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Guardiões - A Escolhida

Prólogo

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á sete meses eu levava uma vida como um ser humano normal. Morava no Brasil com meu pai, em uma cidade litorânea. Nossa casa ficava em uma área bem arboriza-

da, pois sempre adorei estar em contato com a natureza. Nós éramos muito amigos e cúmplices. Desde que minha mãe morreu, éramos apenas nós dois, pois minha avó vivia em Londres, e, sem ter mais ninguém por perto, acabamos nos tornando muito amigos.

Eu era professora e pesquisadora de uma das melhores universidades do Rio de Janeiro, a Universidade Federal Fluminense. Havia publicado artigos nos melhores periódicos do mundo inteiro. Sempre adorei meu trabalho e tinha muito orgulho de todas as minhas conquistas profissionais. Minha pesquisa era voltada para um tema pelo qual sempre fui apaixonada: lendas europeias; em especial, vampiros, e esse fascínio veio desde a infância. Naquela época eu não poderia imaginar que minha vida mudaria tanto e em tão pouco tempo. Decidi vir morar em Londres após a morte do meu pai, para ficar ao lado de minha avó, que, infelizmente, acabou morrendo também. Porém, o que transformou a minha vida não foi a morte das pessoas que eu mais amava. Acontece que meu objeto de estudo passou a fazer parte do meu dia-a-dia. O que para mim não passava de mito, transformou-se em realidade muito de repente; e de professora e historiadora, me transformei em uma caçadora de vampiros. Isso mesmo, vampiros! Também fiquei surpresa quando descobri que eles existiam de verdade. Abri mão de todas as minhas conquistas, da minha profissão, para proteger as pessoas. Afinal, durante meu treinamento para lutar contra o assassino

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Guardiões - A Escolhida do meu pai, eu descobri que era mais forte e rápida que os humanos comuns. Então, me sentia na obrigação de livrar o mundo daquela praga. Até algumas horas atrás eu me achava uma heroína que lutava para livrar o mundo de monstros, tinha orgulho do que estava fazendo. Contudo, agora tinha medo de que tivesse me tornado um deles. Parei para colocar os meus atos em uma balança, tentando descobrir se o caminho que estava percorrendo era o certo. Fiquei desse jeito depois de voltar de uma ronda pelo bairro. A noite estava calma, e pensei que fosse voltar para casa sem ter que enfrentar nenhum vampiro; o que parecia um milagre, pois, desde que o Willian morreu, a cidade estava infestada. No entanto, o milagre não aconteceu, me deparei com um deles em um beco próximo à Baker Street. Ele era um novato, por isso não foi tão difícil matá-lo. Difícil foi lidar com o que aconteceu em seguida... Depois de eliminar seu corpo, ouvi um barulho. De pronto me virei e percebi que havia alguém atrás das lixeiras. Aproximei-me bem devagar, como não senti cheiro de outro vampiro, levei a mão até as costas e tirei minha quarenta e cinco da cintura. Mirei o meu alvo. Não esperava por aquilo: era uma menina! Deveria ter uns dez anos, no máximo, e estava chorando. Mesmo com medo ela ergueu a cabeça e me perguntou: − O que você fez com meu pai? − ela me olhava como se eu fosse um monstro. − Por que você fez isso? O que ele fez para você? Seu olhar era desafiador e transbordava revolta. Deixou-me sem reação. Nos últimos meses eu havia enfrentado dezenas de vampiros perigosos, mas agora estava sendo desarmada por uma criança de dez anos! Eu queria dizer-lhe que seu pai era um monstro, mas as palavras não saíam da minha boca. Talvez porque eu não tivesse certeza disso. Afinal, não lhe dei tempo para se explicar, apenas vi que era um vampiro e acabei com ele. Não tinha nenhuma garantia de que ele era mau. Não tive outra alternativa senão usar as técnicas de hipnotismo que Christiaan me ensinara. Pena que não poderia usá-las em mim mesma para me fazer esquecer aquela cena. Assim que me vi refletida em seus olhos, percebi que estava me tornando algo não muito diferente dos monstros contra os quais lutava. Aquilo me fez

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Guardiões - A Escolhida parar para rever meus atos. Não que eu me arrependesse de criar os Guardiões e lutar contra vampiros, mas será que eu estava fazendo isso da maneira correta? Tive medo de estar me tornando um monstro. Talvez eu devesse lhes dar uma segunda chance. Afinal, meus amigos também foram vampiros um dia e não eram maus. Lembrei-me do Willian, de como ele me disse várias vezes que estava disposto a mudar por mim. Aquela foi a primeira vez que me senti mal por tê-lo matado. E a partir desse dia não consegui mais tirar essa ideia da minha cabeça.

