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Através de várias crônicas, o Mobiliza IAPI publica uma edição especial relembrando a história dos 60 anos da Vila do IAPI. Uma edição para guardar | Páginas 2, 3, 4, 5, 6 e 7

Informativo dos Moradores da Vila do IAPI | Porto Alegre (RS) Ed. 4 (Especial IAPI 60 Anos) – Dezembro de 2013/Janeiro de 2014

Foto: Luciano Lanes (PMPA)

Conhecido cronograma dos trabalhos do projeto Florir o IAPI

IAPI abre 2014 com grandes expectativas

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e 2013 foi um ano marcante pelas diversas atuações da comunidade com a consolidação do grupo Mobiliza IAPI e a eleição recorde de delegados no Orçamento Participativo, por outro, os moradores têm grandes expectativas de que as sementes plantadas gerem resultados positivos em 2014. Feliz Ano-Novo!

O cronograma dos trabalhos é o seguinte: 1ª etapa: Visitação aos locais estipulados pelo Mobiliza IAPI. Definição das plantas: flores e folhagens. 2ª etapa: Embasamento teórico sobre Paisagismo e Urbanismo. Desenvolvimento do Projeto Paisagístico e Urbano. Apresentação do projeto aos alunos do TMA. 3ª etapa: Definição das espécies permanentes e de época levando em consideração a orientação solar, os tipos de solo e a época do plantio. 4ª etapa: Apresentação do projeto final pelos alunos dos cursos de Meio Ambiente e Edificações para o Mobiliza IAPI e demais interessados da comunidade.

Agora é Lei: Lixo jogado na rua dá multa pesada Aprovado pela Câmara e sancionado pelo prefeito José Fortunati, o novo Código de Limpeza Urbana prevê que quem sujar a cidade pode pagar multa entre R$ 279,00 e R$ 4,4 mil.

O projeto Florir o IAPI, lançado no dia 30 de novembro, vem tendo sequência com uma série de reuniões envolvendo a Escola Técnica Cristo Redentor e os moradores do bairro. Conta com a participação de alunos voluntários, professores e coordenadores dos cursos de Meio Ambiente e Edificações. O plantio deve começar entre abril e maio. Durante o mês de janeiro, os estudantes estão recebendo aulas de paisagismo e urbanismo. A coordenação dos cursos de Meio Ambiente é de Daniela Letícia Knob. A coordenação dos cursos de Edificações é de Carla Elisiane da Silva Pacheco. Atuando junto aos alunos e participando ativamente do processo, as professoras Maria Cristina de Freitas Guerreiro e Rosane Beatriz Auad. A coordenação pelo Mobiliza IAPI é de Rosa Cunha.

Música Pág. 8

Beto Herrmann canta e encanta a gurizada.

5ª etapa: Participação dos alunos, professores, coordenadores e diretores da Escola na viabilização do projeto, através do plantio das mudas de flores e vegetação, juntamente com o Mobiliza IAPI e moradores do bairro. Jornal Mobiliza IAPI | Porto Alegre


Editorial

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á pouco mais de seis meses, sentado em um confortável banco, em frente à Padaria do Tio Lino, conversava com o Grandino, vizinho e amigo de juventude, sobre a nossa Vila do IAPI. Um papo muito gostoso quando buscávamos nessas conversas as “melhores soluções para o IAPI”. O Grandino, que é grande não apenas no nome, mas que apesar de ter uma estatura privilegiada, também é grande em ideias e em inteligência, me fazia sonhar com melhorias que poderíamos buscar em nossa comunidade. Falávamos sobre a necessidade urgente de termos condomínios organizados na Vila e até, quem sabe, dispormos de um Conselho de Síndicos, algo que tornaria nossa vida mais digna neste agradável território de paz e harmonia. Imagine um IAPI sem lixo nas esquinas e nas praças, um IAPI com seus espaços comuns respeitados, onde até os velhos bancos de pedra, idealizados por Gardolinski, voltassem a nos dar o conforto merecido em nossos encontros amigáveis, inclusive para um bom chimarrão. Infelizmente, as regras que existiam nunca valeram e o que se vê hoje, são invasões descabidas, avanços de jardim, esquinas alugadas para servirem de garagens. Um festival de abusos que conseguiram superar o tempo graças à omissão de quem deveria fiscalizar e ao olho gordo de gananciosos e inescrupulosos que conseguiram burlar todas as regras possíveis e imaginárias da convivência humana. A vontade de ver mudanças e de até prová-las, foi determinante ao verificar que também o IAPI poderia ser a nossa Marshall, ou seja, a história de algumas famílias americanas desacreditadas e que encontraram esperança e forças na liderança de um jovem treinador, determinado a reconstruir o programa escolar de futebol americano da Universidade de Marshall, levando seu time universitário a novas conquistas no cenário em que estavam inseridos. Não somos Marshall, mas somos IAPI. Não somos um time de universitários, mas somos uma comunidade muito determinada a vencer os obstáculos; a superar todas as adversidades e também reconquistar o gosto da dignidade.

