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COISAS POÉTICAS

2011


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COISAS POÉTICAS O que meu coração postou

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Somos a imagem e semelhança do texto? O que se escreve é da realidade parte, totalidade, inverso ou fruto de um imaginário literariamente quase perfeito? Se constrói ou se descarrega um livro inteiro? Realmente deixamos em cada palavra rastros inconscientes de nós mesmos? Quem pode mensurar algo a respeito daquilo que com arte e liberdade escrevemos?

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Com canções eu escrevi

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Tatuagem

Tatuava ele com seus olhos de menino na pele dela feito tatuagem toda a poesia da sua vontade de desejá-la sem limites, condições, razões ou atos covardes, completamente nua e despida de medos, além das vaidades. A queria como deusa profana que era, cigana, alma de imensa realeza por toda a eternidade sagrada pela sua delicadeza real de princesa. Plebeu no seu desejo, que se manifestava de querer bem e que ia além da sua alma na sua carne, nas suas chagas, na sua boca embriagada que ela, bailarina enluarada, ao se apresentar encantada no palco da pele dele provocava como ninguém. Ela é parte da amada que o seduz e que conhece, que mora feliz na caixa de musica dos seus segredos, a dançar delicada pelos seus seios de mulher que sabe apenas o que é a intensidade do seu prazer verdadeiro. Buscava ele nu e corajoso sempre um pouco de coragem para chegar nos limites da sua arte só para desenhá-la também em seu corpo como tatuagem em reciprocidade a toda entrega que ele sabe que ela tem. Desejava ela seus versos urgentes, sussurrantes, alucinantes, indecentes, cheiro ardente que dela flui impunemente sempre que a toma feito presa que suicida implora para se devorar. Como não admirar com o olhar humano enternecido o quanto ele quer estar perdido tatuado feito mapa no corpo da amada que explora sem ousar lutar. Lá quer morrer e em sua lapide pede que escrevam que não foi covarde, que se perdeu por própria vontade e que decidiu de amor, por lá ficar.

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Preciso dizer que te amo

Contavam sonhos, contavam historias, contavam estrelas, mas não contavam que o destino com eles fizesse uma seria brincadeira. Eram amigos de alma e corpo, inteiros. Quando estavam juntos não sentiam o passar do tempo, eram cúmplices, não tinham segredos. Confessavam um para o outro seus medos, seus amores e seus desejos. Revelavam-se inteiros, pelo meio, omitindo o que entre eles surgia sedutor e sorrateiro. Amor que rasgava o peito e sangrava louco de ciúme, possessividade e direitos, adquiridos além da vontade louca de um beijo na consumação poética do seu amor perfeito. Viviam um quase romance não declarado, não conseguiam verbalizar para o ser amado o segredo que era estar absurdamente apaixonado. Faltava além do olho que confessava verdadeiro a palavra saindo da boca em som sussurradamente perfeito. Ficavam se investigando em movimentos só para encontrar o exato momento de expressar o sentimento que o corpo não suportava mais aprisionar de tanto sofrimento. Suas almas gritavam em silencio para os ouvidos dos amantes que não se davam ao direito que era preciso dizer ao outro que ama. Sem enganos, tudo. Tanto.

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Nem as paredes confesso

Alguns expõem seu amor, outros mantém secreto. Não há como crucificar quem optou por refugiar no segredo quem conquistou a paixão que traz solitário no fundo do peito. Se só a dois é natural pertencer o sentimento, torná-lo publico talvez o jogasse em pedaços ao vento, gerando assim um espetáculo fatal para a felicidade do relacionamento. Só quem ama sabe bem a hora e o exato momento de calar ou de declarar o amor que dói em seu coração de tão intenso. Imensa é a coragem de deixar arder na mais total ausência de movimento o que se sente por alguém sem realizar no corpo a vontade de um mísero desejo que todo amante sente na carne, carrega na alma e por ele a cada dia mais um pouco vai morrendo. Pobres corações tão mortais, que um dia torço e espero, perdoem os seres machucados que os carregam dilacerados no peito. Vivem de dores colossais por excesso de medo, não lhes sobra coragem sequer para que as paredes confessem seu sentimento. Ainda vão chorar, ainda vão sofrer, vão lamentar o silencio, e mesmo sabendo, tendo consciência do alto preço que pagarão com o tempo, escolherão ainda manter o amor que vivem calado, trancafiado, secreto

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Eu preciso de você

Certo dia junto com o amanhecer acordou dentro do sonho e começou simplesmente a viver. Não poderia com fidelidade descrever um só segundo do que seus olhos traduziam sem querer. Ao resolver se entregar para se ter descobriu o quanto o sentimento que cresce aos poucos é capaz de oferecer. Não querendo mais lutar se deixou vencer, aprendeu a necessidade de se pertencer e no seu porto mais seguro atracou o barco no escuro para nunca mais o mar tentar romper. Até sem mesmo sem entender realizava no ato de amar a mais doce poesia de prazer. Tinha certeza de que seu amor despertou o que nunca acreditou trazer, nada mais definiria sua felicidade, sua paz, sua alegria apaixonada e alucinada de viver. Descobriu que não usava mais fantasia que obrigava a envelhecer, que a emoção que lhe vestia era muito mais real do que um dia seu coração sincero e mortal suportaria. Criança reaprendeu a ser. Jamais pensou que em toda sua vida pudesse se surpreender com um amor assim, absolutamente mais real e imortal do que seu maior sonho poderia. E é por isso que o amor precisa de você.

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Você não me ensinou a te esquecer

Vivia se atormentando em pensamento com coração perdido em um sentimento estranho que nunca antes conseguira dominar sua vida, seus sonhos, seus planos. Guardava escondido no desespero entristecido da boca que calava com sofrimento sua necessidade de abraço com a imagem de um sorriso. E pelo medo de perder a possibilidade do encontro buscava em outros o que queria tanto e sabia buscar muito pouco. Sofria o corpo inteiro, sua alma, sua vida, na busca desesperada pela retomada natural da historia sonhada, esquecida. Não conseguia mais recuperar a paz que sempre soube onde está, a dor se tornou forte, um gigante a colocar distante tudo o que antes conseguia acreditar, fugiu da sua boca, seu olhar, perdidos na necessidade torta de estar certa, de não errar. Foi revendo pedaços da sua historia em estilhaços, caminhos que distanciavam do abraço e que tentava em fuga se perder para se achar sem mais chorar. Sofria em silencio torturando aos poucos o sentimento, buscando pelo corpo o afogamento da carência em outros corpos que aumentavam o tormento de não estar. Queria ir embora, jogar sua alma e corpo para fora com seus lamentos, mas esta fuga não trará de volta o que já não tem sua marca, seu medo, nem pouco importa o que esconde, seus defeitos no fundo de outro olhar. Queria a volta, ter onde recuperar, a porta sem saída que trazia uma vida nova com a clareza do dia, ao mesmo tempo que não poderia mostrar para as pessoas mundo afora que não conseguiria mais dar a volta em tudo que sangrou a sua vida de uma verdade triste e morta, que agora não queria. Buscava, mas não sabia o que

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fazer, se queria se ganhar ou se perder, se queria ser feliz ou esquecer de novamente se amar, poder viver.

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Quando o amor acontece

Triste sofria. O amor resolveu no seu peito arder e sem perceber incendiou com intensa magia todos os seus caminhos errantes com emoção e poesia. Não conseguia mais ver em meio a neblina do querer que sua alma invadia o risco que amar poderia ser para a razão que cruel fazia louca e forte oposição a paixão e a fantasia que explodiam ardentes e ferozes como um vulcão capaz de devastar sem nenhum alarde toda a tranquilidade em que até então permanecia. Mas seguia com toda a coragem, lutando heroicamente contra sua própria covardia, a voz que ouvia do coração que rasgava, sangrava e sentia toda emoção e solidão que seu peito invadiam sem oferecer nenhuma outra opção ou saída que pudesse cicatrizar tão aberta, incerta e publicamente secreta ferida. Não sabia se era o certo, mas queria. Sua alma tatuada por um amor sem palavras voava e enlouquecia. Jamais obteria o perdão do seu sonho se fugisse de tudo que a vida lhe oferecia por medo de cometer enganos abraçando a razão ao invés da alegria. No fundo sabia que se não lutasse choraria de arrependimento um oceano e nele se afogaria simplesmente por não conseguir verbalizar o que seus corações desejavam tanto e em seu corpo doía pela falta de se terem nas mãos, de se dar pelo que percebiam e acreditavam mais a cada dia. Uma frase, dois olhares e muitas vontades em dois sonhos que neles mesmos existiam precisavam de realização em suas vidas. Pulsavam de dor e de paixão enquanto não se diziam com a boca o que o coração já sabia e cansava de louco gritar. Eu te amo.

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Quem sabe isso quer dizer amor

Amanheceram-se no fundo do olhar como manhãs ardentes de sol. Sem conseguirem um segundo notar brilhavam feito estrelas. Não existiam palavras que pudessem expressar o que existia de mais sincero entre os dois. Se descobriram em uma noite de luar entrelaçados a incertezas. Não conseguiam mais pensar em descartar a oportunidade perfeita de poder transformar a solidão em relação sincera e verdadeira. Resolveram então desfrutar os efeitos da entrega inteira que só duas almas que sabem amar podem se ofertar em muitas existências. Era impossível no peito controlar uma vontade poética tão intensa de um no outro provocar sensações de prazer imensas. Contrariar o que nunca trará paz ou qualquer forma de dor ou tristeza e acreditar que só o sentimento é capaz de eternizar o amor com toda sua leveza é o que manterá acesa a iluminar a chama do olhar dos que conseguem se encantar com o calor que sempre brotará da mais doce presença. Vivendo para poder morrer de amor. Amar para realizar o que já se sonhou.

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Tudo que se quer

O mesmo amor que encanta devora o sonhador que prova a realidade sem paz e liberdade pelo que tanto esperou. Morre diariamente ao sentir na carne a dor que vem da imensa saudade que em sua alma arde além da felicidade de viver o que sonhou. Simplesmente não se fez covarde e contra a maldade até lutou. Conseguiu através da verdade se entregar ao que heroicamente acreditou. Nunca a duvida o abraçou. Talvez não faça mais nenhum sentido se sentir perdido, enlouquecido e triste sem calor graças ao que ainda no corpo pode ser vivido do sentimento que outrora foi esquecido adormecido em um canto a dois. O amanhã ainda não se foi. Um sentimento que transcende ao tempo mora no infinito vive além do que ninguém entende ou imaginou, não demora vem e surpreende, chega para se tornar real. O amor não é normal. A maior certeza é a dor que não compensa, mas que se aceita para poder chegar ao alegre dia em que a poesia enfim irá se materializar em amor. Sonho se realizou.

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Universo no teu corpo

Estavam vivos. Sentiam na pele o infinito do amor no corpo que um dia abandonado e perdido outro corpo em pedaços encontrou. Cada detalhe, cada cheiro, cada gosto do sentimento mais apaixonado, urgente e louco devoravam seus sentidos pouco a pouco, embriagavam de desejo a razão. Encantados, não sabiam o que era certo ou errado, se o que sentiam era virtude ou pecado, se o que viviam poderiam definir. Só queriam entregar seus corações feridos, machucados, a um eterno e acolhedor e sincero abraço para repousar todos os seus medos, suas dores e cansaço que o mundo provocou até aqui. Se antes eram tristes, estraçalhados e sofridos, hoje estão com seus corações no paraíso de uma linda e proibida historia a dois. Descobriram o possível nas virtudes impensadas do impossível da anatomia poeticamente encantada dos que valorizam o que há de mais bonito no seu lado mais heróico e sonhador. Caminhando entre perigos, em trajetos tortuosos e imprecisos, não mais duvidam da realidade daquilo que por eles gradualmente foi construído e que aos poucos, contrariando o previsível, o que faltava especialmente completou. Se confiam atualmente em tudo aquilo que outros não imaginam o motivo é a força do infinito que contrariando a razão e o permitido doce forte e intensamente se formou reunindo dos universos em um corpo só.

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Reencontro - Ou os dois lados da mesma viagem

Sabia partir como quem desconhece a doce hora de voltar, como quem não se impede de sonhos materializar, como quem não esquece de quem conseguiu deixar, como quem não tem medo de se entregar. Observava em sua viagem que toda paisagem, cada pintura, cada escultura, cada imagem, trazia no fundo um traço delicado de saudade que merecia ser admirado com poesia e sensibilidade. Aprendia exercitando a sua saudade que toda dor que parte também é capaz de reconstruir felicidade, basta fazer brotar no peito uma infante coragem e na alma uma sábia simplicidade. Que sempre sejam feitas todas as vontades, que para tudo que o coração deseja nunca seja tarde. Que saber reencontrar seja a mais linda de todas as artes, feita de cumplicidade, amor e liberdade. Que ela traga em si a sua própria verdade e com ela o dom da eternidade.

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Volta

Ontem no silencio da noite escura ela deixou a imaginação partir a sua procura. Seus olhos que vazios choravam contrariavam os seus sonhos e avisavam que ali não te enxergavam. Seu coração apertado se sentindo ferido, ensanguentado, magoado, esperava sufocado pelos carinhos, pelo seu beijo, pelo seu abraço. Não conseguia ela encostar seu corpo exausto e em pedaços na sua cama vazia preenchida por detalhes tão delicados que marcavam seus lençóis pelos limites ultrapassados que deixavam de desejo eternos e doces rastros. Não acreditando mais na possibilidade do encontro ser reeditado, ela ainda assim pedia a sua volta em um momento surpreendente e inesperado. Esperava sua chegada pela porta aberta de uma mulher que não era capaz de entender como dois seres que muito se amavam conseguiam sofrendo viver separados.

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Resposta ao tempo

Sentia tocar em sua alma suave o carinho do vento. Pensava com toda a força do seu sentimento o motivo de não conseguir mais sorrir, de não poder mais acreditar que é possível sentir, ser feliz, amar, viver com prazer o que é intenso. Ficou em silencio durante longo tempo deitada no colo dos seus pensamentos só para buscar uma resposta para as interrogações que nela provocavam medo, só para descobrir como superar a dor de um angustiante momento. Pensou na sua alma como um deserto onde não conhecia oásis por perto. Certo dia acordou, não estava mais ali. Seus olhos tiveram a coragem de fugir. Buscavam eles um corpo incerto que vagava aos pedaços em seus sonhos poéticos incapazes de se traduzir, de se explicar, definir, só para atordoar os desejos que ela não ousava mais fingir. Como se fosse uma resposta se conheceram e aos poucos foram se envolvendo, seus corpos em estrondoso movimento gritavam silêncios para seguirem, contrariando todas as possibilidades de fracasso do que estava acontecendo, ir além das divergências de um relacionamento na direção contrária do passar do tempo.

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Eles dois

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Eles dois

Ela ousava. Não tinha medo da vida que antes adormecida agora se anunciava. Era a vontade intimamente despida, sentida e materializada. Uma mulher desconhecida que de prazer se deliciava muito mais com a essência percebida no percorrer de uma indefinida estrada do que com o simples chegar a um lugar que não poderia oferecer mais nada do que uma fria e simples pousada. Se era poesia, desconhecia aquilo que a palavra construía na pele que cobria a sua alma. Uma louca que vivia enquanto sua própria fantasia desnudava. Uma personagem cravada no seio do texto que eu de mãos atadas não mais dominava. Um verso vadio para uma história que pelos meus dedos escorria úmida de uma emoção intencionalmente imaginária. Arte que nua se redigia além do que vivia na língua que tudo expressava. Estava só. Nu de si mesmo. Sem identidade e direito a recomeços. Habitante das sarjetas viciadas e dos medos mais intensos. Entorpecido pela ausência marginalizada de pensamentos, um ébrio banido de arrependimentos. Movido a silêncios pelo desespero solitário do próprio desconhecimento, um imperfeito demônio de si mesmo. Os dois, falsos donos dos seus motivos, andavam madrugando explícitos pelos seus mais pessoais precipícios invadindo dilacerados de pavor os recatados ouvidos dos que se acovardavam ao ouvirem o jorrar versorrágico dos seus alucinados gritos a beira do abismo de seus limites entorpecidos.

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Um dia esbarraram na borda de si mesmos e viveram nesse texto juntos pra sempre.

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Ato

Sempre madrugavam poesia quando se faziam vivos na sensualidade dos seus corpos. Olhares que se tocam, se aproximam e se provocam. Duas taças de sonhos para saborearem um ao outro. Todo desejo que brota não pode ser saciado aos poucos. Vontades não controlam o sabor deliciosamente louco dos versos nas bocas atormentadas que se calam alucinadas pelo silêncio sedutor das palavras. Pele eletrificada para ser saciada. Gestos sonoros amplificam o desejo de que algo lhes falta. Busca incessante e desesperadamente necessária Movimentos alucinados desprovidos de alma Sons exalam sensações indizíveis e mágicas. Exaustos com a busca terminada. Coração acelerado. Respiram calma. Vida Consumados sonhos.

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Não se puderam

Não se puderam evitar. Eram dois amantes que traziam no pensamento o medo de se entregar ao mesmo tempo em que seus corpos eletrificados perdiam o ar. O que a razão duvida o amor é capaz de acreditar. Lutaram desesperadamente um contra cada sentimento até espatifarem suas razões contra o olhar. Exaustos da batalha se perderam. Em seus corpos mapas para encontrar o que não conseguiam mais desafiar. Dúvidas germinavam em seus pensamentos. Diferenças cortavam fundo seus desejos mais intensos. Apesar de navegarem contra os ventos. Perderam a guerra para ganhar o amor.

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A dois

Eles se silenciavam alheios as razões em um universo pessoal com a mais total e plena ausência de palavras. O que o silêncio abriga as vezes o verbo mata. Tempo que não ousava movimentar um fragmento sequer da vida que estática loucamente se agitava através dos olhos que se entrelaçavam além das possibilidades mais poéticas e inesperadas. Quando a poesia atinge o coração dispara. Nada poderia perfurar a razão com mira mais exata. Sangravam em versos e com ausência de voz se inebriavam. Entorpecimento da alma. Versos de nada. Poesia evaporada. Uma história a dois nunca está contada.

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Entre os escombros dos seus pesadelos

Lambiam feito gatos os seus desejos, os seus sonhos e os seus medos. Não eram inimigos, mas não se sentiam companheiros. Queriam juntos, mas não se sabiam inteiros. Deixavam suas metades perdidas em lugares que desconheciam o endereço. Rota de segredos da impossibilidade de estar perto de si mesmo. Nasceram acreditando no poder do ser verdadeiro, na capacidade humana de desvendar segredos, mas com o decorrer do tempo perceberam que os enigmas mais complexos estão tatuados no lado de dentro do peito onde nunca se tem acesso completo, com inúmeras restrições ao pensamento. Réus confessos, nunca se acharam de tanto se procurarem em outros corpos sem sabor, alma e cheiro de intenso. Talvez tenham sido cruelmente devorados pelos seus personagens socialmente aceitos. Talvez ainda possam se resgatar entre os escombros dos seus pesadelos.

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Verseando

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Versear

Me entrego a versear a minha alma Sou verso, carne, sorriso e lagrima Me cabem todas e nenhuma palavra Me grito silenciada Pela realidade a que me sinto obrigada

Me deixo ser devorada e respirada Quando me entrego faminta e inspirada A ser insignificante significada Da mais ousada balburdia proseada Ferozmente pelos dentes rangentes rasgada

Espero em versos cheiro de gente urgente perfumadamente encantada Almas de sabores sedutores Agridocemente aromatizadas

De tudo sou um resto desconexo de nada em poesia visceralmente barata Derramada, escorrente e declamada Pela boca de sonhos ardentes afogueada

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Brinco de ser. Imaginada. Não escrevo meus verbos navegantes na água Sou jorrada na minha cara De imaginação indecente alucinada Arte descrente desenhada Em letras despidas, arranhadas, machucadas Que verseando são verseadas Na minha mais doce enxurrada Que deseja molhar nua tua alma. De prazer. Vem me ler.

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Com amor

Desenhava ácido traço Arte do mais concreto abstrato Resto inteiro de um fato Distorcido e incompleto retrato

Uma história em mil atos Pedaços da ausência de espaço Não verbalizados, expressados Em carne texto tatuado

Mistério não representado Sofrido, sentido, amargurado Por seres perdidos Desconhecidos encontrados

Trajetória maldita Bendita entre beijos e abraços Desejos materializados De corpo e alma devorados com amor.

