Issuu on Google+

1ยบ CICLO - A TERCEIRA POTรŠNCIA VOLUME 10 P- 46 - 49


O Herdeiro do Universo

O Herdeiro do Universo

Projeto Aço Arcônida

Gom Não Responde Volume 47

Volume 46

O Herdeiro do Universo

O Herdeiro do Universo

O Olho Vermelho do Sistema Beta

A Morte da Terra

Volume 48

Volume 49

2


Projeto Aço Arcônida Gom Não Responde O Olho Vermelho do Sistema Beta

A Morte da Terra

1º Ciclo – A Terceira Potência Volume 10 Episódios: 46 - 49 de 49

3


Nº 46 De Kurt Brand Tradução

Richard Paul Neto Digitalização

Vitório

Revisão e novo formato

W.Q. Moraes

A história da Terceira Potência em poucas palavras: - O foguete Stardust alcança a Lua e Perry Rhodan descobre a nave exploradora dos arcônidas, que realizou um pouso de emergência (vol. 1). - Instalação da Terceira Potência, contra a resistência das grandes potências terrenas e defesa contra tentativas de invasão extraterrena (vols. 2 a 9). - Primeira intervenção da Terceira Potência nos acontecimentos galácticos. Perry Rhodan defronta-se com os tópsidas e procura solucionar o enigma galático (vols. 10 a 18). - A Stardust-III descobre o planeta Peregrino, e Perry Rhodan alcança a imortalidade relativa (vol. 19). - Perry Rhodan regressa à Terra e luta por Vênus (vols. 20 a 24). - O Supercrânio ataca (vols. 25 a 27). - Chegada dos saltadores, que pretendem eliminar a concorrência potencial da Terra no comércio galáctico (vols. 28 a 37). - Primeiro contato de Perry Rhodan com Árcon e atuação como delegado do cérebro positrônico que exerce o governo no grupo estelar M-13 (vols. 38 a 42). A missão Aralon, durante a qual Perry Rhodan esteve empenhado em obter o remédio contra a peste dos nonus, está concluída. Com isso, a atuação de Rhodan, sócio do cérebro robotizado de Árcon, deveria ter chegado ao fim, ainda mais que com a descoberta da conspiração e a prisão dos conspiradores não há mais nenhum perigo que ameace o Império. Assim acredita Perry Rhodan, que pede férias ao Regente. Mas o Projeto Aço Arcônida, realizado por Perry Rhodan, pode ser tudo, menos férias...

4


realizou uma transição em direção a Árcon, vinda de 13,64 graus. — Arga! — a voz de Gegul vibrava. Não levantou os olhos. Pensava no nome Perry Rhodan com uma expressão malévola, enquanto aguçava o ouvido para verificar se Arga Tasla parara. — Pois não! — disse esta da porta. — Chame Ma-elz e Bro-nud. Quero que estes palermas compareçam dentro de dez minutos. Ma-elz e Bro-nud, que eram dois homens altos, pararam em atitude de expectativa, depois de terem entrado. — Sentem! — resmungou o inspetor-chefe Gegul e fez um movimento indiferente em direção às poltronas vazias. Passou diretamente ao assunto: — Rhodan saltou para Árcon. Por enquanto o perigo Aralon, a “fábrica de venenos” do passou. Andaram buzinando nos Império dos Arcônidas, não se deu por Personagens Principais deste nossos ouvidos que Rhodan e o vencida. episódio: cérebro robotizado trabalham de Só uma catástrofe de dimensões mãos dadas. Como estão as coisas planetárias poderia, de uma hora para outra, Perry Rhodan — Que pede férias por aqui? Em Aralon não há mais imprimir novo rumo a uma evolução ao Regente. uma única nave com doentes! E eu milenar. Aralon, o quarto planeta do sol lhes garanto que a catástrofe se amarelo e luminoso de Kesnar, situado a 38 Reginald Bell — O melhor amigo espalhará aos confins da Galáxia se anos-luz de Árcon, nem pensava em desistir não conseguirmos destruir o tal do e confidente de Perry Rhodan. do melhor negócio do Universo pelo simples Rhodan. motivo de que o tal do Perry Rhodan andava — Ainda não temos naves de Gegul — Um inspetor-chefe dos por aí. guerra — foi à observação um tanto aras, que comete um engano. Os aras, verdadeiros gênios em todos os prematura de Ma-elz. setores da medicina, eram persistentes como — Não precisamos delas — Keklos — Biólogo-chefe dos aras. os mercadores galácticos; na verdade, eram exclamou Gegul. mercadores galácticos. Vendiam seus — Vamos usar germes? — excelentes medicamentos a preços Talamon — Cuja vida foi salva balbuciou Bro-nud, erguendo-se da extorsivos, enquanto cuidavam por Perry Rhodan. Agora o poltrona. discretamente para que em nenhum planeta superpesado terá oportunidade de — De que doença? — perguntou desaparecesse qualquer das doenças que retribuir de igual para igual. Ma-elz, endireitando o corpo. ameaçavam a vida de seus habitantes. — Será que não poderiam Em última análise, queriam ganhar, e a Topthor — Chefe de um dos clãs formular perguntas mais ânsia do lucro caracterizava-os como dos superpesados, que fareja um inteligentes? — escarneceu Gegul mercadores galácticos. bom negócio. com um sorriso diabólico. — Vocês De repente viram-se atacados, pela só sabem desfiar músicas triviais. primeira vez, por uma doença que teria de Por que será que ninguém se lembra levá-los à ruína financeira, se a “infecção” da única ideia acertada? Por quê? não pudesse ser detida por meios radicais. Ma-elz e Bro-nud não lhe fizeram o favor de lembrar-se A doença chamava-se Perry Rhodan. da ideia acertada. Naquele momento, os dois teriam pago Desde que existiam como negociantes de doenças e uma boa soma se pudessem ter uma ligeira ideia das medicamentos, ele lhes infligira a primeira derrota. Os aras intenções do inspetor-chefe. não estavam dispostos a aceitar outra derrota. — É claro — disse Gegul depois de alguns segundos de O inspetor-chefe Gegul, responsável pela segurança de espera. — A solução mais simples não ocorre a ninguém. Aralon, sobressaltou-se em meio aos seus pensamentos Cheio de arrogância refestelou-se na grandiosidade de quando sua assistente Arga Tasla entrou praticamente sem uma idéia e sentiu-se um chefe superinteligente e fazer nenhum ruído e lhe entregou uma mensagem. condescendente. Inclinou-se para frente, fez sinal para que Ma-elz e Bro-nud se aproximassem e só começou a falar Localização quando os auxiliares se encontravam diante de sua realizada pelos escrivaninha. rastreadores — Minha ideia é esta... — principiou, enquanto Ma-elz estruturais: e Bro-nud ouviam atônitos. Tempo 8:75:93 m1; A ideia do inspetor-chefe Gegul era realmente genial. local 105; localização Já a essa hora a destruição de Perry Rhodan parecia combinada 103 e inevitável, e com ela a do planeta do qual viera. 106. de

Às 8:75:03,1 a frota Perry Rhodan

*** 5


Talamon, o superpesado, deu um sorriso gentil para o mensageiro dos mercadores galácticos. Fazia meia hora que o homem subira a bordo da nave capitania, “somente para sondar a opinião de Talamon”. Os superpesados eram os guerreiros dos mercadores galácticos. Sempre que os saltadores não conseguiam controlar uma estrela, sempre que um mundo se obstinasse em não permitir a escravidão, os superpesados tinham de cuidar do problema, mediante excelente paga. Desde cedo começaram a distinguir-se dos saltadores, porque no mundo por eles habitado reinava uma gravitação extraordinária. Essa gravitação marcara seu físico. Cada superpesado pesava até quinhentos quilos, e tinha dois metros de altura e um e meio de diâmetro; oferecia um aspecto medonho, embora não pudesse ser considerado disforme. Os superpesados dispunham das melhores naves de guerra, não comparando com as pertencentes ao Império. Tal qual os saltadores, estavam divididos em clãs, e o chefe de um desses clãs, Talamon, acabara de receber a visita do mensageiro dos mercadores, que pretendia sondá-lo. O clã de Talamon representava alguma coisa. Dispunha de duzentas naves de guerra. Era só graças a Perry Rhodan que Talamon ainda as possuía e continuava vivo. E o mensageiro lhe perguntou o que pensava de Perry Rhodan. — Para mim é muita coisa! — resmungou Talamon sem pestanejar, exibindo uma cara de jogador de pôquer. O mensageiro poderia ter esperado tudo, menos uma resposta dessas. Mostrou-se chocado. Talamon mostrou um sorriso bondoso, em que havia um pouco de pena. — Não é possível que o senhor realmente esteja pensando assim, Talamon. Talamon moveu seus seiscentos e cinquenta quilos com uma agilidade de que ninguém o teria julgado capaz. O rosto de jogador de pôquer desapareceu. Assumiu uma expressão ameaçadora e sua voz trovejante gritou para o mensageiro, enchendo a sala de comando: — Queria que dissesse que Rhodan é uma simples estrela cadente? Sabe que sua pergunta é uma verdadeira ousadia? Já se esqueceu que Rhodan fez a frota robotizada de Árcon trovejar pelo espaço? Eu, Talamon, me vi diante da destruição juntamente com minha frota. Será que isso não é nada? Não venha me dizer que alguém que consegue fazer o que Perry Rhodan fez não é nada. O mensageiro contorcia-se como um verme. Talamon viu, mas fez de conta que não estava percebendo nada. Queria cozinhar o sujeito. Fazia questão de que o mesmo se abrisse, contando por que realizara tamanha despesa, entrando em contato pessoal com ele, Talamon, que se encontrava a dois mil anos-luz de Árcon. Uma mensagem pelo hipercomunicador teria saído mais barato. — Vamos logo, mensageiro! O que desejam? Fale! O que querem que eu faça? E quanto estão dispostos a pagar? — Quem me mandou foi Siptar — disse o mensageiro. — Até parece que este camarada quer viver para sempre — resmungou Talamon, numa alusão ao fato de que Siptar era o mais velho dos chefes de clã entre os saltadores. — Antes disso falei com Vontran. Siptar e Vontran perderam muitos parentes no planeta de Goszul...

— E daí? — a figura quadrática e esverdeada de Talamon sorriu e esperou. — O boato de que Perry Rhodan esteve envolvido na explosão de bomba ocorrida no planeta de Goszul, quando os patriarcas haviam comparecido à Grande Assembleia, continua a circular insistentemente... A gargalhada descontraída de Talamon fechou a boca do mensageiro. As lágrimas corriam pela face esverdeada do superpesado. Quanto mais ria Talamon, mais perturbado se sentia o mensageiro. Aborrecido, finalmente, achou que bastava: — Qual é a graça? No mesmo instante, Talamon silenciou. — É verdade — disse, dando razão ao mensageiro, não sabendo o que pensar de tão surpreso que ficou. — Não há nada de engraçado. A catástrofe do planeta de Goszul foi um caso muito triste, mas dali a culpar Perry Rhodan pelo fato... Mensageiro, quero dizer-lhe uma coisa. “Há pouco, quando o senhor perguntou o que achava de Rhodan, eu lhe disse que, para mim, ele é muita coisa”. “O senhor não gostou. Mas pouco importa que goste ou deixe de gostar: a resposta só poderia ter sido esta. Perry Rhodan é um fator que não pode ser desprezado por ninguém”. “Agora o senhor me vem com seus boatos. Achei graça. Sabe por que achei graça? Porque com essas histórias tolas o senhor reconhece sem querer que os saltadores também acham que Perry Rhodan é muita coisa. É verdade ou não é?” — Pois então estamos de acordo — respondeu o mensageiro em tom manhoso. Talamon encarou-o com uma expressão de perplexidade no rosto. — Rapaz, está na hora de falar — disse em tom enfático. — Senão eu lhe explico como são as coisas quando me torno desagradável. O senhor veio para engajarme contra Perry Rhodan. É verdade ou não é? — É. — É a primeira resposta clara que o senhor me dá, e é uma resposta muito interessante. Abra-se com o velho Talamon. Sou todo ouvidos. *** Com um forte estouro, a Titan e a Ganymed emergiram do hiperespaço, retornando ao Universo normal. O cérebro robotizado de Árcon devia ter calculado a posição com seus rastreadores estruturais supersensíveis, pois Rhodan escolhera de propósito um setor tranqüilo do grupo estelar M-13 como ponto final de sua hiper trajetória. O choque provocado pela transição desvaneceu-se no organismo de todos os ocupantes das naves. Como sempre, Perry Rhodan e seu amigo Reginald Bell foram os primeiros a ter consciência após os efeitos do salto. Diante deles os sóis do sistema, captados pela gigantesca tela de visão global da Titan, brilhavam num esplendor indescritível. A luminescência reluzente e cintilante, que se refletia em todas as cores e nuances, constituía a melhor apresentação para quem se aproximasse do Império dos Arcônidas. — ...quem dera que não fossem tão dorminhocos — suspirou Bell. — Quieto gorducho! — disse Perry Rhodan em voz 6


baixa. Atrás dele encontrava-se Crest, o arcônida, e a um passo deste estava Thora, uma arcônida garbosa, inteligente e temperamental. Ambos pertenciam às classes mais elevadas da sociedade do império estelar cujos sóis viam brilhar naquele instante. Bell era um sujeito honesto, um tanto esquentado. Virou-se para Thora. Em seu rosto havia um sorriso de escárnio. — Alguma objeção? — perguntou. — Já está na hora de inventar outra coisa — respondeu Thora com uma serenidade majestática. Bell soltou um grunhido. — Você não ia entrar em contato com aquele montão de lata para pedir férias? -perguntou, dirigindo-se a Perry Rhodan. Chamar o gigantesco cérebro robotizado de Árcon de montão de lata era uma enorme irreverência. Mas nem mesmo os dois arcônidas se zangaram com o lugar-tenente de Rhodan, por ter usado tal expressão. Gucky, que estava sentado ao lado de Reginald Bell, chilreou baixinho: — Montão de lata! Você é um grosso formidável. No mesmo instante, a sala de comando da Titan encheuse de gostosas gargalhadas. Gucky, o ser em forma de ratocastor que era telepata e mais uma porção de coisas, acabara de chamar Reginald Bell de grosso formidável. As lágrimas corriam pelas faces de algumas das pessoas que se encontravam na sala de comando. Ao todo eram mais de trinta. Thora soltou uma risada cristalina. Crest não conseguiu dominar o riso e colocou a mão diante da boca. Perry Rhodan sacudia-se de tanto rir. — Seu porcalhão! — rugiu a voz de Bell, superando as risadas. Num gesto rápido procurou agarrar Gucky, sua mão segurou o vazio. Num instante, o rato-castor se afastara por meio do conhecido salto de teleportação. Chiando em meio ao silêncio que tomara conta do recinto após o grito de Bell, aterrissou nos braços de Thora e perguntou: — Thora, você vai acariciar meu pêlo? Afinal, chamei esse gorducho de grosso formidável. Num tom ríspido — que chegava a ser duro demais, porque esmagava um episódio altamente humano — a voz do oficial de rádio chamou: — A frota robotizada OGG-06 pede o sinal de código. Estas palavras trouxeram todo inundo de volta à realidade. Numa velocidade equivalente a 0,8 vezes a da luz, a Titan deslocava-se juntamente com a Ganymed em direção ao anel externo de fortificações, que envolvia Árcon I, II e III, transformando-o numa fortaleza estelar inexpugnável. Nas entranhas da gigantesca esfera, que era uma obraprima da construção astronáutica dos arcônidas, vibravam, rugiam e zumbiam os conversores, transformadores, campos magnéticos, máquinas e conjuntos de dimensões inconcebíveis. Uma tripulação regular de mil e quinhentos homens faria da Titan a nave de guerra mais potente e perigosa da Via Láctea. O hipercomunicador estava aquecendo. Chegara a hora em que Perry Rhodan teria de falar com o cérebro robotizado instalado em Árcon. Depois de emitido o sinal de identificação, o regente robotizado confirmou a recepção. O gigantesco cérebro

positrônico, incapaz de qualquer emoção e capaz de reagir apenas à lógica mais fria e objetiva, estava esperando. Nem mesmo Perry Rhodan, que se dispunha a conquistar o Universo para a Terra, faria esperar o cérebro que ocupava uma área de dez mil quilômetros quadrados. Perry Rhodan conhecia suas limitações. Era mais uma qualidade que o destacava em meio aos demais homens. Rhodan ofereceu seu relatório ao cérebro instalado em Árcon. Foram palavras lacônicas, precisas, seguras. Não disse tudo, mas aquilo que falou devia trazer a marca da realidade para a lógica fria do gigantesco dispositivo positrônico. Nenhum esclarecimento foi solicitado. O alto-falante do hipercomunicador apenas zumbia. O regente robotizado estava esperando; o cérebro dissociou, controlou, examinou e interpretou o relatório de Rhodan e logo descobriu que a palestra ainda não havia chegado ao fim. Depois de ligeira pausa Rhodan prosseguiu: — Peço permissão para regressar à Terra a bordo da Titan. Durante o confronto com Talamon, o superpesado, constatamos que a tripulação prevista de mil e quinhentos homens não é suficiente. Nos homens vindos do planeta Terra não podemos esperar o QI com que se costuma contar em Árcon, muito embora uma pequena percentagem dos tripulantes da Titan seja capaz de um desempenho acima da média. Se quisermos fazer desta nave o elemento de força que seus construtores tiveram em vista, o aumento da tripulação torna-se absolutamente indispensável. E no planeta Terra encontrarei os homens de que preciso. Queira examinar meus argumentos. Durante três minutos ouviu-se o zumbido do hipercomunicador. Finalmente veio a resposta do cérebro robotizado. — Férias concedidas — soou a voz metálica do altofalante. A Titan desligou. Perry Rhodan virou a cabeça e encarou Bell. Este exibia um sorriso satisfeito. — Então você conseguiu tapear esse montão de lata — disse em tom satisfeito. — Se ele soubesse... — subitamente estacou. Lançou um olhar indagador para Perry. — Não está satisfeito por vê-lo enganado? — Não. Não temos nenhum motivo para ficarmos satisfeitos, Bell. As palavras de Rhodan ressoaram pesadamente pela sala de comando. Bell lançou um olhar pensativo para o amigo. Perry tinha razão. Não havia nenhum motivo para ficarem satisfeitos. Como uma sombra silenciosa evocada pelos incidentes ocorridos com os aras, a Terra mais uma vez se transformara no centro dos acontecimentos. Os aras também eram mercadores galácticos, e os mercadores galácticos continuavam a representar um perigo para a Terra. Topthor, o superpesado, conhecia a posição do Sistema Solar; o cérebro gigante de Árcon não a conhecia. Só no setor do grupo estelar M-13, alguns milhares de naves dos saltadores cruzavam o espaço. Cada uma delas era uma verdadeira fortaleza. O que poderia a Terra contrapor a essa força? Nada! 7


Um dos pontos fortes de Perry Rhodan consistia em nunca superestimar a própria força. E o ponto que o preocupava era que dentro em breve os saltadores poderiam partir para um ataque maciço contra a Terra, para transformar o “planeta turbulento” num sol que se consumiria num holocausto nuclear. Era por isso que pretendia voltar à Terra juntamente com a Ganymed. A alegação apresentada ao cérebro robotizado, de que a tripulação da Titan não era suficiente, desde logo se apresentava com uma fragilidade transparente. O autômato era muito inteligente para cair num golpe tão primário. Estava interessado em acompanhar os saltos da Titan e da Ganymed para descobrir as coordenadas da Terra. Mas havia um fato que o cérebro robotizado não conhecia nem devia conhecer. Tanto a Titan como a Ganymed dispunham do compensador estrutural inventado pelos mercadores galácticos, que tornaria impossível o cálculo das transições realizadas por essas naves. Bell procurou afastar as preocupações. — Pois faremos com que esses ciganos espaciais também não tenham nenhum motivo para ficarem satisfeitos — disse com a voz zangada. — Vamos preparar a transição, Perry? Perry Rhodan limitou-se a acenar com a cabeça.

A figura maciça e esverdeada de Talamon surgiu na tela e sorriu para Perry Rhodan. Há poucos minutos o chamado havia sido recebido pela freqüência de hipercomunicação do superpesado. Agora a pesada nave de guerra emergia lentamente da escuridão do espaço e adaptou sua velocidade à da Titan. — Irei até aí, Perry Rhodan — disse Talamon depois do ligeiro cumprimento. Sua imagem desfez-se. Na Tal VI, a comunicação fora interrompida. — Suspender os preparativos para a transição — disse Rhodan pelo rádio, dirigindo-se à Ganymed. — Todos os dados continuam válidos. Depois, lançou um olhar para Bell. — Mande que John Marshall e Gucky venham até aqui. No mesmo instante, uma luminescência surgiu diante de Rhodan. O rato-castor surgiu. Seu dente roedor solitário sorria com satisfação. Procurou acomodar-se no colo de

Rhodan. — Ora, Gucky! — disse Rhodan numa ligeira recriminação. — Estamos recebendo urna visita oficial. Gucky planou para o canto mais afastado da sala de comando. Ninguém riu. Devia haver um motivo importante para que o superpesado surgisse pouco antes que a Titan e a Ganymed iniciassem a transição em direção à Terra. Talamon só se tornara amigo de Perry Rhodan depois da missão executada no planeta Aralon. Todavia, ainda faltava dar uma prova dessa amizade. Será que Talamon vinha como amigo? Rhodan compreendeu o olhar preocupado de Crest. Estavam pensando a mesma coisa. Era justamente por isso que Gucky e John Marshall deviam estar presentes durante a palestra, a fim de verificar se as intenções de Talamon eram honestas. — É uma bela nave — disse o superpesado. Depois de dar outra olhada pela sala de comando, acrescentou: — Acontece que dentro de pouco tempo já não será tão bela assim. Já estava mostrando as cartas. Perry Rhodan percebeu o sinal de John Marshall. Talamon não estava ocultando nada. Realmente viera na intenção de prevenir Rhodan. — Um momento, Talamon! — Bell pousou uma das mãos no ombro de Perry, enquanto a outra movia a chave que estabelecia contato com o posto de observação da Titan e da Ganymed. Disse para dentro do microfone: — Exerçam vigilância rigorosa em todos os setores do espaço. Liguem os protetores de localização na potência máxima. Voltando a dirigir-se ao superpesado, que sorria satisfeito diante das instruções, Reginald Bell disse: — Mande que sua nave se coloque entre as nossas. Se quisermos evitar que os outros formulem perguntas indiscretas, não devemos dar-lhes a menor oportunidade para isso. Quer fazer o favor de transmitir as instruções para sua nave? Um sorriso ainda mais largo cobriu o rosto do superpesado. — Se todos os homens do planeta Terra são tipos tão frios, cautelosos e impetuosos como este, já começo a sentir pena dos saltadores. É claro que mandarei colocar minha nave entre as suas. As grandes telas de visão global da Titan mostraram que a nave Tal VI, pesadamente armada, descreveu uma curva silenciosa, e, numa manobra elegante, colocou-se numa posição em que estaria a salvo da localização. — Pois bem — disse Talamon em tom indiferente, contemplando Perry Rhodan numa tensão mal disfarçada. — Os aras do planeta Aralon estão zangados com vocês. Do ponto de vista comercial compreendo essa atitude. Mas desde que fiquei sabendo que esses bandidos da medicina andam fazendo suas feitiçarias para que a gente pegue tudo quanto é peste, a fim de poderem vender seus medicamentos a preços extorsivos, não tenho a menor simpatia por eles. Em resumo: “Aralon alarmou os clãs dos aras espalhados pelos quatro cantos da Galáxia. Sempre há doenças. Os mercadores galácticos foram submetidos a verdadeira chantagem. Os aras os ameaçaram de não lhes vender mais remédios, e por isso viram-se obrigados a concordar em lançar um ataque à Terra a fim de transformar esse mundo num sol.” 8


— O ataque já foi iniciado? — perguntou Perry Rhodan em tom tranquilo, fazendo com que os seiscentos e cinquenta quilos de Talamon saltassem da poltrona e fitassem o ser terrano. Perry Rhodan fez pouco caso; Bell estava suando. Era outro dos blefes de Rhodan. Perry não chegara a afirmar que qualquer ataque seria rechaçado, mas deixara Talamon bem menos seguro de si. — Então, Talamon, os saltadores já iniciaram o ataque? — disse, insistindo na pergunta. — Não, os saltadores não se entregam tão depressa. E uma ação dessa envergadura nunca é iniciada sem uma reunião dos patriarcas. Mas os aras já conseguiram alguma coisa. Dentro em breve, haverá uma reunião dos patriarcas. Ninguém sabe onde. Nem mesmo o mensageiro que me procurou para saber minha opinião soube dar essa informação. — Três aproximações — anunciou o oficial do posto de observação. — Uma nave está rastreando o espaço. Distância 0,325 minutos-luz. Velocidade 0,21 abaixo da luz. Irradiando sinais codificados para outra nave. Sinais conhecidos. Trata-se de unidades da frota do superpesado Talamon. Talamon sorriu por todo o rosto e demonstrou sua admiração indisfarçada para Rhodan e Bell. — Estou curioso para ver se minhas naves não acabarão me encontrando. Rhodan estendeu a mão num gesto indiferente: — Aposto minha Titan contra sua nave capitania de como não nos descobrirão. O superpesado sacudiu violentamente a cabeça, escondeu as mãos maciças atrás das costas, deu uma risada matreira e disse: — A história de como o senhor se apoderou da Titan já se espalhou por aí. Não estou com vontade de apostar. Preciso da minha nave — logo voltou a tornar-se sério. — O plano dos aras não o deixa preocupado? Não preciso ser profeta para garantir que os médicos galácticos obrigarão os saltadores a destruir a Terra. E também não sou nenhum tagarela. Vim para ajudar o senhor e seu mundo. Perry Rhodan viu John Marshall esfregar os dedos. — Quanto terei de pagar por sua amizade, Talamon? — perguntou Perry Rhodan com uma risada. — Ó sublime Via Láctea! — exclamou o superpesado com um aparente entusiasmo. — Fomos feitos para sermos sócios um do outro. Nem mesmo com os arcônidas, tenho conseguido chegar tão rapidamente ao núcleo do negócio. — Pois essa gente dorme de pé! — observou Bell. De repente, os olhos de Talamon começaram a mexerse. Caminhavam de um lado para outro, fitando os dois homens tão diferentes no aspecto e no caráter. Perry e Bell exibiram seus rostos de jogador de pôquer. Essa coincidência deu de pensar à raposa de seiscentos e cinquenta quilos que atendia ao nome de Talamon. Falando em tom pensativo, disse: — Aos poucos estou compreendendo por que todos nós, que temos alguma coisa a ver com o Império de Árcon, sempre levamos a pior quando lidamos com vocês. Mas vamos conversar sobre o preço. Afinal, de vez em quando tenho de alimentar meu clã. E manter duzentas naves em condições de combate não é nada fácil; custa muito

dinheiro. Nem estou calculando o risco que vou assumir... Perry Rhodan interrompeu-o em tom penetrante: — Quando dei ordem à frota de guerra robotizada de Árcon para que não transformasse as naves do superpesado Talamon em nuvens de gases, assumi um risco que excedia qualquer grandeza astronômica. E eu lhe pedi que pagasse alguma coisa por isso, Talamon? — Ora essa, Perry Rhodan! — respondeu Talamon em tom de recriminação. — Não se fala assim com um velho. — Será que não? — retrucou Rhodan com a mesma voz penetrante. — Nós, os humanos, gostamos de dizer a verdade, mesmo que seja dolorosa. Diga seu preço, Talamon. John Marshall levantou-se e aproximou-se dos três homens que estavam discutindo. Rhodan olhou para o mais competente dos seus telepatas e perguntou: — O que houve Marshall? O telepata entendia seu chefe. — O senhor me pediu que lhe lembrasse de que pretendia falar com o cérebro robotizado de Árcon. Essas palavras representavam um código; traduzida em termos normais, o teor da mensagem seria o seguinte: “Até aqui não notei nenhum pensamento traiçoeiro em Talamon.” Rhodan fez sinal para que Marshall se afastasse. — Isso não tem pressa. Obrigado. Talamon, que não perdera uma única palavra, logo tirou suas conclusões. — O senhor quer recorrer ao auxílio do Império, Rhodan? Não se esqueça de que os saltadores também são arcônidas. — Alguns estão dormindo enquanto outros são salteadores! — interveio Bell em tom mordaz. — Talamon, que raça sem finura é a sua? Realmente, vocês nos deixam preocupados. O superpesado não teve outra alternativa senão levar a objeção de Bell a sério. Em sua imaginação, a Terra transformou-se num único porto espacial e o poder de Perry Rhodan era imenso. — Diga seu preço, Talamon! — exigiu Rhodan, felicitando-se porque Bell estava participando da discussão. Era ele que descongelava o superpesado, fazendo-o afastarse do ponto de vista de que teria de ganhar muito dinheiro. — Para uma ação sem limite de tempo e com pleno engajamento de toda minha força de combate... são exatamente duzentas e dezoito naves, peço dez milhões. — Quanto vale uma tonelada de aço Árcon-T? — perguntou Perry. — Aço Árcon-T? O aço de que são feitas as naves espaciais? — Talamon aguçara os ouvidos. — Isso mesmo. Tenho umas trezentas ou quatrocentas toneladas para vender. — Quanto? Perry Rhodan levantou-se. Por enquanto considerava encerrada a discussão. — Reflita juntamente com seu clã se minha proposta representa um negócio interessante para os senhores. Depois disso, combinaremos um preço entre amigos. Pagando uma taxa de dez milhões por sua atuação em defesa da Terra, ainda terei de receber algumas dezenas de milhões do senhor. Quando voltaremos a encontrar-nos? ***

9


O inspetor-chefe Gegul encontrava-se diante do Conselho de Médicos de Aralon, ao qual teria de apresentar seu relatório. Nos últimos dias, o ara envelhecera alguns anos. Uma enorme responsabilidade pesava sobre seus ombros. Recebera a incumbência de exercer pressão contra todos os clãs dos saltadores, fazendo, sempre que necessário, sua chantagem contra os patriarcas. O ara diria que, em determinadas circunstâncias, os fornecimentos de remédios poderiam ser suspensos. Gegul teve que recorrer ao Serviço Intergaláctico de Informações. Sua organização não dispunha de recursos para “trabalhar” todos os clãs dos mercadores num espaço de poucos dias. Apesar dos esforços que o haviam obrigado a passar várias noites sem dormir, assumia uma atitude orgulhosa diante do Conselho, cujos membros ouviam sua exposição com um prazer cada vez maior. Gegul só falava sobre ações bem sucedidas. Vez por outra, um sorriso cínico surgia em seu rosto, quando contava como certo patriarca fora convertido à causa dos aras com a força do argumento de que nos próximos dias todo o clã poderia contrair uma doença mortal. Neste caso os aras se veriam obrigados a recusar o pedido de cura, pois no futuro só estariam disponíveis para os amigos. — Quando será realizada a assembléia dos patriarcas, e onde? — perguntou Dumeh, que estava presidindo o Conselho de Médicos. — Dentro de oito dias, em Laros — respondeu Gegul. — Em Laros? — interveio Santek em tom de surpresa, lançando um olhar penetrante para Gegul. — Justamente em Laros, onde realizamos nossas experiências biológicas? Gegul, você devia ter sido abandonado por todos os deuses estelares quando lhe deu na cabeça de sugerir a décima oitava lua do sistema de Gonom como ponto de encontro. Gegul perdeu parte de sua postura orgulhosa. — Peço licença para expor os motivos que me levaram a sugerir Laros como ponto de encontro dos patriarcas dos saltadores. Parti do fato de que há alguns meses os chefes de clã dos mercadores galácticos realizaram sua assembléia geral no planeta Goszul, situado no sistema 221-Tatlira, a fim de decidir a respeito de Perry Rhodan. “A assembleia geral terminou numa explosão nuclear”. “Os saltadores realizaram uma tentativa desesperada de voltar a fixar-se em Goszul, mas esta resultou numa doença misteriosa. Só nós, os aras, constatamos que a mesma é inofensiva. Apesar disso o planeta de Goszul continua a ser considerada uma estrela proibida”. “É possível que esses fatos, ainda não esclarecidos, tenham sido encenados por Perry Rhodan, mas não temos prova disso”. “Em Laros dispomos de recursos que nos permitem impedir qualquer influência indevida sobre a assembleia dos patriarcas, protegê-la e mesmo destruir quem pretenda exercer tais influências”. “Foram estas considerações que me levaram a sugerir a décima oitava lua do planeta Gom, situado no sistema de Gonom, como ponto de encontro dos patriarcas e dos superpesados.” Gegul sentiu-se aliviado ao notar o sorriso diabólico de Santek. Também Dumeh demonstrou uma amável concordância. — O biólogo chefe Keklos já foi informado, Gegul? —

perguntou Dumeh em tom gentil. Mais uma vez, o inspetor-chefe inclinou ligeiramente o corpo: — O biólogo chefe Keklos foi colocado a par de tudo e está de acordo com as medidas por mim sugeridas. Uma expressão de triunfo brilhava nos olhos de Gegul. *** Topthor, amigo de Talamon e inimigo encarniçado de Rhodan, foram arrancado do sono. Tattoll estava de pé junto à sua cama. — Senhor, o quartel-general dos superpesados quer se comunicar conosco — disse em tom exaltado, continuando a sacudir o braço do chefe do clã. — E daí? — resmungou Topthor. — Quem quer falar comigo deve saber esperar. Diga ao quartel-general que comparecerei. Não teve muita pressa em chegar ao aparelho de hipercomunicação. Vestiu-se tranquilamente. Ficou refletindo sobre o que o órgão central poderia querer. Tinha certeza de que não se tratava de uma missão que pudesse render milhões. Qualquer mensagem desse tipo vem com a nota de maior urgência. Caminhou devagar em direção à sala de comando. A última escotilha abriu-se automaticamente. De longe viu o tremeluzir da tela: era o sinal típico de transmissão pelo hipercomunicador. Fungou enquanto se deixava cair na poltrona do piloto. — Topthor! — gritou com a voz contrariada. — Quartel-general! — soou a voz metálica do microalto-falante. O rosto conhecido de Sirger, segundo patriarca do clã de Darfnur, surgiu na tela. — Diga logo o que aconteceu, meu filho — insistiu o gigante esverdeado em tom pouco gentil. — Nossa mensagem está sendo transmitida pelo disjuntor, Topthor! O patriarca aguçou o ouvido. Se o disjuntor e o hipercomunicador estavam sendo usados ao mesmo tempo, algo de importante devia ter acontecido. O rosto de Topthor mostrou certo interesse. Este fato significava algo capital. Mas os músculos de sua face logo se descontraíram. O quartel-general anunciou data e local da assembleia dos patriarcas. — Teve de acordar-me por isso? — resmungou o velho. Sirger, que se encontrava no quartel-general dos superpesados, perguntou em tom indiferente: — Não está mais interessado em Perry Rhodan? Se havia um inimigo cujo nome Topthor nunca esqueceria, esse inimigo era Perry Rhodan. — O que houve com Rhodan? — berrou para dentro do microfone com tamanha força que Sirger, que se encontrava a alguns milhares de anos-luz de distância, imediatamente reduziu o volume do micro-alto-falante. — Será que o senhor não sabe o que aconteceu em Aralon? — perguntou Sirger em tom de espanto. — Na Via Láctea não se fala em outra coisa. Era um exagero, pois Topthor não sabia de nada. — Acha que posso saber de tudo, Sirger? Encontravame com minha frota nas profundezas da Galáxia, a vinte e oito mil anos-luz de distância, onde tive de liquidar um assunto. E esse assunto me custou seis naves. Não disse qual foi o assunto que teve de liquidar, mas Sirger soube tirar suas conclusões. Em poucas palavras, 10


contou os maus bocados que Perry Rhodan fizera os aras passar. Mencionou o nome de Talamon. — O quê? — voltou a berrar Topthor. — Talamon fugiu? Você está mentindo! Sirger não estava disposto a permitir que o chamassem de mentiroso, motivo por que formulou sua resposta de tal forma que Topthor começou a engolir em seco. Com a voz mais amável deste mundo, perguntou o que teria feito se estivesse no lugar de Talamon e, de repente, se visse cercado pela frota robotizada de Árcon. — Árcon se meteu nisso? O regente robotizado resolveu intervir? — Topthor não estava acreditando. — Você está me contando isso de maneira muito confusa, Sirger. Fim do contato. Topthor interrompeu a comunicação, mas não desligou o hipercomunicador. — Quero uma ligação instantânea com Talamon. A nave capitania de Talamon, Tal VI, não deu sinal de vida. Apenas uma nave de sua frota respondeu, mas ninguém sabia onde se encontrava o chefe do clã. Topthor desligou de vez. — É estranho — murmurou. — Talamon não indicou o lugar em que pode ser encontrado e não responde ao chamado expedido na sua frequência. Alguma coisa não está certa. Isso não é... Foi nesse instante que seu receptor captou outra mensagem de hipercomunicação. Mais uma vez era o quartel-general; o rosto de Sirger voltou a surgir na tela. — Será que o senhor pode dizer ao quartel-general onde poderíamos encontrar seu amigo Talamon? Topthor lançou um olhar idiota para a tela. Então também não conseguiam encontrar Talamon? Seu nervosismo cresceu. Pensava constantemente em Talamon e em Perry Rhodan. Estava preocupado com seu amigo Talamon e por causa de Perry Rhodan. *** Talamon estava voltando depois da terceira conferência com Perry Rhodan. Seu respeito para com esse homem crescera quase ao infinito, e não procurava esconder esse fato diante dos membros de seu clã. Mas nem todos concordavam com ele; era principalmente Oxcal que se opunha a toda e qualquer ligação com Rhodan. — Se Cekztel descobrir seu jogo, dentro de pouco tempo o clã de Talamon deixará de existir — advertiu. Talamon respondeu com um sorriso alegre. — Pois Cekztel não deverá saber — logo se esqueceu desse detalhe. — Mas você não precisa participar do grande negócio que fechei com Rhodan, Oxcal. Acontece que Oxcal queria participar do grande negócio. Tratava-se de uma quantidade quase inimaginável de sucata de aço Árcon-T. Se o negócio se concretizasse, sobraria uma boa quantia para cada membro do clã. — Onde deveremos buscar o material? — perguntou Oxcal, demonstrando seu interesse pelo negócio. Talamon sorriu para cada um dos circunstantes. Estava curioso para ver suas caras idiotas. Também fizera uma cara idiota quando Rhodan, respondendo a pergunta idêntica, lhe dissera: — Em Honur. — O quê? Em Honur? — a voz de Cresja vibrava num tom de pavor.

Talamon sorriu e acenou com a cabeça. — Será que também devemos pegar a doença? Aquela maldita peste da alegria? — perguntou Oxcal em tom incisivo. — Vocês são uns tolos — respondeu o velho Talamon. — Até hoje sempre fui eu quem trouxe os negócios mais gordos. Vocês vieram depois e embolsaram o dinheiro. Acham que já estou tão esclerosado que não me lembrei da epidemia de Honur? Acontece que Rhodan também não se esqueceu dela. Por isso, não assumiu qualquer risco quando me contou onde está aquela sucata de primeira. Poderemos dar uma olhada no cemitério de naves existente no planeta proibido. Por enquanto isso basta. Faremos um inventário, realizaremos cálculos aproximados e, se entendi as palavras ditas por Rhodan durante a última conferência, não teremos que pagar nada. Apenas devemos manter-nos afastados de cinco naves cargueiras de grande porte e um couraçado arcônida, que Rhodan pretende reservar para si. Não é um bom negócio, meus irmãos de clã? Talamon sentia-se triunfante. Oxcal lembrou-se da epidemia que atacara setecentos tripulantes da Titan. Era uma hipereuforia provocada por ursinhos criados como animais domésticos no planeta de Honur. — Rhodan nos fornecerá o antídoto, Oxcal. Já se esqueceu que esteve em Aralon, e que muitos dos seus tripulantes haviam contraído a doença? Ainda estão doentes? Oxcal lançou um olhar pensativo para seu patriarca. Não estava gostando do fogo juvenil que brilhava em seus olhos. Devia contê-lo, pois do contrário levaria todo o clã para a desgraça. — Se Cekztel, chefe de todos os clãs, tiver a mais leve suspeita, ele nos exterminará. E se Topthor tiver a menor ideia do que se passa, esquecerá quem é seu amigo. Odeia Perry Rhodan com toda a força do coração. O rosto de Talamon assumiu um feitio rígido. — Não quero que ninguém de vocês pense em dar uma dica a Cekztel e Topthor. Por isso nossos rádios continuarão em silêncio, tanto na emissão como na recepção. Levantou-se e dirigiu-se ao seu camarote. Pensava menos no grande negócio que em Perry Rhodan. Talamon compreendia cada vez melhor que em Rhodan conquistara o mais sincero dos amigos, desde que ele mesmo continuasse sincero. *** A bordo da Ganymed houve um alarma ligeiro. Há poucos minutos o coronel Freyt, comandante do couraçado de 840 metros de comprimento, regressara depois da conferência com o chefe. Imediatamente quinhentos homens assumiram seus postos. Na popa da nave, os conjuntos e os conversores entraram em funcionamento. A Ganymed preparava-se para partir. Só os oficiais da sala de comando conheciam o destino. O couraçado acelerava lentamente. À distância, que a separava da nave esférica Titan, foi crescendo. O cérebro positrônico de bordo controlava a aceleração. Numa indiferença quase total, o coronel Freyt, sentado na poltrona do piloto, contemplava a grande tela de visão global. Fazia dez minutos que a Titan, reduzida a um 11


pontinho, desaparecera. A nave Tal VI, comandada por Talamon, estava com todas as luzes apagadas e envolta no campo protetor de localização da gigantesca nave esférica. Naquele instante, transmitia uma mensagem hiperconcentrada pelo super transmissor da nave de Rhodan. — Bip! — foi o som que se ouviu quando o receptor da Ganymed captou a transmissão. O coronel Freyt virou-se para o oficial incumbido do cérebro positrônico. Este se limitou a acenar com a cabeça. Foi só. Freyt não formulou qualquer pergunta. Sabia que as coordenadas do salto e os dados relativos ao tempo estavam armazenados no cérebro positrônico, aguardando o momento de serem utilizados. — Bip! — voltou a fazer o micro-alto-falante da sala de comando. Foi a resposta à mensagem hiperconcentrada da Tal VI. Uma das naves da frota de Talamon acabara de responder. A tela de comunicação direta com a sala de rádio iluminou-se diante de Freyt. O oficial de rádio transmitiu o texto decodificado da mensagem. Mais uma vez, o comandante limitou-se a acenar com a cabeça. A imagem na tela desfez-se e o alto-falante acoplado nesta foi desligado. Pouco depois, o dispositivo de localização automática começou a funcionar. A Ganymed se deslocava a uma velocidade de 0,74 abaixo da luz. Mais uma vez, Freyt lançou um olhar indagador para o oficial incumbido do cérebro positrônico. — Mais trinta e três minutos, coronel — disse o oficial. Depois da primeira operação de localização, a Ganymed modificara o rumo em 8 graus e 32 segundos Pi. Os potentes neutralizadores de pressão devoravam as energias que surgiram no momento em que o couraçado saiu rapidamente do velho rumo, para tomar outro. Só a tela de visão global revelara a alteração. Alguns sóis desapareceram acima da extremidade superior, enquanto outros penetraram pela extremidade inferior. Nenhum dos homens que se encontravam na sala de comando teve tempo ou vontade de contemplar o espetáculo ímpar da cintilância do grupo estelar M-13. Hoje nada seria capaz de cativar os homens. Voavam no desempenho de uma missão. Deslocavam-se exatamente na direção da nave que o dispositivo de localização mantinha sempre ao alcance dos instrumentos de medição. A velocidade da Ganymed aproximava-se da marca de 0,9 abaixo da luz. O coronel Freyt fumava. Estava reclinado na poltrona do piloto. Reclinara-se com a mesma tranquilidade quando, há muitos anos, realizara as missões mais perigosas nos caças de um homem da frota de Rhodan. Um lampejo fulgurante chamou Freyt de volta para a realidade. O dispositivo automático de localização eliminou a aceleração da Ganymed. O enorme couraçado com as quatro aletas salientes na popa aproximava-se em queda livre da nave que acabara de ser localizada por meio do goniômetro. Naquele momento, estava sendo captada pelo dispositivo ótico. Vinha do setor de meia nau. Com nitidez formidável, a nave cilíndrica surgiu numa tela adicional, que se encontrava à esquerda de Freyt. Não demorou a ser identificada. O tenente Feller

informou: — É a Tal CLIII. O alarma ensurdecedor abafou todos os outros ruídos a bordo da nave. Enquanto isso, o rastreador estrutural rangia. Vindas do nada, do hiperespaço, três naves surgiram numa proximidade ameaçadora da Ganymed. — Era só o que faltava! — disse o coronel Freyt em tom tranquilo. Mas logo emitiu suas ordens. — Avisem o chefe! Estas palavras foram dirigidas à sala de rádio. — Vamos defender-nos com todas as armas se formos atacados! Esta ordem ressoou nos postos de combate. No mesmo instante, abriram-se as escotilhas dos canhões. A Ganymed estava preparada para o combate. Quem seriam esses veículos espaciais que, vindos da transição, continuavam a aproximar-se do couraçado? — São naves dos saltadores! O aviso veio duas vezes, do posto de localização e do setor de observação ótica. — Digam à Tal CLIII que dê o fora imediatamente — berrou no microfone, dirigindo-se à sala de rádio. — Transição — rangeu a voz do tenente Dreyfus, que se encontrava no setor de rastreamento estrutural. — A Tal CLIII acaba de saltar. — Ataque do verde quarenta e cinco — soou a voz tranqüila do oficial de tiro de Dora 8. O setor Dora 8 encontrava-se no ângulo em que a aleta de popa número um se ligava harmonicamente ao envoltório da nave. Na sala de máquinas do couraçado, as turbinas começaram a uivar. Milhares de ligações eram feitas e desfeitas. Os últimos conversores começaram a rugir. As usinas de força forneceram energia de sobra aos postos de combate. Dora 8 disparou durante oito segundos. — Nosso campo de visão é muito bom — disse Freyt, elogiando os homens que se encontravam a meia nau e conseguiram realizar o milagre de colocar simultaneamente três naves cilíndricas nas telas especiais. Os artilheiros de Dora 8 também mereciam elogios. A parte em que ficavam os propulsores de uma das naves dos saltadores desapareceu. Por menos de meio segundo, ficara sujeita ao impacto direto de um potente raio de desintegração. — Outra transição — fungou o tenente Dreyfus. Sua surpresa cresceu ainda mais. — A Tal CLIII voltou... A mensagem vinda da sala de rádio saiu ruidosamente do alto-falante: — Mensagem hiperconcentrada vinda da Tal CLIII. O texto decodificado será fornecido em seguida. O coronel Freyt começou a imaginar o motivo por que a nave de guerra da frota de Talamon voltara e resolvera intervir na luta. A nave do clã dos superpesados atacou a Ganymed. Três enormes raios de desintegração precipitaram-se em direção à nave de Freyt, mas todos erraram o alvo. Não chegaram sequer a roçar os campos defensivos do couraçado de 840 metros de comprimento. Os homens que guarneciam as posições de artilharia esbravejavam de raiva e amargura. Não viam mais nada de bom em Talamon e seu clã. 12


A voz do coronel Freyt fez-se ouvir: — Lancem ataques simulados contra a Tal CLIII. Os disparos devem passar raspando. Mas quero que essas canoas dos saltadores sejam transformadas em sucata. Finalmente a mensagem decodificada da Tal CLIII foi fornecida pela sala de rádio. — Realizaremos ataques simulados. Só isso. No mesmo instante, o campo defensivo da Ganymed foi sacudido por oito impactos. Cascatas de luz irromperam em torno da nave e a violência dos raios desintegradores encurvou os campos energéticos, a fim de que estes pudessem absorver o enorme volume de energia. — Que diabo! — esbravejou o oficial de tiro Bredhus, que se encontrava de serviço em Berta 5, pois a Tal CLIII se colocara diante de uma das naves dos saltadores, protegendo-a e impedindo numa fração de segundo que seus propulsores fossem destruídos. O coronel Freyt, que acompanhava a batalha com o maior interesse por meio da tela de visão global, exibiu um sorriso quase imperceptível. A Tal CLIII estava desempenhando seu papel com perfeição, tornando a batalha mais difícil para a Ganymed. As duas naves dos saltadores que continuavam em condições de manobrar teriam que acreditar que uma nave dos superpesados se colocara a seu lado na luta contra a Ganymed. *** Por coincidência, Talamon se encontrava a bordo da Titan, quando a menos de trinta minutos-luz de distância irrompeu a batalha espacial entre a Ganymed e as três naves dos saltadores. A intervenção da Tal CLIII e, antes dela, seu desaparecimento no hiperespaço e seu reaparecimento, haviam sido registrados com toda precisão pelos aparelhos de observação. — Então? — limitou-se Perry Rhodan a perguntar e lançou um olhar de esguelha para a figura quadrática de Talamon, quando a meio bilhão de quilômetros dali a Tal CLIII disparou três raios de desintegração contra a Ganymed, errando o alvo. Talamon ergueu-se ligeiramente. — Em meu clã não existem traidores, Perry Rhodan! Esta frase lacônica exprimiu o poder que cada patriarca exercia sobre seu clã. Qualquer ordem de comando era uma lei para todos. — Não acha que o aparecimento das três naves dos mercadores é uma coincidência muito estranha? — perguntou Reginald Bell, sem deixar perceber o menor resquício da jovialidade que tantas vezes gostava de demonstrar. Naquele instante, também a Titan captou a mensagem hipercondensada da Tal CLIII. No momento em que Talamon se dispunha a dar uma resposta áspera, receberam o texto decodificado: — Realizaremos ataques simulados. Num gesto impulsivo, Bell estendeu a mão ao patriarca. — Não leve minhas palavras a mal, Talamon. Uma desconfiança honesta limpa o ambiente. Talamon pegou a mão e apertou-a cautelosamente. Respirava com dificuldade. — Eu mesmo não acreditava no que estava vendo quando a Tal CLIII lançou o ataque contra a Ganymed,

mas... — Não há nenhum, mas — interveio Rhodan. — Os ataques simulados contra a nave de Freyt são o único meio de enganar os saltadores e evitar que os mesmos desconfiem de que o senhor colabora comigo. Talamon acho que ainda seremos bons amigos. *** Enquanto a luta continuava, o coronel Freyt pensava com frequência cada vez maior na missão que tinha a cumprir. A Tal CLIII realmente tornava muito difícil alcançar o fim da batalha desigual. A cada minuto crescia o perigo de que os saltadores pudessem surgir com outras unidades de sua frota, pois as duas naves cilíndricas que ainda estavam em condições de combate emitiam constantemente seus pedidos de socorro. Uma ligeira vibração sacudiu a Ganymed. Um abalo percorreu a gigantesca nave. Oito ou nove posições de artilharia haviam disparado suas peças ao mesmo tempo. O espaço escuro transformou-se num plano aberto em leque. Os dedos luminosos precipitaram-se para as profundezas do cosmos e atingiram as duas naves dos saltadores. Duas nuvens alaranjadas espalharam-se para todos os lados. O metal derretido gotejou, as energias dos conversores explodiram em terríveis relâmpagos, os campos magnéticos entraram em colapso em meio a uma série de curtos-circuitos. As três naves cilíndricas dos saltadores estavam sem a popa. Reduzidas a destroços, deslocavam-se em queda livre descontrolada e seus tripulantes aguardavam o fim. Era assim que os saltadores costumavam tratar seus inimigos: só se contentavam com a destruição total. Por cima de tudo isso, a esfera monstruosa aproximouse em meio a um ribombo, vinda das profundezas do espaço. A Titan acabara de chegar. O aparecimento da nave de um quilômetro e meio de diâmetro devia ter provocado um choque na Tal CLIII. Afastou-se com uma tremenda aceleração. Foi este o quadro e a ação que se apresentaram aos sobreviventes das três naves dos saltadores. Compreendiam a fuga do superpesado e estavam mais do que nunca convencidos de que o fim estava próximo. Mas a Titan e a Ganymed não demonstraram o menor interesse pelos destroços desgovernados. As naves aceleraram e não tardaram em desaparecer do raio de alcance ótico dos náufragos. Menos de dez minutos depois, quatorze naves cilíndricas penetraram no setor em que se desenrolara a luta, vindas do hiperespaço. Realizadas em breves intervalos, quatorze transições provocaram um abalo enorme na estrutura espacial. A Titan, que voltara a acolher a Tal VI em seu campo superpotente de defesa antilocalização, registrou todas as transições. Os olhos de Rhodan chamejavam. Um sorriso disfarçado brincava em torno de seus lábios. Lançou um olhar para o setor de localização estrutural. O oficial, que se encontrava em atitude tensa na poltrona, fez um gesto rápido com a cabeça. — Transição dupla! — anunciou, e forneceu as coordenadas e a direção do salto. 13


Agora Perry Rhodan sorria satisfeito. Estava pensando no cérebro robotizado de Árcon. Ali também fora medido o salto duplo. O robô gigantesco olhava tudo com algumas centenas de milhares de relês arcônidas, aguardando o segundo salto da Titan e da Ganymed. Esperava o momento de, mediante os cálculos da transição, descobrir o ponto exato da Galáxia em que ficava a misteriosa Terra, o mundo de que vinha Perry Rhodan. E Perry Rhodan conseguira iludir o cérebro positrônico. Em vez da Titan, a Tal CLIII saltara juntamente com a Ganymed em direção ao centro da Via Láctea. A Titan, aproveitando esse tipo de camuflagem, permanecia no interior do grupo estelar M-13, pois tinha de realizar algumas tarefas importantes antes de regressar à Terra ameaçada. O regente positrônico esperou em vão pelo segundo hipersalto espacial. O salto não veio, e o compensador estrutural da Ganymed absorveu o abalo da estrutura espacial. Enquanto a Tal CLIII, desenvolvendo sua velocidade normal, equivalente à da luz, tomava o rumo do seu setor de origem no grupo estelar, a nave do coronel Freyt executou a segunda transição. Mas também esta não se dirigia exatamente para o setor secundário da Via Láctea onde havia um sistema que incluía o planeta Terra.

O superpesado Topthor recebeu a notícia irradiada por seu quartel-general: a Titan e a Ganymed, pertencentes à frota de Perry Rhodan, haviam tomado o rumo do centro da Galáxia, provavelmente para dirigir-se ao seu sistema solar. — Sirger — disse o velho de tez verde com um sorriso feroz — o quartel-general está exalando gentilezas por todos os poros. Será que já posso saber o que há atrás de tudo isso? Não era tão fácil enganar um homem desconfiado como Topthor. A figura de Sirger, locutor de comunicações do quartelgeneral dos superpesados, projetada na tela, não era nada agradável. — Ainda não conseguimos localizar seu amigo Talamon — disse desanimado. — Eu também não consegui — resmungou Topthor, ainda mais aborrecido que antes. Começava a preocupar-se realmente com o destino de Talamon e de sua frota. —

Ontem não houve uma pequena batalha entre três naves dos saltadores e a Ganymed de Rhodan? Será que as informações que recebi não são corretas? Pelo que soube, a Tal CLIII, que é uma nave de guerra da frota de Talamon, realizou uma ação corajosa, batendo-se com a Ganymed a fim de dar aos mercadores uma chance de escapar, mas esse maldito Rhodan apareceu com a Titan e... — Tudo isso é verdade, senhor. As informações que tenho diante de mim dizem a mesma coisa. Mas a Tal CLIII viu-se obrigada a fugir quando apareceu a Titan, e desde então não dá mais sinal de vida. Estamos tateando no escuro. — Rhodan... — exclamou Topthor em tom de ameaça, no qual vibrava um ligeiro desespero. — Onde esse sujeito aparece, sempre há uma porção de acontecimentos inconcebíveis e de problemas. Fim, Sirger. Obrigado pelo chamado e por seu interesse. *** Numa viagem-relâmpago, a Ganymed acabara de regressar à Terra. Depois de três saltos realizados sob a proteção do compensador estrutural, voltara a ingressar no espaço normal entre as órbitas da Terra e Marte. Apoiada sobre as quatro aletas de popa, a gigantesca Ganymed estendia o corpo enorme em direção ao céu. A ponta desapareceu nas nuvens densas que pairavam sobre o deserto de Gobi. Nuvens sobre Terrânia! Para o coronel Freyt isso não prenunciava nada de bom, embora não fosse supersticioso. Terrânia, o minúsculo trampolim situado no deserto de Gobi, de onde Perry Rhodan se pusera a caminho a fim de conquistar o Universo para a Terra, era o polo de força da Terra. Para os homens, representava uma concentração inconcebível de poder. O coronel Freyt estava pensando nesse poder enquanto o carro o fazia passar em velocidade vertiginosa junto aos cruzadores pesados e à Stardust-III. Acontece que a Terra possuía menos cruzadores pesados que os dedos existentes numa única mão de um homem. Os mercadores galácticos e os superpesados poderiam lançar mão de mil vezes esse número. E, se o coronel Freyt ainda se lembrasse do poderio do Império de Árcon, não poderia fazer outra coisa senão sacudir a cabeça. — Nossa chance é de um contra um milhão — disse com a voz baixa e o desânimo ameaçava apoderar-se de seu espírito. Mas logo se lembrou das experiências pelas quais havia passado nos últimos anos juntamente com Perry Rhodan, e não pôde deixar de murmurar: — Nossas chances nunca foram melhores. Temos Perry Rhodan, e os outros não o têm. Alguma coisa começou a vibrar em seu interior, a irradiar força para seu espírito. Essa força vinha de uma distância de 30 mil anos-luz, isto é, do lugar em que Perry Rhodan se encontrava a bordo da Titan. Meia hora depois da chegada do coronel Freyt, foi realizada a primeira conferência. — Major Nyssen, quando o compensador estrutural estará instalado na nave Solar System? Foi assim. Freyt disparou uma pergunta após a outra. Exigia respostas precisas. A comunicação quase chegou a aquecer o ambiente. Indagações formuladas aos estaleiros, laboratórios, estabelecimentos de controle. Mensagens de 14


rádio dirigidas aos estabelecimentos que forneciam os componentes corriam em redor da Terra. No curso dessa conferência, Terrânia chegou a bloquear por meia hora dois terços de todas as comunicações radiofônicas. Para a Terra este era o primeiro e o único indício de que havia alguma coisa no ar. Terrânia só fazia uso de seus direitos irrestritos quando havia um perigo muito grave. Em todas as estações montadas em satélite foi instaurado o regime de prontidão rigorosa. A calma reinante nas bases instaladas em planetas e luas chegou ao fim. O coronel Freyt notou um brilho de entusiasmo nos olhos de seus colaboradores. Não era a favor desse tipo de heroísmo. Por dez minutos, um filme de Árcon interrompeu a conferência. Durante dez minutos, homens perplexos foram bombardeados pelo poderio de Árcon, que quase chegava a esmagá-los, a aniquilá-los psiquicamente. O filme de Árcon martelava impiedosamente a alma de cada um. — Na melhor das hipóteses nós e a Terra temos uma chance de um em um milhão — disse o coronel Freyt depois da representação, familiarizando-os com a realidade. — As chances não são melhores nem piores do que sempre foram. Se os aras conseguirem engajar os mercadores galácticos em prol de seus objetivos, fazendo com que os saltadores e os superpesados se lancem num ataque à Terra, e não vejo por que os aras não conseguiriam isso, dentro de pouco tempo o planeta Terra deixará de existir e nosso sistema terá dois sóis em vez de um. “Não procurem pensar que Árcon com seu poderio irá nos ajudar. Na opinião do chefe, é justamente esse poderio que representa o maior perigo para a Terra. Se o gigantesco cérebro positrônico descobrir nossa posição, nada nos salvará da escravidão, da sujeição a uma máquina. Se não soubermos defender-nos com nossos próprios meios, estaremos perdidos. Aguardo suas sugestões amanhã, à mesma hora.” *** — Bip! — o receptor de hipercomunicação da Titan emitiu um som. — Chefe — exclamou o cadete Mengs, que se encontrava de plantão na sala de rádio. — A frota de Talamon entrou em posição de mergulho. Perry Rhodan fez de conta que não tinha ouvido o título “chefe” com que seu subordinado se dirigira a ele. Sabia perfeitamente que nas conversas não oficiais todos o chamavam de chefe, mas não era costume iniciar uma mensagem com esta palavra. Virou a cabeça. Bell estava sentado na poltrona do copiloto. — Como está o compensador estrutural, Bell? — Funcionando. As engrenagens começaram a girar. A Titan estava preparada para o salto. Todos os preparativos haviam sido completados. A marca zero chegou. O enorme cérebro positrônico encarregou-se de todos os detalhes. Não poderia haver nenhuma falha humana. A Titan mergulhou no hiperespaço. Mas desta vez não houve o tremendo abalo estrutural que costumava surgir quando um objeto se afastava da estrutura espaço-temporal, e que podia ser medido em qualquer ponto da Galáxia. A última das grandes invenções dos mercadores galácticos, que eram inimigos encarniçados de Perry

Rhodan e da Terra, era o compensador estrutural. Esse aparelho fora instalado no corpo gigantesco da Titan. O compensador estrutural havia sido descoberto a bordo da Ganymed, um couraçado construído pelos saltadores e apresado por Rhodan. Perry introduzira algumas modificações na nave: colocara quatro aletas de popa e acrescentara uma ponta de sessenta metros de comprimento. Lançando mão de todos os recursos de sua tecnologia, a indústria terrana conseguira copiar esse produto de uma civilização desconhecida. Todavia, o compensador que se encontrava a bordo da nave de Rhodan era o único exemplar. Muito tempo se passaria até que a Terra pudesse iniciar a fabricação em série. Num tempo zero, que só podia ser compreendido em termos matemáticos, a Titan saiu do hiperespaço e passou a flutuar no silêncio demoníaco e no negrume do Universo. Estava a 8 mil anos-luz do Império de Árcon, longe de qualquer grupo estelar, num ponto em que a desolação infinita oferecia proteção contra a descoberta por qualquer nave dos saltadores. O cadete Mengs avisara que a frota de Talamon se encontrava em posição de mergulho. Num ligeiro impulso concentrado, o patriarca Talamon avisara a execução dessa parte do plano. Sua frota de mais de duzentas naves jazia a mais de oito mil metros de profundidade, no fundo do oceano de amoníaco. Acima dele, borbulhava a atmosfera venenosa do gigantesco planeta que tinha oito vezes o diâmetro de Júpiter e no Império de Árcon era considerado um dos mundos que devia ser evitado: era a peste espacial. As naves de Talamon mantiveram-se durante 36 horas em posição de mergulho. Era o que havia sido combinado com Rhodan. Com isso, se retiraria a menor justificativa de qualquer suspeita de que Perry Rhodan ainda se encontrasse no interior do grupo estelar M-13, ou de que o superpesado Talamon cooperasse com ele. As instalações de rádio da Titan haviam captado as mensagens de Topthor, e também os chamados ininterruptos expedidos pelo quartel-general dos superpesados, que procuravam localizar Talamon. A mensagem de Talamon passou despercebida, no momento em que estava sendo anunciados tempo e lugar da assembléia dos patriarcas. Uma explicação plausível foi preparada para justificar a conduta de Talamon, que se mantivera em posição de mergulho. Na mesma mensagem se anunciaria que, dentro em breve, o patriarca poderia oferecer à venda quantidades enormes de aço Árcon-T. Dali a algumas horas, quando Perry Rhodan, numa ronda pelos postos de sua nave passou pela sala de rádio, o cadete Mengs entregou-lhe uma pilha de mensagens interceptadas e decifradas. Rhodan passou os olhos por elas sem maior interesse. Subitamente estacou. Bell estava em sua companhia. — Leia isto, gorducho! Bell recebeu quatro mensagens para ler. Quando estava na segunda, falou entre os dentes: — Será que estes fabricantes de venenos já estão fazendo das suas de novo? — quando tinha tomado conhecimento da quarta mensagem, seus olhos começaram a chamejar. — Se eu puser as mãos nesse ara, o Gegul...! — disse em tom ameaçador. — Os aras são uma raça pior que o demônio. Nada é sagrado para estes médicos... Que médicos, que nada! São assassinos. Fazem de conta que curam e aliviam o sofrimento para realizar seus negócios 15


imundos. Perry, você sabe onde fica o planeta Exsar? O catalogo estelar dos arcônidas forneceu a informação desejada. O cérebro positrônico de bordo calculou a distância do salto. 4.375 anos-luz não representavam nada para a Titan. Perry Rhodan e Reginald Bell sabiam que esse salto representava um grande risco para eles. Porém precisavam certificar-se de que a terrível notícia que haviam recebido era verdadeira. Há dezoito horas-luz da órbita de Exsar, o sexto planeta da série de nove que gravita um torno do pequeno sol geminado, a Titan emergiu do hiperespaço sem ser notada. O tenente Tifflor recebeu ordem para apresentar-se ao chefe. Perry Rhodan explicou a finalidade da missão. — ...Não queremos aumentar o risco que corremos, tenente Tifflor. Por isso levaremos o senhor numa Gazela até dez minutos-luz de Exsar. Usaremos o transmissor fictício. O senhor chegara ao planeta pela face oposta ao sol. E um dos poucos mundos dos saltadores. Tem que encontrar um meio de pousar sem ser notado. Só o senhor sairá da nave num traje espacial. No momento, uma doença está surgindo em Exsar, matando diariamente duzentas mil pessoas: mercadores galácticos com suas mulheres e filhos. Esse planeta foi o único que se recusou a mandar um patriarca para participar da assembleia dos saltadores que será realizada em breve. Face a isso, os aras desferiram o golpe. Recorreram a sua arte diabólica para contaminar um planeta inteiro. Quero saber se este relato inconcebível corresponde à realidade. Tifflor, quero que o senhor me traga uma informação segura sobre se estas mensagens de rádio não são exteriorizações de um doente mental. Bateu com a palma da mão contra as quatro folhas dobradas que segurava entre os dedos. — O cérebro positrônico lhe fornecerá os dados de que precisa. Não se esqueça de que a Titan está protegida contra a observação. Tudo entendido, tenente Tifflor? — Tudo entendido. O tenente Tifflor, o oficial mais jovem e mais bem sucedido da Terceira Potência de Perry Rhodan, fez continência. Era um rapaz que à primeira vista não revelava nem a audácia nem a impetuosidade. Mas, esta sua maneira tinha muita semelhança com a do chefe, Perry Rhodan.

ninharias. Venho de Exsar; sei o que está acontecendo lá. Daqui a oito dias, o planeta Exsar será apenas um mundo empesteado... — Ora, inspetor-chefe! — interveio Arga Tasla em tom quase suplicante. — Todo mundo sabe disso. Mas duvido que o senhor saiba que sua ação foi observada. Há algumas horas as mensagens de hipercomunicação são expedidas para todos os quadrantes da Galáxia, e todas essas mensagens citam o nome do senhor, dizendo que a peste de Exsar é obra dos aras de Aralon. O rosto de Gegul, que ainda há pouco era todo triunfo, ficou estarrecido. Os olhos arregalados fitaram a secretária. — O Conselho de Médicos já tomou conhecimento dessas mensagens de hipercomunicação? — gaguejou. Antes que Arga Tasla pudesse responder, o ruído trovejante de uma nave espacial que decolava encheu a antessala. Gegul encolheu-se sob o ribombar, virou-se apressadamente para a janela e viu bem ao longe uma nave que disparava para o céu. Trazia o sinal de Aralon e estava assinalada como nave-médica. Num vago pressentimento, perguntou a Tasla: — Aonde vai? — Para Exsar, inspetor-chefe. Leva uma carga de oitenta e quatro mil toneladas de soro g/Z 45. Isso representa todo o estoque de que dispomos. Três mil e seiscentos médicos estão a bordo. Há dez minutos todas as emissoras de Aralon transmitem nosso desmentido; as mensagens afirmam que não temos nada a ver com a epidemia surgida em Exsar. Como prova de boa vontade usaremos todo nosso estoque de g/Z 45 em Exsar sem cobrar nada. Há meia hora surgiu uma pergunta do cérebro robotizado de Árcon. Gegul sabia perfeitamente quanto custava um quilo de soro g/Z 45. Era um dos medicamentos mais caros produzidos por Aralon. A epidemia do ritmo de três horas, que ele mesmo levara para Exsar, possuía o grau mais elevado de contágio. Três mil e seiscentos médicos foram enviados a Exsar pelo Conselho de Médicos de Aralon. Eram três mil e seiscentos candidatos à morte. Nem um por cento deles voltariam a ver Aralon. Depois do pouso no planeta contaminado, a nave ficaria sujeita a uma quarentena de cinquenta anos.

*** *** Logo após o pouso em Aralon, o inspetor-chefe Gegul dirigiu-se apressadamente ao local em que funcionava o Conselho de Médicos. Já anunciara sua chegada. Quando entrou na ante-sala, decorada com o símbolo médico dos aras, bastante original e um tanto brilhante, sua secretária Arga Tasla já o esperava. Gegul cumprimentou-a com um ligeiro gesto da cabeça. Seus movimentos exprimiam a pressa e também certo triunfo. Estava retornando de uma missão pessoal, e queria regalar-se com seu triunfo diante do Conselho de Médicos. Por isso, não parou quando Arga Tasla se aproximou dele. Quase chegava a encarar a presença dela como um incômodo. — O que houve? — perguntou laconicamente. — Recebemos notícias vindas do planeta Exsar, e... — Por favor — interrompeu Gegul em tom áspero. De modo antipático, repeliu-a com um gesto da mão. — Ao menos agora, poderia deixar-me em paz com essas

Tifflor ouvia no seu receptor a mesma notícia, que era transmitida ininterruptamente pelo pequeno emissor de hipercomunicação. Sempre voltavam a ser citadas as palavras Gegul, Aralon, aras e uma expressão da qual não sabia o significado: epidemia do ritmo das três horas. Ninguém tomara conhecimento da Gazela. Quem vê a morte diante dos olhos não está interessado nas visitas que possa receber. Planando menos de quinhentos metros acima da superfície de Exsar, o tenente Tifflor disparava a cem quilômetros por hora no seu traje espacial, orientando as antenas direcionais ininterruptamente na direção do pequeno hiperemissor, cujas transmissões se tornavam cada vez mais fortes. Tiff não precisava preocupar-se de ser descoberto. O pequenino campo de deflexão que cercava seu traje tornava-o invisível. 16


O campo antigravitacional levantou-o. Que nem uma folha tangida por uma correnteza de ar, descreveu uma curva ampla por cima das elevações que se estendiam a seus pés e descobriu o pequeno povoado que ficava atrás das mesmas. Era ali que funcionava ininterruptamente um pequeno transmissor, alarmando o Império de Árcon. Quando penetrou no edifício baixo com a antena típica de hipercomunicação sobre o telhado, ninguém o deteve. Tiff manteve ativado o campo de deflexão. O saltador que trabalhava no emissor não poderia ver o estranho, pois do contrário a presença de Perry Rhodan no grupo estelar M-13 deixaria de ser um segredo. A porta estava aberta. Tiff sentiu-se curioso quando penetrou na casa. Era a primeira vez que via como moravam os mercadores galácticos que não viviam em naves espaciais. Aquela residência estranha surpreendeu-o. Aquela casa, situada numa aldeia, irradiava conforto e bem-estar. Pela primeira vez, Tifflor sentiu certa simpatia por um saltador. Quando a porta que dava para a sala em que ficava o hipertransmissor foi aberta, o mercador virou-se rapidamente. Por uma questão de precaução, Tiff apontou o projetor mental sobre ele, desprendeu-se do chão por meio do campo antigravitacional e planou em direção ao emissor. Desligou o microfone. Não havia necessidade de que a conversa entre eles fosse irradiada por toda a Galáxia. Depois se identificou como arcônida. Quando o mercador, um homem baixo de cerca de quarenta anos, lançou-lhe um olhar perplexo, repetiu a mesma coisa em intercosmo. — Um arcônida? — perguntou o homem, e baixou lentamente a mão direita. Tiff assentiu. — Por que você se esconde atrás do campo de deflexão? — perguntou o saltador em tom desconfiado. Tiff foi diretamente ao assunto. Só permitiu que seu interlocutor tomasse a palavra quando havia dito tudo. — Com essa sua desconfiança você quer que a epidemia mate até o último saltador de Exsar? Será que os mortos espalhados pelas ruas ainda não bastam? Conte o que viu e farei o que estiver ao meu alcance para que ao menos alguns milhões sobrevivam à doença. Depende de você, meu caro. Dali a duas horas, Tiff encontrava-se na capital do continente. A vida praticamente se extinguira na cidade. Um hálito pestilento pairava sobre a metrópole. Tiff viu quadros horripilantes, enquanto planava por cima das casas. Seu objetivo era a grande estação de hipercomunicação. Ainda funcionava, mas no gigantesco edifício só havia mortos e moribundos. Não havia ninguém que pudesse ajudar Julian Tifflor. Dentro de uma hora, conseguiu ligar o toca-fitas, cujo feitio lhe era estranho, ao transmissor. Uma fita sem fim começou a correr. O hipertransmissor repetia ininterruptamente sua transmissão acusadora. Era uma acusação contra Aralon e os aras. Era uma acusação pessoal contra o inspetor-chefe, Gegul de Aralon. Julian Tifflor partira do pressuposto de que o cérebro gigante de Árcon teria de ouvir a mensagem transmitida ininterruptamente pelo hipercomunicador. Sendo um dos

elementos de Perry Rhodan, tivera muitas oportunidades de testemunhar o funcionamento lógico e preciso do cérebro positrônico robotizado. Em Aralon, receberiam um pedido de informações expedido em Árcon. Quando isso acontecesse os aras não teriam outra alternativa senão fazer o que estivesse ao seu alcance para deter o avanço mortal da epidemia. *** Perry Rhodan recebeu um chamado da sala de rádio. — Permite que lhe transmita uma emissão do arcônida Dugbox, que está sendo transmitida pelo hipertransmissor de Exsar? — Pode mandar — ordenou Perry Rhodan. Um sorriso aflorou-lhe aos lábios quando logo de inicio reconheceu a voz de Julian Tifflor. Mas o rosto logo assumiu uma expressão petrificada. Bell, que estava deitado confortavelmente no sofá fitando o teto, saltou e disse entre os dentes: — Se eu conseguir pôr as mãos no tal do Gegul, esse cara vai ver uma coisa. Dizem que são médicos, mas não passam de monstros Perry, por que não transformou esse mundo infernal de Aralon num sol? — Porque não sou vingador nem juiz, Bell. Não lemos o direito de julgar, e sinto-me muito feliz por não carregar esta responsabilidade comigo.

4

Mal a Gazela voltou a abrigar-se no hangar da Titan, a imensa nave esférica, recorrendo ao compensador estrutural, afastou-se do sistema solar a que pertencia o planeta Exsar sem que ninguém a visse. Ainda sem ser notada, emergiu do hiperespaço nas proximidades do planeta de Honur, no interior do grupo estelar M 13. No catálogo estelar dos arcônidas Honur figurava como um mundo proibido Não havia nenhuma outra indicação relativa à proibição. Isso não impediu Perry Rhodan de, há algum tempo, pousar em Honur. Tivera que pagar o desrespeito à proibição com uma doença contraída por todos os tripulantes de sua nave. O fato de que certos ursinhos engraçados, com menos de trinta centímetros de comprimento, soltavam através do pelo uma toxina que envenenava os nervos de quem os tocasse desavisadamente poderia, quando muito, representar uma catástrofe. Porém 17


esses animaizinhos inocentes que segregavam o veneno eram um produto criado pelos aras. Assim sendo, era um crime. Os aras de Aralon não pagaram pelo crime da forma que a gravidade de seu ato exigia. Embora o tivessem cometido, eram os médicos mais geniais da Galáxia, e o Império de Árcon ainda não estava em condições de dispensar sua colaboração. Num pouso vertical, a Titan aproximou-se do cemitério de naves espaciais de Honur. Era um marco terrível deixado pelas naves que não tinham respeitado a proibição, e cujas tripulações acabaram sucumbindo num alegre tumulto. Para Rhodan e seus subordinados, Honur não era um planeta proibido. Já possuía o antídoto da doença. Os aras de Aralon tiveram de entregá-lo. Até a extinção de sua raça não se esqueceriam do primeiro encontro com o ser vindo do planeta Terra. Perry Rhodan lançou um olhar pensativo para o amigo. — Bell, você sabe que para muitas inteligências da Via Láctea meu nome assume um significado idêntico ao que na Terra se atribui à palavra diabo? Bell olhou-o espantado. — E daí? — perguntou em tom indiferente, mas logo assumiu um ar sério. — Paciência. É o reverso da medalha. Você nunca poderá evitar isso. Terá de conformar-se. Procure não pensar neste fato e o pior já terá passado. Perry Rhodan também era apenas um homem. Nesse momento de descanso, sentiu a responsabilidade como uma carga quase insuportável que lhe comprimia os ombros. Saíra a fim de conquistar o Universo para a Terra. Já dera o primeiro passo além do Sistema Solar. Agora temia o segundo, porque sentia que seu poder repousava em bases pouco seguras. A Terra estava sendo ameaçada pelos mercadores galácticos. Os aras, que eram descendentes dos saltadores, obrigavam-nos, graças ao monopólio de medicamentos que detinham, a atacar a Terra. O ataque seria desencadeado. Perry Rhodan tinha certeza absoluta. Por isso mandara que o coronel Freyt regressasse à Terra com a Ganymed, a fim de tomar todos os preparativos para uma defesa global. E, além da Titan, a Ganymed era a única nave equipada com um transmissor fictício. Havia apenas as duas naves, e não era possível construir outras do mesmo tipo. O que significariam dois transmissores fictícios diante do ataque de duas ou três mil naves de guerra dos saltadores? Perry Rhodan reconheceu com uma clareza solar os limites do poder que detinha. Sabia que a Terra estaria perdida, se não encontrasse um meio de frustrar o ataque que estava sendo planejado. No momento, não via como evitar a desgraça. Bell sentou a seu lado. — Tomara que não estejamos esperando demais do auxílio de Talamon. Há dias não consigo livrar-me de um terrível pressentimento. Tenho a impressão de que estamos correndo de olhos abertos para um fato que subitamente nos

atropelará — disse Perry Rhodan, como se estivesse falando consigo mesmo. Foi nesse momento que a sala de rádio da Titan transmitiu a mensagem para o camarote de Rhodan: — O patriarca Talamon decolou com todas as unidades de sua frota em direção ao sistema de Gonom. Em Laros, que é a décima oitava lua do antigo planeta Gom, será realizada daqui a três dias de Árcon a assembleia dos saltadores e dos superpesados. Fim da mensagem hipercondensada... Os dados astronômicos relativos ao sistema de Gonom são os seguintes... Rhodan desligou. Levantou-se com um movimento ágil. O amigo, mais pesado, levantou-se com um movimento lento. Com a assembleia que se realizaria dentro de três dias de Árcon na lua Laros, situada no sistema de Gonom, o perigo que ameaçava a Terra entraria num estágio muito mais ameaçador. Perry Rhodan não estava disposto a permitir que a reunião decorresse tranquilamente. *** Santek, que estava presidindo o Conselho de Médicos de Aralon, transmitiu a informação de que a sentença de morte proferida contra o inspetor-chefe Gegul fora executada e logo passou à ordem do dia. Não perdeu uma única palavra com a epidemia do ritmo de três horas surgida em Exsar. Ele e os outros membros do Conselho não tinham o menor interesse pelo destino de milhões de mercadores galácticos. — Não enviaremos observadores à assembleia. Este ponto já foi posto em votação ontem. Todos conhecem o resultado. “Numa exposição lúcida o biólogo-chefe Keklos convenceu-nos de que, a partir dos seus laboratórios, poderá realizar um serviço mais discreto que o mais disfarçado dos observadores não descobrirá. Em três naves dos saltadores, surgirão três doenças diferentes nos sintomas, que provocarão o desassossego de que precisamos para atingir nossos objetivos”. “Keklos providenciará imediatamente uma demonstração de nossa capacidade médica, que eliminará toda e qualquer suspeita de que estamos empenhados num proveito material. Convencerá também os saltadores e os superpesados de que a existência de todos nós só estará garantida no momento em que Perry Rhodan e a Terra tiverem deixado de existir”. “Posso comunicar ao Conselho de Médicos que a posição do planeta Terra já não é nenhum segredo para nós. Pelo contrário, está armazenada na memória do cérebro positrônico instalado a bordo da nave capitania de Topthor.” A notícia de Santek produziu o efeito de uma bomba. Todos reconheceram o enorme valor que possuía. Mas a desconfiança logo se manifestou. Nakket indagou por que o superpesado Topthor guardara este conhecimento só para ele por um tempo tão longo.

18


Mal a indagação atingira o ouvido de Santek, o projetor se iluminou. Numa imagem que correspondia ao quíntuplo do tamanho natural surgiu o rosto quadrado e esverdeado de Topthor. Santek deixou que falasse. Esperava muita coisa da fala desajeitada do velho. A voz do superpesado começou a trovejar quando relatou sua luta mais recente com Perry Rhodan. Falava em tom realista, sem exageros e numa crítica sadia. Entre outras coisas, disse o seguinte: — Minha frota devia ser considerada mais forte que a de Rhodan. Em minha imaginação já o via destruído. Mas, de repente, agradeci aos deuses por terem permitido que escapasse. As outras naves de guerra de minha frota foram destruídas, e isso de maneira misteriosa. De uma hora para outra desapareceram por completo. Rhodan pode ter dez vezes mais inteligência que eu, mas o desaparecimento das minhas naves nada tem a ver com a inteligência. Rhodan possui armas que não têm igual no Universo. Sua força representa uma ameaça para nós. Sua destruição e a de seu mundo, a Terra, garantirá nossa segurança e a do Império de Árcon. A fala de Topthor ainda ressoava na sala quando a projeção se apagou. Os rostos frios e cínicos dos aras sorriam uns para os outros. O velho era seu porta-voz; era o representante dos seus interesses. Santek prosseguiu tranquilamente: — Faremos um contrato com os mercadores galácticos e com os superpesados. Nós, os aras, nos obrigaremos a prestar ajuda assim que surja qualquer doença perigosa, e a fornecer-lhes todos os medicamentos constantes de uma lista nominal com um desconto de cinquenta por cento. — Também os medicamentos da série 08-KL-56? — perguntou Mulxc em tom sagaz. Santek exibiu um sorriso cínico. — Poderemos ser culpados se, depois da destruição de Rhodan e da Terra, em todos os pontos surgirem novas epidemias e pestes, e se nós conseguirmos produzir rapidamente, mas não rapidamente demais, os respectivos antídotos? Oficialmente os preparados da série 08-KL-56 só serão fabricados em nossos laboratórios a partir do fim do ano. Até lá não se falará mais em Perry Rhodan e em sua ridícula Terra. Os saltadores e os superpesados só terão uma preocupação: não desejarão contrair qualquer das doenças. Fez uma pausa e depois concluiu: — Afinal, devemos recuperar pela forma mais rápida e discreta o prejuízo causado por Gegul.

