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Público ou particular, eis a questão Divididos entre as diversas opções de ensino superior na cidade, estudantes de Londrina sofrem pela indecisão na hora de escolher uma universidade Londrina, no norte do Paraná, consagra-se hoje em dia como uma cidade de cunho universitário. Com cerca de 10 instituições de ensino superior, sendo uma universidade estadual e uma federal, os estudantes constituem parte significante da população de aproximadamente 510 mil habitantes, o que levou a cidade a se adequar às necessidades e desejos da classe universitária. Mesmo com tantos aspectos em comum, são as diferenças entre esses estudantes que acabam determinando a forma como a cidade e, principalmente, o mercado de trabalho os abriga, e não há duvidas de que é dentro da universidade que o caráter profissional dos jovens é consolidado. Dessa forma, analisar a cidade passa a ser uma atividade interligada a analise dos seus centros de ensino superior, e manter o foco nos estudantes ajuda a entender como o mercado de trabalho da região pretende acolher os futuros profissionais. Não é segredo que a fase do vestibular é cercada de angústias e dificuldades, e é essa a realidade rotina de milhares de jovens brasileiros. Escolher uma boa universidade é o primeiro passo para uma boa formação profissional, e tomar a decisão certa é difícil. Em muitos casos, após a alegria da aprovação em um ou vários vestibulares, aparece a preocupação em optar por uma instituição de ensino, e quando a escolha não é óbvia, alguns fatores podem ajudar o calouro a tomar essa decisão tão importante. Dentre tantas alternativas, decidir por uma instituição pública ou particular é um dos primeiros passos, levando em conta quesitos financeiros e educacionais. Não só em Londrina, mas como em todas as cidades que comportam os dois tipos de opção, a dúvida na hora da escolha aparece constantemente na cabeça dos jovens, e enquanto o reconhecimento de uma universidade pública parece ser o grande sonho de muitos, outros acreditam nas vantagens dos centros particulares, como infraestrutura e, muitas vezes, qualidade de ensino. Para a estudante Juliana Zambrim, que cursa Turismo e Hotelaria na Universidade Norte do Paraná (Unopar), a qualidade técnica e o fato de não ter que mudar de cidade para estudar foram grandes motivadores na hora da escolha. “Sou de Londrina mesmo e meu curso só existe em faculdades particulares aqui. Como meus pais não permitiram que eu morasse fora e eu também achava que não estava pronta para isso, resolvi ficar. Escolhi a Unopar pelo aparato técnico de primeira e pela boa reputação que a universidade tem dentro do Estado.”, afirma Juliana. Segundo ela, a segurança dentro do campus e a dedicação dos professores também é uma vantagem das instituições particulares, mas acredita que ainda existe um certo preconceito em relação aos estudantes. “Pelo fato da UEL ser conhecida no país todo, estudar lá chega a ser questão de status, e por isso os cursinhos da cidade e até mesmo alguns pais pressionam tanto os estudantes para que eles consigam passar no vestibular. Acredito que hoje em dia a idéia de que não é a faculdade que faz o profissional esteja crescendo, mas ainda existe um pouco de resistência”, completa a estudante. A estrutura física da instituição também é um fator destacado por Arthur Brum da Silva, de 19 anos. Estudante de Jornalismo na Faculdade Pitágoras, ele afirma que os equipamentos técnicos como câmeras fotográficas, filmadoras e computadores, além de diversos laboratórios para aulas práticas, compensam a mensalidade paga. “Eu me sinto no direito de exigir melhorias dentro do campus e cobrar por isso, já que eu pago uma mensalidade. Em uma instituição pública isso seria um pouco mais complicado, já que tudo depende do aval do governo”, aponta o estudante. Ao ser questionado sobre