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Impossibilidades

Distante de prováveis impossibilidades Pela razão que não me cega com seus ferozes olhares Revelo nas mãos transpiradas de imagens Digitais de paisagens me anoitecendo arte

Madrugo poesias sem medo da verdade Em céu deserto aberto de coragem Por sentimentos sinceros de rasgada realidade Em vestes complexas de diversidade

Tecida de palavras que te beijam e me ardem Protejo o solo onde semeada escrevo frases verseadas com estrondosa serenidade E sonhadas de amor em corpo de sensibilidade

Literária explosão poeticamente assumida sou mulher em idéia escrita devorada e não consumida Pela folha de papel rabiscada que encontrada perdida Guarda a historia incontada da sua essência refletida A vida.

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Todo poeta

Todo poeta se embebeda com uma única taça transbordada pela seiva amarga do mel da palavra e se maltrata despertando os mais intensos versos da sua alma que sangra corpo nu em chagas de letras hemorrágicas.

Todo poeta é um ser profano de razões racionalmente imaginárias mergulhado de amor em uma paixão platonicamente literária, um paraíso de dores entorpecidas lentamente extravasadas por traços de uma estética poeticamente antropofágica,

Todo poeta é uma cega lamina que afiada estraçalha sedutora o papel entre desejos, textos e lágrimas. Todo poeta é no fundo aquilo que da vida nunca esperava. Infinito. Criança. Poeta. Nada.

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Ciclo

Em mil folhas rasgadas palavras dilaceradas são delicadamente tatuadas de poesia ferozmente devorada pelo pensamento que intenso por dentro de sentimento não se cala quando se deixa exposto nos olhos visivelmente em chagas pela escrita humanizada deserta nua em oásis dela mesma verseada Antropofágica a procura de vidas desesperada através do nada mastigando eternamente a idéia indefinida represada durante sua inconsequente tentativa cíclica literária de esfinge impossível com marginal fé alucinada no pseudo real surreal verbal da imaginaria alma que alquímica no ventre gestando racionalmente amarga o lado doce da poeta que mel em fel se deixa germinada nas frutificadas linhas que dela nascem quando a razão suicida se mata com ácidos de versos que queimam secretamente afogadas no seu fogo oceano de salgadas letras lagrimas as emoções entorpecidas da superfície imprevisível da jornada infinita, improvável e interminada…

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Até quando?

Porque sempre matamos os anjos? Escrevendo infernizados nos atormentamos Covardes a nós mesmos com defesas profanamos Porque diariamente não ousamos? Como é fácil ser pela metade Ser humano Até quando enganados nos enganamos? Somos seres a espera de quês, quens e quandos Não ligamos Sem vida nos desligamos Estamos protegidos enquanto não nos encontramos Esquecemos como nos emocionamos Até quando? Até quando? Até quando? Até Quando? Até Quando? Até Quando? Até Quando?

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Não

Minha língua vela Em barco a tua boca Alma nua que veleja Saliva oceano feito louca Desejos navegáveis Palavras tempestades Através da pele Que te sente toda Silencio maremoto ácido gosto de úmidos versos que escorrem pelo corpo Molhando loucos De afogamento o fogo Da mais pura vontade De saber teu porto Inseguro e solto onde mora meu desejo torto incendiado de felicidade Quero só ver de novo O que nunca vi Nas marcas jovens Cheias de saudade no meu próprio rosto Aqui em meu peito mares Incontroláveis paladares Entre luas verdades Jamais covardes

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Corajosas circulares Em céus de olhos Nu de sentimento Meu pressentimento Na ausência rota do teu sonho lembro e me desoriento na realidade Bússola errante Arrepiada trago Pensamento materializado Na fumaça do teu abraço Gozo em silencio enevoado Navegando selvagem No infinito da arte Dos teus gritos vorazes Em ventos Meu perigo Teu vendaval Dança que arrasta os meus ouvidos Êxtase Paraíso Me perco no mar Desfaleço em brisa Me salva de ti Não

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Provocante A trouxe para perto. A respiração era pouca. Passou as mãos em seus cabelos. Beijou a sua boca. Escorreu pelas costas retalhando de desejo a pele toda. Tirou sua roupa. Deslizou sua paixão pelas curvas salivando vontades cada vez mais loucas. Mordeu suavemente as suas coxas. A deixou com as pernas tremulas e soltas. Sedutora e rouca. Liberdade suada. Provocação molhada. Ousadia desejada Ela toda Esperava ser amada até perder a conta. Das horas Do seu. Prazer. Mata com beijo. Ressuscita o corpo provocante de desejo. Se devora e implora para sentir seu gosto,

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seu cheiro. Enlouquece a rota aleatória de prazer com a língua torpe na pele agridoce do teu seio. Sem receio. Bússolas estão no movimento dos seus dedos. Nu, alucinado em pelo Se faz oceano Intimo e verdadeiro Morde sem dor cada pedaço que treme de amor sem ter dele medo. Descontrolado Ritmado Descompassado inconfessável imperfeito. Para chegar com o outro no céu inteiro de si mesmo.

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Carnavalizando

O meu coração ritmado pelo samba apaixonado sai do meu peito rasgado tamborim descompassado na fantasia de um corpo suado com desejos da pele em flor pra brincar teu carnaval Mascarado com sede de amor sem saber onde começa o sonho e se um dia na dor do peito sangrando no resto do ano ele só se acabou vai brincando do seu lado malandreado de um jeito moleque carnavalizado com o confete e a serpentina que saem dos olhos apressados da menina vestida de Princesa com os retalhos de quem fantasiando e amando já a imaginou Se não sabes quem sou todos os dias na sua Lira aqui estou Amanheço Colombina entardeço Pierrot e a noite menina também Arlequim eu sei que sou Em cada dia de folia imagino meu amor em plena avenida desfilar sonhador sambando eu sinto no todo

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um Rio profundo de festa e calor desaguando seus versos no corpo poético que desconhecidamente mais perto querendo já me conquistou Saudades do tempo que nunca passou Meu peito em silencio reverencia o carnaval que não acabou a marchinha que da lembrança do romântico nunca se apagou Vou dançando em cima do Corso que a historia eternizou a folia mais bela e pura que aqui já se admirou Não me leve nem bem nem mal fica aqui que isso só é carnaval Escrevo juntinho com o compositor a paixão que vivendo um dia se encantou pela escola de samba do meu grande amor a Porta-estandarte de um sonhador Eu sigo brincando com meu coração com a intensidade da minha emoção Sou uma menina Não sou ilusão Do futuro quem sabe é só a razão Eu não vou esperar o meu bloco passar Aproveito a Folia sem nunca cansar sabendo que a quarta é de cinzas e que tudo vai se acabar Só para a dura vida encontrar seu lugar? Será?

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Eu não acredito Vem brincar comigo? De ser Feliz

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Coração de um Anjo – Livro II (Trecho)

Aprisionado na caverna da multiplicidade de si mesmo busca o Anjo em uma imagem desencontrada frente ao espelho distorcida e guardada feito ferida amarga na voz silenciada do seu peito a historia estraçalhada da origem dos fantasmas emaranhados nas linhas trágicas do seu desassossego em um livro poético escrito inverso no voar de um poeta avesso contraditório de amor pela complexidade do seu texto e confuso de dor no seio do leito profundo e caudaloso do rio sem curso do seu medo escrito em sacrifício a sangue turvo, denso e provocante na carne de angustia sem fé gritante em lágrimas de dor pelo desejo de se achar entre pedaços e palavras distantes caladas no ritual errante da profanação dos seus pesadelos milimetricamente desencontrados

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na rota obscura e louca da desconexão do seu paradeiro devorador, antropofágico e imperfeito mascarado sem cor pelo surdo apelo de um corpo libertário de traços em chagas quase inteiro pela salvação dos seus dilacerados sonhos inocentes apaixonados que pelo mar são salgados a invisíveis olhos negros cansados do gosto amargo de ser tristemente rotulado Anjo nu literário sem corpo e asas verdadeiros encravado a fel nas marcas do retrato desbotado idealizado de amor perfeito onde abraçado quase vive naufrago no oceano imaginado em inferno pensamento pela violenta falta do que não compreende como verdadeiro acerto dentro de um predestinado mapa versadamente tatuado na pele transparente e clara do que sem razão não tem direito a paz em sua existência de improváveis imensos erros inconstantes pela condição de ser do ar irrespirável navegante desprovido da liberdade inebriante

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infiel na clareza dos horizontes que possam com paixão livrá-lo da prisão cruel e angustiante do desacerto das sombras lancinantes que retratam e assombram o eu desconhecido de um ser que morre e renasce eternamente em uma batalha imprevisível e conflitante no sagrado coração da sua própria alma.

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Coração de um Anjo – Livro II (Trecho segundo)

No lugar mais inconfesso e profundo da sua abismal e turva calma é o Anjo penetrante e confuso a sua mais cega e impiedosa navalha retalhando sem forças e prumo a ausência da própria falta em seu corpo inocente sem rumo penitenciado com a lâmina suja pelo doce fel do sangue imundo das suas internas batalhas. Derramado nos rastros enlameados da loucura que falsamente o consome e diariamente o devora com uma calma insone renasce esquecido, dividido e com fome de um amor que simplesmente se esconde no vazio improvável dos Anjos crucificados que angustiados imploram a tola piedade dos Homens. No seio terno das suas mais cruéis e devoradoras asas sentimentos conflitantes são ferozes habitantes e armas que se guardam infiéis

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junto as vestes das suas palavras sob a forma de esculpidas multidões dilaceradas pintadas incoerentes com a saliva indecente das cinzas vulcânicas desbragadamente jorradas de emoções incandescentes urgentes lentamente resfriadas em lágrimas impuras de lava pelas sombras severas que inclementes na pele feito sementes foram a ferro e fogo semeadas no solo fértil e caloroso da carne de frieza ardente em paz racionalmente esfarrapada. Fruto da falta de fé impiedosamente resignada religiosamente incoerente pelo fanatismo duramente desvirginada não passa ele de uma imagem adormecida sem nexo deflorada em marcas reconhecidas na pedra do coração entalhada em veios de letras poeticamente mal traçadas banhadas a semelhança do olhar sofredor que se debate em chagas em uma infrutífera procura que sedenta de veneno

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nunca se basta na sua rota maldita angelicamente inanimada pelo desespero da angustia bandida em pele imobilizada por incerta vez ter implorado sem entender o sentido do que procurava a um poder jamais pela razão visivelmente percebido sem máscaras um dia ao menos por um mísero segundo infinito não ter se reconhecido na trajetória cruel e fantástica que o tem amarrado, mastigado e impedido nascer em uma história sem as glorias e o sabor vaidoso das vitórias de uma existência sem perigos como a dos seres perdidos e seus falsos limites nunca rompidos que se sacrificam no mitológico paraíso da ausência de sofrimento em paz mortalha abençoada no imaginário limbo do inverso inverno da sua eternidade.

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Coração de um Anjo – Livro II (Trecho terceiro)

Pelo desespero além do tempo Que em pensamento é imaterializado Sofre só um Anjo faminto em um corpo roto e esfarrapado por entre remendos de fogo rebelde imortalizado que em carne é vivo quando se anoitece madrugadas atormentado pela dor indescritível que em espírito amanhece imprecisa e incomensurável disfarçando infernos infinitos, métricos e normatizados com a superfície da pele mortalha que o concebe ser enraizado ainda se debatendo desesperadamente alado bendito em seus males pelo inconsciente anunciados nas trevas de um relicário secretamente esculpido a lodo pelo quase pecado de nos versos um morto feito sagrada fênix ter dolorosamente das cinzas ressuscitado

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nas terras em que habitam imaginários seres dilacerados pela capacidade maldita de com desesperança se devorarem devorados ao sangrarem suas historias no silêncio verbalizado dos proféticos e secretos poéticos livros mágicos

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Asas de Anjo

Escondia nos olhos Sonhando Um par de asas de anjo Com elas ia sempre ao encontro dos versos que espalhava pelos quatro cantos dos corações humanos Não esperava muito Não esperava tudo Nem esperava tanto Só amor e encanto

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Paraíso

Derramou mel nos olhos Passei a língua Mordeu meus lábios Arranhei sua pele Provou meu beijo Toquei seu desejo Percorri o consentido Devorou meus sentidos Nus encontramos O paraíso

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Pensando poesia

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Coração de poeta

Coração de poeta não bate impunemente, sente na carne a dor dos sentimentos urgentes que escorrem pelos dedos em um apelo mudo, inconsciente. Coração de poeta nasce livremente, mas depois através do amor vai se prendendo apaixonadamente pela vida que o arranha docemente. Coração de poeta não chora secretamente, ele oceana seus sonhos publicamente. Coração de poeta existe simplesmente, apesar de alguns acharem que ele é apenas um desenho no papel a sua frente. Um coração de poeta pode ser apenas um coração, mas ele guarda no peito entre segredos todo seu amor. Pela Poesia.

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Fluentes emoções

Doem as minhas vulneráveis mãos sempre que derramo entre dedos sem medo ou restrições as minhas tórridas e fluentes emoções. Queimo ao escrever dolorosamente a pele que se entrega desesperadamente as mais urgentes e literárias sensações. Sinto a carne quase que inconsciente tremer cheia de desejos e paixões diante dos poéticos frutos decorrentes das versáveis e improváveis ilusões. Apaixonadamente me deixo ao sabor agridoce e quente do que penso entre múltiplas e imperfeitas contradições. Não me limito ao que foi superficialmente definido para impedir as mais diversas e livres manifestações. Meu processo é nu de recriações. Sou simultaneamente céu, inferno e chão diversos de provocações. Trago em mim e compartilho sem aceitar crucificações toda nudez da escrita sem norma, pureza ou condições. Amo a estética maldita repleta de transgressões. Vivo completamente desprovida de métrica e limitações. A não prisão da forma é meu prazer, minha quase realização. Para chegar ao todo preciso do gozo indecente da libertação pela língua que ousa lamber a palavra diante da repressora e covarde normatização que tenta inutilmente calar a letra verbalizada com mediocridade e falta de informação. Sou publicamente contrária a todos que se refugiam em falácias para criticar o unir versos da inovação. Admiro incondicionalmente a globalização como forma artisticamente democrática e irrefreável de expressão. Me alicerço humildemente em intensa e constante transformação. Desprezo a crítica como instrumento utilizado para falsamente ratificar aquilo que é considerado

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correto, perfeito ou repleto de razão. Nenhuma arte deve sofrer censura ou castração. A natureza do ser humano é baseada fundamentalmente na contestação. Não existe literatura autoritária nem arte que não seja marginal por opção.

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Entre linhas

É da parte mais rebelde da humanidade que se entrega confessa a eterna busca da satisfação estética de suas necessidades que surgem devoradoras e poéticas todas as múltiplas faces distorcidas da arte. Cabe sempre ao poeta o todo da sua mais incompleta metade. Escrever incondicionalmente os traços nus com simplicidade das mais variadas e difusas imagens pela pura necessidade de transparência infinita da sua própria e preservada identidade. Tecemos nas entrelinhas tudo aquilo que os olhos pelas mãos invadem sob a ótica contaminada da emoção perdida entre suas públicas e espelhadas verdades. Não existe uma razão única que absolutamente defina universalmente a realidade. Sem a convivência harmônica com a imaginação e a vontade perdemos enlouquecidamente o sagrado direito a normalidade. Personificamos voluntariamente o corpo da mais insólita poesia com infantil ousadia e anciã coragem. Demonstramos que criatura e criador só sobrevivem através da cúmplice antropofagia de idéias que simultaneamente os invade. Transgredimos com inovação até mesmo as barreiras invisíveis da liberdade. Nossos limites se aconchegam indefinidamente na nudez ardente do seio fértil das mais impensadas e gélidas impossibilidades. Ansiamos contraditoriamente que a agonia dos versos desesperadamente entre os dedos nunca se acabe. O pesadelo da página em branco diariamente com violência impiedosamente nos invade. Não desejamos uma vida covarde nem tampouco que o rigor da norma autoritária nos

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torture friamente e mate. O que nos desperta apenas ĂŠ a necessidade.

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Versos visceralizados

Meus rastros de lágrimas e sangue aleatoriamente espalhados entre versos mutantes literariamente errantes me espelham simplesmente no lugar onde insones rondam com fome ferozes abutres de lodo a imagem e semelhança dos Homens que se intitulam animais superiores inquisidores dos seus quase semelhantes. Trajetória bendita que marco exclusivamente com a imaginação em carne viva religiosamente escrita que ficcionalmente me consome traço a traço enquanto me fortaleço no seio do meu texto retalhado pelo movimento reflexo em papel cortante manifestado descuidado através da expressão maldita do pensamento externalizado que se grita em silencio entre distantes e aproximados. Meu corpo são, incompatível com a razão, nu e indeterminado, resiste a fuga sem medo da previsibilidade dos fatos se revelando alma proibida em tema não cicatrizado na pele historicamente mal lida dos ocidentes falsamente orientalizados personificados por sobreviventes a escrita que se retratam avessos pelos olhos distorcidos milimetricamente em verbo lente captados no momento imprecisamente exato em que se enxergam civilizadamente deformados em preto e branco formalizado pelos seus limites fotograficamente torturados. Em todo coração na ansiedade mergulhado tentada transgressão do redigido não consumado é ato involuntário vomitado pelo cheiro do desejo em meio a um deserto imperfeito continental literário cruelmente inexpressivo e imaculado usado como instrumento pela calmaria do sentimento narcísico superficialmente autoritário para sem motivo aparente deixar aprisionado o reagente

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poeticamente apaixonado com a justificativa indecente de ter ele inocente frutificado o justo pecado da incompreensão do rebelde em lama batismal purificado. Meu escrever propositalmente crucificado é prova discutível e incontestável do martírio voluntário a que me submeto em defesa confessa dos meus versos visceralizados.

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Escrevo

Não deixo de viver porque escrevo. Estou viva e escrever é uma necessidade maldita. Sou verdadeiramente carne, osso, coração e letras que buscam lutando se harmonizar de forma contraditória e imperfeita. Só no texto abrando minha inconsciência. Verbo é conseqüência. Está claro que na maioria das vezes não falo sobre o que exatamente no momento estou sentindo, afinal escrever não é a arte do imediatismo, literatura não é jornalismo. Criamos sempre entre inferno e paraíso sem jamais conseguir definir minimamente a geografia do nosso mais confesso e particular precipício. Temos um indeterminado compromisso de não ter nenhum com o ato de traduzir integralmente o que quase foi dito. Distorções são essenciais aos criativos. Contorcemos e distorcemos o pensamento, guardamos o que sobrou como se fossem fagulhas de vento nos arquivos que em silêncio publicamente nos desconhecemos e depois redigimos. Ao agir assim revelamos codificadamente cada um de nossos desejos mais cítricos como se neles não existíssemos. Descobrimos finalmente depois de tão violenta e interna disputa que escrever é uma arte falsamente absurda de ler gente com paixão e sacrifício. Quem somos? Leitores ou livros?

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Traço

Em cada rota imaginada traço palavras. Escrita desenhada despida e não mais silenciada. Obra imprecisa tecida com saliva em pelo chão da estrada que nada mais é do que a vida de um poeta simplesmente madrugada no seio vazio e ardente do frio da alma. Poesia encantada, seduzida e amada pela força das letras tatuadas na pele antes imaculada do branco e sagrado papel que não diz só mais nada. Com vinho doce de fel manchamos folhas ao deflora-las. Ato de mãos dilaceradas. Agonia e amor em arte materializada. Nosso todo em muitas partes. Como retratá-las?