somos iapi Somos IAPI. Uma camada populacional com mais de 15.000 moradores e que de forma expressiva acolheu o Grupo MOBILIZA IAPI, permitindo-nos exercer uma representatividade saudável e autêntica, manifestada pela indicação de quatro delegados no Orçamento Participativo da nossa cidade, além de manter uma comunicação permanente com essa mesma comunidade através do “Vila do IAPI. União e Alegria” no Facebook, um grupo que em pouco mais de seis meses de atuação alcançou uma marca superior a 1150 integrantes. É importante lembrar que nossos avós, quando aqui chegaram há 60 anos eram, em sua grande maioria, operários das indústrias estabelecidas nesta região. Graças aos seus esforços, com muita garra e determinação nos ofereceram condições para que pudéssemos nos preparar para alcançarmos degraus mais altos em nossas vidas. E de fato, uma significativa evolução aconteceu, entretanto, não podemos fechar os olhos para muitos desfavorecidos que, infelizmente, foram acometidos por problemas que dificultaram seus processos de evolução material e ainda caminham com alguma dificuldade na busca de uma vida melhor. Somos IAPI e precisamos vencer juntos. Superação! É utópico? Creio que não. Seremos IAPI quando nossa Comunidade entender da real necessidade de caminharmos juntos. Conquistarmos um Centro de Convivência de Idosos. Um Centro para atender todos os idosos da Vila, sem distinção de categoria econômica, cor, religião ou sexo. Seremos IAPI quando pudermos dispor de Creches que possam atender as famílias onde papais e mamães estejam empenhados em suas atividades profissionais, na busca de um melhor conforto e estabilidade financeira para seus lares. Seremos IAPI quando buscarmos no Postão um adequado atendimento médico e de lá sairmos satisfeitos pelo tratamento dispensado e pela satisfação de saber que aquele serviço é digno do nosso merecimento e da nossa vontade de sermos cidadãos de bem. Finalizando, sou obrigado a concordar com o Grandino em mais um ponto. Não há lugar mais bonito para se viver nesta terra do que aqui no IAPI.

Mobiliza ganha novo anunciante

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ueremos agradecer a todos anunciantes que vêm prestigiando o nosso Jornal Mobiliza IAPI e aproveitamos para comunicar o mais recente parceiro: a Vídeo Legal Locadora. Estabelecida no bairro, desde junho de 1997, oferece, além da locação de vídeos, jogos de XBOX360, Playstation 3 PS2 Nitendo WII, Blue Ray 3D. São mais de 9 mil títulos. Também conta com bazar com produtos de informática, bijuterias, presentes, brinquedos e acessórios diversos. Realiza serviços de xerox, cópia de fotografias e montagem de álbuns de fotos e vídeos em CD e DVD. Faz conversão de vídeos antigos de VHS para DVD e de LP de vinil para CD. Para garantir a qualidade dos CDs e DVDs também é disponibilizado o serviço de eliminação de riscos. A Vídeo Legal conta com técnicos para a formatação e reparos de microcomputadores e notebooks. Segundo o proprietário, Augusto Mahler, está cada vez maior o público para temas sobre fé, esperança e gratidão.

Até 31 de janeiro

Apresente o Jornal Mobiliza IAPI e ganhe uma locação grátis. A Vídeo Legal fica na Rua Sobradinho, 11

Pedro Luiz Lemos | Presidente do Mobiliza IAPI

Centro de Convivência para IDOSOS

O Mobiliza IAPI é um informativo dirigido aos moradores da Vila do IAPI Sugestões: pedrolemos37@gmail.com Diagramação: Dizy Ayala | Charge: Geraldo Sperb Jornalista responsável: Maristela Bairros (Reg. Prof. 4152 DRTRS) Colaboração e fotos: Prefeitura Municipal de Porto Alegre, Aldina Ferraz Santos, Pedro Lemos, Vitor Bley de Moraes, Estudio Fotos Nick e arquivos particulares. Impressão: Ideograf | Tiragem: 3 mil exemplares Distribuição gratuita


nos primeiros 60 anos do Co bre so es içõ ed as do an Finaliz uma reAreia, estamos publicando D’ o ss Pa l cia en sid Re to jun , pela ex-moradora do bairro ta cri es l, cia pe es a nic crô portagemas que resos, além de outras crônic irr Ba la te ris Ma sta ali rn jo IAPI Vila do IAPI. Em 2013, o da ria tó his a am rat ret gatam e orde de mídia. Elegeu um número rec na s ço pa es s ito mu ou nh ga ipativo e trouxe autoridades rtic Pa nto me ça Or no tes representan cia com bairro. O ano de 2014 se ini do s ma ble pro os r po ex ra pa perspectivas. muitas expectativas e boas