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Capítulo 1

E

u estava na biblioteca lendo um livro; ou melhor, tentando ler. Como não estava conseguindo me concentrar na leitura, me levantei e fui até a janela, empurrei a cortina e a abri. Senti

uma leve brisa entrar e acariciar a minha pele, e o calor do sol tocar na minha face. O final de tarde estava lindo! Não havia uma nuvem sequer no céu, que começava a ganhar tons alaranjados, anunciando o fim do dia. Senti o aroma das árvores que se estendiam ao longo da rua e agradeci por morar em um local tão arborizado, pois sempre me sentia revigorada ao inalar os aromas da natureza. Tinha resolvido tirar o dia de folga. Eu merecia. Desde que matei o pai daquela menina não consegui ter uma noite de sono tranquila. Tinha pesadelos, tanto com ela como com o Willian. A culpa passou a me corroer por dentro. Além disso, os últimos meses foram bem corridos. Apesar de não ter dado seguimento ao curso de verão na universidade, ainda tinha muito trabalho. Fazer parte dos Guardiões estava tomando todo meu tempo. Era planejamento, treino, pesquisa, mais treino, rondas pela cidade, e lá vinha o treino novamente. Acho que Christiaan nunca iria admitir que eu já estava preparada. Quase me obrigou a ter aulas de Parku. Ainda bem que o professor era o Jack, pois se fosse um humano comum, eu já estaria em algum laboratório sendo estudada. Dava para ouvir o barulho de Christiaan na cozinha, lavando a louça do almoço que ele tinha preparado. Apesar de não ter praticado muito nas últimas décadas, até que ele não se saia tão mal como cozinheiro.

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Guardiões - A Escolhida Além das nossas rondas, ele ainda estava dando aulas na universidade, assim, não tínhamos tanto tempo para ficarmos juntos. Mas sabia que seria apenas por mais um semestre. As pessoas já começavam a perguntar qual era o segredo para ele continuar sempre jovem. Afinal, ele já trabalhava lá há uns sete anos e não tinha envelhecido nada. Então, era chegada a hora de abandonar mais uma fase de sua vida. Christiaan sempre dizia que a pior parte de ser um vampiro era essa: não poder ficar muito tempo em um mesmo lugar, ver as pessoas entrarem e saírem de sua vida tão depressa, e tentar não se apegar a ninguém. O pior era que, mesmo não sendo mais um vampiro, ele também não envelheceria tão cedo. Nosso consolo era que quase todos os nossos amigos passariam pela mesma situação. Só não tínhamos certeza quanto a mim. Já que, ninguém sabia o que eu era. Nossa primeira ideia foi que eu era uma dhampir; no entanto, pelo que pesquisamos, dhampirs são filhos de vampiros com humanas. Bem, meu pai era bem humano, e minha mãe não era mais uma vampira quando me concebeu, então, essa ideia foi descartada. A verdade era que essa era uma das questões que ocupava bastante a minha mente. Eu me sentia bem com o grupo, com meus novos amigos. Porém, saber tão pouco sobre mim me angustiava bastante. Meu maior medo era que eu envelhecesse, enquanto o Christiaan continuasse lindo e jovem. Eu apenas tentava não enlouquecer com essa ideia. Apesar das dificuldades e de tudo que vivi nos últimos meses, eu estava feliz. Havia encontrado meu lugar no mundo. Desvirtuei-me um pouco dele nas últimas semanas, mas já estava voltando para o caminho certo. Desde aquele incidente com a garotinha, não matei nenhum vampiro sem antes lhe dar a oportunidade de ter uma vida diferente. Consegui recuperar uns três, apenas naquela semana, e me sentia muito orgulhosa por isso. O fato de ter perdido as duas pessoas que eu mais amava me deixava um pouco triste, porém, outras pessoas muito especiais surgiram. Acho que a vida é assim, um ciclo. Algumas pessoas partem, enquanto outras chegam. Não podemos escolher quando isso vai acontecer. Temos apenas que aceitar e seguir em frente. A companhia do meu pai e os conselhos da minha avó me faziam muita falta, mas, de certa maneira, eu os sentia perto de mim. Sabia