A Titan não provocou o menor ruído ao sair do hiperespaço. Todos superaram rapidamente o choque da transição, que se manifestava através da dor na nuca e do estado de semiconsciência. Na grande tela de visão global, surgiu o sistema solar de Gonom, iluminando a sala de comando. Os últimos controles do salto foram fornecidos pelos mais diversos setores da nave esférica de 1.500 metros de diâmetro. O último controle, destinado a verificar se o compensador estrutural ocultara a imersão e a saída da Titan no hiperespaço, resultou num “tudo OK” transmitido à sala de comando. Há vinte horas-luz do pequeno sol vermelho de Gonom, a Titan voltara a materializar-se no interior do grupo estelar M-13. Gonom ficava a 68 anos-luz de Árcon. O sol-anão, vermelho e muito feio, possuía um único planeta anotado no catálogo estelar dos arcônidas com o nome Gom. O rosto contrariado de Bell revelava o que pensava de tudo aquilo. E Bell tinha motivo para não ficar satisfeito com Gom. O planeta Gom, que era pouco menor que Saturno e possuía um diâmetro de 68.200 quilômetros, apresentava uma gravitação de 1.9 g. O fato de que em sua superfície um objeto que na Terra pesaria cinqüenta quilos quase chegaria a cem quilos não era tão grave. Mas acontecia que seu tempo de rotação era idêntico ao tempo de translação em torno do sol Gonom. E, segundo o catálogo estelar de Árcon, esse tempo de translação era de 2,4 anos terranos. Isso significava que, no grande planeta Gom, o dia durava 1,2 anos terranos e a noite durava outro tanto. — Pois então, boa noite — disse Bell quando Crest, o arcônida, voltou a lembrar esse fato. — Ainda há mais, Bell — disse Crest com um sorriso suspeito, que fez com que Reginald Bell o fitasse atentamente. — Em Gom prevalecem temperaturas extremas, furacões terríveis de mais de mil quilômetros por hora correm furiosamente da face superaquecida voltada para o sol em direção à face em que reina a noite. Além disso, Gom ocupa um lugar especial entre os planetas porque, segundo uma lenda que corre há milênios, nele se abriga uma forma de vida terrível. Até Perry Rhodan aguçou o ouvido. Desde que quase naufragara em Honur, considerava qualquer boato negativo sobre um planeta desconhecido como informação extremamente importante. Reginald Bell não se sentia muito bem. 19


— Já sei o bastante desse planeta — disse. — O simples fato de se ter abastecido com dezoito luas o transforma aos meus olhos numa criatura voraz. Na tela de visão global, brilhava o sol-anão vermelho de Gonom, produzindo uma débil cintilância no planeta do tamanho de Saturno com suas numerosas luas. Os rastreadores estruturais da Titan registravam constantemente as naves dos saltadores e dos superpesados vindas do hiperespaço. Todas elas se dirigiam à décima oitava lua, denominada Laros. Laros encontrava-se em oposição ao sol. Rhodan aguardava uma mensagem codificada de Talamon. *** O biólogo-chefe Keklos chamava a atenção não apenas pelo seu tamanho reduzido ou pelo reluzente jaleco branco de plástico com o distintivo que emitia uma pálida luminosidade, mas principalmente pela maneira de cumprimentar ou despedir-se de qualquer interlocutor. Não conseguia aproximar-se a menos de três metros das pessoas. Se alguém o fizesse por ignorância ou esquecimento, não deveria admirar-se, pois no mesmo instante a palestra, por mais interessante que fosse, chegaria ao fim. Keklos dava bruscamente as costas e se afastava, calando-se. Mas esse Keklos, ele mesmo um doente, era o mais genial dos biólogos e o mais desconhecido de todos. Pouco mais de três dezenas de médicos dos aras, com exceção daqueles que trabalhavam na lua de Laros, sabiam quem era Keklos, o que fazia e o que sabia. Keklos não se preocupava com isso. Não se preocupava com coisa alguma, nem mesmo com as leis divinas. Muitas vezes suas duras experiências representavam a morte de muitos seres inteligentes. Não se detinha diante dos arcônidas, nem mesmo diante dos aras, dos saltadores ou dos superpesados. Se as experiências por ele realizadas traziam o extermínio de seres inteligentes, isso não o interessava. Só estava interessado em alcançar seu objetivo. E até hoje sempre o conseguira. Muito satisfeito, contemplava os três bios que se encontravam diante dele, separados por uma parede invisível de radiações. Representavam os produtos mais recentes e sofisticados das retortas. Eram figuras de três metros de altura, de estatura semelhante à dos homens, mas providos de quatro braços. No lugar da cabeça alongada, traziam um objeto de formato redondo. O biólogo continuava a examiná-los com muito interesse. Não conhecia a menor emoção. Num movimento lento, pegou a arma de nêutrons, enquanto com a outra mão movia a chave que desligava a parede das radiações, que formava uma barreira invisível entre ele e os bios. Apontou a arma para o bio que se encontrava no centro. Este sabia o que o aguardava. Um grito inarticulado saiu da boca redonda, que se abriu como um diafragma. Mas o raio já estava saindo da arma portátil, atingindo-o em cheio. Até então o impacto produzido por esta arma, que funcionava com base em ondas de frequência extremamente curta, representaria a destruição de qualquer forma de vida orgânica. Mas o bio não morreu; apenas se sacudiu, até que Keklos suspendeu o terrível bombardeio de radiações. Num gesto discreto, restabeleceu a barreira de

radiações. Ao mesmo tempo chamou seus colaboradores. Uma porta abriu-se atrás dele e três aras entraram. Pararam a três metros de distância e aguardaram as instruções do chefe. — Vamos realizar o teste de inteligência, a fim de verificar o grau de imunidade dos bios face às radiações hipnóticas e mentais. Não há mais necessidade de verificar a resistência ao fogo. Os resultados já são conhecidos. Controlem o poder de expressão verbal, e também a capacidade de armazenamento de dados. Até amanhã de noite, deverei ter os dados sobre a resistência à tração da estrutura de tendões, as manifestações de fadiga e... As instruções mais pavorosas foram transmitidas no fim, na presença dos bios. Um deles começou a balbuciar. Keklos exaltou-se e ordenou com a voz fria: — Levem estes caras para fora! Chamem Moders! Moders chegou assim que os médicos-assistentes haviam desaparecido com os bios. O gigantesco Moders que chamava a atenção pelos traços grosseiros de seu rosto parou a três metros do biólogo-chefe. — Moders — principiou o cientista, caminhando de um lado para outro. — As instruções que ministrei em relação aos bios estão armazenadas. Daqui em diante, o senhor cuidará do assunto. Devo dar certa atenção aos saltadores e superpesados que estão realizando uma assembleia por aqui. Se os resultados do teste, que será realizado amanhã, forem favoráveis, use todos os meios disponíveis e force a produção de bios, que deverá atingir cinco mil unidades por dia. Continuaremos a seguir a orientação de que os bios não devem receber estrutura óssea. Isso só nos faria perder tempo. A estrutura de tendões de Sargon nos deu menos dor de cabeça. “Cuide para que os suprimentos de matéria-prima sejam remetidos regularmente de Gom. Não preciso lembrar a carreira do inspetor-chefe Gegul, que acabou no conversor”. “É só, Moders. Pode retirar-se.” Keklos, o biólogo chefe, era um monstro biológico, um ara que se esquecera de que em todos os recantos da Via Láctea existe uma lei que diz: “Cure os doentes, médico, mas nunca coloque os pacientes em perigo.” Keklos esperou até que Moders, que se encolhera com suas palavras, lhe desse as costas. Depois disso, saiu por uma porta que só se abria por meio da absorção de seu modelo de vibrações cerebrais. Uma fita levou-o rapidamente para baixo. Vez por outra uma luz saía da rocha natural. Seu alcance era apenas de alguns metros. Ninguém suspeitaria de que essas fontes de luz isoladas constituíam um sistema de controle altamente sofisticado, que trabalhava com base nas vibrações cerebrais e por isso não poderia ser enganado. Junto a cada fonte de luz ainda havia um conglomerado de mortíferas armas de radiações, que destruiriam qualquer pessoa não credenciada que procurasse usar a fita para transportar-se aos laboratórios mais secretos dos aras. Uma enorme porta blindada, que também só se abria diante do modelo de vibrações cerebrais de Keklos, dava caminho para os laboratórios III e C1. Com o passo seguinte dado por Keklos, uma camada de ar tremeluzente desfez-se diante dele. Um campo de radiações mortíferas fora automaticamente desativado. 20


Abriu a porta seguinte, passou por uma comporta onde foi identificado e penetrou na primeira sala do enorme complexo que formava o laboratório III. Não deu a menor atenção aos aras que trabalhavam por ali. Caminhando pelo amplo corredor central, passou pelas retortas, pelas incubadoras, por todo o conjunto de complicados aparelhos médicos. Dirigiu-se à sala em cuja porta se via o sinal inconfundível de entrada proibida. Keklos teve de parar diante dessa porta. Comprimiu as palmas das mãos contra a mesma. Subitamente ela deslizou para dentro da parede. Keklos passou rápido e ficou parado, até que a porta voltasse a fechar-se. Viu-se numa sala cujas paredes estavam revestidas de plástico azul, inundado por uma luz intensa, também azul, que o obrigou a fechar os olhos durante um instante. Ao contrário das outras salas do conjunto que formava o laboratório III, aqui a temperatura era bastante fresca, quase fria. O biólogo Keklos estava sozinho. Nem mesmo Moders, seu colaborador mais chegado, fazia a menor ideia do segredo que se ocultava aqui. Neste recinto, o prolongamento da vida orgânica já se transformara em realidade. Em passos apressados, quase precipitados, Keklos dirigiu-se ao lugar em que havia uma cadeira diante de um aparelho de aparência primitiva. Quando sentou, cada um dos seus movimentos exprimia a tensão e a expectativa. Pegou o microscópio On que se encontrava à sua direita. No momento em que a pequena esfera metálica negra que se encontrava na extremidade do microscópio se dirigia sobre a massa gelatinosa, a luz azul difusa apagou-se e uma escuridão impenetrável passou a reinar na sala. Imóvel, Keklos esperava. Uma coisa cinzenta apareceu, tornou-se mais luminosa, assumiu contornos definidos e acabou sendo reconhecida como tela de imagem. Keklos não fez nenhum movimento. O microscópio On não exigia qualquer tipo de regulagem. Regulava-se por si mesmo, mediante sua mini positrônica. Em redor de Keklos, os campos energéticos formados por feixes de raios zumbiam e crepitavam. Parecia uma tabuada das bruxas, resultante da combinação da medicina e da tecnologia dos aras. O biólogo-chefe Keklos era o homem que sabia fazer a mistura genial dos dois ingredientes, para atingir seus objetivos. Conteve a respiração. Mais uma vez o microscópio On desvendava o misterioso processo de envelhecimento das células, mas aqui... Keklos era um fanático. Esqueceu-se do tempo e da hora. Seus olhos não se cansavam de contemplar a tela do microscópio On para enxergar o milagre da juventude das células que segundo as leis da biologia já deviam ter entrado na fase da atrofia. Keklos manteve-se num silêncio total. Não proferiu uma palavra, não soltou um suspiro que exprimisse seu triunfo. Diante de seus olhos estava traçado o caminho que lhe permitiria prometer a todos os aras, já amanhã, um prolongamento de trinta por cento em suas vidas. “Daqui a cem anos”, pensou Keklos, “ainda serei o biólogo-chefe; e daqui a cem anos já terei descoberto o segredo da vida eterna. É uma pena que não consegui ficar com Thora para realizar minhas experiências. Estou muito

interessado em sua estrutura celular. Também gostaria de saber por que essa mulher, ao contrário da maioria dos arcônidas, ainda possui certo poder de iniciativa. Para realizar a nossa série de experiências, não poderei dispensar os indivíduos do segmento superior da sociedade arcônida. Amanhã requisitarei dez deles por intermédio de Aralon. Nos hospitais, há material de sobra...” Recostou-se e passou a mão pelos olhos cansados. A primeira fase da experiência de cento e setenta e oito anos havia chegado ao fim. Em sua imaginação, o biólogo chefe Keklos já via os aras como sucessores dos arcônidas, dominando o império do grupo estelar M-13. Não julgava necessário incluir Perry Rhodan em seus cálculos. *** O receptor de hipercomunicação da nave capitania de Topthor emitiu o sinal de chamada. Por coincidência, o velho superpesado se encontrava na sala de comando. Virou-se e verificou que a transmissão estava sendo recebida na frequência de Talamon. Quando o rosto velho e sorridente de Talamon surgiu na tela, berrou: — Por todos os deuses da Galáxia, Talamon, onde foi que você se meteu com suas naves? Metade da Via Láctea andou à sua procura, inclusive eu. E o quartel-general também o procurou. O sorriso no rosto de Talamon continuou, mas assumiu um ar matreiro. — Topthor, vou ligar o deformador. A palavra-chave será obsian. Topthor logo aguçou o ouvido. Lançou os olhos em torno. — Deem o fora — disse aos membros do clã que se encontravam por ali. Mal o último deles havia saído da sala de comando do couraçado, moveu algumas chaves do acessório do hipercomunicador, baseando-se na palavra-código obsian. O relatório de Talamon foi recebido em linguagem clara. Topthor parecia muito interessado naquilo que seu melhor amigo tinha a informar. Não ficou zangado com o fato de que, apesar da transmissão deformada, Talamon se exprimia com muita cautela e muitas vezes se limitava a insinuações. — Será que não posso participar do negócio, Talamon? — disse, sondando a fonte de ouro de que Talamon lhe falara por meio de circunlóquios. — Pois é por isso que estou chamando, meu velho — disse Talamon, e seu rosto sorria para a sala de comando. — Basta que você disponha de cem milhões em dinheiro para ganhar cinco vezes essa soma no prazo de um mês. O velho Topthor não teve mais vontade de rir. — Cem milhões? Você só pode estar brincando. Onde vou arranjar uma soma destas? Todo mundo conhecia o superpesado Topthor como uma pessoa que podia fazer tudo, menos exagerar seus recursos. Ele e seu clã pertenciam aos nababos do grupo estelar M-13. Bastava-lhe abrir o bolso para tirar cem milhões, mas o velho manhoso gostava de tudo, menos gastar dinheiro. Talamon não disse uma única palavra sobre o aço Árcon-T que se encontrava em Honur. Recorreu à explicação que inventara: 21


— Topthor, não foi por simples comodidade que deixei de responder às mensagens. Apesar do deformador, bastaria que alguém tivesse interceptado nossas mensagens. E se eu as tivesse respondido, uma única vez que fosse o espia poderia saber em poucas horas por onde andei com minha frota. Topthor tenho em mãos o negócio de minha vida. Reflita, meu velho. Você dispõe de dezoito horas. Fim, Topthor. A imagem de Talamon apagou-se na tela. Topthor fitou a tela com uma expressão pensativa. Arriscar cem milhões para receber quinhentos, sem disparar um tiro, sem arriscar uma única nave, deixar de tirar as castanhas do fogo para os saltadores... Bastante contrariado, Topthor levantou-se e monologou: — Por que Talamon não me deu cinco minutos para pensar? É claro que participarei do negócio. Que droga! Já não estou gostando nem um pouco desta assembleia. Ganhar quinhentos milhões num mês sem arriscar a pele! Meus queridos aras, durante a última visita vocês foram gentis demais. Terei que decepcioná-los cruelmente. Afinal, não sou seu leão de chácara. Vocês mesmos terão de ver como conseguem convencer aquelas cabeças ocas. Eu tenho coisa mais importante a fazer: ganhar a soma insignificante de quinhentos milhões. Planetas proibidos e sóis que se encolhem. Isso até podia fazer com que me esquecesse de Perry Rhodan. Quem dera que eu soubesse no que consiste o grande negócio de Talamon. *** Perry Rhodan captou a mensagem de hipercomunicação expedida por Talamon. A mesma representava o sinal convencionado de que dentro de uma hora chegaria a menor das naves de Talamon, para recolher os mutantes com uma Gazela. Bell levantou-se do assento do copiloto. — Vou aprontar-me — disse em tom satisfeito. — Os mutantes já foram avisados.

Laros, a décima oitava lua do planeta Gom, era um mundo de oxigênio que, pelo diâmetro e gravitação, se aproximava das condições reinantes na Terra. Dois grandes oceanos separavam os continentes baixos.

Em Laros havia apenas oito cidades grandes. Comparados aos padrões arcônidas, eram cidades sem importância. Juntamente com seus conjuntos hospitalares apenas serviam de camuflagem aos centros de pesquisa subterrâneos dos aras. Numa extensão muito maior que em Aralon, a lua Laros fora transformada num só conjunto de cavernas. Mais de três milhões de médicos aras realizavam sob a superfície aparentemente inofensiva experiências que em hipótese alguma poderiam chegar ao conhecimento dos habitantes da Galáxia. O Conselho Geral, que era a instância suprema da qual os médicos recebiam ordens, emitira uma diretiva destinada a proteger Laros e seus laboratórios secretos. Qualquer ara que pisasse no sistema, ali deveria permanecer até o fim de seus dias. Apenas o biólogo chefe Keklos e cinco dos seus colaboradores mais chegados estavam excluídos dos efeitos da diretiva. Os médicos, que trabalhavam nos conjuntos hospitalares situados na superfície, não tinham a menor ideia de que, sob seus pés, três milhões de colegas estavam reduzidos à escravidão perpétua. Os médicos cativos realizavam experiências cujo objetivo consistia em um dia transformar o Império de Árcon num mundo pertencente aos aras. O biólogo chefe Keklos — que oficialmente exercia as funções de dirigente de todos os estabelecimentos hospitalares de Laros, nos quais se tratavam com exclusividade as doenças causadas por perturbações no metabolismo de minerais — recebeu o bioquímico Tragh, um homem de rosto desfigurado. Os olhos de Tragh tremiam. Há trinta dias fora desterrado para Laros; mal e mal conseguira escapar à pena de morte. Mas ainda tinha razão para temer a ação da justiça. Era culpado por mais três crimes, ainda não esclarecidos. Foi nisso que pensou quando recebeu ordens para apresentar-se ao biólogo chefe Keklos. E agora se via diante daquele homem poderoso e influente, verdadeiro soberano não coroado de Laros. Keklos não o deixou em dúvida sobre os motivos do chamado. Lançou-lhe à face os crimes que na opinião do bioquímico ainda não haviam sido esclarecidos. — Não fique tremendo, seu desgraçado! — trovejou Keklos. — Poderia perfeitamente entregá-lo ao conversor, mas resolvi dar-lhe mais uma chance, Tragh. “Preste atenção!” “As naves dos saltadores e dos superpesados chegam ininterruptamente a Laros. Os tripulantes sabem que com o pouso estão sujeitos a quarentena. Esta só será suspensa no momento em que uma junta médica tiver subido a bordo e constatado que a tripulação está em perfeitas condições de saúde e que a nave não é portadora de qualquer doença. Vimo-nos obrigados a adotar este procedimento em virtude do incidente surgido no planeta Exsar, onde irrompeu a epidemia do ritmo de três horas, cuja causa foi inexplicavelmente atribuída aos aras. “O senhor participará, na qualidade de bioquímico, do exame das naves que pousarem aqui. Mas sua tarefa principal não consistirá em ajudar a junta nos seus trabalhos, e sim em colocar um destes comprimidos nos aparelhos de ventilação de três naves em cada grupo de oito. “Se o senhor se desincumbir dessa tarefa de forma a deixar-me satisfeito, estarei em condições de entregar-lhe o 22


indulto do Conselho Geral”. “Assim que eu sair desta sala, o senhor se aproximará de minha escrivaninha, tirará três comprimidos e gravará na memória todos os detalhes registrados neste quadro luminoso.” Keklos concluiu com uma ameaça desumana. — Se cometer qualquer erro, por menor que seja, terá uma aventura: será utilizado nas experiências de alguma das divisões de estudos de epidemias. Perplexo, Tragh seguiu o homem temível com os olhos. Não acreditava em nada do que o chefe acabara de dizer. Já se considerava um homem destinado à morte. Mas o desespero lhe impôs aquela esperança desarrazoada que faz com que o homem que se afoga procure agarrar-se a um cisco. Correu para junto da escrivaninha, segurou avidamente os três comprimidos, colocou-os no bolso sem olhá-los e passou a estudar as indicações constantes do quadro luminoso. Só então compreendeu o plano terrível do biólogo-chefe. *** Bell deu o alarma, embora naquele instante tivesse passado, juntamente com os mutantes, para a menor das naves de Talamon, que os levaria a Tal VI. — O que houve? — perguntou Perry com a voz tranquila. — Pouca coisa — principiou Bell. Quando começava assim, sempre havia alguma coisa grave. — Você sabia que Laros é uma fortaleza dos fabricantes de venenos, Perry? Quem manda lá são exclusivamente os aras. Por acaso estou lendo uma dessas ordens de quarentena... — Um instante, Bell! Reginald Bell viu na tela que Perry virava a cabeça. Ouviu a pergunta: — Crest, o senhor não sabia disso? Crest, que era um dos líderes científicos do Império de Árcon, sacudiu a cabeça: — Há trezentos anos Laros era apenas uma base pouco importante de Árcon... Bell ouviu que o amigo respirava pesadamente. Perry Rhodan voltou a fitar a tela. Seu rosto exprimia uma tensão mantida sob controle com uma concentração extrema. Seu instinto infalível farejou a desgraça. Bell também a farejou. Havia algo de errado nessa ordem de quarentena. Bell começou a esbravejar. À medida que lembrava os acontecimentos do planeta Exsar e lia as frases hipócritas dos aras, sua voz tornava-se cada vez mais incisiva. — Quando foi emitida essa ordem de quarentena, Bell? Reginald Bell compreendeu a finalidade da pergunta. Perry Rhodan estava desconfiando de Talamon. Por isso apressou-se em responder: — Esta ordem ainda não tem cinco minutos. Acaba de chegar de Laros por meio do hipercomunicador. — OK! — Perry acenou com a cabeça. — Você já sabe como deve agir juntamente com os mutantes depois do pouso. — Muito bem — disse o gorducho com um sorriso. — Não estou preocupado por nossa causa, mas gostaria de saber o que os membros do clã de Talamon vão dizer à comissão dos aras quando se encontrar diante de nossa Gazela.

— Você acha que os aras precisam ver a Gazela, Bell? — perguntou Perry em tom suave e desligou. O palavrão proferido por Bell não chegou a ser recebido. *** Laros possuía um espaçoporto de primeira classe, de dimensões espantosas. Media mais de cem quilômetros de lado e oferecia lugar para uma frota de tamanho médio. Sua pavimentação era tão resistente que mesmo as naves arcônidas da classe Universo poderiam pousar ali sem recorrer aos campos antigravitacionais. Bell encontrava-se ao lado do patriarca Talamon e fitava espantado o enorme espaçoporto. O confidente de Rhodan tinha suas ideias a respeito do mesmo, mas contrariamente ao seu costume não as exprimia. Quem conhecesse Bell saberia que esse silêncio representava uma ameaça. O hipercomunicador soou. Era um chamado de Laros. “Há ordens para não pousar. Em Laros existe o perigo de contaminação.” — Por que está rindo, Bell? — perguntou Talamon, que das outras vezes costumara mostrar-se tão desconfiado. Bell escarneceu: — Estou rindo desse truque desmoralizado. Não é de admirar que esses misturadores de venenos não tenham tido uma ideia melhor. Os aras andam ocupados demais para espalhar as doenças. Tomara que lá embaixo eu consiga agarrar o Gegul. Não conseguia esquecer o crime que Gegul cometera contra Exsar, um dos planetas dos saltadores. Pedira ao arquivo da Titan todas as informações relativas à terrível epidemia do ritmo de três horas. Reginald Bell era uma criatura bonachona. Qualquer pessoa que conhecesse seu lado fraco o enrolava, mas bastava sentir a menor intenção criminosa para que deixasse de lado as brincadeiras. O procedimento de Gegul foi um dos crimes mais repugnantes de que já tivera conhecimento, e o desejo de pôr as mãos no criminoso correspondia à natureza de Bell. *** Quando os robôs de combate dos aras apareceram diante das enormes comportas da nave dos saltadores Xul II, os mercadores galácticos e os superpesados afastaram-se precipitadamente. Uma nave do serviço médico dos aras aproximou-se velozmente, pouco acima das naves cilíndricas dos saltadores. Ininterruptamente ouvia-se o alarma de epidemia, um sinal conhecido e temido em todo o grupo estelar M-13. O alarma, além de ser transmitido por via acústica e ótica, o era também por meio de vibrações. A pequena nave do serviço médico ainda não havia percorrido metade da extensão do campo espacial quando apareceram cinco naves de grandes dimensões, pararam acima da Xul III e erigiram um campo protetor em torno do corpo cilíndrico dessa nave. Pouco depois, surgiu uma nave gigante dos aras. Parou exatamente acima da Xul II. Aos poucos, foi-se abrindo a junta da quilha da nave, que media quase trezentos metros de comprimento e mais de sessenta metros 23


de largura. A abertura se parecia com a boca de um monstro que estivesse pronto para engolir a nave contaminada, a Xul II. A nave gigante desceu lentamente na vertical. Quando se encontrava cinquenta metros acima da Xul II, a nave cilíndrica desprendeu-se da superfície do campo de pouso, foi erguida por potentes raios de tração e introduzida na abertura da nave gigante. A junta da quilha voltou a fechar-se silenciosamente. Uma escotilha após a outra foram se fechando. Era um quadro fantasmagórico. Era centenas de naves espalhadas pelo gigantesco espaçoporto, a ação de socorro dos aras foi acompanhada pelas telas de televisão. O comentador evitou qualquer autoelogio. A imagem foi transferida para um laboratório. Instrumentos brilhantes, cuja finalidade nem os saltadores nem os superpesados conheciam, apareciam nas telas. O rosto ascético de um ara surgiu no campo de visão. Seu olhar hipnotizava os espectadores. Falava lentamente, às vezes com a voz hesitante. Descreveu a doença que acabara de ser descoberta a bordo da Xul II. — Já conhecemos essa doença, e dispomos do preparado que nos permite curá-la. O tom de sua voz permaneceu inalterado. Suas palavras pareciam modestas. Causou enorme impressão nas pessoas que se encontravam diante das telas. — Infelizmente vejo-me obrigado a informá-los de que descobrimos hoje na Xul II o terceiro caso, que nos obrigou a isolar também esta nave. Mas podemos garantir que restabeleceremos os três patriarcas, que poderão participar da assembleia. Peço licença para despedir-me e garantirlhes uma feliz estada em Laros. Foi o fim da transmissão. Para o bioquímico Tragh, essas palavras também representaram o fim da carreira e da vida. Quando a junta médica se retirou, também procurou sair da Xul II para dirigir-se à nave dos aras que levaria o barco aparentemente contaminado à ilha de isolamento de Merk. Porém dois aras o impediram de entrar na comporta. No mesmo instante, farejou o perigo. Lançou os olhos pelo amplo convés, à procura de socorro. O corredor da Xul II estava vazio. Ninguém ouviu o chiado de duas armas de radiações. Os assassinos guardaram os instrumentos do crime nos bolsos e saíram da Xul II com os rostos sorridentes. Não pertenciam à junta médica. Eram funcionários do Serviço de Segurança. Quando entraram no escritório da nave, o maior deles, com um gesto indiferente, entregou a arma. — Missão cumprida — disse laconicamente. — Foi o segundo caso deste ano em que um ara vendeu medicamentos, ainda não liberados, aos arcônidas. E esse Tragh o fez quatro vezes. Bem, recebeu a paga por isso. Estas palavras foram proferidas pelo homem que pegou a folha de plástico. *** Talamon acabara de pousar em Laros com sua nave capitania Tal VI. Topthor fizera o necessário para que o amigo pudesse descer junto à sua nave. Naquele momento, a junta médica dos aras se retirava.

Bell e seus mutantes saíram do esconderijo com os rostos sombrios. Passaram menos de meia hora nos mesmos. Aquilo que antes do pouso em Laros parecia um perigo enorme acabara revelando-se uma simples bagatela. — Foi uma tapeação — resmungou Bell para Talamon. — Os aras não têm o menor interesse na saúde de vocês. Os misturadores de venenos só querem fazer boa figura, para que o fracasso em Exsar caia no esquecimento. Então, todos vocês foram minuciosamente examinados? Talamon limitou-se a lançar um olhar perplexo para Bell. O ímpeto com que o ser da misteriosa Terra se apresentava diante dele era demasiado. Aos poucos, começou a compreender por que Perry Rhodan conseguira levar a Titan de Árcon apenas com um punhado de homens. Mas ainda não sabia o que seus hóspedes pretendiam fazer em Laros. Nem Perry Rhodan, nem Bell lhe haviam contado qualquer coisa a este respeito. Os mutantes, que estavam sentados atrás dele, sem dizer uma palavra, não reagiam às suas perguntas. Talamon compreendia ainda menos o que aquela moça estaria fazendo entre os seres adultos da Terra. Vivia olhando para Betty Toufry, e quando isso acontecia, Talamon, que era pai de mais de uma dezena de filhas, mostrava um brilho de bondade paternal nos olhos. Já o mutante Ivã Goratchim com suas duas cabeças lhe inspirava certo receio. O mesmo acontecia com o negro Ras Tschubai, que o chocava devido à cor da pele. — A assembleia será realizada depois de amanhã, Talamon? A que horas? — perguntou Bell, parando por acaso diante de um aparelho cuja finalidade lhe era desconhecida. — O que é isso? — perguntou, apontando para o aparelho. Talamon moveu sua massa de muitos quilos, aproximando-se sem desconfiar de nada. O vulto largo de Bell encobria o aparelho. — Isso... — Talamon quase perdeu o fôlego. Com um movimento instantâneo, moveu uma chave. Com um brilho esverdeado no rosto, gaguejou: — Quem ligou o hipercomunicador? Bell sentiu um calafrio. Fazia uma hora que conversava abertamente com o patriarca. Mais de uma centena de vezes mencionara o nome de Perry Rhodan. Dissera quantos estranhos o superpesado escondera a bordo da Tal VI, quanto tempo a Gazela levaria para abrigar-se no hangar secreto e qual era seu raio de ação. Bell lançou um olhar de desespero para John Marshall. Este fez um esforço tremendo para acenar com a cabeça. Tako Kakuta, o teleportador japonês com rosto de criança, desapareceu sem que ninguém o percebesse. — Ninguém de nós ligou o hipercomunicador — disse Kitai Ishibashi. Realizara um controle instantâneo no cérebro dos colegas e em nenhum deles encontrara o mais leve resquício de sentimento de culpa. Com uma rapidez surpreendente, o superpesado recuperou a capacidade de ação. Com uma ligeireza de que ninguém o julgaria capaz saltou para junto do intercomunicador de bordo: — Fechar todas as comportas! Ninguém poderá sair! Bell limitou-se a acenar com a cabeça. O que estava em jogo não era apenas a vida das pessoas que se encontravam a bordo, mas a de todos os membros do clã. 24


Mal Talamon desligou o intercomunicador, ouviu-se um chamado vindo da sala de rádio: — O patriarca Topthor quer fazer-lhe uma visita. — Não estou a bordo! — berrou o velho, que não parava de fungar. — Senhor, eu disse ao patriarca que Talamon está presente... Soltando uma das pragas dos superpesados, Talamon voltou a desligar para soltar um grito. O ar começou a tremer diante dele. E em meio ao tremor, formou-se um ser. Tako Kakuta voltara a materializar-se diante do superpesado. Dando todas as mostras de pavor, o velho foi recuando passo a passo até esbarrar na parede. Fitava aquele homem pequeno e franzino, que estava apresentando seu relato a Bell. ―Por onde teria andado ele?‖ ―Na central do hipertransmissor da lua Laros?‖ ―Quando? Pois há poucos minutos, eu o vi sentado junto ao negro.‖ — Ó deuses estelares, e o hipercomunicador... — Bell gritou em meio aos gemidos desesperados de Talamon: — Desta vez os deuses estelares não meteram os dedos nisso. Talamon sempre fora um homem muito cortês. Muitas vezes não compreendia ou custava a compreender a linguagem figurada de Bell, cujas metáforas sempre estavam adaptadas às condições terranas. Nervoso como estava, também desta vez não compreendeu nada. Talamon, o ponderado, o inteligente, o honesto, o superpesado que nunca era abandonado pela presença de espírito. Talamon explodiu e berrou tão furiosamente para Bell que quase chegou a derrubá-lo. Falou nos deuses, dizendo que os mesmos não tinham dedos, e que não compreendia como alguém podia blasfemar contra eles numa situação como esta. Talamon nem se lembrou que não costumava ser muito religioso, e que muitas vezes a ambição do lucro o fizera esquecer os deuses. Naqueles segundos, jurou a plenos pulmões que nunca mais se desviaria da senda da virtude e da obediência aos mandamentos dos deuses. Se não fosse a parede contra a qual se recostava teria fugido da gargalhada de Bell. Parado diante dele, mal e mal conseguiu colocar as mãos nos ombros de Talamon e disse: — Acalme-se, Talamon! O ser, que para Talamon era um monstrinho amarelo com olhos de formato estranho, também se encontrava ao lado de Reginald Bell. As intenções de Tako Kakuta eram as melhores possíveis. Apenas queria mostrar-lhe que a arte de dissolver-se no ar e desaparecer não representava nada de especial. Mas Kakuta conseguiu exatamente o contrário. Talamon procurou segurar-se em Bell. O tremeluzir do ar quase lhe rouba o juízo. — Talamon — gritou Bell — a estação de rádio da Titan deve ter deformado nossa transmissão de hipercomunicação. Não há outra explicação. Há uma hora os aras que se encontram na central da grande estação de hipercomunicação andam que nem uns doidos, porque não conseguem transmitir nem receber qualquer mensagem inteligível. Homem será que você ainda anda tapado?

O velho martirizou-se: — Bell, quem dera que o senhor pudesse falar numa língua que também eu possa entender. O que significa andar tapado? *** — Será que esse gorducho enlouqueceu? — berrou Perry Rhodan e no mesmo instante transformou-se no “reator instantâneo”. Agiu. Enquanto as três dezenas de pessoas que se encontravam a seu lado pareciam ter sofrido um ataque. O hipercomunicador transmitia a voz de Bell. E o que não dizia esse sujeito! Mas não demorou que tudo passasse. Sem sair do seu assento e sem preocupar-se com a segurança da Titan, Perry Rhodan fez com que a estação de hipercomunicação da nave funcionasse como transmissor de interferência. De início funcionava apenas na frequência de Talamon, mas logo os técnicos tiveram de entrar em ação. Rhodan exigiu que fizessem o impossível. Dali a um minuto, participou da operação, causando uma admiração irrestrita no próprio engenheiro-chefe do setor de rádio. — Nenhuma transmissão de hipercomunicação pode sair de Laros ou ser recebida lá. Quero que os aras tomem conhecimento. Bradger, por que não acopla o 16-cento e quatro ao emissor de frequência circular? Vamos logo! Deixe o espanto para depois... A agitação continuou por dez minutos. Rhodan tangia sua equipe com uma velocidade que fazia com que um após o outro fossem ficando pelo caminho. Quando a interferência do emissor da Titan chiava em todas as frequências, Rhodan enxugou o suor da testa, com uma calma tremenda acendeu um cigarro e perguntou em voz baixa: — Estou curioso para ver por quanto tempo Bell nos oferecerá este espetáculo. Sua voz parecia calma como sempre. Seus olhos não brilhavam, nenhum músculo da face se movia. Sua calma impôs-se a todos, da mesma maneira que dera aos técnicos de radio uma demonstração prática de seu saber. O chefe voltou para o assento do piloto e acomodou-se. Na gigantesca sala de comando da Titan, não se ouvia outro ruído. As outras pessoas, que ali se encontravam, respiravam silenciosamente e não se atreviam a fazer o menor movimento. Gucky, o rato-castor, era o único ser que não conhecia essa forma de reverência. Teleportou-se para o colo de Perry, que não parecia muito satisfeito com a visita. Estava prestes a espantar Gucky com um movimento da mão, quando este começou a chiar: — Chefe, você não acha que esses vermes devem estar roendo o setor de memória do hipercomunicador de Laros e logo terão passado pelo mesmo? Era a fala típica de Reginald Bell, e naquele instante Perry Rhodan também não a entendia. Embora não o demonstrasse, estava desgastado por dentro. O espetáculo que Bell lhe oferecera com essa transmissão de hipercomunicação não tinha igual. — Gucky, você veio para me chatear? O rato-castor, que era um excelente telepata, lia a mente de Perry como num livro aberto. Cochichou baixinho: 25


— Perry, os primeiros dez segundos da transmissão de Bell estão armazenados nos aparelhos dos aras. Se arrancarem esse estéreo, nossa ação em Laros entrará pelo cano. A observação de Gucky expôs o calcanhar de Aquiles da situação em que se encontravam. — Chefe, deixe-me saltar! Mostrarei uma coisa aos aras! Deixe, sim, Perry? Esse moleque do Gucky sabia implorar que nem uma criancinha, mas quem dali concluísse as qualidades do ratocastor, estaria cometendo um engano vergonhoso. Esse ser em forma de animal, mas que não era nenhum animal, era inteligente como um homem e dominava a teleportação, a telecinese, a arte de ler os pensamentos e outras faculdades que jaziam em seu espírito. Era frio, impetuoso, esperto e sabia lidar com qualquer situação. E encontravam-se diante de uma situação que teria de ser resolvida por Gucky, se não quisessem deixar cair num abismo tudo que Perry Rhodan conseguira realizar. — Volte são e salvo, Gucky — disse Perry, dando permissão para saltar. No mesmo instante, o rato-castor desapareceu de seu colo. Laros ficava a vinte horas-luz da Titan! *** O biólogo chefe Keklos ficou satisfeito ao ouvir que a grande nave cargueira, repleta de matérias-primas, decolara de Gom. “A carga chegou na hora exata para a assembleia dos patriarcas dos saltadores”, pensou muito feliz e transmitiu suas instruções. *** Bell estremeceu. Um peso de cinquenta quilos pousara em seus ombros. Antes que compreendesse o que era, ouviu a voz fininha de Gucky: — Gorducho, você me arranjou um trabalho muito bonito! Os aras já estavam para se atirar em cima da memória do hipercomunicador, e por pouco não ouvem sua voz. Fiz umas brincadeiras com esses fazedores de pílulas. Quando estavam completamente prostrados, na memória do hipercomunicador não havia outra coisa senão os lamentos dos dervixes. O chefe ainda anda preocupado, pois não sabe quem mais pode ter ouvido sua voz por essas estrelas afora. Até logo mais — Bell não sentia mais aquele peso no ombro. Ninguém riu da brincadeira do rato-castor. Ainda estavam gelados de susto, e foi esta a impressão que Gucky levou à Titan. O rato-castor voltou a materializar-se no colo de Perry Rhodan. Perry suspirou aliviado. Gucky fez de conta que não percebia nada, mas no seu íntimo sentiu-se orgulhoso pela preocupação que o chefe sentira por ele. — Chefe — chiou — no momento não podemos contar com o gordo, nem com os outros. Li os pensamentos de Marshall. Procura desesperadamente descobrir quem lhes pregou a peça com o hipercomunicador. — A coisa está começando bem — limitou-se Rhodan a responder. ***

Topthor estava sentado diante de Talamon. Examinava atentamente o amigo. Talamon parecia doente. A maneira de cumprimentar Topthor fora pouco calorosa. Ele não viera para passar algumas horas conversando, mas sim para colher mais algumas informações sobre o grande negócio. Como bom negociante, procurou antes de mais nada descongelar Talamon. — Cekztel também deve chegar hoje, meu caro! — revelou. Cekztel era chefe de todos os clãs dos superpesados. Talamon não pensava em outra coisa senão nas transmissões de hipercomunicação realizadas a partir de sua nave. — Ah, é? — disse por uma questão de cortesia. Topthor tentou a aproximação de outro lado. — Desta vez Rhodan e a Terra estão perdidos. — Você acha? — perguntou Talamon. Topthor esbravejou: — Será que você só pensa nesse grande negócio? — Em quê...? Topthor nunca fora uma pessoa muito bem-humorada, mas agora seu senso de humor era praticamente nulo. Bateu com o punho na mesa. — Diga logo o que houve com você, meu velho. Nem pensa no seu grande negócio, pouco lhe importa que Cekztel venha e o fato de que dentro em breve já não teremos que temer Rhodan e sua Terra não o interessa nem um pouco. Talamon será que ainda somos amigos? — Se não fôssemos, eu lhe teria oferecido participação no meu negócio? — esquivou-se Talamon. — Você não está respondendo à minha pergunta — trovejou a velha raposa. — Você tem problemas? Pois também tenho. Os aras me dão dor de cabeça. Finalmente Talamon mostrou-se interessado. Inclinouse para frente e, embora estivessem a sós, falou aos cochichos: — Topthor, em minha nave há um vil traidor. Um indivíduo do meu clã quer me vender. Se conseguir, a nave chamada Tal VI deixará de existir. — Isso tem algo a ver com seu grande negócio? — indagou Topthor. — Em parte, Topthor. Por isso no momento não sei se será conveniente para você ser meu sócio. O superpesado riu a plenos pulmões. — Sirvo muito bem para o negocio, Talamon. Sou o único superpesado que sabe onde pode ser encontrado o planeta Terra. É isso mesmo, Talamon. Os dados estão no meu cérebro positrônico de bordo, muito bem armazenados e... — sua voz reduziu-se a um cochicho. — Quer saber de uma coisa? Codifiquei o setor de memória de tal maneira que jamais um ara conseguirá os dados sem meu consentimento. Os olhos de Talamon iluminaram-se. Sabia que Topthor seria incapaz de enganá-lo. — Quer dizer que você gosta deles tanto quanto eu, Topthor. Ainda prefiro o tal do Perry Rhodan... O outro logo mordeu a isca, com tamanha força que Talamon teve de esforçar-se ao máximo para não trair sua alegria. O amigo trovejou: — Eu também! Quase explodi quando ouvi falar no crime que praticaram contra o planeta Exsar. E quando me 26


disseram que Aralon estava lançando uma ação de socorro gratuita, as vendas me caíram dos olhos. Tenho vontade de mandar a assembleia para os ares. — Será que não foi você quem colocou a bomba no planeta de Goszul? — perguntou Talamon em tom sarcástico e sentiu que sua disposição de espírito melhorava. — Tolice! — resmungou Topthor. — Mas de repente a idéia de lançar um ataque contra Rhodan não me dá mais o menor prazer. Diga-me uma coisa: você é fá do Rhodan? Você não fala mal dele, e isso não corresponde ao seu gênio. — Topthor, você acha que a gente deve falar mal de um ser que teve o direito e a possibilidade de nos matar, mas não usou esse direito e essa possibilidade? É só por isso que o clã de Talamon ainda existe, Topthor. Topthor levantou-se abruptamente. Lançou um olhar prolongado e pensativo para o amigo. Este sustentou o olhar. Dois seres, cada um com mais de seiscentos quilos, ambos velhos, inteligentes e espertos, endurecidos em muitas batalhas espaciais sangrentas, acenaram com a cabeça. Topthor disse em tom grave: — Se não estou enganado, continuo vivo apenas porque em certa batalha Rhodan achou preferível não me transformar numa nuvem de gases. Mas não preciso dormir em cima disso, Talamon. Agora este Rhodan começa a me causar preocupações por um lado do qual nunca esperava qualquer problema. Até amanhã, Talamon, até amanhã.

A estranha rigidez desapareceu do rosto de John Marshall. Com um gesto que espelhava o cansaço, passou a mão pela testa, passou os dedos pelos cabelos escuros e esticou o corpo. Voltara a ser o velho John Marshall, um dos colaboradores mais antigos de Perry Rhodan e um de seus melhores telepatas. Lançou um olhar eloquente para Reginald Bell. — E daí? John Marshall continuou sentado; um sorriso débil esboçou-se em seus lábios. — Topthor é o único sobrevivente que conhece a posição de nosso sistema solar e da Terra.

Bell e seu comando de mutantes ainda se encontravam no camarote particular de Talamon. Sabiam que naquele momento aquela raposa sagaz, Topthor, fazia uma visita à nave. Marshall não deixara passar a oportunidade. Graças à sua capacidade telepática, “lera” a conversa travada entre Talamon e Topthor, acoplando sua mente aos pensamentos dos dois interlocutores. Dessa forma, acabara por descobrir o segredo mais precioso de Topthor. Bell não tirava os olhos de John Marshall. Os mutantes fizeram a mesma coisa. Quase chegaram a esquecer o terrível incidente com o hipercomunicador. Só Marshall pensou no caso, pois ao acompanhar a conversa dos superpesados, sentira a preocupação de Talamon e a indagação de quem poderia ter ligado o aparelho. Marshall ofereceu outra parte do segredo de Topthor. — Os dados astronáuticos da Terra estão guardados no setor de memória de sua calculadora positrônica. O sorriso gostoso de Bell fez com que John Marshall se retirasse, depois de acrescentar apressadamente estas palavras: — Topthor garantiu-se por todos os lados. Reginald Bell, que além de Perry Rhodan era o único homem que havia recebido o grau mais elevado de ensinamento arcônida através do processo hipnótico, pediu que John Marshall lhe fornecesse todos os dados. Escutava com o rosto inexpressivo. Frio, sem deixar impressionar-se por qualquer tipo de emoção. Lógico até as últimas consequências refletiu sobre o problema de como seus mutantes poderiam aproximar-se do cérebro positrônico de bordo da nave de Topthor, contornar as barreiras de segurança e atingir a memória do aparelho. Em tom lacônico e numa formulação objetiva e inconfundível, dirigiu outras perguntas a John Marshall. O telepata concentrou-se ao máximo. Quando Topthor revelou ao amigo o grande segredo, os dados sobre a posição da Terra pensara muito satisfeito nos dispositivos de segurança que mandara colocar para proteger o saber armazenado contra qualquer pessoa que quisesse apoderar-se dele indevidamente. — Está faltando uma coisa, Marshall — disse Reginald Bell ao telepata australiano. — O último dispositivo de segurança, essa história da ultrabarreira, representa uma contradição se não houver algum dispositivo adicional que a cerca com seus pólos. Topthor deve ter pensado nesse dispositivo adicional. Procure lembrar-se, Marshall. Bell insistia. Os mutantes agiam como se nem estivessem presentes. Kitai Ishibashi, um médico e psicólogo japonês dotado de poder de sugestão inacreditável, só em parte se encontrava presente. Por meio de sua capacidade, colocara-se junto a Topthor, que já saíra da Tal VI e naquele momento caminhava em direção à sua nave capitania. Pensava em Perry Rhodan. Subitamente John Marshall estremeceu como se tivesse levado uma tremenda pancada. A mesma coisa aconteceu com Kitai Ishibashi. Bell notou o que estava acontecendo, mas não sentiu nada. Não se espantou por isso. Afinal, não possuía as mesmas capacidades dos dois mutantes. Muito perturbado, John Marshall gemeu: — Meu Deus, o que foi isso? Bell poucas vezes o vira assim, e quando isso acontecia sempre se encontravam diante de um perigo imenso. O aspecto de Kitai Ishibashi não era melhor que o de 27


John Marshall. O suor porejava na testa do japonês alto e magro. — Alguma coisa tentou agarrar-me — disse, explicando o que acabara de sentir. — Mas quando quis me segurar, errou o alvo. Marshall limitou-se a acenar com a cabeça. — Terá sido sugestão, hipnose, telepatia? — Não foi nada disso — respondeu Marshall com a voz pesada. — Foi uma coisa nova, uma coisa que nunca experimentei. Acredito que seja uma coisa que nos persegue. Bell já tomara muitas decisões graves e nunca errara. Mas o que devia determinar agora, quando ambos os mutantes não conseguiam caracterizar o perigo que os ameaçava? Raciocinou instantaneamente. A conclusão lógica exprimia-se nesta pergunta: — Marshall, o senhor já consegue lembrar-se do dispositivo adicional que Topthor usou para inverter a polarização da ultrabarreira que protege a memória do cérebro positrônico? Esse problema tinha precedência sobre qualquer outro. A segurança dos homens que se encontravam na nave não era tão importante. Precisavam aproximar-se do cérebro positrônico de bordo de Topthor, a fim de remover os dados astronáuticos. O sistema de alarma do cérebro de Bell entrou em ação. Havia um “furo” em seu raciocínio. A técnica positrônica não permitia que qualquer dado, uma vez armazenado, fosse removido. Era impossível apagar qualquer setor da memória do cérebro. Só havia possibilidade de revisões, mas devia tratar-se realmente de uma revisão, pois do contrário o cérebro não aceitava os novos dados, mantendo os que já se encontravam armazenados. — Consegui! — exclamou Marshall, arrancando Reginald Bell de suas reflexões. — O quê? — perguntou Bell, e essa pergunta o diferenciava de Perry Rhodan, o reator instantâneo. — Já sei em que dispositivo adicional da ultrabarreira andou pensando o velho Topthor... Por mais que Marshall se esmerasse nas explicações, Bell não conseguia acompanhá-las. Lançou um olhar para Wuriu Sengu, o espia. Esse japonês de aspecto despretensioso, filho de um casal que durante o bombardeio atômico ao Japão ficara exposto a uma dose quase mortal de radiações. Agora possuía a capacidade espantosa de, por meio de um processo de concentração espiritual, aumentar o poder de visão a tal ponto que podia enxergar através dos átomos e das moléculas de matéria compacta, reconhecendo perfeitamente o objetivo visado. Wuriu Sengu compreendeu o pedido de Reginald Bell. Concentrou-se e colocou um bloco de papel sobre o joelho, segurando o lápis na mão. Logo viu o esquema da parte do cérebro positrônico de Topthor que Bell não conseguia conceber com a necessária clareza através dos seus esforços mentais. O processo demorou menos de dez minutos. Sengu, o espia, voltou ao normal. Entregou a Bell o esquema de ligações da ultrabarreira e do dispositivo adicional. Bell esboçou um sorriso feroz, zombando de sua própria lerdeza. Um simples olhar para o desenho bastava para que compreendesse o dispositivo de segurança.

— OK — disse em inglês. — Voltaremos a transferir nosso quartel-general para a Gazela. Irei depois: ainda tenho de falar com a Titan. Marshall, o que acha de Beta? O australiano deu uma risada silenciosa. Lera os pensamentos de Bell. Sua resposta foi a seguinte: — Acho que o chefe gostará muito. *** Três patriarcas viram o biólogo chefe Keklos sair da sala. Depois disso, dois saltadores e um superpesado trocaram olhares ferozes. Um após o outro sacudiram a cabeça, em sinal de desaprovação. Cekztel, chefe de todos os clãs dos superpesados, disse depois de ter calculado que esse ara com certeza não conseguiria ouvi-lo mais: — Se ficar doente um dia, prefiro morrer que ser curado por este biólogo chefe. Já vi alguns mundos que foram transformados em sóis sob o efeito das nossas bombas, mas nunca senti o menor prazer em vê-los destruídos. É bem verdade que não cheguei a sentir compaixão. Afinal, os seres que destruímos foram nossos inimigos, mas nunca maltratei um ser até a morte. Quer apostar que esse Keklos faz uma coisa dessas? Siptar, um patriarca muito velho, acenou a cabeça, muito pensativo. O velho Vontran demonstrou sua repugnância sem rebuços. — Amanhã será realizada a conferência... — o velho Siptar disse mais alguma coisa e lançou um olhar de expectativa para Cekztel. O rosto carrancudo e enrugado deste tornou-se ainda mais furioso. Seu olhar caminhava entre os dois patriarcas dos saltadores. — Sem vocês, os mercadores, os superpesados não atacarão a Terra. Se vocês nos acompanharem com todas as naves que estiverem bem armadas, nós os acompanharemos. Do contrário... Se havia uma voz que pesava, era a de Cekztel. Era o chefe de todos os patriarcas dos superpesados. Ninguém sabia quantas naves de guerra comandava. Era provável que o próprio Cekztel não soubesse. Porém o que se sabia era que um couraçado espacial dos superpesados equivalia, nos armamentos, a cinquenta naves bem armadas dos saltadores. Siptar, cujos olhos escuros ainda não haviam sido turvados pela velhice e que era conhecido por sua inteligência e autodomínio, perguntou tranquilamente: — Devemos ver nisso uma ameaça, Cekztel? Cekztel soltou uma estrondosa gargalhada, bateu com o punho na mesa e gritou: — Vejam nisso uma chantagem, Siptar. Será que os saltadores acham que somos idiotas? Um ser como Perry Rhodan, que consegue roubar o maior couraçado do Império e apesar disso colabora com o cérebro robotizado de Árcon, para mim não pode ser considerado um nada. E, uma vez que ninguém sabe que frota gigantesca Rhodan possui no setor da Terra, nós, os superpesados, só nos lançaremos ao ataque se formos acompanhados pelas frotas dos mercadores galácticos. Então, ainda acham que a condição imposta por mim representa uma chantagem, ou já chegaram à conclusão de que apenas é um produto da lógica aplicada? — Como você votará amanhã, Cekztel? — perguntou o 28


velho e sagaz Siptar. Os olhos de Cekztel relampejaram. — Pouco importa que amanhã eu me manifeste a favor ou contra o ataque à Terra. Tudo depende do que vocês decidirem. Se também estiverem dispostos a arriscar alguma coisa, não terão solicitado nosso auxílio em vão. Vontran teve a impressão de que estas palavras exprimiam uma exigência pecuniária dos superpesados. Procurou amarrar Cekztel por meio de uma pergunta lacônica. O superpesado reclinou-se confortavelmente e perguntou com um sorriso matreiro: — Será que vocês realmente acreditavam que partiríamos para o ataque de graça? Será que os mercadores já venderam alguma coisa sem exigir o respectivo pagamento? Algum de vocês já foi tratado pelos aras e não recebeu a respectiva conta? Meus caros, vocês estão ficando muito engraçados. Nosso auxílio custará algumas centenas de milhões. E, se me lembro de que Topthor é o único que conhece a posição da Terra, e que Topthor também é um superpesado, chego à conclusão de que vocês deveriam pagar o dobro. — Cekztel! — chiou Siptar. — Você não pode estar falando sério. Siptar respondeu em tom frio: — Não costumo brincar quando se trata de dinheiro. Fiquem com o dinheiro. Torçam o pescoço de Perry Rhodan sem recorrer ao nosso auxílio. Muito bem, pedirei a Topthor que lhes forneça os dados. Partam para a Terra e ataquem Rhodan. Desejo-lhes muitas felicidades, suas almas mesquinhas de mercadores. *** O biólogo chefe Keklos recebeu o relatório de Moders. Este teve o cuidado de não ultrapassar o limite dos três metros. — A bioprodução foi iniciada neste momento. Mandei aquecer as primeiras retortas-autoclaves. Hoje de noite, por ocasião da mudança de turno, já poderemos verificar se a produção em massa está correndo sem falhas. Depois disso mandarei que todas as retortas-autoclaves... — Espere até que a assembleia dos saltadores chegue ao fim, Moders — interveio Keklos em tom áspero e não deu a menor atenção ao espanto de seu colaborador. — A nave cargueira vinda de Gom já foi descarregada? — Não. — Pois dê ordens imediatas para que o descarregamento não seja iniciado sem nova ordem. Providencie imediatamente. Porém, antes disso, traga-me um bio. Moders estava dispensado. Muito confuso, retirou-se do gabinete do chefe. Não compreendia as instruções de Keklos. De repente, a produção em massa dos bios não era mais urgente. Por que a matéria-prima vinda de Gom devia permanecer na nave que a trouxera? A fantasia de Moders não tinha bastante agilidade para estabelecer uma ligação entre o bio, ao qual deu a ordem de dirigir-se ao gabinete do biólogo-chefe Keklos, e as instruções que acabara de ouvir. No momento em que o vulto cinza-fosco, o produto da retorta de mais de três metros de altura, entrou no gabinete do chefe, cruzando um par de braços no peito e outro par nas costas e mantendo-se em atitude de expectativa, Keklos acabara de entrar em contato pelo rádio com a nave

cargueira que acabara de trazer a matéria-prima de Gom. Também no cargueiro suas instruções produziram espanto e perplexidade. E, quando o bio de Keklos entrou em cena, os oficiais que se encontravam na sala de comando do cargueiro desistiram dos esforços de encontrar a solução do mistério. Mas Keklos sabia perfeitamente o que queria. *** Quatrocentos mil quilômetros acima de Laros, a grande frota de Talamon se mantinha em posição de espera. A menor de suas naves de guerra recebera ordens do patriarca para descer em Laros, passou pelo controle dos médicos aras e uma hora depois voltara a decolar. Talamon ainda se sentia congelado até a medula dos ossos em virtude do incidente com o hipercomunicador. O que mais o deprimia era o fato de que tinha de ver em qualquer dos membros de seu clã um traidor. Naquele instante encontrava-se a caminho do “quartel-general” de Bell. O gordo instalara o grupo de mutantes na Gazela abrigada no hangar secreto da nave, e que se mantinha preparada para decolar a qualquer momento. Bell não conseguira acalmá-lo. Talamon não se deixou demover da ideia de que entre seus parentes mais chegados havia um traidor. Não admitiu a possibilidade de que um acaso infeliz tivesse estabelecido à ligação do hipercomunicador. Bell também não acreditava nisso, mas John Marshall, o telepata, afirmava que as coisas se haviam passado sem traições. Tivera o trabalho enorme de examinar um por um os membros da tripulação. O resultado foi nulo. De qualquer maneira, o pouso da menor das naves de Talamon e seu regresso não haviam sido em vão. Essa ida e vinda não teve outra finalidade senão justificar o tráfego intenso de mensagens de rádio expedidas pela Tal VI. Uma vez que esse tráfego se realizava pela frequência de Talamon, Perry Rhodan o acompanhava automaticamente e não poderia deixar de espantar-se com o texto das mensagens. O superpesado exibiu um sorriso matreiro quando entrou na Gazela e entregou a Bell a notícia gravada numa folha de plástico. Segundo esta, a pequena nave de guerra atingira a frota que se mantinha em posição de espera acima de Laros. Bell não demonstrou o menor interesse pelo texto. Sabia que era obra de Perry e encerrava uma notícia oculta. O cérebro positrônico da Gazela começou a trabalhar com o texto. Bell ligou a chave de decifração; o cérebro transformou a mensagem corriqueira numa série de dados astronáuticos. Por estes, a Terra era um planeta do setor Orion, um dos astros que gravitavam em torno do gigantesco sol Beta. Era o terceiro planeta desse sol monstruoso. Com estes dados, sofreu um deslocamento de 272 anos-luz da sua posição verdadeira. Para quem se encontrasse no grupo estelar M-13, a Terra aproximara-se 272 anos-luz dessa nebulosa. — Não gostaria de percorrer essa distância a pé — resmungou Bell com um sorriso, sem notar que Talamon já o havia deixado. John Marshall aproximou-se, vindo da parte dos fundos da pequena sala de comando. — Talamon não nos avisará de que Topthor conhece a 29


posição da Terra, nem nos trairá junto a ele — informou. — Se continuar fiel à sua opinião, não fará conosco o grande negócio da sucata que se encontra em Honur. De um lado sente-se obrigado a Topthor e de outro, a nós. E ainda há a questão do hipercomunicador. Bell interrompeu-o com um gesto apressado. — Deixe-me em paz com isso, Marshall. Insista junto aos seus colegas para que ninguém formule diante dos superpesados a mais leve insinuação do que sabemos. O senhor é capaz de imaginar o que aconteceria se eles soubessem? — Sim senhor. Talamon nos procurará para dizer que avisará Topthor de que estamos de posse do seu segredo e... — Vamos providenciar para que isso dê um prazer todo especial a Topthor — interveio Bell com uma risada contrafeita. — Peça a Tako Kakuta e Ras Tschubai que venham até aqui. Quero que transformem o segredo de Topthor numa bolha de sabão.

desaparecimento de alguém, às vezes de muitos aras. Ninguém saberia dizer que destino haviam tomado. Ninguém se atreveria a formular uma indagação oficial. Moders não compareceu. O grau mais rigoroso de alarma foi desencadeado no gigantesco sistema de galerias subterrâneas da lua Laros. O alarma estendeu-se a toda a lua, em muitos pontos subia à superfície e propagava-se. Ninguém conseguia encontrar Moders. Na cabeça do biólogo chefe Keklos começou a martelar a advertência profética de Gegul: o perigo começa com a assembleia. Naquela noite, morreram muitos doentes, os cirurgiões largavam seus instrumentos em meio às operações, os enfermeiros abandonavam suas tarefas, grandes extensões dos estabelecimentos hospitalares foram paralisadas. Todo mundo procurava Moders, o colaborador mais chegado do biólogo chefe Keklos. Moders não foi encontrado. ***

Keklos não se esqueceu da advertência formulada pelo inspetor-chefe Gegul, executado no conversor. E agora só uma noite o separava da assembléia dos patriarcas. — Biólogo-chefe Keklos — disse Gegul naquela oportunidade. — O perigo começa com a assembléia. Foi o que aconteceu no planeta Goszul, e é o que se repetirá em Laros. Mas saberei impedir a repetição, e aqueles que estão a soldo de Perry Rhodan cairão nas minhas redes. O senhor tem alguma idéia do que me servirá de rede, biólogo-chefe? Keklos já o imaginara quando Gegul formulou a pergunta e dissera o que estava pensando. Independentemente de Gegul, prosseguira em suas experiências na mesma base, e nunca deixava de admirar a clarividência de Gegul. Aquilo em que este, por intuição e não em virtude de seu saber, via uma arma, realmente era uma terrível arma. Bem, fazia tempo que Gegul não se encontrava entre os vivos. Esse fato não seria capaz de provocar um simples sacudir de ombros em Keklos, mas o plano de Gegul continuava vivo. Transformara-se em realidade. — Quero que Moders compareça imediatamente — disse a voz metálica de Keklos no intercomunicador. Moders não compareceu. Keklos deu o alarma. Costumava fazê-lo muitas vezes. E, toda vez que isso acontecia, constatava-se o

Furioso, Talamon deixou-se cair na poltrona. Ainda furioso, lançou um olhar para seu amigo Topthor. — Para que serve essa palhaçada com os robôs de combate? Os robôs haviam detido e revistado Talamon diante da nave de Topthor. Fora detido e revistado antes de entrar na comporta, e novamente no convés principal, e mais uma vez diante da escotilha que dava para a sala de comando. De cada uma dessas vezes, haviam extraído seu modelo de vibrações cerebrais e irradiaram-no para algum lugar, onde seria examinado. Topthor parecia muito bem-humorado. — Você examinou bem os robôs? — A ênfase foi colocada na palavra bem. Talamon começou a imaginar do que se tratava. — Serão seus? — São dos aras. — Como é que você pode concordar com uma coisa dessas? — gritou Talamon e levantou-se de um salto. — Sente, meu caro. Os robôs dos aras estão de sentinela com meu consentimento. Há duas horas, quando estava escurecendo, foram vistos estranhos no interior da minha nave. Devem ter sido saltadores. Topthor viu que o amigo voltou a afundar na enorme poltrona e ouviu seu gemido: — Estranhos? O que Topthor não poderia imaginar eram os pensamentos que se atropelavam na cabeça de Talamon. Este acreditava saber quem eram esses estranhos. — Isso mesmo, Talamon. Estranhos. Estranhos foram vistos na casa de máquinas da minha nave. No mesmo instante, Talamon sentiu-se aliviado de um peso. Supusera que os estranhos tivessem sido vistos na sala de comando, onde a posição da Terra estava guardada na memória do cérebro positrônico. Que interesse poderiam ter pela casa de força? De consciência tranqüila podia eliminar os homens de Rhodan do grupo dos suspeitos. Realmente deviam ter sido saltadores. — O que será que alguém poderia encontrar nas nossas casas de máquinas? — perguntou com um espanto genuíno. — Avisei Cekztel, e este transmitiu o aviso ao biólogo 30


chefe Keklos. Dali em diante, tropeçamos com os robôs dos aras a cada passo que damos, mas com isso sinto-me um pouco melhor. Apenas, não estou gostando da assembleia de amanhã. Será que esse negócio renderá mesmo quinhentos milhões para mim, Talamon? — Pelo menos — respondeu Talamon em tom grave e lançou um olhar penetrante para seu interlocutor. — Aconteça o que acontecer, Topthor, você pode e deve confiar em mim. Mas fique com a boca calada. Se acontecer alguma coisa, não me faça perguntas. Não gostaria de ver-me forçado a contar-lhe uma mentira. Posso fazer o negócio sem você. Foi por minha livre e espontânea vontade que lhe cedi uma parte. Quero que, se alguma coisa não der certo, ao menos haja uma pessoa que continue leal para comigo. — Para isso você não precisaria presentear-me com um lucro de quatrocentos milhões, Talamon. Eu... — teve a impressão de ouvir um ruído estranho às costas. — O que foi isso? — perguntou e virou-se apressadamente. *** Naquele mesmo instante, Wuriu Sengu que, de olhos fechados, estava sentado ao lado de Reginald Bell, disse: — Topthor deve ter ouvido alguma coisa. Virou-se abruptamente e está fitando o cérebro positrônico. Agora está de pé. Não, voltou a sentar. Está desconfiando de alguma coisa. Talamon está fazendo uma pergunta. Não responde; em compensação está ligando o intercomunicador e transmite instruções. No momento, não vejo o menor sinal de Tako Kakuta. Reginald Bell levantou a cabeça e lançou um olhar pensativo para Ras Tschubai. Era o segundo teleportador que, de acordo com os planos, já devia estar na sala de comando de Topthor para, juntamente com Tako Kakuta, introduzir algumas modificações nos dados relativos à Terra armazenados na memória do cérebro positrônico. Acontece que Tako Kakuta não conseguira penetrar na sala de comando sem ser notado. Bell esteve a ponto de fazer uma pergunta a Sengu, o espia, quando os três — Tschubai, Sengu e ele mesmo — se assustaram com um estrondo. Com o estrondo, o teleportador pequeno e franzino rematerializou-se. O rosto infantil sob a testa abaulada exprimia contrariedade. Tako Kakuta caíra durante a rematerialização. — Foi isso — disse com a voz martirizada. — Foi exatamente isso que aconteceu quando cheguei à sala de comando de Topthor. Ergueu-se lentamente, sacudindo a cabeça. Kakuta não soube explicar o que acontecera. — Ishibashi, o senhor percebeu alguma coisa? — perguntou Bell, dirigindo-se ao sugestor. — Sim senhor, mas também não sei explicar do que se trata. A coisa apenas roçou em mim de leve. Quase chego a pensar que se tratava de uma coisa enfeixada. — Wuriu Sengu, o quadro, que o senhor viu, permaneceu nítido durante todo o tempo? — Reginald Bell aguardava ansiosamente a resposta do espia. — Bastante nítido! — respondeu Sengu em tom decidido. — Pois nesse caso vou falar com Marshall — decidiu Bell e levantou-se. — A missão “setor de armazenamento” sofrerá um ligeiro adiamento.

Retirou-se para procurar John Marshall, que nas missões dos mutantes costumava dirigir os comandos. *** O intercomunicador do gabinete de Keklos emitiu o sinal de urgência máxima. O biólogo-chefe levantou os olhos dos documentos que estava examinando e ouviu uma voz nervosa anunciar que Moders havia sido encontrado. — Quero um relato preciso, imediatamente — disse Keklos, cortando a longa introdução. Cada vez mais interessado, acompanhava o relato. Viu na tela o estado em que se encontrava Moders. Não ligou a transmissão de sua própria imagem. Os médicos, em redor de Moders, que estava inconsciente, não podiam fazer a menor ideia da satisfação que se espelhava no rosto de Keklos. Este não comentou o relatório que acabara de ser transmitido. — Tomem as providências que se fazem necessárias — disse e desligou. Pouco depois, chamou o bio que Moders lhe enviara há algumas horas. Quando o produto da retorta entrou pela segunda vez naquela noite, estremeceu com a voz enérgica de Keklos. O bio não sabia do pavor que uma aproximação a menos de três metros causava no biólogo chefe. Não entendendo as censuras ásperas do ara, o ser artificial feito de substância biológica deu dois passos apressados para frente e colocou-se bem diante de seu criador. O bio ainda chegou a ouvir o grito de pânico de Keklos. Também viu a mão do biólogo chefe pegar a arma. Mas entendeu muito tarde os berros desesperados de Keklos: — Para trás! Para trás! Quando a arma de impulsos térmicos, que se encontrava na mão do ara, expeliu seu raio mortífero, destruiu uma vida artificial que mal começara a existir. Com os olhos chamejantes, Keklos fitou os restos fumegantes deixados pelo raio térmico. Em tom furioso, chiou: — Agora tenho que arranjar outro transmissor intermediário e posso começar tudo de novo. Quando Moders acordar, não ficará nada satisfeito em saber que pertence ao material de experiências da divisão de doenças aromáticas. Pensei que fosse mais inteligente. Até o momento em que desmaiou, não compreendeu os meus planos. E as indicações que lhe forneci deveriam ter sido suficientes para isso. Keklos não esqueceu o menor detalhe. Antes de chamar outro bio, avisou o setor experimental de doenças aromáticas de que podia dispor de Moders como material de ensaio. Dali a dez minutos, outro bio se encontrava em seu gabinete. O biólogo chefe transformou-o em transmissor intermediário. Através do bio, entrou em contato com a matéria-prima que a nave cargueira acabara de trazer de Gom, e que em virtude das instruções de Keklos ainda não havia sido descarregada. Foi diante dessa nave cargueira que encontraram Moders desmaiado. Keklos sabia por que Moders desmaiara. *** 31


Wuriu Sengu dera o sinal convencionado a Tako Kakuta e Ras Tschubai. A força de sua mente permitia-lhe enxergar a sala de comando de Topthor. Estava vazia. Atrás de Sengu o ar começou a tremeluzir em dois pontos diferentes, e nesse tremeluzir desapareceram os dois teleportadores. No mesmo instante, Sengu os viu quando se esconderam na sala de comando do superpesado, atrás da cúpula maciça do hipercomunicador. Os dois teleportadores logo conseguiram orientar-se. Aproveitaram-se do fato de terem estudado a Tal VI de Talamon, inclusive a sala de comando. Depois que, graças à capacidade de Marshall, ficaram sabendo do segredo de Topthor, examinaram o cérebro positrônico com uma atenção toda especial. O dispositivo positrônico, que ocupava quase toda a parede oposta ao assento de pilotagem, era a reprodução fiel do aparelho existente na nave de Talamon. Apesar disso, não era nada fácil reprogramar determinada área do setor de memória. Graças ao processo hipnótico dos arcônidas, ambos possuíam o saber de um especialista de Árcon. Mas, para dominar os princípios da positrônica na teoria e na prática, precisariam do quociente intelectual de Perry Rhodan ou Reginald Bell. O gorducho sabia tudo de cor. Seria o homem indicado para o serviço. Mas Bell não era teleportador, e, sem essa faculdade formidável, já teria morrido sob o fogo dos robôs de combate dos aras, que vigiavam a nave de Topthor em fila quádrupla. Mas Ras Tschubai e Tako Kakuta não dependiam exclusivamente de sua própria capacidade. Bell, que às vezes assumia grandes riscos, desta vez agira com a cautela de estrategista frio. Não queria deixar o menor detalhe por conta do acaso. Wuriu Sengu via o que se passava na sala de comando de Topthor e constantemente emitia seus comentários lacônicos. Diante dele, estavam sentados John Marshall e Kitai Ishibashi. Marshall era o telepata mais eficiente de Perry Rhodan, e Ishibashi era um sugestionador que, por várias vezes, provara que era capaz de impor sua vontade a centenas de pessoas num espaço de tempo extremamente curto. E a impunha de forma tão intensa e duradoura que as pessoas atingidas se convenciam de que agiam por vontade própria. Como último recurso, Bell mantinha em reserva o telecineta Tama Yokida. A distância entre a Gazela e a sala de comando de Topthor fora medida com toda a precisão. Yokida tinha um croqui sobre as pernas. Nele se via a forma pela qual estava dividida a sala de comando, os aparelhos existentes, e qual era a distância entre as peças mais importantes. Tama Yokida interviria se surgissem robôs. Recorreria à força de sua vontade e lhes dispensaria um tratamento que os faria voar pelo ar como se fossem balões e, com um impacto violento, os transformaria em sucata. Subitamente a voz de Wuriu Sengu parecia um tanto nervosa. — A escotilha está sendo aberta. Topthor está entrando na sala de comando juntamente com dois membros de seu clã.

Sengu ainda não havia acabado de falar quando Marshall e Ishibashi entraram em ação. Bell se mantinha um tanto afastado. Fumava. Seu olhar era tranqüilo. E não estava excitado por dentro. Examinava cuidadosamente seus comandados. Os que haviam entrado em ação trabalhavam com o máximo de segurança e concentração. Kitai Ishibashi procurou atingir a vontade de Topthor. Penetrou instantaneamente em sua mente e logo descobriu o ponto de apoio a partir do qual seria mais fácil influenciar o superpesado. Ishibashi batizara o procedimento com o nome de método das camadas. Não inundava a vontade de outra pessoa com a força de uma cachoeira, mas impunhalhe sua vontade em camadas progressivas. John Marshall, que era telepata, não poderia dar apoio direto à tarefa de Ishibashi. Em compensação, controlava os pensamentos da vítima e fornecia ao sugestionador indicações preciosas sobre a maneira de aplicar seu dom. *** Topthor esperou até que a escotilha se fechasse atrás dele. Em seu rosto velho e esverdeado, havia uma expressão de contrariedade. — Sentem — disse em tom rude aos membros de seu clã. Os dois jovens superpesados, cuja figura era quadrática como a do velho, deixaram-se cair nas poltronas. Não deviam esperar nada de bom; era o que dizia o rosto zangado de Topthor. — O tal do Keklos, chefe dos aras em Laros, está ficando louco. Vocês ficarão de sentinela aqui até que eu mande revezá-los. O biólogo-chefe está vendo fantasmas. Quer transformar os estranhos que foram vistos nesta nave e que infelizmente conseguiram escapar em figuras que trabalham para Perry Rhodan. O que eu acredito e o que vocês acreditam é coisa que só diz respeito a nós mesmos. Keklos exerceu certa coação sobre mim. Colocou-me diante da alternativa de vigiar a sala de comando através de meus homens e manter contato audiovisual permanente com ele, ou então vê-lo colocar meia dúzia de robôs de combate dos aras na mesma. É isso. Mostrem suas armas. Um dos membros do clã praguejou. Parecia muito contrariado. Mas cumpriu a ordem de Topthor, exibindo suas armas tal qual o outro. Os dois fitaram o velho e arregalaram os olhos. Topthor, o velho ranzinza que vivia resmungando, riu. Piscou animadamente para os dois. — Instalem-se de modo confortável — disse em tom bonachão. — Se quiserem dormir um pouco, fiquem à vontade. Quanto ao contato com Keklos, falarei com ele da minha cabine. Se continuar a insistir, avisarei. — Falou, meu senhor — disse o mais alto dos dois com uma risada e deu um soco nas costelas do outro. Subitamente parecia muito bem-humorado e guardou todas as armas no fundo do bolso. — Por todas as estrelas do Universo, estou cansado como quem atravessou uma bebedeira de três dias e três noites. — Pois comigo está acontecendo a mesma coisa — disse o patriarca e bocejou gostosamente. — Está na hora de ir para a cama. Com estas palavras retirou-se. *** 32


Tako Kakuta e Ras Tschubai, que se mantinham escondidos atrás da enorme instalação de rádio da nave de Topthor, piscaram alegremente um para o outro. Desde o momento em que o velho se dispôs a controlar as armas de seus subordinados, transformara-se de uma hora para outra num ser totalmente diferente. Ele, que a bordo de sua nave costumava escrever a palavra disciplina com letra maiúscula, sugeria que a missão que acabara de confiar aos dois membros de seu clã não fosse levada muito a sério. Os dois teleportadores sabiam quem tinha suas mãos naquilo, e de onde partia a influência exercida sobre os três superpesados. Os passos pesados de Topthor afastaram-se depois que este fechou a escotilha. Mais uma vez, os mutantes que se mantinham agachados atrás das instalações de rádio trocaram um olhar. Aguçaram o ouvido. Aguardavam os roncos dos superpesados que estavam sentados nas poltronas. Silenciosos que nem duas sombras os dois mutantes saíram de trás das instalações de rádio. *** A menos de três quilômetros de distância, no interior da pequena cabine da Gazela, Bell deu esta ordem ao telecineta Tama Yokida: — Providencie para que nos próximos quinze minutos ninguém consiga abrir a escotilha que dá para a sala de comando de Topthor. Tama Yokida limitou-se a acenar com a cabeça e liberou suas energias telecinéticas, tangeu-as para a nave de Topthor e ali desencadeou forças tremendas. Essas forças atingiram o mecanismo da fechadura da escotilha, interpuseram-se entre os relês arcônidas, fizeram com que potentes campos magnéticos entrassem em colapso e desempenharam o papel de solda indestrutível que ligasse a escotilha e os trilhos pelos quais a mesma devia deslizar. *** O cérebro positrônico de Topthor estava funcionando. As duas sentinelas estavam deitadas nas poltronas e dormiam. Nem Kakuta nem Ras Tschubai viraram-se uma única vez para eles. Confiavam irrestritamente na capacidade de Ishibashi. O setor de memória! Tako Kakuta acabara de ligá-lo, mas não tinha muita certeza sobre a ligação que deveria efetuar. Na sala de comando da Gazela, Marshall dirigiu-se a Reginald Bell e disse: — Kakuta não quer arriscar-se em ligar o impulso do setor de memória. Ainda está hesitando e... Bell preparara as medidas a serem adotadas se ocorresse um incidente como este. Kitai Ishibashi teria de suspender temporariamente seu tratamento sugestivo. — Ocupe-se com Kakuta. Aqui — apontou para a série cronológica de ligações. — Foi aqui que ele encalhou.

Ande depressa, Ishibashi! No momento em que Kakuta ligou o impulso do setor de memória do cérebro positrônico, nem desconfiou que Kitai Ishibashi lhe dera ordem para isso a uma distância de três quilômetros. — Pronto? — perguntou o africano. Ras Tschubai já concluíra sua tarefa. — Um mo... Naquele instante uma voz berrou atrás deles: — O que está acontecendo aqui? Uma das sentinelas acordara. Ras Tschubai desapareceu diante de Kakuta. O africano alto e esbelto assumira o risco de teleportar-se em meio ao chamado. Kakuta preferiu não arriscar-se. Se Tama Yokida, que se encontrava na Gazela, não desse conta de sua tarefa, estaria perdido. Este não teve tempo de informar a Bell. Libertou a escotilha que dava para a sala de comando das suas energias telecinéticas para brincar com o jovem superpesado. Este, que acabara de despertar do sono hipnótico, mas, continuava dominado pela vontade estranha, não viu nada demais em subir de sua poltrona e ficar grudado no teto. Tama Yokida virará o corpo dele de tal maneira que o peito ficou encostado no teto. Assim o jovem superpesado não veria o que se passava embaixo dele. Apesar do incidente, que poderia assumir uma feição ameaçadora, Wuriu Sengu, o espia, continuou a transmitir seus comentários com a voz tranqüila. — Kitai! — disse Bell com a voz metálica, mas percebeu pelo gesto do sugestionador que este já havia entrado em ação. Sengu informou: — A escotilha está sendo aberta. Topthor... Naquele instante, uma força invisível sacudiu a sala de comando da Gazela. Bell e seus mutantes foram varridos para um canto. Sengu gemeu. Batera com a cabeça. Marshall segurava a cabeça com ambas às mãos. Ishibashi, que se encontrava ao lado de Reginald Bell, logo ficou em condições de entrar em ação. Comunicaram-se por meio de olhares. — Marshall! — chamou Bell em tom enérgico. — Marshall e Sengu! Os dois estavam trabalhando jogados ao chão, tal qual Tama Yokida. Só agora Bell se deu conta da situação terrível em que se encontravam. Quem os atirara contra a parede? Que poder os descobrira e atacara? — O que está fazendo o velho Topthor, Sengu? — perguntou Bell apressadamente. — Não o vejo — foi a resposta surpreendente e inacreditável. Bell fitou-o perplexo, mas no mesmo instante formulou a pergunta dirigida a Ishibashi. — Voltou a submeter Topthor ao seu tratamento? Ishibashi deu de ombros. Bell compreendeu. Pôs-se a praguejar. Ras Tchubai, o teleportador africano, materializara-se diante dele.

33


— Topthor, a velha raposa, está jogado no convés C e dorme em cima de bombas arcônidas. Reginald Bell não demonstrou o menor interesse pela informação. — Tschubai, o senhor foi atacado nos últimos minutos por uma força desconhecida? — Atacado? — perguntou o africano. Sengu exclamou em voz alta: — Kakuta completou a modificação dos dados de posição. Agora está parado diante do superpesado que caiu do teto. Parece preocupado, pois tudo indica que o rapaz está ferido. — Era só o que faltava — resmungou Bell. — Ishibashi, sugestione Kakuta para que teleporte o rapaz à enfermaria, mas só se puder fazê-lo sem assumir qualquer risco. Ishibashi concentrou-se. Bell obteve mais alguns segundos durante os quais pôde refletir tranquilamente. Só as pessoas que se encontravam na sala de comando da Gazela haviam sido atiradas ao chão. Ras Tschubai, que se encontrava a três quilômetros de distância, não havia percebido nada. Subitamente lembrou-se de que durante a permanência no camarote particular de Talamon haviam sentido, com um breve intervalo, dois fenômenos inexplicáveis. — Marshall... Não conseguiu dizer mais nada. Talamon irrompeu na pequena sala de comando da Gazela, dando mostras de tremenda exaltação. As notícias que trouxe não foram boas. Há dois minutos mais de cem robôs de combate dos aras passavam pelos compartimentos da Tal VI. Eram acompanhados de quase duzentos aras armados até os dentes, que se mantinham mudos e revistavam sistematicamente sala após sala. Bell lançou um olhar pensativo para o patriarca. A cada dia que passava gostava mais de Talamon. O velho não sabia o que era medo, mas nesse instante soltou um grito. Bem à sua frente Tako Kakuta se materializara. Já estava abrindo a boca para avisar que a missão fora cumprida quando viu o superpesado. Controlou-se imediatamente e soltou a pergunta que abalou as pessoas que se encontravam na sala de comando: — Vocês sabem que três naves de guerra estão paradas em cima da Tal VI?

O Biólogo chefe Keklos tremia de desconfiança. Tinha diante de si dois relatórios, um da estação de hipercomunicação e outro sobre o resultado da busca realizada na última noite a bordo da Tal VI. Keklos não pensava em nenhum desses relatórios. Refletia sobre a experiência pela qual ele mesmo passara e mais uma vez voltou a formular a mesma pergunta: — Por que Topthor me chamou ontem de noite? E o que quis conseguir com essa conversa tola? Ele mesmo fora à nave de Topthor na ultima noite. De repente, passou a desconfiar da transmissão audiovisual realizada a partir da sala de comando. Mas na nave de guerra do superpesado tudo estava em ordem. Numa atitude triunfante, o velho lhe mostrara parte dos dispositivos de segurança que colocara em torno do setor de armazenamento de dados de seu cérebro positrônico. — Biólogo chefe Keklos, como vê já tomei todas as providências antes que o senhor determinasse suas medidas de segurança. Ontem de noite essa demonstração era boa de ver e de ouvir, mas então ainda não dispunha dos relatórios. A exposição fornecida pela estação de hipercomunicação era inquietante. De repente quatro técnicos captaram uma estranha transmissão de hipercomunicação, que, após poucos segundos foi abafada por uma interferência. Antes que fosse possível determinar a fonte de interferência, esta se estendera a todas as frequências. Esse acontecimento inédito impediu os técnicos de se ocuparem imediatamente com a parte inteligível da transmissão. Enquanto procuravam determinar o motivo da interferência, o suprimento de energia foi suspenso por alguns segundos. Pouco depois, por algum motivo inexplicável, a grade Me caiu e o condensador de vácuo explodiu. Depois de reparadas as avarias, passou-se ao exame da parte inteligível da transmissão de hipercomunicação. Mas em vez daquilo que os técnicos haviam ouvido, o setor de armazenamento reproduziu uma voz chiante, que anunciava o choro dos dervixes e apresentou uma música infernal, insuportável para os ouvidos de um ara. Keklos logo tropeçou sobre a palavra dervixe. Chegou a consultar Aralon, mas nenhum cientista sabia o que significava essa palavra. — Devem ser os demônios das estrelas! Com estas palavras afastou os relatórios. A busca dada na Tal VI também não produzira qualquer resultado. Subitamente Keklos atirou a cabeça para trás. Num 34


gesto que quase chegava a ser guloso, pegou o relatório sobre a Tal VI. Observou-o e viu que a busca da enorme Tal VI durara pouco mais de uma hora. Face a esse período, extremamente reduzido para uma operação de busca, concluiu que alguma coisa não estava em ordem. Examinou atentamente as indicações de tempo. O que acontecera na última noite a bordo da Tal VI? Uma frase o incomodava em meio às suas reflexões: — O perigo começa com a assembleia! A assembleia dos patriarcas estava próxima ao encerramento. Já se decidira que Rhodan seria destruído e que seu planeta seria transformado num sol. Apenas se regateava sobre o preço que os superpesados exigiam dos saltadores. Há meia hora Keklos, bastante contrariado, desligara o aparelho que transmitia os trabalhos da assembleia. Seria preferível que não o tivesse feito, pois naquele instante Cekztel, chefe de todos os patriarcas dos superpesados, levantara-se e, soltando uma praga, dissera: — Os superpesados não lançarão nenhum ataque contra Rhodan e seu planeta, a Terra. Estou enojado de toda essa choradeira por causa de oitenta milhões. Nem Cekztel, nem Siptar, Vontran ou qualquer dos outros participantes desconfiavam de que os mutantes de Perry Rhodan estivessem dando tudo de si para transformar a assembléia numa bomba explosiva de desunião. Ao amanhecer, os teleportadores Tako Kakuta e Ras Tschubai desempenharam o papel de “rebocadores” e, numa série de excelentes saltos de teleportação, haviam colocado Bell, Tama Yokida, John Marshall e mais alguns mutantes em esconderijos seguros no interior do pavilhão de reuniões. Não puderam exercer nenhuma influência sobre o resultado da votação. Contra todas as expectativas, a deliberação a este respeito foi tomada logo após a abertura dos trabalhos. Os trinta patriarcas, que estavam contra o plano da destruição de Rhodan e da Terra, foram vencidos pela grande maioria. Porém, no momento em que Cekztel formulou sua exigência pecuniária, as coisas tomaram aspecto diferente. Ishibashi incumbira-se da maior parte do trabalho. Sugestionava os mercadores galácticos, quase fileira por fileira, para que recusassem a exigência de Cekztel. Em meio a uma maioria escassa que pretendia pagar o preço pedido pelo superpesado, soavam vozes cada vez mais numerosas que gritavam “vigarice” e pretendiam pôr em dúvida o resultado da votação. Quando John Marshall e Kitai Ishibashi estavam próximos ao esgotamento, sendo apoiados constantemente por Betty Toufry que, segundo o plano de Bell, só devia intervir no fim com toda a força de sua capacidade telepática, o superpesado Cekztel levantou-se de repente e dispôs-se a abandonar a assembléia. De seu esconderijo Bell contemplou-o e esfregou as mãos, quando alguma coisa passou, tocando-lhe. Por pouco, não o faz perder o equilíbrio. No mesmo instante, John Marshall encolheu-se. Reginald Bell viu suas costas encurvadas, e também viu Kitai Ishibashi, que gemia com a voz abafada: — Ai está de novo! Reginald Bell compreendeu que ainda faltava muito para que pudessem considerar-se vitoriosos. Alguma coisa não identificada vinda do desconhecido os atingia.

Subitamente o chefe de todos os superpesados teve seus passos travados em meio ao largo corredor central por vários robôs de combate dos aras, surgidos de repente. — Chefe — fungou Tama Yokida — os robôs sabem exatamente onde estamos. Mais de trinta estão subindo para cá. O passo metálico das máquinas de guerra retumbava pelo grande pavilhão, em que subitamente se instalara o silêncio. *** O produto da retorta, feio e de um cinza-fosco, estava parado diante de Keklos. — Fale logo! — gritou Keklos. Acabara de saber que na noite anterior, enquanto estava inspecionando a nave capitania de Topthor, o bio já tentara falar com ele. Esse bio era seu transmissor intermediário. Com uma voz surpreendentemente humana, o bio limitou-se a dizer: — Foram encontrados. — Onde? — perguntou Keklos, gritando ainda mais alto, e, em espírito, condenou à morte os três assistentes aras, que deixaram de avisá-lo de que o bio procurava falarlhe na última noite. — No lugar em que há muita gente junta e no lugar onde mais uma vez há muita gente junta. Só a última parte da resposta não foi muito clara para Keklos. Deu o alarma para o pavilhão de conferências dos patriarcas. — ...onde mais uma vez há muita gente junta. O biólogo-chefe refletiu ligeiramente. A segunda alusão só podia dizer respeito à nave capitania de Talamon, a Tal VI. Já ordenara nova busca, mas depois que formulou outra pergunta ao bio e obteve a resposta não teve a menor dúvida. Alarma para a Tal VI! Mais uma vez, gritou para o produto da retorta: — Diga-lhe que deve atacá-los. Destruí-los! Entendeu? Promete dizer imediatamente? — Sim senhor, deve destruí-los! — respondeu o produto da retorta. Keklos seguiu o bio com os olhos febris. Por um instante, seus pensamentos vagaram num sonho. Em meio a esse intervalo, deu-se conta de como poderia entrar em contato com a matéria-prima de Gom sem recorrer ao transmissor intermediário. — Gegul foi parar no conversor algumas semanas antes da hora — admitiu. *** — São quarenta! — chiou Tama Yokida, o baixote. Sua voz não tremia. Quarenta máquinas de guerra dos aras subiam ruidosamente pela rampa que se elevava em arco livre, descrevendo duas curvas. Mais de cem robôs espalharam-se entre os patriarcas, ocuparam imediatamente todas as saídas e, dirigindo as lentes sobre os saltadores espantados, mantiveram-se imóveis. — Vamos retirar-nos! — ordenou Bell, que geralmente gostava de bancar o impetuoso. Neste momento, uma mudança discreta de posições era preferível à mais retumbante das vitórias. — Chefe — disse John Marshall — sem... 35


A força invisível voltou a atingi-los. Bell sentiu-se agarrado e levantado. Perto dele, a pequena Betty Toufry foi erguida mais um tanto. Marshall e Yokida estavam jogados num canto e Ras Tschubai fora forçado a colocarse de joelhos. Tako Kakuta foi o único que conseguiu manter-se no mesmo lugar. Bell segurou Betty assim que sentiu o chão sob os pés. A força desconhecida largou-os com uma rapidez igual à violência com que os agarrara. — Abandonar o terreno! Fugir! — Bell teve dificuldade em proferir estas palavras, mas na situação em que se encontravam qualquer resistência seria uma loucura. — É tarde — disse Tama Yokida entre os dentes. — Antes de mais nada, duas dúzias de robôs têm de ser atirados da rampa para baixo... Um ligeiro exame convenceu Bell de que os telecinetas teriam que intervir. Os teleportadores receberam suas instruções: — Façam o papel de rebocadores. Estas palavras representavam uma enorme injustiça para com a capacidade dos teleportadores. Mas ninguém achou graça. Tako Kakuta pretendia levar Bell num salto instantâneo até a Gazela. Este fitou-o com os olhos chamejantes. Kakuta virou-se abruptamente, pegou a figura alta e magra de Kitai Ishibashi, concentrou-se, fez o ar tremeluzir em torno de si e desapareceu com o sugestionador. Yokida, o telecineta, irrompeu com sua energia que nem uma tormenta do mundo primitivo sobre as máquinas de guerra que se aproximavam ruidosamente. Os cinco robôs que vinham na frente ergueram-se do chão, executaram uma rotação no ar e bateram nas pernas metálicas dos cinco robôs que os seguiam. O impacto das dez máquinas de guerra ressoou na rampa. Os patriarcas ouviram o barulho, mas do lugar em que se encontravam não podiam ver o palco dos acontecimentos. Dez dos quarenta robôs haviam sido neutralizados por algum tempo. Porém os trinta restantes, dirigidos positronicamente, não conheciam o medo nem a compaixão, obedecendo apenas à sua programação. Passaram por cima da confusão e entraram na última curva da rampa. — Atirá-los-ei por cima da amurada... Uma força brutal e imensa atingiu Bell e Tama Yokida, os fez rodopiar loucamente, e soltou-os de repente. O impacto ruidoso de seus corpos na tribuna foi abafado pelas pisadas dos robôs. O giro do corpo fizera sangrar o nariz de Bell. Por muitos segundos, Tama Yokida não conseguiu enxergar nada. Quando a vista voltou a clarear, percebeu a cintilância dos robôs pela fenda atrás da qual se encontrava. As missões executadas a serviço da Terceira Potência ensinavam a todo mundo a necessidade de reagir instantaneamente. Yokida jogou Bell ao chão. Pouco acima de suas cabeças, um raio térmico chiou e atingiu a parede, que se gaseificou sob a energia desencadeada. Bell percebeu o tremeluzir do ar. Fez uma coisa que nunca mais conseguiu realizar. Pôs a mão no meio do tremeluzir e arrastou Ras Tschubai, ao chão, em pleno processo de rematerialização. Uma fração de segundos, depois disso, também Tako Kakuta se encontrava no chão. Acreditava que a tribuna fosse um lugar muito perigoso, então resolvera aterrissar de barriga.

