Até nosso rotundo amigo vai demonstrar inesperada lepidez em breve. Bell não reagiu à provocação. — Lepidez...? Que bela palavra, almirante! Mas acho que está enganado. Que tenho eu a fazer? O trabalho principal caberá aos robôs, e a Ellert — estacou, como se a menção do nome lhe recordasse algo. — Aliás, será que ainda teremos novas de Ellert? — Claro que sim, mas só alguns minutos antes do ataque, ou no decorrer da ação. Vai depender da oportunidade que ele tiver. Rhodan calou, olhando para o alto, como se quisesse perguntar algo a Harno. No entanto, nada disse. — Por que não pergunta Rhodan? O impulso mental penetrou em todos os cérebros. Por um instante, Rhodan revelou certo constrangimento por ver-se descoberto, mas logo sorriu, sacudindo a cabeça. — Não devia ser tão indiscreto, Harno! Sabe muito bem o que queria perguntar-lhe. E não é de hoje... Responda se quiser! — Quer saber se posso fazer mais do que refletir imagens. Claro que posso, Rhodan, desde que tenha a devida permissão! Há coisas que até a mim são proibidas. — Proibidas... por quem? Era a mesma pergunta que Harno já deixara de responder certa vez. Poderia ou quereria respondê-la algum dia? — Por aquele que já encontraram. Rhodan ergueu os olhos para o teto. Desistiu de novas perguntas, adivinhando que Harno se envolveria em silêncio. Ao contrário de Bell, mais desinibido. — Que quer dizer? Já encontramos tanta gente... — Não pode classificá-lo de gente — corrigiu Harno, silenciosamente, mas em tom enérgico. — Trata-se de um ser de inimaginável inteligência, imortal como eu, porém infinitamente mais sábio e poderoso. Seu lar é o Universo todo, e nutre-se da luz das estrelas. 85


— Parece que vocês dois têm muito em comum — disse Bell, pensativo. — Também você vive da luz das estrelas. Tira delas energia, e a capacidade de ser como é. Afinal, o que vem a ser você? Gucky observou, constrangido: — Sua curiosidade chega a ser inconveniente gorducho! Antes que Bell pudesse replicar, Harno comunicou: — Já mencionei uma vez que a curiosidade gera o conhecimento. Portanto, não levem a mal a curiosidade de Bell. Afinal, minhas respostas não dependem dele, mas sim do que me permitem ou não falar. Sim, sou aparentado com ele, com o ser onipotente que por sua vez também conhece limites. Aquele que não tem limites nem sequer eu conheço. Jamais alguém o verá de perto. Rhodan percebeu que a conversa tomava rumo perigoso. — Deixemos isso de lado — disse, categoricamente. — Harno falará quando julgar oportuno. O que, no entanto, não me impede de querer conhecer suas capacidades, Harno. O que, além de qualquer recanto do Universo, pode mostrar-nos? — Como se isso não bastasse! — veio a réplica um tanto irônica. — Que quer que eu possa? Aquilo pegou Rhodan de surpresa, deixando-o quase sem ação. Recuperando-se, formulou de maneira mais generalizada sua questão: — Pode alterar a forma esférica de seu corpo caso necessário? Isto é, poderia tomar a forma de um cubo, em vez de uma bola? Nas suas mentes ecoaram risadas. Realmente, Harno estava rindo! Externamente a bola não apresentava modificação alguma, mas era indubitável que ria da pergunta de Rhodan. — Também Harnahan queria saber por que eu tinha formato de bola. Disse-lhe que, conforme todo mundo sabe, a esfera é a mais perfeita das formas. Claro que posso me transformar num cubo se for necessário! — Obrigado, Harno! Vou-me lembrar disso na devida ocasião. E talvez ela se apresente mais cedo do que esperamos. Uma pergunta adicional, ainda: pode voar acima da velocidade da luz sob qualquer forma? — Posso, sim! — É tudo que eu queria saber, Harno. A sede de sabedoria de Rhodan estava satisfeita. Só aos poucos, os demais foram tomando consciência da imensa significação contida no que acabavam de ouvir. Seus olhares espantados prenderam-se ao teto, onde flutuava a pequenina e insignificante bola. Apenas Gucky relevou a tensão numa observação zombeteira. — Conforme constataram, não é a forma física que importa, mas sim o que esta dentro dela. Bell é enorme por fora, enquanto eu sou pequeno. A conclusão lógica seria... Em seus cérebros, Harno ria gostosamente. *** O físico-chefe Onot não vinha se sentindo bem há

algum tempo. O mal-estar começara há três ou quatro meses. Inicialmente, dores de cabeça. Depois começou a perder a consciência — por instantes, segundo lhe parecia. No entanto, ao consultar posteriormente o relógio, constatava que havia passado horas inteiras. Onot evitou cuidadosamente cientificar o venerável Conselho dos Sessenta e Seis de suas observações; além disso, uma voz íntima se opunha à noção de que alguém tomasse conhecimento de sua doença. Tratar-se-ia realmente de doença? Pois havia sintomas paralelos que intrigavam Onot. Muitas vezes, quando se achava sozinho em seu laboratório, ocupado com as misteriosas experiências com o tempo, tinha a nítida impressão de estar sendo observado. Como se não estivesse mais sozinho, com alguém espiando por cima do ombro. E a presença invisível exercia incrível influência sobre seu modo de pensar. De alguma forma, o fato devia ter relação com suas experiências. Afinal, analisava o problema tempo, e não seria de admirar se algum dia topasse com seres ou objetos vindos do passado ou do futuro. Por outro lado... Cientista objetivo, e o melhor de sua raça, aliás, Onot jamais poderia acreditar em assombrações. Não estava doente. Simplesmente não podia estar doente! De maneira alguma deveria adoecer! Onot encontrava-se em seu laboratório. Sabia que lá fora a situação chegava a um estado crítico. A zona de descarga no Universo há tanto tempo prevista por ele, se tornara realidade, assegurando por longo prazo acesso à outra dimensão temporal. A superposição progredira, mas ninguém — nem sequer ele próprio — poderia prever a duração deste estado de coisas. Ao mesmo tempo ela trazia um risco. Assim como os druufs podiam sair de seu Universo, os estranhos da outra dimensão podiam penetrar no reino de Druufon. E fora exatamente o que acontecera. Onot sorriu sarcasticamente. Os invasores não podiam ter escolhido ocasião mais apropriada. Sua invenção estava pronta e testada. No devido momento poderia transformá-la numa arma capaz de conquistar vias lácteas inteiras. Além disso, a frota convencional dos druufs era suficientemente poderosa para rechaçar qualquer adversário. Sabia que, naquele preciso momento, as potentes naves de guerra se organizavam para atacar a frota de robôs, que bloqueava a entrada da zona de descarga. Em Druufon haviam sido feitos preparativos para receber “condignamente” qualquer unidade, que escapasse aos defensores. Ao ligar pela derradeira vez o gerador que ativava o campo do congelador de tempo, sorria ainda. Nenhum sinal exterior denotou o fluxo de energia através da complexa aparelhagem; e a radiação distribuída pelo refletor no teto era invisível. Desta forma, apenas parte do recinto ficava sob a influência do campo de tempo. Uma seção circular, com cerca de dez metros de diâmetro. 86


Onot deu um passo para frente, e pôs a mão no bolso do amplo jaleco. Retirou-a de punho fechado. Abriu-o cautelosamente, certificando-se de que o pequenino micar, um animal parecido com rato, ainda vivia. Os micars eram amplamente usados para experiências. — Nada vai lhe acontecer — murmurou para o trêmulo bichinho, em tom conciliador. — De certa forma, você se tornará até imortal, pois o tempo vai passar milhões de vezes mais devagar para você. Mas só se eu deixar o campo de tempo ligado tanto assim... Riu estrepitosamente, mas ouvidos humanos seriam incapazes de captar tanto sua gargalhada, quanto as palavras pronunciadas depois: — E agora, divirta-se... Descrevendo amplo arco com o braço, lançou o esperneante micar para dentro do invisível campo de tempo. Primeiro o micar voou e depois quedou imóvel no ar, sem executar mais o menor movimento. Como se tivesse sido pregado no nada, ou imobilizado por súbito encantamento. Parecia morto, aprisionado no interior de um bloco de gelo. Ficou suspenso no ar, a menos de cinco metros de Onot. O físico-chefe contemplava-o com satisfação, mas sem surpresa alguma, pois era exatamente este o resultado que esperava. O micar vivia agora em outra dimensão temporal, criada artificialmente. Antes que completasse um movimento respiratório, ou caísse ao solo. Inteiramente desamparado, encontrava-se à mercê do druuf, invisível para ele. O mesmo sucederia a qualquer ser vivo atingido pelo campo de tempo de Onot. Um gerador de dimensões apropriadas poderia subjugar um mundo inteiro. Um único detalhe aguardava solução: como atingir o adversário indefeso sem cair igualmente sob a influência do campo de tempo? Era este o problema que Onot ainda precisava resolver. O cientista encaminhou-se para o painel de controle. Com alguns gestos, ativou o indutor de choques entrementes construído. Seria absurdo penetrar no campo de tempo, evidentemente, pois, no mesmo instante, o invasor estaria sujeito às condições ambientes. Teria diante de si um adversário inteiramente normal. O mais certo era tentar matar, ou pelo menos atordoar, o inimigo paralisado, sem incorrer em risco. Depois o campo de tempo poderia ser desativado novamente, e o conquistador tomaria posse do mundo dominado. Quando a tela acusou o impacto do indutor de choque, o micar continuava suspenso no mesmo ponto. Onot deixou-o atuar por dez segundos antes de tornar a desligá-lo. Trêmulo de excitação, voltou à posição inicial, e pousou a mão sobre a alavanca que interrompia o campo de congelamento de tempo. O micar precipitou-se no chão, caindo de dois metros de altura, como se uma mão invisível o tivesse soltado de repente. Onot apressou-se a recolher o animalzinho,

levando-o até bem perto dos olhos. Viu a pele fremir sob o efeito das pulsações do diminuto coração. O micar vivia, porém estava inconsciente. Onot suspirou de satisfação. A experiência tivera completo êxito. As ondas de choque, especialmente neutralizadas, não eram influenciadas pelo campo de tempo; atravessavam-no em velocidade normal. O que significava que se poderia alcançar e influenciar qualquer objeto desejado sem ser forçado a pisar na zona perigosa. Assim o problema estava resolvido. Onot triunfara. Agora era só convencer o Conselho a liberar os recursos necessários para a construção de um gerador gigante, e sua invenção poderia ser produzida em larga escala. Não teria dificuldade em consegui-los. Mal acabou tal reflexão, tornou a sentir a dolorosa pressão no cérebro. Mera estafa, talvez. Não se preocupou muito no momento; decidiu ir para sua moradia privada, anexa ao laboratório. Estava tão cansado e exausto... “Andei me excedendo no trabalho”, pensou. Vislumbrou com satisfação a ampla cama. Sem sequer fechar a porta, jogou-se sobre o leito e fechou os quatro olhos. Adormeceu instantaneamente. *** Todos estes acontecimentos se deram simultaneamente. O Conselho dos Sessenta e Seis deliberava na arena. Desta vez, os representantes do povo haviam sido admitidos, pois discutia-se a necessidade de um ataque imediato. Os adversários vindos do outro Universo precisavam ser rechaçados, e, além disso, aniquilados. A passagem para a dimensão temporal do outro Universo não podia ficar bloqueada. A sessão foi rápida e sem atritos. As propostas dos sábios foram unanimemente aprovadas e sancionadas pela assembléia. Os comandantes de esquadrão receberam ordens de deixar suas naves em rigorosa prontidão, e decolar dos hangares subterrâneos ao primeiro sinal. Druufon passou a ser uma fortaleza armada até os dentes. Em todos os pontos do planeta, os canhões até então ocultos emergiam do chão; apontavam ameaçadoramente para o céu luminoso, no qual o sol gêmeo rubro-verde desenhava estranhos reflexos. Entraram em ação as gigantescas instalações destinadas a produzir inimagináveis quantidades de energia, a ser liberada durante a batalha. Druufon preparava-se para aniquilar Árcon. Por puro acaso, a frota robô do regente recebia no mesmo momento ordem de ataque. Aquilo poderia significar o fracasso total para Rhodan, mas também a vitória garantida. Ninguém saberia dizer ao certo. Nem mesmo Ellert. 87


4 Precisamente ao meio-dia, hora da Terra, a imensa nave esférica se pôs em movimento, e acelerou para a velocidade da luz. Não levava ser humano algum a bordo, mas apenas robôs guerreiros do último tipo. Modelos idênticos aguardavam a vez de entrar em ação, nos transmissores de Hades. A nave era teleguiada, e condenada ao extermínio a partir do momento da decolagem. Simultaneamente, a frota completa do regente avançou para a brecha no Universo, a fim de executar o ataque simulado a Druufon. Durante a confusão generalizada provocada por este ataque, esperava-se conseguir o desembarque do carregamento de robôs no planeta natal dos druufs. Rhodan ficou de prontidão com a Drusus na retaguarda da linha de combate. O sistema radiofônico estava ligados, e sintonizados na frequência dos druufs. Portanto, poderiam entrar em contato imediato com eles no momento oportuno. Primeiro, no entanto, era necessário fazer outro contato. Rhodan tentara em vão conseguir comunicação telepática com Ellert. Gucky falhara, por mais que se esforçasse. Harno captara a imagem de Onot, porém o físico-chefe estava aprofundado numa experiência; esta, evidentemente requisitava toda sua atenção, impedindo que o espírito de Ellert encontrasse oportunidade de libertar-se. Contratempo quase funesto, pois dentro de uma hora — ou até antes — Ellert deveria ligar o receptor dos transmissores de matéria na central de cálculos dos druufs, e pôr-se a salvo em tempo. Rhodan olhava ansioso para Harno. Viu nitidamente Onot jogar um pequeno ser vivo no campo de tempo, matar ou atordoá-lo com outro aparelho, depois desligar o campo, e recuperar o animalzinho. A frota de Árcon precipitou-se através da zona de descarga para o espaço dos druufs. Chocou-se com o poderio bélico dos entes do outro Universo, desencadeando um conflito sem paralelo nos anais das raças civilizadas. Única em sua ferocidade, a batalha espacial jogava milhares de naves umas contra as outras. Incontáveis armas energéticas cuspiam fogo e destruição, rompiam anteparos protetores e estraçalhavam fuselagens de decímetros de espessura. Grandes e pequenas naves rachavam ao meio, derretiam-se no espaço, ou se vaporizavam em nuvens radiativas. Rhodan não prestou atenção ao espetáculo. O objetivo mais urgente era comunicar-se com Ellert. Senão tudo estaria perdido. Onot, conforme lhe revelava a superfície de Harno, concluíra sua experiência. Impossível saber se tivera êxito ou não, pois os impulsos mentais do cientista chegavam fracos e indistintos. Depois Onot foi para seu quarto e deitou-se, parecendo

pegar no sono instantaneamente. “Bem”, pensou Rhodan, “agora Ellert vai poder se libertar.” Sua suposição foi imediatamente confirmada. — Perry Rhodan...? Ouve-me? — Graças a Deus! — exclamou Rhodan, aliviado, em voz alta. — Já era mais do que tempo, Ellert! O que houve? — Onot era mais forte do que eu; agora deixou de ser. Subjuguei sua mente, e apoderei-me do corpo. Harno pode me ver? — Pode, sim. — Muito bem, então vou agir. Irei até a estação de transmissores e ligarei o receptor. Quanto tempo terei para pôr-me em segurança? O corpo de Onot ainda não pode ser destruído, a fim de impedir que sua mente se perca. Apenas ele é capaz de revelar-nos o segredo da propulsão estelar. — Por que não colhe as informações necessárias no cérebro dele? — perguntou Rhodan, sem compreender por que Ellert ignorava os dados técnicos. — Seria cansativo demais para mim. Quanto tempo terei, portanto? — Cinco minutos exatos, caso ligue o receptor no preciso instante em que o primeiro robô combatente desça em Druufon. Pois é quando o Tenente Potkin vai ligar os transmissores em Hades. Não esqueça Ellert: cinco minutos! — São suficientes! Espero até que os primeiros robôs transportados na nave pisem o chão de Druufon, depois viro a chave. Quanto a mim, vou procurar atingir a superfície a tempo; espero estar mais seguro lá! — A central de cálculos não possui saída subterrânea? — Claro. Acha que é mais garantida? — Sem dúvida! Harno o acompanhará constantemente. Não receia que Onot torne a readquirir a superioridade? — Não, agora não vai conseguir mais! Torno a comunicar-me. Depois Ellert calou. Bell troçou, aliviado: — Este sistema de comunicação telepático-visual, sem interferência de recursos técnicos, é muito interessante. Jamais dá defeito em válvulas... Fitou a tela da Drusus, que abria caminho através dos esquadrões em luta, canalizando toda a energia disponível para os anteparos protetores. Em consequência, o cruzador esférico não tardou a adiantar-se às primeiras naves de Árcon. — Espero que não cheguemos antes da aterrissagem dos cinco mil robôs, também... — Não se preocupe — tranquilizou Rhodan. — O carregamento já deve estar sobrevoando Druufon. Se tudo der certo... Nem tudo deu certo! *** Se bem que todas as naves utilizáveis tivessem deixado Druufon, para lançar-se contra os invasores, os druufs não 88


estavam desprovidos de alternativas. A defesa terrestre entrou em atividade, assim que surgiu a imensa nave esférica de Árcon, entrando em órbita em torno do planeta. Inicialmente o bombardeio foi retardado, por suporem que podia tratar-se da nave de Rhodan. Porém depois o Conselho regente foi notificado, por um observador, de que esta surgira por trás da frota atacante de Árcon, ultrapassara o front, e rumava para Druufon. O Conselho expediu imediatamente ordem de atacar. Ainda desconheciam as intenções do cruzador esférico com sua tentativa de aterrissagem. As salvas de disparos energéticos ricocheteavam nos anteparos protetores da esfera, resvalando para os lados. Porém, instantes depois, o fogo se concentrou em ponto previamente determinado, rompendo a defesa. Os raios energéticos precipitaram-se adiante, atingindo seu alvo: a fuselagem desprotegida da nave agressora. E então se deu o imprevisto. Da nave começou a cair uma chuva de robôs. De todas as aberturas disponíveis, os robôs arcônidas programados saltavam para profundidade incerta, providos de aparelhos antigravitacionais, e projetores individuais de campos protetores. Estes não resistiam a fogo concentrado, mas repeliam eficazmente, com raios energéticos, isolados e mais fracos. Conjuntos motrizes reduziam a velocidade de translação dos robôs, imediatamente atingidos e atraídos pela elevada gravidade de Druufon. Porém os conjuntos motrizes tinham uma função adicional: evitar que seus possuidores descessem em regiões desabitadas, mas sim em plena capital ou imediações. Se chegassem a descer! O potente sistema de defesa de Druufon funcionou esplendidamente. Robô após robô era abatido, precipitando-se descontrolado ao solo, onde se desintegrava numa explosão atômica. Outros caíam no mar e afundavam. Alguns se descontrolaram. Seus conjuntos motrizes não obedeciam mais às ordens constantes da programação, e aceleravam continuamente; em consequência, o robô disparava em alucinante velocidade espaço a fora. Torpedos de caça perseguiam-nos, acabando com eles. A nave esférica, por sua vez, continuava a contornar Druufon, porém, evidentemente, incapacitada de manobrar. Limitava-se a flutuar, mantida em equilíbrio pela lei da gravidade e da força centrífuga. Caças espaciais rapidamente mobilizados não tiveram dificuldade em alcançá-la e transformá-la em destroços. Durante a ação, evidenciou-se que não era pilotada sequer por robôs. No entanto, alguns dos robôs acabaram conseguindo chegar ao solo intatos. Assim que sentiram chão firme sob os pés, os pesados cinturões armados entraram automaticamente em ação. Disparavam em todas as direções, causando pavorosa destruição, até serem silenciados por canhões energéticos. Pelo visto, o ardil inimigo de enfraquecer internamente as defesas de Druufon tinha fracassado redondamente.

O Conselho dos Sessenta e Seis suspirou de alívio. Até que chegou a notícia fulminante. *** Mas, dez segundos antes da notícia fulminante, outro fato aconteceu. Todas as estações radiofônicas de Druufon captaram o intenso sinal de Rhodan. Como era conhecido, ligaram os aparelhos tradutores. Então se tornou compreensível a mensagem irradiada por Rhodan: — Aos druufs! Os robôs planejam atacar a terra pátria de vocês! Atenção! Nave com cinco mil robôs a caminho! Pretendem destruir a central de cálculos! Corro a acudir vocês! Permitam-me aterrissar! Rhodan, Terra. Era este o conteúdo textual da mensagem universalmente captada em Druufon, e imediatamente difundida. Por instantes, o Conselho dos Sessenta e Seis transformou-se num conselho de desorientados. Porém não havia muito tempo para refletir. Pois mal haviam digerido o aviso de Rhodan, perguntando-se intrigados por que teria vindo um pouco tarde demais, o interior de seu planeta se transformou em vulcão. O solo da cidade começou a tremer. *** Onot acordou. Esfregou os quatro olhos e ergueu-se. “Ora, por que peguei no sono? Ah, tinha acabado de realizar a experiência... Comprovei ser realmente possível...”, pensou, recordando-se. “Essas dores de cabeça, novamente... Talvez sejam elas as causadoras de meu cansaço. Logo agora, que eu precisava agir, a fim de comunicar ao Conselho o êxito da minha experiência.” Precisava mesmo...? Repentinamente aquilo já não lhe parecia tão urgente. Havia coisa muito mais importante. Lá na estação do transmissor... Ergueu-se a custo, vacilando sobre as pernas informes. O carro elétrico conduziu-o ao destino, percorrendo corredores brilhantes e bem iluminados. O transmissor de matéria, excelente modelo experimental, ficava no seio da seção científica; esta, por sua vez, vinha a ser ponto central de todo o serviço de cálculos. Onot desembarcou tranquilamente do veículo, e tomou seu caminho. Detestava andar a pé, porém ali não lhe restava outra escolha. A estação ficava afastada do corredor principal, e só podia ser alcançada através de passagens secundárias. Alucinantes dores de cabeça impediam-no de pensar claramente. Afinal, o que queria na estação? Não sabia, e desistiu de aprofundar o assunto. Por que, afinal? Alguma coisa... Cruzou com outro druuf, que perguntou silenciosamente: 89


— Já soube Onot? Os estranhos tornaram a atacar. Já seria tempo de fazê-los provar sua nova arma. — Nova arma...? Ah, sim, o congelador de tempo! Sim, sim, você tem razão! Mas preciso ir... não disponho de tempo agora... O druuf contemplou surpreso Onot. — Não dispõe de tempo? Afinal, que faz aqui em meu departamento? — Preciso... Onot estacou. “Sim, de que preciso mesmo?”, pensou martirizado. “Se pudesse lembrar!” — Você precisa de quê? — O transmissor de matéria... Funciona? — Claro que funciona, basta ligá-lo! Que quer com ele? Não é hora de andar fazendo experiências. Só não sei se está sendo usado no momento. O ataque dos robôs... — Os robôs atacam? Já aterrissaram? O druuf fitou Onot com espanto ainda maior. — Ora, de onde tirou tal ideia? Robô nenhum aterrissou! As naves é que estão atacando, só isso. Mas são tripuladas por robôs. De alguma forma, Onot sentiu imenso alívio, sem saber por quê. Só precisava ligar o transmissor depois da aterrissagem dos robôs, e então lhe restariam cinco minutos para pôr-se a salvo. — Foi o que eu disse — replicou Onot, continuando a andar. O druuf lançou-lhe um olhar admirado, depois revirou os olhos, e prosseguiu também em seu caminho. Onot alcançou a estação, e certificou-se de que o receptor se encontrava em ordem. Poderia ligá-lo naquele mesmo instante, porém corria o risco de aparecer alguém para tornar a desligá-lo. De maneira alguma isso poderia acontecer. E como faltavam ainda cinco minutos para a chegada dos robôs, era melhor não perder o aparelho de vista. Onot estremeceu. Robôs...? Que sabia ele de robôs? Teria enlouquecido subitamente? Que estava fazendo ali, afinal? Será que não tinha ocupação suficiente em seu setor...? Sentiu a intensa pressão no cérebro; logo em seguida, teve a sensação de que alguém empurrava sua consciência para o lado. Sim, exatamente isso. Mas ainda não foi tudo. Pela primeira vez, escutou a voz. Dizia-lhe mudamente: “Não há mais outro jeito, Onot! Precisa saber finalmente quem sou, e que já moro dentro de você há muitos meses, coabitando com seu espírito. Sou mais forte do que você, e, daqui por diante, terá de obedecer-me. Em caso contrário, abandono você, levando sua vida comigo.” Onot sentiu-se invadido por um terror mortal. Não acreditava em fatos sobrenaturais, mas aquela voz muda e

insistente não era ilusão dos sentidos. Era tão real quanto ele próprio. — O quê... onde está você? “Dentro de você, Onot. Sou um intelecto como você, mas perdi meu corpo. No decorrer de minha incessante peregrinação através do tempo, encontrei-o. Ajudei-o a construir o congelador de tempo. Não lhe parece razão suficiente para me ser grato?” — Ainda não consigo compreender... “Chame-me Ellert, Onot. Compreenderá algum dia. Se não compreender, morrerá, quando eu o abandonar. Porém agora não temos mais um segundo a perder. Ligue o transmissor dentro de exatamente um minuto!” — A estação receptora? — Onot reagia com todas as forças à influência estranha. — Não o farei enquanto não me disser por que quer me forçar a isso. “Pois vou forçá-lo, não tenha dúvida. Tenho poder sobre seu corpo, seus nervos, seus músculos. Posso mandar seu coração parar, Onot! Ainda lhe restam trinta segundos!” As indicações de tempo obedeciam, evidentemente, aos padrões dos druufs. Onot sentiu a mão direita levantar-se e tocar a chave que permitiria a entrada de energia. Ordenou ao cérebro que mandasse a mão descer. Ela se crispou em torno da chave. “É inútil, Onot”, veio o impulso um tanto zombeteiro de Ellert. “Além disso, é mais conveniente que me obedeça, pois dentro de cinco minutos isto aqui vai virar um inferno. Precisa colocar-se em segurança, caso queira sobreviver. Eu, Onot, poderei salvar-me, pois não necessito de seu corpo para continuar existindo.” A mão hesitou ligeiramente, e virou a chave. Logo depois, se fez sentir a vibração que denotava o funcionamento do receptor. “E agora, pernas para que te quero, Onot! Deixe de bobeira! Há um carro esperando no corredor principal. Em cinco minutos ele pode nos deixar bem longe daqui.” Onot desandou a correr, sem ter recuperado o controle sobre si mesmo. Bem que gostaria de saber que relação havia entre o transmissor e os robôs, porém preocupava-se muito mais com o problema do inimigo invisível que se apoderara dele. Poderia ver-se livre dele algum dia? Jogou-se para dentro do carro com todo o peso do corpo. As cabinas corriam sobre trilhos eletrônicos, interligando as estações e centrais subterrâneas. Atingiam velocidade de mais de mil quilômetros horários. Acionou a alavanca motora, levando-a ao ponto máximo. Depois se recostou, e fechou os olhos. Ellert isolou o cérebro de Onot, e entrou em contato com Rhodan. — Transmissor ligado! — Pelo menos cinqüenta dos robôs aterrissados ainda funcionando — respondeu Rhodan, imediatamente. — Vão pensar que conseguiram chegar aos subterrâneos, quando os 90


fogos de artifício começarem a estourar por lá. Acabei de irradiar meu aviso aos druufs, e vou pousar. Mantenha-se em contato, Ellert! Onot encontrava-se a oitenta quilômetros da central de cálculos, quando o chão começou a tremer debaixo da cidade. Pouco sentiu os tremores, pois já se encontrava na superfície no momento em que as ondas de choque atingiram o ponto em que se encontrava. *** O Capitão Rous e o Tenente Potkin esperavam ansiosos junto aos transmissores. Devidamente sintonizados, os doze aparelhos seriam ativados por um único botão, todos ao mesmo tempo. A tela tremeluzia inquieta. Reproduzia a freqüência elétrica do sol gêmeo Siamed. Conferia com a de Rhodan. A ordem poderia vir a qualquer instante. Os robôs aguardavam no interior das cabinas, mais de quarenta em cada uma. Haviam sido programados. Sua ação destrutiva começaria exatamente no instante em que desembarcassem das cabinas na central de cálculos dos druufs. Liberariam todo seu potencial de energia, até eles próprios serem consumidos pelo fogaréu produzido. Rous mordeu os lábios — Raios, que demora! Potkin manteve-se aparentemente sereno, de acordo com seu hábito. — Nada podemos fazer a respeito. Rhodan deve saber por que aguarda. O golpe contra Druufon consta de uma série de acasos, artificialmente arquitetados. Nossa atuação é um deles, e não devemos entrar em cena nem cedo, nem tarde demais. — Sim, sim, já sei! — replicou Rous, irritado. Estava a ponto de perder a paciência; porém não realizava aquela empreitada sozinho, e não lhe competia tomar decisões. Não fora em vão que lhe haviam dado por companheiro o sereno Potkin. A tela modificou-se de repente. Via-se agora um rosto. — Rous! Potkin! Tudo pronto? — Chegou a hora? — gritou Rous, levando a mão à chave do transmissor. — Contato dentro de dez segundos, exatamente! — replicou Rhodan, com a maior calma. Potkin lançou um olhar de advertência a Rous. Cinco segundos ainda... quatro... três... dois... um... agora! O Capitão Rous ativou os transmissores, e quando olhou para as cabinas, estas já se encontravam vazias. Despachara dali um inferno concentrado! Voltando novamente o olhar para a tela, não viu mais o rosto de Rhodan. Rhodan sabia muito bem que risco enfrentava ao preparar-se para pousar no espaçoporto de Druufon. Os restos destroçados dos robôs guerreiros jaziam por todo canto. O concreto apresentava inúmeros buracos. Não havia mais nenhuma nave. A frota inteira se encontrava

engajada na luta contra os agressores, tentando repelir e destruí-los. A Drusus pousou. Em algum ponto da cidade, houve uma detonação, e a onda de choque varreu o espaçoporto. À luz do meio-dia, brilhou um relâmpago mortiço. Uma escura nuvem de fumaça subiu vagarosamente no ar; o vento carregou-a para longe da cidade. Bell hesitava: — Deus nos acuda se esses caras desconfiarem de alguma coisa! — Quando descobrirem, estaremos longe demais — replicou Rhodan, displicentemente. No entanto, não se sentia tão seguro quanto fazia crer. Os druufs poderiam ter suspeitado. Seu aviso chegara com dez segundos de atraso. — Por que lhes passaria pela cabeça que estamos jogando falso? Gucky aproximou-se, bamboleando. — Ao contrário, estão muito satisfeitos com nossa chegada — anunciou. Certamente andara vigiando telepaticamente os governantes druufs, e devia saber o que dizia. — Neste momento, eles quebram a cabeça, tentando saber de que jeito alguns dos robôs desembarcados conseguiram penetrar na central de cálculos. Foram informados de que houve luta lá. Harno desceu do teto e transformou-se em tela. — Dêem uma olhada à central dos druufs. Seguiram o conselho, e tiveram ocasião de presenciar as cenas desenroladas nas profundezas do solo. Os robôs iam saindo da cabina, iniciando imediatamente sua obra de destruição. Alguns deles já deviam ter começado antes, pois incessantes ondas de choque rugiam pelos corredores, provocando enormes fendas nas paredes. Detonações faziam ruir geradores, e alas inteiras de máquinas. Para sorte dos druufs, a central de cálculos era quase toda automática, exigindo pouco pessoal. Portanto, a destruição se concentrava nas instalações técnicas. Porém aquilo era mais do que suficiente. — Obrigado, Harno, já vimos bastante. Quer dizer que o plano deu certo. Os druufs foram privados de sua central científica, e muito merecidamente, já que aplicam seus conhecimentos quase exclusivamente para fins bélicos. Foi um golpe magistral, enfraquecemos sensivelmente seu sistema de defesa. Resta saber até quando... Atlan, até então mudo, expressou seu ponto de vista: — Espero que nossa intervenção tenha chegado a tempo de salvar a frota de Árcon do aniquilamento total. Pois chegará o dia em que necessitaremos desesperadamente dela! Sem encará-lo, Rhodan respondeu. — Penso como você, Atlan. Porém não havia outra maneira de conter os druufs, e enfraquecer o regente. A não ser que nós próprios quiséssemos cuidar de ambas as tarefas. E sabe tão bem quanto eu quais teriam sido as consequências nesta hipótese. Atlan acenou. 91


Harno tornara a subir para o teto, e aguardava. — Irei com Bell e Gucky — disse Rhodan. — Isso nos possibilitará uma rápida fuga teleportada, em caso de emergência. — Posso transportar ambos de uma vez — afirmou o rato-castor, com justificada autoconfiança. Não seria a primeira vez que levava duas pessoas num salto teleportado. — Claro que com um é mais fácil, mas com dois também dá. Apesar de Bell contar por pessoa e meia, com o peso que tem... — Perdi dois quilos nas últimas semanas — protestou Bell, muito suscetível neste ponto. — Facilitará sua tarefa. — Pô — caçoou Gucky. — Como se dois quilos fizessem diferença em você! E com toda a certeza, perdeuos no lugar errado. Bell bateu na barriga. — Aqui, meu velho! — Ainda bem — disse Gucky. — Eu temia que fosse aqui... E apontou para a cabeça de Bell. Antes que Bell pudesse agarrá-lo, Gucky fugiu com um pulo. Rhodan interrompeu o alegre bate-boca. — Desceremos da Drusus normalmente, por uma das escotilhas, e sem levar arma alguma. Sikermann, faça contato radiofônico com os druufs! Avise-me quando tiver o tal de Tommy-1 na linha. Tommy-1 era a sigla do aparelho tradutor para o habitual porta-voz dos druufs. Estes seres tinham nomes difíceis de serem pronunciados. Até a máquina demorava para reproduzi-los. Sikermann pôs mãos à obra, ajudado pelo Tenente Stern, o radioperador chefe. Em menos de dois minutos, veio o aviso: — Contato, Sir! Pode falar... Rhodan disse no microfone do tradutor, acoplado ao transmissor radiofônico: — Aqui Rhodan! Pousamos com nossa nave principal, e gostaríamos de parlamentar com vocês, a despeito de nos terem tratado de maneira tão indigna. A arrogância do agressor ultrapassa os limites. Necessitamos da ajuda de vocês tanto quanto necessitam da nossa. — Eles fizeram descer robôs, alguns dos quais conseguiram se introduzir em nossa central subterrânea. Vocês podem liquidá-los? Temos as mãos mais do que ocupadas com a defesa antiaérea e a batalha espacial. “Só nos faltava isso!”, pensou Rhodan. Hesitando, disse: — Não dispõem de tropas terrestres para cuidar dos invasores? Temos três naves, apenas, e teríamos que solicitar reforços primeiro. E isto demoraria demais. Houve uma pausa. Concentrado, Gucky tentava sondar Tommy-1. — Estão confabulando — avisou ele. — Venham para cá — transmitiu por fim o aparelho tradutor. — Talvez possamos chegar a um entendimento.

— Comparecerei com dois assessores — concordou Rhodan, mandando Sikermann desligar o rádio. Depois se voltou para Bell: — Está na hora, amigo. Vamos? Levaram apenas os braceletes de múltipla utilidade; continham, entre outras coisas, um bom transmissorreceptor de rádio. Por meio dele poderiam comunicar-se com a Drusus a qualquer instante. Falhando o aparelho, ainda lhes restariam Gucky e Harno. Harno...? Rhodan olhou para o teto. — Melhor vir também, Harno. Talvez possa nos ajudar, estando por perto. Obedientemente a bola preta desceu e pousou na mão de Rhodan, que a colocou no bolso do uniforme. Guarida segura e confortável. Rhodan ainda não sabia muito bem de que forma o estranho ser lhes poderia ser útil em caso de necessidade. Em determinado trecho do curto trajeto até a cidade, foram atacados por um minicaça arcônida. O torpedo de menos de vinte metros de comprimento devia ter rompido o cerco espacial; com a indiferença pela ameaça de um robô articulado, precipitava-se agora sobre o que lhe parecera um inimigo. Felizmente foi atingido pelo raio de um canhão energético. Por instantes, a nuvem incandescente flutuou sobre a cidade, acabando desfeita pelo vento. — Desta nos safamos! — exclamou Bell, aliviado, apressando o passo. — Bem que gostaria de saber por que não nos mandam um carro. Nem bem acabara de expressar o insólito desejo, surgiu um veículo na orla do espaçoporto. De forma alongada, parecia teleguiado. Parou diante deles, e a porta abriu-se automaticamente, convidando-os a entrar. Rhodan embarcou, seguido por Bell. Gucky escorregou por último para o amplo assento. — Os druufs têm mesmo traseiros tão largos? — admirou-se o rato-castor, que quase desaparecia no enorme banco estofado. — Para Bell, o banco está na medida certa, mas para meu corpo delicado... — Ora, pare com isso! — indignou-se Bell. — Sou gordo, mas tenho uma massa cerebral que funciona muito bem... Novamente Rhodan teve que intervir, advertindo: — Eu prestaria mais atenção ao caminho, a fim de saber voltar. Senão nem mesmo o mais belo dos cérebros não lhes adiantaria nada. Lá adiante está a arena do Conselho, onde já tentaram me fazer entrar numa fria uma vez. Certamente reconhecerão Gucky. — E quem é que não conhece Gucky em toda a Galáxia? — proseou-se o rato-castor, vaidosamente. Bell olhava na direção indicada por Rhodan. — Bonitinho, o prédio... É nele que vamos entrar? — Suponho que sim — replicou Rhodan. O veículo subiu por uma rua inclinada em rampa, seguindo depois por um largo viaduto, muito acima dos telhados das casas, em direção do prédio coberto por uma cúpula. Quando ainda se encontravam a cem metros dele, o 92


portão se abriu para deixá-los entrar. O carro parou no meio da vasta arena. As arquibancadas em torno dela estavam lotadas. Surpreendente ver ainda tantos druufs ociosos na cidade, enquanto a batalha decisiva rugia em torno do planeta... Rhodan foi o último a descer, dando precedência a Bell e Gucky. Não trouxera aparelho tradutor. Sabia que as máquinas dos druufs eram excelentes. Com efeito, os alto-falantes distribuídos pela arena permitiam que todos os presentes seguissem as conversações. — Nossos agradecimentos pelo aviso recebido, Perry Rhodan da Terra — ouviu-se das colunas circundantes, que suportavam a cúpula do teto. — Chegou tarde demais, lamentavelmente, mas provou-nos de que lado está. Rhodan procurou em vão localizar o orador. Novamente os governantes druufs haviam tomado assento nas fileiras mais altas, que circundavam a arena a cinqüenta metros de altura. Qualquer um deles poderia ser Tommy-1. — Vocês têm alguma sugestão? — perguntou Rhodan, com certa frieza. Não tinha interesse algum em ajudar os druufs; tudo que queria era o segredo da propulsão estelar. — Que podemos fazer? — Chamem sua frota, e lancem-na contra a frota-robô — replicou Tommy-1. — Destruam as máquinas invasoras que ameaçam arrasar nosso departamento científico subterrâneo. — Onde está o contingente bélico de vocês? — Todos os soldados estão na luta. Os que você vê aqui são políticos, oficiais e cientistas. Nada entendem de guerras. — Nem mesmo os oficiais? — Estes não! — foi a resposta pouco explícita. — Achei Tommy-1 — sinalizou Gucky, telepaticamente. — Quer que o faça baixar de sua tribuna? — Bem lembrado — retorquiu Rhodan. — Talvez isso os impressione. Gucky não esperou segunda ordem. Detectara o portavoz dos druufs, e sabia qual dos monstros era o autor intelectual das palavras que acabavam de ouvir. Concentrou-se no colosso instalado lá em cima, junto ao teto, e envolveu-o na corrente de suas forças telecinéticas. Como se tivesse perdido o peso repentinamente, o gigantesco druuf de três metros de altura se ergueu lentamente no ar, passou por cima do parapeito, e ficou suspenso no meio da arena. Exclamações de surpresa partiam dos alto-falantes. Claro que os druufs não gritavam, pois se comunicavam através de transmissores-receptores orgânicos, que emitiam ondas ultrassonoras. Porém os tradutores ligados captavam os impulsos, tornando-os inteligíveis para ouvidos humanos. Tommy-1 manteve-se surpreendentemente calmo, apesar de agitar pernas e braços; meros movimentos reflexos, ditados pelo instinto, talvez. Certamente não achava explicação para o fato, porém não havia tempo para

isso agora. Pois uma queda significaria a morte certa. Mas Gucky não o deixaria cair. Fez o druuf perder altura numa elegante curva, e depositou-o com delicadeza e suavidade bem defronte de Rhodan. — Assim dá para conversar melhor — disse Rhodan, em voz alta, esperando que o tradutor aceitasse o novo estado de coisas. Não foi desapontado. — Como fez isso? — foi a primeira pergunta de Tommy-1. — Tive a impressão de ser agarrado por uma mão invisível. — Era a minha — esclareceu Gucky, apontando orgulhosamente para o próprio peito. O druuf contemplava atônito o rato-castor, como se ele fosse um ser miraculoso. Seu olhar ia das enormes orelhas de rato ao corpo e à larga cauda de castor. Observou mais detidamente o reluzente dente roedor, que evidenciava a esplêndida disposição de Gucky. — Esse aí? — balbuciou Tommy-1. — Quem é ele? — Este é Gucky — explicou Rhodan, acrescentando: — É conveniente tratá-lo com a máxima cortesia, senão da próxima vez ele lhe dará um tombo. Tommy-1 ainda examinava fascinado o rato-castor. No entanto, lia-se profundo respeito em seus olhos, entremeado com medo. Gucky leu os pensamentos do druuf e deu-se por satisfeito. — Assim está bem — disse ele, cutucando Bell. — Ele me considera um pequeno deus. Falou tão baixo que o tradutor não lhe captou as palavras. Rhodan dirigiu-se ao druuf. — Que me dão em troca de nossa ajuda? — Uma recompensa? — Tommy-1 parecia sinceramente surpreso. — Julguei que nossos inimigos também fossem os seus. Por que deveríamos recompensálos por combater contra seus inimigos? — Pois então tratem de arranjarem-se sozinhos com eles! — Mas vocês não seriam igualmente beneficiados, caso nós os derrotemos? Portanto, também poderíamos reclamar recompensa. Argumento mais do que lógico, que Rhodan não podia deixar de reconhecer. No entanto, não era o que interessava no momento. — Vou dizer-lhe algo que o fará refletir — disse, com entonação peculiar. — Eles me ofereceram aliança. Caso eu aceite, vocês estariam perdidos. Ou julgam poder lutar simultaneamente contra Árcon, e contra nós? Tommy-1 parecia consternado. Lançava olhares suplicantes para o alto, como se esperasse ajuda de seus congêneres. O vozerio cessou de repente. Tinham desligado o equipamento de tradução. — Querem deliberar — informou Gucky, cuja atenção não relaxara um só instante. — Que belo susto lhes pregou! — Exatamente o que eu pretendia — declarou Rhodan. Bell estava imóvel. Mirando as extensas fileiras de 93


“monstros” que o olhavam lá de cima, dava evidente mostra de sentir-se muito pouco à vontade. Por via das dúvidas, não arredava pé de perto de Gucky. Rhodan ergueu ligeiramente a mão esquerda, e apertou o botão do minúsculo transmissor. — Alô, Sikermann! — Sim, Senhor...? — Tudo em ordem aí? Como vão as coisas? — Nada de especial no que se refere à Drusus. Violentas explosões na cidade. Parece que se luta ferozmente por lá. Crateras provam que galerias inteiras ruíram. Rhodan agradeceu, e deixou o aparelho ligado. Voltouse para Gucky: — A quantas andam eles? — Até onde pude constatar, não conseguem chegar a uma conclusão. Deliberam sobre o que nos oferecer como recompensa. — Com o que começam a aproximar-se do que desejamos — comentou Rhodan, sorrindo. Esperaram ainda por cerca de dez minutos, durante os quais os últimos setores ainda intatos da central de cálculos deveriam ter igualmente ruído sob a sanha dos robôs de guerra. Depois o tradutor foi novamente ligado. Tommy-1, que se afastara alguns passos, retornou. — Caso não se aliem aos robôs, mas continuem combatendo ao nosso lado contra eles, que exigem em troca? Com ar indiferente, Rhodan respondeu: — Vocês possuem um tipo de propulsão para naves espaciais que desconhecemos. Adotamos o sistema de saltos através do hiperespaço, enquanto vocês voam acima da velocidade da luz, sem qualquer desmaterialização. Ponham à nossa disposição os planos de construção deste tipo de propulsão, e recusaremos a oferta dos robôs. Tommy-1 conferenciou mais uma vez com os companheiros. Seus quatro olhos não demonstravam a menor expressão ao dizer, por fim: — Quando os robôs tiverem sido derrotados, receberá os planos de construção. Mais ou menos o que Rhodan esperara. Só mesmo sendo tremendamente tolos, os druufs entregariam sem resistência seu maior segredo. Portando seria preciso aguardar. E talvez Ellert conseguisse apoderar-se dos planos, enquanto esperavam. Acenou, apesar de ter certeza de que o druuf não saberia interpretar o gesto. — É uma proposta justa, Tommy-1... mas tomem cuidado! Caso tentem iludir-nos... — Mantemos nossa promessa assim como vocês mantêm a sua. Rhodan sentiu certo constrangimento ao ouvi-la. — Quando a vitória for alcançada, receberão os planos da propulsão estelar. E agora, tratem de agir! — concluiu o druuf. — Certo? Minhas naves poderão transitar livremente

pela zona de descarga? — Poderão passar sem empecilhos. Fixaremos um código, a ser respeitado por todas as nossas unidades. — E quanto à central de cálculos? Caso for destruída? — Não é a única de que dispomos, apesar de ser a mais importante. Rhodan ocultou sua surpresa. Realmente, subestimara os druufs, segundo tudo indicava. Possuíam-se mesmo outros departamentos de pesquisa como aquele, suas reservas agressivas não se esgotariam tão cedo. Quem sabe, talvez contassem até com mais de um Onot... Suposição instantaneamente confirmada. — Quer que tentemos rechaçar os robôs? — É desnecessário — replicou Tommy-1. — Estão perdidos de qualquer maneira. E depois, as tropas de segurança farão funcionar o maçarico de gravidade, inventado por... — seguiu-se um nome impronunciável. — Isso destruirá todo e qualquer adversário que tenha penetrado em nosso Universo. — Maçarico de gravidade? — indagou Rhodan, intrigado. Não tinha a menor idéia do que pudesse ser aquilo. — A máquina de traduzir não usa termos científicos exatos, porém recorre a símbolos figurados, quando falta a terminologia apropriada. O maçarico de gravidade vem a ser uma arma contra a qual não existe defesa, para quem não a conhece. Não sendo cientista, estou impossibilitado de revelar-lhe como ela funciona, e por que funciona. Só sei que altera as leis da gravidade. Queima a gravitação. — Precisamos ficar escutando tamanha besteira? — perguntou Bell, irritado, supondo que pretendessem fazêlos de bobo. — Afinal, ausência de gravidade não vem a ser nenhuma desgraça. Cada nave pode gerar seus próprios campos gravitacionais para compensar a perda. Voltando-se para ele, Tommy-1 disse: — Talvez eu não tenha me expressado com suficiente clareza. O maçarico de gravidade anula os campos gravitacionais artificiais, intensificando simultaneamente a força de gravidade do planeta. Desta forma, nem os mais possantes propulsores evitarão que ela seja atraída para baixo, e espatifada no solo. A força de atração de nosso sol duplo seria multiplicada milhares de vezes. Apenas um isolamento especial ofereceria proteção, e apenas nossas naves estão equipadas com ele. Rhodan ainda não conseguia ver muito claro, porém começava a perceber que os druufs haviam dado um passo decisivo na pesquisa dos campos gravitacionais das estrelas. Aproveitou a ligeira pausa para imaginar concretamente as consequências resultantes, caso Tommy-1 não estivesse mentindo. E por que mentiria? Nas naves arcônidas e terranas, os campos de gravidade artificial tinham a função de manter o interior nas condições habituais; além disso, evitavam que planetas eventualmente próximos alterassem seu curso. Quando se aproximavam de um mundo de gravitação extraordinariamente elevada, a 94


ação dos campos de gravidade se intensificava de forma automática, compensando a pressão maior. E caso a gravitação deste planeta fosse multiplicada por centenas ou até milhares de vezes, a nave seria atraída e destroçada contra o solo. Isto se não contasse com meios para neutralizar a força adicional. E nenhuma propulsão comum bastaria para levá-la de volta à amplidão do espaço. De posse de tal arma, os druufs estariam sempre na posição de vencedores. Estranho não terem feito uso dela até então. Tommy-1 aceitaria um pedido de explicação a respeito? — Na certa o maçarico de gravidade ainda se encontra em estágio experimental, não é? — perguntou Rhodan, cautelosamente. — Funciona apenas na própria dimensão temporal? — Sim, infelizmente. Por este motivo ainda não foi posto em ação. Pois, a não ser um ou outro avanço os robôs têm-se mantido em seu Universo, onde o maçarico de gravidade perde o efeito. É incapaz de passar de uma dimensão temporal a outra, prova de que existe alguma relação entre gravitação e tempo. Mais uma vez, Rhodan lamentou ser inimigo daquela raça tão inteligente. Pelo visto, os druufs dispunham de conhecimentos que extravasavam os dos terranos. Uma relação entre gravidade e tempo...? Apressou-se em retornar à realidade do momento. — E por que recorrem à nossa ajuda, se possuem armas tão potentes? Também para esta pergunta o druuf tinha resposta coerente. — Dentro do âmbito de nosso Universo, damos conta de qualquer adversário, desde que não ataque de maneira tão inesperada conforme sucedeu. No entanto, a origem do mal não se encontra aqui, porém no Universo de vocês. Sou forçado a confessar que, além da barreira de tempo, muitos dos nossos recursos bélicos falham. — Até o congelador de tempo? — Que sabe acerca dele? Rhodan percebeu que cometera um erro. Para corrigi-lo, teria que revelar um de seus segredos. — Meu acompanhante... — apontou para Gucky — ...é telepata. Pode ler pensamentos, e assim colheu algumas informações. — Telepata? — indagou o druuf, admirado. — Entre nós, não há ninguém capaz de ler os pensamentos alheios. Que mais seu amiguinho sabe fazer? — Ora, o que experimentou pessoalmente, há pouco. Não foi trazido da mais alta fila nas arquibancadas para o meio da arena? Repentinamente Gucky avançou para o druuf, gingando o corpo. Com voz estridente e indignada, gritou: — Não acabou de saber que sou telepata? Que história é essa de pensar em me aprisionar, porque eu talvez lhe seja útil? Está querendo executar um voo acrobático pela arena, para estatelar-se no chão no fim do ato? Olhe aqui, camarada, cuidado com Gucky!

Tommy-1 recuou, constrangido por ver suas intenções reveladas. — Só pensei... porque... Rhodan aproveitou o incidente para levar a conversa para rumo menos comprometedor. — Portanto, vocês nos propõem que destruamos o inimigo no nosso Universo, enquanto vocês tratam de derrotá-lo em seu próprio mundo. Entendi bem? O druuf moveu a boca triangular. Pela primeira vez evidenciava-se que lhes servia para gesticular, assim como os humanos costumavam sacudir a cabeça ou acenar. — Exato esta é nossa sugestão. Ataquem os robôs em sua terra natal, e aniquilem seus reforços. É tudo que queremos de vocês. Pretensão bastante compreensível por parte de quem possuía arma tão poderosa como o maçarico de gravidade, e só poderia agir no Universo relativista com recursos convencionais. — Está bem — concordou Rhodan. — Daremos as instruções correspondentes à nossa frota. Quer providenciar o sinal-código prometido, a fim de que possamos retornar sem impedimento sempre que for necessário? Tommy-1 acenou com um dos possantes braços. Por trás de Rhodan, Bell e Gucky abriu-se uma porta, que deu passagem a um veículo. — Vai conduzi-los ao espaçoporto. Os três embarcaram em silêncio, e o carro se pôs em movimento imediatamente. Acelerou ao entrar na via de trânsito mais larga. À distância, via-se o espaçoporto fortemente avariado. A Drusus aguardava ilesa, pousada fora dos limites da cidade. Com um suspiro, Rhodan disse: — Agora conhecemos a força e a fraqueza deles. Só me perturba saber que são capazes de derrotar Árcon aqui em Druufon. E o emprego daquela arma infernal pode representar fator decisivo. No silêncio subsequente, a voz clara de Gucky irrompeu como um raio. Pois o rato-castor dizia: — Até onde pude ler os pensamentos de Tommy-1, os druufs não possuem nenhum maçarico de gravidade. Tal invenção nem existe...

5 Quando o carro robotizado parou, deixando Onot descer, todas as luzes tinham acabado de apagar no corredor subterrâneo. Tudo ficou envolto em trevas. O druuf avançou às apalpadelas, apoiando-se nas paredes, em busca de saída. Não conhecia muito bem aquela parte do labirinto de cavernas, por ser domínio de outros cientistas. Porém ele, Onot, era o físico-chefe de sua raça. 95


— Que foi que aconteceu? — murmurou baixinho, esperando que seu acompanhante invisível respondesse. Já nem sabia o que fazia ali sem ele. “A central de cálculos no subsolo da cidade foi arrasada. Pode achar o caminho para a superfície?” — Deve estar perto, mas é difícil distingui-la, com as luzes apagadas. “Os geradores de emergência não tardarão a entrar em ação”, consolou Ellert, com uma pontinha de ironia. “Às vezes, é bem mais cômodo não possuir corpo.” Onot não respondeu. Avançava com cautela, e suspirou de satisfação ao ver a luz piscar, e depois permanecer acesa. Agora poderia andar com mais desembaraço, e achar a saída. Antes de alcançar o elevador, ouviu passos apressados se aproximando. Eram dois druufs, que pararam espantados ao vê-lo. — Onot! — exclamou um deles. — Que faz aqui? Que foi que houve lá na cidade? — Um ataque dos estranhos — explicou Onot, preparando-se para um relato detalhado. No entanto calou bruscamente. Como dizer aos dois cientistas que fora ele que deixara o inimigo entrar na central de cálculos? Que diriam eles? Como reagiriam? Acreditariam que agira sob pressão? — Na cidade, Onot? Onot caiu em si. Precisava agir com a máxima cautela, a fim de não ser tomado por traidor. — Não, na central de cálculos. Os estranhos fizeram descer robôs, dos quais a maior parte foi abatida; apesar disso, alguns deles conseguiram atingir a central. Tive sorte, e ainda pude encontrar um carro para fugir a tempo. Que poderia fazer, só e desarmado, contra os invasores? — Você não tem trabalhado em novas armas? — perguntou um dos druufs, desconfiado. — Todo mundo sabe... — Faltou-me tempo... — interrompeu Onot, apressadamente. — Posso me considerar feliz por ter escapado com vida. A central de cálculos foi inteiramente destruída. — Não sobrou nada? — Até onde pude verificar, não. Uma grave perda para nós. Não sei o que o Conselho fará a respeito. — Se for conforme diz — estamos perdidos. Porém Onot discordou. Não por vontade própria, mas porque Ellert ordenava. — Ora, possuímos mais centrais, todas elas equipadas com pessoal competente. Nós derrotaremos o adversário. Mas não me detenham mais, tenho o que fazer! — Aqui? Em nosso setor? — perguntou um dos druufs, admirado. — Sim, claro — replicou Onot, afastando-se depressa. Sabia agora onde estava, e queria chegar à superfície o mais depressa possível. Os elevadores funcionavam normalmente. A corrente antigravitacional empurrou-o para cima, e Onot respirou fundo ao avistar o luminoso sol gêmeo Siamed.