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Guardiões - A Escolhida que, onde quer que estivesse, sempre estariam comigo. Assim como sempre aconteceu com minha mãe. Em meio aos meus pensamentos, senti um aperto no meu peito. Um arrepio percorreu toda minha espinha. Sabia o que era aquilo: um pressentimento. Alguma coisa estava para acontecer, e sabia que não era coisa boa. Só que, naquele momento, eu não podia imaginar que o que aconteceria iria mudar tanto as nossas vidas... A campainha tocou. Deixei meus pensamentos de lado e fui atender a porta. Eram Lauren e Edwards. Sentia muita falta de ter os dois por perto, por isso, fiquei muito feliz em vê-los. Ainda estavam procurando uma casa para morar, e eu torcia muito para que encontrassem uma na nossa vizinhança. Lauren continuava com seu escritório em Piccadilly e estava sempre muito ocupada. Afinal, além de seus clientes habituais, passou a administrar a vida financeira de todos nós. E alguns tiveram séculos para acumular bens. Edwards também continuou com seu trabalho de jornalista e, além de sempre fazer um ótimo trabalho de pesquisa, se mostrou um hacker muito eficiente. Bem, pessoas com mais de um século de vida precisavam alterar alguns bancos de dados de vez em quando. − Lauren, Edwards... Que bom ver vocês! − Também estávamos com saudades, Alice – Edwards disse, me abraçando. − Viemos fazer um convite, e vou avisando que não aceitamos não como resposta – Lauren me intimou. Apenas dei um sorriso torto. Estava exausta, tudo o que eu queria era ficar no meu cantinho lendo. Depois da morte do Willian, parecia que todos os vampiros do mundo tinham resolvido buscar morada em Londres. A cidade ficou empesteada e estávamos trabalhando dobrado, ou melhor, triplicado. − Não faça essa cara – ela disse e foi entrando. – Você nem sabe qual é o convite. − Tenho certeza de que é alguma coisa que me fará sair de casa – disse, desanimada. – Eu estou tão cansada! − Vamos jantar naquele restaurante italiano que você adora? Eu amo a comida do Le Paris, mas queria fazer alguma coisa diferente – ela insistiu.

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Guardiões - A Escolhida Le Paris era o restaurante que abrimos para o nosso trio de cozinheiros, Vanessa, Danielle e Pierre. Como o dom deles era preparar deliciosas refeições − e faziam isso com perfeição! −, nós abrimos um restaurante para eles. Era lá que fazíamos a maioria das nossas reuniões e nossas refeições também, já que nenhum de nós tinha muito tempo e nem talento para gastar na cozinha. Pierre e Vanessa estavam fazendo um curso na França há dois meses, e o curso tinha duração de um ano, então ficaríamos um bom tempo sem vê−los. Tinha as minhas dúvidas se voltariam um dia. Acho que nunca se recuperaram por completo da situação que vivenciaram, em especial a Vanessa, que passou pela péssima experiência de ser mordida por um vampiro. − Está bem, você venceu – disse, sem muita animação. A verdade é que não precisava de muito para me convencer. Falou em comida, e italiana ainda por cima, pronto, me fisgou. − O que ela venceu? Posso saber? – era Christiaan que, ouvindo a conversa na sala, veio ao nosso encontro. − Lauren e Edwards vieram nos convidar para jantar no Mama Mia. − Poxa, e você vai trocar meus sanduiches maravilhosos por um jantarzinho no Mama Mia? − Seu bobo! – eu lhe dei um beijo na bochecha. – Lauren, vem comigo e me ajuda a escolher uma roupa? − Claro. Fomos para o meu quarto. Abri o armário, mas não achava nada que me agradasse. − Alice, seu guarda-roupa está tão monocromático! Está precisando de um pouco de cor, sabia? Preto, cinza, mais preto, azul marinho. Nossa! – ela disse, passando os cabides. Era engraçado ouvir esse tipo de comentário vindo da Lauren, porque, quando nos conhecemos, ela era a própria “senhorita sem cor”. Só usava cores frias e sóbrias. Logo depois que começou a namorar com o Edwards, passou a usar mais vestidos e roupas coloridas. Aliás, não foi só sua maneira de se vestir que mudou, Lauren se tornou uma pessoa muito mais descontraída. Pensei em como o amor pode transformar as pessoas. Esse pensamento mais uma vez me fez lembrar do Willian, e senti uma pontada no meu coração quando imaginei