— Segure-se! — berrou a figura grande, esbelta e negra de Ras Tschubai. Sentiu os braços de Bell enlaçarem seu peito e desmaterializou-se com um salto em direção à Gazela. Mas, no último instante, uma coisa terrível atingiu-o. Tako Kakuta devia sentir a mesma coisa, pois o japonês soltou um grito. Bell teve a impressão de que alguém lhe arrancava os braços. Mas logo passou. Aterrissaram na sala de comando da Gazela. — Foi a salvação no último... — disse Reginald Bell, mas logo foi atirado num canto juntamente com as outras pessoas que se encontravam na sala. Procurou defender-se contra a força invisível, mas não conseguiu. Ouviu o choro de Betty Toufry. A moça estava em perigo. A raiva deu-lhe forças tremendas. Subitamente a força invisível e estranguladora cessou. Bell logo se pôs de pé. — Yokida! Toufry! Abram a escotilha de Talamon! Vamos decolar. Com um salto, colocou-se no assento de piloto da Gazela, que, desde o momento em que a Tal VI pousara em Laros, se mantinha pronta para decolar do interior do hangar secreto. A Gazela era um veículo em forma de disco que desenvolvia velocidade superior à da luz. Seu diâmetro era de trinta metros e o eixo polar media dezoito metros. O que fazia da nave um veículo respeitável não era o raio de ação de quinhentos anos-luz, mas o armamento incrivelmente pesado. Bell estava prestes a realizar uma decolagem forçada. De uma hora para outra, a décima oitava lua transformarase num verdadeiro inferno. Aqui espreitava-os um perigo contra o qual não podiam defender-se. Na Gazela, todas as energias começaram a trabalhar rapidamente para o desempenho de decolagem. Mas os dois telecinetas ainda não haviam avisado que haviam forçado as grandes escotilhas do hangar por meio de sua energia telecinética. Subitamente a luz do dia penetrou na sala de comando, derramada pela tela de imagem. Tama Yokida e Betty Toufry obrigaram as escotilhas do hangar a abrir-se. — Desta vez ainda tivemos sorte — berrou Bell em tom de triunfo. Com uma pancada, colocou o dispositivo automático de decolagem na posição “ligado”. Com um silvo agudo, a Gazela saiu do esconderijo e precipitou-se para o céu. *** Talamon fitou os olhos do biólogo chefe e os membros do seu estado-maior com uma expressão fria e destemida. Dez dos mais velhos dentre os superpesados encontravamse atrás de seu patriarca. Ameaçavam-no com os olhos e com sua figura quadrática e maciça. — Quero provas, Keklos — exigiu Talamon em tom tranquilo e autoritário. — Prove que ofereci ao pequeno veículo espacial um esconderijo a bordo de minha nave. Recomendo-lhe que antes disso dê uma olhada na comporta do hangar. As escotilhas da comporta teriam de ser reparadas. Forças sobre cuja natureza nem mesmo Talamon conseguia fazer a menor ideia haviam-nas arrombado, e agora elas não se fechavam mais. 36


— Mandarei submetê-lo à lavagem cerebral — chiou Keklos. O biólogo chefe fora de opinião que a presença de Topthor conseguiria dar-lhe certo apoio diante de Talamon. Ao ouvir falar em lavagem cerebral, Topthor estremeceu por dentro. Na última noite, também acontecera muita coisa a bordo de sua nave capitania que não conseguira compreender. Ele mesmo tirara um cochilo em cima das bombas arcônidas — justamente ele, que podia passar oito dias sem dormir. E seu neto Grugk estava recolhido à enfermaria, com um braço quebrado. Nenhum dos superpesados sabia quando e como Grugk quebrara o braço, e especialmente o próprio Grugk não soube dar a menor informação a este respeito. No meio da noite, viu-se subitamente na enfermaria da nave. Estas ideias passaram pela cabeça de Topthor. Uma lavagem cerebral transformava a pessoa num aleijado mental. Ele mesmo não correria o risco de ser submetido a esse tipo de lavagem? Pensou no que dissera seu amigo Talamon: “Se alguma coisa não der certo, quero que ao menos uma pessoa continue leal para comigo.” E ainda havia o grande negócio que continuava no ar. Keklos virou-se abruptamente. Às suas costas, a mais de três metros de distância, Topthor soltara uma gargalhada. Seus olhares encontraram-se. Topthor sacudiu energicamente a enorme cabeça e trovejou: — Keklos, o senhor não vai submeter nenhum superpesado à lavagem cerebral. O senhor não fará nada disso. Antes que aconteça uma coisa dessas, Laros será transformada num sol. Antes de mais nada, apresente uma prova de suas suspeitas. Keklos era muito inteligente para dar murro em ponta de faca. Não possuía qualquer prova cabal contra Talamon. A única prova consistia num dos maiores segredos dos aras: a matéria-prima de Gom. Esse fato calou-lhe a boca e acorrentou-lhe as mãos. Sem dizer uma palavra retirou-se da Tal VI em companhia da comissão e dos robôs de combate. Topthor e Talamon seguiram-nos com olhares indiferentes. Os membros do clã também se foram afastando. Quando se viram a sós, Topthor colocou a mão pesada sobre o ombro do companheiro, piscou para ele e disse: — Meu velho, agora temos que fazer o negocinho juntos. Talamon limitou-se a acenar com a cabeça. Topthor também acenou. — Você não quer que eu formule qualquer pergunta, meu caro, e não perguntarei nada. Só faço uma pergunta dirigida a mim mesmo, e esta pergunta é a seguinte: o grande negócio que você pretende realizar não cheira fortemente a Perry Rhodan? *** — Que diabo, o que está acontecendo agora? — berrou Bell no assento de piloto da Gazela e fitou o painel. A Gazela perdeu velocidade e saiu da rota, embora devesse acelerar a 0,5 luz. Reginald Bell gritou pelo intercomunicador, dirigindo-se à casa de força. Ali estava de serviço o mutante de duas cabeças, Goratchim, e Wuriu Sengu.

Da casa de força, Bell só ouviu um estertor desarticulado. No mesmo instante, também se sentiu atingido pela força. Mais uma vez estendeu seus tentáculos, vindos do desconhecido, e parecia esmagá-lo no assento de piloto. Em algum lugar da Gazela, começaram a chiar aparelhos que nunca haviam emitido qualquer som. No assento do copiloto Tako Kakuta se encolhera. Bell sentiuse desmaiar, quando de uma hora para outra a força o largou e a bruxaria terminou. — Paramecânica — fungou Marshall. Bell só compreendeu pela metade. Seu rosto, geralmente corado, parecia cinzento e envelhecido. — A telecinese a uma distância destas? — disse em tom incrédulo. A Gazela, mantendo o curso que lhe fora imposto pelo poder desconhecido, corria vertiginosamente em direção ao planeta gigante de Gom. — Temos que transmitir um pedido de socorro à Titan e... Bell não conseguiu dizer mais nada. Sentiu-se agarrado, comprimido e martirizado de dois lados. “É o fim”, pensou. Numa atitude de desespero reuniu todas as energias e balbuciou para John Marshall: — Entre em contato com... com... com Gucky. A inconsciência caiu rapidamente sobre Bell. Marshall esqueceu o próprio destino. Algo cresceu em seu interior. Concentrou-se apesar do medo de morrer, estabeleceu contato com Gucky, o rato-castor que se encontrava a bordo da Titan. Conseguiu transmitir ao ser peludo alguns fragmentos de ideias: — Data... Terra... O cérebro positrônico de Topthor... reprogramado para Beta... Gucky não captou mais nada. Toda a vida no interior da Gazela entrou na zona crepuscular da inconsciência. A nave de esclarecimento de grande alcance corria ininterruptamente em direção ao planeta Gom, arrastada por forças tremendas, e naquele instante penetrava nas primeiras camadas rarefeitas da atmosfera daquele mundo infernal. Foi à hora mais dura de Perry Rhodan. Teve que permanecer inativo enquanto perdia seu melhor amigo, enquanto a Gazela caía com os melhores dentre seus colaboradores sobre o planeta Gom. Não devia intervir. O espaço cósmico em torno de Gonom era uma selva de raios de localização tateantes. As naves de Laros haviam decolado em enxames para caçar o pequeno veículo espacial que se ocultara na Tal VI. O alarma rugiu por toda a Titan. Após alguns segundos a gigantesca nave esférica estava preparada para entrar em combate. Perry Rhodan parecia alheio a tudo. Estava lutando consigo mesmo. Bastava que queresse, e a queda da Gazela seria detida. Não poderia fazê-lo. Não devia pensar em si. O destino da humanidade terrana estava em suas mãos. Com a voz firme, deu ordem para afastar-se. Apesar da enorme proteção contra a localização atrás da qual se ocultava a nave esférica, não se podia excluir a possibilidade de que uma das inúmeras naves que andavam por esse setor do espaço a localizasse por acaso. A ordem de Rhodan não fora inspirada pela coragem nem pela covardia. A segurança da Terra exigia que ele a desse. 37


Um sorriso feroz passou-lhe pelo rosto quando se lembrou da alteração dos dados armazenados no cérebro positrônico de Topthor. Naquele instante, o rato-castor, que estava agachado a seu lado, chiou: — Será que o gorducho nunca mais volta Perry? Ele tem de voltar, pois do contrário não haverá mais ninguém que eu possa chatear de verdade... *** Naquele mesmo momento, o coronel Klein, representante de Perry Rhodan na Terra, avisou Freyt, que parecia cada vez mais impaciente:

— Amanhã o novo compensador estrutural será instalado na Solar System. Depois, esse barco poderá partir com a equipe especial em direção a Honur. — Prefiro que o cruzador pesado fique aqui — respondeu Freyt. — Antes de mais nada, gostaria de rever o chefe o quanto antes. Quando voltei com a Ganymed do grupo estelar M-13, o céu de Gobi estava coberto de nuvens. Acho que agora as nuvens se amontoam em torno do nosso sistema solar. Não sou supersticioso, mas não consigo livrar-me de um medo terrível. Em algum lugar do sistema de Árcon, alguma coisa não deu certo. Em algum lugar... Quando seremos atingidos pelas consequências?

Apenas o cérebro positrônico de uma única nave possui dados sobre a posição galáctica da Terra. Por isso, torna-se relativamente fácil para os agentes de Perry Rhodan substituírem os dados corretos por outros, falsos. Mas o que será feito de Reginald Bell e dos oito mutantes que, depois de uma ação bem sucedida no local da conferência dos aras e saltadores, têm de se lançar numa fuga precipitada...? Qual é a origem das forças misteriosas que transformam a Gazela numa bola de brinquedo...? No próximo volume da série Perry Rhodan, você saberá por que Gom não Responde: é este o nome de outra emocionante aventura.

38


Nº 47 De

Kurt Mahr Tradução S. Pereira Magalhães Digitalização Arlindo San Nova revisão e formato W.Q. Moraes

Para evitar maiores suspeitas, Bell e os mutantes tiveram de fugir às pressas, a bordo da Ganymed. Aproximando-se de um planeta pedregoso e estéril, foram atraídos por uma força irresistível. Eram os gons, uma massa orgânica, seres insignificantes em si, mas quando agrupados em centenas de milhares tornavam-se telepatas perigosíssimos...

39


Reginald Bell lhe havia assegurado nunca ter visto uma jovem tão destemida assim. Betty sorria irônica. O vento, que soprava constantemente, trazia ondas de — A sombra já avançou um bom pedaço — disse calor de até quinhentos graus absolutos do ponto em que Reginald Bell. caíra a Gazela até eles. Por isso, tentaram chegar até um Depois de seis horas, a tempestade também terminara. trecho de penumbra. Primeiro, caminharam de pé, como As plantas carnudas, de folhas azuladas, que alguns homens. Quando notaram que a posição ereta dos minutos antes da tempestade tinham mergulhado no solo, orgulhosos terranos não era nada prática para vencerem o como minhocas, tornavam a aparecer. Contorcendo-se, peso enorme provocado pela forte atração, começaram a arrastavam-se para fora de seus esconderijos, alcançavam o andar de quatro. chão e se erguiam na forma em que estavam antes. Depois Tinham conseguido chegar até a caverna, quando continuavam completamente imóveis. começou a pesada chuva, ou melhor, a pesada tempestade. O clarão avermelhado do sol também avançara por uns Viram sumir pelo chão adentro as palmos. Uma esguia agulha de plantas de folhas grossas e azuladas. Personagens Principais deste pedra, rochosa, esquisita, formada Ficaram surpresos. Dois ou três episódio: certamente pela esmagadora atração minutos depois, a primeira rajada de da terra de Gom, que estava antes vento varreu o planalto e os teria na sombra, era agora banhada pelo Perry Rhodan — Chegou em Gom carregado, não tivessem procurado sol. no momento exato... abrigo atrás das pontas de pedra no Bell e seu grupo estavam saindo rochedo. Esconderam-se numa caverna, da caverna, onde se abrigaram Reginald Bell — Perdeu o contato esperando seis horas, até acabar a durante a intempérie. A primeira com Rhodan. Encontra-se no mundo tempestade. coisa que procuraram ver foram os louco dos gons. E agora lá estavam, isolados de destroços da Gazela, com a qual qualquer ligação, num mundo tão chegaram até ali. Amassada, John Marshall — Observa tudo, grande como Saturno, cujo ano despedaçada e comprimida de percebe as forças telepáticas dos gons planetário tinha a duração de trinta encontro ao solo pelo descomunal e consegue entrar em contato com meses da Terra. Girava em torno de seu fenômeno de atração, ali estava, a eixo e expunha sempre a mesma face eles. Convence-se de que são menos de quinhentos metros da para o astro central do sistema Gonom. explorados pelos aras. esguia torre de pedra, a famosa Sua órbita era, porém, muito espaçonave. Fora vítima de Gom e excêntrica, de maneira que fortes Ivã Goratchim — O detonador do daquela força misteriosa que a oscilações produziam alterações Exército de Mutantes. Destruidor de puxara do espaço, como se fosse periódicas quanto à posição do sol. 400 bios. um ímã potentíssimo. Gom era um mundo de oxigênio, com Isto havia acontecido há mais de uma gravitação na superfície de 1,9 e Betty Toufry — Tem os dons da um dia, na contagem de tempo da uma pressão do ar de vinte atmosferas. Terra. Depois disso, não tiveram telepatia e da telecinese, muito Um mundo no qual o homem não mais contato com Perry Rhodan corajosa. poderia parar de pé mais que dois que, muito longe no espaço, fora minutos e onde precisaria da proteção deste sistema, aguardava na nave Tako Kakuta — Manifesta-se um de trajes espaciais adequados, para não capitania Titan o resultado da gênio técnico, dominando um disco ser esmagado pela fortíssima pressão missão. voador do adversário. do ar. Um mundo onde viviam plantas Mais ou menos um dia inteiro azuis, de aspecto horrível, semifoi o que levaram, do ponto da Wuriu Sengu e Ishibashi — Iam inteligentes, mundo em que num queda da espaçonave até o local sendo devorados pelos gons, ansiosos hemisfério dominava a noite eterna e onde estavam agora. Tako Kakuta por matéria orgânica. no outro, o dia sem fim. Um mundo em ficou inconsciente por longas horas que, quem estivesse na região e tiveram que carregá-lo. Das duas crepuscular teria sempre atrás de si a cabeças de Ivã Goratchim, uma escuridão e em sua frente nada mais do que um fraco clarão tinha um grande galo, isto é, a de Ivanovitch, o mais moço. avermelhado, para toda a eternidade. Ivã, o mais idoso, se lamuriava: as dores provocadas pelo Uma verdadeira antessala do inferno. ferimento na cabeça de Ivanovitch, ele as sentia através do Assim era Gom. sistema nervoso, que era um só. A grande surpresa geral foi Betty Toufry. Depois que *** todos acabaram de sair dos escombros da Gazela, a opinião — Aí vem alguma coisa — disse John Marshall. geral era que alguém devia penetrar novamente nos Reginald Bell fixou os olhos para fora da entrada da destroços para procurá-la e trazê-la a salvo, pois certamente caverna. estaria morrendo de medo lá dentro. Mas quando — Não estou vendo nada — disse ele. começaram a sair, um após o outro, do meio daquela — Não há mesmo nada para ver — comentou Betty. — confusão de ferro e plástico, deitando-se em terra para Que acha de tudo isso, Mr. Marshall? apalparem o corpo à procura de ferimentos, lá estava Betty, Marshall abanou a cabeça. há muito tempo, sentada numa pedra e sorrindo para eles. — Ouve-se, não sei o quê. Ouve-se uma coisa muito Podia ler-lhes o pensamento e sabia exatamente o que simples. estavam pensando no momento.

1

40


— Exatamente, semi-inteligente. — Puxa vida... — lamuriou-se Bell. — Sei que vocês são telepatas. Mas eu também gostaria de entender alguma coisa, de saber o que está acontecendo... John Marshall inclinou a cabeça para frente, como se estivesse ouvindo qualquer coisa. Remexeu-se e moveu um pouco os ombros. — Há impulsos mais fortes que os das plantas. — explicou ele — mas não se pode dizer que sentido têm. — Onde estão eles? — queria saber Bell. — Ali na frente. Marshall apontou na direção de um rochedo chato, distante alguns metros da entrada da gruta. Bell ainda queria perguntar mais alguma coisa, mas no mesmo instante, seus olhos se arregalaram: No lusco-fusco avermelhado, vagava alguma coisa em volta do rochedo. Parecia uma simples mancha escura, de formato oval, talvez de um metro quadrado. Veio dando volta pelo rochedo, na direção da caverna. — Quer vir para cá — sussurrou Marshall. Bell estava com os olhos fixos na coisa. Não tinha propriamente contornos. Onde chegava, dava logo a impressão de que o chão ficava um pouco mais escuro. Aconteceu que a mancha teve que passar entre duas daquelas plantas azuladas; mas as folhagens carnudas pareciam ter mais medo da mancha escura do que da própria tempestade. Esconderam-se com estranha rapidez e com um leve ruído de alguma coisa que roçava. Reginald Bell sacou sua arma térmica e estava preparado para atirar. — Nada disso — sussurrou Marshall — é apenas curiosidade. Aí surgiu a mancha na frente da entrada da caverna. Bell ficou novamente olhando. A mancha parecia mais uma camada de goma-laca marrom-escura. Bell não se sentiu muito encantado com tudo aquilo e se dirigiu a Marshall. — O que ela quer? Marshall abanou a cabeça: — Nada de extraordinário. Apenas nos está estranhando. Com o mesmo leve ruído de algo que está raspando, a mancha se pôs em movimento. Não voltou pelo mesmo caminho por que viera. Dobrou para a direita e contornou o bloco de pedra, onde se localizava a caverna. Minutos após havia desaparecido dos olhos de Bell. — Meu Deus do céu... que espécie de mundo é este? Tama Yokida não parecia muito impressionado. — Posso ir buscá-la, senhor — disse se oferecendo. — Se o senhor quiser. — Deixe-a ir embora. Que serventia tem para nós? Mal acabara de dizer isto, toda atenção de Bell se concentrou na atitude de Kitai Ishibashi, que estava perto da parede da caverna, de olhos fixos nas pedras. — O que é que há? — queria saber Bell. Ishibashi gemia e se contorcia. — Eu estava pensando que lhe podia impor minha vontade. Mas provavelmente é tão boba, que não pode ser influenciada. Bell riu secamente. — Acho que você tem razão. Não será mais inteligente que as plantas azuis que se escondem diante da tempestade. Retirou-se da entrada da caverna. Passando diante de Marshall, resmungou pela segunda vez:

— Santo Deus... Que mundo horrível. E Marshall perguntou pensativo, porém, sem esperar resposta: — Afinal, que esperava de Gom? Ivã Ivanovitch Goratchim, o mutante de duas cabeças, se apresentou, sem cerimônia, para manifestar sua opinião. — Uísque e belas mulheres — respondeu uma das duas cabeças, rindo. Bell virou-se para trás. Ivã, o mais velho, consciente da falta, virou o rosto para o lado. Ivanovitch, o mais moço, ergueu a mão, apontando para Ivã. Bell soltou o ar com os dentes trincados, produzindo o ruído típico, para que todos ouvissem: — Descida de emergência num inferno, escoltado por uma turma de doidos. *** Tentavam entrar em contato com a Titan. A bordo da supernave estava Gucky, o rato-castor, o mais forte telepata do Exército de Mutantes da Terra. Betty e John Marshall conjugavam esforços no sentido de enviarem um sinal a Gucky, com o fim de o deixar a par do lugar onde estavam e principalmente da sua difícil situação. Mas ao invés de uma resposta de Gucky, recebiam apenas impulsos de pensamentos desconexos, mas de tal intensidade, que Marshall apostaria se tratar de impulsos de gons. — E o que é que o senhor nos propõe, então? Deveremos ficar residindo aqui? — foi a pergunta irônica de Bell. Marshall sorriu. — O chefe de nosso grupo é você. Pensávamos até que tivesse uma idéia melhor... — Ah... deixa de bobagem — resmungou Bell. — Com somente meu grau de patente, não vamos conseguir nada. Mas estava pensando que você, com sua superinteligência, nos fornecesse mais rapidamente uma boa ideia. Betty Toufry pediu a palavra: — Acho que não podemos fazer outra coisa, apenas esperar. Rhodan sabe que estamos em perigo. Pode também calcular onde nós estamos. Em minha opinião, tudo está dependendo apenas de que aguentemos até que a Titan consiga chegar a Gom. — Se soubesse, ao menos — disse Bell — qual é a extensão da oscilação? O trecho de penumbra já se aproximou mais cem metros. Se continuar assim, dentro de alguns dias podemos sair daqui, aliás, temos que sair daqui. O halo avermelhado que confinava o trecho do luscofusco havia subido um pouco mais para o céu escuro. Uma corrente de ar constante aumentava a temperatura na caverna, de oitenta para cem graus. Os dispositivos de refrigeração nos trajes espaciais trabalhavam no volume máximo. A contar da queda da Gazela, haviam decorrido já quarenta horas. Este longo tempo fora suportado relativamente bem, graças à observação das flores azuis, graças à sensação de expectativa com os impulsos telepáticos e graças às brincadeiras mútuas. Daí para frente, porém, a passividade começou a enervar. E, no entanto, a única coisa que podiam fazer era esperar. *** Conseguiram dormir um pouco. Quem estava 41


incumbido de ficar de vigia era Ivã Goratchim. Tinha que ficar acordado à entrada da caverna. Mas Ivã, o mais velho, e Ivanovitch, o mais moço, não chegaram a um acordo sobre quem deles havia recebido a ordem de ficar de plantão. Assim, acabaram os dois dormindo. Felizmente nada aconteceu de anormal. Bell se arrastou até a saída da caverna e espiou. Seu primeiro olhar foi para a agulha esguia do rochedo, por intermédio da qual calculava a marcha da oscilação. O segundo olhar seria para os escombros da Gazela projetada ao solo. Tinha que rastejar mais um pouco. Seus olhos se arregalaram, numa expressão de pânico, seu pessoal ouviu seu grito rouco de desespero. Esfregou-os para clarear mais a vista, porém o quadro era o mesmo. Os destroços tinham desaparecido. Reginald Bell vacilou um pouco, depois deu ordem a Wuriu Sengu, o vidente, para que desse uma olhada no planalto à procura dos destroços da Gazela. Talvez houvesse em Gom fenômenos vulcânicos que tivessem aberto uma fenda no solo e, por aí, a espaçonave acidentada desaparecera. Somente Wuriu Sengu, com suas faculdades paraóticas, penetrava em qualquer tipo de matéria, como se esta fosse um vidro bem transparente. Assim poderia descobrir alguma coisa. Mas os esforços de Sengu foram inúteis. A Gazela estava mesmo desaparecida. Bell, a custo, tomou outra resolução. A contragosto, porque equivalia a expor a grandes perigos um de seus auxiliares. Porém, numa situação como aquela, nada era mais vital do que informações para o controle das iniciativas. Bell virou-se para Tako Kakuta, o teleportador. — Tako, observe as coisas lá fora, mas não se detenha muito. Basta que você apenas olhe o lugar onde estava a Gazela. Não faça nenhuma pesquisa mais profunda. Volte o mais depressa possível para cá. Num piscar de olhos, Tako Kakuta já não estava mais ali. — Não vi nada — murmurou decepcionado Tako. — O chão está liso, dando a impressão de envernizado. E da Gazela não existe mais nada. Quase que eletrizado, Marshall o interrompeu: — Envernizado, você disse? Que cor? Tako depois de refletir um pouco: — Eu diria... marrom escuro ou castanho. Bell percebeu o fio do pensamento de Marshall. — Você crê, talvez, que a mancha de verniz engoliu a Gazela? — Não sei, não. Mas se o chão está marrom-escuro e parece envernizado... — Qual é o tamanho da mancha? — perguntou Bell a Tako. — Não cheguei a perceber onde ela terminava. — Portanto, maior do que o espaço de um metro quadrado? — Naturalmente, muito mais. Bell pretendia perguntar mais coisas, mas neste instante, levantaram-se Ivã Goratchim, o mutante de duas cabeças, Kitai Ishibashi, Wuriu Sengu e Tama Yokida no interior da caverna. De pé, embora um pouco cambaleantes, chegaram até o grupo dos que discutiam e começaram a abandonar a caverna. Tudo se passou tão rápido. Os quatro mutantes

pareciam, com seus movimentos coordenados, como que transformados em máquinas obedientes. Bell se recuperou do susto, somente quando os homens já estavam alguns metros para fora da caverna. — Parem — gritou ele. — Voltem todos, seus doidos. Mas os quatro mutantes continuaram andando. Parecia que nem ouviram as palavras de Bell. Bell se pôs de imediato a rastejar atrás deles. Mas o grupo parecia possuído de tal força, que a distância entre eles e Bell aumentava rapidamente. Os mutantes pararam no rochedo, onde a mancha de verniz havia aparecido. Bell gritava e praguejava. Finalmente ficou parado, puxou a pequena pistola energética e berrou a pleno pulmão: — Voltem imediatamente, ou eu atiro. Foi como se não tivessem ouvido nada. Continuaram o caminho. Bell engatilhou a arma, mas antes que pudesse dispará-la, ouviu Marshall que gritava atrás dele: — Não, não atire. Eles não têm culpa nenhuma. Bell virou-se para o lado, de forma que podia ver a caverna. — Por quê? Que está acontecendo? — Influência hipnótica de uma força enorme — respondeu Marshall. — Eles estão obrigados a obedecer. — Então faça alguma coisa contra isto, por amor de Deus! — exclamou Bell. — Não posso. Estou feliz de que esta força mental não me apanhou. A força é terrível, não se pode fazer nada contra. O mutante de duas cabeças, Ishibashi, Sengu e Yokida desapareceram atrás do rochedo. Instantes depois, ressurgiram. Dirigiram-se para a direita, onde estivera até então a nave acidentada. Caminhavam ainda eretos, firmes. Bell não os perdia de vista. Depois, lamuriando e praguejando, virou-se mais uma vez para o lado e voltou à caverna. — Desculpe-me — disse a Marshall — se fui um pouco áspero, mas este mundo doido me deixa também doido. Marshall apenas sorriu. — Bobagem, isto é natural. Só gostaria de saber, quem é que, neste mundo perdido de Deus, dispõe de tanta força hipnótica. Bell não respondeu. Observava os mutantes. Estes andavam sempre eretos no planalto, por entre os rochedos, como se não existisse aquela elevada atração da terra. Gritou-lhes muitas vezes, acreditando que através do receptor do capacete haveriam de ouvi-lo. Mas não houve resposta. Depois de dez minutos, parecia que a situação se transformara. Ivã Goratchim vacilou e caiu de joelhos. Bem rente dele, também caíram os dois japoneses. Bell lhes gritava que voltassem. A seguir, puseram-se em movimento, mas desta vez, andavam de quatro. Tinham perdido aquela força inicial, sentiam-se fatigados. Seguiam o comando hipnótico, mas engatinhando. — Não adianta nada — disse John Marshall — os impulsos hipnóticos fortíssimos continuam a controlá-los. — Você consegue localizá-los? — perguntou Bell. — Não, com exatidão não. Estes impulsos vêm da direção onde estava a nave acidentada. Isto obrigou Bell a refletir um pouco. Tako havia 42


afirmado que o lugar em que a Gazela havia caído estava coberto por uma camada de verniz bem extensa de cor marrom-escura. Aquela mancha esquisita, que haviam observado há pouco, parecia com verniz marrom-escuro. Marshall acompanhou um trecho de seu pensamento. A mancha era um ser orgânico, semi-inteligente. Será que Marshall tinha razão? Será que a camada de verniz que cobria o local da queda da Gazela era realmente nada mais do que um ser vivo, da mesma espécie? Um ser que dispunha de grandes energias mentais? Não se podia fazer nada pelos quatro mutantes, embora isso causasse tristeza a todos. Levaram uma hora para atingir o local onde estavam antes os destroços da Gazela. Um esforço hercúleo, tendo-se em consideração a pesadíssima atração, que dificultava todo movimento. Durante todo este tempo, Bell tentou sem cessar se comunicar com os mutantes, através do rádio do capacete. Mas o resultado deu em nada. Quando os mutantes chegaram ao local da queda, notouse que com seus trajes espaciais brilhantes se arrastavam de um canto para o outro, como que procurando alguma coisa. Bell olhou para Marshall numa expressão de interrogação. Mas o chefe dos mutantes fez apenas um gesto, dando a entender que o estado de influencia hipnótico ainda perdurava, e que seria muito improvável que os mutantes voltassem ao estado normal pelas próprias forças. Seu destino, de um momento para o outro, tornara-se um enigma. Bell bem que lhes havia gritado que voltassem... mas no mesmo momento desapareceram. O rosto de Bell estava banhado em suor. Sem olhar para Marshall, disse-lhe: — Desaparecidos como a Gazela. Que pensa de tudo isto, Marshall? — Já pensei muito a respeito — respondeu Marshall prontamente. — Plásticos e metais como estes com que a Gazela era confeccionada, têm um grande teor de hidrocarbonetos, portanto, substâncias orgânicas, numa taxa de oitenta e cinco por cento. As ligações metálicas só servem para maior reforço. Fez uma pausa. Bell continuou a fitá-lo admirado. — E daí? — O monstro lá atrás — Marshall fez um sinal com a cabeça, apontando a direção, onde estivera antes a Gazela — está precisando renovar sua substância ou talvez ampliála; por este motivo devora matérias orgânicas, tanto plastimetais como também seres humanos. Bell abriu a boca de espanto. — O senhor tem uma imaginação tétrica. Marshall encolheu os ombros e Bell lhe confessou em voz baixa que suas suposições nada tinham de absurdas. *** Passaram duas ou três horas. Falavam pouco entre si. Estavam sentados, muito apertados, sob a entrada da caverna e olhavam quase que constantemente para a direção onde tinham desaparecido os quatro mutantes. Este local ficava a cerca de seis quilômetros da caverna. Da posição mais elevada da entrada desta, podia-se ver bem. Notava-se também a mancha escura, quase sem contornos, da qual falara Tako Kakuta. Os mutantes continuavam desaparecidos e todas as esperanças ainda alimentadas por Bell ruíram. Houve então uma pequena discussão quando Tako e

Ras Tschubai, o africano assediou Bell pedindo para ir até ao local da queda, com seus termoirradiadores destruir a mancha marrom-escura. Naturalmente Bell se recusava a permitir, depois de haver consultado Marshall. — Embora a ordem telepática que domina completamente os quatro mutantes não está atuando, os dois teleportadores podem atrair logo uma ordem idêntica, e sucumbirem — explicou John Marshall. — Quem quer que seja este desconhecido hipnotizador, conseguiu penetrar, a seis quilômetros de distância, com impulsos cerebrais em Ivã, Ishibashi, Sengu e Yokida. Por mero acaso, nós também não seguimos o mesmo caminho. Mas o perigo aumenta com a diminuição da distância. Parecia haver lógica nestas palavras. Kakuta e Tschubai desistiram do intento. Marshall e Betty Toufry tentavam repetidas vezes entrar em contato com Gucky, na Titan, mas a única coisa que conseguiam ouvir era um confuso murmúrio telepático. Bell quebrava a cabeça, tentando descobrir um meio para melhorar sua situação e a dos seus auxiliares. Mas estes pensamentos pareciam palha seca. Não tinham nenhum ponto de apoio para nada. Cada idéia parecia mais absurda que a outra. Não podiam mesmo fazer coisa melhor do que esperar. Os dezoito satélites de Gom percorriam suas órbitas num céu de penumbra, às vezes em grupo de dois, de três, até mesmo de cinco. Um deles, o maior, era Laros, que também era o mais distante. Foi em Laros que os saltadores, em conluio com os aras, combinaram o ataque à Terra. Bem longe, a uma distância de vinte horas-luz, estava a Titan, em expectativa, protegida por seus campos magnéticos de antirrastreamento. A questão do alimento começou a preocupar Bell. Cada traje espacial possuía um recipiente metálico com uma determinada quantidade de comida, sendo que a própria pessoa, por meio de um dispositivo adequado, podia se servir, sem ter que abrir o traje espacial. A metade ou talvez dois terços da provisão já tinha sido consumida. No mais tardar dentro de vinte horas, teriam que encontrar um lugar em que pudessem despir o traje espacial. Só então, a reserva de víveres, que haviam trazido dos escombros da Gazela, lhes poderia ser útil. Bell consultou o relógio de pulso. O ponteiro de segundos se arrastava como uma lagartixa cega no mostrador, e os outros dois ponteiros fosforescentes apontavam para números que não representavam nada para ninguém ali. Nove e dez... da manhã?... da noite? 28 de outubro de 1.984, tempo da Terra. De repente, Marshall deu um pulo. Ao mesmo tempo, Betty deixou escapar um leve grito de surpresa. Bell virou-se para o lado, perguntando: — Que foi que houve? Marshall levantou a mão como resposta. Esticou a cabeça para frente, para ouvir alguma coisa. Ras Tschubai, o teleportador, era quem estava mais próximo da saída. Virou a cabeça um pouco para trás, para ver Marshall, depois seus olhos se fixaram em qualquer coisa lá fora da caverna. Ras tinha olhos muito penetrantes e não precisava de binóculo, que Bell estava toda hora comprimindo contra a viseira do capacete. 43


Ras continuava olhando para frente e via mesmo alguma coisa diferente. A mancha marrom-escura estava começando a se mover. Na penumbra do lusco-fusco, sobressaía nitidamente contra o fundo cinza-claro do rochedo. Caminhava na direção da caverna. — Lá na frente — gritou Ras. Bell observava com o binóculo. Não tinha pressa, ficou observando com calma, até que chegou à conclusão de que aquela coisa castanha caminhava firme na direção da caverna. — Está procurando, sondando nossa mente — disse Marshall. — E se encontrar alguém, naturalmente haverá de impor sua ordem hipnótica. Bell sentiu um calafrio na espinha dorsal. A massa marrom — massa é uma palavra muito imprópria — a “coisa” não era mais que uma fina camada no rochedo. Agora vinha se arrastando e se aproximava. De telepatia, Bell não entendia muita coisa. Mas sabia que um telepata com dons hipnóticos, tinha primeiro que captar as vibrações mentais do cérebro estranho, para depois poder influenciá-lo. A captação de ondas cerebrais não era muito diferente do processo de seleção de determinada frequência num rádio receptor; naturalmente não havia dial nem botões de sintonização. E isso tornava o negócio um pouco mais difícil. Apesar de tudo, não tinham muita razão para ficarem tranquilos. A mancha marrom se aproximava com uma velocidade que eles, não obstante o empecilho da forte atração, jamais teriam atingido. Bell tomou uma decisão rápida. — Temos que desaparecer daqui. Marshall concordou: — Não temos nenhuma chance com este monstro. Reuniram tudo, os víveres retirados da Gazela, as armas, os emissores portáteis que tinham maior alcance do que os transmissores do capacete, e o binóculo. Foram se arrastando para fora da caverna, dirigiram-se na direção do rochedo, para dentro da escuridão, e engatinhavam no chão, o mais rápido que podiam. Depois de haverem deixado a caverna, nem mesmo Ras Tschubai conseguia mais ver a mancha marrom-escura. — Coloquem-me a par do que estiver ocorrendo — pediu Bell aos dois telepatas. — Avisem-me assim que houver qualquer alteração. — Uma coisa está se alterando constantemente — murmurou Betty — A auscultação dos nossos pensamentos é cada vez mais nítida. A coisa está sempre mais próxima de nós. Bell olhou para trás, mas não conseguiu ver outra coisa a não ser o planalto com suas agulhas de pedra. Nenhum sinal da mancha marrom. Rastejaram uma meia hora. E esta meia hora não rendeu nem um quilômetro. Betty descansou uns instantes e depois falou: — Em minha opinião, vamos poder vê-la logo. Estou sentindo tão bem como se já estivesse atrás de mim. Bell estava olhando para um dos maiores rochedos que havia por ali. Ergueu o braço para apontá-lo. — Ras, lá em cima, dê uma olhadela. O afroterrano desapareceu. Durante alguns segundos, podia-se vê-lo lá em cima do rochedo, olhando fixamente

para o trecho avermelhado da zona de luz. Depois voltou. — Ainda trezentos metros — anunciou laconicamente. Bell estava de acordo. — Não tem mais sentido fugirmos dela. Em poucos minutos nos alcançará. Vamos nos entrincheirar lá atrás do rochedo. Arrastaram-se até lá, para a mesma rocha onde há pouco estivera o teleportador Ras Tschubai, fazendo sondagem. Quando já estavam perto, notaram que a rocha se compunha de duas partes: uma base maciça e uma ponta esguia que se erguia por igual desde a base. Entre a rocha propriamente e a ponta esguia havia uma fenda de meio metro de largura: um parapeito ideal para atacar e defender. Cada um se ajeitou o mais depressa possível. Betty acabou descobrindo, uns dois metros mais para cima, no paredão do rochedo, uma pequena saliência plana, onde se podia estender com relativo conforto. Apanhou a pistola térmica, arrastou-se uns metros para cima, com indizível esforço. Podia, de lá, atirar com facilidade nos que estivessem embaixo, através da fenda de meio metro. Bell e Marshall se postaram bem atrás da abertura, de tal maneira que, durante um tiroteio, os fogos não se cruzariam. Tako Kakuta e Tschubai estavam de lado. Bell julgava que, durante um combate, certamente iminente, os dons parapsicológicos dos dois lhe seria de máxima utilidade. Os minutos passavam lentos e pesados. Pareciam-lhes uma eternidade. De súbito ouviu-se um grito de Betty. — Posso ver, vem justamente em nossa direção. — Que venha — respondeu Bell. Esticou o braço direito um pouco para fora e esperou. Por alguns instantes, aquele deserto de pedras continuou como estava. Mas depois, uma sombra marrom de uma fina camada de verniz cobriu o chão claro, afastou pedras do caminho, passou por cima de outras e aproximou-se. Ouviase, concomitantemente, um leve ruído de algo que roçava ou se esfregava. — Esperar — murmurou Bell — deixar chegar bem perto. Ouvindo Marshall tossir, Bell olhou preocupado para ele. O telepata percebeu o olhar nervoso do amigo e sorrindo, lhe disse: — Nada de novo... cinquenta metros, quarenta, trinta... Bell olhou mais uma vez para Betty lá em cima. Parecia não ter medo, calma na saliência da pedra, já mirando com a arma. — ...vinte metros, quinze... — Fogo — gritou Bell. Ouviu a voz de Marshall ao seu lado e viu os raios esbranquiçados de sua arma. Reparou bem para onde ele atirava, a fim de dirigir sua pontaria um pouco para a esquerda. Betty, de seu esconderijo, atacava outro setor do adversário, inacessível aos demais atiradores. O verniz se levantava em bolhas sibilantes e se transformava em fumaça acinzentada. Mas ondas de outras camadas se aproximavam, cobrindo o espaço vazio deixado pelo fogo intenso. — Tem pelo menos dois quilômetros de comprimento — exclamou Betty desesperada. — E meio de largura. Marshall continuou atirando. Bell se levantou na base do rochedo para dominar melhor toda a topografia e, numa nova estratégia, para tentar cortar em dois pedaços o campo 44


inimigo, de maneira a perderem a ligação um com o outro. Foi, porém, uma tentativa frustrada, pois a largura era de mais ou menos meio quilômetro. Os claros deixados por Bell com seu fogo cerrado, em poucos segundos se encheram de novo com o marrom-escuro. Voltou ao seu primeiro posto, quando percebeu que Marshall sozinho não conseguia impedir que o verniz chegasse até o rochedo onde estavam. Puxou o gatilho para frente, o que significava fogo contínuo, e despejou assim uma enorme descarga de raios térmicos no estranho ser. Logo após, gritou para os dois teleportadores: — Vamos, desapareçam e procurem outra linha de combate. Tako e Ras esperavam mesmo por esta ordem. Desapareceram no mesmo momento. E, depois de alguns segundos, em dois lugares diferentes do planalto, subiam densos rolos de fumaça de cor cinza-claro, o que naturalmente era sinal de que os mutantes tinham tido pleno sucesso na missão. Mas, não houve mudança substancial no quadro geral. Parecia que o adversário não se preocupava muito com a quantidade de verniz que havia perdido em combate, nem com o calor horrível do solo que devia tostar seu ventre. O adversário não se desviava do objetivo. Perseguia-o com obstinação, com obstinação tão grande que Bell já estava contando nos dedos em quantos minutos sua posição na rocha seria atacada. Naquela excitação toda, tinha ele se esquecido do grande perigo que representava para eles a força hipnótica desta coisa esquisita. — Marshall! — exclamou ele — arraste-se pela esquerda, contornando a agulha de pedra e atire de lá. Eu mantenho esta posição aqui. Marshall obedeceu. Passou por Bell, contornou a ponta de pedra e quedou uns metros para a esquerda. Ali, os defensores tinham parcialmente aniquilado a camada do verniz marrom. Bell ouviu seus gritos de ira, ao rechaçar o inimigo. Mas parou de repente, exclamando: — Aqui há um esconderijo melhor, venha para cá! Bell não hesitou muito, fez um sinal para Betty, que veio se arrastando e com dificuldade chegou ao lugar onde estava Marshall. Bell mantinha a posição até que Betty lhe comunicasse haver chegado perto de Marshall. Ainda teve tempo, durante o fogo cerrado, de chamar também os dois teleportadores. Depois disso, arrastou-se até lá, o mais rápido que pôde. Tako Kakuta estava parado diante de uma espécie de buraco, acenando para ele. Uns poucos metros atrás de Bell, o misterioso verniz marrom-escuro avançava. Provocava pequenos estalidos ou um quase roçar de folhas secas. Passava agora pela rocha onde Bell estava deitado. Com uma série de tiros, Tako manteve livre a fenda de saída. Bell o mandou para baixo, enquanto ele próprio se retirava, sempre atirando. Até então não tivera tempo para se preocupar com o

novo esconderijo. Agora, porém, que entrara mais com calma no interior, notou que aquilo era realmente uma galeria que num ângulo de quase cinquenta graus conduzia para o fundo da terra, para um lugar bem profundo. Bell foi atirado e empurrado até que, finalmente, de pernas para o ar, caiu de costas no grupo daqueles que haviam descido antes dele. Alguém deu um grito de dor, mas a Bell não aconteceu nada. — Calma, pessoal — ordenou ele. Virou-se um pouco e esticou a cabeça de tal maneira que o microfone externo do lado direito ficou na direção da saída da galeria. Com a respiração presa, tentou ouvir qualquer ruído lá de fora. Por alguns instantes, estava tudo silencioso. Mas aos poucos aquele leve roçar de folhas secas voltou, sempre aumentando. A arma já estava engatilhada na mão de Bell, quando o ruído estabilizou-se. Depois de esperar por alguns minutos, sempre atento, Bell voltou à posição normal. — Puxa vida, será que ninguém pode acender uma luz? Acenderam-se duas lâmpadas de capacete e Bell começou a estudar o ambiente. O local onde estavam não era outra coisa senão o começo do prolongamento reto da galeria, que começava no solo do planalto. Bell acendeu sua própria lanterna e a dirigiu no sentido da galeria. A luz era forte, mas não dava para chegar até o fim do corredor, que era em semicírculo, de piso plano, com três metros de largura e um e meio de altura. — A primeira etapa já foi superada — disse Bell. — O misterioso marromescuro, provavelmente não terá a intenção de descer para cá. Temos agora duas hipóteses. Primeira: Examinar esta galeria e descobrir se ela tem, em qualquer parte, uma outra saída. Segunda: Esperar até que o tal ruído de folhas secas termine, para retornarmos à superfície. Betty pediu a palavra. — Estou sentindo que a coisa marrom-escura está à nossa procura. E não haverá de desistir tão cedo. Talvez seja melhor darmos uma inspeção nesta galeria. Enquanto o inimigo estiver atrás de nós, não podemos mesmo fazer outra coisa. Bell aprovou a ideia. — Então, vamos embora. Não temos tempo para perder. Tomou a frente do pequeno grupo. Recurvados, penetraram mais para o interior da galeria. A lanterna do capacete de Bell iluminava o caminho. Dava a impressão de que a galeria entrava ainda mais para baixo do solo. Seu traçado reto fez com que Bell, após poucos metros de caminhada, chegasse à conclusão de que não era obra do acaso, mas sim feita racionalmente. Era este o único indício para tal suposição. Por este motivo, Bell não transmitiu a ninguém sua conclusão, esquecendo-se, porém, de que John Marshall e Betty Toufry podiam ler calmamente seu pensamento. 45


2 A bordo da Titan, o nervosismo aumentava. Há dias, a gigantesca espaçonave pairava, imóvel, no espaço, aguardando uma comunicação — ou de Talamon, o superpesado de Laros, ou de Reginald Bell. A Titan tinha chegado até aqui para aproveitar a última oportunidade que se lhe apresentava de evitar o ataque iminente dos saltadores contra a Terra. Atendendo a um convite dos aras, raça aparentada com os saltadores, os patriarcas dos saltadores haviam se reunido em Laros. O décimo oitavo satélite de Gom era um ponto de encontro comum dos Aras. Talamon era o único aliado que Perry Rhodan possuía entre as nações dos saltadores. O superpesado havia-lhe informado que não se podia contar de maneira alguma com uma desistência quanto ao plano de atacar a Terra. Foi por isso que Rhodan mandou, sob a proteção de Talamon, seu corpo de mutantes comandado por Bell para Laros. A missão era impedir a tal conferência dos saltadores. Bell e seus companheiros já haviam conseguido abastecer com programação falsa o único posto positrônico dos saltadores que continha em sua memória os dados sobre a posição da Terra nas Galáxias. O aparelho era a positrônica da espaçonave dos saltadores que estava em mãos do superpesado Topthor. Este era amigo de Talamon, mas de maneira alguma seu correligionário. Topthor não podia, naturalmente, imaginar que, quando fosse buscar dados sobre a Terra, sua positrônica lhe haveria de fornecer indicações que diziam respeito à direção do sistema de Beta. Suspeitava, entretanto, de que Talamon não tinha uma atitude muito sincera em relação aos patriarcas dos saltadores e aos aras. Aliás, sem contar segredos, Talamon tinha confessado sua atitude, obrigando, no entanto, Topthor a manter sigilo, com promessas de enormes lucros. Bell e os seus, infelizmente foram descobertos. Após violenta batalha, fugiram de Laros com a Gazela, que a grande nave de Talamon abrigava em seu bojo. Talamon, o amigo de Perry, teve realmente muita dificuldade em explicar aos patriarcas que não sabia nada a respeito da presença dos estranhos terranos. Porém, após este triunfo inicial da bem sucedida fuga, Bell e os mutantes foram vítimas daquela inexplicável força que puxou a Gazela de encontro ao solo de Gom, como se fosse um brinquedo. Marshall tinha enviado uma mensagem telepática urgente a Rhodan, informando sobre os principais acontecimentos de Laros, incluindo naturalmente a programação falsa da positrônica de bordo dos saltadores. Pela rota da desditosa Gazela, se podia deduzir facilmente que haveria de aterrissar em Gom. No final de seu comunicado, Marshall falou que Betty Toufry era de opinião de que aquele enorme campo energético que impedia a Gazela de se movimentar era de origem telecinética. Esta foi a última comunicação do grupo de Bell. Rhodan não podia saber se haviam sobrevivido ao pouso de emergência em Gom. Gucky, o mais poderoso dos telepatas do Exército de Mutantes, tinha, por mais de uma vez, julgado ouvir sinais. Porém este setor do espaço estava tão cheio de vibrações telepáticas, que mesmo Gucky não conseguia distinguir com segurança estes possíveis sinais do quase constante rumorejar telepático.

Mas ainda havia esperança. Depois que Talamon conseguira afastar a suspeita que havia contra ele, a conferência de Laros continuava em seu ritmo normal. O prosseguimento da conferência foi ao mesmo tempo o motivo da permanente inatividade de Perry Rhodan. Imóvel no espaço, sob a proteção de seus campos de antilocalização, a Titan estava garantida. Se começasse a se movimentar, haveria o perigo de ser localizada. E ser localizada por Laros provocaria uma série de reações de acontecimentos indesejáveis. Primeiramente, renovar-se-ia a suspeita contra Talamon. Depois iriam consultar os dados dos computadores do cérebro positrônico da espaçonave de Topthor. É verdade que nenhum cérebro orgânico jamais estaria em condições de distinguir dois resultados diferentes de computador, em se tratando de posições das Galáxias. Uma localização exata nas Galáxias tem três coordenadas de espaço, três de hiperimpulsos e duas de tempo. Além disso, ela se prende ainda a assim chamada “determinante de farol” que equaciona o caminho para o objetivo de qualquer posição nas Galáxias. Tudo isto é uma confusão de números e de valores que ultrapassa a capacidade de qualquer cérebro. Mas se os saltadores tivessem alguma suspeita, haveriam de consultar uma outra positrônica maior e então examinar a sequencia de programações do aparelho de Topthor. Aí, viria à luz a trapalhada de Bell. Para o bem de toda a Terra, Rhodan era obrigado a deixar na mão seu grande amigo Reginald Bell. *** A caminhada continuava sem incidentes, mas com o tempo foi ficando muito monótona. John Marshall e Betty Toufry assinalavam que os impulsos telepáticos se reduziam cada vez mais. Era sinal evidente de que Bell e seus companheiros se afastavam do ser marrom de Gom. Examinaram as paredes do corredor sem emendas e lisas, confirmaram que continuavam retas e por isso se lamentavam, temendo não chegar nunca ao fim. O único que nos últimos trinta minutos parecia ter descoberto algo de novo, era o próprio Bell. De tempo em tempo, parava um pouco, obrigando que todos fizessem uma pausa. Olhava para o pulso. Ninguém — fora os dois telepatas — poderia dizer se estava olhando para o relógio, para o regulador de dosagem, para o manômetro ou para o termômetro. Balançava a cabeça com admiração, murmurando qualquer coisa que ninguém entendia. Quando repetiu esta cena pela décima vez, Marshall sorriu finalmente: — Por favor, diga a Ras e Tako, de uma vez por todas, o que lhe causa tanta admiração. Bell olhou para ele surpreso, fazendo cair na sua face o clarão da lanterna do capacete. — Como é que é? Eu já lhe... Ah! É verdade... Diabo que carregue todos os telepatas. Olhou então mais uma vez para o pulso. — Estava observando, há muito tempo — explicou ele — que a temperatura aqui embaixo é extraordinariamente baixa e constante ao mesmo tempo. Há meia hora que estamos com quatorze graus e alguma coisa mais. Centígrados, naturalmente. Regulei o termostato para o 46


máximo de sensibilidade. A estabilidade da temperatura chega a quatro centésimos de um grau. Acho isto uma coisa surpreendente. Marshall percebeu sem dificuldade a sequencia de seu pensamento. — E quando se pondera, além disso — disse ele completando a explicação de Bell; — que a galeria, tem toda a aparência de ter sido feita artificialmente, chegamos à conclusão de que não tem outra finalidade a não ser para guardar alguma coisa, que necessita de quatorze vírgula seis graus para ser protegida... em virtude da durabilidade ou por outro motivo qualquer. Bell o acompanhou com muita concentração. No fim, fez apenas uma pequena correção: — Quatorze vírgula três e não seis. Na leitura de números, você falha um pouco. Marshall sorriu e indagou: — Mas, é esta realmente a sua teoria? — Sim, estou plenamente convencido de que atrás destes paredões se esconde alguma coisa. O corredor foi construído por seres inteligentes e devem ter uma finalidade. Por exemplo, ligar os depósitos subterrâneos com o mundo lá fora. O corredor mesmo não pode ser um depósito. Do contrário teríamos encontrado alguma coisa. Quem sabe se o que está aqui armazenado é uma mercadoria muito importante, e, por isto, as entradas para o depósito são muito escondidas? Existe um grande número de raças nas Galáxias que tem uma predileção muito forte por portas invisíveis, inteiriças. Mexeu-se para a esquerda e se arrastou uns metros para frente, bem rente à parede do corredor. Quando viu que não conseguiu nada, ficou de pé, ofegante, voltando ereto, quanto o permitia a altura do corredor. Bateu intencionalmente com as luvas do traje espacial contra a parede. Mas a parede continuou parede. De uma passagem secreta que levava para um misterioso depósito, não havia o menor vestígio. Bell ajoelhou-se, refletindo. — Quem sabe — disse ele — ainda não atingimos o objetivo. Este corredor só pode atuar como filtro se tiver o comprimento suficiente e, também se todas as variações de temperatura do caminho de entrada até a parte principal da instalação puderem ser amortecidas. Olhou para Marshall: — Correto, vamos penetrar mais, prestando atenção no termômetro. Quando a temperatura se alterar, é porque já ultrapassamos o objetivo. *** Três horas mais tarde, a temperatura ainda era 14,3 graus. O ruído telepático como que apalpante do misterioso adversário tinha cessado. Podiam agora, sem nenhum perigo, voltar para o começo da galeria e sair pelo terreno afora. Mas ninguém pensava nisso. Estavam possuídos pela febre de achar o tal depósito. De início foram apenas Marshall e Betty Toufry que repararam que a situação, tão monótona até então, estava mudando. Estavam recebendo impulsos de pensamentos, ainda confusos e pouco definidos, não permitindo uma compreensão suficiente. Mas, de qualquer maneira, indicavam que nas proximidades se abrigava um ser ao

menos semi-inteligente. Infelizmente, a faculdade de Betty e de Marshall para captar pensamentos estranhos era pouco dependente da posição, ou seja, da direção. Não podiam dizer mais do que “estou vendo alguma coisa em algum lugar”. Betty acreditava que os impulsos vinham “enviesados”. Bell não sabia como agir. Reduziu o tempo de marcha, que se deveria chamar antes “tempo de se arrastar”, e esperou pela orientação dos mutantes. Betty e Marshall registraram que os impulsos estavam mais intensos. Mas o corredor, pelo menos até o ponto em que as lanternas dos capacetes o iluminavam, continuava ainda vazio. Bell se sentia, a cada segundo, mais nervoso. Há instantes já havia sacado da pistola energética e enquanto caminhava para o interior do corredor, sua mão direita empunhava, em posição de fogo, a terrível arma. Assustou-se todo, quando Marshall atrás dele, gritou de repente: — Atenção! De bruços no chão, perguntou Bell: — Que é que houve agora? — Alguém ou alguma coisa nos descobriu — respondeu Marshall afobado. — Sinto uma verdadeira bateria de impulsos inimigos. — Com maior nitidez do que ouviu até agora? — Um pouco. Mas não são ainda pensamentos claros. — Quer nos atacar? — Espere um pouco... não, não creio que possa fazer isso. — Maravilhoso — disse triunfante. — Com tais... Alguém o pegou pelo braço. Ras Tschubai, o africano. — Silêncio — disse ele baixinho. — Estou ouvindo alguma coisa. Bell prendeu a respiração. Outros não reagiram tão rapidamente quanto ele. Em seu receptor do capacete ouviu o som típico da respiração dos demais. Mais para trás, havia outros ruídos: de alguma coisa que roçava, como já ouvira uma vez, quando o monstro de Gom os atacou por umas duas horas. — Aí está o verniz de novo — resmungou ele. — Peguem as armas e prestem atenção para um não atingir o outro. Vamos para frente. Estava agora com muita pressa e se arrastava para dentro da galeria com a maior rapidez possível. As informações de Marshall vinham regularmente em intervalos, sempre com aquela voz monótona: — Mais forte... mais forte... Dizia respeito aos impulsos dos inimigos. O perigo estava, pois, iminente. O que mais irritava Bell, é que o corredor parecia sempre vazio. O ruído, que tinha ouvido antes, devia vir mesmo do corredor. Onde estava, porém, o autor do barulho? — ...Mais forte... mais forte... mais forte — anunciava Marshall. Depois... estacou. — Onde? — Ali. Marshall apontou através dos ombros de Bell. Mas Reginald não viu outra coisa a não ser um risco preto muito fino na parede, uns dois metros para trás. — Que é isto? 47


Marshall não respondeu. Empurrou Bell um pouco para o lado e engatinhou para frente. Na altura do risco preto, parou e estirou-se. — Venha aqui — chamou ele. — Olhe isto. Bell se aproximou e os outros o seguiram. O risco preto estava um centímetro acima do chão do corredor. O piso tinha aí um leve desnível e um suave aclive. Elevação esta que chegava até rente do risco preto e o tornava ainda mais estranho. Dava a impressão de que alguém, com um lápis de ponta muito fina, tivesse traçado na parede clara aquela linha de mais ou menos meio metro, bem horizontal. Bell não via nenhum sentido naquilo. Marshall percebeu seus pensamentos. — Dissolva a parede, com cuidado, ao longo do risco, aí você vai ver o que é isto. Bell apanhou o irradiador térmico, apoiando-se nos cotovelos, regulou a saída dos raios térmicos para o grau mais fraco possível e dirigiu a arma para o pequeno desnível no chão do corredor. Com o fino jato energético do irradiador, o material se fundiu, escorreu e se espalhou com fumaça pelo solo. — Mais para cima — disse Marshall. Fez-se uma perfuração na parede e Bell pôde ver que o traço penetrava pela parede adentro como uma camada escura. A arma continuou trabalhando, abrindo um buraco entre a parede e o chão de tal dimensão que dava para alguém meter a cabeça, inclusive com o capacete. O que antes era um risco mostrava-se agora como uma tampa delgada, marromescura, que fechava o buraco e ainda estava recoberta pela camada de pedra. Bell reconheceu logo o que tinha diante de si. Com uma expressão de surpresa, baixou a arma, desligando-a depois. — Uma poça de verniz — murmurou. Quando encostou o capacete no chão, viu com um olho o estranho ser marrom-escuro. Notou que não se movia, apesar da temperatura da rocha em sua proximidade atingir talvez quatro vezes mais o calor de seu ambiente normal. Sua cabeça formigava de teorias a respeito. Virou-se para Marshall a fim de saber sua opinião. No mesmo momento Betty exclamou: — Atenção, está acontecendo uma coisa diferente. Ela sentiu — tão nitidamente como John Marshall — que os odiosos impulsos inimigos que tinham suportado nos últimos quinze minutos haviam sumido repentinamente. Em lugar deles, surgiu então algo diferente, indefinível. Dava a impressão de que o estranho e misterioso ser, de onde saiam todos os impulsos, estava muito ocupado. Alguns segundos depois, aquela poça de verniz, escondida na parede, começou a se mover. Com um leve chiado foi penetrando parede adentro. Bell tentou detê-la, mas a superfície lisa fez com que suas grossas luvas escorregassem. Alguns segundos depois, o ser misterioso havia desaparecido. Quase que ao mesmo tempo, soprou uma forte rajada de vento fresco através do corredor. Veio tão inesperadamente, que Bell assustado virou para trás, procurando por onde havia entrado aquele vento forte. Mas não conseguiu descobrir nada. O vento não veio de nenhum lugar e era muito fresco, como mostrou o termômetro. Em consequência do trabalho de Bell com o irradiador térmico, a temperatura, naquele lugar do corredor, onde foi descoberta a poça de verniz, tinha

chegado a quarenta graus. O vento fresco que agora soprava através da galeria fez com que a temperatura baixasse. Em poucos minutos, desceu para mais ou menos quatorze graus. O vento cessou e o termômetro voltou aos 14,3 graus, permanecendo neste nível. A operação foi tão clara, que ninguém precisava quebrar a cabeça: regulagem automática da temperatura pela adução de ar de um reservatório. O que deixou Bell nervoso foi o fato de não saber onde estava este reservatório e de não ter nenhuma noção de como este ar foi posto em movimento. A poça de verniz estava, no momento, desaparecida. Bell comprimiu o capacete contra o solo, olhou para dentro da perfuração que abrira com os raios térmicos e tomou uma resolução: — Vamos ao encalço da “coisa” misteriosa. Vai dar um pouco de trabalho, mas teremos que saber finalmente onde é que viemos parar. Marshall ainda leu os pensamentos que revolviam a cabeça do Bell: provavelmente, não haveria nenhuma porta clandestina nas paredes do corredor. Se a instalação foi construída pelo ente de Gom, seria suficiente uma determinada porosidade das pedras para permitir passagem das partículas do verniz marrom-escuro cuja espessura não chegava a um décimo de milímetro. Bell fez um sinal aos outros para que se afastassem um pouco e começou a alargar o buraco com o irradiador térmico. Regulou a arma para uns graus a mais, do que na vez anterior. Como consequência disto, a cavidade se ampliou muito mais depressa; houve uma outra compensação de temperatura, provocando um vento tão forte pelo corredor que era necessário se escorar em alguma coisa para não ser arrastado. Betty Toufry e John Marshall revelaram que a sensação de cansaço e de esforço que o estranho ser transmitia de qualquer lugar, aumentava substancialmente. Bell insistia numa determinada direção. A bifurcação do corredor começava no fundo da galeria e se aprofundava rapidamente. Depois de ter avançado uns cinco metros, tornava-se evidente que ele tinha razão: a poça de verniz reapareceu. Os raios térmicos ampliando a cavidade deixavam ver com sua cintilância uma parte daquela massa marrom-escura. Parece que sentia muito a elevada temperatura ao redor e tentava fugir. Mas Bell continuava em seu encalço. Metro por metro, a bifurcação para dentro da rocha ia sendo derretida, sua largura se estreitava cada vez mais, quando a massa marrom se agitava. De repente o feixe dos raios energéticos penetrou no vazio. A parede da frente da bifurcação mostrava então uma abertura arredondada. A massa desapareceu por aí, mergulhando na escuridão que reinava daí para frente. Bell desligou a arma, quando viu a abertura com bom tamanho. Sentou-se à beira do buraco, esticando as pernas para dentro. Depois se inclinou para frente, deixando que a lanterna do capacete lhe mostrasse o que havia na frente. O que ele viu foi uma parte de um recinto aparentemente circular, que, apesar de não ter mais de dois metros de altura, parecia possuir grande diâmetro. Bell foi escorregando para frente, porém ainda se apoiando com as mãos na borda do grande orifício. Depois se deixou cair. — Podem vir cá para baixo — gritou ele — mas cuidado ao pular. 48


Enquanto um atrás do outro saltava, Bell ia observando todo o aposento. Reparou que — em oposição com o corredor, pelo qual haviam passado — a rocha inteiriça aqui não era vista, pois as paredes e o chão estavam revestidos de uma camada escura que brilhava ao clarão da lanterna. O verniz marrom que os havia seguido, parecia haver sumido. Bell não mais conseguiu vê-lo em parte alguma. Não obstante, Marshall ainda constatou: — Aqui há uma grande concentração de impulsos de pensamentos, como se estivéssemos marchando através do cérebro de um ser gigantesco. — É perigoso? — indagou Bell. — Não. Não somos nem atingidos por eles. Ao mesmo tempo, todas as lanternas se acenderam. Verificou-se então que realmente o espaço era arredondado e tinha uns trinta metros de diâmetro. Encontrava-se vazio. Não havia nenhum indício de sua finalidade. Notava-se que Bell não estava muito contente. — Caminhamos quase meio dia e com o suor do rosto penetramos palmo a palmo nesta rocha... só para terminarmos num recinto subterrâneo vazio? Onde está o desgraçado verniz marrom que nos trouxe para cá? Marshall interveio: — Pode estar muito bem aqui na redondeza. Contra este fundo escuro, será muito difícil reconhecê-lo. Bell caminhou de joelhos mais alguns metros para frente, examinando o solo palmo a palmo. Ras Tschubai e Tako Kakuta queriam fazer o mesmo, mas neste mesmo instante ouviu-se um ruído de algo que estalava do teto. Bell virou-se imediatamente. Viu como uma parte da camada externa do preto brilhante se desprendia do teto e caía. No chão, entre Marshall e o japonês, havia uma extensão de cinco metros quadrados de uma camada muito fina. No mesmo instante da queda, quebrou-se em quatro pedaços e os quatro pedaços começaram a se mover. Com o típico ruído de roçar de folhas secas, transportaram-se do chão para a parede mais próxima. Bell, de tanta estupefação, não sabia que decisão tomar. Ficou olhando para a parede, vendo-as sumir, através da camada escura, como antes também sumira aquela poça de verniz, que acabou levando todos para ali. — Poça de verniz...! — exclamou Bell. — Aqui só existe verniz. Virou-se e olhou para o teto. O local de onde caíram os quatro seres de Gom ainda estava tão escuro como todo o teto, as paredes e o chão. Mas nada disso prejudicava a teoria de Bell. Marshall e os dois teleportadores tinham desistido de procurar. Marshall continuou escutando, mas não captava outra coisa senão uma confusão indecifrável de pensamentos. — O que você acha disso? — perguntou a Bell. — Nada de novo — respondeu Bell meio irritado. Estas manchas de verniz continuam se divertindo, atapetando as paredes internas deste aposento, com seus próprios corpos. — E com que finalidade? — Quem poderá saber? Marshall sacudiu os ombros. Queria perguntar alguma coisa, mas Betty o interrompeu: — Não sei por que — disse ela baixo e meio nervosa, — mas tenho a impressão de que há uma terceira espécie de seres aqui na redondeza. Mais ou menos ali.

Apontou com a mão um trecho bem grande da parede. Bell se interessou imediatamente. — Marshall? Abanando a cabeça, Marshall disse: — Não, não noto nada. Mas não fique preocupado, Betty sempre foi uma telepata superior a mim. Bell se arrastou para o local que Betty havia assinalado. Cansado, levantou a mão para bater na parede. Mas já na primeira pancada, recuou com um grito meio entalado na garganta. A mão não encontrou resistência. Ao tocar na parede, ouviu-se um ruído como se estivesse rasgando papel de seda. Com muita facilidade, abriu-se um buraco. — Aqui — murmurou Bell — aqui continua o caminho. Atacou outros trechos da parede com o mesmo sucesso. Bastava bater para provocar riscos que logo se abriam em duas partes. Em menos de um minuto, já tinha aberto um rombo suficiente para a passagem de um homem. Meio desconfiado, perguntou: — Marshall, não vê nada ainda? — Nada — respondeu Marshall. — Esquisito muito esquisito mesmo — murmurou Bell. Passaram pelo buraco e chegaram a um lugar, que até nos mínimos detalhes parecia com aquele que haviam deixado há pouco. Isto só foi observado depois que percorreram todo o espaço com as lanternas do capacete. A única diferença era um pequeno desnível no fundo. — Tenho impressão que vem de lá — disse Betty um tanto incerta. Marshall, que estava muito atento, falou: — É verdade, ela tem razão. Estou sentindo alguma coisa, como que alguém que está dormindo e tem um pesadelo. Bell se arrastou para o trecho do desnível. Depois da experiência anterior, foi-lhe fácil retirar a camada do chão. Bell a rebentou com a pesada luva. A primeira coisa vista foi um pedaço de tecido cinza, semelhante a couro. Em alguns lugares, tinha ainda restos de uma camada que brilhava como prata... e isto deixou Bell meio perplexo. Com uns golpes mais fortes, apareceu então algo que se assemelhava muito a um corpo humano. Mais um puxão, e aí estava uma cabeça, uma cabeça com um capacete. O vidro da viseira estava um pouco embaçado, mas o rosto da pessoa não foi difícil de reconhecer. Era Ivanovitch. Bell ouviu gritos desesperados atrás de si. Ele mesmo trabalhava calado e triste. Instantes depois descobriu também a cabeça de Ivã, o mais velho, sem o capacete, até que todo o corpo do mutante foi liberado daquele invólucro. As duas cabeças estavam de olhos fechados, mas podiase observar que as narinas tinham um leve movimento rítmico. O mutante respirava. Batendo-lhe de leve nos ombros e puxando-o pelas pernas, Bell tentava despertá-lo. Por fim, Marshall o interrompeu. — Acho que não é tão fácil assim, Bell. Provavelmente está ainda sob a ação de influencia póshipnótico. — Mas, Santo Deus, como é que veio parar aqui? E onde estão os outros três, Ishibashi, Sengu e Yokida? Bell olhou em volta. As lâmpadas dos capacetes inundavam o ambiente de luz. Não havia mais desníveis no 49


chão. Se os três japoneses estivessem ali embaixo, não estariam naquela peça. — Olhe para seu traje espacial — falou Marshall. — Não dá a impressão de que tentaram sugá-lo? Bell concordou. Tako Kakuta observava os pedaços da camada escura que Bell rebentara e jogara de lado. — Camadas de verniz, sem dúvida — afirmou ele. — O que muito me admira é que o senhor conseguiu rebentá-las com facilidade. — Admira, por quê? Tako apanhou um daqueles pedaços e lhe mostrou: — Podem ser rasgados só num sentido. Repare... assim. Em outro sentido é impossível, como, aliás, em certos tipos de plásticos ou celofane. Só podem ser rasgados numa direção, e o senhor o fez corretamente. Bell ouviu tudo muito pensativo. Depois se voltou para Goratchim e com o auxílio de Marshall o puxou uns dois metros para o lado. Aí percebeu que o mutante não estava deitado no chão puro, mas em cima de uma camada marrom-escura de folhas vivas. — Mundo esquisito — disse Bell admirado. — Se a gente ao menos pudesse saber o que pretendem com tudo isto? — Talvez haveremos de saber, quando ele voltar a si — opinou Marshall. — Temos que levá-lo para fora — constatou Bell. — Aqui embaixo jamais voltará a si. Quando eu então... Betty Toufry o interrompeu no meio da frase com um grito agudo de desespero: — Cuidado! Estão nos atacando. Marshall se concentrou e ficou escutando. — Ela tem razão — disse muito assustado. — Temos que sair daqui, as solhas querem nos prender. — Betty, para fora — ordenou Bell. — Todos ou outros me ajudam aqui com o Ivã. Betty se arrastou o mais depressa que pôde. Ao chegar à parede, gritou: — Não consigo mais achar o risco. E a resposta de Bell foi: — Então, faça outro. Betty se pôs ao trabalho. Porém, ou se deu uma alteração qualquer com as solhas, ou Betty não estava preparada para este tipo de trabalho, como Bell. Quando os homens chegaram com o corpo inerte de Goratchim, Betty suspirava desesperada: — Não consigo... Sem dizer uma palavra, Bell deixou cair o braço do mutante que estava arrastando, levantou a mão e deu um grande soco na parede. Sentiu que a parede cedeu com o pesado golpe. Entretanto como uma película de borracha elástica levemente esticada, voltou outra vez ao lugar. Bell se levantou e se lançou com toda força contra a parede. Mas o resultado não foi melhor. Alguma coisa havia mudado a substância das solhas neste meio tempo. — Afastem-se — ordenou Bell — temos que fazer fogo. Antes que estivesse com a arma em posição de atirar, começou atrás dele um forte ruído de algo que se esfregava. Bell não se deixou perturbar com isto, mas os outros se entreolharam e Marshall gritou: — Elas vêm por trás de nós. Desprendem-se, às dúzias das paredes, do chão e do teto. Vamos depressa.

Bell atirava. A substância das solhas não estava preparada para os raios esfuziantes e poderosos da pistola térmica. Quase que instantaneamente, Bell abriu um rombo que era suficiente até para o corpo avantajado de Goratchim. Segundos depois, já estavam todos do outro lado. Passaram a ouvir o mesmo ruído ou chiado de sempre, como no aposento que haviam abandonado há pouco. E agora, com a luz das lanternas, estavam vendo as solhas em grandes grupos escorregar do teto ou das paredes e saírem do chão. E aquele buraco — feito há pouco por Bell — estava se alargando cada vez mais. Algumas solhas se desprendiam da fina parede, aumentando assim o rombo, até o chão. Proporcionavam assim uma passagem cômoda para as demais solhas que estavam prontas para o ataque. — Avante! — gritava Bell. — Temos que tentar chegar até o buraco por onde entramos. Arrastavam com pressa o mutante de duas cabeças, Bell não tirava mais da mão a pistola térmica. Por onde que os seres de Gom avançassem, recebiam o fogo direto de sua mão firme. Ainda não se podia imaginar o que pretendiam fazer as solhas. Não tinham armas, nem naturais, nem mecânicas. Não tinham braços, nem pernas, nem boca. Mas todos sabiam que elas conseguiam dominar seus adversários. Um exemplo disso era o forte Goratchim, com seu traje espacial semidissolvido. Puxando o pesado corpo do mutante, chegaram até a metade do aposento. Betty percorreu com sua lanterna do capacete todo o recinto. Mas não conseguia mais ver a abertura pela qual entraram. Marshall foi ajudá-la na procura, enquanto que Bell e os dois teleportadores se incumbiam de afastar com as armas de fogo as solhas que atacavam. Um minuto depois, não havia mais dúvida: não existia mais o buraco, as solhas o haviam tapado. Pelo rosto de Bell, corria o suor. — Temos que cavar nós mesmos outra galeria, — foi sua resolução. — Vamos, ponham Ivã ali ao lado da parede. Ele mesmo foi à frente e começou a trabalhar com sua pistola. Não se importava com o calor sufocante que se irradiava da pedra incandescente, que desta vez, infelizmente não provocava aquela lufada de ar fresco, para amenizar a quentura. Com a temperatura externa de trezentos graus centígrados, o calor penetrava no traje espacial, apesar do dispositivo automático de refrigeração, atingindo a casa dos quarenta graus. Mas também para as solhas a temperatura estava demasiadamente elevada. Formavam um semicírculo em torno das pessoas que, ou estavam assistindo ao trabalho de Bell, ou estavam de costas esperando preparadas para atirar, caso atacassem de novo. A saída começava a abrir-se metro por metro. Atrás de Bell, vinha primeiro Goratchim, que era arrastado, e depois os outros. Quando as solhas começaram a atacar, Marshall abriu um fogo tão cerrado que matou um grande número delas. As demais perderam o interesse da perseguição. Neste meio tempo, Bell estava refletindo que para atingir o corredor central, devia abrir o trilho um pouco mais para cima. Calculou bem o ângulo certo e começou então a escavar degraus na rocha. O trabalho a mais não tinha importância, já que Marshall estava em condições de rechaçar as investidas do traiçoeiro adversário. 50


Betty, no entanto, afirmava que a ordem de ataque era transmitida telepaticamente a cada instante. Para evitar qualquer investida de surpresa das solhas, Marshall ficou parado no primeiro degrau. Cada degrau fora feito com trinta centímetros de altura e metro e meio de comprimento. Se Marshall encolhesse um pouco as pernas, tinha espaço suficiente para deitar-se comodamente. Acima dele Bell, Betty, os dois teleportadores e Ivã Goratchim, ainda inconsciente, continuavam o caminho. Alguns minutos depois, Marshall não percebeu nada mais, a não ser o jogo de luzes que se cruzavam. Sua lanterna se dirigia sempre reta para dentro da galeria. Durante uns quinze minutos, a situação foi de calma absoluta. Mas após este intervalo, os microfones do capacete começaram a captar aquele ruído de alguma coisa que roçava. Outra vez, Marshall intranquilizou-se. As solhas estavam de volta. Marshall as observou com calma, quando elas, hesitando, se aproximavam do reflexo da lâmpada. Não conseguiu verificar se elas sentiam a claridade. Mas o ruído continuava o mesmo. Naturalmente estava de arma em punho, preparado. Esperava paciente que a primeira solha atingisse a base do degrau. Já ia apertar o gatilho, pois estava certo de que o degrau não era nenhum empecilho para elas. Mas tirou o dedo do gatilho, quando reparou que o ser esquisito bateu contra a rocha, escorregou alguns centímetros e quedou imóvel. Chegaram outras solhas e sendo o corredor um pouco estreito, vinham umas sobre as outras. Mas a cada uma delas acontecia o mesmo que à primeira: chocava-se contra a parede de pedra, escorregavam uns centímetros para trás e permaneciam imóveis. Marshall teve uma ideia. Deixou a arma de lado, por uns momentos, pegou na primeira solha que estava por cima, observou se as outras não estavam coladas nela, e a puxou para seu degrau, recuando ele mesmo para o degrau superior. Observou que o ser de Gom, pouco menor que a superfície do degrau, movendo-se um pouco de um lado para o outro, chocou-se de encontro à rocha a seus pés, escorregou um pouco para trás. Empurrou-se mais para frente, até que mais da metade de seu corpo ficou pendendo no ar. O estranho ser perdeu o equilíbrio e caiu sobre sua companheira que a esperava embaixo, imobilizando-se. Marshall pegou-a novamente e trouxe para cima do degrau. Seu senso científico não lhe permitia tirar uma conclusão importante de uma só experiência. Mas sua experiência foi interrompida. Primeiro, julgara ter ouvido um grito, mas quando o ruído esquisito se repetiu, notou que se tratava de um sinal telepático. Em contraste com a confusão de impulsos que vinha dos aposentos arredondados, em contraste com o comando inimigo que levava as solhas ao ataque, e em contraste com os longínquos, mas bem compreensíveis pensamentos de seus colegas, causava-lhe a impressão de que provinha de um cérebro, muito semelhante ao do homem. A mensagem telepática dizia: — Ajudem-nos, matem os estranhos. Marshall sabia que Betty também teria ouvido o pedido de socorro, tão bem como ele. Sabia ainda que Bell poderia se utilizar de qualquer arma quando o negócio ficasse sério. Pois Marshall tinha certeza de que o pedido de socorro

partira das solhas, ou melhor, falando do conjunto de todas as solhas ali reunidas e de que aquele pedido se dirigia a um cérebro que, como os homens, não entendia nada da telepatia do ser de Gom. Com uma descarga, matou as solhas que se tinham agrupado no degrau inferior. Virou-se para trás, e correu escada acima. Conversou com Betty. Ela tinha recebido e compreendido o pedido de socorro das solhas e informou a Bell de tudo. Mas até o presente momento, não havia nenhum indício de que alguém tivesse a intenção de vir em socorro das solhas. *** Bell não tinha mais esperança de atingir o corredor central, pelo qual haviam penetrado no fundo da rocha. De repente, porém, sob o fogo de sua pistola térmica, a parede da frente de sua nova abertura artificial se dissolveu, caindo em pedaços, deixando à vista um grande rombo escuro. O espaço lá dentro parecia ter uma pressão atmosférica bem pequena, pois uma rajada de vento quente quase atirou Bell através do recém-surgido buraco, levantando poeira e estilhaços de pedra em redor dele. No mesmo instante, Betty ouviu o grito desesperado: — Estão no reservatório do oeste, eles, os estranhos. Não tinha muita certeza se o que ela tinha entendido como oeste, era mesmo oeste. Mas foi assim que o transmitiu a Bell. — Suponhamos que com as palavras “eles” e “os estranhos” estão se referindo a nós, então em pouco tempo vamos ter muito que fazer. Somente quero saber de quem as solhas lá embaixo estão esperando auxílio. Não havia ainda acabado de falar as últimas palavras “esperando auxílio”, quando um jato de luz de uma das lanternas caiu sobre uma parede lateral do grande salão em que se encontravam. Em geral, as paredes e o chão eram de pedra pura, mas neste local, que Ras Tschubai iluminava agora, havia uma espécie de cortina feita com a substância de um marrom brilhante do corpo das solhas. Bell não teve dúvida de que aquela cortina esquisita encobria uma saída, provavelmente um corredor, que serviria para o arejamento e para a manutenção de uma temperatura constante nas instalações subterrâneas. Lançou um olhar de desânimo sobre o inconsciente Goratchim, murmurando: — Não há por onde, temos que continuar a arrastá-lo. Vamos, para fora. Apontou para a cortina. Tako Kakuta chegou até lá, desfechou um enorme soco de mão fechada e teve de constatar que a massa corpórea do ser de Gom não havia perdido nada de sua poderosa elasticidade. Bell, então, usou a pistola térmica e com a rapidez anterior, as solhas se transformaram em vapor esfuziante e em gotas que caíam no chão e endureciam. Enquanto atirava com a mão direita, a esquerda puxava o mutante inconsciente. O buraco já tinha o tamanho necessário. Viase através dele apenas uma escuridão interminável. Ao se aproximar, recuou com um grito de horror. Vinha pelo corredor, na direção deles, uma multidão de pernas, sobre as quais repousavam troncos pesados, de cor cinzaescuro, troncos com quatro braços e cabeçorras redondas, de olhos estarrecidos e sem vida. Apesar da escuridão, Bell percebeu pelo menos uns vinte, vinham meio agachados, pois tinham três metros de 51


altura, enquanto o corredor mal chegava a dois. Estavam armados, com armas tão pesadas que um ser humano dificilmente conseguiria carregar. Eram bios — criaturas repugnantes e artificiais que os aras criavam em Laros. Bell já os tinha visto uma vez em Laros e pedira a Deus que nunca tivesse de enfrentá-los. Neste momento, porém, tinha a certeza de que Deus não atendera seu pedido.

3 Marshall captou os pensamentos excitados e nervosos de Bell, enquanto ainda estava descansando no degrau inferior. Tentou levantar-se e correr, mas os braços e as pernas não lhe obedeceram. Continuou deitado, tentando descobrir se o novo adversário emitia algum impulso. Pelos pensamentos de Bell, podia-se concluir que se tratava de um grupo de bios dos aras. Os aras, seus criadores e donos, tinham transmitido a eles certo grau de inteligência, exatamente tanto quanto necessitavam para servirem como meros escravos: os bios não possuíam nenhuma pretensão própria. Antes disso, porém, Marshall não captara nada, a não ser muitos pensamentos dos colegas, todos acusando o horror pelo que viam. Ao sentir-se um pouco mais resistente, levantou-se. Com dificuldade venceu dois degraus, tendo que parar para descansar. E enquanto descansava, percebeu o primeiro sinal do adversário: — Estão aqui na nossa frente. A resposta telepática veio de imediato: — Matai-os, eles estão destruindo o sistema de refrigeração. Chegou a hora do comando de Bell: — Fogo! Vamos tocá-los daqui para fora. A primeira investida de Bell deu certo e ele estava triunfante. Mas Marshall percebeu que não havia esperanças de uma vitória final. Teve então uma ideia. Chamou Betty, que respondeu de imediato, embora a luta recém-iniciada a prendesse totalmente. — São telepatas muito fracos, Betty, temos que tentar influenciá-los. — Será que conseguiremos? — perguntou ela. — Vamos experimentar. — Já tentei arrancar as armas de suas mãos horrorosas, mas possuem força descomunal e eu não estou podendo me concentrar bem. Betty possuía realmente dois dons parapsíquicos distintos: era telepata e telecineta ao mesmo tempo. Se lhe dessem tempo suficiente, poderia decompor uma montanha de mil metros de altura, sem botar a mão nela. Mas, tempo ela não tinha, e os bios seguravam suas armas com mais firmeza do que o rochedo, os blocos de pedra. — Vamos tocá-los para fora do corredor — disse Marshall, depois de Betty lhe ter descrito a situação. — Vamos dar-lhes ordem de voltar e deixar Bell sossegado. Betty concordou, sempre um pouco assustada. — Bell os rechaçou uns dois metros para trás. Nós estamos abrigados dos dois lados da entrada, de maneira que terão que invadir primeiro, se quiserem atirar em nós. Agora... agora estão atacando de novo.