IAPI

um lugar diferente de viver

Inexatos sessenta anos em poucas linhas Maristela Bairros

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rua (a “minha” rua) era sombreada pela copa dos cinamomos que, depois das flores roxas cheirosas, inundava o chão de bolinhas amarelas macilentas que minha mãe varria se clamando. Não havia grades nas janelas e, nas noites quentes de verão, a gente brincava de roda na calçada enquanto os adultos jogavam conversa fora, sem pressa, sentados em mochinhos e cadeiras diante das portas abertas de seus apartamentos. Os pátios “dos fundos” com roupas brancas, azuladas pela ação do anil, eram um tapete esparramado na grama dos coradouros, o guincho das roldanas, o soberbo “figueirão” no centro dos três edifícios de costas um pro outro. Brincadeiras solitárias com panelinhas cheias de azedinhas, conversas em voz baixa com bonecas, festa de

aniversário com bolinho de chuva e Q-Suco, abacateiro e o pé de guaco, atraindo abelhas, em volta da porta da cozinha. Velórios em casa, olhares assombrados, vizinhos que iam mudando para outros lugares, a mudança triste pra quem ficava, música de vitrolinha, reunião dançante nas tardes de domingo, timidez, garotos encostados nas paredes. Diariamente, à tarde, eu percorria o caminho que passava pelos coqueiros da Rua Tupãciretã, fazia uma curva suave em direção à Cacequi e ao “campinho” de futebol, e chegava a meu destino: a Sapataria Bandeira, bem na ponta do largo, virada para os prédios, pintada de verde, em madeira macho e fêmea, portas verticais, a de baixo com a portinhola através da qual eu acessava o mundo da lixadeira barulhenta, pregos e tachinhas, vidros de tinta, pés de moleque e as prateleiras cheias de sapatos, sandálias, bolsas, cintos. Era meu mirante, de onde eu via a vida da vila, os fregueses que vinham contando novidades, olhando o movimento, vendo quem descia do ônibus Bianchi, reclamando do custo de vida. Enquanto isso, seu Waldemar, com perícia, cabeça baixa, avental de lona sujo de cola e faquinha de aço afiada, abria um sulco na sola e manejava a sovela e o cordão encerado para pontear artisticamente calçados de cromo, couro de qualidade que merecia vários consertos. Segue na próxima página

CAR envia mensagem ao Mobiliza Os gestores do CAR Noroeste, Nilo, Marisa e Adil, desejam a todos os moradores da região noroeste, um Ano-Novo de muita paz, saúde e muitas realizações. Prometemos continuar trabalhando muito para o atendimento das demandas para uma melhor qualidade de vida a toda a nossa região.

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Jornal Mobiliza IAPI | Porto Alegre


...Relembrando o passado, pensando o presente e projetando o futuro: o dia-a-a-dia na Vila A manhã, na “minha” Vila, começava com o carroceiro que enchia o pequeno tambo de alumínio que minha mãe lhe alcançava, sempre perguntando se era fresquinho e tinha nata, que se passava no pão com açúcar. Depois, chegava o verdureiro, batendo com o cabo do chicote na lateral da carroça pra chamar o povo. No verão, o vendedor de melancia “calada” cortava um triângulo bem no coração da fruta e o oferecia ao freguês para ele ver se o produto era bem doce mesmo. De vez em quando, se ia à feira livre, ocasião em que nos permitíamos o luxo de comprar algumas bolachas Maria e de champagne, que liberavam um cheiro doce inesquecível quando era tirada a tampa do latão forrado de papel acetinado. No domingo, o pai, de banho tomado, perfumado e de pijama, descia a Sobradinho para buscar o Correio do Povo na banca do lado de lá da Brasiliano de Moraes. Com sorte, eu ia junto e ganhava um gibi. São muitas lembranças sobre aqueles anos em que repeti a mesma rota, levando para meu pai o esperado café com leite quente, num bule verde de louça ágata, e duas fatias grossas que dona Luci cortava do centro do pão de meio quilo, com manteiga e, eventualmente, chimia. Quando o lanche demorava, meu pai amarrava um bilhete na coleira do nosso cachorro policial, meu saudoso Lobo, e o mandava para casa – e ele ia. E quanto medo que dava atravessar a Brasiliano, com o bonde correndo nos trilhos (sim, eu achava que ele era veloz...) e aquele trânsito todo, para chegar ao Grupo Escolar Gonçalves Dias!! Na mão, a pasta pesada, cheia de cadernos, estojo, lanche que incluía uma garrafa de Coca-Cola outra de leite morno. Eu era orgulhosa por meu guarda-pó engomado e branquíssimo, que exibia o monograma bordado no bolso! A gente se encantava com a fogueira de São João. Via (se não fosse levada para casa no colo do pai, dormindo) chegar as tribos de poucos e mal fantasiados índios batendo a mão na boca para imitar o grito de guerra, no Carnaval da Industriários. Famílias inteiras riam das comédias da Atlântida projetadas pela caminhonete do Sesi na parede lateral dos edifícios. Parece que ainda vejo, passando diante da minha janela, com as trouxas na cabeça ou abraçadas as vizinhas que lavavam roupa para fora, depois de horas debruçadas nos tanques, batendo as peças, esfregando sabão em pedra. Também ainda ouço as conversas e risadas de quem jogava carta até madrugada, com a porta da cozinha aberta, sons que vazavam para dentro do meu quarto. Aí, chegaram os primeiros carros. Os primeiros aparelhos de televisão, quase sempre com Bombril grudado na antena para tentar enxergar alguma coisa além dos chuviscos na tela. As reuniões-dançantes nas tardes de domingo. Roberto Carlos e Os Beatles.