Em contraste com as instalações subterrâneas, a superfície de Druufon mais parecia terra deserta e estéril. Só a capital fazia exceção. Ao longo do litoral, havia mais algumas cidades. Porém o sistema nervoso central dos druufs ficava profundamente oculto na crosta do planeta. A terra tremeu de repente, e Onot teria se precipitado ao solo se não tivesse se amparado à parede mais próxima. Vários druufs atravessavam assustados a praça deserta; vendo Onot, correram para ele. — Que houve? — perguntaram, demonstrando inteiro desconhecimento do que ocorria. — Alguma explosão, ou terremoto? — Ambos — replicou Onot, laconicamente. O desconhecido ordenara-lhe que se recusasse a dar informações. — Não há razão para preocupações... Acenando-lhes — isto é, repuxando a boca triangular — seguiu adiante com marcada displicência, como se estivesse apenas passeando. Os druufs seguiram-no com olhares perplexos. Bem, se aquele cientista tão famoso mostrava tamanha calma, o perigo não devia ser grave. Retornaram a suas ocupações. “E agora, trate de cuidar de sua própria segurança!” soou a ordem muda em seu cérebro. “Seu laboratório secreto! Não diga a ninguém para onde vai. Nós dois nos entregaremos a algumas experiências ali.” — Sujeito endiabrado! Que é que ignora a meu respeito? “Nada, Onot!” O físico-chefe pôs-se em movimento, desanimado. Ansiava por descanso e sono. No parque de estacionamento havia diversos dos veículos tele dirigidos. Embarcou num, e acionou a alavanca energética. Assim que Onot marcou o rumo no mapa embutido abaixo do painel, o carro disparou. Depois se recostou comodamente no assento estofado. — Como sabe de meu laboratório secreto, assombração? “Conheço seus pensamentos e recordações, Onot. Sei tudo sobre você. Já não pode guardar segredos, por mais que tente controlar seus pensamentos. Somos um só, você e eu. Poderia esconder algo de si mesmo, Onot?” O sábio não respondeu. Olhava para frente, onde, após uma curva, surgiriam as montanhas. Lá, por baixo da rocha maciça, ficava seu laboratório. Uma antiga estação experimental abandonada, que descobrira certo dia, puramente por acaso. Instalara-se nela, e ali passava dias seguidos, deixando o Conselho supor que saíra em férias. Onot tinha coisa mais interessante a fazer do que viagens de férias. A estrada era ruim, porém o fato não tinha importância. O carro flutuava sobre um colchão de borracha, que absorvia todas as irregularidades do solo. A velocidade aumentou quando entraram numa reta. — Que quer de mim, afinal? — perguntou Onot. A voz do desconhecido falou alto e claro: “Deixe de perguntas, e dê-se por feliz. Podia ter 96


perecido no inferno em que se transformou a central de cálculos. E saiba que não encontrará mais nada nela, caso queira voltar lá algum dia. Só que não pode. Foi visto ligando o transmissor...” Onot assustou-se mortalmente. Se aquilo fosse verdade... “É verdade!”, afirmou Ellert, incisivamente. “Aquele druuf que encontrou no corredor ficou desconfiado, e curioso por saber o que fazia em seu departamento. Por sorte desistiu de desligar novamente o transmissor, pois nem sonhava com o que ia acontecer. Mas ele também se salvou e, neste exato momento, encontra-se na presença do Conselho, relatando o que viu. Você, Onot, é agora considerado o maior traidor de seu país.” Onot sentiu o mundo ruir a seu redor. — Por que fez isso comigo? Não lhe bastou forçar-me a praticar aquele ato detestável? É preciso também que todos saibam? “Sim, é preciso. E é melhor assim.” Ellert não explicou por que seria melhor. Sabia que não existia mais possibilidade de volta para Onot, e que poderia deixá-lo entregue a si mesmo durante alguns minutos. Precisava urgentemente fazer novo contato com Rhodan. As montanhas ficavam ainda a meia hora de distância. *** Enquanto se aproximavam da Drusus, Rhodan não pronunciou uma única palavra. Esforçava-se por entender a atitude dos druufs. Por um lado, recusavam ajuda em Druufon, e por outro tentavam aparentar uma superioridade que estavam longe de possuir. E se o maçarico de gravidade fosse blefe, muitas outras coisas também poderiam ser. O congelador de tempo, quem sabe? Ou a propulsão estelar? Não, era pouco provável, pois neste caso Ellert estaria a par. E ele confirmara a existência da propulsão estelar, e do congelador de tempo. Ambos eram uma realidade. A Drusus erguia seu gigantesco vulto diante deles. A escotilha já estava aberta, quando desceram do carro, que retornou imediatamente para a cidade, depois de descrever uma elegante curva. Sem falar, cada qual absorto nos próprios pensamentos, deixaram-se levar pelo raio de tração para o interior da nave. Só na central de comando Bell reencontrou a fala. — Agora é que eu não entendo mais nada! Sikermann ergueu os olhos. — Que houve? Escutei tudo, e acho... — Pode ter escutado — disse Rhodan. — Mas não ouviu os pensamentos deles. Coisa que Gucky fez. Explicaram tudo a Atlan e Sikermann. Espantado, o arcônida disse: — Ousados, esses druufs. Jogam tudo numa só cartada, e sabem blefar. Reconhecem que estariam perdidos, caso descobríssemos suas fraquezas. Mas estão conscientes de

que podem vencer a parada. Só me intriga saber como é que o tal de Tommy-1 se arriscou tanto, a despeito de saber que Gucky é telepata. — Só soube depois — explicou Rhodan. — E então se apressou a ir embora. Receando, naturalmente, que descobríssemos o que pensava. Mas felizmente descobrimos. — Ninguém tapeia Gucky! — exclamou o rato-castor, orgulhoso. Bell lançou-lhe um olhar, mas nada disse. — E agora? — indagou Atlan, ansioso. Antes que alguém pudesse lhe responder, os impulsos mentais de Ellert sobrepujaram tudo. Impuseram-se às suas ondas cerebrais como um transmissor de sinal mais potente. — Escapei do inferno, no corpo de Onot. Estamos a caminho do laboratório secreto dele. Talvez lá eu consiga gravar numa microfita visual os detalhes de construção da propulsão estelar. Até agora, não tive oportunidade de discutir o assunto com Onot. Como está a situação por aí? — Tudo em ordem — falou Rhodan, em voz alta. — Não deseja abandonar, finalmente, Druufon, e regressar conosco à Terra? Em seus cérebros ecoou um riso meio lamentoso. — Ainda é cedo, Perry. Preciso continuar aqui até ter a certeza de poder agir livremente a qualquer momento. O corpo de Onot me é altamente conveniente. Além disso, jamais conseguiria lhes fornecer a propulsão estelar se deixasse o corpo de Onot agora. Atlan acenou para Rhodan. Realmente, Ellert estava com a razão. Ellert poderia retornar à Terra, quando julgasse conveniente; não existia mais impedimento algum. E no momento, o mais importante era conseguir os planos de construção da propulsão estelar. — Está bem, Ellert. Decolaremos agora, abandonando Druufon. Os druufs nos mentiram, afirmando que são capazes de defenderem-se sozinhos neste seu mundo, e dispensaram nossa ajuda. Garantem que seus cientistas desenvolveram armas fabulosas, com as quais poderiam dominar o universo inteiro. Mas confessaram que não seria fácil conquistar o nosso. Que sabe a respeito? — Nada, por enquanto, mas saberei em breve — replicou Ellert. — Preciso recolher-me agora, pois as montanhas se aproximam. Torno a falar quando tivermos chegado, e eu estiver de posse dos planos. A pressão deixou seus cérebros. — Será que ele vai poder comunicar-se conosco, quando não estivermos mais na dimensão temporal dos druufs? — perguntou Bell, preocupado. — Creio que sim — disse Rhodan. — Isto, no entanto, o obrigaria a deixar Onot sozinho, enquanto passa pela zona de descarga. Se entendi bem, Ellert pode deslocar-se livremente através do tempo e do espaço sem o corpo de Onot. Só que, antes, nunca conseguira passar de uma dimensão temporal a outra; por isso não reencontrava o caminho para a Terra, e para o presente. 97


— Espero que não se extravie outra vez — comentou Bell, franzindo a testa. — Pois assim que a “fenda” entre os dois Universos tornar a fechar-se, o caminho estará cortado. — Ele passará a tempo — afirmou Rhodan, acenando para Sikermann. — Prepare a Drusus para a decolagem, coronel. Proporcionaremos a nossos amigos um belo espetáculo de fogos de artifício, a fim de que tenham pelo menos um motivo para sentirem-se satisfeitos com seus aliados. Dois minutos após, a gigantesca esfera alçou-se no ar, e disparou para o alto, em direção do luminoso céu da tarde. Cruzou sem problemas pelo cinturão de barragem, disposto pelos druufs em torno de seu mundo. Depois acelerou para a velocidade da luz, e desapareceu sem deixar o menor vestígio, e sem produzir abalos no hiperespaço. Materializou-se no mesmo instante por trás de Hades. *** Lento e desajeitado, Onot desembarcou do veículo, e encaminhou-se para a parede rochosa. Jamais vira alguém naquela região, porém não conseguia desvencilhar-se da sensação de estar sendo observado. Desconhecendo o que fosse uma consciência pesada, era compreensível que deixasse de identificar os sintomas correspondentes. Sob a pressão de sua mão, uma placa de rocha deslizou para o lado a porta de entrada camuflada. Degraus conduziam para baixo. Tateando no escuro, Onot encontrou o computador e acendeu as luzes. Imediatamente os degraus começaram a rodar, poupando-lhe o trabalho de descer pelos próprios pés. Às suas costas, a porta fechou-se automaticamente. “Belo esconderijo” louvou Ellert, com uma ponta de zombaria. “Aqui ninguém poderá achá-lo, principalmente a polícia do Conselho.” Onot empalideceu. — Se for preciso, juro que você me obrigou a ligar o transmissor. “Estou extremamente curioso por saber se alguém acreditaria no tal espírito invisível”, replicou Ellert. Onot não respondeu, remoendo sua amargura. Era o primeiro a reconhecer que seus protestos não mereceriam o menor crédito. Logo ele, o eminente cientista, ocasionar a destruição da central de cálculos? Não existia desculpa para tal atitude. Realmente não! — Estou em suas mãos — confessou ele, deprimido. — Que mais quer? “Algumas miudezas aproveitáveis, meu caro. A propulsão mais rápida do que a luz para espaçonaves, o gerador do campo de congelamento de tempo...” — Para quê? Acha que ainda não traí suficientemente minha raça? “Não confunda as coisas, Onot”, respondeu Ellert. “Já esqueceu que ajudei a desenvolver o campo de tempo? Sei como é gerado, porém necessito de instruções detalhadas numa fita audiovisual, de preferência em micro formato. Da mesma forma, quero em microfita os planos de

construção da propulsão estelar. Só depois de me fornecer ambas, estará livre de mim. Então poderá fazer e deixar de fazer o que bem entender.” — E o que me resta? — gemeu Onot, na maior consternação. — Você causou minha perdição. Ellert hesitou ligeiramente, e depois afirmou: “Talvez não, Onot. Caso não crie dificuldades, e faça tudo que exijo, provarei facilmente sua inocência perante o Conselho.” — Como? “Dizendo que o forcei. Posso comunicar-me com eles da mesma maneira pela qual falo com você. Isso os convencerá. Então poderá voltar para a cidade, se esta ainda existir.” Onot suspirou de alívio e readquiriu o ânimo. — Está bem, farei tudo que pede. Uma segunda porta vedava a passagem no corredor. Abriu-se como a primeira, por imposição da mão em determinado ponto. Onot se instalara efetivamente com grande conforto. Seu refúgio habitual quando queria meditar sobre os mistérios das leis naturais, ou procurar novos caminhos. Ellert conhecia o laboratório, pois Onot passara bastante tempo nele durante os últimos meses. E fora ali que desenvolvera o congelador de tempo. O olhar de Ellert — através da visão de Onot — caiu sobre o pequeno modelo experimental num canto do laboratório. Com a central de cálculos destruída, aquele era agora o único exemplar existente. Montado sobre um pedestal, o modelo era pouco maior do que um caixote de maçãs. Claro que faltava a ligação de força, e o aparelhamento correspondente. “Existem microfitas aqui?”, indagou. — Não, para quê? — replicou Onot. “Facilitariam nossa tarefa. Como pretende fornecer-me os planos de construção da propulsão estelar se não temos microfitas?” Onot ficou sem resposta. “Conhece este tipo de propulsão, não é?”, certificou-se Ellert. — Claro que conheço, apesar de não ser invenção minha. Posso explicar-lhe detalhadamente... “Não é isso que importa. Quero tudo documentado, com desenhos e fórmulas detalhadas. Nem mesmo assombração pode guardar na memória todos os dados necessários para fabricar propulsores estelares. Portanto, precisamos arranjar microfitas. Tem alguma sugestão?” Onot não tinha nenhuma, apesar de mostrar-se subitamente muito interessado em ajudar seu intimidante companheiro. E só fitas não resolveriam o problema; precisariam igualmente do aparelhamento técnico exigido: fotografometros, duplicadores, projetores... Nem de longe era tão simples quanto Ellert imaginava. “Ora, daremos um jeito, Onot. Por enquanto, sente-se um pouco, descanse, e converse à vontade sobre o princípio em que se baseia o voo linear mais veloz do que a luz. Talvez já me sirva para alguma coisa...” Sem opor resistência, Onot começou a revelar os 98


segredos de seu povo. *** O cruzador ligeiro Califórnia era igualmente uma esfera espacial, porém seu diâmetro não ultrapassava cem metros, e possuía incrível capacidade de aceleração. A nave alcançava em cinco minutos a velocidade da luz. Campos antigravitacionais de inimaginável potência neutralizavam qualquer compressão. O Capitão Rous deu as derradeiras ordens para a decolagem, e a Califórnia disparou do hangar subterrâneo para o negro céu de Hades. De pé, ao lado de Atlan, Rhodan presenciou a aproximação de uma formação de naves do robô regente. Mandou atacá-las imediatamente. Algumas unidades dos druufs postadas nas proximidades tornaram-se testemunhas do incidente. Rhodan sabia que se defrontavam apenas com naves-robôs, cuja destruição acarretaria unicamente perdas materiais. Quase simultaneamente com o ataque-surpresa, o regente de Árcon recebia uma curta e concisa mensagem hiper-radiofônica, dizendo que tudo corria de acordo com os planos. No entanto, Rhodan se veria obrigado a destruir mais algumas naves arcônidas, porém providenciaria para que nenhuma vida humana fosse sacrificada. Os dez cruzadores menores do regente reagiram desesperadamente, porém sucumbiram diante das armas da Califórnia. Os druufs não precisaram intervir. Retransmitiram a mensagem de Rhodan para Druufon, onde ela desencadeou surpresa, e ligeiras esperanças. Exatamente o que Rhodan pretendia que ela fizesse. A Califórnia precipitou-se através da zona de descarga, realizou verdadeiro voo de patrulha, destruiu mais um observador teleguiado de Árcon, e retornou ao Universo dos druufs. Avistaram uma esquadrilha de bloqueio dos seres descendentes de insetos. Patrulhava a “fenda” de lado a lado, pouco abaixo da velocidade da luz. Unicamente as curvas exigidas para manobrar mediam por vezes muitos milhões de quilômetros. O Capitão Rous mandou emitir o sinal-código. A Califórnia teve trânsito livre. Rhodan era a calma personificada, quando disse a Atlan: — Era isto que eu queria saber, almirante. Você irá para Fera Cinzenta, na Drusus, a fim de trazer reforços. Não nos limitaremos a estabelecer uma base fortificada em Hades; escavaremos também outros planetas. Os druufs vão ficar sabendo que força bruta e blefe não levam a nada. E quando Ellert nos trouxer a propulsão estelar, atacaremos em conjunto com Árcon. Sente-se mais tranqüilo agora? — No que se refere à Árcon, sim. Mas acredita seriamente que os druufs jamais suspeitem de nossas intenções? Afinal, não podemos nos instalar em todos os seus planetas, sem que eles percebam. Algum dia acabarão descobrindo. — Tenho minhas dúvidas a este respeito — discordou

Rhodan. — Enquanto lhes faltarem recursos para romper nossas barreiras de absorção, é totalmente impossível que dêem por nossa presença. Atlan não respondeu. Manteve-se calado até a Califórnia desaparecer no hangar de Hades. Rhodan deixou a nave, e foi procurar Potkin. — Vou para a superfície agora, tenente. Durante minha ausência, as ordens dadas por Bell deverão ser acatadas como se fossem dadas por mim! Certamente posso tomar emprestado um traje espacial em seu estoque, não? — Que pretende fazer, Sir? — Nada de mais, Potkin! Uma pequena excursão, apenas... — Mas sozinho? Posso destacar alguns homens escolhidos para... Rhodan recusou. — Quem diz que vou sozinho? Não se preocupe, um bom amigo irá acompanhar-me. — Gucky? — Não — disse Rhodan, sorrindo, enquanto enfiava a mão direita no bolso da túnica. — Harno! *** Onot largou o estilete com o qual traçava complexas fórmulas e desenhos numa lâmina plástica. Suspirou. — Muito mais difícil do que havia imaginado. Mas talvez você compreenda pelo menos o princípio básico. Para um observador imparcial, a situação apresentava aspecto quase fantasmagórico. Sentado, em total isolamento, diante de uma mesa no laboratório, o druuf manuseava toda a sorte de aparelhos e instrumentos. Quando falava, olhava para cima, como que se dirigindo a algum suposto interlocutor. Depois parecia dar ouvidos a uma voz íntima, e apresentava novas respostas. Como se Onot tivesse enlouquecido, entregando-se a longos monólogos. “O princípio em si é simples”, disse Ellert. “Mas não é suficiente para suprir os especificados planos de construção. Necessitamos de um sistema de microgravação. Talvez isso nos obrigue a voltar mais uma vez para a central de cálculos.” — Mas... “Nada de preocupações, irei só, deixando você aqui. Caso ainda encontre algo de pé por lá, incorporo-me em outro druuf, e faço-o trazer o material para cá. A seguir, ele esquecerá tudo, como se jamais tivesse acontecido.” Onot recostou-se de repente em seu assento. — Que foi isso? Ellert já o havia percebido anteriormente, mas rejeitou a intromissão. Algum dos habituais impulsos mentais, tão abundantes em toda a parte... Porém de repente conseguiu ordenar e identificar o impulso. Mas era Perry Rhodan...! O impulso era intenso e próximo. Ellert isolou Onot, fazendo sua mente adormecer. Agora 99


podia dispor inteiramente do corpo, e comandar os centros nervosos, sem que o druuf tomasse consciência do que fazia. Onot agora era Ellert. Levantou-se, e saiu pela porta que o levaria à superfície. Já não receava uma armadilha. A poucos metros dele, banhado pelo sol poente, via-se um vulto... Vestia um traje espacial, com o capacete desatarraxado balançando solto. Rhodan, sem a menor dúvida... Junto a ele, um delgado cilindro metálico, com dez metros de comprimento, e aproximadamente três de diâmetro. A diminuta escotilha parecia permitir apenas a passagem de um homem. Uma mini-espaçonave! Ellert-Onot correu em direção de Rhodan, estendendolhe a grotesca manzorra de druuf. — Bem-vindo, Perry... posso chamá-lo de Perry? Era a primeira vez que Ellert e Rhodan se reencontravam pessoalmente, apesar de o mutante não ocupar seu verdadeiro corpo. — Chamava-me assim quando era um espírito invisível — disse Rhodan. — Por que não agora, que ocupa o corpo de um druuf? Não está surpreso por ver-me aqui? — Mas claro! Os lábios de Onot se moviam, como se os sons viessem deles. Rhodan não poderia afirmar se Ellert enviava mensagens telepáticas, ou se pronunciava realmente palavras. — Senti de repente você me chamando. Como foi que me encontrou? Ninguém sabia que eu estava aqui. — Harno me ajudou — replicou Rhodan. — Harno? — Logo ficará familiarizado com Harno, e parece-me que vocês dois têm muito em comum. Mas primeiro, quero fazer-lhe uma pergunta: pode finalmente deixar Druufon? Onot sacudiu a cabeça. — Só depois de obter os planos da propulsão estelar. Não é tão simples, apesar de eu ter entendido o princípio. Necessito da micro documentação, para ser utilizada na Terra. Onot vai arranjar as microfitas. — Posso ajudá-lo nisso? — Não, pois só nos serve material druuf. Esperemos que não chegue tarde demais. — E quanto ao campo de tempo? — Refere-se ao congelador de tempo? Também para ele me faltam os planos exatos, o que no entanto é menos grave. Primeiro, porque ajudei a inventar o aparelho; além disso, há um pequeno modelo experimental aí no laboratório. Vou tentar levá-lo, posteriormente. — Ora, não acha mais simples deixá-lo diretamente em minhas mãos? Onot fez um gesto que poderia ser interpretado como surpresa. E Rhodan acreditou perceber na voz de Ellert um tom pesaroso. — Como é que não pensei nisso antes? Mas naturalmente! Já que veio para cá numa espaçonave, é só colocar o modelo a bordo, e você o leva. Seus cientistas

saberão extrair alguma utilidade dele. O resto eu lhes explico mais tarde. Precisam apenas acautelar-se para não irem parar inadvertidamente no campo de tempo projetado no decorrer das experiências. No entanto, não correrão graves riscos se desligarem logo o aparelho. Rhodan concordou. — Pois bem. Pode trazer o modelo até aqui, ou é pesado demais? O druuf repuxou a boca, e Rhodan adivinhou que Ellert fazia um arremedo visual de sorriso. — Pesado? Ora, você nem imagina que força tem um druuf! Onot dirigiu-se para a entrada do laboratório subterrâneo; voltou-se da porta, e sorriu para Rhodan. Lançou mais um olhar de admiração para a pequena nave espacial, e desapareceu no vão escuro. Rhodan sorria também, um sorriso muito significativo. Depois estremeceu repentinamente... Alguns pontos surgiam no horizonte, aproximando-se velozmente. Uma esquadrilha de ágeis caças, em vôo de patrulha. Que fariam ali na região montanhosa? Mero acaso, talvez... Por outro lado, podia não ser... Num salto, Rhodan precipitou-se através da apertada escotilha para dentro da nave. Ela tornou a fechar-se ainda antes dele se instalar no assento. Quando os três caças druufs alcançaram o local, Rhodan já voava muito acima deles. Compreendendo num relance, eles mudaram de curso. No entanto, por mais velozes que fossem jamais poderiam competir com um bote salva-vidas da frota terrana. Ficaram irremediavelmente para trás. Rhodan reduziu a velocidade, permitindo que os adversários se aproximassem. As montanhas com o laboratório de Onot estavam a boa distância agora. Diante deles apareceu o oceano. O ecolote — aparelho em impecável estado de funcionamento — acusou uma profundidade de quinhentos metros. Aproximando-se, os três caças abriram fogo por todas as bocas. Os incandescentes raios energéticos deslizavam pelos anteparos protetores do bote salva-vidas. Pouco depois, porém, a pequena nave começou a balançar, perdeu velocidade, oscilou, e precipitou-se no oceano. Mergulhou de frente, depois de uma última tentativa de estabilizar-se. Os druufs observaram atentamente os arredores, porém nenhum sobrevivente emergiu das agitadas ondas do mar. Satisfeitos, fizeram rugir os propulsores, e desapareceram na direção da terra firme. Rhodan percorrera, entrementes, extenso trecho por baixo da água. Ainda bem que suas naves espaciais podiam deslocar-se em qualquer meio, com velocidade diferente, porém. Harno substituía, por ora, os instrumentos necessários. Sua superfície esférica mostrou os três druufs, que desistiram da busca e afastaram-se. Rhodan sorria de satisfação ao apontar para cima a 100


quilha da nave, e emergir do oceano como um raio metálico, sumindo segundos após no Armamento colorido. Quando tornou a desembarcar junto da entrada do laboratório de Onot, com Harno novamente guardado no bolso, o breve incidente já estava quase esquecido. Ellert-Onot ainda não estava de volta, mas não devia demorar. Despistara habilmente os druufs. Na certa o haviam tomado por algum espião da frota-robô, agora devidamente abatido. Pois bem, que continuassem pensando assim! “Por que Ellert tarda tanto...?”, pensou, indagando-se. No mesmo instante, pressentiu a aproximação do mutante. Onot evidentemente realizava tremendo esforço, pois Ellert estimulava-o constantemente a não desistir. Depois Onot surgiu na abertura da porta. Carregava nos poderosos braços um bloco metálico, que largou imediatamente no chão. Rhodan examinou com ar interessado o bloco, enquanto Ellert dizia: — Trata-se do primeiro modelo experimental do congelador de tempo. Mande levá-lo para a Terra, Perry. Estou certo de que os cientistas terrestres saberão como levar adiante as experiências, enquanto eu não regressar. — Obrigado — limitou-se a dizer Rhodan. — Acha que nós dois seremos capazes de colocá-lo a bordo sem ajuda? — Que nada, deixa isso comigo! — disse Ellert, levantando novamente o volume. Com visível esforço, empurrou-o através da escotilha aberta, ajeitando-o com mais alguns movimentos. — Vai ter que encolher-se um pouco durante a viagem de volta, mas como a nave parece ser bastante veloz, o vôo será curto. — Sem dúvida — confirmou Rhodan. Vou decolar, e providenciar a remessa imediata do modelo à Terra. — Cuidarei da propulsão estelar — prometeu Ellert. — Irei ainda hoje à central de cálculos debaixo da cidade, a fim de trazer o material para as micros gravações. Talvez o encontre até na própria cidade. — De todo o coração lhe desejo boa sorte, disse Rhodan, apertando a mão do druuf. — Em caso de necessidade, se não puder separar-se de seu amigo Onot, venha para a Terra no corpo dele. Não nos fará diferença. Dará notícias? — Claro, Perry. Quanto ao que disse sobre Onot, vou considerar a possibilidade. De alguma forma, sinto pena do coitado. A porta para o subterrâneo só tornou a abrir-se muito tempo depois de Rhodan ter sumido com sua mininave nas nuvens multicoloridas. Onot lançava duas sombras distintas, sem dar atenção ao fenômeno... Vagarosamente tornou a descer para seu refúgio rochoso. *** A tempestade que açoitava a zona crepuscular de Hades amainara um pouco. No horizonte boiava a imagem rubro-

verde do sol gêmeo, um gigante fulgurante e fantasmagórico. A atmosfera rala fazia o céu parecer escuro, apesar do brilho dos sóis. Simultaneamente, algumas estrelas maiores cintilavam no Armamento. Nas proximidades existia uma extensa cordilheira, que oferecia alguma proteção contra o temporal. Os cumes mais elevados rebrilhavam em tons branco-avermelhados. Atmosfera congelada, sem dúvida. Muito além ficava a gélida face noturna do planeta. Profundas fendas e valas rasgavam a superfície rochosa. Não havia qualquer espécie de vegetação. Nas profundezas dos íngremes vales, aonde jamais chegava um raio de sol, havia poças geladas. Hades era um mundo onde só se conseguia sobreviver, graças aos artifícios tecnológicos. Sem traje espacial, a permanência era possível apenas na faixa crepuscular, e isso por meia hora, no máximo. O ar era rarefeito, mas respirável por quem não se submetesse a esforços físicos... Junto a uma fenda, algo se moveu repentinamente... O solo rochoso abriu-se; dele emergiu uma placa, trazendo dois seres vivos! Bell e Gucky usavam trajes espaciais aquecidos, de feitio bem diverso. O pequeno rato-castor fazia figura bem pitoresca no seu; no entanto, sentia imenso orgulho por vestir uma confecção sob medida. Bell contentara-se com um modelo convencional. A placa parou, e os dois encetaram a caminhada pelo planeta infernal, com os rádios dos capacetes ligados. — Droga de elevador — resmungou Bell, aborrecido, referindo-se à placa. — Incômodo e antiquado. Quem me dera um elevador antigravitacional! — Não se pode ter tudo — replicou a voz clara de Gucky. — Já me dou por satisfeito por não ter tido que fazer a escalada a pé. Olhando em torno, continuou: — Puxa, onde se terá metido Perry? O Tenente Potkin disse que ele também usou o elevador. — E este é o único existente — comentou Bell, olhando interessado o duplo sol colorido. — Talvez tenha simplesmente ido dar um passeio, e basta procurá-lo. — Procurá-lo? Está bem, vá por aquele lado! Coisa mais fácil de dizer do que de fazer. Havia mil possibilidades de esconder-se na paisagem dilacerada. Além das inúmeras fendas no solo, existiam blocos de rocha espalhados por toda a parte, morros escarpados, vales estreitos e fundos. Realmente, não se saberia por onde começar a busca. — Aliás, ele deveria até ouvir-nos enquanto conversamos — lembrou Bell. — Pois o traje espacial dele tem capacete idêntico aos nossos. Mudando de tom, chamou: — Alô, Perry! Por que não responde? Está querendo brincar de esconder? — Não deu um pio acerca do que pretendia fazer aqui fora — disse Gucky, aborrecido. — Geralmente me traz junto... 101


— Talvez quisesse se livrar de um chato, para variar — interrompeu Bell, sarcasticamente. A reação de Gucky foi violenta: — Cale a boca, ou vai ver uma coisa! Bell achou melhor silenciar. Afinal, não sentia a menor vontade de ficar à mercê do rato-castor naquele planeta inóspito. Seu olhar correu pela paisagem pouco atraente; depois, por puro acaso, subiu pelos picos escarpados, detendo-se por fim no céu, que, agora, estava negro-violeta. Seria alguma estrela? Adivinhando a pergunta de Bell, Gucky olhou igualmente para cima. Uma minúscula estrela cadente riscava o céu, aproximando-se da superfície. Lenta demais para uma estrela, mas para uma... — Uma nave! — exclamou Bell. — Por todas as mulheres de Marte, uma nave! Não das nossas, certamente... — Faça-me o favor de deixar as mulheres fora da conversa! — reclamou Gucky, energicamente. — Mas tem razão quanto à nave. Não trouxemos nenhuma deste formato. Muito pequena... — Parece com os caças espaciais, mas é menor — observou Bell. — Espero que não se trate de um druuf. — Aqueles hipopótamos jamais caberiam nela — afirmou o rato-castor, protegendo-se por trás de um bloco de pedra, pois a pequena nave se aproximava velozmente. Tudo indicava que pretendia pousar justamente ao lado da entrada para a base subterrânea. — Mexa-se, homem, senão aquele cara, seja ele quem for, transforma você em nuvem energética! Bell lançou-se ao solo, arrastando-se para o esconderijo, onde estava Gucky. — Acha mesmo? — perguntou, esbaforido. Gucky lançou-lhe um olhar de escárnio. — Bem que valeria a pena.. — caçoou, espiando por cima da borda da rocha. Constatou horrorizado que a nave já aterrissara. E depois, ao sentir os impulsos mentais invadir-lhe o cérebro, começou a rir como uma criança. Levantou e começou a andar tranquilamente para fora do esconderijo. — Gucky! — gritou Bell, apavorado. — Abaixe-se, homem! Ficou doido? — Felizmente não sou homem — protestou Gucky, evidentemente ofendido com a comparação. Balouçando, aproximou-se da escotilha, nitidamente delineada no lusco-fusco; postou-se diante dela, em atitude de espera. — Pode vir sem susto, medroso — gritou para Bell, esquecendo que fora o primeiro a procurar cobertura. — É apenas Perry. Porém Bell tinha amor à vida. Contemplava trêmulo, o rato-castor, e a nave desconhecida, completamente estranha para ele. De onde Rhodan a teria tirado? Teria sido encontrada em Hades, por acaso? A escotilha abriu-se.

Ao desembarcar, Rhodan deu imediatamente com o rato-castor, que lhe acenava alegremente. — Ah... você! Como veio parar aqui? — Pelo elevador — explicou Gucky, singelamente. — Muito mais me interessa saber como é que você veio para cá... — Nesta nave! — replicou Rhodan, saltando ligeiro para o chão pedregoso, graças à gravidade pouco intensa. — Ótimo estar aqui. Pode ajudar-me? — Conte comigo! — Trouxe um caixote na nave. Quer tirá-lo para mim? — Trabalho braçal? — Gucky sacudiu-se todo. — Não, tenho uma ideia melhor. Voltando-se, gritou na direção do bloco de rocha: — Bell! Estão chamando por você, o homem forte! Reconhecendo Rhodan, Bell erguera-se. Estremeceu ao ouvir as palavras de Gucky, e acercou-se de ambos sem uma palavra. — Um caixote? Muito interessante! E o que tem dentro dele? — Arraste-o para fora, e saberá — caçoou Gucky. Rhodan fez um enérgico gesto com a mão. — Como é, não vão ajudar, seus brigões? O volume pesa algumas toneladas... pelo menos é o que pesaria na Terra. Aqui nossa tarefa é mais leve. Tornou a embarcar, dizendo: — Que esperam? — Tipo esquisito de aeronave — comentou Bell, aprontando-se para seguir Rhodan: — Nunca vi igual. Mais parece fruto da imaginação... Apesar disso, as formas aerodinâmicas são aceitáveis. Já dentro da nave, Bell arregalou os olhos ao ver o lustroso bloco de metal. — É isso que devemos levar para fora? — Já falei que as condições gravitacionais aqui valem um terço — replicou Rhodan, pacientemente. — Conseguiremos facilmente, mesmo sem a ajuda de Gucky. — Aquele sujeitinho sempre se esquiva do trabalho — disse Bell. — Bem que poderia resolver o caso usando a telecinese. — Depois ele fará isso. Primeiro gostaria de ver o caixote fora da nave. Realizaram a tarefa em poucos minutos. Quando o brilhante bloco metálico já havia sido depositado sobre a rude superfície do planeta, também Gucky se aproximou. Contemplando-o pensativo, disse: — Percebo que blinda seus pensamentos, Perry. Mais um segredo vedado para nós... Pois bem, seja. Mas diga-nos ao menos o que há neste caixote metálico! — Um modelo do congelador de tempo — disse Rhodan, calmamente. — Fui buscá-lo no laboratório de Onot. — E ele entregou a maravilha? — perguntou Gucky, espantado. — Bem, na realidade foi Ellert — explicou Rhodan. — E agora faça o favor de transportar imediatamente o modelo 102


para a Drusus. Caso esta não se encontre aqui, leve-o para a central do Capitão Rous. Bell e eu seguiremos atrás. Bell desviou os olhos do modelo. — Respondeu a uma pergunta de Gucky — constatou-o, um tanto ofendido. — Teria a amabilidade de satisfazer igualmente minha curiosidade? — Como fala empolado, o gorducho — troçou Gucky, instalando-se sobre o modelo do congelador de tempo, a fim de estabelecer o contato corporal necessário à teleportação. — Por que não o deixa espernear um pouco? Rhodan sorriu significativamente. — Não seria preferível saber primeiro o que é que ele queria perguntar? Vamos, Bell, fale! Bell inspirou profundamente. — De onde tirou aquela nave? Conforme vejo, é um modelo totalmente desconhecido para mim, e jamais encontrei tipo semelhante. Não foi em Hades que a encontrou, não é? — Claro que não! — disse Rhodan, voltando-se para o rato-castor. — Só falta você afirmar que nunca em sua vida viu nave tão pequena! — Não vi mesmo — confirmou Gucky, parecendo hesitar de repente. — Não que eu me lembre... Rhodan caiu na gargalhada. — Ora, vejam! E eu imaginando que cada um de vocês conhecesse de cor e salteado todos os tipos de nossas naves, sabendo distinguir uma da outra, e agora passo por esta decepção! Será possível? Sabem o que é isto aqui? — apontou para o cilindro metálico de dez metros de comprimento. — É um bote salva-vidas da Drusus. Quase todos nossos cruzadores maiores dispõem desta espécie de botes, capazes de alcançar a velocidade da luz, e acomodar uma porção de gente. Mas nenhum de vocês jamais se viu na necessidade de ter de usar um bote salva-vidas; portanto, dá para compreender a ignorância dos dois. Apesar disso... Gucky fungou furioso, fez um gesto vago na direção da pequena nave, preparou-se para dizer alguma coisa, mas desistiu. Depois teleportou-se. O modelo do congelador de tempo também se dissolveu no ar. Bell suspirou, aliviado. — Boa lição deu a este malandro — comentou-o, dando mostras de querer esquecer o mais depressa possível o penoso incidente. — Claro que eu conhecia os botes salvavidas, porém minha memória pregou-me uma peça... Bell recusava-se aceitar a verdade, por achar mais agradável a versão fantasiosa.

“Achar uma nave espacial de procedência misteriosa num planeta desabitado... isso sim é que era aventura!”, pensou um tanto desapontado. — Pois é, de tecnologia o rato-castor não entende mesmo nada! — concluiu, tentando encobrir seu erro. Rhodan sacudiu a cabeça, resolvendo esquecer o caso. Encaminhou-se para a placa do elevador, e postou-se sobre ela. — Ande depressa, caso não queira pernoitar aí. E as noites aqui duram um bocado de tempo, mais ou menos uma eternidade. Pois, devido à posição do sol, a noite aqui é constante. Com alguns passos, Bell estava ao lado de Rhodan. Lentamente a placa desceu para o interior da base. Acima deles, a abertura se fechou novamente. Bell estava calado. — Pois é — disse Rhodan, ao tomarem o corredor iluminado na base. — Parece-me ser a única. De vez em quando é preciso recordar um pouco. — Recordar? — perguntou Bell, intrigado, arrependido por ter ido espionar com Gucky na superfície. — O que quer dizer? — Recordar os conhecimentos, meu caro. A partir desta noite, tempo de Hades, iniciaremos cursos dos quais participarão obrigatoriamente todos os oficiais e praças da base. Aproveitamento das horas de lazer, digamos. E você dará a primeira aula. — Eu, dar aula? Rhodan acenou. — Exatamente! O assunto desta noite: conformação externa dos diversos tipos de espaçonaves terranas, a começar pelos botes salva-vidas. Creio que a repetição do assunto será útil para determinadas pessoas. Que acha? Bell sorriu contrafeito. — Prometo nunca mais pensar coisa alguma, a partir de hoje; isto é, caso possa evitar. Pois bem, hoje à noite. Espero que Gucky também compareça. — Pode contar com isso! — prometeu Rhodan, tomando o primeiro corredor lateral. Bell seguiu-o com um olhar preocupado. Em algum canto de seu armário, devia existir ainda um manual. Pois simplesmente de memória... Suspirou. Não, pessoa alguma conseguiria guardar na memória todos aqueles detalhes!

Ellert, o mutante desaparecido, transmitiu a Rhodan valiosos conhecimentos. Porém de que valiam para Perry Rhodan todos esses conhecimentos, se Thora, sua mulher, está prestes a iniciar seu sacrifício? Em O Sacrifício de Thora, título do próximo volume, será narrada uma história de grandeza humana incomensurável, comovente.

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Nº 78

De

Kurt Brand Tradução Richard Paul Neto Digitalização Arlindo San Nova revisão e formato W.Q. Moraes

O computador-regente convida Rhodan para um contato pessoal — na verdade, trama mais um golpe.

Apesar dos repetidos esforços, Perry Rhodan não conseguiu que a ducha celular do planeta Peregrino fosse aplicada a Crest e Thora. As experiências neste sentido produziram resultados negativos, pois o fisiotron não reagia às vibrações orgânicas dos dois arcônidas. É bem verdade que, há algum tempo, John Marshall e Laury Marten conseguiram, numa missão perigosa, trazer de Tolimon uma ampola de soro prolongador da vida... Mas agora, um processo de decadência tem início no organismo da arcônida, fazendo com que a droga não produza o efeito desejado... Aí, então, começa o sacrifício de Thora!

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fez desconfiar de sua capacidade de avaliação. 1 Num gesto apressado, ligou o interfone. — Peço que os senhores Gonder, Iltar e Vandenbourg compareçam imediatamente à minha presença. O Dr. Villnoess, chefe da Divisão de Hematologia da Dali a pouco, os três médicos entraram juntos. O Clínica Terrana de Port Vênus, examinou mais um médico-chefe ainda segurava o resultado da análise do resultado de análise. Lançou um olhar aborrecido para a sangue de Thora. pilha de documentos que tinha à sua direita. O maçante Nem sequer convidou os colegas a sentarem-se. Ele trabalho de rotina obrigava-o todos os dias a abandonar mesmo não agüentou ficar na cadeira giratória, que ficava seus laboratórios, e transformar-se num burocrata. O Dr. atrás de sua escrivaninha. Villnoess contava apenas trinta anos de idade. Ainda era — Senhor Iltar — começou em tom hesitante — não muito jovem, quando foi investido nas funções de chefe da Divisão de Hematologia da Clínica Terrana de Vênus. pretendo lançar dúvidas sobre o resultado de seu Muitos colegas tinham-lhe inveja. Acontece que Villnoess diagnóstico, mas... — calou-se, sacudiu a cabeça e largou o era um dos dez melhores hematólogos do Império Solar. resultado da análise. Lançou um olhar indagador para os Graças às suas intensivas atividades de pesquisa, granjeara três colegas. fama em virtude de suas descobertas pioneiras no terreno da Acenaram com a cabeça. Compreendiam o chefe, mas hematologia. No momento, essas descobertas estavam não souberam responder à sua muda indagação. sendo submetidas ao teste dos exames clínicos. Finalmente, Villnoess, o médico-chefe decidiu-se: Segundo a rotina, extraiu apenas os dados mais — Senhores, não posso transmitir este resultado a Perry importantes do resultado de análise que tinha à sua frente. Rhodan! Como acham que vou fazer uma coisa destas? Agora o Dr. Iltar, responsável pelo resultado escrito, Doença hiperplástica do não poderia deixar de pronunciar-se sobre a pergunta do sistema e LC, tipo F Árcon. chefe. Irreversível. — Chefe, compreendemos perfeitamente. Também não Tentativas 453 LS/ara falhou. gostamos de acreditar nisso, mas infelizmente a situação é Expectativa de vida: zero. precisamente esta. Dona Thora é uma arcônida, e o tumor da glândula linfática é um carcinoma Era o núcleo do resultado da análise, arcônida maligno do tipo F. Há cerca de e Villnoess esteve a ponto de assiná-lo Personagens principais deste duas horas, o laboratório de cancerologia para colocá-lo na pilha dos documentos episódio: de Terrânia confirmou por via telegráfica liquidados, quando alguma coisa o fez que, tal qual acontece em todo aumento estremecer. Thora — Conhecida como a boa numérico dos glóbulos brancos, os “Tipo F Árcon”, pensou. alma do Império Solar. granulócitos e monócitos entraram no Quem poderia ser o paciente para o sangue na proporção de 5:100. Em face qual esse resultado representava uma Dr. Villnoess — Chefe da Divisão desse resultado, a possibilidade de erro de sentença de morte? de Hematologia da Clínica diagnóstico é bastante reduzida. Apesar Era Thora, a esposa de Rhodan! Terrana de Vênus. disso... Villnoess leu a meia voz: General Conrad Deringhouse — O Dr. Villnoess recostou-se à — LC tipo F Árcon. Um homem que tem uma missão a escrivaninha. O “apesar disso” e a pausa Depois de respirar profundamente, cumprir em Árcon. que se seguiu a estas palavras não prosseguiu: anunciava nada de bom. — Tentativa LS/ara falhou. Tenente Hendrik Olavson — O — Apesar disso o quê? — pergunto A sigla LC significava talento astronáutico. Villnoess em tom áspero. — Fale logo. linfocarcinoma, ou seja, um tumor Taa-rell — Comandante de — Chefe, há algum tempo, o soro maligno numa glândula linfática. A letra Mutral, um planeta fortificado dos revitalizante dos aras do planeta de F indicava o grau de periculosidade da arcônidas. Tolimon foi injetado em dona Thora. O moléstia cancerosa. A palavra Árcon não senhor deve estar lembrado de que numa significava apenas ser o paciente um Ishy Matsu — A jovem telepata. ação arriscada John Marshall e Laury arcônida, mas ainda de se tratar de um Marten conseguiram apoderar-se de tumor que representava um mistério até Perry Rhodan — Será que este homem saberá resistir ao golpe do pequena quantidade desse soro. mesmo para os médicos galácticos, que destino? — Sim; e daí? — perguntou Villnoess ainda não haviam descoberto qualquer em tom insistente. remédio contra tal doença. Não queria enxergar a ligação entre esses fatos e a O Dr. Villnoess enxugou a testa molhada de suor. doença de Thora, mas no seu íntimo pensava: Ele, que até então sempre confiara nos diagnósticos dos “Tomara que não seja isso! Tomara que não seja!” colegas, sentiu-se tomado de uma espécie de pânico que o O Dr. Iltar prosseguiu em tom hesitante. 105


— O laboratório de cancerologia de Terrânia manifestou a suspeita de que o tumor F Árcon tenha surgido em virtude da aplicação do soro, já que alguns dos granulócitos alterados se assemelham àquela substância misteriosa e não identificada que entra na composição do elixir. — Iltar! — o médico-chefe teve de esforçar-se para não perder o autocontrole. — Quem manifestou essa suspeita? E a pessoa que emitiu esse pronunciamento já sabe que o paciente é a esposa de Perry Rhodan? — Foi o professor Eric Manoli, chefe. Não houve necessidade de responder à última pergunta. O médico-chefe, Dr. Villnoess, repetiu com a voz rouca: — O professor Manoli é um dos mais antigos colaboradores de Perry Rhodan. A ducha celular, que lhe foi aplicada no planeta Peregrino, fez com que se conservasse jovem. O professor é a maior autoridade no terreno da hematologia. Se Manoli manifestou uma suspeita, podemos supor que, depois de uma série de investigações mais de talhadas, essa suspeita venha a transformar-se em realidade. O médico-chefe respirou pesadamente e passou a mão pela testa. — Será que devo informar Perry Rhodan de que, naquela oportunidade, não foi injetado nenhum soro revitalizante nas veias de sua esposa, mas um veneno que provoca o câncer? Iltar faça o favor de chamar a central. Preciso falar imediatamente com o professor Manoli. Acho que ele está em Terrânia, ou não? A ligação audiovisual só foi completada dali a trinta minutos. O rosto expressivo e intelectualizado surgiu na tela que se encontrava à frente de Villnoess. Manoli falava com a voz calma quase indiferente. Removeu as objeções formuladas pelo médico-chefe da clínica terrana, recorrendo a seu saber fenomenal sobre todas as facetas da doença mortífera. — Não se pode dizer que o soro revitalizante dos aras do planeta Tolimon seja um veneno, Villnoess. Todos os arcônidas têm uma predisposição para a leucemia. Ainda não sei se isso constitui uma manifestação de degenerescência, ou se representa a resistência natural do corpo às tentativas de não permitir que a morte se aproxime. Não gosto de pensar que os dias de Thora estejam contados, pois sei perfeitamente que Perry Rhodan ama apaixonadamente a esposa, muito embora esta tenha envelhecido repentinamente. “No entanto, cada coisa tem duas faces, colega Villnoess. A semelhança entre a substância encontrada no medicamento dos aras e aquela revelada durante a moléstia do tipo F Árcon fez com que passasse a raciocinar que os soros revitalizantes dos arcônidas provavelmente funcionam com base num processo dirigido de proliferação. Não acha que é um aspecto bem interessante, colega?” Pela primeira vez, depois de se ter tornado médico,

Villnoess deu-se conta plenamente do que vem a ser um pesquisador. As palavras do professor constituíam uma representação viva nesse sentido. Enquanto ele ainda lutava com a indagação de como informar Perry Rhodan de que sua mulher morreria em breve, o professor já havia feito uma pesquisa interessante. Tal atitude não representava nenhuma blasfêmia. Manoli encarava a morte sob o ponto de vista de que morrer é apenas outra forma de viver. Uma vez concluída a palestra entre os dois especialistas, o Dr. Villnoess sentiu-se mais aliviado. Mas, ao refletir sobre a maneira de formular a notícia a ser transmitida a Perry Rhodan, administrador do Império solar, as velhas dúvidas voltaram a surgir. Fez três tentativas de redigir um relato em que vibrasse um pouco de sentimento humano, mas acabou por elaborar um texto que resumia os fatos. Não mencionou a suspeita manifestada pelo professor Manoli. Durante sua palestra com Manoli, soubera que Perry Rhodan se encontrava no planeta Fera Cinzenta, de onde dirigia a missão de observação dirigida contra os druufs. A mensagem codificada chegou a Perry Rhodan por meio da gigantesca estação de hiper-rádio de Terrânia, e através de três cruzadores pesados estacionados no espaço, que serviam de estações retransmissoras. Rhodan fez um esforço sobre-humano para bloquear sua mente. Naquele instante, nenhum telepata conseguiria ler seus pensamentos. Não queria que ninguém tivesse possibilidade de acompanhar sua dor, seu desespero e sua revolta impotente contra o destino. Apesar da enorme carga psicológica, Perry Rhodan, administrador do Império Solar, que criara a gigantesca organização com a força de sua personalidade, conseguiu levar a bom termo a conferência em que se encontrava. Dali a três horas chegou à mensagem vinda do planeta Fera Cinzenta, pela qual Perry Rhodan confirmou ter recebido a triste notícia. Mais uma vez, a transmissão foi realizada através de estações retransmissoras instaladas em naves espaciais, a fim de que Árcon não tivesse possibilidade de valer-se da radiogoniometria para descobrir a posição da Terra. O Dr. Villnoess não se espantou ao saber que o chefe, nome pelo qual Rhodan geralmente era conhecido, não entrou em contato com ele. Seria preferível realizar esse contato com o professor Manoli. Menos de vinte e quatro horas, tempo de Vênus, depois desses fatos, o médico-chefe Villnoess teve de interromper a rotina de trabalho e sair do laboratório antes da hora. Foi avisado de que o General Deringhouse queria falarlhe. Largou imediatamente o trabalho. Sabia quem era o general, e quem o mandara a Port Vênus. Conrad Deringhouse, um homem alto e meio magro, fitou o médico-chefe com uma expressão séria, enquanto este, sentado à frente do general, procurava explicar as características da doença da senhora Thora Rhodan ao 106


homem não entendido em medicina. O cabelo de Deringhouse apresentava o corte típico de militar. As sardas reforçavam seu aspecto juvenil. O processo natural de envelhecimento foi detido por sessenta e dois anos, por meio da ducha celular aplicada no planeta artificial Peregrino. Os arcônidas Thora e Crest, porém, não tiveram permissão de usar o fisiotron, muito embora Perry Rhodan tivesse feito tudo para que também eles recebessem o presente maravilhoso do prolongamento da vida pelo espaço de seis decênios. O Dr. Villnoess concluiu seu relatório. O General Deringhouse fitou-o com uma expressão pensativa. — Doutor, se eu o entendi corretamente, supõe-se que a doença incurável de dona Thora foi provocada pelo soro dos aras do planeta de Tolimon. E é nisso que não consigo acreditar. Afinal, os médicos galácticos... Villnoess interrompeu-o abruptamente. — Já sei o que vai dizer general. Cabe-me informá-lo de que os médicos galácticos veem-se tão impotentes diante do carcinoma F Árcon quanto nós. E nós, os terranos, só conhecemos o F Árcon por meio da literatura especializada dos aras. Dentro de nosso arsenal de doenças... Deringhouse inclinou-se para frente e perguntou em tom de curiosidade: — Dentro de quê? — essa pergunta representava uma reação bastante visível à expressão “arsenal de doenças”, usada nos círculos clínicos. Villnoess não deixou que a interrupção o perturbasse. — Arsenal de doenças é uma expressão corriqueira no âmbito da medicina. Mas voltando ao assunto: desde sua permanência no Império Solar, dona Thora está exposta a um risco bem maior que seu patrício Crest. Só constatamos esse fato por ocasião do último exame de sangue realizado em dona Thora. Seria extenuante explicar, general, todos os fatos que levam a esta conclusão arrasadora. Pediria que não insistisse nesse ponto. O resultado final é bastante trágico. E a esperança de que os médicos galácticos possuam um remédio, ou conheçam um capaz de eliminar os efeitos mortíferos do linfocarcinoma F Árcon, seria puramente ilusória. “Faz cerca de vinte dias que a maior autoridade dos médicos galácticos no terreno dos reflexos da meninge, o Dr. Uut-Cin, morreu de carcinoma F Árcon. O senhor pode confiar na exatidão desta notícia, inclusive no que diz respeito à causa mortis de Uut-Cin.” Os dois homens fitaram-se em silêncio. — Doutor como eu poderei transmitir esta notícia ao chefe? Estou a caminho de Fera Cinzenta, e Rhodan me incumbiu de fazer uma parada em Vênus, a fim de falar com o senhor. Villnoess... — o General Conrad Deringhouse levantou-se de um salto e caminhou nervosamente de um lado para o outro. Este homem, que sabia conservar o sangue-frio, mesmo nas missões mais perigosas, temia o momento em que se veria diante do chefe, para cumprir a triste tarefa de informá-lo de que não havia nenhuma esperança para sua

esposa. Deringhouse acompanhara de perto a lenta aproximação humana entre a arcônida Thora, uma mulher dotada de beleza quase irreal, e Perry Rhodan, o idealizador da Terceira Potência e criador do Império Solar, que acabaram formando um excelente casal. Acontece que Perry Rhodan obteve no fisiotron do misterioso planeta artificial Peregrino a ducha celular prolongadora da vida, que deteve o processo de envelhecimento. Já em Thora, esse processo iniciou-se de repente, e só podia ser detido por pouco tempo pelos soros e medicamentos dos homens e dos aras. Rhodan fizera tudo que estava ao seu alcance, a fim de evitar que Thora fosse atingida pelo triste destino de transformar-se numa mulher velha, enquanto ele conservava o vigor e a juventude. Nenhum dos remédios que foram dados a Thora no correr do tempo teve um efeito duradouro. Todos agiam por um tempo muito mais curto do que os médicos esperavam. Tornava-se cada vez mais evidente que o organismo de Thora mobilizava todos os elementos ativos para lutar contra esses preparados. Sua natureza opunha-se à intervenção. Subitamente, há três meses, Thora transformou-se numa mulher velha. Constatou o fato ao amanhecer, antes de encontrar-se com Perry. Na mesa de café, falaram sobre o assunto. Ela sorriu e sua mão passou sobre a mão de Perry, num gesto de ternura. Havia lágrimas em seus olhos, mas sua boca sorria. E, quando segurou a cabeça de seu homem, fitando-lhe o rosto com seus grandes olhos e infinitamente belos, disse: — Perry, não posso chorar, pois isso seria um absurdo... Afinal, a seu lado, vivi uma vida feliz. Não quero esquecerme de você... E despediu-se dele. No mesmo dia, uma nave a levou a Vênus, onde procurou seu bangalô denominado Árcon, situado a dois mil metros de altura, ao pé da cordilheira de Valta. Três meses já se haviam passado desde então, e de uma mulher que envelhecia rapidamente, Thora se transformara numa pessoa acometida de uma enfermidade mortal. Fazia vinte e quatro horas, tempo de Vênus, que o exame de sangue revelara esse resultado arrasador. E agora, o General Deringhouse corria nervosamente de um lado para outro, no gabinete do médico-chefe Villnoess. Com as mãos cruzadas às costas, aquele general intimorato tinha medo de apresentar-se ao chefe e dizer-lhe: “Perry Rhodan, sua esposa não tem salvação.” — Doutor — Deringhouse parou à frente de Villnoess. — Rhodan também é apenas um ser humano. Não é uma estátua ou qualquer outra coisa sem vida. Como direi a ele? Dê-me um conselho. — Ele já sabe — respondeu o Dr. Villnoess. — Ontem falou com o professor Manoli. — Sim, já sabe! — exclamou Deringhouse em tom 107


nervoso. — Mas será que o senhor não pode imaginar que Rhodan não queira acreditar? Afinal, continua sendo o marido dela. E Thora é sua esposa. Ele a ama. É pena que o senhor nunca teve oportunidade de ver como os dois viviam numa bela harmonia. Thora! Sim, Thora, a arcônida, a mulher que já foi orgulhosa, altiva e reservada, a princesa de uma velha estirpe de Árcon, ela se transformou na boa alma do Império Solar. “Quero dizer-lhe uma coisa que pouca gente sabe. Thora guiou nosso chefe, e isso não por meio de exigências, muito menos por meio de acusações ou recriminações. Ela simplesmente o conduziu pelo fato de ter sido sua mulher, de ele ter encontrado a seu lado a felicidade com que sonhava”. “E agora o senhor me diz que tudo isso chegou ao fim? Justamente agora, que o destino de nosso minúsculo sistema está por um fio?” “Dr. Villnoess, deve haver um meio contra o tal do carcinoma F Árcon!” O médico-chefe da Divisão de Hematologia interrompeu o general. Ainda impressionado pelas palavras do oficial, disse em tom deprimido: — General, morrer é apenas outro modo de viver. — É só isso que o senhor tem a me dizer? — perguntou Deringhouse em tom áspero, para logo em seguida prosseguir: — Doutor, eu não posso acusá-lo de nada, mas... — General, no caso de Thora Rhodan não existe nenhum mas... — Pois então, responda-me: quanto tempo de vida ainda terá a esposa de Perry Rhodan? — General, hoje é o dia 4 de outubro de 2.043. Respirou profundamente. — A senhora Thora não chegará a ver a primavera de 2.044. — Quer dizer que terá seis meses? — Talvez. — Será que posso visitar dona Thora? Ou existe algum motivo que nos impeça de voarmos para o bangalô Árcon? O médico-chefe refletiu ligeiramente. — Não quero infundir falsas esperanças no senhor ou no administrador, mas tanto eu como meus colegas somos de opinião de que se deveria confiar uma missão importante a dona Thora, a fim de que ela não passe, num estado de letargia e desespero mudo, os últimos meses de sua vida, antes que tenha início o processo de rápida decadência orgânica. Deringhouse fumava nervosamente. — Como devo interpretar essa sugestão, doutor? Será que uma tarefa importante faz com que um ser humano da raça dos arcônidas mobilize tantas forças que a morte poderá chegar de repente? — Neste ponto, não existe a menor diferença entre os homens e os arcônidas, general. De qualquer maneira, prefiro dar resposta negativa a seu pedido de visitar dona Thora. O senhor está a caminho de Fera Cinzenta, general.