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Coisas poéticas

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Pseudo ensaio de uma poeta

Prefiro a obra com todas as suas chagas expostas do que o ensaio dela própria. Misturo aqui todas as minhas contradições e falsas filosofias de poeta para escrever um texto que possa, acima de tudo, deixar minhas idéias soltas, desprovidas de regras, nuas em pelo a cavalgar em um mundo que desconheço porque nele vivo e corro o perigo de ser normal. Gosto do sabor de inferno e paraíso que a literatura provoca e faz escorrer pela boca até alcançar as folhas de papel, sejam elas soltas e reais ou friamente virtuais aprisionadas na tela de um computador. É a agonia do artista que move a criatividade e a provoca. Beijo envenenado de doce sabor que desliza pela pele toda da forma mais sensual e sedutora. A morte está próxima se as letras não forem soltas. É preciso arte, liberdade. É necessário o todo ao invés da parte, é essencial a multiplicidade de coisas, sentimentos, palavras e pessoas. A ausência de limite é a única condição da arte, inclusive da literatura. Artes públicas criadas em solidão feroz por seres enclausurados em suas paixões e em seu amor, dolorosos sentimentos para o criador. Contradições são necessárias a todos nós tanto quanto é necessária a amplificação da voz. Coragem de rasgar palavras que se regeneram, ousadia de sangrar sentimentos que se recuperam, irresponsabilidade de derramar idéias para espalhá-las. Nada mais pode destruir ou sufocar aquilo que insiste em não se acomodar, a não ser a falta do desejo de criar.

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Pseudo ensaio sobre a criatividade

Acredito que sem criatividade não há texto. Ela é o que o escritor tem de mais avassalador, incontrolável, angustiante e verdadeiro. Sua simples ausência provoca medo. Medo de não conseguir transgredir a obrigatoriedade da norma para dar a obra o tom inversamente perfeito daquilo que não foi antes convencionado que seria o certo, o aceito. Ter o direito de escrever depende intimamente daquilo que a criatividade oferece sedutora e cheia de vontades ao nosso desejo como se fosse um beijo surpreendente que nos revela por inteiro. Seu desaparecimento é um torturante pesadelo que aniquila, esvazia e evapora, matando o texto de inércia mesmo antes de ganhar forma. Nada tem sentido e o que falta sufoca. Sem criatividade o título não passa de coisa solta, fantasma da nossa impotência mais louca a nos assombrar com imaculadas folhas brancas e mortas, carentes do sangue das letras que aguardam solenes e rigorosas uma heróica reação nossa para restabelecer o curso da história. A rebeldia criativa é a única coisa que importa. Não é válido o exercício que a ousadia não provoca, ocupa seu espaço, direciona, transforma. O texto está vivo, não pela quantidade de horas transpiradas, mas pela capacidade de encantar e seduzir a alma entregue e voluntária do leitor. É preciso um prazer irremediavelmente criativo para que o texto dê seus ares, ganhe contornos, seja convidativo. O paraíso da criatividade talvez resida na multiplicidade de possibilidades de conquistar em letras a expressão mais sincera, transparente e verdadeira do que pensa e sente o criador. O imaculado céu da técnica precisa invariavelmente do inferno artístico,

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desesperado, urgente e criativo do escritor. Se durante o ato literário não se fundem completamente estes universos antagonicamente necessários o texto exaustivamente buscado não consegue ser materializado.

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Pseudo ensaio sobre a inspiração

Não acredito que só a inspiração faz nascer uma obra, a idéia de criação exclusivamente através dela é ilusória. Escritores também humanamente se dedicam, se exercitam, transpiram e se cansam. Um texto não se manifesta simplesmente a partir do nada, sua anatomia física e espiritualmente literária é baseada essencialmente em atitudes determinadas, dispostas, organizadas e disciplinadas. Não existe um trabalho literariamente escrito que não tenha sido construído através de processos exaustivos e complexos para alcançar um objetivo previamente definido. Todo escritor é um operário de palavras que trabalha única e exclusivamente com a lapidação diária de sentimentos, idéias, opiniões e sensações, sejam elas reais ou imaginárias. Para a inspiração não são necessárias a prática, a determinação e a paciência para buscar a forma exata. Ela se basta e isso não basta para um escritor. A literatura pede mais que inspiração, exige uma dedicação quase que integral a sua causa. Ela precisa de empenho, vontade, humildade e uma coragem diária de reescrever até encontrar um texto que satisfaça as suas mais pessoais aspirações de autor. A inspiração de fato existe, não é uma fantasia do leitor, apenas não é a única que sobrevive e alimenta o árduo e sedutor trabalho de um escritor.

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Amor de Anjo e Lua

Ao recobrar a consciência se viu refletido em outros olhos que não os seus. Quem se refletia também não era ele. Era outro e ele ao mesmo tempo. Descobriu-se então corpo estranho nele mesmo. Um novo corpo para velhos sentimentos. Um abismo puro de incoerência e medos. Ali estava, de olhos abertos e alma deserta, a ser observado de perto por uma figura de simplicidade complexa. Encantado, perguntou quem era ela. Ela era tudo e era ele também. Era algo e era alguém. Contornos arredondados, pele clara e brilhante como seres humanos não tem. Um ser que não se sabe o que é, nem de onde vem. Observou então com cuidado cada detalhe do corpo dela. Percorreu alucinado todo o desenho delicadamente abstrato da lua que ela era. Exausto, adormeceu em seu colo enluarado como se fosse um poeta. Enquanto dormia, ainda sob o efeito do desgaste que o exercício da paixão nele fazia, a lua confusa desaparecia. Fugia assustada por ter conseguido realizar o que negava, mas desejava nas suas mais secretas fantasias. Tornava-se ela neste momento, em completa mistura de sentimentos, realidade e magia.

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Pseudo ensaio sobre o ato de escrever ( ou não) – Uma confusa provocação

Escrevo. E quanto mais escrevo menos escrever me basta. É uma espécie de agonia, desassossego, tradução em movimento puro da minha alma atormentada. Sentir em letras não necessariamente é uma forma clara de dizer o que se passa. A vida quando é redigida tem que ser intensa e imediata. Não pode ela cair em filosofias, sejam elas eruditas ou baratas. Ela tem que ser imprecisamente exata. Vida na veia sob a forma de palavras. Escrever não é uma arte abstrata, tem que sangrar aquilo que fala, tem que escorrer aquilo que sente, tem que ser um ato alucinado e urgente. Tenho total convicção que não sou de academia, sei que escrevo despida de regras, orientações, pudores e hipocrisias. Escrevo buscando a mais vagabunda e vulgar das poesias, a que só respeita a sonoridade, a pseudo verbalização do texto, a sensação mais audível, a conversa companheira, prosa das esquinas, cumplicidade perfeita, via de mão dupla, o convite a fantasia. Não pretendo ao escrever ser aceita na mais alta roda da literatura, o que penso a respeito da forma como se escreve pode vir a me rotular como absurda. Acho covarde a inserção de tarjas na arte e na cultura. Quero apenas me libertar da loucura travestida de desejo de redigir tudo aquilo que sinto e percebo. Só que quanto mais escrevo menos me liberto, mais me encarcero. Prisão eterna, agonia perversa, desespero. Dependo do texto. Sou e não sou o que escrevo. Sou e não sou quem existe. Tudo depende exclusivamente daquilo que se pretende, de como está sendo lido, da capacidade de alternar conscientemente discursos que se

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contradizem sem a culpa ou obrigação de manter uma única trajetória. Prefiro circular, gosto da capacidade incontestável dos ciclos de manifestar sua capacidade de ir e retornar. Se não se vai não se volta com o conhecimento necessário. É preciso completar o itinerário das emoções propostas. A ida sempre tem que ser simultaneamente a volta. As palavras não devem ficar perdidas e soltas, elas tem que conhecer a a rota proposta. A delimitação entre inferno e paraíso é tênue. Escrever é tomar a consciência da existência dos mais insondáveis abismos na alma humana. A paixão por escrever está na necessidade quase suicida da busca pelo abismo. Abismo de quem se é, de como se insere no mundo. Redigir a partir do raso para mergulhar no profundo, ausente de medos da mais visceral exposição de pensamentos e idéias. Não se deve levar o ato de escrever tão violentamente a sério. Sempre contradigo meus próprios textos.

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Se queres

Se queres os meus versos eis aqui em tuas mãos Alguns falarão de dores outros de amor, paixão Se queres a minha boca nua e cheia de emoção eis aqui minha palavra solta em tua imaginação Mas se queres a minha alma eis aqui uma revelação minha alma é de poeta não é possível tê-la não

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De amor e anjos

Sonhei um dia que o amor morria alvejado por tiros descontrolados pela mais letal ausência de beijos e abraços. Todos os olhos secaram, as bocas antes vermelhas esverdearam, os corpos ficaram intocados, os desejos se apagaram, os medos se agigantaram, os que estavam perto se separaram, os que estavam longe não se aproximaram, o que era frio ganhou espaço, o que era ardente foi apagado. Os olhares ficaram desencantados, os sabores amargos, os cheiros sufocados, o som abafado. Não existia mais toque, sentido, pecado. As madrugadas perderam o que tinham de mais sagrado, o segredo, o não revelado. Não havia mais ninguém ao lado, colado, encaixado. Era o fim do mundo, era o fim de tudo, acabado. Acordei. Vi um doce menino de asas sorrindo na minha cama sentado. Falava me olhando com carinho e cuidado que tudo tinha sido um sonho, que enquanto existirem anjos o amor está a salvo. Eternizado.

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Era uma vez....

Era uma vez uma menina nuvem e um menino terra. Os dois se gostavam muito, mas ele não conseguia chegar perto dela. Do chão ele olhava encantado para a menina de vestido azul e sorriso largo. Ela lá de cima olhava para baixo, para aquele menino que apesar da roupa negra tinha por ela um coração imenso, uma delicadeza de poeta e um jeito calmo. Ficavam os dois, cada um do seu lado, imaginando uma forma de ficarem juntos, felizes, em contato, um perto do outro, abraçados. Pensavam, pensavam e não encontravam. Certo dia, borboletas que todos os dias passeavam pelo lugar onde os dois a distância conversavam começaram a observar o drama que eles viviam com atenção e preocupadas. Como elas poderiam deixar um sentimento tão lindo separado, cada pedaço para um canto, sem conseguir alcançar a magia do contato? Concluíram então que precisavam fazer algo. Foram elas ao mágico dos sonhos e pediram um equipamento fantástico capaz de fazer voar o menino até o espaço onde ficam as nuvens sem nenhum risco e com todo cuidado para não machucá-lo. Receberam então um aparelho engraçado, um patinete planador para dias ensolarados. Só que tinha um problema. O combustível precisava ser providenciado. As borboletas espertas resolveram isso rápido. Retiraram um pó de suas asas e espalharam no patinete por todos os lados. Ficou um espetáculo. Felizes, levaram rapidamente ao menino e o ensinaram as manobras mais diferentes para que se divertisse com a nuvem durante o passeio tão ansiosamente por eles esperado. Mal aprendeu o funcionamento subiu o menino no equipamento todo

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apressado. Chegou de surpresa até a menina nuvem e chorando sorrindo lhe deu um abraço. Agora o amor dos dois poderia ser materializado.

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Um sonho de coração

Um menino feliz adorava fazer do coração doce e azul de alguém que o amava uma doce e confortável almofada para descansar seu corpo para acarinhar sua alma para se proteger um pouco para amar alem das palavras Ali o menino relaxava para se proteger do mundo para apagar as magoas para deixar de ser inseguro para secar suas lagrimas Aquele coração confortável que o menino amava também no sono dele sonhava Tinha com ele um cuidado Dos que se preocupavam E queriam ver seu bem Em todos os caminhos trilhados

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Com carinho inexplicavel Segurava o menino bem apertado para não deixa-lo cair para faze-lo sentir Que estava sempre ao seu lado O mantendo sempre aquecido Com um doce sorriso e um enternecido abraço Era o coração azul O colo mais lindo E mais encantado Que alguém poderia Um dia ter em vida e sonho encontrado Eram dois Coração e menino apaixonados

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A mesa de escrita

Sentava olhava para ela e pensava na vida. Ficava horas perdida em imagens pelos olhos não recebidas. Sonhadas, mágicas, despidas da realidade mais ácida da vida. Não se cansava de ficar ali parada imaginando encantada a anatomia poética das palavras por ela escolhidas para desenhar com calma a poesia ainda não germinada as historias não redigidas Ficava ali sossegada aparentemente esquecida abraçada a sua mesa de escrita confortada e protegida até a hora de ser surpreendida pela assustadora visão do seu coração no papel

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Inspiração

Uma vontade feroz e descontrolada me chega violenta sem ser convidada rasgando meu peito com desejos em brasa, me querendo ver versada e apaixonada. Respiro sem medo racionalmente alucinada minha necessidade nubladamente clara de com meus dedos em movimento atravessar a fronteira densa, antes impensada, da criatividade urgente transformada sensorialmente em palavra. Me entrego sem nenhuma condição de tempo previamente mensurada ao que antes simplesmente denso sentimento agora era nada, folha em branco onde sem constrangimentos nua me deixo invisível descrevendo o desespero que vou mordendo entre sorrisos, silêncios e lágrimas. Me penso real e imaginária, me desfaço metáforas sangradas, me reinvento, me corrijo, me reescrevo, até sentir pela sensibilidade jorrada um corpo inteiro, perfeito no texto em que emocionalmente filmada me acho improvável, abstrata. Ainda inconformada me volto insistente e virtualmente cansada ao tudo sem nada, a estrutura isolada incapaz de já ser compreendida, percebida, acolhida, compartilhada. Reparo, desconcerto, observo, me afirmo, me nego e ainda sinto avassaladoramente urgente que necessariamente perder é o que me falta. Percebo a incerteza de não ter conseguido encontrar angustiada a forma encantada, precisa, verbalmente imaginada. Tento teimosa e indeterminada concluir a tarefa que em meu corpo foi sem consentimento pela alma inseminada. Imagino com paciência o universo das letras frutificadas que unidas, paridas, me deixam mais humanamente semente germinada. Processo lento de lapidação atormentada que meu coração

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com sua solitária ausente calma, trancafiado devorava enquanto em segredo se punia e aguardava. Nada me sobra ao que me falta além da luta pela quase impossível medida definida, esculpida, concretizada. Cada linha musicalmente na métrica inserida afinada no instrumental contexto da historia acusticamente orquestrada. Transpiro a sinfonia não audível que desvendo humildemente nessa inglória mental jornada braçal de literatura em prosa poeticamente operária. Obra que quando concluída é minha marginal morada, em meu corpo publicamente refugiada, de sonhos e pesadelos edificada, minha carne indecente pelo ato de se ler supostamente espelhada. Aberta, escancarada para ser vivida em partidas e chegadas pelo leitor sempre retroalimentadas.

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A anatomia de uma poeta - Por ela

Hoje resolvi revelar minha anatomia de poeta. Minha alma mais publicamente secreta, meu poço sem fundo de contradições, minha ausência de norma, de forma, de estética. Aqui estou de palavra aberta, rasgada e poética para contar uma historia que conta outras que contam ela. Uma trajetória verdadeiramente em prosa de quem se fez pelo mundo declamante de sonhos e idéias. Se eu nasci não sei ao certo, mas acho que existo. E isso talvez seja um começo, meu inicio, precipitada em precipício. Na infância, isso eu ainda lembro, escrevia muito, criava desenhos, historias de pulavam de um pensamento que eu nem sonhava que existia. Tempos depois me explicaram cuidadosamente que era poesia. Eu jamais imaginaria que a minha vida se tornaria um desconcerto sinfonicamente constante de versos e contradições de gigante nessa minha alma de menina aproximadamente distante. Com infante alegria eu sem perceber percebia que a literatura já me consumia. Na adolescência quanto mais eu crescia menos eu queria. Só que eu não controlava a arte que me colocava ali, sem fantasia, de cara limpa, inconseqüente, pseudo adulta em urgentes versorragias. Cresci e não me aprendi. Usei todos os métodos para ser racional, normal. Nada funcionou mas não me fugi. Descobri que só restou alma e palavra. Poetei assim, na minha própria cara, meio assustada com tanto sentimento presente que eu realmente, talvez e sempre, imaginava. Eu não crescia e poetava. Era eu a mesma pequena escrevendo palavra a palavra, rabiscando textos achando que não eram, e não são, nada. Certo dia entre

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sorrisos e lagrimas constatei que a minha anatomia é hemorragicamente versada. Cada palavra me tem uma função precisa, uma ação capaz de ser só, por ela realizada, um movimento, uma estrutura, uma forma integrada a outras tantas significantes palavras. Decidi expor aqui cada uma delas explicitamente, sem mascaras. Eis aqui a anatomia docemente maldita que constitui a minha alma. Sangrada.

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Era uma vez uma Fada...

Era uma vez uma fada encantada que sonhava sentada em um banco de praça com o dia em que estaria por um príncipe perdidamente apaixonada. Mulher menina, em seus doces sonhos rodopiava feito bailarina mágica, poeta sem palavras, somente coração e alma. Ficava lá horas parada delirando extasiada com a historia que sem ser contada enfeitiçava sua vida de uma forma que no futuro se apresentaria surpreendente e inesperada. Certo dia quando o anoitecer já se aproximava a imaginação mais uma vez com ela brincava. Só que uma coisa nova dessa vez se dava. Aos seus pés misteriosamente uma folha verde delicadamente se transformava em uma pequena figura humanamente simpática. Sem dizer absolutamente nada estendeu a mão e a convidou gentilmente a bailar naquela praça. Ela, tímida e assustada, a principio teve medo, mas acabou aceitando o convite para dançar uma musica que não sabia de onde vinha nem quem cantava. Deram-se as mãos. Nesse momento o corpo daquele pequeno ser verde do tamanho do dela ficava. Seus corpos unidos em doces sorrisos inundavam de carinho toda a cidade que sem sonhar sonhava A noite chegou, depois a madrugada, mesmo assim a musica não cessava. Ficaram na praça sem se dar conta de absolutamente nada. Amanhecia. Chegava infelizmente a realidade com o dia. Assustada com toda diferença que através dos seus olhos percebia soltou sua mão e a sua vida por incompreensão e covardia sem ouvir um segundo tudo que seu coração argumentava. Imediatamente se desfez o encanto. Ele voltou a ser a folha no chão que antes se transformara na viva

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poesia que esperava tanto. Se sentiu paralisada pela dor de sua alma que ao se fazer de medo antecipara a hora da despedida, abandonando para não ser abandonada, a figura mais doce e recíproca que já amara. Se arrependeu tristemente ensolarada. Dizem que ela até hoje guarda a tal folha no mesmo banco da praça....

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Construção – Ou a edificação do poético

Cometo amor e me ofereço cúmplice de acolhimento sob a forma de texto sentimento poético inconfesso e cristalino espelho refletindo quem se desnudando me despe expondo literária minha cicatriz assinada e poética de desejo. Penso que quando consciente deixo me entrego e verseio através de laços materializados alicerçados e verdadeiros que incontrolados se dão brotando calmos do farto seio da fonte onde nasce a partir da revelação dos meus segredos a palavra pluralizada que retrata sem farsas o que escrevo quando deito desnudada a idéia atormentada contrária a realidade ao perfeito. Minha emoção extremada intervém clara no impuro argumento da mastigada fala imaginada que se desvenda insondável em palavras de carne osso e texto vastamente empoetadas do ferimento que abriga um coração que segue uma estrada pintada em arte edificada gradualmente dialogada sem desenho com primitivos e complexos elementos criadores humanos de barro esculpidos de letras sem espaço físico e mensurável tempo. Reinicio e me releio sem culpa limite ou preço. Ausência viral de norma culta de medo consolidando a audácia que constantemente ergo no devastado movimento que se constrói fantasiado de si mesmo que age e reage a forma autoritária do que proseado sobrevive onde imaginária não contenho torturado com regra o pensamento. Sou desgarrada e desregrada de paixão das partes pelo que é intenso pelo significado amplamente mutável e largamente estreito da inebriada criatividade sem adormecimento pelo traço figurado transformado volátil nele mesmo. Quebro e repenso. Sinto em fogo o outro literário

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que embala seus sonhos em meus pesadelos que se encanta hipnotizado com o cheiro imoral e sagrado do silencio da leitura que não presente percebo quando se devora de prazer ilusoriamente entendendo meus supostos fantasmas aterradores que quanto mais próximos me beijam mais acreditam que intima me deixam. Com os olhos exorcizados invade meu texto nu em pelo. Prova rasga sua carne fere sangra enfia as mãos penetra os dedos rabisca feito brinquedo e sorri cúmplice do mal bem feito. Unidos e parceiros no que jorro de mais imperfeito. Sem ser. Meu. Pelo que é autoral escrevo. Imperfeita relação com texto. Total inalienável e democrático direito. Liberdade.

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Revelação – Ou a dissecação de um coração vivo.