Marshall fez um esforço para se concentrar. — Vamos começar, Betty. Faça um grande esforço de concentração. *** Reginald Bell estava quase certo de que esta seria a última luta que teria de travar em sua vida. As armas dos bios eram muito poderosas. Se conseguissem ao menos uma vez sair do corredor e penetrar no reservatório, ele, Bell, e todos os seus estariam perdidos. No primeiro embate, Bell atingiu com tiros certeiros dois bios, desencorajando com isto os outros atacantes, de tal maneira que recuaram um pouco. Mas, apesar de todo o primitivismo de sua inteligência, era apenas uma questão de tempo, até que chegassem à ideia tão simples de que abrindo outro corredor pela rocha, chegariam ao reservatório, sem o perigo de um ataque direto. — Estão voltando — sussurrou Betty. Bem perto do chão, Bell esticou a cabeça, protegida pelo capacete, até o ponto em que podia ver os bios que se aproximavam. Seguravam as armas com as duas mãos superiores, enquanto que as duas outras pendiam livremente, num poderoso, mas disforme e estranho tronco. Bell enfiou a mão com a arma pelo canto da parede e deu uma piscadela para os dois telepatas. — Deixem chegar até cinco metros, rapazes. É o melhor ponto para um bom tiro. Prestem atenção. Já estava com o dedo no botão de fogo contínuo. Viu também que os bios ergueram as armas, já com o dedo no gatilho. Mas o primeiro ficou parado de um momento para o outro. O corredor era tão estreito que tinham que caminhar um atrás do outro. Aconteceu então que os outros se chocaram contra ele, que apesar de tudo, não perdeu o equilíbrio. Abriu a bocarra, como se sentisse falta de ar, e por uns segundos sua fisionomia simplória dava a impressão de perplexidade. Os bios não usavam trajes espaciais. Para seus corpos abrutalhados e quase sem diferença um do outro, não tinha a menor importância o local onde estavam, contanto que a carga mecânica não fosse grande demais. Bell pôde ver bem nítido como as pernas do primeiro monstro começaram a tremer. Pesadamente, deu um passo para o lado e voltou. Bell escutou qualquer coisa articulada, mas incompreensível. Após isso, toda a tropa deu meiavolta, afastando-se pela escuridão adentro. Bell quedou perplexo, de olhos fixos na escuridão, não entendendo o que se passava. Avançou uns passos na direção deles e com a luz da lanterna os seguiu, até sumirem nas trevas. — Estão indo embora — dizia Betty feliz para Marshall, por via telepática, de maneira que ninguém ouviu. Só então é que Marshall respirou aliviado e teve forças para subir os outros degraus. Após caminhar uns minutos, viu claridade em sua frente. Entrou, ofegante, num grande hall onde Bell e os seus haviam rechaçado aquele ataque horrível dos bios, de uma maneira que parecia milagre. Naturalmente Marshall informou a Bell de que maneira tinha acontecido aquele milagre. Reginald abanou a cabeça pensativo: — Como você certamente já notou, eu sou um tanto céptico em relação a vocês mutantes, mas devo dizer... — 52


olhou para Marshall e piscou o olho — ...meus respeitos. Marshall agradeceu, dizendo: — Quero ver o que se pode fazer por nós ainda. Todos estavam prestando atenção. — Por nós ainda? Será que você já tem algum indício sobre o paradeiro dos três japoneses, onde as solhas os esconderam? Marshall fez sinal negativo com a cabeça. — Não, não tenho. Acho que não podemos achá-los por nossa própria força. As instalações são muito extensas. Fez uma pausa, como se tivesse que pensar. — Não — continuou. — Estive refletindo um pouco sobre as solhas. Cá entre nós, deveríamos arranjar um nome melhor para elas. É verdade que isoladamente são seres, no máximo, semi-inteligentes. Porém, em conjunto, formam unidades de qualquer tamanho e são capazes de realizar coisas importantes, como acabamos de ver, não é? — Claro — respondeu Bell. — E mais uma coisa ainda. — O quê? — perguntou Bell. — As so... ou então, como devemos chamá-las? Os gons... estão em contato com os aras de Laros, do contrário não teriam recebido auxílio de lá. — Muito bem. E você sabe como isto acontece? — Não tenho a menor ideia — disse Bell. — Pense no caso de Goratchim — aconselhou-lhe Marshall. — Provavelmente as solhas estavam ocupadas em sugá-lo. Lembre-se daquelas que caíram de repente do teto. Você também não tem a impressão de que este local é um viveiro de solhas e os gons ou solhas querem alimentar seus embriões ou massa de origem com substância orgânica? Bell ouvia com toda atenção. — Pois bem, isto seria uma explicação. Mas continue, homem sábio. Marshall sorriu e continuou: — Os gons ou as solhas são, pois, especialistas na digestão ou assimilação de substância orgânica. Você se lembra de como a nossa Gazela desapareceu? Acho que as solhas adultas também se alimentam da mesma maneira. Nada seria então mais razoável para os aras do que procurar neste planeta a substância de que necessitam para a produção dos bios. Possuem aqui um fornecedor espontâneo. Em Laros seria muito mais complicado, precisariam de um mecanismo complexo para obter o mesmo resultado. Vou mais longe ainda: os aras instalaram a base dos bios em Laros, só porque têm as solhas bem próximas. Seguiu-se um longo silêncio. Depois Bell se manifestou: — Acho que você tem toda razão. Tudo que disse, realmente, tem fundamento. — Levantou bruscamente a cabeça. — Mas... — Mas eu havia dito que poderia, sob certas condições, fazer algo em nosso favor. — Exatamente a este ponto é que queria chegar. Marshall tinha simplesmente lido seu pensamento. Continuou sorrindo. — Pois bem. Já sabemos que nos encontramos no reservatório de ar de um sistema de refrigeração. Provavelmente as solhas se multiplicam melhor sob a temperatura de 14,3 graus, que constatamos durante umas duas horas. Ao pensar num sistema de refrigeração, tenho

forçosamente que imaginar que em algum lugar tem de haver uma câmara de vácuo... para compensar a elevação da pressão e para descompressão adiabática do ar superaquecido, não é? Bell sorriu. — Seu método é extremamente indutivo. Não se pode fazer outra coisa do que lhe dar razão. Com um sorriso tranqüilo, Marshall agradeceu o cumprimento. — Essa câmara de vácuo é que temos de encontrar. A única coisa com que temos de nos acautelar, são os bios. — Como assim? Não são tão fáceis de serem influenciados telepaticamente? — Tão fáceis? — Marshall sorriu. — Betty e eu não somos sugestores. Sem o auxílio do acaso, não o teríamos conseguido. Depois, ficando um pouco mais sério, continuou: — Não, não acredite que já estamos livres dos bios. Basta aparecer um grupo um pouco maior, digamos de cinqüenta, então nós os telepatas não conseguiremos mais nada. — Não acredito — disse Bell — que os aras mandem mais do que este grupo. — Eu também não, mas não podemos ter certeza. Bell concordou, mudando de assunto: — Portanto, podemos ir, não é? Onde supõe que esteja a câmara de vácuo? — Em algum lugar por aí. Você naturalmente reparou que este corredor é mais alto e mais largo que o anterior. Quem sabe se bifurca mais além e recebe outros ramais? Temos de examinar estas bifurcações. De dois em dois, rastejavam-se, um ao lado do outro, para dentro do corredor. Ras Tschubai e Tako Kakuta arrastavam com sacrifício o mutante de duas cabeças. Depois de três quartos de hora, atingiram realmente o local onde desembocava um corredor mais baixo que vinha do lado esquerdo. E a luz das lanternas iluminou outra bifurcação a cem metros daí. — Muito bem, — disse Bell. — Até aqui sua teoria está correta, Marshall. Marshall disse qualquer coisa, concordando, depois falou: — Aliás, estou me lembrando de outra coisa. — Do quê? — De que maneira os bios vieram de Laros para cá? Acha que foi a pé? Bell gostou da pergunta. — Puxa, você é um homem inteligente. Mas vamos dar um jeito de, antes, comer alguma coisa. Depois iremos procurar a espaçonave em que vieram os bios. Se é que ainda está por aí. Marshall sorriu. Estava diante da saída da bifurcação. Bell reparou como ele pegou a pistola térmica e apontou contra a parede da parte bifurcada, mantendo o fogo por uns cinco segundos. Bell se aproximou, olhando admirado para o ponto atingido. No mesmo instante, se sentiu um vento brando que soprava do trecho bifurcado para o corredor principal. — Está vendo, não é o corredor certo. Se houvesse uma câmara de vácuo em sua extremidade, o vento teria soprado na direção oposta. Bell ficou olhando para ele, de olhos arregalados e de boca aberta. 53


— Se você continuar assim — disse Bell — de boa vontade, terei que lhe ceder meu posto a bordo da Titan. *** O método de Marshall tornava supérfluo ter de examinar cada ramificação do corredor até seu início. O método era infalível, como todos estavam vendo. Num trecho de pouco mais de um quilômetro, ramificavam-se do corredor principal quinze saídas. Marshall procurava a décima segunda. Depois de fazer o tiro de experiência, surgiu um rombo na parede da entrada, por onde penetraram. Após uma caminhada mais curta do que pensavam, chegaram a um lugar onde uma cortina de solhas marrom-escura tapava o caminho, hermeticamente. Bell que sempre se mantinha ao lado de Marshall, pegou a arma para afastar do caminho aquele obstáculo. Porém Marshall puxou-lhe o braço para baixo. — Não desse jeito — pediu ele. — Precisamos usar outra técnica, se quisermos que a câmara de vácuo nos seja útil. Marshall sacou a arma, dirigindo-a contra a parede, mas antes de acioná-la, avisou: — Esteja preparado. Dependendo das condições, teremos que atravessar aqui, como as doninhas. Bell entendeu o que queria dizer. Quando Marshall começou a trabalhar na parede com a pistola térmica, Bell estava puxando Goratchim por uma dobra do maltratado traje espacial. E, ao se levantar a cortina de solhas, para permitir a passagem da massa de ar quente para as partes do corredor que estavam com pressão mais baixa, o mutante foi arrastado tão fortemente, sendo atirado uns metros para dentro do corredor. Como já previra Marshall, a cortina se abriu apenas por poucos segundos, caindo depois ao solo e separando uma parte do corredor hermeticamente da outra. Este breve intervalo foi suficiente para o pessoal de Bell. Sentiam-se arquejantes devido ao esforço que o movimento mais rápido exigia, principalmente em virtude da maior atração. Mas já estavam para trás da cortina. Alguns metros para frente havia outra cortina, idêntica à anterior, também formada pelas solhas de Gom. Marshall as obrigou a abrir caminho, do mesmo modo como com as outras. Bell consultava com frequência o manômetro de pulso. Constatou que depois de cada cortina — ao todo cinco — a pressão do ar era umas duas atmosferas mais baixa do que a anterior. Depois da quinta seção, a pressão ainda estava a duas atmosferas e meia. Ainda era alta demais, para que pudessem tirar os trajes espaciais. Porém se tornara apenas um décimo da pressão reinante normalmente em Gom. Após a última cortina, o corredor era muito sinuoso. Inteligentemente, os gons tinham conseguido com a técnica mais simples possível, mas ao mesmo tempo muito eficiente, que, por ocasião de uma repentina compensação de pressão, a impetuosidade do ar não causasse prejuízos. Estava obrigada a fazer muitas curvas e com isto perdia em velocidade. Já haviam caminhado duas horas, quando, após uma curva, surgiu novamente uma cortina de solhas. Dava impressão de ser muito mais volumosa do que todas as outras pelas quais haviam passado. E quando Bell

experimentou dar o seu possante soco com a luva direita, notou que aí não havia aquela elasticidade característica das anteriores, mas antes, parecia uma parede sólida de cimento armado. — Nada de extraordinário — disse Marshall — aí atrás deve estar, provavelmente, a grande câmara de vácuo. Este paredão tem que suportar uma bela pressão. A receita patenteada de Marshall iria atuar também aí. Um rápido bombardeio na parede obrigaria a cortina a ceder um pouco de lado e o ar aquecido penetraria na câmara. Devido aos exercícios já repetidos, Bell e os seus conseguiram entrar antes que se desse a compensação de temperatura. Apenas Marshall ficou de fora. O manômetro de Bell acusava a pressão de 0,05 atmosferas. Os trajes espaciais elásticos, submetidos até então a uma pressão bem elevada, estavam quase colados à pele, porém, agora, se estufaram como balões disformes. — Cinco centésimos! — exclamou Bell para Marshall. — Precisamos de vinte vezes mais do que isso. Sob o jato térmico de Marshall, levantou-se de novo a cortina das solhas, deixando penetrar uma corrente de ar esfusiante. Bell viu que a pressão, no seu manômetro, passou de 0,05 para 0,6 atmosferas. — Só mais um pequeno disparo — pediu ele a Marshall. Marshall obedeceu prontamente, arrastou-se pela terceira vez para a cortina que se reerguia e pôde observar no seu manômetro que, com o último bombardeio, a pressão dentro da câmara subiu a 0,97 atmosferas. Sob a claridade das lanternas do capacete, constatou-se que a câmara não era tão grande como se supunha. Tinha uma forma arredondada — aliás, os gons deviam ter predileção por esse tipo de construção — mais ou menos vinte metros de altura e quinze de diâmetro. As paredes não estavam despidas como as das câmaras de ar rarefeito, onde os bios os atacaram. Três quartos dela estavam recobertos com as solhas de cor marrom-escura. Marshall falou categórico: — Pensei que fossem exatamente assim. Os gons não possuem um número imenso de câmaras de vácuo. Quando uma delas se enche de ar, como é o caso desta aqui, então só lhes resta tentar esvaziá-la novamente. Não dispõem de meios mecânicos, como nós. Não têm, pois, outro meio de expulsar o ar a não ser por reações químicas, ou melhor, reações em série, que consomem o ar. Bell fez uma fisionomia séria de quem entendia e aprovava. — Muito plausível. E as próprias solhas desencadeiam estas reações? — Sem dúvida alguma. Dependuram-se como cortinas nos corredores, por si mesmas, por que então não vão poder provocar reações químicas nos seus próprios corpos e conseguir controlá-las? Esperemos um pouco. Conforme minha teoria, a pressão deve diminuir com o tempo, provavelmente de maneira lenta, mas contínua. Bell foi o primeiro a despir, com muito cuidado, o traje espacial. Sabia que a atmosfera das solhas era quase a mesma que a da Terra. Porém, não sabia como era a composição do ar no interior da instalação subterrânea. Aspirou devagar, olhando calmamente em volta. — Catinga um pouco — ouviram-no dizer — mas podese respirar. 54


Mais do que depressa, tiraram aquela indumentária plástica, colocando o capacete de lado de tal forma que as lanternas estavam voltadas contra as paredes, produzindo uma espécie de iluminação indireta. Catingava, realmente, isto é: havia um cheiro pouco comum, de início, desagradável, no ar. Por certo seria consequência da transpiração das solhas. A refeição que estavam tomando, era tudo, menos um banquete. Compunha-se essencialmente de preparados concentrados que matavam a fome e a sede ao mesmo tempo e davam ao corpo reserva suficiente para duas semanas. Como sobremesa, Bell distribuiu uma barra de chocolate que havia esquecido no bolso de seu traje espacial. Ficaram bastante tempo descansando. Tinham a feliz sensação de, sem os tolhedores trajes plásticos, poderem respirar um ar fresco, pois o mau cheiro de início, ninguém mais notava. Durante estas três horas, em que estiveram descansando estirados no chão, a pressão na câmara desceu do valor inicial para 0,75 atmosferas. Os gons que estavam nas paredes, cobriram-se com uma camada marrom-escura, sendo que de vez em quando lhes caía um pedaço no chão. Constatava-se, portanto, no corpo das solhas uma reação à pressão quando esta diminuía. — A natureza é mesmo maravilhosa — dizia Marshall pensativo — criando tais seres. Dentro de sua categoria, eles são tão completos como o homem. E olhando em torno e vendo o interesse geral em ouvilo, Marshall continuou: — Vamos agora resumir tudo que sabemos sobre estes seres de Gom, ou as solhas, como dizemos. Primeiro: como indivíduos, são completamente inofensivos para nós. Não dispõem de nenhum tipo de instrumentos ou armas, são apenas semi-inteligentes, pelo menos enquanto não forem influenciados de fora. “Segundo: o agrupamento ou a fusão de várias solhas num, digamos, supergom, significa a soma de inteligência e produz um ser que não apenas é capaz de pensar por si, mas sem dúvida, pode possuir dons parapsíquicos. Tentem imaginar, por exemplo, que força telecinética incrível seria necessária para puxar a Gazela, a milhares de quilômetros de altura para uma aterrissagem em Gom, mais semelhante a uma queda. “Terceiro: a lógica observada pelo supergom é completamente diferente da dos homens. O supergom, portanto, não conhecerá nenhuma moral, conforme os padrões humanos. Não podemos, pois, esperar, só para dar um exemplo, que nos sejam gratos, à maneira dos homens, por um serviço prestado. Por outro lado, se lhes fizermos algum mal, não precisamos nos preocupar de que se vinguem ou fiquem nossos inimigos”. “Quarto: O supergom tem a faculdade de se comunicar com um ser estranho, cujo cérebro seja mais ou menos semelhante ao nosso. Estou me referindo aos bios. Não quero fazer nenhuma comparação entre eles e nós. Mas não há dúvida alguma de que o pouco de cérebro que os bios possuem é semelhante ao cérebro dos aras e portanto é construído como o nosso. Por conseguinte, deve haver também uma possibilidade de nós nos entendermos com os gons. Temos que encontrá-la.” Bell era o ouvinte mais atento. — O que vamos ganhar, realmente, se conseguirmos

este entendimento com os gons? — Primeiramente, queremos sair daqui. Seria maravilhoso se conseguíssemos sair daqui sem ter que cavar a fogo na rocha uma dúzia de buracos. Para isto precisamos do apoio dos gons. E, em segundo lugar, é muito provável que os gons tenham ideia de como podemos deixar este planeta do inferno o mais rápido possível. Pensem apenas no fato de que, conforme nossa hipótese, os aras extraem sua matéria-prima orgânica dos gons. Sendo isto uma realidade, certamente enviam de vez em quando uma espaçonave para Gom. Talvez nos próximos dias venha uma e nós podemos tomá-la dos aras, caso os bios já tenham regressado ou nós não encontremos a que está por aqui agora. Bell ficou ainda mais pensativo. — Combinado — respondeu finalmente. — Acha que conseguirá entrar em contato com os gons? — Vou tentar — respondeu Marshall. — Onde é que está este supergom, na sua opinião? Todos nós estamos convencidos de que toda esta instalação é dirigida por um grupo de gons, não é verdade? — Claro que é — respondeu Marshall. — Não posso saber de quantos gons se compõe um supergom. Dois ou três é certamente muito pouco. Mas os que vimos lá embaixo nos dois aposentos arredondados, não podiam ser um supergom? São pelo menos dez mil indivíduos. — É possível — disse Bell. — Mas não é lá tão interessante. Procure mais um objetivo prático em seus pensamentos. Marshall fez um sinal afirmativo e olhou para Betty do outro lado. Betty entendeu o olhar e virou-se para outro lado, para não ser prejudicada em sua concentração, olhando o pobre do Ivã desacordado. Marshall fez o mesmo. Além disso, se aproximou mais da jovem, para facilitar o contato telepático. Não era nada fácil. Marshall acreditava que os gons não estavam muitos em condições de poder entender pensamentos terranos, assim como os homens também não conseguiam bem decifrar seus impulsos mentais. Não era, portanto, indicado esperar que os gons descobrissem as intenções de Marshall ou que eles procurassem contato, por própria iniciativa. Ele tinha que chamá-los, tinha que chamá-los do mesmo modo como os gons chamaram pelos bios. Porém, não havia coisa mais difícil para o cérebro humano do que criar um pensamento numa forma determinada. Os próprios órgãos que transmitem os sons da fala têm tanta dificuldade em articular os fonemas de línguas estranhas, assim é quase impossível ao cérebro pensar em “pensamentos” que não sejam humanos. Mas Marshall estava tentando. Concentrou-se e pensou: — Estou chamando você. O supergom não respondeu. Marshall chamou mais dez vezes, em espaços iguais e depois da décima vez, teve a impressão de que um pensamento estranho tentava de grande distância se entender com ele. Modulou seu pedido de socorro para uma faixa diferente e o emitiu pela décima primeira vez. O pensamento estranho se apresentou de novo, desta vez mais nítido do que antes. Marshall continuou modulando e a modulação diferente parecia influenciar os processos mentais do supergom. A 55


resposta parecia cada vez mais nítida. — Estou aqui, que quer você, meu amigo estranho? Betty também tinha ouvido e entendido. Olhou para Marshall, encorajando-o. — Nós tivemos que lhe causar muitos prejuízos, porque nos perdemos nesta instalação — pensava Marshall. — Ficaríamos felizes de não sermos obrigados a repeti-los. Você não nos pode mostrar uma saída? A resposta veio de imediato: — Sim, se eu não conseguir matá-los. Esta lógica esquisita deixou Marshall tão perplexo, que precisou de uns instantes para voltar novamente à modulação certa. — Por que você nos haveria de matar? Nossa morte não pode trazer nenhuma vantagem a você. Pelo contrário, nós nos defenderíamos e destruiríamos suas instalações. — Isto vocês não conseguem fazer, ela é grande demais. Vocês são corpos estranhos aqui dentro. Procuro matá-los para não correr nenhum risco. — Você não corre risco nenhum, se não nos matar. Não queremos outra coisa do que deixar esta instalação e este mundo. Como resposta, veio uma pergunta de curiosidade: — De onde chegaram vocês? — De muito longe — respondeu Marshall despistando. — Nós não vínhamos para Gom, mas você nos obrigou a descer. — É verdade, os aras me deram esta ordem. — Os aras? São seus amigos? — Trabalho em sociedade com eles. Forneço-lhes substância orgânica, em troca eles constróem para mim as instalações subterrâneas, que me dão possibilidade de produzir tanta substância orgânica quanto possível. Marshall percebeu uma leve vibração de hostilidade contida nestas palavras. — Os aras nos odeiam — disse Marshall com toda franqueza — querem atacar nossa pátria e nós, naturalmente, tentamos nos defender. Os gons ouviam isto com todo interesse. — E vocês conseguirão isto? — Esperamos que sim — respondeu Marshall. — Vão destruir os aras? Pergunta inteligente e bem calculada. — Talvez não exatamente destruir, mas expulsá-los de sua base em Laros — afirmou Marshall. Com esta resposta, houve um momento de silêncio. Marshall notou que os gons deixavam transparecer uma onda de satisfação. Estava vendo nisto uma confirmação de suas suposições sobre as relações entre os aras e os gons e resolveu então explorar a situação. — Três dos meus companheiros — transmitiu com muita cautela, — ainda se encontram sob seu poder. Estou convencido de que não poderão ser úteis a você. Devolvaos. Não recebeu resposta. Repetiu o pedido e os gons continuaram mudos. Marshall refletiu se era conveniente insistir. Mas neste momento, os gons se manifestaram. — Vou lhes mostrar o caminho — pensavam como se não tivessem ouvido a pergunta sobre os três japoneses — Sigam-no e abandonem esta instalação. Eu vou avisar os outros — o conceito não foi bem compreendido, podia significar “irmãos” ou “amigos”, de qualquer maneira estavam incluídas outras aglomerações de gons — para que

não os incomodem. Quem sabe mesmo, poderão informar como vocês podem sair deste mundo. Marshall resolveu não tocar mais no assunto de Ishibashi, Yokida e Sengu. Provavelmente, os gons não queriam ouvir falar nisso. No momento, mais importante do que a libertação dos prisioneiros, era que eles, Bell e os seus, voltassem ao espaço. Não se devia aborrecer os gons. O pensamento de Marshall foi curto: — Eu lhe agradeço. Mas como já supunha os gons não entenderam a palavra “agradecer”. Sua mentalidade estava baseada fortemente nos conceitos objetivos e funcionais. Conceitos como gratidão, amor, ódio, e ira eram-lhes desconhecidos. Os gons deram uma descrição do caminho que Bell e os seus tinham que seguir e garantiram que as cortinas válvula se abririam no momento exato. Marshall repetiu pensamento por pensamento, de toda a instrução que recebera, garantindo-se assim contra possíveis enganos. Interrompeu-se então a comunicação. Não houve despedida. Constataram que Marshall havia compreendido bem as instruções e “desligaram” simplesmente. Marshall fez muito esforço durante este longo diálogo. Estava com a cabeça doendo. Virou-se de costas e ficou por uns instantes deitado, antes de relatar o diálogo a Bell. Este não fez nenhum comentário. Bateu nas costas de Marshall e fez-lhe um sinal de agradecimento, foi tudo. Deu então ordem ao pessoal que vestisse os trajes espaciais. Já estava na hora. A pressão na câmara não chegava a 0,6 atmosferas. A respiração já estava tão difícil como numa montanha de alguns milhares de metros de altitude. Os gons deviam saber a hora exata em que o grupo se pôs em movimento. No mesmo instante, a cortina que separava a câmara do corredor, começou a abrir devagar. O equilíbrio de pressão entre a câmara e o setor interno do corredor restabeleceu-se imediatamente. A reação das demais cortinas-válvula foi igual. Abriamse à aproximação do grupo de Bell. A caminhada foi tranquila. Num espaço relativamente curto, chegaram ao corredor central de dois metros de altura. Dali voltaram até uma bifurcação onde Bell havia chegado. A bifurcação começou plana, mas depois começou a subir. Exatamente quatro horas depois do memorável diálogo com os gons, apareceu mais distante o foco de luz avermelhada, que o sol Gonom desenhava no lusco-fusco permanente. Com suave aclive, o corredor desembocava numa rocha bem larga e um pouco mais alta que a estatura de um homem, formando na saída uma caverna afunilada. Bell procurou orientar-se, mas fora do fato de que o trecho de penumbra não ia além de oito quilômetros, não reparou nada conhecido. O planalto, com as pontas de pedra espalhadas a esmo, com as plantas carnudas azuis, parecia ser o mesmo em toda parte de Gom. — Nestas circunstâncias — disse Bell, um tanto ofegante — acho eu que umas horas de repouso não farão mal a ninguém. Talvez ao acordarmos, este moço de duas cabeças terá voltado a si. Veio mais uma vez para frente da saída da caverna, a fim de dar uma olhada no ambiente. Devia ser mais um ato de rotina, como qualquer pessoa de responsabilidade faz ao deixar os seus quando precisam descansar num local perigoso. 56


Mas, foi mais do que isto. Nos receptores do capacete, o pessoal o ouviu respirar forte e com ruído. Ajoelhado como estava ali, tapava a vista dos outros. Viram, porém, sem saber de onde, uma claridade ofuscante e sentiram instantes depois que o chão tremia sob seus pés. Bell virou para o lado, dizendo: — Nada de descansar, temos visitas. Deixou-se cair para frente e se arrastou para o lado, a fim de que todos pudessem ver. Chegaram mais para frente e viram viaturas espaciais, em forma de discos semiesféricos, de porte médio, que desciam às dúzias do céu quase escuro. Das turbinas da proa partiam fluxos de partículas incandescentes, freando à descida dos discos e proporcionando-lhes uma aterrissagem suave. Num amplo semicírculo, com pequenos intervalos, estavam postados os discos voadores, em torno do rochedo, onde Bell e seus companheiros haviam instalado seu quartel-general. O raio do semicírculo tinha cerca de três quilômetros. Por uns instantes, ficou tudo na mesma. Mas depois começou a movimentação nos discos. Bell pegou o binóculo e o comprimiu contra a viseira. O que viu não era lá muito consolador. De cada disco, desceram cinco daqueles monstros, os bios, que os aras produziam em Laros. Considerando-se que haviam descido quarenta discos voadores, não era difícil calcular que o montante da força de combate era de duzentos destes seres horríveis. Parecia que já estavam a par do objetivo, vinham de todos os lados para um só ponto, distante da caverna apenas cem metros. Dali, de armas preparadas, partiam em direção à caverna. — Parece-me que agora a situação se torna séria — disse Bell, sem perder a calma, ao menos aparentemente.

4 As relações entre os aras e os gons eram de natureza mais complicada do que Marshall podia suspeitar. Para os aras, os gons eram importantíssimos fornecedores de matérias-primas orgânicas. Os aras não se contentavam com o que extraiam em condições normais dos gons, sem prejudicar o conjunto deles. Descobriram as condições em que as solhas se multiplicavam mais depressa e instalaram colônias de bios recém-criados, para fazerem as instalações, que proporcionassem aos gons uma procriação mais rápida. Assim estes davam aos aras maior quantidade de matéria orgânica. As possibilidades de relacionamento dos aras com os gons eram muito restritas. Os aras não eram telepatas. No entanto, sabiam que os gons eram dotados destes dons e ainda outros mais importantes. Também não podiam ignorar que suas criaturas, os bios, eram feitos da mesma substância dos gons, também até um certo ponto telepatas. Os gons se apoderaram da primeira instalação que os aras construíram. Somente mais tarde é que os aras reconheceram que através dos bios poderiam manter um entendimento melhor com os singulares seres de Gom. Mas começaram a abusar deles. Foi assim que os aras ficaram sabendo alguma coisa de

positivo sobre estes estranhos seres, com os quais estavam entrando em contato. Compreenderam que os gons, mormente quando reunidos em maior número, são tudo, menos seres primitivos e que, mesmo para eles, os aras, podiam se tornar, sob determinadas condições, extremamente perigosos. Em atenção à sua mentalidade mais elevada, os aras deixaram de tratar os gons como simples fornecedores de plasma celular. E daquela data em diante, começaram a ver neles inimigos potenciais, merecedores de atenção especial, já que se tratava de uma base tão importante como Laros. Desde esta época, havia sempre um grupo permanente de bios em Gom, ao todo vinte destes monstros criados em provetas, ocupados em terminar a construção do viveiro subterrâneo das solhas. Pelo menos isto é o que diziam aos gons. Na realidade, os bios eram para fiscalizar os gons. E os poderosos aparelhos transmissores embutidos no corpo dos autômatos de quatro braços, sem que os gons suspeitassem nada a respeito, mantinham os aras a par de tudo que se passava no planeta. O supergom em cada seção da extensa instalação subterrânea, onde Bell com sua gente havia penetrado, apelou pelos bios, na hora da dificuldade. Marshall conseguiu influenciar hipnoticamente os bios, obrigando-os a retroceder. Ao mesmo tempo, porém, os aras em Laros ficaram sabendo de tudo através das emissoras automáticas embutidas nos bios. Da informação até à suspeita de que se tratava das mesmas pessoas que há pouco tempo atrás tinham causado tanto rebuliço em Laros e depois da fuga foram forçados pelos gons a uma aterrissagem forçada em Gom, era um caminho muito curto. Os aras colocaram os patriarcas dos saltadores, reunidos em conferência em Laros, a par de tudo, e estes então decidiram que o mais prático seria que os aras enviassem seus bios para prender os fugitivos. Foi assim que uma pequena frota de naves de patrulha, com bios a bordo, partiu de Laros e aterrissou exatamente no local, onde instrumentos de alta sensibilidade localizaram os mutantes e Bell. Ninguém se preocupava em Laros com o resultado da operação. Conheciam Gom e sabiam que os fugitivos não estavam preparados para aquele ambiente. Já era um grande milagre o fato de estarem ainda vivos. De qualquer maneira, não podiam opor nenhuma resistência aos bios, que se sentiam em casa e estavam equipados com armas poderosas. A única dificuldade consistia no fato de que os patriarcas haviam dado a ordem de que ao menos um fugitivo devia ser apanhado vivo. Queriam alguém para um exaustivo interrogatório. E os bios sabiam como deveriam agir. *** Passou pela mente de Bell retirar-se com os seus para os corredores de aeração. Também pensou em se apoderar de um ou dois discos voadores dos inimigos e lhes dar as costas definitivamente. Esta última alternativa o levou a permanecer na caverna o maior tempo possível. O singular procedimento dos bios, que depois de estarem a apenas duzentos metros da caverna, ao invés de iniciarem o ataque e aproveitar a grande chance que tinham com toda a sua superioridade em número e em material, se 57


entrincheiraram atrás dos altos blocos de pedra e depois não foram mais vistos, vinha de encontro aos planos de Bell. Marshall e Betty tentaram captar o conteúdo de seus pensamentos. Mas o cérebro de um bio é tão reduzido, que não havendo um esforço enorme, não se percebe nenhum impulso mental, nem a poucos metros de distância. Alguns impulsos de pensamento chegavam até a caverna, vez por outra. Isto acontecia quando um dos bios sentia dores, por ter levado um tombo ou por se ter queimado e a dor provocava maiores vibrações no cérebro. Outros pensamentos, não se podia esperar deles. Muito mais elucidadoras eram as nuvens de poeira que de vez em quando subiam por detrás dos rochedos, onde os bios aparentemente se abrigaram. Bell concluiu daí que o adversário estava preocupado em abrir caminhos subterrâneos até a caverna. Depois de ter quebrado a cabeça com esta hipótese inesperada, começou a pensar que talvez os bios tivessem recebido ordem de apanhá-los vivos, para serem levados a Laros e submetidos a interrogatório. Falou a respeito com Marshall, que classificou sua hipótese de plenamente viável. — Possuem diversos tipos de armas — constatou Bell. — Esta nuvem de pó de pedra, lá embaixo, parece ser causada por desintegrador. Eu diria que em meia hora esses malucos podem surgir de qualquer lado a nossa frente. Marshall ponderou, no entanto, que Bell, apesar da situação inquietante, estava atrasando demais os preparativos. Designou o lugar para cada um, na entrada da caverna, chamou a atenção de Betty Toufry para que olhasse também para trás, porque ninguém poderia saber onde surgiriam os bios. Falou tão ponderadamente como se tivesse, entre cada palavra, um mundo de problemas a resolver. E tinha mesmo. Marshall seguia pensamentos dele e se admirou do grau de noção de responsabilidade com que Bell cautelosamente chegou à conclusão, que muitos já teriam tomado sem maiores ponderações. — Tako! — Pois não, senhor. — Você consegue chegar e entrar num pulo num destes discos voadores? O japonês comprimiu os olhos numa fenda horizontal e fitou os veículos espaciais do outro lado. — Se o senhor me der cinco minutos para concentração, com toda probabilidade, chego. Bell sorriu contente. — Bem, então vamos fazê-lo logo. Talvez os discos não estejam vazios. Suponho que em cada um deles há pelo menos um bio servindo de vigia, pois os saltadores e os aras conhecem nossos truques. Leve a arma na mão, quando saltar. — Perfeitamente, senhor. Que devo fazer com o disco, quando o tiver em mãos? Os olhos de Bell se arregalaram. — O que que deve fazer? Ora, trazer para cá, naturalmente, para que possamos dizer adeus a este mundo infernal. Tako sorriu amável. Depois, agachou-se num canto, de onde podia ver uma parte dos discos voadores, para se concentrar. Os outros se acomodavam em seus lugares, designados por Bell. Sem que ninguém lhes falasse, sabiam todos que tudo dependeria de que Tako conseguisse pegar depressa

um daqueles discos. Para saberem do sim ou do não, tinham que esperar e não podiam fazer outra coisa do que procurar se salvar pela fuga. Marshall escutava com atenção se os gons no fundo da terra ou em outro lugar emitiam qualquer impulso. Mas depois de gastar alguns minutos num grande esforço telepático, sem nada conseguir, veio-lhe o pensamento de que os gons podiam intervir nesta luta, para benefício deles mesmos. Concentrou sua atenção na nuvem de vapor e de poeira que subia aqui e ali, atrás dos imponentes rochedos. Sentiu que ficava cada vez mais rala, na proporção em que os bios se aprofundavam no solo. De repente Tako desapareceu, sem uma palavra, sem um sinal. Marshall reparou e fixou os olhos com muita firmeza na fila dos discos. Naturalmente era difícil olhar todos ao mesmo tempo. Mas estava convencido que Tako atingira seu objetivo num só pulo. Não apareceu em nenhum lugar do planalto pedregoso. Porém, Bell, muito à frente, não notou o desaparecimento de Tako, por isso, continuou olhando sem maior interesse para frente. Reparou assim que uma das plantas azuis, que crescia à entrada da caverna, começou a se mover. Olhou em redor e constatou o mesmo fenômeno. Com movimentos trêmulos, as plantas mergulhavam para dentro da cavidade, de onde brotavam. Os olhos de Bell perscrutaram o horizonte e descobriram no meio do quadrante esquerdo uma faixa estreita, onde o halo avermelhado que o sol de Gonom desenhava, estava mais esmaecido ainda do que de costume. Ali, a claridade parecia se elevar mais, como que tocada por um longínquo incêndio. Bell virou-se para trás e bradou para seus colegas: — É talvez a nossa salvação. Teremos uma tempestade. O trecho esmaecido cresceu um pouco mais, depois empalideceu contra o horizonte e, alguns segundos após, veio o turbilhão de poeira e cascalho fino. — Todos, dois metros para trás — ordenou Bell. — Pensem bem que cada pedaço de pedra pesa aqui o dobro do que na Terra. Ao se afastar, reparou que Tako havia desaparecido. Marshall o informou de que o japonês havia desaparecido há uns cinco minutos. — Diabo! — resmungou Bell. — E por que só me diz isto agora? E Tako não dá sinal de vida? Chamou pelo japonês, mas Tako não respondeu. Apanhou então o pequeno aparelho de transmissão e o ligou. Julgava que a força do transmissor do capacete fosse insuficiente para atingir os pequenos aparelhos espaciais, principalmente se o envoltório energético de proteção estivesse ligado. No momento não chegou a refletir que nesta eventualidade não poderia esperar resposta do japonês. Neste mesmo instante o inferno se desprendeu sobre Gom. Nos segundos anteriores, de tanta excitação pelo japonês desaparecido, ninguém dera atenção à tempestade iminente. Mas já estava aí. O rápido, mas violento tremor de terra, não foi suficiente para alertar os ocupantes da caverna. Diante da entrada, pairou de repente uma muralha de pó e pedras. Elevou-se tanto, que não se via mais o céu escuro. Com estrondo agudo, rolavam os blocos de pedra soltos que a ventania arrastava para o planalto. Novos turbilhões de poeira toldaram o resto de claridade que ainda havia. 58


O barulho aumentava a cada segundo nos microfones de capacete de tal forma que Bell teve que dar a ordem: — Desligar o microfone externo. Mas a ordem foi somente compreendida, após muita gesticulação. O silêncio repentino foi muito benéfico. Mas lá fora, a trepidação do ar era acompanhada de um sibilar constante. — Liguem as lanternas — gritou Bell, que não podia mais calcular o volume da voz. E as lâmpadas se acenderam, iluminando apenas uns dois metros através da opacidade da densa poeira levantada pela tempestade diante da caverna e, em parte, para dentro dela. Os trajes espaciais estavam recobertos por densa camada de poeira. — Não acredito que... — começou Bell, e o resto da frase devia ser, pelo tom de voz, algo tranquilizador. Mas um grito de horror de Betty interrompeu Bell. — Olhem os bios ali. Na nuvem de poeira que penetrava na gruta, mal se vislumbrava a figura de Betty, que ocupava um posto na retaguarda. Bell via-lhe apenas o braço que apontava enviesado para trás, na direção da caverna. Mas viu bem nítido, por fração de segundo, entre duas rajadas de poeira, o rosto redondo de um dos bios. Instantes após, tinha desaparecido. Mas logo depois, o braço enegrecido, como tronco de árvore, surgiu da poeira, girando no ar o cano da arma. Bell se encolerizou. — Fogo — gritou ele ofegante. Ele mesmo foi o primeiro a atirar. O raio energético incandescente penetrou na escuridão da poeira. Um grito agudo e longo foi a resposta. — Ali estão outros — disse Betty. — Vêm de todos os lados. Bell queria recuar e respirar por uns segundos. Mas, por toda parte, o clarão da lanterna descobria, com contornos indecisos, os vultos gigantescos daqueles monstros que se aproximavam. Bell atirava, girando o corpo constantemente. Não sabia que estava gritando como um possesso, sem ouvir, também, os gritos lancinantes dos atingidos, tão fortes que os microfones — mesmo estando com o volume baixo — recebiam e transmitiam. E quando mais tarde se recordou da situação, achou que foi um milagre não ter atingido um dos seus, durante a reação desesperada. Não se preocupou com ninguém naquela hora, nem procurou saber se estavam conseguindo se defender ou recuar. A primeira leva de bios estava destruída, enquanto atacavam. Mas para cada morto, surgiam dois outros para substituir. O anel se apertava em tomo daquele punhadinho de desesperados e podia-se prever o momento em que os gigantes artificiais precisavam apenas avançar para tirar as armas das mãos de seus reduzidos adversários e terminar a luta. Se o combate não chegou a este desfecho, foi um verdadeiro milagre. Depois de ruírem os paredões da caverna, Bell tinha que lutar contra dois inimigos simultâneos: contra os bios que com incrível tenacidade voltavam sempre ao ataque, e contra a tempestade que ameaçava de arrastá-lo, embora estivesse sempre deitado e comprimido contra a rocha. Assim que pôde respirar um pouco, procurou se arrastar para trás de um bloco de pedra, que lhe parecia suficientemente forte para aguentar o vento. Mal fizera o primeiro movimento, quando surgiu em sua frente uma

sombra bem larga. Bell arrancou da arma, mas com o movimento da cabeça, a lanterna do capacete atingiu a sombra e deixou ver as duas cabeças. — Ivã! — gritou Bell, cheio de entusiasmo. — Você está chegando na hora exata. Ivã Goratchim parecia não ouvir nada. E, como um sonâmbulo, levantou-se, deu uns passos para frente e quedou firme como um rochedo. Em algum lugar atrás da cortina de trevas, poeira e cascalhos, faiscou um raio, tão claro que transformou a escuridão momentaneamente em plena luz do dia. De algum lugar daquele caos, reboou o trovão, mais forte que todos os ruídos que haviam chegado ao microfone até então. Um tufão de ar quente apanhou Bell e os seus, atirando-os uns metros para o alto e deixando-os cair logo a seguir no chão. Depois reinou silêncio, impenetrável silêncio escuro. *** A primeira coisa que Bell sentiu, foi a sensação de que seu corpo tivesse sido dissecado em centenas de pedaços doloridos. Assim que voltou a si do desmaio, parecia ter medo de respirar. Qualquer movimento lhe causava dor. Abrindo os olhos, viu que em redor deles ainda reinava a mesma penumbra. Onde estava a tempestade, onde estavam os bios? Virou-se de lado, examinando o halo avermelhado do sol. Mas tudo que viu foi um clarão vermelho no firmamento e uma muralha negra, impenetrável. Dos bios não havia vestígios. — Marshall? Betty...? Não esperava mesmo uma resposta, mas mal acabara de pronunciar os nomes, quatro vozes diferentes responderam: — Estamos aqui, senhor Bell. Está tudo em ordem. Onde está o senhor? As vozes soavam alegres e fortes. Bell constatou satisfeito que estava simplesmente perdido. — Estou aqui — respondeu. Levantou-se com dificuldade, gemendo de dores. Apoiou-se numa pedra lisa e olhou por cima dela. Mais ou menos cinquenta metros para frente, descobriu Ivã, o mutante de duas cabeças, que também estava de olhos fixos na estranha muralha negra. — Já vou indo — disse Bell. Ao ver Ivã, se lembrou do milagre que havia salvado a ele e aos seus do ataque dos bios. Ivã voltou a si de repente, levantou-se, compreendendo num instante, intuitivamente a situação. O dom mais importante de Ivã não era o fato de ter duas cabeças; sua singularidade era a propriedade de poder atuar como detonador vivo. Era-lhe muito fácil, em virtude de sua incrível força de vontade, produzir um processo de fusão dos núcleos atômicos do carbono ou do cálcio. O resultado era, sempre que se apresentasse uma massa suficiente de um dos dois elementos, uma explosão semelhante à da bomba de hidrogênio. Não restava dúvida nenhuma de que Ivã havia empregado este meio, para afastar os bios. Sob o domínio da vontade de Ivã, a força de combate dos aras de duzentos gigantes armados até os dentes fora reduzida a um facho atômico. E somente o fato de que as fusões de cálcio e de carbono se realizam mais lentamente do que os de hidrogênio é que livrou os colegas de Ivã de ir pelos ares do 59


mesmo modo como as criaturas artificiais dos aras. Enquanto se arrastava com sacrifício na rocha onde estava o mutante de duas cabeças, Bell ia remoendo estes pensamentos. Um calafrio lhe percorreu a espinha dorsal, ao pensar que desta vez, realmente, passara raspando pela beira de uma terrível catástrofe. Gastou meia hora para percorrer aqueles cinquenta metros. Arrastou-se em volta do rochedo, deixando-se escorregar de costas, para respirar melhor e para aliviar-se das dores enormes em quase todo corpo. Atrás do rochedo, se encontravam seus quatro companheiros: Ivã, Marshall, Betty e Ras Tschubai. Marshall e o africano estavam mais ou menos sentados, apoiados nas pedras. Ivã e Betty estavam deitados no chão. — Na próxima vez — murmurou Bell para o mutante de duas cabeças, após se haver refeito um pouco do cansaço daquela caminhada — vocês dois, por favor, acordem meia hora mais cedo e organizem seu “espetáculo pirotécnico” enquanto o objetivo estiver a uma distância mais segura, não é verdade? Ivã, o mais velho, abriu o rosto num sorriso. Ivanovitch, o mais moço, no entanto, se sentia meio culpado. — Eu havia despertado uns segundos antes de Ivã — disse ele se lamentando — mas o malandro não queria voltar a si. — Ah! Vocês estão ouvindo, “o malandro”? Até que enfim ele concorda que eu sou o mais velho. Terá ainda que... — Ah!... deixem de bobagem — interveio Bell. — Vocês dois foram maravilhosos. Acho que não estaríamos vivos sem vocês. Virou-se, dirigindo-se a Marshall: — Que espécie de paredão é aquilo lá em cima? Marshall fez uma fisionomia mais séria e retardou a resposta. — São os gons — disse finalmente. — Os gons? — repetiu Bell atônito, de olhos arregalados. — Que estão fazendo lá? Até o momento, não tinha dado muita atenção ao paredão escuro. Reparou então que este se erguia do chão em suave inclinação, usando os blocos grandes de pedra, em volta, como pontos de apoio. A borda externa tinha mais ou menos seis metros acima do solo, num diâmetro de cerca de dez. Deitou-se de costas no chão e ficou olhando para o céu. Aí, então, compreendeu o que pretendiam os gons. A tempestade continuava com a mesma violência. Por cima da muralha soprava o tufão, turbilhonando nuvens de pó e de cascalhos e, se o microfone estivesse ligado com um pouco mais de volume, poder-se-ia ouvir o intenso bramido. A muralha viva dos gons os protegia naquele recorte entre as rochas. Os gons vieram para que Bell e os seus não fossem projetados ao longe pelo furacão. — Surpreendente — disse Bell extasiado — por que fizeram tudo isto? — É realmente um pouco difícil de se compreender — interveio Marshall. — Mantiveram-se em contato comigo, assim que recuperei os sentidos, e os impulsos estavam incrivelmente nítidos. Deve ser uma multidão enorme de gons que aí se reuniram. Mas não disseram nada mais, a não ser que haviam construído uma barreira contra a tempestade e ficariam ali até que a mesma terminasse. Se

você quiser saber de mim, a razão por que assim agiram, está no caminho errado. — Puxa vida, então pergunte você mesmo. Marshall sorriu meio sem jeito. — É isso mesmo. Se lhes perguntar por que fizeram isso, a resposta será invariavelmente: Para protegê-los contra a tempestade. Não compreendem que este “por que” possa ter outra significação. Bell aceitou a explicação, pensativo. — Seres misteriosos — balbuciou ele. — Que aconteceu a vocês? — perguntou, mudando de assunto e se dirigindo a todos. Betty foi a primeira a se manifestar: — Fiz uma bela viagem aérea. Mas devo ter aterrissado muito brandamente em qualquer lugar. Quando recuperei os sentidos, estava rente à muralha dos gons. Marshall, Tschubai e Goratchim já estavam aqui. Por isso vim me arrastando para cá. A mesma coisa aconteceu com Marshall, Tschubai e com o mutante de duas cabeças. — Felizmente correu tudo bem — suspirou Bell. — Poderia ter sido muito pior se... Interrompeu-se no meio da frase, ficou de olhos fixos no espaço, disfarçando um sentimento mais triste. Marshall fez um sinal para ele. — É isso mesmo. Estaria tudo mais ou menos em ordem se ao menos soubéssemos onde se encontra Tako. Num gesto sem sentido, Bell deu um tapa na cabeça, atingindo apenas o capacete. — Meu Deus! — admirou-se. — Devo ter levado uma batida na cabeça, do contrário não o teria esquecido. *** No mesmo instante em que aterrissou no pequeno disco voador, Tako Kakuta percebeu que tinha caído numa cilada. O espaço interno do veículo era arredondado, como o próprio disco. Não tinha janela, nem painel de controle. Tanto o chão, como o teto e as paredes eram lisos, sem nenhum adorno. Um banco simples corria em volta da circunferência. Não havia ninguém dentro. A teoria de Reginald Bell, de que, dentro de cada aparelho havia pelo menos um bio, para vigiá-lo, estava, portanto errada. Tako sentiu o leve abalo, com que o disco voador começou a se mover, mal tinha entrado. Compreendeu que algum dispositivo distante registrara sua chegada e o estava agora transportando para algum lugar. Tako era calmo e não se precipitou em tomar sua decisão. Tinha duas opções: sair do disco, tão facilmente como havia entrado ou permanecer ali, para ver onde ia terminar a viagem. Momentos depois, Tako achou que seria um empreendimento inútil, como também perigoso, ver para onde terminaria a viagem. A pequena nave provinha de Laros e foi telecomandada de lá. Quem haveria de duvidar que voltaria para lá? Mas havia outro argumento que o seduzia. Era técnico de profissão, trabalhava como técnico antes de se tornar um dos auxiliares de Perry Rhodan. O que aconteceria se conseguisse examinar o mecanismo de telecomando, se desligasse o receptor e dirigisse ele mesmo o disco voador? A técnica dos aras seria muita diferente da dos terranos? Seria tão diferente que um terrano não poderia compreendê60


la? Tako sabia que não era assim. A técnica dos aras se baseava na dos arcônidas. E esta, ele conhecia profundamente. Resolveu ficar. A pistola térmica que ele mesmo regulara para fogo de longo alcance — a fim de atingir de uma vez só todos os bios que se encontrassem a bordo do disco — foi calibrada agora para raios energéticos de curto alcance. Começou então a dissolver as chapas que formavam o revestimento debaixo do banco circular, separando-as de seus suportes. Chapa por chapa ia virando e caindo no chão. E quanto mais progredia a operação, mais convencido estava do acerto de sua decisão. Diante dele, estava não apenas o conjunto do mecanismo de tração com o respectivo receptor, que recebia os sinais do telecomando e os transformava automaticamente. Havia também o gerador para produção do campo de gravidade artificial na cabina, a câmara de televisão que refletia seus impulsos para a tela do telecomando e, por fim, o conjunto de dois desintegradores embutidos na carcaça externa da pequena espaçonave. Viu que fizera uma grande descoberta. Tratava-se agora de saber se conseguiria utilizá-la. A distância de Gom para Laros, numa nave deste tipo, seria mais ou menos de uma hora. Se não quisesse chegar à perigosa vizinhança da base, teria que agir depressa. Com movimentos rápidos e precisos, dissolveu a fiação para o receptor de telecomando e interrompeu os contatos de tal forma que o conjunto de propulsão não receberia mais nenhum impulso de fora. Depois examinou o próprio conjunto de propulsão e constatou que, naquele mesmo momento, ele tinha deixado de funcionar. A pequena espaçonave se movimentava em queda livre pelo espaço. Tako chegou à conclusão de que o mais importante seria saber para onde é que estava se movimentando. *** Bell ficou meia hora chamando pelo japonês Tako. Acabou desistindo contrariado. Marshall teve a idéia de que talvez os gons pudessem saber o que havia acontecido com Tako. Mas não respondiam à pergunta. Isto estava ligado ao fato de que, neste momento, eles estavam muito ocupados. Marshall recebia um grande número de impulsos, contra os quais seu chamado mais fraco não podia prevalecer. Não podia descobrir o que pretendiam os gons. Porém, momentos depois, chegou a perceber. A muralha começou a se dissolver. As nuvens de poeira que a tempestade tinha levantado acima do rochedo, estavam agora menos densas. A procela acabara e os gons abandonavam o posto de vigilância. Marshall regulou o microfone externo para maior sensibilidade. Pôde ouvir com nitidez o ruído farfalhante com que as solhas se retiravam do seu aglomeramento nas rochas. Minutos depois, a muralha não existia mais. Na direção da flácida luz avermelhada do sol, marchava uma avalanche enorme, marrom-escura, de solhas que cobriam o longo desnível do terreno. Enquanto se arrastavam naquela direção, podia-se ver que apenas transpunham os desníveis do terreno, sem

retirar nada do caminho. As pedras sobre as quais a vanguarda do grande manto marrom já havia passado, surgiam instantes após como estavam antes. Até mesmo os discos voadores, que haviam trazido os bios, os gons deixavam intactos. Bell estava olhando para os aparelhos dos aras. — Vamos pegar um deles — disse Bell — não confio muito neles. Até a Titan, levaremos talvez duas ou três semanas. Mas é melhor do que nada. — Calcule um pouco mais — falou Marshall — temos que dar uma volta enorme para escaparmos dos aras e dos saltadores. Não creio que estes aparelhos estejam armados. Além disso, vocês não estão reparando nada? — Não, o quê? — Eram quarenta aparelhos, agora são trinta e nove. Bell os contou um por um. Marshall estava certo. — Quem sabe, um deles foi devorado pelos gons? — indagou Bell, indeciso. — Não creio, não — continuou Marshall. — O nosso japonês é que desapareceu com um deles. *** Assim que Ivã Goratchim fez uso de suas incríveis faculdades mentais, sabia-se em Laros o terrível destino dos duzentos bios desintegrados por ele. A reação dos três patriarcas, Siptar, Vontran e Cekztel constou apenas de um conselho que deram aos aras, como bons amigos: — Realmente, a força que vocês enviaram foi muito pequena, mandem mil bios, que nós vamos ver como as coisas se passam. Os aras ouviram o conselho um tanto cépticos. Embora não o confessassem perante os saltadores, a perda de duzentos bios foi um duro golpe para eles. Em Laros não havia ao todo mais do que setecentos bios. E agora eram só quinhentos. Não estavam, pois, em condições de seguir o conselho dos patriarcas dos saltadores. O que também não deixavam transparecer. Além de tudo, os aras estavam plenamente conscientes de que estavam tratando com um adversário que não podia ser menosprezado. Seu ponto de apoio em Laros, o mais afastado das grandes rotas espaciais, era-lhes de inestimável importância — era o grande laboratório e o quartel-general dos bios, cujo comércio lhes rendia fortunas fabulosas. Por este motivo, reagiam de uma maneira esquisita quando alguém se intrometia em seu modo de pensar e de agir. Mas, nestas circunstâncias, era um pouco diferente. Alguém aterrissara em Gom. Este alguém não se imiscuía em seus negócios. Porém dava mostras de que estava disposto a liquidar seus bios. E o interessante é que este alguém era um fugitivo desesperado, obrigado a cair e se esfacelar no solo do planeta, atraído, pelas forças dos gons a serviço dos próprios aras. Muitos, entre os aras, desconfiavam de que os gons tinham se aliado aos fugitivos. Mas era difícil achar provas contra ou a favor desta suspeita. Neste estado de coisas, os aras deliberaram enviar quatrocentos bios para Gom. Entretanto, fizeram uma coisa, que jamais haviam feito nos longos anos de “cooperação” com os gons: ordenaram aos gons, sob ameaça de severos castigos, de prenderem os fugitivos e entregá-los aos bios. Vários bios transmitiram esta ordem de Laros a Gom por meio de amplificadores mecânicos para telepatia. O 61


tipo de castigo ameaçado pelos aras foi explicado em palavras claras: destruição, pelo menos da metade, da substância das solhas, com aplicação de bombas atômicas. Gom não respondeu. Os aras sabiam, naturalmente, que uma mensagem deste tipo só poderia ser captada quando os gons se reunissem em quantidade suficiente para formarem uma inteligência. Mas a estatística comprovava que estas reuniões eram muito frequentes em Gom. Embora a ordem não tivesse tido resposta, os aras estavam convencidos de que foram compreendidos. No meio daquela confusão toda e de apuros por que corriam os aras, passou completamente despercebido um pequeno incidente: a estação de relês do telecomando registrou que, pelo menos, uma parcela dos tripulantes havia regressado num dos discos voadores. Já que o prazo fixado pelos aras para a operação dos bios em Gom tinha se esgotado, a estação de relês deu a partida ao disco voador e o trazia de volta a Laros. Mais ou menos meia hora após a partida, a pequena nave escapou do telecomando e não foi mais localizada. A estação de relês transmitiu a comunicação do ocorrido. Veio, no entanto, a notícia de Gom de que todos os duzentos bios foram destruídos pelo inimigo. Assim, ninguém estava dando importância a uma coisa tão ridícula como a saída de um único disco voador, onde poderia estar, no máximo, um tripulante.

5 O problema mais importante e ao mesmo tempo mais complicado, Tako resolveu da maneira mais simples possível. De posse do traje espacial protetor, não lhe foi muito difícil dissolver inúmeras chapas da parte superior do disco, de forma que ao menos de trinta em trinta graus havia uma abertura para visibilidade. É verdade que, na fração de um segundo, todo o ar que havia no interior da nave, foi expelido. Mas, nenhuma peça dos motores de propulsão, do sistema de defesa ou dos demais instrumentos dependia do consumo de ar. Tako havia tomado todas as providências para não afetar em nada a estabilidade estática do aparelho. Constatou que estava bem longe de Gom, conseguindo ainda ver o enorme planeta do tamanho de uma laranja. Na frente, no sentido da trajetória do aparelho, havia ainda um outro corpo celeste um pouco menor, de um branco amarelado, que Tako identificou como Laros. Conhecendo bem o tamanho do planeta e de suas dezoito luas, não lhe foi muito difícil, calcular, com relativa exatidão, que havia percorrido três quartos da rota Gom-Laros. Não se preocupou com as dificuldades que surgiriam com um vôo nestas condições. Preocupava-se apenas em manter elevado o moral, que naturalmente teria perdido caso pensasse que um homem, dirigindo uma nave espacial avariada, sem outros meios a não ser os do olho nu, haveria forçosamente de fracassar. Estava tentando botar em marcha os motores de propulsão. *** Bell e os seus levaram cinco horas para atingir uma das pequenas espaçonaves. Os gons haviam desaparecido há

muito tempo e não se manifestavam mais. Também os bios não davam sinal de vida. O céu cinzento estava livre de corpos estranhos. Só as estrelas mostravam o brilho opaco. Ao chegarem a uns duzentos metros de seu objetivo, Bell deu uma ordem a Betty Toufry: — Analise um pouco a situação, Betty. Queremos saber o que há lá dentro. No seu íntimo, estava calculando a distância entre o primeiro aparelho e o segundo. Depois das investigações de Betty, tudo lhe parecia inútil. A distância de um para o outro era considerável e precisariam de mais duas horas para atingir o aparelho mais próximo. Além de tudo, Tschubai estava esgotado para poder transportá-los, ou melhor, transportá-los para bordo. Betty se estirou no chão, comprimindo o binóculo contra a viseira. Passaram-se minutos, sem novidade alguma. De repente a nave começou a vibrar. Bell viu quando uma chapa mal recortada se desprendia da parede lateral da carcaça e caía no chão aos pedaços. — Continue — disse ele. Betty não se deixou perturbar. Sob a poderosa energia de seus dons telecinéticos, pedaço por pedaço da carcaça do aparelho se esfarelava no chão, até que o teto, já sem sustentação, desabou por completo. O espaço interno, agora já totalmente devassado, estava mesmo vazio. Bell suspirou triste: — Podíamos ter evitado isto. Agora só nos resta nos arrastar mais duas horas até o próximo aparelho. Marshall notou seus cuidados: — Não se preocupe com isto. Não ficaríamos tranquilos enquanto não fizéssemos esta experiência. — Obrigado, — disse Bell, triste. — Vamos, portanto continuar. *** Os gons acabaram de receber a mensagem dos aras, aliás bem nitidamente pois havia muitos deles reunidos — mais ou menos cem mil — para protegerem os estranhos contra o tufão. Estes estranhos eram preciosos e tinham aniquilado os horrorosos bios... compreenderam no mesmo instante o que significava aquela ordem. Apesar de não saberem propriamente o que era técnica, sabiam perfeitamente de que meios técnicos dispunham os aras. Não ignoravam que o destino da raça dos gons seria decidido, se não obedecessem à ordem dos aras. Os gons se apressaram em iniciar a reunião e para isso se dirigiram a um dos locais de assembleia, que estavam distribuídos por toda a superfície do planeta. Recebiam resposta de todos os lados e quando chegaram ao local, lá encontraram já muitas centenas de milhares de gons reunidos. De acordo com as instruções, estavam esperando em locais diferentes; pois era um fato comprovado pela experiência entre os gons, que, numa assembleia geral, prevalecia sempre a vontade daquela parcela que antes da reunião era a maior. No momento, tudo dependia da consciência daqueles cem mil gons que haviam recebido a ordem dos aras. Aqueles esperavam pela chegada dos demais. Iriam se unir a eles, conforme a ordem de chegada, de tal maneira que o conteúdo da consciência dos cem mil haveria sempre de dominar. Desta maneira demorou mais de vinte horas até que se 62


formasse um supergom, que era capaz de atuar de acordo com o que desejavam os aras. Era a maior reunião de que se lembrava o supergom. Isto representava alguma coisa, pois a consciência histórica dos gons era coletiva e sob certos aspectos mais fidedigna do que documentos escritos. O número total devia ser de um bilhão de gons que se aglomeraram por ordem dos aras. Estendiam-se por uma superfície de cerca de mil quilômetros quadrados. Era o maior poder bélico reunido. Embora a gigantesca camada marrom-escura, em nenhum lugar, fosse mais espessa do que um centésimo de milímetro, o solo tremia quando ela passava. *** Bell tinha se enganado. A tremenda explosão provocada por Ivã Goratchim, que os atirara pelos quatro cantos como folhas secas, era a causa de que, após qualquer movimento, todos se tornavam tão cansados e abatidos. Sentiam-se como se tivessem andado o dia inteiro. A caminhada até ao disco voador, desintegrado por Betty, foi a última que podiam fazer sem uma pausa para descanso. Bell percebeu a necessidade de um repouso. Estavam talvez a um quarto do caminho entre o disco destruído e o próximo, quando Bell ordenou uma parada, simplesmente porque ninguém mais aguentava. Pararam onde e como estavam e, quase no mesmo instante, pegaram no sono. Acordaram após cinco horas de repouso. Marshall levantou a cabeça e exclamou: — Meu Deus, que está acontecendo?! Bell virou-se para o lado, mas não viu nada de extraordinário. Tinha dormido como um prego e se sentia mais disposto do que antes. Instantes mais tarde também despertou Betty, com um grito angustiante. Levantou-se depressa e perguntou com os olhos arregalados: — Que é isto? Que está acontecendo? Bell se dirigiu a Marshall. — Santo Deus, mas afinal de contas, que é isto? Marshall sacudiu a cabeça e olhando para o céu cor de chumbo disse: — Acho que é o inferno! Gons, uma multidão tremenda de gons. Se o ar fosse telepático, já teria explodido de tanto impulso dos gons. — E o que você acha disso? — perguntou Bell. Marshall encolheu os ombros desanimado. — Você sabe que não consigo compreendê-los quando não se dirigem diretamente a mim. — Não se preocupe com isto. Os gons nos salvaram na hora da tempestade. Por mim, podem se reunir aqui aos milhões — disse Reginald. — Você pensa mesmo assim? — perguntou Marshall. — Quem é que lhe garante que os gons ainda tenham a mesma impressão a nosso respeito? Bell já tinha uma resposta galhofeira na boca, mas engoliu-a prontamente. Lembrou-se de que Marshall já por duas vezes se mostrou mais a par das coisas dos gons do que ele. E podia realmente acontecer que tivessem mesmo mudado de opinião. Ninguém sabia mesmo o que se passava em Gom e ninguém conhecia bem os gons. — Está bem. Então vamos tentar chegar ao aparelho o mais depressa possível. Se os gons mudarem de opinião, não nos afetará em nada. Marshall concordou com a ideia. O “desassossego

telepático” no espaço, como ele se expressava, parecia realmente tremendo. Arrastaram-se com mais rapidez do que antes. A nave parecia se aproximar. Durante a caminhada, Marshall parava de vez em quando para escutar. Comunicou a Bell, que o “desassossego telepático” aumentava cada vez mais. — Tenho a impressão de que se vai reunir, não longe daqui, uma enorme força bélica dos gons. Gostaria de saber o que pretendem fazer. Duas horas depois da partida, chegaram ao aparelho. Bell, premido pela situação, não quis mais perder tempo investigando se estava ou não vazio. Depois de procurar um pouco, achou a única escotilha, e, a seguir, o mecanismo que a descerrava. A porta se abriu, deixando ver uma câmara espaçosa onde cinco bios caberiam com largueza. E, muito melhor, Bell e seus quatro companheiros. A dificuldade consistia em alcançar o degrau da entrada, que estava a um metro de altura, com os corpos cansados e sem força. Felizmente, com auxílio de Goratchim, conseguiram. O mutante de duas cabeças, com sua força física fora do comum, foi o que menos sofreu com as peripécias das últimas horas. Mas precisavam de uma hora ainda para se refazerem. Durante este tempo, o “desassossego telepático” chegou ao máximo. — Estou com medo — confessou Marshall. — Se é por nossa causa, esse movimento todo, estamos perdidos, como os homens no dilúvio, fora da arca de Noé. Não temos meio de defesa contra esta inundação. Bell sabia disto. A princípio pensava que nada lhes aconteceria, enquanto Ivã Goratchim estivesse atento e pudesse aplicar seus dons incríveis, quando o perigo se tornasse maior. Pois os gons se compunham também de material orgânico, em parte do mesmo material que os bios. Ivã poderia provocar uma fusão de cálcio no corpo dos gons e destruí-los. Porém os gons formavam um conglomerado tão grande, como dizia Marshall, e assim a explosão atingiria não somente os gons, mas, também o próprio Ivã, seus companheiros e talvez mesmo o planeta inteiro, destruindo tudo. Portanto os dons tremendos de Ivã estavam fora de cogitação. Sua única esperança eram então as pequenas armas de raios energéticos e o disco voador onde tinham penetrado. No aparelho, havia a mesma gravidade que em Gom. A esperança de que dentro da nave se sentiriam melhor e poderiam se mover mais facilmente do que na planície rochosa, foi destruída num instante. Com muita dificuldade, Bell e os seus penetraram no interior da pequena nave e verificaram o que Tako Kakuta já havia visto há vinte horas atrás: não havia nenhuma possibilidade de manobrá-la. A emoção foi tão grande que ficaram prostados no chão, do mesmo modo como entraram, sem se mexerem. Bell foi o primeiro a recuperar o ânimo. Foi um ânimo provocado pela autossugestão, de permeio com o sentimento que o homem tem quando se sente encurralado. Bell chegou bem depressa à mesma conclusão de Tako Kakuta há um dia atrás: — Deve haver motores de propulsão aqui. Provavelmente, são telecomandados, mas podemos desmontar tudo para experimentar. De qualquer maneira, esse trabalho vai nos ser útil. A seguir deu as ordens: 63


— Não fiquem aí de cabeça caída, pessoal. Vamos, temos de soltar as chapas que estão sob o banco circular. Movam-se, por amor de Deus, ou querem morrer aqui dentro? E realmente, o que não conseguiria uma ponderada argumentação, conseguiram gritos de Bell, arrancando-os da letargia. Levantaram-se com um sorriso de pouca fé. Prepararam as armas, calibrando-as para raios curtos, dissolvendo chapa por chapa. *** O relê do telecomando em Laros registrou que depois de uma pausa de vinte horas alguém havia voltado a outro disco voador aterrissado em Gom. Desta vez, o relê não tomou nenhuma iniciativa. Informou ao posto de comando e recebeu instrução de deixar o aparelho onde estava. Neste momento de grande excitação a respeito da decisão tão importante, ninguém se preocupava com um diminuto disco voador, ou com um ou dois bios que tinham sobrevivido. Em contraste com os aras, que aguardavam com ansiedade a decisão iminente, os saltadores estavam completamente calmos. Tão calmos que o resto da frota que havia permanecido em Laros após o regresso dos patriarcas, já havia recebido ordem de partir. A saída dos saltadores não parecia desagradar aos aras. Não podiam mesmo esperar auxílio deles na questão dos gons. De qualquer maneira, era melhor que não soubessem de nada, do dilema em que se encontravam a respeito dos nove fugitivos. Os aras davam muita importância ao fato de serem tratados em termos de igualdade nas relações com os saltadores. Esta igualdade de parceiros equilibrados estaria arruinada, caso os saltadores viessem a saber, por exemplo, com que facilidade a posição dos aras estava se enfraquecendo. *** A retirada do resto da frota foi a primeira novidade naqueles dias de horrível monotonia em que a Titan ficou aguardando no espaço. De início, Perry Rhodan estava muito céptico. Supunha que para substituir a frota que se retirara de Laros, outra estava sendo esperada. Mas, depois de registrar grandes abalos estruturais, que não podiam provir de outra parte, começou a acreditar que a grande conferência em Laros já havia terminado, e julgou então ter chegado o momento de se preocupar com os acidentados de Gom. Talamon, que tinha deixado Laros com a frota de Topthor, não havia mais se comunicado. Rhodan, que acreditava na fidelidade de Talamon, até certo ponto, tomou isto como uma prova de que os saltadores não estavam realizando apenas uma troca de tropa de ocupação, mas estavam mesmo abandonando definitivamente o satélite. O esforço que Rhodan fizera, quando teve de avançar para o hiperespaço, saindo do sistema de Árcon, com a Ganymed e com outra nave pesada da frota de Talamon, para simular a saída de duas naves terranas, foi plenamente compensado. Nem os aras, nem os saltadores acreditavam mais em perigo em sua redondeza. Não havia dúvida alguma de que a Titan teria sido

descoberta caso se aproximasse de Gom. A proteção dada pelos campos magnéticos contra a localização não era absoluta. Quanto às naves de vigilância dos aras, que se encontravam no sistema, Rhodan não tinha receio algum. *** Trabalharam dez horas ininterruptas, mas estavam cada vez mais longe de atingirem o objetivo. A grande dificuldade era que a fiação e os elementos de contato só podiam ser tratados por uma só pessoa. O fato de serem cinco não ajudava em nada. Marshall tinha experimentado suas forças telepáticas para saber o que se passava em volta. Mas não conseguiu saber nada, a não ser que a quantidade de gons aumentava sempre mais. Por fim, começou a mexer num conjunto que normalmente servia para dar sinais de localização à estação de relês. Já que os pequenos aparelhos voadores só eram utilizados no âmbito dos satélites de Gom, o sinalizador consistia apenas de um circuito de vibrações comum de modulação magnética. Tschubai o ajudava no trabalho. E quando Bell, depois de dez horas de trabalho, com os olhos ardendo e as mãos trêmulas, que não mais obedeciam, concluiu que ainda estava muito longe de seu objetivo, Marshall e o africano haviam chegado a tal ponto que o sinalizador já emitia sinais de vários comprimentos. Marshall estava com a ideia de que podia entrar em contato com a Titan. É verdade que ela estava a vinte horasluz de distância, e os rádio-sinais demorariam relativamente muito a chegar até ela. Mas de qualquer maneira, era preferível uma mensagem lenta, a nada. Queria falar a respeito com Bell, quando este, se arrastando para fora da cavidade dos motores de tração, ficou prostrado no chão, completamente exausto. Mas antes que pudesse abrir a boca, atingiu-o um pensamento não humano, de tal intensidade, que a dor de cabeça parecia estourar-lhe o crânio. Tombou, gemendo alto. Com Betty se deu a mesma coisa. Mas sua capacidade sendo maior que a de Marshall, sua dor de cabeça foi menor. Entendeu a mensagem que lhe dirigiram. Bell estava prestando atenção em tudo. Arrastou-se até Marshall e o ajudou a se levantar. — Os gons...! — murmurou Marshall, com olhos arregalados. — Dizem que vão nos atacar agora. Bell franziu a testa, comprimindo os olhos. — Atacar? A nós? Depois de nos ter salvo da tempestade? — É isso mesmo, senhor Bell — reforçou Betty, com voz trêmula. — Também recebi esta mensagem. — Pois bem — disse Bell, exteriorizando uma calma que não era sua. — Então vamos recebê-los. Talvez não consigamos acionar os motores de propulsão até lá, portanto, temos que nos defender. — Mas, temos o transmissor — gritou Marshall. — Podemos colocar a Titan a par de tudo. Bell não sabia nada disso. Marshall teve que lhe explicar tudo em poucas palavras. — Por mim, pode enviar sua mensagem — disse Bell meio descrente. — Levará umas vinte horas para alcançar a Titan. E além de tudo, não se sabe se alguém a bordo vai 64


dar importância a sinais do alfabeto Morse. Com o auxílio de Ras Tschubai, Marshall iniciou sua tentativa. Começou a transmitir em Morse: ESTAMOS EM PERIGO DE VIDA EM GOM HEMISFÉRIO NORTE ZONA DE PENUMBRA POUCOS QUILÔMETROS DA FAIXA DE LUZ — BELL. Repetiu a mensagem três vezes. Quando ia começar a quarta transmissão, ouviu-se um grito de horror. Bell estava de vigia no degrau externo da escotilha. Ouvia-se ainda seu berro: — Não são apenas os gons. Aí vem um grande exército de bios. Para fora, pessoal, e armas na mão. *** Tako Kakuta não se lembrava de ter trabalhado tanto tempo em sua vida, sem pausa de um segundo. Em comparação com Bell, que neste instante ainda estava ocupado com o mesmo problema, tinha Tako a grande vantagem de que em seu disco voador, desde que saíra de Gom, possuía a bordo a gravitação artificial de Laros. Sob outras condições, jamais teria atingido seu objetivo. Já estava tão avançado que podia botar para funcionar o conjunto de propulsão e, além disso, já podia se utilizar dos dois desintegradores. Entrementes, o pequeno disco se aproximava de Gom. Influenciado pela tremenda atração do grande planeta, o aparelho atingia uma velocidade de cinco quilômetros por segundo em direção ao centro de gravidade de Gom. Tako Kakuta aumentou esta velocidade e já estava preparado para as manobras necessárias, quando o aparelho chegou às primeiras camadas da atmosfera do enorme planeta. *** Como que cavalgando numa esteira de partículas incandescentes, desciam de um céu cor de chumbo e aterrissavam, quase no mesmo lugar onde Ivã Goratchim havia destruído a primeira força de combate dos bios, dezenas e dezenas de discos voadores. Se Bell ainda tivesse dúvidas de que os gons tomaram a decisão de comum acordo com os aras, estas dúvidas desapareceriam agora, sob a evidência dos fatos. Os bios aterrissaram de tal maneira que, juntamente com os gons, fecharam um círculo, em cujo centro estavam suas vítimas. O quadro foi idêntico ao primeiro ataque. Os bios deixavam os aparelhos e vinham marchando em fila até o aparelho onde estava Bell e seus colegas. Só que desta vez, eram quatrocentos, e, para variar, não havia nenhum indício de tempestade ou tufão que viesse favorecer os sitiados. Desligados os motores e cessando o zunido ensurdecedor, podia-se ouvir, do outro lado, uma trepidação permanente, num crescendo gradativo. Eram os gons que caminhavam de encontro ao alvo. A trepidação do solo provou que Marshall tinha razão. Era realmente uma multidão incalculável. Com os bios, Bell não estava muito preocupado. Desta vez, Ivã Goratchim não estava desacordado. Bell o chamou para perto da escotilha e lhe mostrou a fila dos monstros que se aproximavam. As duas cabeças do mutante

contraíram as fisionomias num sorriso duro de guerra e poucos instantes depois, naquele lugar onde marchava a ala direita dos bios, houve uma terrível explosão, da qual subiu uma nuvem incandescente. No turbilhão daquela nuvem, a quarta parte dos bios perdeu sua vida artificial. Ivã Goratchim queria acertar bem no meio da coluna, mas neste mesmo instante, Ras Tschubai, que estava de vigia no ponto mais alto do disco, deu um grito para baixo: — Os gons estão chegando, eu os estou vendo. A escotilha se abriu para o lado de onde vinham os bios. Bell achava que a ameaça dos autômatos, apesar de suas excelentes armas, era menor do que a outra. Mandou seu pessoal ficar em cima da pequena nave, onde estava Ras Tschubai. Para Betty, falou: — O negócio vai começar a pegar fogo, senhorita, o melhor é ficar dentro da nave. Mas Betty olhou zangada para ele: — Eu gosto de fogo, senhor Bell. Além disso, não gosto que ninguém diga que sou covarde. E antes que Bell pudesse responder alguma coisa, já tinha passado por ele, subindo para o lado de fora do disco. Bell não podia fazer outra coisa senão acompanhá-la. Antes que tivesse chegado lá em cima, Ivã Goratchim já havia fulminado o segundo quarto dos estúpidos bios que avançavam contra a nave. De cima, se podia ver que os gons caminhavam a uma velocidade de uns vinte quilômetros por hora. Moviam-se, pois, mais lentamente do que depois da tempestade. Bell queria saber a razão disso. Quando Bell chegou ao alto, a vanguarda daquela enorme massa marrom-escura ainda estava a três quilômetros. Eram os últimos nove ou dez minutos que restavam a Bell e a seus companheiros. — Está vendo — disse Bell a Marshall — neste momento sua mensagem em Morse já percorreu um centésimo de sua trajetória. Você acha que vamos sobreviver aos restantes noventa e nove centésimos? Depois, mudando o tom da voz: — Quando estiverem a um quilômetro de nós, comecem a atirar. Nossas armas atingem esta distância. *** Quando Marshall transmitiu seu pedido de socorro, a Titan, há muito, já estava a caminho. Escolheu aquele trecho de Gom, onde havia menos possibilidade de serem vistos pelos aras. A mensagem em Morse que Marshall enviara, não precisou mais que minuto e meio para chegar à supernave. Aliás, demorou uns segundos até que percebessem os sinais. Foram registrados pelos receptores automáticos, mas todos pensavam que eram interferências comuns. Até que alguém se deu ao trabalho de separar sinais longos e curtos, chegando à conclusão de que eram sinais Morse. Perry Rhodan, assim que foi informado, aumentou a velocidade da espaçonave. Não tinha dúvida de que era muito difícil encontrar alguém para dizer com mais exatidão onde se encontravam os companheiros de Bell. Era realmente difícil encontrá-los numa faixa de penumbra com mais de cinquenta mil quilômetros de extensão. *** 65


— Fogo, rapazes, fogo! — gritava Bell, com uma vontade louca de lutar. Apontaram as armas térmicas contra o supergom e começaram a atirar, quando a vanguarda estava a um quilômetro. A esta distância, as pequenas pistolas de irradiação tinham uma potência que não podia ser considerada perigosa para um corpo compacto — como um bio ou um ser humano. Porém, através da delgada camada dos gons, os raios penetravam sem dificuldade, impediam o núcleo central da massa de avançar e faziam com que os dois flancos se deslocassem para frente, formando um semicírculo. Por uns instantes, passou pela cabeça de Bell a ideia de enviar Ras Tschubai, que entrementes recuperara suas forças telecinéticas, para um lado ou para outro. Mas reparou logo que nem ele, nem Ras Tschubai seriam capazes de dimensionar a extensão daquela massa enorme. E o pior era que, se errasse o pulo e caísse no meio dos gons, estaria perdido. Ivã Goratchim continuava em sua luta gloriosa. Neste exato momento ainda estavam vivos cinquenta bios. Mas estavam muito afastados uns dos outros, de maneira que quando um explodia no ar, os outros continuavam vivos. A luta agora era individual e os poucos bios se aproximaram mais depressa, do que Bell calculava. — Mais depressa, vocês dois aí — disse Bell ao mutante de duas cabeças. — Nós não temos tempo de nos preocuparmos com os bios. Ivã, o mais velho, respondeu: — Não pode ir mais depressa, senhor Bell, precisamos de tempo para cada um, a fim de nos concentrarmos. Bell sabia que Ivã tinha razão. Olhou para o lado desconfiado, e notou a linha espalhada dos bios. Queria chamar a atenção de Ivã sobre um bio que estava muito avançado. Mas neste momento, parece que uma força invisível pegou o autômato, arrancou-o do chão, atirando-o para bem alto no ar, caindo depois pesadamente nas pedras, já sem movimentos. Bell não se conteve de entusiasmo: — Bravo, Ivã...! A mesma coisa aconteceu a outro bio. Foi atirado para o alto, esborrachando-se depois no chão. Não se levantou mais. A expressão no rosto de Bell era de admiração pelo que presenciava. Olhou para Betty Toufry, que disparava sua arma, afastando os gons. Não tinha tempo para se preocupar com evoluções telecinéticas. Quem era então o autor deste último espetáculo do bio que dançou no ar e se esborrachou no solo? Neste momento, surgiram vinte bios em sua retaguarda. Bell viu, de boca aberta, como eles viraram as costas, jogaram fora as armas, correndo de volta para a fila dos discos voadores. Bell compreendeu de repente o que se passava. Olhou para o lado e reparou que Ivã e Ivanovitch se concentravam num dos bios em retirada. Horrorizado, exclamou: — Não, por amor de Deus, não. O mutante olhou para ele, desencantado. Bell não deu importância a isto. Todos podiam ouvir como ele gritava: — Ishibashi, Sengu, Yokida...! Apresentem-se. Marshall olhou espantado para ele, mas Bell abanou a mão, dizendo:

— Continuem atirando. De alguma parte ouvia-se, um leve murmúrio. Alguma coisa dava para se entender: — ...com trajes bem esfarrapados... seiscentos metros de vocês... estamos chegando. Logo depois surgiram, detrás de um rochedo baixo, três pontos que se moviam lentamente para o aparelho ocupado pelos companheiros de Bell. Provavelmente havia acontecido aos três japoneses a mesma coisa que a Ivã Goratchim. Do brilho de prata de seus trajes não se via mais nada. Era preciso um esforço maior para poder vê-los naquela penumbra. Bell tinha mil perguntas na ponta da língua. Mas não tinha tempo. Virou-se para trás e continuou seu serviço: causar o maior estrago possível entre os gons. Os três japoneses levaram meia hora para chegar. Quase não tinham mais força para subir no aparelho. Seus rostos estavam pálidos e a voz de Ishibashi parecia embargada quando tentou falar. — Muito bem — disse Bell — não temos tempo para conversa agora. Ajudem-nos contra os gons. Se Sengu ainda puder, deve ajudar Ivã contra os bios. Vamos, depressa, pessoal. Uma cólera incontida se apoderou de Bell, ao refletir que os três japoneses recuperaram a liberdade só para caírem de novo nas garras dos gons e acabarem morrendo... Se não acontecesse um milagre até lá. *** Tako veio em voo baixo. Pouco antes do choque contra o chão do planeta, conseguiu amortecer a queda e passar para o vôo horizontal. O fato de estar se movimentando exatamente no local onde se travava a tremenda batalha foi uma combinação de acaso e de genialidade técnica de Tako. Tako voava com a altitude de quatro mil metros, numa velocidade correspondente a 1,2 à do som. Já que o aparelho não tinha propriamente asas de sustentação, uma parcela dos motores de propulsão estava convertida em força de empuxo, para manter, por meio das válvulas verticais, esta posição. Desta altura, relativamente pequena, o japonês podia supervisionar toda a região de combate. Percebeu logo que Bell e seus companheiros estavam em perigo, devido aos gons. Fez uma grande curva, voltou, descendo gradativamente. Foi até o depósito de armas, confiando em que a direção se manteria por si, enquanto iria se ocupar com os dois desintegradores. Regulou o dispositivo de alvo automático e aguardou até que a nave, agora com a velocidade reduzida a seiscentos quilômetros por hora, e na altitude de mil e duzentos metros, se aproximasse do local da luta, até uma boa distância de tiro. Reginald Bell viu a pequena espaçonave quando passou pela primeira vez pelo céu cor de chumbo, iluminada pelo débil clarão do sol avermelhado. Não deu maior importância, pois acreditava se tratar de um aparelho comandado por bios. Mas a nave tornou a voltar, exatamente quando os flancos do supergom ameaçavam envolver o ponto de apoio de Bell e com mais força do que antes. Ele não tinha tempo para se preocupar com isso. Cada tiro que perdia, representava dois segundos desperdiçados. Betty foi a primeira que parou de atirar e ficou olhando 66


para o aparelho no ar. Bell olhou para ela e viu que ela lhe queria dizer alguma coisa. Mas antes que abrisse a boca, começaram a sair do estranho aparelho dois grossos jatos de fogo de um verde-claro, em sentido oblíquo, atingindo o dorso do supergom e abrindo sulcos largos e fumegantes. — É o japonês! — gritou Bell com voz trêmula. — Conseguiu dominar o aparelho. Pararam de atirar para ver as proezas da pequena nave. Tako Kakuta se era ele, parecia perseguir um objetivo com seus tiros. Os jatos esverdeados riscavam o dorso do supergom, com toda a potência dos dois desintegradores. Mal decorridos dez segundos, haviam aberto um rombo arredondado de grande dimensão. Marshall sentiu a confusão que ia à massa enorme dos gons. Estava curioso para ver como a parte separada pelos raios dos desintegradores se uniria novamente ao todo. Mas não houve união. O trecho arredondado separou-se do resto do corpo gigantesco e caminhou sozinho contra o ponto de apoio, onde Bell e os seus julgavam, há pouco, ver o fim daquela massa marrom-escura. Os desintegradores continuaram sua missão. Pedaço por pedaço, Tako foi destruindo aqueles trechos que já ameaçavam a cidadela de Bell. A confusão dos gons aumentava. *** Nos últimos instantes, Tako percebeu que sua nave se inclinava um pouco. Largou as armas, o mais depressa que pôde, correu para o controle da propulsão e viu que o aparelho, com o funcionamento das válvulas, deslizava de encontro ao solo. Ainda conseguiu evitar a queda, mas foilhe impossível subir mais com o aparelho. Fez uma curva fechada, perdendo mais altura ainda, viu os rochedos do solo que se avizinhavam dele. Deu a última freada e, de olhos fechados, aguardou o que Deus quisesse. Ouviu um estrondo surdo, o tinir de metais, viu uma nuvem de poeira penetrando pelas fendas da carcaça rebentada e sentiu, por um instante, que o mundo girava em redor dele. Não houve mais nada. Nem mesmo chegou a perder os sentidos. Mas a grande atração de Gom o deixou quase parado. Finalmente conseguiu se arrastar para fora. Pela primeira vez é que notou que o ar estava repleto de ruídos, tão fortes, que não haveria de ouvir seus companheiros, se o chamassem. Desligou o microfone externo e sentiu a vibração que o solo trepidante transmitia ao traje espacial, apesar de tudo ainda em bom estado. A enorme nuvem de poeira, provocada pela descida de emergência, já tinha desaparecido. Tako viu o aparelho em que Bell e sua gente estava abrigado, a mais ou menos dois quilômetros de distância. Atrás de si, viu o clarão de uma violenta explosão. Assustou-se, escondendo-se à sombra de um grande rochedo. Não sabia que Ivã Goratchim estava acabando de destruir o tricentésimo octogésimo sétimo bio. *** O movimento do supergom perdeu a coesão depois que Tako o retalhou em vários pedaços, com fendas enormes. Os pedaços não cuidavam mais em se unirem ao resto. Vinham separados de encontro ao aparelho em que estavam entrincheirados os companheiros de Bell. Naturalmente, a

ordem dada pelos aras já estava desaparecendo de sua memória, com o esfacelamento do supergom. A queda de Tako foi observada do aparelho. Bell respirou aliviado, quando viu o rapaz sair ileso do disco. Reparou como ele se resguardou da explosão causada pelo mutante de duas cabeças e lhe queria gritar alguma coisa. Mas, neste momento, Marshall pegou em seu braço e lhe apontou para o lado direito. — Lá estão os gons! — exclamou ele. Bell ficou olhando. Era uma parte da grande massa. Tinham visto o japonês e estavam em vias de atacá-lo. Era um grupo de no mínimo cinqüenta mil gons, força mais do que suficiente para dominar Tako. — Tako, preste atenção, os gons estão chegando. Tako ouviu o brado de alerta, levantou-se e olhou em volta. Não viu outra coisa a não ser uma linha escura, a uns cem metros, num movimento de leve ondulação. Saiu se arrastando, embora soubesse que os gons eram mais velozes que ele. Estava com medo. Escutou gritos e chamados no seu receptor de capacete, mas não deu importância. A voz de Marshall, zangada, lhe gritou nos ouvidos! — Pare e suba no rochedo. Viu um rochedo íngreme em sua frente e tentou escalálo. Mas no mesmo momento ouviu de novo a voz de Marshall: — Não neste, no outro à direita. Tako desceu, olhou em volta e viu que os gons já estavam a vinte metros dele. O medo lhe deu uma força incrível, correu para o rochedo e foi subindo. Podia ter usado seus dons de teleportador, mas as circunstâncias não lhe permitiam a necessária concentração. *** — Por que exatamente naquele rochedo? — perguntou Bell admirado. — Você acha que os gons têm mais dificuldade de subir naquele rochedo do que no outro? — Não sobem em nenhum dos dois. Bell parecia perplexo. — Como é que você sabe disso? — Lembra-se, quando deixamos o viveiro dos gons, fiquei atrás de você, observando essas solhas, quando elas iam de encontro aos degraus, talhados na rocha, não conseguindo subir neles. Sentiam apenas que o mundo acabava ali e ficavam paradas. Sabe como se explica isto? — Não. — Os gons são, até certo sentido, seres de duas dimensões. Só podem sentir o que está no mesmo plano que seu corpo. Naturalmente isto não pode ser tomado no sentido absoluto. Acho que seu ângulo de visão vertical ao plano do corpo atinge mais ou menos uns poucos minutos, no máximo meio grau. Quando chegam a um objeto que não está bem vertical em relação ao chão, então percebem facilmente e podem subir. Mas uma parede vertical é para eles como uma tábua, onde o mundo acaba. Olhe para lá agora. Tako desaparecera de seu campo visual. Os cinqüenta mil gons tinham cercado o rochedo. Percebia-se em seus movimentos que não sabiam mais o que fazer. Andaram de um lado para o outro, depois foram embora, deixando o rochedo com o japonês para trás. — Mas... — murmurou Bell, sem compreender. — Sei no que está pensando — interrompeu-o Marshall. 67


— Em maiores aglomerações, quando a inteligência do supergom ultrapassa determinado nível, podem ser capazes de sentir a terceira dimensão. Nós vimos, quando fizeram uma muralha para nos proteger contra a ventania. “O supergom, que encontramos logo após a descida forçada da Gazela e do qual fugimos, nos escondendo na galeria subterrânea, era igual a este que estava cercando o japonês. Lembra-se de que as solhas não conseguiram achar a entrada do corredor? Exatamente porque não podem perceber o que está abaixo ou acima delas. Só enxergam, se enxergar for o termo certo, o que estiver em sua frente ou atrás deles”. “Se calcularmos que o supergom ali na frente se compõe de cinquenta mil gons, então podemos chegar à conclusão de que a transição da visão de duas dimensões para a de três dimensões está oscilando entre cinquenta mil e cem mil goms.” — Fantástico! — exclamou Bell. Sem dizer nada e sem o menor sinal, Marshall se abaixou, comprimiu o capacete contra o chão, gemendo. — Que aconteceu de novo?! — exclamou Bell assustado. A voz jovial de Betty Toufry entrou de repente em seu receptor: — É Gucky — disse ela alegre. — A Titan está se aproximando. Gucky está dando ordem aos gons para se retirarem. *** Ninguém havia notado a esfera vermelha, que se aproximava no horizonte. Mas depois, ouviu-se a voz de Gucky através do amplificador telepático. Em nome de Rhodan, informou aos gons de que, dentro de uma hora deviam se afastar bastante dos sitiados, para que a gigantesca espaçonave pudesse descer facilmente e apanhar os seus amigos. Gucky deixou bem claro aos gons que seriam destruídos se não obedecessem às instruções. A mensagem do rato-castor foi captada por Marshall e Betty. Observavam contentes como a enorme esfera de aço descia lentamente no planalto, estacionando bem próximo a eles. A reação do supergom foi extraordinária. Não apenas desistiu da tentativa de influenciar telepaticamente a Titan, mas obedeceu de pronto. Com o ruído característico, o ser gigantesco recuou de todos os lados, bem mais depressa do que haviam chegado. Meia hora após a mensagem de Gucky, a Titan aterrissava tranquila. Bell e seus companheiros foram levados para bordo. Perry Rhodan fez questão de cumprimentar todos, apertando a mão de cada um e de abraçar com afeto seu velho colega de armas. A Titan se ergueu para o espaço, imediatamente. Bell e os seus não tiveram um segundo de descanso. Tinham que contar suas impressões, enquanto ainda estavam frescas. Os cientistas estavam ansiosos para saber alguma coisa sobre os gons. Cada um tinha que dizer o que sabia. Setenta por cento das informações, porém, provinham de Marshall, que sempre andava com os olhos bem abertos. O interessante foi que Kitai Ishibashi, Tama Yokida e Wuriu Sengu, como também Ivã Goratchim, não sabiam contar nada. Esqueceram-se de tudo a partir do momento

em que se levantaram do fundo da caverna e caminharam na direção dos destroços da Gazela. Dos instantes anteriores, não se recordavam. Constataram depois que estavam num aposento pequeno, baixo, arredondado e sem janelas, que tudo em volta era escuridão e ruídos esquisitos. Para Bell e Marshall era fácil concluir que os três japoneses, como também Ivã Goratchim, estavam num viveiro subterrâneo e despertaram quando os gons subterrâneos saíram para formar o supergom. Ishibashi, Yokida e Sengu constataram com espanto que a prata sumiu de seus trajes espaciais e a massa plástica estava pela metade. Os gons tinham tentado digerir os trajes e os homens. Mas não tiveram com a matéria viva a mesma sorte que tiveram, por exemplo, com os destroços da Gazela, que desapareceram em pouco tempo. Sengu, procurando entre os rochedos, acabou achando um caminho e sem dificuldades chegaram os três mutantes à superfície, ainda a tempo de poderem ajudar na luta. Sobre os gons, porém, não sabiam dizer muita coisa. Assim, a impressão predominante sobre a aventura dos gons não deixava de ser um enigma, um quebra-cabeça. Apresentaram-se teorias, foram discutidas e rejeitadas. Não havia unanimidade sobre o assunto. Ninguém podia concordar com um ser que se deixava destruir pelo fogo ao invés de usar suas enormes forças parapsicológicas, como realmente o fizeram no princípio, quando, telepaticamente, forçaram a Gazela a se espatifar no solo. Sentia-se estar defronte de um fenômeno — que não tinha nada em comum com as formas de vida conhecidas — tão estranho em sua mentalidade, como se fosse de outros mundos. Rhodan foi instado a fazer uma aterrissagem em Gom. Os pedidos vieram de todos os lados... Mas Rhodan explicou com um sorriso amigo, que nas atuais circunstâncias, a política era mais importante do que a ciência; mais tarde, em outra oportunidade, não teria nada a opor a uma visita científica a Gom. *** Uma hora mais tarde, apareceu a Titan na lua de Laros, depois de haver passado por uma série de postos avançados dos aras, sem dar a menor satisfação, destruindo muitas bases de defesa automática equipadas com bios, armadas com mísseis nucleares, desintegradores e lança-chamas. Depositou na lua uma bomba arcônida cujo detonador estava regulado no grau 14. A bomba fazia com que os átomos de silício em sua volta entrassem em fusão aos poucos e se estendessem sobre toda a área de Laros. O incêndio atômico que surgiria assim, era lento, mas nada o conseguiria apagar. Os aras levariam tempo para perceber o incêndio e depois teriam ainda três meses para abandonarem Laros. Depois, não haveria mais vida em Laros. Seria o fim da base dos aras no sistema Gonom. *** A Titan partiu. Havia estado de alerta contra naves dos saltadores. Mas não apareceu nenhuma delas. Assim que saíram do sistema, Bell e seus companheiros tiveram um descanso de quinze horas de sono repousante. 68


— Dormiu bastante, meu caro gordo? — perguntou Rhodan. — Muito pouco — protestou Bell. — Fiquei quatro dias em Gom sem pregar os olhos. — Muito bem, — continuou Rhodan — o principal é que você está firme. Diga-me uma coisa: Será que os saltadores não suspeitaram da programação falsa da positrônica de Topthor? Bell franziu a testa: — Acho que não. Por quê? — Porque... — disse Rhodan sério, sem olhar para Bell

— porque Talamon me comunicou há poucos minutos por raio direcional de hipercomunicação, que o ataque Terra está decidido e será logo. “Se eles entenderem por Terra o que vocês programaram na positrônica de Topthor, está tudo muito bem. Voltamos para a Terra e pelo caminho mais rápido.” A fisionomia de Bell se iluminou de repente, as rugas na testa desapareceram e lábios armaram um belo sorriso. — Perry, para a Terra! Você sabe ainda quantos andares tem o Empire-State-Building e quais são as cores dos prados de Goshun See?