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Guardiões - A Escolhida que talvez ele tivesse mudado de verdade. Lembrei quando ele olhou nos meus olhos e disse que, por mim, estava disposto a ser uma pessoa melhor. − Alice? – Lauren me trouxe de volta à Terra. − É que para fazer a ronda tem que ser roupa escura – expliquei. − Mas sua vida não pode se resumir apenas a fazer ronda – ela se sentou ao meu lado. – Ando muito preocupada com você, Alice. Sei que o que fazemos, e, em especial, o que vocês fazem nas ruas, é muito importante. Mas você não tem feito muita coisa que não seja treinar, caçar, caçar, treinar. Precisa sair, se divertir um pouco, fazer outras atividades. Aliás, precisa viver! − Você tem razão. Sabia que ela estava certa. Nos últimos meses não estava fazendo nada além de caçar vampiros e treinar. Estava deixando minha vida de lado. Até minha vida afetiva estava sendo atingida com isso, pois eu e Christiaan estávamos sempre ocupados demais com nossas rondas ou com treinamementos, e quase não tínhamos tempo para curtir um ao outro. Ele já havia reclamado algumas vezes, mas eu sempre argumentava que o nosso trabalho era mais importante. − Achei − ela levantou-se com um sorriso no rosto. Olhava para o armário, fascinada. Parecia que tinha encontrado um tesouro. − Que vestido lindo! Ela tirou de dentro do guarda-roupa um vestido vinho que estava escondido entre as peças pretas. Era um vestido muito bonito mesmo. Tinha mangas compridas, fazia o contorno do corpo e tinha um belo decote atrás. Christiaan havia me dado de presente há duas semanas, mas eu ainda não tinha usado. − Viu, não está tão monocromático quanto você disse! – brinquei. − Está sim! Mas vamos resolver isso depois de amanhã. – Fiz cara de interrogação. – Vamos fazer compras! – ela determinou. − É sábado, e eu não vou estar trabalhando. Passo aqui antes do almoço e vamos ao centro de Londres para fazer terapia de compras. E ainda podemos almoçar no shopping. O que acha? Era bom ver como a Lauren tinha mudado. Mesmo com tudo o que aconteceu, ela se transformou em uma pessoa mais leve.

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Guardiões - A Escolhida − Tenho que admitir que é uma boa ideia – disse, olhando para o meu guarda-roupa. Nós rimos. – Vou tomar um banho, mas não demoro. − Vou esperar você lá embaixo. Ela desceu. Eu tomei um banho bem rapidinho e saí do banheiro enrolada na toalha. Tive uma sensação esquisita, como se tivesse alguém, ou alguma coisa, me observando. Virei bem devagar. Lá estava ela. Aquele monstro horrível olhava para mim. Sabia que ela estava pronta para me atacar. Não consegui me mover. Fiquei paralisada. Tudo o que fiz foi gritar. Antes que eu terminasse, Christiaan já estava na porta do quarto me olhando, confuso. − O que houve? – ele disse, correndo para me abraçar. Lauren e Edwards chegaram à porta naquele momento. Também pareciam querer uma explicação para o que estava acontecendo. − Não acredito que vocês não estão vendo. Ela é enorme! Lauren olhou para onde eu estava apontando e começou a rir. Eu não consegui achar graça nenhuma. Ela tirou o sapato que estava usando e acertou a barata em cheio. − Não acredito que a grande caçadora de vampiros, Senhorita Alice Hacker, estava apavorada por causa de uma barata. – Todos riram, menos eu, claro. − O que foi? Vão ficar rindo de mim? Todo mundo tem medo de alguma coisa. Qual é o problema de se ter medo de baratas? Lauren tirou um lenço do bolso de Edwards e recolheu a barata. Eu enfiei o rosto no peito do Christiaan quando ela passou perto de mim. − Tira esse bicho logo daqui – grunhi. − Prontinho. Problema resolvido. Agora vamos descer para que você termine de se arrumar – naquele momento percebi que estava usando apenas uma toalha e fiquei um pouco sem graça. – Se precisar de ajuda para eliminar mais algum “monstro terrível”, pode me chamar. – Eles saíram, então, ficamos apenas Christiaan e eu. − Não sabia que você tinha tanto medo de baratas – ele disse, com um sorriso debochado no rosto. − Pronto. Agora vocês vão pegar no meu pé por causa disso, não é? − Claro! Afinal, a grande caçadora de vampiros não é tão destemida

