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MatchPoint n.º 8 | Setembro - Outubro 2013 | € 4.95

Portugal

Campeões Nacionais 2013

Entrevista Frederico Silva US Open As melhores fotos Batalha dos Sexos 40.º aniversário

João Sousa

O CONQUISTADOR fb.com/matchpointportugal www.matchpointportugal.com


SUMÁRIO

MatchPoint Portugal

MatchPoint n.º 8 | setembro - outubro 2013 | € 4.95

Portugal

CampeõeS naCiOnaiS 2013

entreviSta frederico silvA US Open As melhores fotos Batalha dOS SexOS 40.º Aniversário

João Sousa

ARTIGOS   3 Bolas Curtas  13 Campeões Nacionais  21 João Sousa, o Conquistador

o conQUistAdor fb.com/matchpointportugal www.matchpointportugal.com

n.º 8 Setembro/ Outubro 2013

 33 Entrevista: Frederico Silva  51 Portfolio: US Open

Propriedade

 59 Batalha dos Sexos Director Pedro Keul

OPINIÃO

Redactores e colaboradores

  3 Editorial

Cardoso, João Carlos Silva e José

 20 Court & Costura  31 Vantagem de… Pedro Bivar

SECÇÕES  65 Arbitragem  67 Equipamento  68 Medical Timeout  69 Bola na tela

Hugo Ribeiro, Miguel Seabra, Jorge Pedro Correia Fotografia Cynthia Lum (excepto indicação em contrário) Projecto gráfico e paginação Henriqueta Ramos Mobile / Webdesign

Contactos 96 3078672 info@matchpointportugal.com www.matchpointportugal.com matchpointportugal Foto da capa Malaysian Open, Kuala Lumpur


EDITORIAL

Uma capa para a posteridade

Pedro Keul

O momento histórico para o ténis português, protagonizado por João Sousa, não podia deixar de ser assinalado devidamente pela MatchPoint Portugal, consagrando ao nosso campeão a capa desta edição. Esse foi um dos motivos porque decidimos atrasar o lançamento deste novo número, optando por mais uma edição bimestral, o que também vem atenuar as dificuldades normais para uma publicação que conta com poucos apoios. O triunfo de Sousa em Kuala Lumpur foi o ponto alto de uma fantástica época do tenista vimaranense, com maior destaque para os resultados obtidos no Verão. Tenho a convicção que este salto qualitativo de Sousa recebeu um enorme empurrão com a vitória no challenger de Guimarães, do qual escrevemos na edição anterior. Justificar a condição de estrela do torneio e, praticamente, da razão de ser da sua criação, colocou-lhe uma enorme pressão com que Sousa soube lidar. E, em jeito de balanço dessa semana em Guimarães, confirmou que Sousa tinha aquilo que é preciso para triunfar ao mais alto nível. Quero com esta recordação frisar, uma vez mais, a importância da realização de eventos internacionais em Portugal, no desenvolvimento dos jogadores que aspiram a uma carreira internacional e também na promoção da modalidade, pois nada melhor para atrair os adeptos do que permitir-lhes ver ao vivo os seus melhores compatriotas. O próprio Frederico Silva realçou em entrevista à MatchPoint Portugal o facto de 22 dos 27 pontos que já angariou para o ranking ATP terem sido conquistados em Portugal. Espero que esta vontade dos clubes em organizar futures e challengers continue no próximo ano para que o Frederico e seus compatriotas continuem a tirar o devido proveito.

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BOLAS CURTAS crianças a aprender o que têm de fazer em cada actividade enquanto que a música as ajuda com o ritmo e o timing essencial para qualquer desporto. A melhor parte é que o Teddy Tennis acelera o processo de aprendizagem e as crianças adoram jogar.

Murray sai de costas

Corretja por Moya

A derrota na primeira eliminatória no Canadá foi razão suficiente para a federação espanhola afastar Alex Corretja do cargo de capitão da Taça Davis, que ocupava desde o ano anterior. O antigo finalista de Roland Garros (1998 e 2001) vai ser substituído pelo compatriota que o venceu na primeira dessas finais, Carlos Moya.

Teddy Tennis Portugal chega a Lisboa! 4

O ensino do ténis às crianças tem uma nova abordagem. Através da música, desenhos, histórias de ursinhos e muitos jogos divertidos, o Teddy Tennis http://www.teddytennis. pt propõe uma forma totalmente nova e diferente de encorajar as crianças entre os 2 e os 6 anos a

tornarem-se activas e a aprender a jogar ténis. O Teddy Tennis estimula a imaginação das crianças e inspira-as a adoptar desde a mais tenra idade um estilo de vida saudável. As imagens ajudam as

Não foi o final de época desejado, mas a decisão de Andy Murray em submeter-se a uma operação cirúrgica que o impede de disputar o masters em Londres pode vir a ter consequências bastante positivas no futuro. A intervenção procurou recolocar um disco inter-vertebral cujo mau posicionamento provocava dores crónicas na região lombar há meses e que até o tinham impedido de competir este ano em Roland Garros.