Se na volta passar novamente por Vênus, traga uma missão importante para dona Thora. Posso garantir que, com isso, recuperará a vontade de viver... — Dona Thora ainda não sabe qual é sua doença? — perguntou Deringhouse. — Sabe desde hoje de manhã. Ela telefonou e... — E o senhor... Doutor, não é possível! — mais uma vez era o militar que falava, mas Villnoess não se deixou intimidar. — Não quis assumir a responsabilidade de pregar uma mentira piedosa para privar dona Thora do pouquinho de vontade de viver, que ainda lhe resta. Thora sabe que sofre da doença F Árcon. — Doutor, eu seria capaz de... — Deringhouse, geralmente tão controlado, fez um gesto nervoso com o braço. “Meu Deus” pensou o médico-chefe. “Como este general deve estimar a esposa de Perry Rhodan, para deixar-se arrastar a um gesto destes!” Não se assustou com o movimento, que parecia ser o prenuncio de um soco, pois compreendia as reações humanas. — General — respondeu Villnoess. — Desde hoje de manhã, dona Thora está convencida de que o soro prolongador da vida, que lhe foi aplicado, só deixou de produzir seus efeitos em virtude do tumor. O senhor compreende o efeito psicológico dessa maneira de ver as coisas? Refletiu, depois continuou: — Para uma mulher, sempre é mais fácil aceitar o fato de que envelhece em virtude de uma doença do que pela incapacidade de seu organismo reagir aos preparados biológicos. Peço-lhe que apresente esta ponderação ao administrador. — E eu lhe peço que procure entender minha reação e minhas recriminações. Está bem, doutor? Quando se viu novamente a sós em seu gabinete, o médico-chefe rememorou o diálogo. Admirava o General Conrad Deringhouse e compreendia a fibra dos homens que Perry Rhodan reunira em torno de si. Eram homens sinceros, homens que possuíam suas virtudes, mas também tinham defeitos. Assumiam a responsabilidade dos seus erros com uma franqueza que impunha respeito a qualquer pessoa. Villnoess afastou-se da escrivaninha e dirigiu-se à janela. O ambiente estava mergulhado no “cinzento”. Até mesmo as cores mais vivas empalideciam atrás da cerração. — Até parece uma mortalha — disse Villnoess. Respirava com dificuldade.

2 O general Deringhouse acabara de livrar-se da triste 108


missão. Perry Rhodan deu-lhe as costas. No recinto reinava um silêncio acabrunhador, que parecia pesar sobre os ombros de Deringhouse, como uma carga cujo peso aumenta constantemente. O diálogo mantido com o médico-chefe da Divisão de Hematologia da Clínica Terrana de Vênus fora transmitido quase textualmente ao administrador. Se havia alguém que tinha o direito de saber tudo, este alguém era Perry Rhodan, o marido de Thora. De repente, Rhodan disse: — Faça o favor de me deixar só, Deringhouse. Daqui a uma hora nos encontraremos para discutir a situação. Ficolhe muito grato. Mal a porta se fechou atrás do general, Rhodan entrou em contato com a central de comunicação audiovisual. — Transmita a Mr. Bell todas as ligações destinadas a mim. Não quero ser incomodado. Fera Cinzenta, o sétimo planeta de Mirta, um sistema que contava um total de quarenta e nove planetas, era uma base do Império Solar, cujo poderio aumentava a cada dia. Bilhões já haviam sido investidos no planeta, a fim de transformar este mundo numa fortaleza armada até os dentes, instalada nas proximidades da frente de superposição entre o Universo einsteiniano e o dos druufs. Para Rhodan, esse mundo — situado a apenas vinte e dois anos-luz da zona de passagem, onde as duas dimensões temporais se sobrepunham e o funil de compensação energética ia estabilizando-se — representava o principal trampolim para a ação que se esboçava. No momento não tinha nada a fazer senão esperar. A seu favor trabalhavam as frotas de guerra arcônidas e as naves dos druufs, que travavam batalhas encarniçadas nas proximidades e no interior da frente de superposição. Ambas as partes que, ao que parecia se igualavam em forças, registraram pesadas perdas materiais, mas estas eram compensadas instantaneamente pelas reservas. Nem os arcônidas nem os druufs viram nada de alarmante nas suas perdas, pois tinham onde buscar novas unidades. Mas naquele momento em que Deringhouse lhe confirmou aquilo que o professor Manoli já dera a entender por ocasião da última palestra, Perry Rhodan não pensou nas mortíferas batalhas espaciais, nem na situação do planeta. Seu pensamento estava no planeta Vênus. Diante dos olhos de sua mente, surgiu a cordilheira de Valta, e o bangalô Árcon. — Thora... Estendeu as mãos, entrelaçou os dedos e abaixou a cabeça. Sentado nessa posição, o homem poderoso do Império Solar queixava-se do destino. Chamou pela esposa. Sentiu-se cada vez mais tentado a seguir a voz interior que lhe dizia: “Deixe tudo de lado...” O homem vinha à tona em Perry Rhodan, o homem desesperado que não se conformava com o fato de viver por decênios sem envelhecer, enquanto sua esposa era tragada

pela terrível enfermidade. — Thomas... Thomas! Viu o rosto de seu filho, o rosto de Thomas Cardif, que tinha vinte e três anos. O rosto do filho de Thora. Acontece que o filho se voltara contra o pai — o filho que crescera com o nome Cardif e só pouco depois dos exames finais que lhe conferiram o grau de tenente da Frota Espacial Solar soube que Perry e Thora Rhodan eram seus pais. Seu filho ainda não lhe perdoara por ter sido privado do amor dos pais nos primeiros anos de vida. — Thomas, meu filho... — balbuciou. Gostaria de ter o filho perto de si, para que juntos procurassem uma maneira de despedirem-se da mãe e da esposa. Mas a imagem do filho desvaneceu-se com rapidez da mente de Perry Rhodan. Procurou trazê-la de volta, mas não conseguiu. Naquele momento, o homem que corporificava o poderio do Império Solar sentiu-se ainda mais oprimido, pois não contava com a amizade do filho. De todos os lados, o sentimento de solidão investia contra ele. A tentação de abandonar tudo e voar para Vênus, a fim de que Thora não ficasse só nos últimos meses de vida, essa tentação não ameaçava abalá-lo, mas parecia fazê-lo desmoronar, a ele, Perry Rhodan, o ídolo de bilhões de seres humanos. — Sir...! — a voz familiar do chefe da estação de hipercomunicação de Fera Cinzenta fê-lo retornar à realidade. — Pois não — disse em tom automático, levantou a cabeça e viu um rosto conhecido. — Sir, há dez minutos a estação vem captando uma mensagem do computador-regente. Avisei Mr. Bell, mas ele me pediu que falasse com o senhor. “Obrigado, Bell” pensou Rhodan ao ouvir estas palavras. Mais uma vez percebeu quanto vale ter um amigo. Bell devia ter imaginado sabido ou sentido o que se passava com ele. Talvez Deringhouse lhe tivesse contado. E aquele procedimento era típico de Bell. — Sir — disse o chefe da estação de hipercomunicação, enquanto os pensamentos de Rhodan vagavam ao longe. — O texto da mensagem é o seguinte: “Solicito comparecimento pessoal.” Esta mensagem é repetida de dez em dez minutos na faixa do cérebro positrônico e não menciona destinatário nem remetente. Será que é dirigida ao senhor? Bell acredita que seja. — Obrigado — respondeu Rhodan, e ficou perplexo ao perceber que sua voz não perdera o tom familiar. — Já esperava esta mensagem. Não há necessidade de responder. Desligo. O dia-a-dia voltara a apoderar-se dele. Os problemas pessoais teriam de ser colocados em segundo plano. No Império Solar havia uma pessoa que compreendia seus atos: Thora, sua esposa! Enquanto fazia a ligação para seu representante Reginald Bell, pensou em sua mulher. — Bell, Deringhouse está aí? — perguntou. 109


— Está. Quer falar com ele? — Quero falar com vocês dois. Venham para discutirmos a situação. Quando se viu novamente diante do chefe, Deringhouse espantou-se com o autocontrole do mesmo. Só as rugas — um tanto acentuadas — de seu rosto revelavam o esforço que tinha de fazer. Com um gesto, convidou-os a sentarem-se. — Bell, você já está informado, mas Deringhouse não — fitou o general, que aguçou o ouvido. Sempre que a voz de Perry Rhodan apresentava esse tom metálico, uma missão perigosa estava iminente. — Deringhouse, em fins de setembro, manifestei perante o computador-regente de Árcon o desejo de adquirir cem naves esféricas arcônidas... — Adquirir...! — exclamou Bell em tom insolente. — Quando o ouço falar assim, lembro-me de como você adquiriu nossa Titan. Naquela oportunidade, Gucky não usou a palavra grosseira roubar? Perry Rhodan sabia o que estava acontecendo na mente do amigo. A observação galhofeira tinha por fim arrancá-lo do estado de tensão em que se encontrava. Rhodan aceitou a insinuação de Bell. — Escute gorducho — respondeu. Esse tratamento familiar não tinha nada de extraordinário, mesmo na presença de um general. — Estou perfeitamente lembrado de que naquela oportunidade foi você quem usou esse tom. E agora você há de se lembrar das condições em que a Titan nos foi “entregue” pelo cérebro positrônico. Bell ainda não estava disposto a bater em retirada. — Desculpe minha alusão, Perry, mas seu plano de “adquirir” cem naves esféricas de Árcon obrigou-me a pensar na aquisição da Titan. Não pagamos nada por ela. Ou será que pagamos? A risada de Deringhouse provava que por ocasião da “compra” da Titan surgiram certos trâmites pouco usuais nesse ramo de negócios. O general fez um gesto de assentimento para Bell. — O.K., Bell — disse Perry Rhodan e voltou a dirigirse a Deringhouse. — Não pretendo comprar cem naves de Árcon. O pagamento não será um argumento válido para o cérebro gigante. Acho que podemos aproveitar a situação surgida junto à área de superposição. Face à sua programação, o cérebro positrônico não pode compreender a existência de um plano einsteiniano e de um plano dos druufs, além do fenômeno representado pela área de superposição. Por isso, minha proposta de celebrarmos um pacto armado contra os druufs será mais atraente. Pelo seu rosto concluo que deve ter alguma objeção. A resposta do general foi proferida em tom sarcástico: — Em minha opinião, o demônio seria um parceiro mais honesto que o cérebro positrônico de Árcon. O computador já cumpriu um tratado que seja, chefe? A resposta de Rhodan parecia contornar a questão. — Quero adquirir dez supercouraçados da classe Império, com mil e quinhentos metros de diâmetro, vinte

couraçados de quinhentos metros, trinta cruzadores pesados de duzentos metros e quarenta cruzadores leves da classe Estado. “Não precisa arregalar os olhos, Deringhouse. Afinal, uma frota de cem naves desses tipos não representa nada para o Grande Império. Além disso, não nos devemos esquecer de que o cérebro positrônico deve estar convencido de que, se concluir o negócio, praticamente apenas emprestará as naves. Está convencido de que um dia as terá de volta, logo que conquistar o Império Solar”. “O cérebro positrônico não pode agir de outra forma, pois foi programado para isso. Muitas vezes cometemos o erro de ver algo de vivo nessa gigantesca máquina, porque ela pensa, extrai conclusões lógicas, não erra nas suas decisões. Isso impõe a nós homens, que somos dotados de certo instinto de honestidade, a impressão de estarmos lidando com um sócio. O que acontece é justamente o contrário!” “O pior inimigo que temos na Galáxia é o computador gigante de Árcon, já que ele foi programado para ver todas as coisas exclusivamente pela perspectiva arcônida, e utilizar todos os meios para garantir a existência do Grande Império. Ninguém introduziu qualquer elemento ético no cérebro positrônico”. “A oferta do Império Solar, de celebrar um tratado com Árcon, também será examinada sob essa tendência fundamental. Eu nunca seria capaz de assumir um comportamento tão traiçoeiro com uma criatura inteligente, seja qual for seu aspecto. Porém já me desacostumei de sentir escrúpulos para esse cérebro.” Deringhouse ficou muito satisfeito. O ponto de vista do chefe deixou-o feliz. Exibiu um sorriso matreiro, mas seu rosto logo voltou a tornar-se sério. — Quer dizer que eu...? O gesto de Perry Rhodan disse tudo. — O.K., chefe, farei o que estiver a meu alcance para comprar as cem naves de Árcon. Mas gostaria de formular mais uma sugestão. — Pois não, Deringhouse — respondeu Rhodan em tom solícito. — Bem, chefe... — disse o general. Via-se que não se sentia muito à vontade. — Chefe, minha sugestão... Bem, ela se refere a... Bem, meu voo para Árcon III não poderia dar ensejo a uma tarefa para sua esposa, que afinal é uma princesa arcônida? — Nem pense nisso; em hipótese alguma! — respondeu Rhodan em tom áspero e empalideceu assustadoramente. — Foi apenas uma sugestão, Sir — disse Deringhouse a título de desculpas e, no seu íntimo, praguejou contra a ideia. Mas Reginald Bell não se manteve em silêncio. Lançou um ataque frontal contra o amigo, o que constituía um procedimento típico dele. — Desde quando você passou a ser egoísta, Perry? — perguntou laconicamente e lançou-lhe um olhar de desafio. A pergunta tocou-lhe profundamente. 110


— Não! — decidiu Rhodan, cerrou o punho e bateu na escrivaninha com tamanha força que fez as canetas dançarem. Reginald Bell não se perturbou com isso. Em sua opinião, a idéia de Deringhouse era excelente. — Hum... afinal, isso é um dos meios de livrar-se da esposa — atreveu-se Bell a dizer face a face ao amigo. Naquele momento, Deringhouse estaria disposto a sacrificar seu posto de general, se lhe permitissem sair o mais depressa possível. — Mister Bell... Perry Rhodan proferiu esse tratamento formal em voz muito baixa, mas Bell berrou: — Vá para o inferno com seu Mister Bell, Perry! Este “Perry” foi proferido em tom tão honesto, tão estimulante, tão compreensivo pelo amigo. E os braços erguidos, que se estendiam em direção a Rhodan, pareciam falar ainda mais claramente: “Perry, velho amigo, pense um pouco!” Mas Perry Rhodan não quis ver nem ouvir nada. A terrível acusação de Bell ainda lhe soava no ouvido: — ...um dos meios de livrar-se da esposa... Repita, Bell! Perry Rhodan esteve a ponto de levantar-se, mas Bell foi mais rápido. Com um salto, colocou-se à frente do amigo. — Falei como amigo, Perry Rhodan. Era meu dever dizê-lo dessa forma. Ninguém mais poderia fazê-lo, mesmo que quisesse. Deringhouse poderá dar uma passada por Vênus e levará sua esposa até Árcon. Será que você já se esqueceu de que Árcon continua a ser seu mundo? Bell colocara a mão sobre o ombro de Perry e baixara os olhos sobre ele. Sorria, mas os olhos continuavam sérios. Fitava-o numa atitude de expectativa. — Bell, a acusação que você acaba de formular contra mim... Bell não deixou que Rhodan concluísse. — Ora, isso é a “terapia do choque”, meu caro. Será que você ainda não me conhece, Perry? Rhodan levantou-se. Bell ficou parado, à espera do que estava por vir. Rhodan foi à janela e olhou para fora. Reginald Bell seguiu-o com os olhos. Esquecera-se da presença de Deringhouse. O general pigarreou e procurou encontrar uma maneira de dar o fora. — Fique aqui, Deringhouse — disse Bell. — Quero pedir-lhe que repita o que o Dr. Villnoess lhe disse a respeito de Thora. Houve uma alusão a uma tarefa de grande responsabilidade... Naquele instante, Rhodan virou-se para eles. Seu rosto se descontraíra, e a boca nitidamente traçada já não parecia tão rígida. — Você tem razão, Bell — fez um gesto para o amigo e dirigiu-se a Deringhouse: — Passe por Vênus e leve minha esposa. Quando o senhor chegar ao bangalô Árcon, ela já

estará informada sobre sua chegada. Antes disso, visite o Dr. Villnoess e exponha-lhe a natureza da tarefa, que deverá ser confiada a minha esposa. Ele resolverá se Thora chegará a rever Árcon. Deringhouse, minha esposa... Num gesto impulsivo, Perry Rhodan, administrador do Império Solar, estendeu a mão para seu general. Quando este a segurou, disse: — Não poderia encontrar melhor amigo que o senhor. Bell, que investira contra Perry com seu método baseado em marretadas, não conseguiu reprimir a emoção. Naquele momento, admirava Rhodan. Com uma única frase dirigida a Deringhouse, Perry dissera mais do que se consegue exprimir em mil frases. — Sir — começou o general em tom emocionado. — Fico satisfeito porque o senhor me confiou esta missão. — Ainda temos de discutir nosso plano de ação, Deringhouse. Devemos convencer o cérebro positrônico de que nossa proposta de aliança vale mais que cem naves espaciais do último tipo. Atlan e eu pensamos o seguinte... O videofone acendeu-se e transmitiu a notícia de que todos os dirigentes haviam comparecido para discutir a situação. A seguir, Perry Rhodan dispensou seu general. Os dois amigos ficaram a sós. Fitaram-se; não precisaram de palavras para compreender-se. Durante toda a vida, os dois nunca se sentiram tão próximos como naquele instante. Sua velha amizade acabara de ser submetida à prova mais dura. — Vamos — disse Rhodan depois de algum tempo. O dia-a-dia com seus compromissos e decisões voltou a dominá-los. Quando surgiu ao lado de Bell, diante de mais de trinta colaboradores, o administrador não deu a perceber o que acabara de passar-se. Iniciou os debates com uma precisão inimitável, sem recorrer a apontamentos escritos. Em frases lacônicas apresentou os pontos nevrálgicos da situação, surgidos nas últimas vinte e quatro horas. Nessa mesma hora, Deringhouse iniciava o voo para Vênus.

3 O planador preparava-se para pousar à frente do bangalô Árcon. A construção alongada, pintada em cores claras, adaptava-se perfeitamente à paisagem da encosta que se erguia atrás dela, subindo numa altura de quatro mil metros e terminando num pico de rocha. A Cordilheira de Valta era formada por gigantescas pedras, fileiras de vulcões ativos e as nuvens de fumaça que, nos dias de calmaria como aquele, se erguiam tal qual velas para o excelente ar de Vênus. O bangalô ficava a dois mil metros de altura. Era uma 111


altitude que na Terra não seria muito agradável, mas que nesse mundo era ideal, tanto que na construção de sanatórios costumava-se escolher, sempre que possível, um lugar situado nessa faixa. O planador pousou suavemente. O terraço ficava trinta metros adiante. Estava vazio, embora o dia fosse lindo. A selva fora “empurrada” para trás, num raio de quinhentos metros. As grades energéticas invisíveis protegiam os parques, que se estendiam em torno do bangalô, contra os monstros venusianos, muito abundantes na fauna planetária. O General Conrad Deringhouse apenas viu um robô junto ao amplo terraço. A máquina dirigiu suas lentes sobre ele e aproximou-se com seus passos típicos. Aquele homem mecânico não era inteiramente inofensivo, mas só costumava demonstrar suas forças depois de realizados diversos controles, pois sua principal missão consistia em resguardar a vida de Thora contra qualquer perigo. Tal quais todos os membros da Frota Espacial Terrana, também Deringhouse estava familiarizado com o trato dos robôs. Indicou seu número de identificação. No mesmo instante, o robô consultou seu banco de dados e obteve a informação de que o visitante poderia passar. Enquanto sua voz quase humana proferia a permissão, os últimos controles, liberados por seu sistema de lentes, foram postos a funcionar. Antes que desse o primeiro passo em direção à casa, Deringhouse foi submetido a dezessete exames diferentes. As grandes portas de vidro estavam fechadas. Não havia uma única janela aberta. O bangalô parecia uma casa abandonada... abandonada na beleza selvática das montanhas de Vênus. Assim que Deringhouse se aproximou da primeira porta, esta se abriu, deixando-o passar. Conhecia o lugar, pois, nos últimos anos, estivera ali várias vezes como convidado de Thora e Perry Rhodan. O solário, profusamente iluminado, abriu-se diante dele como um abismo deserto. Mais uma vez, teve a impressão de estar penetrando numa casa desabitada. Deringhouse olhou em torno e não conseguiu evitar um ligeiro calafrio. Atrás do solário, ficava a sala de visitas, decorada pessoalmente por Thora, conforme seu gosto. Dali resultará uma combinação harmoniosa entre a cultura habitacional dos arcônidas e o estilo terrano. Deringhouse bateu à porta da biblioteca. Tinha certeza de que Thora se encontrava ali. A biblioteca era seu lugar predileto no interior do bangalô. Mas ninguém respondeu. Deringhouse estacou. Subitamente lembrou-se da advertência do médico-chefe: “General, quando puser os olhos em dona Thora, procure controlar-se.” Dirigiu-se para a esquerda. Passando por uma escada

suspensa, subiu à parte oeste do bangalô, que ficava num nível dois metros mais elevado. Enquanto subia pelos degraus à prova de som, sentiu-se deprimido. Ao sair da escada, o visitante penetrava diretamente num recinto cujas paredes laterais eram totalmente de vidro. Naquele instante, quando o General Conrad Deringhouse menos esperava, ele se viu à frente de Thora! “Mas seria esta a esposa de Perry Rhodan?”, pensou, interrogando-se. Uma voz vinda de seu interior gritou para Deringhouse: “General, procure controlar-se quando puser os olhos em dona Thora.” — O senhor, Deringhouse?! Ouviu a voz, e reconheceu a pessoa. Aproximou-se lentamente de uma anciã de rosto murcho e pequeno, entrecortado por milhares de rugas. Os lábios pálidos e ressequidos como o resto do rosto esforçaram-se para sorrir. Uma mão encarquilhada, coberta por uma pele que antes parecia pergaminho, estendeu-se em sua direção. “Meu Deus” pensou Deringhouse, antes abalado que apavorado, enquanto se abaixava para beijar a mão da esposa do administrador. “Há seis meses esta senhora ainda era uma jovem e bela mulher.” — Que bom que veio visitar-me, Deringhouse. Faça o favor de sentar-se. Deringhouse teve a impressão de que o ligeiro movimento de braço custava um esforço excessivo àquela mulher. Nem sequer conseguiu esboçar um sorriso convencional. Sentiu que a situação o deixava muito inseguro. Será que, ao contrário do que fora combinado, Perry Rhodan não avisara a esposa de que o general a visitaria? — Ah, sim — disse Thora. — Meu marido me prometeu uma surpresa. Acho que existe alguma ligação com sua visita. O que é mesmo, Deringhouse? Neste instante, Thora sofreu uma modificação espantosa. A palidez do rosto e das mãos começou a ceder lugar às cores naturais. As pequenas rugas em seu rosto diminuíam a cada segundo que se passava. Parecia rejuvenescer, e os belos olhos de arcônida mostravam-se através de um ligeiro brilho, que entusiasmou Deringhouse, apesar da insegurança que o mesmo sentia. Num tom de arrojo quase juvenil, provocado pelas alterações favoráveis que vira naquela mulher, disse: — Dona Thora, vim para levá-la para Árcon III. O chefe é de opinião que a senhora é a pessoa mais indicada para fechar a compra de cem naves com o computador-regente... Deringhouse sabia pilotar um caça com a mesma facilidade que dirigia um couraçado da classe Império. Não se tornara general em virtude das boas relações que mantinha com Rhodan, mas à custa de um trabalho árduo. Era muito versado em todas as áreas do saber, menos na psicologia feminina, onde costumava ser desajeitado. 112


Mas nessa hora agira, sem que o soubesse, com uma habilidade que teria causado inveja a muitos psicólogos, se pudessem ouvir de que maneira transmitiu o recado. O tom franco e convincente, o sorriso no rosto sardento e os amáveis acenos de cabeça reforçaram as palavras. — Quer que eu vá a Árcon? “Será que Thora se deu conta de que proferira estas palavras em sua língua materna?”, pensou de modo interrogativo. A excitação, que tomou conta da mente de Thora, voltou a transformá-la na mulher jovem, bela e fascinante, que costumava ficar ao lado de Perry Rhodan, merecendo a admiração de bilhões de seres humanos. Também para esta hipótese o médico-chefe Villnoess lhe ministrara instruções. “— General, tenha cuidado para que dona Thora execute sua missão num estado de tranquilidade interior. Não se esqueça de que está muito esgotada, e que qualquer emoção pode representar um grave perigo.” Lembrando-se disso, Deringhouse prosseguiu com uma habilidade instintiva. — Dona Thora, a viagem para Árcon e especialmente as negociações com o computador-regente não serão nada fáceis. Permite que lhe relate ligeiramente de que maneira seu esposo... Thora sacudiu a cabeça e colocou a mão no braço de Deringhouse. — Uma tarefa para mim! Deringhouse, o senhor nem imagina o que isso significa! Riu como uma moça e logo disse a Deringhouse como se sentia. — Neste minuto já não me sinto cansada. Consigo mover os braços sem o menor esforço. Acho que nem preciso chamar Ishy para levantar-me. Poderia oferecer-me o braço, general? Este último pedido, proferido em tom de gracejo, tinha um fundo sério. O general tentou ajudá-la... — Não, obrigada, não preciso de auxílio. Logo se pôs de pé. Levantou-se com suas próprias forças, como qualquer outra pessoa costuma fazer. — Queira dar-me o braço, general! Já não o chamou de Deringhouse como antes fizera. Enfatizou a palavra general, e seus olhos sorriam. Deringhouse ofereceu o braço a Thora. E ela caminhou a seu lado, leve, segura... e orgulhosa: — Deringhouse... Nunca se dirigira a ele de maneira tão íntima. Ele a fitou de lado e mais uma vez sentiu-se dominado pela sensação de insegurança. Desceram pela escada suspensa. Os degraus não representavam qualquer problema para Thora, que falava enquanto descia. — Acho que só uma vez me senti tão feliz como hoje. Foi quando soube a quem pertencia meu coração. É uma pena que Perry não esteja aqui. Se não tiver mais oportunidade de dizer-lhe, pessoalmente, nesse caso,

Deringhouse, transmita-lhe cada palavra, diga-lhe como me senti forte e... feliz. Quem morre feliz tem uma bela morte. “Por que estremeceu? Porque falei em morrer? Muito bem; irei a Árcon com o senhor?” Deringhouse apressou-se em responder à última pergunta. — Isso mesmo, dona Thora. Pegaremos a Burma, um cruzador ligeiro da classe Estado. Pararam na biblioteca. A mão de Thora descansava levemente no braço de Deringhouse. Thora fitou-o. — Durante este vôo o senhor não terá necessidade de mentir para mim, Deringhouse. Conhece certo Dr. Villnoess? Deringhouse apenas conseguiu acenar com a cabeça. — Pois eu também conheço. E ele me falou num carcinoma F Árcon, que é um tipo especial de câncer, que ataca apenas os arcônidas. Mas vejo pelo seu rosto que já sabe de tudo. Não há necessidade de mentir em relação a meu estado. Oh! Uma porta abriu-se sem o menor ruído, e subitamente viram a graciosa telepata japonesa Ishy Matsu. Ishy sorriu. — Dona Thora! A telepata leu os pensamentos da arcônida e, ao notar a transformação daquela mulher marcada pela morte, quase ficou fora de si. Não reprimiu seus sentimentos. Embora as palavras proferidas em japonês não fossem entendidas, nelas se sentia uma alegria tão forte que ninguém poderia deixar de percebê-la. — Deringhouse, quando decolaremos? A mutante, que não se atreveu a ler os pensamentos do general, lançou-lhe um olhar de perplexidade. Deringhouse sorriu. — Amanhã, de Terrânia. E você — fez um gesto em direção a Ishy Matsu — você acompanhará dona Thora, Ishy. Quem se lembrasse dos tempos em que Thora era apenas uma arcônida orgulhosa e arrogante, para a qual os homens não passavam de bárbaros, não poderia deixar de reconhecer que ela se transformara numa mulher adorável, libertando-se da presunção e de outros vícios do caráter. — É claro que Ishy irá comigo, Deringhouse. Permitalhe que lhe apresente minha amiga... Quando viu a mutante, jovem e graciosa, enrubescer de alegria e embaraço, enquanto fazia uma mesura à sua frente, Thora conseguiu soltar uma gostosa gargalhada. O general passou uma hora conversando com a esposa do chefe, enquanto nos outros aposentos se preparava a bagagem de Thora.

4 A nave Burma, um cruzador da classe Estado, com cem metros de diâmetro e tripulação completa de cento e 113


cinquenta homens, estava pronta para decolar do grande espaçoporto de Terrânia. Uma única comporta continuava aberta, à espera de que o General Deringhouse subisse a bordo. Seria o último. Já havia um atraso de trinta minutos em relação à hora da decolagem anteriormente fixada, atraso este que tornara inútil a programação para o primeiro salto do cruzador ligeiro. Deringhouse, que já se encontrava a caminho da Burma, teve de voltar em virtude de um chamado. Naquele momento, estava frente a frente com Freyt. Diante deles, encontrava-se uma mensagem que havia sido concebida em termos bastante lacônicos e assinada por Perry Rhodan. Não voe diretamente para Árcon. Emergir na frente de bloqueio e entrar em contato com o cérebro positrônico a partir dali. Código Garyloon 010 Árcon. Rhodan. Fazia poucos segundos que Deringhouse voltara a colocar a mensagem sobre a mesa. Agora olhava pensativamente para um canto. O Marechal Freyt, representante de Rhodan na Terra, pigarreou. Deringhouse lançou-lhe um olhar indagador. — O que acha Deringhouse? — perguntou o marechal. Aqueles dois homens sabiam o que pensar um do outro. O general poderia falar com toda franqueza. Apesar disso hesitou. As instruções surpreendentes de Rhodan deixaram-no preocupado; além disso, não entendia a finalidade das mesmas. Se Thora não estivesse a bordo, estas não lhe dariam tanto a pensar. Mas agora todas as circunstâncias pesavam o dobro. — Será Thora? — perguntou Freyt em tom lacônico. Deringhouse não se mostrou mais loquaz que seu interlocutor. — Entre outras coisas — disse. — É à frente de bloqueio? Ou a ordem em si? — O senhor o compreende, marechal? Pois eu não compreendo... Naquele instante, um cruzador ligeiro caiu sobre o espaçoporto de Terrânia. As massas de ar chicoteadas trovejaram atrás da nave como se dez furacões desabassem simultaneamente sobre a capital do Império Solar. O marechal e o general fitaram-se. Pela maneira de pousar concluíram sobre a identidade do piloto. Entre os milhares de membros da Frota Espacial só havia um que, vez por outra, não podia deixar de pousar dessa forma. Era Reginald Bell, chamado oficiosamente de Belly, fato que em nada afetava sua autoridade. No mesmo instante, ouviu-se o estalo do videofone. Antes que a imagem se estabilizasse na tela, uma voz começou a trovejar: — Freyt, Deringhouse ainda está aí?

— Sim senhor. — Peça-lhe que me espere. Não demorarei. Desligo. Freyt virou-se para o lado e num instante entrou em contato com o setor de vigilância espacial. — Aqui fala Freyt. Os senhores sabem de que planeta veio Mr. Bell? — De Fera Cinzenta, marechal. — Obrigado. — Hum. Foi este o único comentário de Deringhouse. Depois puseram-se a esperar. Já estavam acostumados. Afinal, eram militares. Reginald Bell penetrou no gabinete do Marechal Freyt, usando a mesma impetuosidade com que pousara o cruzador ligeiro. — Foi o chefe quem me mandou. Acomodou-se na poltrona. — O senhor se dirigirá às imediações da área de superposição, Deringhouse. O computador-regente voltou a chamar. Insiste em que Perry Rhodan entre, de lá, em contato com ele. Logo, antes de iniciar o salto em direção a Árcon, chame o regente pelo hiper-rádio. Já conhece o código. Em face disso, o grande cérebro não poderá deixar de admiti-lo como plenipotenciário de Rhodan. Mas não foi por causa destas bagatelas que realizei este salto forçado para a Terra. “Deringhouse, o computador-regente de Árcon nunca inspirou muita confiança. Nem mesmo Rhodan desconfia da “estima toda especial” que nutre por ele; acho que Atlan também não sabe. Nestas últimas vinte e quatro horas, este monstro calculista efetuou várias mudanças repentinas em seu comportamento”. “A grande estação de Fera Cinzenta conseguiu interceptar pouco mais de cem mensagens do cérebro positrônico. Graças ao Serviço de Defesa Solar, tornou-se possível decifrá-las. Alguma coisa deve estar quebrada na gigantesca máquina, ou então esta se vê no maior dos apertos. Não existe outra explicação para sua conduta. São ordens, revogações de ordens, a restauração das ordens revogadas, e assim por diante. Quase chego a ter pena dos robôs arcônidas pela tremenda confusão que o cérebro vem criando há várias horas. Evidentemente os druufs notaram que há algo de errado na frente de bloqueio e apareceram com uma gigantesca frota espacial. Por isso, é de recear que, dentro de algumas horas, os druufs consigam romper as linhas e destruir a frente de trás. Bem, senhores, isto é uma coisa; vamos a outro ponto”. “Até que a situação na frente se estabilize um pouco, o tráfego entre Fera Cinzenta e o sistema solar deve ficar suspenso. Qualquer mensagem de rádio só poderá ser expedida com autorização escrita do senhor, marechal. Provavelmente, essa suspensão será por uma questão de horas”. “Deringhouse, o senhor deve estar preparado. É bem possível que o cérebro positrônico aceite sua oferta, apenas para rejeitá-la no momento seguinte. O senhor é 114


responsável pelo estado de saúde de dona Thora. Não a exponha demais, mas não a deixe perceber que o senhor a protege”. “Não o invejo nem um pouco, general. Mas vamos ao motivo que me trouxe à Terra, Deringhouse. Em Fera Cinzenta captamos a mensagem de um agente. Infelizmente saiu mutilada. Veio de Aralon.” Surpresos, Deringhouse e Freyt exclamaram a uma voz: — De Aralon? Aralon era o mundo central dos aras, os médicos galácticos. Esse povo de descendência arcônida era, em relação ao número, o mais poderoso do Grande Império e o único que produzia medicamentos. Todo um povo transformara sua disposição natural, para a descoberta dos enigmas ligados às doenças, num negócio bastante lucrativo; durante milênios vendeu seus medicamentos a todos os mundos conhecidos da Galáxia em troca de moeda sonante. Não se podia condenar seu ponto-de-vista, embora este não se harmonizasse com a ética dos médicos terranos. A fim de não expor seu negócio a qualquer risco, os aras chegaram mesmo a tomar todas as providências para que as epidemias e as infecções generalizadas nunca terminassem. Por várias vezes Perry Rhodan usara mão de ferro para conter nos devidos limites a esperteza excessiva dos médicos galácticos, que nem em mil anos se esqueceriam das lições que então haviam recebido. Apesar disso, porém, a desconfiança dos homens face aos aras continuou latente e inextinguível. — Aralon! — repetiu Bell em tom zangado, sem procurar dissimular o que sentia por esse mundo. — A mensagem representa um problema, por estar mutilada. É possível que em Fera Cinzenta já estejamos vendo fantasmas, mas Perry Rhodan... bem, vocês conhecem o chefe! Ele está convencido de que essa mensagem expedida pelo agente de Aralon tem alguma relação com nossa visita a Árcon. Vejam a mensagem. Esta era formada por quatro palavras, mas só uma delas estava completa. ...chiru... coman... encef... Árcon... Subitamente Deringhouse sentiu calor. — Sir — disse em tom exaltado. — Nestes últimos dias recebi algumas aulas de medicina. E encef... é a “palavra” científica para cérebro. Fez um movimento súbito com o ombro, como se quisesse sacudir-se. — Não sei dizer por que tenho tanta certeza de que esta mensagem vai ter alguma relação com o voo da Burma. Tenho a impressão de que a gigantesca máquina positrônica está tramando uma baixeza. Deve tratar-se de lavagem cerebral ou coisa que o valha. Prossigo no meu raciocínio. “O cérebro positrônico exige que nos dirijamos à frente de bloqueio e de lá nos anunciemos previamente. Ainda não

sabe que irei no lugar de Perry Rhodan. Isso elimina o perigo de sermos destruídos, ao sairmos do hiperespaço, mas em nada reduz o perigo de sermos atingidos. Mais tarde não será difícil explicar a destruição de uma nave terrana por meio de uma sequencia de coincidências infelizes. Até lá nossa tripulação estará morta, enquanto as pessoas mais importantes que se acham a bordo se encontrarão sãs e salvas, a caminho de Árcon, onde serão submetidas à lavagem cerebral. “E Thora está a bordo!” Com esta frase Deringhouse concluiu seu raciocínio. Fitava alternadamente Reginald Bell e Freyt. — O senhor sabe ler pensamentos, Deringhouse? — perguntou Bell. — Não; por quê? — respondeu o general em tom de surpresa. — Porque Perry Rhodan chegou à mesma conclusão ao ler a mensagem mutilada. — E o vôo para Árcon com Thora a bordo continua de pé? — Rhodan confia no senhor, general. — Obrigado! — respondeu Deringhouse. Mas o olhar que lançou para Bell dizia muito mais. — Pois é, general — disse Bell, levantando-se e caminhando pela sala. — Hoje de manhã queimei a língua com Perry Rhodan. Sei perfeitamente o que significa esse olhar. Fiz a mesma ponderação a Rhodan. Sabe o que ele me respondeu? — Respondeu o seguinte: “Deringhouse e a Burma não enfrentarão o menor perigo, nem exporão Thora a qualquer risco. Não consigo ser egoísta a ponto de explicar a minha esposa de que sua tarefa foi cancelada porque envolve certos riscos”. „“Não quero recriminar-me pelo resto da vida por tê-la tirado impiedosamente de uma condição eufórica, deixando-a num estado de profunda letargia. Se não dispusesse de um homem como Deringhouse, não teria outra alternativa. Acontece que tenho este homem, e por isso estou disposto a não retardar a decolagem da Burma.’” — E agora, General Deringhouse? — falou Bell, lançando-lhe um olhar indagador. O general também se levantou. — Quando estamos informados sobre o perigo que nos espera, isso perde a maior parte de sua periculosidade, Sir. Tomara que este postulado, que já se tornou proverbial, também tenha aplicação no presente caso. Pois bem! A Burma decolará daqui a pouco. — Boa sorte! — desejou Reginald Bell, aparentemente deprimido. — Tudo de bom, Deringhouse! — gritou Freyt. Os dois homens viram-se a sós. E então aconteceu uma coisa que não ocorrera há anos. Bell e Freyt foram à janela e assistiram à decolagem da Burma, que mergulhou no céu azul com uma aceleração extraordinária. — Faites votres jeux — disse Bell. As palavras 115


seguintes representavam uma mostra do que se passava em seu interior: — Por que não fui à Burma para apertar mais uma vez a mão de Thora? Sou um covarde... Preferiram não olhar um para o outro. Só agora tiveram plena consciência do que representava Thora para os habitantes do planeta Terra. Justamente agora, que não havia a menor esperança de revê-la. Antes que compreendesse o que estava dizendo, Freyt perguntou a Reginald Bell: — O rapaz já foi informado, Sir? Reginald Bell virou-se apressadamente. Seus olhos chamejavam de cólera. Cerrou o punho. — Quer saber por que não foi, Freyt? Pois eu lhe digo. Porque esse garoto ainda se recusa a ouvir o pai. Em todo o Império Solar só existe um sujeito obstinado que tem a audácia de dizer a Rhodan: “Vá para o inferno, não quero vê-lo nunca mais.” E esta pessoa é justamente seu próprio filho. Mais alguma pergunta, marechal? — indagou em tom áspero. — Não senhor! — disse Freyt e esteve a ponto de fazer continência. — Ora! Deixe isso para lá, Freyt! Meus nervos se descontrolam toda vez que me lembro do que esse Tenente Thomas Cardif se atreveu a dizer-me. E o que não deve ter jogado no rosto do pai? Bem, vamos mudar de assunto. Preciso voltar para Fera Cinzenta. Até a próxima, Freyt. — Até outra vez, Sir — disse o marechal, e logo se viu só.

5 Joe Pasgin, imediato da nave Burma, já começava a preocupar-se com a demora de Deringhouse, quando o general entrou na sala de comando do cruzador ligeiro e parou em atitude pensativa à frente da grande tela de imagem, que estava desligada. — Faça o favor de pilotar a nave, Pasgin — disse sem virar-se. — E é bom que saiba logo da novidade. O primeiro destino da Burma será à frente de bloqueio das naves arcônidas junto à área de superposição. Joe Pasgin estava prestes a pôr a mão na chave sincronizada. Parou em meio ao movimento e manteve-se imóvel por algum tempo. As outras pessoas que se encontravam na sala de comando também interromperam o que estavam fazendo. Todos lançavam olhares indagadores, perplexos e espantados para o general. Conrad Deringhouse estava de costas para os homens. Nem mesmo os olhares que acreditava sentir pousados em suas costas, poderiam fazer com que se voltasse. — Pasgin, quem é o oficial de armas? — Big Alden, general. Veio da Titan, onde teve a seu cargo as duas peças de artilharia do pólo. — Já é uma pequena vantagem para todos nós. Aliás, a tripulação está completa?

— Está. — Pois vamos embora, Pasgin. Poderei ser encontrado no meu camarote. Virou-se e cumprimentou cada um dos homens com um gesto. Um sorriso ligeiro brincava em torno de seus lábios. E esse sorriso fez bem aos que ali se encontravam. Assim que se retirou, a conversa começou a animar-se no interior da sala de comando. — Vai ser uma viagem e tanta... — Tomara que Big Alden seja o número um da Bruma... com este armamento fraco... e olhem que não gosto de entrar num traje espacial... — Acontece que dona Thora está a bordo — ponderou outra pessoa. — Não é possível que... Céus, estrelas e bólidos, nem me lembrava da frente de bloqueio! Joe Pasgin fitou todos os homens. Também estava preocupado. A volta que teriam de fazer para passar pela frente de bloqueio antes de chegarem a Árcon não fazia prever nada de bom. O general dera a perceber que, durante essa missão, teriam de contar com todas as eventualidades. Mas a ordem de decolar que Deringhouse acabara de transmitir removeu todas as preocupações. Teriam de agir. — Decolagem dentro de cinco minutos! — soou o comando de Pasgin. Hendrik Olavson ocupava a poltrona do copiloto. Era um elemento recém-saído da Academia Espacial, logo promovido ao posto de copiloto. Pasgin já realizara três voos espaciais a seu lado, e sempre mantivera o jovem tenente sob rigorosa observação. Depois da primeira viagem concluiu que a poltrona de co-piloto não era o lugar certo para Olavson... Seu lugar era a poltrona de comando de uma nave da classe Império. Hendrik Olavson e a nave espacial não eram duas coisas, o homem e a técnica. Olavson e a nave formavam uma unidade. Hendrik Olavson possuía um talento natural para tudo que se relacionasse com a pilotagem de uma nave. Se essa tarefa exigia uma boa dose de concentração de qualquer outra pessoa, ele a executava como se estivesse brincando. — Encarregue-se da decolagem, Olavson — disse Joe Pasgin em tom indiferente. Com um ligeiro sorriso, acrescentou: — Deixe Terrânia de pé. Hendrik Olavson aceitou de bom grado a brincadeira do imediato. Compreendeu a alusão de Pasgin. A Burma era uma nave de cem metros de diâmetro e cento e cinquenta tripulantes. Sua capacidade de aceleração era tremenda. Gastava apenas cinco minutos para atingir a velocidade da luz. Era claro que diante dos conjuntos propulsores superpotentes da nave, que ficavam entre os dos cruzadores pesados e os dos veículos espaciais da classe Solar, todos os outros equipamentos, que já eram considerados corriqueiros, tiveram de ser sacrificados, inclusive na parte do armamento. As naves da classe Estado não eram unidades ofensivas. Eram naves de reconhecimento de longo curso. Graças ao armamento pouco poderoso, só poderiam realizar ataques 116


fulminantes e destrutivos, desferindo seus golpes de surpresa, já que sua aceleração inacreditável lhes permitia desaparecer com extrema rapidez. O novo neutralizador de vibrações não permitia que as transições fossem detectadas por meio do novo goniômetro de compensação dos arcônidas. Possuíam uma verdadeira arma secreta, de natureza defensiva, que era o transmissor fictício de matéria. Mas este só podia ser utilizado caso existisse outra estação. Além disso, seu alcance era bastante limitado. As enormes máquinas da Burma começaram a uivar. Os motores, já aquecidos, foram regulados para a aceleração máxima. Olavson tirou a mão da chave mestra. Seu trabalho estava concluído. O resto seria feito pelo dispositivo automático, mas as respectivas instruções lhe haviam sido transmitidas pelo piloto. A partir daquele momento, em que a nave se erguia ruidosamente, cada processo era a continuação harmoniosa do anterior. A potência dos neutralizadores de pressão foi aumentada automaticamente, a fim de compensar o aumento vertiginoso da gravitação. Apesar da aceleração tresloucada, que para essa nave era apenas normal, a gravidade no interior da Burma permaneceu constante. Mas a cortina de som tornou evidente a todos que a Burma não era outra coisa senão um gigantesco parque de máquinas comprimido no interior de uma esfera que, mal e mal, oferecia lugar para que a tripulação de cento e cinquenta homens pudesse viver e respirar. No camarote de Deringhouse e nos demais foi dado o aviso: — Transição dentro de três minutos. O general saiu correndo. Estava preocupado com Thora. Tinha de apressar-se para não ser surpreendido pelo salto a meio caminho, pois o camarote de dona Thora ficava do lado oposto da nave, e dois conveses abaixo do seu. Quando se viu à frente de sua porta, faltavam trinta e cinco segundos para o momento do salto. Anunciou sua presença, mas em vez de Thora, o rosto de Ishy Matsu surgiu na pequena tela. — General? Faça o favor — disse a mutante designada por Rhodan para fazer companhia permanente a sua esposa. Deringhouse entrou apressadamente. Estacou na porta. — Deringhouse, sente-se logo — exclamou Thora em tom exaltado. Sob a luz suave reinante no camarote seu lindo cabelo voltara a brilhar como naqueles tempos em que era considerada a bela esposa de Rhodan. Apontou para a poltrona. Assim que o general tomou lugar, seguiu-se o choque da transição. A Burma saiu do hiperespaço. Deringhouse contorceuse ligeiramente sob os efeitos da dor da rematerialização, mas Thora não demonstrou qualquer tipo de reação. Parecia que nem sentira o hipersalto. A telepata pequena e graciosa mantinha-se nos fundos do camarote. Deringhouse não dissimulou o espanto que lhe causava o ótimo aspecto de Thora. Parecia irradiar saúde.