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Guardiões - A Escolhida assim – ele me abraçou e beijou a minha testa. – Vou fazer companhia para os dois lá embaixo. Assim que ele saiu eu comecei a rir sozinha. Até que era engraçado mesmo: alguém que luta com vampiros sanguinários ter medo de uma simples baratinha. Mas admito que só em pensar nela eu já me arrepiava toda. Fazer o quê se aquele era o meu calcanhar de Aquiles?

§ Fomos para o restaurante no carro de Edwards. A noite estava linda! Era lua cheia, e o céu estava cravado de estrelas. Eu nem me lembrava qual tinha sido a última vez que reparei na lua ou nas estrelas. Quando saía para fazer ronda, minhas prioridades eram outras. Contudo, mesmo a noite estando linda, quando olhei para o céu senti um frio na espinha, que fez com que eu ficasse toda arrepiada. Lá vinha o tal do pressentimento de novo. Será que eu não tinha direito de ter um pouquinho de paz? Já que ele não queria me abandonar, decidi não dar importância para ele. Inspirei o ar fresco e tentei aproveitar a noite de folga. Não foi difícil, pois o papo estava muito agradável e a comida, simplesmente, maravilhosa, como sempre. Eu devorei quase uma travessa inteira de nhoque à bolonhesa. Christiaan e Edwards pediram lasanha ao molho branco, e Lauren se contentou com uma saladinha Caesar. − Ai, Alice, como eu gostaria de poder devorar um prato desses e continuar com um corpinho como o seu – ela disse suspirando. Nós rimos. Lauren não precisava se preocupar com essas coisas. Ela era linda, seu corpo era perfeito. O azul de seus olhos combinavam com o dourado de seus cabelos. Sem contar que depois que passou a se vestir de modo mais feminino e descontraído, sua beleza ficou ainda mais evidente. − Mudando de assunto, já viram alguma casa que agradasse vocês? – perguntei. − Visitamos algumas essa semana, mas ainda não nos decidimos. − Gostamos muito de uma que visitamos na Chilworth St.. Combinamos com o corretor para voltarmos lá amanhã – Lauren completou.

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Guardiões - A Escolhida − Que bom! Tomara que escolham essa. Sabem o quanto eu ficaria feliz em ter vocês morando na vizinhança − eu disse. Ficamos mais alguns minutos conversando, antes de pedirmos a conta. Eu estava me sentindo muito bem, era a primeira vez que nossa conversa não envolvia vampiros. Era bom ter um bate-papo normal com os amigos, para variar. Quando saímos do restaurante levamos um susto. O céu, que antes estava sem nuvens, naquele momento estava totalmente carregado. Nuvens espessas cobriam a lua e as estrelas. Parecia que ia desabar um temporal a qualquer instante. Novamente um arrepio percorreu o meu corpo, e eu soube que aquela tempestade não era um bom sinal. Porém, depois de tudo pelo que passei, me sentia capaz de encarar qualquer desafio. Não deixaria que um temporal me deixasse com medo. Como esperado, a chuva desabou assim que entramos no carro. Nunca vi uma tempestade como aquela. Era como se a natureza estivesse furiosa. A água batia com tanta força no vidro que parecia uma chuva de granizo. Os raios cruzavam o céu constantemente, e o barulho dos trovões era ensurdecedor. Tivemos que ficar dentro do carro cerca de uns quinze minutos até que a chuva amenizasse um pouco. Christiaan até se ofereceu para dirigir, mas Edwards não aceitou. Ele não deixava ninguém tocar na “relíquia” dele, então, demoramos um pouco para chegar em casa. Edwards e Lauren ficaram lá por cerca de trinta minutos, até que a chuva estivesse bem fraca. Antes de nos despedir, Lauren confirmou nosso compromisso de sábado. Até que eu estava animada para fazer compras. Fazia muito tempo que eu não sabia o que era isso. E, caçadora de vampiros ou não, qual a mulher que não se sente bem renovando o guarda-roupa? Sem sombra de dúvidas, eu precisa voltar a fazer programas como esse. Assim que eles saíram, voltei a me sentir estranha. Pensei em conversar com Christiaan, mas acabei desistindo. Não queria preocupá-lo, já que ele parecia tão relaxado depois do nosso jantar, e talvez fosse apenas a tempestade que tenha me deixado assim. Fui deitar tentando me convencer disso. Não demorei muito para esquecer, já que o colo do Christiaan funcionava para mim como uma borracha para apagar qualquer pensamento ruim.

