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ÍNDICE

RETRATO DE UMA CIDADE ............................................................................. 3 MENINOS CARVOEIROS .................................................................................. 6 RECIFE .............................................................................................................. 7 ANNUNCIO DE SÃO PAULO............................................................................. 9 LISBOA .............................................................................................................. 9 O RIO ............................................................................................................... 10 MENINO MORTO PELAS LADEIRAS DE OURO PRETO............................... 11 BECOS DE GOIÁS ......................................................................................... 12 SÃO SALVADOR ............................................................................................. 16 365 IGREJAS ................................................................................................... 16 SAMBA DO AVIÃO .......................................................................................... 18 SÃO PAULO, SÃO PAULO .............................................................................. 19

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RETRATO DE UMA CIDADE Carlos Drummond de Andrade Alguma Poesia I Tem nome de rio esta cidade onde brincam os rios de esconder. Cidade feita de montanha em casamento indissolúvel com o mar. Aqui amanhece como em qualquer parte do mundo mas vibra o sentimento de que as coisas se amaram durante a noite. As coisas se amaram. E despertam mais jovens, com apetite de viver os jogos de luz na espuma, o topázio do sol na folhagem, a irisação da hora na areia desdobrada até o limite do olhar. Formas adolescentes ou maduras recortam-se em escultura de água borrifada. Um riso claro, que vem de antes da Grécia (vem do instinto) coroa a sarabanda a beira-mar. Repara, repara neste corpo que é flor no ato de florir entre barraca e prancha de surf, luxuosamente flor, gratuitamente flor ofertada à vista de quem passa no ato de ver e não colher. 3


II Eis que um frenesi ganha este povo, risca o asfalto da avenida, fere o ar. O Rio toma forma de sambista. É puro carnaval, loucura mansa, a reboar no canto de mil bocas, de dez mil, de trinta mil, de cem mil bocas, no ritual de entrega a um deus amigo, deus veloz que passa e deixa rastro de música no espaço para o resto do ano. E não se esgota o impulso da cidade na festa colorida. Outra festa se estende por todo o corpo ardente dos subúrbios até o mármore e o fumé de sofisticados, burgueses edifícios: uma paixão: a bola o drible o chute o gol no estádio-templo que celebra os nervosos ofícios anuais do Campeonato. Cristo, uma estátua? Uma presença, do alto, não dos astros, mas do Corcovado, bem mais perto da humana contingência, preside ao viver geral, sem muito esforço, pois é lei carioca (ou destino carioca, tanto faz) misturar tristeza, amor e som, 4


trabalho, piada, loteria na mesma concha do momento que é preciso lamber até a última gota de mel e nervos, plenamente. A sensualidade esvoaçante em caminhos de sombra e ao dia claro de colinas e angras, no ar tropical infunde a essência de redondas volúpias repartidas. Em torno de mulher o sistema de gesto e de vozes vai-se tecendo. E vai-se definindo a alma do Rio: vê mulher em tudo. Na curva dos jardins, no talhe esbelto do coqueiro, na torre circular, no perfil do morto e no fluir da água, mulher mulher mulher mulher mulher. III Cada cidade tem sua linguagem nas dobras da linguagem transparente. Pula do cofre da gíria uma riqueza, do Rio apenas, de mais nenhum Brasil. Diamantes-minuto, palavras cintilam por toda parte, num relâmpago, e se apagam. Morre na rua a ondulação do signo irônico. Já outros vêm saltando em profusão. Este Rio… Este fingir que nada é sério, nada, nada, e no fundo guardar o religioso 5


terror, sacro fervor que vai de Ogum e Iemanjá ao Menino Jesus de Praga, e no altar barroco ou no terreiro consagra a mesma vela acesa, a mesma rosa branca, a mesma palma à Divindade longe. Este Rio peralta! Rio dengoso, erótico, fraterno, aberto ao mundo, laranja de cinquenta sabores diferentes (alguns amargos, por que não?), laranja toda em chama, sumarenta de amor. Repara, repara nas nuvens; vão desatando bandeiras de púrpura e violeta sobre os montes e o mar. Anoitece no Rio. A noite é luz sonhando.

MENINOS CARVOEIROS Manuel Bandeira Meus Poemas Preferidos - Ediouro Os meninos carvoeiros Passam a caminho da cidade. ― Eh, carvoero! E vão tocando os animais com um relho enorme.