Eis aqui um coração atormentado de indefinida precisão em pulsares poéticos, complexos e incansáveis de emoção. Um pedaço incompleto da minha literariamente urgente reflexão. Duas físicas metades incomensuráveis que se fazem unidade em feroz colisão. Um psicodélico desenho de traços intensos rabiscados de maquiagem pelo chão feito tatuagem na pele covarde docemente não provada da canção, marca borrada ensangüentada de batom, quadro grafitado devorado com profana e pessoal inspiração. Uma interna maquina em constante retroalimentação que sem nenhum receio, coragem ou perdão se entrega de medo a sua cruel e irrevogável contradição. Carne de uma inexistente saudade que dilacera a palavra na lamina afiada de uma paixão inutilmente gravada de dor sem recordação por uma falta ácida que se arde pelos ares irrespiráveis a urrar dos sonhares sem movimento e som. Um instrumento de não verbal repercussão a provocar batidas hemorrágicas e assimétricas de ilusão. Meu órgão vital em constante transfusão, purificador do verso libertário derramado sem contenção, escrito sem fé ou razão pelas minhas incontroláveis, irrepresáveis e navegáveis mãos. Parte integrante do corpo parido são que nasce da minha idéia inquieta em deformação, da minha louca sanidade que se enxerga sem visão, da minha inconfessa cega boca despida do pecado da intenção a sussurrar uma improvável e inegável constatação repleta da mais visceral desconstrução que me revela em teias expostas na rede plena de conexão, tempo real na veia em decisão de seguir única e exclusivamente incoerente sem

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caminho a sua nua direção. Meu destino. Presencial ou não. Para sempre. Poesia.

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EU?

Sou de forma irrefutável o que não deveria, o que racionalmente existir em meu peito não poderia, o que devora e me aflora fonte contaminada de onde jorra poesia, o que jamais pelo medo de não ser pela vaidade antropofágica um dia talvez hipoteticamente me consumiria. Sou a negação mais clássica da minha própria cotidiana rebeldia, uma vontade de arte indefinida maculada pela razão apodrecida que contraria a própria infertilidade moral da palavra escrita. Sou ferida que não cicatriza e se sangra inesgotável todos os dias. Não passo de uma transgressora verbal em conceitual e desnecessária hemorragia, uma idéia desgarrada de corpo e alma pela pele materializada que me conforta e arrepia ao mesmo tempo em que me mostra o que antes não havia, retirando assim, definitivamente, o sentido daquilo que em palavras achava que me moldava, racionalmente constituía. Sou alma infantil torturada e agoniada em trapos e textos transformada por uma distorcida consciente fantasia consequentemente expressada em sua mais ousada silenciosa e gritante lacuna viva de pretensa arte inconformista por uma velha vanguarda atormentada em fantasma rejuvenescida, trajetória marginal confortavelmente esquecida, rota dolorosa obrigatoriamente desconhecida, sagrada crucificação poética profanada em vitro pela vida e suas ácidas letras que sós ou ausentes cortantes e afiadas nada significam. Sou uma virgula? Não existe absoluto na matéria humana que se alimenta sendo consumida, no pensamento que se manifesta cegamente como nevoa protetora que entorpecidamente de forma assustadora não se dissipa. Sou

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minha própria jornada que a si mesma desacredita ao enxergar a verdade imaginada que em olhos nus indecente se materializa desprovida de toda norma ditatorialmente imposta e sentida para negar aquilo que só a palavra criada dilacerada desconstruída é capaz de despertar em pesadelos sem estar adormecida, sem ter sido sonhada, sem ter sido pretendida, sem ter sido confrontada, sem ter sido agredida, surrada, combatida, derrotada, falsamente destruída. Sou uma espécie de inconformidade com a formalidade redigida que se dá através da cumplicidade com a palavra entrelinhas não dita, um ato de transformar o que a palavra unicamente não modifica com a duvidosa coragem a desenhar almas caligráficas imaterializadas como forma agressiva de expressão artística, maturidade não reconhecida atemporal e perdida, literário ventre da metade traçada linearmente escondida, história solitária e coletiva de esfomeados individualizados artistas. Sem mais palavras. Eu?

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A antropofagia do tempo

Revelo em versos e frases minha sensação pessoal de me sentir devorada pelo passar inevitável das horas que desesperadas me perdem consumida, dilacerada, gasta pela própria necessidade diariamente consumada de me alimentar enquanto me traz mastigada pela existência docemente maldita que escorre finita, veloz e antropofágica, impossível de ser represada, na direção inalterada naufragada do nada. Não existem retornos possíveis em vida na estrada. A cada passo o medo do fim torna a boca sem fé entregue e amarga. Indefinições religiosas nos sobrevivem de esperanças fantasmas. Dizem que a história sempre é finalizada no completar da jornada, mas a suposta verdade ainda não nos foi mostrada. Seguimos para o vazio como quem segue para uma batalha. Não sabemos qual o tamanho tem a guerra da existência em que lutamos sem trégua, sem pausa. O que nos preenche? O que nos falta? Qual o sentido sem sentido destas linhas mal traçadas?

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Impressões

Acredito que todo poeta traz nos olhos impressões digitadas, cicatrizes fincadas em palavras não versadas, traços de idéias ainda não materializadas, retratos de uma vida que em silencio se faz poeticamente desenhada. Sou uma poeta, me entrego encantada a rede que interativa me percebe apaixonada, vivo em tempo real nesse universo de reciprocidade cegamente inexplicada. Não passo de uma versante que exercita diariamente o seu direito errante de se escrever verseada, me permito, proseando ilimitada, criar muitas historias na imaginação germinada. Sei que se um dia perdesse a fala, a razão o movimento mecânico das mãos, a vida espiritual na alma arrumaria outra forma de poetar o que meu peito cala viraria um verso, mais nada. Me tornaria uma linha de existência interminada, uma simples, realidade inventada, seria trajetória sem vitória, sem herói e sem jornada, apenas uma poesia inacabada, como sempre fui, perdidamente empoetada, sem duvida nenhuma um amontoado de letras inutilmente rabiscadas. Um rascunho em folhas muito bem guardadas, um sonho, muitas letras, uma palavra, seria eu muito pouco, quase nada, o desenho infantil de uma menina poeta que em pensamento alguém um dia sonhou que encontrava.

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Interminar

Escrevo aqui reflexos inevitáveis do meu olhar. Revelo minha capacidade nenhum pouco mágica de sonhar. Sou meu próprio oceano, de versos mar. Convido a todos os que tem coragem para navegar solitários nos meus maremotos de pensar. Quem é capaz de se entregar? Quem tem medo de se afogar? Se abra velas olhar, se deixe entrar, no próprio barco do seu corpo velejar. Em troca ofereço meu desejo confesso e cego de criar. Pura demonstração da emoção sou inteira razão do seu medo de acreditar. Respiro cada letra que vejo e com meus desejos devoro em beijos a poesia que em prosa meu peito inteiro faz vibrar. Não sei qual é o começo nem onde vou terminar. Sou ser interminar. Um desvio poético para desvendar. Esfinge humana solar. Me leia sem notar. Sou invisível quando texto me faço transformar. Metamorfose literária é como posso me apresentar. Sai do teu lugar, vem se achar, quero ousadia te desconfortar. Quem sabe nos meus sonhos você está...

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A carne viva da alma (de um Cisne)

Com as vestes das suas chagas nua estava. Trazia na pele tatuada múltiplos retratos em carne viva da alma que a cobriam inutilmente tentando cicatrizá-las, feridas ardentes incrustadas de dor e palavra. Da vida ela mesma não se sabia nada. E na morte inconsciente anunciava que em um fim não acreditava. Fingia que vivia nas nuvens enquanto em pesadelos se sonhava. Sua boca vadia bailava, mordia e traía livremente as palavras. Sua língua de menina salivando machucando machucava. Seu silencio sereno a guardava enquanto indecente atormentava. Doendo pelo corpo ela sorria, versava e chorava. Se temia e se amava alucinógena alucinada. Bebia o veneno transbordante da vida que de suas veias jorrava. Poesia que pulsante não se acabava. Suicida era só no texto do silencio uma orgia enlouquecida que criava. Sua força racionalmente aparente instintivamente ela apagava. Seus olhos cortavam feito faca. Desejo de navalha. Amor que ataca o sentimento feroz que não salvando a perfeição se atava. Uma batalha no seio travava. Sangrava. Provava. Terminal vomitava. Entrelaçada era ela muito pouco em talvez um imenso nada. Resistente ela em fuga se entregava. Urgente lentamente ré nascida se denunciava. Uma personagem que urrava quando magia não criava. Se parindo sozinha estava. Brincante de frustrações e lágrimas entre letras, sons e luzes embaralhadas. Errante desconcertante morria em fuga desacertada do palco onde revelava quem cega negava. Quem será a mulher aprisionada em tantas linhas não traçadas? Figurada de sentido desfigurada. Quem é ela?

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O Encontro – Poesia e Poeta

Acordei em sonho a minha procura e lá estava ela nua. Reconheci sem dúvida aquilo que mais me apaixona e tortura. O reflexo distorcido em palavras da minha ensandecida figura. Chorei atormentada de prazer vestida poeticamente de loucura, ceguei minha razão amaldiçoada de imaginação pela ausência de culpa, descontrolei com uma emoção mais que absurda as minhas mãos corajosamente inseguras que por medo escondia da exposição literariamente pública e com paz silenciosa humanamente me fiz sangrenta luta. Não mais dominava os traços que me desenhavam alucinada entre as linhas turvas que desencontradas nela em papel se faziam verbo escultura. Ousada e impura observava ela sem métrica cada movimento que em minha vida internamente pulsa como uma fera que concentrada devorar sua presa busca. Em silencio me traduzia sedenta na mesma língua carne crua enquanto em guerra interna eu redigia como se cada letra gritasse o que a alma na pele oculta. Na noite da sua face em fases me descobria lua. Transformada ao criar renascia lapidada e bruta. Meu corpo calmaria absoluta. Em ciclos minha vida arte muda. Vencendo a batalha enfim eu me vencia. Poeta com um olhar que não refletia desconhecia a importância do encontro real com o que antes covarde fugindo eu não sentia. A presença amarga, doce, sedutora e inevitável da Poesia. Sem a qual não viveria. Adormeci.

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Inegavelmente necessários

Todos os versos são vadios até que reprovem os contrários. Mesmo assim se lamberão feridas cheias de pus literário entre rasgos poéticos extraordinários. Todos os versos são transparentes e claros até que moralismos cinzentos e sem luz tentem abafá-los. Mesmo assim continuarão céus azuis iluminados, encravados verbo cruz libertário em imoral incondicional calvário com ousadia e sentimento de inferno métrico purificado. Todos os versos são obscenos até que os puritanos se sintam maculados. Mesmo assim continuarão nus ardendo intensos no fogo sagrado do som imaginado contaminado loucamente pelo prazer inocente e despudorado de se renascer livremente empoetado. Todos os versos são escritos aleatoriamente indeterminados até que os pessimistas desejem racionalmente encerrá-los. Mesmo assim não encontrarão motivos verbais para de razão paralisante injustificadamente aprisioná-los.Todos os versos são mágicos, puros e encantados até que o ser humano decida covardemente desaprender a ser amado. Mesmo assim, contrariando os que com medo do coração vivem calmamente em trevas, desesperados, continuarão vivos, sinceros e apaixonados. Todos os versos são inegavelmente necessários. Mesmo assim...

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Coração nos olhos

Os meus versos provo com o coração nos olhos e a boca nas mãos. Entrego em um silêncio cúmplice e imperfeito cada detalhe da minha transparente e incoerente criação. Transpiro sonhos nus sem contenção pelo meu corpo retalhado de desejo e emoção. Verso agridoce que escorre sem medo ou restrição pelos ares incendiados da minha poética e ofegante respiração. Meu olhar embriagado e atordoado de inspiração é feito a partir da pele que reveste cada traço tatuado da carne onde navego em sentimentos a minha paixão. Sinto o gosto da palavra que devoro antropofágica com ousada determinação. Escrevo sem regras e livre de punição cada sensação que secretamente descrevo nas entrelinhas da minha pública e mais incompleta confissão. Poeta, não me prendo as duras celas de qualquer razão. Minha prisão verdadeira está na coragem do amor libertação. Eu vivo Fênix sempre perdida nas asas de alguma covarde ilusão. Sei que sou um fruto da sua imaginação. Duvidas? Eu não.

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Letras ácidas

Salivo letras ácidas em folhas brancas tatuadas pela escuridão transparente do vazio nos olhos da minha alma. Meu silêncio é fonte incessante da minha busca pela expressão definitiva e inconstante daquilo que vive como matéria disforme e provocante em meu peito poético de veias cortantes e nua carne entre versos milimetricamente viciantes. Descubro escrevendo o que me completa e falta através do exercício proibido e delirante da inexistência impura, vadia e apaixonante da palavra. Simultaneamente me condeno ao chão sujo e me absolvo em nuvem purificada. Transito com intimidade entre inferno e paraíso com a mesma turva clareza que diariamente me ressuscita enquanto me mata. Sou poeta e mais nada. Minha substância interna, exposta, humana e sangrenta é agridocemente inexplorada. Pelo texto me submeto ao interminável desafio de alcançar a obra finalizada. Meu ponto de partida é sempre a minha chegada. Minha arte é literariamente inacabada. Continuo...

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Beijos alados

Beijo versos com a poesia que escorre sem fantasia das minhas mãos. Não me nego ao sentimento sinceramente poético da construção. Abraço a vida que me inunda escrita pelos olhos que se refugiam secretos na minha emoção. Trago comigo perdidos nas asas que se abrem paixão movimentos sinceros irrespiráveis de arte como uma necessidade que vai além da ausência covarde de liberdade dos nós da razão. O corpo do meu texto é minha mais nua e clara forma de expressão. Sou poeta confessa e me entrego ao deserto onde se cruzam assimétricas oásis linhas que o destino nunca traçarão. Descrevo liberta por pura opção única e exclusivamente o que espelha sem trevas meu coração. Duvidas? Beijo-te então.

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Sonhos de poeta

Ingredientes 01 Colher de sopa de muitos desejos 02 Colheres rasas de incontáveis segredos 02 xícaras de lágrimas bem guardadas no peito 01 pitada salgada de medo E palavras em quantidade suficiente para polvilhar um papel docemente feito de espelho Modo de preparo Adicione os desejos, os segredos, as lágrimas bem guardadas no peito e uma pitada de medo. Misture tudo intensa e delicadamente com incontroláveis dedos. Espalhe pelo papel polvilhando com palavras toda a superfície do espelho que reflete sob a forma de texto cada detalhe deste corpo poético e imperfeito. Ferva em corações ardentes por sentimentos verdadeiros. Abra os olhos. Os sonhos estão do seu jeito. Saboreie os versos.

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Pseudo ensaio sobre poetas e versadores

Escrever não é a arte dos sonhadores, mas sim uma forma de inadministrar todas as incontroláveis dores e os sentimentos mais devoradores que ficam a fantasmagar pelos corações que de tanto versar não se sabem pensadores. Escrever é um dos atos mais desesperadores, uma mistura alucinada de ódios e amores, uma necessidade antropofágica de entorpecimentos criativos e criadores, uma droga barata de doces efeitos devastadores na pele maldita em corpos de papel inquietos e provocadores da própria palavra silenciada diante dos seus olhos infiéis e inquisidores. É transformar em espinhosas flores as letras que se ferem quando tem sua anatomia inocentemente modificada por instintos transgressores que desabam mares intermitentes de descontrole pelas sangrentas mãos machucadas por desejos libertadores. Jardim onde dedos indecentes e agressores durante a árdua batalha literária esfregam feridas urgentes de amores literariamente forjadas como prova da luta feroz em silencio cegamente travada por ousados temores. É o disparar sem nenhuma conseqüência racionalmente esperada com armas de carne poeticamente lapidada projéteis de vida em algum peito marginal que resiste de forma heroicamente acovardada a ter só uma única razão definida na alma. Escrever é mortal. Sobrevive a paixão visceral. Estado inconstantemente terminal. Entranha emoção. Dilacera por opção. Morre e vive. Em nós. Cabe ao poeta se desatar entre nós através da representação gráfica e inesperada lentamente imediata da solitária voz que

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ensurdece as confissões mais primárias, represadas e contaminadas por um medo inconsciente e feroz durante a relação diária individualmente coletiva fisicamente estabelecida entre pessoas friamente nelas mesmas esquecidas durante o pleno exercício de uma superficialidade consentida por uma sociedade absurdamente construída de ausências de si. Atroz. Restos de raso. Desertos. Miragens em um verso. Secretos. Mistérios. Revelados por seres incompletos. Estéticos. Sem senso. Proféticos. Além do belo em seu universo. Desconexos. Dentro de um padrão que espelhado não permite reflexos. Por defesa de seu mundo entreaberto. Despertam. Auto predadores de sabores métricos. Suas próprias presas. Mordem verbais a norma que não se obrigam. Escrevem porque precisam e duvidam. Se negam poetas e se portam como cruéis versadores, nobres sem estirpe, auto endeusados, amoralizados senhoras e senhores, donos de uma autoridade ditatorial que se esconde cheia de literários maus odores em falsas verdades apodrecidas dos que da arte se acham únicos sabedores e legítimos detentores. Hierarquizam mentalmente como se fossem grandes conhecedores o nível de prazer dos que consideram candidatos depois de seus ensinamentos imaculados a escritores. Relegam a último plano o desejo legitimo de todos serem sem medos repressores poéticos criadores. Desrespeitam os transgressores sem entender seu sentido. Vivem para descaracterizar o indefinido. Obrigam todos a eles darem ouvidos. Torturam com suas idéias os que se negam a isso. Liberdade para estes é suicídio. Em fins, recomeçamos. Escrevemos sem limites, destinos, métricas, teorias ou planos. Estamos. E não nos cabe mais

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que isso. Precisamos. E em virtude disso pelo direito a paz lutamos. Mesmo que o preço para tanta coragem seja o precipício cavado por seres que detestam a sinceridade com que nos expressamos. Não lamentamos. Seguimos vivos, humildes e humanos. Não nos negamos. A ferro e fogo escrevemos o que pensamos. Ousamos. Não toleramos os que tentam nos dizer quem ou o que somos. Contrariando quem pensa que nos maltrata democraticamente nos rebelamos. Poetas. Somos e ponto. Final.

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Confessionรกrio dos Anjos

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O Acolhedor

Acolho Anjos. Minha tarefa é ser deles o ombro amigo que cansados buscam tanto, um protetor que com seu aspecto estranhamente humano e um carinho meio insano tenta em um esforço religiosamente profano aliviar a agonia e enxugar o pranto do coração daqueles que, estando no chão ou voando, cuidam com dedicação, determinação, poesia e encanto dos que sobrevivem se afogando diariamente em oceanos repletos de desengano ou paralisados de medo diante da possibilidade do mergulho profundo em desafiadores sonhos. Não tenho uma missão das mais fáceis, mas não me resta nenhum outro destino que não seja o de cuidar com amor e carinho daqueles que de vez em quando molham suas asas com a chuva do seu desencanto, nobres e doces voadores ciganos, apaixonados e decepcionados pela razão do ser desumano. Sou porto seguro dos que velejam pelo ar, dos que ousam em pleno céu navegar com o único objetivo de incondicionalmente amar. Nunca se confessam, mas se revelam espelhos no olhar. Seus segredos todos estão escritos lá, onde só quem tem a coragem de acreditar consegue enxergar. O lugar preciso não devo contar, mas posso dizer com certeza que só através da simplicidade e da grandeza de se dar alguém um dia pode generosamente localizar. Hoje começo aqui a confessar o que trago guardado comigo em segredo a me machucar, quebrando assim a confissão dos Anjos sem nenhum medo de ser punido ou pecar. Sei que meus motivos são capazes de me perdoar. Quero que todos saibam suas histórias reais. Quero provar a todos que eles existem e são normais apesar do

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defeito de viver o amor demais. Ou serรก essa a maior virtude dos seres Angelicais?