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Guardiões - A Escolhida Como me sentia bem ao lado dele! Afundei minha cabeça em seu pescoço, para inalar seu perfume maravilhoso, e dormi tranquilamente.

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Guardiões - A Escolhida

Capítulo 2

A

cordei naquele calabouço horrível. O pior era que desta vez estava sozinha. Nem Christiaan, nem meus amigos estavam lá para me ajudar. Lembrei-me do pressentimento que tive

e fiquei com muita raiva de mim por não ter dado ouvidos ao meu instinto. Olhei ao redor, o lugar estava escuro, mas eu podia ver com clareza a

cela onde Vanessa havia sido aprisionada, e a cenas dos momentos horríveis que passei naquele local vieram à minha mente como um filme. Os únicos ruídos que ouvia eram do meu coturno tocando o chão e de uma ou outra goteira que não paravam de pingar. Como eu vim parar aqui? Era a pergunta que não saía da minha cabeça. Não lembrava o que tinha acontecido. Só sabia que estava ali e que estava em perigo. Cheguei ao final do corredor e abri a primeira porta de madeira. Ali ficavam as celas que pareciam solitárias. O cheiro de morte impregnava o ar e me embrulhava o estômago. Era um cheiro de sangue e podridão. Cheguei à segunda porta, que dava para a sala onde Christiaan e Arthur lutaram e onde eu matei um vampiro pela primeira vez. Vi sangue espalhado pelo chão. Sabia que Willian estava esperando por mim para se vingar. Não sabia como, pois o havia matado — tinha certeza disso —, mas sentia que era ele. Não deixei que o medo me impedisse de seguir em frente. Talvez eu achasse que merecia ser castigada por ele depois de tudo o que lhe fiz. Abri a passagem secreta e desci as escadas bem devagar. A cada passo que dava, sentia que o perigo estava mais próximo. A porta que ficava no final da escada estava aberta. Ele esta lá, sentado na escuridão. Mesmo com minha visão privilegiada, tudo o que via era apenas uma sombra, mas percebi que

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Guardiões - A Escolhida havia algo em suas mãos. Parecia ser uma bandeja?! Ele não se movia, por isso, me aproximei devagar. Então pude vê-lo. Fiquei petrificada por uns instantes. Willian estava degolado e oferecia sua cabeça em uma bandeja para mim. Eu queria gritar, mas a voz não saía. Eu me virei e tentei sair correndo daquele lugar, porém não havia saída. Todas as paredes estavam fechadas. Comecei a bater em uma delas, até que minhas mãos começaram a sangrar. Elas não doíam; ou, se doíam, a dor que eu sentia no meu coração era bem mais forte. Virei de costas para a parede e deslizei até o chão, chorando sem parar. Então eu acordei. Estava totalmente exausta e molhada de suor, assim como nas outras noites. Aquele pesadelo vinha se repetindo desde o dia em que matei o pai daquela menina, uma semana atrás. Estiquei meu braço à procura do Christiaan e percebi que ele não estava lá. Levantei-me e fui até o banheiro. Lavei meu rosto e molhei a nuca. Fiquei um tempo me olhando no espelho. O que você fez, Alice? Como pôde matar alguém que estava disposto a mudar por amor a você? Esses pensamentos estavam me torturando. Quando voltei para o quarto, notei que havia um bilhete na mesa de cabeceira. “Alice, precisei sair para resolver uns assuntos. Não quis te acordar. Antes do almoço estarei em casa. Te amo. Chris.” Fiquei até aliviada por ele não estar ali. Isso me pouparia de ter que dar explicações. A verdade é que eu comecei a ter dúvidas se tinha agido corretamente. Willian podia ser um monstro, mas eu não me sentia melhor do que ele depois de tê-lo enganado. Ficava me questionando se ele não teria merecido uma segunda chance. Afinal, ele disse que estava disposto a se tornar uma pessoa melhor por mim. O engraçado é que a única pessoa para quem eu contei o que estava me atormentando foi Theresa. Talvez por ela ter tentado salvar a vida dele naquele dia. Sabia que, mesmo depois de tudo, ela ainda sentia algo por ele. Mesmo assim, ela tentava aliviar minha culpa. Cheguei a decorar o que me dizia: “Alice, Willian sempre foi muito perverso. Não esqueça que foi ele quem matou seus antepassados. Além disso, mesmo depois de eu ter tentado salvar a sua vida, ele