Os burros são magrinhos e velhos. Cada um leva seis sacos de carvão de lenha. A aniagem é toda remendada. Os carvões caem. 6


(Pela boca da noite vem uma velhinha que os recolhe, dobrando-se com um gemido.) ― Eh, carvoero! Só mesmo estas crianças raquíticas Vão bem com estes burrinhos descadeirados. A madrugada ingênua parece feita para eles... Pequenina, ingênua miséria! Adoráveis carvoeirinhos que trabalhais como se brincásseis! ― Eh, carvoero!

Quando voltam, vêm mordendo num pão encarvoado, Encarapitados nas alimárias, Apostando corrida, Dançando, bamboleando nas cangalhas como espantalhos desamparados!

RECIFE Manuel Bandeira Meus Poemas Preferidos - Ediouro Há que tempo que não te vejo! Não foi por querer, não pude. Nesse ponto a vida me foi madrasta, Recife.

Mas houve dia em que te não sentisse dentro de mim: Nos ossos, nos olhos, nos ouvidos, no sangue, na carne, Recife.

Não como és hoje, Mas como eras na minha infância, Quando as crianças brincavam no meio da rua (Não havia ainda automóveis) 7


E os adultos conversavam de cadeira nas calçadas (Continuavas província, Recife).

Eras um Recife sem arranha-céus, sem comunistas, Sem Arrais, e com arroz, Muito arroz, De água e sal, Recife.

Um Recife ainda do tempo em que o meu avô materno Alforriava espantosamente A moça preta Tomásia, sua escrava, Que depois foi nossa cozinheira Até morrer, Recife.

Ainda existirá a velha casa senhorial do Monteiro? Meu sonho era acabar morando e morrendo Na velha casa do Monteiro. Já que não pode ser, Quero, na hora da morte, estar lúcido Para mandar a ti meu último pensamento, Recife.

Ah Recife, Recife, non possidetis ossa mea! Nem os ossos nem o busto. Que me adianta um busto depois de eu morto? Depois de morto não me interessará senão Um cantinho no céu, “Se o não sonharam” como disse o meu querido João de Deus, Recife.

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ANNUNCIO DE SÃO PAULO Oswald de Andrade Pau Brasil

Antes da chegada Affixam nos offices de bordo Um convite impresso em inglez Onde se contam maravilhas de minha cidade Sometimes called the Chicago of South America Situada num planalto 2.700 pés acima do mar E distando 79 kilometros do porto de Santos Ella é uma gloria da America contemporânea A sua sanidade è perfeita O clima brando E se tornou notável Pela belleza fóra do commum Da sua construcção e da sua flora A Secretaria da Agricultura fornece dados Ara os negocios que ahi se queiram realizar LISBOA Álvaro de Campos Poemas Lisboa com suas casas De várias cores, Lisboa com suas casas De várias cores, Lisboa com suas casas De várias cores... À força de diferente, isto é monótono. Como à força de sentir, fico só a pensar.

Se, de noite, deitado mas desperto, Na lucidez inútil de não poder dormir, Quero imaginar qualquer coisa 9


E surge sempre outra (porque há sono, E, porque há sono, um bocado de sonho), Quero alongar a vista com que imagino Por grandes palmares fantásticos, Mas não vejo mais, Contra uma espécie de lado de dentro de pálpebras, Que Lisboa com suas casas De várias cores.

Sorrio, porque, aqui, deitado, é outra coisa. A força de monótono, é diferente. E, à força de ser eu, durmo e esqueço que existo.

Fica só, sem mim, que esqueci porque durmo, Lisboa com suas casas De várias cores.

O RIO Pablo Neruda As Uvas e o Vento - L&PM Pocket

EU ENTREI em Florença. Era de noite. Tremi escutando quase adormecido o que o doce rio me contava. Eu não sei o que dizem os quadros nem os livros (não todos os quadros nem todos os livros, só alguns), mas não sei o que dizem todos os rios. Têm o mesmo idioma que tenho. Mas terras selvagens o Orinoco me fala 10


e entendo, entendo histórias que não posso repetir. Há segredos meus que o rio levou, e que me pediu lhe vou cumprindo pouco a pouco na terra. Reconheci na voz do Arno então velhas palavras que buscavam minha boca, como o que nunca conheceu o mel e acha que reconhece seu sabor. Assim escutei as vozes do rio Florença, como se antes de ser me houvessem dito o que agora escutava: sonhos e passos que me uniam à voz do rio, seres em movimento, lances de luz na história, tercetos acesos como lâmpadas. O pão o sangue cantavam com a voz noturna da água.