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Anjo luz

No queimar das minhas asas me confesso um Anjo em brasas. Com meus olhos ardendo em chagas enxergo na dor dos outros a minha própria alma. Diante de cada sofredor ofereço em silêncio o que me falta, o alivio através do amor para os que superficialmente protegidos em suas cicatrizes e máscaras infinitamente deformados se maltratam. Minha condição involuntária não possui outra opção que não seja a de voar na direção das pessoas que solitárias anseiam abrandar o efeito devastador da vida que injustamente as dilacera sem paz e calma em uma tortura que enquanto não as mata leva consigo a esperança que alicerça as últimas gotas de uma coragem que ainda está secretamente quase intacta. Sou o Anjo consolador das feridas alucinadas daqueles que jogados na sarjeta pela ausência de doces palavras para o abismo o desamor arrasta, dos que mergulhados no lodo do ódio se afogam no oceano podre da sua própria desgraça e dos que morrem vivos quando se veem adormecidos no labirinto indefinido das suas concretas envenenadas mágoas. Sou aquele que em uma luta inglória e ingrata quase que diariamente salva os que inconscientemente se deixam entregues a sentimentos que abertamente seus corações violentamente de insegurança esmigalham durante estúpidas revoltas enlouquecidamente sangrentas e ácidas que cegam de pesadelos a razão das suas existências atormentadas. Iluminando trevas escureço noite as minhas lágrimas. Meu corpo jovem esconde o desespero com que a eternidade faminta e insaciável de calor me rasga. Sempre entrego meu abraço a quem nunca me abraça. Minha

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missão é a de resgatar pessoas que não querem ser resgatadas. Eu salvo. Nunca ninguém me salva. Confesso, sou o Anjo que desejava. Ter.

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Anjo caído

Caído, perdido, bandido. Sou o Anjo que contrariou aquilo que foi determinado, obrigado, estabelecido. Transgredi, ousei e me perdi. Banido, machucado e cansado eu mesmo me bani. Como Anjo deixei aparentemente de existir. Na sombra me refugiei, da claridade me escondi. Destroçado, destituído, ferido e marcado até do meu corpo eu fugi. Quando menos esperava em chagas entre lágrimas apavorado e cego eu me vi no que mais queria apagar, negar que ainda pudesse sentir. Vivo ainda estou, sobrevivi atormentado e abrigado aqui. Apesar de tudo sou exatamente nu de verdades como nasci mesmo que hierarquicamente tentem com máscaras e mortalhas me vestir para minhas funções de exercer me impedir. Me surpreendendo eu inesperadamente a todos surpreendi. O monstro que desejavam que em mim estivesse não habita realmente aqui, sou apenas um ser que diverge daquilo que afirmaram um dia ser o único caminho certo a seguir. Minhas asas contrariam tudo o que me obrigaram humilhado a provocar e em outros como um espelho torto sangrando refletir. Não me entreguei, mesmo com medo lutei e sofrendo entrincheirado entre dores resisti. Não pelo mal que dizem que sou capaz de infligir, mas pela coragem de optar por algo diferente do que os outros em massa disforme coletivamente acham que querem pra si. Individualmente quero poder pacificamente agir. Para isso fui autoritariamente condenado a jogado cair. Sei os motivos que me permitiram conseguir sozinho em queda não me despedaçar, me destruir. Eu não estou só. Alguém me protegeu. Eu desacordado não vi. Quem estará

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ao meu lado? Como posso descobrir? Esse é o único medo que carrego comigo e me impede francamente de prosseguir. Fico pensado paralisado no tempo se tenho algum destino a cumprir. O que devo sobre minha vida descobrir antes de qualquer coisa decidir?

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Anjo vingador

De mãos desertas e asas em pranto derramo com minha espada o sangue das feras que habitam com crueldade corpos humanos. Trago no peito como escudo palavras sinceras e nos olhos cegos de desengano todos os versos escritos durante anos no sagrado livro aberto dos meus sonhos como forma de livrar inocentes da Guerra, do desamor, da violência, do egoísmo e do desencanto. Apesar de todas as batalhas vividas em minha existência devotada a tudo que mais prezo e amo, me mantenho poeta diariamente sem paz procurando por corações verdadeiros mesmo que estejam sem fé se esfacelando. Entre céus e trevas sorrindo ou em lágrimas ainda me rezam Anjo. Não sei se tenho capacidade celeste para tanto. Acreditam que livro almas do sofrimento que elas mesmas se impuseram através de atos covardes e insanos. Minha missão irrecusável me custa o encanto, pesado fardo que carrego corajosamente ao cansaço não me entregando. Pago com um sofrimento que palavras simplesmente são incapazes de mensurar o tamanho. Nele sinto minha dilacerada alma hemorragicamente escoando pela árdua convivência com as chagas putrefatas do egoísmo que feito peste se espalha entre os seres que vivem rastejando. Como Anjo que combate sem cessar o horror miseravelmente desumano sigo Vingador o que pela esfera superior me foi determinado através de seus misericordiosos planos. Combater o mal seja ele sagrado ou profano já violentamente introjetado no seio de alguns como esfomeado cancro. Aos poucos perco a esperança que um dia me fez guerrear para corrigir os erros que foram se materializando

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nos que assistem impassíveis a sociedade concretamente se destroçando. O destino nunca será traçado por aqueles que buscam acolhida na monstruosidade que transborda fétida do lodo humano. O livro arbítrio é um caminho que pode ser bem trilhado exclusivamente pelos que se amam. Luto contra aqueles que escolhem seguir violentados a vida violentando. Sigo por entre estradas que me vão me martirizando passo a passo, dia a dia, ano a ano, mas não ouso me sentir tentado em provar o esgoto que muitos endeusam e veneram para meu desespero e espanto. Minha sobrevivência é a única esperança dos poucos que tenho ao meu lado como nobres corajosamente as suas armas empunhando. Preciso vencer o que deseja ter meu peito em seus vermes infectos rendido se afogando. Um dia serei recompensado pela fidelidade que carrego digna de todos os Anjos. Com o meu descanso. Em paz.

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Anjo imaginário

Uma fábula. Sei o que sou na história mal traçada que na pele nunca se contou. Um resto puro da alma impublicada que da métrica dilacerada não se salvou. Minhas asas tem sede daquilo que o corpo nunca materializou, o verso perdido que a palavra encarcerada a boca acovardada não libertou. Sou fruto mordido do teu sonho devastador que em arrepios sombrios de febre e amor brotou noite em dia no fundo dos olhos que o pensamento de medo em letras vazias se ardeu e de desejo silenciou. Em teu sorriso resido fugitivo da lágrima que rolada um dia enxurrada já me carregou. Um impreciso nascido pelo desespero vencido em meio ao vazio em que respiro o martírio no peito com frio, sem brilho e sem cor. Vivo no precipício indefinido redigido pela inexistência da minha dor. Existo? Quem contou? Permaneço escrito no limite deturpado de ser lido vivo consumido no texto que se apagou. Insisto no verso que me criou, apesar de não acreditar na realidade da palavra que um dia com poesia antropofágica me devorou. Busco feito infante um paraíso nas trevas distantes da imaginação errante onde meu corpo de mísero diamante permanece sangrando cortante em um vitral falsamente gigante colorido pelo sangue concreto, hemorrágico e inconstante do arrependimento dilacerante pelo sentimento que não se ousou. Com o poder subtraído do criador pensas que reflito a imagem e semelhança do que se determinou. Espelho? Jamais me condenou. Meu texto? Estilhaçou.

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Anjo maldito

Eu resisto. Luto bravamente para escapar das garras envenenadas do meu martírio. Minhas asas sangram imaculadas transpassadas por cristais vivos. Me dispo de todas as suas chagas para ser escrito. Insisto na purificação do mal que imaginária mente habito. Não devo calar minhas mãos dilaceradas por isso. Rabisco. Sou traço amargurado em lábios sem sentido. No espaço das palavras infinito. Entre lágrimas assisto. A loucura dos Homens e deles covardemente desisto. Ando em farrapos hemorrágicos por isso. Sou poeta. Mal dito. Escrevo teus olhos no meu corpo salgado consumido. Ensurdeço na boca onde te abrigo. Superficialmente resumido. Destrocei acidamente ferido todas as minhas noções estéticas do ato de estar vivo. Banido. Me tornei enevoado no teu grito. Sou apenas um quadro quase destruído entre imagens derramadas pelo não dito. Não mais me acredito. Em verso amaldiçoado ainda vivo. Em pedaços. Ressuscito. Intencionalmente escrito. Pelos dedos onde padeço no que não deve redigido. Profano ferozmente o que duvido. Renasço Fênix nos teus ouvidos. Meu silêncio é castigo. Com sentido.

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Criaturas Hist贸rias de amores e trevas

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Uma taça de vinho do corpo e mais nada. De sangue um brinde a minha inexistência traída e atormentada pela dor de quem em vida nunca passou de uma pessoa perdida entre palavras delirantes e apaixonadas, hoje um Senhor de mortes anunciadas. Um devorador de si mesmo a sorver o sangue alheio pelo simples desejo de uma existência falsa, um ser sedento de uma juventude que nada mais é do que meu próprio instrumento cortante em uma tortura imortal que me rasga o caráter de forma irreversível e fantástica com uma sedutora beleza que sem defesa como presa a todos mata. Um não refletido no espelho caçador de almas, capaz de conceder feito um rei a eternidade mais cruel e ensangüentada como prêmio pelo prazer de se deixar aprisionar em um universo vermelho de dores e lágrimas. Não passo de um fazedor de vitimas dominadas pela vontade inconsciente de lentamente serem assassinadas para que possam em seus próprios corpos, agora estranhos, renascerem como monstros no lodo nojento das suas trágicas trevas internalizadas. Vampiro, eis aqui verbalizada a minha trajetória maldita jamais terminada. Minha primeira mordida não foi premeditada. Foi fruto da ira faminta do meu corpo em estado de morte sem vida anunciada. Sugava o que me devorava, a sede de vida que me faltava. Quanto mais bebia menos me saciava. Só, de dor me dilacerava enquanto um pescoço desconhecido com os meus dentes indecente eu retalhava. Cego, com a boca molhada sedutora sem palavras, despido pela cor do sangue que me banhava estava eu no inicio de uma jornada que não teria fim nem pausa. Rota traçada que me faria exausto, sem parada, um ser sem destino no meio da minha própria estrada. Minha sina já estava revelada nos meus olhos vermelhos de desejo alheios

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a sofrimento e mágoas. Não me caberia mais a paz na alma no universo das minhas trevas alucinadas. Aprendi que viver para sempre é apenas uma morte cristalizada. Rastejante, sou um herdeiro do nada. Verme andante, cavaleiro errante, caçador de sangue, mordi a mulher que amava. Minha primeira vítima foi também a minha maior praga. Condenado fiquei com a imagem gravada dos olhos de minha amante, mulher encantada, sofrendo no instante em que era por seu amado miseravelmente devorada. Suguei seu corpo e o resto de dignidade que me restava. A matei em meus braços no descompasso da fome que me torturava. Ainda não sabia controlar meus impulsos famintos que por instinto como um felino me estraçalhava. Não consegui salvar da morte, me condenando a sua própria sorte, a mulher que por mim era apaixonada e eu perdidamente amava como quem ama uma flor, perfeita, intocada, doce e mágica. Sabia eu que sem ela não seria nada. E nada sou. Ao matá-la morri nos meus lábios, no nosso abraço, na união dos nossos corpos entrelaçados. Morri com meu eu em sofrimento apaixonado. Quando renasci animal saciado percebi que era eu meu maior condenado. Como poderia um dia por minha consciência ser perdoado? Destruí visceralmente meu passado. Cravei os dentes ferozmente sem fé e noção de pecado na mulher que inocente me amou e desejou estar ao meu lado. Escolhendo errado sentenciou meu futuro a um eterno reviver do passado. Pago com a culpa os meus pecados, repetindo todas as vezes a mesma historia em outros corpos que mordo para sugar a mulher que nunca acho, está morta, viva em meu passado. Rastejo em pedaços pela noite cheio de dor e cansaço. Por onde passo escrevo no cheiro os males que faço. De fome fiz nascer minha maior dor, meu primeiro assassinato. O sofrimento

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meu companheiro se tornou na escuridão onde todos os dias eu me mato. Fiel a ele eu sou. Parceiro noturno, bebemos silenciosos a dor. Procuro no sangue de cada mulher a que um dia meu animal devorou. Quero amor, mas ofereço desespero e pavor.

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Devo lhes negar veementemente que um vampiro sente, se apaixona da forma mais pura verdadeiramente. Para a infelicidade dos que acreditam que nos reconhecem apenas nas entrelinhas poeticamente somos na realidade poderosos indigentes miseravelmente guiados por uma necessidade feroz de saciar urgente a dor que nos grita atordoada silenciosamente no ranger incontrolável de nossos afiados dentes com uma ausência infinita de limites conscientes traduzida por feridas esculpidas milimetricamente pelo movimento ensurdecedor, hábil e contundente de nossas presas vorazes, contumazes e inconseqüentes. Não passamos de animais que amaldiçoam friamente as mesmas mulheres que maternalmente um dia nos carregaram no ventre sem perceber que geravam filhos não vivos, cruéis, eternos e indecentes. Quando nascemos de fome nos amamentamos imediatamente em uma histeria intencional sem precedentes do mesmo sangue que nos deu a vida inocente deformando assim a mais nobre das relações entre os seres viventes ao pagar com dor impiedosa covardemente a benção de uma existência maldita retratada pelo pavor de cada vítima iminente ao enxergar em nosso olhar sua lápide em vida eternamente. Perdidos, consumidos, enlouquecidos e doentes martirizamos de forma irresponsável indistintamente a todos os que encontramos desavisados pela frente independente do que representem para outros afetiva e socialmente. Somos confessamente a personificação da sujeira que assassina se esgueira invisível pelas sarjetas premeditadamente ferina e rasteira como uma serpente.

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Carne viva

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Pegou um copo e o encheu de fracassos. Bebeu seus arrependimentos amargos em um único gole. Acendeu um cigarro sem maiores vontades em seus lábios pálidos e covardes. Tragou sem esperança e piedade toda a sua quase felicidade. Espalhou aleatoriamente as cinzas de si mesma pela emoção que nunca a invade. Apagou uma ponta acesa de ilusão na pele que falsamente arde. Levantou-se insegura como uma criança que aprendendo a andar sente medo ir ao chão da sua mais primitiva e proibida verdade. Foi até a janela da sua infância apavorada com a fantástica possibilidade de uma aterradora visão imaginária da realidade. Externamente se viu quem não mais era, uma pessoa muito mais feliz e sincera do que a mulher escondida nos escombros da sua solidão educada, formal e singela. Resolveu então descobrir no que se transformara sem o disfarce da maquiagem que a fazia uma tela. Queria saber por onde sangrara a mulher que seria se suas opções tivessem sido bem mais plenas dela. Foi até o armário com a alma completamente despida e como se escavasse as profundezas da terra abrindo ferida algo procurou. Diante do que achou seu coração por instantes paralisou. Agoniada incontrolada se recuperou. Pegou uma caixa onde sua adolescência sem rituais enterrara com a agressividade de uma fera alimentada pela carne putrefata da dor e seus demônios libertou. Quando a abriu se apavorou. Nela se refletiu. Reviu o que nunca contou. Pegou sua história e novamente a vestiu desorientada praticamente sem temor. Descolou do rosto sua reluzente mascara longe dos imaginários perigos da paixão que um dia sedutora provocou nos trapos de um sonhador e no segredo do quarto infernizado por fantasmas de sentimentos quase

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abandonados entre lágrimas e silêncios atormentados se deitou no chão frio do seu ínfimo espaço aos pedaços para negar a palavra que um dia verbalizou. Amor. Não dormiu. Se devorou. Queria fugir, mas não conseguia se nutrir da força necessária para resistir a razão que a alucinava quase febril seu desejo dominador. Cansada decidiu não mais lutar contra o nada que artificialmente a pariu. Reabriu seus rastros e começou a vagar entre os espinhos de cada recordação cravados a frio nas pétalas das folhas viradas no ausente brilho de seus olhos vazios. Pela primeira vez em uma quase eternidade se encontrava viva caminhando pelas linhas infinitas do seu diário. Secreto livro partido em pedaços pela confissão de um corpo envelhecido, vencido e embriagado pelo tempo.

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Última. Nada mais. Só. Mais uma. Sem palavras. Esquecida. Amarrotada de fingimentos pelo tempo. Implacável, amargo e irrevogavelmente lento. Amarelada por ausências que cristalizadas ainda me ardem por dentro paralisadas pelas lágrimas que não se verteram quando eram esperadas como as principais convidadas no ato que se encenava em teatralizado momento e manchada pela substância friamente abstrata da inconsistência compacta e ferozmente inalterada do meu clamoroso silêncio. Fruto imaturo de um final que como promessa foi redigido entre palavras decompostas de tanto apodrecimento que eu no conforto da máscara premeditada esculpida a decepções e mágoas por mãos cadaverizadas não mais me lembro. Se foi. Cumprido. Duvido. Não me surpreendo. Agora escrevo com outros tons sangrentos na folha abandonada que quase em branco ainda repousa pálida no meu diário assombrado por pensamentos. Mal ditos. Lugar onde hoje me habitam retratados com a disfarçada arte de um esfarrapado convencimento fantasmas devoradores de paz e amplificadores dos meus cruéis, inexplicáveis e indisfarçáveis gritos amenos, íntimo confessionário falsamente imaculado pela grandiosidade dos arrependimentos que diariamente mato e ressuscito. Sigo. Desbravando pelo papel com meu coração do corpo injustamente banido a rota impiedosamente escavada durante a construção interminada da obra visceral que excessivamente estagnada me tornou lapidada de esquecimentos infinitos. Enfim compreendo. Em cada traço procuro com meus dedos desesperançados em incompleto adormecimento o passado arrancado do universo acinzentado que habito por letras derramadas ao vento para cicatrizar carne a carne, pedaço a pedaço, ferimento a ferimento, a vida

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que consumi alucinada no transcorrer dos meus fracassos disfarçados de emocional comprometimento. Noturna desfaleço minha consciência sem abrigo. Na escuridão da razão as avessas não o leio que digo. Para me iluminar com um olhar não assumido acendo a chama do meu inferno artificialmente construído. Fogueira santa de onde retiro levemente os restos da pele que me reveste e defende como se folheasse um livro. Reabro com angústia e sofrimento as marcas das lembranças esgarçadas daquilo que só a ele foi contado mesmo quando não visualizado pelos meus olhos embaçados ao extremo como meio de exorcizar os monstros que criei temendo em vida ter morrido. Me escrevo, repenso, declaro e não admito. O que me fez negar tudo o que a meu respeito descobri neste mundo tão complexa e intensamente distorcido? Como posso saber se sou exatamente aquilo que lembro e reflito? Ficciono-me?

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Confessionรกrio urbano

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Quem é capaz de confessar?