Caminhões, conhecidos como vaquinha faziam a entrega de leite

Jornal Mobiliza IAPI | Porto Alegre

A paisagem

Hoje, percorrendo o Google Maps, tento resgatar meus trajetos vespertinos, mas não consigo achar aqueles traçados, só paisagem alterada por tantas mudanças. Não é fácil montar a história desta vila inaugurada oficialmente por Getúlio Vargas em 1953. O Conjunto Habitacional Passo d’Areia brotou de terreno inóspito, na Chácara dos Werner, que destinava à criação de gado e pastagens, com sorvedouros, riachos rebeldes, mas também figueiras imensas, felizmente preservadas. O retrato que tento pintar permanecerá para sempre incompleto, diante da riqueza dos elementos que o formam. Por mais que eu me esforce, não tenho como definir com precisão o que foi e o que é a vila. Portanto, este relato não tem outra pretensão que documentar um período em que a indústria se expandia no Brasil, os trabalhadores começavam a conhecer seus direitos – como à moradia e ao conforto – e em que governos populistas se interessavam em cooptar uma população agradecida pelos benefícios inéditos que passava a ter. Foi o Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários (IAPI) que, em 1946, deu início à imensa obra. No começo, eram 1625 as unidades previstas, mas as necessidades que se impuseram determinou que se ampliasse este número para 1815, com capacidade de abrigar 15 mil pessoas. Mais tarde, os números saltaram para 2533 unidades habitacionais. A pedra fundamental foi posta na Rua Santiago, nº 52, na primeira casa erguida, durante cerimônia discreta no dia 06 de abril de 1946. Os primeiros a ocupar as moradias foram os operários que trabalhavam na construção. Pedra fundamental da Vila IAPI

Logo, as dificuldades extrapolaram a questão do terreno difícil: era o período do pós-guerra, com falta de material de construção e de mão de obra especializada. O alto custo da compra dos terrenos desaguou em juros acrescidos aos gastos com urbanização. Tudo isso determinou mudanças no plano arquitetônico: edifícios substituíram casas isoladas ou geminadas. Apesar de várias mudanças, foram mantidos a escola, a sede e campo esportivo, igreja, delegacia de Polícia, agência dos Correios, mercados, e – costume na época – postos de distribuição de leite. A creche, no entanto, jamais seria construída.

A História

O IAPI não era só uma construção popular, um simples agrupamento de residências. Era um desafio que teve como

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personagem principal o engenheiro Edmundo Gardolinski. Seu empenho em entregar residências e serviços de qualidade para os empregados da indústria fizeram com que, em 1952, vários núcleos já estivessem habitados. Cerca de 680 mil metros de terreno, quase todo inóspito, se transformaram em construções, pátios, coradouros, jardins e praças. Foram abertos 15 mil metros de ruas, avenidas, alamedas, vielas e o açude que transbordava e alagava parte da área depois de disciplinado formou o gracioso lago da Praça Chopin. Especial atenção foi dada ao sistema viário: a larga via (40 metros de um prédio a outro) chamada Avenida de Ligação, hoje Brasiliano de Moraes, encurtou o trajeto entre o fim da linha do bonde Floresta e a Volta do Guerino em 200 metros. O comércio foi implantado em térreos, enquanto escritórios e consultórios se instalariam no primeiro pavimento de algumas edificações. O Grupo Escolar Pedro Moacir, depois Gonçalves Dias, embasado em concreto armado, já em 1951 oferecia aulas diurnas e noturnas.) Um ano depois, surgia a praça de esportes, vitória da tecnologia sobre o sumidouro de matéria orgânica em decomposição alimentada pela nascente de um pequeno córrego.