Até dava a impressão de estar passando por um processo regressivo de rejuvenescimento. O general gostaria de acreditar nisso, mas lembrou-se da advertência do Dr. Villnoess: “— Quanto mais saudável for o aspecto de dona Thora, mais doente estará. Isso não passará de um último esforço do organismo, que reúne todas as reservas de energia, como uma espécie de bruxulear da chama da vida. De qualquer maneira, não podemos dizer como e de que forma surgirá a morte.” Deringhouse esteve a ponto de iniciar um diálogo, mas o sistema de intercomunicação cortou-lhe a palavra. No momento em que soaram as primeiras palavras saídas do alto-falante, a imagem da tela assumia contornos estáveis. — O chefe deseja falar com a senhora, dona Thora! — disse o oficial de plantão no setor de rádio. Deringhouse ficou surpreso. “Rhodan quer falar com a esposa?”, pensou Deringhouse surpreso. Lembrou-se das inúmeras possibilidades de detectar a presença de uma hipermensagem, que poderia inutilizar, de um instante para outro, todo o dispositivo da camuflagem que envolvia o planeta Fera Cinzenta; ou então, o regente de Árcon já estava sabendo que, quem estava a caminho, era Thora de Zoltral, e não Perry Rhodan. Subitamente a imagem da tela parou de tremer. O rosto marcante de Rhodan surgiu nítido. A teleobjetiva embutida no próprio quadro da tela transmitia-lhe a imagem da esposa. Antes que o general pudesse vencer a surpresa causada pelo riso descontraído, leve, quase juvenil do chefe, ouviu o administrador do Império Solar dizer à esposa: — É uma pena, Thora, que não possamos fazer a viagem juntos. Até breve, Thora! — Perry! — exclamou Thora, mas Perry Rhodan já não podia ouvi-la. A transmissão de hiper-rádio vinda das profundezas do espaço chegara ao fim. A tela voltou a adquirir o tom cinzento, e a pequena luz de controle existente sob a objetiva apagou-se. Apesar de todas as dúvidas e indagações, o General Deringhouse riu e olhou para Thora. Conseguiu dar uma expressão matreira à sua risada. Reprimiu a perplexidade que sentia, e nem deixou que o espanto e as indagações angustiosas de Thora viessem à tona. — Dona Thora, o erro foi meu — disse, fazendo-se voluntariamente de bode expiatório. — Demorei demais em fornecer-lhe as informações mais recentes sobre nosso voo. Permita que repare a falha, e a senhora logo compreenderá o motivo da surpresa que seu marido acaba de fazer-lhe. Informou-a na medida que julgava adequada, recorrendo a três quartas partes de verdade e um quarto de mentiras, nascidas da compaixão. Não mencionou a mensagem mutilada do agente que trabalhava no planeta Aralon, e também deixou de mencionar o voo relâmpago de 117


Bell à Terra. Encontrou outros detalhes e colocou Perry Rhodan discretamente no primeiro plano, motivo por que, por mais desconfiada que fosse Thora não haveria de duvidar de seu relato. — Em face disso, o chefe pensou em incumbir outra pessoa da execução dessa tarefa, dona Thora, mas logo viu que sua viagem a Árcon não envolve maiores riscos, salvo a aproximação da frente de bloqueio. Depois combinamos que ele lhe enviaria um ligeiro cumprimento assim que a situação junto à área de superposição estivesse consolidada. Sinto muito, dona Thora, mas sou um péssimo regente... Ao dizer estas palavras esboçou um sorriso, enquanto fazia votos de que o mesmo não fracassasse e pudesse parecer razoavelmente genuíno. Subitamente seu olhar resvalou para o lado. Viu a telepata Ishy Matsu de pé, atrás de Thora. O rosto da jovem japonesa parecia transformado numa máscara. Lera os pensamentos do general e compreendera que a Burma voava em direção a uma aventura extremamente perigosa. — Deringhouse... — Thora segurou a mão do general entre as suas, e seus olhos de arcônida brilharam num assomo de alegria e felicidade. — Sei perfeitamente que estou muito doente, mas há anos não me sinto tão bem disposta como agora... e isso apenas porque houve algo de errado numa regência... Até breve! Estas simples palavras transformaram uma mulher velha como eu numa jovem. Já faz muito tempo que não vejo este riso alegre de menino em Perry. Peço-lhe o favor de me deixar só por algum tempo. Ishy Matsu e o general saíram. Uma vez no corredor, Deringhouse falou sem papas na língua. — Ishy, a senhora leu? — perguntou, dirigindo-se à telepata. — Li, sim, general; contrariei as ordens... — Deixe para lá. Quer dizer que já sabe o que nos espera. Sabe que não fazia a menor ideia de que o chefe iria enviar este cumprimento. Em hipótese alguma, dona Thora deve desconfiar de que menti. Tome todas as providências para que isso não aconteça, Ishy, e entre em contato com os três médicos de bordo, a fim de que estes usem qualquer pretexto e se apresentem a dona Thora para realizar um exame de rotina. Sentiu o chão arder sob os pés. Sem aguardar resposta, foi apressadamente em direção ao elevador antigravitacional que o conduziu ao pavimento onde ficava a sala de comando. No momento em que entrou na sala de rádio da Burma, o oficial de plantão esteve a ponto de fazer continência. Mas Deringhouse não deu muita importância à saudação. — Como foi que a mensagem chegou aqui? — perguntou em tom insistente. — Pelo distorçor dos swoons, general, com quarenta e cinco mil impulsos por segundo. Além disso, foi condensada num — virou-se e leu a cifra num instrumento — num microssegundo. Deringhouse não se deixou impressionar pelos

algarismos. — De onde veio? — De um cruzador ligeiro, general. Se nossa medição goniométrica for correta, este deve ficar a cerca de oitocentos anos-luz de Fera Cinzenta, tomando como referência a situação em que estamos, distância medida pela coordenada phi, que... Dirigiu-se à sala de comando. Antes de atravessar a pesada escotilha, parou e pensou: “Será que, ao enviar o cumprimento a Thora, Rhodan forçara as coisas, confiando demais no organismo da esposa, que teve de liberar energias para absorver a alegre surpresa?” Apertou o passo, pois teria de mandar suspender os preparativos do terceiro salto. Joe Pasgin, imediato da Burma, lançou-lhe um olhar indagador. — Não devemos esquecer-nos de que dona Thora está a bordo, senhores! — estas palavras foram dirigidas a todos os oficiais que se encontravam na sala de comando. — Daqui a uma hora os médicos apresentarão o resultado de seu exame e informarão quantas transições dona Thora ainda poderá aguentar. Pediu ao imediato que se aproximasse do grande mapa astronáutico. — Nossa posição é mais ou menos esta, Pasgin. Ali fica a zona de descarga, e o anel de bloqueio das naves de Árcon atinge esta profundidade. Se os médicos nos impuserem a restrição de, na medida do possível, evitarmos as transições, desligaremos o neutralizador de vibrações e nos dirigiremos à zona de superposição em três saltos. Providencie para que no último não percorramos mais de três anos-luz, pois não tenho o menor interesse em levar a Burma para dentro de uma formação arcônida. — Está bem. Mas as naves de Árcon não foram informadas sobre nossa chegada? — perguntou Pasgin em tom de espanto. Ao que parecia, estava preocupado. — Espero que sim, mas não nos devemos esquecer das ordens contraditórias que o computador-regente transmitiu nestas últimas horas. A sala de rádio chamou em meio à palestra. — Recebemos uma mensagem da estação retransmissora Omega 17. De início ouviu-se o ruído típico do condensador e do distorçor. Logo se seguiu uma voz sonora que disse apressadamente: — O computador positrônico acaba de concluir a interpretação das ordens do regente, esclarecidas pelas observações feitas por nós: “Reagrupamento total das formações das unidades de Árcon. Ampliar a profundidade do front de 0,7 anos-luz para três anos-luz. Neste momento, Árcon está enviando enormes reforços. Naves dos druufs procuram romper nossas linhas nos setores pantera 76 e 73 A. Em hipótese alguma se aproximem desses setores. Nos demais setores reina a calma. Porém em todos os lugares os ataques dos 118


druufs devem ser aguardados de um momento para outro.” Ouviu-se um forte estalido. Essa importante notícia fora recebida por meio de hipermensagem expedida por uma nave esférica do Império Solar que se encontrava bem longe de Fera Cinzenta. Com isso, a situação foi esclarecida. Deringhouse compreendeu que o computadorregente de Árcon continuava a agir com a lógica fria de sempre, motivo por que ainda era o aliado mais perigoso que alguém poderia ter. Aquilo que Reginald Bell e os outros homens do Império Solar, que se mantinham como observadores em Fera Cinzenta, ao lado de Perry Rhodan, acreditavam ser uma série de ordens contraditórias, na realidade constituía um conjunto de lances geniais concebidos pelo cérebro positrônico, cujo pensamento se baseava exclusivamente na lógica. Finalmente receberam o pronunciamento dos médicos de bordo. Estes não possuíam o enorme saber especializado do Dr. Villnoess, chefe da Divisão de Hematologia da Clínica Terrana de Vênus. No entanto, foram concordes em concluir que a moléstia de dona Thora chegara a um estágio perigoso, e que se deveria contar com o pior. Foram de opinião que os efeitos da transição seriam de importância secundária. — Realizaremos apenas três saltos até o front! — ordenou Deringhouse. Apesar do pronunciamento e das recomendações dos médicos, preferiu não assumir qualquer risco. — Tomara que não cheguemos lá com uma defunta a bordo — disse Joe Pasgin, dando a entender que a tarefa, que lhe fora atribuída, não lhe agradava nem um pouco. Os dados relativos ao salto foram introduzidos no computador da Burma. As mãos delgadas de Hendrik Olavson bateram nas teclas, realizando a programação. Os controles múltiplos impediam qualquer possibilidade de erro humano. A atividade de Olavson não pôs em funcionamento qualquer mecanismo automático de travamento. A contagem regressiva do cérebro positrônico começou a funcionar. O sistema de intercomunicação transmitiu a informação de que o próximo salto estava iminente. Na sala de comando, o silêncio era quase completo, interrompido apenas por ligeiras informações. Deringhouse voltou a certificar-se: — O neutralizador de vibrações foi desligado? — Foi, general. Sem saber, Deringhouse exibiu um sorriso astucioso. O neutralizador de vibrações, um aparelho criado pelos swoons ou homens-pepino, representava um obstáculo intransponível aos esforços intensos realizados pelo regente, que pretendia descobrir a posição galáctica da Terra. O goniômetro de compensação — construído às escondidas e à custa de esforços gigantescos da imensa indústria arcônida, e que era capaz de, apesar do compensador estrutural, medir os abalos na estrutura espaço-temporal, provocados pelas transições — seria

considerado obsoleto se o Grande Império tivesse conhecimento da última inovação da frota terrana. Não se desejava que o computador-regente, sempre desconfiado graças à sua programação, soubesse que o goniômetro de compensação não levaria à descoberta da Terra. Por isso, as naves terranas deixavam que as estações goniométricas de Árcon as localizasse ao saírem do hiperespaço, mas isso apenas quando se encontravam a uma boa distância da Terra. A Burma realizou dois saltos gigantescos em direção à frente de bloqueio, saltos estes que abalaram a estrutura do Universo. A nave da classe Estado retornou ao espaço normal a menos de três anos-luz da retaguarda das formações arcônidas. Deringhouse, que acompanhara as manobras apenas na qualidade de espectador, ouviu Joe Pasgin chamar a sala de rádio. — Envie hipermensagem às formações arcônidas do setor espacial Tigre 46. Anuncie nossa chegada para daqui a quinze minutos. Transmita a senha, o código, etc. Pasgin entrou em contato com o oficial de armas da Burma, uma nave cujo armamento era bastante fraco. — Alden, entre em estado de rigorosa prontidão. A transição será realizada dentro de 14 minutos e 35 segundos. O salto não provocará nenhum choque sensível nos seus homens. Só abra fogo por ordem minha. — Entendido! — respondeu Alden, que se encontrava no posto de combate. Dez minutos antes do salto, uma ordem atravessou a nave: — Colocar trajes espaciais. Assim todos ficaram sabendo que a Burma se precipitava para uma perigosa aventura. Seguiu-se a transição ligeira de pouco menos de três anos-luz. O setor do espaço retratado na grande tela da nave empalideceu. A Burma desmaterializou-se num tempo zero, durante o qual saltou pelo hiperespaço, para retornar ao estado anterior, provocando nos homens o choque doloroso. — Isto é um verdadeiro inferno — constatou Joe Pasgin apavorado. Via a Burma transformada numa nuvem de gás. Mas Hendrik Olavson conseguiu algo que dificilmente se acreditaria possível. Fez o cruzador ligeiro descrever uma curva fechada, levando-o para fora da zona perigosa, onde os raios mortíferos cruzavam-se. A Burma formava um só conjunto integrado. Era um cruzador ligeiro com uma enorme capacidade de aceleração. Seus neutralizadores de pressão eram tão potentes quanto os conjuntos propulsores. De repente o uivo das unidades energéticas, dos propulsores e dos neutralizadores rompeu todos os isolamentos acústicos... Oito raios disparados por naves de guerra passaram a poucos milhares de quilômetros da Burma! Subitamente os campos defensivos da pequena nave 119


começaram a rugir. Duas imensas cascatas de luz desfizeram-se no negrume do espaço. — Solicitação de oitenta por cento! — exclamou Joe Pasgin em tom exaltado. Os campos energéticos mal e mal haviam resistido a essa investida de energia estranha. Seguiu-se um impacto no setor verde e outro no frontal. — Sala de rádio! O que houve? Por que estão disparando contra nós? — gritou Pasgin para dentro do microfone. Enquanto isso Hendrik Olavson realizou uma manobra violenta, atirando o cruzador ligeiro para fora da rota. — A senha está sendo transmitida ininterruptamente — respondeu a voz trovejante vinda do alto-falante. Deringhouse olhou por cima do ombro do oficial incumbido do rastreamento. Três gigantescas naves da classe Império aproximaramse velozmente; tratava-se de naves de 1.500 metros de diâmetro. Seu poder de fogo era tamanho que poderiam transformar planetas inteiros em sóis. E a Burma só tinha cem metros de diâmetro! — Cuidado! — berrou Joe Pasgin. O grito não foi motivado por qualquer ataque das unidades arcônidas. Fora dirigido ao copiloto Hendrik Olavson, que não deveria revelar aos arcônidas, por meio das mudanças de rota que efetuava, qual era a capacidade de aceleração da Burma. — Ataque do amarelo 43.78... O resto da mensagem foi engolido por uma tríplice pancada de fogo. Dali em diante, o cruzador ligeiro devia sua existência exclusivamente ao fato de que o raio de desintegração apenas atingira o campo defensivo de raspão. O indicador de solicitação subiu para cem por cento. Normalmente essa percentagem significaria o desmoronamento do campo defensivo energético. Até mesmo Deringhouse, um general que já atravessara várias centenas de situações catastróficas, sentiu-se nervoso, pois o próprio coração da Burma começou a gritar. O aparelho indicara uma solicitação de cem por cento. Dali a uma fração de segundo, essa cifra já não era correta. A Burma soltara um bramido em seu interior e dirigira todas as energias disponíveis para fora, a fim de levantar outro campo defensivo. — Sala de rádio! Sala de rádio! A voz do imediato parecia atropelar-se, enquanto procurava conseguir contato. Será que o oficial de armas não ouvira o grito? Ou resolvera também gritar naquele instante? Sua voz potente foi ouvida na sala de comando: — Quando virá a ordem de abrir fogo? Hendrik Olavson, um homem recém- saído da Academia Espacial, sentia-se no seu elemento. Jogava com a Burma com a mesma facilidade com que o artista toca seu instrumento. Foi só graças a ele que as pessoas a bordo continuaram vivas. Parecia prever a direção da qual viriam os ataques e constantemente realizava as mudanças

abruptas. E, dessa maneira, o cruzador saltava de um lugar para o outro, não sendo atingido por nenhum raio silencioso e mortífero. Subitamente os homens, que se encontravam no cruzador ligeiro, perceberam que haviam saltado para dentro da batalha espacial, travada entre as naves robotizadas dos arcônidas e as unidades dos druufs. Nas grandes telas da Burma surgiram minúsculos sóis, que se espalhavam vertiginosamente para todos os lados. No negrume do espaço, sua claridade só se mantinha por poucos segundos. Depois de espalhar-se, empalideciam e submergiam. Eram naves de guerra desintegradas pela reação atômica. — Vamos embora! — gritou Joe Pasgin para o hábil copiloto. O jovem oficial confirmou. — Tigre 32! — respondeu. A formulação não poderia ter sido mais lacônica. Pretendia retirar a Burma do setor espacial Tigre 46 e procuraria atingir o setor Tigre 32. Essas designações de setores, criadas pela Frota Solar, abrangiam toda a área da zona de superposição e das linhas de bloqueio. As unidades energéticas e os conversores da Burma rugiram, e o rugido atravessou todos os isolamentos acústicos que, em virtude da falta de espaço, não possuíam grande capacidade de absorção de som. Os motores de propulsão, instalados na protuberância equatorial, expeliram feixes chamejantes de ondas de impulsos. No momento em que começavam a impelir a nave terrana em direção ao setor Tigre 32, os instrumentos localizaram três gigantes da classe Império, que se aproximavam em voo frontal. — Fomos identificados! Fomos identificados! — disse a voz rouca saída dos alto-falantes. O aviso provinha da sala de rádio. E era claro. Hendrik Olavson, que possuía um talento natural para tudo que dissesse respeito à pilotagem de uma nave espacial, agiu imediatamente. Reduziu a potência dos conversores. Diminuiu a produção das unidades energéticas para um oitavo de seu potencial. No mesmo instante, os neutralizadores começaram a rugir, para eliminar a pressão resultante da súbita cessação do processo de aceleração. — Elmes? — gritou Pasgin em tom indagador para o lado em que ficava o computador positrônico. Ali um oficial estava de pé, acompanhando os acontecimentos na grande tela. Este compreendeu o significado da pergunta. — Banco de dados do computador sem dispositivo de segurança — respondeu. Um sorriso feroz surgiu no rosto de Deringhouse, que, em pensamento, homenageava o computador-regente com todas as pragas de astronauta que conhecia. A ausência do dispositivo de segurança do banco de dados do computador de bordo evitaria que o Grande Império pudesse descobrir a posição galáctica da Terra, mesmo por um infeliz acaso. 120


Sem esse dispositivo, ao menor perigo que ameaçasse o cruzador ligeiro apagar-se-iam todos os dados que poderiam fornecer qualquer indicação sobre o lugar galáctico da Terra. A escotilha da sala de comando abriu-se. Deringhouse e Joe Pasgin viraram a cabeça. Ficaram surpresos ao verem Thora. Em meio ao ruído da escotilha que voltava a fechar-se, ouviu-se a mensagem da sala de rádio. — Mensagem da nave robotizada Ig-Dro 34, classe Império. Desvio para... — seguiu-se uma série de coordenadas, que foram transmitidas simultaneamente ao computador de bordo. — Os três supercouraçados nos comboiarão. Qual é a resposta? Com dois passos, Deringhouse colocou-se à frente do microfone. — Aqui fala Deringhouse! Transfira a ligação para a sala de comando. A ligação foi estabelecida imediatamente. A imagem na tela estabilizou-se. Nela se viu o “rosto” cadavérico de um robô arcônida. Antes que o general pudesse dizer uma palavra, um lampejo ofuscante surgiu a estibordo. Um couraçado dos druufs conseguiu romper as linhas arcônidas sem que ninguém o percebesse e pretendia transformar a Burma num sol... Nenhuma das pessoas que se encontravam na sala de comando conseguiu ver qualquer coisa. Os três supercouraçados de Árcon agiram no momento em que foi desfechado o ataque dos druufs. Sob o tremendo poderio de suas armas, a nave de guerra vinda da outra dimensão temporal dissolveu-se numa nuvem de gases vermelhos. No entanto, o inimigo conseguira atingir a Burma. E mais uma vez, graças à ação de Hendrik Olavson, o impacto não foi direto. O raio absorveu 95 por cento da potência dos campos defensivos. Ficaram faltando apenas cinco por cento para que a tremenda energia concentrada do disparo atingisse o revestimento metálico da Burma. A nuvem de gases, que brilhava numa luminosidade vermelha, desfez-se rapidamente. O fogo de artifício provocado pelo impacto do raio dos druufs contra a Burma e os disparos maciços dos três couraçados robotizados de Árcon transformaram esse setor do espaço num inferno de luz, calor e violência mortífera. Enquanto ainda lutava contra o ofuscamento, Deringhouse reconheceu na tela o sistema de lentes do robô-comandante, que o fitava como se fosse uma coisa. — Sou o General Deringhouse, do Império Solar, e represento Perry Rhodan. Por que fomos atacados pelas naves arcônidas, muito embora o regente já lhes deva ter avisado sobre a chegada de uma nave terrana? A alma de qualquer robô positrônico é formada pelo X, pelo algarismo desconhecido, pela lógica insensível. Com uma voz metálica, o comandante do supercouraçado Ig-Dro 34 forneceu seu número de identificação e respondeu: — A ordem de desmantelar de qualquer maneira o

ataque que o inimigo lança em três frentes, dada pelo regente de Árcon, tem precedência sobre outras instruções, terrano. Sigam-nos de perto, para que possamos escoltá-los seguramente para fora da zona de combate. Ao que parecia, as boas maneiras também não constavam da programação das máquinas positrônicas de guerra. O comandante-robô desligou. Só agora, Deringhouse teve tempo para tomar conhecimento da presença de Thora. — Dona Thora... — principiou em tom violento, enquanto a fitava, mas o espanto fechou-lhe a boca... Viu à sua frente a orgulhosa arcônida Thora de Zoltral, e ainda viu tudo que a mesma já fora para o Grande Império, antes que o cérebro gigante assumisse o governo de um reino galáctico decadente. Foi na qualidade de comandante que ela entrou na sala, e seu aspecto desmentia os diagnósticos dos médicos. — General, cavalheiros; acho que está na hora de participar ativamente nas negociações. Por favor, não deixem que minha presença os perturbe. Com um sorriso no rosto, aproximou-se de Deringhouse. Por mais atentamente que a observasse com os olhos críticos, não viu o menor sinal de tensão ou cansaço. Às suas costas Joe Pasgin e Hendrik Olavson cuidavam para que a Burma seguisse os três couraçados arcônidas da classe Império, a fim de que a cobertura de fogo dos três gigantes lhes permitissem sair sãos e salvos da zona de batalha, junto à área de superposição. Deringhouse ofereceu-lhe a única poltrona desocupada da sala de comando. Thora agradeceu com um sorriso. Em voz baixa, para que só ele entendesse, formulou a pergunta: — Deringhouse, será que realmente estou doente? Quase não consigo acreditar. Deringhouse lembrou-se de como a encontrara no bangalô situado ao pé da Cordilheira de Valta, e também se lembrou da séria advertência formulada pelo médico-chefe Dr. Villnoess. Mas, agora, vendo Thora à sua frente, meditou: “Não é uma mulher jovem, mas uma dama, que sabe aceitar com uma elegância inigualável os sinais de velhice pouco perceptíveis.” Deringhouse não precisou esforçar-se para retribuir o sorriso. As palavras ditas saíram-lhe do coração: — Dona Thora, eu a admiro! A dura realidade destruiu o encanto do momento... A central de rádio chamou: — O computador-regente quer falar com o senhor, general. — Faça o favor de transferir a ligação para cá! — ordenou Deringhouse. Thora colocou a mão em seu braço. — Não seria conveniente que eu interferisse nas negociações, Deringhouse? Naquele instante, o general lembrou-se da mensagem 121


mutilada do agente de Aralon, e foi por um medo inexplicável, sentido em relação à Thora, que respondeu: — Sob o ponto de vista tático prefiro que a senhora só apareça em Árcon III, dona Thora. Por favor, afaste-se um pouco para o lado, a fim de que a objetiva não possa atingila. A tela destinada às mensagens de hiper-rádio começou a iluminar-se. Como acontecia todas as vezes que se estabelecia uma ligação com o regente, surgiram em primeiro lugar os perturbadores modelos coloridos, seguidos pela gigantesca abóbada metálica, que abrigava o elemento principal do conjunto positrônico. Sem o menor intróito o cérebro perguntou: — Onde está Rhodan? Nem tomou conhecimento da presença de Deringhouse. Este já estava preparado para as “excentricidades” do grande computador. — Não pôde vir regente — respondeu o general com o mesmo laconismo. — Senha Garyloon 010 Árcon! — O fato de o senhor conhecer a senha não exclui a verificação da identidade de sua pessoa. Apresente-se em Árcon III. O general sabia que sua insistência representava mera perda de tempo, pois que seria dificílimo remover o computador-regente de qualquer decisão já adotada. Apesar disso, resolveu formular uma objeção: — Regente, o senhor já me conhece. Sou o terrano Deringhouse. O gigantesco mecanismo comunicou em tom uniforme: — Apresente-se em Árcon III. Identificação indispensável. Temos de estabelecer entendimentos sobre a entrega de cem naves espaciais. Tão subitamente como principiara a falar, o grande cérebro desligou, adotando o objetivismo total que guiava seu procedimento. Com exceção de Thora, o general era a única pessoa a bordo da Burma que conhecia as qualidades típicas do computador-regente. Deringhouse lançou um olhar indagador para Thora, que se mantivera em pé, junto à poltrona vazia, seguindo atentamente o diálogo. — Não estou gostando dessas frases, dona Thora! A ordem de comparecer a Árcon para ser identificado constitui um sofismo que não convence ninguém... — Bem, não pretendíamos ir a Árcon, Deringhouse? — perguntou Thora em tom de espanto. — Naturalmente. E não teria nada a objetar contra o tom de comando usado pelo cérebro, se ele não tivesse feito tamanha questão de ressaltar que está disposto a negociar. Já sabemos por várias amargas experiências que o cérebro positrônico sabe mentir com uma frieza estarrecedora. E a informação de que está disposto a considerar a entrega de cem naves espaciais não passa de mais uma mentira. Thora sacudiu a cabeça. — Minha opinião é outra, Deringhouse. Será que o

senhor não se preocupa demais por minha causa? Deringhouse teve dificuldade de controlar-se. Não poderia revelar-lhe a verdade. Se a esposa de Perry Rhodan não estivesse a bordo, as preocupações ligadas ao voo para Árcon III estariam reduzidas para um décimo. E, caso ela não estivesse doente, tudo teria um aspecto diferente, muito menos arriscado. Mas na situação em que se encontrava, via as coisas pretas, quanto ao futuro da tripulação da Burma. Resolveu bancar o despreocupado: — Espero convencer-me logo de que estava enganado em relação ao cérebro. Afinal, a senhora tem melhores condições de formar um juízo que eu. Durante três horas, a Burma voou sob a escolta dos supercouraçados, deslocando-se ao longo das linhas de bloqueio. Teve de desviar-se instantaneamente de dois ataques, inesperados e violentíssimos, desfechados por naves dos druufs, que conseguiram romper o bloqueio. Joe Pasgin e Hendrik Olavson tiveram o cuidado de não fornecer o menor sinal sobre a tremenda aceleração que se escondia no cruzador ligeiro. Finalmente a Ig-Dro 34 transmitiu uma mensagem lacônica... Informou que o escoltamento estava concluído. Os supercouraçados robotizados do Grande Império desapareceram sem despedir-se.

6 O último salto levou a Burma para o centro do grupo estelar M-13. Essa concentração media noventa e nove anos-luz de diâmetro e compreendia mais de 30 mil estrelas. Constituía a célula-máter do Grande Império, uma entidade estatal que tinha todo motivo para julgar-se grande. A tela da Burma reproduziu o quadro irreal. Os sóis se enfileiravam um ao lado do outro, e sua densidade produzia uma cintilação, um brilho e um tremeluzir, formando um espetáculo extraordinário. O leve cintilar da Via Láctea desaparecera; parecia não mais existir. Em compensação, uma profusão de cores invadiu a sala de comando, depois de passar pela tela. Era um espetáculo que provocaria admiração até mesmo no mais empedernido dos astronautas. O grupo M-13, que servia de sede ao Grande Império dos arcônidas, representava uma obra grandiosa da criação. As constelações se sucediam em série ininterrupta, e, em meio às cascatas de luz, era impossível distinguir a olho nu um determinado sol. Embora tivesse sido construída na Terra, a Burma representava um aperfeiçoamento da construção espacial arcônida. Por isso, a quantidade perturbadora de estrelas não impediu que a tripulação resolvesse com a maior facilidade todos os problemas galatonáuticos. Um 122


verdadeiro conhecedor da astronavegação não teria outra alternativa senão dobrar-se, numa homenagem muda, diante da tecnologia arcônida e de sua hipermatemática. Enquanto os homens da sala de comando ainda se sentiam atraídos pelo colorido do quadro projetado em três dimensões, o computador positrônico do cruzador leve pôsse a trabalhar a fim de determinar qual era à distância ao sistema de Árcon. O astro central era um sol branco e ofuscante, que possuía vinte e sete planetas. A importância principal cabia aos primeiros três planetas, que giravam em torno desse sol, dispostos em forma de triângulo isósceles. Eram designados pelo mesmo nome do astro central e distinguiam-se pelos algarismos I a III. Árcon I, ou o mundo de cristal, um planeta cuja gravitação era semelhante à da Terra, era o mundo residencial dos arcônidas, enquanto Árcon II abrigava a administração do Grande Império e ao mesmo tempo servia de entreposto de comércio do grupo M-13. Já Árcon III não se conhecia igual em toda a Galáxia. Era do mesmo tamanho que os números I e II, mas era um centro de produção de armas. Lá se fabricavam, nas grandes esteiras rolantes dos arcônidas, as gigantescas naves de guerra. Nesse mundo ficava o coração do deus da guerra dos arcônidas — a administração militar, o ministério espacial e da guerra — e o computador-regente! Por estes fatos tornava-se o mais importante dos três mundos. Deringhouse respirou pesadamente ao lembrar-se do enorme mecanismo. Mais uma vez, deu-se conta do aspecto grotesco da situação. Há alguns decênios da contagem do tempo terrana, uma instalação positrônica — construída há muitos milênios por cientistas de ampla visão, e programada ao longo dos séculos — assumiu, com base nessa programação, o governo do Grande Império. E ninguém se sentiu mais feliz com esse fenômeno, que seria inadmissível para os homens terranos, que os arcônidas “supersaturados”, que, dali em diante, passaram a entregarse mais desinibidamente às suas orgias, sem dar-se conta de quão profundamente estavam degenerados. Deringhouse fez uma ligação com Thora. O rosto desta apareceu na tela de controle. Fitou-o com uma expressão de curiosidade. — Dona Thora, será que posso pedir-lhe que venha à sala de comando? Pretendo falar com o cérebro positrônico, daqui a alguns minutos. Thora limitou-se a acenar com a cabeça. Deringhouse ligou para a sala de rádio: — Chame o computador positrônico de Árcon — ordenou. O rosto do operador de rádio, que estava sentado à frente do intercomunicador, desapareceu da tela de controle. — Abalos estruturais! — anunciou o setor de rastreamento estrutural. — Cinco naves. O salto para o centro de M-13 também foi realizado sem o neutralizador de vibrações. Dessa forma, as estações

arcônidas de Vigilância espacial registraram o abalo estrutural provocado pela Burma e imediatamente enviaram cinco naves de guerra ao local, a fim de examinar de perto o forasteiro recém-chegado do hiperespaço. No mesmo instante, a sala de rádio transmitiu o sinal de identificação da nave terrana. O dispositivo automático expelia ininterruptamente os respectivos dados. Os contornos de três cruzadores pesados arcônidas desenharam-se contra o fundo da cortina de estrelas. Pareciam querer abalroar a pequena Burma, mas subitamente mudaram de lado e colocaram-se ao lado da nave terrana. A sala de rádio transferiu as ligações para a sala de comando. A tela iluminou-se. Nela surgiu um rosto de robô. Falava, mas o som tinha desaparecido... Em compensação, a sala de rádio transmitiu uma notícia preocupante. — O cérebro positrônico não responde ao chamado, mas está falando com uma das cinco naves. Finalmente ouviu-se o som da transmissão. A interferência apenas decorrera da regência exercida pela central de rádio. A informação a ser transmitida a Deringhouse não deveria chegar a mãos estranhas. Dona Thora entrou. Mais uma vez, o general não teve tempo de virar o rosto para ela. Mas no momento em que se colocou a seu lado, pediu-lhe que não se colocasse fora do alcance da objetiva de televisão. — ...e vieram a Árcon sob escolta — foram estas as palavras que ainda conseguiu ouvir. Antes que Deringhouse conseguisse dizer uma palavra, o robô interrompeu a comunicação. — Isso não está muito bom — disse Deringhouse em tom preocupado. — Não conseguimos entrar em contato com o cérebro positrônico, mas ele acaba de manter uma palestra com uma das naves robotizadas. Escolta, ora essa! Tenho sérias dúvidas quanto a isso, dona Thora! — General! — gritou o oficial de rádio em tom exaltado. — KK-0-763 98 exige que lhe entreguemos a direção da Burma. KK-0-763 98 era o robô comandante de uma das naves arcônidas que haviam dito ao general que iriam escoltar a nave para Árcon. — Transfira a ligação para cá! — ordenou Deringhouse em tom tão frio que até mesmo Joe Pasgin, imediato da Burma, se virou para ele e fez um gesto de satisfação. A tela iluminou-se. Mais uma vez, o rosto indiferente do robô arcônida surgiu. — Ouça meu caro — disse Deringhouse. — Diga a seu regente que não somos arcônidas, mas terranos, e um terrano não gosta de entregar sua nave a um robô. Estava mostrando que também sabia agir com a descortesia típica de um robô, mas ao desligar deu-se conta de que, face à sua programação, esses homens mecânicos nunca se chocavam. 123


Joe Pasgin e Olavson tiveram de esforçar-se ao máximo para manter a Burma no centro da formação de naves que a escoltaria para Árcon, sem correr o perigo de colidir com qualquer uma delas. Era bem verdade que os potentes campos defensivos evitariam uma colisão direta, mas não queriam passar a vergonha de serem considerados inexperientes no vôo em formação. — Então, dona Thora, o que acha dessa exigência? — perguntou Deringhouse com certo sarcasmo na voz. — São robôs! — com essa palavra Thora pensou que o assunto estivesse encerrado. — É um robô! — retificou o general. — O cérebrogigante. Se existe alguém no Grande Império que saiba como nós, os terranos, costumamos reagir a qualquer restrição em nossa liberdade, este alguém é seu simpático regente! Apesar da situação indefinida em que se encontravam, Thora, cujo estado de saúde piorara sensivelmente, deu uma risada. — Deringhouse. Sou da dinastia dos Zoltral e venho de Árcon I, mas considero o computador-regente um monstro. E acho que o senhor também o considera assim. Mas, como arcônida que sou, talvez não encare a situação com a mesma coerência e energia que o senhor, que é um terrano. E olhe que, ultimamente, devo esforçar-me para não me esquecer totalmente de que não sou filha do planeta Terra. Foi interrompida pelo astronavegador Merck. — General, a rota não confere mais. Em psi há um desvio de 0°57’. Nunca vi tamanhas diferenças nas naves robotizadas. — Cinqüenta e sete minutos do arco — repetiu Deringhouse em tom pensativo. — Isso ainda nos levará para dentro do sistema de Árcon, Merck. A que planeta deveremos chegar com esse desvio? Thora também teve sua atenção despertada. Como excomandante de uma grande nave de exploração, era uma especialista altamente qualificada nessa área. Merck fez uma careta. — O sistema possui vinte e sete planetas. É difícil formular uma previsão a esta hora. Na melhor hipótese, a mesma poderá ser formulada dentro de meia hora. Deringhouse preferiu não assumir riscos. Thora estava a bordo, e essa circunstância orientava seus atos. A próxima ordem foi dirigida à sala de rádio. — Daqui a pouco, lhes serão fornecidos os dados sobre o desvio de rota que nos é imposto e nossa posição atual. Transmitam os mesmos sem comentários à nossa estação retransmissora mais próxima. As estações retransmissoras eram naves espaciais terranas que permaneciam em determinados pontos da Galáxia, segundo um plano cuidadosamente elaborado, a fim de receber as mensagens dos agentes e transmiti-las à estação seguinte, até que, depois de muitas andanças, chegassem a Terrânia. Esse procedimento complicado, mas seguro evitava a revelação da posição do planeta Terra. — Já temos o desvio de rota na coordenada chi, general.

Um grau e dezoito segundos. Meu Deus, até parece que vamos pousar em Mutral! O cruzador ligeiro Burma era um gigantesco conjunto mecânico comprimido numa esfera, mas sua tripulação de cento e cinquenta homens possuía um excelente nível mental. Era formada de elementos altamente qualificados. Mais de duas dezenas de homens, que faziam trabalhos de pouca relevância, se contavam entre os cientistas mais competentes de suas especialidades. — Merck, o senhor conhece seus colegas. Convoque-os. Preciso ter certeza. Dirigindo-se a Pasgin, perguntou: — Quanto tempo falta? — a pergunta referia-se ao tempo de vôo para Árcon III. — Se mantivermos a velocidade atual de 0,89 luz levaremos de cinco a seis horas. Deringhouse chamou a sala de rádio. — Ouviu a troca de mensagens? — Sim, senhor general — soou a resposta, proferida em tom militar. — Suspenda a mensagem destinada à estação retransmissora até que tenhamos em mãos a interpretação completa dos dados. Quando isso acontecer, transmita imediatamente. De repente, Deringhouse olhou para Thora, que se acomodara numa poltrona. A sensação de segurança, que tentava aparentar, desaparecera. As ordens do general deixaram-na preocupada, principalmente as relativas ao desvio de rota em psi e chi. Ouviu-se o ruído da escotilha que dava do convés para a sala de comando. Pela primeira vez desde o momento em que a Burma decolara da Terra, a telepata Ishy Matsu entrou na sala de comando. Sem que Thora o percebesse, Conrad Deringhouse transmitiu-lhe suas preocupações. Seus pensamentos ficaram expostos diante dela como um livro aberto. Ishy fez um sinal com a mão. Deringhouse voltou a dirigir-se a Thora. — Thora, a senhora confiou demais em suas forças. Por favor, descanse um pouco, até que... Bem, até que saibamos onde vamos pousar. No último instante, o general resolvera dizer a verdade, pois neste ponto não se poderia enganar uma comandante arcônida. Thora agradeceu a franqueza com um sorriso feminil. Nem se espantou ao ver Ishy Matsu parada a seu lado. Mas não permitiu que a mutante a ajudasse a levantar-se. Será que sentia o olhar dos homens, enquanto se erguia da poltrona? Qual era a origem da vermelhidão doentia de seu rosto? Seria a excitação mental ou o esforço físico? Saiu da sala de comando com a mão pousada de leve no braço da bela japonesa. Assim que a escotilha se fechou atrás dela, Deringhouse começou a praguejar. Tornou-se grosseiro. 124


— Senhores, se mais uma vez quiserem permitir-se olhar Thora dessa maneira em virtude de uma falsa compaixão, os senhores hão de se haver comigo. Dona Thora sofre de uma doença incurável. Ela sabe, mas não faz questão de que constantemente lhe lembrem isso por meio de olhares curiosos. Será que me fiz de entendido? Sentou à frente da grande tela de visão global da Burma, que mostrava o comboio dos cinco cruzadores pesados arcônidas, representados por pontos nítidos que se distinguiam em meio ao cintilar do grupo estelar. — Localização! — gritou o operador do rastreador estrutural. — Eco de rastreamento. Duas naves, provavelmente do tamanho da Titan, aproximam-se do amarelo, desenvolvendo quase a velocidade da luz. — Distância de 1,43 minutos-luz. A sala de rádio chamou: — Hiperfrequência do regente voltou à atividade. Troca de mensagens, distorcidas e condensadas. Agora... No mesmo instante, a voz do oficial de rádio foi substituída pela do computador-regente. — ...à força, para pousar em Mutral. Recorram a quaisquer meios para impedir a decolagem. A transmissão da hiperfreqüência do cérebro positrônico chegou ao fim. Graças aos interceptadores dos swoons, que eram minúsculos aparelhos que num instante constatavam os impulsos de distorção e suas variações, medindo o grau de condensação, tornara-se possível ouvir uma mensagem do computador de Árcon. Para os homens que se encontravam na sala de comando, o aparecimento das duas naves foi um acontecimento de segunda ordem. Todos os olhares estavam fitos em Deringhouse, mas este mantinha-se tranqüilamente em sua poltrona e observava a grande tela de visão global. Parecia não conseguir fartar-se do espetáculo dos inúmeros sóis reluzentes. Subitamente estreitou os olhos. Dois pontos surgiram à sua frente. Dois outros pontos, que se encontravam mais próximos, desviaram-se para a direita e a esquerda. Eram os dois cruzadores pesados que formavam a retaguarda do comboio de escoltamento. Cederam lugar aos dois gigantes, que se aproximavam desenvolvendo quase a velocidade da luz. — Estão-se aproximando. A aproximação continua. A distância é inferior a quatro mil quilômetros. Dois mil. Manobra de adaptação dos supercouraçados. Estão desacelerando lentamente. Seiscentos quilômetros. Trezentos... De repente ouviu-se a informação, proferida num tom que até parecia de alívio: — Manobra de adaptação concluída. Encontram-se no amarelo, oitenta quilômetros atrás de nós. — É a mesma coisa de sempre — Deringhouse não disse mais nada. Relativamente jovem, a tripulação da Burma ainda teria de familiarizar-se com a situação. Havia mais de cinco mil

estações de vigilância espacial, o que tornava impossível a aproximação de qualquer nave sem ser detectada. Além disso, em virtude do instinto de autoconservação, o regente exigia que qualquer nave, que penetrasse no sistema, se sujeitasse à escolta. Porém o fato de Deringhouse não comentar a mensagem do regente, que acabara de ser interceptada, não representava um ato de leviandade, mas apenas decorria da circunstância de que no momento não poderia tomar qualquer providência. O alto-falante emitiu um estalo. A sala de rádio anunciou que a mensagem destinada à estação retransmissora Sigma 82 acabara de ser expedida em forma distorcida e condensada. Deringhouse recostou-se confortavelmente na poltrona e disse: — Pois bem, senhores. Daqui a pouco conheceremos Mutral. Olhem que nunca me senti muito bem em Plutão! Não seria possível falar mais claro. Mutral, o vigésimo sétimo planeta do sistema de Árcon, era um mundo de gelo, semelhante a Plutão. Desde os primeiros tempos da astronáutica arcônida, o planeta servira de fortaleza espacial, que nos seus 15 mil anos de existência rechaçara, no limiar do sistema, muitos ataques vindos do espaço galáctico. Aquilo que os arcônidas, outrora tão arrojados, haviam construído, parecia destinado a manter-se para toda a eternidade. Graças ao processo de ensinamento hipnótico a que fora submetido, o General Conrad Deringhouse não teve necessidade de solicitar dados sobre o mundo de Mutral. Não teve a menor dúvida de que era lá que a Burma deveria pousar. Só se preocupava em saber por que motivo o computador-regente se declarara disposto a negociar, e por que escolhera Mutral como local de negociações. O robô comandante de um dos cinco cruzadores pesados voltou a chamar. E, mais uma vez, não pediu, mas exigiu. Deringhouse deixou que Joe Pasgin decidisse. A reação do imediato da Burma foi a mesma que o general adotara pouco antes, ao recusar a exigência. — Forneça os dados. Não costumamos entregar nossas naves a robôs. Quantas vezes teremos que repetir isto? A última pergunta de Pasgin foi formulada em vão. O comandante-robô desalmado respondeu laconicamente: — Dados seguem. O computador da Burma realizou a conversão instantânea dos dados para os padrões terranos. Seguindo a ordem recebida, o cruzador ligeiro mudou de rota. De repente, o planeta Mutral surgiu na tela. Ficava tão distante do sol de Árcon que sua luz não poderia acalentar qualquer forma de vida. Por isso, não passava de um mundo de gelo extremamente acidentado. Até mesmo as cordilheiras, de mais de oito mil metros de altura, ficavam cobertas pela blindagem de gelo. Aquele mundo cinzento, quase negro, que refletia debilmente a luz dos sóis de M-13, parecia uma terrível ameaça que os aguardava no espaço. 125


— Isso está começando bem! — disse Joe Pasgin, que mais uma vez observava, admirado, a bela manobra que Hendrik Olavson fazia para pousar a Burma naquele inferno de gelo. Os dados eram fornecidos ininterruptamente pelo rádio. Finalmente a nave foi atingida pelo raio de tração de Mutral. Em virtude dele, a manobra de pouso seria uma verdadeira brincadeira. Os neutralizadores de pressão do cruzador ligeiro começaram a rugir. A nave desacelerou. Nem uma única vez, o grau de desaceleração ultrapassou o máximo admissível nas naves arcônidas. Em virtude de sua desaceleração, aparentemente pouco satisfatória, parecia querer colidir com os campos defensivos dos cruzadores de Árcon. Com um sorriso no rosto, Deringhouse pediu ao jovem Olavson que não levasse as coisas longe demais. Seria seu último sorriso durante este vôo ao sistema de Árcon... A Burma atingiu o corredor de entrada do planeta. Quatro mil metros abaixo deles rodava Mutral, o mundo de gelo transformado numa fortaleza espacial. Os cruzadores pesados afastaram-se, mas a nave terrana foi seguida de perto pelos gigantes espaciais. Certa vez, Deringhouse ligara a ampliação máxima e examinara com um interesse profissional os anteparos abertos dos canhões de impulsos e desintegradores das naves arcônidas. Os veículos de escolta estavam preparados para o combate. Sabia perfeitamente que Mutral achava-se em estado de rigorosa prontidão. Os mecanismos de mira automática da fortaleza estacionaria acompanhavam todas as mudanças de rota da Burma. Mas os pensamentos do general até pareciam estar sendo trabalhados por um distorçor. Voltavam constantemente a ocupar-se da mensagem mutilada expedida pelo agente de Aralon. Por mais que se esforçasse, não conseguia libertar-se desses pensamentos. Os quatro fragmentos de palavras não queriam sair-lhe da cabeça. Hendrik Olavson deixou que a nave caísse até dez mil metros acima da superfície do planeta. Depois ativou os campos antigravitacionais, que deixaram que o cruzador ligeiro descesse mais oito mil metros, até que seu movimento pendular se compensasse, restabelecendo o equilíbrio de forças. Um forte rugido atravessou a nave no momento em que as colunas telescópicas de apoio foram escamoteadas. A nave terrana foi descendo lentamente. O pouso continuava a ser dirigido pelo raio de tração. Dessa forma, o lugar em que entrariam em contato com o solo estava exatamente determinado. As duas naves de “escolta” da classe Império seguiramnos como se fossem uma sombra dupla. Subitamente iluminaram-se alguns holofotes de potência incrível. O quadrado de dez quilômetros, mergulhado na ofuscante luz artificial, constituía prova do

caráter inóspito do planeta. A luz também permitiu aos tripulantes da Burma perceberem que os numerosos pontos negros, em meio ao gelo reluzente, não eram impurezas, mas representavam os anteparos abertos de algumas centenas de posições de artilharia. O cruzador ligeiro da Frota Terrana acabara de pousar no setor central da fortaleza de Mutral. O lugar escolhido pelo computador-regente não poderia ser mais seguro. — Os campos defensivos permanecerão ativados! — ordenou Deringhouse. Nas dez horas seguintes, a situação não se modificou. As mensagens dirigidas ao cérebro positrônico ficaram sem resposta. O computador não tinha pressa. Mas a paciência de Deringhouse tinha limites. E com a décima hora de espera esse limite esgotou-se. Enquanto Thora continuava em seu camarote sob os efeitos de um tranqüilizante, sem desconfiar de nada, o General Conrad Deringhouse entrou na sala de rádio. Sentou à frente da tela do potente aparelho de hipercomunicação. Virou-se ligeiramente para os lados e ordenou: — Ligue para a hiperfreqüência do cérebro positrônico. Vou chamar o regente e... — não chegou a completar a frase, mas seus gestos diziam mais que um livro. A ligação com Árcon III foi completada, porém o cérebro não mostrou qualquer reação. As linhas coloridas confusas, que indicariam a existência de um contato pelo rádio, deixaram de aparecer na tela. Mas os agentes de Rhodan haviam descoberto, numa série de missões extremamente perigosas do Serviço de Defesa Solar, que qualquer chamado atingiria automaticamente o computador-regente, desde que realizado em sua faixa de frequência. — Regente — disse Deringhouse para dentro do microfone. — Fui obrigado a pousar em Mutral. Antes disso tomei a liberdade de informar Perry Rhodan a este respeito. Acho que seria sumamente desvantajoso para o resultado das nossas negociações se... — Aguarde! Mesmo o general, uma velha raposa do espaço, não pôde deixar de sentir-se perplexo diante da resposta inesperada do cérebro positrônico. Mas nem por isso perdeu a presença de espírito. — Não esperarei outras dez horas — disse com o mesmo laconismo. Não houve resposta. A um sinal de Deringhouse, o oficial de rádio desligou o hipercomunicador. Ao entrar na sala de comando, o general encontrou reunida toda a equipe de comando. Desde o pouso, realizado há dez horas, a Burma se encontrava em estado de prontidão. Os conjuntos propulsores corriam em ponto morto. Isso consumia energias, mas de outro lado reforçava a 126


consciência de que se poderia decolar a qualquer momento. Bastaria aumentar o desempenho dos imensos mecanismos instalados na protuberância equatorial da nave de cem metros de diâmetro, para que a Burma subisse ao espaço quase como um raio. Era nisso que residia a força oculta da pequena nave. Os tripulantes sabiam que Árcon não dispunha de qualquer veículo espacial desse tipo. O fato de que algumas centenas de peças de artilharia se mantinham apontadas para a nave terrana não lhes causava maiores dores de cabeça. A bordo, encontravam-se algumas centenas de dispositivos pequenos, mas de grande eficácia, que seriam capazes de perturbar o funcionamento dos sensíveis dispositivos de mira dos canhões térmicos, de impulsos e de desintegração de Árcon. — Uma ligação para o senhor, general — anunciou o oficial de rádio e transmitiu a ligação para a sala de comando. A imagem na tela estabilizou-se. Deringhouse viu um arcônida, que o fitava numa atitude arrogante. — Sou Taa-rell, comandante-chefe de Mutral, terrano! — disse num arcônida impecável. — Aguardo sua visita. Peço-lhe que venha imediatamente, antes que comece a assistir ao próximo jogo simultâneo. Conrad Deringhouse foi a calma em pessoa. Conhecia esse tipo de arcônida, que nada tinha em comum com seus arrojados antepassados. Os novos arcônidas padeciam de uma perigosa instabilidade biológica e, face à decadência moral e psicológica, cediam inteiramente à indolência e ao cansaço, fugindo de qualquer tipo de iniciativa ou responsabilidade. Além disso, viam em todas as criaturas de outras raças, seres de categoria inferior. O rosto balofo do arcônida, em cuja boca brincava um sorriso de escárnio, manteve-se imóvel na tela da Burma. Deringhouse fitou-o demoradamente. O arcônida não gostou. Abandonando a indiferença característica de sua raça, disse em tom indignado: — Terrano, será que preciso repetir quem eu sou? O general manteve-se imóvel à frente da objetiva. — Ora, arcônida — respondeu Deringhouse num tom que quase chegava a ser de compaixão. — O que significa ser comandante de uma bola de gelo? Eu sou um general da Frota Terrana, e meu chefe é Perry Rhodan! Por um instante teve-se a impressão de que o arcônida queria despertar de sua indolência, mas apenas disse em tom de desprezo: — Rhodan... quem é esse Rhodan? Deringhouse não teve necessidade de responder. O rosto balofo do arcônida desapareceu da tela, para ceder lugar a um robô. — Sou GD-78-P-456 23, senhor! — disse o homemmáquina, a título de apresentação. — Como comandante das unidades robotizadas estacionadas em Mutral, devo preveni-lo para que não tente decolar. O Grande Coordenador ordenou que os senhores não deverão sair do planeta de Mutral. De nossa parte, está tudo preparado para

impedir sua decolagem, se necessário, até pela violência. A comunicação foi interrompida. A tela voltou a apagar-se. Deringhouse voltou-se para os homens que se encontravam na sala de comando. — Acho que, com isso, já estamos suficientemente informados sobre nossa situação. Por enquanto não vejo nenhum perigo. Só nos resta esperar até que o Grande Coordenador queira conversar conosco. A escotilha abriu-se. Deringhouse tinha certeza de que era Thora. Quando viu que, quem acabara de entrar, era a delicada telepata japonesa, logo se sentiu preocupado. A jovem lançou-lhe um olhar penetrante, quase autoritário. — General, há uma hora venho captando impulsos perigosos, cada vez mais intensos. Será que neste mundo de gelo existem aras? Deringhouse sentiu-se alarmado com a pergunta. “A mensagem mutilada de nosso agente no planeta Aralon”, pensou apavorado. Falando em voz alta, disse: — Venha comigo, Ishy! Dali a pouco, estavam sentados frente a frente, no camarote de Deringhouse. — De que tipo são os impulsos perigosos, Ishy? Acho que não se esqueceu de quem você deve proteger! Estas frases deram início a uma série de perguntas. Ishy Matsu não se abalou. — Os impulsos estão cheios de perigo. Não consegui ler claramente os pensamentos nem fui capaz de reencontrálos. Até parece que o planeta Mutral se interpôs com sua massa entre mim e os outros seres. Não consigo encontrar outra explicação, general. O sistema de intercomunicação interrompeu a palestra com um chamado da sala de rádio. — O cérebro está falando com alguém em Mutral. Infelizmente nosso interceptador falhou. Árcon III limitouse a transmitir três impulsos condensados. Deringhouse lembrou-se da suspeita que a mutante acabara de manifestar. — O senhor seria capaz de determinar a posição da estação deste planeta de gelo? O homem que se encontrava na sala de rádio respondeu prontamente: — Fica nas antípodas, general. Quer os dados precisos? — Não, obrigado. O alto-falante ficou em silêncio. Deringhouse e a mutante fizeram um gesto de compreensão. — Em hipótese alguma solicitarei a interferência de dona Thora — decidiu o general. A telepata objetou em tom exaltado. — Se fizer isso, prepare-se para levar um cadáver à Terra. Dona Thora não seria capaz de superar uma decepção dessas. O senhor sabe que é culpado porque de repente dona Thora voltou a ter o aspecto doentio, general? — Eu? — indagou Deringhouse em tom de repulsa, mas não conseguiu libertar-se de um vago sentimento de culpa. — Sim, o senhor. Tudo aconteceu porque pediu a dona 127


Thora que permanecesse fora do ângulo de visão da objetiva e fez questão de conversar sozinho com o computador-regente. Naquele momento, o sistema de intercomunicação voltou a chamar: — General, o cérebro quer falar com o senhor. Dona Thora o espera na sala de comando. Deringhouse viu neste último fato uma providência do destino. — Venha comigo, Ishy, e cuide bem de Thora. Pedirei a ela que conduza as negociações. Peço-lhe que me dê um aviso assim que a conversa em torno das cem naves se torne demais para ela. Se isso acontecer, entrarei na linha e... O que houve? Enquanto caminhavam em direção à sala de comando, Ishy Matsu empalideceu de repente. No momento em que formulava a pergunta, Deringhouse compreendeu que a telepata estava captando novos impulsos. O contato com os cérebros estranhos durou apenas alguns segundos, e, durante esses segundos, o rosto de Ishy Matsu transformou-se numa máscara. Quando fitou Deringhouse, não havia o menor sinal de percepção extrasensorial nesse rosto. — Um grupo de aras chegou a Mutral, general. E sua chegada se relaciona com nossa presença no planeta. Infelizmente não consegui descobrir... — Positivo ou negativo? — perguntou Deringhouse laconicamente, embora conhecesse a resposta de antemão. — Negativo. Raramente vi tamanho ódio concentrado em pensamentos como neste contato. Os aras? Não são os médicos galácticos, verdadeiros gênios em sua área? Deringhouse disse em tom enfático: — Acontece que os aras se esquecem constantemente dos deveres éticos que um médico deve cumprir. Descendem dos arcônidas e são tão degenerados quantos estes. Infelizmente, essa degenerescência teve reflexos criminosos. Chegaram à escotilha da sala de comando e não mais puderam prosseguir na palestra. Deringhouse sentiu que não poderia iniciar um debate no estado psicológico em que se achava. Mais uma vez, lembrou-se da mensagem expedida pelo agente do planeta de Aralon, que chegou mutilada à grande estação de hiper-rádio de Fera Cinzenta. No entanto, quando cumprimentou Thora com um ligeiro aceno de cabeça e sentou-se ao lado da esposa de Rhodan, o rosto do general expressava alegria. Como sempre, a mutante Ishy Matsu manteve-se discretamente a distância. Virou a cabeça para o lado, a fim de que ninguém pudesse ver seu rosto e, forçando ao máximo suas faculdades telepáticas, procurou captar os contatos extremamente débeis, a fim de conseguir ler pensamentos claros, que lhe transmitissem alguma informação. Conseguiu... porém, imediatamente, o contato foi interrompido. A telepata viu nisso uma prova de que o

planeta era um obstáculo que se interpunha entre ela e a pessoa com quem acabara de entrar em contato. Deringhouse fitava ansiosamente a tela, que continuava apagada. Subitamente estremeceu e voltou a fitar Thora. Seus olhos passaram pelo rosto ligeiramente avermelhado, que revelava a tensão íntima, e pousaram no elegante uniforme de comandante de couraçado arcônida que Thora envergava. Com esse uniforme vistoso, Thora — membro da dinastia arcônida de Zoltral — pretendia infundir respeito ao regente. Será que um mecanismo positrônico que ocupava cerca de 10 mil quilômetros quadrados poderia impressionar-se? As insígnias da dinastia de Zoltral brilhavam suavemente em seus ombros. Quando ela se erguesse, voltaria a ser uma arcônida cônscia de sua personalidade. Agora, sentada na poltrona articulada, aguardava o início das negociações com o cérebro positrônico. Por isso, não notou o olhar de admiração de Deringhouse. De repente o general duvidou dos diagnósticos dos médicos em relação ao caso Thora Rhodan. Em sua opinião, a regeneração das energias físicas e psíquicas e o excelente estado de saúde que apresentava naquele momento não poderiam representar à última cintilância de um impulso vital em extinção. Será que, na verdade, não padecia de qualquer moléstia da classe das leucemias ou dos efeitos de um carcinoma do tipo F Árcon? Ou a tarefa, que voltara a dar uma finalidade à sua vida, produzira uma verdadeira maravilha médica? Deringhouse ouviu alguém cochichar. Olhou para trás. Pasgin, Olavson e Merck estavam de pé e conversavam, ao que tudo indicava a respeito de Thora. Os rostos dos três também exprimiam espanto. Sentiam-se felizes por verem dona Thora tão concentrada, sadia e vigorosa, à espera do início das negociações. De repente o perturbador modelo colorido surgiu na tela, logo seguido pela conhecida abóbada metálica, onde se achava o elemento mais importante do gigantesco cérebro positrônico. Mais uma vez, o autômato pronunciou-se sem o menor intróito sobre a proposta de Rhodan. — O pedido da Terra já está fora de cogitações, mas o Grande Império está disposto a fornecer quarenta cruzadores leves e trinta pesados do último tipo, além de vinte naves esféricas de quinhentos metros de diâmetro e dez supercouraçados. Entrega imediata. “A título de contraprestação, deverão ficar subordinados ao Grande Império: mil comandantes espaciais terranos, mil oficiais, dois mil especialistas industriais, dois mil especialistas em mecanismos de propulsão, armas de impulsos e de desintegração, e mais cinco mil oficiais da frota terrana pertencentes a setores a serem especificados.” Thora, a princesa da estirpe dos Zoltral e esposa de Perry Rhodan, perguntou em tom frio e indiferente: — O que quer dizer com a expressão “ficar subordinados”, regente? 128


