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A atriz e escritora Ângela Reis cita o filósofo alemão Georg Simmel, que considerava hipocrisia a indignação da sociedade em relação às prostitutas. Segundo ele, a prostituição não era uma escolha e sim, uma triste consequência. A escritora acentua que Simmel demonstra profunda compreensão dos mecanismos sociais que levam as mulheres à prostituição, mas, que ele não teve o mesmo entendimento em relação às atrizes. O filósofo achava injusta a “diferença no juízo e no tratamento concedido às prostitutas elegantes em detrimento das que trabalham nas ruas” e, para isso, afirmava que se as primeiras fizessem teatro poderiam escolher melhor os candidatos. Ele ainda dizia: “A atriz que nada tem de mais moral do que a mulher de rua e, talvez, se revele bem mais calculista e vampiresca, é recebida nos salões de que a prostituta de calçada seria expulsa pelos cães”.

Barreto, defensor de Adelaide do Amaral. As duas eram portuguesas e atuavam em dramas e comédias. No Recife, no Theatro Santa Isabel, aconteceram essas batalhas”. Muitas vezes, na saída destes locais, os estudantes esperavam suas musas, jogavam seus paletós no chão para que elas usassem como tapete ou as carregavam nos braços e lhes brindavam com uma chuva de pétalas de rosas. O antagonismo da profissão: para alguns, prostitutas. Para outros, musas.

“É comum ouvir: ‘E você faz o que além de teatro? Você não trabalha?’. Ser artista é doloroso”

Era essa a visão que muitos intelectuais tinham das atrizes. Para o jornalista e escritor Marcelo Bonavides, mesmo com todo o preconceito, o fascínio que as atrizes exerciam tomava conta de tal forma de certos homens, que chegavam a criar partidos em homenagem a determinada artista. “Isso acontecia há várias gerações, tendo ficado famosos os duelos verbais travados entre os poetas Castro Alves, que defendia a atriz Eugênia Câmara e Tobias

Com o advento do cinema, criou-se certo glamour em torno da profissão. Hoje, ser atriz é sinônimo de poder, status, vaidade. Mas em pleno século XXI, percebemos (ainda) uma resistência por parte da sociedade. Particularmente para os atores de teatro, que não estão nos grandes holofotes da televisão e da mídia. É comum ouvir: “E você faz o que além de teatro? Você não trabalha?”. Ser artista é doloroso. É muito difícil viver de arte aqui. Muitos atores precisam se ‘prostituir’ vendendo seu talento a troco de cachê barato e viagem que banque hospedagem e alimentação. E o trabalho? E todo o suor derramado durante o processo criativo? Ninguém pede para um dentista uma cortesia de arrancar um dente de graça, mas todo mundo se acha no direito de pedir uma cortesia para assistir ao espetáculo que está em cartaz no teatro da esquina. Já dizia a sábia Cacilda Becker: “Não me peça para dar a única coisa que tenho para vender”. Será que um dia a nossa arte será tão valorizada a ponto de vivermos exclusivamente do nosso ofício? Bem, isso são cenas para o próximo folhetim...

Fama Tônia Carrero, Audrey Hepburn e Mae Murray. Diferentes personagens da vida de atriz. www.modashoesbrasil.com 109

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