Os cientistas da Titan gostariam muito de fazer pesquisas mais profundas sobre os misteriosos e perigosos gons, que por um triz não destruíram Bell e seus companheiros. Perry Rhodan permaneceu firme em sua opinião. Sabia que não podia retardar sua volta à Terra. Teria de articular um ardil de dimensão cósmica, ardil este que é ainda o último recurso para tentar salvar a Terra da destruição. O objetivo deste ardil é convencer os atacantes de que a Terra seria o terceiro planeta do Sistema Beta. Os detalhes emocionantes desta incrível estratégia serão narrados em: O Olho Vermelho do Sistema Beta. .

69


Nº 48

De

Clark Darlton Tradução S. Pereira Magalhães Digitalização Arlindo San Nova revisão e formato W.Q. Moraes

Para dar mais impressão de verdadeira Terra, Rhodan mandara seus dois cruzadores, Centauro e Terra, para se estabelecerem no planeta Três, se defenderem dos ataques, simulando que aquele planeta era realmente a invejada Terra dos homens. Porém o planeta Quatro já estava ocupado pelos tópsidas, os quais...

70


O engenheiro-chefe Kowalski e o técnico de eletrônica Harper haviam terminado o trabalho do dia e permaneciam sentados diante da televisão, em seu aposento coletivo, do Além dos dois arcônidas Crest e Thora, do rato-castor qual compartilhavam ainda dois outros colegas, que faziam Gucky e dos próprios terranos, não havia ninguém, no serão. Universo inteiro, que pudesse saber a posição do planeta A tela mostrava o espaço. No fundo, estava a Via Terra, com exceção de duas criaturas. Láctea e, mais para frente, a sombra de uma espaçonave em A primeira chamava-se Topthor. Era um comerciante forma de um torpedo. Uma única palavra indicava a estação das Galáxias da estirpe dos Superpesados, 1,60 m de altura que estava transmitindo: Terrânia. e o mesmo tanto de largura, pele esverdeada e senhor Qualquer pessoa na Terra sabia que um grande absoluto de uma respeitável frota de espaçonaves. acontecimento estava iminente. Certamente não havia A segunda era o cérebro positrônico, instalado na nau ninguém que fosse perder esta transmissão. O governo capitania do próprio Topthor, na mesma espaçonave com a mundial falaria a toda a população da Terra, provavelmente qual tentara atacar a Terra, há meses atrás, ao descobri-la o próprio presidente — Perry Rhodan. casualmente. Porém, nem o computador positrônico, nem — Acabou de chegar Topthor, sabiam que os mutantes de hoje — disse Kowalski, e Perry Rhodan haviam alterado Harper sabia de quem estava completamente a programação dos Personagens principais deste episódio: falando. Todo mundo vira a dados, no setor de alimentação do gigantesca esfera espacial computador. Perry Rhodan — Administrador da Terra e quando descia. Uma nave, Conforme esta alteração, passou chefe da Terceira Potência. que a Terra nunca havia visto a ser registrado como Terra o igual. Quilômetro e meio era terceiro planeta do gigantesco sol Gucky — Contra ordem expressa de Rhodan, o diâmetro do gigante do Beta, 272 anos-luz do nosso sistema embarca clandestino, levado pela convicção do espaço. Com letras pretas, solar. grande perigo, acaba salvando a situação. lia-se em sua fuselagem o Uma alteração que provocaria um nome: Titan. lamentável engano — lamentável Al-Khor — Comandante dos tópsidas, não crê — Estou curioso para para dois grandes povos das Galáxias em assombrações. ouvir as novidades que nos — embora seu grande adversário, um traz. terrano com o nome de Perry Major Deringhouse — Comandante do cruzador Ele, Perry Rhodan, o Rhodan, juntamente com seu Centauro e chefe geral da expedição cuja finalidade é homem que tinha unificado a pequeno planeta pátrio, ficariam apresentar um planeta de Beta como sendo a nossa Terra, e a transformado excluídos dos dados lançados. Terra, para desviar o ataque dos imperialistas numa superpotência E era exatamente este o objetivo saltadores. galáctica. Era, talvez, o único de Rhodan. homem vivo que não tinha A Terra, isto é, a Humanidade, já Major McClears — Comandante do cruzador inimigos — pelo menos na estava evoluída e já havia realizado Terra. Terra e entre os homens. em seu planeta o que até então Lá fora, porém, no parecia mero sonho de idealistas. Wor-Lök — Por medo do ditador é assassinado infinito do espaço... A unificação da Terra num só em pleno Conselho de Guerra. — Vamos ver — governo não era mais utopia. Todos murmurou Harper, virandoos povos da Terra tinham se unido, se na poltrona. — De fronteiras e barreiras alfandegárias qualquer maneira, uma coisa não mudou ainda: as pausas não mais existiam. O ministro das finanças da Terra, na televisão. Parece que vai começar agora. Homer G. Adams, introduziu um padrão monetário único, o A cintilante Via Láctea desapareceu da tela, dando lugar chamado Solar, moeda de toda a Terra. As grandes nações e ao rosto de um homem. Era o coronel Albrecht Klein, os pequenos estados de outrora tinham sua representação no substituto de Rhodan. Durante a ausência do presidente, Conselho Geral que se reunia periodicamente em Terrânia, dirigia os negócios da Terceira Potência e do governo capital do Mundo. mundial, com o apoio decidido de Allan D. Mercant. O fantasma da guerra era coisa do passado. O dinheiro — Amigos terranos! colossal dispendido outrora com armamentos, servia agora O coronel Klein fez uma pausa muito enfática, olhando para a construção de uma gigantesca frota espacial, com um sorriso afável para a câmera, e, portanto para quase dependente diretamente do governo mundial. Inicialmente, dois bilhões de homens. as unidades já existentes da frota eram comandadas pelos — Perry Rhodan voltou de sua expedição ao espaço e homens da Terceira Potência, um organismo estatal vai informá-los dos acontecimentos mais importantes, construído com o auxílio dos arcônidas. sucintamente. Um relatório mais detalhado pode ser Em Terrânia, situada no coração do deserto de Gobi, era esperado para os próximos dias, de maneira que peço grande a agitação. A megalópole, célula-mater da Terra compreensão dos telespectadores, pelo fato de nosso unificada, aguardava com ansiedade o relatório de seu presidente fazer apenas um resumo dos fatos. Passo assim a primeiro cidadão, que depois de uma ausência de seis palavra a Perry Rhodan! meses, estava regressando ao planeta pátrio. Ninguém sabia Coronel Klein se afastou com um sorriso e sua imagem o que havia sucedido neste meio ano, mas todos sabiam que desapareceu do vídeo. a prolongada ausência de Perry Rhodan só podia ter sido — Foi breve e indolor — observou Harper, olhando causada por acontecimentos da maior gravidade.

1

71


com interesse quando a câmera ainda apresentava a retirada de Klein e depois o ambiente onde já se encontravam os membros do Conselho do Governo, numa mesa em meialua. — Lá está ele. Kowalski já havia visto Rhodan há mais tempo. O uniforme da Frota Espacial, bem talhado, salientava sua figura esbelta. Levantou-se com um leve sorriso, dirigindose ao estrado dos microfones. Apertou a mão do coronel Klein e ficou de pé diante da câmera, que levava a imagem por todas as partes da Terra, até mesmo para o menor povoado no centro da África. Centenas de tradutores convertiam suas palavras em todas as línguas da Terra, para as diversas regiões do mundo. Todos podiam compreendêlo, embora falasse em inglês. — Terranos... A voz de Rhodan soava um pouco cansada, embora seu sorriso fosse permanente. Em seus olhos castanhos parecia cintilar a perenidade do espaço infinito, que realmente se tornara sua segunda pátria. Mas esta perenidade não tinha o brilho de sempre; trazia laivos de preocupação no fundo de sua alma. — Nestes últimos seis meses, muita coisa mudou, tanto aqui na Terra como no espaço infinito. Vocês todos se lembrarão que iniciamos uma expedição para procurarmos o Império dos Arcônidas nas Galáxias, no conjunto sideral M-13, distante de nós trinta e quatro mil anos-luz. Encontramos Árcon, o sistema central, tivemos, porém uma amarga decepção. Há seis anos, os arcônidas foram substituídos por um cérebro positrônico de tamanho inimaginável, maior do que todo cérebro que existiu ou existe nas Galáxias. Rhodan fez uma pausa curta, para dar ênfase a suas palavras. A câmera se afastou um pouco, fotografando agora os dois arcônidas Crest e Thora bem de perto. Harper assobiou baixinho, dizendo: — Que mulher fantástica, esta Thora, alta e esbelta. Os cabelos brancos e os olhos avermelhados não atrapalham nada. Não é propriamente bela, mas tem um encanto especial a que não posso resistir. Rhodan apareceu de novo no vídeo. — Conseguimos tomar do Império a maior belonave até hoje construída no universo, a Titan. Atacado por inimigos externos, o cérebro positrônico se sentiu ameaçado, aliando-se a nós. Ajudamos o regente do Império Arcônida e granjeamos sua confiança, se é que se pode falar em confiança em se tratando de um cérebro robotizado. No decorrer das operações, se evidenciou cada vez mais que o grande Império e a nossa pequena Terra têm um inimigo comum, que deve ser tomado muito a sério, isto é, os saltadores. Vocês todos já ouviram falar nesta raça de humanoides, descendentes dos arcônidas. São também chamados de comerciantes das Galáxias. Foram eles que, há tempos, atacaram a Terra e foram rechaçados. O superpesado Topthor conhece a posição da Terra, ou pelo menos julga conhecer. Ele e o cérebro positrônico de sua nave. “Mas ainda existe alguém que gostaria de saber onde está a Terra: o gigantesco cérebro robotizado de Árcon. Terranos, nosso mundo não conhece inimigo mais perigoso do que este cérebro robotizado, que não suporta competir com outra potência. E a Terra está em vias de se tornar uma superpotência das Galáxias.”

Rhodan foi interrompido pelo aplauso geral dos delegados. Agradeceu-lhes, com um sinal de cabeça e continuou: — O cérebro positrônico de Árcon consiste de lógica fria e total ausência de compromissos. Não vê em nós a não ser um auxílio oportuno, que pode usar à vontade quando interessar a seus desígnios. A Terra, porém, não tem nenhum interesse em ser colônia de Árcon. Irrompeu novo e vibrante aplauso. Harper e Kowalski batiam palmas com entusiasmo. A televisão exibia de novo Crest e Thora que evitavam qualquer manifestação de sentimento. Imóveis e calmos estavam eles em seus lugares. Nos olhos de Crest houve brilho breve, mas ninguém poderia dizer se era de indignação. Thora não deixava um momento de olhar para Rhodan. Seu olhar estava pregado em seus lábios, como que aguardando dele uma revelação. Rhodan esperou até que se fizesse silêncio. — Volto a insistir na lógica fria do cérebro robotizado. Quando ele souber de nossa resolução, isto é, de não querermos mais continuar como seus criados, haverá de cair sobre nós, sem piedade e destruir-nos. Porém, não sabe onde se localiza o sistema solar no infinito do espaço... Ainda não sabe. “E Topthor não nos pode mais trair, porque nós alteramos os dados do computador eletrônico, alimentandoo com dados falsos. Se ele recorrer ao cérebro positrônico para saber da nossa posição, receberá a resposta de que a Terra é o terceiro planeta do grande sol Beta, em Orion, duzentos e setenta e dois anos-luz distante de nós”. “Penso que os saltadores e talvez até mesmo o cérebro robotizado de Árcon destruam este terceiro planeta e acreditem piamente que destruíram a Terra. Conforme os catálogos dos arcônidas, este terceiro planeta é considerado inabitado, mas nós cuidaremos de fazer com que ninguém perceba isto. A Terra, oficialmente, deixará, pois, de existir. Só depois é que teremos tempo para construirmos nossa frota espacial, com calma, até que um dia possamos nos apresentar diante de Árcon de cabeça erguida e impor nossas condições. Não mais como povo dependente, mas, ao menos como nação soberana, de igual para igual.” Novos aplausos, até mesmo por parte dos dois arcônidas, a quem era sumamente descabível que um robô dirigisse o grande Império. Harper comentou: — Que planos tem nosso Rhodan! Acho isto um pouco difícil. Mas compreendo que não há outra possibilidade. Portanto, desapareçamos de cena, até ficarmos mais fortes. — É fácil falar — respondeu Kowalski, olhando para o relógio. — Foi sucinto e não assustou ninguém, colocandonos praticamente diante de fatos consumados. Estou curioso para ouvir o anunciado relatório. Serão verdadeiros romances de aventura. Seis meses no espaço não é brincadeira. Não sabia como seu palpite estava perto da verdade. Harper ia responder, mas Rhodan continuou: — Terranos, eu expus-lhes, em poucas palavras, meu plano, para que compreendam mais tarde nosso modo de agir. Ainda esta semana, partirão dois dos nossos grandes cruzadores em direção a Orion para dar a um planeta não habitado a impressão de ser habitado. Temos que contar com o fato de o superpesado Topthor não demorar muito em destruir a odiada Terra. Que ele faça o que quiser. Rhodan levantou a mão, cumprimentando. A imagem desapareceu, voltando o habitual sinal de Terrânia. 72


Kowalski se levantou, desligando o aparelho. Olhou para Harper. — Que diz de tudo isto? Não foi magnificamente planejado? — Não sei, não — respondeu Harper, meio duvidoso. — Num cálculo de aparência perfeita, sempre pode haver um pequeno engano. E está tudo acabado. — Bobagem! — Kowalski estava um tanto zangado. — Perry Rhodan não comete erro. Harper abanou a cabeça e se levantou. — É possível, Kowalski, mas desta vez tenho a impressão de que está cometendo um. Permita Deus que eu esteja errado. Mas, uma coisa eu digo a você, caro amigo: se houver uma falha desta vez no cálculo, então... Deus nos acuda. Kowalski não respondeu. Olhou calado para o amigo que desapareceu no outro aposento. Escutou ruído de talheres. Abriu-se uma garrafa. O engenheiro-chefe da Polônia franziu a testa. O que poderia haver de errado no fato de os saltadores destruírem com sua frota um planeta desabitado, que julgavam ser a Terra, e isto a quase 300 anos-luz dali? O que poderia haver de errado em tudo isto? *** — Esta injustiça clama aos céus e eu vou apresentar minha queixa sobre estes fatos injustos. A voz era muito estridente e o tom não apenas irritado, mas de veemente protesto. Porém não parecia exercer muita influência em Rhodan, pois sorria calmo, sossegando o interlocutor acariciando-lhe o pelo da nuca. — Mas Gucky, por que tanta raiva assim? Você não merece realmente umas férias? Eu também fico por aqui. Gucky continuava zangado. Estava ao lado da poltrona de Rhodan, de pé, com toda sua imponência, ostentando sua estatura de um metro e meio de altura. As orelhas compridas traíam uma audição acurada; o focinho longo e afunilado, um olfato fora do comum; o amplo traseiro com uma cauda volumosa espraiada em leque demonstrava pouco entusiasmo para longas caminhadas. Gucky também não tinha necessidade disso. Era teleportador e podia se locomover para qualquer lugar sem o menor esforço. Podia também ler os pensamentos, era um grande telepata e, além de tudo, movia qualquer matéria à distância, graças à sua força mental, sem usar força física. Faculdade esta conhecida sob o nome de telecinese. Gucky era realmente dotado de propriedades tão extraordinárias que quem o visse pela primeira vez não achava possível. — Está certo — disse ele meio zangado, deixando ver seu dente roedor, cuja ocupação predileta era roer cenouras. — Mas, dez mutantes voam para o espaço, só eu é que fico aqui. — Minha resolução está tomada — disse Rhodan, cortando qualquer tipo de argumentação, com certa energia. Virando-se novamente para os homens que estavam reunidos, acompanhando com interesse o diálogo com Gucky, falou: — Major Deringhouse assume o comando da Centauro e major McClears o da Terra. Cada um dos cruzadores terá uma tripulação de quatrocentos homens e será equipado com compensadores estruturais. Ninguém poderá rastrear

os hipersaltos. Além disso, dez membros do corpo de mutantes tomam parte na expedição. John Marshall é o seu chefe. Recebe de mim poderes absolutos. Apenas Deringhouse lhe dará ordens. Ao lado de Rhodan estava um subordinado, homem espadaúdo, de cabelos vermelhos e hirsutos, de rosto largo. Nos seus olhos de um azul-claro pairava uma pergunta não expressa, quando, quase imperceptivelmente sacudiu a cabeça. Rhodan percebeu. — Que há Bell? Alguma objeção? Reginald Bell, o melhor amigo de Rhodan e seu íntimo confidente, antigo ministro da segurança da Terceira Potência, parecia um tanto desconcertado por ser interpelado assim à queima-roupa. — Não, está tudo claro. Queria apenas dar razão a Gucky. — O que quer dizer isto? — Acho injusto, quando exatamente nós é que sobramos. O que é que vamos fazer, quando a trezentos anos-luz daqui se decide a vida ou a morte da humanidade? Gucky é o melhor e eu... eu... — Oh... — e Rhodan começou a sorrir. — E você...? — Sou de qualquer maneira amigo de Gucky — foi tudo que Bell pôde alegar a seu favor. Agachado em sua poltrona, Gucky esticou as orelhas e seus olhos brilhavam felizes. — Obrigado, velho companheiro de lutas, muito obrigado, não vou esquecer isso, mas tenho receio que nossos esforços sejam inúteis. O plano de combate está traçado. Desta vez não somos necessários. Rhodan continuou sorrindo para ele. — Ainda bem que você compreendeu bem a situação, Gucky. As duas espaçonaves já estão prontas para decolar e vão iniciar o vôo para Beta ainda esta noite. Major Deringhouse, você conhece bem o plano. Juntamente com McClears você vai simular a defesa do terceiro planeta. Retire-se e desapareça, assim que o adversário tiver destruído totalmente o terceiro planeta. Somos obrigados a sacrificar este mundo, mas ele não possui vida inteligente. Os saltadores não demorarão a dar como completamente destruído o mundo dos homens. Até mesmo o cérebro robotizado de Árcon lhes será grato, do ponto de vista lógico. É pena, porque eu mesmo já estava me simpatizando com a cúpula de aço de Árcon. Os dois cruzadores pesados eram naves esféricas de duzentos metros de diâmetro. Seus raios de ação eram praticamente ilimitados. Com saltos através do hiperespaço, podiam transpor distâncias inimagináveis na rapidez de segundos. Apenas a aferição positrônica das respectivas coordenadas consumia maior espaço de tempo que não estava, aliás, em proporção com a duração da viagem. O armamento consistia de radiadores de impulsos e de outros meios de destruição de proveniência arcônida. Poderosos envoltórios energéticos protegiam os cruzadores de qualquer ataque. Campos antigravitacionais neutralizavam quaisquer choques em manobras de frenagem, aterrissagem ou decolagem. Crest pigarreou. — E o que acontece, então? — perguntou em voz baixa. Rhodan o fitou por um instante: — Depois que a destruição da Terra for simulada, não é isto que quer dizer? Quem sabe precisamos então de anos e anos para atingirmos o objetivo, talvez um decênio. Mas 73


com toda certeza, só podemos enfrentar Árcon novamente, quando não precisarmos mais nos esconder, ou seja, esconder a posição da Terra, de uma Terra que de repente começa a existir. Uma Terra que esteja em situação de impor condições ao cérebro robotizado de Árcon. Acho que isto é interessante para vocês, Crest e Thora. Os dois arcônidas concordaram. Bell começou a sorrir de uma hora para outra. Bateu nas costas de Gucky, deu uma piscadela para Rhodan e exclamou muito patético: — Com o nosso renascimento, algumas pessoas ficarão admiradas... *** Rhodan, Bell, os dois arcônidas e Allan D. Mercant estavam à beira do espaçoporto quando as possantes esferas espaciais faziam a contagem regressiva. Os refletores inundavam o campo de aviação de uma claridade intensa. Mais ao longe, na outra extremidade do espaçoporto, a noite caía no deserto. Como imensa campânula, o céu envolvia os dois pesados cruzadores, incumbidos da mais extraordinária missão, que nave alguma jamais recebera. A história da humanidade é um rosário de guerras e missões de todos os tipos. Mas nunca um planeta foi dado como sendo a Terra, para ser destruído. Mercant parecia mais jovem do que realmente era. Mas Rhodan pôde constatar que, nos últimos meses, o ex-chefe do Conselho Internacional de Defesa tinha envelhecido bastante. A tremenda responsabilidade que pesava em seus ombros consumia suas forças. Os cabelos louros em volta de sua careca central estavam bem grisalhos. — Lá vão eles e permita Deus que voltem logo! — exclamou em tom enfático, tendo o cuidado de não pisar um escaravelho que se arrastava pelo chão. Mercant, apesar de sua famosa rigidez no trabalho, ou talvez por este motivo, era um grande amigo dos animais. — Desta vez, felizmente, não vou ficar sozinho aqui na Terra. Rhodan não perdia de vista as duas esferas cintilantes. — A Titan fica em permanente prontidão, Mercant — lembrou ele. — Assim que receber qualquer notícia alarmante de Deringhouse já estarei a caminho. Mercant contraiu a fisionomia. — O que poderá acontecer de alarmante? — Você parece se esquecer de que nós não conhecemos o sistema Beta. Nossos dados se apoiam nos catálogos dos arcônidas. Pois bem, o terceiro planeta é um mundo de florestas virgens, onde talvez, só daqui a milhões de anos poderá existir vida. O que haverá, porém, no primeiro e no segundo planeta ou no quarto? Beta é um gigantesco sol avermelhado. Seu diâmetro é quatrocentas vezes maior que o do nosso sol. Eu até estranho muito que o terceiro planeta tenha mesmo ou deva ter vegetação. “Você é político, meu caro Mercant, não cientista. O tamanho do sol, nem mesmo sua irradiação de calor, não têm nenhuma importância, se os planetas estão bem afastados dele. As regiões de vida de um sistema dependem da proporção certa das distâncias e do calor irradiado ou respectivamente recebido. Teremos que aguardar que surpresas nos reserva esta segunda Terra — olhou para o relógio. — Em dois minutos eles decolam.” Bell estava estranhamente calado, sem se mover, parado no meio da noite, olhando para a Centauro e para Terra. Rhodan sabia o que se passava em seu íntimo. Bell gostava

de estar presente, quando se tratava de pregar uma peça nos saltadores. Mas agora tinha que ficar na Terra. Mais um minuto. — Se o plano der certo — disse Crest, quebrando o silêncio — então a Terra venceu mais de uma batalha. — Esta é a finalidade do nosso plano — concordou Rhodan. Os segundos voavam. Nada poderia agora interromper o rumo da história. Ninguém o pretendia também. — Agora — disse Crest. Sem ruído, as duas colossais esferas espaciais se levantaram e penetraram no céu escuro. Os refletores do espaçoporto as seguiram por uns instantes. Depois as esferas reluzentes escaparam do alcance dos faróis e mergulharam no grande nada. Rhodan deu um suspiro. — É isso, agora só nos resta aguardar. Esperamos que nossos cálculos estejam exatos. Uma fração mínima de erro seria fatal. Crest, Thora e Mercant concordaram. Apenas Bell resmungou: — Matemática é meu lado fraco, quem sabe eu deveria ter seguido com eles. — Para estragar tudo? — disse-lhe Rhodan, sorrindo. — Não, é mesmo melhor que você cometa seus erros de cálculo aqui. Mas esta brincadeira em nada melhorou o mau humor de Bell, que queria descarregar sua fossa em Gucky, mas não o encontrou.

2 Depois que a Centauro se materializou, após a transição, Deringhouse viu uma coisa que lhe fez esquecer imediatamente a dor de cabeça causada pela transição. Estava na cúpula de observação, próxima ao equador da nave. O teto transparente dispensava qualquer tipo de tela de vídeo. Dava a impressão de se estar pessoalmente no meio do espaço. A bombordo surgia a nave gêmea, Terra. Mas não foi isto que impressionou tanto a Deringhouse, que, aliás, já conhecia uma grande parte das Galáxias. Foi a estrela que estava diante das duas naves que avançavam com a velocidade da luz. Beta! Como um olho gigantesco alaranjado, a estrela flutuava no infinito do Universo, a maior e a mais poderosa de todas as estrelas que Deringhouse havia visto. Os outros sóis empalideceram perante o brilho fosco do gigante. Parecia até que se envergonhavam devido às suas ridículas claridades. Era o sol Beta, o gigante vermelho. Se o colocássemos em lugar do nosso sol, suas protuberâncias chegariam até a órbita de Marte. Era menos quente que o sol da Terra, porém suas dimensões inimagináveis compensavam este fator. Em volta do sol Beta, gravitam quatorze planetas, cuja temperatura superficial atinge cerca de dois mil e quinhentos graus centígrados. Quatorze planetas, dos quais o terceiro deverá ocupar, falsamente, o lugar da Terra. Caso Topthor não se lembre de outras coisas, de uma certamente não se esquecerá: de que a Terra era o terceiro 74


planeta do sistema solar. Naturalmente, em pouco tempo perceberia seu erro, pois como poderia um comerciante das Galáxias confundir Beta com o sol da Terra? — assim explicava Rhodan, com um sorriso. — Mas então seria tarde demais para corrigir o erro. Um sentimento de angústia se apoderou de Deringhouse, quando fitou o gigantesco olho vermelho. Até então nunca tinha dado importância a pressentimentos, mas desta vez parecia-lhe diferente. Talvez fosse consequência da singularidade do plano, talvez também das múltiplas incógnitas da equação; de qualquer modo, Deringhouse tinha que reunir todas as forças para não sucumbir às suas dúvidas. De qualquer maneira, estas dúvidas não adiantavam nada mesmo. Sentiu um estremecimento e se levantou. Bem empertigado, deixou o observatório e se dirigiu à central pela escada rolante, onde seu primeiro oficial, capitão La manche, já o esperava. — Terminada a última transição — anunciou o oficial mais idoso, repetindo, aliás, o óbvio. — O objetivo está há dois dias-luz da Centauro. — Obrigado — disse Deringhouse e começou a olhar para a tela panorâmica. Reproduzia com toda fidelidade o espaço em volta da nave, caso não se ligasse para ampliação especial. Mas não era este o caso no momento. — Está tudo normal? — Perfeitamente, Senhor. McClears aguarda suas diretrizes na Terra. Deringhouse sorriu satisfeito. Havia desaparecido sua incerteza. — Ponha-me em contato com ele — foi sua ordem calma. Enquanto esperava pelo aquecimento da tela do telecomunicador, tentou se lembrar do que sabia a respeito do sistema solar que tinha à sua frente. Não era muito. O terceiro planeta não era habitado, disso não havia dúvida. Somente no quarto planeta é que devia haver vida muito primitiva. Assim, pelo menos, dizia o catálogo sideral. A superfície era em grande parte coberta de água, o que impedia a evolução de uma raça verdadeiramente inteligente. Todas essas afirmações estavam catalogadas. No entanto, tudo isso eram dados que poderiam estar certos, mas poderiam também estar desatualizados. Ninguém tinha a menor ideia de quando os arcônidas tinham descoberto o sistema Beta e quando o haviam catalogado. Poderia ter sido já há séculos. Major McClears apareceu no vídeo. — Aí estamos — disse ele num tom firme, como se estivesse descobrindo um novo Universo. — Que sol imenso, não acha? — Gigantesco — foi a resposta sucinta de Deringhouse. Sem o querer, seus olhos pousaram na tela anexa, onde o olho vermelho cintilava, parecendo observá-lo. — A gravitação deve ser fantástica. — Nem tanto, se mantivermos o distanciamento prescrito, Deringhouse. O terceiro planeta está a alguns bilhões de quilômetros da superfície da fotosfera. — O senhor não acha que nós deveríamos visitar antes o quarto planeta? — Por que razão? — Porque existe vida nele. Vida primitiva, mas vida. McClears deu uma olhada nos mapas. — O terceiro planeta está bem diante de nós, enquanto

que o quarto está atrás do sol. Seria uma volta muito grande e, além disso, foi o terceiro planeta que nós... — Está certo, McClears, vamos combinar uma coisa: damos uma olhada no terceiro planeta e depois vamos para o quarto. Gostaria de saber quem vive em nossa vizinhança, para nos orientarmos quando os saltadores atacarem o terceiro planeta. — De acordo, Deringhouse. Permaneçamos com velocidade inferior à da luz. — Perfeitamente. Não sou a favor de um salto, porque quero ver tudo com calma, quando penetrarmos no sistema. Os saltadores acreditam encontrar aqui a Terra. Quem sabe já chegaram antes de nós, e estão aí com suas naves. Devemos ter muita cautela. Talvez nos devamos separar. Os saltadores sabia Deringhouse, eram os maiores inimigos no caminho da paz no Universo. A raça dos saltadores não devia ser classificada como guerreira. Eram comerciantes muito egoístas e com uma determinação exagerada de não permitir concorrência. Comerciavam com tudo e com todos, mas só sob as condições que eles próprios impusessem. Quem colocasse em risco seu monopólio seria afastado sem o menor escrúpulo. Para isto existiam os superpesados, sua tropa de assalto especial. Mas aí estava Perry Rhodan, para fazer a justiça. Considerava o comércio pacífico e justo como uma garantia para a convivência das diversas raças. Exatamente por esta concepção, se havia transformado em adversário gratuito dos saltadores, que não tinham propriamente um planeta como pátrio, mas viviam por toda parte nas Galáxias. A luta duraria séculos. Com o truque de Rhodan, porém, devia terminar logo. E então... — Separar? — perguntou McClears, interrompendo as divagações de Deringhouse. — Por que isto? Será necessário? — Por minha causa, não. Permaneçamos então juntos — disse Deringhouse, deixando-se convencer. — Diminuiremos a velocidade nas proximidades do terceiro planeta, para observarmos um pouco. Depois iremos direto para o quarto planeta, também para observá-lo. Já que temos de dar a volta por Beta, sugiro que façamos duas transições curtas. As coordenadas exatas, darei logo mais. Vamos ficar em contato, McClears. A tela apagou, mas as duas centrais de rádio continuaram ligadas. Deringhouse virou-se para o capitão Lamanche: — Manter o curso. Vou para a cúpula de observação. Diga a Marshall que quero falar com ele. Lamanche apertou o botão do intercomunicador. Deringhouse deixou a central de comando e cinco minutos depois entrou de novo na cúpula de vidro. Embora não estivesse ligada nenhuma luz, o aposento irradiava leve clarão avermelhado. Os planetas externos estavam para trás da Centauro, no espaço infinito. Eram imensos mundos de gelo, isolados e em eterno crepúsculo, gravitando em suas órbitas, sem o menor sinal de vida. O quinto planeta estava mais para frente, a bombordo, um gigante de reflexos avermelhado, duas vezes maior do que Júpiter. Análises espectrais mostravam que já estava fora da zona com possibilidade de vida. Deringhouse sentou-se. Impressionado, estava ele de olhos fixos no vazio do gigantesco sistema. Mesmo com a velocidade da luz, seriam gastas semanas para atravessá-lo. O sol Beta estava se tornando maior, mas ainda a dias75


luz de distância. Se Deringhouse quisesse ser sincero, teria de confessar que a visão não o decepcionou. Era mais ou menos assim a ideia que fazia do gigantesco sol, quando ele, há muito tempo, o viu na constelação de Orion, numa noite tranquila de sua terra natural. Mesmo da longínqua Terra, o olho vermelho cintilava, com cara de zangado e ameaçador, através dos espaços infinitos. Durante séculosluz sempre exerceu uma grande atração sobre os espectadores. E o fato de o sol Beta alterar irregularmente sua luminosidade, dava aos espectadores a impressão de estar piscando, piscando através da imensidão. Ninguém, porém, seria capaz de dizer se era uma piscadela de simpatia, como acontece entre amigos, ou de ameaça, uma piscadela de admoestação: Cuidado, vermezinho Terra! Atrás de Deringhouse, abriu-se uma porta. — O senhor quer falar comigo, major? John Marshall tinha entrado na cúpula. Claro que sua pergunta era supérflua, pois era telepata e sabia tudo que o comandante queria. Mas sempre fazia esforço para que ninguém percebesse seus dons. Deringhouse respondeu apenas sacudindo a cabeça, sem olhar para trás. — Sente-se, Marshall, aqui, por favor. O que sabe sobre o sistema Beta? Marshall sentou-se. Por alguns segundos, ficou contemplando o espaço vazio entre os planetas. Depois, seu olhar se deteve no cintilante sol gigantesco. — O sistema Beta será a grande encruzilhada da história da Humanidade — murmurou pensativo. — Rhodan não poderia ter procurado outro sistema solar tão apropriado para esse evento. Deringhouse não respondeu nada. Contemplava calado a estrela cujos raios penetravam na cúpula, filtrados por grossos vidros, que os deixavam inofensivos. O sol Beta tinha raios vermelhos e quentes, mas não muito claros, para ofuscarem a vista. — O senhor não participa desta opinião? — perguntou o telepata, embora já soubesse da resposta. — Claro — confirmou o major. — Penso como você. Mas o sistema Beta não me parece simpático. Sua aparência me faz pensar em Marte e os homens fizeram de Marte o deus da guerra. — Certo major. Mas o senhor bem sabe que mais tarde se percebeu o engano. Marte é um mundo pacífico, sem comparação nenhuma com este inferno de fogo em nossa frente. Quem sabe sua aparência também engana. — Esperamos que sim — respondeu Deringhouse, cuja voz não parecia muito convicta. Depois, mudando de assunto, continuou: — Por que tanto cuidado com o sol Beta? Não pretendemos nada com ele, pois nos interessa apenas o terceiro planeta. Marshall começou a sorrir sobre a maneira como seu superior imediato procurava escapar de seus próprios pressentimentos. — E o quarto? — lembrou-o Marshall. — Claro este de um modo especial. O catálogo dos arcônidas assinala vida primitiva. Sua superfície deve ser noventa por cento água. Vamos examinar um pouco o único continente, atravessar a cadeia de ilhas e depois nos dirigiremos ao terceiro planeta, onde então esperamos pelos saltadores. Aposto como este Topthor está crente que este é o melhor momento para atacar a Terra. Mas vai ter uma

surpresa... — Esperemos que não tenha mais tempo para esta surpresa — observou Marshall com alguma dúvida. — Se perceber cedo demais que está diante de uma Terra falsa, o plano de Rhodan cai por terra. Deringhouse sacudiu a cabeça. — Daremos um jeito de que ele esqueça. *** Era um mundo que lembrava muito Vênus. Devagar e a baixa altitude, os dois cruzadores percorriam a superfície do terceiro planeta. Dois continentes nadavam num imenso mar primitivo, recobertos de matas virgens bem cerradas, interrompidas raras vezes por enormes planaltos. Picos de montanhas alcantiladas penetravam nas nuvens que deslizavam a baixa altura. De permeio, havia amplos vales. Parecia mesmo inacreditável que não houvesse aqui uma vida dotada de inteligência. Mas, por mais que procurassem, não encontraram o menor vestígio. É claro que de lá de cima não se podia comprovar nada, mas uma coisa parecia certa: não havia seres inteligentes no terceiro planeta. Apareceu na tela o rosto de McClears. — Esta é, pois, a Terra II — disse sem grande entusiasmo. — É pena, realmente, pois daria para outra coisa. — Você pensa em fazer dela uma colônia? — perguntou Deringhouse. — Você tem razão. Mas o plano de Rhodan é mais importante. Mais importante do que a existência deste planeta. McClears pigarreou. — Vocês querem dar uma olhada no quarto planeta antes de descermos neste. Acham que devo acompanhá-los ou que devo ficar por aqui esperando. Deringhouse fez uma pausa. Depois concordou: — Quem sabe é uma boa ideia nos separarmos agora. Em vinte horas, estarei de volta, não preciso mais do que isto para dar uma olhada neste “mundo d’água”. Assim que aparecer uma espaçonave dos saltadores, encontramo-nos na Terra II e agiremos conforme as ordens. Nossas centrais de rádio continuam ligadas. McClears respirou aliviado. — Nesse ínterim eu terei tempo para observar bem a Terra II — parecia que, com estas palavras, pretendia consolar Deringhouse. — Assim que estiver de volta, lhe farei um relatório completo. Acha necessário prepararmos um ponto de apoio? — Na Terra II? — Deringhouse sacudiu a cabeça. — Não, não será preciso. Quando os saltadores atacarem, não nos devem encontrar na superfície do planeta. Seria muito perigoso — pensou uns instantes a respeito. — Você pode mandar um aparelho de telerreconhecimento, tipo Gazela, se quiser. Com a Terra, porém, é melhor ficar no espaço. Você não é da mesma opinião? McClears aceitou a ideia. Após uma série de instruções, informações e conselhos, Deringhouse se despediu e partiu com a Centauro para novo rumo. Rompeu a densa camada de nuvem do terceiro planeta e desapareceu no espaço infinito. A primeira transição levou a Centauro para um local, de onde os dois planetas podiam ser vistos ao lado do sol gigantesco. À 76


direita, cintilava branca e resplandecente a camada de nuvens da Terra II, ao passo que à esquerda o quarto planeta brilhava numa luz azul-rosa, quase artificial. O planeta no espaço dava a impressão de uma gota de água do mar, pairando no infinito. Enquanto que o cérebro de bordo calculava os dados para a segunda transição, Deringhouse contemplava aquela estranha gota d’água. Ao seu lado estava John Marshall, enquanto que o capitão La manche ocupava-se com os controles. — Tem uma aparência maravilhosa — disse Marshall, lendo os pensamentos do major. Deringhouse confirmou. — Como um diamante azul recebendo raios de luz avermelhada. Um espetáculo magnífico. Planeta quatro do sistema Beta é uma expressão muito vazia para tanta beleza, vamos chamá-lo de Aqua? — O planeta das águas... Por que não? O nome combina muito bem com ele. — Portanto, seu nome será Aqua — confirmou Deringhouse. — Estou curioso para saber o que encontraremos nele. — Provavelmente água — chilreou uma voz aguda, meio tímida, do canto da central de controle. Deringhouse virou-se lentamente e ficou olhando para o lado escuro, aguardando que os olhos se adaptassem à escuridão. John Marshall deu um pulo para trás, como se uma cobra o tivesse mordido. Agachado no canto estava Gucky, sorrindo meio acanhado, com o único dente roedor à mostra, como que pedindo desculpas com seus suaves olhos castanhos. — Você?!... — exclamou Deringhouse, quase caindo da poltrona. — Eu mesmo — confirmou Gucky, olhando para Marshall que ainda estava parado, perplexo com a inesperada aparição. — Não se esqueça de respirar, John, olha que o ser humano não aguenta mais do que três minutos sem oxigênio... e seria pena se você... Marshall respirou profundamente. — Como é que você entrou aqui? Gucky se encostou, apoiando-se na parede. Notou que Marshall estava menos tenso. — Você não vai acreditar, mas foi com a Centauro. — Não diga besteira, Gucky. Trouxe nove elementos do corpo de mutantes e você não constava da lista. — Que nada, você trouxe dez — disse Gucky tentando uma desculpa esfarrapada. — Naturalmente, Rhodan não sabe nada disso. Ficará bobo quando souber. Marshall levantou-se devagar e caminhou para Gucky. — Receio que você ficará mais bobo ainda, meu caro. Por que tem sempre de desobedecer às instruções? Você entrou clandestino a bordo, quando foi isto? — Clandestino, não é bem o termo. Naturalmente, eu me teleportei de Terrânia para cá. Mas somente agora é que tive coragem de me apresentar. Não fique zangado comigo, John. Marshall ficou olhando para o criminoso, que o fitava suplicante com seus olhos castanhos. O pelo marromferrugem estava liso, o que demonstrava o ânimo pacato do rato-castor. Há muito que o dente roedor estava escondido atrás dos beiços do focinho pontiagudo. Gucky não sorria mais e isto queria dizer muita coisa. Marshall fazia grande esforço para se manter sério.

— Você tem que prestar contas a Rhodan, Gucky. Dele é que vai depender o castigo pela sua desobediência. Eu não o posso nem prender, pois como se pode deter um teleportador? — É verdade, já fiz esta pergunta a mim mesmo — chilreou Gucky com simplicidade. Marshall respirava nervosamente. Deringhouse se levantou, dirigiu-se até a tela panorâmica, como se não quisesse saber nada do assunto. O rato-castor pertencia ao corpo de mutantes. Portanto o incidente com Gucky era da alçada de Marshall. — Está bem — murmurou o telepata. — Deixemos de lado o assunto, até que Rhodan decida o que deve ser feito. Receio que você deva estar preparado para alguma coisa desagradável. — Se puder ser útil aqui em alguma coisa, não será tão sério assim — disse Gucky, parecendo já mais confiante. Andou um pouco para frente e ao lado de Deringhouse ficou olhando a tela panorâmica. — Isto é o quarto planeta? Que que há com ele? — Nada de especial. E o que poderia haver com ele? — disse Deringhouse, virando-se para Gucky e o encarando com severidade. O pobre Gucky afastou-se assustado, dizendo: — Foi apenas uma ideia minha, porque você está olhando para ele de uma tal maneira... Chamava de você a todos, sem distinção de hierarquia ou de idade. Isto talvez proviesse do fato de que todos o chamavam de você, pois ninguém ousaria chamar de senhor um rato-castor. — Estou raciocinando — corrigiu-o Deringhouse. — E espero o sinal para o próximo salto. Será ainda permitido raciocinar? Gucky se levantou, olhou rapidamente para Marshall. — Permitido é sim, major. Mas, como a história da Humanidade comprova, já saiu uma infinidade de besteira daí. Bobagens estas que eu teria muito prazer em estudar, quando estava na Terra, para... — Pare! — gritou Deringhouse. — Com quem que você está aprendendo a falar desta maneira? Com estas frases rebuscadas? Horrível... — É assim que fala Bell, quando quer se expressar com elegância — defendeu-se o rato-castor. — Naturalmente me ensinou também outras coisas, mas... — É verdade, já ouvi falar disso — murmurou Deringhouse e se concentrou de novo na imagem da tela. — Bell não é um homem de maneiras finas e nunca o será. Por uns instantes Gucky parecia meio desorientado, depois deixou à vista o dente roedor e voltou para o canto da central. Fez uma grande curva em tomo de Marshall. O telepata simulou compaixão e disse: — Não gostaria de estar na sua pele, quando Rhodan ficar a par de tudo, Gucky. Acho que desta vez não será tão complacente como em Aralon. | — Se eu conseguir salvar vocês todos da desgraça certa, haverá certamente complacência — disse Gucky com voz mais pausada e mais grave, estendendo-se no chão, como se quisesse dormir. — Aceito até entrar calmamente numa situação de encrenca, aí então vocês precisarão de mim. Falou e fechou os olhos. Marshall ficou olhando uns instantes para ele, depois voltou para sua poltrona junto dos controles. Não reparou em La manche. O francês soube se manter afastado do caso, 77


sem se comprometer nem com um lado, nem com o outro. — Escute Deringhouse, não acha bom avisarmos Rhodan? Quem sabe estão procurando Gucky e se preocupando demasiadamente com ele. Do canto ouviu-se um gemido. Deringhouse fez um sinal para Marshall. — Preocupado? Quem é que vai se preocupar com um rato-castor tão desobediente? Aposto até que ninguém deu por falta de Gucky. Ninguém perceberá a ausência dele. Outro ruído se fez ouvir do canto. Um pouco abafado, mas dava para se escutar. — É verdade — continuou Deringhouse — ninguém sentirá falta dele. Do seu canto, Gucky ouvia tudo. Seu dente de roedor, porém, reluzia de tanta vontade de lutar. Ergueu-se e se plantou diante de Deringhouse: — Então, ninguém vai sentir falta de mim? E você ainda quer apostar? Pois bem, apostemos duas arrobas de cenoura e duas horas de coçar. — Duas horas de quê? — perguntou Deringhouse perplexo. — Duas horas de coçar. Simplesmente coçar, para aliviar a coceira. De preferência na nuca — explicava o rato-castor alegre. — Posso permitir o serviço até em prestações de meia hora. Bell cocou uma vez durante cinco horas... — Sim, é verdade. Já ouvi falar nisso — interrompeu o major, passando a mão pelos ralos cabelos. — Mas eu não caio nos seus truques. Aposte com quem quiser, mas não comigo. Virou-se para La manche: — Então, o que há? Pronto? — As coordenadas estão aí — disse o francês. — Podemos saltar. Gucky voltou ao seu canto. Em outra oportunidade, ele lembraria Deringhouse da aposta. *** Quando voltaram do hiperespaço para a continuidade do tempo-espaço, o planeta Aqua estava apenas a dois minutos-luz deles. O dispositivo de retardamento diminuiu fortemente a velocidade da Centauro. Deringhouse ligou o sistema manual, para manobrar melhor a nave. O planeta azul crescia a olhos vistos. Seu aspecto era de fato uma coisa nunca vista. Parecia realmente uma imensa gota d’água pairando no infinito, iluminada por um ciclópico feixe de luz avermelhada. O sol Beta tinha agora, aparentemente, o mesmo tamanho do sol da Terra e estava a muitos bilhões de quilômetros afastado. A luz precisava de muitas horas para vencer aquela distância. Deringhouse apertou o botão do intercomunicador e fez a ligação com o laboratório de bordo. — Méier, aqui é a central. Providencie, durante o voo, a mais completa análise do corpo celeste que temos em frente. Necessito da composição da atmosfera, dados sobre a rotação, sobre a translação e naturalmente sobre as estações do ano, dependentes da translação. Apresente-me os resultados, o mais rápido possível. — Entendido, comandante — foi à resposta. Deringhouse desligou e se dirigiu a Marshall: — Estou curioso sobre o que haveremos de descobrir. O telepata respondeu com um pequeno gesto. — Não compreendo bem seu interesse neste planeta,

major. O senhor é o comandante e eu não gostaria de me intrometer em seus assuntos. Mas, se me permitir uma pergunta: qual é a razão do grande interesse seu por este planeta, o quarto, se nossa missão consiste em fazer com que os saltadores destruam o terceiro? — Talvez seja mesmo pura curiosidade — respondeu Deringhouse. — Mas meu pensamento principal é a segurança. Neste sistema, entram em questão, para seres inteligentes, apenas dois planetas: o terceiro e o quarto. Se o terceiro está destinado à destruição, queria apenas saber se o quarto se presta para ulteriores operações. Isso, você compreende, Marshall. Além disso, a nossa segurança exige que estejamos informados sobre as condições neste sistema, com exatidão. Acho que posso me responsabilizar pelo pequeno atraso. Não perdemos nada. Se os saltadores surgirem, receberemos imediatamente o chamado de McClears. O telepata constatou que Deringhouse falou exatamente o que pensava. — Concordo com o senhor, major. Tem também a intenção de aterrissar em Aqua? — Depende das circunstâncias. Se puder contar como encontrar vida inteligente, tentarei naturalmente contatos... Ouviu-se um zunido: — Desculpe, é do laboratório — disse Deringhouse interrompendo a conversa com Marshall. Logo a seguir, apertou um botão e se apresentou: — Aqui é a central. — Aqui Méier, do laboratório. Os dados já existentes: o quarto planeta tem um dia de quarenta e oito horas. A translação em torno do sol Beta leva duzentos e setenta anos da Terra. A variação das estações do ano é, portanto, muito lenta e mesmo insignificante, pois quase não existe eclíptica. Atmosfera, respirável, um tanto pobre em oxigênio, rica em vapor. Um trecho de terra firme mais ou menos nas dimensões da Europa forma o único continente, além de uma série de ilhas menores. O resto da superfície é de água. O mar não é muito fundo. É isto o que temos até o momento. — Obrigado, Méier. Deringhouse permaneceu calado por uns instantes, olhando para a tela. O planeta azul já estava bem grande, enchendo quase todo o campo visual da tela. Ao brilho dos raios avermelhados do sol, destacavam-se os contornos do único trecho de terra, perdido na imensidão das águas. Se lá existissem seres inteligentes, deveriam viver principalmente do mar e dos seus produtos. Navegação marítima só poderia existir em pequena escala, pois, por que razão se iria atravessar o mar, se não havia outras praias? Uma espécie de civilização, completamente diferente, ter-se-ia desenvolvido aqui. Deringhouse estava ansioso para conhecê-la. — Procuremos no continente um bom local para aterrissar — resolveu ele, finalmente. — Os habitantes do planeta não devem conhecer a navegação aérea. — Quem? Habitantes? — perguntou Marshall, acentuadamente. Não obteve resposta. A Centauro deu uma volta em torno do planeta. Passou bem próxima do deserto azul das águas e se aproximou depois do litoral do continente. Os grupos de pequenas ilhas não demonstravam nenhum indício de civilização. Cobertas de densas florestas, lembravam as ilhas paradisíacas dos 78


Mares do Sul. Enseadas de areia eram um convite para o repouso, mas Deringhouse não tinha em mente tirar férias. O que procurava eram seres inteligentes diferentes, e Aqua tinha que ter vida. A primeira visão que prendeu a atenção de Deringhouse foi uma construção baixa, com cúpulas, nas imediações do litoral, a menos de dois quilômetros da praia. A água devia ser muito rasa neste trecho, pois se podia ver facilmente o fundo. A cúpula, na sua parte superior se elevava para fora d’água, tinha uma plataforma e um corrimão. Como vigias, as janelas se enfileiravam em redor do edifício, cuja parte inferior estava imersa na água e certamente iria até o fundo do mar. A Centauro diminuiu a velocidade. Deringhouse dirigia com o olhar fixo no acontecimento. John Marshall chegou até ele, olhando também para a cúpula. La manche, como de hábito, ficou alheio ao que se passava. Sua preocupação eram os controles e realmente ele cuidava que o pesado cruzador seguisse sua rota. — Considerável desenvolvimento — disse o telepata. — Gostaria de saber por que construíram aquilo na água, quando têm tanto espaço em chão firme. Deringhouse continuava olhando para o litoral, já bem próximo. — Você tem razão. Não se vê nada semelhante em terra. Eu esperaria, no mínimo, uma cidade por aqui, mas vejo só mata virgem, litoral arenoso e em parte cheio de rochas. Misterioso, verdadeiramente misterioso. A cúpula ficou para trás, ao atingirem o litoral. Foram penetrando uns quilômetros. A seus pés, terra jamais tocada por ser inteligente, sem nenhum vestígio de trabalho que denotasse inteligência; o terreno subia brandamente, apresentava cadeias de montanha de pequeno porte, grandes estepes e florestas a perder de vista. De uma civilização, não se podia falar. “É uma coisa singular”, pensava Deringhouse, fitando o continente. “O planeta só tem este continente e a gente supõe que os habitantes teriam que aproveitar cada metro quadrado. Devia haver lá embaixo um emaranhado de casas e instalações, como em nossas capitais. E o que vemos? Nada, absolutamente nada. Onde estão os homens?” — Se não tivéssemos visto a cúpula, eu diria que não há nada por aqui — disse Marshall sarcástico. — Mas a cúpula está aí. Existe vida em Aqua e nós temos que encontrar. Com esta constatação, apoiou-se no espaldar da poltrona, parecendo completamente alheio ao que se passava ao redor dele. Marshall acenou amigavelmente para Lamanche e deixou a central, seguido por Gucky que lhe estava lendo os pensamentos. Marshall se dirigiu diretamente para o local da nave onde estavam reunidos os dez mutantes. Mal havia fechado a porta da central, Deringhouse despertou de sua profunda meditação. Avançou um pouco mais para frente e postou-se diante da tela panorâmica, dizendo a seu oficial: — Qual é sua opinião, La manche? O francês alteou os ombros, esperou um pouco e falou: — Não sabemos o que representa aquela cúpula. Quem sabe se trata até de uma espaçonave derrubada? Devemos examiná-la, aproximando-nos. Assim se confirmaria minha tese de que não há vida inteligente por aqui.

Deringhouse não parecia de maneira alguma satisfeito com esta resposta. — Espaçonave derrubada ou caída. Puxa, a cúpula é um edifício, está firme no chão! A minha pergunta é apenas, por quê? — parou de repente. La manche levantou os olhos e acompanhou o olhar do comandante. Na tela, ainda se via nitidamente a superfície do quarto planeta. Aos poucos, as cores se tornavam mais naturais. E La manche viu também, nas bordas do grande planalto, as pequenas saliências, em forma de cúpulas. Estas saliências tinham um reflexo avermelhado com os raios do sol, fulgiam como se fossem de metal. Não somente seu aspecto, mas também sua disposição simétrica denunciavam sua origem artificial. No mesmo instante, a Centauro começou a aterrissar. *** Na reunião dos mutantes houve um grande grito de surpresa, quando Marshall entrou acompanhado de Gucky. — Que surpresa agradável! — exclamou Ras Tschubai, o africano teleportador, todo contente. — Você é a arma secreta nesta missão? — Nada de arma secreta — murmurou Marshall — o malandro penetrou clandestinamente a bordo, contra ordem expressa de Rhodan. O africano fez uma cara de espanto: — Então, Gucky, eu não quero estar na sua pele. — Ele não tem um pêlo grosso e lindo — disse a jovem Betty Toufry, inclinando-se, para coçar sua nuca. Gucky estava feliz. Aliás, gostava muito da jovem telepata, cujas faculdades paranormais eram muito semelhantes às suas, pois Betty era também telecineta. — Rhodan vai desculpar você, Gucky, não se preocupe — comentou Betty. — Se você der uma palavra a meu favor, com toda certeza — disse Gucky, parecendo mais confiante. O perscrutador japonês Doitsu Ataka sacudiu a cabeça. — Disciplina é isto: fazer somente o que o chefe manda. Agora, para mim está bem. A vida não será mais tão monótona, pois Gucky sempre inventa umas gozações. Marshall lançou um olhar de desaprovação para o japonês. O rapaz falou de disciplina e foi o primeiro a quebrá-la. Mas Gucky aproveitou a situação a seu favor. — Você tem razão, Ataka — disse ele contente. — Quem é que sabe até quando estaremos vivos? Por que não podemos estar alegres? Rhodan quer que nós todos morramos, naturalmente só aparentemente. Portanto, vamos morrer, pelo menos, alegres. Proponho um torneio de coçar e me apresento como voluntário para... Marshall achou conveniente mudar de assunto. — Prestem bem atenção ao que vou dizer — disse ele, cortando todo sorriso. — Acabamos de descobrir, neste quarto planeta, que o comandante apelidou de Aqua, os primeiros indícios de vida inteligente. Vamos aterrissar. Ninguém sabe o que vamos encontrar, uma coisa está fora de dúvida: isto não tem nada que ver com nossa missão verdadeira. Foi, infelizmente, uma dedução falsa, ilógica, mas Marshall só o percebeu mais tarde, como os outros também. No momento, não lhes sobrou tempo para pensar. O alarme tocava por toda a nave. Por uns instantes, 79


Marshall parecia paralisado, como que ouvindo a si mesmo; depois, um estremecimento percorreu todo seu corpo. — Deringhouse, que está acontecendo? Seus pensamentos são caóticos e confusos... Ouviu-se um zumbido estridente. A tela do intercomunicador, que liga entre si todas as seções da nave, acendeu. Nela apareceu a imagem de Deringhouse, com fisionomia de atônito e indeciso. —Atenção geral — disse com voz áspera. — Prontidão de emergência. Ocupar todos os postos de defesa. Alguém está exercendo todos os controles sobre a Centauro e nos está puxando para baixo. Estamos aterrissando. Fez uma pausa, como se estivesse pensando, depois continuou: — Marshall, seus mutantes devem estar preparados. Talvez precisemos de seu auxílio. — Que está se passando com a nave? — perguntou Marshall. Já experimentou...? — Inútil, caímos sob a ação de poderosos raios de atração, que paralisaram todos os nossos controles. Para lhe ser sincero, Marshall, não tenho intenção de me defender contra os inimigos. Aguardemos, pois, para saber o que pretendem de nós. — Não acha estranho, que uma raça, de cuja atividade não conseguimos ver nada na superfície de Aqua, tenha desenvolvido meios técnicos tão avançados de poder subjugar por forças mentais uma nave tão grande como a Centauro? Deringhouse esboçou um leve sorriso. — É exatamente o que estou querendo descobrir. O que estamos presenciando é paradoxal e impossível. Que existisse aqui neste mundo uma civilização não me admiraria muito. Mas, deste jeito...? Marshall percebeu como o assoalho a seus pés estremeceu todo. Depois veio um solavanco que quase o derrubou. Após o quê, reinou silêncio. Deringhouse, diante da tela, deu uma olhada para o lado, antes de se dirigir aos que o viam. — Já aterrissamos — disse sem expressão na voz. — Encontramo-nos no meio de um planalto rochoso. Estamos cercados por cúpulas de metal cintilante. Mas não vejo armas. De homens ou outros seres vivos, não há nenhum sinal. Devemos esperar até que os desconhecidos queiram entrar em contato conosco. Pensem, porém, numa coisa: não estamos indefesos, meus senhores. Ao menor vestígio de uma ação hostil do lado oposto, nós nos defendemos sem consideração. Mas não seremos os primeiros a iniciar a guerra. Sem o meu comando, não abriremos fogo. Marshall ouviu como os postos de defesa estavam se preparando para se manterem de prontidão. Deu algumas instruções aos mutantes e deixou o aposento para se dirigir ao posto de comando, de onde se tinha uma vista melhor. Em caso de emergência, podia-se dali mesmo comandar o ataque dos mutantes. Deringhouse estava de pé diante da galeria panorâmica, observando toda a circunferência da Centauro já ancorada. Lançou um rápido olhar para Marshall, sem se perturbar em suas observações. La manche estava sentado fora dos controles do envoltório energético, que estavam desligados. — Não podem saber de onde viemos, embora possuam rastreadores estruturais — disse Deringhouse meio incerto. — A Centauro e a Terra estão equipadas com os compensadores correspondentes. Ninguém pode localizar

nossos hipersaltos. Esta arma me tranquiliza. — Apesar disso, puxaram-nos do espaço — disse o telepata pensativo. — Não tem importância, Marshall. Confesso que no início estávamos impotentes e tínhamos que nos submeter aos fatos, mas agora, creio eu, já podemos bombardear suas instalações. Mas não vejo razão para isto. Queremos saber primeiro como são e quem são eles. Olhou novamente para a tela, Marshall o acompanhava. O pesado cruzador estava parado num amplo planalto. A uma distância de trezentos metros estava a primeira cúpula metálica, que escondia um trecho da beira da floresta. No horizonte cintilavam os picos de montanhas distantes, ao sol do meio-dia. A segunda cúpula estava mais à direita, depois a terceira e a quarta. Formavam um círculo em cujo centro estava a Centauro. La manche acordou de sua letargia. — Uma verdadeira cilada, uma teia de aranha invisível — dizia ele acabrunhado. — Estamos presos, exatamente no foco dos raios de atração. Jamais teria imaginado que estes fulanos chegariam a tanto. Por que não se manifestam? — Devem ter seus motivos — respondeu o comandante. Estava de olhos fixos num determinado ponto à margem da floresta. — Acho que nossa curiosidade será satisfeita em pouco tempo. Lá vem uma viatura. Os outros dois homens também estavam olhando. Das sombras das árvores enormes, de conformação esquisita, despregava-se uma coisa escura, rolando lentamente pela planície afora. Deringhouse ligou o dispositivo de ampliação. Agora se via mais nitidamente. Era uma espécie de carro blindado, embora sem a torre de artilharia. Em compensação, a cúpula semiesférica era de um material diáfano. Carros deste tipo eram utilizados frequentemente para exploração de mundos desconhecidos, principalmente quando a atmosfera pudesse ser nociva. Atrás da cúpula viam-se, com pouca nitidez, os contornos de algumas figuras. A distância não permitia ver detalhes. Deringhouse virou-se para trás e olhou para Marshall. — Nenhuma novidade? Ainda não há impulsos de pensamentos? — Sim, mas muito insignificantes. Estão se protegendo, já tiveram que lidar com telepatas. Talvez sejam também telepatas e conhecem as medidas de segurança necessárias, para se protegerem das radiações do cérebro. Deringhouse mexia na regulagem da ampliação da imagem e nada respondeu. Notou-se nos seus olhos um brilho maior quando observava o carro se aproximando. Queria dizer alguma coisa, mas acabou ficando calado. Marshall reparou que as mãos do comandante tremiam. — Gucky!... — enviou sua ordem telepática. — Teleporte-se imediatamente para a central. O pensamento ainda não tinha terminado, quando o ar estremeceu no meio da central e do nada surgiu o ratocastor. Ouviu a ordem de Marshall e veio no mesmo instante. — Que há? — chilreou ele, bem disposto como sempre. — Estamos entrando em contato com os estranhos, Gucky. Infelizmente estão protegendo o pensamento. Temos que saber com quem estamos lidando. Você podia... — Se posso!... — disse Gucky entusiasmado, mas continuou com um sorriso malicioso: — não é verdade, 80


você vai dizer uma palavrinha a meu favor, quando o chefe... — Isto é suborno — disse Deringhouse, sem olhar para trás. — Mas está bem, eu o defenderei, se você dentro de dez segundos me disser quem é que se aproxima de nós naquela viatura. Talvez eu me engane, mas os contornos daquelas figuras apagadas me parecem conhecidos... Marshall teve um calafrio. — Conhecidos... Meu Deus... Eu tive a mesma impressão com os impulsos dos pensamentos. Será um acaso? — Por que discutir? — perguntou Gucky. — Tenho apenas cinco segundos. Até logo... Nova cintilação no ar e o lugar onde estava Gucky ficou vazio. Dois segundos depois, já estava de volta. No seu semblante, lia-se grande espanto. Com as orelhas de pé o pêlo eriçado, sentou-se nas patas traseiras, apoiando-se na ampla cauda. — Não, uma coisa desta... — disse, soltando um longo suspiro. — Quem teria pensado como o mundo é pequeno, aliás, o mundo, não: como o universo é pequeno! — Mas o que houve? — insistiu Deringhouse, já irritado, deixando de lado a tela panorâmica. — Não nos deixe malucos, Gucky, como são eles? — Fale logo, Gucky — acudiu Marshall, que não podia mais se livrar de uma sensação esquisita. Começou a suspeitar que estavam diante de uma terrível surpresa. — Você os viu? O rato-castor fez que sim, vagarosamente. — Materializei-me no carro, no meio deles. Por motivo de precaução, mantive a respiração, porque nunca se sabe se a atmosfera é apropriada para nossos pulmões. Mas meus cuidados foram inúteis. Respiram o nosso ar. E ficaram espantados quando me viram. — Puxa vida, Gucky! — gritou Deringhouse, com o rosto vermelho. — Quero saber como parecem eles. São seres da água? — Que ideia maluca é esta? — perguntou Gucky, que não perdia a calma. — Você acredita que peixes inteligentes montaram uma base terrestre aqui? Já se ouviu besteira maior? — Gucky — disse Deringhouse, alteando a voz. — Você talvez não saiba como é importante, mas eu lhe peço mais uma vez para responder minha pergunta: como é que parecem os estranhos? E o que quer dizer sua expressão: “o Universo é tão pequeno”...? — Vocês não me vão acreditar, mas eles se parecem com os tópsidas. E se me posso expressar mais claramente, sem decepcioná-los, gostaria de jurar que são os tópsidas. Para Deringhouse e para Marshall foi como se uma mão gelada lhes apertasse o pescoço. É verdade que já se haviam passado dez anos desde que estes sáurios altamente desenvolvidos e muito inteligentes tinham sido encontrados no sistema Vega. Mas as escaramuças com eles ainda estavam bem impregnadas na memória dos dois homens. Os tópsidas, de estatura mais ou menos idêntica à do homem, tinham duas pernas e dois braços, geralmente utilizados como braços mesmo. Os dedos das mãos eram seis, o corpo era coberto por uma camada de escamas marrom-escuras. A cabeça era de um lagarto grande, com a conformação característica dos sáurios; os olhos redondos, negros e móveis pareciam ver tudo que acontecia num raio

de 180 graus. — Tópsidas! — falou Deringhouse, respirando profundamente. Depois comentou: — É só o que nos faltava. Estes miseráveis crocodilos devem estar metidos em toda parte? — Eles dominam seu pequeno império sideral — disse Marshall, pensando nervosamente. — Se não me engano, este império é em algum lugar da Constelação de Orion, portanto aqui nesta região. — Sim, afastado da Terra por oitocentos anos-luz. É bem longe daqui. — Nem tanto assim — contradisse Marshall. — De qualquer maneira, está na mesma direção. Não é, pois, de se estranhar que tenham uma base por aqui. — Num mundo desabitado? Por que motivo? Gucky tinha ouvido a conversa de cabeça baixa, aparentemente sem maior interesse. Mas chegou a hora de intervir: — Por que vocês estão quebrando a cabeça com isso? Perguntem diretamente a eles, o que estão fazendo aqui. Olhem aí, já estão chegando. Deringhouse deu a volta para chegar à tela. A viatura com uma pequena cúpula já estava parada a uns trinta metros da Centauro. Não havia dúvida de que os sáurios já sabiam a mais tempo que se tratava de uma belonave dos arcônidas. Quem sabe, esta circunstância poderia ser aproveitada de uma maneira ou de outra. A cúpula da viatura se abriu e dela saíram três sáurios. Usavam uma espécie de uniforme que lhes encobria parcialmente o corpo de escamas. Todos traziam o radiador energético num coldre preso ao cinto. Davam a impressão de arrogância. A julgar pelas aparências, a superioridade estava com a tripulação da Centauro, mas Marshall sabia muito bem que os tópsidas, por índole, não conheciam o medo. E não conhecendo o medo, estavam acostumados a lutar até a última gota de sangue, mesmo numa situação sem saída. O medo de um ditador era maior que o da morte. — Têm nervos de aço — dizia Deringhouse, que havia conhecido os tópsidas como comandante dos ágeis caças espaciais. — Colocam-se simplesmente diante das bocas de nossos canhões e esperam para ver o que vamos fazer. Poderíamos transformá-los em átomos. — ...o que não resultaria em vantagem para ninguém — permitiu-se La manche observar. — Querem que eu os faça correr daqui? — ofereceu-se Gucky prontamente. — Você ficou maluco? — perguntou Deringhouse. — Quero saber o que procuram aqui e o que querem de nós. Marshall, você vai me acompanhar. Vamos dar uma olhada nos rapazes. Esperamos que entre eles não haja ninguém que nos conheça. — Não há possibilidade disso. Para eles, nós parecemos todos iguais, como eles para nós. Eu não conseguiria distinguir um do outro. Mas que lhes vamos dizer quando nos perguntarem quem somos? Deringhouse deu as últimas instruções a La manche e se dirigiu para a porta com Marshall. — Não podem, em hipótese alguma, saber que somos da Terra. Expliquemos a eles que pertencemos a um ramo dos saltadores. Provavelmente haverão de acreditar, embora os saltadores não costumem usar naves esféricas. Acho bom assim, porque não são muito amigos dos arcônidas e sabem que também os saltadores não se dão bem com os 81


arcônidas. — Tenho a impressão — dizia Gucky caminhando atrás dos dois homens — de que aqui começa uma trama. Esperemos para ver. La manche ficou olhando para eles. — Se correr tudo bem, Jean — disse ele para si mesmo — vou devorar três robôs de combate no almoço. Sem mostarda. Ao que Gucky, virando-se na porta, acrescentou: — Sem mostarda, esta é a condição.

3 Quando a escotilha da saída principal da Centauro se abriu, a mais de cinquenta metros do solo, John Marshall percebeu um ruído desagradável no lado de trás. A escada rolante, brilhando como prata, estirou-se da escotilha para o chão lá embaixo. Deringhouse apalpou a coronha da arma, para ver se não estava presa. Depois subiu no degrau superior, que imediatamente começou a movimentar-se para baixo. Marshall o seguiu. Os três sáurios estavam imóveis diante da gigantesca nave, esperando, convencidos de sua força. Para eles eram dois prisioneiros, e seus olhos negros e redondos eram um misto de expectativa e de malícia. A aparência dos dois homens parece que não os surpreendeu. Marshall se lembrou do que acontecera outrora no sistema Vega. Lá, pela primeira vez, os terranos se defrontaram com a raça dos sáurios. Rhodan conseguiu tirar deles a grande belonave arcônida Stardust III. Por fim, conseguiram expulsar os tópsidas, reinando depois a calma. E agora se defrontam novamente, aliás, de maneira bem diversa, pelo menos conforme os planos de Deringhouse. As mãos dos tópsidas, verdadeiras garras, já empunhavam as armas. Marshall penetrou-lhes o pensamento e não achou nada, a não ser curiosidade misturada com grande atenção. Estavam muito seguros de si. Quando Deringhouse saltou da escada rolante e se encaminhou para os três sáurios, a tensão entre os homens e os tópsidas parecia uma muralha invisível. O major parou a dez metros deles, sempre com a mão direita na coronha de sua pistola energética. Nos lábios, um leve sorriso. Conhecia bem a mentalidade dos sáurios, para não duvidar de qualquer emboscada. Marshall se mantinha a alguns passos atrás de Deringhouse, tentando decifrar os pensamentos do adversário e ver suas intenções. O resultado era mínimo. Antes que os dois terranos pudessem dizer uma palavra, falou o tópsida em puro intercosmo: — Os senhores se encontram em território de nossa soberania e serão, portanto solicitados a ficarem sujeitos às nossas ordens. Não lhes acontecerá nada, se não quiserem resistir. Quem são os senhores? Deringhouse não aparentou a menor surpresa. — Não tínhamos nenhuma intenção de descer em seu território, fomos forçados a Isto. Sou um saltador, da estirpe de Gatzel. O tópsida fez um sinal com a cabeça. — É o que estávamos pensando, estranho. Sua

aeronave, no entanto, é de origem arcônida. Conhecemos bem este tipo. — Tem razão — respondeu Deringhouse, com um sorriso calmo. — Tipo cruzador pesado. Nós o tomamos dos arcônidas, por ocasião de um ataque. O senhor tem alguma objeção a fazer? O tópsida começou a sorrir, mas não com espontaneidade. — Não, contra isto não temos absolutamente nada. Os arcônidas não podem ser considerados nossos amigos. Que pretendem os senhores neste sistema? Não há nada para se comerciar, e quando houver, nós mesmos o faremos. Deringhouse ergueu os ombros. — Estávamos em voo de rotina, quando descobrimos este mundo. Quem sabe teria vida, pensávamos nós e começamos a examiná-lo. Não achamos nada, a não ser estas misteriosas cúpulas. — Pertencem ao nosso sistema de proteção — explicou o tópsida. — O planeta das águas foi por nós descoberto há muitos anos e nós o ocupamos. Serve-nos de base. — Pelo menos até que alguém se mexa, tudo estará em ordem — disse Deringhouse com um pouco de cautela. — E já que parece não existir nativos por aqui... O tópsida continuava sorrindo. — Existem alguns. Aceitaram o nosso domínio. Houve uma curta pausa, depois: — Não lhes sobrou outra alternativa. Deringhouse não conseguiu ocultar por mais tempo sua admiração. — Nativos? Neste mundo? Não vimos nada disto durante nosso voo. — Os senhores não têm, certamente, os instrumentos necessários para observar a vida sob a água. Na mesma hora, Deringhouse e Marshall compreenderam tudo. É claro que num mundo como este, seres inteligentes teriam que se desenvolver na água. E se os tópsidas julgaram conveniente estabelecer uma base neste planeta, devia se tratar de um ser vivo que merecesse mais respeito. Marshall estava pensando na grande construção das cúpulas, feita a poucos metros da praia. Seu formato não tinha relação nenhuma com as instalações habituais dos tópsidas. Certamente haviam sido construídas na água, para que os habitantes do mar entrassem em contato com seus senhores. Aos poucos, foi se projetando uma imagem mais clara na mente de Marshall. — Meu nome é Al-Khor — disse o tópsida do meio. — Sou comandante da base nesta parte do continente. Posso lhes pedir o favor de deporem as armas? Não gostaria que, por um motivo qualquer, surgisse um conflito entre nós e os saltadores. Assim que eu liberar sua nave, receberão de volta suas armas. Deringhouse hesitou um pouco. Uma multidão de idéias passou por sua cabeça, sem que conseguisse colocá-las em ordem. Como a pedir socorro, deu uma olhada para Marshall. O telepata fez sinal que sim. Sabia já há muito que os tópsidas realmente faziam questão de não pôr em risco a paz existente entre eles e os saltadores. — Está certo — respondeu Deringhouse, retirando a pistola energética da cintura. — Queremos nos submeter às suas ordens. Um dos sáurios apanhou a arma com as garras pontudas e a ficou olhando com interesse. Marshall também entregou 82


as armas. — Como compensação — propôs Deringhouse — dênos a garantia de que o senhor não nos deterá contra nossa vontade e nos autorize a qualquer momento a pedirmos as armas de volta e deixarmos este planeta. Al-Khor continuava sorrindo. — É claro que lhes damos a garantia, com todo prazer. Ninguém vai impedi-los de usufruírem de nossa hospitalidade, se não nos quiserem dar este prazer. Mas antes, creio eu, devemos conversar um pouco. Certamente o senhor terá alguma coisa para nos contar. E a vida, creia-me o senhor, numa base tão solitária como o “mundo d’água” é muito monótona. Venha, por favor. — E a minha tripulação? Não gostaria que uma ação impensada deles... — Não nos opomos a que o senhor dê instruções à sua tripulação — interrompeu Al-Khor. — Dê-lhes o conselho de não abandonarem a nave e de não tomarem nenhuma iniciativa. Deringhouse aceitou a ideia e ligou o minitransmissor de pulso. — La manche — disse ele em inglês — estamos aceitando, na aparência, as condições dos tópsidas. Ponhase em contato com McClears. Ele deve vir para cá e aguardar novas ordens. Por enquanto não existe perigo iminente. Fim. — Entendido — foi a resposta curta. Al-Khor comprimiu desconfiado os olhos redondos: — Por que não falam intercosmo? — Meu substituto é muito jovem, Al-Khor, só entende o dialeto de minha estirpe. Disse a ele que ficasse tranquilo e esperasse a nossa volta. O tópsida parecia contente. Com a mão estendida, num sinal de convite, indicou a porta aberta da viatura de cúpula e deu a preferência para seus hóspedes não voluntários. Ainda com o carro em movimento, Marshall fez contato com Gucky e lhe transmitiu o plano de Deringhouse, que tinha acabado de ler telepaticamente. *** Major McClears pautava seus atos sempre em deduções lógicas. Quando recebeu a mensagem alarmante de Lamanche, não pôde deixar de praguejar horrivelmente. Depois, começou a pensar o que teria acontecido se Deringhouse não tivesse voado para o quarto planeta. E a resposta a esta hipótese seria muito simples: teriam esperado com toda calma, no terceiro planeta, até que os saltadores aparecessem; atacariam e se retirariam, assim sucessivamente, como se quisessem defender mesmo a Terra. A mudança constante de cada ataque daria a impressão de que se tratava de uma grande frota de supercruzadores, que de maneira alguma poderiam ser destruídos. Com o passar do tempo, os saltadores já teriam chegado à ideia de colocar uma bomba de gravitação na pátria dos terranos e assim destruí-la parcialmente. Estaria tudo perfeito... mas, no quarto planeta estavam os tópsidas. Eis o ponto nevrálgico. E aí então os pensamentos e especulações de McClears começaram fluir inconscientemente no mesmo sentido que os de seu amigo Deringhouse. Por este motivo, teria que negligenciar sua própria segurança. Mais tarde, quando Rhodan se recordava deste fato, tinha que conceder que um

ser racional não podia agir de outra maneira, colocando sua segurança em segundo plano em relação à segurança da Terra. E foi assim que uma ação errada de McClears iniciou o mais genial de todos os lances que Perry Rhodan jamais empreendeu. Fez apenas o que era necessário para dar um toque de veracidade à mentira de Deringhouse referente aos tópsidas. Seus pensamentos se atropelaram, enquanto dava ao encarregado do rádio a ordem de chamar de volta o tenente Tifflor. O mais competente oficial da nova geração de Rhodan estava exatamente em viagem com a Gazela para informar-se das condições na superfície. O disco voador achatado — trinta metros de diâmetro e dezoito de altura — era a nave ideal para tais empreendimentos. A ordem o alcançou exatamente quando acabava de aterrissar numa planície e já ia botando o pé em terra. Não foi com boa vontade que atendeu à ordem de voltar à espaçonave Terra. Sua disposição era a melhor do mundo quando se viu frente a frente com McClears na Central. — Um planeta maravilhoso, mas infelizmente sem vida animal. Algo incompreensível para mim, pois não posso imaginar condições melhores. Ah!... o senhor me mandou chamar de volta. Suponho que seja por motivos muito imperiosos. — Realmente muito imperiosos — respondeu McClears seco. Ainda não tinha chegado a um ponto final com seus encrencados pensamentos, mas num particular seu plano já estava traçado. — Deringhouse aterrissou no quarto planeta, que batizou de Aqua. — Nada de extraordinário nisso, não acha? McClears não perdeu a calma. — Infelizmente, não foi o primeiro que se enamorou do “mundo d’água”, tenente Tifflor. Outros chegaram antes dele: os tópsidas. — Tópsidas? — Tifflor fez um esforço para se lembrar. Naquele tempo, era ainda jovem demais e sabia dos tópsidas só por ouvir falar. Mas lembrou-se vagamente de um filme a que assistira sobre a invasão dos sáurios do sistema Vega. — O senhor não está se referindo àqueles seres parecidos com crocodilos que pretendiam destruir a Terra e por engano acabaram caindo em cima dos ferrônios? — Exatamente deles é que estou falando — disse McClears. — O que eles procuraram por aqui? — Não tenho a menor ideia, recebi uma mensagem muito curta de Deringhouse de que os tópsidas obrigaram a Centauro a fazer uma aterrissagem forçada e prenderam o comandante. Recebemos instruções de nos dirigirmos para Aqua e lá aguardar novas ordens. — Como quer Deringhouse dar ordens, se está preso? — queria saber Tifflor. — Ou se trata apenas de uma prisão simulada? — Parece que é mais ou menos isto. De qualquer maneira, veremos os detalhes em Aqua mesmo. Não me agrada ter os tópsidas na vizinhança. Mas já que estão aí, temos que fazer tudo para tirar proveito da situação. Tenho a impressão de que Deringhouse pensa assim também, pois do contrário não se deixaria prender tão facilmente. — O senhor tem algum plano? — Tenho. Se bem que um tanto vago, mas preste atenção... 83


E McClears começou a explicar seu plano. Logo depois das primeiras frases, o jovem tenente compreendeu tudo. Um sorriso iluminava seu semblante, mas não interrompeu o oficial mais velho, que continuou explicando, enquanto a Terra já estava na direção certa. Depois da segunda transição, quando Aqua já despontava na tela, concluiu com as palavras: — Estou plenamente certo de que assim matamos dois coelhos com uma só cajadada. Se soubesse como colocar Deringhouse a par do meu plano... Estou convencido de que ele concordaria e pediríamos novas ordens a Rhodan. Sem consentimento dele, não quero fazer nenhuma ligação telegráfica com a Terra. — Os mutantes! — lembrou Tifflor. — Uma possibilidade — concedeu McClears. — Infelizmente não temos nenhum telepata a bordo da Terra. Não vejo outra alternativa a não ser agir separado de Deringhouse. Deixamos a Terra circulando a grande altitude de Aqua e descemos com a Gazela para a superfície. — E o risco que corremos com isto? — Está incluído na operação — disse o major. — Deringhouse vai fazer uma cara de bobo, quando souber que vencemos depois de uma luta curta, mas violenta. Espero apenas que não tenha cuidados inúteis por nossa causa. — E eu espero — acrescentou Tifflor céptico — que seus cuidados, se ele os tiver, não sejam realmente inúteis. — Eu também — concordou McClears. *** Cercado dos outros mutantes, Gucky encontrava-se agachado no divã da sala dos oficiais. Estava a par dos acontecimentos pelas mensagens telepáticas que Marshall lhe enviava. Por sua vez, La manche, que havia assumido o comando da espaçonave, entrava em contato com eles, através do intercomunicador. O sistema por via telepática funcionava muito melhor do que via rádio. — Estão tratando Deringhouse e Marshall com muita atenção — disse Gucky, mostrando um lugar nas costas em que ele queria ser coçado. — Aparentemente dão muita importância ao fato de manterem com os saltadores boas relações. Até hoje, as duas raças quase não tiveram relações entre si. Como Marshall está deduzindo dos pensamentos do comandante, Deringhouse não tem intenção de incrementar muito estas relações. Alguém de vocês consegue compreender isto? — Eu, não — Ras Tschubai sacudiu a cabeça e olhou para Ataka, como que pedindo auxílio. — Quanto melhor forem às relações, tanto maiores serão nossas possibilidades de sairmos daqui sem encrenca. — E o que lucraríamos — disse Gucky com ironia — se sairmos daqui? — O que você está querendo dizer? — Penso simplesmente no seguinte: o que nos interessa se os tópsidas tenham uma boa impressão dos saltadores e nos deixem sair em paz? Tem isso alguma influência positiva sobre a missão de que Rhodan nos incumbiu? Não se esqueçam de que os saltadores pretendem destruir o terceiro planeta, pensando se tratar da nossa Terra. E aqui no quarto planeta, estão os tópsidas. E você ainda não está compreendendo?