— Face à situação existente nas linhas de bloqueio, o Grande Império vê-se na contingência de fazer guarnecer os postos mais importantes em nossas naves por tripulações terranas. — Qual será a posição que um comandante terrano ocupará num cruzador pesado de Árcon, regente? — perguntou Thora sem a menor comoção. Ao vê-la reclinada na poltrona articulada, Deringhouse não pôde deixar de manifestar a admiração que tributava a essa mulher e a sua postura real. Colocou a mão sobre a de Thora e apertou-a ligeiramente. Thora agradeceu com um aceno de cabeça quase imperceptível. Sentiu que esse gesto demonstrava aprovação da maneira pela qual ela estava conduzindo as negociações. — Os comandantes terranos exercerão as funções de imediato nas naves arcônidas, Thora de Zoltral! — respondeu o autômato. — Não podemos aceitar estas condições, regente, pois face à sua própria natureza um terrano não concorda em submeter-se ao comando de um robô. Talvez a voz do gigantesco cérebro positrônico tenha assumido uma tonalidade irônica, quando ele respondeu: — Essa afirmativa não encontra apoio em qualquer elemento de prova. O Grande Império realizou investigações minuciosas sobre a mentalidade dos terranos. Com estas palavras, o computador gigante confessou pela primeira vez ter realizado experiências em homens terranos, experiências estas que inevitavelmente levariam à morte das vítimas. — Não tenho a intenção de distrair-me com bagatelas, regente — disse Thora, descartando como que por acaso a terrível informação que o regente acabara de fornecer. — Poderemos discutir a proposta ora em exame, desde que os mil comandantes terranos também exerçam as funções de comandante nas naves arcônidas. Fez-se uma rápida pausa. Thora e Deringhouse não se atreveram a olhar um para o outro. A esposa de Rhodan, muito inteligentemente, voltou a falar para que o autômato não recorresse aos bilhões de contatos positrônicos de seu mecanismo, a fim de elaborar uma resposta à proposta formulada por último. — Mas, antes de prosseguirmos nas negociações, na qualidade de representante do sistema solar, comunico-lhe que se torna necessário revogar a proibição de decolagem que nos foi imposta, regente! — A proibição permanece em vigor, Thora de Zoltral... Thora interrompeu o autômato: — Meu nome é Thora Rhodan, regente... No mesmo instante, o cérebro de Árcon III interrompeu a ligação. — Isto não foi muito hábil de minha parte — confessou Thora em tom ligeiramente deprimido. De início Deringhouse sacudiu a cabeça, a título de contradita, mas logo disse: — É indiferente que as negociações fossem

interrompidas agora ou daqui a dez minutos. Mas para convencer o cérebro de que somos uns ingênuos tentaremos decolar. Não me arriscarei a apostar que a decolagem não será bem sucedida. Vamos, Pasgin, Olavson. Não é todos os dias que os tripulantes de uma nave terrana se colocam voluntariamente numa situação ridícula. Vamos mostrar a esse autômato e a seus súditos indolentes como a Burma é “fraca”. Joe Pasgin e Hendrik Olavson acomodaram-se nas poltronas dos pilotos. A ordem de decolar foi transmitida pelo sistema de intercomunicação da nave. O cérebro positrônico da Burma trabalhou com uma rapidez espantosa e forneceu aos mecanismos os dados necessários à decolagem. Seguiram-se as ligações efetuadas por Olavson, que também foram processadas pelo computador de bordo. Luzes de controle acenderam-se. Dois aparelhos de alerta começaram a chiar. O ruído dos mecanismos da nave, cuja potência foi aumentada, modificou-se. O zumbido tornou-se um uivo agudo e misturou-se ao ruído borbulhante dos propulsores da protuberância equatorial, que se transformou num forte chiado. — Decolar com o empuxo normal! — disse Pasgin ao copiloto. Um ligeiro tremor percorreu a nave, mas esta não se desprendeu do solo. Energias tremendas seguravam-na. Era um gigantesco campo de sucção, gerado evidentemente por projetores ocultos sob o gelo, e que colocara correntes invisíveis em torno do cruzador ligeiro. Deringhouse lançou um olhar indagador para o oficial incumbido do controle de decolagem. O oficial disse: — Com o empuxo normal o campo de sucção desenvolveu o dobro da potência da nave, mas sua reação não foi muito rápida. — Ah! Suspender a tentativa, esperar dois minutos e ligar instantaneamente para o empuxo normal. Precisamos tentar, senão ainda teremos de pedir socorro ao chefe... Caramba, acho que o cérebro só espera por isso! Caro autômato eu sinto muito, mas não lhe faremos esse favor. Olavson puxou a chave mestra para a posição zero, mas logo a impulsionou para o lugar marcado “à frente”. A segunda tentativa estava sendo iniciada. A Burma saltou para o alto como uma bola de borracha, mas antes que atingisse a altura de cem metros, o campo de sucção foi regulado para sua força de empuxo. Depois, desenvolvendo o dobro da energia da nave, que aparentemente funcionava com o desempenho máximo, não só obrigou esta a parar, mas a forçou a realizar outro pouso, que mal e mal pôde ser controlado por meio dos apoios telescópicos. Com exceção de Thora e Deringhouse, que se sentiram entusiasmados com o resultado da tentativa, os ocupantes da nave pareciam perturbados. Ao que parecia, o comandante arcônida de Mutral parecia incomodado com a segunda tentativa de decolagem. Chamou pelo telecomunicador e anunciou que um comando de robôs estava a caminho, a fim de investigar as 129


ocorrências verificadas a bordo da Burma. Thora colocou-se instantaneamente à frente da tela. — Taa-rell, acho que já nos conhecemos. Taa-rell, o arcônida de rosto balofo, fitou a orgulhosa mulher, que envergava o uniforme de comandante. — Senhora... — gaguejou e ensaiou uma mesura. — Taa-rell, ordene imediatamente o regresso do comando de robôs! — impôs em tom enérgico com a voz fria. O arcônida que se encontrava num subterrâneo da fortaleza de Mutral contorcia-se. — Senhora, o envio do comando de robôs foi ordenado pelo Grande Coordenador. Não posso revogar a ordem, pois, em virtude de suas programações, os robôs estão submetidos diretamente ao regente. Peço encarecidamente... Com um gesto furioso, Thora desligou. Soltou uma risada amarga. — Pobre Grande Império! — disse e sacudiu a cabeça. Big Alden, o oficial de armas da Burma, mostrou que não estava dormindo. — Localização! — disse pelo sistema de intercomunicação. — Cinquenta máquinas de guerra pesadas estão saindo do gelo. O que vamos fazer com elas, general? Joe Pasgin ampliou a imagem ao máximo. Uma coluna de robôs de guerra arcônidas caminhava pesadamente sobre a superfície acidentada de gelo. As fendas de vários metros de largura não representavam qualquer obstáculo. Quem os visse saltar por cima das mesmas acreditaria que eram artefatos levíssimos, não máquinas que pesavam várias toneladas. O revestimento de aço de Árcon brilhou sob a luz ofuscante dos refletores. Esse material era capaz de resistir a temperaturas até 30 mil graus, e praticamente não era afetado pelo frio, por mais intenso que fosse. — O computador-regente nos está enviando uma representação — gritou Pasgin para o oficial de armas da nave. Big Alden respondeu com uma praga de astronauta. Subitamente Deringhouse sentiu que alguém olhava para ele. Virou a cabeça. Esquecera-se da presença de Ishy Matsu. Esta lhe fez um sinal nervoso para que a seguisse. Mas, naquele momento, não poderia retirar-se. Deu imediatamente o alarma. — Ativar todos os robôs. Colocar vinte à frente da comporta número três. Atrás deles outros trinta se manterão em reserva. Os outros aguardarão ordens. Só três dos robôs arcônidas, que pretendem visitar-nos, terão permissão de subir a bordo. O indicador de distância da tela de visão global mostrava que as cinquenta máquinas de guerra se encontravam perto dos campos defensivos energéticos. — Ali também só deixaremos passar três! — disse Deringhouse. — Pasgin, tenha cuidado para que esses autômatos armados não aproveitem a suspensão da nossa barreira energética, a fim de realizar um avanço. Para mim,

um robô arcônida é capaz de qualquer baixeza, e até hoje sempre me dei muito bem com minha desconfiança. Teve oportunidade de voltar-se discretamente para a telepata. Esta lhe fez um sinal que exprimia máxima urgência. “Venha imediatamente!”, parecia dizer. Deringhouse tomou sua decisão. — Pasgin, assuma o comando. Irei até a comporta. Obrigado; não preciso de companhia. Dona Thora, em hipótese alguma a senhora poderá sair daqui. As explicações serão dadas mais tarde. Seguiu-se uma verdadeira torrente de comandos. Depreendia-se que o general considerava a visita dos robôs extremamente perigosa. Uma vez desencadeado o alarma, a ligação direta entre a sala de comando e todos os compartimentos da nave iniciou-se. Deringhouse saiu da sala de comando. Ao passar perto de Ishy Matsu, disse como que ao acaso: — Ah, poderá ir comigo, Ishy. Tenho um trabalho para você. Mal a escotilha da sala de comando fechou-se atrás deles, disparou a pergunta: — O que houve? Apesar da pigmentação mongoloide, o rosto encantador de Ishy Matsu parecia pálido. — O comando de robôs recebeu ordem para retirar o senhor e dona Thora da nave. Se necessário, deverá recorrer à violência. Deringhouse achou essa afirmativa tão chocante que perguntou num tom apavorado e desconfiado: — Como soube disso, Ishy? A telepata não se abalou. — No momento em que dona Thora conversava com o comandante da base, consegui pela primeira vez captar alguns impulsos nítidos. Perto de Taa-rell, encontram-se alguns aras, que receberam ordem do computador-regente para interrogar o senhor ou dona Thora sobre a posição galáctica da Terra. Receberam instruções para usar o método da lavagem cerebral. Big Alden, oficial de armas da Burma, forneceu uma prova em apoio da afirmação de Ishy Matsu. — Chamando o general! — soou sua voz potente nos alto-falantes do corredor. — Localização energética. O planeta Mutral mobilizou todo o armamento contra nossa nave. No mesmo instante, um furacão de fogo vindo de todos os lados desabou sobre a Burma. Ao primeiro impacto dos feixes energéticos, alguns dos quais mediam cinquenta metros de diâmetro, os campos defensivos da nave romperam-se. Graças à brevidade do furacão de fogo, a Burma não foi destruída sob o impacto das energias liberadas. O ataque dirigia-se não contra a nave, mas contra os campos defensivos. Porém o cruzador ligeiro já não era a mesma nave que fora poucos segundos antes... 130


Deringhouse, que correu de volta à sala de comando, ouviu o oficial de armas berrar pelos alto-falantes: — Todas as armas inutilizadas. Bocas dos canhões destruídas. Deringhouse não vira o inferno. Por isso, não compreendia por que de repente a Burma passou a pender para o lado. No interior da nave, as unidades energéticas começaram a rugir, os conjuntos de conversores uivaram, e os propulsores começaram a rumorejar. A escotilha, controlada por impulsos luminosos, abriuse abruptamente. Com um salto, o general colocou-se ao lado de Hendrik Olavson e arrancou-lhe a chave de comando da mão. — Não precipitem nada, senhores — disse numa calma tamanha que até parecia dispor de uma semana para tomar a próxima decisão. Pegou o microfone do sistema de intercomunicação e gritou: — Aqui fala o general. Não abram a comporta três. Controle instantâneo. Contatos com os oficiais. Ativar robôs de trabalho. Desligo. Tinha uma tarefa especial para Alden, o oficial de armas que já não dispunha de qualquer arma! — Alden, compareça à sala de comando. Olavson, por que a Burma está inclinada? — Devem ter destruído alguns dos apoios telescópicos — respondeu o jovem tenente numa raiva impotente. — Quer dizer que o ataque não foi dirigido contra a nave? — Não. Só estavam interessados em destruir nossos campos defensivos, para que os robôs pudessem passar. — Caramba, Olavson, será que esta pancadinha nos colocou fora de ação? Por que não aumenta a potência dos campos antigravitacionais para que a Burma volte a ficar na posição normal? Deringhouse estava furioso. — Os conjuntos propulsores quatro, sete e onze também estão fora de ação, general. — Também? Mais alguma coisa? Os geradores de campos antigravitacionais também? O telecomunicador chamou. Mais uma vez, o rosto balofo do comandante arcônida surgiu na tela. Thora, que não saíra da poltrona articulada, encontrava-se frente a frente com o comandante. — Senhora — disse o arcônida em tom submisso — eu peço-lhe que não impeça a entrada dos robôs em sua nave. Ainda lhe peço encarecidamente que a senhora e seu general coloquem os trajes espaciais e, acompanhados dos robôs, compareçam à minha presença, para termos uma palestra. Tudo esta sendo feito por ordem do Grande Coordenador, senhora. As últimas palavras, a explicação final, pareciam um grito angustiado. — O que é que o cérebro quer de nós? — perguntou Thora em tom áspero.

Teve um pressentimento ditado pelo instinto e, com o rosto rubro de cólera e os olhos chamejantes, disse a Taarell: — Arcônida, você está mentindo para mim. O que pretendem fazer com o general e comigo? Arcônida, diga a verdade a mim, Thora, da dinastia de Zoltral. “Meu Deus” pensou Deringhouse, totalmente perplexo e dominado por uma insegurança nascida da esperança. “Thora está bem de saúde, tão bem como qualquer pessoa a bordo. Está rejuvenescendo a cada minuto que passa. Até parece que só agora o elixir rejuvenescedor está fazendo efeito.” Taa-rell quase caiu sob as acusações de Thora. Seu rosto balofo revelava os problemas de consciência com que se defrontava. Mas antes que pudesse abrir a boca e responder qualquer coisa, outra pessoa que se encontrava em sua companhia desligou o telecomunicador. Thora olhou para Deringhouse. — Como estão nossas chances? — perguntou com o maior sangue-frio. Sua voz soou forte como outrora. Apesar da situação ameaçadora, conseguiu sorrir e, num gesto inimitável, afastar uma mecha de cabelo que lhe caía na testa. — Já enfrentei situações piores — respondeu Deringhouse, esquivando-se desesperadamente da pergunta. — Quer dizer que são más e... Foi interrompida por um anúncio do telecomunicador. Os geradores de campo antigravitacional voltaram a funcionar. Thora levantou-se de um salto. Irradiava energia e decisão. Seu rosto tornou-se corado, sadio. Suas mãos, que em Vênus apresentavam uma aparência carcomida, estavam fortemente irrigadas pelo sangue. Hendrik Olavson voltou a colocar a Burma na posição horizontal; a manobra exigia uma boa dose de perícia, face à falta de um terço dos apoios telescópicos. — Propulsores quatro e onze reparados! — soou uma informação vinda da protuberância equatorial da nave. — Avarias do propulsor sete são totais. — Deringhouse — Thora colocou a mão no braço do general. — Se existe um ser orgânico que o computadorregente respeite esse ser é meu marido. Nesse momento, Thora teria de saber da verdade. — Todos nós cometemos o erro de pensar assim, dona Thora! O cérebro positrônico foi construído por cientistas arcônidas, para resguardar os interesses do Império de Árcon. E foi programado exclusivamente com esta finalidade. A concepção ética da amizade sempre lhe será estranha, pois do contrário estaria agindo em desconformidade com sua programação. E isso, dona Thora, é uma coisa de que um cérebro positrônico jamais será capaz. “Querem que a senhora e eu compareçamos à presença de Taa-rell, a fim de sermos submetidos à lavagem cerebral. O autômato de Árcon III considera tão importante a descoberta da posição da Terra, que, apesar da situação 131


desesperadora que vem enfrentando junto à área de superposição, está disposto a arriscar um ataque maciço do Império Solar para obter essa informação.” — Já desconfiei de algo semelhante, quando chamei Taa-rell de mentiroso, Deringhouse. Pelo que o senhor acaba de dizer, só nos resta uma saída, a fuga precipitada. A que altitude conseguiremos chegar? Os oficiais da sala de comando fitaram-se. Sentiram-se impressionados pela calma e coragem de dona Thora. Acabara de perguntar no tom mais natural deste mundo em que altura a Burma se transformaria numa nuvem de gases, depois de realizada a decolagem desesperada. — No momento, nosso problema são os cinquenta robôs. Pode parecer ridículo, mas o fato é que só podemos pensar na decolagem depois que os robôs se tiverem retirado, e eles só se retirarão se a senhora e eu formos com eles, ou... Deringhouse estacou. Refletiu intensamente. — Sim, devemos tentar isso. Sala de rádio entre em contato com o computador-regente. Transmita a mensagem com o sinal de urgência. — Sinal de urgência — repetiu o oficial de rádio pelo sistema de intercomunicação. — Sim senhor.

7 A ligação com Árcon III não foi completada. Taa-rell voltara a chamar para apresentar o ultimato. O prazo terminaria dentro de dez minutos. Lá fora, junto à comporta número 3 cinquenta máquinas de guerra arcônidas aguardavam o momento de ingressar na nave. Os geradores de campo antigravitacional da Burma emitiram um ruído mais forte que antes, a fim de manter a nave na posição vertical. Era precisamente nisso que Deringhouse estava pensando. — Onde e como estão postados os robôs diante da nave? — perguntou numa calma fingida. A lente da teleobjetiva da comporta 3 resistira bem ao furacão de fogo. E foi dali que veio a informação desejada. — Ah, sim — acabou sendo esta a única reação de Deringhouse, que deixou todos decepcionados. Big Alden, o oficial de armas que perdera o emprego, concluiu sua tarefa especial. Voltou banhado em suor, mas isso não o incomodava. Anunciou em tom de satisfação: — Os canais energéticos do setor de armamentos foram transferidos para as fases dos propulsores. Os especialistas em mecanismos de propulsão de impulsos garantem que a protuberância equatorial não se desprenderá general. Deringhouse fez como se não notasse os olhares indagadores que lhe eram lançados de todos os lados. — Faltam sete minutos. Acho que já está na hora de

fazermos alguma coisa, senhores. Pasgin! — Pois não, general! — respondeu o imediato da Burma, olhando para Deringhouse. — Os canais de comando das colunas telescópicas de apoio estão todos interrompidos? — Naturalmente. — Muito bem. Preste atenção às instruções que vou transmitir. Aqui fala o General Deringhouse! — gritou para dentro do microfone do sistema de intercomunicação. — Nos próximos minutos todos terão de encontrar um lugar firme, que seja suficientemente seguro, para que nada aconteça no caso de uma súbita modificação da posição da Burma. Cuidado com os objetos que possam cair. Deverão ser retirados. Desligo. Pasgin e Olavson pareciam ser os únicos que compreenderam as intenções do general. Sorriram satisfeitos. Deringhouse chamou a comporta número 3. — Encher a comporta com nossos robôs. Assim que a Burma volte a erguer-se faça sair nossos robôs em direção à entrada do abrigo da qual vieram seus colegas arcônidas. — Agora já compreendo — disse Thora e acomodou-se na poltrona articulada. Todos a imitaram, procurando um apoio seguro. Quando faltavam cinco minutos para escoar-se o ultimato, a Burma, controlada pelas chaves que Pasgin manipulava no seu painel, encolheu instantaneamente dois terços das colunas de apoio telescópicas. No mesmo momento todos os geradores de campo antigravitacional da nave foram desligados. A escotilha número 3, que continuava fechada, entrou em contato com o solo. O cruzador tombou para frente e penetrou profundamente no gelo do mundo de Mutral. A esfera de cem metros de diâmetro retumbou fortemente. Um barulho infernal saiu das rochas primitivas desse mundo plutônico. Sob o calor provocado pela pressão de milhões de toneladas, o gelo derreteu-se e deixou que a Burma afundasse, até bater ruidosamente contra a rocha. O fato de que, com isso, cinquenta robôs arcônidas foram destruídos ou danificados a ponto de serem transformados em sucata foi apenas um lamentável efeito “colateral” do fenômeno. Mas o plano de Deringhouse não deu certo... Afundada até a metade no gelo, a Burma já não estava em condições de libertar-se com as próprias forças. Deringhouse logo reconheceu o erro. Pelo sistema de intercomunicação ordenou à comporta 1 que fizesse voar trinta robôs ao mesmo tempo em direção ao objetivo. A tela de visão global ainda estava ligada para a ampliação máxima. Os tripulantes fecharam apostas sobre o número dos robôs que conseguiriam chegar à entrada das fortificações subterrâneas. Todos sabiam perfeitamente que as instalações arcônidas poderiam lançar menos de um milésimo de seu potencial contra a Burma, já que tudo fora montado para a 132


defesa de ataques vindos do espaço. Apenas uns poucos canhões poderiam atirar contra alvos situados na superfície. Mas, ao destruírem os campos defensivos ativados à potência máxima, os arcônidas e seus robôs haviam dado uma prova do que eram capazes mesmo neste terreno. Trinta máquinas de guerra terranas pairavam sobre seus próprios campos antigravitacionais. Dirigiam-se e pensavam por eles mesmos. Vindas de três direções diferentes, embora tivessem partido do mesmo ponto, deslocavam-se vertiginosamente em direção ao objetivo. Um feixe energético bem espalhado saiu silenciosamente de uma das numerosas aberturas escuras que se viam no gelo do mundo de Mutral. Dois robôs desmancharam-se em nuvens de gases. Um terceiro foi dividido em dois pela força do raio e caiu. Surgiram mais dois raios, acompanhados de um forte trovejar. A rocha e o gelo propagavam o ruído típico dos canhões de impulsos, que expeliam raios escaldantes para o espaço. Quatro robôs foram atingidos ao mesmo tempo. Obedecendo à lei física da inércia, transformaram-se em ofuscantes trajetórias luminosas. — São raios de desintegração — constatou Hendrik Olavson em tom de surpresa, quando dois homens mecânicos se gaseificaram subitamente, tornando visíveis os feixes de ondas mortíferas. — Dois robôs chegaram ao destino! — exclamou Merck em tom exultante, mas logo se calou apavorado. No entanto, não tardou em descobrir que as máquinas de guerra eram muito mais inteligentes do que acreditara. Não havia mais nenhum robô no ar. Num instante, as máquinas ainda intactas desapareceram no meio das massas de gelo entrecortadas e passaram a rastejar em direção ao objetivo à maneira de soldados de infantaria. — Ataque da direita! — disse Merck em tom muito nervoso. Oito robôs arcônidas saíram repentinamente de uma entrada do abrigo que até então permanecera invisível. Os três primeiros não chegaram a avançar cinco metros. Desmancharam-se sob a ação dos raios térmicos. Mas depois disso a situação começou a tornar-se crítica... Mais duas aberturas existentes no gelo cinzento passaram a expelir reforços arcônidas! Mais de quarenta robôs defrontavam-se com vinte colegas vindos do planeta Terra. Nenhum deles sabia o que era coragem ou covardia. Agiam em conformidade com as instruções incluídas na programação. — Soltar o segundo grupo! — gritou Deringhouse para dentro do microfone. Dali a pouco, a comporta 1 anunciou a execução da ordem. — Ordem cumprida, general. Sondas-cápsulas colocadas fora da nave! Nenhum dos membros da equipe de comando percebera qualquer disparo. E ninguém se atreveu a formular uma pergunta a Deringhouse. Apesar do pavor inimaginável, o

espetáculo das formações de robôs, que se combatiam até a destruição, tinha algo de fascinante. E era esse espetáculo que decidiria se a Burma voltaria ou não a ver a Terra. Thora inclinou-se para Deringhouse e perguntou: — Que sondas-cápsulas são estas? Deringhouse respondeu num tom que quase chegava a ser de ameaça: — Daqui a pouco, os arcônidas ficarão admirados, e seus computadores enlouquecerão. Numa área de cerca de cinquenta mil quilômetros quadrados deste maldito mundo de gelo, nenhum aparelho de mira fornecerá dados aproveitáveis aos canhões. Thora se mantivera afastada por tanto tempo do dia-adia do Império Solar que não sabia o que fazer com essas palavras. Por isso resolveu pedir explicações. Mas teve de esperá-las. — Comportas dois e quatro, soltar robôs. Deringhouse sentia-se tomado pela febre do caçador, porém, nem por isso, perdeu o controle da situação. Lembrou-se da pergunta que teria de responder. — As sondas-cápsulas são transmissores de interferência construídos pelos swoons. Mas são bem melhores que aqueles que Muzel, o grande amigo de Gucky, soltou em série no interior da Drusus. Olhe, Thora! Os transmissores já estão funcionando. Viu este raio de impulso que subiu quase verticalmente? Tomara que a Burma não seja atingida por um infeliz acaso... As fúrias do inferno estavam às soltas no mundo gelado de Mutral! Aquilo que, no início, parecia não passar de uma missão de reconhecimento dos robôs terranos, transformou-se numa luta arrasadora entre os robôs de guerra da Terra e de Árcon que, graças à sua direção positrônica, agiam com uma rapidez, precisão e coerência de que nenhum ser humano seria capaz. De repente, Deringhouse teve a impressão de que a intensidade da iluminação artificial do lado de fora estava diminuindo. Thora observara melhor o fenômeno. — Três robôs avançaram na escuridão. Será que estão destruindo os refletores? Dali a pouco, sua suposição se confirmou. Mas, mesmo na escuridão, os homens-máquina saberiam distinguir o amigo e o inimigo. Chamas subiram para o céu, explosões gigantescas sacudiram a rocha e o gelo, e uma pequena parte das fortificações subterrâneas foi destruída numa nuvem avermelhada. — Santo Deus! — exclamou Merck em tom de surpresa. — Para onde é que eles estão atirando? — É um ataque vindo do espaço! — afirmou o oficial que se encontrava junto ao rastreador espacial. Mas logo viu que o aparelho, que lhe poderia dar uma informação mais precisa a este respeito, se encontrava bem à sua frente. O rastreador mantinha-se em silêncio. — Meu Deus, o que houve com a mira ótica dos arcônidas? — perguntou em tom de perplexidade. — 133


Contra quem estão atirando? Merck acabara de formular a mesma pergunta, e ele mesmo já a havia respondido. Mas de tão espantado que estava, nem se deu conta disso. Outros canhões abriram fogo. Porém seus raios mortíferos apenas rasgavam o céu e se mantinham nessa posição absurda. Na frente, atrás e ao lado da Burma, que continuava mergulhada no gelo, em posição inclinada, a superfície do mundo gelado de Mutral abriu-se e cuspiu massas de aço de Árcon, fogo e incandescência atômica. Ao que parecia, a reação em cadeia progredia em sete pontos distintos. “Qual será o efeito das ondas de compressão no interior das fortificações subterrâneas?”, indagou-se Deringhouse. Não tinha a menor esperança de que o comandantechefe de Mutral e os médicos galácticos vindos ao planeta por ordem do regente sobrevivessem ao inferno. Enquanto lá fora tudo rugia e estalava, e enquanto valores imensos eram destruídos numa questão de segundos, com a Burma por vezes retumbando como um sino, Olavson fez mais uma tentativa para, por meio do campo antigravitacional, libertar a nave de sua posição anormal. Entusiasmado com o êxito, Hendrik Olavson começou a berrar como um menino muito feliz: — Estamos saindo! O campo de sucção já não existe. Mais um pouco de força nos geradores... mais um pouco... agora! Conseguimos... A esfera metálica de cem metros de diâmetro deu um salto, balançou fortemente e foi parar sobre as colunas telescópicas de apoio... “Decolar!”, ia ordenar Deringhouse, que não se importava de deixar para trás uma ou duas dezenas de robôs. A ordem de conseguir cem naves de guerra de Árcon era inexeqüível. A tarefa que tinha pela frente consistia exclusivamente em levar a tripulação da Burma para o espaço, sã e salva. Apesar disso, porém, Deringhouse não chegou a dar a ordem de decolar. Três robôs terranos corriam em direção à nave. Cada um deles segurava nos braços metálicos um arcônida num traje espacial. — Não decole, Deringhouse! Deringhouse lançou um olhar de perplexidade para Thora, que tinha a mão pousada em seu braço. A pressão de seus dedos era bastante intensa. Sua voz fora autoritária, mas não tivera a intenção de dar-lhe uma ordem; apenas pretendia chamar sua atenção para os homens-máquina que se aproximavam vertiginosamente. Naquele instante, Deringhouse duvidou seriamente da integridade de suas faculdades mentais. A mulher a seu lado estaria mesmo doente? Mais do que isso, padeceria de uma doença da classe das leucemias e do carcinoma tipo F Árcon? Mas não teve tempo para prosseguir nestas reflexões.

Os robôs e suas presas mergulharam na sombra da Burma. Naquele instante, Mutral parecia explodir! Um vulcão, que lançou ao espaço repuxos de energia, irrompeu em meio ao gelo e à rocha, arrancou gritos da terra e fez a Burma balançar, até que os campos antigravitacionais absorvessem os solavancos do solo. Numa altura de vários quilômetros, o céu noturno ficou coberto de chamas convulsas. As labaredas feitas de pura energia subiam constantemente, lançavam ramos laterais que muitas vezes se aproximavam perigosamente da nave terrana, privada de seus campos defensivos, para esfacelarse nas explosões mais fortes que se seguiam. A gigantesca usina energética subterrânea, que devia fornecer a energia para milhares de canhões, fora pelos ares. O forte planetário de Mutral não poderia ter sofrido um golpe mais duro. Mas a inutilização da gigantesca usina de força fatalmente haveria de ocasionar a intervenção do computador-regente. O vigésimo sétimo planeta do sistema de Árcon, que era o último, formava um mundo armado até os dentes e, tal qual todo o enorme sistema defensivo do Império, consagrado numa experiência de vários milênios, mantinha contato ininterrupto com Árcon III. Era impossível que o gigantesco cérebro deixasse de registrar a falha dessa estação energética. E os homens do Império Solar conheciam perfeitamente seu modo de agir. — Decolagem de emergência! — gritou Deringhouse. Seu apelo superou o rugido das rochas que voavam para todos os lados. A comporta número dois transmitiu uma informação, mas esta submergiu em meio à barulheira infernal. O imediato da Burma teve de ceder lugar ao general. Hendrik Olavson manipulou os controles com uma rapidez tremenda. Os projetores de campos defensivos emitiram um chiado curto e penetrante, superando todos os outros ruídos. Depois disso, os potentes campos energéticos voltaram a envolver o cruzador, que disparava espaço a fora com o desempenho máximo dos mecanismos propulsores. — Localização pelo rastreador, general. Oito unidades vindas do amarelo. Era a resposta do computador-regente à destruição de uma das numerosas e potentes usinas energéticas de Mutral. O gigantesco cérebro positrônico pusera em ação oito naves de guerra tripuladas por robôs. — Aproximação do verde e do amarelo. Quatorze unidades. Agora a Burma passou a dar prova de sua tremenda capacidade de aceleração. E isto provava que todo o equipamento da nave estava subordinado a essa finalidade primordial. O computador preparava os dados para o salto. Um minuto já se passara desde a decolagem. A Burma desenvolvia quase um terço da velocidade da luz. Mutral caíra no espaço que nem uma pedra, mas agora o planeta voltava a golpear. Um raio térmico de diâmetro inacreditável passou a 134


123°45’ de bordo, a um quilômetro da nave. Os homens da sala de comando nem tiveram tempo para respirar. A sala de rádio avisou: — Chamado do cérebro. Exige nosso regresso para Mutral. — Quero que o cérebro vá para o inferno — disse uma voz enraivecida e enérgica de mulher. Os olhos de Thora Rhodan chamejavam, e estavam fitos na escala que registrava a aceleração da veloz Burma. — Vire para phi, Olavson — gritou Deringhouse em tom nervoso. Sabia perfeitamente que, se conseguissem escapar desse inferno, teriam de agradecer exclusivamente à sensibilidade genial de Olavson. Se... Os neutralizadores de pressão chiaram. Uma luz de advertência vermelha acendeu- se junto ao grande painel de controle. Três sereias de alarma soaram. Olavson bateu com a mão esquerda contra a chave do conjunto principal. Na Burma, energias infernais começaram a rugir. A escala da aceleração subia vertiginosamente. Com toda essa velocidade, o cruzador ligeiro descreveu uma curva inacreditável. Subitamente, uma parede incandescente de energia aproximou-se mais depressa do que o olho humano poderia acompanhá-la. Quatro naves da classe Império haviam disparado suas salvas de costado contra a pequena Burma... Apenas, deixaram de considerar a repentina mudança de rota do cruzador terrano! Os últimos feixes energéticos rasparam o campo defensivo como se fossem um hálito infernal. Mesmo esse ligeiro contato foi suficiente para levar o desempenho dos respectivos geradores acima da marca dos cem por cento. A sala de comando transformou-se num inferno de luzes vermelhas e de sereias de alarma. “Tomara que a Burma não exploda, e que a protuberância equatorial da nave não se desprenda...”, pensou Olavson. Mutral voltou a disparar... Teriam sido atingidos? O corpo da nave retiniu como um sino, mas não se desfez numa reação nuclear. — Localização no azul... A potência dos campos energéticos voltara a reduzir-se para cem por cento, mas a dos propulsores chegava a 107. Deringhouse estava coberto de suor. Seus olhos ardiam. O olhar ligeiro que lançou para Olavson, que mantinha uma estranha calma no assento de copiloto, não conseguiu tranqüilizá-lo. Nesse instante, o mecanismo de contagem regressiva do computador de bordo iniciou sua atividade. Faltavam trinta segundos para a transição. Ao que parecia, Árcon sabia disso. Mutral, que já desaparecera na semiescuridão, ainda disparava com todas as armas contra a nave fugitiva do planeta Terra. E mais de trinta unidades arcônidas aproximavam-se em voo concêntrico, vindas de todos os

lados. As mãos de Hendrik Olavson desfilavam ligeiras sobre o grande painel de comando. O toque de seus dedos faziam executar manobras tresloucadas, que dificilmente outra nave jamais fizera. Sempre havia alguma coisa sobrecarregada no cruzador ligeiro: eram os propulsores, ou o campo antigravitacional, os projetores de campo defensivo, os neutralizadores de pressão. Era mesmo de admirar que a protuberância equatorial ainda não se tivesse desprendido. Faltavam dez segundos para o salto! Nessa altura foram “recepcionados” por um forte espacial. Era um dos cinco mil que formavam um cinturão de segurança em torno do sistema, situado atrás do último planeta, a vinte horas-luz de Árcon. Cinco raios de impulso passaram perto da nave. Ao que parecia, a Burma se precipitava para a destruição. Finalmente chegou o momento da transição. E no instante em que efetuavam o salto para o hiperespaço, a nave foi atingida; atingida em cheio... O impacto se verificou, quando a Burma desmaterializava. Todo o volume energético de um raio desintegrador, disparado por uma das peças do supercouraçado arcônida, realizou uma união natural com a energia empregada no salto da Burma. O efeito destrutivo foi eliminado, mas a energia do salto do cruzador ligeiro foi multiplicada. A tripulação sentiu-se dominada pelo martirizante choque da transição. Apenas Thora parecia não ter sido afetada pelo mesmo. E foi ela quem exclamou em tom apavorado, enquanto os homens da sala de comando ainda lutavam contra o malestar físico: — Estamos correndo para dentro de um sol! De todos os lados, a grande tela de visão global despejava torrentes de luz para o interior da sala de comando da Burma. Mais uma vez, foi Hendrik Olavson quem reagiu imediatamente. Realizou uma transição de emergência, sem dados para o salto e sem formular maiores indagações. Só depois de voltar pela segunda vez ao espaço normal, passou a mão pelos olhos e perguntou: — Será que deveria ter aguardado instruções suas, general? Antes de responder, Deringhouse observou a grande tela de visão global. O sol para o qual corriam há poucos segundos estava reduzido a um minúsculo disco luminoso. — Voar com o senhor é um verdadeiro “martírio”, Olavson — disse Deringhouse, colocando as mãos no ombro do co-piloto, num gesto de reconhecimento. — Como foi que recebemos dados incorretos para o salto e, por pouco, não saímos do hiperespaço para o interior de um sol? No curso dos decênios e durante suas inúmeras missões, os homens de Perry Rhodan tiveram oportunidade de 135


familiarizar-se com os fenômenos mais estranhos. Mas o retorno do hiperespaço, com a simultânea rematerialização no interior de um sol, era um fato inteiramente novo. Formulou-se uma indagação ao computador de bordo. O oficial junto ao rastreador estrutural lançou um olhar desconfiado para seu instrumento. — Não há mais nenhuma localização, general. E olhe que penetramos no hiperespaço sem ligar o neutralizador de vibrações, não é mesmo? O tom em que foram proferidas estas palavras parecia de perplexidade, e Deringhouse lançou um olhar pensativo para o homem que se encontrava junto ao aparelho de localização. Em meio ao silêncio provocado pela curiosidade sobre o que diria o computador, soou a informação vinda da comporta 2. — Nossos robôs trouxeram o comandante-chefe Taarell e dois aras. — O chefe vai ficar feliz! — exclamou Merck. Deringhouse mordeu o lábio. — E como Rhodan vai ficar feliz! — disse. — Temos de voltar logo com um arcônida e dois aras. Preferia levarlhe cem naves novinhas em folha. Caramba! O que vamos fazer com eles? Não podemos levá-los de volta. — Cuidarei deles. A decisão foi de Thora, que logo saiu e fechou a escotilha atrás de si. Os homens da sala de comando seguiram-na com os olhos, sem dizer uma palavra. Alguns deles sacudiram a cabeça, num gesto de perplexidade. Deringhouse resmungou: — Gostaria de saber o que os médicos constataram em dona Thora. Se ela está doente, nós estamos prestes a morrer. Haja alguém que compreenda uma coisa destas. Desisto! O computador da Burma também desistiu. Limitou-se a pedir novos dados. Segundo informou, não conseguia chegar a resultado algum com os dados de que dispunha. Foi então que Deringhouse — um homem que se mantinha jovem graças à ducha celular que lhe fora aplicada no planeta Peregrino, mas que em experiência envelhecera mais de seis decênios — enganou toda a tripulação... Formulou uma tarefa para o computador de bordo. Havia uma distinção acentuada entre seu problema e o anterior. Não desconfiava de que, durante a primeira desmaterialização, quando se adaptara quase completamente à configuração energética do hiperespaço, a Burma sofrerá o impacto direto de um disparo de canhão de um dos supercouraçados arcônidas. O computador de bordo teve grande dificuldade em responder à pergunta, pois não conseguia absorver tão depressa o fato de que, ao desmaterializar-se, a Burma levara ao hiperespaço todo o volume energético do disparo, convertido num acréscimo indesejável de 100% na energia do salto.

— Quem dera que alguém dissesse onde estamos! — exclamou o astronavegador com um gemido. Lançou um olhar desconfiado para Hendrik Olavson. Mas o jovem tenente não se abalava por tão pouco. — O fato é que todos estamos vivos, e não se vê nenhuma nave arcônida. Acho que é isto que vale. Em face disso, o comandante-chefe Taa-rell e os dois médicos galácticos transformaram-se em personagens de segunda ordem. Quase toda a equipe estava reunida na sala de comando, cercando o computador e esperando que este fornecesse o resultado. Finalmente a fita de plástico apareceu na fenda de saída. Deringhouse pegou-a apressadamente. Um pressentimento vago fê-lo acomodar-se na poltrona antes de passar à leitura. Os sinais codificados lhe eram tão familiares como sua letra. Subitamente empalideceu. Teve de realizar um esforço tremendo para compreender o que o computador de bordo acabara de afirmar. Com a voz pesada e deprimida disse: — Senhores, vamos deixar este problema para nossos físicos. Por favor, não me perguntem por que ainda existimos. Merck foi o último a estudar a fita de plástico. — Isto... até parece que... parece que alguém saltou para fora de um quarto e, durante o salto, levou um pontapé, para saltar mais depressa. Gastaram meia hora para determinar a nova posição da nave. Aqueles homens não se sentiam muito orgulhosos com o novo recorde. Num único salto haviam percorrido 15 mil anos-luz. A distância entre a Terra e o sistema de Árcon era de 34 mil anos-luz. E agora encontravam-se a 49 mil anos-luz do Império Solar, e o grupo estelar M-13 ficava entre eles e a Terra. Por ocasião do primeiro salto, a Burma certamente sofrerá num dos planos um desvio de rota de cento e oitenta graus, motivo por que cruzou o hiperespaço em sentido oposto. Sem dúvida as estações de vigilância espacial de Árcon não deixaram de registrar o abalo estrutural provocado pelo cruzador leve do planeta Terra, mas por certo não estabeleceram qualquer ligação entre o fenômeno e a nave Burma. As naves arcônidas tripuladas por robôs poderiam estar procurando o cruzador ligeiro em qualquer lugar, menos num ponto situado 15 mil anos-luz atrás de seu sistema. — Podemos preparar a próxima transição com toda calma — ordenou Deringhouse. — Mas, desta vez, ligaremos o neutralizador de vibrações. Quero chegar à Terra sem incidentes, e de lá pretendo ir a Vênus. Preciso conversar com o Dr. Villnoess! Ele nem desconfia do que o espera... Suas palavras não prenunciavam nada de bom, embora Deringhouse tivesse motivos de sobra para alegrar-se com o milagre que acabara de acontecer com Thora Rhodan. Mas também se recordou de suas preocupações e angústias, pois não se esqueceu da advertência de Villnoess: 136


“— Quanto mais sadia dona Thora parecer, mais doente estará...” Levantou-se. — Pasgin, assuma. Vou dar uma olhada nos “visitantes”. A caminho do camarote de Thora encontrou-se com os médicos de bordo, cujos rostos exprimiam espanto e confusão. Vinham da direção em que ficava o camarote da arcônida. — Então? — limitou-se Deringhouse a perguntar. O Dr. Brain fez um gesto de perplexidade. — General, nós... bem, o que quero dizer é que ou eu e meus colegas somos uns ignorantes, ou então houve um milagre com dona Thora... — Tolice — interveio o Dr. Elslow em tom exaltado. — Não existe milagre. Mantenho a opinião de que os sinais de leucemia e o chamado carcinoma F Árcon não foram outra coisa senão reações retardatárias contra o soro prolongador da vida, que há bastante tempo John Marshall e a mutante Marten foram buscar em Tolimon, um mundo dos aras. Será que as coisas podem ser diferentes, senhores? Qual foi o resultado do hemograma geral? E da radioscopia? Pois então... O Dr. Elslow defendia energicamente sua opinião, e seus colegas pareciam impressionados. Deringhouse, que era leigo em medicina, preferiu não participar da discussão. — Senhores, gostaria de saber uma coisa: dona Thora está doente ou não? Como militar não estou interessado no por que nem no como. — General, de acordo com os resultados de nosso último exame realizado com dona Thora, aliás acabamos de estar com ela, não só está bem de saúde, mas vai rejuvenescendo. Realizamos testes do tecido celular com os aparelhos de análise dos aras. Não compreendo! Só vi esse tipo de reação nos tecidos celulares de moças jovens, de menos de vinte anos. O Dr. Brain custou um pouco a compreender por que Deringhouse lhe bateu no ombro e, assobiando alegremente, caminhou em direção ao camarote de Thora. — General — gritou o Dr. Elslow. — O senhor quer falar com dona Thora? Ela já voltou ao convés H, a fim de prosseguir no interrogatório dos dois aras e do arcônida Taa-rell. Deringhouse fez meia-volta, deixou que o elevador antigravitacional o levasse ao convés H e dirigiu-se ao recinto destinado à guarda dos prisioneiros. Ficou contrariado ao perceber que o robô de vigilância se encontrava à frente da porta da cela, o que contrariava todas as regras de segurança. O homem-mecânico deixou livre a passagem sem que Deringhouse o pedisse. Deringhouse abriu a porta e ouviu um grito estridente: — Sua traidora! No mesmo instante, viu o raio de uma arma de impulsos! Tirou, num gesto instintivo, sua arma de radiações e

disparou contra o homem de pernas compridas que se encontrava de costas para ele. O grito de Thora fê-lo passar de um salto ao lado do ara que caía ao solo e esbarrar na mutante Ishy Matsu. Os dois viram que Thora Rhodan caía ao chão, mortalmente atingida... — Meu Deus! Os médicos! Rápido! — gritou Deringhouse em tom de pânico. Acontece que na cela não havia nenhum botão de alarma. Ajoelhou-se ao lado de Thora, enquanto Ishy Matsu saía correndo. Levantou cautelosamente a cabeça da esposa de Rhodan. Como seu rosto voltara a ser jovem! Mas agora estava terrivelmente pálido. Uma palidez apavorante. Abriu os olhos. Seus olhares encontraram-se. Thora procurou sorrir. Sorriu. — Perry — disse num cochicho. — Já irei para junto de você, Perry. Aperte-me nos seus braços, Perry... Deringhouse pensou que devia gritar “não”, mas sua boca permaneceu muda. Thora mantinha a cabeça pousada em seu colo, e a luz de seus olhos empalidecia cada vez mais. — Perry... — disse num sopro. — Onde estão os médicos? — perguntou Deringhouse em tom de desespero. — Perry, você é um grande homem! Como sua terra é linda! Thomas... Perry! Perry! O Dr. Brain entrou correndo, seguido de perto pelo Dr. Elslow. Viram o movimento mole com que Thora virou a cabeça para a parede e viram a ferida mortal. Só depois viram o assassino de Thora, um médico galático gravemente ferido. Não puderam fazer mais nada por Thora Rhodan. Mas os médicos do planeta Terra agiram em conformidade com seu juramento e fizeram tudo para salvar a vida do criminoso. Dominado pela dor e pelo desespero, o General Conrad Deringhouse ajoelhou ao lado da morta, que ele tanto venerara. Não compreendia. Não compreendia como aquela arma fora parar nas mãos do ara; não compreendia por que, só há poucos minutos, os médicos de bordo lhe haviam dito que Thora passava por um processo de rejuvenescimento... Muito perturbado, olhou para o rosto pálido, em cujos lábios se via um sorriso de saudade. “Ela chamara por ele... por Rhodan...”, foi o que conseguiu pensar. Deringhouse engoliu em seco. Sentiu-se incontrolavelmente desesperado.

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8 Voaram para Fera Cinzenta. Dali dirigiram-se à Terra, inclusive Ishy Matsu, a mutante débil e graciosa, que se vivia acusando ininterruptamente. Acreditava ser a assassina de Thora, pois foi com sua arma que o ara matou a esposa de Perry Rhodan. O médico galáctico lhe tirara a pistola do cinto enquanto passava por ele e, antes que suas faculdades telepáticas lhe permitissem detectar o pensamento assassino, o raio mortífero atingiu Thora. Perry Rhodan encarregou-se do velório. Ficou a sós com a morta. Tivera força suficiente para consolar Ishy Matsu. Dissera que tudo não passara de uma trágica coincidência. Mas não conseguiu consolar a si mesmo. Ficou sentado ao lado do corpo embalsamado e fitou seu rosto jovem, que, naquele momento, era de uma beleza irreal. Ficou assim durante horas. Durante dias! E durante esses dias, um mausoléu surgiu no ponto da lua terrana em que Thora de Zoltral, a comandante de uma nave exploradora arcônida, tivera de realizar um pouso de emergência. Não se tratava de um monumento suntuoso. Seu efeito provinha da simplicidade e da singeleza das linhas. Era a expressão, concretizada em pedra, aço e plástico, de quem fora Thora Rhodan! Thora Rhodan, a boa alma do Império Solar! Será que Perry Rhodan já deixara de pensar na área de superposição, nos perigos que ameaçavam a Galáxia? Será que o golpe do destino o derrubara — a ele, o administrador de um império em expansão? Bell, seu melhor amigo, não conseguiu libertá-lo da dor. Crest, que com Thora fora o único sobrevivente da expedição arcônida, já não sabia o que fazer da vida. Depois que a Burma pousou em Fera Cinzenta, alguém dissera que, ao ser assassinada, Thora fora uma mulher jovem e sadia. Rhodan nunca deveria saber disso. Mas Rhodan descobriu; e descobriu toda a verdade. O boato tinha um fundo de verdade, e aquilo que antes fora apenas um boato tornava ainda mais trágica a morte de Thora.

A Drusus levou o cadáver de Thora à Lua. Pai e filho encontraram-se junto ao túmulo da mãe e esposa. Perry Rhodan estendeu a mão ao filho, e os olhos do homem mais poderoso do Império pediram perdão a Thomas Cardif, um tenente da frota espacial com vinte e quatro anos de idade. Thomas Cardif fez como se não visse o olhar, nem a mão que lhe era estendida. Ao lado de um homem dilacerado pela dor encontravase um jovem bastardo, frio, orgulhoso e presunçoso. Era dominado pelo sangue da mãe. Ela, que crescera para além de si mesma, transformando-se na boa alma do Império Solar, não mais via a hora de amargura do marido. Muito lentamente, Perry Rhodan foi retirando a mão. Mais uma vez, viu o jovem que se encontrava a seu lado, e que era seu filho de carne e osso, da cabeça aos pés. Depois voltou a enxergar através do material transparente o rosto rígido e amoroso de Thora. Não viu que Reginald Bell, um bom homem, mas muito impulsivo, apertou o pulso de Thomas Cardif e o obrigou por meio da pressão inexorável de seus dedos a colocar-se atrás do pai, cuja mão se recusara a apertar. Thomas Cardif veio para perto de Crest, o arcônida. E então teve de ouvir duas palavras que Crest pronunciou como se fossem uma maldição: — Seu arcônida! Ninguém desconfiava de que Perry Rhodan também pensava em Árcon. Pensava no grande computador, naquele monstro positrônico que cobria uma área superior a 10 mil quilômetros quadrados, e que, com sua fria lógica, governava um gigantesco império cósmico. Meio inconsciente, ainda sob os efeitos do tremendo abalo, Rhodan sentiu cristalizar-se em sua mente um pensamento de ódio, cujo alcance ainda não percebia. Mas logo tudo se tornou confuso e irreconhecível; só restava a certeza de estar só. Naquele instante olhou para o lado. E viu, em vez do filho, o amigo Reginald Bell! E bilhões de seres humanos que fitavam as telas viram que o rosto enrijecido de Perry Rhodan se descontraiu, parecendo suspirar aliviado. Bilhões de seres humanos perceberam, na hora mais amarga de Perry Rhodan, que o administrador do Império Solar era um homem como qualquer outro...

Thora, que já fora inimiga implacável dos terranos, para depois transformar-se na boa alma do Império Solar... morreu! E sua morte representa o início de uma série de rudes golpes para o administrador do Império Solar! Em O Inferno Atômico, título do próximo volume da série, sérios problemas têm de ser resolvidos.

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Nº 79 De

Kurt Mahr Tradução

Richard Paul Neto Digitalização

Arlindo San

Nova revisão e formato

W.Q. Moraes

500 mil homens aguardam — Será que o chefe está morto?

Poucos dias após a morte de sua esposa, Perry Rhodan, administrador do Império Solar, apresenta um plano por meio do qual pretende desferir um ataque relâmpago, a fim de pôr fora de ação o computador positrônico. São 500 mil homens decididos a destruir o principal inimigo da Terra! Porém a ordem de ataque foi suspensa, pois Fera Cinzenta, onde se encontram quatro pessoas proeminentes do Império Solar, transformou-se numa bola de fogo...

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Se o neutralizador funcionasse perfeitamente, Paul Brackett não teria visto os ângulos verdes. Acontece que ele 1 os vira; logo, o neutralizador não funcionara como devia. A energia remanescente da transição fora descarregada para o espaço, e, em algum ponto, situado no máximo a cinco No momento em que a transição terminou, Paul Brackett viu a fileira de linhas angulosas verdes que corria anos-luz, um arcônida, especialista em localização, estaria rapidamente sobre a tela do oscilógrafo. Paul Brackett ainda empenhado em interpretar os estranhos sinais. Face à sua sentia a dor provocada pelo hipersalto, mas compreendeu estrutura situada na quinta dimensão, o campo de imediatamente o que significavam essas linhas. ondulações gerado pela descarga energética se espalharia O pânico tomou conta dele! com uma velocidade infinita. A Rigel, um cruzador pesado da frota terrana, estava Não havia a menor dúvida de que os arcônidas não regressando à base espacial de Fera Cinzenta. Estivera nas levariam mais que alguns minutos para descobrir o proximidades da área de superposição, onde se verificava o significado desses sinais. E, dali a pouco mais de dois encontro entre o plano temporal dos druufs e o do Universo minutos, saberiam de que ponto do espaço estes partiram. einsteiniano, e descarregara material destinado à base E esse ponto ficava a apenas vinte unidades secreta de Hades, levando-o ao destino por meio do astronômicas de Mirta, o astro central do sistema de Fera transmissor fictício. A operação consumira algumas horas, Cinzenta. Assim que descobrissem o ponto de origem das durante as quais a metade dos oitocentos ondulações, os arcônidas saberiam onde tripulantes ficava de olho no espaço, a fim Personagens principais deste deveriam prosseguir com suas buscas. episódio: de verificar a eventual aproximação das Paul Brackett deu o alarma. O uivo das naves da frota arcônida de bloqueio. Tal sereias encheu todos os recantos da Major Paul Brackett — A grupamento mantinha vigilância contínua catástrofe é causada por um enorme nave. As palestras foram sobre a área de superposição e rechaçava pequeno defeito técnico nas interrompidas e os homens moveram-se os druufs toda vez que estes tentavam instalações amortecedoras de rapidamente, a fim de dirigir-se aos seus transferir-se para o Universo einsteiniano. sua nave. postos. Os arcônidas não conheciam a base terrana Paul Brackett pegou o microfone do General Conrad Deringhouse de Fera Cinzenta, e, por enquanto, uma das sistema de intercomunicação e explicou o — 500 mil homens aguardam coisas que mais preocupava os homens da que havia acontecido. Enquanto isso, o sua ordem de ataque. Terra era que ela continuasse em segredo. oficial de rádio transmitiu um relato Em virtude disso, as naves terranas que Perry Rhodan, Reginald Bell, resumido para Fera Cinzenta. trafegassem entre Fera Cinzenta e a área Atlan e Fellmer Lloyd — Os — Podemos esperar qualquer coisa — de superposição, situada a apenas alguns homens desaparecidos em Fera concluiu Brackett. — Inclusive a presença Cinzenta. anos-luz de distância, e que constituía a de uma frota arcônida composta de dez mil área de operações da frota de bloqueio unidades que venha para destruir a base de Mike Judson — Comandante arcônida, viam-se obrigadas a tomar todas Fera Cinzenta. da base de Fera Cinzenta. as precauções possíveis, para que as naves de Árcon não lhes seguissem a pista e Lathon — Um arcônida que *** fossem ter com a base espacial. sabe demais. A decolagem em massa estava em Durante as últimas semanas, haviam pleno andamento. Uma após outra, as conseguido esse intento, o que naves desprendiam-se do solo e subiam ao céu azul, com os representava uma obra-prima da técnica de camuflagem, propulsores cantantes. Os gigantescos couraçados também fato que ninguém se atreveria a contestar. No entanto, Paul subiam com igual leveza e elegância. Brackett tinha certeza de que, naquele momento, estava A frota terrana pôs-se a caminho. Viajaria de Fera começando a catástrofe. Cinzenta para Árcon, a fim de oferecer ao computadorAs linhas angulosas deslizaram pela tela, da esquerda regente uma demonstração concreta do que os terranos para a direita, e logo desapareceram. Tudo não demorara pensavam de um falso aliado. mais que dois segundos ou dois segundos e meio. Mas os Foi o grande dia de Perry Rhodan: 23 de outubro de espiões de rádio do regente de Árcon estavam em toda 2.043. O poder da Terra concentrava-se para o grande golpe parte, e a atenção que dispensavam a qualquer sinal contra Árcon. A Terra estava prestes a oferecer às potências permitiria que não lhes escapasse um reflexo ainda mais galácticas uma demonstração do papel que, dali em diante, breve. pretendia desempenhar. O oscilógrafo da nave de Paul Brackett estava acoplado As unidades da frota, comandadas pelo General ao neutralizador de vibrações. Esse aparelho evitava que a Deringhouse, reuniram-se num ponto afastado de todas as energia desprendida pelo mecanismo hiperpropulsor, no rotas de navegação espacial, isto é, a quinhentos anos-luz início e no fim de cada transição, se espalhasse pelo espaço, de Fera Cinzenta. Nesse planeta só ficaram vinte e três pois era absorvida pela própria nave. naves e o pessoal estritamente necessário ao funcionamento 140


da base. Isto se devia ao fato de que algumas unidades ainda se dirigiam à área de superposição — local onde se fazia o aprovisionamento da base de Hades, situada no plano temporal dos druufs — ou de lá regressavam. A Rigel, por exemplo, ainda estava fora. Todavia, em Fera Cinzenta permaneciam quatro pessoas que teriam de liquidar alguns assuntos importantes. Só se uniriam à frota, pouco antes do ataque a Árcon. Estes quatro indivíduos eram Perry Rhodan, Atlan, o arcônida, Reginald Bell e o mutante Fellmer Lloyd. Encontravam-se num abrigo subterrâneo situado fora da área da base propriamente dita. Dali extraíam do setor de processamento as últimas normas relativas à ação que seria desencadeada contra o computador-regente. O trabalho foi iniciado pouco depois das onze horas, tempo de Terrânia. Às onze horas e trinta e quatro minutos, um cruzador pesado chamado Rigel, comandado pelo Major Paul Brackett, concluiu seus trabalhos na área de superposição e, adotando todas as precauções, iniciou a viagem de volta para Fera Cinzenta. As tarefas foram distribuídas entre os homens, que trabalharam com a concentração peculiar aos indivíduos que querem fazer um serviço rápido e esmerado. Quem forneceu o primeiro relato intermediário foi Reginald Bell. Este tinha à sua frente uma folha saída da máquina, repleta de cifras. Leu-a atentamente e depois de algum tempo disse: — O momento decisivo deve ser adiado pelo menos por quatro horas. Não olhou para trás; continuou a fitar atentamente a folha. Apesar disso, tinha certeza de que todos interromperam seu trabalho e olhavam para ele. — São muitas ramificações, não é? — perguntou Rhodan. — Exatamente — respondeu Bell. — A máquina apurou duas mil quatrocentas e trinta e quatro alternativas. E cada alternativa encerra, em média, cinco subalternativas, parte das quais poderá ser recombinada no estágio final. Levantou os olhos. — Estas informações ainda deverão ser programadas e introduzidas nos autômatos das naves — prosseguiu. — É verdade que a programação pode ser concluída em trinta minutos, mas sua distribuição levará mais tempo. Perry Rhodan virou-se na poltrona, ficando de costas para a mesa de programação. Atlan, o arcônida, estava sentado à sua direita. Tinha o cotovelo esquerdo apoiado na mesa. Lançou um olhar pensativo para Reginald Bell. — Sugiro cancelarmos todas as alternativas e subalternativas que apresentem um nível de probabilidade inferior a zero vírgula quatro — disse. Perry Rhodan sorriu. — Vejo que o almirante dispensa a prudência costumeira e se declara disposto a concordar com procedimentos simplificados — disse em tom irônico. — Você sabe perfeitamente que o momento X não pode

ser adiado indefinida mente — respondeu Atlan. — As naves do regente estão em toda parte. Assim que descobrir a concentração de unidades terranas, saberá o que está em jogo, e, depois disso, será tarde. Rhodan fez um gesto afirmativo. — Eu sei. Acontece que, se eliminarmos todas as alternativas, de probabilidade inferior a zero vírgula quatro, estaremos assumindo um risco muito grande. A probabilidade de zero vírgula quatro não é pequena, se considerarmos que a cifra um representa a certeza absoluta. Atlan manteve-se calado. — Vamos falar em termos mais concretos — sugeriu Bell. — O computador descobriu um total aproximado de cinco mil alternativas básicas, ou seja, cinco mil maneiras diferentes pelas quais o regente poderá reagir ao nosso ataque. Essas cinco mil alternativas, em conjunto, têm uma probabilidade de zero vírgula noventa e oito. A fração de zero vírgula zero dois, que falta para atingir a unidade, distribui-se por outras dez mil alternativas básicas, que a máquina deixou de indicar uma por uma, porque seu grau de probabilidade é muito reduzido. Abandonamos todas as alternativas básicas, cuja probabilidade seja inferior a zero vírgula zero seis. Com isso, o número de alternativas básicas baixou para dezessete. “Consideremos uma das alternativas básicas. A reação do regente poderia consistir na retirada da frota de bloqueio. Nesse caso teríamos, dentro de alguns minutos, mais de dez mil naves pelas costas. O grau de probabilidade desta alternativa básica é de zero vírgula treze. Logo, inclui-se entre aquelas que devem ser consideradas”. “Passemos às subalternativas. Segundo uma delas, o regente, em vez de nos atacar com a frota de bloqueio retirada da frente de combate, manda que ela proteja Árcon III, ordenando que forme um anel de naves em torno deste mundo. A probabilidade desta subalternativa é de zero vírgula quarenta e quatro, ficando acima do limite sugerido por Atlan. E é igualmente provável que o regente dê ordem para que essa frota nos ataque”. “Resta, portanto, uma probabilidade de zero vírgula doze por outra ou outras subalternativas. Entre elas se conta, por exemplo, a de que a frota de bloqueio pouse em Árcon II, leve certos materiais importantes, entre esses, talvez, algumas peças do próprio regente, e desapareça com os mesmos, fazendo pouco de nós. Se seguíssemos a sugestão de Atlan, deveríamos abandonar esta subalternativa.” Suspirou e passou a mão pelos cabelos curtos. — Sou de opinião que não nos podemos permitir o luxo de proceder assim. — Também tenho opinião idêntica — disse Rhodan em tom sério. — A ideia é boa, mas a proposta é muito radical. Vamos eliminar todas as alternativas cuja probabilidade seja inferior à zero vírgula um. Qual seria o número de alternativas que restaria depois disso? Reginald Bell fez alguns cálculos. — Trinta e cinco — respondeu. 141