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Guardiões - A Escolhida quase me matou! Tenho certeza de que o que ele sentia por você não era amor, mas obsessão, e se você se negasse a ficar com ele, certamente ele te mataria.” O fato é que mesmo a tendo ouvido repetir esse discurso umas trocentas vezes na última semana, isso não estava ajudando muito. A culpa me corroia cada vez mais. Eu já começava a achar que esse sonho era um recado, me mostrando o erro que eu cometi. Por impulso, fui até o meu guarda-roupa e peguei um recipiente de cerâmica que eu guardava bem no fundo, escondido atrás de minhas roupas: eram as cinzas do Willian. Não permiti que queimassem todos os vampiros juntos naquele dia. Disse aos meus amigos que eles já tinham sido humanos e que deveríamos respeitá-los. Eles concordaram, então queimamos um a um e jogamos suas cinzas em locais distintos. Menos as do Willian. Ninguém sabia que eu as havia guardado. E, para falar a verdade, eu não sabia por que tinha feito aquilo, mas, no fundo, eu ainda me sentia presa a ele de alguma maneira. Era como se devesse isso a ele. Achei melhor colocar aquilo de volta no lugar. Repeti várias vezes para mim mesma que eu precisava escolher um local para atirá-las, mas nunca conseguia. Voltei para cama, mas estava inquieta; rolava de um lado para o outro, não conseguia dormir. Se ao menos Christiaan estivesse aqui para me acalmar! Ele era o meu porto-seguro. Quando estava em seus braços, sabia que poderia enfrentar qualquer desafio. Era incrível ter me apaixonado tão profundamente por ele em tão pouco tempo. Mas a verdade é que, desde que o vi pela primeira vez, alguma coisa mudou dentro de mim. Nunca acreditei em amor à primeira vista, mas não posso definir de outra maneira o que senti quando olhei em seus olhos na noite em que nos conhecemos. Fui até a janela para ver se a tempestade já havia passado. Fiquei surpresa quando vi que o céu estava limpo. Assim como no início da noite, não havia qualquer sinal de chuva. Achei aquilo muito estranho. E o alarme contra perigo que existia dentro da minha cabeça não parava de apitar. Ótimo, mais uma coisa para ocupar a minha mente e não me deixar dormir! Não era o meu dia de ronda, mas decidi sair assim mesmo. Sabia que nenhum dos Guardiões estava pelas redondezas naquela noite, então achei que

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Guardiões - A Escolhida seria bom dar uma circulada pelo bairro para espairecer a cabeça. O que eu não sabia era que a morte estaria esperando por mim... Quando eu decidi formar um grupo para livrar o mundo dos vampiros, sabia que nada seria fácil, que o perigo seria constante; só não pensei que iria morrer tão rápido. Já tinha passado por muitas ocasiões complicadas, mas, com absoluta certeza, não tinha como sobreviver àquela situação. Estava em um beco sujo e escuro; o ar estava impregnado com cheiro de comida estragada. Atrás de mim havia um prédio de uns dez andares, mas não havia janelas daquele lado, muito menos sinal de vida humana. Havia uns sete vampiros me cercando. Os desgraçados conseguiram me armar uma cilada. Eu estava sozinha e eles haviam me desarmado. Além disso, Christiaan e todos os meus amigos estavam longe demais para que eu pudesse pedir ajuda. Fiquei me perguntando como pude ser tão idiota. Senti o cheiro deles assim que parei a moto, no entanto, quando vi aquela criança pedindo ajuda... O garoto parecia tão assustado que acabei não analisando bem a situação e agi por impulso. Grande erro! Queria ajudá-lo, e aqueles monstros acabaram me pegando desprevenida e conseguiram tomar minha espada. Passei a mão nas minhas costas e não senti minha arma. Saí tão aturdida de casa que não me lembrei de pegá-la. Droga! Pensei. Armas de fogo não matam vampiros, mas uma quarenta e cinco consegue fazer um bom estrago. Eu sabia que lutar com sete vampiros estando armada já seria bem difícil, mas sem nada era morte na certa. Tudo bem que cada dia que passava eu me sentia mais forte e rápida, mas eles eram sete, e eu estava sozinha. Pior, ainda tinha uma criança para defender. Resumindo: estava ferrada. Um deles deu um passo à frente. Tinha um sorriso desafiador no rosto. Ele era moreno, tinha cabelos castanhos cacheados, e os olhos eram negros como a noite. Estava todo de preto. Poderia até achá-lo lindo, se a maldade não estivesse transbordando nos seus olhos. − Então, “Caçadora”, como está se sentindo estando no lugar da caça? – ele disse, com um sorriso debochado no rosto. Todos os outros gargalharam. Eu só conseguia pensar em encontrar uma maneira de fugir dali. Se ao menos eu conseguisse chegar até a minha Hayabusa. Mas para isso tinha que passar por eles. Minhas aulas de parku não