Elas tiveram mais audiência

Não se sabe se foi por causa da mudança da final feminina para o domingo e da masculina para segunda-feira. Certo é que o duelo entre


Serena Willliams e Victoria Azarenka, que decidiu o título no US Open, registou uma audiência televisiva de 4,9 por cento (mais 26 por cento que a de 2012 e a melhor desde a final de 2002, entre Serena e Venus Williams). Já o encontro entre Rafael Nadal e Novak Djokovic registou 2,8 por cento de audiência, a melhor para uma final masculina desde 2007. Para a história ficou igualmente o fabuloso ponto em que bateram na bola 54 vezes… http://www.youtube.com/ watch?v=RIHsH69XKLE

Lembram-se de Pim-Pim?

Joachim Johansson fez-se convidado no ATP 250 de Estocolmo e acabou por ser uma das estrelas da festa. Depois de passar o qualifying, o “wild card” sueco – que foi 9.º do ranking em 2005 e não competia desde Março de 2011 – venceu o alemão Matthias Bachinger (147.º) no quadro principal, antes de ser travado por Milos Raonic (11.º). Ainda não se sabe se o sueco vai, aos 31 anos, retomar a carreira, várias vezes interrompida

Brasil faz história em pares Graças ao triunfo no Masters 1000 de Xangai, ao lado do croata Ivan Dodig, o brasileiro Marcelo Melo subiu ao oitavo lugar do ranking ATP. Com Bruno Soares na terceira posição, o Brasil faz história voltando a ter dois tenistas no top 10 da variante, o que não acontecia desde Setembro de 1983 quando Cássio Motta e Carlos Kirmayr integraram a lista dos 10 melhores.

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BOLAS CURTAS devido a lesões recorrentes no ombro e também no cotovelo. Em 2006, PimPim (a sua alcunha) chegou a treinar-se no Clube de Ténis de Vila Real de Santo António, quando acompanhou a namorada de então, membro da selecção de atletismo da Suécia, que estagiou na cidade algarvia.

Clijsters volta a ser capa

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Kim Clijsters, ex-número um mundial e vencedora de três torneios do Grand Slam depois de ter sido mãe, voltou às capas das revistas. Desta vez, a razão foi o nascimento do seu segundo filho, Jack Leon Lynch, nascido a 18 de Setembro. Mãe e filho surgiram na capa da Dag Allemaal, a mesma revista onde a filha Jada apareceu em Março de 2008, com apenas duas semanas de vida.

Becker abre o livro Life Is Not A Game (A Vida não é um Jogo) é o nome da segunda autobiografia de Boris Becker, onde o ex-número um mundial tem a oportunidade de se defender dos ataques de que foi alvo ao longo

dos últimos 13 anos da sua vida. Em especial, das críticas devido ao seu caso extra-conjugal, em 1999, com uma modelo russa, Angela Ermakova, num restaurante de Londres, do qual resultou o nascimento de Anna, a sua terceira filha. Becker justificou esse momento com a necessidade de amor e segurança. “Quando não se tem isso em casa, procurase noutro lado, quando a oportunidade surge”, lê-se no livro.

Nadal leva “bluff” a sério

Rafael Nadal tem jogado ocasionalmente com os seus fãs no site PokersStars, mas desta vez aceitou o convite para estrear-se no circuito profissional de póquer. Será no EPT de Praga (República Checa), torneio que decorrerá entre 13 e 18 de Dezembro com um prize-money de 835 mil euros. Segundo o

seu treinador, Alfonso Cardalda, o número um do ranking mundial de ténis, soube desde o primeiro momento, “captar a essência deste desporto e é tão competitivo como o mostra num court de ténis”.