MENINO MORTO PELAS LADEIRAS DE OURO PRETO Vinicius de Moraes Antologia Poética – Companhia das Letras

Hoje a pátina do tempo cobre também o céu de outono Para o teu enterro de anjinho, menino morto Menino morto pelas ladeiras de Ouro Preto. Berçam-te o sono essas velhas pedras por onde se esforça Teu caixãozinho trêmulo, aberto em branco e rosa. Nem rosas para o teu sono, menino morto 11


Menino morto pelas ladeiras de Ouro Preto. Nem rosas para colorir teu rosto de cera Tuas mãozinhas em prece, teu cabelo louro cortado rente... Abre bem teus olhos opacos, menino morto Menino morto pelas ladeiras de Ouro Preto. Acima de ti o céu é antigo, não te compreende. Mas logo terás, no Cemitério das Mercês-de-Cima Caramujos e gongolos da terra para brincar como gostavas Nos baldios do velho córrego, menino morto Menino morto pelas ladeiras de Ouro Preto. Ah, pequenino cadáver a mirar o tempo Que doçura a tua; como saíste do meu peito Para esta negra tarde a chover cinzas... Que miséria a tua, menino morto Que pobrinhos os garotos que te acompanham Empunhando flores do mato pelas ladeiras de Ouro Preto... Que vazio restou o mundo com a tua ausência... Que silentes as casas... que desesperado o crepúsculo A desfolhar as primeiras pétalas de treva... BECOS DE GOIÁS Cora Coralina Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais - Global

Beco da minha terra... Amo tua paisagem triste, ausente e suja. Teu ar sombrio. Tua velha umidade andrajosa. Teu logo negro, esverdeado, escorregadio. E a réstia de sol que ao meio-dia desce, fugidia, e semeia polmes dourados no teu lixo pobre, calçando de ouro e sandália velha, jogada no teu monturo.

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Amo a prantina silenciosa do teu fio de água, descendo de quintais escusos sem pressa, e se sumindo depressa na brecha de um velho cano. Amo a avenca delicada que renasce na frincha de teus muros empenados, e a plantinha desvalida, de caule mole que se defende, viceja e floresce no agasalho de tua sombra úmida e calada.

Amo esses burros-de-lenha que passam pelos becos antigos. Burrinhos dos morros, secos, lanzudos, malzelados, cansados, pisados. Arrochados na sua carga, sabidos, procurando a sombra, no range-range das cangalhas.

E aquele menino, lenheiro ele, salvo seja. Sem infância, sem idade. Franzino, maltrapilho, pequeno para ser homem, forte para ser criança. Ser indefeso, indefinido, que só se vê na minha cidade.

Amo e canto com ternura todo o errado da minha terra.

Becos da minha terra, discriminados e humildes, lembrando passadas eras...

Beco do Cisco. Beco do Cotovelo. Beco do Antônio Gomes. 13


Beco das Taquaras. Beco do Seminário. Bequinho da Escola. Beco do Ouro Fino. Beco da Cachoeira Grande. Beco da Calabrote. Beco do Mingu. Beco da Vila Rica...

Conto a estória dos becos, dos becos da minha terra, suspeitos... mal afamados onde família de conceito não passava. “Lugar de gentinha” – diziam, virando a cara. De gente do pote d’água. De gente de pé no chão. Becos de mulher perdida. Becos de mulheres da vida. Renegadas, confinadas na sombra triste do beco Quarto de porta e janela. Prostituta anemiada, solitária, hética, engalicada, tossindo, escarrando sangue na umidade suja do beco.

Becos mal assombrados. Becos de assombração... Altas horas, mortas horas... Capitão-mor – alma penada, terror dos soldados, castigado nas armas. Capitão-mor, alma penada, num cavalo ferrado, 14


chispando fogo, descendo e subindo o beco, comandando o quadrado – feixe de varas... Arrastando espada, tinindo esporas...

Mulher-dama. Mulheres da vida, perdidas, começavam em boas casas, depois, baixavam pra o beco. Queriam alegria. Faziam bailaricos. - Baile Sifilítico – era ele assim chamado. O delegado-chefe de Polícia – brabeza – dava em cima... Mandava sem dó, na peia. No dia seguinte, coitadas, cabeça raspada a navalha, obrigadas a capinar o Largo do Chafariz, na frente da Cadeia.

Becos da minha terra... Becos de assombração. Românticos, pecaminosos... Têm poesia e têm drama. O drama da mulher da vida, antiga, humilhada, malsinada. Meretriz venérea, desprezada, mesentérica, exangue. Cabeça raspada a navalha, castigada a palmatória, capinando o largo, chorando. Golfando sangue.