Ras Tschubai realmente não estava compreendendo, ao invés dele, porém, La manche, sentado na central, sem afastar os olhos da tela panorâmica, ouvia a toda a conversa da sala dos mutantes. Pigarreou perceptivelmente, concentrou-se por uns instantes em seus pensamentos, levantou-se, e abriu a porta da central de rádio. — Alguma notícia de McClears? — perguntou ele. O telegrafista em serviço sacudiu a cabeça: — Há uma meia hora que não, senhor. A Terra saiu para uma órbita maior e continua calma. Nós aqui permanecemos na escuta. — Avisem-me assim que houver alguma novidade. — Perfeitamente, senhor. La manche agradeceu satisfeito, voltou para seu lugar e começou a refletir de modo mais profundo. Estranhamente, suas especulações se desenvolviam mais ou menos no mesmo sentido como as de Deringhouse e as de McClears. Isso era uma prova evidente de que cérebros que pensam logicamente sempre chegarão aos mesmos resultados. *** A Gazela saiu dos hangares internos da nave-mãe Terra e se deixou cair verticalmente. Somente a alguns quilômetros antes da superfície de Aqua é que o tenente Tifflor deteve a queda e colocou o aparelho em voo horizontal. A atmosfera zunia nas paredes externas do disco, achando pequena resistência. McClears e Tifflor estavam sentados na apertada cabina, já com todas as telas ligadas. Acreditaram ter visto no litoral do enorme e único continente uma espécie de cúpula brilhante no meio da água, mas não deram maior importância. Cada vez mais devagar, a Gazela descia com toda cautela necessária na exploração de um planeta desconhecido. Os dois tripulantes aguardavam com curiosidade a primeira reação dos tópsidas. E esta não se fez esperar. Bem perto do pico de uma montanha, viu-se um clarão repentino. A tela mostrou um projétil comprido que, com velocidade cada vez maior, subia vertical. Parecia ter a intenção de cruzar a trajetória da Gazela, exatamente no ponto de encontro dos dois objetos em movimento. Sem dúvida, era um míssil. Tifflor ligou o envoltório de proteção e segundos após uma detonação acompanhada de um forte clarão, causando na Gazela apenas um pequeno abalo, mostrou que o ataque dos tópsidas tinha fracassado. O mesmo aconteceu ao segundo projétil. — E agora? — perguntou Tifflor. — Muito simples, tenente. Vamos agir como se fôssemos saltadores — regulou a rota e deu a direção a Tifflor. — Dê uma volta por cima do cume da montanha e desça um pouco. O envoltório de proteção continua ligado. Vou jogar uns explosivos inofensivos para que eles saibam que temos alguma coisa não muito perigosa a bordo. Tifflor concordou sorrindo. Os sáurios haveria, por certo, de acorrer para o local e de tentar pegar vivo o relativamente inofensivo adversário. Assim estava arquitetado todo o plano de McClears. Dez segundos depois, detonou uma bomba lá embaixo aos pés da montanha, em plena mata virgem. Os estilhaços abriram pequenas clareiras na vegetação, sem produzir maiores danos. 84


E exatamente dez segundos depois, enguiçou o comando da Gazela. Tifflor, assustado, tentou recuperar o controle do disco voador, mas não conseguiu. Devagar, mas continuamente, o disco foi descendo e com solavanco maior pousou numa clareira, a menos de dois quilômetros do litoral. Como Tifflor pôde constatar, haviam descido no centro de um círculo, formados por cúpulas de metal, pequenas e cintilantes. McClears levou as mãos ao alto. — Está dando tudo certo, os sáurios vão ficar contentes de terem feito tão boa caça. Nossos oito homens continuam a bordo, enquanto nós nos apresentamos ao inimigo. — Tomara que não nos matem logo de início. — Não se preocupe isto seria contra sua mentalidade. Já lhe disse que os tópsidas são extremamente curiosos. Quererão logo saber com quem estão tratando e por que motivos viemos para cá. Devem receber estas informações de nós. E depois você vai ficar admirado de como eles vão agir. — Esperar! — exclamou Tifflor duvidoso, que naturalmente estava pensando o que Deringhouse haveria de dizer do seu modo arbitrário de agir. E Rhodan, muito mais. Aproximou-se da Gazela uma viatura. Saltaram dois tópsidas e ficaram por uns instantes olhando sua presa de guerra. De uma das cúpulas metálicas emergiu ameaçador um negro tubo de canhão, apontando para a Gazela. — Vamos embora — disse McClears. — Vamos Tifflor. O negócio é sério. E não se esqueça de que somos a vanguarda dos saltadores. O grosso da tropa ainda está a caminho. Os dois tópsidas olharam para eles com muita calma, quando saíam da escotilha, sem medo, saltando para a terra. Atrás deles, a escada de saída se recolheu automaticamente. Segundos depois, estava ligado de novo o envoltório energético. Embora os tópsidas pudessem deter o disco e impedir sua saída, era-lhes impossível destruir o aparelho ou penetrar nele. Os oito homens da tripulação estavam completamente a salvo de qualquer ataque por parte dos tópsidas. McClears não entregou sua arma voluntariamente, quando os dois tópsidas lhe pediram. Foi-lhe tirada à força e McClears não perdeu a oportunidade de dar um soco forte na cabeça do lagarto. O impacto lhe doeu muito mais do que ao próprio réptil. Mas isto não tinha importância alguma. O tratamento foi correspondente. Enquanto Deringhouse ainda era tratado como um possível aliado, declararam McClears e Tifflor como inimigos. Mas McClears não se deixou intimidar. Enquanto ele e seu jovem tenente eram obrigados a entrar na estranha viatura, sacolejando por uma péssima estrada de terra, em direção do próximo litoral, ia despejando ameaças contra os tópsidas, prometendo-lhes breve e terrível vingança. Seu comportamento era um tanto irreal, diante da situação pouco encorajadora. E assim foi que os dois tópsidas, aparentemente pouco inteligentes, não deram maior atenção às ameaças. McClears acabou também desistindo, esperando poder encontrar depois um exemplar mais inteligente desta desagradável raça. Um desejo que se realizou logo, mas não lhe trouxe maiores vantagens.

A estrada terminou no litoral. Sob as copas de altas árvores e camuflado por uma cobertura espessa de folhagem, havia um edifício baixo de metal cintilante. O fato dava a entender que os tópsidas não possuíam outro material de construção. Levaram os dois prisioneiros para um aposento, onde foram presos e entregues a seus destinos. Em poucos instantes, McClears se convenceu de que sem auxílio de terceiros, não conseguiriam sair dali. Sentou-se num canto, no chão, e começou a meditar. Tifflor, no entanto tentou se lembrar do microtransmissor embutido em seu corpo. O microdispositivo, cujo segredo nenhum cientista humano conhecia, foi-lhe implantado por cirurgia na cavidade renal direita. Qualquer telepata, cuja faixa de onda estivesse em sintonia com as supervibrações artificiais do transmissor do corpo de Tifflor, poderia localizar, até uma distância de dois anos-luz, o seu paradeiro. Além disso, havia ainda a possibilidade de se concentrar nos pensamentos de Tifflor, se a distância não fosse grande demais. O tenente podia ficar tranquilo, pois tudo quanto pensasse com concentração, seria recebido pelo telepata John Marshall. Dispunha ainda adicionalmente de um diminuto transmissor na laringe. Tifflor enviava, mas não podia receber nada... *** Al-Khor estava um pouco nervoso quando penetrou na cela dos dois prisioneiros. Seus olhos redondos faiscavam ódio. Apenas um resto de ponderação o impediu de mandar fuzilar imediatamente os supostos saltadores. — Repita o que o senhor, há pouco estava dizendo aos meus dois subalternos — disse ele, ríspido, colocando-se na porta de tal maneira, que os dois sentinelas que o acompanhavam tinham alvo livre pela frente. — Prometolhes que não vou castigá-los, se disserem a verdade. Mas, tenho que saber o que aconteceu. O major sacudiu os ombros: — Não dê demasiada importância ao que seus subalternos lhe disseram. Podem ter me compreendido mal. O que diz a respeito? — O senhor sabe perfeitamente o que estou pensando, saltador. Sabe, além disso, que não são os dois únicos prisioneiros que fizemos. Dominamos um cruzador pesado. Um tal de major Deringhouse está em nosso poder. Numa demonstração de horror, muito bem representada, McClears empalideceu todo, como Tifflor mesmo constatou, levantou-se e deu dois passos na direção de AlKhor. As armas dos dois vigias se ergueram ameaçadoras. AlKhor não se intimidou não se mexeu um centímetro de onde estava. — Se o seu depoimento for verdade, suas vidas estão salvas. McClears deu um rápido olhar para Tifflor. O tenente respondeu com um piscar de olho. Podia estar tranqüilo de que Marshall havia captado todos os impulsos. — Pode começar a perguntar — disse a Al-Khor. — Você os ameaçou dizendo que viriam homens para vingá-los? Falou também aos nossos subalternos qualquer coisa de uma invasão iminente por parte de sua gente? 85


McClears, teatralmente, mordeu a ponta da língua. Uma gota de sangue banhou os lábios inferiores. — Na minha cólera... desgraçado, não vale a pena mentir. Também não sei por que motivo lhe silenciar uma coisa, que você em poucos minutos saberá plenamente. Os saltadores supõem existir neste sistema uma base de seu eterno inimigo. Você não o conhece, portanto seu nome não tem nenhuma importância no conjunto dos acontecimentos. De qualquer modo, os superpesados estão alarmados. Deve saber que eles são a tropa guerreira dos saltadores. Todo o poderio dos superpesados vai atacar o terceiro e o quarto planetas deste sistema e destruí-los. Posso lhe dar apenas um bom conselho: abandone, o mais depressa possível, este planeta. — Que nada! Isto é um truque — respondeu Al-Khor. McClears começou a dar gargalhadas. Riu tanto que lágrimas lhe corriam dos olhos. Depois, cheio de satisfação bateu nos ombros cobertos de escama do tópsida: — Um truque! Meu caro amigo, eu juro pelos meus antepassados, de que estou dizendo a verdade. Os saltadores estão ultimando seus preparativos para despovoar este sistema, completamente. Nada pode detê-los deste plano, isso eu lhe posso garantir. — Nada — repetiu Al-Khor encolerizado. Nos seus olhos havia um brilho misterioso. — Acha que nada consegue deter os saltadores? Eu acho que há uma coisa capaz disso. Quando souberem que nós consideramos o quarto planeta como nossa propriedade, ninguém terá coragem de... — Por que não? — Por que... — Al-Khor hesitou um pouco. — Porque os comerciantes das Galáxias não têm nenhum motivo de nos fazer hostilidades. Eles não são bem vistos pelo Império. Nós, também não. Por que não podemos estar unidos? — Por um motivo muito simples, meu caro amigo — disse-lhe McClears com paciência. — Porque nós somos obrigados a supor que você é um aliado do nosso ferrenho inimigo, que tem uma base neste planeta e que praticamente o povoa. Quem estava rindo à bandeira despregada agora, era o próprio Al-Khor. — Os seres da água? Seus inimigos de morte? É ridículo. Não é apenas absurdo, mas é também... — Seres da água? — informou-se cautelosamente McClears. — Não estou compreendendo o que está falando. — Neste mundo existe uma raça um tanto inteligente, que muito raramente aparece em terra e não precisa mesmo da terra. Por este motivo, pudemos estabelecer nossas instalações, sem prejudicá-los. Estes seres existem somente na água e devem possuir suas cidades lá no fundo do oceano. Fora disso não há nada neste mundo que possa ser uma ameaça. Se não forem estes seres aquáticos, vocês saltadores foram vítimas de um engano. — Nossas informações estão exatas — continuou McClears. — Estou bem informado sobre os planos dos nossos patriarcas. Nestes planos consta que os tópsidas têm uma base pequena no quarto planeta, cuja existência não precisa ser tomada em consideração. Você está vendo que as negociações não vão servir para nada. Nossos chefes consideram vocês aliados do nosso inimigo. — Puxa vida! — exclamou o tópsida. — Diga-me finalmente quem é este inimigo figadal.

— Não estou autorizado a fazer isto — respondeu McClears. — Então vamos obrigá-los a fazer. — Mas andem depressa — disse o major com toda calma. — Nossas unidades de assalto estão chegando a qualquer momento. E então poderia ser tarde demais para vocês. Al-Khor deu um grito ininteligível, fez um sinal para os guardas e deixou a cela. A porta se fechou com um estrondo. McClears olhou para Tifflor, que repetiu baixinho toda a conversa e assim a transmitiu para Marshall e para Gucky. — Então? — perguntou McClears todo triunfante. — Vamos ver — respondeu Tifflor, meio céptico — se eles vão agir como criaturas inteligentes e corajosas. — Claro que vão agir assim. Pode ficar tranquilo. Infelizmente, não tiveram a oportunidade de averiguar isto, pois dez minutos mais tarde alguém os apanhou. Levaram-nos numa pequena viatura diretamente para o litoral. Aí, entraram numa pequena embarcação que os transportou para uma ilha de aço. Era a cúpula que há pouco haviam visto do ar. Mesmo para Deringhouse, teria parecido igual. Por uma escada lateral, subiram para o andar superior, cercado por um terraço. Depois um elevador os levou para baixo. Quem os guiava era um tópsida, muito bem armado. Nem McClears nem Tifflor pensavam em fugir. Um único pensamento os dominava: será que seu truque iria falhar? O salão tinha paredes de vidro que, de todos os lados, davam para o mar. Tinha-se aqui uma visão magnífica sobre um mundo a dez ou doze metros sob o nível da água. Comportas de vários tamanhos davam a entender que se podia atingir o mar aberto sem que a água penetrasse no salão. Ou vice-versa, podia-se do mar penetrar na cúpula. E isto parecia ser a única finalidade da instalação. O tópsida se deteve diante de uma porta. Abriu-a e se afastou, dizendo: — Aqui será a nova prisão. Ficarão aqui até que tudo tenha terminado. — Terminado o quê? — perguntou McClears, sem receber resposta. Penetrou no pequeno cubículo acompanhado de Tifflor que logo começou a falar no seu transmissor da laringe. A porta fechou e eles estavam a sós. Mas onde? Apenas a porta parecia ser de material compacto. Fora disso, pareciam mergulhados no nada, no meio do mar, cujo fundo tinha um brilho opaco. Mas logo perceberam a verdade: estavam numa cela de vidro, sob a cúpula ou ao lado dela. O cubículo transparente flutuava. Era água por todos os lados. McClears sentou-se no chão, bem no canto oposto à porta, tendo a impressão de estar sentado na água. Olhava em torno com muita curiosidade. — Isto é muito interessante — observou com sarcasmo. — Devemos estudar os segredos do mar, antes que nos afoguem. Tifflor se espantou um pouco com a frase. — Você acha que vão nos matar? — Que nada! É brincadeira minha. Mas você ouviu dizer que aqui existem peixes inteligentes ou coisa semelhante. Acho que deveríamos procurá-los, mas não me 86


pergunte o por quê. Pode ser também o contrário: os peixes devem nos ver, para saberem como parecem os saltadores. Situação maluca, não é? — Só queria saber se Marshall teve ocasião de transmitir minhas informações a Deringhouse. Infelizmente Deringhouse não é telepata. Mas pelo menos Gucky deve saber onde estamos. A água era de um azul-claro com reflexos avermelhados, em virtude da luz do sol de Beta. Neste local, o mar não teria talvez vinte metros de profundidade. Agora que a vista dos dois prisioneiros já se adaptara à penumbra do estranho ambiente, o olhar deles penetrava facilmente até o fundo do mar, situado a uns oito metros abaixo do piso de vidro da singularíssima cela. Plantas marinhas exóticas dançavam ao ritmo de uma correnteza invisível, peixes coloridos cintilavam em grandes cardumes numa determinada direção, como se estivessem sendo perseguidos por um inimigo oculto. Entre estes, flutuavam com calma e dignidade seres transparentes, que lembravam nossas medusas. Pouco mais para frente, o fundo do mar caía bem íngreme, a água se tornava azulescuro e infinito. E subitamente, Tifflor deu um grito semi-abafado. De olhos arregalados, apontava ele para o azul-escuro do mar aberto. McClears seguiu a direção indicada por seu braço estendido e pela primeira vez olhos humanos puderam ver os legítimos senhores do planeta das águas.

4 As coisas iam se tornando mais críticas. Deringhouse quase não reconheceu mais Al-Khor, quando o tópsida chamou-os. — Por que razão não me contaram nada do ataque iminente de sua gente? — perguntou o tópsida com uma tremenda calma, embora seus olhos resplandeciam ameaçadores. — Seria obrigação de vocês. — Obrigação? — questionou Deringhouse admirado. — Seria também sua obrigação nos manter presos contra nossa vontade? — Ninguém os abrigou na condição de prisioneiros. — Mas, somos realmente prisioneiros. Você quer também duvidar de que nossa espaçonave... — Aliás, sua espaçonave... — disse Al-Khor bem espaçadamente, olhando para Deringhouse com certa ironia. — De quem vocês diziam, há pouco, tê-la tirado? Dos arcônidas? Marshall captou depressa os pensamentos do tópsida e sabia por que fizera esta pergunta. Esperava que Deringhouse percebesse o veneno da pergunta, senão teria que avisá-lo. — Sim, foi dos arcônidas — disse o major cauteloso. — Mas eu não sei naturalmente se os arcônidas a tomaram de outros. Por que esta pergunta? Al-Khor concordou, aparentemente mais calmo. — É provável, pois o nome cravado com letras pretas na fuselagem não está escrito em caracteres arcônidas. Mas esqueçamos isto. O comandante de uma das naves foi colocado em local seguro. Estou preocupado sobre o que devo fazer com eles. — Deixe-nos ir embora — propôs Deringhouse. O que

você ganha nos retendo aqui? — Reféns — foi a resposta seca de Al-Khor. — Vocês devem estar presentes, com todo seu pessoal, quando os saltadores chegarem para destruir este mundo. E quem sabe, sob minhas vistas, vocês entram em contato com eles antes e os põem a par de tudo. — Isto não vai adiantar muito — disse Deringhouse com sinceridade. — Não me vão dar ouvidos. — Então vocês morrerão conosco. — Bonito — disse o major com um riso forçado. — Assim, nos tornaríamos de qualquer forma aliados, não é verdade? Al-Khor não respondeu. Sem dizer uma palavra, deixou a cela que servia de domicílio provisório para eles. Marshall franziu a testa. — Não me está agradando — disse ele — e aos meus mutantes, muito menos. Gucky está ansioso para entrar em ação, isto é, para atacar. É com dificuldade que o estou segurando. — Sua hora está quase chegando, — consolou Deringhouse, enquanto olhava para a parede lisa do cubículo. — Que está acontecendo com McClears? — Está detido com Tifflor, numa cela de vidro, abaixo do nível do mar. Deringhouse começou a rir. — Pelo menos, tem um pouco de distração — julgava ele. — Portanto, vamos lá, dê nossa posição ao rato-castor. Ele deve nos localizar e dar um pulo até aqui. Vamos pregar um grande susto nos crocodilos, eles estão precisando. Dois minutos depois, Gucky se materializou contente e sorridente, tornando o cubículo ainda mais estreito. Trouxe duas pistolas energéticas de mão e algumas granadas, não maiores do que nozes comuns, porém de ação terrivelmente devastadora. Ele mesmo trouxe na cintura uma pistola de impulsos, cujo peso lhe dava trabalho. — Aqui estamos nós — chilreou ele feliz da vida. — Vamos mostrar quem somos. — Espere um pouco — disse Deringhouse. Virou-se para Marshall, que no momento cambaleava um pouco, captando coisa muito importante; simultaneamente, também a fisionomia de Gucky se transformou numa expressão de piedade. Parecia ter perdido a disposição para qualquer iniciativa. Deringhouse se manteve na expectativa. Sabia que os dois telepatas estavam recebendo uma mensagem de Tifflor. *** McClears soltou um grito abafado. De encontro às paredes de vidro da cela, comprimiam-se dezenas de torpedos submarinos, enfileirados, como se quisessem mandar pelos ares toda a instalação de cúpulas. Os corpos esguios tinham talvez metro e meio de comprimento e refulgiam como prata sob a luz avermelhada do sol. Jatos d’água de grande pressão irrompiam da parte traseira dos terríveis projéteis desfazendo-se logo a seguir. Só depois de olhar com mais atenção, é que McClears percebeu seu engano: não eram torpedos artificiais, mas seres vivos, semelhantes a focas, com boca enorme, sempre aberta, olhos pequenos, orelhas ovais. A velocidade do pequeno esquadrão, agora, já era menor. O forte jato de 87


água que lançavam para trás já tinha cessado. Que animais seriam estes? Estavam parados... Com muita curiosidade, nadavam em torno da cela de vidro, olhando sempre para os ocupantes do cubículo, com olhos inteligentes. Um deles chegou bem perto e comprimiu o focinho contra a parede de vidro. MacClears fitou-o cara a cara, sentindo então uma forte vibração. Tifflor descrevia a cena para Marshall e Gucky. — São assim os peixes-homens — murmurou McClears. — Vieram para cá como que atirados por jato. Não se movem como os demais peixes por meio das nadadeiras, mas têm um sistema próprio: engolem a água, comprimem-na algum tempo em seu interior, e depois a expelem. Santo Deus, verdadeiros foguetes submarinos vivos — colocou a mão direita sobre a parede de vidro. — Produzem ondas vibratórias — disse pensativo. — Quem sabe é uma maneira de se comunicarem? Ah! Se pudéssemos entendê-los... Marshall captou a mensagem e informou Deringhouse a respeito. — Ataka! — disse Gucky. — Acho que você tem razão, Gucky — disse Deringhouse. — O japonês decifra ondas sonoras, que nenhum ouvido humano consegue captar. Mesmo ultrasom. Se estes seres não são telepatas, e parece que realmente não o são, devem talvez se comunicar através de vibrações ou de sons no campo de ação do ultrassom. Ataka pode constatar isto. Além disso, sua capacidade de percepção está combinada com uma telepatia inconsciente, de maneira que poderá entender sons completamente estranhos para nós. Gucky, vá buscar Ataka. O rato-castor se levantou, dizendo: — Cubículo apertado, major! Vocês não vão ficar muito tempo aqui. Sairemos e vamos libertar McClears. O tempo de representar já passou. Não precisamos mais nos camuflar perante os sáurios. Agradeçamos aos deuses do espaço. — Como assim? Que pretende fazer, Gucky? — perguntou Deringhouse, que não compreendeu as palavras de Gucky. — Já fiz voar pelos ares robôs e bios — disse o ratocastor, recordando suas bravuras. — Mas fazer voar um crocodilo será uma sensação formidável. Um segundo a mais e ele já haviam desaparecido. Com voz mais baixa, disse Deringhouse: — Os tópsidas ficarão surpresos quando souberem que possuímos armas, mas não podemos subestimá-los. Morrem, se for preciso, sem piscar um olho. Só há um ponto em que são muito sensíveis: são muito supersticiosos. — Então, Gucky é o “homem” certo, major. — Exatamente — concordou Deringhouse. — E o malandro sabe disso. De acordo com o regulamento, devia estar preso. — Não há prisão para detê-lo — comentava Marshall uma coisa que todos sabiam. — Em muitos sentidos, Gucky é um ser maravilhoso. Houve uma vibração no ar e surgiram Gucky e Ataka. O japonês se apertou como pôde. Não dava para ninguém se mexer. A cela era pequena demais. A ventilação também estava horrível. — Isso é uma bodega — disse Gucky, com ironia. — Não por muito tempo — acentuou Deringhouse. — Gucky, você consegue abrir o cadeado da porta?

O rato-castor pulou para perto da porta e olhou um pouco o cadeado. A tarefa já era fácil caso se usasse os dedos... Mas Gucky dispunha ainda de outros dedos invisíveis movidos por forças telecinéticas. Estas forças invisíveis do seu pequeno mas incompreensivelmente poderoso cérebro penetraram no cadeado, examinando o mecanismo. Depois, com um pequeno ruído, o cadeado abriu. Deringhouse avançou e empurrou a porta. — Ótimo Gucky — disse ele sorrindo para o ratocastor, e apanhando sua pistola energética. — E agora vamos deixar os tópsidas um pouco nervosos. Eles já devem ter muito que fazer para se defenderem dos ataques dos saltadores. — Mas é preciso esperar um momento até que estejamos seguros e em condições de agir — disse Marshall, prevenindo contra um otimismo exagerado. — Gucky, você está sentindo algo? Há tópsidas aqui perto de nós? — Sim, uma grande multidão, lá atrás da porta. Estavam num corredor comprido, um pouco sinuoso, deixando supor que passava em torno de alguma cúpula. Havia duas portas: uma próxima da outra. Do outro lado da parede, eram janelas. Atrás havia uma paisagem maravilhosa de uma natureza virgem, com montes e florestas. No horizonte, bem afastado, via-se a grande extensão do mar. O sol poente estava exatamente no ponto divisório entre a água e o céu. Deringhouse se deteve bem rente à porta indicada por Gucky e Marshall. — É aqui? — perguntou por cautela. Ao sinal de confirmação dos dois telepatas, Deringhouse ergueu a arma, postou-se de lado, ativou o botão de combustão. O delgado fio de energia atingiu os gonzos da porta, soldando todos com o metal derretido. A porta não se abriria mais. — Vão cair direitinho na armadilha — disse Ataka contente. — Eu preferia fazê-los voar — disse Gucky. — Deve ser fantástico quando os crocodilos... — Esperem — disse Deringhouse, caminhando à frente. Os outros o seguiam. Gucky era o último da fila, pois quando não se teleportava, suas pernas curtas não lhe permitiam acompanhar os passos largos dos demais. Para tentar abafar seu aborrecimento com isto, começou a assobiar bem alto, como se não houvesse mais tópsidas na redondeza. O corredor terminava numa porta que estava apenas encostada. Depois dela, não havia mais salas, era a liberdade. Mas que liberdade era esta? De qualquer maneira, ainda se encontravam em território dos sáurios. Deringhouse ajeitou sua pistola e empurrou a porta. Como o empurrão foi bem forte, quase que a guarita do tópsida virou. O vigia caiu. Levantou-se, virou-se para trás, com um grunhido de desaprovação. Mas a desaprovação se transformou em medo, quando notou a presença de Deringhouse, Marshall e Ataka, passando para perplexidade quando deu com a figura esquisita de Gucky. Gucky não gostou da perplexidade, o que Marshall logo notou, captando também a péssima impressão que o pobre guarda teve de Gucky. — O quê? — chilreou o rato-castor. — Eu... um bicho horroroso? Você vai ter que voar. E o tópsida voou. Forças telecinéticas o ergueram do 88


chão e o fizeram subir verticalmente. O coitado gritava desesperado. A Ira de Gucky não durou muito. O pobre vigia, tendo perdido a arma durante suas acrobacias forçadas, fugiu em disparada. Gucky ainda teve tempo de colocá-lo no telhado do grande edifício de cúpulas. Lá de cima, sentado bem na beira, o sáurio não desgarrava os olhos dos três homens. Entre estes estava um animal peludo, semelhante aos ratos gigantes dos canais de Topsid. — Bicho horroroso... que desaforo! — ia ruminando Gucky, andando por ali, como se não existisse a palavra perigo. Deringhouse reconheceu num galpão ao lado algumas das viaturas, cujo funcionamento tinha observado com cuidado. Não seria, pois, difícil utilizar um desses carros para empreender a fuga. Gucky poderia também teleportar um por um para a Centauro, mas chamaria muito a atenção dos tópsidas e era necessário que tudo parecesse normal. — Ali ao lado estão as viaturas — disse ele para Gucky. — Vamos pegar uma delas, mas antes temos que causar alguma confusão aqui. Isto não foi muito difícil, pois os chefes dos tópsidas estavam presos e no momento não tinham outra preocupação a não ser dinamitar a porta que Deringhouse havia soldado. Marshall atirou duas bombas no edifício e correu atrás de Deringhouse e Ataka que se dirigiam para as viaturas. À forte detonação, seguiram altas labaredas que em poucos instantes derreteram toda a construção de cúpulas. De uma entrada lateral surgiram alguns tópsidas que não estavam feridos e começaram a atirar doidamente com as pistolas de raios energéticos. Foi a oportunidade que Gucky aguardava para entrar em ação. Enquanto os três homens tentavam pôr em movimento uma viatura maior, Gucky começou sua “brincadeira”, como ele chamava esta atividade, quando podia usar à vontade seus dons telecinéticos. Os sáurios não sabiam mais o que se passava com eles. O chão lhes sumiu de repente sob os pés e começaram a flutuar no espaço. Ninguém iria supor que o causador daquele milagre era aquele animal peludo, embora não parecesse estranho a Al-Khor. O comandante da base dos tópsidas levitava sem direção sobre as copas das árvores, quando reconheceu no rato-castor a misteriosa aparição que vira por um instante a seu lado na viatura. A situação era de deixar perplexos todos os tópsidas. Mas Al-Khor não conhecia o medo. O misterioso prodígio era de carne e osso e, portanto devia ser vulnerável. Ainda tinha a pistola de raios energéticos. Apesar da situação em que se encontrava, apontou-a para aquela figura minúscula de animal, lá embaixo, entre as ruínas do edifício. Apertou o gatilho, mas o resultado foi diferente do que Al-Khor imaginava. Como levitasse, portanto sem peso algum, o choque de recuo da arma o jogou com grande velocidade para o espaço adentro. Gucky, atento à iniciativa malograda do comandante tópsida, ainda deu mais Impulso ao contrachoque, obrigou Al-Khor a fazer piruetas no ar e acabou colocando o corajoso guerreiro na copa de uma árvore bem alta, cujos galhos estavam a mais de vinte metros do solo. Ele que desse um jeito de descer dali. Os outros sáurios ainda estavam dançando no ar, formando um emaranhado confuso. Ninguém tinha coragem de atirar, com medo de atingir o colega.

Nesse ínterim a viatura de Deringhouse saiu do galpão. Uma segunda granada destruiu os carros restantes, provocando um grande incêndio. Os tópsidas teriam agora de andar a pé, o que não lhes era agradável. — Faça-os descer agora, Gucky — disse Marshall acenando para ele, que sentado se divertia fazendo os sáurios girarem em volta dos escombros da grande cúpula. — Já receberam o que mereciam, mas eu ainda não — disse Gucky, deixando os tópsidas caírem uns dez metros, para depois detê-los. — Estou notando isso — disse Marshall um tanto áspero, dando algumas instruções a Deringhouse. A viatura veio para a direção de Gucky. — Tenho que dar uma mãozinha — continuou Marshall, virando-se um pouco para fora da porta da viatura. Com mão firme apanhou Gucky pelo pescoço, o levantou e o trouxe para dentro do carro. — E agora, faça o que lhe mandei. Por uns instantes Gucky ficou indeciso, depois, olhando para cima, viu os tópsidas horrorizados, parados e desarmados, aguardando o que aquela “força divina” ainda ia fazer com eles. Deu um grande suspiro de resignação e acabou obedecendo. Deu novamente uma ordem a seus pensamentos e os tópsidas se colocaram em formação de esquadrilha e voaram a toda velocidade para desaparecerem atrás das copas das árvores. Gucky ainda ficou olhando por uns instantes e, suspirando, disse a Marshall: — Está bom? — Que aconteceu com eles? Você não pode deixá-los cair de repente. — Não caíram não, mestre. Estão sentados em qualquer lugar nas árvores, fazendo ninhos para seus filhotes, caso não queiram descer mais, o que também é possível. O mau humor do rato-castor era evidente: — Que devo fazer agora? Marshall respirou mais aliviado. O pior já tinha passado. — Vamos libertar McClears que está em piores condições que nós. Está sozinho com Tifflor. Gucky se concentrou para ouvir alguma coisa. — Distância exata 37,6 quilômetros, sudoeste. Devo dar um pulinho até lá? — Ainda não e quando chegar a hora você deve levar Ataka. Pois só ele é capaz de entender a linguagem dos aquas. — Aquas? — Sim, senhor, assim chamamos esses estranhos seres. A ideia é de Deringhouse. Mas não quero que, nos combates que possam se realizar, se sacrifiquem vidas inocentes. Ninguém quer isto. — Que aconteceu com a Centauro? Deringhouse dirigia a viatura por um caminho estreito que levava ao litoral. Operava com seu minitransmissor de pulso, que os tópsidas não lhe haviam tirado, porque não tiveram tempo. — Capitão Lamanche deve fazer o que pode — dizia o Major. — Estamos seguindo para o litoral onde empreenderemos a libertação de McClears, enquanto a Centauro neutraliza os raios de atração e se encaminha também para o litoral. Nós nos encontramos logo. Quero evitar, de qualquer maneira, que os tópsidas tenham a impressão de que somos seres sobrenaturais. Sabemos por demais que os saltadores lutam com armas e meios 89


convencionais. Portanto, não devemos fazer nada que possa levantar suspeita. Isto vale principalmente para você, Gucky. — Sou, por acaso, um ser sobrenatural? — perguntou Gucky. Deringhouse não respondeu. Colocou-se em contato com La manche. — Ouça capitão. Ligue o envoltório de proteção e destrua, depois de breve aviso, as cúpulas metálicas no centro das quais a Centauro aterrissou. Ali estão, em minha opinião, os geradores para os raios de atração. E depois vá embora. Ponha-se em contato conosco, quando já estivermos no litoral. Aí, então, lhe darei novas instruções. — Está tudo claro — foi a resposta tranquila de La manche, objetivo como sempre. — Eu sinto muito ter ficado aqui, sem fazer nada, como uma galinha choca em cima dos ovos. Os mutantes estão ansiosos para enfrentarem os sáurios. — Os mutantes têm de ficar, infelizmente, em segundo plano, pois os tópsidas sabem que Perry Rhodan possui um corpo de mutantes. No entanto, é necessário que eles, os tópsidas, fiquem com impressão de que estão lidando com os saltadores. Está claro? — Já falei, senhor — foi a resposta seca de La manche. — Encontramo-nos no litoral. Deringhouse ficou uns instantes olhando para o receptor emudecido, depois sorriu, colocando a viatura em movimento. Não se podia chamar a estrada de boa, mas pelo menos indicava a direção. O carro com cobertura transparente tinha bons amortecedores, mas a conformação dos bancos, feitos não para o corpo humano, obrigava o motorista a uma posição incômoda. O terreno ia em leve declive. Após meia hora, avistaram o litoral. À esquerda ou à direita, não havia uma clareira na floresta virgem, em cuja vegetação homem algum jamais penetrara. A estrada entrava um pouco para a esquerda e se dirigia a um ponto que não podia estar muito afastado do lugar em que, através de dois quilômetros de água, se alcançava a tal ilha metálica onde McClears e Tifflor foram presos. Mas a estrada atingiu a praia um pouco antes. Aqui, com a areia, a vegetação da mata virgem não achava mais alimentação, de maneira que sobrou uma faixa livre. Ao lado desta faixa, a estrada levava exatamente para o leste. Deringhouse dirigia o carro sob a ramagem protetora de uma árvore gigantesca. Desligou o motor. Cessou o ruído e, por uns instantes, só se ouvia o marulhar das ondas e o farfalhar da vegetação com o vento suave. A visão da natureza virgem transmitia paz e calma. O mar se espalhava numa extensão imensa. Ter-se-ia que navegar quase todo o planeta para se encontrar terra novamente. — Gostaria de morar aqui — disse Ataka, quase sonhando. — Como numa ilha desabitada dos Mares do Sul. — As aparências enganam — disse Deringhouse apontando para o céu. Todos olharam para aquele ponto. Um objeto voador, pequeno, passou por cima da construção de vidro e desapareceu. — Estão fazendo vôos de patrulha, mas talvez não saibam o que aconteceu. Se a sorte foi nossa amiga, a instalação de rádio da estação deve estar destruída — explicou Deringhouse.

Marshall virou-se para o japonês: — Você acha que daqui desta distância pode entrar em contato com os aquas? Em caso negativo, você e Gucky têm que se teleportar para a prisão de McClears, para não levantar a menor suspeita. Os tópsidas têm que acreditar que somos saltadores, sem dons espirituais de nenhum tipo. — Se a descrição de Tifflor for exata, eles se comunicam por ondas sonoras. Vou tentar entrar em contato, naturalmente na água. Portanto vou tomar um banho agora. Deixou o uniforme no chão, livrou-se da calça e, como um turista, entrou pelo mar adentro. Gucky olhava para ele, visivelmente com inveja: — Arranjou um bom pretexto para um banho de mar. Nadar um pouco não me prejudicaria. — Quem sabe você terá que nadar mais depressa do que pensa — disse-lhe Deringhouse. — E o pior, por muito mais tempo do que deseja. — Com o ruído das ondas, ele não ouve nada — disse Gucky, para mudar de assunto, quando Ataka transpôs as primeiras ondas mais fortes para penetrar em água mais funda. Para isso, teve que andar uns cinquenta metros até que a água lhe chegasse à altura do peito. A onda o suspendia e ele abanava a mão para terra, todo feliz. — Está mesmo convencido de que está de férias! — exclamou Gucky meio invejoso. De repente, Ataka desapareceu. Mergulhou quase um minuto. Depois, seu rosto sorridente apareceu fora d’água. Gesticulou excitado com as duas mãos. — Ouviu os aquas — disse Marshall, transmitindo a mensagem telepática de Ataka. — Mas não está entendendo nada, quem sabe está recebendo um grande número de impulsos simultâneos que geram uma confusão. De qualquer maneira já sabemos que eles se comunicam. — Quem sabe, os aquas são também telepatas? — indagou Gucky. — Pouco provável — respondeu Marshall. — Mas dentro em breve, saberemos isto. Ataka continuava acenando. Quando o japonês voltou de outro mergulho, Marshall disse entusiasmado: — Está sentindo impulsos mais fortes. Já o perceberam lá embaixo. Todos ficaram olhando. A uns duzentos metros da praia, listras de espuma sulcavam a superfície da água. Quatro ou cinco listras rodeavam Ataka, que parecia estar boiando. As ondas às vezes lhe chegavam até o pescoço, outras somente até a cintura. As cinco listras prateadas o cercavam e a espuma havia desaparecido. Diante de Ataka surgiu então um corpo comprido, semelhante ao de uma foca, pôs-se em posição vertical e começou a gesticular com um braço em forma de nadadeira. Podia-se ver nitidamente a boca oval. — Aquas! — disse Marshall. — Exatamente como Tifflor descreveu. Depende agora se Ataka pode compreendê-los. Hesitou um pouco, depois confirmou: — Foi feito o contato, mas... Gucky, dê um pulo na Centauro e traga-me André Noir. — Noir? — perguntou Deringhouse. — Que vamos fazer com um hipno? Será que pretendemos hipnotizar os aquas? — Não, mas com o auxílio dele, poderemos nos fazer compreender. Os homens-peixes não são telepatas e ninguém entende a linguagem deles. Noir poderá sugerir a 90


esses seres nossas intenções. — Está certo — concordou Deringhouse. — Mas, cuidado, Gucky. Não se esqueça de que La manche já... — e parou por aí. O rato-castor já tinha sumido. Suas pecadas na areia de repente sumiram. Deringhouse estava furioso. — Ele nem espera que eu termine minha ordem. — Realmente não é necessário esperar, se ele pode ler os pensamentos — disse Marshall. — Além disso, não temos tempo a perder. Ataka, nesse ínterim, conversava com os cinco homenspeixes, mas aparentemente sem resultado. Apontava sempre para a praia e devagar foi se encaminhando para lá. Hesitando um pouco, eles o seguiam. Deringhouse e Marshall olhavam estupefatos. Quando o japonês atingiu a praia e se virou para trás, os cinco aquas também pararam. A água lhes chegava até a metade do corpo. Este brilhava com as escamas prateadas recebendo os raios do sol da última parte da tarde. Deringhouse gostaria de saber se possuíam pés. Ataka acenou para seus novos amigos. Caminharam mais para frente, desajeitados e vagarosos, até a praia. Os aquas não possuíam pernas, mas uma possante cauda para nadar, parar e mudar de direção. Marshall ficou na escuta. De repente murmurou: — Seus impulsos mentais são bem fortes. Consigo receber seus fluxos. Baixo, mas perceptível. Ah! Se Noir já estivesse aqui. Gostaria de saber por que Gucky demora tanto. Ataka na praia apontava mais para cima, onde estavam Deringhouse e Marshall. Os aquas volveram os olhos brilhantes na direção dos dois homens, que lhes deviam parecer completamente estranhos. — Os aquas podem aguentar duas ou três horas fora da água — disse Marshall. — São pacíficos, mas não sabem como chegamos ao seu mundo. Acham que somos seus aliados e não vão muito com os tópsidas. Já é tempo de nós lhes dizermos a verdade. Neste exato momento, Gucky se materializou, trazendo André Noir. — Conseguimos sair, antes que La manche partisse. Ele deu um susto nos tópsidas e aniquilou toda a instalação de tração magnética — disse o rato-castor. Deringhouse suspirou contente. — De novo uma expressão de Bell, se não me engano. Pois bem, Noir, mostre juntamente com Marshall, que está fazendo o papel de anfitrião, um congraçamento com os aquas. E assim foi feito. Marshall recebia os impulsos mentais e os traduzia. André Noir lia o pensamento dos homens-peixes como uma espécie de quadro mental, que era entendido facilmente. Era um pouco demorado, mas sempre com resultado positivo. — Vocês são estranhos neste mundo? — Sim, viemos das estrelas, onde está nossa pátria. — E por que vieram? Deringhouse que ouvia e dirigia a conversa, mandou dizer: — Para avisar vocês e para ajudá-los. Mas permitam uma pergunta: Os sáurios são seus amigos? Deram permissão a eles para viver num lugar que pertence a vocês?

A resposta veio imediatamente: — Não, não pediram licença. Vieram há muitos dias e muitas noites e construíram suas casas. Como é que nos poderiam pedir licença, não nos entendem, nem nós a eles. — Vocês gostariam que fossem embora daqui? — Claro que gostaríamos. Mas como podemos expulsálos, se não temos armas? — Podemos ajudar vocês? Houve então uma pausa e depois a resposta demonstrou que os aquas eram inteligentes, mas também desconfiados. — E o que devemos lhes dar em retribuição? Deringhouse deu uma risada. — Somente uma coisa: sua amizade. Vamos comerciar com vocês, trocar mercadorias e construir uma pequena base para que os sáurios não voltem mais. — Os sáurios nunca comerciaram conosco. Pois bem, estamos de acordo. Vamos avisar nossos chefes. — Mais uma coisa — Deringhouse se lembrou do mais importante. — Os sáurios prenderam dois dos nossos homens, queremos libertá-los, mas sem o auxílio de vocês será difícil. Querem nos ajudar? — Vimos os prisioneiros, estão no castelo de água dos sáurios. Vocês podem viver debaixo d’água? — Não, precisamos de ar para respirar. Debaixo d’água nós morremos. — Ar? — veio o impulso de pensamentos e depois: Está bem. Vamos cuidar disso. Esperem-nos amanhã cedo neste mesmo local. Quem sabe arranjamos uma solução. — Quando nossa grande espaçonave chegar, teremos também uma solução — respondeu Deringhouse. — Está bem, nos encontraremos amanhã, quando o sol raiar, neste local. Esperamos por vocês. — Haveremos de estar aqui — prometeram os aquas, acenando mais uma vez para os homens, olhando curiosos por uns instantes a figura do rato-castor. Depois desapareceram. Por algum tempo, ainda se podia ver o reflexo prateado à flor d’água. Quando os homens-peixes mergulharam definitivamente para o fundo do mar, o brilho sumiu. Gucky os estava acompanhando: — Que vida boa que eles levam, nunca sentem sede! Deringhouse olhou para o horizonte. Grande e avermelhado, o sol Beta se preparava para desaparecer atrás das ondas do mar. O céu tinha uma coloração rosa, verde e roxo. O firmamento se abria como uma cortina de fogo, num espetáculo completamente diferente do pôr do sol na Terra. — Amanhã — disse Deringhouse — amanhã saberemos mais. — Ficaremos aqui? — queria saber Marshall. — Sim, dormiremos no carro. — Não é necessário — disse o telepata sacudindo a cabeça. Eu vou com o Gucky buscar a Gazela de McClears. Temos tempo, à noite toda. Deringhouse concordou. — Então, eu e Ataka vamos tomar um banho com calma, até que vocês voltem. Você também, Noir? Gucky lançou um olhar desesperado para Marshall, mas quando este sacudiu a cabeça com seriedade, Gucky avançou para o telepata e o abraçou, desaparecendo com ele. A vida de oito homens estava em jogo.

91


5 Antes que ficasse mais escuro, a Gazela aterrissou com Marshall e Gucky a bordo, bem perto da viatura camuflada. A ação se deu no momento exato, pois, após a destruição do primeiro ponto de apoio e da terrificante investida da Centauro, que transformou todo o planalto em lava incandescente, os tópsidas deram o alarme geral. Suas belonaves surgiram de todos os cantos do “mundo d`água” e se reuniram num ponto a oitenta quilômetros da ilha metálica. Logo se deu o ataque à Gazela, que foi naturalmente repelido. Antes que se iniciasse o segundo, mais pesado, apareceram Gucky e Marshall. O pequeno aparelho partiu e desapareceu na penumbra. Como voasse a baixa altitude, seus perseguidores não o conseguiram localizar no radar. Deringhouse mandou camuflar o pequeno aparelho numa clareira da floresta, de sorte que ninguém o percebesse. Um breve rádio para a Terra era suficiente para dar a localização exata. Já era noite, Deringhouse fez uma ligação para a Centauro. — Alô, Lamanche! Onde é que você está? — Em órbita, senhor, esperando pela ordem de atacar. — Não vai ser tão breve. Fique por aí e mantenha contato com a Terra. Proteja-se dos ataques dos tópsidas, mas fique onde está. Ainda temos de liquidar uns assuntos aqui embaixo. — Entendido, senhor; se precisar de algum auxílio... — Não se preocupe, Lamanche. Estamos com Gucky aqui. Fim. Desligou o aparelho e desceu da Gazela pulando na areia macia, quase pisando na cauda de Gucky. O rato-castor estava sentado, calmo. Contemplava o céu escuro e as primeiras estrelas que cintilavam, formando constelações diferentes e curiosas, como jamais se poderia observar da Terra. — Ora essa, que está fazendo aí? Eu pensava que você estivesse tomando banho de mar... O rato-castor deixou aparecer o dente roedor. — Vou fazê-lo agora. Acho que posso deixá-lo sozinho por uma meia hora. — Que é isso? Você está falando como se nós não agüentássemos sem você... Gucky foi caminhando para o mar, deixando na areia um rastro diferente. Depois de uns dez metros, parou, olhou para trás e chilreou: — Como seria se vocês não tivessem Gucky... Estou convencido de que vou receber as duas arrobas de cenoura, não são? Falou e desapareceu com um salto corajoso na onda em rebentação. Deringhouse sacudiu a cabeça com ar de desaprovação. Estava suspeitando que Gucky quisesse captar alguma coisa. *** Vermelho como sangue, o sol se erguia atrás da floresta virgem e recebia o novo dia com cores festivas. Marshall que teve o último período de vigília estava bem próximo da água, olhando para o horizonte longínquo. Já estava esperando pelas já conhecidas listras prateadas que anunciavam a chegada dos aquas. A noite foi calma. A estação de rádio da Gazela, onde

todos haviam dormido, ficou sempre de prontidão, porém, não houve novidade alguma. Houve, sim, grande intensidade de rádios entre as várias estações e naves dos tópsidas, mas a grande maioria cifrados. É verdade que o cérebro eletrônico conseguira decifrar o código depois de algum tempo. Mas não adiantou muito, o assunto era apenas a tomada de várias posições pelos tópsidas. Marshall captou os primeiros impulsos de pensamento dos homens-peixes, ainda bem fracos, quando ainda não eram vistos. Aí é que começou a ver no horizonte as listras prateadas, ainda bem longe. Aproximavam-se com uma velocidade quase incrível, nadando em grupo, pois a formação produzia um enorme sulco que se dirigia no sentido exato da praia. Podia-se calcular: aproximavam-se uns cinquenta aquas. A uns vinte metros da areia da praia cessaram as listras prateadas. O chefe da turma emergiu e chegou com dificuldade até Marshall. Os outros ficaram na água. Só as cabeças emergiam. Olhos curiosos contemplavam os homens. — Viemos, como havíamos prometido — foi o pensamento dos homens-peixes. — Mas não conseguimos nenhuma maneira de fazer com que alguém de vocês consiga viver dentro d’água. Marshall já estava chamando Gucky há vinte segundos e ficou aliviado quando, por fim, teve uma resposta: — Estou dormindo ainda — eram os sinais de Gucky. — Que há de novo? — Mande André Noir, mas depressa! Os aquas estão aqui. Nenhuma resposta, mas, poucos segundos depois, Gucky se materializava bem ao lado de Marshall, que sem querer se assustou. André Noir descia da Gazela e veio correndo. A comunicação com os homens-peixes estava garantida. — É inútil perder tempo com tais pensamentos, pois podemos agora permanecer muito tempo sob a água — dizia Marshall. — Existem uniformes especiais com os quais se pode viver no espaço, e o espaço é mais perigoso do que o mar. — Então vocês podem vir conosco? — Se vocês forem bem fortes para nos puxar, pois não nadamos tão bem como vocês. — Quando? — Esperem-nos só um pouco, temos que fazer uns preparativos. Meia hora mais tarde, os peixes daquele mar raso, no litoral do único continente do planeta quatro, assistiram a um espetáculo tão estranho, que nunca mais esqueceram. Com uniformes espaciais fechados, Marshall e Noir estavam montados, cada um, no dorso escamoso de um aqua e se deixavam levar através do verde escuro do mundo submarino. Uma terceira figura, um pouco menor, estava no lombo de um terceiro aqua, era Gucky. Uma vanguarda de uns vinte homens-peixes nadava à frente. O restante formava a retaguarda da frota. O mais divertido de todos era, sem dúvida, Gucky. Seu uniforme especial parecia até fundido com o corpo. A grande viseira do capacete lhe permitia olhar para todos os lados e já que o mar não era muito fundo, o rato-castor viveu pela primeira vez na vida os encantos do mundo submarino. As pequenas ondulações de areia no fundo, cobertas de plantas marinhas, pareciam um jardim gigantesco. Além disso, a infinidade de pequenos peixes 92


que vinham de todos os lados. À esquerda e à direita a visão era limitada. Em cima havia um clarão de lanterna alaranjada, vindo do sol. A velocidade era espantosa. Os dois homens perceberam que os aquas eram verdadeiros foguetes vivos de propulsão traseira. Aspiravam a água pela boca, num fluxo contínuo, comprimiam-na no meio do corpo através de um órgão especial e depois expeliam o forte jato através de uma válvula traseira, bem abaixo da cauda. A compressão devia ser muito grande, pois Marshall estava convencido de que os aquas, em atenção a seus visitantes, não usavam nem a metade da força que tinham. Bem acima da estratosfera, moviam-se os dois grandes cruzadores em suas órbitas. As instalações de rádio estavam na escuta. Todos se encontravam de prontidão. Também Deringhouse estava esperando na Gazela, escondida ainda sob a ramagem densa das árvores enormes. Achava-se preparada para entrar em ação a qualquer momento. Bastava que Marshall apertasse o botão vermelho do seu minitransmissor de pulso. O som já servia de meio de localização. Sentados nas prisões de vidro, sem saberem se seus apelos de socorro chegavam a algum lugar, McClears e Tifflor também esperavam. *** Depois de grandes esforços, Al-Khor conseguiu sentir chão firme debaixo dos pés. Escorregou pelo tronco liso da árvore, esfolando muito a pele e nos últimos cinco metros caiu diretamente. Foi por isso que destroncou a pesada cauda coberta de escamas, que lhe doía tremendamente. Praguejando e mancando de uma perna, foi abrindo caminho pela vegetação baixa da floresta. Depois de muito procurar, achou sua pistola de raios energéticos e chegou afinal à beira da clareira, onde, há pouco, ainda existia a estação. As granadas de mão dos “saltadores” tinham feito estrago total. A cúpula estava em ruínas, as viaturas destruídas e o pessoal: morto ou ferido ou debandado. Debandado pelo ar. É claro que a imaginação de Al-Khor trabalhava. Chegou a uma conclusão, mais ou menos lógica, de que os “saltadores” haviam aperfeiçoado um aparelho, com o qual podiam a qualquer momento interromper a lei da gravidade e fazer então com que os objetos pudessem flutuar à vontade. Não havia outra explicação para o fenômeno que ele próprio sentiu na pele: fora um fato sobrenatural. Andando pelos escombros, encontrou uma viatura mais ou menos em condições, cujo aparelhamento de rádio ainda funcionava. Chamou a central das Tropas de Ocupação. Ela respondeu imediatamente. — Aqui fala Al-Khor, do Comando Seccional da Costa Sul. Os “saltadores” presos fugiram e destruíram nossa estação. Peço socorro imediato. Mandem-me uma nave. A resposta não foi muito alentadora: — Estamos em alarme de urgência, Al-Khor, e não podemos prescindir de nenhuma nave. Procure abrir caminho no HQ. Perdura o perigo de que os saltadores consigam mais reforços e nos ataquem. — A quem você está dizendo isto? — disse Al-Khor indignado. — Afinal, fui eu quem lhe chamou a atenção para este fato e... — Esperamos você no quartel-general. Ouviu-se o ruído final. Al-Khor praguejando, destruiu o

aparelho com um único soco de sua mão, por assim dizer, blindada. — ...eles é que vejam como liquidar os saltadores. Não tinha pressa alguma. Procurou na viatura alguma coisa para comer e acabou fazendo sua refeição. Já estava bem escuro, portanto tinha que preparar um abrigo para dormir. Quando rompeu a madrugada, acordou gelado e ficou contente quando apareceram os primeiros raios do sol para aquecê-lo. Depois de uma boa refeição matinal, ligou o carro e começou a rolar por entre as ruínas em direção ao caminho estreito que levava para o litoral e para o quartelgeneral. Estava com remorsos. Sem suspeitar de nada, passou bem perto do esconderijo da Gazela, tomou a direção do leste. Aproximou-se da ilha de aço, antes do litoral, onde o Estado-Maior dos Tópsidas estava reunido em conselho de guerra. Um barco levou Al-Khor aos seus colegas que o receberam admirados, mas com muita reserva. Tinha-se a impressão de que ele era culpado da evasão dos prisioneiros e, portanto, era acusado de favorecer o inimigo. Sem dar atenção à sua chegada, o conselho de guerra prosseguiu. — Estaríamos, portanto, unânimes — afirmou WorLök, comandante-supremo e superior de Al-Khor — em tentar nos defendermos sozinhos, sem auxílio, de ninguém, do iminente ataque dos saltadores. — Isto é pura loucura — disse Al-Khor bem alto, antes mesmo de tomar seu lugar. — Não podemos cometer erro maior do que este. Wor-Lök estremeceu todo e fechou a cara. Exatamente quem havia fracassado miseravelmente é que se atrevia a contradizê-lo? Se o ditador de Topsid soubesse disso, AlKhor estaria perdido. A sombra da desgraça cairia também na cabeça do comandante-supremo do “mundo d’água”. — Então, quer dizer que estou cometendo um erro? — disse Wor-Lök com cara sinistra. — Talvez o senhor terá a bondade de nos explicar melhor e dar suas razões. Al-Khor respirou profundamente: — Não lhes basta o simples fato de dois destes saltadores terem mandado pelos ares toda a nossa estação, depois de haverem fugido da cela fortemente trancada e vigiada? Não pôde haver reação contra eles, pois possuem um aparelho com que neutralizam a força da gravidade. Suponho, além disso, que vão atacar o “mundo d’água” com uma frota bélica jamais vista, aniquilando-nos nos primeiros instantes, se formos tão orgulhosos de não pedirmos auxílio de Topsid. Houve agitação entre os tópsidas. As palavras de AlKhor pareciam conter muita coisa séria. Mas Wor-Lök não se deixou levar: — Quem é que lhe garante que haverá um ataque contra nós? — Ora, Wor-Lök, o senhor sabe, tão bem como eu, que corremos perigo. E seu orgulho não nos deixa pedir auxílio. O senhor quer se transformar em herói. Mas eu e a maioria de meus colegas preferimos viver. Um longo aplauso deu-lhe razão. Wor-Lök olhou em volta, mas só viu caras fechadas para ele. Mesmo assim perguntou: — Os senhores são, portanto de opinião de que devemos expor ao ditador toda a nossa fraqueza? — Perfeitamente, porque esta fraqueza não é nossa 93


culpa. Estamos prestando ainda um favor ao império — respondeu Al-Khor. Realmente, não estavam prestando favor nenhum. Mas Al-Khor não podia saber disso. Ninguém o sabia, nem mesmo Rhodan. — Prestando um favor? Wor-Lök se levantou, olhou para a porta, onde estavam postados dois guardas com os raios energéticos de mão. — Sou de opinião contrária e acho que o senhor fracassou. Agora quer arranjar um pretexto. Isto é insubordinação e eu vou chamá-lo à responsabilidade. Guardas, Al-Khor está preso. Levai-o para a prisão submarina. Al-Khor, deponha as armas. Por um segundo, Al-Khor parecia petrificado. Depois veio vida para seu corpo. Mais do que depressa sacou da arma e dirigiu-a contra o comandante-geral. — Eu estou preso? E devo depor a arma? Isto é completamente contra o bom senso. Estamos numa época em que devemos nos unir se não quisermos desaparecer. Wor-Lök confiava na sua autoridade em decidir sobre a vida e a morte. — Minha decisão não volta atrás. Guardas prendam AlKhor. A partir deste momento, ele está rebaixado de todas as honras militares. Al-Khor não podia mais hesitar. Com um único tiro certeiro, prostrou seu adversário, que caiu como fulminado por um raio. Depois, virou-se para os guardas, ordenando que voltassem a seus lugares. No seu íntimo, havia um vulcão de emoções, mas externamente estava sereno. — Tópsidas, estamos agora sem chefe, mas é necessário tomarmos decisões rápidas. Continuo com minha proposta de nos colocarmos imediatamente em contato com Topsid e expor ao ditador o que está se passando e o que vai acontecer, se não recebermos reforço imediato. Está iminente uma invasão dos saltadores. Eles julgam existir neste planeta uma base de um adversário e pretendem destruir o terceiro e o quarto planetas. Nós, porém, queremos colonizar o “mundo d’água” e mais tarde também o planeta das selvas, temos, portanto, o direito de prioridade. “Ainda não notamos nada de um inimigo neste sistema, fora dos próprios saltadores. Peço, portanto, o consentimento do conselho para que possa me comunicar com Topsid.” A pesada pistola ainda estava firme em sua mão, mas o cano apontando para o chão. Talvez fosse a visão da poderosa arma e o reconhecimento de que Al-Khor não tinha compromissos com ninguém, como tinha comprovado há pouco, que levou todos os presentes a concordarem unanimemente. Um deles se levantou e disse: — Estamos sem comando supremo. Proponho, pois, que a partir deste momento, Al-Khor tome o cargo de Wor-Lök. Outra vez, nenhuma voz discordante. Al-Khor era assim o novo comandante do “mundo d’água”. E começou a agir imediatamente. Virou-se para um oficial: — Providencie que o hipertransmissor faça logo contato com Topsid. Estarei em poucos instantes na Central de Rádio e falarei diretamente com o ditador. E os senhores — olhou para os demais — dirijam-se imediatamente para suas bases ou naves e aguardem ordens posteriores. O “planeta das águas” está em estado de sítio. Alguém no fundo perguntou:

— Que acontecerá com os prisioneiros que se encontram na cela submarina? Al-Khor sacudiu a cabeça: — Ainda bem que você me lembrou. Temos que tornálos incapazes de reagir, antes que fujam também. — Talvez nos possam dar mais detalhes sobre a invasão iminente... — Não, não temos mais tempo. Além disso, já disseram tudo que queríamos saber. São muito perigosos para continuarem vivos. Providenciem execução sumária. O tópsida do fundo concordou, mas ficou sentado, para esperar o fim da conferência. E exatamente isto não se deu. *** Tifflor pensava constantemente naquilo que queria transmitir a John Marshall. Não podia fazer mais do que isto. Tinha, porém, esperança de que Marshall captasse seus pensamentos. McClears, sentado no canto, no chão de vidro, olhava pensativo para o fundo do mar, tão próximo, que agora com a luz do dia ele podia ver tão bem. Os estranhos peixes haviam desaparecido imediatamente, quando foram chamados. A fraca esperança do major estava acabando. Não podiam mais esperar ajuda dos peixes inteligentes. De quem então? Deringhouse e os mutantes estariam certamente a caminho para libertá-los. O principal era que os tópsidas acreditavam na invasão dos saltadores, a qualquer momento, tomando todas as providências para a defesa. Valia a pena fazer um sacrifício para isto. Porém, não o sacrifício da própria vida, assim pensava sinceramente McClears. Era um homem honesto, amigo de Rhodan, mas não um suicida. Somente os loucos é que são suicidas e heróis que se autodestroem. — Não dá para ver mais nada, Tifflor? Desde ontem à tarde que eles não aparecem mais. Será que não se interessam mais por nós? — Não sabemos major, quais suas relações com os tópsidas. Talvez receberam ordens de não aparecer mais aqui. — Para que, então, nos prenderam numa cabina de vidro dentro do mar? Só para que os homens-peixes nos ficassem contemplando? — Não sabemos nada certo — dizia Tifflor. — O melhor a fazer é esperar o que vai acontecer. Era mais fácil falar do que praticar. Estavam parados ali desde ontem. Não se ouviu mais nada depois disso, ninguém pensara em trazer alguma coisa para comer ou beber. Por muita sorte, McClears ainda achou no bolso uns tabletes que ajudavam um pouco contra a fome e a sede aguda. Ouviram passos, de repente. Sentiram uma vibração e se levantaram. Achavam que era melhor receber os sáurios de pé. Quem sabe também era um aviso de subconsciente, que os levou a isto. Souberam no mesmo instante em que dois tópsidas abriram a porta e penetraram na cela de vidro, o que lhes ia acontecer. As armas apontadas contra eles e os olhares com sinistra determinação traíam nitidamente suas intenções. — Vão nos matar — sussurrou Tifflor, se concentrando para pensar. — Socorro! Marshall, Gucky. Não temos mais muito tempo. Posição: ilha de metal, diante do litoral, vinte 94


metros de profundidade. Obrigam-nos a deixar a cela. Depressa. Lá fora no corredor, estava claro. Do teto e das paredes, penetrava luz muito clara, que ofuscava os homens. Os tópsidas empurravam os prisioneiros para frente com os canos das armas. Com os lábios bem apertados, McClears e Tifflor caminhavam para um destino desconhecido. O corredor fez uma grande curva e terminou numa porta metálica. Uma roda dava a entender que se tratava de uma comporta, de ar ou de água? Um dos guardas girou a roda, a porta gingou devagar para fora deixando ver um aposento vazio pela frente. — Podem ir — disse o tópsida em intercosmo — bom proveito! McClears ficou parado. Tifflor continuou andando, repetindo sem interrupção seus gritos mentais de socorro. Descrevia a situação e esperava que os amigos não demorassem muito em aparecer. Estava realmente na hora. McClears não se movia. Cada segundo era precioso. — Que está acontecendo conosco? — perguntou ele. O focinho de lagarto se retorceu num sorriso sarcástico: — Al-Khor, o novo comandante-geral, os condenou à morte. Vocês não vão sofrer muito. A gente afoga facilmente. — Por que devemos morrer? Não dissemos tudo que era importante para vocês? — Não fomos nós que demos a sentença — explicou o tópsida. — Mas eu acho que é justa, vocês causaram muito estrago. Uma estação foi pelos ares, os outros prisioneiros fugiram, um grande número de tópsidas foi assassinado. Vocês merecem a morte. E agora, vamos. McClears não desistiu. — Será que nós temos que ser responsáveis pelos atos dos outros saltadores? Não fomos nós quem ordenou a invasão. — Chega de falação, saltador. Vamos. Apontou a arma para o major. McClears percebeu que não havia mais um segundo. Virou-se e encaminhou-se para o local em que Tifflor já o esperava. — Se quiserem deixar a água entrar aqui — disse ele baixinho, enquanto a porta pesada se fechava — terão que abrir a comporta externa. Aí, nós mergulhamos. — Tenho receio de que haverão de ficar esperando até que tenhamos nos afogado. Não são tão ingênuos assim, para não preverem esta hipótese. Podemos apenas prender a respiração, nada mais. E naturalmente, esperar. McClears nada respondeu. Pelo lado do mar, surgiu no chão uma fenda estreita de onde começou a entrar água na comporta. A fenda foi aumentando depressa. Já atingia o peito deles. — A fenda — disse Tifflor, assustado. — Se aumentar um pouco mais, podemos passar por ela. Mas a porta vertical estava parada e o nível da água subia constantemente, atingindo já o pescoço. — Respirar profundamente — disse McClears — prender a respiração e procurar chegar até embaixo. Felicidades, Tifflor, talvez nós tenhamos sorte. Num borbulho repentino, o mar invadiu a comporta. Cobriu tudo em fração de segundo. Os dois prisioneiros seguravam o ar e foram para o fundo. Eles sentiram a pressão da água, os ouvidos começaram a zumbir e a falta de oxigênio lhes tolhia os movimentos. McClears tocou com os dedos a margem superior da fenda, até que deu com

alguma coisa que se movia. Não fosse a água que o envolvia, teria dado um grito. Mas um pouco do ar acumulado no pulmão escapou, subindo em bolhas. Mais um segundo e estaria tudo acabado. *** Os aquas da vanguarda diminuíram a velocidade e formaram de novo uma espécie de frota bem agrupada. — Que está acontecendo? — perguntou André Noir, através de uma imagem mental. Marshall e Gucky receberam prontamente a resposta: — A fortaleza d’água dos estranhos. Estamos chegando. Têm portas especiais que levam daqui lá para dentro. No mesmo segundo, chegaram os pedidos de socorro de Tifflor. Gucky se orientou e transmitiu telepaticamente para Marshall: — A menos de dez metros de nós. Devo saltar? — Não, espere. Quem sabe podemos ajudar, sem que os tópsidas percebam. Na frente deles, cintilavam, na eterna penumbra do mar, as paredes da ilha artificial. Apoiavam-se em pilastras redondas e terminavam a uns vinte metros do nível da água. Uma fila de muitas fendas indicava a presença das comportas. Dali em diante, os aquas penetrariam no domínio dos tópsidas. — Estão sendo procurados. Marshall fez um sinal com seu capacete. Era uma sensação esquisita cavalgar no lombo de um peixe esguio. — Orientação, Gucky. O rato-castor, que em outras circunstâncias estaria se divertindo muito, conduziu seu animal de sela para perto da parede escura da ilha de metal. Parou diante de uma comporta. — Estão aqui, Tifflor já está na câmera. Marshall já sabia disso há tempo. Sabia mais: — Lá em cima, na plataforma, estão dois guardas armados para o caso de McClears ou Tifflor emergirem... Noir era um sugestor, naturalmente também um telepata fraco. Podia compreender bem os impulsos de Marshall e de Gucky e estava sendo bem informado, transmitindo logo as instruções aos aquas. Os homens-peixes, sem peso nas costas, começaram a fazer suas piruetas, como era de costume. Atiravam-se como setas, de um canto para o outro, revolvendo toda a superfície do mar, pulando metros para cima no ar ensolarado e caindo com estrépito em seu elemento natural. Os tópsidas abaixaram as armas. Era um espetáculo com que já estavam acostumados. — Agora a água está penetrando — pensava Tifflor para Gucky. Depois de alguns instantes o rato-castor transmitiu: — A fenda é estreita demais para McClears e Tifflor passarem. Marshall respondeu: — Gucky, abrir. O rato-castor se aproximou mais da parede e se concentrou. Lentamente a parte inferior da comporta foi se levantando. É claro que a água penetrou imediatamente na câmera de trás, mas a fenda estava agora bem maior, dando passagem fácil para os dois homens. Provavelmente haveriam de compreender o que estava acontecendo. E compreenderam mesmo. 95


Gucky fez seu aqua abaixar um pouco mais e meteu a mão na fenda. Sentiu logo um braço que apalpava e o puxou para fora. Era McClears. O major tinha os olhos meio abertos mas parecia não ver nada. Uma grande bolha de ar saiu de sua boca e subiu rápida para a superfície. — Depressa, Marshall! Ele pode aguentar ainda dez segundos. Leve-o bem para frente e depois para cima. Marshall pegou McClears que não reagia, nem percebia o que estava acontecendo. Noir retransmitiu a ordem aos aquas. Marshall teve dificuldade em segurar o corpo de McClears, de tão forte que era a velocidade com que os aquas disparavam através do mar. Gucky não hesitou mais um segundo. Atravessou a estreita fenda, penetrando na comporta e viu imediatamente o pobre Tifflor que tinha desistido de fugir e já estava boiando de encontro ao teto, onde não havia mais um centímetro cúbico de ar. Gucky deu um pulo e pegou o pé de Tifflor. O peso do uniforme o fez descer um pouco. O mais rápido possível, comprimiu Tifflor contra a fenda, saindo para o mar, onde o aqua que servia a Gucky já estava esperando. O homem-peixe pegou o corpo do tenente e saiu em disparada, sem se preocupar com Gucky. Este, depois de hesitar um pouco, retornou para dentro da comporta. Os dois tópsidas que haviam enclausurado McClears e Tifflor no pequeno dique, ainda estavam diante da porta, conversando. Depois de dez minutos, a comporta externa devia ser fechada e esvaziada. Portanto ainda sobrava tempo. Não perceberam que a roda de regulagem estava girando, por mãos invisíveis. De repente a porta abriu. Entrou uma golfada enorme de água que, envolvendo os dois guardas distraídos, os arrastou. Gucky abriu também a porta externa, de forma que, em poucos instantes, toda a parte inferior da estação estava submersa. Os sáurios que ali se encontravam morreram afogados. Alguns, que conseguiram escapar, levaram a trágica notícia para os oficiais que estavam reunidos no andar superior em importante conselho de guerra. A água subiu até a altura da plataforma e assim a ilha metálica não podia mais servir de base de operação. Gucky passou de novo pela fenda, atingiu o mar, e tentou sair dali o mais rápido possível, pois o local, em volta da ilha, se tornava agora perigoso. Gucky captou os impulsos de Marshall, que estava a duzentos metros e já havia alcançado a superfície com McClears. Os tópsidas na plataforma estavam agora demasiadamente ocupados para se preocuparem com coisas que estavam acontecendo no mar. A ilha não iria, propriamente, cair, mas três quartos dela estavam inundados. Gucky poderia se utilizar de seus dons telecinéticos, mas estava adorando nadar debaixo d’água. McClears e Tifflor já estavam fora de perigo, como lhe dizia nitidamente a mensagem telepática de Marshall. Os aquas estavam fazendo tudo para que os dois resgatados do castelo de vidro saíssem o mais depressa possível da zona perigosa. O rato-castor se divertia mergulhando bem fundo, junto das plantas marinhas. Deu de cara com um enorme peixe que ao vê-lo disparou assustado. E assim foi que ele chegou duas horas mais tarde que os outros para o lugar onde estava a Gazela. Havia tomado o seu muito desejado banho de mar, mas não se havia

molhado.

6 Perry Rhodan estava conversando com Crest e Thora sobre a possibilidade de uma colonização interestelar, quando um zunido muito agudo se fez ouvir. Assustou-se um pouco, apertou depois o botão de seu aparelho receptor de pulso. — Aqui fala Rhodan. O que há? — Mensagem urgente do sistema Beta senhor. Quer que eu a receba? — Comunique-se com Reginald Bell e espere. Vou atender. Crest e Thora viram-no sair correndo do local, antes que lhe pudessem fazer uma pergunta. Levantaram-se para acompanhá-lo, pois estavam muito interessados em saber o que acontecera a 272 anos-luz da Terra. O elevador levou Rhodan em cinco minutos à central de radiocomunicação. O operador-chefe Eilman fez posição de sentido e anunciou: — Major Deringhouse, Centauro, sistema Beta, solicitou transmissão especial. Distância duzentos e setenta e dois anos-luz. — Meu querido Eilman — disse Rhodan — você é o homem das notícias. Só não compreendo bem por que repete tanto coisas já conhecidas. De qualquer maneira é melhor do que inventar novas. Que há com Deringhouse? — Apresenta-se exatamente dentro de trinta segundos. Rhodan sorriu e tomou lugar à mesa de controle. Neste instante, Bell entra porta a dentro, cumprimentou Eilman com um aceno de mão e sentou-se ao lado de Rhodan. — Agora, estou realmente ansioso. — Não é por menos — respondeu Rhodan. — Onde estará o sujeito? — Vou lhe puxar os pelos — prometeu Bell, com o que se tornou claro que falavam do Gucky, cuja ausência lhes era um problema desde a partida dos dois cruzadores pesados. — Espere — recomendou Rhodan tranquilo. Acendeu uma lâmpada verde à sua frente, ouvindo então uma voz desfigurada no alto-falante: — Aqui fala Deringhouse. Estou chamando Terrânia. Do outro lado, estava Rhodan: — Como é bom ouvir sua voz, Deringhouse. Antes de você começar a falar, diga-me uma coisa: você viu Gucky por algum lugar? Pequeno intervalo, depois veio a resposta de Deringhouse: — Gucky está conosco, senhor. — Está bem. Dê então as notícias. Os saltadores já se manifestaram? — Como posso entender a pergunta, senhor? Nós somos os “saltadores”. Ao menos para os tópsidas. Além disso, os verdadeiros... — Um momento, Deringhouse, você falou tópsidas? O major começou seu relato. Rhodan e Bell ouviam compenetrados, sem interrompê-lo uma vez sequer. No fim, resumiu seu ponto de vista: — Este foi o plano que cada um de nós dois elaborou separadamente, sem combinação prévia. Eu presumo que o senhor concorde com nosso ponto de vista. Naturalmente 96


que seria muito simples destruir as bases dos tópsidas e suas naves com o auxílio da Centauro e da Terra, mas não lucraríamos muito com isto. Assim temos a possibilidade de matar dois coelhos com uma só cajadada. Merece atenção especial o fato de que o comandante-geral dos tópsidas, um tal Al-Khor, há poucas horas atrás enviou uma mensagem de socorro para Topsid. Pede auxílio ao ditador e soberano do Reino Estelar dos Tópsidas, para salvar o sistema Beta do iminente ataque dos saltadores. Este ditador está revoltado contra o pretendido ataque dos saltadores e prometeu a Al-Khor de lhe enviar uma poderosa frota de guerra. Estamos esperando por ela. Rhodan olhou para Bell, que fitava meio desconcertado o alto-falante, como se esperasse do aparelho uma sugestão. — Excelente, Deringhouse — continuou Rhodan. — Se seu plano funcionar, e eu aposto que vai funcionar, atingiremos nosso objetivo inicial, sem movermos uma palha. Os saltadores, que atacarem, haverão de ver nas espaçonaves dos terríveis e corajosos tópsidas as naves da Terra ou de seus aliados. Mas os tópsidas têm plena razão quando consideram os saltadores como saltadores mesmo, apenas desconhecem a razão do seu ataque. Temos, porém, que evitar que não haja nenhuma relação mais clara entre os dois adversários. Infelizmente não recebi ainda nenhuma notícia sobre Talamon, o superpesado com quem temos amizade. Não sei se vai tomar parte no ataque. — Quais são suas ordens, senhor? — perguntou Deringhouse. Rhodan começou a sorrir. — Deve esperar Deringhouse, o melhor é vocês se retirarem para o terceiro planeta e agir como se ele fosse a Terra. Quem sabe vocês conseguem até atrair para lá os tópsidas. Assim este planeta terá maior semelhança com a Terra. — Entendido, senhor. Ligarei novamente quando as coisas se desenrolarem mais. — Aparecerei logo por aí — prometeu Rhodan — para recebermos com alegria nossos amigos. — Desta vez, os tópsidas são nossos aliados. É pena que não saibam nada disto. Antes de desligar, uma pergunta, Deringhouse: você deu ordem de prisão individual para o violador da disciplina, Gucky?

Deringhouse titubeou um pouco, depois falou: — Sinto muito, senhor, mas nós precisamos muito da ação do rato-castor. Se quiser ser sincero, sem Gucky não teríamos conseguido nada. Posso fazer uma observação? — Claro que sim — disse Rhodan, continuando a sorrir mais ainda. Bell acrescentou: — Estou curioso. Podia-se ouvir a respiração de Deringhouse. — Não se deve olhar para o caso de Gucky assim. Foi simples zelo pelo dever, mas não um desrespeito ao regulamento por motivos inferiores. É claro que chamei sua atenção para o erro. Mas depois se comportou maravilhosamente, chegando mesmo a salvar a vida de McClears e de Tifflor. Ninguém fora dele, poderia fazer isto. Portanto, acho que se devia... — Certo, Deringhouse, diga a Gucky que ele está perdoado. No próximo semestre, porém, não receberá cenoura. Quer dizer mais alguma coisa, Deringhouse? — Senhor, eu acho que isto não causará transtorno a Gucky. — Acho que sim. Ele gosta muito de cenoura e vai sentir muita falta. — Não sei, tenho que confessar que perdi uma aposta... Bell começou a dar gargalhada. Estava bem por dentro destas apostas. Já tinham custado a muita gente uma boa soma de dinheiro em cenouras e rabanetes... e pontas de dedo paralisadas de tanto coçar pelo de animal. — Está certo — ria também Rhodan. — Que ele coma bastante, mas não deixe comer demais e estragar o estômago, pois precisamos muito dele contra os tópsidas e contra os saltadores. Até logo mais, Deringhouse, saudações a todos os homens e a Gucky. Fim. Do depósito de víveres da Centauro, os robôs levaram caixas e mais caixas de cenoura para a cabina de Gucky, onde o rato-castor estava sentado no sofá como um verdadeiro paxá, enquanto o major Deringhouse cumpria sua primeira hora de “coçagem”. Quem fizesse aposta com Gucky teria sempre cem por cento de certeza de que ia perder.

A surpreendente descoberta de que os tópsidas, velhos inimigos da Humanidade, tinham pontos de apoio no sistema Beta, foi incluída estrategicamente na gigantesca manobra de camuflagem de Perry Rhodan. Será que os tópsidas continuarão o jogo, depois que as frotas dos saltadores e dos aras aparecerem? E Topthor, que já viu com os próprios olhos o sol da Terra! Será que ele não vai reconhecer, assim que vir o enorme sol Beta, que a positrônica o levou a um alvo errado? Em A Morte da Terra, Topthor é a figura central de mais uma aventura de Perry Rhodan.

97


Nº 49 De

K. H. Scheer Tradução Richard Paul Neto Digitalização Arlindo San Nova revisão e formato W.Q. Moraes

Os saltadores planejaram a destruição da Terra. Essa destruição é também do interesse de Rhodan. Naturalmente não a destruição da verdadeira Terra, o planeta pátrio da Humanidade. Mas, sim, o terceiro planeta desabitado do sistema Beta. A programação alterada da positrônica de bordo da nave de Topthor levou os saltadores à falsa Terra... E o espetáculo da destruição da Titan deve ser assistido por todos os seres inteligentes da Galáxia, para convencê-los realmente que a Terra e Rhodan não existem mais...