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Hoje é mais um sábado daqueles de chuva, daqueles em que a gente não tem a mínima vontade de ir pra rua. Um sábado cinza, melancólico, sem alma e sem cor. Neste momento gravo minha voz para marcar o instante em que começo a trabalhar no livro que contará a minha história. A ele darei o nome de “A verdadeira história do coração urbano de uma mulher sem rosto”, pois percebo em mim todos os rostos de todas as mulheres, ao mesmo tempo em que sinto ter perdido o meu próprio nessa imensidão de imagens que retratam histórias comuns, por mais que sejam individuais, construídas a partir de fragmentos nossos de um cotidiano que se revela somente no confessionário urbano de nossas vidas. Sei que sou apenas um rosto, sei que sou apenas minha cara. Sinto meu rosto como um espelho que nem sempre reflete o que sinto e penso. Essa obrigatoriedade de ser fiel aos meus pensamentos e sentimentos meu rosto deixa para o olhar. Enxergo em meu rosto cicatrizes e rugas apesar de muitos anos de inexperiência de vida. Meu rosto é o único que tenho e me pertence totalmente, mesmo quando não tenho controle sobre ele. Sei que meu rosto sorri com a mesma intensidade com que chora. Ele ignora, por mais incrível que pareça que pertence a minha cabeça que sonha e pensa muito. Na verdade eu confesso que nem sei por que estou gravando tudo isso, mas vou tentar, soltando apaixonadamente toda uma vida, pedaços de sentimentos, cicatrizes desenhadas no meu peito por sensações que me atordoam ainda hoje nessa minha trajetória, às vezes encantada, às vezes sofrida, às vezes alegre, às vezes triste, mas feliz pela possibilidade de viver como tantos que vagam por aí sem destino, olhar perdido, sorriso no rosto e dores nas costas de tanto carregar o peso das incondicionais

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contradições de ser humano . Vou vivendo e percebendo que meus dramas são banais, cotidianos, ao mesmo tempo em que retratam com fidelidade a crueldade benevolente do ser humano, este ser profano repleto de sofrimento e de comicidade, misteriosamente óbvio, dono do circo eterno das meias verdades, dos falsos amores, das relativas dores, dos supostos prazeres, das gerações sem rumo, dos seres sem prumo, da intensidade superficial, pretensamente acima do bem e do mal. O que escrevo agora é mais uma tentativa de ser transparente, se bem que acho que ninguém é verdadeiramente transparente. Acredito que todos trazemos em nós uma certa névoa protetora, neblina que turva os olhos dos que nos olham, com o poder de impedir que sejamos vistos vulneráveis e falíveis como realmente somos. Névoa que difere apenas de intensidade de pessoa para pessoa, mas que está presente em todos, parte integrante de nossas defesas mais irracionais e infantis, de nossos medos religiosamente ateus. Escrever é uma arte que classifico como uma tentativa desesperada, poética e constante de dissipar o que nos impede de enxergar a humanidade. Como não tenho capacidade suficiente para exercitar a literatura, optei por humildemente gravar meus pensamentos, meu sentimento e minha paixão, como se juntas pudessem elas se transformar em algo próximo da arte. Penso que a arte é a tentativa incondicional de ser livre, de ser vivo, de ser perceptivo, de ser percebível, de ser integro, total. A arte é o exercício de não se limitar diariamente ao que é bom ou mal, mas sim de se expandir a partir de óticas novas, não baseadas limites, mas na totalidade da vivência concreta dos prazeres do corpo, da mente e da alma sem a normatização que impomos a nós mesmos e que dia após dia vai nos tornando menores, piores, cruéis, tolos, mesquinhos e covardes por

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não exercermos plenamente o nosso direito a vida. Vejo o artista como um marginal por cometer o erro diário de ser livre e de pensar liberto de todos os pecados que nos impomos e engolimos a seco pelo supremo medo de ser verdadeiro e intenso. O que estou tentando fazer agora é me aproximar da condição de artista, me expor, mostrar ao mundo que ainda penso, que ainda creio, que ainda vivo, que ainda ligo para o que acontece lá fora, que ainda olho para o meu umbigo e que ainda procuro enxergar os umbigos alheios, não por mera curiosidade, mas sim pela necessidade de entender o que sou a partir do outro, semelhante e oposto a mim simultaneamente. Acredito que não somos plenos. Ninguém é inteiramente artista, inteiramente cético, inteiramente são, inteiramente louco, inteiramente poético, inteiramente pacífico, inteiramente genial, inteiramente imbecil, inteiramente cruel, inteiramente feliz. O ser humano é a demonstração de que metades contraditórias somadas aleatoriamente formam uma pessoa. Um ser simplesmente patético, profético, devastador de sua própria existência, incoerente, surreal, apaixonante. Estar artista é uma condição momentânea de todos os que buscam exercitar sua liberdade. Para os que ousam viver continuamente nesta condição a sociedade criou o termo louco. O louco é na verdade um artista em tempo integral. O que pretendo falar aqui é sobre a intensidade dos sentimentos e como os percebo durante esta minha trajetória pela vida. Meu relato é extremamente pessoal, mutável e traz em si a cumplicidade muda dos que viveram sentimentos como os meus e aqui se vêem em mim como um reflexo distorcido no espelho, onde não se enxerga a forma real por mais que se tente fazer com que o espelho distorcido reflita com exatidão as formas que nele buscam ser refletidas. O que busco não é a compreensão do que digo,

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mas a capacidade de proporcionar aos outros um questionamento sobre suas vidas, mesmo que opostas a minha. Quero ser aqui, momentaneamente, uma voz que grita, faz barulho, provoca sons, quebra o silêncio, movimenta, mesmo que sem sentido, um corpo, uma mente, um pensamento. Estou me preparando para relembrar minha trajetória pela vida, meus bons e maus momentos, minhas lembranças, meus segredos, meus sonhos e os meus medos. Algo me atrai na direção da realização do projeto de contar uma história que é só minha, que me pertence simplesmente por ter sido quem a viveu, ao mesmo tempo em que também é a de muitas mulheres. Não sei se essa atração pela concretização deste trabalho se dá por uma espécie de curiosidade ou por um desejo quase inconsciente de me achar nele, emaranhada em suas folhas, protegida de todas as múltiplas direções que tentaram me aprisionar a vida inteira não me deixando ser como sempre desejei. Tenho a certeza de que preciso me encontrar em algum lugar, só não sei onde nem quando, só sinto intuitivamente que esta busca está perto do fim. Confesso que essa sensação me assusta tanto quanto o medo do desconhecido apavora uma criança. Estou muito feliz por ter descoberto a coragem de começar a tornar este projeto realidade. Acredito que descobrirei em mim uma mulher que desconheço, inundada de sentimento e apaixonada pela vida. Este livro talvez seja o que de mais íntimo e poético poderei dividir com alguém, o que me faz pensar se devo publicá-lo ou não, afinal me mostrar despida de tudo, de todas as máscaras que uma mulher pode construir em sua vida é uma atitude extremamente corajosa, quase suicida, e não sei se sou assim. Queria muito com toda esta exposição mostrar através dos meus relatos a essência feminina com suas virtudes e pecados para que mulheres que

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nem sei quem são pudessem perceber que não são as únicas a caminhar por esta vida de forma tão incoerente como se fosse natural. Acho que a decisão de publicar ou não vou deixar para quando finalizá-lo, não quero me precipitar. Já me precipitei muito neste mundo. Fico pensando que talvez este desejo de gravar se traduza em uma necessidade quase infantil de falar ao mundo como se fosse um imenso desabafo ou uma declaração de amor pelo que vivi. Talvez eu esteja buscando exorcizar meus mais aterradores demônios, mas algo está me fazendo verbalizar tudo o que vivi e é exatamente esse algo que eu quero descobrir. Acredito que sou como várias mulheres que conhecemos ou que um dia já observamos pela rua sem sequer imaginar o que traziam no fundo do peito, guardado em suas almas. Fico pensando até que ponto essas mulheres sem rosto não são nossas mães, irmãs, amigas. Intuitivamente acredito que em cada folha deste livro revelará, não apenas a mulher que sou, mas um pouco de cada uma de nós e qual a relação com o mundo em que vivemos através de nossos sentimentos mais íntimos e verdadeiros. Tentativa de desvendar o impossível de ser desvendado. Hoje estou aqui para me confessar, contrariando todos os meus planos e desejos, exatamente por ser eu a senhora dos meus próprios medos, de todos os meus erros urbanos e de toda minha culpa. Venho confessar neste momento toda minha ausência de excesso de movimento, toda minha paz e toda minha angústia, toda minha inocência e toda minha culpa na minha trajetória pela vida. Aqui estou eu em plena floresta de cimento para crucificar meu pensamento, fazer dele réu e confessor com toda minha coragem de mulher. Neste confessionário urbano travestido de depoimento olho no espelho e me enxergo despida, torturada, entristecida, desencontrada confessando para o

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mundo quem não sou. Aqui me encontro relatando enlouquecidamente retalhos da minha história fragmentados pela memória que não sei se tenho. Venho aqui na frente deste espelho distorcido, correndo o risco de libertar o que encarcero em meu peito faz muitos anos, dizer quem sou sem que eu mesma possa acreditar. Confesso poeticamente que sou fraca fortaleza, insegura certeza, violenta pacificadora, contraditória contestadora. Enfim, nesse confessionário urbano confesso todos os meus enganos, assumo todos os meus erros e afirmo com toda certeza que se pudesse viveria tudo novamente, principalmente tudo aquilo que estou contando aqui, eternizando assim a minha trajetória, em alguns momentos poéticos, em outros apenas uma história, mas sempre parte de um coração de mulher que é só meu, mas que faço questão de compartilhar com mulheres que viveram tanto ou mais do que eu . O que me faz desejar escrever um livro? O que me faz querer expor meus sentimentos em uma gravação? Confesso que não sei, mas é algo muito mais forte do que eu esse desejo desesperado de encontrar paz no confessionário urbano da literatura.

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Sempre gostei muito de escrever. Desde criança amava observar o mundo, e acho até que se pudesse optar, sem dúvida nenhuma escolheria ficar do lado de fora só olhando as pessoas, percebendo seus movimentos, a construção e desconstrução de sonhos, cada início, cada fim, cada recomeço. Sempre fui encantada pela profundidade superficial do ser humano, essa heterogeneidade que ele adora dizer que é homogenia, essa diversidade que ele teima em normalizar, essa capacidade única de se negar e de agir como irracional mesmo quando se tem a certeza da racionalidade. Percebo cada vez mais claramente que observar o ser humano também é me observar. Vejo no todo parte da pessoa que sou com meus maiores defeitos e mais pretensas virtudes. Sou um reflexo distorcido pela poesia do mundo que habito e talvez por isso me encanta tanto observar em silêncio. Às vezes penso que se escrevesse sobre o que vejo estaria eu escrevendo exatamente a meu respeito, biografia cósmica, transcendendo ao meu corpo, refletindo o que eu desejo acreditar contraditoriamente que é apenas outro, nada tem de meu. Afinal somos todos documentário ou ficção? Fantasia ou verdade? Poesia ou prosa? Temos história ou não? Existimos? Não consigo entender o que me faz ficar sentada horas em uma cadeira na frente de um computador, solitária, pensando e traduzindo em movimentos mecânicos no teclado sentimentos, sensações e incoerentes idéias. O que me faz acreditar que meu texto possa de alguma forma ter utilidade ou interessar a outras pessoas? Não sei, mas mesmo assim eu escrevo. No fundo acho que ao escrever estabeleço uma relação de cumplicidade com meu leitor, ilustre desconhecido a se alimentar das minhas idéias assim como eu me alimento do

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seu sedutor olhar nas minhas letras. Acredito que a literatura é acima de tudo uma relação baseada na mais pura e recíproca antropofagia de idéias. Costumo chamar esta antropofagia de cumplicidade, não acredito que exista uma relação intensamente verdadeira sem a existência do cúmplice perfeito. Não falo dos cúmplices amantes, falo de seres que conseguem estabelecer um relacionamento fundamentado em uma imensa e complexa simplicidade exclusivamente através do mergulho profundo e incondicional no mar dos questionamentos que a vida faz questão de diariamente nos mostrar apenas na superfície dos fatos. A cumplicidade nos nutre de segredos, somatório de sonhos e desejos inconfessáveis para todos, menos para o cúmplice. E o cúmplice? Não será apenas mais uma lenda urbana? O cúmplice talvez seja um ser alimentado pela magia da crença em mais uma história vivida nos palácios e templos da civilização quase moderna, rodeada por trilhas de asfalto, por onde navegam juntos carroças, carros importados e pessoas condenadas à pressa de nunca chegarem, humildes habitantes das modernas cidades, cidadelas de concreto e de meias verdades, grande circo mágico das toleráveis mentiras e dos aceitáveis pecados, nascidos durante a moderna idade da pedra artificial, acima de todo bem e mal, da gordura saturada, da deliciosa comida envenenada, da dor e do prazer que provocam juntos falsas sensações de desejo e poder. Sobrevivemos ao paraíso e inferno astrais simultâneos da literatura exatamente por sermos religiosamente profanos, torturados pelo infantil medo de envelhecer nosso pensamento e de deixarmos de ser quem somos. A identidade nos mantém vivos. Talvez sejamos todos partidários do exercício constante e contraditório de mudança de planos quando tentamos impedir a perda

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inconsciente dos ideais e dos sonhos nos desviando da estrada que nos conduz ao futuro sem futuro desta civilização de titânio com coração de asfalto e olhos de cristal, pesadelos humanos de pedra, cibernéticas esfinges medievais que nos convidam desesperadamente para decifrar os enigmas que acreditamos que a psicanálise não conseguiu. Como uma luz no fim do túnel ainda nos rebelamos felizmente, na contramão do mundo sob a forma de urbanas mentes andarilhas que promovem como necessárias guerrilhas um banquete de críticas e questionamentos para que não venhamos a cair nas armadilhas do prazer artificial. Talvez, ao construirmos mistérios, estejamos tentando não levar a vida tão a sério. Talvez acreditemos na possibilidade de que algo mágico possa vir a seduzir nossas almas como se fosse uma bebida de gosto docemente amargo chamada liberdade, dona do poder de nos embebedar com a essência verdadeira da vida através de folhas de papel repletas de letras, ritual da queda de máscaras, fábula moderna sem moral e fim.

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Minha mãe era da rua, da noite, da vida. Uma mulher despida de tudo, alma em chagas, riso no rosto, a rainha do prazer dos outros sem sequer ser dona do seu próprio prazer. Ela começou aos onze anos. Me contou envergonhada que tinha muitos sonhos que se perderam todos quando seu pai, depois de abusar de seu corpo ainda inocente, a vendeu no interior para um desconhecido. Um homem tão nojento e sujo quanto seu pai, como se fosse ela mercadoria barata, descartável, em liquidação. Chegar a capital e aprender com as dores e temores que ela provoca não demorou. Ela perdeu tudo, até a alma, nessa vida de lodo, de esgoto, sofrimento. Vivia dia após dia pensando quando este pesadelo ia ter fim, mas este dia nunca chegava. No fundo ela sabia que nunca chegaria. Foi chutada, cuspida, violentada, agredida. Tratada pior que bicho pela mesma sociedade que a fez, pela mesma sociedade que constrói cruelmente a anatomia de pessoas como ela para depois negar sua autoria maldita. Virou alcoólatra e drogada para se libertar e na verdade isso tudo só aumentou os muros da prisão. Um dia me disse chorando que é impossível suportar de cara limpa tantos corpos estranhos, imundos ou não, a usando como se ela nada fosse, ou melhor, como se ela fosse bem menos do que nada. A rua e o submundo eram a sua casa, o seu lugar, e não vejo nenhuma poesia na noite e na dor que em tudo isso há. A poesia da noite só quem enxerga são poetas e escritores que dela nada conhecem a não ser o lado romântico dos folhetins inventados a partir desta cruel vida noturna repleta de demônios e vampiros sociais. Ela era a alegria dos homens frustrados, dos homens condenados, das mulheres solitárias e dos homens adoentados de corpo e alma e eles eram a personificação da sua dor. Sem mulheres como ela muitos

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homens não suportariam as suas frustrações diárias. Elas são um mal socialmente necessário para alguns, uma válvula de escape dos homens machistas, traumatizados, pervertidos e alucinados para que não façam com as suas boas mulheres o que impõem a essas mulheres ditas más, gueixas modernas, condenadas a conviver com a imundície social que eles mesmos traduzem com seu comportamento. O doloroso papel dessas mulheres é o de deixar superficialmente limpa a sociedade que as rodeia enquanto se dilaceram com essa profissão tão antiga quanto maldita. Minha mãe vivia no santo reino da hipocrisia que a tolerava porque precisava, mas que não a respeitava, afinal a matéria prima que comercializava era seu próprio corpo, que envelheceu rapidamente e era coberto por marcas tão profundas como as que cobriam sua alma. Olhar mulheres como minha mãe ainda hoje é para muitos olhar a podridão que na sociedade existe, enxergar a lepra social que despedaça a alma e os sonhos, é ver de forma triste que valores morais são apenas capas usadas pelas famílias para esconder as suas falsas verdades com verdadeiras mentiras. Ela não era prostituta por escolha própria, mas por crueldade, não dela, mais da sociedade que a colocou nessa vida. Um dia ela realizou o seu desejo suicida, mas como matar o que nunca viveu? Suas chagas continuarão vivas.

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Minha infância foi feliz. Hoje percebo que fui blindada do universo em que vivia para que eu pudesse ter outra trajetória na vida, para que eu não repetisse a sua via crucis e não sofresse na carne o martírio das desilusões que as mães não querem para os filhos. Apesar de menina, meu grande brinquedo era uma bola, afinal sempre achei as bonecas sem graça, paralisadas, inertes, artificiais, incapazes de interagir verdadeiramente. Já a bola não, ela era puro movimento que interagia com o meu me dando uma sensação de liberdade, ação e reação. Talvez por isso o mundo tenha a forma de uma bola e talvez por esta semelhança é que ele tanto me encanta. Fui uma criança medrosa e confesso que ainda tenho medos. Sou como todo ser humano um imenso depósito deles, sendo o maior de todos o medo do medo. Às vezes tenho medo de que meus medos me impeçam de ser feliz, de que eles consigam me sufocar, me encarcerar. Sou como a criança que tem medo de subir escada e com um imenso esforço sobe degrau a degrau, passo após passo, até chegar ao final. A escada parece infinita e cada passo representa a dor do medo e o prazer da superação do obstáculo simultaneamente. Para alguém que tem medo uma simples escada passa a ser uma batalha a ser vencida dolorosa e lentamente. Todos temos nossas escadas pessoais, apenas damos nomes diferentes a elas. Tenho muitas escadas ainda para subir na minha vida e quero ter força e coragem para subir todas elas. Fui crescendo, virei adolescente. Certo dia engravidei. Meu namorado não quis assumir. Me dei por puro amor e descobri que amores existem, mas responsabilidade, nem sempre. E lá estava eu, adolescente, me vendo mulher em um piscar de olhos enquanto ele continuava menino, soltando pipa, jogando bola, matando

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aula na escola sem lembrar que fez filho e virou pai como todo homem. A nós mulheres não nos são dadas opções, trazemos no ventre e acabou. Aos homens a juventude é preciosa, não se pode perdê-la apenas por um filho, ele é pouco para tanta diversão que a vida oferece. Triste de nós adolescentes que cometem o crime de amar de forma pretensamente inconseqüente, quando na verdade a única conseqüência é refletida em nosso corpo, em nossa vida, como se uma mulher pudesse conceber sozinha. Na época todos me condenaram, me tornei o grande problema, a causa da discórdia no jogo maldito para saber de quem é a culpa, quem não me deu educação, quem não me prendeu em casa, quem não me bateu quando eu precisava. O pior de tudo é que, por ignorância e sem apoio, acreditava que tinha ido embora o meu estudo, o meu destino, o meu sucesso, a minha profissão. Pensava que ele ia ser doutor, engenheiro, professor, comandar o mundo, ser um homem de respeito, um simpático senhor de cabelos grisalhos, sábio e revolucionário e que eu seria apenas mais uma mulher a se sacrificar pelos filhos, a trabalhar duramente, envelhecendo muitos anos na frente da idade que na minha identidade existiria. Pensava que quando eu chegasse aos trinta, aparentaria quarenta, e aos quarenta pareceria uma mulher de mais de cinqüenta. Imaginava que nunca poderia ter lembranças de uma doce adolescência, que tudo o que lembraria seriam as dores e perdas de quando menina. Lamentava ser esta a minha dura sina, a de mulher sofrida, marcada pela vida, única e exclusivamente porque não optou por retirar, ainda adolescente, o fruto deste duvidoso amor. Corajosamente não acabei com a vida do meu filho, agi como mulher que vive e sente, optando pela maternidade sem parceiro, sem cumplicidade, sem pai, mas podendo

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seguir de cabeça erguida pela dolorosa trajetória de mãe solteira que acreditava que a vida com certeza iria me impor. Lutei contra tudo isso e estou aqui. E ele? Eu sinceramente nem sei.