a competição com alunos de universidades públicas no mercado de trabalho, Arthur é bem direto. “O diferencial está no aluno, se há ou não interesse por parte dele. Lógico que o nome da faculdade conta muito em um currículo, mas acho que as grandes instituições de ensino superior de Londrina mantêm um nível equivalente, e as empresas da cidade sabem disso. Talvez o profissional formado na UEL saia um pouco na frente por causa do peso que uma universidade estadual tem, mas as particulares preparam o aluno para o mercado desde o princípio do curso, o que pode ser uma vantagem também”, conclui. Já do lado daqueles que estudam em universidades públicas, as ressalvas também aparecem. “Existe sim um déficit na questão física, já que muitas vezes os aparelhos que utilizamos não são novos, e as vezes eu sinto que falta motivação por parte de alguns professores”, destaca Beatriz Pozzobon, do 2º ano do curso de Jornalismo da UEL. Mas mesmo com esses problemas, ela afirma que não se arrepende da escolha, e que se não tivesse passado no vestibular logo após o término do ensino médio, teria feito um ano de cursinho para tentar uma vaga na UEL novamente. Ainda segundo Beatriz, os problemas encontrados acabam servindo de base para que o aluno se esforce mais. “As dificuldades existentes em uma universidade pública fazem com que o estudante aprenda a ir atrás do que precisa e passe a lidar com os problemas sozinho, o que ajuda muito na construção do caráter profissional de uma pessoa”, finaliza. E enquanto muitos estudantes lutam por uma vaga, a dúvida também existe na cabeça daqueles que passaram em mais de um vestibular, e se engana quem pensa que a escolha é mais fácil quando a disputa é entre uma faculdade pública e uma privada. “Decidir por uma universidade foi uma das coisas mais difíceis que já fiz”, diz Ana Claudia Ribeiro, aluna do 2º ano de Zootecnia da UEL. Ana Claudia também passou na Faculdade de Agronomia e Zootecnia de Uberaba, em Minas Gerais, mas veio para Londrina depois de analisar as duas universidades e a matriz curricular de seu curso em ambos os casos. “Percebi que a UEL me prepararia melhor como profissional, por ter mais aulas práticas. Para mim, isso faz muita diferença. É claro que o fato de não pagar uma mensalidade também contou pontos a favor da UEL, mas não foi um motivo decisivo”, afirma a estudante, que é de Barretos, interior de São Paulo, e se mudou para Londrina para estudar. Aliás, a cidade foi outro grande incentivo na escolha de Ana Claudia. “Por ser uma cidade com tantas opções de lazer e com um mercado de trabalho tão abrangente na área que eu estudo, achei que vir pra cá seria a melhor decisão. Agora, depois de quase dois anos morando aqui, tenho certeza que fiz a escolha certa”, completa. Mesmo com as mudanças nos processos seletivos feitas pelo Ministério da Educação (MEC), com o objetivo de melhorar o ensino superior como um todo, as diferenças entre os estilos das universidades ainda é muito grande, mas todas contam com seus prós e contras. Segundo o professor de Direito Adriano Moreira Gameiro, que dá aulas na Unopar e na UEL, programas do governo como o ProUni e o Fies, serviram para reduzir um pouco os estereótipos das universidades particulares. “Essas ações financiam os estudos daqueles que não podem arcar com as mensalidades e, de certa forma, isso aumentou a diversidade dos alunos em sala de aula. Hoje em dia uma instituição particular prepara o profissional visando o mercado, e sabe que o estudante procura ingressar em um bom emprego o mais cedo possível, pois o salário é uma maneira de pagar pelos seus estudos. Essa visão de mundo capitalista talvez seja mais nítida na mentalidade do estudante que tem um custo para estudar do que o freqüentador de uma universidade pública”, afirma o advogado. Segundo ele, mesmo com o grande número de centros de ensino na cidade de Londrina, a preferência dos


estudantes continua a ser pela UEL, e os motivos permanecem os mesmo. “Durante o processo seletivo fica claro que o estudante prestes a ingressar no ensino superior pensa muito mais no peso que uma universidade pública traz ao seu currículo e na vantagem de não pagar pelos seus estudos do que nas diferenças de formação que ele pode ter, e é dessa forma que o ensino público continua sendo o mais procurado”, explica o professor. Já na opinião da psicóloga Mariana Gonçalves, especialista em comportamento estudantil, os próprios estudantes criaram estereótipos para as universidades, e é muito difícil sair desse lugar comum. “A idéia de que a universidade particular é inferior à pública permanece na cabeça de muitos estudantes, e, infelizmente, de alguns professores também”, afirma a psicóloga. Ainda de acordo com ela, a análise de todas as opções de ensino deve ser feita de maneira individual, e o estudante deve contar com o apoio da família, que é muito importante em um momento como esse. “Essa é uma escolha que afeta todo o futuro profissional de uma pessoa, e por isso deve ser feita de maneira séria e coerente. Se a família pode, financeiramente, manter o estudante em uma universidade particular e essa for a decisão do jovem, ela deve ser respeitada do mesmo jeito que se a opção dele for ingressar em uma universidade pública”, finaliza a doutora Mariana. A quantidade de centros particulares em comparação aos públicos na cidade de Londrina serve para ilustrar bem a atual realidade do ensino superior brasileiro. Mesmo com a contínua busca por uma vaga em universidades públicas, a qual fica nítida ao analisar a relação de candidatos por vaga nos processos seletivos, o ensino particular permanece como uma forte escolha para os estudantes, ainda que continue sendo uma segunda opção. A máxima de que não é a faculdade que faz o profissional ainda é proferida por muitos, mas junto a isso, soma-se a importância da escolha certa e do quão relevante é adquirir uma boa qualificação prévia para se ingressar em uma profissão. Dessa forma, o mercado de trabalho da cidade e da região recebe, todo ano, um número elevado de profissionais nas mais distintas áreas, e é nessa hora que a formação de cada um é posta a prova. O que pesa mais? O nome da instituição no currículo, a qualidade técnica ou a individualidade que o profissional adquire através dos anos? Ironicamente, as respostas para essas questões estão bem fora dos muros de qualquer universidade, seja ela pública ou particular.


Público ou Particular: eis a questão