Elas estão de regresso

Jelena Dokic, número quatro do ranking em 2002 e semifinalista em Wimbledon dois anos antes, vai tentar um novo regresso à competição. A australiana de 30 anos não joga desde Abril de 2012 mas tem se treinado no centro de treino da federação do seu país, em Melbourne e vai tentar merecer um convite para o wild-card play-off do Open da Austrália, que se realiza em Dezembro. No Grand Slam australiano de 2009, Dokic derrotou Anna Chakvetadze (18.ª), Caroline Wozniacki (12.ª) e Alisa Kleybanova (31.ª) antes de perder nos quartos-de-final com Dinara Safina (3.ª). Desde então, nunca mais passou da segunda ronda nos majors. Também Karolina Sprem, 17.ª em 2004, voltou ao circuito profissional um


ano depois de ter sido mãe de Zahara, fruto do seu casamento com Marcos Baghdatis. Após um interregno de dois anos e meio, a croata de 29 anos disputou e perdeu de entrada num torneio ITF de Dubrovnik de 10 mil dólares.

Nadal em exibição na América do Sul

Depois de encerrada a época, Rafael Nadal vai fazer uma tournée de exibições na América do Sul. Assim, no dia 17 de Novembro, Nadal estará no Peru onde vai defrontar o compatriota e amigo David Ferrer no Jockey Club de Lima, onde o preço mínimo de entrada é de 113 euros. No dia 20, estará na Movistar Arena de Santiago do Chile com Novak Djokovic, com as entradas a começarem nos 98 euros. Por fim, em Buenos Aires, Nadal joga no dia 23 com David Nalbandian e no dia seguinte com Djokovic, onde o bilhete mais barato ascende aos 146 euros. Sabendo que os preços para as finais de torneios Masters 1000 chegam a custar 25 euros (ParisBercy), é caso para dizer

Retirados do circuito

Após uma dupla operação ao ombro e anca, David Nalbandian anunciou a saída do circuito profissional. O argentino de 31 anos decidiu encerrar uma carreira que o viu chegar ao terceiro lugar do ranking, em 2006, disputar a final do torneio de Wimbledon, em 2002 e ganhar 11 títulos, dois dos quais no Portugal Open (2002 e 2006). Dois anos mais velho, Xavier Malisse também se retirou do ténis profissional. O tenista belga que atingiu o 19.º lugar do ranking em 2002 (ano em que foi semifinalista em Wimbledon) e amealhou quatro milhões de euros em prémios monetários tinha como ideia inicial despedir-se no próximo Open da Austrália mas os maus resultados anteciparam a data e optou por retirar-se na Bélgica, no challenger de Mons. Igualmente reformada está Anne Keothavong, uma das melhores tenistas britânicas neste início de século, tendo chegado ao 48.º lugar do ranking mundial, em 2009. que ver Nadal actuar na América do Sul é só para quem pode.

Federer sem treinador mas com humor

Ao contrário de 2012, em que realizou seis encontros na América do Sul – que

lhe rendeu 1,4 milhões de euros cada um – Roger Federer vai descansar após a conclusão da época. O campeoníssimo suíço voltou a ser convidado, mas está focado em preparar a próxima época que iniciará em Brisbane (Austrália), em Janeiro.

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BOLAS CURTAS Roland Garros avança

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Embora 2013 não lhe tenha corrido de feição, Federer não perdeu o humor numa recente conversa com os fãs através da rede social Twitter, durante a sua participação no Masters 1000 de Xangai. Aí ficámos a saber que Federer era apreciador das séries de televisão Lost, Prison Break, Entourage e Heroes… “e depois tive filhos”; que se fosse um animal seria “um leão… ou uma vaca suíça”; que ficaria honrado se Leonardo Di Caprio o interpretasse no cinema; que calça 46; e que conselho é que dá a um fã, que lhe pediu para “retweetar” porque estava aborrecido numa aula de Química: “Concentração. Eu não olho para o meu telemóvel durante os encontros ”. Noutro registo, Federer encarna o papel de James Bond a pedir um… café!

O plano de expansão e renovação do estádio Roland Garros vai prosseguir. Depois de, em Março deste ano, uma providência cautelar promovida por moradores da zona ter contestado a convenção aprovada pelo Conselho de Paris em 2011, o Tribunal de Recurso veio agora anular qualquer impedimento. A expansão de Roland Garros deverá estar concluída em 2017 e do seu plano destaca-se a cobertura do court principal com um tecto amovível.

Choque de gerações

O duelo entre Ivo Karlovic, de 34 anos, e Karen Khachanov, de 17, na recente edição da Kremlin Cup registou a maior diferença de idades em encontros no ATP World Tour desde que Fabrice Santoro (36 anos) defrontou Andrey Kuznetsov (18) no torneio moscovita em 2009. Por outras palavras, Karlovic disputou o seu primeiro torneio no Tour em 2001 quando Khachanov tinha

cinco anos. O gigante croata é igualmente conhecido por ser o mais alto no circuito e protagonizou um momento curioso, que partilhou com os fãs no Twitter: quando o norte-americano John Isner alterou a sua altura oficial de 2,06m para 2,08m, Karlovic achou por bem confirmar a sua. E não é que o croata foi oficialmente promovido de 2,08m para 2,11? “Não sei quando cresci. Talvez me tenham esticado no hospital”, “twittou” Karlovic, aludindo ao seu recente caso de meningite que o levou de urgência para o hospital.