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Sempre me viram como uma mulher fatal, mas na verdade sou apenas uma delicada mulher de alma corajosa, sentimentos intensos e coração aventureiro. Tenho coragem de buscar todos os prazeres que acredito que a vida pode me proporcionar. No fundo sou apenas uma mulher que como muitas outras deseja apenas ser feliz. Já sofri muito pela incompreensão de quem eu amava, pelo excesso de amor de quem eu não desejava, pelo amor que senti por quem não me queria, pelo desamor dos outros e também pela minha própria falta de amor em alguns momentos da minha vida. Hoje me sinto uma mulher livre, mas ainda falta algo a ser vivido. Não sofri apenas, em muitos momentos fui feliz. Vivo sempre minhas emoções com a intensidade de quem acredita na possibilidade do mundo acabar amanhã. Encaro sem medo todos os prazeres que a vida coloca a minha frente para serem vividos, por isso não me escondo. Não sou mulher de fugas, geralmente são os outros que fogem de mim. De certa forma compreendo o medo e o fascínio que exerço nas pessoas. Sou como uma sereia urbana. Minha liberdade seduz e amedronta. Resistir ao meu canto é tão impossível quanto me possuir. Contraditoriamente, ainda procuro quem seja capaz de estar ao meu lado sem me aprisionar por puro medo de me perder. Amo a liberdade,não a idealizada e sim a que exercitamos, ou pelo menos tentamos, todos os dias concedendo-a ao outro, não porque somos bons ou perfeitos, mas sim por que o outro só é capaz de nos amar verdadeiramente quando é livre para se fortalecer, conhecer, vivenciar e aprender tudo o que a vida lhe dá. Toda forma de amor que não parte do princípio da liberdade não é amor, mas uma busca da aceitação do outro, o que demonstra um imenso grau de fraqueza ou a total

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ausência de percepção de quem se é. Amar é ser e ter a certeza de que o outro está inteiro, independente dos caminhos que tome, mesmo que opostos ou contraditórios aos meus, livre para vivenciar sensações e sentimentos sejam quais forem, sejam aonde forem, seja com quem for. O amor não pode ser cadeia, prisão, coleira, gaiola. Amar é proporcionar ao outro a possibilidade do conhecimento pleno da humanidade sem limites pré-concebidos, é exercer e simultaneamente permitir que se exerça o supremo direito à liberdade. Quem teme perder um amor lhe dando liberdade não ama. O amor verdadeiro traz em si a segurança de que todos os caminhos percorridos levam a ele. O amor não tem medo da trajetória, preocupa-se apenas com o destino final. Ele é um viajante que sabe para onde está indo, mas que não se preocupa com a obrigatoriedade de seguir uma rota definida, mas sim com o que vai aprender de novo pela estrada para dividir com quem o aguarda. Toda visão poética do amor sempre acaba esbarrando na dificuldade que temos de perceber o outro como ele realmente é e não como desejamos que ele seja ou venha a ser. Criamos sempre seres imaginários que nunca condizem com os que convivemos e quando percebemos que desconhecemos alguém tão próximo nos sentimos traídos pelo outro quando na verdade nós é que traímos nossa percepção do real idealizando para que pudéssemos aceitar e conviver com alguém tão diferente. Nossa dificuldade de amar o ser amado pelo que ele é e não pelo que ele pode vir a ser nos afasta da felicidade. Quando falo de felicidade, não falo da sensação de um só, mas sim da comunhão desta sensação. Não acredito na felicidade de um a partir do sofrimento do outro. Qualquer coisa que envolva sofrimento, mesmo que do outro, jamais pode ser

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considerada felicidade. A felicidade em si não é um sentimento egoísta, por isso é tão raro. Alcançar a felicidade é alcançar um estágio de percepção do outro, tão integral e verdadeira que nos torna capaz de partilhar com quem se conhece esta intensa e profunda sensação. Perceber o outro é mergulhar profundamente em seu interior e procurar com simplicidade decifrar o enigma escrito em seus olhos. Acredito que os olhos são jóias de uma grandeza absoluta, lentes poderosas de captação do ser humano. Talvez por terem tanta grandeza são tão amados e por serem tão amados acabam sendo instrumentos imprescindíveis no processo de sedução que a vida conduz. Vejo a sedução como o exercício de se buscar viver em um grupo social. Se não somos capazes de trazer o outro para perto de nós do que somos? Só o outro pode nos conceder o direito à humanidade. A medida da condição humana só pode ser exercida plenamente quando nos relacionamos. Precisamos nos seduzir mutuamente. E quando falamos de sedução amorosa? Esta sim é uma sedução complexa, se baseia na conquista do ser amado, ao mesmo tempo em que representa um grande exercício de vaidade. Seduzimos o outro utilizando os mais cruéis artifícios amorosos como se o ser seduzido fosse o inimigo amado ao invés do cobiçado. Enveredamos por um jogo onde perdedor e ganhador são as duas partes ao mesmo tempo. A sedução sem duvida nos torna pretensamente irresistíveis aos olhos do ser amado. E não há nenhum ser mais cruel do que aquele que fracassou na arte de seduzir. Os seres humanos quando fracassam no amor ou na paixão buscam não fracassar no ódio. Talvez um dia eu me apaixone definitivamente por alguém que me solte, quem sabe neste dia eu deseje encarcerá-lo, talvez eu não consiga fazer dele meu prisioneiro, talvez aí eu perceba

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o quanto fiz sofrer pessoas que me amaram. Pode ser que nada disso venha acontecer, é possível que sejam apenas suposições de uma mulher que pensa muito e vive bem mais do que pensa.

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Quero muito dividir esta sensação complexa de lembrar erros e acertos traduzidos pela história de uma mulher encantada pela paixão que a vida representa. Sou uma mulher moderna e independente como tantas que virou o jogo, que não se deixa ser objeto, mas que as vezes cria alguns propositalmente só para saber como é o outro lado. Sou realizada e não preciso de homem para nada, a não ser para fazer sexo quando dá vontade. Sou uma alma que pulsa dentro de um corpo de aparente fragilidade, onde convivem juntas a força e sensibilidade. Sou um demônio que se esconde debaixo das asas de um anjo. Misturo mentira e verdade. O que trago em mim de tão insondável? Certamente alguns homens também se fizeram esta pergunta sem encontrar resposta. É possível que não consigam responder por subestimarem o que as mulheres escondem ou por não acreditarem no que as mulheres expõem. A verdade é que ninguém passa impune pelo coração das mulheres. Tolo o que acredita que pode ousar ser o senhor dos infernos astrais da vida de uma mulher, pois ela um dia se vingará sem piedade usando cruelmente a verdade de ser quem é por mero prazer de ser só para condená-lo a amá-la eternamente sem ele perceber. Corajoso é aquele que sem medo se entrega ao mergulho no abismo misterioso da vida de uma mulher sem pensar um segundo sequer se sobreviverá, apenas pelo prazer do mergulho incondicional, pois este é o que dela chegará mais perto. Tenho pânico de um dia ser covarde e erro muito por isso. Sou a tradução da perfeita contradição da nova mulher que está surgindo. Sou uma amazona moderna, sereia virtual, mas pode me chamar de vampira emocional.

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Comecei a lembrar de quando fiz vinte e um anos. Eu achava que por ter alcançado a maioridade passaria a assumir minha condição de mulher adulta. Como se isso realmente tivesse alguma relação com a idade que eu passava a ter. Sempre me senti adulta, responsável, experiente sem ter vivido. Para falar a verdade, sempre me senti um perigo aos que me subestimavam por me acharem apenas uma menina. Eu não passava de uma eterna sonhadora, alma de menina aprisionada no corpo de mulher, que deveria ser formal, ética, poética, perfeita, acima do bem e do mal, mas que nunca foi nem nunca será nada disso. Sempre optei pela diferença, por ser intensa, por ser eu mesma, moleca apaixonada pela vida que de peito aberto sempre se joga do alto do mundo em busca de experiências, de vivências, de correr perigo, de sentir um frio na barriga nesta montanha russa que é vida. Tenho um vício desde menina chamado viver. Viver tudo, totalmente, intensamente, até os quarenta e cinco minutos do segundo tempo, mesmo que seja um sonho. Ouso aproveitar a vida integralmente como ela merece. Fui aprendendo a administrar os todos os meus medos com o tempo. O medo de chorar, de sofrer, de me magoar, de me descobrir imperfeita, de não saber amar, de não saber viver, de me desconhecer, de não fazer por merecer, de sentir dor, de conhecer o amor. Outros medos menores eu já domestiquei no começo da maioridade, final de uma adolescência que eu nem sei se tive, afinal sempre me senti tão adulta, tão mulher. Hoje mergulho suicida na vida, sem nenhuma certeza, inclusive a de sobreviver a tudo isso sem sofrer. Acho que tudo fica pequeno quando não se é livre. Quando não se vive tudo perde a razão. Já que nasci não quero fingir. Me esforço diariamente para passar pela vida

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sem me preocupar se vou descobrir algum dia se valeu. Quero ser eu, dor e prazer, sem medo de ser, acima de tudo, feliz.

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Como estou aqui para contar a minha história resolvi confessar que fui amante de um homem desesperadamente. Só hoje sei que para ele nada mais fui do que uma simples amante, um colo sereno para as dificuldades do dia a dia. Com ele nada pude partilhar. Não tive sequer o direito de ter problemas, muito menos o de ser um problema. Fui apenas a cama farta para compensar a cama escassa de seu cotidiano. Era apenas a cama fácil, segura e exclusiva. Fui aquela que passava sozinha as datas mais importantes, aquela que via a felicidade das famílias pela janela com a certeza de que jamais teria uma igual. Era a que ia sozinha as festas, as reuniões de família e que fingia que era normal. Queria ter mais filhos, mas ele já tinha todos os que queria e achava que eu não precisava. Um filho para dividir com ele a atenção atrapalharia a relação. Atrapalharia para quem? Eu era uma mulher comprometida com a solidão. Comecei a enxergar que se não desse um basta nesta história envelheceria sozinha, iludida achando que tenho um homem. Sempre que precisava ele estava ocupado, vivendo sua vida de bom pai, bom marido, enquanto meu coração sofrido amargava a solidão e não tinha com quem dividir as dificuldades. No início ele até me enganava dizendo que largaria tudo para ficar comigo, mas depois nem isso fazia mais. Eu tinha virado rotina. Refém da sina de ser mulher de um homem que não era meu. Como me arrependo de ter me submetido a este papel, como me arrependo de ter me deixado enganar. Eu era com certeza aquela que não tinha amigas, a que poderia roubar os seus maridos. Uma rival em potencial. Eu era olhada com olhos tortos pela família, a falada da rua, a que mesmo vestida estava nua, exposta, na língua de todos que tem por esporte comentar de forma inconseqüente a vida alheia. Sofri muito sendo amante. Doía

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ser só, mas o que mais doía era saber que o homem que amava, por quem me sujeitei a tudo isso, me enxergava apenas como uma forma de sexo seguro fora do casamento, um mero objeto sexual. Decidi largar tudo e ir morar em outra cidade. Acabei namorando e casando, mas confesso que não tive sorte. No meu casamento fui extremamente infeliz, me sentia uma estranha dentro de minha imprópria vida de mulher casada. Olhava em volta e tudo o que via eram remendos, fragmentos de uma mulher que dia após dia se despedaçava amordaçada por suas obrigações maternais de dona de casa que abdicou de ser mulher, de ter vida, em nome dos filhos, que um dia partirão após minha missão cumprida sem sequer me dizer obrigado. E lá estava eu após mais uma cama com meu marido, um prazer sem prazer, sofrido, pois sempre soube que não era aquele o meu lugar. Ele nada percebia, achava que eu era um modelo perfeito de mulher, que nada devia nem a vida nem a sociedade, mas eu no fundo eu sabia que não passava de uma mulher covarde, louca para me libertar, e viver loucuras, quem sabe uma nova paixão de mulher já madura na flor da sexualidade, que em mim ardia, não pela necessidade de quantidade, mas pela diversidade de sensações e corpos que queria ter junto ao meu. Mas lá estava, aprisionada em mim, conformada com o honroso papel de mulher submissa, destes encenados no ciclo familiar e que tolamente não fazemos resistência nenhuma em aceitar. Lá estava, só, mulher indefesa de si mesma, perdida, ovelha desgarrada, bandida, a trair com a mente, pois temia fazê-lo fisicamente. Vivia traindo de corpo presente a quem eu teria a obrigatoriedade de amar. E amar se obriga? Evidente que o que se obriga nada mais são do que amores farsantes, que nada tem de verdadeiro a não ser seu nome. Triste de minha vida, triste de meu corpo que não

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sabia o gosto de realizar suas fantasias. Tristes dos meus desejos que se esvaíam por entre meus dedos sem serem realizados. Triste do meu ser amado, por mim nunca encontrado, apenas idealizado no lugar mais profundo do meu coração. Triste do meu marido enganado e feliz, pois pensava ter casado com uma mulher que na verdade nunca existiu. E lá estava eu, nua, sem paixão, sem emoção, sem vida, sem tesão, sem amor, sem coragem para me perguntar o que fazer da vida, se é que tinha alguma. Um dia senti um frio percorrendo minha pele, fazendo doer meus ossos, me gelando a alma. Senti um aperto no peito, um medo que desconhecia misturado a uma coragem momentânea e irracional. Com um forte golpe a dor da não realização me alcança. Começara a perceber que nunca vivi. Chorei com tanta dor como se derramasse todo um oceano no olhar. Lembranças passavam como flashes rapidamente pelos meus olhos. Decidi pela morte. Levantei, vesti uma roupa, desci as escadas e fui até a cozinha pegar uma faca. A campainha tocou. Fui atender. Esqueci da morte. Esqueci das dores de minha própria alma, pois a minha rotina me chamava. Acabei obedecendo e sufocando minha vida mais um dia, pois não me dei escolha. Limpei minhas lágrimas, retirei do armário um sorriso mofado e o coloquei no rosto. Abri a porta como se nada tivesse acontecido. E nada aconteceu. Calei meu peito, meus sonhos, meus desejos, meu corpo, minha alma. Celebrei assim com minha derrota silenciosa mais um dia de uma mulher infeliz, morta em vida sem ninguém perceber.

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Como era de se esperar, o casamento foi se tornando uma guerra civil domiciliar. Acabei sendo abandonada pelo meu marido e me senti culpada ao ficar feliz por isso. Cheguei a conclusão de que meu casamento sempre foi uma farsa. No início pensei que era eu quem quase o obrigava a me trair, mas só agora percebi que eu nunca fui amada nem tampouco sexualmente saciada. Não tive um homem, tive um gorila. Se bem que os gorilas devem ser mais afetuosos com suas fêmeas do que ele era comigo. Não sabia falar, tocar, entender, dialogar, nem sabia educar os filhos, fiz isso sozinha. Ele não tinha condições de participar, suas limitações emocionais sempre o impediram de ser humano. Sempre fui a burra, a ignorante, a que está mal vestida, a que envergonha, a que ele só falta colocar uma fronha na cara para saciar suas taras, a que só merece trabalho, desrespeito, a mãe de seus filhos. Fui sempre a que não tem nenhum direito, a que só tem defeitos, a escrava do lar, a mulher para ele arrebentar. Vivia calada, amedrontada, traumatizada. Se não queria fazer sexo eu era violentada por quem jurou me respeitar diante do altar. Eu era mais uma vitima do estupro dentro da minha própria casa, na minha cama, sem ninguém para me ouvir denunciar, gritar, chorar, implorar para ele parar. Após cada violência, cada pancada, cada humilhação, pensava em matá-lo, mas não tinha coragem, pois sabia que a sociedade me crucificaria. Ficava com medo do que meus filhos poderiam pensar da mãe que mata seu pai, seu herói, que nada mais era do que um bandido, um agressor. Optei pelo silêncio, por suportar a dor, por fugir da realidade vivendo pelas novelas uma felicidade que desconheço a cor. Um dia, ele chegou em casa com duas malas vazias dizendo que ia embora. Falou, gritou, me humilhou, agrediu. Entrou no quarto, jogou suas roupas na mala virou as costas, abriu a

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porta e saiu sem dizer adeus. Meus olhos se encheram de lรกgrimas, eu nรฃo acreditava. Enfim estava livre, jรก podia viver em paz.

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Se ser feliz é uma arte eu sou uma artista. Acredito plenamente que minha felicidade não é mera ilusão, por isso vivo intensamente minuto a minuto como se cada um deles fosse o último, ápice de uma paixão profunda pelo exercício diário da felicidade e do prazer, não o prazer da carne, mas o prazer da alma travestido em sorrisos, em emoção profunda revelada pelos olhos de quem ama e é correspondido. Nunca fui santa, sempre fui. Ter consciência de quem sou me faz ser uma mulher cada vez mais aberta, disposta a encarar sem medos este monstro adorável chamado vida, sempre em busca do prazer inesperado, do amor ainda não amado, do momento não vivido. Como poderia eu negar a beleza que há em tudo isso, na complexa poesia que é estar viva, apesar dos pesares, do final do mês, da falta de vez e de oportunidade, dos momentos introspectivos e das meias verdades? Vivo por saber viver. Vivendo por um triz, sou uma atriz diante deste cenário que é a vida, encenando esta peça genial chamada existência, minha essência, minha relação intensa com o mundo em que habito, descrito pelos meus olhos de uma forma distorcida para o meu pensamento, que por um momento vai longe, não está aqui. Quando fiz cinqüenta anos descobri a força escondida no tempo que passa sem parar. Percebi que estava envelhecendo e que isso não é mal, muito pelo contrário, descobri que estava ficando cada vez melhor, mais inteira, verdadeira, mais completa, mais complexa. Passei a ter plena consciência dos meus sentimentos e dos meus medos, descobri finalmente quem sou e o que sempre quis, apesar de achar que saber muito aquilo se quer tira um pouco a graça. Hoje estou em um momento, não de felicidade absoluta, mais sim de plenitude da minha capacidade de me conhecer. É como se de repente

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eu tivesse percebido que estou viva e qual meu lugar no mundo. Não me preocupo mais com coisas banais como a condição feminina. Me preocupo hoje com minha condição humana, muito superior à questão da rivalidade entre os sexos. E quanto ao sexo, percebi que ele nada mais é do que um meio e não um fim como a juventude nos faz acreditar. Para mim hoje ele é mais um instrumento para a descoberta do outro do que o objetivo a ser alcançado. Vou mais facilmente além dos meus limites, até porque descobri que cada um tem uma filosofia muito intima e pessoal, que nos faz seres livres e pensantes, criadores e criaturas simultaneamente. Hoje dou muito mais valor ao presente e ao passado do que ao futuro, pois não tenho certeza se ele vai chegar. Me preocupo mais com o tempo real, que existe agora, já existiu ou está para existir nos próximos segundos. Acredito agora que só dando valor aos segundos podemos nos transformar em algo mais humano, menos materialista. Minha concepção de Deus também mudou muito. Aquele ser supremo que eu temia se transformou em um grande ser sobrenatural, sem rosto, mas perceptível, inteiro, pleno, que me deixa confortada ao invés de atemorizada. As coisas mudaram, eu mudei, mas a sensação que tenho é de que bem lá no fundo eu voltei, isso sim, a ser a menina que um dia eu fui e que se perdeu por aí neste mundo que molda as pessoas cruelmente por mais que lutemos contra as formas que criaram para nós. Quanto ao amor, acho hoje que ele é como a chuva, boa de se ouvir, de se deixar cair levemente na pele em um dia de verão. Não creio mais nas tempestades, não sou amante dos trovões de uma relação tempestuosa, prefiro a calmaria da chuva fina de um lindo dia. Eu mudei, me sinto feliz e agradeço sinceramente aos meus cabelos brancos a possibilidade de ter amadurecido.

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A cor da minha pele não me nega. Negra. Afirma, orgulha, representa. Trajetória histórica de pessoas lutadoras que a minha pele sempre lembra. Trago no corpo e na alma a discriminação enraizada na alma fraca de pessoas que não compreendem que as multicores da pele não significam nada, a não ser para sua hipocrisia camuflada pelas desigualdades covardemente sociais que transformam seres humanos em rivais desiguais. O respeito as diferenças é uma necessidade básica da educação e da democracia. Quem sabe um dia todos exercerão igualmente sua cidadania. Quero andar pela vida sem sofrer violências gratuitas não admitidas. Falo sempre de tanta coisa que hoje gostaria de falar a respeito daquilo que me deu a condição de ser quem eu acabei me tornando, o meu trabalho. Sou uma mulher digna, brasileira, cidadã, que apesar de tudo isso, de todos os direitos que possuo, ainda preciso lutar para ser incluída e reconhecida no meu país única e exclusivamente porque sou mulher. Para ter direitos e ser respeitada na sociedade eu tenho que lutar, mas para pagar impostos não. Eles sempre chegam certinho no meu endereço. O interessante é que meus direitos nunca chegaram e o endereço é o mesmo. Trabalho mais e melhor que muitos homens, mas meu salário sempre é inversamente proporcional a minha capacidade. Afinal remuneração deve ser calculada por capacidade ou por anatomia de órgão genital? Como posso ser integralmente brasileira se não me respeitam? Pedem meu voto, mas não me dão meus direitos. Só existo legalmente para ter obrigações. Direitos nunca? Quais direitos tem uma mulher? Vivemos em um país em que a cultura de manter o povo ignorante foi propagada aos quatro ventos para atingir

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determinados fins. Ao que parece esta cultura se perpetua hoje com uma outra finalidade, muito mais cruel e particular. Fico me perguntando como poderão alguns detentores do poder construir através de políticas públicas um país mais igual para homens e mulheres se eles só conhecem um dos lados da questão. Como dar condições para que mulheres se desenvolvam profissionalmente se elas poderão no futuro se tornar um risco concreto a manutenção do poder e do emprego de alguns incompetentes? Como podemos nos sentir confiantes em uma mudança efetiva na forma com que nos tratam em nosso país se vivemos ainda em uma sociedade machista? É simples, basta educarmos os nossos filhos homens e mulheres de forma diferente e mais inteligente. Eu poderia aqui falar dos meus dramas, fazer desta gravação um muro de lamentações como muitas mulheres fazem diariamente nos ouvidos de seus desatentos maridos e filhos verbalizando cotidianamente os seus martírios, mas confesso que este não é nem nunca será o meu estilo. Não preciso remoer meus sentimentos para ter do que me alimentar, muito menos para me justificar. Sou feliz porque sempre busquei fazer dos maus momentos uma oportunidade para aprender com a vida e dos bons fragmentos da minha historia dignos de serem eternizados. Acredito que a felicidade é como um bom vinho, tem que saber apreciar. Sou mãe, e como toda mãe, sempre padeço no paraíso dos problemas que envolvem todas as faixas etárias dos meus amados filhos. Sou esposa e como toda esposa estive ali, sempre ao lado, companheira, parceira nesta trajetória pela vida. Mas acima de tudo sou mulher, pois aprendi no transcorrer deste meu caminho que ninguém pode me dar felicidade. Tenho a capacidade de enfrentar o mundo com coragem e força, fazendo sempre o impossível

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para alcançar meus objetivos, ousando reformular aquele não alcançado, tentando incansavelmente chegar lá, mesmo que eu não saiba onde fica.