A rede de cinco mil metros de drenos e toneladas de terra com entulhos da obra consolidou o terreno. Outra complicada barreira natural era o charco onde corria um canal tortuoso que foi retificado. Hoje, é apenas lembrança na Rua Cambaí com seus pontilhões ligando a calçada ao edifício. A estação de tratamento de esgotos, complexa, foi considerada única em Porto Alegre, capaz de receber os resíduos de 17 mil famílias. O sistema de águas incluía confortos extraordinários para os trabalhadores: banheiras de ferro esmaltadas e ralos de chuveiro em cobre niquelado. Pela quantidade de pessoas que deveria reunir, o IAPI chegou a ser considerado uma das 16 cidades mais populosas do Rio Grande do Sul. Alguns dados comparativos dão ideia da quantidade de material empregado para erguer o conjunto. Só a cal empregada, se fosse espalhada de modo uniforme por toda a Praça da Alfândega, teria 3 metros de altura, e cobriria todas as árvores e a estátua do General Osório. Os sacos de cimento gasto empilhados dariam 100 vezes a altura do Empire State. 

Gardolinski

Para tornar todo este sonho uma realidade, o projeto contou com o trabalho e a dedicação do paranaense, enge-

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nheiro Edmundo Gardolinski, filho de imigrantes poloneses nascido em 22 de abril de 1914. Ele mudou-se em 1942 para Porto Alegre, designado a assumir o comando da construção da Vila do IAPI. Foi Gardolinski que cuidou com carinho da criação da igreja Nossa Senhora de Fátima e da escola anexa

que por anos levou ostentou seu nome. Também foi ele que chamou, para assumir a bela parte urbanística, o engenheiro Marcos Krutter, que afirmou ter tratado sua criação como se fosse uma escultura. Até 1960, o Instituto que construiu a vila usou um sistema diferenciado de administração pelo qual os moradores tinham direito apenas ao valor do uso dos imóveis, que continuavam propriedade da própria. Durante o governo militar, que substituiu todos os institutos pelo Banco Nacional da Habitação (BNH), os moradores puderam, então, comprar os imóveis enquanto a prefeitura assumiu a sua administração que sempre foi negligenciada. Há algum tempo, trabalhos acadêmicos esmiúçam a história e as características do IAPI. Falam de sua geometria limpa em forma quadrada ou retangular, nas edificações feitas no centro dos lotes. Mas lamentam que pouco tenha sido feito para recuperar e conservar características originais do conjunto. Mesmo o projeto do escritório do consagrado arquiteto Carlos Maximiliano Fayet, chamado “Vila do IAPI: Patrimônio Cultural da Cidade” terminou engavetado. Apesar de estar classificada como Patrimônio de Interesse Cultural de Porto Alegre, a vila sofre com o esquecimento das autoridades, porque não se encaixa na definição de área tão antiga para ser um centro histórico tampouco conta com acontecimentos ou personagens importantes da história. Aponta-se, também, a ausência de condomínios organizados e até de incentivos fiscais para reformas como um dos motivos para a decadência física de grande parte do conjunto. A visão do satélite mostra, claramente, a mudança extrema que o aspecto da vila sofreu nos últimos anos, expondo as construções irregulares feitas nas áreas destinadas não só ao usufruto de cada proprietário, mas também nas áreas públicas. Como não previu garagens, o conjunto teve de abrir espaço para os carros que se popularizaram. E, impedidos de deixar suas moradas por outras mais espaçosas em que pudessem acomodar a família aumentada, os moradores passaram a aumentar sua área construída. À falta da presença efetiva do Município que deveria cuidar da integridade do conjunto aliou-se a exploração imobiliária e o baixo preço de imóveis local. Com isso, os compradores não se amoldaram a qualquer sobra do projeto das construções, ampliando a descaracterização que, a cada dia, se mostra mais sem controle. Segue na próxima página Jornal Mobiliza IAPI | Porto Alegre