— Isso basta. E procederemos da mesma forma com as subalternativas. Com quantas ficaremos? — Quarenta e uma subalternativas e... — desta vez, os cálculos foram mais demorados — ...zero vírgula 937 de probabilidade de... Perry Rhodan bateu com a mão espalmada na mesa. — Isso basta! — decidiu. — E basta, mesmo que consideremos que o regente fará o possível para escolher uma reação pouco provável. — Está bem — concordou Bell. — Neste caso, só resta confeccionar as matrizes de programação. Vamos fazer uma para cada unidade? — Duas — ordenou Rhodan. Atlan, o arcônida, continuava imerso em profundas meditações. — Não está de acordo, almirante? — perguntou Rhodan, virando o rosto em sua direção. Atlan sacudiu a cabeça. Isso poderia significar um não, ou então, que a formulação da pergunta não fora correta. — É muito arriscado — disse. — Quem dera que eu estivesse em condições de provar isto, Perry. Mas por enquanto não sei onde está o problema — levantou a cabeça. — Na minha opinião deveríamos esperar mais alguns meses. Você tem certeza absoluta de que não foi o ressentimento causado pela morte de Thora que lhe incutiu este plano? Perry Rhodan tinha uma resposta na ponta da língua. Mas resolveu refletir um pouco. Levou algum tempo para responder. — Não tenho certeza absoluta, arcônida — confessou em tom inseguro. — É possível que a causa disto seja a morte de Thora. Mas para que havemos de preocupar-nos com isso? Já refletimos centenas ou mesmo milhares de vezes sobre cada lance do jogo que pretendemos lançar. E nossos planos não foram elaborados com o maior cuidado? O computador positrônico não apurou, com absoluta segurança, que nas circunstâncias atuais a probabilidade de que a missão seja bem sucedida é superior a noventa por cento? Será que, com tudo isso, ainda faz alguma diferença que a verdadeira causa da ação seja analisada? Atlan refletiu. — Acho que faz diferença. Geralmente um plano concebido em estado de excitação tem algum erro. É claro que a existência do erro independe do fato de que nós o conheçamos ou não. — Se houvesse um erro, o computador positrônico o teria descoberto — respondeu Rhodan. O fato de Atlan não concordar inteiramente com seus planos deprimia-o de uma forma estranha. Desde o momento em que começaram a trabalhar lado a lado, praticamente não houvera nenhuma divergência entre eles. Esta era a primeira vez que não concordavam sobre um assunto de grande importância. Numa questão de segundos, Perry Rhodan rememorou os motivos que o haviam levado a acreditar que este seria o

momento mais favorável para lançar o ataque contra Árcon. E ainda desta vez não encontrou qualquer erro. Como os computadores também não houvessem constatado qualquer ponto falho, concluiu que Atlan era um pessimista. Talvez isso tivesse sua origem no fato de que, embora estivesse sendo governado por um gigantesco computador, Árcon era sua pátria. E, quando a pátria está em jogo, os sentimentos sempre desempenham papel relevante. Perry Rhodan olhou para o relógio. Eram onze horas e trinta e quatro minutos. *** As naves não apareciam nas telas de visão global. Mas as telas foscas verde-escuras dos instrumentos de localização as mostravam como pontos de interseção de uma rede uniforme de malha fina. Pensativo, o General Deringhouse lançou um olhar para o quadro. Estavam todas reunidas: eram vários milhares de naves, prontas para incutir ao computador-regente de Árcon algum respeito por seu “aliado” terrano. Pelos padrões terranos, era uma frota gigantesca. À medida que contemplava o quadro, Deringhouse teve a impressão de ter uma sensação física de força incorporada nestas naves. Sabia até onde chegava o poder das mesmas. Estava perfeitamente ciente de que o potencial energético da frota, manipulado por um indivíduo irresponsável, seria capaz de desagregar e destruir vários sistemas solares... Bem, o sistema de Árcon também era um sistema solar. Não havia dúvida de que era rodeado por um gigantesco anel de fortificações, mas continuava a ser apenas um sistema solar. “A dificuldade consiste em avançar rápida e profundamente”, pensou. “Se conseguíssemos isso, o regente perderia a guerra antes que a mesma tivesse começado.” Desviou os olhos do quadro. “O golpe será bem sucedido”, voltou a refletir Deringhouse. “Quando estivermos sobre Árcon, o computador-regente ainda estará ocupado com o problema dos druufs. Depois disso, as coisas serão diferentes na Galáxia. Teremos liberdade de movimentos. Já não precisaremos realizar acrobacias mentais para manter em segredo a posição galáctica da Terra e das nossas principais bases”. “Já deveríamos tê-lo feito há muito tempo”, continuou a pensar, prosseguindo no seu raciocínio. “Sabemos perfeitamente que, nos últimos dezessete anos, o regente não realizou nenhum progresso técnico. Já o excedemos em qualidade, e faremos tudo para que a quantidade não venha a ser o fator decisivo.” Deringhouse tinha certeza de que os oficiais superiores pensavam da mesma forma. O golpe contra Árcon estava no ar há dois anos. Nos últimos meses tiveram, por assim dizer, que prender o ar para não pôr tudo por água abaixo. Deringhouse voltou a examinar a tela. Quinhentos mil 142


homens aguardavam ansiosamente o momento em que pudessem dar provas de seu valor. — Cuide-se, Árcon! — balbuciou. Às onze e trinta e seis, hora de Terrânia, o posto de observação da nave capitania captou um ligeiro impulso, causado pela transição de uma espaçonave desconhecida. Essa transição foi realizada a quinhentos anos-luz de distância. Mesmo depois de cientificado, o General Deringhouse não atribuiu maior importância ao impulso. A quinhentos anos-luz do lugar em que se encontravam, a frota de bloqueio arcônida aguardava outra investida dos druufs. Provavelmente uma de suas unidades realizara uma transição a curta distância, dando origem ao impulso. Não valia a pena quebrar a cabeça sobre isso. *** Paul Brackett recebeu ordens para afastar-se do sistema de Fera Cinzenta o mais rápido possível. O comandante da base tomou essa decisão sem consultar Perry Rhodan. Era evidente que a decisão deste não seria outra. Devia-se impedir que os arcônidas descobrissem Fera Cinzenta. E, para isso, a Rigel não deveria prosseguir diretamente em direção à base, mas afastar-se do sistema. O Major Brackett prontamente iniciou outra transição. Já sabia que seu neutralizador de vibrações entrara em pane, motivo por que os arcônidas seriam capazes de medir também esse novo salto. Esperava que assim pudesse confundi-los, muito embora no fundo essa esperança fosse um tanto suicida. Se os confundisse, faria com que a Rigel fosse perseguida, e só mesmo o deus de pele escamada e cabeça de dragão dos tópsidas seria capaz de dizer o que os arcônidas fariam com uma nave terrana isolada, se conseguissem encontrá-la. A transição afastou a Rigel cerca de trinta anos-luz de Fera Cinzenta, e isso numa direção diversa da Terra e da concentração das naves de guerra comandadas pelo General Deringhouse. Os tripulantes continuaram a guarnecer as posições de artilharia. Paul Brackett anunciava que, se atacada, a Rigel se defenderia, por maior que fosse a superioridade do inimigo. Mas o ataque não se verificou. O que se seguiu foi uma série de impulsos, produzida por centenas de transições realizadas em seqüência rápida num trecho de alguns poucos anos-luz. Não podia haver a menor dúvida sobre o significado desse fato. Paul Brackett sentiu a boca seca. *** O intercomunicador chamou. Perry Rhodan olhou para o relógio. Eram onze e trinta e quatro. O rosto do Tenente Judson dizia mais que um discurso de cem palavras. Os olhos de Judson estavam arregalados

de medo e os pingos de suor brilhavam em sua testa. — Alarma, Sir! — gritou. — Uma frota arcônida está atacando a base. Ainda temos... Perry Rhodan interrompeu-o. Sua reação foi a de uma máquina. Não se via o menor sinal de surpresa, susto ou medo. Numa fração de segundo, avaliou a situação. — Por que aconteceu isso? — perguntou. — Foi a Rigel — respondeu Judson com a voz triste. — O neutralizador falhou; localizaram-na imediatamente. Perry Rhodan não levou mais de um segundo para avaliar todas as chances que lhe restavam. Não eram muitas. — Procure rechaçar os arcônidas! — ordenou. — Mande guarnecer todas as posições de defesa. As naves deverão ficar no solo. A partir deste momento, as decolagens estão suspensas. Ainda existe uma chance pequenina de os arcônidas passarem por Fera Cinzenta e descarregarem sua raiva contra Peep. Quanto tempo ainda nos resta? — Dez minutos, Sir — respondeu Judson em tom apressado. — Se até lá não mudarem de rota, poderão reconhecer a base a olho nu. Rhodan confirmou com um gesto. — O que está fazendo a Rigel? — Seguiu as instruções que lhe foram ministradas, afastando-se do planeta. Achei preferível afastar a nave quanto antes de nosso sistema. Perry Rhodan rememorou rapidamente... A Rigel era comandada pelo Major Brackett. E Brackett não seria capaz de levar uma nave, cujo neutralizador estivesse avariado, para a Terra ou qualquer outro lugar onde houvesse segredos importantes. Quanto a isso, não precisaria preocupar-se. — Está bem — disse Perry Rhodan, encerrando a palestra. — Mantenha-nos informados. Antes que Judson desligasse, virou-se. Atlan, Bell e o mutante Fellmer Lloyd fitaram-no. — As coisas estão ruins — disse Rhodan em tom tranquilo. O arcônida suspirou. — Sabia que haveria um problema. Perry Rhodan esboçou um sorriso amargo. — Não havia nenhum problema que razoavelmente pudesse ser previsto — retrucou. — De qualquer maneira, você tem razão. Mas isso não altera nada. Mantiveram-se calados por algum tempo. Finalmente Rhodan levantou-se e foi a uma das portas que davam para os corredores situados entre a sala de computação e os outros recintos do abrigo subterrâneo. Ao se aproximar da porta, virou-se. — Acabo de me lembrar de uma coisa — sua voz não revelava a menor comoção. — É possível que os arcônidas acreditem que Fera Cinzenta seja a Terra. Isso não acontecerá se ficarem com os olhos bem abertos. Mas acho que estão muito nervosos... Nesse caso será altamente provável que lancem algumas 143


bombas muito perigosas, como por exemplo, bombas de Árcon, que desencadeiam incêndios atômicos inextinguíveis. Eu lhes recomendaria que colocassem os trajes protetores. Saiu. Aos poucos, seus passos firmes foram se afastando pelo corredor. Já durante a palestra com Judson, havia avaliado corretamente a situação. Agora podia concentrar sua atenção inteiramente sobre aquilo que tinha pela frente, era claro que os arcônidas encontrariam Fera Cinzenta. Seria inútil convocar Deringhouse e sua frota. Não havia dúvida de que a mesma seria capaz de rechaçar os atacantes. Porém, nesse caso, sofreria pesadas perdas. E a Terra não podia dispensar uma única das suas naves. E, o que era o principal, havia uma coisa que Deringhouse não conseguiria fazer: impedir que os arcônidas lançassem bombas. Chegaria tarde. Portanto, era preferível que continuasse onde se encontrava. Afinal, o que estava em jogo aqui era apenas o destino de uma base. E essa base não era muito importante. Além das vinte e três naves ali estacionadas — tratava-se de veículos pequenos, destinados apenas ao transporte — não havia muita coisa a perder em Fera Cinzenta. O grosso da frota encontrava-se, sem que os arcônidas o soubessem, a quinhentos anos-luz de distância. Não havia nenhum perigo para a Terra e a Humanidade... A não ser que, provavelmente, dali a cinco horas, Perry Rhodan estaria morto... *** A calma inabalável de Perry Rhodan transmitiu-se ao Tenente Judson. Com alguns movimentos rápidos, ligou o sistema de intercomunicação geral. Todos os homens que se encontrassem em algum recinto fechado poderiam ouvi-lo. As ordens eram rápidas e precisas. — Todos se dirigirão aos seus postos. Até segunda ordem fica proibido sair do planeta. Temos pela frente algumas horas difíceis, mas conseguiremos atravessá-las. Quando proferiu estas palavras eram onze horas e cinquenta e um. Às onze horas e cinquenta e três minutos, Judson e o posto de observação espacial tiveram certeza absoluta de que Fera Cinzenta constituía o objetivo dos arcônidas. Sua rota dirigia-se diretamente ao planeta. Mike Judson ordenou aos postos de foguetes que disparassem, assim que as naves arcônidas se aproximassem a menos de dois mil quilômetros da superfície do planeta. Isso aconteceu às onze horas e cinquenta e oito minutos. Às doze horas em ponto os primeiros foguetes disparados pelo sistema defensivo da base atingiram o alvo. Alguns sóis ofuscantes surgiram nos céus de Fera Cinzenta, mergulharam a paisagem numa luz colorida e voltaram a desaparecer. Mike Judson pegou o microfone do intercomunicador, apertou alguns botões e esperou que o rosto de Reginald Bell surgisse na tela. — O ataque começou, Sir — anunciou laconicamente.

— Na primeira investida destruímos dez naves arcônidas. Reginald Bell sorriu. — Bendito seja seu otimismo, Judson - respondeu. — Pelo que sei, são ao todo mil naves. Era um fato que Judson não podia contestar. Os postos de observação espacial já haviam apurado o número exato de naves. A frota atacante era formada por mil e duzentas unidades pesadas e ultrapesadas. — Faremos o que estiver ao nosso alcance, Sir — asseverou Judson. — Não tenho a menor dúvida — respondeu Reginald Bell. — Estamos subindo para dar apoio ao senhor. Mike Judson parecia surpreso. Esteve a ponto de responder alguma coisa, mas nesse instante sentiu-se ofuscado por um relâmpago que emitia uma luminosidade insuportável! O rosto de Reginald Bell desapareceu em meio a uma confusão de anéis coloridos chamejantes... Subitamente, a lâmina de plástico transparente, pela qual Judson olhara para a ampla superfície do espaçoporto, partiu-se. Sentiu-se agarrado por um punho de gigante que o arrancou da cadeira e o atirou contra a parede. Judson soltou um grito de dor. Por alguns segundos ficou deitado no chão, quase inconsciente. Mas para sua surpresa, conseguiu levantar sem qualquer dificuldade. Era bem verdade que a sala na qual se encontrara ainda há pouco não existia mais. Uma cadeira quebrada estava a seu lado. A pressão desencadeada pela explosão atirara as paredes e o teto a algumas centenas de metros de distância, reduzindo tudo a um montão confuso de destroços. No centro do campo de pouso, o raio incandescente de uma pequena bomba nuclear subia. Judson sentiu o calor irradiado pela mesma. Ainda bem que no momento crítico, ficara protegido pela lâmina de plástico transparente. Se não fosse ela, a essa hora estaria reduzido a cinzas. A lâmina já não existia! A próxima bomba o encontraria ao ar livre, sem a menor proteção, e completaria o que a primeira deixara de fazer. Olhou em torno. Mais adiante havia algumas construções baixas que escaparam aos efeitos da explosão. Estavam ligeiramente inclinadas, mas continuavam de pé. Correu para lá. Por estranho que pudesse parecer, não estava com medo. Apenas desejava um intercomunicador que lhe permitisse manter contato com os subordinados. Enquanto corria, um foguete defensivo subiu à sua direita. Mike Judson parou e seus olhos acompanharam o artefato com uma expressão de enlevo. Subitamente, viu acender-se, muito acima do azul, a bola ofuscante da explosão. Não ouvira nada, nem o disparo, nem o trovejar do mecanismo propulsor. Levantou a mão direita e estalou os dedos perto do ouvido. Nada! Tudo continuava em silêncio. Perdera a audição... Não sabia se a perda era temporária ou definitiva. De qualquer maneira, era a pior coisa que lhe poderia ter acontecido na hora do perigo. Como poderia dar ordens e receber informações? 144


Desorientado e inseguro, continuou a caminhar. A bomba nuclear levantara toneladas de pó, que se espalhavam numa nuvem, e esta obscurecia o sol. Começou a escurecer. Os raios fulgurantes dos mecanismos propulsores cortavam a penumbra como os relâmpagos de uma gigantesca trovoada. Continuando aos tropeços, Judson chegou às primeiras construções. A porta da frente estava “empenada”, mas Judson, animado pela cólera e pelo desespero, conseguiu abri-la com um pontapé. No interior da construção estava escuro. Ao que parecia, a bomba inutilizara parcialmente o sistema de suprimento de energia da base. Judson tateou à procura do intercomunicador e ligou-o. O sistema de intercomunicação dispunha de suprimento energético independente. A tela e as luzes de controle acenderam-se imediatamente. Mike Judson refletiu sobre o que deveria fazer. O recinto estava mergulhado num silêncio perigoso e deprimente. Tinha a impressão de estar só no planeta. A luminosidade dos foguetes, a poeira que era tangida pelo vento, os homens que corriam abaixados em meio à escuridão, tudo isso se passava num outro universo com o qual Mike Judson não tinha nada em comum. Judson fez um esforço para controlar-se. Devia fazer alguma coisa, pois os homens aguardavam instruções. Procurou avaliar quantas dentre as vinte e três naves ainda estavam intactas. As outras oito haviam sido esfaceladas, derrubadas, esmagadas ou fundidas pela bomba nuclear. Judson resolveu entrar em contato com o posto de observação espacial. A tela mostrou um rosto vermelho, banhado em suor. — Preste atenção! — gritou Judson. — Não posso ouvilo; estou surdo. Responda às minhas perguntas dando um sinal ou escrevendo alguma coisa num pedaço de papel. Entendido? O homem acenou com a cabeça e disse alguma coisa que ele não ouviu. — Onde está o inimigo? — perguntou Judson. O homem do posto de observação olhou para o lado. Por alguns segundos fitou um lugar à sua frente. Depois levantou um pedaço de papel e Mike Judson leu as palavras escritas às pressas: — Está espalhado por cima do planeta. A altitude média é de mil e quinhentos quilômetros. “É muito alto para os desintegradores”, pensou Judson bastante desanimado. “E principalmente, está muito espalhado para um bombardeio maciço.” — Quais são nossas perdas? Seguiu-se outra ligeira pausa, depois da qual foi apresentado outro papel. — Oito naves, oitenta e quatro mortos ou feridos. Há perigo de novas perdas, em virtude da radiatividade. “Os trajes protetores” pensou Judson, que se sentia perplexo. “Por que não colocaram os trajes protetores?” Lembrou-se de que ele mesmo ainda não o envergara. Nestes poucos minutos havia acontecido tanto atropelo que

ninguém tivera tempo de pensar em outra coisa senão naqueles terríveis acontecimentos. — Encarregue-se disso por mim — ordenou ao operador de rádio. — Todos deverão colocar imediatamente os trajes protetores. Isso é mais importante que qualquer outra coisa. Avise-me assim que haja algo de novo. Parece que, no momento, os arcônidas se mantêm calmos, não é? O homem do posto de observação confirmou com um sinal. Judson interrompeu a ligação. Sabia que não conseguiriam manter a base. Suas instalações defensivas eram muito fracas, isso porque, na época de sua construção, ninguém contara com a possibilidade de que os arcônidas pudessem passar a operar com uma gigantesca frota a poucos anos-luz de Fera Cinzenta. A proteção mais eficaz da base residia no fato de que os arcônidas não a conheciam. Se eles a tivessem descoberto há alguns dias atrás, a frota ainda estaria por perto para rechaçar qualquer ataque. Mas, naquele momento, só dispunham de algumas pequenas naves de transporte, desarmadas, que se encontravam indefesas diante do próximo ataque. Eram vinte e três, mas oito delas já estavam reduzidas a sucata. Do lado oeste do campo de pouso, mais um foguete subiu ao céu. Estava equipado com um dispositivo de auto comando. Dentro de poucos instantes, atingiria o alvo e o transformaria numa nuvem reluzente de gases. Os arcônidas sabiam disso. Por que não desferiam logo seu golpe? Mike Judson olhou pela janela inclinada, fitando a escuridão. Que faixa de luz amarela era esta que se estendia ao noroeste? Seria um incêndio? Tolice! Num campo de pouso de cromo plastificado não havia nada que pudesse pegar fogo. Mike Judson passou a mão pelos olhos. Mas a faixa de luz amarela continuava lá. Tornou-se mais forte e larga e parecia aproximar-se. Judson voltou a chamar o posto de observação. Antes que a tela se iluminasse, viu pelo canto dos olhos que os homens do posto de foguetes mais próximo se levantaram e correram desabaladamente pelo campo de pouso, em direção ao edifício do depósito. Dentro de quinze minutos, no máximo, todos estariam usando os trajes protetores. De tão nervoso, o rosto do homem do posto de observação tornara-se ainda mais vermelho e o suor lhe escorria pela testa. — Que linha de fogo é esta que se vê no noroeste? — perguntou Judson. O homem do posto de observação já se esquecera do pedido de Judson; deu uma resposta verbal. Judson viu que seus lábios se moviam; interrompeu-o com um gesto contrariado. — Escreva! Dali a alguns segundos, leu o papel. — Causa desconhecida. Supomos que se trate de um incêndio atômico provocado por bombas de Árcon. 145


Mike Judson soltou um assobio entre os dentes. Numa fração de segundo, elaborou seu plano. — Preste atenção. Desligue seus rastreadores e não se preocupe mais com os mesmos. Temos coisas mais importantes a fazer. Diga aos homens que entrem, quanto antes, nas naves que ainda nos restam e deem o fora de Fera Cinzenta. Por aqui não temos mais nada a ganhar. Entendido? O homem não acenou com a cabeça. Inclinou-se para o lado e mostrou mais um pedaço de papel. Nele, leu: — Qual é o destino? — Nenhum destino — gritou Judson. — Se conseguirem passar pelas linhas das naves arcônidas, deverão dirigir-se a Peep ou qualquer outro planeta do sistema onde possam abrigar-se até que a frota venha buscá-los. Quando percebeu que o observador ainda hesitava, acrescentou: — Vamos logo! Não podemos perder tempo! Apesar disso, o observador escreveu mais um bilhete. Judson leu: — E o senhor? — Não se preocupe comigo! — gritou Judson. — Saberei arranjar-me. Desligo. De qualquer maneira, sentiu-se feliz porque o homem perguntara por ele. “Tudo em ordem”, pensou, tentando ser otimista. “Dentro de alguns minutos, todos já terão abandonado Fera Cinzenta. Agora preciso arranjar um traje protetor para mim.” Levantou-se e saiu. Lá fora rugia uma forte tormenta. O ar estava quente e abafado. Mike Judson sentiu-se mal ao pensar que o ambiente exterior devia conter boa dose de partículas radiativas. Reuniu todas as energias e disparou... Apesar da frente de fogo amarelo que se estendia ao noroeste, a escuridão era tamanha que receava não achar o caminho do depósito. Procurou localizar os outros homens, mas estes deviam estar passando a mais de dez metros dele, ou então já estavam devidamente escondidos. Mike Judson compreendeu por que os arcônidas não faziam mais nada. Haviam lançado suas bombas de Árcon em vários pontos do planeta e esperavam até que o incêndio atômico se espalhasse. Não tinham motivo para preocuparse com os postos de foguetes terranos. Uma das bombas caíra nas proximidades do campo de pouso. Numa questão de minutos o incêndio atingiria as posições defensivas. Ainda acontecia que as naves eram dirigidas por robôs. E o instinto de autoconservação dos mesmos era puramente mecânico, subordinando-se às considerações táticas. A tormenta fez Judson cambalear. Depois de algum tempo, foi atirado contra um obstáculo que parecia uma casamata. A dor fez Judson praguejar, mas sentia-se satisfeito por ter alcançado o objetivo. Uma vez no interior, Mike Judson apoiou fortemente o corpo contra a porta e esforçou-se para fechá-la, apesar da

tormenta que insistia em mantê-la aberta. Depois disso, encostou-se à parede e descansou para respirar profundamente. A surdez não o incomodava. Conhecia perfeitamente o interior do depósito. Levou menos de um minuto para encontrar o armário no qual estavam guardados os pesados trajes. Tirou um deles e abriu os fechos. Em dois minutos conseguiu colocar a pesada armação e fechá-la. Nesses dois minutos ficou olhando pelas amplas janelas e viu cinco manchas luminosas pálidas que se ergueram por cima da parede do fogo e desapareceram em direção ao céu. Eram cinco naves que se punham a caminho, para retirar os homens do inferno atômico de Fera Cinzenta. Enquanto se dirigia à porta, Judson esbarrou na mesinha sobre a qual estava guardado o intercomunicador. Subitamente lembrou-se de que há quinze minutos — ou seriam duas horas? — Reginald Bell lhe dissera que ele e o arcônida viriam para cima, a fim de dar-lhe apoio... “Santo Deus! Não terão a menor chance de me encontrar, quanto mais de ajudar-me!”, pensou apavorado. Com um movimento desajeitado da mão enluvada segurou o microfone. Errou três vezes ao apertar as teclas numeradas, mas finalmente chamou o número do abrigo subterrâneo. A tela iluminou-se, mas a única coisa que Judson viu foi o sinal vermelho de espera. A linha estava desocupada, mas do outro lado não havia ninguém que pudesse responder ao chamado. Mike Judson sentiu-se dominado pelo pavor. Estavam subindo! Rhodan, Bell, o arcônida e o mutante. Não estavam informados a respeito do incêndio atômico desencadeado pelos arcônidas. Conforme a saída escolhida, poderiam correr diretamente para dentro do fogo. Isso não deveria acontecer em hipótese alguma! Mike Judson resolveu voltar. E voltou! Agora que envergava o traje pesado e o capacete contra radiações já não sentia o calor trazido pela tormenta. Mas o ar era como uma pesada tábua que tivesse de empurrar com o peito para avançar. A parede luminosa amarela crescera e espalhava uma luminosidade pálida em meio à poeira. Mike Judson seguiu para a direita, ou seja, para o norte, a fim de chegar à saída do abrigo situado nas proximidades do lugar onde antes ficara seu posto de comando. Não sabia o que deveria fazer para avisar Perry Rhodan e seus companheiros sobre o caos reinante na superfície do planeta. Mas achou que seria boa ideia entrar no abrigo e atravessar o corredor circular do pavimento superior, que ligava as quinze saídas. Vez por outra, via bolas de luz pálida que subiam à esquerda, no oeste. Eram os mecanismos propulsores das naves que decolavam, cuja imagem sofria uma deformação grotesca produzida pelo calor e pela tormenta. Contara as decolagens e sabia que das quinze naves intactas apenas três ainda permaneciam no solo. Sentiu uma alegria feroz pela fuga bem sucedida dos homens. Fazia votos de que 146


nenhum deles fosse tolo a ponto de esperá-lo na última nave. E torcia para que os veículos espaciais conseguissem atravessar as linhas arcônidas, sem serem notados. Viu destroços à sua frente. Eram os remanescentes de alguns edifícios. Reconheceu o perfil oval de um tanque de água. O tanque propriamente dito fora arrancado pela explosão, mas sua base continuava intacta. Judson avançava aos tropeções. A tormenta atirou-o ao solo e arrastou-o por alguns metros. Sentiu uma dor ao bater contra uma coisa dura e pontuda. Ao levantar-se seu peito doía tanto que teve a impressão de estar com uma costela fraturada. “Só faltava isso!”, pensou. “A entrada do abrigo fica a mais de duzentos metros. Preciso chegar lá.” Viu que a parede de fogo amarela crescera mais, erguendo-se na altura de uma casa. Ao norte e ao sul, estendia-se a perder de vista. Já devia ter atingido o centro do campo de pouso. Mas não continuava a crescer em altura. Judson percebeu que, na parte superior, sua luminosidade era muito menos intensa que na inferior. Sem querer, lembrou-se do que aprendera sobre as bombas de Árcon. Uma vez reguladas para o número de ordem de um ou vários elementos, desencadeava, logo após a detonação, o processo de fissão nuclear desses elementos, iniciando um incêndio atômico que só se extinguia depois de consumido todo o “combustível”. O fato de que o incêndio só se propagava pelo solo, sem estender-se à atmosfera, levava a concluir que os arcônidas preferiram não regular o artefato nuclear para os números de ordem sete e oito, correspondentes ao nitrogênio e ao oxigênio. O efeito das bombas estendia-se aos elementos pesados. Mike Judson sentiu falta de ar. A dor no peito era insuportável. “Preciso chegar lá”, pensava. Prosseguiu, sempre tropeçando, sem saber se estava caminhando na direção certa. Depois de longo tempo, viu os remanescentes de um edifício. Reconheceu-o. Fora uma das cantinas. Dali em diante, deveria seguir para a esquerda, obliquamente em direção à parede de fogo amarela. Os escombros do muro serviram-lhe de apoio. Arrastando-se por lá, economizava suas forças e conseguia avançar mais depressa. Só faltavam cinquenta metros até a entrada do abrigo. Mike Judson nem se lembrou de que a cada passo que dava a temperatura ambiente subia. E também não se lembrou de que, acima de determinado limite de temperatura, o traje que usava deixaria de funcionar. Só se fixava nos cinquenta metros que faltavam, e na necessidade de vencê-los. Fungando, suando e gemendo de dor, avançou penosamente em meio a um mundo no qual rugia o caos, mas que era completamente silencioso. Nem se deu conta do irreal da situação. Sentia-se dominado pela ideia de que devia chegar ao abrigo e prevenir Perry Rhodan. Já não olhava para a parede fulgurante da fogueira nuclear que se aproximava pelo pavimento do espaçoporto, e não se dava

conta de que sua temperatura seria suficiente para provocar certos acontecimentos perigosos, como, por exemplo, a fusão de duas metades distintas de um catalisador de urânio. Depois de ter vencido vinte e cinco ou trinta metros dos cinquenta que ainda faltavam, suas forças o abandonaram. Deu um passo cambaleante e tombou para a frente. Usou a energia que lhe restava para resistir à tormenta mortífera que ameaçava carregá-lo dali. “Só um instante...”, pensou. “Daqui a pouco poderei andar de novo. Só alguns segundos...” O raciocínio venceu o corpo. Mike Judson voltou a levantar-se e prosseguiu cambaleando, embora quase não lhe restassem forças para mover as pernas e resistir à tempestade. Viu a casinha da guarda do abrigo surgir em meio à bruma da poeira radiativa. A consciência de estar tão próximo do destino deu-lhe novas forças. Tropeçando, fungando, cambaleando, avançava metro por metro, passo a passo. Naquele momento, veio uma lufada escaldante, levantou-o do solo e atirou-o vinte metros para trás. Caiu pesadamente ao solo e, sob a força do impacto, perdeu a consciência. Isso até parece que aconteceu para que não tivesse de assistir ao inferno que, naquele momento, desabou sobre a base espacial de Fera Cinzenta. Inferno este que, dentro de poucos segundos, devoraria tudo... inclusive Mike Judson. *** Às doze e quarenta e nove, hora de Terrânia, a muralha de fogo atiçada pelas bombas de Árcon atingiu a posição de foguetes XVII, situada na parte norte do campo de pouso. Meia hora antes, um foguete fora preparado para ser disparado. Naquele mesmo instante, foi divulgado o comando do Tenente Judson, para que os ocupantes da base vestissem os trajes protetores. Os homens, que guarneciam a posição, obedeceram à ordem e deixaram o foguete no lugar onde se encontrava. Assim que envergaram os trajes protetores, subiram a bordo das naves de transporte que os aguardavam. Ninguém se lembrava do foguete, cujo dispositivo de segurança fora destravado. O fogo derreteu as duas partes do catalisador, reunindoas numa massa crítica. A temperatura superior a um milhão de graus derreteu a espoleta de fusão do detonador. Uma bola incandescente de energia nuclear ergueu-se sobre o campo de pouso de Fera Cinzenta, fazendo com que, por alguns segundos, empalidecesse até mesmo a clareza radiante da frente de fogo nuclear. As doze e quarenta e nove hora de Terrânia, a base terrana de Fera Cinzenta deixou de existir.

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2 No momento em que a explosão da bomba nuclear fez estremecer o abrigo, Perry Rhodan compreendeu que iria perder Fera Cinzenta. Os arcônidas estavam atacando. A base não possuía instalações que permitissem uma defesa eficaz. Sua arma mais importante fora o segredo que cercava sua posição galáctica. E agora um acaso ridículo, um defeito num pequeno aparelho, o neutralizador da nave Rigel, arrancara essa arma das mãos dos terranos. Fera Cinzenta estava praticamente indefesa diante do ataque tremendo do inimigo. A frota terrana encontrava-se a quinhentos anos-luz de distância. Era uma distância tão grande que qualquer tentativa de intervenção estaria fadada ao fracasso. Além disso, não havia a menor possibilidade de avisar a frota. A explosão da bomba nuclear pusera fora de ação o grande transmissor de hiper-rádio, que fazia as ligações entre Fera Cinzenta e o mundo exterior. Havia grande número de aparelhos menores, mas estes estavam espalhados pelos depósitos e escritórios. O único aparelho pertencente ao equipamento de emergência do abrigo não tinha potência suficiente para romper a camada de terra de quase um quilômetro de espessura que o cobria. Quinze minutos depois de iniciado o ataque, o observador espacial informou Perry Rhodan de que uma parede de fogo amarela se aproximava vinda do noroeste. E o homem manifestou diante de Rhodan a mesma suspeita que transmitira a Mike Judson através de um pequeno bilhete. Os arcônidas haviam lançado bombas de Árcon. Dali em diante, Rhodan não perdeu mais tempo. Se as bombas estivessem reguladas de forma a desencadear o processo de fusão nuclear no elemento número quatorze, ou seja, no silício, a fogueira atômica penetraria no solo, atingindo em pouco tempo o lugar mais profundo do abrigo. Só restava a fuga. E, já que o fogo vinha do noroeste, deveriam fugir na direção sudeste. Nessa direção havia uma saída que atingia a superfície quinze quilômetros além da extremidade sul do espaçoporto. Isso bastava para que estivessem a salvo da fogueira nuclear pelo menos por uma hora. Reginald Bell teve suas dúvidas. Prometera subir para ajudar Mike Judson. Perry Rhodan procurou entrar em contato com o Tenente Judson pelo intercomunicador, a fim de explicar-lhe que a luta estava perdida. A guarnição da base devia receber ordem para afastar-se do campo de pouso ou sair de Fera Cinzenta nas pequenas naves de transporte, se é que alguma delas havia resistido à explosão da primeira bomba. Mas o aparelho se manteve num silêncio total. Durante sua palestra com Judson, o próprio Reginald Bell vira a explosão destruir a pequena casa do comandante. As comunicações ficaram interrompidas e, conforme informavam os homens do posto de observação, Judson

saíra para o ar livre. Era de supor que ele mesmo já havia dado ordens de evacuar a base. Não se podia fazer mais nada em relação à Judson e ao resto da guarnição. Se não quisessem ser queimados pela fogueira nuclear, eles mesmos teriam de procurar um lugar seguro. Revelando a prudência e a tranquilidade costumeiras, Perry Rhodan procurou em meio às provisões de emergência tudo de que pudesse precisar um grupo de quatro homens num planeta devastado por uma fogueira nuclear; retirou antes de qualquer coisa um minicomunicador, alguns instrumentos de medição, mantimentos e armas. Depois se puseram a caminho. Foram subindo, pensativos e em silêncio. Uma fita rolante de alta velocidade levou-os pelos corredores desertos, em direção ao poço do elevador da saída sudeste. O elevador levou menos de três minutos para vencer a distância de novecentos e cinquenta metros que separava o fosso da superfície. O poço do elevador terminava vinte metros abaixo da saída propriamente dita do abrigo, num corredor circular, dotado de uma série de fitas rolantes de diversas velocidades, que o ligava à saída. Esse corredor também estava deserto. Quem estivera lá embaixo no momento em que surgira a frota arcônida, depois de atender ao alarma, dirigira-se aos seus postos junto às rampas de disparo ou às posições de artilharia. O abrigo estava vazio; os quatro ocupantes aos quais até então oferecera proteção contra o efeito mortífero das bombas arcônidas também se dispunham a abandoná-lo. Felizmente a escada rolante que conduzia à saída estava intacta. No interior da pequena guarita havia uma série de telas e alto-falantes, que transmitiam tudo que se passava lá fora. Um furacão de violência nunca vista rugia pela savana, dirigindo-se à selva. O vento arrastava uma parede impenetrável de poeira e fumaça. O sol fulgurante havia desaparecido. Nos alto-falantes rugia um verdadeiro inferno de ruídos. Os homens fecharam os capacetes. Apesar da tormenta furiosa que bramia lá fora, teriam de sair. Só poderiam dirigir-se a um destino: a cidade de Greenwich, abandonada pelos colonos, situada a quatro quilômetros do lugar em que se achavam, à margem do Rio Verde. Lá encontrariam veículos abandonados pelos colonos transferidos para Vênus. Se não conseguissem atingir Greenwich, correriam o risco de dirigir-se diretamente para a parede de fogo que vinha do oeste, e esta os devoraria. O vento furioso arrancou-lhes a porta das mãos assim que a abriram. Rhodan foi o primeiro a sair. Hesitou um pouco, deu um grande passo e desapareceu. Bell e Atlan soltaram um grito de surpresa, mas Fellmer Lloyd, que, além de telepata, era localizador, levantou a mão num gesto tranqüilizador. ��� Não houve nada — disse em voz baixa. — Está lá na frente. Foi à tempestade que o arrastou. Dali a alguns segundos, Rhodan chamou. Não o viram 148


em meio à escuridão, mas ouviram a voz nos seus receptores: — Nem tentem andar! Teremos de rastejar para Greenwich! *** Quando o primeiro impulso isolado foi seguido, poucos minutos depois, por uma série de mais de mil outros, captados pelos receptores da nave capitania Drusus, até mesmo o General Deringhouse se sentiu perplexo. O primeiro impulso não o deixara preocupado, mas a série seguinte significava que, naquela área, uma verdadeira frota estava em movimento. E a frota não poderia ser composta de naves terranas, pois o planeta Terra não dispunha de mil naves além daquelas que se mantinham silenciosas no espaço. Eram naves arcônidas. Naturalmente era possível que o regente tivesse resolvido retirar parte da sua frota de bloqueio ou reforçá-la, mas Deringhouse teve a impressão de que havia algo de errado. Talvez o primeiro impulso lhe infundisse a ideia de que uma nave isolada estava sendo perseguida por um grupo de unidades arcônidas. Refletiu por um instante e mandou enviar uma mensagem condensada para Fera Cinzenta. Não recebeu resposta e logo compreendeu que acontecera algo não previsto nos planos da frota terrana. Fera Cinzenta não estava respondendo. General Deringhouse agiu imediatamente. Passou o comando da frota ao oficial que lhe seguia em graduação e mandou que a Drusus se preparasse para a transição. O setor de astronavegação recebeu ordens de percorrer num único salto a distância que separava a nave de Fera Cinzenta. Quinze minutos antes da transição, Deringhouse deu o alarma. Gastou cinco minutos para explicar aos tripulantes que a Drusus provavelmente pararia no meio de uma frota arcônida. À tripulação caberia destruir o maior número possível de unidades inimigas, e não deixar que a nave terrana fosse atingida. Também não ocultou o fato de que provavelmente a base de Fera Cinzenta estava perdida. Apenas guardou para si um detalhe: no momento do ataque — se é que realmente houvera um ataque — Perry Rhodan se encontrava em Fera Cinzenta. Se os demais prognósticos eram corretos, nesse caso também ter-se-ia de admitir que Perry Rhodan estivesse morto. A Drusus se pôs em movimento as doze e cinquenta, hora de Terrânia. Às treze horas e um minuto, atingiu a velocidade mínima para a transição e desapareceu do espaço einsteiniano. No mesmo instante, emergiu do hiperespaço a poucas unidades astronômicas do sol Mirta. O salto fora muito bem calculado. Fera Cinzenta estava tão próximo que com os supertelescópios se reconheciam detalhes na superfície do planeta. Viram o cogumelo de uma gigantesca explosão nuclear, a superfície amarela da fogueira atômica a as extensas nuvens de fumaça que começavam a envolver toda a face diurna do planeta. E observaram mais uma coisa! Viram centenas de pontos reluzentes. Cada ponto representava uma das naves.

Achavam-se espalhadas e a uma distância segura sobre toda a superfície do planeta. Pareciam esperar, até que a fogueira nuclear tivesse destruído Fera Cinzenta. Conrad Deringhouse deu ordem de atacar. Sabia que nem mesmo uma nave como a Drusus teria qualquer chance de êxito j numa luta contra mais de mil naves robotizadas da frota arcônida. Mas sentia uma espécie de necessidade psicológica de, num ataque fulminante, fazer o inimigo pagar ao menos pequena parte daquilo que fizera em Fera Cinzenta. Ainda acontecia que, em Fera Cinzenta, talvez pudesse haver sobreviventes, e que o ataque-relâmpago desfechado pela Drusus fosse capaz de infundir-lhes novas esperanças, convencendo-os de que a Terra ainda não os abandonara. Quando deu ordem de avançar, Conrad Deringhouse sentiu uma tensão quase insuportável. Só ele e os oficiais de patente mais elevada da nave capitania sabiam que, quando a frota terrana se reunira no lugar convencionado, para desferir seu golpe contra Árcon, Perry Rhodan ficara em Fera Cinzenta. Mas houve uma fonte secreta que criou um boato entre os tripulantes. Segundo o disse-me-disse, em Fera Cinzenta se perdera muito mais que uma simples base espacial. E o ataque desfechado contra a unidade mais próxima da frota arcônida foi interpretado como confirmação do boato. Os arcônidas não deram mostras se já haviam ou não percebido a aproximação da nave terrana. Mantiveram-se em posição de espera. Ao que parecia, só estavam interessados numa coisa: aguardar que o planeta se transformasse por completo numa bola de fogo. Mas a calma era enganadora. Assim que a Drusus se aproximara, em alta velocidade, a menos de dois mil quilômetros da nave que se encontrava mais perto, seus campos defensivos entraram em incandescência sob a ação dos disparos das naves arcônidas. Ao precipitar-se sobre a nave, estava transformada numa bola chamejante de energia concentrada. Sacudiu o fogo de vinte canhões inimigos como quem espanta uma mosca incômoda. Só começou a disparar quando a distância que a separava da nave inimiga estava reduzida ao mínimo. A nave arcônida, que era um veículo de dimensões médias, estava em posição nitidamente inferior em face da Drusus. Seus campos defensivos fizeram um esforço desesperado para repelir as tremendas energias disparadas pelos canhões térmicos e desintegradores. Dentro de três segundos, entraram em colapso. A nave desapareceu em meio à incandescência branca de uma explosão nuclear. Quando viu a nave arcônida explodir, o General Deringhouse sentiu satisfação e raiva. Agindo com a frieza e a reflexão de quem executa um exercício tático, fez a Drusus passar uns dez mil quilômetros além do alvo. Acelerando sempre, a nave não demorou a entrar em transição e subtrair-se à ação da frota arcônida. Mas a satisfação não durou muito. Afinal, a vida de Rhodan valia mais que cem mil naves! Ainda mais que, provavelmente, a nave derrubada era robotizada... 149


Conrad Deringhouse nem sequer tinha motivo de orgulhar-se com o êxito alcançado. A nave era infinitamente inferior à Drusus e, ao escolhê-la em meio a uma poderosa formação arcônida, na verdade havia antes cometido uma tolice que realizado algo de notável. Deringhouse obrigou-se a manter a calma. Teve de realizar algum esforço para compreender que a situação com que se defrontava não podia ser contemplada sob o ângulo sentimental. Era bem verdade que, segundo tudo indicava, Perry Rhodan estava morto, e a morte de um amigo é um motivo de tristeza para qualquer pessoa. Mas o que estava em jogo aqui não era a pessoa de Perry Rhodan ou a tristeza de Conrad Deringhouse. O que realmente importava era a segurança da Terra. Novas medidas teriam de ser adotadas. Por enquanto não se poderia cogitar do ataque a Árcon. Talvez então se deveria considerar um ataque maciço contra a frota que cercava Fera Cinzenta... Por quê? Para vingar-se? Será que a vingança poderia ajudar uma única das pessoas mortas em Fera Cinzenta? Não! Deringhouse logo abandonou a idéia. Em meio às reflexões, deu-se conta de um fato de que quase se esquecera. Daqui em diante, seria o único responsável pela frota terrana. Não havia mais ninguém a quem pudesse recorrer para pedir um conselho, e nenhuma pessoa dotada de uma genialidade inata estaria em condições de retificar os erros que ele, Deringhouse, viesse a cometer. Dependia única e exclusivamente de si mesmo. Ao menos até que houvesse um novo governo na Terra. Por enquanto só poderia fazer uma coisa: numa distância segura ficar aguardando, para ver se alguém tinha sobrevivido ao ataque traiçoeiro desfechado contra Fera Cinzenta, e agora estava esperando que alguém viesse buscá-lo antes do planeta transformar-se numa nuvem incandescente. Se o sobrevivente possuísse um minicomunicador ou um hiper-rádio de maior potência, não deixaria de irradiar o pedido de socorro. A cinco horas-luz de Fera Cinzenta, a Drusus entrou em posição de espera. O boato de que um homem muito importante — talvez o próprio Perry Rhodan — ficara no planeta, ganhou corpo, transformando-se quase em certeza. A cada hora que passava, o nervosismo de Conrad Deringhouse crescia. Não “viu” o menor sinal de vida. Fera Cinzenta manteve-se em silêncio. Deringhouse sabia que seria inútil esperar mais de três dias. Se até então não houvesse nenhum chamado, as esperanças estariam perdidas. O incêndio nuclear não levaria mais de três dias para completar sua obra de destruição. *** Os pesados trajes quase os esmagavam, mas eram a única proteção contra a furiosa tempestade que ameaçava tangê-los como folhas secas. Os trajes estavam equipados com geradores antigravitacionais, que permitiam reduzir em determinada

proporção o peso do homem e do equipamento. Reginald Bell desligou o gerador por um instante, quando lhe pareceu que o traje o esmagaria. A tempestade levantou-o e o arrastou uns cinquenta metros. Ficou inconsciente durante quinze minutos e levou outros trinta para reencontrar os companheiros em meio à escuridão quase impenetrável. Perry rastejava na ponta do pequeno grupo. Em pleno meio-dia, as densas nuvens de fumaça vindas do oeste provocavam tamanha escuridão que Rhodan mal conseguia enxergar um metro. Com grande esforço, conseguiu orientar-se por meio dos detalhes do terreno de que ainda se lembrava. Mas, à medida que se afastavam da base, esses sinais iam diminuindo. Depois de algum tempo, Rhodan apenas pôde avançar em linha reta, não em curva ou em círculo. Assim mesmo talvez tivessem errado o caminho. Mas quando tinham percorrido cerca de metade do trajeto, aconteceu alguma coisa com que Rhodan não contara! Alcançaram uma estrada que ligava a cidade colonial de Greenwich com o espaçoporto. Essa estrada corria quase em ângulo reto em relação ao sentido em que Rhodan e seus companheiros de sofrimento se deslocavam. Dali se concluía que, apesar de todos os esforços, se haviam desviado bastante do caminho. Logo se defrontaram com um problema: deviam seguir para a esquerda ou para a direita? Perry Rhodan resolveu tomar a direita e, dali a algumas horas, viu que sua escolha fora acertada. A escuridão cedeu a uma penumbra vermelhoamarelada. O incêndio nuclear vindo do oeste avançava com uma rapidez cada vez maior. Já não se via mais nada da bola incandescente gerada pela explosão do foguete. Em compensação, a parede de fogo amarela começou a brilhar por entre a fumaça, desenhando no horizonte, a oeste, um traço finíssimo de perigo mortal. Teriam de agir depressa. O fogo avançava a uma velocidade aproximada de cinco quilômetros por hora, isso de maneira uniforme, em todas as direções. Dentro de muito pouco tempo, em duas horas no máximo, chegaria a Greenwich. Os medidores revelavam que o teor de radiatividade alcançara tal intensidade que qualquer pessoa desprotegida seria morta num tempo extremamente curto. A temperatura exterior era de setenta graus centígrados, e a tempestade se tornara tão forte que já não podia ser medida com os instrumentos usuais. Rastejando sempre e agarrando-se ao solo com as mãos enluvadas, Perry Rhodan e seus companheiros penetraram na cidade-fantasma. As casas não estavam mais de pé. A tempestade as derrubara e as arrastara. Os alicerces quebrados assinalavam o lugar em que antes existiam as pequenas e primitivas casas pré-fabricadas dos colonos. A rua estava coberta de cacos de plástico transparente. Protegendo-se atrás dos escombros, Perry Rhodan parou e olhou cautelosamente em torno. Não se atreveu a levantar a cabeça mais de um palmo acima dos alicerces. Teve a 150


impressão de que, se o fizesse, a tempestade a arrancaria. — Se por aqui ainda existe algum veículo — gritou Rhodan — deve estar onde ficava a Prefeitura, ou na parte norte da cidade, junto à saída e na margem do rio. Lloyd vá até o rio com Atlan. Cuidado para não se perderem. Lloyd e o arcônida mal apareciam em meio à semiescuridão. Confirmaram com um ligeiro “sim” e desapareceram. Perry Rhodan e Reginald Bell seguiram em direção ao centro da cidade; o destino deles era o lugar em que, há algum tempo, os colonos haviam reunido as peças de duas casas para fazer uma, à qual deram o nome de Prefeitura. O caminho a ser percorrido não ultrapassava cem metros. Apesar disso, levaram quinze minutos. A força da tempestade era crescente. E isso constituía prova da tremenda velocidade com que se aproximava o incêndio nuclear. Perry Rhodan procurou lembrar-se em que lugar se encontrara a Prefeitura. Estivera poucas vezes em Greenwich e agora, que as casas tinham desaparecido, sentiu certa dificuldade em orientar-se. “Tomara que a tempestade não tenha carregado os veículos”, pensou. Agachou-se atrás dos alicerces de uma casa e ergueu ligeiramente o corpo. A seguir, tentou acender a lâmpada embutida na parte da frente de seu capacete. O potente feixe de luz recortou uma faixa branca em meio à penumbra. Do outro lado da rua viam-se restos branco-acinzentados de plástico, sobressaindo em meio à escuridão. A luz da lâmpada continuou a deslizar, e foi refletida pelos cacos de plástico transparente, espalhados pelo solo. Depois desapareceu em meio à poeira, turbilhonante, assim que Rhodan a fez girar, procurando olhar rua acima. Não viu nenhum veículo. — Talvez tenhamos de andar mais um pedaço — disse Bell. — É possível — confirmou Rhodan. — Vamos. Desligou a lâmpada e deixou-se cair para frente. Saiu cautelosamente detrás dos alicerces. Foi então que viu... Talvez fosse apenas uma sombra irreal em meio à semiescuridão poeirenta. Chamava a atenção pela rapidez com que se deslocava e pelo sentido em que ia. Seguia contra a tempestade. Mas tão rápida como surgiu, a sombra desapareceu. Perry Rhodan estirou-se no solo e ficou parado. Reginald Bell apareceu a seu lado. Não vira a sombra. — Há alguém indo por ali — cochichou Rhodan. — Será Atlan ou Lloyd? — perguntou Bell em voz baixa. — Não pode ser. Estão lá no rio. Subitamente a voz de Atlan se fez ouvir. — O que houve por aí? — perguntou o arcônida. — Ouvi meu nome. — Santo Deus, onde está você? — perguntou Rhodan. — Perto do rio — respondeu o arcônida. — Mas o rio não existe mais; secou. — Lloyd está com você?