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Guardiões - A Escolhida tinham me ensinado a voar, então, o jeito era que pensar em outra saída. Mas quanto mais eu olhava ao redor, percebia que não havia nenhuma. − Perdeu a língua, “Caçadora”? – ele continuou me desafiando. − Não. Só não gosto de gastar saliva com seres tão insignificantes. O sorriso no rosto dele morreu, e seus olhos faiscaram de tanto ódio. Tinha certeza que, se ele fosse um cachorro, estaria babando. − Será que vai continuar nos achando insignificantes quando esmagarmos cada ossinho do seu corpo? – foi um loiro, alto, que estava logo atrás do primeiro, quem falou. Olhei de soslaio para o garoto e fiquei aliviada quando vi que ele não estava mais ali. Deve ter aproveitado a confusão para fugir. Agora éramos apenas eu e os vampiros. Não precisava me preocupar em garantir a segurança de mais ninguém. − Vamos ver se vocês vão conseguir. – desafiei. Decidi que se eu iria morrer, ao menos levaria alguns comigo. Eles não estavam preparados para minha reação, então, acertei um que estava à minha direita bem no meio da barriga e ele foi ao chão. O que estava ao lado dele veio para cima de mim, mas não sei de onde tirei tanta força para arremessá-lo longe. Ele caiu no meio de umas latas de lixo. Não contive o riso. − Parece que não vai ser tão fácil assim quebrar os meus ossinhos. – provoquei. O loiro partiu para cima de mim com tudo. Consegui desviar e ainda dei uma rasteira nele, mas o moreno de cabelos cacheados acertou as minhas costas em cheio. Não dá para descrever a dor que eu senti. Levar um soco de um vampiro dói, e muito. Mas eu me ergui e tentei não pensar na dor, o que era praticamente impossível. Quando dei por mim, percebi que todos vinham em minha direção ao mesmo tempo. Tentei me defender da melhor maneira possível. Eu me abaixei, escapei por baixo da perna de um deles e acabei recuperando minha espada que estava em sua cintura. Não pensei duas vezes, girei a espada e acertei em cheio o seu pescoço. Sua cabeça foi parar na lata de lixo. Lugar bem apropriado, por sinal. Não pude nem respirar e já tinha outro voando na minha direção. Esse me deu mais trabalho. Primeiro cravei minha espada em sua barriga, e,

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Guardiões - A Escolhida como ele ficou mais lento por conta do ferimento, também consegui me livrar dele em seguida. Alguém me acertou nas costas, e minha espada acabou voando para bem longe. Eu quase cai e, quando me virei, levei um soco que me fez enxergar uma constelação inteira. A luta continuou, naquele momento, eu já não estava levando a melhor. Primeiro acertaram meu rosto várias vezes. Levei tantos chutes nas costelas que acho que não sobrou um osso inteiro para contar a história. Também machuquei alguns, mas eu apanhei tanto, estava sentindo tanta dor, que só queria que aquilo terminasse. Talvez morrer não seja tão ruim assim. Eu sentia cada osso do meu corpo quebrado. Não tinha mais forças para lutar. Fechei meus olhos e esperei a morte chegar. E queria que ela chegasse bem depressa.

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Guardiões: A Escolhida - Capítulos Iniciais  

Depois de descobrir os segredos mais obscuros de sua família e se tornar uma caçadora de vampiros, Alice pensava que nada mais poderia surpr...