De nada adiantou o IAPI ser arrolado como Área de Interesse Cultural da capital. Hoje, além das obras irregulares, há focos de falta de higiene, com lixo doméstico e restos de reformas, como vasos sanitários, jogado nas calçadas sem acondicionamento adequado e sem respeito aos prédios que têm este cuidado. Sem falar que várias ruas perderam totalmente sua característica de habitação, substituindo casas por estacionamentos e ocupando imóveis com todo tipo de comércio. Alguns acadêmicos reproduzem, inclusive, em seus trabalhos, depoimentos de moradores favoráveis a botar abaixo todos os imóveis para que, em seu lugar, sejam erguidas modernas torres semelhantes as que estão, cada vez mais, cercando a vila. Como enfatizei no começo desta conversa, não tenho como resgatar, de modo completo, a história passada do

IAPI. Também apenas toco no presente, que conta com a bela iniciativa do Mobiliza IAPI que já tem um fruto importante: este jornal. Se passado e presente exigem muito mais espaço para serem contados de forma mais completa nestas páginas, o que então sobra para o futuro! Por enquanto, há tão somente medo e esperança. Medo de que, como afirma uma pesquisadora, o futuro do IAPI esteja em seu desaparecimento. Esperança de que a comunidade se una e aja, cada um dentro de sua possibilidade, para que a vila se torne não um museu avesso às necessárias adaptações diante das exigências dos novos tempos, mas que breque, de forma equilibrada e responsável, a paulatina descaracterização deste abrigo construído para quem pouco tinha e que, um dia, foi exemplo de comunidade. 

POR QUE SOMOS IAPI? Pessoal, ao término de 2013, um ano em que muito conversamos sobre o IAPI, em que percebemos o IAPI e o sentimos, todos nós, quase que da mesma maneira, quero compartilhar com vocês esse gostinho de sermos IAPI. Quero agradecer a Letícia Maria Barbosa pelo belo trabalho com que ela nos premiou e até pedir-lhe desculpas por algumas pequenas adaptações em seu texto, motivadas pela vontade de podermos nos encaixar na grandeza da sua arte. “Por que somos IAPI”? Somos IAPI porque, no transcurso do tempo, investimos neste lugar uma parcela considerável das nossas vidas. Somos IAPI porque aqui nós temos memória e identidade. As lembranças do passado estão contempladas na vida local da Vila e nela identificamo-nos com a história da nossa vida, a história do IAPI nos dá uma agradabilíssima sensação de abrigo. Somos IAPI porque aqui nos percebemos como comunidade, somos afetividade. As moradias, nossos encontros casuais com os vizinhos e as mais variadas formas de manifestação desta comunidade expressam nossa personalidade e afinidades, bem como o fato de percebermos a Vila não apenas como pertencente ao bairro, mas com portadora de vida independente que reforça a cultura deste nosso lugar. Somos IAPI porque nos sentimos beneficiados e privilegiados por desfrutar do seu meio ambiente que nos é proporcionado. Este apego ao lugar, por ser ele familiar, pela natureza em que se insere, por representar nosso passado e por sua localização, é o nosso orgulho como moradores. A afeição, familiaridade e intimidade com este lugar nos dão a sensação de pertencermos a este lugar e de que esse lugar nos pertence. Somos IAPI porque a consciência do nosso passado agrega nosso amor pela Vila e, como integrantes desta comunidade temos plena consciência de que este é o melhor lugar para se viver. Somos IAPI porque o orgulho que sentimos ao reconhecer na Vila a nossa própria história fortalece nossos laços Jornal Mobiliza IAPI | Porto Alegre

Inauguração Igreja Nossa Senhora de Fátima

afetivos de vivência na construção de nossas trajetórias individuais e do nosso dia-a-dia. Aqui na Vila nos percebemos como comunidade, um dos fatores que contribuem para as nossas relações de afetividade. A familiaridade com que descrevemos este lugar faz com que símbolos bastem como referência: “Vou ali ao Obirici” já identifica que vamos até o comércio da Avenida Assis Brasil; “Vou lá no Alexandre” identifica o mercadinho Mini Super da esquina da Rua Sobradinho; “Vou lá ao Seu Batista” significa que se está indo ao mercadinho da esquina da Rua Santiago; “Fui na Fátima” mostra que estivemos na Igreja Nossa Senhora de Fátima; “Moro próximo ao Boeira” aponta que moramos na Rua Veranópolis, onde está localizada a Imobiliária do Boeira; “Vou ao Lino”, assinala nossa ida a padaria. Somos IAPI por tudo isso e muito mais. Deixo ao livre pensamento dos amigos, os muitos e muitos outros motivos que nos levam a dizer com algum orgulho na alma: “Somos IAPI”. Um feliz 2014 a todos! Pedro Lemos | Presidente do Mobiliza IAPI (Texto extraído e adaptado da dissertação de Mestrado: “Topofilia, Memória e Identidade na Vila do IAPI em Porto Alegre” de Letícia Maria Barbosa”).