Ao que parecia, o arcônida teve de procurá-lo antes de responder. — Lloyd! O senhor está aqui? Está sim. Por enquanto... — Prestem atenção! — interrompeu-o Rhodan em tom apressado. — Há mais alguém na cidade, além de nós. Vi uma sombra. Tomem cuidado. Se fosse um dos nossos, teria ouvido nossa palestra e dado um sinal de sua presença. — Desde que use traje protetor. — Se não usasse, já estaria morto. Só pode ser um estranho. Atlan ficou calado por um instante. — Está bem; e agora? — perguntou em tom tranquilo. — Vamos continuar a procurar — disse Rhodan. — Fiquem de arma na mão e assim que virem alguma coisa, atirem. — Está bem — respondeu o arcônida. Nesse momento, Fellmer Lloyd se fez ouvir. — Acontece que não sinto nada, Sir — afirmou. — Se houvesse alguém na cidade, eu deveria ser capaz de constatar sua presença. — A não ser que seja um robô — ponderou Rhodan. — Não confie demais nos seus dotes. — Compreendo Sir — respondeu Fellmer Lloyd. — É melhor confiar na minha pontaria. Perry Rhodan suspirou aliviado. Se os homens ainda sabiam responder com sangue-frio, nem tudo estava perdido. Procurou olhar para Reginald Bell e levou um tremendo susto ao descobrir que seu amigo desaparecera. “Que estúpido! Como foi que ele pôde sair na situação em que nos encontramos?”, pensou irritado. — Bell, seu idiota! — gritou Rhodan. — Volte imediatamente. Algum tempo se passou sem que houvesse qualquer resposta. O pânico começou a dominar Rhodan. Será que a sombra levara Reginald Bell? — Bell! — voltou a gritar. — Onde está você? De repente, ouviu a resposta proferida em voz débil: — Perry! Estou aqui. Ajude-me! A voz veio quase num cochicho. Perry Rhodan pôs-se em movimento. Nos poucos segundos em que conversara com Atlan e Lloyd, Bell não poderia ter-se afastado mais de dez metros. Portanto, bastaria procurar nas imediações. ��� Socorro! — ouviu Perry novamente, em voz abafada. “É a tempestade”, pensou Rhodan. “Deve tê-lo arrastado e atirado contra uma parede.” Saiu rastejando em direção ao lado oposto da rua. Na pressa ergueu-se demais. Foi quando a tempestade o agarrou e o atirou de cabeça contra uma parede baixa. Instintivamente levantou os braços para amortecer o choque. Uma dor cruciante subiu do pulso esquerdo, tomando conta de todo o braço. O incidente desorientou Perry Rhodan. — Bell! — gritou. — Aqui! — disse uma voz débil. — Ajude-me! — Já vou! — respondeu Rhodan. — Agüente firme, 151


Bell. Passou por cima do muro contra o qual fora atirado pelo vento e teve de cuidar-se para não ser arrastado de novo. As dores no braço esquerdo eram quase insuportáveis. Mas o sofrimento atiçou-lhe a raiva, e esta lhe deu novas forças. — Aqui! Ajude-me! — cochichou a voz e estimulou Perry Rhodan a dar mais de si. Encontrava-se atrás do muro e, ao menos por alguns segundos, não teve de preocupar-se com a tempestade. Esteve a ponto de levantar e acender a lanterna, quando a voz chamou de novo: — Perry! Estou aqui! Socorro! Rhodan aguçou o ouvido. A voz parecia ter se aproximado. Reginald Bell deslocava-se na direção em que se encontrava... E, caso estivesse em condições de locomover-se, teria motivo para pedir socorro de forma tão lamentosa? — Bell — chamou Rhodan em tom impaciente. — O que houve? As únicas respostas foram às mesmas palavras de sempre: — Perry! Aqui. Ajude-me! Rhodan continuou deitado. Depois de algum tempo, pôs-se de joelhos sob a proteção do muro. Alguma coisa moveu-se na escuridão. — Bell, é você? A única resposta foi um gemido abafado. Perry Rhodan abaixou-se. Viu que a sombra à sua frente crescia. Pelo microfone externo, ligado ao volume mínimo, ouvia o uivo da tempestade que investia contra outro obstáculo. Naquele instante, Perry Rhodan percebeu que caíra numa armadilha. O que vinha em sua direção não era Bell. Era um monstro que não “se importava” em andar ereto em meio à tormenta escaldante de fim de mundo. Mantinha-se de pé sem a menor dificuldade. Rhodan apenas viu uma sombra confusa de mais de dois metros e meio de altura. Foi o suficiente. A arma de radiações térmicas praticamente “escorregou” para dentro de sua mão. Bastou girar o cano ligeiramente para cima e comprimir o gatilho. Perry superestimara a distância. Bem à sua frente, alguma coisa explodiu com um forte estrondo. Perry Rhodan viu um raio ofuscante e sentiu os golpes provocados pelos fragmentos da explosão. Foi atirado para trás. Sem proteção, a tempestade agarrou-o e tangeu-o mais um pedaço. Foi a salvação! Seu crânio bateu com tanta força contra os restos dos alicerces de uma construção que o deixou inconsciente por alguns minutos. Mas só assim escapou ao calor mortífero irradiado pelos destroços do monstro. Uma voz angustiada chamou-o de volta à realidade. — Perry! Responda! O que houve Perry? Que barulho foi esse? Era a voz de Atlan. Perry Rhodan ergueu-se cautelosamente e olhou em torno. A dez metros do lugar em que se encontrava, uma fogueira vermelha brilhava em

meio à escuridão. Assustado e ainda meio confuso, acreditou ser o incêndio nuclear que já havia chegado à cidade. Mas logo se lembrou do monstro contra o qual disparara. Suspirou aliviado. Além da dor no braço esquerdo, sentia um zumbido na cabeça. Mas o medo pelo destino de Bell fê-lo esquecer as dores. Virou-se cautelosamente e saiu rastejando em direção ao lugar em que havia a incandescência cada vez mais fraca. Enquanto rastejava, respondeu ao chamado de Atlan. — Por aqui tudo em ordem — disse. — Parece que os arcônidas desembarcaram robôs em Fera Cinzenta. Um deles quis atrair-me a uma armadilha, mas eu o reconheci no último instante. Foi este o barulho que vocês ouviram. Mas há uma coisa muito pior. Bell desapareceu. Acho que os culpados sejam os robôs. Ouviu a respiração ofegante do arcônida em meio ao uivo abafado da tempestade. — Sei que não conseguirei convencê-lo, bárbaro — respondeu Atlan em tom sério. — Acontece que o incêndio nuclear atingirá a cidade dentro de vinte minutos, muito mais cedo do que pensávamos. Daqui o vemos perfeitamente e se você quiser dar-se ao trabalho de olhar para o termômetro, acreditará no que estou dizendo. Encontramos um veículo de múltiplas finalidades, que resistiu à tempestade e está em condições de voar. Possui um potente estabilizador, e o aparelho lhe permite resistir à tempestade. Poderemos buscá-lo e tratar de sair quanto antes, mas... — É isso mesmo, almirante; mas... — respondeu Perry Rhodan em tom zangado — ...não sairei daqui antes de encontrar Bell. Ele deve estar nas proximidades. Esperem mais dez minutos. Se até lá não o tiver encontrado, dêem o fora. Ninguém lhes levará a mal se agirem assim. — Levará, sim — respondeu Fellmer Lloyd prontamente. — Eu mesmo me levaria a mal — de repente sua voz parecia zangada. — Irei até aí, Sir. Se Mr. Bell não estiver morto, eu o encontrarei dez vezes mais depressa que o senhor. Afinal, para que serve o veículo? Subitamente ouviu-se uma risada que parecia vir de longe. — Está bem, bárbaro — disse Atlan em voz baixa. — Todos por um. Daqui a dois minutos estaremos aí. Perry Rhodan suspirou aliviado. A ideia de Fellmer Lloyd era a mais acertada. Caso Reginald Bell estivesse vivo e se encontrasse por perto, Fellmer Lloyd, o telepata, registraria as vibrações de seu cérebro e o localizaria. Continuou a rastejar. A incandescência vermelha do robô destruído já se apagara. Rhodan olhou para o termômetro. A temperatura era pouco inferior a duzentos graus. Por várias vezes chamou Reginald Bell. Mas não houve resposta. Talvez estivesse inconsciente. Dali se concluía que o pedido de socorro não fora feito por Bell. E sim pelo robô! Era um robô especial, cuja programação abrangia o conhecimento da língua inglesa. 152


Não haviam esquecido nada. Passou perto do robô, ou melhor, do que sobrara dele depois da explosão. Mais adiante havia um pedaço de muro. Rhodan aproveitou-o para erguer-se e examinar a penumbra com o raio de sua lanterna. Naquele instante ouviu a voz de Fellmer Lloyd: — Já chegaremos aí, Sir. Dentro de cinco minutos encontraremos Mr. Bell. Aquelas palavras eram bastante reconfortadoras. Perry Rhodan sorriu. Dirigiu a luz da lanterna para um lugar cintilante, que se destacava dos arredores. — Não é necessário — respondeu. — Acabo de encontrar Bell. Do jeito que está deitado conclui-se que o robô lhe aplicou um choque... *** Depois de dez horas de espera, durante as quais não aconteceu nada, o Major Brackett expediu o sinal de emergência. Era um único sinal modulado e condensado em alguns nanossegundos. Só os receptores terranos reagiriam automaticamente ao sinal. Um receptor estranho só o faria se por coincidência um operador ouvisse o chamado e lhe atribuísse um significado especial. É claro que Paul Brackett sabia que esse perigo existia. Algumas dezenas de milhares de naves arcônidas estavam reunidas nesse setor da Galáxia, e a bordo de cada uma delas havia pelo menos um operador de rádio, destacado para ouvir sinais suspeitos. Paul Brackett se arriscou a irradiar o sinal, pois estava convencido de que o inferno já estava a solta em Fera Cinzenta e achava que não valia a pena continuar inativo com a Rigel. O sinal foi captado em vários pontos. As naves da frota terrana registraram o pedido de socorro com a maior atenção. A Drusus também o ouviu. E alguns operadores de rádio das naves arcônidas também o captaram. Procuraram determinar o código utilizado na feitura do sinal e ampliá-lo ao comprimento originário. Depois passaram à localização goniométrica do local em que o sinal foi expedido. Tudo isso era muito complicado e levaria algumas horas. A Drusus não saiu do lugar em que se encontrava, pois pretendia continuar aguardando eventuais pedidos de socorro, vindos de Fera Cinzenta. No entanto, dois cruzadores pesados saíram da formação de naves terranas que aguardava ordem de atacar e, com uma transição rápida, transportaram-se ao ponto onde se achava a Rigel. Pelo rádio comum Paul Brackett transmitiu um relato ligeiro da situação. Sugeriu que os tripulantes de sua nave fossem transferidos para os dois cruzadores, e que a própria Rigel fosse destruída. Face à movimentação que se verificava nesse setor espacial e à circunstância de que a qualquer momento poderiam surgir naves arcônidas que também tinham captado o pedido de socorro, não havia idéia mais razoável que esta. A bordo da nave não existiam recursos que permitissem o reparo do neutralizador avariado. E a montagem de outro aparelho demoraria pelo

menos cinco horas. Já o transbordo dos oitocentos tripulantes, muito bem treinados nesse tipo de ação, não demoraria mais de uma hora e meia. Paul Brackett transmitiu as respectivas instruções. Foi o último a sair da Rigel. Preparou os explosivos nucleares que não deixariam que a preciosa nave caísse nas mãos do inimigo. Suas mãos estavam encharcadas de suor e sentia um nó na garganta. Comandava a nave há apenas seis meses... Quando sua pequena nave auxiliar foi acolhida a bordo da Bilbao, Brackett não conseguiu dizer uma palavra. O Tenente Huyghens, comandante da Bilbao, teve bastante inteligência para compreender sua dor; limitou-se a apertar a mão de Brackett. Brackett não testemunhou o fim da Rigel. Assim que subiu a bordo da Bilbao, os dois cruzadores partiram. O que aconteceu com a Rigel foi uma coisa incrível! Mal os dois cruzadores terranos desapareceram, um grupo de naves arcônidas emergiu do hiperespaço. Uma das espaçonaves arcônidas ainda teve tempo de colocar-se junto ao costado da Rigel e lançar uma série de naves auxiliares tripuladas por robôs, a fim de ocupar a nave terrana. Enquanto os robôs se esforçavam para abrir a grande comporta da nave, as bombas explodiram. A Rigel, os robôs e a nave arcônida desmancharam-se numa gigantesca bola de fogo branco-azulada. *** Reginald Bell estava vivo; não havia a menor dúvida. Mas achava-se paralisado, inerte. Foi muito difícil colocá-lo dentro do veículo. A tempestade atingira uma violência inacreditável. A clareza em torno deles crescia rápida e constantemente. A oeste, o céu era uma única luminosidade, contra a qual se destacavam tristemente os restos das casas, as muralhas esfaceladas e os alicerces arrancados. A temperatura exterior havia se elevado a quatrocentos e trinta graus e subiu à razão de aproximadamente quatro graus a cada dez segundos. Os potentes mecanismos de refrigeração dos trajes espaciais passaram a funcionar a toda potência. O uivo da tempestade estava sendo superado por um trovejar, que parecia vir das profundezas de Fera Cinzenta e fazia tremer o chão. Esperavam que a qualquer momento a terra se rompesse e soltasse torrentes de lava incandescente. Sabiam que uma catástrofe desse tipo era perfeitamente possível. O incêndio nuclear desenvolvia temperaturas de vários milhões de graus e fazia fundir os núcleos dos átomos. E a energia liberada, em virtude do desarranjo dos núcleos atômicos, fazia a temperatura subir cada vez mais, não permitindo que o incêndio se extinguisse. A fusão dos núcleos atômicos admitia uma série de variantes. As funções da bomba de Árcon não se restringiam à fusão do silício com os núcleos do próprio silício ou do sódio com os núcleos dos átomos do cálcio. Embora isso fosse menos provável, também poderia ocorrer 153


a fusão de dois núcleos atômicos diferentes, como por exemplo a de um núcleo de silício com um núcleo de sódio. De qualquer maneira, a propagação da fogueira atômica se verificava com maior rapidez na direção em que a massa de fusão era mais homogênea, ou seja, mais uniforme, formada de um só elemento. Se, por exemplo, a oeste o fogo atingisse uma veia de cobre que surgisse à luz do dia e que se estendesse embaixo do solo em direção ao leste, nesse caso o fogo prosseguiria com maior rapidez subterraneamente, seguindo a porção de matéria homogênea. Já na superfície, onde teria de atingir a massa heterogênea de vários elementos, sua propagação seria mais lenta. Não havia nenhum sinal pelo qual se pudesse saber se, naquele instante, o fogo já ardia sob os pés dos homens, ou melhor, sob os alicerces da antiga cidade de Greenwich. Só no momento em que o incêndio se alastrasse a uma camada de solo menos estável, o tremendo calor abriria caminho para cima, racharia o solo e atiraria para a superfície todos os produtos incrivelmente quentes do processo de fusão subterrânea. O veículo encontrava-se na rua. Tiveram de reunir as últimas forças para erguer Reginald Bell por cima do muro atrás do qual estivera deitado. Quinze minutos pareciam passar num instante. A oeste, a parede de fogo continuava a crescer inexoravelmente. A escuridão já havia cedido lugar a uma claridade radiante. E o vento se tornara maligno. Toda vez que acreditavam dispor de uma pequena pausa, voltava a golpeá-los, atirando-os para trás. Do outro lado da rua, os alicerces de uma casa explodiram ruidosamente. Uma chuva de fagulhas espalhou-se por todos os lados. Fellmer Lloyd abrigou-se instintivamente. Com isso, soltou Reginald Bell, que sob a força da tempestade voltou a escorregar para junto da muralha sobre a qual o haviam passado. Tiveram de fazer o mesmo esforço outra vez! Perry Rhodan sentiu que a dor de cabeça ameaçava estourar-lhe o crânio. O braço esquerdo, destroncado ao bater contra o muro, estava sendo inundado por verdadeiras ondas de dor. Mas, mesmo assim, continuou avançando banhado em suor. O ato da respiração havia ficado difícil. Sempre que abria a boca, como alguém que morre sufocado, e procurava encher os pulmões de ar, sentia uma pontada no peito que quase o deixava louco. Gritava, dizia que Fellmer Lloyd era um idiota por ter soltado Bell e o recriminava por andar muito devagar. Mas Lloyd não ouvia nada, pois também gritava ininterruptamente. Até mesmo Atlan, o arcônida, já perdera a calma. Com palavrões arcônidas respondeu à sensação de medo que lhe oprimia a garganta. Finalmente conseguiram. A parede de fogo já havia chegado à periferia da cidade. As peças de plástico que haviam resistido à tormenta derreteram-se e estouraram. O veículo começou a balançar. Reunindo as ultimas forças, arrastaram o corpo imóvel de Reginald Bell para cima e enfiaram-no pela escotilha da pequena comporta. Depois

disso, mal lhes restava energia para penetrar na comporta, comprimir-se no reduzido espaço da cabina e fechar a escotilha. O ar quente foi expelido muito devagar e substituído por ar puro e fresco, vindo do reservatório do veículo. No momento em que a luz verde se acendeu, Perry Rhodan deixou-se cair para o lado e bateu com o ombro direito contra a escotilha interna. A escotilha abriu-se. Rhodan entrou aos tropeções na cabina de passageiros, segurou-se na poltrona do piloto e jogou-se de encontro aos comandos. Com alguns movimentos automáticos, acionou o motor. De um instante para outro, os contornos chamejantes dos restos dos edifícios foram diminuindo. Depois de algum tempo, desapareceram sob o tapete do incêndio nuclear. Agindo como uma máquina, Perry Rhodan regulou a rota do veículo. Altitude: máxima. Velocidade: máxima. Direção: leste. O estabilizador trabalhava a plena potência. À medida que o veículo subia, a velocidade da tormenta ia diminuindo. Em compensação, surgiram os componentes verticais da velocidade do vento. As superfícies aquecidas pelo incêndio nuclear faziam as massas de ar subirem na vertical, e sua influência tinha de ser neutralizada. Rhodan o fez apenas na medida em que isso se tornava necessário, para que o veiculo obedecesse ao comando. Aproveitou o resto da componente vertical, a fim de subir mais depressa do que o propulsor teria conseguido. Dali a dez minutos, percebeu que estavam em segurança. A superfície incandescente do incêndio nuclear afastou-se para oeste. O veículo atingira uma altitude de quinze quilômetros e, nesse setor, a temperatura do ar era pouco superior ao normal. Mas o sol não apareceu mais. As energias nucleares desencadeadas haviam atirado a fumaça e as nuvens de pó para as camadas superiores da atmosfera, impedindo, a partir de agora, que Fera Cinzenta visse a face do sol... a partir de agora e para sempre, pois, dentro de três ou quatro dias, o planeta deixaria de existir. Pela primeira vez Rhodan teve tempo para olhar os colegas. Reginald Bell e Fellmer Lloyd jaziam imóveis no solo. Ao que parecia, o choque provocado pela aceleração, que o débil campo antigravitacional do veículo não conseguira neutralizar inteiramente, fizera com que Lloyd tombasse. O destino de Atlan fora idêntico. Mas agora o arcônida já começava a erguer-se entre dois bancos. Perry Rhodan o viu sorrir por entre a sujeira que cobria o visor de seu capacete. Era um sorriso cansado. E os olhos injetados de sangue e profundamente encovados completavam o quadro do esgotamento total. — Conseguimos bárbaro? — perguntou o arcônida em voz baixa. Perry Rhodan fez que sim. Pretendia responder alguma coisa, mas sua voz não obedecia. Teve de engolir fortemente por algumas vezes. Os pulmões martirizados libertaram-se por meio de um acesso de tosse, que durou vários minutos. O processo foi doloroso, mas as palavras 154


foram perfeitamente inteligíveis: — Por enquanto sim, almirante. Você sabe que só estaremos a salvo, quando conseguirmos sair deste planeta. Empurrando-se nos bancos, Atlan foi chegando para a frente e tomou lugar ao lado de Rhodan. — Fiquei refletindo sobre o robô arcônida — disse. — Tenho certeza de que não estava só. — Também tenho certeza — confirmou Rhodan. Estava tão cansado que não conseguia sentir-se curioso para saber onde o arcônida pretendia chegar. — Devem ter vindo num barco espacial, que os trouxe de uma das naves arcônidas, não é? — Sem dúvida. Mas não tivemos tempo para procurar sua nave auxiliar. Além disso, devem ter dado o fora antes de nós. — Pois é. Mas é possível que voltem a procurar-nos, num lugar ainda distante da fogueira nuclear. Perry Rhodan olhou para o lado e conseguiu esboçar um débil sorriso. — Nesse caso, almirante — respondeu em tom enfático — vamos cuidar o quanto antes de sua nave auxiliar. Atlan acenou com a cabeça; parecia pensativo. Dali a alguns segundos, quando voltou a falar, o timbre de sua voz era diferente. — O que vamos fazer? — Muita coisa — respondeu Perry Rhodan. — Antes de qualquer coisa, precisamos procurar um lugar mais ou menos seguro onde possamos descansar algumas horas. — Numa ilha — sugeriu Atlan. — Fico satisfeito em notar que também neste ponto nossas opiniões coincidem — respondeu Perry Rhodan numa amável ironia. — O incêndio nuclear não atingiu a atmosfera de Fera Cinzenta. Por isso podemos admitir com toda segurança que as bombas de Árcon, lançadas no planeta, não (oram ajustadas para os elementos cujo número de ordem é sete e oito, ou seja, para o nitrogênio e o oxigênio). Uma das ajustagens mais comuns das bombas é a do número dez. Quando todos os elementos cujo número de ordem é superior a dez entram na reação, o núcleo sólido do planeta não escapa à destruição. E a destruição da atmosfera é por assim dizer automática. Olhou para Atlan, que confirmou com um gesto. — Dali se conclui — disse este — que a água, composta dos elementos oxigênio e hidrogênio, originariamente não será atingida pelo fenômeno. — Originariamente — repetiu Perry Rhodan, enfatizando a palavra. — O incêndio nuclear não é detido na margem de um oceano. O calor que se desenvolve na periferia da área de incêndio não será suficiente para evaporar a água e deixar descoberto o fundo do mar. Mas o processo sofre um retardamento. A propagação através do fundo do mar é dez vezes mais lenta que na terra firme. É bem verdade que, para uma pessoa que se encontre numa ilha, existe outro perigo. O incêndio pode propagar-se embaixo do leito do oceano, avançando até a ilha, fazendo com que o homem insulado, que se acreditava em

segurança, realmente esteja sentado sobre a cratera de um vulcão. — É verdade — disse Atlan. — De qualquer maneira, temos de aproveitar todas as chances, por menores, que sejam. Por isso pousaremos numa ilha. — Vamos trabalhar com o equipamento de localização — prosseguiu Rhodan — para verificar se os arcônidas ainda estão por aí. Em caso negativo emitiremos pedidos de socorro. Assim virão buscar-nos, dentro de poucas horas. — E depois? Por algum tempo a pergunta parecia oprimi-los. Apesar do cansaço, Perry Rhodan não deixou de perceber o tom estranho que vibrava na voz de Atlan. — Depois — respondeu tranquilamente — prosseguiremos nos preparativos para o ataque contra Árcon. Não se trata de um assunto puramente pessoal entre mim e o regente de Árcon. O que está em jogo é a existência da Terra. Perdemos uma base e alguns homens muito bons. Foi isso que mudou nestas últimas horas. Mas o que não mudou é a necessidade de obrigar o regente de Árcon a agir razoavelmente. Atlan refletiu. Depois de alguns minutos, respondeu: — Acho que você tem razão, bárbaro. Admiro sua persistência. *** O veículo deslocava-se a uma velocidade de quinhentos quilômetros por hora. Era o máximo que seus motores permitiam. Tratava-se de um veículo de múltiplas finalidades, que podia servir de automóvel, avião, barco e submarino. Destinava-se às expedições a serem realizadas depois do pouso de uma espaçonave num planeta estranho, nas quais não se pudesse escolher o terreno em que o veículo teria de operar. Seus construtores não tiveram a intenção de fazer dele um veículo de corrida. Os quatro fugitivos, dois dos quais continuavam inconscientes, levaram pouco menos de três horas para atingir o litoral oriental do continente, situado a mil e quatrocentos quilômetros da base. Em frente à costa leste, estendia-se uma península estreita que avançava do sul. Estava separada do continente por um braço de mar de oitenta quilômetros de largura. Além da península, começava o grande oceano central, que naquele lugar tinha uma largura de perto de sete mil quilômetros. Pelo oceano espalhavam-se algumas centenas de ilhas pequenas e minúsculas. Perry Rhodan escolheu uma que ficava no centro do oceano. Enquanto voavam sobre a parte leste do continente, perceberam toda a extensão da catástrofe que se abatera sobre Fera Cinzenta. Sobrevoaram as áreas atingidas pelos incêndios provenientes de cinco bombas de Árcon. Parecia o fim do mundo. Em muitos lugares, o incêndio nuclear havia penetrado profundamente no interior do planeta, para irromper em outro lugar com a violência de dez mil vulcões. Colunas de lava incandescente subiam no local de irrupção e, ao atingirem a estratosfera, espalhavamse em gigantescos cogumelos. Verdadeiros oceanos de 155


pedra liquefeita cobriam os lugares em que, no dia anterior, ainda havia uma selva verdejante. Os rios haviam desaparecido. As paredes recurvadas de vapores brancos assinalavam o traçado que tiveram no dia anterior. Os microfones externos da embarcação transmitiam os estouros, estalidos, chiados e burburinhos do cataclismo que, dentro de poucos dias, destruiria todo um planeta. Nenhum sinal da dor, do medo e do pânico, que naquelas horas se apossava dos animais desse mundo, chegou às alturas onde se movia o veículo. A fantasia daqueles homens que procuravam colocar-se em segurança muito acima da fúria do elemento seria impotente para imaginar a miséria que se abatera sobre Fera Cinzenta. Alcançaram a costa ao pôr do sol. Sabiam que era a hora em que o sol se punha. Não puderam ver o sol. Pouco depois de terem sobrevoado a península, Fellmer Lloyd recuperou os sentidos. Queixou-se de dores de cabeça. Perry Rhodan pediu-lhe que fosse buscar a caixa com os medicamentos. Ele mesmo bem que precisava de uns comprimidos. Sua cabeça não estava melhor que a de Fellmer Lloyd, e a dor no pulso esquerdo crescera tanto que mal podia abrir a mão. Dali a uma hora, Reginald Bell também recuperou os sentidos. O corpo já havia superado as piores conseqüências do choque nervoso. Ao despertar, deu sinal de sua presença da maneira seca e dramática que lhe era peculiar. Ergueu o corpo sobre os cotovelos, gemeu e finalmente disse num acesso de humor fúnebre: — Que hospital é este em que os pacientes são jogados no chão?

3 A disseminação de campos alternados hipereletromagnéticos, usada no sistema de comunicações instantâneas pelas amplidões incomensuráveis do espaço, constitui um exemplo flagrante do caráter dificilmente explicável dos fenômenos da física moderna. É bem verdade que as vibrações hipereletromagnéticas podem ser representadas por fórmulas matemáticas iguais às relativas aos fenômenos eletromagnéticos da eletrodinâmica clássica. Acontece que até esta possui alguns traços não explicitáveis. Vista por uma pessoa não familiarizada com o assunto, a hipereletrodinâmica não fez outra coisa senão erigir em necessidade o caráter não explicável e fazer desaparecer os últimos remanescentes do explicitável. A capacidade de imaginação do homem não foi feita para conceber um vetor que pode ser decomposto em cinco componentes, que se distinguem pelos respectivos eixos e que periodicamente modifica seu tamanho no espaço de cinco dimensões. Além disso, precisa-se lançar mão de uma teoria física inteiramente nova para explicar como nesse espaço de

cinco dimensões, também denominado hiperespaço, não prevalecem nem mesmo as restrições da mecânica relativista, e que, no mesmo, o decurso do tempo deve ser medido por um novo padrão, daí resultando que, no hiperespaço, todos os fenômenos se processam infinitamente mais depressa que no espaço normal ou einsteiniano. É bem verdade que esse fenômeno não é só aproveitado na técnica de hipercomunicações. A astronáutica vale-se dele para os hipersaltos ou transições. De resto, não é só quanto à representação através de fórmulas que as ondas hipereletromagnéticas, abreviadamente designadas como hiperondas, têm muito em comum com as ondas eletromagnéticas. Tal qual acontece com estas, são absorvidas ou refletidas por certos materiais, enquanto penetram em outros. Além disso, as hiperondas utilizadas nas comunicações usuais pelo rádio são dotadas de um volume energético equivalente aproximadamente às ondas roentgen do espectro eletromagnético, situadas na faixa entre os dez e os cem angstrom. Face a isso, a hiperonda é capaz de produzir os efeitos que já conhecemos nas ondas roentgen: é capaz de ionizar e estimular. É nesse efeito que se baseia a técnica goniométrica de hiper-rádio. Imaginemos uma esfera cujo material seja capaz de absorver uma percentagem elevada de hiperondas. Imaginemos ainda que a esfera é tão espessa que qualquer hiperonda, por mais potente que seja não consiga penetrar além do centro da mesma. Dessa forma, teremos uma antena goniométrica de hiperrádio. A esfera é subdividida em milhares de pequenos setores esféricos, ou seja, de cones cujo vértice fica no centro da esfera e cuja base se situa na superfície da mesma. Assim, a antena esférica terá uma superfície facetada. Para continuarmos fiéis à imagem, diremos que os pequenos cones são câmaras de ionização, feitas de matéria sólida. Pode-se medir a ionização causada pela hiperonda que incide sobre essa câmara. E também se pode medir a direção da qual provém a onda. Finalmente, pode-se determinar a distância entre transmissor e receptor, desde que o operador domine o complicado mecanismo matemático da potência irradiada, potência captada, resistência às ondulações oferecida pelo vácuo e por todas as porções de matéria, situadas entre receptor e transmissor. Dessa forma, dispõe-se de todos os elementos de que precisa o goniometrista para localizar o transmissor: as duas coordenadas dos ângulos teta e phi e o valor do vetor do raio. É bem verdade que o goniometrista terá outros problemas. Tal qual acontece com todas as medições, também a determinação da posição de um transmissor está ligada a uma margem de erro inevitável, determinada pelo poder de difusão do equipamento. É o que os goniometristas costumam chamar de fator de insegurança. Se designarmos a distância entre o transmissor e o goniômetro por r, o fator de insegurança, segundo uma 156


velha regra pragmática, crescerá à razão r 1-6. Isso significa que, se a uma distância de um ano-luz o goniômetro pode determinar a posição do transmissor com uma precisão de mais ou menos mil quilômetros, numa distância de dez anos-luz, esse fator de insegurança crescerá para mais ou menos quarenta mil quilômetros, e numa distância de cem anos-luz, para mais ou menos seiscentos mil quilômetros. O volume a ser vasculhado corresponde à terceira potência do fator de insegurança, uma vez que este representa o raio da esfera dentro da qual deve ser procurado o transmissor. Assim sendo, o tempo que deverá ser despendido para que se possa ter à mão uma transmissão crescerá em média na proporção de r 4-6. Apresentaremos outra ilustração numérica. O goniômetro, que constatou um emissor a uma distância de um ano-luz, precisará em média de um minuto para localizá-lo. Esse tempo não inclui o tempo gasto na aproximação, mas apenas a operação de busca na áreadestino. Nessa hipótese, o goniometrista que, ao captar o sinal, se encontrava a uma distância de dez anos-luz, gastará, em vez de um minuto, quarenta mil minutos, ou seja, cerca de vinte e oito dias. É claro que isso se baseia na suposição de que tenha sido captado um único sinal, e que o transmissor não continue a emitir sinais durante as buscas. É óbvio que estas indicações são unilaterais. Fundam-se numa série excessiva de pressupostos, como exemplo: o de que numa operação realizada a uma distância de dez anosluz seria utilizada a mesma aparelhagem empregada à distância de um ano-luz, não um equipamento melhor, que reduziria o tempo de busca, ou um equipamento inferior, que o aumentaria. É claro que, nos cálculos práticos, estes fatores se revestem de uma importância marcante. Mas uma coisa permanece de pé: um goniometrista que se encontre a grande distância precisará de mais tempo para localizar um emissor, cuja presença já foi constatada, que aquele que se encontrava mais próximo. Estas considerações não só são úteis para acostumar os aspirantes de oficiais de rádio da Academia Espacial com a técnica do hiper-rádio. Num momento decisivo, poderão modificar radicalmente o curso da história galáctica. *** Vista de cima, a ilha apresentou-se nas telas de luz infravermelha com um péssimo aspecto. Quando o veículo desceu, seus ocupantes perceberam que esse péssimo aspecto era devido a uma cadeia de montanhas de cerca de dois mil metros de altura que rodeava toda a ilha. Os quatro ocupantes do veículo nunca haviam visto uma ilha como aquela. De qualquer maneira, porém, era um ótimo abrigo para quem quisesse permanecer em Fera Cinzenta durante as últimas horas que antecediam o fim do planeta. A cordilheira litorânea deteria os maremotos, que quisessem investir contra a ilha. Enquanto descia sobre a ilha, o veículo balançava assustadoramente. Durante as dez horas ou mais de voo,

consumira vinte vezes mais energia na estabilização da rota que na propulsão. Segundo se concluía das indicações constantes do painel à frente de Perry Rhodan, nas condições atuais, as reservas dariam no máximo para cinquenta quilômetros. No entanto, os ocupantes do veículo sentiam-se muito melhor do que corresponderia às circunstâncias. Uma observação espacial, realizada há duas horas, revelara que, ao menos sobre a parte do planeta abrangida, não havia nenhuma nave arcônida. Era bem verdade que também não existia qualquer nave terrana. Quer dizer que o inimigo se retirara. Estava convencido do êxito alcançado com o bombardeio. O mundo de Fera Cinzenta já não representava qualquer elemento de risco. Fellmer Lloyd esvaziara a caixa de medicamentos e encontrara uma coisa para cada ocupante do aparelho. Para si mesmo, Atlan e Perry Rhodan encontrou um analgésico e, para Reginald Bell, um preparado que expelia do sangue os restos do choque nervoso. Aguardavam febrilmente o momento em que, uma vez atingido um ponto fixo na superfície, pudessem expedir seu pedido de socorro e aguardar a chegada de uma nave terrana. Perry Rhodan pousou bem no centro da ilha. Ficou sentado por um instante, deixou os olhos vagarem sobre a savana que enchia a bacia da ilha. Depois observou os instrumentos que registravam o teor de radiatividade fora do veículo. Esse teor chegava a sessenta rens por hora. Nenhum homem sensato se disporia a aguentar por alguns minutos tal índice de radiatividade. Com um suspiro, Rhodan desligou as lâmpadas infravermelhas. A tela apagou-se. A pequena cabina do veículo estava totalmente isolada da escuridão, onde rugia o fim do mundo. — Ficaremos aqui! — decidiu Rhodan. — Não adianta pôr o nariz para fora. Fez um sinal para Fellmer Lloyd. O mutante pegou a pequena bolsa, onde estava o transmissor, e colocou-a sobre o painel, ao lado de Perry. Rhodan levantou a tampa de plástico e fitou por alguns segundos o pequeno painel que surgiu sob a mesma. “O que acontecerá se o transmissor não estiver funcionando?”, pensou Rhodan martirizado. Finalmente levantou a mão num gesto decidido e comprimiu o pequeno botão vermelho que ficava no canto inferior esquerdo do painel. No mesmo instante, a luz, de controle, embutida no botão, acendeu-se. O aparelho emitiu um zumbido agudo que, para os ocupantes do veículo, foi o ruído mais agradável ouvido nas últimas vinte e quatro horas. Não havia praticamente mais nada a fazer. Como a bordo do veículo não existissem meios que permitissem fazer da antena do microcomunicador uma antena direcional, apontando-a para o lugar em que a frota terrana se reunira para o ataque contra Árcon, Perry Rhodan não teve outra alternativa senão irradiar um sinal difuso. O 157


pedido de socorro estava codificado e especialmente programado no interior do transmissor. Bastaria comprimir um segundo botão para emitir e irradiar a mensagem. Ouviu-se um ligeiro clique, quando Rhodan comprimiu o botão, e mais um quando o botão voltou à posição inicial. — Trinta a oitenta minutos a partir de agora — disse. — Depois disso, deverão aparecer. *** André Larchalle era um jovem com um complexo de inferioridade profundamente enraizado. Na opinião de seus professores quase chegava a ser um gênio, mas em sua opinião ainda não havia realizado nada na vida; apenas conquistara a patente de tenente depois de seis semestres em vez de oito. André Larchalle estava de plantão em uma das salas de rádio da Drusus. Conforme era de seu hábito, preferiu operar pessoalmente um dos aparelhos, em vez de recostarse confortavelmente na poltrona do oficial e esperar que seu quarto de serviço passasse. Assim que o sinal chegou, André Larchalle pôs-se de pé de um salto. Antes que o sargento de cabelos grisalhos que se encontrava três poltronas adiante, junto aos aparelhos de interpretação, percebesse que alguma coisa acabara de acontecer, Larchalle colocou-se atrás dele e disse: — Vamos logo! O que está esperando? O que diz a interpretação? O sargento lançou um olhar contrariado para os aparelhos. — O que diz a interpretação sobre o quê, tenente? — perguntou com a voz tranquila. No mesmo instante, algumas lâmpadas acenderam-se à sua frente. — Sobre isso! — respondeu Larchalle um tanto zangado. — Ande depressa! Talvez seja o sinal de Fera Cinzenta. O sinal. Esse sinal só poderia dizer uma coisa: “Socorro! Venham buscar-nos!” Há mais de seis horas todos os tripulantes da Drusus aguardavam esse sinal. O sargento não levou mais de um segundo para sair do conforto sonolento para a atividade máxima. Seus dedos passaram com uma rapidez espantosa sobre as teclas de comando. No interior do painel que se encontrava à sua frente, ouviu-se um ruído matraqueante. Um pequeno computador positrônico estava interpretando os dados fornecidos pela antena esférica e extraía as necessárias conclusões dos mesmos. Subitamente o computador forneceu os dados! Com um gesto impaciente, André Larchalle arrancou a fita das mãos do sargento e caminhou rapidamente três poltronas adiante, a fim de entregá-la a um jovem cabo. Este a enfiou com um movimento rápido na fenda de uma pequena caixa parafusada à mesa que tinha à sua frente. Depois disso, moveu algumas chaves que se encontravam na tampa da mesa e recostou-se confortavelmente. — Quanto tempo demorará? — perguntou Larchalle.

A pergunta era supérflua, pois ele já conhecia a resposta. A demora seria de dez a dois mil minutos, de acordo com a precisão da parte do catálogo que correspondia aos dados a serem interpretados. André Larchalle voltou a seu lugar e obrigou-se a permanecer calmo. Ficou refletindo sobre se devia notificar a sala de comando, antes de determinar o ponto do qual fora expedido o sinal. Esteve prestes a comprimir o botão de chamada do intercomunicador, mas refletiu um pouco. Naquele instante, ouviu-se o som da campainha. Com um salto, colocou-se ao lado do jovem cabo e arrancou-lhe das mãos a flta-resposta do computador-catálogo. Apenas poucas linhas estavam impressas na pequena folha. Diziam o seguinte: Sistema Mirta, órbita VII, ± 1.225.000 M. Agora que segurava o resultado na mão e via que essa era a notícia que todos aguardavam, André Larchalle foi a calma em pessoa. Olhou em torno, e os homens que o fitavam atentamente viram que seus olhos brilhavam. — Nós os encontramos, gente! — exclamou em tom exultante. — Ainda existe gente viva em Fera Cinzenta! Depois disso, voltou à sua poltrona e avisou a sala de comando. *** O chão tremia. Mas, no interior da cadeia circular de montanhas, a tempestade apenas tinha uma fração da força que lá fora causava tamanha desgraça. Saíram do veículo e andaram pela escuridão. Quando a nave chegasse, esta seria alcançada mais depressa a pé do que com o veículo, pois este teria de ser introduzido pela comporta. Desde a emissão do sinal, já se haviam passado 20 minutos. Dali a mais dez, a nave salvadora poderia chegar. Deveriam sentir-se felizes com a salvação que estava prestes a vir, mas o tremor do solo constituía sinal de que o incêndio nuclear já havia chegado ao subsolo da ilha. Não sabiam se a desgraça os pouparia por mais dez minutos. Perry Rhodan pendurou o microcomunicador ao pescoço e ligou o receptor a um contato de seu capacete. Esperava uma resposta, embora soubesse que não a obteria, a não ser que o comandante da nave que viesse em seu auxílio fosse um idiota. Na situação em que se encontravam, qualquer tráfego de rádio, por menor que fosse, representava um perigo. Apesar disso, Rhodan esperava. Falavam muito pouco. Sentados sobre pedras espalhadas pela savana, apoiavam os pés firmemente no chão e prestavam atenção ao rugido vindo das profundezas da terra. A temperatura exterior era pouco inferior a cem graus centígrados. Rhodan olhou para o relógio; vinte e cinco minutos já se haviam passado. Dentro de cinco 158


minutos, transmitiria mais um sinal goniométrico, a fim de que a nave pudesse orientar-se. Deixou cair o braço e começou a contar os segundos. Quando chegou ao número trinta e dois, alguma coisa vinda de baixo agarrou a pedra na qual estava sentado e atirou-a para o alto. Perry Rhodan foi junto! Viu confusamente os contornos dos arbustos, que se aproximavam vertiginosamente. Abriu os braços para amortecer a queda. Com um estrondo imenso, caiu em meio a uma confusão de galhos e folhas duras. A queda foi então amortecida. O impacto do corpo de Rhodan dividiu em dois o arbusto sobre o qual caíra. Estava apenas um tanto confuso. Dali a dois segundos pôs-se de pé e procurou descobrir a direção da qual viera. Naquele instante, sentiu-se ofuscado por um forte raio de luz. Segundos depois, o ribombo de uma enorme explosão soou nos alto-falantes e fez seus ouvidos zumbirem. Pôs a mão no capacete e reduziu o volume dos microfones externos. Uma violenta onda de pressão aproximou-se do lugar em que estava. Na ofuscante luz amarela, viu os arbustos ondularem que nem a água de um lago. Abrigou-se antes que a onda o atingisse. Pedras e blocos de pedra foram atirados contra ele, cobrindo-o. Os espinhos arranharam seu traje. Alguma coisa atingiu-o violentamente no ombro, fazendo-o sentir dores. Perry Rhodan levantou-se com grande esforço e pôs-se a gritar. Chamou os nomes dos companheiros e, de algum lugar, veio uma resposta. Não entendeu o que diziam. À sua direita, a menos de um quilômetro do lugar em que se encontrava, uma coluna incandescente subiu ao céu. Bramindo e roncando, os gases e a lava tangidos pela força de centenas de milhares de graus de calor subiam e continuavam a dilacerar a terra, abrindo sempre novas passagens para os fluxos chamejantes. O incêndio nuclear atingira a ilha, que se esfacelava. Perry Rhodan continuou no mesmo lugar. Não adiantava mais. Não havia salvação. “É o fim, seu idiota”, pensou numa disposição zangada. “Você pensou que, dentro de setenta anos, pudesse transformar a Terra na potência dominante da Via Láctea. Agora estão apresentando a conta, e você não poderá deixar de pagá-la. Não há saída.” Olhou em torno, em atitude tranquila, quase relaxada, conforme fizera durante toda a vida. A coluna de lava, que dera início à destruição da ilha, transformou-se em vinte, quarenta, cem... No centro da ilha, havia uma área estreita e alongada ainda não atingida pelo desastre. Os arbustos ardiam, mas o chão parecia firme. “Será que devo correr para lá a fim de prolongar minha vida por alguns segundos?”, refletiu. Viu um vulto agachado que corria em meio à vegetação. Movia-se de forma grotesca, planando uns quatro metros a cada salto que dava. Era Bell, Atlan ou Lloyd. Ligara o gerador antigravitacional para diminuir o peso do corpo.

Corria em direção ao lugar ainda não atingido pelo caos. Perry Rhodan ficou espantado. O que adiantava correr para salvar uma vida que, de qualquer maneira, estava perdida? Estreitou os olhos, evitando que a claridade o perturbasse. Foi então que viu. Era um vulto reluzente e gigante, pouco nítido. A iluminação vinha de baixo. Era a espaçonave! *** Não foi necessário despertar o General Deringhouse. Ele jurara a si mesmo que, enquanto houvesse uma esperança de salvar alguém que se encontrasse em Fera Cinzenta, não dormiria. Quando André Larchalle transmitiu sua informação, o próprio Conrad Deringhouse achava-se junto ao intercomunicador. Com a rapidez inimitável que os tripulantes admiravam em sua pessoa, preparou a Drusus para entrar em ação. A nave passou a deslocar-se à velocidade máxima. Os instrumentos de observação mantinham-se em silêncio. Ao que parecia, não havia mais naves arcônidas por perto. Era bem verdade que Conrad Deringhouse envelhecera demais no exercício da profissão, para dar um excessivo valor às aparências. Recomendou aos homens dos postos de observação que mantivessem um máximo de atenção. Sabia perfeitamente que era muito difícil localizar, a partir de uma nave em movimento, outro veículo espacial que se encontrava a alguns milhões de quilômetros de distância, mantendo-se em silêncio e com os propulsores desligados, sem transmitir qualquer mensagem pelo rádio. E foi a desconfiança de Deringhouse que salvou a Drusus da destruição... Quando a gigantesca nave se havia aproximado a dois milhões de quilômetros de Fera Cinzenta, o negrume do espaço começou a cuspir naves arcônidas. Os observadores constataram a presença do inimigo, quando as naves passaram a acelerar em direção à Drusus. Dali a mais alguns minutos, aproximaram-se à distância de um tiro. Era uma frota composta de cerca de cem unidades. Conrad Deringhouse cerrou os dentes e deu ordem de abrir fogo. Por maior que fosse o número de arcônidas que se interpunham em seu caminho, teria de chegar a Fera Cinzenta. *** Perry Rhodan corria sem parar. Ligou o pequeno gerador antigravitacional e logo sentiu seu peso diminuir. Empurrou-se com toda força do chão, passou por cima da fenda do solo que se abria naquele instante e parou a uns cinco metros de distância. Deu um segundo pulo e um terceiro. Quando estava preparando o quarto, a espaçonave escamoteou as colunas de apoio telescópicas e as comprimiu fortemente contra o chão balouçante. À sua direita e à sua esquerda, viu mais dois vultos que tropeçavam e corriam. Chegaram ao mesmo tempo que 159


Rhodan no lugar oval de pouco menos de cem metros de comprimento que fora poupado pela desgraça. A nave pousara no centro dessa área. Uma escotilha da comporta do pé da nave abriu-se. Era uma abertura de apenas dois metros por dois metros, mas esta representava a salvação. Ficava cinco metros acima do solo. Era demais para que pudesse ser alcançada num único salto. O homem, que Perry Rhodan vira correr em primeiro lugar, colocou-se embaixo da comporta, com os braços abertos, e olhou para cima. A extremidade de uma fita rolante surgiu na abertura, saiu pela mesma e desceu ao chão. No momento em que a fita tocou o solo, os quatro estavam lado a lado: Perry Rhodan, Atlan, Reginald Bell e Fellmer Lloyd. Depois de tanta correria, finalmente tiveram tempo para lançar um olhar de estímulo uns aos outros. Pisaram um após o outro na fita estreita que os levou para cima. Ela os levou pela abertura da comporta e colocou-os do lado de dentro. Logo subiu e escorregou para dentro da nave. Desapareceu na fenda do soalho que era o lugar em que ficava guardada. A escotilha externa da comporta fechou-se. Abraçaram-se e balbuciaram palavras desconexas. No último instante, ainda haviam enganado a morte. Depois de alguns minutos, a tormenta de alegria amainou e os quatro amigos deram-se conta de que não poderiam permanecer na comporta, durante todo o tempo de vôo. Resolveram dirigir-se à sala de comando. Iriam transmitir seus agradecimentos ao comandante, fosse ele quem fosse. Caminharam em direção à escotilha interna. Antes que a atingissem, ela abriu-se... Na abertura surgiu um monstro, um robô. Tinha dois metros de altura. Perry Rhodan, que caminhava à frente do grupo, estacou. Como que num sonho viu o robô abrir sua boca repugnante. Ouviu as palavras proferidas pela voz mecânica e impessoal: — Sejam bem-vindos a bordo da Lan-Zour, uma das naves de Sua Alteza, o regente de Árcon. *** Acelerando ao máximo, a Drusus atravessou as fileiras das naves inimigas, que investiam sobre ela, vindas de todos os lados. Entre os arcônidas não havia nenhuma nave que tivesse o tamanho da Drusus, motivo por que nenhuma delas isoladamente lhe traria maiores incômodos. Só mesmo o fogo conjunto de vários veículos espaciais poderia danificar a nave capitania da frota terrana. Os campos defensivos da Drusus iluminaram-se sob o relampejar ininterrupto das descargas energéticas por eles absorvidas. Mas não houve sério perigo para o General Deringhouse e seus tripulantes. Em contrapartida, as torres de canhões, muito bem ajustadas da nave capitania, destruíram mais de dez naves inimigas, e causaram avarias tão pesadas em outras vinte e cinco que essas nem seriam capazes de deixar o sistema de Mirta com suas próprias forças.

A maior proteção da Drusus consistia em sua enorme velocidade. Conrad Deringhouse abandonou todas as normas que regulavam o deslocamento das grandes naves no interior dos sistemas planetários. Confiou na potência dos seus agregados e arrancou o máximo dos propulsores da nave. Não tinha um segundo a perder. Fera Cinzenta estava prestes a explodir. Já as naves arcônidas eram dirigidas por robôs. E os robôs tinham recebido instruções sobre as manobras que poderiam arriscar nas imediações de um grande planeta. Não dispunham de poderes para deixar de lado essas instruções. Dessa forma, as unidades arcônidas foram bem mais lentas que a Drusus, que aos olhos dos seres orgânicos que sobreviveram à batalha devia parecer um monstro que cuspia fogo, trazendo a morte e a destruição, e contra o qual seria inútil lutar. Conrad Deringhouse nem percebeu que o fogo inimigo diminuiu e acabou cessando de todo. Mantinha contato ininterrupto com a sala de rádio. Via na tela o rosto de André Larchalle, que estava rubro de excitação, aguardando que os sobreviventes de Fera Cinzenta enviassem o primeiro sinal goniométrico. Um dos operadores de rádio de Larchalle emitia sem cessar mensagens pelo telecomunicador, pedindo que Fera Cinzenta respondesse. Se lá embaixo houvesse alguém que possuísse um hiperrádio, esse alguém não poderia deixar de ouvir as mensagens e respondê-las. Mas era praticamente inacreditável que ainda houvesse alguma coisa viva naquela bola incandescente, que já atingira o dobro de seu tamanho normal... Enquanto a Drusus freava a toda força, a fim de não penetrar em velocidade interestelar na atmosfera superaquecida, as proporções da devastação tornaram-se bem perceptíveis. Havia um restinho de esperança de que lá embaixo ainda houvesse um pedacinho de chão firme no qual alguém, que estivesse equipado com um traje protetor, se conservasse vivo. Mas o receptor continuou mudo. Era bem verdade que nas faixas extremas captavam ruídos esquisitos que jamais tinham sido ouvidos, tais como ondas de choque hipereletromagnéticas emitidas por um planeta moribundo. Porém desses ruídos não se podia extrair qualquer sentido, pois não provinham de um transmissor manejado por uma criatura pensante. A Drusus penetrou nas massas de gases incandescentes. Com os mecanismos propulsores uivantes atravessou o caos, deixando atrás de si um rastro de gases ionizados incandescentes, cuja luminosidade chegava a ser mais forte que a das colunas de lava que subiam ao céu. Conrad Deringhouse não estava disposto a capitular. Há quarenta minutos ainda existiam seres vivos lá embaixo, e esses seres humanos tinham expedido um pedido de socorro. Por cinco vezes a Drusus circundou o planeta moribundo, deslocando-se de cada vez num ângulo 160


diferente em relação ao eixo polar. Mesmo que, lá embaixo, houvesse um transmissor que já tivesse perdido noventa e nove por cento de sua potência, a sala de rádio não poderia deixar de ouvi-lo. Mas não ouviram nada! No momento em que Conrad Deringhouse se dispôs a iniciar a sexta volta em torno do planeta, Fera Cinzenta explodiu. Os instrumentos registraram o súbito aumento de pressão das massas gasosas. Deringhouse interpretou corretamente o fenômeno e desligou os estabilizadores de rota. A Drusus saiu da órbita pela qual até então se deslocara com o triplo da velocidade de fuga, e dirigiu-se ao espaço livre. Os homens dos postos de combate voltaram a prestar atenção à eventual presença de naves arcônidas. As telas panorâmicas da sala de comando mostraram uma gigantesca bolha de gases branco-amarelenta que aumentava constantemente. Gigantescas línguas de fogo subiam do oceano de gases, e o hidrogênio das camadas superiores da atmosfera acrescentou seu verde-claro ao quadro. Outras cores surgiram, e Fera Cinzenta desfez-se em meio a uma visão irreal e colorida, que jamais o olho humano vira com tamanha intensidade. Muito deprimido, Deringhouse ordenou a retirada. Enquanto a bola colorida, que antes fora Fera Cinzenta, ia minguando nas telas de popa, a nave atingiu a velocidade de transição e num salto ligeiro afastou-se do sistema. Voltou a surgir no espaço einsteiniano em sua antiga posição de espera. Deringhouse mandou que a nave se mantivesse à espera por mais duas horas. Queria ver o que iria acontecer no sistema de Mirta. Sabia que seria inútil. Toda e qualquer vida se extinguira em Fera Cinzenta. Qualquer coisa que os arcônidas fizessem naquele lugar ou em seus arredores não se revestiria de interesse para ele. Depois do vozerio das ordens que se atropelaram nos últimos quarenta e cinco minutos, o silêncio voltou a reinar na sala de comando. Os oficiais de Deringhouse sabiam que tinham perdido uma batalha, muito embora um ou outro talvez fosse de outra opinião, em virtude da cifra das naves inimigas destruídas.

4 Reginald Bell foi o primeiro a dizer alguma coisa. — Caramba! — praguejou. — Logo deveria ter visto. Esta nave não tem duzentos metros de diâmetro, nem quinhentos. É um tipo intermediário, que não existe em nossa frota. O robô esperou pacientemente. “Agora isso já não importa”, pensou Perry Rhodan em atitude resignada. Olhou para trás. Fellmer Lloyd olhava para baixo, mas Atlan retribuiu seu olhar.

— Até parece que você não demorará em rever sua pátria — disse Perry Rhodan. Atlan quase não moveu os lábios ao responder: — Não gostaria de revê-la nestas condições. O robô voltou a falar. — O comandante Lathon sentir-se-á honrado em cumprimentar os visitantes. Aquilo era um pedido para que acompanhassem o robô. Perry Rhodan aproximou-se do homem-máquina, que se virou e foi caminhando pelo corredor, que começava logo após a escotilha interna. Os “visitantes” seguiram-no. Passado o primeiro abalo, o raciocínio de Perry Rhodan começou a funcionar a toda força. Era claro que os arcônidas os consideravam como prisioneiros. Restava saber o que pretendiam fazer com eles. Rhodan achou que não seria má ideia insistir desde logo em que os levassem a um espaçoporto terrano situado nas proximidades. Não havia uma guerra oficialmente declarada entre Árcon e a Terra, e segundo os costumes arcônidas, como segundo as normas terranas, só a declaração de guerra justificava o status de prisioneiro de guerra. Por isso seria preferível nem mencionar perante o comandante Lathon a ação desencadeada contra Fera Cinzenta e, apesar do que se sabia fazer de conta que não havia acontecido nada, fingindo se tratar de uma simples operação de resgate de náufragos. Em poucas palavras, o melhor seria fingir que não sabiam de nada. A sala de comando da Lan-Zour estava quase vazia. Apenas dois homens estavam sentados ou quase deitados nas poltronas articuladas. Se não fossem os inúmeros instrumentos, o recinto circular e de tamanho médio da sala de comando, daria a impressão de uma plateia de teatro durante a pausa, num dia de pouco público. Um dos dois homens ergueu o corpo, ficando sentado, quando o robô entrou com os quatro terranos. O robô deixou que os homens que o acompanhavam passassem à sua frente e anunciou sem a menor comoção: — Quatro sobreviventes do planeta que está explodindo, senhor. O homem na poltrona fez um movimento de enfado, que significava compreensão, concordância e dispensa. E para o outro o assunto foi tão pouco interessante que nem sequer olhou para trás. Ambos eram arcônidas e possuíam a letargia e o enfado peculiar de sua raça. Perry Rhodan lançou um olhar ligeiro para Atlan e viu-o contorcer o rosto numa expressão de desprezo. A caminho da sala de comando haviam retirado os trajes protetores, deixando-os nas proximidades da comporta para que fossem descontaminados, isto é, para que a poeira radiativa fosse retirada. Era a primeira vez, em muitas horas, que podiam mover-se livremente, e a sensação de alívio provocada por esse fato bastou para aumentar-lhes a coragem e a iniciativa. O arcônida, que agora se erguera na poltrona, fitou 161


prolongadamente os convidados. O robô saiu da sala de comando. Perry Rhodan procurou ver nas telas o que se passava no espaço, mas elas não mostravam nada dos arredores da Lan-Zour. — Pois bem — disse Lathon em arcônida. — Aí estão os senhores. Perry Rhodan olhou para o lado. O homem indicado para palestras tão profundas era Reginald Bell. Este entendeu o gesto. Acenou a cabeça com uma expressão furiosa e confirmou. — É verdade; aqui estamos nós. Muito obrigado por nos ter salvo. Lathon fez um gesto de desprezo. — Ordens — disse em tom cansado. — Apenas foram ordens. Pelo que vejo, há um arcônida entre os senhores. — O senhor vê corretamente — disse Reginald Bell em tom amável. — É um remanescente dos tempos em que os arcônidas ainda podiam olhar para trás sem que seus pescoços tremessem de fraqueza. Se Lathon compreendeu a ofensa, não se sentiu impressionado. — Qual é seu nome? — perguntou, dirigindo-se a Atlan. Atlan cerrou os dentes e não respondeu. Lathon não se perturbou com isso. Voltou a dirigir-se a Bell numa atitude presunçosa. — Aonde pretendem levar-nos? — indagou Bell. Lathon levantou a mão e fez um gesto pálido em direção à tela. — Não faço a menor idéia. Bell ficou sem fôlego. Reunindo todo o autocontrole de que ainda era capaz, disse: — O senhor é o comandante desta nave, não é? — Sim, naturalmente. Mas será que só por isso tenho que saber qual é o destino da nave? A hilaridade foi uma válvula para o nervosismo refreado de Reginald Bell, que soltou uma estrondosa gargalhada. Depois disse em tom cordato: — Acho que não. Tem toda razão. Apenas pensei que talvez o senhor soubesse. Lathon fez um gesto negativo. Ao que parecia, cansavase ao falar, mas julgava a conversa suficientemente interessante, para submeter-se a esse esforço. — É claro que poderíamos indagar ao computador principal qual é o destino da Lan-Zour — sugeriu Lathon. — Mas não sei se ele estaria disposto a fornecer esse tipo de informação, e, além disso, saberemos de qualquer maneira quando chegarmos lá, não é? Reginald Bell fez que sim. — Naturalmente. É isso mesmo. Dirigindo-se a Perry Rhodan, disse em voz baixa, e em inglês: — Fale com esse idiota, senão ainda acabo perdendo as estribeiras. Perry Rhodan dirigiu-se a Lathon.