98


esteja no sistema do sol Beta, onde os tópsidas tentam se estabelecer. Já que os saltadores tencionam destruir a Terra, os habitantes do sistema Beta vão intervir e atacá-los. Fora da relação tempo-espaço, definida por Einstein, Haverá então uma guerra, a que vamos assistir de camarote, todas as leis da natureza que conhecemos perdem a se quisermos atingir nosso grande objetivo. validade no hiperespaço. A noção de tempo desaparece e as Maravilhosamente engendrado, não é? distâncias infinitas se reduzem a um ridículo nada. — Sim, por Deringhouse e McClears, com os quais, No infinito do Universo, decorrera apenas fração de um finalmente, temos que manter contato. Onde estarão agora segundo, quando Perry Rhodan deu um salto de dez mil os dois cruzadores? anos-luz com a sua poderosa esfera espacial Titan, para o Bell Interpretou a pergunta como uma ordem indireta e interior da Via Láctea. se levantou. Num piscar de olho, o Sol se reduziu a uma minúscula — Está bem, vou me informar a respeito. Rádio estrela, que apenas os mais sensíveis telescópios eletrônicos cifrado? eram capazes de perceber, no emaranhado imenso de — Naturalmente — confirmou Rhodan, e continuou corpos celestes. Mesmo o sol Beta, o olho gigantesco olhando para o painel panorâmico, embora não houvesse vermelho, parecia quase apagado. Já estava a 9.728 anosnada para ver, de maior interesse. — Determinar a posição luz da Titan, na direção da Terra. e pedir um relatório da situação. Eu irei pessoalmente falar Diante da supernave, porém, jazia o espaço infinito, com Deringhouse. Nada, de imagens, para os com seus sistemas habitados e desabitados... e com seus telespectadores clandestinos não pegarem nada. É bom que perigos. a Terra permaneça um pouco no Perry Rhodan estava sentado esquecimento. em frente à tela panorâmica que Personagens principais deste episódio: — Em compensação, metade lhe proporcionava uma visão do Universo se movimenta por simultânea de todo o espaço. A Perry Rhodan — Administrador da Terra e causa dela — disse Bell sorrindo, seu lado, Reginald Bell, seu comandante da Titan. enquanto atravessava a cabina melhor amigo e companheiro, semiesférica para entrar na sala passava a mão na nuca para Major Deringhouse — Intrépido comandante do de rádio, que ficava ao lado. — minorar a dor da transição. cruzador Centauro. Alô, Martin, dormiu bem? Depois ajeitou as cerdas eriçadas O cadete Martin fez um gesto de sua cabeleira vermelha e Al-Khor — Comandante supremo das forças que sim, sem se virar, estava esfregou os olhos para ver tópsidas no sistema Beta. sentado diante dos aparelhos, melhor. A Titan avançava para observando o resultado de alguns dentro do emaranhado de Ber-Ka — Corajoso e pretensioso oficial tópsida que números em escalas coloridas. estrelas, porém, agora quase que derrubou a nave de Topthor. Uma tela oval apresentava se “arrastando” a uma reflexos cintilantes que velocidade que mal atingia 0,9 Cekztel — Quer destruir a Terra, mas confunde-a percorriam a tela convexa, da velocidade da luz. Nesta com um planeta de Beta. aparentemente sem sentido. Não aceleração, levariam anos para se compreendia nada, naquela atingir a próxima estrela. Topthor — O grande idealizador da guerra de confusão de sinais. De um alto— Espero que os destruição da Terra. falante, ouviam-se estalos. interessados tenham ouvido o — Salto bem sucedido, estrondo durante a Gucky — Com três poderes parapsicológicos é uma senhor. Nenhum sinal de rádio rematerialização, Bell — disse peça indispensável da vitória. até agora, que se refira a nós. Rhodan, acenando na direção da — Envie uma mensagem por porta da central de rádio. — hiper-rádio a Deringhouse, na Saberemos em breve. direção de Beta. Em código cifrado sistema H-V trinta e “Por toda parte, nas Galáxias, existem rastreadores três, positronicamente. Major Deringhouse deve dar sua estruturais, que registram qualquer transição no posição e se preparar para fazer um relatório. O chefe quer hiperespaço. Nós não nos utilizamos do compensador falar diretamente com ele. Avise, assim que conseguir estrutural durante o salto, portanto devem ter ouvido o contatá-lo. estrondo no mesmo instante, mesmo na distância de dez mil — Certo, senhor, tudo será feito. anos-luz”. Bell ainda ficou olhando por uns instantes como o “Agora é que começa o quebra-cabeça das conjeturas, operador-chefe ligou a instalação, registrou a mensagem no meu amigo. Os comerciantes das Galáxias pensarão que aparelho de decodificação e depois a gravou em fita somos os terranos, no que, aliás, estão certos. Permita Deus magnética que começou a retransmiti-la. O texto seria que os tópsidas, de acordo com os planos, também nos repetido tantas vezes até que viesse resposta na mesma considerem comerciantes das Galáxias.” frequência. Isto poderia levar horas ou apenas minutos. — Vamos reforçar um pouco a opinião deles — — A mensagem está correndo — disse Bell a Rhodan, prometeu Bell, que era baixo e meio pesadão. Mas Bell, voltando à sua poltrona de primeiro oficial. — Tomara que realmente, não tinha nada de pesadão e isto valia também nenhum saltador nos localize. não só no sentido físico. — Os sáurios de Topsid têm de — Isso é um pouco difícil — sorriu Rhodan. — Sob supor que nós somos saltadores, pois acreditam que viemos certas condições, pode-se determinar a direção das do lado oposto. Com os saltadores é diferente, eles vêm das transmissões por hiper-rádio, mas nunca o seu profundezas da Via Láctea e acreditam que nossa Terra

1

99


distanciamento. Terão que procurar muito até nos encontrar. Está mais otimista, Bell? O gorducho murmurou algo ininteligível e passou a se dedicar com afinco à observação do Universo, como se nunca tivesse visto uma estrela em sua vida. Na realidade, tinha visto muito mais estrelas do que muitos outros homens. Mas Bell pensava sempre em moças bonitas. *** O cruzador pesado Centauro, uma esfera de duzentos metros de diâmetro, estava relativamente imóvel no espaço, aguardando. Bem perto dele, a menos de dois quilômetros, flutuava a nave gêmea Terra, cujo comandante era o major McClears. A bordo da Centauro estavam, além do telepata John Marshall, nove outros mutantes, sem incluir Gucky, o ratocastor. A separação de seu amigo do peito, Bell, estava lhe fazendo muito bem, pelo menos estava deixando de aprender outras expressões um tanto fortes e tinha que se contentar com as que já sabia. Deringhouse tinha dormido algumas horas, e naquele exato momento estava chegando à cabina de comando, para substituir seu lugar-tenente capitão La manche. — Alguma novidade, capitão? O francês balançou a cabeça. — Nada, senhor. A distância do sol Beta continua ainda a de trinta anos-luz. O rastreador estrutural constatou um grande número de transições nas imediações do sistema Beta. Os tópsidas estão recebendo realmente o prometido reforço. Deringhouse ouvia cansado. — Está bem, La manche, substitua-me daqui a cinco horas. Cinco horas... Deringhouse não foi diretamente para sua poltrona, mas ficou andando de um lado para o outro na espaçosa cabina da Centauro. Quanta coisa havia acontecido nos últimos dias... O plano de Rhodan de enganar os poderosos inimigos da Terra estava se tornando cada vez mais concreto. Os saltadores, unidos a Topthor, tinham em mãos um trunfo insuperável. O superpesado Topthor sabia onde estava a Terra. Pelo menos julgava que sabia. O que realmente não sabia era que os mutantes de Rhodan, já há muito tempo, haviam alterado os dados no computador de bordo da Top II, onde estavam armazenados todos os detalhes sobre a posição da Terra. Quando fosse consultado, o cérebro eletrônico diria hoje que a Terra é o terceiro planeta do sistema Beta. Conforme o plano de Rhodan, os saltadores haveriam de atacar este terceiro planeta de Beta e destruí-lo, na crença de que se tratava da Terra. Com isto estava ganhando tempo para fortalecer o sistema de defesa da Terra e para se preparar para um segundo encontro com o cérebro robotizado de Árcon. É claro que após a destruição da “Terra”, tinha-se de dar a impressão de que não existiam mais os terranos de Perry Rhodan. Deringhouse tinha nos lábios um leve sorriso. Um plano ousado e prudente que, quando bem sucedido, resolveria muitos problemas de uma só vez. O terceiro planeta do sol Beta era um mundo de florestas virgens inabitado, que seria sacrificado para salvar

a Humanidade. O quarto planeta, porém, o “mundo d’água”, chamado Aqua, foi uma verdadeira surpresa. No único continente, que nadava num mar imenso, como uma pequena ilha, os tópsidas haviam estabelecido uma base. Os tópsidas ou sáurios possuíam a 815 anos-luz da Terra um reino estelar, dominado por um ditador. Eram velhos inimigos de Rhodan. E agora surgiam de repente tão pertos da “Terra” de novo. Num plano feito na última hora, Deringhouse e os seus se faziam passar por saltadores e acabaram revelando aos tópsidas que a força de combate dos superpesados, uma tropa de assalto de elite dos saltadores, estava a caminho para destruir a base dos tópsidas. Outras unidades dos saltadores e dos aras participariam também do assalto. A reação foi como se esperava. Os sáurios exigiram reforços para poderem se defender do assalto. Deringhouse fugiu e estava a trinta anos-luz de distância, esperando o sucesso de sua artimanha. Um zunido muito agudo chegou a seus ouvidos, vindo da cabina de rádio ao lado. Tenente Fischer estava de serviço. O zumbido estridente significava hiper-rádio. — Rhodan? Com um pulo, Deringhouse atravessou a cabina de controle e empurrou a porta da cabina de rádio. Fischer regulou o volume e procurou o manual dos códigos. Ligou o aparelho de decodificação e, no mesmo instante, os sons quase inarticulados se tornaram compreensíveis: — ...tauro. Repetindo: Titan para Centauro. Indique posição, major Deringhouse. O chefe aguarda relatório completo. Repito mensagem toda: Aqui Titan, posição dez mil anos-luz da Terra, direção Árcon. Titan para Centauro... — Apresente-se, Fischer — ordenou Deringhouse — talvez já estão chamando por nós há mais tempo. Ou você recebeu o chamado neste instante? — Não tenho a menor ideia de quando começou o sinal, senhor. Demorou mais dois minutos até que a voz de Rhodan se fez ouvir no alto-falante. Para a cobertura de uma distância quase inimaginável, ela levou menos de um milésimo de segundo. — Aqui fala Rhodan. Estou a nove mil setecentos e vinte oito anos-luz de vocês, Deringhouse. Transições contínuas anunciam a concentração da frota dos saltadores. O número exato não é possível saber. E o que está se passando por aí? — As últimas mensagens dos tópsidas puderam ser decifradas. O ditador de Topsid prometeu enviar para a base de Aqua uma poderosa esquadrilha militar. Conforme meus cálculos chegam a uns quinhentos aparelhos, e já estão a caminho. — Os saltadores também devem trazer um número mais ou menos aproximado. A destruição intencionada por nós do pseudoplaneta Terra se dará, pois, sob tais circunstâncias dramáticas. Quando os tópsidas e os saltadores se digladiarem, não sobrará muita coisa. Temos que fazer tudo para que não cheguem a explicações verbais. Os saltadores têm de considerar os tópsidas como terranos ou seus aliados, enquanto que os tópsidas têm de ver nos saltadores seus inimigos figadais. Se nós aparecermos uma vez ou outra e permitirmos que eles nos vejam um pouco, a ilusão será completa. Mais alguma coisa, Deringhouse? Tudo 100


claro? — Apenas uma pergunta, senhor. — Pois não, Deringhouse. — O senhor vai ficar por aí ou vem nos dar um pouco de apoio? E ainda mais: Quando devemos voltar para o terceiro planeta? A resposta de Rhodan não se fez esperar. — Vamos agir juntos. Você receberá a ordem de atacar no mesmo segundo em que a Titan saltar para o terceiro planeta. Será no momento em que os saltadores caírem em cima dos tópsidas. — Será que três espaçonaves apenas bastam para enganar os dois lados? — Acho que sim, se não ficarmos sempre no mesmo lugar. Até logo mais, Deringhouse. O major olhou para a tela, onde, em condições normais, a imagem de Rhodan teria aparecido. Voltou depois para a cabina de comando e ficou refletindo. “Tomara que os cálculos de Rhodan deem certo. Do contrário...” *** O segundo parceiro do jogo de xadrez galático era AlKhor, o comandante geral dos tópsidas nos planetas do sistema Beta. Depois de haver eliminado seu inimigo WorLök, e ter entrado em ligação com Topsid, muita coisa se havia alterado. A base dos tópsidas no quarto planeta, até então muito fraca, foi imediatamente reforçada para não ser derrotada em caso de um ataque. Sem suspeitar de nada, Al-Khor veio de encontro aos planos de Rhodan. Além disso, quis o acaso que Al-Khor, através de suas providências, confirmasse os dados falsos dos saltadores de que no planeta das matas virgens é que estava a Terra. AlKhor transferiu para o terceiro planeta todo o poderio militar dos tópsidas. A cada momento chegavam novos reforços da longínqua pátria dos tópsidas, a mais de quinhentos anosluz do sistema Beta. Deringhouse conseguiu registrar as transições, já estavam acima de quatrocentas. No planalto, situado acima das matas virgens, os raios energéticos escavavam enormes cavernas nos rochedos. O planeta, até então desabitado, virou de uma hora para outra uma verdadeira fortaleza. Naves de patrulhamento dos sáurios cruzavam em direções predeterminadas todo o planeta, fazendo tudo para evitar um ataque de surpresa dos saltadores. Outras unidades estavam escondidas nas partes rasas do mar, esperando pela ordem de entrar em ação. Os tópsidas estavam bem armados para repelir a cobiça dos saltadores, cujos motivos, porém, não estavam bem claros desta vez. Se soubessem por que motivos os saltadores estavam atacando o terceiro planeta, ou se chegassem a perceber que os saltadores julgavam que se tratava da Terra, seu procedimento mudaria, e tudo estaria perdido. Al-Khor estava a bordo de um dos últimos aparelhos que haviam deixado Aqua, o planeta das águas. Quando o mundo azul desapareceu atrás dele, acenou contente para o comandante do cruzador. — Os saltadores jamais chegarão à ideia de que nós estamos mais interessados no quarto planeta do que no terceiro. E também não terão possibilidade de corrigir o erro. O ditador me comunicou a pouco, que, exatamente no

momento em que nós estivermos no apogeu do ataque, mandará uma outra frota de duzentos cruzadores pesados. Tenho a impressão de que nenhuma espaçonave dos saltadores escapará da destruição. — Uma jogada genial — disse o comandante do cruzador tópsida elogiando. — Seu nome, Al-Khor, ficará nas páginas da história dos tópsidas. Al-Khor concordou feliz. Já estava se vendo, em traje de gala, na parada da vitória, ao lado do ditador que o condecoraria como herói do Reino das Estrelas. O cruzador chegou ao terceiro planeta e Al-Khor se dirigiu ao quartel-general, uma caverna escavada num morro, nas proximidades do equador. A estação de hiperrádio já estava em funcionamento. Em menos de dois minutos, Al-Khor conseguiu ligação com Topsid. Exigindo um relato completo da situação, o comandante local das forças armadas apresentou-se. Depois prometeu solenemente: — Pode ficar tranquilo, Al-Khor, os saltadores terão a maior derrota de sua longa história. O ditador está muito contente com as providências que você tomou. Envie a senha, assim que os saltadores atacarem e faça com que estejamos sempre a par do desenrolar dos acontecimentos. — Haveremos de vencer! — exclamou Al-Khor pateticamente. Houve um momento de silêncio e depois veio a resposta: — Temos de vencer, Al-Khor. *** O terceiro parceiro da partida chamava-se Cekztel, o mais velho patriarca dos superpesados, que mantinha em suas mãos o comando geral de todas as forças armadas dos saltadores. Sua figura maciça — pesava mais de seiscentos e cinquenta quilos — estava sentada numa poltrona especial diante dos controles da espaçonave, de onde iria dirigir a estratégia geral. A estratégia que significava a destruição total de um planeta chamado Terra. Cekztel era, propriamente, o órgão executivo do empreendimento, pois o iniciador de tudo chamava-se Topthor. E por isso, vamos nos ocupar mais dele, pois foi ele quem um dia descobriu a Terra e registrou no computador de bordo, com muito cuidado, sua localização. Como Perry Rhodan se tornava cada vez mais importante, e, portanto, mais perigoso, o valor deste registro positrônico era incalculável. Topthor acabou revelando este segredo aos saltadores, pois estava em jogo sua própria segurança. Resolveram, então, unidos, acabar com Rhodan, de uma vez por todas. Seu planeta pátrio teria que ser destruído. A chave para isto estava com Topthor. Mas a chave não prestava mais, pois há muito, os mutantes de Perry Rhodan haviam alterado os dados do computador de Topthor. A “Terra” agora girava em torno do sol Beta. Quanto mais longe, melhor. O corpanzil de Topthor repousava numa poltrona larga. Os superpesados tinham vivido por muito tempo num planeta de elevada gravitação, mas apesar de seu enorme corpo, eram relativamente ágeis. — Alô, Regol! Você está cochilando aí no seu posto? — Cabina de rádio na escuta, Topthor. Não foi possível ainda fazer a ligação com Talamon. 101


— Não temos nenhuma frequência secreta? — Talamon não responde nem mesmo por ela. Topthor, com um soco da mão direita fechada, fez funcionar outro botão, interrompendo a ligação com a sala de rádio. Durante uns dois minutos, ele ficou praguejando sozinho, antes de ligar o intercomunicador. — Gatzek deve vir falar comigo, imediatamente. Gatzek era o segundo oficial da nave Top II, homem de confiança de Topthor. Os dois superpesados já tinham feito muitas campanhas juntos e travado muitas batalhas, por bom dinheiro dos ricos comerciantes das Galáxias. Desta vez, porém, não se tratava de dinheiro, tratava-se de riscar do mapa um adversário que se tornara poderoso demais. Por que Talamon não se manifestou? Gatzek era relativamente magro, pesava tão somente... uns quinhentos quilos. — Qual é a novidade, Top? Ataque? — Ainda não — murmurou Topthor mal-humorado. — Cekztel está levando muito tempo. Enquanto isto ocorre um número muito grande de transições lá por perto da Terra. Isso me preocupa. Parece que Rhodan foi avisado de alguma coisa. Por uns instantes, Gatzek parecia assustado, mas de repente um sorriso sarcástico inundou seu rosto. — Quem é que o poderia ter avisado? Topthor não prosseguiu com suas ideias. — Não consegui ainda me comunicar com Talamon. Onde estará o nosso amigo Talamon...? Era o único saltador que havia feito amizade com Rhodan, porque este lhe poupara a vida, quando duzentas naves dos superpesados entraram num beco sem saída. Além disso, Talamon era devedor de gratidão a Rhodan, pelo melhor negócio que fizera em sua vida. Naturalmente, ninguém conhecia estes detalhes, mas Topthor tinha suas suspeitas e sabia muito bem ler entre as linhas. Sua última conversa com Talamon o deixou muito preocupado. — Ele vai tomar parte no ataque à Terra? — perguntou Gatzek. — Quem dos superpesados que não vai tomar parte, ao menos com uma nave, que seja? — foi a contrapergunta de Topthor. — Nossa frota de assalto já conta com mais de oitocentas unidades, mas de Talamon não há nem um aparelho de pequeno porte. Você tem uma explicação razoável para isto? Gatzek sacudiu os poderosos ombros: — Será que ele está com medo? Topthor se irritou um pouco com esta hipótese descabida. — Medo? Talamon ter medo? Receio que tenha outro motivo: simpatiza muito com Rhodan. — Com um terrano que está mais morto do que vivo? — disse Gatzek sinceramente admirado. Depois deu uma sonora gargalhada. — Por que nos preocupamos com Talamon? Se não quiser vir, que fique em casa. Mesmo sozinhos, somos capazes de liquidar este Rhodan. Não pode fazer nada contra oitocentas naves poderosíssimas. No fundo, ele tinha razão, mas felizmente não sabia de que maneira ele estava acertando. — Talamon é meu amigo — disse Topthor — e eu não gostaria que um amigo seguisse caminhos errados, que acabariam sendo sua ruína. Temos de chamá-lo a atenção. — E como você vai conseguir isto, se ele não dá sinal

de vida? Topthor não sabia o que responder. Não tinha também mais oportunidade de se preocupar com isto, pois neste momento ouviu-se o estalo característico do alto-falante do intercomunicador e logo depois soou a voz objetiva de Regol: — Acabam de chegar as coordenadas para o salto e o horário. O ataque à Terra será desfechado exatamente dentro de trinta minutos. É claro que ele não usou a palavra minuto, mas convertido daria mais ou menos o equivalente. Topthor esqueceu num instante o caso de Talamon. Fazendo um sinal para seu homem de confiança, Gatzek, perguntou: — Para onde é que nos leva o salto? — Para o centro do sistema dos terranos. Uma nave de patrulhamento colheu informações. Chegaremos a menos de dois minutos-luz da Terra no superespaço. — A rapaziada vai arregalar os olhos — continuou Topthor, pois o superpesado já estivera uma vez na Terra. Mas, naquela vez, Rhodan o enganara. De qualquer maneira, Rhodan lhe poupara a vida. Mas Topthor não era homem para se mostrar grato por uma coisa desta. — Porém desta feita, vamos acabar com Rhodan. — Esperamos que sim — observou Gatzek, e já não parecia tão seguro. Mas Topthor atribuía seu mau humor a outro motivo: Talamon. Sabia que seu amigo era um homem muito perspicaz, que jamais teria tomado uma atitude como esta sem motivos de grande peso. Se não estava tomando parte neste ataque, era porque estava duvidando de antemão do resultado da ação. Por quê? Conhecia ele tão bem assim a capacidade de Rhodan, para acreditar na vitória dos terranos? Ou seria sentimento de gratidão que o impedia de atacar Perry, por lhe haver poupado a vida, há tempos atrás? Um saltador superpesado, mas... sentimental...? Topthor deu uma risada forçada e se dirigiu à sala de rádio. — Então, Regol, que é que há com Talamon? — Os sinais de chamada continuam sem resposta, Topthor. Seu amigo não aparece e ninguém sabe onde está. Topthor ficou calado, virou-se bruscamente na direção da cabina de controle. Deixou-se cair pesadamente na poltrona que rangeu sob o peso. Gatzek esperava tranquilo. Percebeu pela fisionomia de Topthor, que seria melhor ficar calado. Pois nos traços de Topthor não se via apenas uma curiosidade angustiante, mas declaradamente a expressão da dúvida. *** Afinal aí estava Talamon, que Topthor procurava tão desesperadamente. Neste jogo de xadrez galáctico, representava ele o papel mais insignificante possível, pois nem aparecia. Mas exatamente isto é que deixava Topthor tão zangado e incerto. Porém, Talamon agiu por conta própria, quando deixou de atender ao pedido de seu patriarca Cekztel, não enviando nenhum aparelho para o ataque à Terra. Por que razão o haveria de prejudicar Rhodan? Não foi exatamente Rhodan que o fizera milionário? Que lhe poupara a vida? Que lhe provara que também entre raças estranhas existe algo chamado “código de honra”? 102


Não, Talamon não via razão para trair Rhodan. Estava com sua frota de duzentas unidades em algum lugar da Via Láctea, não mandou naves de patrulhamento e sua central de rádio ficou em permanente escuta. Caso fosse necessário, tinha a firme resolução de ajudar Rhodan. Sua tentativa de avisar os terranos foi inútil, pelo menos não havia recebido nenhuma resposta. Ficou acompanhando todas as transmissões das frotas dos saltadores que se reuniam e estava muito bem informado sobre tudo. Também os chamados de Topthor ele havia recebido, sem respondê-los. E assim aconteceu que atrás dos bastidores espreitava uma força militar de envergadura, aguardando o momento de intervir nos acontecimentos. Uma força de que ninguém suspeitava. Nem mesmo Perry Rhodan.

2 Tudo convergia para a Titan. O operador-chefe Martin acordara de um sono reparador e já tinha voltado para seu posto, quando o receptor começou a acusar impulsos fortes demais. Continham apenas uma palavra no texto: “Rhodan”. O restante era ininteligível. Martin, que tinha muita experiência, gravou em fita a mensagem que se repetia e depois chamou o chefe. Rhodan apareceu logo, bem disposto depois de um bom repouso. — O que há, Martin? O operador ligou a fita gravada. Rhodan ouviu por uns instantes, sem dizer uma palavra, depois sorriu e apontando para a instalação de controle positrônico, disse: — Aplique a chave XX-treze e deixe a fita correr. Pegue o texto decifrado e me traga na sala de comando. Eu estou substituindo Bell. Martin começou seu trabalho enquanto Rhodan abriu a porta da cabina e entrou. Bell estava na poltrona do comandante e virou para trás com cara de cansado. Um leve sorriso tremulou em seus lábios quando fitou Rhodan. — Já é tempo que alguém me venha substituir. Não

consigo mais ficar de pé. Minhas pernas estão cansadas. Perry retrucou: — Se meus conhecimentos de anatomia não estão errados, você também senta sobre as pernas, mas numa parte muito especial que você chama de... — Santo Deus, será que tudo tem que ser tomado ao pé da letra? — lamentou Bell. — Só queria dizer que estou muito cansado. — Então vá dormir Gordo — aconselhou-o Rhodan, tirando seu amigo da poltrona. — O negócio vai começar logo e todos os guerreiros estão mesmo cansados. A brincadeira de Rhodan deixou Bell com melhor disposição. — O negócio vai começar? Que negócio? Você se refere ao ataque? — Quando é que você vai aprender a falar melhor? — e apontando na direção da sala de rádio, disse: — Chegou um rádio há pouco. Se não me engano, vem de Talamon. — Do superpesado? Que quer de nós? — Saberemos logo. De qualquer maneira, manteve a palavra. Nesse instante entrou Martin. — Já decifrei o texto, devo...? — Pode rodar a fita e ligue o som para cá. Segundos após, a fita estava tocando na sala de rádio, a mensagem tinha um texto simples e claro. — Sim — disse Rhodan contente — é sem dúvida o vozeirão do nosso amigo Talamon. Deve estar muito apreensivo a nosso respeito, para ter coragem de nos mandar esta mensagem. Bell nada disse. Estava atento a cada palavra que saía do alto-falante: — Rhodan, aqui fala Talamon. Perigo iminente para a Terra. Em vinte minutos exatos a Terra será atacada por uma frota sob o comando de Cekztel e a orientação astronáutica de Topthor. Posição já conhecida. Estou esperando suas instruções. Não tomo parte no ataque. Repito: Rhodan, aqui fala Talamon. Perigo iminente para Terra. Em vinte minutos exatos... Bell fazia sinal de aplauso. — Veja só, iam deles, o supergordo, é sincero e quer nos avisar. Não esperava isto dele. — Mais tarde haveremos de nos lembrar dele — prometeu Rhodan, desligando a instalação de som. Encostou-se comodamente na poltrona e volvendo-se para Bell: — Como é? Não vai dormir? Estava tão cansado? — Cansado? — suspirou Bell. Seus cabelos vermelhos estavam arrepiados. — Como posso dormir se a batalha começa em vinte minutos? — Você não deve esquecer que esta mensagem foi recebida por Martin há uns dez minutos — disse Rhodan bem calmo. — Só a decifragem levou seis minutos. — Dez minutos!... — os olhos de Bell se arredondaram. — Isto quer dizer que os saltadores em dez minutos... Puxa vida! Que estamos fazendo aqui? — Dez minutos... — Rhodan olhou para o relógio e se corrigiu. — Nove minutos é um tempo bem grande quando se sabe aproveitar. — Rhodan apertou um botão. — Martin, faça-me uma ligação para Deringhouse. Eu vou atender aí. Desligou o intercomunicador e se levantou. — A operação está em marcha, mesmo que não façamos mais nada. Não podemos mais detê-la, o máximo 103


que podemos fazer é influenciar para o lado positivo e haveremos de fazê-lo, naturalmente. Você ainda quer ficar acordado? Rhodan se dirigiu novamente para a sala de rádio, pois Deringhouse já estava esperando. — Atenção, Deringhouse. Última informação — disse Rhodan, olhando para o relógio. — Os saltadores se materializam no espaço dentro de sete minutos e trinta segundos. Temos então que já estar aí, pois não sei qual vai ser a reação de Topthor, se reconhecer seu erro. Temos que cuidar que não lhe sobre tempo para uma desculpa. Os saltadores têm que ver no terceiro planeta a Terra verdadeira. Topthor é o único ser humanoide que viu o sol da nossa Terra e guardou sua posição. Os saltadores devem, portanto ser atacados assim que chegarem. — Os tópsidas estão esperando por eles — observou Deringhouse. — Certo, mas nós devemos ajudar um pouco. Transição exatamente em sete minutos para o sistema Beta. Deringhouse ataque a primeira nave dos saltadores que aparecer. Não espere muito e não fique mais do que um minuto em cada posição. Transição é mais importante do que luta. Os saltadores devem ter a impressão de que estão lutando contra uma grande frota de poderosos cruzadores. A mesma ordem vale também para McClears. Entendido? — Entendido, senhor. E o que é que o senhor vai fazer? — A Titan também vai aparecer. Já que somos as três únicas naves esféricas, não há perigo de nos enganarmos. — Por que — perguntou Deringhouse com voz abafada — não destruímos logo a nave de Topthor, para tirar muito aborrecimento do caminho? Quando ele e seu computador de bordo estiverem destruídos, ninguém mais poderá corrigir o erro. Rhodan deu um sorriso frio. — Existem centenas de naves de conformação cilíndrica, muito semelhantes umas às outras. Você acha que consegue distinguir a de Topthor das outras? Depois de curta pausa, Deringhouse ainda perguntou: — E o que faço, caso eu realmente a distinga? Agora a pausa era do lado de Rhodan. Refletiu um pouco, embora soubesse que não haveria outra resposta. Naturalmente, Deringhouse tinha muita possibilidade de distinguir a nave de Topthor, pois a bordo da Centauro se encontrava o corpo de mutantes. E se Topthor já estivesse morto... — Se encontrar Topthor, destrua sua nave. — Obrigado. Vou fazer esforço para isso. Mais alguma coisa? Rhodan olhou para o relógio, um movimento que haveria de repetir ainda muitas vezes, nos próximos minutos. — Transição dos saltadores em... três minutos e cinquenta segundos. Felicidades, Deringhouse. Rhodan virou-se para trás, quase se chocando com Bell que o seguia. Passou por ele sem dizer uma palavra e foi na direção do computador, onde recolheu os dados para o hipersalto. — Sente-se, Gordo. Dentro de cinco minutos, você poderá ver o gigantesco sol de Beta, se tiver tempo para isto. ***

— Quer apostar como acharei a nave de Topthor, em poucos instantes? — dizia Gucky. Deringhouse levantou as duas mãos, como se quisesse se proteger do rato-castor. — Posso apostar com o diabo, a qualquer momento, mas nunca mais com você. Meus dedos ainda estão doendo de tanto coçá-lo. Além disso, ainda tenho de lhe pagar seis arrobas de cenoura. — Mesmo assim ainda vou achar Topthor — continuou Gucky ignorando o pretexto do comandante. — Então, saltarei em sua nuca e lhe quebrarei o pescoço. Deringhouse sorriu, enquanto verificava os controles que realizariam o salto iminente para o sistema Beta. — Teria prazer em ver isto. Você é telepata, teleportador, telecineta, mas não sabia que é também lutador de judô. Prazer em conhecê-lo... — Você não crê em mim? — disse Gucky, encostandose ao sofá, com uma expressão incrível em sua cara cômica. — Eu já liquidei centenas de robôs. — Não se trata apenas de Topthor — lembrou-lhe Deringhouse, empurrando uma alavanca para frente. — Sua espaçonave inteira deve ser destruída. Você se lembra que todos os dados sobre a nossa Terra estão ainda registrados na positrônica de bordo, pois não foram totalmente suprimidos. Claro, Topthor também é importante, pois o superpesado não é bobo. Vai perceber logo que está no planeta errado, que pulou confusamente noutro sistema e talvez mude de ideia. John Marshall, chefe do exército de mutantes, entrou na cabina de controle da Centauro. Cumprimentou Gucky e se dirigiu a Deringhouse. Como telepata, sabia, naturalmente, sobre o que os dois estavam conversando. — Uma das missões do corpo de mutantes será descobrir a presença de Topthor, major. Por que então não se utilizar de Gucky, quando ele está tão seguro de sua competência? — Não tenho nada contra, se ele tomar a iniciativa — respondeu Deringhouse cauteloso. — O que não quero é fazer mais apostas com ele. É meu direito, não é? Não quero voltar para a Terra pobre e meio aleijado. Marshall concordou, sorrindo, e Gucky estava feliz enquanto Deringhouse se sentia aliviado. O rato-castor concentrou-se então na grande missão que estava prestes a desempenhar. Deu-se então o salto da Centauro. Saltou simultaneamente com sua irmã gêmea, Terra. A cinco minutos-luz do terceiro planeta, as duas esferas gigantescas de duzentos metros de diâmetro voltaram ao espaço normal. Todos os canhões de raios energéticos estavam a plena carga e os envoltórios de proteção entraram em ação. O capitão La manche, na central de rádio, estava em grande atividade, procurando informações das muitas mensagens captadas, para melhor orientar uma estratégia coordenada. A bordo da Centauro era grande a agitação, mas o espaço em volta ainda estava tranquilo. O terceiro planeta era uma estrela bem nítida à sua frente. O rastreador estrutural estava ligado e registrava as primeiras transições. As distâncias eram diferentes, mas logo se evidenciou que todos partiam do mesmo local. A frota dos saltadores chegava com um pequeno atraso. ***

104


Os tópsidas estavam esperando em fortificações subterrâneas. Num trabalho febril nas últimas horas, aquelas instalações foram montadas para desviarem os adversários do precioso quarto planeta. Era-lhes preferível que atacassem um mundo que não apresentava coisa melhor do que imensas matas virgens e planaltos pedregosos. Neste mundo de florestas, não existia vida inteligente, fora dos tópsidas, naturalmente. Al-Khor, o comandante supremo, achava-se em ligação permanente com todos os postos de comando. Estava a par de todos os preparativos de defesa e de outros segredos. Para o ditador, no sistema tópsida, a 543 anos-luz de distância, havia um canal permanente de hipercomunicação. — Cruzador de patrulhamento MV-treze tem mensagem importante. Al-Khor fez um sinal para o operador, através do vídeo de bordo. — Encaminhe a ligação para cá — ordenou ele. Suas cerdas na nuca estavam em desalinho e sua fisionomia demonstrava grande cansaço. O corpo coberto por escamas estava parcialmente coberto pelo uniforme. No amplo cinturão, via-se a coronha da pistola de raios energéticos. As imagens na tela variavam. Ora a silhueta de uma nave em forma de torpedo, ora os traços duros de um tópsida. — Cruzador MV-treze, comandante Ber-Ka. Mensagem importante. Primeiros estrondos no espaço a dois minutosluz. Os saltadores iniciam o ataque. — Tente fazer uma contagem dos estrondos — falou Al-Khor. — Ordene imediatamente outras transições, dando-lhes a posição. Mandarei logo algumas unidades de combate para o ponto onde você se encontra. Ataque, BerKa, somente ações isoladas é que podem desnortear o adversário. — Vou atacar, sim — confirmou Ber-Ka. Seu rosto desapareceu da tela e logo depois surgiu outro tópsida. Al-Khor não parava mais. O ataque ao terceiro planeta havia mesmo começado. Mas o cruzador de patrulhamento MV-treze tinha recebido ordens. Ber-Ka não hesitou em cumpri-las. Ber-Ka era ainda muito jovem e vaidoso. Fazia apenas poucos anos que comandava uma nave de porte maior, uma nave cilíndrica de duzentos metros de comprimento. Os armamentos extraordinários lhe proporcionavam uma sensação de segurança e lhe davam muita coragem para enfrentar um adversário até mais forte. Empertigou-se todo e deu ordens a seus oficiais, para que se reunissem com ele, imediatamente. — Meus amigos — disse com muita determinação. — Al-Khor nos deu ampla liberdade de ação. Devemos atacar os saltadores onde quer que apareçam. Vocês sabem, melhor do que eu, que nunca teremos oportunidade melhor do que esta para nos colocar em destaque. Viva o ditador! — Viva o ditador! — gritaram todos os oficiais, mais ou menos entusiasmados. Para alguns, a vida tinha mais valor do que uma condecoração de validade duvidosa. Mas, desobediência ao comandante significava a morte imediata. Assim, a possibilidade de sobrevivência em meio à luta era bem maior. Na tela da MV-treze, apareceram os pontos luminosos flutuantes dos saltadores em ataque. Aqui e ali, estes pontos surgiam, às vezes, do nada, demonstrando assim que as

transições não paravam. Depois de observar melhor, BerKa não tinha dúvidas de que os saltadores haviam mesmo escolhido como seu objetivo principal o terceiro planeta. Era de qualquer maneira surpreendente. Afinal de contas, o quarto planeta era aquele que servia de base aos tópsidas e que devia ser atacado. Por que então os saltadores não se preocupavam com o quarto planeta, mas se concentravam apenas no terceiro? Era uma questão que interessava grandemente a AlKhor também, neste momento. Mas ninguém tinha resposta cabível para ela. Externamente, as naves dos saltadores se assemelhavam muito com as dos tópsidas, eram, porém, mais rápidas, mais ágeis e mais bem armadas. Enfim, os superpesados eram a elite experimentada das tropas de assalto dos comerciantes das Galáxias, que sempre tinham vivido da guerra. Até hoje, não tinham conseguido fazer nada por meios pacíficos. Aliás, nunca lhes passou pela cabeça tentar fazer alguma coisa sem assaltos e guerra. Ber-Ka procurou tanto, até que encontrou um ponto luminoso vagando mais afastado dos outros, a tal distância que excluísse qualquer cilada. Deu então as ordens ao piloto, correndo ele para o ponto de comando da artilharia, para dirigir pessoalmente o ataque. A vítima selecionada era uma nave relativamente pequena de um clã desconhecido dos saltadores. O comandante já tinha ouvido falar de Perry Rhodan e de sua pátria Terra, achava, porém, que eram referências muito exageradas. Exatamente por isto, por ter um ponto de vista errado, é que ele e os seus seriam muito sacrificados. Ber-Ka se aproximou de sua vítima. O saltador, sem suspeitar de nada, mantinha seu curso direto para o terceiro planeta. As mãos quase humanas do sáurio repousavam sobre os botões de controle dos canhões de raios energéticos. No interior do cruzador se acumulava, num zumbido permanente, as energias necessárias, como que aguardando o momento de irromperem pelo espaço. — Ainda a um segundo-luz — disse um oficial quase trêmulo. O coitado não se sentia bem, embora já tivesse muita experiência de outras expedições punitivas contra súditos indefesos. Mas esta agora era diferente. Estavam pelo menos diante de um adversário à altura deles. No mínimo. — Distância, zero vírgula cinco segundos-luz. A distância diminuía, mas ficou de repente constante, quando o saltador percebeu o atacante, fazendo uma curva fechada. — Atrás dele! Fogo! — gritou Ber-Ka e sentiu como o solo a seus pés estremeceu todo, quando a rajada de raios poderosos saiu pela proa. Não foi difícil aos raios energéticos, com a velocidade equivalente à da luz, atingir a nave dos saltadores, antes que pudessem tentar qualquer reação. Raios coloridos envolveram a diminuta espaçonave, como o envoltório de proteção se rompeu imediatamente, não oferecendo mais nenhuma resistência aos ataques dos raios incendiários. Com um grande clarão esbranquiçado, explodiram os geradores. A carcaça se arqueou e começou a derreter. Pedaços de destroços voavam em todas as direções do espaço. De vez em quando se podia ver grandes vultos com trajes pressurizados, cujos dispositivos automáticos se inflavam instantaneamente, procurando colocar a salvo os 105


sobreviventes. Um dos oficiais sáurios não despregava os olhos dos saltadores que tentavam fugir. — Não vamos matá-los? — perguntou. — Não. Sou soldado, mas não assassino. — Eles nos atacaram, Ber-Ka. — Falando em tese, você tem razão. Mas estes aí, fomos nós que atacamos. Deixemos-lhes esta chance e não nos incomodemos mais com eles. Ber-Ka voltou para a central de comando. Era ele o comandante, sua ordem era lei. Os saltadores, em seus uniformes de emergência, foram se separando e se perderam no vazio entre os planetas. Ber-Ka concentrou sua atenção novamente na tela. Os pontos flutuantes eram cada vez mais numerosos, mas a uma distância daquela não se podia saber se havia naves dos tópsidas misturadas com eles. A força principal, no entanto — Ber-Ka sabia muito bem disto — estava escondida nas rochas do terceiro planeta, ou como se dizia nos catálogos dos sáurios: Lira III. A MV-treze tinha se afastado um pouco do terceiro planeta e se aproximava da órbita de Aqua. De qualquer maneira, os atacantes deviam ser impedidos de se aproximarem do “mundo d’água” onde os restos das bases abandonadas poderiam despertar atenção. Os pontos luminosos oscilantes desapareceram todos, menos um. Dava a impressão de ser um aparelho que não fazia questão de ser destruído logo no primeiro assalto. Uma ampliação na tela e uma chamada em código confirmou a suspeita de Ber-Ka: tratava-se mesmo de uma nave dos saltadores. E este saltador se dirigia exatamente para o planeta Aqua. — Novo curso, operação cubo CO-dezessete-dk — gritou ele para o oficial navegador, ordenando ao mesmo tempo prontidão para o ataque. Devia-se pegar o saltador de surpresa, antes que pudesse desconfiar de alguma coisa. — Velocidade ao máximo! Acompanhou com grande sensação os movimentos do ponto luminoso e acabou constatando que se tratava de uma belonave dos superpesados. Claro que muito superior ao cruzador de patrulhamento. Na mentalidade de Ber-Ka havia duas forças polarizantes: orgulho e instinto de conservação. Podia ainda se afastar um pouco do curso e fazer como se não tivesse notado o adversário. Por interesse próprio, a maioria de seus subordinados manteria silêncio. Mas se houvesse apenas um que quisesse prejudicá-lo ou fazer carreira, ele estaria perdido. Covardia perante o inimigo era castigada com a morte. Foi propriamente o receio de ser denunciado que obrigou Ber-Ka a prosseguir no ataque. Não estava se sentindo bem, mas não havia outra opção. O ponto luminoso aproximou-se e transformou-se numa sombra alongada na tela, que focalizava muitas estrelas distantes. Não havia nenhum sinal de que o saltador houvesse percebido a presença de seu perseguidor. Continuava indiferente, com rumo fixo. Pela pequena velocidade, supor-se-ia que ainda tinha duas horas para chegar até a atmosfera de Aqua. — Central de rádio — disse Ber-Ka, cedendo a um impulso repentino — tente ligação com a nave estranha. — Com o saltador? — foi à reação de espanto.

— Sim, com o saltador. As frequências de chamada estão no catálogo. Por que se admira? Já tivemos muitos contatos com os saltadores em outros tempos. — Sim, mas sob outras circunstâncias. — Exatamente — disse Ber-Ka rindo. — É curiosidade minha. Estas circunstâncias me interessam. Desligou a tela, colocando a central de rádio diretamente em ligação com ele. Sem sair do lugar, podia agora acompanhar melhor os esforços do operador. Continuava a chamada. Na outra tela, a sombra alongada da nave estava bem maior. A MV-treze se aproximava de sua órbita. Num determinado ponto as duas naves teriam de se encontrar, caso ambas mantivessem o curso e a velocidade. Alto-falante e tela permaneciam mudos e apagados. O saltador não respondia, ou talvez não tivesse ouvido o chamado. Mas Ber-Ka não cedia tão depressa. — Continue chamando — ordenou ao oficial do rádio. — Acrescente que nós pedimos uma conferência. Isto era contra o regulamento. Propor uma conferência com um adversário ultrapassava de muito a competência de um comandante de um pequeno cruzador. Ber-Ka sabia disto, mas lhe era completamente indiferente. Suspeitava de algo e queria saber se seu pressentimento estava certo ou errado. Para ele, isto justificava o risco que assumia. Não poderia imaginar que, sem querer, estava dando um passo avante na história. Também não suspeitava quem era o comandante da nave estranha. Ao penetrarem nas camadas superiores da atmosfera as primeiras naves dos saltadores, o comandante supremo do terceiro planeta, Al-Khor, deu ordem de contra-ataque. Em todos os cantos, abriram-se pesadas comportas de metal e canos de canhões de raios energéticos emergiam do chão para erguerem sua boca de fogo contra o céu. Hangares subterrâneos despejavam frotas de combate de aparelhos velozes que galgavam o espaço em ascensão quase vertical. Começou a batalha quase suicida, com perdas enormes para os dois lados. As primeiras bombas atômicas destruíram uma parte das instalações de defesa. Os foguetes antiespaciais dirigidos por tópsidas perseguiam as naves dos saltadores até atingi-las, destruindo-as no espaço. Só conseguiam escapar se tivessem tempo de efetuar o salto para o hiperespaço. Al-Khor estava sentado nas profundezas de um rochedo, ouvindo as notícias. Fazia uma fisionomia de dor, ao ouvir os danos que os atacantes lhes infligiam. Mas seu rosto se iluminava todo sempre que ouvia o relato da destruição de uma nave inimiga. No entanto, ele mesmo sabia que era questão de tempo, até que os saltadores conseguissem, por meio de uma bomba arcônida ou por uma bomba de gravitação, destruir completamente o terceiro planeta. Começou a se surpreender pelo fato de que isto ainda não acontecera. — Ligação com Topsid! — gritou ele, desesperado, naquela caverna no coração da rocha, quando uma tremenda detonação fez tremer o rochedo e as luzes se apagaram. — Ligação imediata com o ditador, vamos, antes que seja tarde. Por uns instantes, ninguém respondeu. Depois, ouviu-se a voz do operador de rádio: 106


— Falta energia, estamos tentando com os geradores de emergência. — Estou esperando — disse Al-Khor. Depois, apoiando a cabeça nas duas mãos quase humanas, passou a pensar na morte certa que teria em Topsid, caso os saltadores vencessem. Mas... era sua culpa? Culpa por não ter naves suficientes? Não tinha ele avisado o ditador e pedido que não subestimassem os comerciantes das Galáxias? Por que então tinha que morrer? Porém não pensava nisto. O melhor seria ele se entregar aos invasores, passaria por traidor, mas continuaria vivo. Mas isto era uma decisão que não era para aquele momento. Levantou-se, tendo nos olhos um brilho perigoso. — Ligação com Topsid — exclamou o operador. — Ligue seu aparelho, Al-Khor. Al-Khor estremeceu, ao ouvir a palavra Topsid. Por uns instantes, não sabia o que fazer. Depois, criou coragem. — Aqui fala Al-Khor, Lira III. Começou o ataque dos saltadores, ditador. O adversário é muito superior a nós. Sem o auxilio de Topsid, estamos perdidos. — Então lutem! — disse o ditador friamente. Seus traços permaneceram duros e inacessíveis, na tela. Seus olhos frios pareciam penetrar Al-Khor, parecendo poder ler seus pensamentos. — Mandarei mais duzentos aparelhos, mas nem um a mais. Lutem e vençam Al-Khor. Ou, nunca mais volte a Topsid. — Mas... — Al-Khor não pôde continuar, o ditador havia interrompido a ligação. O comandante dos sáurios apoiou-se no espaldar da poltrona e suspirando profundamente, disse: — Lutar e vencer... como é fácil falar. Um mundo está caindo aos pedaços e nós temos de lutar. O que estamos fazendo, senão lutar? Nossas naves se defendem valentemente contra um inimigo em grande superioridade, mas não cedemos, preferimos morrer. E o ditador? Não tem nem uma palavra de gratidão. Al-Khor estremeceu, como se tivesse levado uma chicotada, ao ouvir um forte ruído atrás de si. Passos pesados que se aproximasse. Ouviu-se uma voz fria, sem a menor expressão: — Como poderemos vencer, se o comandante está hesitando? O que há com você, Al-Khor? Cansado, desanimado? Virou-se lentamente, com sua mão escamosa já segurando a arma energética. — Ra-Gor, é você! Não podia imaginar. Por que não está na seção de baterias antiaéreas, tratando de destruir as naves inimigas? Se quiser ouvir a verdade: o que você está fazendo agora é crime de alta traição. O jovem oficial que estava atrás do comandante estava também com a mão na arma, sorrindo friamente. Nos seus olhos, havia um misto de orgulho e ódio, de medo com denodo irrestrito. — E você, Al-Khor? O que tem feito? Duvidou da sabedoria de nosso ditador. Você está exigindo o reconhecimento dele pelo simples cumprimento do nosso dever. Isto é insubordinação. Al-Khor virou-se novamente — e devagar — olhando o painel apagado. Podia ver nitidamente no vidro fosco o reflexo do jovem oficial que lhe estava às costas. — Estava apenas pensando, Ra-Gor. Acresce ainda que

guardei meus pensamentos comigo e não os transmiti a ninguém. — Não é verdade, transmitiu a mim. Al-Khor teve que concordar: — Sem ter intenção de fazê-lo, meu amigo. Você, agora, por sua culpa, carrega na consciência um conhecimento que se torna pesado para seus ombros jovens. Vou ajudá-lo a carregar este peso. — Não é necessário, Al-Khor, eu consigo carregá-lo sozinho. O ditador me será muito grato, quando lhe explicar a covardia de seu comandante supremo. — O quê? — Sim, porque você não vai chegar vivo a Topsid. Esta vergonha deve ser poupada aos oficiais que combatem corajosamente. Ou você prefere ser fuzilado publicamente? Al-Khor reconheceu que não tinha alternativa. Foi sempre um súdito fiel do ditador, embora não estivesse de acordo com alguns de seus métodos. Mas, agora, ser delatado por um bobalhão orgulhoso e inexperiente... não, isto era demais. Imperceptivelmente sacou a arma, estudou um pouco o ambiente, podendo ver pelo reflexo do vidro do painel apagado que Ra-Gor ainda estava hesitando em executar sua intenção. Será que de repente ficou com medo? Mas já era muito tarde para isto. Al-Khor não sentiu a menor compaixão ou piedade, quando, de súbito, se virou contra o jovem oficial de arma na mão. — Insubordinação se castiga com a morte, Ra-Gor. Como comandante tenho o poder de julgá-lo. Condeno-o, pois, à morte. A pena será executada sumariamente. Você pode ficar com sua arma e usá-la mesmo... Mas o sentenciado não chegou a se utilizar da arma, antes mesmo de sacá-la estava morto. Al-Khor ficou olhando por uns instantes o cadáver do jovem oficial, corajoso e idealista, que queria tirar proveito às suas custas. Depois voltou a manusear os botões de controle. Os relatórios das forças em combate chegavam com a maior confusão. Depois de alguns minutos, Al-Khor já sabia que a batalha estava perdida. Definitivamente. A superioridade do adversário era palpável. O que restava era um fio, quase invisível, de esperança. Com uma pancada da mão direita, silenciou no rádio as vozes confusas. Todas as estações passaram automaticamente para a escuta. — A todos os oficiais! Aqui fala Al-Khor, o comandante supremo — fez uma pequena pausa para respirar. — Neste momento vamos desistir do planeta Lira III e vamos enfrentar os saltadores no espaço. Ou vencemos ou morremos. Fim. Fim! A palavra ainda estava nos ouvidos de Al-Khor, quando se levantou para tomar as medidas necessárias. *** Quando a Top II se materializou, e apareceu nas telas de bordo o gigante vermelho de Beta, foi como se Topthor tivesse levado uma bofetada na cara. Atônito e sem dizer uma palavra, olhava fixo para o que tinha diante dos olhos. Seria este o sol do planeta Terra? Jamais. Este gigantesco olho vermelho lhe era completamente desconhecido, totalmente diferente, tão diferente que até 107


um cego perceberia a diferença. E Topthor era tudo, menos cego. Seu primeiro pensamento foi fazer uma ligação para Cekztel e explicar o erro. Mas ficou sentado, continuando a olhar o quadro incrível. Procurava achar uma explicação, mas não havia. O cérebro positrônico do departamento de navegação jamais poderia errar. Um erro do computador estava, pois excluído. Os dados foram lançados no próprio local da observação. Não podia haver erro. Topthor pensava sempre objetivamente e assim desistiu logo de querer procurar uma explicação para o impossível. Teria tempo mais tarde. No momento, era necessário se conformar com o fato e ponderar suas consequências. Primeira consequência: ele se poria em contato com Cekztel e admitiria ter trazido a frota toda para um lugar errado. O que aconteceria? Topthor se sentia mal só em pensar nisso. Todo tipo de recriminação recairia sobre ele, embora estivesse convencido de não ter culpa alguma. Mas quem é que queria saber disso? Ninguém. Talvez fosse expulso e teria doravante de levar vida de pária, sem amigos e abandonado por todo mundo. Não, Topthor não pensava mais em dar explicações ao velho Cekztel. Segunda consequência: procuraria resolver o enigma por conta própria, descobrir como surgira o engano. Para isso, tinha primeiramente que se manter calado e deixar seus colegas na crença de que se tratava mesmo da Terra e do sistema solar. Certamente não demoraria muito até que se chegasse a descobrir o erro, pois o sistema solar de Rhodan não poderia ficar aí, sem defesa nenhuma. Não parecia haver a mínima reação. Outro erro, como logo se constataria. E um erro que muito alegraria a Topthor. A segunda consequência parecia aceitável ao superpesado. Mas sua cabeça inteligente não parava de pensar. A bordo da Top II encontrava-se muita gente que havia visto a Terra naquela época. Será que ficariam de boca fechada, quando Topthor lhes contasse a verdade? É certo que eram amigos do peito, como Regol e Gatzek. Mas... E ainda havia a possibilidade de uma confusão com computador. Levantou-se bruscamente e foi examinar a seção de navegação. Mandou sair o oficial que estava de vigia e começou ele mesmo a conferir os dados. Alguns minutos depois, veio o resultado. Topthor o examinou e sacudiu a cabeça. Os dados estavam certos, as coordenadas perfeitas. Era mesmo ali no sol gigantesco de Beta. Sem dizer uma palavra e sem explicação, fez sinal ao oficial de vigia para entrar novamente. Depois voltou para a sala de comando. Deixou-se cair pesadamente na poltrona, olhou para a tela do painel e pôs-se a escutar as mensagens do rádio. O ataque ao terceiro planeta já havia começado. Estava sorrindo sozinho, quando de repente sua fisionomia se transformou. Os terranos estavam resistindo desesperadamente. Topthor parecia como que atingido por uma descarga elétrica. Foi a segunda surpresa em menos de dez minutos. Havia terranos neste estranho sistema? Então ele estava salvo e ninguém descobriria o engano não intencionado. O terceiro planeta parecia habitado e estava sendo defendido. Seguia com muita atenção as informações e respirava aliviado, embora já não compreendesse o que estava se passando. Talvez os terranos tenham estabelecido aqui uma

base, que agora defendiam corajosamente. Se a frota atacante destruísse literalmente o terceiro planeta, os terranos perderiam apenas uma base, não a pátria de Perry Rhodan. Seguindo seu pensamento prudente, resolveu guardar este segredo só para si e continuar por conta própria suas investigações. Assim foi que abandonou a rota planejada e se aproximou do quarto planeta, para, com toda calma, registrar os dados sobre o sistema e compará-los com as informações do computador de bordo. O erro estaria escondido em algum lugar, ele o descobriria. A localização da verdadeira Terra não poderia ficar perdida. *** O saltador não respondeu. Ber-Ka, então, não hesitou mais e mandou abrir fogo de todos os lados. Para sua surpresa, todos os disparos energéticos se esfacelaram diante do envoltório de proteção magnética do adversário. A distância era agora muito pequena e uma retirada era quase impossível. A nave dos saltadores alterou o curso e expôs seu lado mais comprido no sentido da MV-treze. Ber-ka sabia o que isto significava, mas não tinha mais tempo para modificar sua posição. Mandou descarregar toda a energia disponível no seu envoltório de proteção para se defender contra o ataque iminente. Mas o saltador, desta vez, não usou raios energéticos, e sim um torpedo com brilho de prata, que alterando seu curso automaticamente foi atingir em cheio a MV-treze, apesar de suas manobras para fugir do alvo, detonando com um clarão amarelado, perto da popa. Ber-Ka sentiu o terrível solavanco. De nada adiantou agarrar-se à poltrona. Foi lançado para fora, rolando no chão da cabina até chocar-se de encontro à parede. Ouviram-se vozes, alguém deu um comando. Logo depois outra detonação e solavanco terrível, apagando toda a luz. Os campos de gravitação deixaram de funcionar e Ber-Ka estava flutuando dentro da nave, já em queda livre contra o planeta Aqua, sem propulsão, nem direção. A parte traseira devia estar completamente destruída. Ber-Ka foi impelido contra o teto, incapaz de se movimentar. A qualquer momento, podia o inimigo dar a ele e a sua nave o tiro de misericórdia. Mas isto não aconteceu. A MV-treze se precipitou de encontro à superfície do quarto planeta. *** Sentado na cabina, Topthor acompanhava curioso a luta desigual. Já quando a estranha nave apareceu pela primeira vez, teve uma suspeita que lhe pareceu tão absurda que tentou esquecê-la. Mas depois, ficou matutando que toda aquela ação tinha sido meio maluca. Talvez pudesse esclarecer um pouco mais o enigma, se conseguisse conversar com aqueles terranos. Deviam estar desesperados, é claro. Tinham que estar convencidos de que se encontravam nas mãos dos vencedores, do contrário jamais diriam a verdade. Mas, seriam mesmo terranos? Topthor ficou olhando a nave alongada, como um 108


torpedo, com uma saliência abaulada no centro, caindo ao lado deles, e ainda dispostos a um novo ataque. Já havia visto em algum lugar este tipo de construção. Os tópsidas? Seu império não era nas proximidades da Terra? Ou se tinham aliado com os terranos? O ataque não surtiu efeito. Então um torpedo atingiu a popa do aparelho, destruindo as instalações de propulsão dos desconhecidos. Sem sua sustentação mecânica, a nave se precipitou contra o planeta. Topthor seguia tudo com atenção. Não dava nenhum sinal de querer socorrer os vencidos ou de pretender aniquilar os restos de sua nave. Aparentemente imóvel, ele flutuava ao lado da MV-treze, esperando alguma coisa. Duas horas se passaram, duas longas horas em que certo Ber-Ka passou por um verdadeiro inferno e ficou mais exausto ainda. O planeta já estava maior e através das nuvens já se via o continente. Podia-se já ouvir o sibilar do vento nas camadas mais elevadas da atmosfera. Topthor, então, resolveu agir. Aproximou-se com a Top II da nave que estava caindo. Ganchos magnéticos iam saindo lentamente da carcaça da Top II, envolvendo o bojo da nau destroçada e detendo-lhe a queda. Voltou então a gravidade, quando as duas naves começaram a dar volta em torno do planeta, numa leve parábola. Acabaram aterrissando num planalto, próximo ao litoral. Topthor não ficou parado nesse meio tempo. De pé, na escotilha aberta, esperava, com a pistola de raios na mão, a saída dos sobreviventes da nave capturada. Mas não havia contado com a intrepidez suicida dos tópsidas. Ao abrir uma claraboia do lado direito da MV-treze, provocou suspeita nos tópsidas. Salvou-se com um pulo imediato para a escotilha, entrando logo para a cabina de comando, onde Gatzek havia observado o incidente. Num gesto rápido, ligou o envoltório magnético de proteção. Infelizmente com uma fração de segundo de atraso. Um denso jato energético amarelado partiu da MVtreze, atingindo a Top II bem no meio. Seguiu-se um estrondo, como a descarga de um reator e a grande espaçonave dos saltadores partiu-se, exatamente antes de o envoltório ser ligado. De um momento para outro, ali estavam duas naves arruinadas e, em cada uma delas, o pensamento era o mesmo: aproveitar um descuido do adversário, para destruílo. Topthor amaldiçoou sua leviandade, mas depois se conformou. Olhou calmo para os olhos arregalados de Gatzek. — Examinar a instalação de energia, observar a capacidade de funcionamento da central de navegação e de rádio, apresentando o resultado imediatamente. Depois do conserto, testar a possibilidade de manobrar a Top II. Gatzek, um tanto hesitante: — Que fazer com este ferro velho aí ao lado, que nos partiu ao meio? Devo mandar matar os adversários? — Deixa disso, Gatzek. Quero conversar com estes rapazes. Acho que vamos ter muitas surpresas. — Meu estoque de surpresas está abarrotado — protestou o oficial, deixando a cabina de comando. Topthor acompanhou-o com um sorriso. Levantou-se e foi para a central de rádio. Regol estava diante dos aparelhos, realizando os primeiros controles. Os altofalantes emitiam sons ininteligíveis — sinal de que ao

menos isto estava funcionando. — Ligação com Cekztel? — perguntou Topthor. Regol sacudiu a cabeça, sem olhar para trás. — Ainda não. Eles não têm tempo agora, os terranos entraram em luta renhida, mas acho que vão perder. A supernave de Rhodan foi localizada muitas vezes. Topthor quase perdeu a fala: — A supernave de Rhodan? Regol concordou espantado: — Sim, a Titan, como foi batizada a grande nave. Além dela, estão participando da defesa da Terra dez cruzadores pesados dos arcônidas. — E eles estão perdendo? — perguntou Topthor incrédulo. — Algo não está certo. Tem certeza disso? — As mensagens o dizem claramente, Topthor. Não há dúvida de que superestimamos o poderio bélico da Terra. Aliás, já há muito tempo queria lhe fazer uma pergunta: você não reparou uma alteração no sol? Se não me engano, a Terra tinha um sol menor, amarelado. E agora... — Eu sei — interrompeu-o Topthor impaciente. — Ainda falaremos mais tarde sobre isto. Agora não temos tempo, pois há problemas mais importantes que temos de resolver. Vamos tentar ligação pelo rádio com a nave abatida aqui ao lado. Regol sorriu malicioso. — Já estou tentando isto há tempo. Ninguém responde. Quem sabe o rádio deles foi destruído? — Então, não há outro meio — disse Topthor — tenho que me apresentar de novo na escotilha deles, com uma bandeirinha branca na mão, para lhes mostrar nossa vontade de paz. — Não sei se os terranos vão concordar — duvidou Regol. Topthor, que já estava na porta, virou-se para trás: — Quem é que disse que os rapazes da nave ao lado são terranos? De olhos arregalados, Regol ficou olhando seu comandante.

3 O cérebro robotizado da navegação positrônica da Centauro não parava um instante. Mal o pesado cruzador se 109


materializava em qualquer lugar, no meio das naves dos tópsidas e desfechava uma descarga de raios energéticos, mais ou menos eficientes, contra as naves atacantes dos superpesados, já estava na hora de pular para o hiperespaço, desaparecendo totalmente. Quase que ao mesmo tempo, aparecia ela em outro lugar. Major Deringhouse suava, mas entusiasmado com a operação. Capitão La manche, seu substituto e primeirooficial, gritava sem parar, dando ordens e cuidando que as transições se processassem o mais rápido possível. Já que as mesmas manobras eram executadas simultaneamente também por Rhodan com a Titan e por McClears com a Terra, os superpesados tinham a impressão de que estavam em atividade pelo menos três ou quatro belonaves tipo Império e uns dez cruzadores pesados. E, no entanto, os “terranos” estavam perdendo. Razão para isto, eram, em primeiro plano, as naves dos tópsidas, demasiadamente lentas, não estando pois à altura do ataque dos saltadores. Se a Titan tivesse aplicado toda sua força, a luta estaria bem diferente. Mas, compreensivelmente, não era esta a intenção de Rhodan. Os saltadores deviam vencer e sair com a convicção de haverem derrotado a Terra. E, naturalmente, a frota dos terranos. Deringhouse tirou os olhos dos controles e olhou para Marshall que estava entrando na cabina. — Então — perguntou excitado — já obteve algum resultado? — Desta vez, você poderia apostar tranquilamente com Gucky — respondeu o telepata. — Ainda não temos nenhum indício da presença de Topthor. Estou duvidando de que tenha tomado parte no ataque. — Impossível — disse Deringhouse, sacudindo a cabeça. — Recebemos um rádio informando que Topthor toma parte no ataque. Você se utilizou somente de Gucky? — Naturalmente, não. Todos os telepatas se esforçaram para captar impulsos do superpesado. Ras Tschubai esteve em várias naves deles, mas não encontrou Topthor. Em compensação, em cada nave em que chegava o susto da tripulação em ver surgir do nada um fantasma preto, quase os enlouquecia. — Ótimo — disse o major. — Para os atacantes, a teleportação é prova cabal de que se trata dos homens de Perry Rhodan. — Também Gucky se teleportou muitas vezes. Poderia ter levado de cada vez uma bomba atômica e destruído a nave inimiga, porém não nos teria adiantado nada. Mas, falando sinceramente, é doloroso para mim, para nós todos, ter que perder uma guerra que a gente ganharia com tanta facilidade. — A Via Láctea inteira deve estar crente de que fomos destruídos. Mas para isso, Topthor tem que ser encontrado. Se ele perder a calma e denunciar a seus amigos que destruíram um planeta errado, toda nossa astúcia não valeu de nada. E até agora, tudo funcionou tão bem. — Vamos continuar procurando — disse Marshall, encorajando Deringhouse. — Temos de encontrá-lo. Não pode ficar eternamente escondido. — Esperamos que não — respondeu Marshall, dando ordens para o próximo salto que o levou para um choque entre dois cruzadores dos tópsidas e uma enorme nave cilíndrica dos saltadores. ***

Na escotilha aberta, estava Topthor esperando, olhando firme para o pequeno aparelho dos desconhecidos. Quem estaria lá dentro? Terranos? Tinha quase certeza que não encontraria nenhum terrano lá dentro. Uma simples consulta no seu catálogo lhe dava esta quase certeza. Naves deste tipo eram construídas pelos tópsidas. Estariam os sáurios realmente aliados aos terranos? Que sentido teria isto? Será que Rhodan não representava nenhum perigo para seu império? Tinha de descobrir isto e só por este motivo é que estava expondo a vida. Talvez seria respondida também sua outra pergunta: por que a positrônica de sua nave teria errado daquele jeito? Para lá do planalto, começava a floresta virgem. Ia em declive para a planície. Somente ao longe, no horizonte, surgia uma nova cadeia de montanhas, limitando a visão. Mais para a esquerda cintilava o mar que era quase noventa por cento deste planeta. Era um mundo agradável, pena que não tinha habitantes inteligentes, com quem se pudesse tratar. Ou existiriam? O que faziam, então, aqui os sáurios? Os olhos de Topthor perceberam um movimento nos escombros da nave tópsida. Devagar, abriu-se uma escotilha, como se fosse empurrada à mão. Aparentemente toda a instalação da nave parecia destruída. Apareceu então uma espécie de mão. Apesar de Topthor estar mentalmente preparado, foi grande seu susto. Era a mão de um réptil, coberta de escamas: a mão de um tópsida. Até que enfim. Se, nesta horrível batalha, não tivessem sido vistas naves esféricas de Rhodan, tudo resultaria então numa hipótese fantástica. Pensando nisto, Topthor sorria malicioso, pensando estar bem próximo da elucidação da verdade. Um tópsida apareceu na escotilha completamente aberta, de mãos levantadas e desarmada. Topthor também mostrou as mãos vazias e falou em Intercosmo: — É melhor pararmos de lutar um contra o outro, do contrário estamos perdidos. Ninguém nos ajudará. Mas se nós combinarmos, acharemos um caminho. Ber-Ka parou desconfiado. — Por que não nos destruiu já no espaço? Podia ter feito, sem que pudéssemos nos defender. Topthor sorriu amavelmente. — Tenho minhas razões, tópsida. Vamos conversar com mais calma. Acho que teremos muita surpresa. — Tinha o mesmo desejo, mesmo antes de atacá-lo. Topthor ouvia com atenção. Tudo se encaminhava bem. — Sua instalação de rádio ainda está funcionando? — Não, foi destruída. — A minha funciona ainda, ao menos para receber. Não pudemos ainda examinar o transmissor, mesmo porque não estamos interessados em que os outros nos descubram. Venha, tópsida, encontremo-nos ali naquela rocha. Estou desarmado, mas minha gente está vigiando. Se quiser, pode tomar também as mesmas providências. Sem esperar resposta, Topthor desceu os poucos degraus da escada desdobrada e num pulo atingiu o solo. Sua cintura estava vazia, porém no fundo do bolso de seu capote escondia uma minipistola, para qualquer emergência. Ber-Ka hesitou um pouco, mas percebeu que não lhe 110


restava alternativa, tinha que aceitar a proposta do superpesado. Quem sabe, o saltador estava sendo honesto. Levantou os braços escamados, numa espécie de saudação e gritou umas ordens para a tripulação de sua nave. Depois saltou para o solo do planeta das águas, dirigindo-se calmamente para o ponto de encontro. Encontraram-se aos pés do rochedo. Topthor examinava mais detalhadamente o tópsida. Pelo muito que os conhecia, era um exemplar ainda jovem da estranha raça dos sáurios, com quem se defrontavam de vez em quando. Não se podia chamá-los de inimigos, pois de qualquer maneira, tinham em comum com os saltadores um grande ódio aos arcônidas. Mais estranho de tudo era esta guerra que se travava no momento. — Meu nome é Topthor, sou patriarca de minha estirpe e comandante desta, outrora, bela nave. — Virou-se para trás, apontando para o enorme cilindro partido ao meio. — Devo supor, naturalmente, que você é oficial e comandante da nave abatida. Ber-Ka confirmou com a cabeça. Seu sotaque era perceptível, mas falava corretamente o intercosmo. — Sou Ber-Ka, comandante do cruzador de patrulhamento MV-treze, que o senhor obrigou a aterrissar, tornando-o incapaz de funcionar. O que lucramos com isto? — O que lucrará alguém desta maldita guerra? — perguntou Topthor com unção na voz. — Eu sou, certamente, o último a desejá-la. — Quem seria então o responsável? Fomos nós que atacamos, ou foram os saltadores que vieram para cá com a intenção de destruir todo o sistema? Ber-Ka estudou a fisionomia do interlocutor e percebeu nele uma sincera curiosidade. Não compreendia por quê. — Prendemos, há poucos dias, alguns saltadores, não os superpesados, e os interrogamos. Confessaram que estavam planejando um grande ataque ao nosso sistema. Topthor ficou perplexo. — Saltadores? Saltadores normais? Não sabemos nada disso. Ninguém tinha conhecimento desta ação que foi preparada sob o maior sigilo. Quem teria sido o traidor? Há algum detalhe deles, Ber-Ka? — Por que o senhor está tão interessado nisso? — Porque não pode ter havido traidores e porque o meu trabalho preferido é explicar o impossível. Ber-Ka ficou olhando muito tempo para o superpesado e não descobriu nos seus olhos outra coisa, a não ser curiosidade. — Há poucos dias atrás, aterrissaram saltadores neste planeta. Aliás, não aterrissaram por vontade própria, nós os forçamos a descer por meio de raios de atração. O comandante foi aprisionado. Outra nave, bem menor, caiu também em nosso poder. Acho que o senhor sabe que nós mantemos uma base neste planeta. — Cheguei também a este conhecimento agora — disse Topthor. — Mas continuemos. Quem eram estes saltadores? — Não sei exatamente, mas Al-Khor certamente poderá informar. Ele interrogou os prisioneiros que mais tarde acabaram fugindo. — Fugiram? — a confusão de Topthor era grande. — Já não estou compreendendo mais nada. Como foi possível fugir? — Os nativos do fundo do mar os ajudaram. Devem ter

feito aliança com eles. — Nativos? Você está afirmando que neste “mundo d’água” há seres inteligentes? — Animais inofensivos com um vestígio de inteligência — disse Ber-Ka, tentando diminuir o valor destes animais. — Não têm a menor importância. — De qualquer maneira, vocês instalaram esta base aqui por causa deles, não é verdade? Mas, seja o que for, quero saber quem eram os saltadores aprisionados que depois fugiram. As naves não tinham inscrições do clã de origem? — Não, tinham apenas um nome, mas não sei qual era. Uma delas era de construção esférica e a outra uma espécie de disco voador. — Construção esférica? — repetiu Topthor, destacando as sílabas. — Construção esférica dos arcônidas ou dos terranos? — Terranos? Topthor deixou de lado a pergunta. — Não há nenhum saltador que possua nave esférica, fora alguns milionários extravagantes que se dão ao luxo de comprarem estas naves conquistadas dos arcônidas. Mas estes não têm nada a ver com nossa ação. — No entanto, eram saltadores, eles mesmos o confessaram. Acho, porém, que agora, depois de responder de boa vontade todas as suas perguntas, tenho o direito de lhe fazer algumas. — Com todo prazer, mas antes, apenas uma informação: em que planeta os senhores têm sua base, no quarto ou no terceiro? — Não há inconveniente algum em o senhor saber isto: no quarto. Nós defendemos apenas o terceiro planeta, para afastá-los do precioso “mundo d’água”. Topthor mergulhou em profundos pensamentos. — Pergunte o que quiser — disse ele meio aéreo. Ber-Ka aproveitou a oportunidade. — Por que os senhores atacaram nosso sistema? De onde é que sabiam de nossa base? A resposta de Topthor não veio logo, ele estava tão ocupados com seus pensamentos, que o tópsida teve que repetir as duas perguntas. — Por que atacamos vocês? Meu caro Ber-Ka, não é tão fácil explicar isto. De início, tenho que dizer que não sabíamos que aqui havia uma base dos tópsidas. É difícil de acreditar, mas nós estávamos certos de que aqui seria o planeta pátrio dos terranos, de quem você já deve ter ouvido falar. Ou o nome Perry Rhodan não significa nada para você? — Perry Rhodan...? — repetiu o tópsida refletindo um pouco. — Sim, acho que já ouvi falar dele. Uma expedição nossa se encontrou com ele num sistema nas proximidades da Terra, acho eu; para falar a verdade, nós julgávamos que fosse a Terra. Infelizmente não tivemos sorte nesta guerra, fomos obrigados a fugir. — Estes saltadores que vocês prenderam, como é que pareciam? — Ora, como os saltadores parecem. Humanoides, esbeltos, falando um intercosmo perfeito. — Os terranos também falam perfeitamente o intercosmo. — Por que teriam de simular outra identidade? — Esta também é uma pergunta que eu faço Ber-Ka. Sabe o que estou começando a suspeitar? Estou quase acreditando que fomos vítimas de uma trapaça muito bem 111


arquitetada. Sabe quem eram seus prisioneiros? Não? Então vou lhe contar: eram terranos, aliás, terranos que vieram para cá em missão de Rhodan e denunciaram a vocês, que nós, os saltadores, tencionávamos fazer um ataque aos tópsidas. Só gostaria de saber como é que eles sabiam da nossa intenção e por que meios chegaram à conclusão de que as coordenadas estavam erradas. — Quais coordenadas? — As coordenadas da Terra que estavam registradas no meu computador de bordo. Ber-Ka se assustou. — Quer dizer que o senhor conhece a posição do planeta pátrio de Rhodan? — Sim, pensava que conhecia, há muito tempo. Mas, acho que você não me vai acreditar quando eu lhe disser que estas coordenadas davam este gigantesco sol vermelho como sendo o sol da Terra. Minha positrônica se enganou, dando-nos coordenadas falsas. Rhodan já devia saber disso. — Isto é... — Ber-Ka começou a gaguejar e parou de falar. Topthor olhou para ele e continuou: — Parece coisa impossível, mas é assim mesmo. Não há outra explicação para o enigma. E enquanto estamos sentados aqui e procuramos resolver o enigma, lá em cima no espaço a sua e a minha frota se destroem. Temos que fazer alguma coisa. — Minha estação de rádio não funciona — disse o tópsida. — Também não tenho certeza se meu rádio está bom. Mas uma coisa é certa, Ber-Ka: aqueles saltadores, que se deixaram prender com tanta facilidade, com o único intuito de enganá-los, eram gente de Rhodan. Terranos. E vocês os deixaram fugir. Seu comandante devia ser esquartejado por este crime, pois ele somente é o responsável pelo massacre que está acontecendo. — Como assim? — admirou-se Ber-Ka. — Se os senhores não tivessem atacado, não aconteceria nada. Topthor nada respondeu. Olhou para a escotilha da Top II e viu o rosto de Regol, que fitava medroso pelo canto da abertura. — Alô, Regol, como está a instalação de rádio? — Não funciona, Top. Chamamos uma nave que passava perto, não houve resposta. Tenho receio de que... Topthor, suspirando, fez um sinal para Ber-Ka. — Também tenho receio, tópsida. Tenho receio de que temos que tirar férias aqui no “mundo d’água”, até que a sorte da guerra esteja decidida. Mas, qualquer que seja o resultado, o verdadeiro e único vencedor se chama Rhodan. É realmente uma vergonha que este homem não seja um saltador. Como são geniais suas jogadas, que profundidade tem seu pensamento. De que maneira maravilhosa ele sabe fomentar intrigas, fazendo com que outros trabalhem para ele, sem perceberem. Falando a verdade, daria meu braço esquerdo, se pudesse ter Rhodan como meu aliado. Parou de repente. Inclinou a cabeça e começou a rir: — Nem seria necessário dar o braço esquerdo, estou me lembrando agora. Conheço um superpesado que ganhou milhões trabalhando com e para Rhodan. Meu amigo Talamon foi mais prudente do que eu supunha. Agora sei por que não quis tomar parte no ataque. Mas, espere velho amigo, teremos que conversar um pouco quando eu voltar. — Voltar...?

Topthor começou a refletir que sua volta não era tão fácil assim, nem tão certa. Rhodan sabia que somente um único saltador é que podia descobrir o erro que vitimara toda a frota dos superpesados. E ele, Rhodan, haveria de fazer tudo para que esta única testemunha não abrisse a boca. Pois Topthor já sabia todo o plano de Rhodan. Vir ando-se para Ber-Ka, disse: — Acho que vamos fazer as pazes, tópsida. Você não vai ainda compreender bem o porquê de nossa aliança, de sua raça e da minha. Temos um inimigo comum e não podemos imaginar outro mais perigoso e traiçoeiro. Um adversário que até simula derrota, para, na escuridão do esquecimento, preparar a vingança. Um dia, Rhodan voltará e esmagará todos os povos da Galáxia que não se tornarem seus amigos. — Não estou compreendendo tudo... — Também não é necessário, Ber-Ka. No momento não lhe resta outra opção, a não ser aceitar minha proposta. Tente consertar seu transmissor. Você receberá de nós a energia necessária. Nosso gerador principal ainda funciona. Acenou para o jovem sáurio e voltou para sua própria escotilha. Ber-Ka ainda ficou parado uns instantes, depois, arrastando os pés, encaminhou-se para as ruínas de sua nave. Na cabeça, rodopiavam-lhe milhares de perguntas sem resposta. *** — Já percorri quase todas as naves, mas não se consegue ver Topthor. Gucky estava sentado apático na cabina de comando, olhando desconsolado para Deringhouse. O fato de não ter encontrado Topthor o aborrecia menos do que perder uma aposta, principalmente quando o apostador era Deringhouse. — Quem sabe Topthor morreu logo no início da batalha e sua nave foi destroçada? Então o problema já estaria automaticamente resolvido. — Rhodan quer ter certeza — disse Marshall. — Betty Toufry diz ter recebido, por uns instantes, impulsos que poderiam ser de Topthor. — Como é que ela pode reconhecer isto? — duvidou o rato-castor, esticando as orelhas. Os músculos de suas patas traseiras se retesaram para o salto. — E em que região ela ouviu os impulsos? — Naturalmente no sistema Beta — explicou Marshall. — Na direção do espaço interestelar. — Bobagem — disse Gucky. — Na direção do planeta Aqua. Está bem na direção indicada. Marshall queria protestar, mas, de repente, seus olhos se comprimiram. Olhou para Deringhouse demoradamente e depois virou-se para Gucky. — Parece que não é bobagem não, meu caro. Vou conversar com Betty. — Eu vou junto — ofereceu-se o rato-castor, pulando de seu sofá. — E se você quiser, ainda estou pronto para fazer outra aposta. — Desta vez você não vai arranjar outra vítima, eu lhe garanto — disse Marshall, desaparecendo no corredor. Gucky parecia convencido da vitória. Deringhouse estava olhando para os dois mutantes que 112


saíam, quando ouviu o zumbido da instalação de rádio. Apertou um botão, mas a tela continuou apagada. Mas uma voz conhecida, apesar de desfigurada pelo dispositivo de decodificação, falava no alto-falante: — A derrota dos tópsidas está iminente. Deve-se esperar que os saltadores destruam até a última nave dos tópsidas, antes de executarem sua última tarefa que é de explodirem a suposta Terra. Talvez transformarão o planeta das matas virgens numa imensa fogueira. Os nossos amigos aquáticos, os homens-peixes, não terão nada contra, caso a temperatura média de seu mundo se elevar um pouco. Informes recém-chegados dão conta de que acabam de aparecer mais duzentas naves vindas de Topsid. Vai atrasar a derrota dos sáurios por algumas horas. E vocês, como vão? Já descobriram Topthor? — Ainda não, senhor — respondeu Deringhouse abatido. — Talvez tenhamos achado uma pista. Marshall saiu para averiguá-la. — Temos que silenciar Topthor — ordenou Rhodan. — Não resta dúvida de que não vai ficar de boca fechada. Já é a segunda vez que este superpesado tenta destruir a Terra. Se não pudermos prendê-lo, temos de matá-lo, do contrário, jamais teremos sossego. — Se o encontrarmos, senhor, haveremos de liquidá-lo. A voz de Rhodan parecia cansada, quando falou: — Talvez já tenha morrido em combate, o que me pouparia muita preocupação. De qualquer maneira, temos de ter certeza de que está morto. Se ninguém achar este malandro, toda a ação foi inútil. Topthor é o único que pode desvendar o segredo e contar tudo aos tópsidas. E isso, temos de impedir de qualquer maneira. Onde está Gucky? — Com Marshall, conversando com missToufry. — Mande chamá-lo, Deringhouse, tenho um plano para ele. Menos de dez segundos após, Gucky se materializou na cabina, e ficou olhando para a tela escura. — O senhor me chamou chefe? — chilreou Gucky alegre. Do cansaço que sentia antes, não se via mais nada. — Acho que descobrimos as pegadas de Topthor. — Ainda está vivo? — perguntou Rhodan. — Se as pegadas são quentes, então sim. Por quê? — Descubra Topthor, Gucky, é muito importante. Toda esta batalha entre superpesados e tópsidas não terá nenhuma importância, mesmo a destruição da suposta Terra não tem interesse algum, se Topthor continuar vivo e espalhar o segredo do engano. Você me compreendeu? A voz de Rhodan era séria, mas foi se tornando mais suave. — Ouça bem, meu amigo, se você conseguir saber alguma coisa com certeza sobre Topthor, eu lhe arranjo um armazém inteiro de cenoura. Por alguns segundos, o silêncio se fez completo, depois se ouviu o guincho alegre de Gucky, dançando numa perna só através da cabina, quase tropeçando nos pés do comandante. — Será maravilhoso, durante dois anos não vou mais precisar fazer apostas e não há coisa que eu odeie tanto como apostar. Será feito, chefe. Em uma hora, terei Topthor nas mãos... e o armazém de cenoura. Rhodan riu à vontade. — Felicidades, Gucky, para você e para todos nós. O alto-falante emudeceu. Gucky ficou ainda um pouco sentado, depois se apoiou

no largo traseiro. Seus olhos leais de cão de fila pousaram no rosto de Deringhouse. O dente incisivo de roedor estava à vista, o que significava muito boa disposição por parte de seu dono. — Então, Gucky? Deringhouse se esforçava para parecer sério. — Quer apostar dois quilos, que você não vai encontrar Topthor? O rato-castor foi se retirando sem mesmo responder a Deringhouse, nem mesmo olhar para ele. Antes de desaparecer ainda chilreou: — Dois quilos? Ridículo, para quem já é praticamente milionário. Puxa, dois quilos, não se compreende como alguém se atreve a isso... O resto do protesto acabou. Gucky tinha se teleportado para não se sabe onde. Por sorte, não para o espaço aberto lá fora. *** Topthor e Ber-Ka tinham naquele momento feito um acordo. Entre eles haveria um armistício e ambos aceitavam a obrigação de procurar ou os saltadores ou os tópsidas para esclarecê-los sobre o horrível engano. O transmissor da Top II não podia mais ser consertado e também para ouvir estava muito difícil para Topthor, se bem que as notícias não eram nada agradáveis para o infeliz Ber-Ka. Os tópsidas estavam já derrotados, não havia mais dúvida. Os míseros restos da frota encontravam-se encurralados e obrigados à rendição. Muitas naves haviam se refugiado nas clareiras da floresta virgem, sem atinarem que exatamente este planeta achava-se condenado à destruição total. O reforço de Topsid estava chegando e entrando logo em combate. Esta leva de forças frescas ainda tinha um moral bem elevado e conseguiu infligir pesados danos aos saltadores. Logo, porém, constataram a grande superioridade dos superpesados. Os tópsidas fugiram, mas seus perseguidores não tinham piedade, foram derrubando uma nave após a outra. Somente as esferas espaciais de Rhodan que apareciam aqui e ali, não eram atingidas. Topthor e Ber-ka ouviam os relatórios. O tópsida tinha perdido qualquer esperança e estava resignado. Mas não o saltador. — Tem que ser possível conseguir-se um contato com uma das duas facções, Ber-Ka. Vocês tinham uma base aqui. Fugiram todos ou ficaram pelo menos os guardas? — Não sei — lamentou o tópsida. — As providências tomadas pelo comando supremo nunca chegam ao nosso conhecimento. Talvez existam ainda estações de rádio em funcionamento aqui, mas como conseguiremos contato com elas, se não sabemos onde estão? O sáurio fez uma pausa, depois sacudiu a cabeça: — Seria lógico que investigássemos primeiro o antigo quartel-general. Se há algum sobrevivente, tem de ser lá. — E onde é este quartel-general? Ber-Ka apontou na direção do mar. — Em qualquer lugar ali no litoral, numa ilha artificial no mar. Mas não sei bem a localização, pois não tenho ideia nenhuma do local onde aterrissamos. Temos de procurar. Topthor franziu a testa. — A explosão do reator destruiu meu porão e com isso meu planador e minha viatura. Iremos a pé, mas eu acho 113


isso impossível. — Uma viatura nós temos também — disse Ber-Ka, com um raio de esperança. — O planador infelizmente foi destruído durante seu ataque. Tentaremos chegar até o mar, lá a praia é larga e bem firme, para servir de estrada. Teoricamente temos que dar a volta toda pelo continente, para chegarmos do outro lado, encontrando a ilha artificial. — Mas isto é uma excursão muito agradável — disse Topthor em tom amargo. Porém compreendia que não havia outro jeito, se não quisessem ficar ali a vida toda. — Qual é o tamanho de sua viatura? — Se quisermos levar bastante mantimento e água suficiente, proporia uma tripulação de dois homens e, naturalmente, o armamento correspondente. Não sabemos por quanto tempo teremos de viajar. O superpesado ficou pensativo. Depois abanou a cabeça, concordando: — Está bem, Ber-Ka. Olhou para o céu, o sol estava a pino e o calor era enorme. — Vamos partir logo, cada hora é preciosa. Embora não tenha esperança de chegar a tempo. Mas é indispensável que todos saibam do grande erro, que prejudicará toda a Via Láctea. Os preparativos se fizeram em pouco tempo. Abriram um rombo no bojo da nave tópsida, colocaram umas vigas para deslizamento e um carro pesado rolou para o chão do planeta. Tinha rodas e esteira, podia, pois ser utilizado em qualquer tipo de terreno. Uma pequena metralhadora de raios energéticos podia girar em todos os sentidos, oferecendo assim proteção contra os ataques. O diminuto reator em seu interior tinha energia suficiente para o carro rodar ininterruptamente por mais de cem anos. Caixas com mantimentos foram empilhadas e o reservatório recebeu bastante água. Ber-Ka deu as últimas instruções à sua tripulação, depois se virou para Topthor. — Podemos partir. Acho que vamos atingir o litoral em duas ou três horas. Depois será mais fácil. — O que há com os habitantes da água? Ber-Ka tentou despistar. — Não precisa se preocupar com eles, são pacíficos e não possuem armas. Nem tomam conhecimento de nós. Temos apenas que cuidar para que ninguém dos seus ou dos nossos nos veja e abra fogo sobre nós. Este é o grande perigo que corremos. O único. Nosso tratado de paz particular não vale para os outros. Topthor examinou sua pistola de raios. — Vamos obrigá-los a fazer a paz — disse ele ameaçador, entrando na cabina do carro, que dava normalmente para quatro tópsidas. Quando Ber-Ka se sentou ao lado dele, todo o espaço estava ocupado. — Por todos os espíritos do espaço — disse o tópsida em tom de brincadeira — não é à toa que todo mundo chama seu povo de os “superpesados”. Topthor sorriu amavelmente. — Somos realmente pesados, mas não apenas no sentido físico — explicou ele, olhando para a máquina. Os que ficaram nas duas naves viram a viatura desaparecer logo na mata virgem, voltando para seus lugares. Ber-Ka na direção encontrava sempre uma clareira ou

um trecho com pouca vegetação por baixo, para conseguir ir rompendo com as poderosas lagartas. E quando lhe havia pela frente grossos troncos de árvores, que não podiam ser contornados, entrava em ação o termoradiador de bordo. Assim foi que diversos montões de cinza fumegante assinalavam o caminho que Ber-Ka e Topthor iam seguindo, na primeira hora de viagem, floresta adentro. Passou a tarde e veio à noite. Detiveram-se numa clareira e se prepararam para o repouso noturno. É claro que podiam ter continuado, mas temiam chamar a atenção pelo clarão do farol. A calefação espalhava um calor agradável na cabina. Tão diferentes, os dois indivíduos fizeram sua primeira refeição e se deitaram para o repouso. Em volta deles, era o silêncio e a calma. Nenhuma lua para iluminar as tristes sombras da floresta desconhecida, onde poderiam estar escondidos inimigos invisíveis. Nada se movia. Em algum lugar, altas ondas estariam rebentando no litoral e banhando as pilastras de aço que sustentavam a ilha artificial. Isto podia ser a uma distância de dez quilômetros, mas podia também ser a mil quilômetros. Topthor teve um sono muito perturbado. Acordou muitas vezes. Ficava então ouvindo a respiração compassada de seu aliado não intencional, que ele aos poucos começava a invejar. Quando ele virava a massa bruta de seu corpo para o outro lado, o carro balançava. É verdade que o Jovem tópsida não percebia nada disso, seu sono era profundo. Afinal clareou o dia. No leste, o céu se coloriu com todos os matizes do arco-íris. O sol vermelho galgou, gigantesco, as grimpas das árvores. Topthor acordou Ber-Ka. — Já é hora de nos pormos a caminho, já perdemos muito tempo. Certamente a batalha já terminou, mas ninguém sabe ao certo o que aconteceu. Você prepara a refeição matinal? Enquanto o tópsida preparava uma refeição leve, Topthor desceu da cabina e deu umas voltas. Estava convencido de ter ouvido certos ruídos durante a noite. Se alguém tivesse andado pela redondeza, devia ter deixado rastros. Estava também intimamente convencido que tinham errado um pouco o caminho e queria averiguar. Na clareira não se notava nada de extraordinário. Nenhum afastamento de galhos ou ramos quebrados levava à ideia de que alguém tivesse passado por ali. Não havia animais na floresta, como Ber-Ka havia dito, pelo menos não animais maiores. O pé de Topthor já estava preparado para o próximo passo, quando estancou de repente. Ficou parado com o pé no ar. Seus olhos ficaram estarrecidos, olhando incrédulos uma pegada de algo que se arrastava, vindo da floresta para a clareira, dando uma volta em torno do carro e desaparecendo do outro lado na vegetação baixa. Nenhum galho quebrado, como se o rastro fosse de algo que se arrastasse. Topthor voltou lentamente para a viatura. Ber-Ka já sabia do que se tratava. — Não se preocupe Topthor, são os seres da água. Às vezes vêm à terra, mas voltam logo a seu elemento. Se o senhor viu o rastro deles lá fora, é sinal que o mar não está muito longe. Portanto, estamos alcançando o que queremos. E agora, venha tomar sua refeição para que possamos continuar. Topthor olhou mais uma vez para as pegadas e se 114


espremeu para entrar pela porta do carro, para ele estreita demais. Apesar da perspectiva de alcançar o mar em breve, não sentiu muito apetite com a comida que o tópsida lhe preparara, não por causa da comida em si. Talvez fosse a incerteza do que tinha pela frente, que lhe tirou o apetite.

4 Foi mais ou menos por esta hora que a última nave de Al-Khor foi destruída. A frota dos tópsidas não existia mais. O último comunicado do rádio, que saiu do terceiro planeta, dava conta ao Ditador do Império Estelar Tópsida de que suas tropas haviam cumprido seu dever e haviam resistido ao inimigo invasor até a última gota de sangue. Topsid não respondeu. *** Rhodan percebeu que alguém entrava na cabina. Era o Dr. Certch, o psicólogo dos robôs. O pensamento cada vez mais independente dos cérebros positrônicos e eletrônicos tornou necessário criar uma especialização científica. Era, portanto, missão de Certch supervisionar os complicados processos de pensamento dos robôs e prever como seus cérebros decidiriam em cada caso concreto. — Então, doutor, o senhor por aqui? Pensava que o senhor não se preocuparia com coisas tão pequenas como batalhas espaciais. — Não estou realmente preocupado com isso, senhor — disse Certch sorrindo, mas em sua voz havia um vislumbre de seriedade, que Rhodan logo percebeu. — Há, no entanto, acontecimentos que não podem ser menosprezados. — E quais seriam eles? — perguntou Rhodan, empurrando as mensagens de rádio para trás, recebidas nos últimos sessenta minutos. Confirmavam o que já se sabia. Os superpesados conseguiram a vitória e agora se preparavam para desfechar o último golpe contra a “Terra”. Cekztel tinha mandado preparar a bomba arcônida. — O senhor sabe que construí para mim mesmo um

pequeno cérebro positrônico, a que dei o nome de Max. Max é uma calculadora, se assim posso me exprimir. Um psicólogo mecânico que pode prever e calcular todos os processos de pensamento de seus irmãos maiores. Estive “conversando” muito tempo com Max. — E que é que ele diz? — queria saber Rhodan, que conhecia a profundidade do cientista e a respeitava. Por mais de uma vez, Dr. Certch tinha provado ser entendido nos pensamentos lógicos dos cérebros mecânicos. — Esperamos que sejam previsões boas. — Max está preocupado por causa do cérebro positrônico na belonave de Topthor. Temos que supor, de acordo com o que aconteceu até agora, que o próprio Topthor está interessado em disfarçar o erro. Há, no entanto, uma hipótese bem justificada — dizia Max — de que o cérebro pense diferente e esteja decidido a esclarecer o erro. E Max ainda é de opinião de que, mais cedo ou mais tarde, a trapaça dos mutantes será descoberta e a alteração feita por eles virá à luz. Com outras palavras: os saltadores haverão de notar que destruíram, não a Terra, mas um pobre planeta inofensivo. — Suposto, naturalmente, que Topthor e sua nave não tenham sido atingidos por uma descarga energética. Certch confirmou com um movimento da cabeça. — Naturalmente. Mas não sabemos se ele morreu em combate. E mesmo que tenha morrido, ainda existe a possibilidade de que sua nave esteja apenas danificada e seja um dia encontrada. Então o robô terá tempo suficiente para esclarecer o enigma. Se o senhor quiser estar bem convencido de que sua jogada deu certo, então terá de providenciar para que a nave de Topthor seja completamente destruída. — Concordo com o senhor, doutor. Mas antes de tudo, temos que encontrar Topthor e sua nave. Conforme meus cálculos, os saltadores ainda estarão ocupados por algum tempo em salvar seus sobreviventes e colocar a salvo suas naves ainda aproveitáveis. Somente depois disso é que vão destruir o terceiro planeta. Depois de se retirarem deste planeta, será tarde para nós. Temos, portanto, pouco tempo para eliminar o perigoso Topthor. John Marshall e seus mutantes estão fazendo todos os esforços para conseguirem isto. No entanto, até agora, sem resultado. — Espero que sejam bem sucedidos — disse Certch. — Tudo depende exclusivamente disto — disse Rhodan, acenando para Certch que estava deixando a cabina. Praticamente estava deixando a solução do problema nas mãos de Marshall que saía da seção dos mutantes, acompanhado de Betty Toufry, para falar com Rhodan. Certch, curioso, os seguiu. Sua despedida da cabina fora muito curta. — Betty teve impulsos claros de Topthor — disse Marshall agitado — mas ainda não o conseguiu localizar. Gucky também está tentando localizá-lo. O interessante é que nós podemos afirmar com certeza que a nave de Topthor não estava junto com o grosso da frota. — Onde, então? — Se soubéssemos onde, estaria tudo terminado — respondeu Marshall. — O senhor sabe, chefe, que distâncias não se podem calcular só por meios telepáticos. Por isso, Gucky ficou a bordo da Centauro, enquanto Betty e eu nos transportamos para a Titan. O senhor sabe que calcular uma distância com auxílio de duas retas dadas e de um ângulo conhecido, não é mais problema hoje. Aliás, já 115


não era há muitos séculos. Completamente novo é determinar as duas retas somente por meios telepáticos. Betty e Gucky tentam localizar Topthor. Betty já sabe qual é à distância. De Gucky ainda não sabemos nada. — Você tem contato com a Centauro? — É claro, capitão Lamanche dirige as operações lá de cima. Deringhouse voa agora para Aqua. — O planeta das águas? Por que isso? — Porque os impulsos secretos de Topthor provêm de lá. Rhodan comprimiu os olhos e fitou Marshall, muito pensativo. — Quer dizer então que está faltando só a orientação de Gucky? — Exatamente — respondeu Marshall. — Então saberemos onde está Topthor. Onde se cruzarem as retas de Betty e de Gucky, aí está o superpesado. Soou o intercomunicador e o semblante do cadete Martin apareceu na pequena tela. — Marshall está com vocês? Rhodan fez um sinal para Marshall. — Sim, está conosco. Você tem notícias de La manche? — Gucky transmitiu exatamente agora uns dados para Marshall. Devo repeti-los? Marshall fez sinal que sim. Estava com lápis e papel na mão. Betty olhava curiosa para ele. Dr. Certch dava passadas nervosas de um canto para outro. A ele interessava sobretudo a destruição da belonave de Topthor, e com isto também o desaparecimento do perigosíssimo computador de bordo. — Leia devagar, por favor. Marshall anotou as coordenadas e começou a fazer diagramas. Em passos rápidos, aproximou-se de Rhodan e pediu: — O mapa do sistema, senhor. Acho que o palpite de Gucky estava certo. E Rhodan, entregando-lhe o mapa: — Que palpite? — Que Topthor havia aterrissado em Aqua. Provavelmente desconfiou e quis ver pessoalmente “Marte”. Então está na hora de tomarmos iniciativa. — Centauro chamando, senhor — interrompeu Martin, desaparecendo da tela. Por uns trinta segundos, houve silêncio total na cabina. Todos esperavam meio angustiados o que havia sucedido. Finalmente acendeu a luz do intercomunicador. Martin parecia meio apavorado ao falar: — Foi Deringhouse. Avisou que Gucky desapareceu completamente. Rhodan respirava com dificuldade. — Que quer dizer desaparecer completamente? Onde está a Centauro? — Está circunavegando Aqua, senhor. O rato-castor, assim diz o relatório de Lamanche, falara que tinha ainda de liquidar um assunto, depois disso desapareceu. No arsenal está faltando uma pequena bomba atômica. A fisionomia de Rhodan clareou. Marshall, que estava pálido como cera, deixou transparecer um leve sorriso: — Que malandro este Gucky. Ele sabe que o procurado está no quarto planeta e toma suas próprias decisões. Não é um pouco apressado, chefe? Rhodan não conseguiu disfarçar o sorriso: Um de nós tinha que fazer isto; por que não Gucky?