(ÚLTIMO ATO) 15


Um irmão vicentino comparece. Traz uma entrada grátis do São Pedro de Alcântara. Uma passagem de terceira no grande coletivo de São Vicente. Uma estação permanente de repouso – no aprazível São Miguel.

Cai o pano

SÃO SALVADOR Dorival Caymmi São Salvador, Bahia de São Salvador A terra de Nosso Senhor Pedaço de terra que é meu São Salvador, Bahia de São Salvador A terra do branco mulato A terra do preto doutor São Salvador, Bahia de São Salvador A terra do Nosso Senhor Do Nosso Senhor do Bonfim Oh Bahia, Bahia cidade de São Salvador Bahia oh, Bahia, Bahia cidade de São Salvador

365 IGREJAS Dorival Caymmi 365 igrejas. A Bahia tem (2X) Numa eu me batizei Na segunda eu me crismei Na terceira eu vou casar com uma mulher que eu quero bem (2X) 365 igrejas. A Bahia tem (2X) Numa eu me batizei 16


Na segunda eu me crismei Na terceira eu vou casar com uma mulher que eu quero bem (2X) Se depois que eu me casar Me nascer um bacuri Vou me embora pra Bahia, vou. Vou batizar no Bonfim Mas se for me parecendo Que os meninos vão nascendo Por cada uma igreja que tem lá Sou obrigado a comprar minha Passagem pra voltar pra cá, não é.... 365 igrejas. A Bahia tem (2X) Numa eu me batizei Na segunda eu me crismei Na terceira eu vou casar com uma mulher que eu quero bem (2X) Se depois que eu me casar Me nascer um bacuri Vou me embora pra Bahia, vou. Vou batizar no Bonfim Mas se for me parecendo Que os meninos vão nascendo Por cada uma igreja que tem lá Sou obrigado a comprar minha Passagem pra voltar pra cá, não é.... 365 igrejas. A Bahia tem (2X) Numa eu me batizei Na segunda eu me crismei Na terceira eu vou casar com uma mulher que eu quero bem (3X)

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SAMBA DO AVIÃO Antonio Carlos Jobim

Minha alma canta Vejo o Rio de Janeiro Estou morrendo de saudade Rio, teu mar, praias sem fim Rio, você foi feito pra mim

Cristo Redentor Braços abertos sobre a Guanabara Este samba é só porque Rio, eu gosto de você A morena vai sambar Seu corpo todo balançar Rio de sol, de céu, de mar Dentro de mais um minuto estaremos no Galeão Rio de Janeiro, Rio de Janeiro Rio de Janeiro, Rio de Janeiro

Cristo Redentor Braços abertos sobre a Guanabara Este samba é só porque Rio, eu gosto de você A morena vai sambar Seu corpo todo balançar Aperte o cinto, vamos chegar Água brilhando, olha a pista chegando E vamos nós Aterrar 18


SÃO PAULO, SÃO PAULO Premeditando o Breque (Premê) É sempre lindo andar na cidade de São Paulo, de São Paulo O clima engana, a vida é grana em São Paulo A japonesa loura, a nordestina moura de São Paulo Gatinhas punks, um jeito yankee de São Paulo, de São Paulo Ah! Na grande cidade me realizar Morando num BNH. Na periferia a fábrica escurece o dia. Não vá se incomodar com a fauna urbana de São Paulo, de São Paulo Pardais, baratas, ratos na Rota de São Paulo E pra você criança muita diversão em São Paulo São Paulo lição Tomar um banho no Tietê ou ver TV. Ah! Na grande cidade me realizar Morando num BNH Na periferia a fábrica escurece o dia. Chora Menino, Freguesia do Ó, Carandiru, Mandaqui, ali Vila Sônia, Vila Ema, Vila Alpina, Vila Carrão, Morumbi Pari, Butantã, Utinga, M'BOI MIRIM, Brás, Brás, Belém Bom Retiro, Barra Funda, Ermelino Matarazzo Mooca, Penha, Lapa, Sé, Jabaquara, Pirituba, Tucuruvi, Tatuapé Pra quebrar a rotina num fim de semana em São Paulo Lavar um carro comendo um churro é bom pra burro

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Um ponto de partida pra subir na vida em São Paulo, em São Paulo Terraço Itália, Jaraguá, Viaduto do Chá. Ah! Na grande cidade me realizar morando num BNH Na periferia a fábrica escurece o dia Na periferia a fábrica escurece o dia

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TESTE