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Conheci o IAPI quando era menina, na década de 60. Meus tios, Jorge e Olga Magdaleno, moravam na Rua Nova Local para Prata e este endereço se torfoto Erika nou ponto de encontro da família. Nos reuníamos todos os domingos. Eram noites inesquecíveis. Meus primos e eu brincávamos de roda em plena rua, unidos às demais crianças do bairro. Só voltávamos na hora do jantar, quando Tia Olga nos chamava ao longe e éramos tragados pelo aroma da sua comida. Foi na adolescência que o bairro me proporcionou as melhores vivências. Tio Jorge e Tia Olga abriram um pequeno bar na garagem de sua casa, que dobrava na Dom Pedrito. A gurizada da vizinhança e, principalmente os alunos do Colégio Dom João Becker, compareciam em peso para comer sonhos e pastéis caseiros, feitos com capricho por minha tia. Eu, já com 14 anos, ajudava no Caixa. Um dia, quando o estabelecimento estava prestes a fechar, um homem entrou para pedir cigarros. Minha mãe e meu pai, do lado de fora do balcão, tomavam café serenamente. Tio Jorge pediu para que eu descontasse o valor, quando o indivíduo sacou dois revólveres e anunciou o assalto. O registro que fiz em meu pequeno diário, conta que o fato aconteceu em 5 de agosto de 1973.

A “sessentona” A Vila do IAPI chegou à terceira idade. São 60 anos desde a sua inauguração oficial pelo então presidente Getúlio Vargas. Sua gestação, no entanto, começou muito antes, num projeto do engenheiro Eduardo Gardolinski, que administrou a construção de seus prédios, suas ruas, suas praças conforme a concepção urbanística de cidade-jardim. A Vila do IAPI continua exibindo os seus encantos e oferecendo o seu aconchego. Mostra a quem quiser desfrutar, os seus parques, suas praças e suas construções peculiares, que asseguram bem-estar aos seus moradores. Há amplos espaços de lazer, ótima orientação solar, excelente ventilação, tudo cercado de muita natureza. E como tem recantos bonitos nas suas ruas sinuosas! Só para citar alguns: o Parque Alim Pedro, a Praça Chopin, a Praça Província de Shiga e a pista de skate da Praça Frederico Arnaldo Ballvé. Uma antiga figueira é a testemunha dos primeiros cantos da maior cantora do Brasil de todos os tempos, a Elis Regina. O bairro ainda ouve os sons das bandas de rock que renderam ao IAPI a fama de berço do rock gaúcho. Também é pulsante o samba, através da União da Vila IAPI. Apesar de tantas virtudes, a Vila do IAPI está sentindo os efeitos do tempo. As seis décadas de existência requerem uma atenção especial. O IAPI foi criado para abrigar os trabalhadores da indústria, mas nunca teve vocação para se transformar em favela.

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Parte do Diário de Erika

Leite quente no ladrão

Com as pernas bambas, entreguei todo o dinheiro do caixa. Quando ele se preparava para sair, Tio Jorge, furioso com a situação, jogou leite quente no homem. Tia Olga começou a gritar histericamente e batia na mesa com um prato de balança! Meus pais continuavam a tomar café, tranquilamente, no mesmo lugar! Com o susto, o ladrão atirou e a bala passou poucos centímetros acima da cabeça da tia. O furo na parede deixou marca para sempre. Meu pai perseguiu o homem, mas voltou em seguida, apertando o estômago com as mãos. Achamos que tivesse sido baleado, mas teve forte dor, provocada por sistema nervoso. O assalto virou atração, porque o jornal Zero Hora publicou notícia de que um ladrão havia levado leite quente no IAPI. Passamos anos contando esta história, para quem quisesse ouvir. Éramos mais ingênuos, não tínhamos o medo de hoje. Certamente, éramos muito mais felizes. Erika Hanssen Madaleno | Jornalista