Prometi-lhe um armazém de cenoura se conseguisse achar Topthor. Marshall caiu na poltrona mais próxima. — Então... — murmurou ele, fechando os olhos com resignação. *** Uma forte aragem do sul tocava as ondas, sem cessar, contra a praia arenosa que se estendia reta de leste para oeste, raramente interrompida por enseadas idílicas. Após uns cem metros da praia começava a floresta virgem. Estes cem metros eram tão planos como uma estrada. Quando Topthor, que dirigia a viatura, viu o mar, parou sem querer. Encantado, ficou olhando para a superfície azul, a se perder no horizonte. No céu, o sol alaranjado. Estava quente, de maneira que a brisa do mar foi-lhes um grande alívio. A cúpula de vidro do carro estava aberta. — O melhor é dobrarmos para o leste — disse Ber-Ka, a quem a visão do mar era coisa comum. — A ilha de aço está no litoral sul, isto eu sei com certeza. Mais ou menos na extremidade sudeste do continente. Topthor se desprendeu do belo panorama. Virando-se para seu companheiro, disse: — Agora estou compreendendo porque vocês instalaram aqui uma base. É realmente um mundo em que se pode viver bem. O tópsida nada respondeu. Continuou olhando para o lado da praia, como se esperasse encontrar alguém. Mas não conseguiu ver as listras prateadas na superfície do mar que denunciavam a presença dos seres aquáticos. Os habitantes de Aqua, como Deringhouse batizara este mundo, viviam exclusivamente na água. Em terra, não aguentavam mais do que duas ou três horas. Movimentavam-se na água como um avião a jato: com a boca enorme sugavam boa quantidade de água, comprimiam-na no centro do corpo com um órgão especial, tocando-a para fora com grande pressão através de uma válvula traseira. Desta maneira, seu nado atingia enorme velocidade. Não apareceram e Ber-Ka estava meio decepcionado. Topthor não estava mais admirando a beleza primitiva daquele mundo virgem. As preocupações estavam voltando à sua cabeça. Acima de tudo, a incerteza sobre o que havia acontecido. O fraco transmissor do carro não dava para entrar em contato com a frota. Chamar a Top II também não fazia sentido, pois não podiam responder. Uma situação desesperadora. Mas alguém certamente o acharia e aí então a trapaça de Rhodan viria à luz. Quem sabe o cérebro positrônico da Top II haveria de corrigir seu erro e então os saltadores fariam verdadeiro ataque à verdadeira Terra. — A ilha...! Estamos chegando. Topthor viu a construção abaulada, a mais ou menos dois quilômetros do litoral. Pilastras esguias, apoiadas no fundo do mar, sustentavam esta estranha ilha. Um parapeito cercava toda a plataforma, impedindo que alguém caísse ao mar. Mas não havia sinal de vida na plataforma. A ilha artificial parecia morta. Topthor não deu uma palavra. Andou mais uns dez minutos e depois parou num lugar bem em frente à ilha. Num porto improvisado, estavam alguns barcos sem dono. Ber-Ka apontou-os. 116


— Chegaremos à ilha com eles. Vamos, não perca tempo. Topthor estava hesitante e disse: — E se alguém nos viu e está a nossa procura para nos matar? — Verão que sou oficial e não atirarão em você sem mais nem menos, estando ao meu lado. Quem sabe o que já aconteceu por aqui? Venha Topthor, cada minuto é precioso. Um pouco assustado, Topthor abandonou o carro que até então o protegia bem. A visão da ilha solitária e estranha não lhe agradava nada, embora fosse o único meio de tentar contato com sua gente. Dava também a mesma oportunidade a Ber-Ka. Se Topthor quisesse ser honesto consigo mesmo, teria de confessar que, a princípio, não estava confiando muito no tópsida, quanto ao caminho para a ilha. É certo que os dois tinham um acordo, feito, porém pela necessidade do momento e não por simpatia. Estavam convencidos de que manteriam o contrato, somente enquanto um precisasse do outro. Quando Ber-Ka encontrasse os seus, não precisaria mais de Topthor e vice-versa. Ber-Ka já estava em pé dentro de um barco, como que convidando para um passeio na ilha. — Venha Topthor, não temos tempo a perder. O superpesado se pôs em movimento. Em sua cintura, balançava a pistola energética. Seus pés entravam fundo na areia. Não tirava os olhos de Ber-Ka, pois não queria ser surpreendido com um tiro pelas costas. O momento da decisão se aproximava inexorável. O barco balançava bastante, mas com um pequeno ruído do motor, ia levando os dois para o ancoradouro da ilha, uma plataforma bem rente ao mar. Neste local, o paredão liso da ilha era substituído por um portão. Uma roda fazia as vezes do usual trinco ou alça de abrir. Ber-Ka amarrou o barco bem firme num gancho e saltou. Com mãos ágeis abriu o portão, enquanto Topthor se esforçava para botar o pé no chão da ilha, cujas paredes se erguiam a mais de vinte metros de altura. Topthor não conseguia ver o fundo do mar e não sabia, pois, qual era a profundidade. O tópsida já tinha entrado e virou-se para trás: — Venha Topthor, não sei se vamos achar a instalação funcionando ou a tripulação presente. Mas vamos experimentar. Isto era nosso quartel-general, porém como estou vendo, inundaram a parte inferior. Repare que as escadas estão encobertas pela água. Só aquela é que está livre. Não tenho nenhuma ideia onde se encontra a cabina de rádio. — Se existia uma, ou ainda existe, nós encontraremos — disse Topthor mais otimista. — Provavelmente nos andares de cima. Vamos dar uma olhada primeiro na fortaleza aquática. Estou achando as instalações muito interessantes, embora não compreenda por que não a construíram em terra firme. Não havia adversários, não é? — Devido ao contato com os nativos — explicou BerKa. Com Topthor atrás dele, começou a subir. Tinham levado consigo só as coisas mais importantes, o restante ficara embaixo. Tudo demonstrava que era intenção dos tópsidas voltar para o quartel-general logo após a batalha. Nos armários, ainda estavam guardados os rolos de fitas magnéticas e os microfilmes sobre o quarto

planeta do sistema Beta. Os olhos de Topthor viam cobiçosos aqueles tesouros de documentos. Se pudesse pegaria tudo. Mas depois pensou friamente que os tópsidas não voltariam mais, pois estavam mortos. Com toda probabilidade, Ber-Ka era o último tópsida vivo, a entrar naquela ilha de aço. A mão de Topthor estava por acaso na coronha da pistola quando Ber-Ka virou de repente para trás e apontou para frente, onde havia uma porta aberta. Atrás dela, estava a instalação de rádio, um salão bem claro. O superpesado estremeceu todo de susto, como que apanhado numa ação imoral. Deu um sorriso forçado, olhando para Ber-Ka. — Excelente, Ber-Ka, a jogada de Rhodan está chegando ao fim. O grande salão estava vazio. Os aparelhos, receptores, geradores e transmissores estavam em seus lugares. Amplas janelas deixavam entrar a luz do sol. As poltronas dos operadores estavam como eles haviam deixado. A qualquer momento, pensava Topthor, os sáurios poderiam voltar como se tivessem saído apenas por uns instantes. Mas depois, achou que estava louco, pois os tópsidas não tinham sido todos derrotados e mortos? Ninguém voltaria para ali. Ber-Ka era e continuava sendo o único tópsida vivo. O último a entrar naqueles tesouros. — Você entende alguma coisa disso? — O suficiente para dar conta do recado — afirmou o jovem oficial, apontando para uma complicada instalação. — No começo de minha carreira, era operador de rádio. Espere, em poucos minutos teremos Al-Khor ali na tela. Topthor franziu as sobrancelhas. — Por que não Cekztel, meu comandante supremo? Quem sabe se Al-Khor já está morto, depois que toda sua frota foi destruída? — Isto aqui é uma estação dos saltadores ou dos tópsidas? — perguntou Ber-Ka. — Assim que eu falar com Al-Khor, a estação fica a sua disposição. Mais, você não pode exigir. O superpesado concordou hesitando. Sua mão estava de novo na cintura. — Está certo, Ber-Ka, mas sem a minha magnanimidade você não estaria nesta ilha. Tenho, pois, o direito de ser o primeiro a falar. Além disso, não adiantaria nada à sua frota se Al-Khor for cientificado da trapaça de Rhodan. O importante é que a frota dos saltadores seja esclarecida. Compreende isto? Mas Ber-Ka estava possuído por uma idéia fixa. Queria vingança e queria realizar um feito heróico. Se ele matasse o saltador e conseguisse que as operações de guerra recomeçassem, receberia a comenda de bravura do ditador. Mas este saltador era um adversário ágil e perigoso, que não se podia menosprezar. — Talvez o senhor tenha razão — disse ele cauteloso. — Por favor, use a instalação primeiro. Certamente o senhor saberá manuseá-la. — Também Já fui operador de rádio — respondeu Topthor, passando ao lado de Ber-Ka, em direção à cadeira livre, já com a arma na mão. Ao perceber, pela imagem refletida no vidro abaulado da tela, que o sáurio havia sacado a pistola para matá-lo pelas costas, sua reação foi espantosa. Fez como se fosse sentar na poltrona do operador, deu meia-volta e se atirou no chão, descarregando a arma. 117


Ber-Ka foi apanhado de surpresa, morrendo sem um gemido, com a arma apontada para Topthor. O fluxo energético cessou, Topthor respirou aliviado, guardando a arma na cintura. Estava agora livre de qualquer ameaça do traidor sáurio, que tinha matado em legítima defesa. O cadáver seria prova disso, da intenção de Ber-Ka de matá-lo pelas costas. Haveria de deixá-lo como estava. Topthor se sentou diante dos aparelhos e começou a estudá-los. A instalação basicamente não era muito diferente da dos saltadores. Apresentava, porém, algumas novidades nos controles, com que não estava acostumado. Estava, porém, convencido que não levaria muito tempo para fazer tudo funcionar. Ficou uns dez minutos diante dos aparelhos tentando em vão, até que esticou a mão direita e empurrou uma alavanca. Regulou a frequência do transmissor e pegou o microfone, depois que a tela ficou iluminada. — Alô, aqui fala Topthor, do quarto planeta do sistema Beta. Aqui fala Topthor do quartel-general dos tópsidas. Estou chamando Cekztel, comandante supremo dos superpesados. Apresente-se, Cekztel. Tenho uma comunicação importantíssima para lhe fazer. Apresente-se. Repetiu três vezes seu apelo e depois passou para a escuta. Não teve que esperar muito, até que apareceu na tela a imagem desfocada do velho patriarca, os olhos astutos, como que sobressaindo do nariz chato e da imensa barba, procuravam, como se não vissem, a imagem de Topthor. — Alô, Topthor? Aqui fala Cekztel, por que não liga sua câmara? Minha tela está escura. — É uma instalação de rádio dos sáurios, que não domino bem. Mas, não tem importância. Preste atenção, Cekztel: faça paz imediatamente com os tópsidas. — Você ficou maluco? Os tópsidas se aliaram com os terranos e eu devo fazer pazes com eles? Além disso, não saberia onde encontrar um comandante deles. Somente a gigantesca nave esférica de Rhodan é que aparece de vez em quando, junto com pequenas unidades. Naves cilíndricas não aparecem mais. — Venha me apanhar aqui, Cekztel, você vai me encontrar facilmente. No quarto planeta... — O que está fazendo aí? Não vi sua nave durante todo o tempo do ataque. — Eu lhe conto tudo mais tarde, Cekztel. De qualquer maneira, você ficará boquiaberto quando lhe disser que este Rhodan nos enganou novamente. — Não diga besteira, Topthor, ganhamos a batalha e estamos nos preparando para acabar de destruir a Terra. Só mais uma hora e... — Um grande erro — interrompeu-o Topthor, sorrindo, o que o patriarca não podia naturalmente ver. — Um grande erro. Você podia poupar sua bomba e... Topthor parou sem querer, pois neste segundo sua tela escureceu. A imagem de Cekztel desapareceu e ao mesmo tempo cessou o leve zumbido da aparelhagem. As lâmpadas de controle apagaram. A instalação toda havia desligado por si. Antes que Topthor pudesse compreender o que se passava, ouviu uma voz sibilante atrás de si. — Vire-se, mas tire a mão da pistola. Topthor obedeceu, virando-se vagarosamente. ***

Deringhouse não era tão ingênuo assim. — O que vamos fazer no planeta Aqua, Gucky? — perguntou ele cauteloso, hesitando quanto ao próximo hipersalto. — Lá não existe nada. — Quem sabe, existe — respondeu o rato-castor, desenhando um triângulo quase eqüilátero numa folha de papel. — Quem sabe existe mesmo muita coisa. — Não compreendo, não, Gucky. — Então, vou lhe explicar, chefe. O bom Topthor está em Aqua, para gozar férias especiais. Eu gostaria de abreviar estas férias, antes que ele faça bobagem. — Topthor? — perguntou Deringhouse perplexo, como que atingido por um choque elétrico. — Topthor? — Exatamente — disse Gucky radiante e ao mesmo tempo suplicante, no seu olhar de cão fiel. — Você sabe, o chefe me prometeu uma coisa, se eu encontrasse Topthor. Sabe o que vou receber, quando o deixar fora de combate e destruir sua espaçonave? — Você sozinho? — admirou-se Deringhouse, olhando já agora para o mapa sideral. — Eu também gosto de ser amigo de Rhodan. — O que você vai fazer com uma meia dúzia de alqueires de cenoura? — perguntou Gucky. — Basta que nossa nave passe a uns mil quilômetros de Aqua. — Devo avisar Rhodan... — Mais tarde, major. Não se pode saber se nesse meio tempo Topthor já se comunicou com Cekztel. Deringhouse concordou e apanhou a calculadora. Três minutos mais tarde, a Centauro surgiu perto de Aqua, descendo em parábola até se aproximar da camada atmosférica. — Então, Gucky? — perguntou Deringhouse, virandose para trás. — Você está conten... O major interrompeu a palavra. Gucky já não estava mais na cabina, havia desaparecido sem deixar rastro. Então, Deringhouse não hesitou mais em noticiar tudo imediatamente a Rhodan. *** Quando o planeta das águas apareceu na tela, Gucky se concentrou e pulou. Assim que sentiu chão firme debaixo dos pés, respirou aliviado. Era sempre um grande risco pular no nada, mas Gucky teve sorte. Estava no alto de um morro sem vegetação, que emergia íngreme do meio da mata virgem, proporcionando um magnífico panorama. Isso não interessava muito a Gucky, mas a busca foi muito facilitada pelo fato de que Aqua possuía apenas um continente, que não era tão grande assim. Olhou para o sol quase a pino, sentou-se numa pedra lisa e fechou os olhos. Tinha que ouvir o que não podia ver. Do contrário, não encontraria sua presa. E sua presa se chamava Topthor. Concentrou-se para captar os impulsos de pensamento do superpesado, o que devia ser mais difícil do que no espaço livre. Para sua surpresa, porém, percebeu logo nos primeiros segundos partes de pensamentos, que sem dúvida vinham de saltadores e de tópsidas. “Saltadores e tópsidas! Na mesma direção?” Gucky virou a cabeça; a distância, naturalmente, não podia calcular, mas a direção, sim. — Puxa, saltador e tópsida em harmoniosa conversa, que surpresa! Isto tem que ser examinado de perto. Quem 118


sabe Topthor pode estar por perto — murmurou. Procurou localizar bem a direção e se teleportou para o próximo morro. Depois da terceira teleportação, viu duas naves: ou melhor, escombros de duas naves, próximas uma da outra, num planalto pedregoso. Gucky realmente se espantou: — Puxa! A Top II, se não me engano. Que coisa maravilhosa! Enfiou a mão num bolso de couro da cintura, tirando dali um objeto metálico, do tamanho de um ovo de galinha, a bomba atômica. Pegou-a com cuidado, regulou o detonador, apertou um botão, olhando para que se mantivesse nesta posição, Se o soltasse, a bomba teria cinco segundos para explodir. Pulou para dentro da nave e se materializou na cabina de comando que pertencera a Topthor. O oficial que estava de plantão, sentado no sofá, arregalou os olhos espantado e se levantou num pulo para ver melhor a estranha aparição. Tinha arma na cintura, mas não fizera menção de usá-la. Olhava horrorizado para o rato-castor que surgira do nada, segurando um objeto metálico na mão, como se quisesse atirá-lo. — Se você for bonzinho, lhe darei uma coisa — disse Gucky no mais puro intercosmo, que deixou o superpesado ainda mais perplexo. Conseguiu apenas balbuciar: — O que você vai me dar? — A vida — disse-lhe Gucky triunfante, mostrando-lhe a bomba. — É poderosíssima, se eu a soltar, explode imediatamente e haverá então um buraco enorme neste trecho do planeta. Portanto, não faça bobagem. Vá para o ar livre lá fora e reúna os outros. — Os outros? — disse o pobre superpesado, sem compreender nada. — Quem é você? — Sou Gucky. Nunca ouviu falar no meu nome? Meu melhor amigo se chama Perry Rhodan. — Rhodan...? — exclamou o bem nutrido guarda. — Rhodan está aqui? — Na redondeza, bem perto. E agora, chame os outros lá para fora. Eu queria dizer umas palavras a eles. Chame também os sáurios. Vocês fizeram aliança com eles? — Foi ordem de Topthor. Ele disse que a guerra foi um erro. — Toda guerra é um erro — continuou Gucky. — Mas há erros que evitam a guerra. O superpesado continuava olhando para Gucky, sem nada compreender. Gucky sorria, mostrando seu dente roedor. — Vamos, não temos tempo a perder. Em dois minutos, quero ver as duas tripulações lá fora. E lhe digo logo que tenho uma bomba atômica em minhas mãos que detonará cinco segundos após minha morte, se algum maluco estiver pensando em me matar. Levou apenas um minuto. Gucky esperou na escotilha até que os saltadores e os tópsidas estivessem todos reunidos lá fora, no planalto. Depois avançou um pouco mais, com a mão erguida, e gritou bem alto: — Para ser bem rápido: Rhodan me deu a incumbência de, com esta bomba atômica, destruir os escombros da nave. Desapareçam todos daqui, do contrário voarão pelos ares em pedaços. Têm dez minutos para isto. Compreendido? Entenderam perfeitamente, disparando em todas as direções. Apenas um dos superpesados, com menos de

quatrocentos quilos, ainda antes de entrar na floresta virou para trás e disse: — Sem a nave, nós não temos mais abrigo. Temos que morrer aqui ou alguém virá nos salvar? Gucky encolheu os ombros. — Construam seus ninhos — disse ele pilheriando. — Aliás, onde está Topthor? O superpesado acabou de desaparecer. Gucky ainda esperou dez minutos. Depois voltou ao grande aparelho e procurou o lugar onde estavam os instrumentos de navegação positrônica. Parou diante daqueles gigantescos aparelhos, mostrando-lhes a bomba atômica, dizendo baixinho: — Agora vocês vão receber um presente especial, principalmente você, computador de boa memória. Sabe também por quê? Não? Muitos já morreram sem saber o porquê. O mesmo vai acontecer a você. Com muito cuidado, colocou a bomba sobre a mesa de controle, diante do robô, e deu um passo atrás. O botão vermelho estava puxado para fora. Gucky se desmaterializou e, em menos de um segundo, estava no alto de um morro, a cinco quilômetros dos escombros da Top II. — Ainda três segundos — disse ele, sentando-se sobre a volumosa cauda. — Agora! Lá ao longe, além do teto verdejante da floresta, subiu ao céu o clarão ofuscante da explosão, apagando quase a claridade do sol. Um cogumelo de fumaça surgiu lento: estava tudo acabado. — Aquela caixa de metal não falará mais — disse para si mesmo, virando-se para outra direção. — Topthor está pensando de novo muito alto. Portanto deve estar por perto. No horizonte, se estendia a imensa superfície do mar, até se encontrar com as nuvens baixas, à direita da língua de terra. — Está falando com Ber-Ka, quem é Ber-Ka? — Gucky auscultava atento. De repente, levantou-se de um salto, e de pé, com a cabeça levemente virada, como se assim pudesse ouvir melhor. — Ele é um assassino? Isto me torna o serviço mais fácil. Vamos lá, meu caro. Com “meu caro”, Gucky se referia a si mesmo. O primeiro salto o deixou na praia, não longe daquele lugar onde ancoravam os barcos para a travessia. Ali no mar, estava a ilha de aço. Gucky sondou e percebeu que Topthor devia estar ali. O segundo salto levou Gucky para a plataforma da ilha. Daí em diante, não quis mais se teleportar. Concentrou-se nos pensamentos de Topthor e achou a direção exata. O saltador devia estar debaixo da plataforma, na sala de rádio. Ber-Ka já estava morto e Cekztel estava no aparelho para falar com Topthor. Não se podia perder mais um segundo. Gucky desceu as escadas, atravessou o corredor, chegando a uma porta encostada, que abriu cuidadosamente. Viu Topthor de costas, olhando para a tela. Ao lado dele, jazia o cadáver de um sáurio. — ...erro — dizia Topthor. — Um grande erro. Você podia poupar sua bomba e... Gucky emitiu um fluxo de suas forças telecinéticas, pegando com mão invisível na confusão eletrônica dos fios. A imagem sumiu da tela, a resistência queimou, não havendo mais corrente. — Vire-se — disse Gucky — mas tire a mão da pistola. Topthor obedeceu imediatamente.

119


5 Embora os tópsidas tivessem perdido toda sua força aérea, Al-Khor julgou seu dever continuar lutando até não haver mais um só saltador no quarto planeta. Ao aproximar-se da suposta Terra com suas naves de reconhecimento, Cekztel teve uma surpresa desagradável. Das fortalezas improvisadas pelos sáurios, saiu uma reação de fogo antiaéreo tão forte e inesperada que em muitas naves o envoltório energético não resistiu. Cekztel viu horrorizado que quase a metade de sua frota de patrulhamento foi destruída. Arrependeu-se de ter subestimado os terranos. A tudo isso ainda acrescia que, exatamente nesta situação desesperada, surgiam as naves esféricas de Rhodan, aumentando ainda mais a confusão. Três outras naves dos saltadores ainda foram destroçadas. O terceiro planeta se transformara em inferno ignívomo. A impressão, pelo menos conforme o raciocínio dos patriarcas dos saltadores era de que os terranos haviam transformado seu planeta pátrio numa fortaleza subterrânea. Talvez fosse essa a explicação para o fenômeno que causara tanta dor de cabeça a Cekztel. Todo planeta civilizado, assim era o seu raciocínio, devia ter seu cartão de visita: a superfície. A superfície da “Terra”, no entanto, constava apenas de uma paisagem rústica que não apresentava o menor sinal de civilização. Será que os terranos tinham toda sua civilização em subterrâneos? Sua última dúvida a respeito de se tratar mesmo da verdadeira Terra desapareceu com o repentino e violento contra-ataque subterrâneo. Suas ordens chegavam a todas as centrais de comando do restante da frota: — Retirada imediata. Ponto de encontro em BK cinqüenta e nove-hf. Temos de sair daqui. Com uma velocidade incrível, as naves cilíndricas dos saltadores se atiraram espaço a fora, deixando no planeta das matas virgens os pobres tópsidas, já mais aliviados. *** Cekztel olhava para a tela vazia, esperando que Topthor desse sinal de vida. Mas o rádio estava mudo e o superpesado não dava sinal nenhum. O patriarca franziu a sobrancelha e um tanto inseguro, virou-se para um dos seus oficiais: — O que este Topthor quer dizer com a frase: “Rhodan nos enganou novamente”? Entenda isto quem quiser. Será que não estamos em condições de liquidar com este Rhodan? Não destruímos sua frota e a de seus aliados? É verdade que a Terra está se defendendo com unhas e dentes e não pensa em se render. Mas isto vai adiantar alguma coisa? A bomba arcônida vai produzir um novo sol neste planeta. E mesmo que não consigamos apanhar Rhodan, o que ele vai fazer sem seu planeta pátrio? Não pode ficar a vida toda rodando por aí em sua gigantesca nave esférica. Então, haveremos de apanhá-lo, quando tentar descer um dia em um dos nossos mundos. O oficial, um saltador normal, com menos de cem quilos de peso, fez como se estivesse de acordo. — Para mim, seria muito melhor que Rhodan estivesse morto. — Para mim, também — esbravejou Cekztel, furioso

contra suas próprias dúvidas. — Para mim também, acredite, mas já fico mais contente quando a Terra estiver destruída. A Terra é a incubadora destes novos-ricos aventureiros, que não respeitam nosso monopólio comercial. Você vê que até os mais ou menos neutros tópsidas se tornaram nossos inimigos porque Rhodan conseguiu influenciá-los. Depois que a Terra for destruída, teremos uma conversa muito séria com o ditador. — Quem sabe, foi ele obrigado a tomar esta atitude contra nós? — Quem sabe, mas não temos certeza — continuou Cekztel. Seus olhos ainda continuavam fixos na tela escura. — Temos que nos preocupar com Topthor. Providencie para que uma de nossas naves vá buscá-lo. Enquanto isso eu fico preparando tudo para a destruição da Terra. O oficial obedeceu e saiu em direção à sala de rádio. Fez logo uma ligação para certo Bernda, um corpulento patriarca dos saltadores da estirpe dos chamados comerciantes de cereais. — Ordens de Cekztel, Bernda — disse o oficial assim que o semblante do astuto comerciante apareceu na tela. — Você deve voar para o quarto planeta do sistema e apanhar Topthor e sua tripulação. Teve de fazer uma aterrissagem forçada por lá. A aparelhagem de rádio parece que não funciona. Mas você vai encontrá-lo com facilidade. O planeta é completamente inabitado. — Exatamente Topthor! — disse Bernda, com cara de poucos amigos. — O desgraçado já me estragou muito negócio bom na vida. — Isto não interessa nem a Cekztel nem a mim — interrompeu o oficial. — O senhor recebeu a ordem de apanhar Topthor. É muito importante, pois Topthor tem uma mensagem de muito valor para nós. Espero que o senhor coloque o bem de nosso povo acima de seus interesses particulares e diferenças pessoais. — Não se preocupe — foi a resposta do comerciante de cereais. — Sei o que tenho que fazer. Devo partir, quando? — Imediatamente. E não se assuste se o terceiro planeta se transformar num sol. — A Terra? — Sim, a Terra — respondeu o oficial, desaparecendo da tela de Bernda. O comerciante ainda ficou olhando por uns instantes para a tela apagada, depois sua voz possante gritou umas ordens. Toda a tripulação correu para seus lugares e se preparou para a nova missão. A Bern I era uma espaçonave relativamente pequena, um cilindro de mais ou menos oitenta metros de comprimento, com poucos meios de defesa, mas muito ágil. Cekztel não poderia escolher ninguém melhor do que Bernda, para esta missão. Ele comerciava com cereais e o seu negócio estava também ligado com a pesquisa da superfície de outros planetas à procura de vegetação e de animais. Seu trabalho profissional o obrigava a se utilizar de uma nave pequena. — Aceleração até mais ou menos 1G! A Bern I, depois de descrever um ângulo de 90 graus, disparou pelo espaço a fora, perdendo de vista em pouco tempo a frota dos saltadores. Apenas uma vez, notou no espaço pedaços de aparelhos destruídos, que não interessavam a ninguém. Levou mais ou menos uma hora, depois o quarto planeta ficou tão grande que enchia toda a tela. É claro que Bernda 120


não ia colocar seu dever de cidadão acima dos seus interesses particulares. “Água... A maior parte deste planeta está coberta de água. Não há muita coisa para se procurar”, pensava ele. Mas, quem sabe existiriam no continente novas formas de vida que seriam de grande interesse para incrementar seus negócios? Se encontrasse logo Topthor, não teria mais jeito de prolongar sua permanência no quarto planeta. Sua ausência não ia apressar o desenrolar dos acontecimentos nem alterá-los. A Bern I deslizava a poucos metros de altura, sobre a superfície das águas. Pequenas ilhas anunciavam o continente, que minutos depois apareceu no horizonte. Bernda mandou abrir a cúpula de observação e sentouse numa poltrona onde mal caberia Gucky. Desta cúpula, tinha uma ótima visão para todos os lados, mormente para baixo. Uma direção auxiliar lhe permitia controlar os movimentos da nave, dali da cúpula mesmo. Uma ligação direta com a cabina de rádio o punha em contato permanente com sua tripulação ou com naves próximas. Bernda se entregou completamente às suas inclinações comerciais. Como um técnico, contemplava as enormes árvores da floresta virgem, avaliando seu valor comercial. Em mundos pobres de florestas, troncos de boa madeira davam grandes lucros. Principalmente árvores como aquelas. De qualquer maneira, não ia perder a oportunidade de arranjar mudas e sementes. Talvez fosse melhor, primeiro procurar Topthor. Não gostou muito desta ideia. Mas depois ficou pensando que de fato ele estava recebendo dinheiro para atuar nesta campanha, tendo, portanto algumas obrigações a cumprir. A desgraça é que tinha de salvar exatamente a Topthor. Casualmente seu olhar deu com uma formação de nuvens, que não lhe era estranha. Um vento brando já havia espalhado um pouco o cogumelo que penetrava já bastante na atmosfera, embora fossem inconfundíveis a larga umbela e a coluna vertical. Mais para frente, no continente, devia ter havido, há poucos instantes, uma explosão atômica. A curiosidade de Bernda cresceu. Aumentou a velocidade e cinco minutos mais tarde estava chegando à região calcinada do planalto. Um enorme rombo afunilado no chão documentava a catástrofe. As bordas da imensa cavidade redonda tinham um brilho de vidro incandescente. Na floresta em volta, ainda se viam algumas chamas e os destroços atirados, mas eram sufocados depressa pela falta de oxigênio na densa ramagem rasteira. Bernda não pensou em descer. Por que iria se expor a perigo sem necessidade? Se Topthor estivesse por aqui, já estaria morto. Mas, quem teria provocado a explosão e por quê? Era impossível arranjar uma resposta na hora, mas o tempo se encarregaria de trazê-la. Bernda virou a nave e se dirigiu para o mar, que não estava longe. No momento, não estava mais pensando em mudas e sementes de árvores, mas quebrando a cabeça para descobrir o que a explosão atômica tencionava destruir. Achou a resposta mais depressa do que esperava: seus olhos descobriram alguma coisa se movendo no pedregoso planalto. Baixou bastante a nave e percebeu um corpo ereto, de um brilho esverdeado, com uma cauda coberta de escamas. Um tópsida! Como teria aquele sáurio chegado até aqui? Bernda desceu ainda mais e já estava para mandar a

tripulação abrir fogo contra o inimigo, quando um calafrio lhe percorreu a espinha. Viu outra figura, um superpesado. Saía de trás de um rochedo e ficou parado ao lado de um tópsida. Ambos olhavam para cima e acenavam. Como se estivessem esperando, apareceram imediatamente outros superpesados e outros tópsidas. Agiam como se não fossem adversários entre si. Bernda já não estava compreendendo mais nada. Mas foi suficientemente inteligente para suspender a ordem de fogo. Aterrissou a uns duzentos metros do estranho grupo e já estava pronto para pisar em terra firme. Não confiou muito naquele ambiente tão pacífico, enfiou duas pistolas na cintura, ordenou que dois guardas bem armados o seguissem. A cerca de vinte metros da escotilha aberta, os três saltadores pararam, esperando os desconhecidos. — O que você acha? — sussurrou Bernda. O oficial da direita sacudiu a cabeça: — Talvez foram derrubados e então suspenderam a luta — não sabia que realmente estava muito perto da verdade. — Por que razão têm que se destruir mutuamente, se uns podem ajudar os outros a se salvarem? Vamos ver em breve. — Você quer sempre ir contra o regulamento — protestou o outro guarda nervoso. Sua mão já estava segurando a pistola energética. — Os tópsidas foram declarados aliados de Rhodan e devem ser tratados como tais. — Esperemos um pouco — disse Bernda calmamente. Olhou para os dois superpesados que se aproximavam acompanhado de dois tópsidas. Observou que estavam desarmados. O restante dos superpesados e dos tópsidas ficou aguardando aos pés do rochedo. A delegação parou a dez metros de Bernda e seus dois guardas. O superpesado sorria com dificuldade. — Isto se chama socorro na hora exata — disse, estendendo a mão a dez metros de distância, como se quisesse cumprimentar Bernda. — Nós já acreditávamos ter de passar o resto da vida aqui. O senhor encontrou Topthor e Ber-Ka? — Ber-Ka, quem é ele? O superpesado apontou para seus companheiros: — O comandante dos tópsidas, cuja nave nós derrubamos. Infelizmente a Top II ficou danificada, não podendo mais levantar voo. Os sáurios e nós fizemos então um armistício, porque não tinha mais sentido nos matarmos mutuamente. — Cekztel certamente se alegrará muito com o procedimento arbitrário de Topthor — disse Bernda, feliz com a desgraça alheia. — Onde está então Topthor? — Saiu em companhia de Ber-Ka à procura de uma estação de rádio, em algum ponto do litoral, numa ilha artificial. — Numa ilha artificial? — disse o superpesado, sacudindo a cabeça. — Não é possível que o senhor entenda, sem um relatório mais pormenorizado. Dê-nos primeiro alguma coisa para comermos e bebermos e depois saberá de tudo. Mas Bernda estava curioso demais para aceitar imediatamente a proposta. — Responda-me primeiro outra pergunta: achamos, a algumas milhas daqui, uma cratera atômica. Ali houve uma grande explosão e o que foi propriamente destruído? 121


— Foi Rhodan — disse o superpesado. — Ao menos reconhecemos um de seus colaboradores mais íntimos, um ser esquisito de pelo marrom e de cauda curta, mas muito larga. Apareceu do nada, atirou uma pequena bomba atômica e desapareceu de novo. — E vocês se salvaram como? — Fomos avisados por ele, que nos deu dez minutos para nos protegermos. — E ninguém de vocês tentou impedir este ser estranho de destruir a belonave? Acho que já posso dizer que nossa força espacial não se compõe exclusivamente de heróis. E os tópsidas também não são mais tão corajosos — comentou Bernda. — Para impedir? Como assim? O animal, eu acho que não se pode classificá-lo como tal, tinha uma bomba atômica na mão — retrucou o oficial. — E aí, vocês saíram correndo feito cabritos desnorteados, para todos os lados? Cekztel é quem vai decidir isto. Eu tenho apenas a missão de encontrar Topthor, porque ele tem, aparentemente, uma mensagem muito importante para transmitir. — Uma mensagem muito importante? — repetiu o superpesado, tentando descobrir alguma coisa. — Pode ser mesmo, Topthor e Ber-Ka discutiam muita coisa em segredo e diziam que a guerra não tinha sentido. Pensavam que Rhodan nos tinha enganado que tínhamos caído numa esparrela sem percebermos. Mais eu não sei, não. — Quem é você? — Sou Gatzek, o segundo oficial de Topthor. Bernda concordou aos poucos. — Bem, então diga ao seu pessoal e também aos sáurios que mandarei cuidar de vocês todos. Mas depois, espero o relatório de vocês, dentro de meia hora. Há um grande erro em tudo isto. Quero descobri-lo. Viu com sentimento ambíguo que saltadores e tópsidas se confraternizavam tão simplesmente. Todos misturados, esparramados pelo chão, à espera de uma refeição.

*** A bomba de Árcon era o instrumento de maior poder destrutivo dos antigos arcônidas. Uma vez ativada, desencadeava um processo irreversível com o poder de destruir um planeta. Infelizmente não eram só os arcônidas que possuíam o segredo desta bomba. Os saltadores também dispunham desta terrível arma, embora a usassem muito raramente. Para destruir a “Terra”, Cekztel lançou mão da bomba de Árcon. A frota dos saltadores estava no espaço, a uma distância suficiente do terceiro planeta, para não sofrer os efeitos da explosão. Apesar disso, continuavam sendo disparados do mundo das matas virgens foguetes não tripulados que atingiam seus alvos automaticamente. O que salvava, às vezes, as naves dos saltadores era a fuga com uma rápida transição. O que Cekztel não sabia era o fato de que toda a defesa da “Terra” fazia-se apenas por um punhado de tópsidas. Quase tudo era controlado por robôs. É claro que um punhado de sáurios estava condenado à morte, embora Cekztel acreditasse que com a destruição do planeta, destruiria também uma raça toda, raça que se opusera ao

monopólio dos comerciantes das Galáxias. Deixou a cabina e foi ter com os especialistas em armas que estavam regulando o detonador da bomba que seria lançada pela nave de Cekztel. — Falta muito ainda para terminar o trabalho? Um dos oficiais se virou para trás e explicou: — O detonador terá o curso de uma hora, em seguida detonará. Acho que este tempo é suficiente para todos se abrigarem. — Uma hora...? — continuou Cekztel. — Em circunstâncias normais é mais do que suficiente. Poderemos percorrer bilhões de quilômetros. Mas, se alguma coisa não der certo... Era uma vaga possibilidade, mas tão vaga que não passava pela cabeça de ninguém. — O detonador será ativado pela própria queda da bomba — explicou o oficial. — Basta apenas jogá-la. O olhar de Cekztel pairava sobre a bomba. Não era muito grande, mas seu interior continha um mecanismo diabólico, desenvolvido por cientistas há muitos milênios e que até hoje ninguém conseguira aperfeiçoar. A única arma de destruição que podia concorrer, com ela era a bomba de gravitação: — Partiremos em dez minutos — disse Cekztel, se retirando. Sem dizer uma palavra, voltou à cabina e ligou o intercomunicador. Aguardou ainda alguns minutos para que cada um, a bordo do seu aparelho, pudesse vê-lo e ouvi-lo. — Chegou a hora decisiva. Correndo tudo dentro da cronometragem, em setenta minutos começará a destruição da Terra. Rhodan, pessoalmente nos escapou, mas seus aliados, os tópsidas, e seus irmãos de raça estarão em breve mortos no planeta. Vou lançar a bomba em dez minutos. O tempo para a explosão é de uma hora. Vamos observar os efeitos da explosão daqui mesmo. Quando este sistema tiver dois sóis, um gigantesco sol vermelho e um pequeno sol branco, nossa missão estará cumprida. O planeta Terra só existirá em nossa recordação. Fez uma curta pausa e continuou: — Durante meu regresso, manterei contato com vocês. A ordem de partida, logo após a explosão, será dada por mim. Até lá estaremos em estado de alerta. Se surgirem naves de Rhodan, é necessário atacá-las imediatamente e destruí-las. Desligou logo após, sem esperar resposta. Por mais de cinco minutos, ficou parado, imóvel, diante de seus controles, mas depois recuperou a vivacidade. Com rápidas manobras, acelerou o vôo e se separou do resto de sua frota. Como uma ave de rapina, sua nave se despencou de encontro ao pequeno planeta, que crescia rapidamente e finalmente encheu a tela toda. Poços e cavernas até então camuflados na superfície do planeta, abriram suas possantes bocas de fogo antiaéreo, atirando raios mortíferos contra o atrevido atacante. Cekztel acumulou toda a energia disponível no envoltório de proteção, aproximando-se cada vez mais da atmosfera, onde finalmente penetrou com um zunido infernal. A velocidade ainda era elevada demais. Se a bomba fosse lançada neste momento, poderia se transformar num satélite qualquer. Mas a velocidade foi diminuindo. A despeito de todos os perigos, Cekztel baixou mais ainda e atravessou uma grande cadeia de montanhas. O fogo de defesa embaixo diminuiu um pouco. Provavelmente os terranos achavam que nunca poderiam ser atacados pelo 122


lado das montanhas. Cekztel ligou o intercomunicador. — Sala de munições! Lançar a bomba em vinte segundos. Deve cair sobre o espigão da montanha que nos está à frente. Diminuiu ainda mais a velocidade e relacionou-a com a altura para atingir exatamente o alvo desejado, um planalto alcantilado. No exato momento em que foi sobrevoado o pequeno planalto íngreme, veio a confirmaç��o da sala de munições: — Bomba atirada. Está caindo sobre o planalto. Cekztel fez uma pequena curva e subiu. Viu a bomba cair no ponto desejado. Levantou um pouco de poeira, que em alguns segundos desapareceu. E ali ficou, numa leve curva do terreno, com seu brilho prateado. Agora era só esperar. Mais cinqüenta e nove minutos. Cekztel deu um último olhar para o pobre mundo condenado à morte e pegou nos controles com determinação. A nave se empinou quase verticalmente e, em velocidade crescente, perfurou o espaço de um azul-escuro, perseguida por um míssil teleguiado dos tópsidas, que surgira inesperadamente. Uma transição de cinco segundosluz colocou-a a salvo, pois estes foguetes não iam além de cem mil quilômetros. Naturalmente, não encontrando seu alvo, o míssil entrou em órbita e continuaria girando até que, talvez em milhares de anos, desse de encontro com um pedaço de matéria e o destruísse. Essa matéria poderia ser também um meteoro, ou mesmo uma espaçonave comercial. Isto ninguém poderia prever e Cekztel também não tinha nenhuma preocupação a respeito. Sua missão estava cumprida. Em uma hora estaria de volta para a nebulosa galáctica M-13.

6 Deringhouse estava olhando para a imagem de Rhodan na tela panorâmica, embora as duas naves estivessem a mais de um bilhão de quilômetros uma da outra. As ondas de rádio atravessavam esta distância toda em um décimo de segundo, pois iam através do acelerador da estação de supertransmissão. — Aconteceu, Deringhouse — falava Rhodan. — Cekztel já lançou a bomba. No tempo que nos resta de cinquenta minutos, vou tentar salvar os tópsidas que ainda estão no terceiro planeta. — Você ainda dispõe de tanto tempo? — indagou Deringhouse. — Ouvi as palavras do patriarca à sua frota — tranquilizou-o Rhodan. — Não se preocupe, vou dar o fora a tempo, sem perigo para mim e para a Titan. Realmente é pena estragar assim um mundo tão romântico, mas sem este inconveniente, não atingiremos nosso objetivo. Eu já estava preocupado, pensando que os saltadores desconfiassem, pois todos imaginam um mundo civilizado de maneira bem diferente. Por sorte, os tópsidas nos ajudaram, transformando um planeta desabitado numa verdadeira fortaleza. Isto deu aos saltadores a certeza de estarem realmente diante da Terra. — Devo permanecer nas proximidades de Aqua? Rhodan refletiu um pouco e depois concordou. — Sim, tente recolher Gucky. Já deve ter terminado sua missão. Para agir com mais segurança, eu lhe sugiro aterrissar em Aqua e procurar por Gucky. Você não está mais com nenhum telepata a bordo e não poderá assim entrar em contato com Gucky. — Gucky levou consigo um pequeno aparelho transmissor. Pode enviar um sinal para orientação, e o acharemos logo. É verdade que até agora não deu sinal nenhum. Rhodan terminou a conversa: — Voe para Aqua e espere lá até que o sistema ganhe outro sol. Procure Gucky e fique então na escuta permanente, que eu me comunicarei. Deringhouse desligou e a imagem de Rhodan desapareceu da tela, que apagou totalmente. Capitão La manche, sentado diante dos controles de pilotagem, perguntou: — Direção Aqua, major? — Sim, mas primeiro vamos sobrevoar o continente, La manche, se não acharmos nada, vamos dar uma olhada no litoral. Em algum lugar, temos de encontrar uma pista do paradeiro de Gucky e de Topthor. A Centauro se aproximou do planeta das águas e entrou logo na atmosfera. A pequena altura dava voltas, sempre mais amplas sobre o continente, cuja parte central estava mais ou menos no coração do planeta. Cada vez mais, a Centauro se aproximava do litoral. Enquanto La manche pilotava, Deringhouse coordenava o serviço de busca por instrumentos ópticos, apoiado naturalmente pela sala de rádio, cujos receptores estavam regulados para a frequência especial de Gucky. Mas o ratocastor ainda não havia achado por bem comunicar o lugar onde estava. Faltava-lhe possibilidade para isto? Deringhouse se assustou com o pensamento. Até então não lhe havia ainda passado pela cabeça que poderia ter 123


acontecido alguma coisa estranha a Gucky. Um ente metafísico, com três poderes parapsicológicos, era propriamente invulnerável e parecia excluído que não tivesse apanhado Topthor. Por que, então, não se comunicava, para que a Centauro o pegasse? Ou estaria ele, de novo, com os homens-peixes de Aqua, fazendo uma excursão submarina, como já havia feito uma vez? Ao ver a cratera, Deringhouse começou a ficar zangado. Mas logo depois, a ira deu lugar à admiração. Aquela cratera só podia ser da pequena bomba atômica. Portanto, Gucky havia encontrado a nave de Topthor e a havia destruído. Mas onde estariam os dois, o superpesado e Gucky? Os pensamentos de Deringhouse davam voltas e não chegavam a nenhuma conclusão. A cratera afunilada ficara para trás. Atravessaram um planalto e depois uma extensa floresta que podia chegar até ao longínquo litoral. Mas percebeu depois que o litoral não estava tão longe assim. A longa faixa marítima, à esquerda da direção do voo, resplandecia num azul-claro. Lá embaixo tudo era paz e sossego. Deringhouse se perguntava se haveria ainda sobreviventes da explosão. Não era do feitio de Gucky matar adversários indefesos, mesmo que tivessem as piores intenções. La manche havia ligado o envoltório de proteção frontal, agindo de acordo com o provérbio “o seguro morreu de velho”. Os acontecimentos vieram lhe dar razão. É verdade que Deringhouse percebeu a nave no mesmo instante, mas antes que tivesse tempo de avisar ao piloto, este já tinha ligado por conta própria o envoltório. Só depois disso é que os dois homens foram olhar mais de perto o seu achado. A fuselagem alongada da nave dos saltadores estava numa extremidade do planalto. Vários pontos escuros se moviam na parte descoberta e pararam, de repente, para depois saírem correndo em todas as direções. Abrigaram-se parte na própria nave, parte na floresta vizinha. — Desça mais, La manche — ordenou Deringhouse. — Temos que dar uma olhada nestes rapazes. Além de Topthor, ainda há outros saltadores por aqui. — Talvez sejam tópsidas — acrescentou o piloto, enquanto fazia a Centauro descer. — Eu os estou reconhecendo nitidamente na ampliação da tela panorâmica. — Além disso, em pacífica convivência — disse Deringhouse, remoendo seus pensamentos que poderiam levar a uma conclusão falsa de graves consequências. — Desde quando deixaram de ser inimigos? La manche, sem o saber, tinha um pouco de culpa. — Talvez o próprio Topthor lhes confessasse o erro em que tinham caído. Acho que é uma resposta razoável para sua pergunta, senhor. Deringhouse concordou, com sinais de preocupação no rosto. — Quem sabe é realmente a resposta certa, capitão. Mas, vamos, abaixe mais, conservando, porém o envoltório ligado. Vamos olhar de perto os rapazes e lhes fazer algumas perguntas. — Perguntas? — disse La manche admirado, mas não disse mais nada. De baixo, veio um raio energético de um verde gritante de encontro à Centauro. Atingiu o envoltório invisível e foi absorvido. Mas o adversário continuou atirando sempre no

mesmo local para atingir seu objetivo: enfraquecer e romper a abóbada de proteção magnética. Deringhouse chamou a sala de munição: — Sob nós há uma nave dos saltadores. Estamos sendo atacados, estou direto em seu alvo. Lance uma bomba atômica. Era um ato de defesa própria, embora pudesse ser feito com meios mais brandos. Mas Deringhouse estava realmente convencido de que aqueles saltadores e tópsidas estavam a par do grande segredo. Foi à conclusão falsa de tremenda consequência. Tremenda consequência, pelo menos para os pobres sobreviventes tópsidas e saltadores, sobre os quais a morte se abateu com a velocidade do raio. *** Bernda e Gatzek escaparam. Os dois saltadores se encontravam a caminho do litoral para procurar Topthor. Tinham recebido informações dos tópsidas de que o superpesado devia ter atingido a ilha artificial em companhia de Ber-Ka. Um princípio de mensagem de rádio interrompido entre Topthor e Cekztel comprovava a informação. Naturalmente, Bernda poderia chegar até perto da ilha com sua nave, mas preferiu o trator de esteira para ter oportunidade de fazer uma bela excursão particular. Estava num mundo diferente e não queria perder a oportunidade para futuros negócios. Os grossos troncos de árvores copadas lhe interessavam muito. Suas sementes e mudas lhe trariam grande fortuna. Gatzek não suspeitava das intenções comerciais do magro comerciante, cuja estatura normal lhe lembrava dos odiados terranos. Chegaram até o litoral e seguiram o rastro do carro dos tópsidas, no qual Topthor e Ber-Ka haviam feito no dia anterior a penosa viagem. Quando surgiu a seus olhos a construção baixa da ilha artificial, parecia-lhes haver conseguido tudo. Respirando mais sossegado, Gatzek reconheceu o carro parado na praia. Estava vazio. Bernda parou. Com as pernas um pouco doloridas, pulou para a areia. O superpesado vinha atrás, caminhando com visível dificuldade. Seus pés penetravam muito na areia. — Como chegaram à ilha? — perguntou olhando, com muito medo, para uma fila de barcos pequenos num diminuto ancoradouro. — Certamente não foi com uma casca de noz assim, não é? — Elas aguentam mais do que se supõe — consolou Bernda. — Experimente para ver. Gatzek se encaminhou para o primeiro barco e, experimentando, botou o pé na popa estreita. Afundou um pouco, mas as paredes laterais da embarcação não deixaram que a água penetrasse. — Acho que podemos ir, Bernda. Queira Deus que ninguém nos roube o carro neste meio tempo. — Bobagem, o carro de Topthor ainda está aqui e ninguém mexeu nele. E aqui não há ninguém para fazer isso. Antes que Gatzek pudesse responder, aconteceu algo que o fez pular de volta na areia. Bem longe, reluziu um forte clarão por sobre a floresta. Pouco tempo depois, uma forte compressão do ar varreu as grimpas da imensa floresta, passando para a vastidão do 124


mar, onde as ondas se encapelaram. Graças à proteção da floresta é que os dois saltadores não foram atirados ao solo. — Que foi isto? — perguntou Bernda, ficando totalmente pálido. — Não é da direção de onde viemos? A nave...? Gatzek tremeu dos pés à cabeça. — A nave... sim, poderia ser. Que aconteceu? Tiveram a resposta dez segundos após, ao surgir, sobre a copa da floresta, uma enorme esfera que se aproximava deles ameaçadoramente. — Uma das naves de Rhodan. Bernda deu um grito alucinante e saiu correndo, sem pensar no seu companheiro, cuidando apenas de se pôr a salvo. Antes que a grande nave esférica atingisse a praia, o franzino comerciante já estava se embrenhando pela mata. Continuou correndo, até que a respiração o fez parar. Cansado e sem ar, rolou pelo chão. Acreditava que no emaranhado da floresta ninguém o acharia. Em volta dele, os grossos troncos das árvores de copas fechadas. Do céu, não se via nada. Minutos a fio, ficou estirado no chão úmido da floresta, tentando ouvir algum ruído de eventuais perseguidores. Mas tudo era silêncio. Talvez tivessem perdido suas pegadas. As copas das árvores eram demasiadamente espessas para alguém de cima poder vê-lo. Será que Gatzek estava também em segurança? Bernda olhou cautelosamente em volta e parecia mais calmo. Deu com os olhos num caroço alongado, vermelhoescuro, parecia realmente um caroço. Como sentisse muita fome, levantou-se e o apanhou. A casca era muito dura. Com um pedaço de pedra, começou a martelá-lo de encontro às raízes de uma árvore. Quase que deu um grito de alegria, pois o “caroço” continha muitas sementes, que certamente seriam outras tantas árvores mais tarde. Ao menos umas duzentas sementes havia no seu interior. E olhando mais em volta, descobriu grande quantidade de “caroços” deste tipo. Muito contente, começou a apanhálos, não tendo, porém, como levá-los. Pobre Bernda. Não podia compreender como ninguém deste mundo tinha interesse por aquelas sementes, nem mesmo os homens-peixes. Mas Bernda não veria nunca mais outras criaturas em sua vida, se alguém não o viesse apanhar no quarto planeta. Esta possibilidade era muito remota.

num superpesado. O africano de compleição robusta, um dos mais competentes teleportadores dos mutantes, olhou para a tela de controle externo e concordou. — Segure bem firme, major. Deringhouse se agarrou bem em Ras e, no mesmo segundo, estava a dez metros de Gatzek, no macio chão de areia. Arrancou a pistola da cintura e a apontou contra o superpesado, cujos olhos se arregalaram de medo. — Não se mova gorducho. Foi com dificuldade que Gatzek conseguiu manter sobre as pernas seu respeitável peso de seiscentos e tantos quilos. Tinha ouvido falar das misteriosas forças que estavam a serviço de Rhodan, mas isto estava acima de sua concepção. — Estou desarmado — lamentou-o. — É a sua sorte, meu amigo — consolou-o Deringhouse, colocando a arma no cinto. — Onde está Topthor? Gatzek apontou para a ilha. — Talvez lá, eu também o estou procurando. — Por quê? — foi a pergunta direta de Deringhouse. — Vocês se aliaram com os tópsidas? — Por que não? — admirou-se Gatzek não sem razão. — Nós fomos derrubados como eles. Por que deveríamos nos matar mutuamente? Não havia mais motivo para isto. Deringhouse compreendeu. Então falou: — Se você se mantiver pacificamente, nada lhe acontecerá. Vou dar uma chegada ali na ilha, com meu amigo, à procura de Topthor. Não tente nenhuma bobagem. — Posso voltar para minha nave que espera por mim ali nas montanhas? — Uma nave dos saltadores? Foi destruída, pois fomos duramente atacados. Suponho que sua volta é inútil. Deringhouse se agarrou em Ras, apontando para a ilha. O africano deu um salto. Materializaram-se na plataforma e logo acharam o corredor que levava para a cabina de rádio. Diante do gigantesco painel de controle estava o cadáver de um tópsida. Deringhouse estremeceu ao ver Topthor.

*** Ainda havia quinze minutos para o momento fatídico. Deringhouse aterrissou na praia, bem perto das duas viaturas e do pobre Gatzek, quase paralisado de terror. Os suportes telescópicos da grande nave afundaram na areia macia, fazendo brotar logo água salgada. — La manche controle as armas de defesa e atire, se for necessário. Eu vou sair. — Leve dois companheiros — gritou o francês, colocando a mão no botão de controle das armas. — O gorducho não parece homem de muita iniciativa, mas as aparências enganam. — Levo Ras Tschubai comigo, pois assim poderei desaparecer a qualquer momento. Para que temos teleportador? Fez um sinal para La manche e correu para o departamento dos mutantes. — Ras, vamos dar um pulo na praia e pregar um susto

A bomba arcônida explodiu no minuto exato. Rhodan estava bem longe no espaço e viu o clarão ofuscante que haveria de provocar reações em cadeia. Ainda levaria horas, até que o planeta se transformasse num sol. A frota dos saltadores estava a uma hora-luz da explosão. Major McClears os estava observando do cruzador pesado Terra, enviando informações e imagem constantemente para a Titan, a fim de deixar Rhodan a par de tudo. As primeiras mensagens de Cekztel davam a entender que as coordenadas para o regresso dos saltadores para M13 já estavam calculadas. A missão estava cumprida e a “Terra” destruída. Mas todo mundo sabia que Rhodan ainda estava vivo. E era a única coisa que atrapalhava Rhodan. Depois de haver feito e discutido vários planos com Bell, entre os quais havia um já mais ou menos formalizado, mandou chamar para a sala de comando a

7

125


John Marshall. — A Titan deve ser, aos olhos dos saltadores, destruída — começou Rhodan, vendo, com um sorriso nos lábios, o susto estampado no semblante do telepata. — Exatamente como foi com a Terra. Somente depois disso é que estaremos convencidos de que nossa grande jogada deu certo cem por cento. Também o Robô de Árcon deve ficar convencido de que fomos destruídos. Arquitetamos um truque de grande efeito, Marshall, para cuja execução, no entanto, necessitamos de um teleportador: Ras Tschubai ou Gucky. — Ambos estão na Centauro, senhor. Deve-se então avisar a Deringhouse de que... — Deringhouse estará aqui com seu cruzador em dez minutos. A frota dos saltadores partirá dentro de trinta minutos. Neste meio tempo, o truque tem que ser realizado. — O que vai ser realizado? Rhodan ainda continuava sorrindo, ao dizer: — A desintegração total da Titan em meio das naves reunidas dos saltadores. Marshall não empalideceu, porque havia lido o pensamento de Rhodan. Então, ele mesmo começou a rir. *** Com semblante carregado, Deringhouse retornou à Centauro. Quando se materializou com Ras Tschubai na praia, o superpesado Gatzek havia sumido. Também ele tinha preferido buscar abrigo na floresta próxima. De qualquer maneira seria melhor do que prisão pensaria ele. Deringhouse não se deu ao trabalho de procurar os dois fugitivos. Não tinha tempo para isto. Além disso, Aqua lhes oferecia o necessário para sobreviver. Eles é que cuidassem de suas vidas. Ele, Deringhouse, tinha outras preocupações. “Onde estará Gucky?”, pensou, indagando-se. Topthor já morrera. Estava sentado na poltrona da cabina de rádio dos tópsidas, diante do painel de controle, de uma maneira tão esquisita, com a cabeça caída na mesa. Ou o que sobrou de sua cabeça. Pois Topthor cometera suicídio, com a pistola de raios energéticos. A arma, com o cano apontado para a cabeça, ainda estava presa na mão rígida. Topthor estava morto e com ele havia findado o mistério que ameaçava a vida no planeta Terra. Deringhouse pegou o africano pela mão. — Para a nave — disse ele. — Onde andará Gucky? Materializaram-se na cabina. La manche continuava sentado, olhando para os controles, mas não havia nada mais para observar. Em seu colo estava, todo feliz, Gucky, enquanto La manche lhe coçava a nuca. Quando Deringhouse soltou uma praga meio contida, o rato-castor sacudiu a cabeça com ar de desaprovação, dizendo: — Chefe Deringhouse, você, durante o último hipersalto pelo espaço, deve ter perdido um pouco de sua boa educação. — Desde quando está aqui? — O tempo suficiente para ficar com os cabelos brancos de tanto esperar por você — disse Gucky. — Você encontrou Topthor? — Por que ele se matou, Gucky? Sabe alguma coisa a respeito? — Estava cansado da vida, major. Queria matar primeiro a mim e depois a si mesmo. Apenas trocou a ordem.

— Foi assim! — comentou Deringhouse admirado. O operador em serviço entrou e disse: — Rádio de Rhodan, major. O senhor deve procurar as coordenadas apresentadas. Os dados são... — Está bem, vou lá e resolvo isto já. Antes de sair, Deringhouse olhou para Gucky e lhe disse: — Esse negócio de trocar a ordem, você vai me explicar na presença de Rhodan. Gucky não respondeu nada. *** — É relativamente simples, mas tem de ser feito no segundo exato — concluiu Rhodan, olhando com interrogação para Gucky. — Se você quiser, poderá ser feito também por Ras. O rato-castor sacudiu a cabeça tão violentamente que as orelhas esvoaçaram. — Ras deve ser poupado, chefe. Além de tudo, está na Centauro com Deringhouse, enquanto eu estou aqui. Rhodan concordou. — Quanto à sua explicação barata sobre a morte de Topthor, é melhor a gente esquecer isto. Mas cá entre nós, como foi mesmo? — olhou para o relógio. — Ainda temos dois minutos, conte depressa. Gucky andava nervoso de um canto para o outro, olhando muito para Bell, com olhos suplicantes. — Realmente, eu o surpreendi e o chamei, ele se virou, já com a arma na mão para me matar. Que devia eu fazer? Que seria de você, chefe, se eu morresse? E o coitado do Bell? Não, não consegui deixar que me matasse. — E depois? — perguntou Rhodan impaciente, olhando para o relógio. — Nada! Topthor ergueu a arma para o ouvido e disparou. — De qualquer maneira, você é telecineta e pode mover a matéria sem tocar nela. É isso que deverá fazer com a bomba atômica. Gucky olhou para ele com certa tristeza nos olhos. — Está certo, chefe. Rhodan olhou pela última vez para o relógio: — Um depósito cheio de cenoura, eu lhe prometi, e você receberá, Gucky. Mas, vamos embora, não há mais tempo a perder. Os saltadores vão desaparecer em cinco minutos, Gucky. Vamos para a sala de munições, regular o detonador exatamente para cinco segundos e esperar até que chegue meu comando. Tudo claro? — Há muito tempo — disse Gucky e desapareceu. Bell olhou espantado para o lugar vazio. O hipercomunicador estava ligado. A primeira mensagem era cifrada e se destinava a McClears e a Deringhouse: — Vocês liguem o compensador e executem dez saltos antes de voltarem para Terrânia. Lá esperarão por mim. Tudo em ordem? — Entendido — foi à resposta dupla. Vinte segundos depois, não havia mais Centauro nem Terra no sistema do sol vermelho de Beta. A Titan ficou sozinha. Rhodan calculara bem as coordenadas, mas antes de saltar com a supernave, deixou aquecer o hipertransmissor. A frequência do cérebro eletrônico foi regulada. Agora, com a simples pressão de um botão, Rhodan podia entrar em contato com o regente do Império Arcônida, a mais de 126


30 mil anos-luz de distância. Na tela já se podia ver Gucky. Em seus braços, se via um objeto alongado: a bomba. — Pronto Gucky? — Pronto. — Atenção! Salto! A Titan se desmaterializou e surgiu, no mesmo segundo, a menos de dois quilômetros da nave de Cekztel, no espaço normal. Na redondeza estavam mais de duzentas unidades que se preparavam para o grande salto de retorno. Somente devido a esta circunstância foi que levaram tanto tempo para abrir fogo contra a grande nave esférica. Antes, porém, aconteceu muita coisa ao mesmo tempo. Gucky saltou com a bomba atômica através do hiperespaço e se materializou fora da Titan. Usava um traje espacial e não podia ser reconhecido na carcaça de brilho prateado da nave. Comprimiu o botão de ignição. Assim que largasse o dedo, haveria ainda exatamente cinco segundos para a detonação. Seus fluxos telepáticos auscultavam o cérebro de Rhodan, aguardando seu comando. Rhodan comprimiu a tecla do transmissor. A ligação para Árcon estava feita. Não era apenas o cérebro robotizado de Árcon que ia ouvir a transmissão, mas todo o mundo, pois Rhodan, de propósito, não usou nenhum código. Ao contrário da Centauro e da Terra, o compensador estrutural estava desligado. Portanto todo rastreador de estrutura poderia localizar o salto, em toda a Via Láctea. Em torno da Titan, estava ligado o envoltório magnético de proteção, principalmente para defender Gucky dos disparos dos raios energéticos. O primeiro tiro contra a supernave partiu da nave de Cekztel. Foi o sinal para todas as outras naves dos saltadores. E para Rhodan também. — Aqui fala Perry Rhodan do sistema Terra — gritou ele no microfone do hipertransmissor, com voz de desespero. — Os saltadores acabam de destruir o planeta Terra. Utilizou-se então da pequena pausa para se concentrar e poder pensar: “Agora, Gucky”. Depois continuou e ainda tinha cinco segundos para falar: — Eu estou com defeito no gerador do campo estrutural... quero fugir e saltar para... Desligou a alavanca do hipertransmissor e com a outra mão acionou o controle de ligação da instalação de hipersalto. A Titan se desmaterializou.

Atrás ficou a bomba, mas a diferença de tempo para sua detonação foi tão diminuta, que Cekztel foi vítima de um erro compreensível. Com seus próprios olhos, julgou ter visto como a Titan, durante a desmaterialização, foi dissolvida por uma terrível explosão. Simultaneamente, penetrou em seu ouvido o grito de socorro, enviado por Rhodan ao cérebro robotizado de Árcon, no entanto interrompido pela tremenda explosão. O rastreador estrutural da nave de Cekztel, e com ele milhares de outros rastreadores em todas as regiões da Via Láctea, haviam registrado o início do hipersalto da Titan. Ninguém, porém, registrara o seu aparecimento no espaço normal. Rhodan tinha sumido no hiperespaço. Cekztel estava triunfante. Sua mensagem de rádio não cifrada percorria toda a Galáxia e era recebida em toda parte, a uma velocidade milhões de vezes superior à da luz: — Afastamos o maior perigo para o Universo! Rhodan está morto. O planeta Terra se transformou num sol. O império não será mais ameaçado. Viva Topthor, a quem devemos tudo isto. Mas o pobre Topthor não podia mais ouvir este elogio. Quando Rhodan, sob a proteção dos compensadores que absorviam todos os abalos, penetrou no espaço normal e ouviu o elogio fúnebre de Cekztel, contraiu o rosto num sorriso irônico. As coordenadas estavam de novo em ordem. O próximo salto, com os compensadores ligados, traria a Titan, intacta, para a Terra. Para uma Terra que por anos ou decênios mergulharia no mar do esquecimento. Pelo menos pelo tempo que Rhodan julgasse conveniente. Com toda certeza, tanto tempo quanto fosse necessário para que o planeta pudesse se preparar para resistir a qualquer ataque. Gucky estava feliz e puxava a mão de Bell para lhe coçar as costas. — Sabe de uma coisa, Gorducho? — observou ele. — A vida é tão bela, mas nunca havia pensado que “estar morto” é ainda mais belo. — É isto mesmo — disse Bell amavelmente. Rhodan olhou pensativo para os dois amigos e pôs a mão no controle central da instalação de hipersalto. Empurrou-o lentamente. A supernave deslizou novamente para outro Universo e não deixou o menor rastro atrás de si, no espaço calculável. Ao se rematerializar no espaço normal, tinham diante de si, nas telas da Titan, um sol claro e maravilhoso. Bem perto, cintilava um corpo celeste pequeno, meio azulado. Era o planeta mais lindo do Universo: a Terra.

Graças à sorte e a Gucky, o maravilhoso plano de Perry Rhodan — o qual a Terra teria que dar a todos os seres inteligentes das Galáxias a impressão de estar destruída — foi bem sucedido. A Humanidade ganhou assim tempo para um desenvolvimento tranqüilo e para a formação do poderoso ―Império Solar‖. Os dramáticos acontecimentos, que se desenrolam no ano 2040, lhe permitirão viver uma época nova da história da Humanidade. Em Atlan, o Solitário do Tempo, título do próximo volume da série, um encontro de gigantes acontece e um novo ciclo da série Perry Rhodan se inicia. 127


Nº 50

De

K. H. Scheer Tradução Richard Paul Neto Digitalização Denise Bartolo Nova revisão e formato W.Q. Moraes

Aqui começa uma nova série de aventuras de Perry Rhodan. São passados 60 anos após a guerra atômica que não houve e 56 anos após a falsa destruição da Terra. Agora, o primeiro obstáculo que Rhodan tem pela frente é superar Atlan, o arcônida que, além de possuir o dom do sexto sentido, carrega o ativador celular...

128


Sentia que a dor de cabeça aumentava. Billy Plichter não tinha dó, não parava de insistir. E eu precisava de descanso INÍCIO DO IMPÉRIO SOLAR: ANO 2040 e merecia o descanso. Alguém começou a falar e demorei um pouco a compreender suas palavras. Vinham de minha própria boca. Queria rir, mas a dor não deixava. Ao meu lado houve um ruído. O movimento que fizeram com minha coxa foi rápido. Um calor agradável invadiu meu corpo e fiquei admirado de que o médico me tivesse dado a injeção na presença de outras pessoas. Fiquei com vergonha. Ali na sala estava Willy Fergusen. Como me poderiam dar uma injeção na presença deles? Certamente, viram minha coxa! Diante dos meus olhos, pairava uma neblina afogueada e as dores no meu cérebro se transformaram em pontadas dolorosas. Não estava quase aguentando. Quando a minha visão ficou mais clara, percebi que Willy Fergusen não poderia ter estado na sala. Hiob estava rindo novamente, mas também ele não estava na sala. Na minha frente cintilava uma grande tela, bem clara. Estava olhando admirado para o belo quadro colorido. Meus colaboradores conversavam sobre coisas que me eram muito familiares, estava no meio deles, e, O sussurro tornou-se uma autêntica gargalhada. Alguém paradoxalmente, encontrava-me aqui! dizia que uma besteira tão grande jamais havia sido ouvida. A tela ficou mais nítida de repente. Apareceu nela um Entrando na conversa uma voz frágil de mulher, a relógio muito moderno para medição dos anos e alguém gargalhada terminou de repente. anunciou muito solenemente: — Com licença? — perguntou um homem assustado. — — O tempo acabou meu amo. Você está afirmando que isto é apenas Quando foi que alguém me chamou uma sombra da verdade? Personagens principais deste pela última vez de “meu amo”? Com Havia irritação na voz feminina. episódio: muito esforço consegui virar a Depois a gargalhada estrondosa cabeça. continuou. Somente podia ser Hiob. Perry Rhodan — Primeiro — Como, por favor? — Ninguém ria tão alto e por qualquer Administrador do Império Solar. perguntei com muita dificuldade. ninharia, como ele. — O tempo acabou meu amo. — Conversa fiada — disse outra Atlan — Um arcônida que já se Era a mesma voz que penetrava voz, mais objetiva. encontrava na Terra quando da no meu ouvido, desta vez, porém, — Alucinação, ou seja, lá o que for. quase deflagração da guerra com menos solenidade, mas com Devem ter sido obrigados a uma atômica. mais vibração metálica. aterrissagem forçada. Vocês sabem O rosto plástico de Rico se como estas coisas acontecem por lá. Tombe Gmuna — Jovem tenente contraiu em rugas. Estava sorrindo. Ouviu-se novamente o gargalhar de de Terrânia. Levantei a cabeça em sua direção, Hiob. Se ao menos conseguisse até encontrar seus olhos parados. dominar um pouco sua risada General Peter Kosnow — Ministro — Alô, é Rico. estrondosa e sem motivo! Nunca o da Defesa do Império Solar. — Sim, é Rico, meu amo. O pude suportar, muito menos agora. Era tempo acabou, estava obrigado a um tipo arredondado, de faces acordá-lo. Exatamente sessenta e avermelhadas e olhos frios. Se, no meu nove anos, meu amo. setor, acontecia alguma coisa errada, Não estava gostando desta expressão cerimoniosa. Não Hiob Malvers estava certamente por trás dos bastidores. se devia permitir que robôs tão aperfeiçoados assim, — Silêncio — disse eu furioso. — Diabos de gente repetissem a toda hora uma expressão tão servil. Mas o que calem a boca! Primeiro, é completamente indiferente para havia com os tais sessenta e nove anos? nós se a aterrissagem foi voluntária ou não. O pensamento sobre isso me deixou aturdido. Tudo se — Está certo — resmungou Billy Plichter. — Bom, encontrava como sempre foi. A consciência ia chegando, então comecemos tudo de novo. Como aconteceu, então, porém com muita dor. Tentei me levantar. Rico interveio Olavo? Como é que pode ter dado tudo errado? Que é que imediatamente. Senti a rigidez do aço sob o revestimento há, então, Olavo? Por que o negócio não está certo, Olavo... leve de plástico de sua mão. Consegui sufocar meus Olavo...! gemidos, mas minhas articulações pareciam enferrujadas. O barulho aumentou. Tinha a impressão de que Acabei dando com os olhos novamente no relógio de campainhas minúsculas começaram a tocar ao mesmo medição dos anos, na tela. tempo dentro de minha cabeça. Escutava a minha resposta, — Somente sessenta e nove anos? Tinha regulado pra apesar de não estar falando. setenta. Que houve então? Olavo era eu. Sem dúvida nenhuma era meu nome que Rico era tão cabeçudo, como costumam ser todas as estavam gritando, constantemente, cada vez mais alto. 129


máquinas. — Somente sessenta e nove anos, meu amo — disse imóvel. — Recebi o telecomando exatamente há trinta e seis horas, três minutos e dezoito segundos. Quer dizer então que desta vez levaram 36 horas para me acordar do biossono, uma espécie de hibernação letárgica. “Muito tempo, muito tempo”, dizia meu cérebro. Perguntei, então, a mim mesmo, por que um pequeno erro de regulagem causou uma diferença de tempo de um ano? Certamente foi minha culpa. O negócio foi tão rápido naquela época, quando começaram, lá em cima, com a loucura da bomba atômica. Surgiu uma unidade especial de som, que me deixou muito espantado. O grande relógio desapareceu da tela. O videotape havia realmente desempenhado sua função, pois pessoas do meu tipo tinham necessidade de impressões óticas e acústicas do tempo imediatamente anterior ao começo do processo do grande sono biomédico. Agora estava me lembrando de que eu mesmo havia colocado no aparelho de som e imagem a fita muito bem preparada do videotape. O insistente gargalhar de Hiob me ajudou muito. Talvez sem ele, não teria recuperado minha alegria. Apareceu na minha frente a cabeça plástica e redonda de Rico. Rico pertencia aos poucos robôs fabricados especialmente para o controle e a manutenção das máquinas da cúpula. Sua capacidade de falar era um jogo positronicologístico com um setor ultrarrápido de aproveitamento e conversão de dados matemáticos em sons inteligíveis. Era um meio para provocar os sentidos que paulatinamente iam recuperando a vivacidade natural. Mas agora sentia necessidade de falar, de me comunicar, mesmo que fosse com uma máquina positrônica. Além do mais, o vocabulário de Rico era mais ou menos reduzido. À direita da cama, estava à ducha de ativação tele controlada pelo computador central. O local parecia uma sala de operação moderna, com a única diferença de que ali não existiam médicos. Os estimulantes bioquímicos que atuavam sobre minhas células, ou eram injetados ou transmitidos na forma das mais diversas radiações. Na minha cabeça, ainda estava a touca cintilante do gerador de vibrações que me havia transmitido aos sentidos as primeiras impressões. Fiquei uma hora parado, pensando nos motivos que me levaram a este sono profundo. Exatamente há 69 anos, princípios de julho de 1971, os responsáveis pelos três blocos das grandes potências perderam a cabeça. Quando começaram a serem lançados da Ásia os primeiros mísseis atômicos, ainda consegui fugir para minha cúpula submarina. Escapei da estúpida e inútil destruição. O que aconteceu, porém, com todos os homens dos continentes da Terra? Só o fato de querer recordar o terrível destino de bilhões de homens, fria e objetivamente, era uma coisa insuportável. Neste momento, eu apenas sabia que era o único homem na Terra. — Homem! — disse eu rindo. Rico se aproximou. Quando a aparelhagem mecânica da visão percebia alguma coisa, sua reação era instantânea. Continuei sentado, sentindo as mãos macias de plástico dos muitos braços da máquina de massagem. A fisioterapia era indispensável para que eu começasse a obter o controle sobre o corpo. Ainda levaria umas horas para poder me

levantar. Uma corrente de ar comprimido jorrava dos poros da espuma de borracha. O colchão no qual, pela posição de meu corpo durante 69 anos, haviam surgido pequenas deformações, voltou a ficar normal. Nu, ainda completamente enfraquecido e abalado por sentimentos confusos, fui levado por Rico para fora do quarto. Na antecâmara, um ambiente alegre e aconchegante, estava funcionando o órgão de cores. Desenhos suaves e tranqüilizantes inundavam as paredes, enquanto que sons maviosos de velhas composições penetravam em meus ouvidos. Os poucos metros foram terrivelmente cansativos. Gemendo, deixei-me cair nas almofadas macias da poltrona vibratória, que continuava de uma maneira muito mais suave, a massagem pesada feita pelas mãos do robô. Rico ministrou-me os primeiros alimentos líquidos. Meu estômago ainda não aceitava substâncias sólidas. De qualquer maneira, ainda eram necessários três ou quatro dias para me sentir mais ou menos bem. Rico puxou mais para perto o grande espelho colorido e ajeitou a cama. Eu não havia emagrecido sinal de que meu corpo reagira muito bem à hibernação. Fiz um sinal com a mão e vi como ele empurrou o espelho para uma cavidade na parede. Aí, o robô ficou ao meu lado. O rosto de Rico seria muito mais humano se não fosse aquela palidez que parecia cera. — Amigo, não sei o que poderia dar em troca, se, em lugar de você, estivesse aqui um ser humano de verdade. Como vão as coisas lá em cima? — Muita água, meu amo — respondeu meu criado particular diplomaticamente. Fiquei observando-o mais a fundo. Sua resposta teria sido um truque psicológico para dar vazão a sentimentos de ira reprimidos ou ele não sabia mesmo outra coisa? — Naturalmente muita água. Estamos no fundo do Oceano Atlântico, ao sul da ilha açoreana São Miguel. Aqui começam as célebres fossas oceânicas de uma profundidade enorme. Portanto, acima de nós, há somente água. No entanto, eu quero saber como está o continente europeu. Como é que terminou a guerra atômica na França e na Espanha. — Não sei meu amo. O sangue me subiu então à cabeça. O sorriso plástico, submisso, de Rico me pareceu de repente como uma máscara de escárnio. — Como assim? — exclamei em tom interrogativo. Minhas cordas vocais começaram a funcionar corretamente. — Por que razão não se realizou a observação da superfície que eu determinei? — Por culpa sua, meu amo. Todas as três estações de televisão foram destruídas pelos aviões. Fomos informados ainda de que o lançamento dos satélites seria inútil e sem sentido, pois a atmosfera do planeta estava coalhada de máquinas de guerra. Recebemos realmente suas ordens. Decepção, medo e cólera contra minha própria imprevidência se abateram contra mim. Naturalmente os robôs não poderiam ter agido de outra forma, depois que eu, apressado e estúpido, havia dado as instruções para observação dos continentes mais importantes. Após o plano a minha intenção era despertar, ficar a par de tudo o que acontecera durante a guerra. Agora estava completamente aéreo, separado de tudo. Não era apenas o ente mais solitário da Terra, mas também 130


o mais ignorante. Acima da abóbada de aço da minha cúpula pressurizada nas profundezas do Atlântico, pesava uma tremenda muralha de água. É claro que esta muralha me havia preservado das radiações mortíferas dos inúmeros reatores nucleares, mas isto não me adiantou nada. Uma ânsia premente de ao menos uma palavra saída de boca humana me avassalou de tal maneira que comecei a me sentir mal. Levantei-me gemendo e vi, sem querer, as horríveis cicatrizes da operação, espalhadas por todos os cantos do ventre. Não podia fazer mais nada contra isso, principalmente pelo fato de que perguntas curiosas me teriam sido mais do que desagradáveis. Além disso, onde estaria o médico para corrigir os encaroçamentos e rugas da horrível intervenção cirúrgica? Certamente não existiria mais em toda a Terra nenhum cirurgião à altura. A catástrofe atômica se abatera sobre a humanidade há 69 anos. Os médicos recém-formados na época, já deviam ter morrido há tempo, mesmo na hipótese de haverem sobrevivido, por circunstâncias milagrosas, à hecatombe geral, que foi a destruição do mundo. — Minhas roupas — disse eu ao robô. — Quais? Meu amo. — As últimas que estava usando antes de hibernação. — O senhor ainda está muito fraco, meu amo. Agora é que começa a segunda fase da convalescença. Tinha que ficar resignado. Não se pode fazer nada contra as conclusões lógicas de uma máquina tão preciosa e perfeita. Com a ajuda de Rico, meus dedos atingiram as teclas do painel de controle e eu passei para uma confortável cadeira giratória. Ponto por ponto, fui percorrendo todas as fases da convalescença programada. Surgiam na grande tela as diversas seções de minha cúpula de aço à prova de bombas, pousada no fundo do mar. Aqui embaixo não se notou nada da guerra atômica. O fornecimento de energia foi sempre motivo de muita preocupação. Os reatores II e III estavam desligados e o I funcionava com apenas 20 por cento de sua força total. Liguei a câmara de observação submarina. Os sensores infravermelhos, montados fora da cúpula mostravam uma imagem clara e penetrante de minha habitação no fundo do mar. Diante da escotilha de saída do lado sul, havia se amontoado uma grande quantidade de lodo. A abertura de cima, porém, estava normal. Fiz com que o reator I funcionasse com a velocidade total, para armazenar a energia suficiente para a projeção. Pela primeira vez em 69 anos, as grandes máquinas estavam funcionando. Muito abaixo de meus pés, o ruído era tremendo. O ronco surdo me penetrava nos nervos. Lá fora, enorme quantidade de lodo estava se desprendendo da carcaça. Um jato concentrado de uma pressão de quarenta mil toneladas por metro cúbico resolveu a questão. Em poucos minutos, a escotilha sul estava livre de qualquer sujeira. Em seguida, procurei entrar em contato com meu satélite de televisionamento, através do rádio. O corpo esférico de apenas dois metros de diâmetro, antes do início da guerra atômica, estava em órbita de duas horas em torno

da guerra atômica, estava em órbita de duas horas em torno da Terra. As instalações eram tão perfeitas que permitiam ampliações muito nítidas. Qualquer objeto do tamanho do corpo humano podia ser visto com clareza. Mas não consegui ligação nenhuma. O minicomputador embutido no satélite não se manifestou. — O TEK-1 foi lançado naquela época, meu amo — explicou Rico objetivamente. — Isto foi cerca de uns dois dias depois do início de sua hibernação. Um caça da defesa espacial soviética tomou nosso satélite como se fosse de origem americana. Ouvia tudo sem dizer uma palavra. Fazia censuras a mim mesmo. Realmente cometi muitos erros quando, com medo louco de morrer, me escondi afobadamente nas profundezas do Atlântico. Estava também separado da superfície. Informei-me no computador central sobre o estado de coisa em volta de mim. Se os continentes estavam contaminados pela radioatividade, então era muito natural que também as correntes marítimas contivessem partículas nocivas. — Nenhum perigo nas imediações contíguas com a cúpula — constatou o cérebro positrônico de minha residência submarina. Os hipersensores, no entanto, acusam grande fonte de radiação na fossa do arquipélago de Açores. O valor oscila, conforme a profundidade, entre seis e meio e trinta e cinco miliroentgen. Fim. Suspirei abatido. Trinta e cinco miliroentgen era extremamente perigoso, pois encontrava-me a uma profundidade de 285 metros abaixo da superfície do mar. Procurei fazer um quadro comparativo da intensidade de radiação entre o mar e a terra firme. Se lá embaixo já havia trinta e cinco miliroentgen, então mais para cima a coisa devia ser assustadora. Que tipo de isótopos radioativos devem ter sidos empregados? Conforme meus cálculos, a duração média do tempo de validade da maioria dos isótopos era tão curta, que não se podia mais contar com o poder de radiação após 69 anos. Depois de ter examinado todas as instalações de minha cúpula, cheguei à conclusão de que devia subir à tona o mais depressa possível. Quem sabe ainda poderia ajudar muitos sobreviventes com alimentos e remédios? Encontrava-me com bastantes provisões. Poderia alimentar vestir e instruir pelo menos mil pessoas. Em certo sentido, eu poderia dar à Humanidade uma nova possibilidade de ressurgimento. Tratava-se apenas de saber até que ponto a radiação nociva havia atingido os sobreviventes. Talvez tivesse havido mesmo grandes alterações, físicas ou psíquicas. Com a cabeça cheia de preocupações, saí do setor de controle da minha cúpula de aço. Uma coisa estava certa, tinha que voltar à tona o mais depressa possível, para ver o que tinha acontecido aos homens. “Socorrer”! — Ecoava no meu cérebro. Estava pensando agora nos meus amigos e conhecidos. Mesmo Hiob Malvers estava entre eles, apesar de me ter deixado muitas vezes irritado. Apesar de tudo, eu tinha saudade de sua gargalhada estridente!

da Terra. As instalações eram tão perfeitas que permitiam 131


Atlan, o imortal – Volume 11

Nº 50/51/52/53

Atlan, O Solitário do Tempo O Soro da Vida O Pseudo Os Condenados de Isan O Duelo De

K. H Scheer Clark Darlton Kurt Mahr e Kurt Brand

2º CICLO – ATLAN E ÁRCON VOLUME 11 P-50 - 54

No próximo volume Atlan, o imortal, inicia-se um novo ciclo – Atlan e Árcon: Perry Rhodan encontra-se com Atlan, o Solitário do Tempo. Juntamente com o arcônida imortal, ele combate os Druufs, seres vindos de outro universo, e protege o pequeno reino sideral dos terranos dos ataques dos Mercadores galácticos e do Robô Regente de Árcon.

132


P 010. 1º Ciclo "A Terceira Potência". Vol. 10 "A Morte da Terra". Edições 46 ao 49. 10/10.