— De qualquer maneira, eu lhe ficarei muito grato se quiser colher informações junto ao computador positrônico — disse, dirigindo-se ao comandante. — Seria muito desagradável se não soubéssemos para onde estamos sendo levados. — Terei o maior prazer em atender ao seu pedido — respondeu Lathon. — Basta chamar um robô e este formulará a indagação junto ao computador. Comprimiu um botão embutido na braçadeira da poltrona. — Há mais algumas coisas que eu gostaria de saber — prosseguiu Perry Rhodan. — Por exemplo, o que é feito dos nossos homens que... — Oh! — interrompeu Lathon em tom queixoso. — Receio que não consiga lembrar-me de tudo. Forneça as perguntas ao robô. Apontou para a escotilha que acabara de abrir-se, dando entrada a um robô. — Estou pronto — disse o homem-máquina. — Pergunte! — pediu Lathon. — Ele está devidamente instruído. Perry Rhodan procedeu sistematicamente. — Primeiro: no momento do ataque a base de Fera Cinzenta tinha uma guarnição de cento e cinquenta e dois homens. Esses cento e cinquenta e dois homens pegaram naves transportadoras leves e procuraram salvar-se do planeta que explodia. Sabe-se alguma coisa sobre o paradeiro dessas naves e de seus ocupantes? “Segundo: duas horas depois de iniciado o ataque, meus companheiros e eu fomos detidos por um robô arcônida. Esse robô vinha da Lan-Zour?” “Terceiro: para onde seremos levados?” “Quarto: nós desejamos sermos conduzidos a um pequeno espaçoporto da frota terrana, cujas coordenadas lhes seriam fornecidas. Este pedido está em condições de ser atendido?” “Obrigado. É só. Será que você poderia responder minhas perguntas?” O robô fez a repetição. Depois disso, atravessou a sala a passos pesados e manipulou vários controles de um painel. Ao que parecia, estava ligado diretamente com o computador positrônico. Quando se virou para dar as respostas, Perry Rhodan e seus companheiros haviam ouvido tão somente o clique das chaves. — Pergunta número um — principiou o robô. — Quinze naves de transporte terranas foram aprisionadas por naves arcônidas. Cento e trinta e quatro terranos são prisioneiros da frota arcônida. “Pergunta número dois: a Lan-Zour desembarcou três robôs, a fim de salvar eventuais sobreviventes do planeta que explodia”. Perry Rhodan exibiu um sorriso feroz ao lembrar-se de que maneira Reginald Bell seria salvo. — Dois robôs regressaram — prosseguiu — enquanto o terceiro anunciou sua perda total. “Pergunta número três: a Lan-Zour chegará ao destino 162


dentro de poucos minutos. Quanto ao mais, nenhuma resposta”. “Pergunta número quatro: o pedido não pode ser atendido”. “Fim.” Perry Rhodan olhou para baixo. Já esperava um não à quarta pergunta. Mas o que o deixou deprimido foi a perda de dezoito homens que, ao que tudo indicava, não conseguiram sair de Fera Cinzenta. Lembrou-se do comandante da base, Mike Judson. Enquanto ainda houvesse alguém correndo perigo, Judson não seria capaz de abandonar seu posto. Concluiu que o tenente era um dos dezoito homens que encontraram a morte em Fera Cinzenta. Isso doía. Rhodan sentiu ódio. O regente atacara a base sem aviso prévio, porque esta o incomodava ou porque acreditava que fosse a Terra. Haveria outras maneiras de eliminar a base de Fera Cinzenta. Maneiras que permitiriam a salvação de todos. Mas o regente agira com a insensibilidade própria de uma máquina. Perry Rhodan levantou os olhos. — Obrigado — respondeu. — Isso basta. O robô saiu. Mal a escotilha se fechou atrás dele, ela voltou a abrir-se, dando passagem a outro robô. Este olhou para Lathon e disse: — Chegamos ao destino, senhor. Outra nave acolherá os visitantes. Pedem que nos apressemos. Lathon fez um gesto de enfado. — Sempre essa maldita pressa! Levantou-se. — Sinto muito ter de perder tão depressa um visitante tão ilustre como o senhor, Perry Rhodan — disse. Rhodan estremeceu ao ouvir pronunciar seu nome. Não sabia que Lathon o conhecia. — Desejo-lhe uma boa viagem — concluiu Lathon. Isso parecia uma amarga ironia, mas a intenção com que foram pronunciadas estas palavras não era irônica. Lathon estava falando sério. Era um homem velho e cansado, que não sabia nada do que se passava em torno dele. Inclinou-se, e Perry Rhodan retribuiu o cumprimento. Depois deu as costas a Lathon e deixou que o robô o levasse para fora. Voltaram à comporta pela qual haviam entrado meia hora antes. A escotilha interna abriu-se. Na câmara da comporta havia dois vultos altos que envergavam trajes espaciais e faziam movimentos impacientes. Na comporta havia mais quatro trajes espaciais. Perry Rhodan envergou um deles. Um dos dois vultos fez um gesto impaciente em direção ao capacete. Rhodan compreendeu. Aquele indivíduo queria que ligasse o rádio. Rhodan obedeceu, e logo ouviu uma série de palavras pronunciadas num estranho dialeto arcônida. — ...caramba, andem mais depressa. Não podemos perder tempo. Lá fora está cheio de terranos. Vamos embora! Tirou do bolso de seu traje uma arma de cano curto e balançou-a de um lado para outro. Rhodan procurou compreender o que se passava. Havia naves terranas nas

proximidades. Por que os estavam transbordando justamente aqui? Se transmitisse um pedido de socorro, será que os terranos poderiam tirá-lo do aperto? Não havia como responder à pergunta enquanto não lançasse um olhar para o espaço. Ainda acontecia que o microcomunicador fora levado juntamente com os trajes espaciais, para ser descontaminado. Seria inútil pedir que lhe entregassem esses objetos. Os robôs da Lan-Zour não os devolveriam. Perry Rhodan fechou o traje espacial. Atlan e Reginald Bell também estavam prontos. Apenas Fellmer Lloyd teve dificuldade em arranjar-se. Perry Rhodan resolveu ajudá-lo. Olhando pelo visor do capacete, notou que o rosto de Lloyd estava vermelho e que o suor lhe corria profusamente pela testa. — Algo de errado? — perguntou em tom de perplexidade. — Não sei — respondeu o mutante. — Sinto-me muito mal. “Parece que é febre”, pensou Rhodan. No mesmo instante sentiu-se apavorado à ideia de que talvez Fellmer Lloyd tivesse absorvido uma quantidade excessiva de poeira radiativa. Quando a dose de radiações ficava entre cinquenta e cem rens muitas vezes surgia, logo após a absorção, a chamada febre gama ou de cem rens. Em alguns casos, o resultado era a morte, mas antes viria uma doença longa e desagradável. — Ande depressa! — pediu a Lloyd. — Ao que parece, essa gente é mais ativa que Lathon. O senhor será tratado. Fellmer Lloyd nem sequer teve força para fechar o traje. Rhodan teve de fazê-lo por ele. — Pronto? — perguntou um dos desconhecidos. Rhodan fez um gesto afirmativo. Os desconhecidos compreenderam o sinal. O robô desapareceu pela escotilha interna, que se fechou. A seguir, a escotilha externa abriuse. O quadro que se ofereceu era o mesmo de sempre. Um verdadeiro oceano de estrelas. Muito mais variado que o céu terrano, este parecia um verdadeiro tapete luminoso. Em meio àquelas cintilações havia um buraco circular. Era a nave dos desconhecidos. Estava pelo menos a dez quilômetros de distância. Junto ao costado da Lan-Zour achava-se uma pequena nave auxiliar. Sempre vigiados pelos desconhecidos, Rhodan e seus companheiros entraram na mesma. Um dos desconhecidos tomou o lugar do piloto à sua frente, enquanto o outro se acomodava atrás dos terranos. Perry Rhodan ficou triste ao pensar nas armas que haviam levado do abrigo de Fera Cinzenta, e que agora se encontravam nos trajes protetores deixados para trás. Caso tentassem apoderar-se da nave auxiliar, poderiam ter possibilidades de êxito, mas seria uma ação temerária... O barco partiu. A Lan-Zour foi ficando cada vez menor na pequena tela, e, depois de algum tempo, estava reduzida a um buraco escuro no espaço. A parede metálica da nave 163


passou a tornar-se cada vez mais nítida e brilhava a luz das estrelas. O embarque deu-se depressa e sem incidentes. Ao que parecia, aqueles desconhecidos, fossem eles quem fossem, tinham um respeito tremendo pela frota terrana. Uma fita e um elevador gravitacional conduziram os quatro terranos à sala de comando. Se a nave havia dado partida, não se percebia nada. Ao contrário do que acontecia na sala de comando da Lan-Zour, uma atividade febril reinava na desta nave. Viam-se alguns robôs pequenos e extremamente ágeis, que executavam trabalhos de ordenança. Mas os seres orgânicos estavam em maioria. Ao vê-los trabalhar tão apressadamente e falar uns com os outros, Rhodan lembrou-se de quem eram eles. Eram ekhônidas, isto é, habitantes do planeta Ekhas, situado em algum lugar nas profundezas da Galáxia. Haviam emigrado na época de apogeu do Império Arcônida. Portanto, eram verdadeiros arcônidas, que haviam conservado a vitalidade de sua raça. Na tela panorâmica, via-se que o Universo estava em movimento. As estreitas faixas coloridas, espalhadas na borda das telas, provavam que a nave ekhônida estava prestes a atingir a velocidade relativista. Provavelmente pretendia atingir o quanto antes a velocidade que lhe permitisse penetrar no hiperespaço. A Lan-Zour havia desaparecido. A maior parte dos ocupantes da sala de comando não se interessou pelos terranos. Apenas dois homens, um dos quais devia ser o comandante, segundo se depreendia das insígnias que trazia, aproximaram-se de Perry Rhodan e seus companheiros. — Os senhores são meus prisioneiros — disse o comandante, dando início à palestra. — Como se arroga o direito de considerar-nos prisioneiros? — perguntou Rhodan. Perry já havia tirado o capacete. Um sorriso irônico surgiu no rosto do comandante. — Terei de levá-lo a determinado lugar e entregá-lo a quem de direito. Para isso não preciso observar as leis. Os problemas jurídicos serão resolvidos por meu superior. — Será nosso amigo, o computador-regente? — perguntou Rhodan em tom de escárnio. — Não estou autorizado a dar informações, seja sobre o motivo de sua prisão, seja sobre seu destino. Os senhores serão vigiados por três homens e um robô. Forneça seus nomes e outros dados ao robô, para que possa saber quem tenho a bordo. Dentro de vinte horas, deveremos chegar ao destino. Uma vez lá, poderão formular as perguntas que desejarem. Três homens e um robô aproximaram-se. Os homens tinham um aspecto tão sombrio quanto o robô... Mas Rhodan teve sua atenção despertada por outro fato. O comandante lhes havia pedido que fornecessem seus nomes. Será que isso significava que não sabia quem eram os prisioneiros? O ekhônida esteve a ponto de afastar-se. — Um instante — disse Rhodan. — É bom que saiba

que na primeira oportunidade que se oferecer protestarei contra o tratamento que me está sendo dispensado. E posso garantir que Perry Rhodan... O ekhônida fez um gesto de desprezo. — Ora, Perry Rhodan! — disse. — Será que ainda não sabe que ele explodiu juntamente com a base? Rhodan sabia o que deveria fazer, mas naquele instante teve de esforçar-se para dar a seu rosto uma expressão que manifestasse o pavor. — Rhodan...! — disse em tom de perplexidade. — Explodiu? — soltou uma risada forçada. — Pense em algo melhor para intimidar-nos. O ekhônida não parecia interessado na conversa. Respondeu: — Acredite no que quiser. Isso não me diz respeito. Apenas vim buscá-lo em determinado lugar e o entregarei em outro lugar. Minha missão é apenas esta. — Isso em nada altera o fato de que seu procedimento constitui uma infração do direito galáctico — respondeu Rhodan em tom enérgico. — Sou um terrano livre. Entre a Terra e Árcon não existe o estado de guerra. Por isso, nenhum arcônida tem o direito de me tratar como se fosse um prisioneiro. O ekhônida perdeu a paciência. — Não me amole! — disse em tom áspero. Afastou-se, dirigindo-se a seu posto. Os guardas ergueram as armas. O ekhônida que os havia trazido abriu a escotilha. Naquele instante, as sereias de alarma começaram a uivar. Perry Rhodan estacou. O ruído causava-lhe um nervosismo eletrizante. Se os arcônidas estavam dando o alarma, havia naves terranas nas proximidades. Sem dar atenção às armas que os guardas mantinham apontadas para ele, Rhodan virou-se e olhou para a tela. No centro da mesma via-se uma bola reluzente brancoazulada. Era uma bomba ou uma nave que explodira atrás do veículo ekhônida? As sereias silenciaram, e as vozes exaltadas dos ekhônidas tornaram-se perceptíveis. Os resultados das localizações goniométricas foram anunciados. Perry Rhodan não conhecia o sistema ekhônida de coordenadas, motivo por que os dados fornecidos não significavam nada para ele. Em compensação, quando alguém gritou a plenos pulmões, compreendeu perfeitamente o que havia acontecido. — É a Lan-Zour! Os terranos conseguiram abatê-la. “Isso mesmo”, pensou Perry Rhodan, “pela direção só poderia ser a Lan-Zour.” O comandante ekhônida transmitiu suas instruções com uma calma que Perry Rhodan não pôde deixar de admirar. O veículo espacial recorreu a um propulsor auxiliar para acelerar mais e atingir mais depressa a velocidade de transição. Os observadores procuravam febrilmente localizar outros sinais da presença de naves terranas, mas não encontraram nenhum, antes que a nave entrasse em 164


transição. A dor provocada pelo salto foi mínima. Perry Rhodan calculou que a distância entre o ponto inicial e o ponto final da transição não deveria ser superior a dez anos-luz. Ainda um tanto confuso, o ekhônida olhou para ele. — Escapamos dos terranos — disse. Não parecia sentirse muito orgulhoso. — Bem que gostaria de possuir uma nave de tamanho suficiente para enfrentá-los. Perry Rhodan limitou-se a fazer um sinal e foi andando. Os guardas formaram um semicírculo atrás do grupo e obrigaram-no a sair pela escotilha. Enquanto percorria a reduzida distância que os separava dos camarotes em que se abrigariam, Perry Rhodan refletiu sobre a Lan-Zour. Suspeitou de algo, e à medida que pensava, a suspeita transformava-se em certeza. Lathon sabia quem era ele. O ekhônida não sabia. O computador-regente de Árcon conhecia a mentalidade terrana e, como estrategista hábil, devia empenhar-se, a fim de manter em segredo a prisão de Perry Rhodan. Sabia que os terranos moveriam céus e infernos para libertar o chefe, caso soubessem que este ainda estava vivo. Mas, se fossem mantidos na crença de que Rhodan já estava morto, eles se manteriam em silêncio e, além disso, demorariam um ano para vencer a confusão. O computador-regente não fazia questão de que a prisão de Rhodan se tornasse conhecida pelo Universo a fora. Isso lançava uma luz diferente sobre o destino da LanZour. Não se pôde evitar que Lathon conhecesse a identidade dos prisioneiros. Mas pôde-se evitar que transmitisse seu conhecimento a uma pessoa não credenciada. Os responsáveis pela destruição da Lan-Zour não eram as naves terranas. O próprio regente ordenara ao computador da nave que a fizesse explodir. *** Depois de algumas horas de espera, a Drusus, comandada pelo General Deringhouse, voltou ao ponto de reunião da frota terrana. A espera se revelara vã. A base de Fera Cinzenta estava perdida e Perry Rhodan estava morto. O tempo X, ou seja, o momento do ataque contra Árcon, já passara há seis horas. Quando retornou para junto da frota que o esperava, Conrad Deringhouse já havia preparado seus planos. Não se poderia pensar mais num ataque a Árcon. O General Deringhouse deu ordem para que a frota se retirasse. As unidades da frota receberam ordens para se reunirem no sistema de Vega, situado a pouco menos de trinta anos-luz da Terra. As naves foram saindo uma por uma ou em grupos de duas. Dez horas depois de Deringhouse ter transmitido sua ordem, o setor espacial em que o planeta Terra reunira suas forças para desferir o golpe decisivo contra Árcon estava vazio e abandonado. Apenas três naves, um couraçado e dois cruzadores pesados, foram destacadas por Conrad Deringhouse para

manterem, às escondidas e sem que os arcônidas o percebessem, as comunicações com a base de Hades, situada na outra dimensão temporal. *** O robô anotou os nomes e não apareceu mais, embora os guardas garantissem que se mantinha constantemente nas proximidades. Naturalmente deram nomes errados. Perry Rhodan passou a ser George Barrimore, Reginald Bell usou o nome Frederick O’Lannigan e Fellmer Lloyd passou a chamar-se de Walter Highman, enquanto Atlan transformou-se em Talan-Nuur. O robô registrou os sons numa ficha, por meio de impulsos, o que bastava para satisfazer às exigências do comando da nave. Os prisioneiros foram alojados em três camarotes interligados. Um deles servia de dormitório, outro de sala de estar, enquanto no terceiro se encontrava o banheiro e os aparelhos de ginástica. Com isso, os prisioneiros não poderiam queixar-se de falta de conforto, muito embora as comodidades que lhes foram concedidas fossem de valor apenas simbólico, pois não sabiam como utilizar as excelências da cultura habitacional arcônida nas vinte horas que, segundo a informação do comandante, deveria demorar o vôo. Logo constataram que era altamente provável que o quarto e a sala não continham qualquer aparelho de escuta. Mas, para evitar qualquer risco, os prisioneiros conversaram sempre em voz baixa, a fim de que os microfones — caso existissem — só pudessem transmitir um murmúrio incompreensível. Subitamente Fellmer Lloyd desmaiou. O médico chamado às pressas aplicou duas injeções contra a febre gama. Face à difícil situação, Atlan disse: — Precisamos fazer alguma coisa. Acho que ninguém duvida de que o ekhônida nos levará para Árcon pelo caminho mais rápido. O tempo de voo combina com esta suposição. Uma nave comum leva de quinze a vinte e cinco horas para percorrer a distância que separa Fera Cinzenta de Árcon. Quando estivermos em Árcon, não haverá mais salvação para nós. O regente tomará todas as providências para que seus prisioneiros não lhe escapem mais. A única resposta às palavras de Atlan foi um aceno de cabeça. Perry Rhodan sabia tão bem quanto Reginald Bell que Atlan não estava exagerando. Depois de chegarem a Árcon, seriam submetidos a um interrogatório psicológico que destruiria seu corpo e sua mente. Se quisessem fazer alguma coisa para salvar-se teriam de fazê-lo agora, enquanto se encontravam a bordo da nave ekhônida. Fossem quais fossem as ideias concebidas nos minutos ou horas que se seguiriam, uma coisa parecia certa: seria inútil lutar contra a tripulação da nave, ainda mais que o grupo de terranos tinha entre si um enfermo. Perry Rhodan apenas encontrou uma circunstância que favorecia a ele e a seus amigos. O regente de Árcon fazia questão de que os prisioneiros lhe fossem entregues vivos. Por isso, no momento decisivo, os ekhônidas hesitariam 165


muito antes de empregar outras armas que não as pistolas de choque. E para alguém que se vê diante de um importante empreendimento, a esperança de que, se as coisas correrem mal, provavelmente continuará vivo, já representa um grande consolo. *** A alguns milhares de anos-luz de distância, quase exatamente no centro geométrico do grupo estelar M-13, o regente estava classificando as informações fornecidas por cento e trinta e quatro prisioneiros terranos. O regente não hesitara em recorrer aos recursos mais modernos da psicofísica para interrogar os prisioneiros. Agia na sábia convicção de que dificilmente um terrano estaria disposto a revelar um segredo importante enquanto não fosse obrigado a tanto. Apesar da aplicação de modernos métodos, o resultado do interrogatório foi escasso. O regente percebeu que os terranos haviam tomado suas providências para o caso de uma catástrofe, isto é, a captura de grande número de prisioneiros. Na verdade, o regente só conseguiu obter a seguinte informação: o planeta destruído não era, conforme de início se supusera, a Terra, mas apenas uma base avançada. Porém esta informação perdeu grande parte de seu valor, pois o regente já a possuía antes do interrogatório dos terranos, pois, pouco antes do início do bombardeio, as naves robotizadas haviam tirado fotografias da superfície do planeta. Com exceção da área da base, não descobriram qualquer indício de vida inteligente. Ninguém seria capaz de acreditar que todas as cidades terranas eram construídas no subsolo, portanto essa informação bastava para provar que aquele mundo não era a Terra. Restava descobrir onde ficava o mundo dos terranos. Os prisioneiros foram interrogados sobre a distância entre a Terra e a base destruída. De início recusaram-se a dar qualquer resposta. Quando finalmente a dor os obrigou a responder, indicaram cifras que iam de dez a quarenta mil anos-luz. O psicodectetor revelou que a indicação desses números não fora precedida de qualquer atuação da memória. Em outras palavras, representavam uma invenção. O computador-regente viu-se diante de um fato surpreendente: os homens de Perry Rhodan em Fera Cinzenta não sabiam a que distância ficava seu mundo natal. E as informações que puderam dar sobre a direção onde ficava o planeta Terra eram ainda mais escassas. Eram técnicos do tipo dos que costumam ser empregados nas bases, ou seja, pessoal de superfície. Nenhum deles possuía o menor conhecimento de galatonáutica. Por isso, não foram capazes de indicar as coordenadas angulares que indicariam a direção do vetor Fera Cinzenta—Terra. A última pergunta formulada aos prisioneiros dizia respeito a certos detalhes do sistema solar terrano. O computador-regente estava convencido de que, apesar de todas as falhas, conseguiria encontrar a Terra, se o

respectivo sistema fosse por exemplo um dos sistemas gigantescos formados por mais de cem planetas ouse a própria Terra descrevesse uma órbita altamente excêntrica em torno de seu sol. Essas características extraordinárias eram mencionadas no catálogo galático, daí não seria difícil localizar o sistema. Infelizmente, segundo as declarações dos prisioneiros, o sistema solar terrano era o que havia de mais comum. Interrogados sobre as dimensões de seu sistema, os prisioneiros mais uma vez formularam declarações divergentes. Seus conhecimentos astronômicos eram extremamente escassos. O regente concluiu que Perry Rhodan de propósito mantivera baixo o nível de conhecimentos de seu pessoal. A única informação de valor, obtida pelo regente, foi a de que um dos planetas do sistema terrano — mais uma vez surgiram divergências entre as declarações dos terranos sobre se era o quinto, o sexto, o sétimo ou o oitavo — possuía um anel. Porém mesmo esse êxito tornou-se apenas relativo. Com ele, o número dos sistemas possíveis ficou reduzido de alguns bilhões para algumas centenas de milhões. Mais ou menos, dez por cento dos sistemas planetários possuíam um anel. A primeira tentativa de descobrir a posição galáctica da Terra representou um fracasso para o regente. Mas, por enquanto, o cérebro positrônico ainda não lançara seu grande trunfo. Perry Rhodan estava preso e encontrava-se a caminho de Árcon. Era bem verdade que o computador duvidava de que justamente Rhodan fosse revelar a posição de seu mundo. No entanto, bastaria que lhe desse uma certa liberdade de ação para que procurasse entrar em contato com seus homens, do que poderiam resultar algumas indicações preciosas. O regente concluiu que dominava a situação. *** Ao que tudo indicava, o ekhônida pretendia vencer o trecho que o separava de Árcon numa série de transições. Quem conhecesse o tamanho da nave, contaria com isso. Mas foi só a primeira dor, seguida do funcionamento dos propulsores, observado na tela, que devia acelerar para a segunda transição, que lhes deu a certeza. Os prisioneiros sabiam perfeitamente que, só nas pausas entre as duas transições, poderiam fazer qualquer coisa. Depois de realizado o último hipersalto, já não haveria a menor esperança. Face à duração e à intensidade da dor da transição, Perry Rhodan e Atlan calcularam a distância percorrida: de cinco a sete mil anos-luz. A distância entre Fera Cinzenta e Árcon era de aproximadamente trinta e sete mil anos-luz. Por outro lado, o lugar em que passaram da Lan-Zour para a nave ekhônida ficava apenas a alguns minutos-luz de Fera Cinzenta. Face a isso, podia-se calcular que durante o voo para Árcon seriam realizadas de cinco a oito transições. 166


Entre uma transição e outra havia uma pausa de quarenta minutos, durante a qual a nave era acelerada. Teriam de agir numa dessas pausas. *** Zachan praguejou contra o serviço na frota espacial e especialmente contra o tédio a bordo da Keenial. Zachan era um dos três guardas que vigiavam os quatro prisioneiros terranos. E foi o único que ficou pensando sobre os motivos por que um destes se parecia com um arcônida. Ficou quebrando a cabeça. O que mais o espantava era que, além dele, ninguém parecia interessar-se pela estranha coincidência. Zachan andava de um lado para outro pelo corredor. Levava a tiracolo a arma de choque de cano comprido. Colocara-a nas costas e segurava o cano com a mão, pois assim o passeio se tornava mais agradável. Na verdade, Zachan e os dois outros guardas estavam mesmo passeando. Ninguém calculava com a possibilidade de que os terranos pudessem revoltar-se contra a sorte que os atingira. Zachan caminhava vinte passos e dava uma rápida volta. Nas últimas três horas, as voltas rápidas e precisas foram seu único passatempo. Durante o caminho de volta, um dos outros guardas passava por ele, percorrendo também o caminho de vinte passos, que de um lado e de outro terminava numa meia-volta. Zachan disse um palavrão e sorriu; o outro não demorou a dar uma resposta... O terceiro homem, chamado Olthaur, estava sentado numa poltrona, num cruzamento do corredor. No momento em que o outro guarda fazia meia-volta atrás de Zachan, este passou pela porta que levava ao conjunto de camarotes. Olhou para trás, para verificar se o outro sabia dar meia-volta tão bem quanto ele. Quando voltou a virar a cabeça, percebeu que a porta estava entreaberta. A meia altura da fresta, surgiu uma placa de plástico reluzente. Zachan deu dois passos rápidos que o levaram para junto da porta. Pegou a folha de plástico, olhou pela fresta da porta e viu o vulto alto do terrano, que se parecia com um arcônida. Ouviu-o cochichar: — Ande depressa! Não deixe que os outros três percebam. Zachan estacou. “Os outros três? Aqui fora só há dois”, pensou e, quebrando a cabeça, chegou à conclusão de que o terrano, que parecia um arcônida, deveria ter-se referido aos outros prisioneiros. A porta voltou a fechar-se. Zachan ficou parado à frente da mesma, com o bilhete na mão. O outro guarda percebeu alguma coisa. Até mesmo Olthaur inclinou-se ligeiramente na confortável poltrona em que se encontrava a fim de ver o que estava acontecendo. Zachan abriu o bilhete e viu que nele estavam escritas algumas linhas. Os sinais de escrita eram arcônidas. Como os ekhônidas usassem os mesmos símbolos, Zachan pôde ler o texto.

Tenho uma coisa importante a comunicar ao comandante. Preciso falar a sós com ele. Os terranos não devem perceber nada. Talan-Nuur. O outro guarda olhou por cima do ombro de Zachan. — Avise imediatamente! — disse. — Parece que é importante. Zachan era mais desconfiado. Era bem possível que aquilo não passasse de um truque. Mostrou o bilhete a Olthaur. Este estudou-o com uma expressão de desconfiança. — Acho que será melhor informar o comandante — disse Zachan de repente. — É mesmo — confirmou Olthaur. A poucos metros de distância, havia uma cabina de intercomunicação. Enquanto Olthaur continuava sentado na sua poltrona e a outra sentinela começava novamente a andar nervosamente pelo corredor, Zachan comunicou-se com a sala de comando. Falou em voz baixa, a fim de que os prisioneiros não pudessem ouvi-lo. Zachan sentiu-se surpreso ao notar que na sala de comando atribuíram tamanha importância à notícia que o ligaram com o comandante Chollar em pessoa. Este ouviu o que o guarda tinha a dizer. Prometeu enviar um sinal, dando ordens para que Talan-Nuur fosse levado à sala de comando. Zachan ficou satisfeito com o resultado de sua atuação. Dali a alguns minutos, um oficial apareceu. Era um homem jovem, bem mais jovem que Zachan. E não estava armado. — Tire Talan-Nuur — ordenou. — Quero que vá comigo à sala de comando. O senhor me acompanhará, pois estou desarmado. “Que homem imprudente”, pensou Zachan. “Terei de cuidar dele.” Abriu a porta do camarote e gritou: — O comandante quer falar com Talan-Nuur! Nenhum dos prisioneiros estava na sala da frente. Mas quando Zachan chamou, com exceção do doente, os prisioneiros apareceram na porta que ligava os dois aposentos. Zachan repetiu a ordem. Examinou atentamente os prisioneiros, mas não notou nada de suspeito. Estava realmente convencido de que Talan-Nuur desejava dar alguma informação importante sobre os outros prisioneiros. O oficial mandou que Olthaur e o outro guarda tivessem muito cuidado durante a ausência de Zachan. Disse que Zachan logo voltaria. Puseram-se a caminho da sala de comando. O oficial ia à frente, Talan-Nuur no meio, enquanto Zachan fechava o grupo. Os camarotes dos prisioneiros ficavam num corredor circular. Depois de alguns passos, este terminava num corredor provido de fitas rolantes. A confusão aconteceu no lugar em que o corredor secundário encontrava-se com o corredor principal. E deu167


se tão de repente que Zacham levou algum tempo para compreender o que estava acontecendo... O oficial desaparecia na curva do corredor, seguido por Talan-Nuur. Zachan esforçava-se para segui-lo bem de perto, pois não queria perder o prisioneiro de vista por um instante sequer. Mas no momento em que pretendia entrar na curva do corredor uma barulheira violenta surgiu atrás dele. Zachan parou e olhou para trás, per- plexo. A porta do camarote dos prisioneiros estava aberta. O maior dos terranos estava parado na entrada, gesticulando nervosamente. Olthaur e o outro guarda se haviam colocado à sua frente, com as armas apontadas. Zachan ficou totalmente perturbado. Finalmente lembrou-se de que sua tarefa consistia em levar um prisioneiro à sala de comando, não em cuidar do que Olthaur e o outro guarda faziam. Controlou-se e quis prosseguir... *** Atlan só estava esperando este momento! À frente dele, o jovem oficial, que não desconfiava de nada, pisou na mais lenta das fitas rolantes. O guarda que vinha atrás dele estava oculto pela curva do corredor. Enquanto isso, o ruidoso protesto de Perry Rhodan se fazia ouvir no corredor lateral, conforme fora combinado. Numa das paredes laterais do corredor, ficava a escotilha pressurizada: ali se localizava a saída de ar comprimido. Bastava que Atlan estendesse a mão para tocála. No momento em que a voz forte de Perry Rhodan começou a soar, Atlan escorregou para o lado. Suas mãos treinadas não levaram mais de um segundo para destravar a escotilha e abri-la. O poço de ar pressurizado era uma saída de emergência, e... uma saída de emergência sempre possui uma entrada fácil de ser aberta! No momento em que Atlan abriu-a, ouviu-se um forte chiado. O jovem oficial, que já se havia afastado alguns metros na fita rolante, percebeu que alguma coisa não estava correndo bem. Virou-se e viu o arcônida abaixar-se e entrar apressadamente no poço. Por um segundo ficou mudo de pavor. E esse segundo foi suficiente para que Atlan desaparecesse no poço e fechasse a escotilha atrás de si. No interior do poço, acendeu-se uma luz ofuscante. As paredes — lisas e brilhantes — do longo tubo abriram-se à frente do arcônida. Não se ouvia mais nenhum som vindo de fora. A escotilha era à prova de pressão e de som. E, o que era mais importante, não se podia abri-la, enquanto alguém se servisse das respectivas instalações. Atlan agachou-se no soalho redondo do tubo. Fazia mais de dez mil anos que pela última vez saíra de forma tão desagradável de uma nave. Por um instante sentiu-se deprimido com a lembrança de Tarts... Recordava-se de que o guerreiro impetuoso o empurrara pelo tubo pressurizado da Tosoma, gravemente danificada, quando Atlântida estava submergindo. Dali a um segundo, bateu com o punho fechado no botão luminoso vermelho à sua esquerda. Um forte ruído

surgiu no interior do tubo. Bombas gigantescas aspiraram o ar, causando uma queda de pressão ao longo do eixo do tubo. Ouviu um chiado na altura da escotilha. O ar pressurizado estava entrando, e aumentava a pressão na outra extremidade do tubo. Uma tormenta rugiu em torno do arcônida, fazendo seus cabelos esvoaçarem. Sofreu uma forte aceleração e o sangue subiu-lhe à cabeça. Viu a escotilha da comporta à sua frente. Naquela comporta, terminavam mais cinco poços de ar pressurizado, vindos de todas as direções. Se o jovem oficial fosse bastante rápido, teria alarmado a nave e ocupado a comporta o mais rápido possível. Nesse caso, alguns ekhônidas zangados estariam atrás da escotilha para receberem Atlan de armas em punho. Uma dúvida tomava conta da mente do arcônida. Se na comporta não houvesse trajes espaciais, Atlan poderia regressar, mesmo que ninguém apontasse a arma para ele, e anunciar a Perry Rhodan que seu plano fracassara. Pois o plano não poderia ser executado sem um traje espacial. Impaciente e nervoso viu a escotilha deslizar para o lado. A câmara da comporta estava vazia e profusamente iluminada. Em compensação, pelo menos uma dezena de trajes espaciais, além de outros equipamentos, estavam pendurados nas paredes. Atlan envergou um dos trajes o mais rápido que pôde. A escotilha interna fechara-se automaticamente. Atlan abriu à externa e suspirou aliviado. Enquanto esta estivesse aberta, ninguém poderia alcançá-lo. Estava em segurança. Ninguém poderia impedir a execução de seu plano. Bastaria agir com bastante prudência, e praticamente já teriam conquistado a liberdade. Examinou o pequeno aparelho de retropropulsão embutido no traje espacial. Seu funcionamento era impecável. Escolheu entre os inúmeros equipamentos, pendurados às paredes, uma corda de plástico de cerca de trezentos metros de comprimento e enganchou-a no cinto do traje espacial. Prendeu a outra extremidade à alça presa da parede interna da comporta. Depois saiu, fazendo a corda deslizar pela mão. No instante em que se lançou para fora, sentiu-se abandonado pelo campo de gravitação artificial existente no interior da nave. A aceleração parecia querer arrastar a Keenial a uma velocidade terrível. Mas logo ligou o retropropulsor. Face ao pequeno campo antigravitacional a pressão tornou-se suportável e a corda não foi submetida a uma tensão excessiva. Atlan foi planando lentamente ao longo do envoltório da nave, em direção à protuberância equatorial que expelia para a escuridão as chamas branco-azuladas dos bocais de jato. *** O som estridente das sereias de alarma encheu todos os corredores e compartimentos da nave. Perry Rhodan parou de discutir em inglês com os dois guardas. Olthaur e seu camarada fitaram-se com uma expressão de perplexidade. Rhodan esforçou-se para ocultar a sensação de triunfo. 168


Se as coisas continuassem a correr conforme haviam previsto, então... As sereias calaram-se. O silêncio que se seguiu tinha algo de fantasmagórico. Olthaur lançou um olhar assustado para os prisioneiros e dirigiu-se à cabina do intercomunicador. Perry Rhodan continuou parado na porta, fitando o terceiro guarda que o ameaçava de arma em punho. Olthaur manteve uma palestra ligeira e exaltada. Descansou o fone e disse em tom nervoso: — Os prisioneiros serão levados à sala de comando. Se soubesse quanto Rhodan teve de esforçar-se para não suspirar aliviado, teria desconfiado. No entanto, a única coisa que ouviu foi o protesto formal de Rhodan: — O doente não pode ser transportado. Ao que parecia, Olthaur se sentia zangado com a própria insegurança. — Pode ser transportado, sim! — gritou em tom furioso. — Vamos logo! Não quero conversa. Perry Rhodan entrou no camarote. Sem que o guarda o percebesse, lançou um olhar encorajador para Reginald Bell. Este, muito sério, acenou com a cabeça. Fellmer Lloyd já havia recuperado os sentidos. Já estava melhor; o remédio começava a fazer efeito. Fez questão de caminhar até a sala de comando, mas Rhodan e Bell não deram atenção aos seus protestos e levaram-no, amparandoo. Os dois guardas estavam atentos e prontos para disparar suas armas. — Para lá! — disse Olthaur em tom enérgico, apontando sua arma pelo corredor. *** Atlan conhecia a nave como a palma da mão. Era do mesmo tipo da que comandara há vários milênios, quando instalou uma colônia no sistema de Larsaf. Sabia qual era a ligação entre a abertura dos bocais e a potência do empuxo. E também sabia que na parte externa da nave, junto às saídas dos jatos, havia pequenos mecanismos manuais, capazes de alterar a abertura de cada bocal. Às vezes os mecanismos manipulados a partir da sala de comando falhavam. E uma nave não podia ser manobrada, caso não se pudesse regular a abertura dos bocais e, com isso, a potência do empuxo. Para tanto, havia dispositivos manuais, destinados a controlar os bocais. Era mais ou menos a mesma coisa que acontecia com os velhos automóveis dos terranos. Além do motor de arranque elétrico, tinham uma manivela capaz de pôr o veículo em movimento quando o arranque falhasse. Atlan lembrou-se desses veículos e não pôde deixar de pensar nos mesmos, enquanto se deslocava ao longo da protuberância equatorial, em direção aos raios de partículas... Agora, poucos metros o separavam do primeiro mecanismo de regulagem manual. Puxou rapidamente a corda e percebeu a resistência que

oferecia. Precisaria da corda assim que começasse a trabalhar. Teria necessidade também do retropropulsor e do campo antigravitacional. É que os mecanismos de regulagem manual não estavam acoplados aos mecanismos neutralizadores de pressão da nave. Assim que modificasse a largura dos bocais, a Keenial empinaria que nem um potro selvagem! *** Chollar estava muito nervoso, mas não teve tempo de descarregar sua raiva sobre os prisioneiros. Perry Rhodan sentiu a inquietação reinante na sala de comando. Um dos prisioneiros desaparecera por um caminho estranho, raras vezes trilhado. Abandonara a nave. Naquele instante vagava em algum lugar do espaço. Por quê? Chollar mandou que seus homens fossem procurá-lo. Os corredores principais da nave estavam fortemente vigiados. Era possível que o prisioneiro tentasse entrar por uma das comportas. Metade dos tripulantes preparou-se para sair da nave. Naquele instante, Chollar ainda não conseguia imaginar que tipo de prejuízo um prisioneiro desarmado, que se encontrasse do lado de fora, poderia causar à nave. Porém tinha de contar com todas as possibilidades, e até com aquelas que no momento não lhe ocorriam... Os três prisioneiros mantiveram-se nos fundos da grande sala. Estavam sendo vigiados pelos dois guardas. Perry Rhodan contou os ocupantes da sala de comando. Incluídos os dois guardas, eram dezessete pessoas. O número de ekhônidas não lhe causava incômodo. Só no momento adequado veria como esses homens reagiriam à surpresa que os aguardava. Perry Rhodan levantou cautelosamente o braço. Olthaur reagiu imediatamente, entortando o dedo junto ao gatilho. Com um sorriso amável, Rhodan sacudiu a cabeça e apontou para o relógio. Queria apenas saber das horas. Eram dezoito horas e cinqüenta e três minutos. Em Terrânia, a noite principiava. Mas não era isso que importava. O importante era que, às dezoito horas e cinqüenta e cinco minutos, Atlan começaria a agir. *** Atlan lançou um olhar para o relógio. Faltavam quarenta segundos. Sua mão direita segurava a alavanca do pequeno mecanismo de regulagem. Tentou empurrá-lo um milímetro. A alavanca obedecia perfeitamente. Não teria a menor dificuldade de, com um único movimento, modificar de tal forma a abertura dos primeiros três bocais que a potência do empuxo fosse reduzida em quarenta por cento. Olhou para cima, ou melhor, para o lugar em que, segundo a impressão do momento, devia ser em cima. A grande comporta de carga continuava fechada. Ao que parecia, até então ninguém tivera a idéia de procurar o 169


fugitivo junto à parede externa da nave. Mais vinte segundos. *** Finalmente chegou a hora! De início houve um forte solavanco, que parecia fazer o estômago subir à boca, seguido de um forte estrondo: o mecanismo propulsor, que funcionava de forma assimétrica, obrigou a nave a descrever uma curva fechada. Os homens de Chollar foram tomados de surpresa. Viram-se arrancados das cadeiras, rolavam pelo chão, batiam com a cabeça, os ombros e as pernas, e soltavam gritos de pavor. Mesmo para os terranos, que já contavam com aquilo, as coisas não foram boas. O primeiro solavanco atirou Fellmer Lloyd ao chão e fê-lo perder os sentidos. Perry Rhodan e Reginald Bell deram um tremendo salto para perto daquela confusão de pernas e braços ekhônidas e, imediatamente, passaram à realização da outra parte do plano. Quando Perry Rhodan conseguiu apoderar-se da primeira arma, a Keenial ainda jogava violentamente. Era uma arma de choque, e Perry começou a disparar sobre os homens deitados à sua frente. Não compreendia que as coisas pudessem ser tão fáceis. Mas, quando conseguiu levantar-se de forma pouco segura e procurou compensar o jogo da nave com movimentos dos joelhos, viu que já havia colocado fora de combate sete dos dezessete homens da sala de comando. Nos fundos da sala, Reginald Bell trabalhava que nem um louco. Segurando duas armas de choque ao mesmo tempo, disparou salvas paralisantes sobre os homens caídos, antes que estes compreendessem o que estava acontecendo. Parte dos tripulantes já havia sido posta fora de ação por causa da queda. Às dezenove horas e dois minutos, Reginald Bell e Perry Rhodan se haviam apossado da sala de comando da Keenial. Recolheram as armas dos homens inconscientes e trancaram as escotilhas de entrada. A sala de comando foi transformada numa fortaleza. Finalmente Perry Rhodan foi ao painel de pilotagem e desligou os mecanismos propulsores. Dali em diante, a Keenial cortava o espaço em velocidade constante. Não havia qualquer aceleração. No momento em que os raios chamejantes dos propulsores se apagaram, Atlan soube que o golpe fora bem sucedido. *** Um silêncio sepulcral reinava na nave. Os oficiais chamaram a sala de comando. Perry Rhodan lhes contou o que havia acontecido. Ao mesmo tempo, foram advertidos de que não deveriam atacar a sala de comando. Perry Rhodan deixou bem claro que os ocupantes da sala de comando deviam ser considerados reféns. A advertência produziu o efeito desejado. Os terranos foram deixados em paz. Atlan voltou por um tubo pressurizado que o conduziu

diretamente à sala de comando. Perry Rhodan apertou-lhe a mão, sem dizer uma palavra. Não havia tempo para palavras, mas todos sabiam quanto o arcônida tinha feito. Perry Rhodan começou a calcular os dados para o salto que levaria a nave a um setor espacial controlado pela frota terrana. Teve alguns problemas com o computador ekhônida. Seu trabalho progredia lentamente. Isso o deixava impaciente. Quanto mais tempo a Keenial se deslocasse livremente pelo espaço, melhores seriam as ideias que acudiriam aos ekhônidas que se encontravam nos corredores da nave, aguardando o inimigo cometer um erro. Já há algum tempo, Perry Rhodan bolava um plano simples e fácil de ser executado, pois não representaria um perigo para quem quer que fosse. Apenas o impediria de colocar a nave em movimento a fim de pôr-se em segurança através um hipersalto. “Vou enviar uma mensagem enigmática...”, pensou Rhodan. De repente, o suprimento de energia da sala de comando foi interrompido. A partir desse instante, a sala de comando passou a ser um recinto morto. Sem luz, calefação e renovação de ar! Um único aparelho continuava a funcionar, porque dispunha de gerador próprio. Era o emissor de emergência. Aliás, era ele que estava nos planos de Perry. Rhodan e Bell tatearam pela escuridão. Os corpos rígidos dos ekhônidas não lhes davam muito trabalho. Encostaram-nos à parede, junto a duas escotilhas trancadas. — Fique com os ouvidos bem atentos, almirante — disse Rhodan. — E não atire contra Lloyd, quando ele recuperar os sentidos. Ele se encontra nessa direção. Depois voltou à poltrona do piloto. O pequeno painel do transmissor de emergência ficava à esquerda do painel geral. Perry Rhodan tateava, procurando a chave mestra. Por fim a encontrou e logo a virou. Cinco lâmpadas pequenas acenderam-se, espalhando uma claridade suficiente para reconhecer o painel. Enquanto punha o transmissor a funcionar, ficou refletindo sobre o texto da mensagem que deveria transmitir. Devia ser concebido de maneira a não despertar a atenção das naves arcônidas, mas sim a dos terranos. Devia parecer uma mensagem de rotina, mas, apesar disso, a frota terrana deveria compreender que havia um grupo de terranos em perigo. Depois de refletir por algum tempo, Perry Rhodan decidiu enviar a seguinte mensagem: “Lamira XII chamando YN-LISS. Posição Goshun.” O texto foi redigido em arcônida. A única palavra intraduzível foi a palavra Goshun. Mas Perry Rhodan achava que os arcônidas que captassem a mensagem acreditariam que Goshun fosse o nome de algum planeta e não dariam maior importância ao fato. Certamente nenhum deles saberia que Goshun era o nome do lago em cuja margem ficava a capital da Terra, Terrânia. Rhodan pegou o microfone e repetiu o texto três vezes. 170


Tinha a intenção de repetir o chamado de dez em dez minutos, até que chegasse o socorro. *** A disposição espacial Terra—Fera Cinzenta—Árcon III formava um triângulo irregular, com um ângulo obtuso no vértice correspondente à Terra e um ângulo muito agudo, que media poucos graus, no ponto em que ficava Árcon III. Ao sair de Fera Cinzenta, a Keenial se deslocara pelo lado maior do triângulo, em direção a Árcon. Em virtude disso, depois de duas transições, que a haviam levado a uma distância de cerca de doze mil anos-luz, não estava muito mais longe da Terra que por ocasião da partida. Perry Rhodan calculava que uma nave terrana, vinda do setor em que ficava o planeta Terra, levaria cinco a seis horas até encontrar a Keenial. Isso, naturalmente, se partisse assim que fosse captada a primeira mensagem. O suprimento de ar da sala de comando, que estava isolada, também daria para cinco ou seis horas. Se todas as esperanças fossem vãs, ainda se poderia expedir um pedido de socorro em linguagem clara, que evidentemente faria acorrer ao local naves vindas de todos os setores. É bem verdade que, neste caso, as primeiras naves a aparecerem provavelmente seriam as arcônidas. A tripulação da Keenial continuava tranquila. A espera martirizante não queria chegar ao fim.

5 Subitamente houve movimento no interior da nave. Ouviram-se gritos e o som cantante dos disparos energéticos atravessou as paredes. A Keenial começou a tremer. Os três terranos que se encontravam na sala de comando logo se colocaram de pé. Gritos e disparos! Isso só podia significar que, para os ekhônidas, as pessoas, que procuravam penetrar na nave, eram inimigas. E, se fossem inimigos dos ekhônidas, só poderiam ser terranos. Os prisioneiros continuavam inconscientes. Três horas e meia se haviam passado a partir do momento em que Perry Rhodan expedira a primeira mensagem... A nave terrana deveria estar bem longe da Terra, quando recebeu a mensagem. De outra maneira, não poderia ter vindo tão depressa. O barulho foi aumentando. Reginald Bell caminhou impacientemente na escuridão e parou junto a uma das escotilhas. Aproximou-se da parede metálica e procurou ouvir o que se passava lá fora. Os ruídos não puderam ser identificados. De qualquer maneira, uma luta mortífera estava sendo travada nos conveses e corredores da nave. Os ekhônidas pareciam

oferecer um máximo de resistência ao intruso. — Deveríamos abrir a escotilha — sugeriu Reginald Bell. — Assim essa gente ficaria entre dois fogos. Perry Rhodan achou que o plano seria muito arriscado. — Vamos esperar! — decidiu. *** O fragor da luta crescia. A nave tremia. Ao que parecia, a resistência da tripulação ekhônida estava entrando em colapso. O barulho foi-se aproximando. Reginald Bell encostou-se na parede e ouviu perfeitamente as pisadas que corriam pelo corredor. Os minutos foram passando. Perry Rhodan olhou para as cifras luminosas de seu relógio. A luta pela posse da Keenial já estava demorando mais de uma hora. Subitamente uma das escotilhas começou a ribombar! Atlan e Rhodan abrigaram-se do lado oposto da sala. Não deram a menor atenção aos prisioneiros. — Não abra! — ordenou Rhodan. — É uma armadilha! O ruído cessou. Perry Rhodan aproveitou um tempo para “enviar” sinais. Bateu ritmicamente. Dava três batidas seguidas. Mas a pessoa que se encontrava do lado de fora não parecia “disposta a aprender” o ritmo. Depois de algum tempo, a escotilha voltou a ribombar. Desta vez, o ruído foi tão forte e furioso que os três terranos recuaram alguns passos. Era uma situação irreal. Encontravam-se a bordo de uma nave inimiga, onde ocupavam uma única sala, isolada do resto. Haviam irradiado um pedido de socorro e esperavam que uma nave terrana viesse em seu auxílio e os resgatasse. Esperavam que, do lado de fora, alguém batesse na escotilha e gritasse: “Abram!” Acontece que a pessoa que se encontrava do lado de fora não dizia uma única palavra. As pancadas, que fizeram a escotilha estremecer, eram tão fortes que nem dez punhos humanos reunidos poderiam tê-las desferido. Uma suspeita terrível surgiu na mente de Rhodan. — Abram! — ordenou. — E mantenham as armas para baixo. Com um ruído metálico, o fecho da escotilha correu. A escotilha abriu-se e uma luminosidade profusa entrou na sala, avivando os contornos de um vulto gigantesco, que fez o sangue gelar nas veias dos terranos. Era um “toco”, um toco negro e em forma de cubo, que se mantinha sobre duas pernas, que mais pareciam colunas. Na parte superior do toco havia uma esfera sem cabelos, que era a cabeça. Os olhos facetados brilhavam mesmo na escuridão, e a abertura triangular da boca estava escancarada. Os braços pendiam ao lado do toco. Eram grossos e robustos e terminavam num par de mãos que chegavam a ser ridículas de tão finamente articuladas. Aquele ser era um druuf! *** Uma vez passado o susto, notaram que o druuf estava 171


armado e ainda trazia um aparelho tradutor. Subitamente a boca triangular moveu-se. Aquilo nem de longe era uma fala. Os druufs utilizavam outros órgãos para emitir as vibrações de ultrassom que transmitiam sua fala ininteligível. Apesar disso, o pequeno aparelho de fala começou a soar e disse numa voz impessoal e mecânica: — Ouvimos sua mensagem. Chegamos à conclusão de que devem estar em situação difícil e viemos para auxiliar. Nossa nave está à sua disposição. Perry Rhodan não levou muito tempo para recuperar o autocontrole. Uma nave dos druufs estivera nas proximidades quando expediu o pedido de socorro. Quer tivessem entendido a palavra Goshun, quer não, o fato é que tinham vindo para ver o que estava acontecendo. Não demonstraram o menor escrúpulo para com os tripulantes da Keenial. Afastaram tudo que se interpôs em seu caminho. Subitamente teve uma ideia bastante desagradável. Os druufs fariam questão de que ele, Atlan, Bell e Fellmer Lloyd subissem a bordo de sua nave. As estranhas relações existentes entre os druufs e os terranos, que os separavam mais do que os uniam, provavelmente fariam com que os druufs os considerassem como prisioneiros. Isso não era tão ruim como poderia parecer à primeira vista. Apesar disso, Perry Rhodan resolveu fazer uma tentativa. — Ficamos muito gratos — disse. — Mas achamos que não precisamos valer-nos de sua amável oferta. Nossas naves estarão aqui dentro de algumas horas. O aparelho tradutor levou algum tempo para realizar a transladação. Assim que isso aconteceu, mais cinco druufs apareceram na sala de comando. — Não acredito que nosso comandante goste da recusa — disse o primeiro druuf. — Vemo-nos obrigados a insistir em que, daqui por diante, se considerem nossos hóspedes. “Quem dera que a mentira fizesse você morder a língua”, pensou Perry Rhodan numa disposição amarga.

Sabia que já não havia nenhuma saída. A superioridade dos druufs era tremenda. Teriam de acompanhá-los. Em Fera Cinzenta, já haviam passado de mal a pior, e mais uma vez sua situação se modificava sem que conseguissem livrar-se. Passavam da mão de um inimigo para a de outro. A liberdade dos terranos parecia ter entrado num beco sem saída. Num galáctico beco sem saída! Perry Rhodan levantou a mão num gesto de concordância. — Está bem — disse. — Iremos com os senhores. O druuf esperou que o aparelho traduzisse estas palavras. Depois deu as costas a Rhodan e saiu caminhando. *** A nave era um dos gigantescos cilindros e parecia ser a conquista mais recente na arte da construção de naves espaciais dos druufs. Os prisioneiros receberam um tratamento amável, mas frio. Indicaram-lhes alguns camarotes e postaram alguns druufs nas respectivas portas, a fim de vigiá-los. Conforme se depreendeu de vários sinais, a nave — seu nome era composto de vários sons sibilantes impronunciáveis pôs-se a caminho assim que os prisioneiros foram colocados a bordo. Perry Rhodan teve certeza absoluta de que os druufs procurariam passar pela área de superposição, situada nas proximidades do sistema de Mirta, a fim de retornar o quanto antes à sua dimensão temporal. Perry Rhodan teve pena dos companheiros, que, desde o momento em que surgiu o druuf, mantiveram-se calados. Rhodan ainda tinha esperança. Era bem verdade que se encontravam numa situação muitíssimo mais desagradável do que a inicial. Mas, de qualquer maneira, entre os druufs estavam melhores do que estariam em Árcon. Ainda havia um pouquinho de esperança. Uma pequena luz poderia surgir no fim do... beco sem saída.

Até parece que a morte de Thora deu início a uma fase negra na história da Humanidade. Perry Rhodan e alguns homens mais importantes do Império Solar são dados como mortos... Em Nas Cavernas dos Druufs, título do próximo volume, os medidores de gravitação de Hades dão um sinal, transmitindo um S.O.S., e novas emoções acontecem.

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O Comando Suicida – Volume 17

Nº 80/81/82/83/84

Nas Cavernas dos Druufs A Nave dos Antepassados Xeque-Mate Universo Planeta Topsid, Favor Responder Recruta de Árcon De

Kurt Mahr Kurt Brand e Clark Darlton

2º CICLO – ATLAN E ÁRCON VOLUME 17 P-80 - 84

Ao que parece, a morte de Thora marcou o início de uma época sombria para a Humanidade. Perry Rhodan e alguns dos principais figurões do Império Solar são tidos como mortos: teriam sido consumidos pelo fogo atômico de Fera Cinzenta. O Marechal-Solar, Freyt, assume a direção do governo provisório; o Marechal Mercant incumbe-se dos serviços de segurança e o General Deringhouse tem sob seu cargo a frota espacial... Porém o fato de que, provavelmente, Perry Rhodan esteja morto, não foi revelado ao público, já que o jovem Império ainda não parece suficientemente consolidado a ponto de absorver, sem profundos abalos políticos, uma notícia tão catastrófica. Mas, por quanto será possível manter em segredo uma notícia tão importante? Ou será que o pedido de socorro, vindo dos subterrâneos de Rolando, representa uma tênue luz de esperança? 173


P 016. 2° Ciclo "Atlan e Árcon". Vol. 16 "O Universo Druufiniano". ed. 76 ao 79.