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Tenho muito orgulho em dizer que sou mãe de uma menina especialmente diferente. No início tudo foi difícil. Tive medo, me faltava informação. Hoje o difícil é lidar com a dor que o preconceito provoca. Confesso que pensei quando soube que era um castigo divino por ter insistido em tê-la, mas aos poucos percebi que é muito mais do que uma benção, é um lindo presente. Senti muitas vezes em minha pele a discriminação. Minha filha é vítima dela graças a estupidez e a falta de educação de pessoas pequenas e medíocres como eu fui um dia. Ela sempre me pergunta se ter uma filha diferente não é ruim e eu sempre digo que ruim é ter de conviver com pessoas que a agridem por apenas não ser igual. Ter uma filha diferente não é estranho. Estranho é existir neste mundo seres humanos que tratam de forma agressiva crianças por ignorância. Ter uma filha diferente não é feio. Feio é ser preconceituoso. Ter uma filha diferente não é triste. Triste é a incapacidade humana de respeitar as diferenças dos seus semelhantes. Ter uma filha diferente não é diferente, é bem mais comum do que alguns imaginam. Felizmente eu acredito que ter uma filha diferente é melhor do que ser igual aos que ainda não aprenderam a ser. Ser mãe de uma filha como a minha não é complicado, complicado é deixar minha filha desistir de realizar seus sonhos só porque estranhos não a querem feliz e realizada.

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Sempre tive de passar por momentos difíceis. Um dos maiores que vivi foi ouvir da minha filha que ela possuía uma opção diferente da minha. Me disse tranquilamente que era uma mulher que amava outra. No primeiro momento confesso que desmoronei, apesar de toda minha moderna visão de mundo. Ter consciência que a sociedade condenaria minha filha por sua opção foi doloroso. Eu tinha certeza de que para a família ela seria um constrangedor problema refletido na escolha de amar alguém igual a ela, mas me cabia lutar para que isso não viesse a acontecer. Tenho a obrigação de defender a minha cria de todo e qualquer sofrimento, mesmo que eu sofra. Tive muito medo, a sociedade se envergonha dos que são como ela, independentemente de quem são, do seu caráter, do seu coração. A maioria infelizmente os prefere invisíveis, o que não se vê não existe. O engraçado, para não dizer ridículo, é que a sociedade hipócrita, travestida de família, tolera o homossexualismo nos filhos dos outros, nos irmãos dos outros, nos netos dos outros, mas quando é na nossa casa a tolerância evapora em nome de uma falsa cegueira ou da extirpação do ser contaminado como se expulsar abolisse a existência de alguém com opções diferentes, mas com direitos iguais. Não vou deixar que nada aconteça com minha filha. O que poderia fazer se a sexualidade que ela busca é baseada no afeto, no leve toque, na relação complexa deste misterioso universo onde reinam supremas as mulheres. Como posso deixar que a sociedade a crucifique apenas porque optou pela diferença de amar um ser igual a ela? O que posso fazer se ela quer ser feliz como é ao invés de buscar uma felicidade de papel que seria de todos, menos dela? O que me espanta é o quanto desejam alguns

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assassinarem a privacidade das pessoas que desconhecem. Como alguém consegue se sentir realizado ferindo de forma covarde, por pura inveja, quem ousa ter prazer, quem ousa sorrir, quem ousa acreditar que ninguém pela metade poderá ser feliz? Como posso impedi-la de querer exercer sua cidadania não abdicando em nenhum momento de ser ela mesma? Talvez para quem não me conheça seja difícil entender como aceitei as escolhas da minha filha. Pode ser que seja difícil até mesmo aceitar para os que não sabem o que é o amor, mas o que é a vida senão um exercício diário de aceitação? Se a felicidade está no simples fato de poder ser quem se é, porque a sociedade só permite este privilégio a alguns?

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Depois de revelar tanta dor, tanto drama, tanta vida, tanto amor, tanta alma feminina traduzida nestas letras, me sinto leve e transbordada de emoção. Sinto que consegui me revelar dentro de meu próprio livro sem medo algum, mesmo diante de todo passado que ressuscitei. Confesso que me sinto muito mais mulher, um ser que também sofre, que também foge, que também luta, que também perde, também ganha, que também é sagrada e profana. Aqui estou eu como todas, nua, despida de vaidade, mas vestida de sentimentos que só os momentos mais íntimos de uma mulher podem produzir. Este livro é meu ponto final nesta trajetória. O que estou escrevendo é um testamento disfarçado de final de livro, um inventário dos sonhos e das histórias que construíram a minha trajetória que faço questão de deixar registrada como prova irrefutável de que vivi e de que fui, apesar de tudo, feliz. Confesso que pretendo não estar viva quando o livro for publicado, se é que ele será um dia, pois não quero presenciar nem o meu sucesso nem o meu fracasso, se bem que na verdade isso para mim nunca fez muita diferença, o que sempre importou foi o desafio de poder contar tudo, mesmo os momentos mais sofridos, dolorosos, contundentes, constrangedores, aqueles momentos que costumamos jogar para debaixo do tapete. Confesso também que pensei em por um fim na minha vida. Sei que é difícil aceitar como alguém pode pensar em suicídio, mas a vida não existe para ser entendida ou aceita, mas sim para nos demonstrar o quanto somos limitados dentro deste universo, que temos um início e um fim, só não sabemos quando. Gostaria de brincar com minha morte, usála para experimentar a sensação de ser Deus, driblando o dia em que morreria ao morrer de forma imprevisível para todos, menos para mim. Mas com toda a grandiosidade de Deus, se

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é que ele existe, estaria mesmo sendo imprevisível ou lá em cima ele já teria decidido por mim? Quem estaria enganando quem? Esta é mais uma pergunta que com certeza ficará sem resposta. Apesar de tudo que é claro, de tudo que é escuro, de todo passado, presente e futuro não se brinca com o destino. Acreditamos que somos capazes de seguir sem que ele brinque conosco, sem que venhamos provar o gosto das suas peraltices que deságua no rio onde banhamos nossas almas que se deixam levar pela correnteza em direção a algo predestinado que não sabemos se é certo ou errado, mas sabemos que nos pertence mesmo sem saber o que é. De qualquer forma chegou minha hora, meu ponto final. Quero descobrir uma outra eternidade, que só a arte é capaz de nos proporcionar. A eternidade das minhas idéias nas folhas de papel. Finalizo meu livro no mesmo instante em que finalizo meu maior desafio. Quantos poderão se igualar a mim? Não falo do suicídio, os suicidas são banais, falo da complexidade da doação a que me permiti. De qualquer forma fiz chegar a minha hora. Aqui termino. Ponto final. Corto meus pulsos na tentativa desesperada de concluir meu livro de forma definitiva e inesperada. Faço de meu sangue a última tinta que utilizo para traduzir através deste processo lento e doloroso de concretizar simultaneamente meu fim e a última página do meu livro com requintes da mais trágica poesia das muitas mulheres que eu não sou. Aos poucos estou perdendo as forças, percebendo minha vida fora, enxergando ilhas que se transformam no oceano do meu próprio sangue. Parto do meu corpo lentamente e consciente. Sinto dificuldade em escrever minhas últimas palavras. Meus olhos escurecem, minha alma escurece, tenho medo, o pavor toma da minha quase falta de vida, a morte se apresenta, me

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entrego. Brindo com meu sangue a minha própria eternidade. Não é o fim.

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Numa noite o telefone tocou. Atendi. Era minha amiga mais amada. Senti intuitivamente que ela estava confusa, atordoada. Perguntei o que tinha acontecido e ela me falou que estava mal por causa de um livro que estava escrevendo. Fiquei preocupado. Perguntei onde ela estava. Me disse que estava em casa, trabalhando em seu livro sobre o universo feminino, ou melhor, sobre ela. O livro que estava escrevendo era para mim um corajoso exercício de expor quem se é. Estava gravando as partes mais inconfessáveis de sua história de vida com forma de contar ao mundo um pouco da anatomia da alma feminina. Ela acabara de terminar as gravações que iriam compor seu livro. Ao terminar ouviu todo o material. Eu sabia que esse momento seria doloroso. A intensidade do que gravou a deixou muito machucada. Fiquei assustado com o que me passava estar sentindo. Ela não era assim, mas estava sem saber o que dizer, insegura, se esvaziando, demonstrando até um certo grau de covardia que não combinava com a mulher encantadora com quem eu sempre convivi. Senti muito medo dela ela perceber que estava se decompondo ao contar sobre si mesma a pessoas desconhecidas, seus leitores. Senti culpa, afinal nesta história sou seu cúmplice, ouvi o relato de cada passo nesta busca por si mesma, fui eu o companheiro, ouvido fiel, o maior incentivo. Ela sempre me disse que eu era o melhor cúmplice que uma mulher poderia querer. Mentia falando que eu era um homem sensível, lindo e inteligente. Eu sempre ficava vermelho, morrendo de vergonha. Cozinhava constantemente para ela. Era uma espécie de ritual particular da nossa amizade. Me ofereci para fazer o jantar em sua casa. Ela adorava dizer que quanto mais eu cozinhava, mais próximo da perfeição eu chegava.

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Retrucava dizendo que se isso fosse verdade ela já teria me pedido em casamento. Sempre me respondia que era avessa a casamento, que não queria viver essa experiência nunca mais. Aceitou minha proposta de jantar. Nos despedimos. Me disse que ficaria ouvindo o material até que eu chegasse. Me arrumei e passei no supermercado para comprar os ingredientes do nosso jantar. Demorei um pouco, umas duas horas. Cheguei ao prédio dela. Subi. Toquei a campainha. Ela não veio atender. Percebi que a porta estava aberta. Achei estranho. Entrei. A dor e o pavor foram inevitáveis. Minha amiga, no meio de uma imensa poça de sangue, sem vida, pulsos cortados. Eu sou um homem que dizem ter nascido para ser corajoso e poderoso. Fui criado para ser forte, heróico, destemido, capaz de superar todos os meus medos, um respeitável senhor. Acham que serei aquele que um dia envelhecerá rodeado de filhos, frutos de uma perfeita e exemplar família, como foi a de meu pai e como um dia sei que será a da minha filha. Sou pai. Confesso que lutei bravamente para não decepcionar a todos que esperavam de mim muito mais do que eu podia oferecer, mas a vida tem lá as suas razões para nos mudar os rumos, para nos fazer perder o prumo, para evidenciar nossos defeitos e os fazê-los bem mais fortes do que nós. Assumo que nunca consegui ser o que eu mesmo esperava, sou apenas eu, nunca consegui ser mais do que isso, ser eu mesmo, um homem simples, sensível, com algumas virtudes e muitos defeitos, um largo sorriso no rosto e muitas lágrimas encarceradas no peito. Um homem carinhoso e divertido. Um eterno menino. Eu gostaria que as pessoas entendessem que não era este o meu plano, fugir daquilo que esperavam que eu me tornasse ao me tornar o que hoje sou. Não era esta a vida que eu queria viver, não era esta a opção que eu queria fazer, mas

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infelizmente, por mais que possa parecer o contrário, a vida não é um leque infinito de opções, ela te faz imposições, nos obrigando a seguir pela estrada que desenha pra nós sem pedir uma opinião sequer a respeito do percurso que estamos condenados a percorrer. Gostaria de ter me revelado para mais profundamente, como quem confidencia a uma grande amiga. Eu sinceramente tentei, eu sinceramente lutei, mas nunca consegui contrariar a minha própria natureza. Sou um homem infeliz por fazer da minha vida uma mentira sociavelmente aceita. Se tivesse tido escolha, de certo não escolheria o que a vida me ofereceu, mas que eu não nego, me satisfaz, mesmo que seja para alguns do jeito errado. Acredito plenamente que nem sempre o certo é ser como todos esperam que sejamos, mas sim como somos. Quero amar de verdade quem me ama, cuidar de quem me cuida, estender a mão a quem me estende, e acima de tudo ser quem sou sem precisar de nenhuma máscara, nenhum sobressalto, nenhum pesadelo de um dia ter de escolher entre quem amo e o que querem que eu ame. Cheguei a conclusão de que ninguém tem nada com a minha opção sexual. Ninguém tem nada com o que eu faço, com o que eu digo, com o que penso, com o meu movimento, com meus sentimentos, com meu senso crítico. Ninguém tem nada com as minhas crenças, com as minhas descrenças, com o meu inferno nem com meu paraíso. Ninguém tem nada com a minha inteligência, com a minha deficiência, com a minha competência nem com meu estilo. Ninguém tem nada com o que eu como, com o que eu não como, com o que eu preciso, com o que eu admiro, com o que eu desprezo nem com o que eu acredito. Ninguém tem nada com as minhas defesas, com a minha noção de beleza, com as minhas certezas, com as minhas fortalezas nem com a minha pretensa falta de juízo.

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Apesar do que sou e de tudo que possam achar de certo e de errado no comportamento de pessoas como eu, meu amor por ela sempre foi do tamanho do mundo. Sofria com medo de que ela viesse a me rejeitar pelo que sou, um cara amoroso, responsável, feliz, orgulhoso, mas diferente. Talvez ela tenha imaginado o quanto eu sofri por ser como sou e como sempre serei. Queria poder ter dito a ela que não se preocupasse, que nenhuma dor me atingirá enquanto o respeito e a amizade nos unir. Nunca vou esquecê-la. Um amor que venceu obstáculos, que sempre foi barreira contra o sofrimento, que soube ultrapassar fronteiras que só quem ama verdadeiramente sabe. Ela sempre será para mim a menina dos meus olhos. Cansamos de conversar só através deles. Sempre traduzíamos nossos pensamentos através do silêncio que se refletia na grandeza e na simplicidade do seu exemplo. A minha menina dos olhos sempre foi a tradução mais delicada da poesia de todos os dias que nos mostra que a vida é imensamente quase nada. Ela sempre velejou em meus sonhos, um mundo onde o que é dito não precisa de palavras. Ela sempre caminhou como uma andarilha pelo sentimento que a invadia pelo olhar. Ela nunca precisou me abraçar convencionalmente para que eu sentisse, ela abraçava de uma forma diferente, com o coração, impossível de enxergar, mas fácil de sentir. Ela nunca precisou me beijar, pois ela sempre beijou a vida sendo quem é. Não precisava encontrar o seu caminho, ele sempre será o seu amor silencioso pela vida. As vezes acho que eu não deveria ter nascido mas já que nasci só me resta a opção de seguir, mesmo que isso me pareça impossível diante de tudo que já passei nessa vida. Sei que sou a soma de muitas feridas que se alimentam de forma venenosa da minha história. Sou na verdade fruto da inocência dos artistas e do sofrimento dos

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poetas retratada na tela maldita da minha pr贸pria incoer锚ncia.

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COISAS POÉTICAS

Sou nordestino de família tradicional. Desde menino saio por aí me alimentando da alma nordestina que traduz minhas raízes de menino transformadas em farinha encantada que vem pelo vento penetrar em minha boca, se fundindo aos meus pensamentos, fazendo um pirão de sentimentos que alimenta minhas origens e dá o ritmo perfeito ao meu coração através do doce da cana, da dureza do chão e da pimenta verbal do espírito brasileiro da terra do sal. Sempre caminhando fui sem medo de me entregar, apenas pelo prazer de caminhar, para descobrir uma cultura no meu sangue que, apesar das contradições, eu quero aprender a preservar. Acho que não me conheço, por isso procuro me encontrar olhando para todos os lados sem saber o que procurar. Talvez um dia eu me encontre, mas tenho medo de não me reconhecer, pois eu de mim fiquei tão distante que não sei mais como sou, nem como virei a ser. Sempre olho tudo com um olhar meio distante, que apenas vê e nunca observa, pois acho que a observação faz do observador um sábio e deste sábio um louco que procura desesperadamente encontrar sua alma. E onde está a minha alma? Enfavelada por aí, por entre esgotos sociais e valões a céu aberto repletos das minhas mais contraditórias, complexas e irracionais emoções. Minha alma é um lugar desprovido de organização, de lei e de ordem onde habitam milhares de seres descrentes de mudança que nada mais são do que minhas múltiplas faces. Minha alma é a comunidade onde reside a multiplicidade de pessoas que sou, muita gente em forma de uma única alma, carente de sonhos, de esperança, de amor. Tiroteios de contradição em mim se dão praticamente todos os dias e sempre que eles acontecem alguns dos meus inocentes valores são atingidos por balas

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perdidas confeccionadas a partir das minhas incoerências. Pobre deles que morrem sem socorro, sem uma segunda chance. Minha alma é a perfeita moradia para os sentimentos que se acham ou se perdem acima da lei dos Homens e que se sentem protegidos por esse poder paralelo que nada mais é do que o meu farsante medo de ser quem sou. Nela se escondem os meus mais marginais segredos, as minhas mais valentes rebeldias e minha mais pretensiosa e moleque poesia. Sou uma reunião de idéias e sentimentos marginais construídos de forma desordenada e ilegal, sou incapaz de não ser quem sou, só sou eu e exatamente por isso nada sou. Eu o matei. Entrei durante a madrugada em seu apartamento. Friamente disparei enquanto ele dormia. Quatro tiros a queima roupa sem dar uma possibilidade de defesa sequer. Não me arrependo. Alguns dirão que o matei porque sou um travesti. Na verdade eu simplesmente o matei de amor. Amores desesperados, destroçados, descompassados, são capazes dos mais cruéis e torturantes atos. O amava de forma perfeita com um corpo que nunca se encaixava. Minha vida inteira ele fingia que ignorava. Ele, apesar de tudo, acho que me amava. Não passo para alguns de uma aberração apaixonada. Um homem que ama ou uma mulher que mata? Quem o matou não foi o homem sensível que eu nego, foi a mulher ferida e vingativa que encarcero na alma.

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Era tarde. Aproximadamente quatro horas da manhã. Recebemos uma chamada. Ocorrência informada pela síndica de um prédio nas proximidades. Quando chegamos ela nos informou que ouviu tiros vindos de dentro. Me dirigi prontamente para lá na companhia de mais dois policiais. Entrei no prédio. Fui até um dos apartamentos. Para minha surpresa abriu a porta um travesti coberto de sangue. Ele estava com os braços estendidos como quem espera por algemas. Em um movimento quase mecânico o algemei. Outros policiais entraram. No quarto encontraram o corpo de um homem alvejado por quatro tiros. Em toda a residência foram encontrados muitos textos poéticos ensanguentados jogados pelo chão. Outros policiais conduziram o travesti a delegacia. Enquanto esperava a chegada dos peritos lia, sem encostar nas provas, os textos espalhados e manchados de sangue e história.

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Coisas poéticas é um livro que foi construído a partir das minhas postagens no Blog. Ele revela todo o processo de amadurecimento literário...

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