Ao longo dos anos, no entanto, vem sofrendo danos, perdendo a sua identidade, o que está lhe dando um aspecto menos atraente. Suas cores estão desbotadas. O IAPI está precisando de mais atenção de todos, afinal possui 2533 moradias e quase 15 mil habitantes, população maior do que muitos municípios brasileiros. Não é mais possível assistir à sua descaracterização sem fazer alguma coisa para preservar este reconhecido patrimônio histórico e cultural da cidade. São necessárias atitudes urgentes e de muita mobilização de todos os segmentos da sociedade para que haja resultados concretos de preservação e revitalização. Afinal, o IAPI é um patrimônio da cidade e por que não dizer do Estado e do País, pois foi o primeiro conjunto habitacional da América Latina com estas características. Vários projetos de revitalização estão engavetados há mais de duas décadas. É preciso atitude. Nesse sentido, a comunidade vem se organizando através do Mobiliza IAPI e vem mantendo contatos para que seja viabilizada a sua revitalização. Em Belo Horizonte, por meio do Projeto Adote Um Bem Cultural, uma parceria entre o poder público, empresários da construção civil e do ramo de tintas, deu vida nova ao núcleo IAPI, no bairro São Cristóvão. Todos os seus edifícios – em um número bem inferior é verdade - foram pintados. Por que não podemos fazer o mesmo com os nossos prédios da Vila do IAPI Porto-alegrense? Vamos sonhar juntos para tornar esse sonho em realidade e deixar essa “sessentona” ainda muito mais bonita. Vítor Bley de Moraes | Jornalista

Jornal Mobiliza IAPI | Porto Alegre


Beto Herrmann, um músico que canta e encanta as crianças

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jornalista e músico Beto Herrmann, de 52 anos, um dos grandes talentos musicais do Estado, adotou o IAPI. Há mais de dez anos mora num apartamento da Rua 24 de Junho em frente à Praça Chopin. Ali, busca inspiração para novas composições e para as apresentações que faz para o público infantil. Antigo morador da Rua Dom Pedro II, conta que escolheu o IAPI numa caminhada que fez pelo bairro, lá pelos idos de 2001. Além das crianças, Beto Herrmann ficou conhecido no mundo inteiro pela música Um Outro Mundo é Possível, tema da trilha musical do Fórum Social Mundial de 2002, realizado em Porto Alegre. Recebeu, em 1995, o prêmio Açorianos de Melhor Trilha Sonora pela composição das canções para o musical “Jacobina, Uma Balada para o Cristo-Mulher”, com direção cênica de Camilo de Lélis. Natural de Porto Alegre, Beto tem um filho que já segue a mesma vocação artística dos Herrmann. Matheus Herrmann faz na Unisinos o curso de Produção Fonográfica, idealizado por reconhecidos artistas locais, entre eles, Frank Jorge. Dos 11 aos 13 anos, Matheus participou, com seu pai, de vários espetáculos infantis pelo estado, tocando guitarra. Beto Herrmann gravou dois CDs autorais para o público adulto, e 11 CDs autorais para o público infantil, dos quais se destacam “O Bê-á-bá Encantado”, “Oficininha”, “Planetinha Água”, “Planetinha Bebê” e “Planetinha Saúde”. Ao todo, já são mais de 100 mil exemplares comercializados, distribuídos apenas no mercado alternativo. As canções podem ser adquiridas virtualmente pelo site www.betoherrmann.com.br. Ao todo, a obra de Beto Herrmann para o público infantil já ultrapassa a marca de 100 canções autorais. Muitas delas se tornaram famosas em escolas de educação infantil e festividades, como por exemplo, os temas “A Bicicleta”, “Planetinha Água”, “Super Água”, “Os Índios”, “Na Barriga da Mamãe” e “As Sementes”.

Formado em Jornalismo pela PUC em 1995, Beto Herrmann não atua diretamente nesta profissão há vários anos. No entanto, costuma ressaltar que muitas noções importantes da profissão foram levadas para o dia a dia artístico. Entre elas, a facilidade e agilidade para a redação de relises, bem como a construção de textos para shows que fizeram sucesso, como “Só Raul” (contando e cantando a vida e obra do maluco beleza baiano), e “A Censura na MPB” (idealizado pelo músico e produtor Carlos Branco, e apresentado por Beto Herrmann durante cinco anos em instituições de ensino do RS). Os espetáculos de Beto Herrmann para o público infantil tiveram sua gênese no convite do Diretor Teatral Zé Adão Barbosa. Ele convidou Beto para participar, em 1991, do musical “A Arca de Noé”, junto com Marcelo Delacroix, Henrique Kunz, Débora Finocchiaro e Débora Lacerda. O espetáculo ficou em cartaz durante dois anos, sempre com lotação esgotada em teatros e escolas do Rio Grande do Sul. Dois anos depois, Beto iniciou sua carreira autoral, com o espetáculo infantil “A Cigarra e a Formiga”. De lá para cá, tem realizado o sonho de alegrar a criançada, sempre focado na irradiação de valores humanos como o amor, a solidariedade e o respeito mútuo; e também numa arte-educação de qualidade, onde a interação e a criatividade de todos participantes somam pontos preciosos para a construção de discos e espetáculos únicos e diferenciados.

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Jornal mobiliza iapi ed 04  

Jornal da Comunidade do Bairro Vila IAPI - Porto Alegre - RS - Ed. 04 - dezembro e janeiro

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