O mais longo serviço

Conhece-se qual o serviço mais rápido - 251 km/h, por Ivo Karlovic numa eliminatória da Taça Davis, em 2011 – mas poucos sabem de quem


Lisboa Racket Centre recebeu o mundo do Padel

As centenas de adeptos que marcaram presença no Libos Racket Centre não deixaram dúvidas quanto ao êxito da primeira edição do Lisboa International Open, a primeira prova do World Padel Tour que se realizou fora de Espanha. O espanhol Juan Martin Díaz e o argentino Fernando Belasteguin confirmaram perante os adeptos portugueses porque razão dominam o circuito mundial há 12 anos ao vencerem uma final, em que se falou português, por intermédio do brasileiro Pablo Lima (4.º do ranking), que emparceirou com o espanhol Juani Mieres (3.º). Para o Lisboa Racket Centre, esta foi uma aposta ganha, provando que o Padel é uma boa forma de atrair novos atletas aos clubes de ténis.

WORLD PADEL TOUR

WORLD PADEL TOUR

é o recorde do serviço mais longo. Pois pelo terceiro ano consecutivo, o Valencia Open 500 realizou esse original concurso na Cidade das Artes e Ciências, que mais uma vez foi ganho por Feliciano Lopez, com um novo recorde de 78 metros, batendo a concorrência de John Isner, Bob e Mike Bryan. O prémio de dois mil euros reverteu para uma instituição de caridade, Fundacion Clinica Menorca, escolhida por Lopez.

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BOLAS CURTAS

Somdev Devvarman (que subiu do 656.º para 90.º lugar do ranking durante 2013), Rafael Nadal (4.º para 1.º), Tommy Robredo (115.º para 19.º) e Dmitry Tursunov (125.º para 39.º) são os nomeados para o prémio anual do ATP World Tour na categoria de “O Regresso do Ano” – que visa reconhecer os tenistas que recuperam de lesões e retomam um lugar entre os melhores. O vencedor é escolhido pelos jogadores e será anunciado no Barclays ATP World Tour Finals.

Os mestres apanhabolas

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Não são só os melhores tenistas do mundo que lutam entre si por um lugar no Barclays ATP World Tour Finals. Cerca de 100 jovens vindos de toda a GrãBretanha estão a tentar garantir um lugar entre os 30 Barclays Ball Kids que irão actuar no Masters de Londres. Este ano, o processo de recrutamento estendeu-se a Madrid (Espanha) onde 250 miúdos lutaram pelos dois lugares disponíveis.

Triunfo no Porto Open “made in Japan” O tenista japonês Taro Daniel (na foto) foi o vencedor da 14.ª edição do Porto Open, que decorreu no Clube de Ténis do Porto e distribuiu 7500 euros em prémios monetários. No derradeiro encontro, Daniel (259.º do ranking mundial) venceu o seu amigo e habitual parceiro de treino em Valencia, o espanhol Ricardo Ojeda, pelos parciais de 6-0, 6-3. Quanto aos portugueses, os melhores chegaram ás meiasfinais: Daniel afastou (6-1, 6-3) João Domingues e Ojeda eliminou (6-0, 1-6 e 6-4) Leonardo Tavares – regressado aos courts após três meses de paragem por lesão na anca. Nos pares, a dupla hispanovenezuelana, Ricardo Ojeda/Ricardo Rodriguez ganhou a final sobre Domingues e o espanhol Ivan Arenas 4-6, 6-3 e 10/8, no match tie-break.

CIRILO VALE

E os nomeados para “O Regresso do Ano” são…


Campeonato nacional

Campe천es Nacionais 12

Absolutos 2013


Fernando Correia FPT

Campeonato Nacional Absoluto/ TAÇA GUILHERME PINTO BASTO

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Singulares femininos MARIA JOÃO KOEHLER - BÁRBARA LUZ 6-1, 6-2


Fernando Correia FPT

Campeonato nacional

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Singulares masculinos RUI MACHADO - JOÃO DOMINGUES 7-5, 6-1


Fernando Correia FPT

Pares masculinos JOÃO DOMINGUES/ GONÇALO PEREIRA - GONÇALO FALCÃO/ FREDERICO SILVA 2-6, 6-4 [10/7]

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Fernando Correia FPT

Campeonato nacional

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Pares femininos JOANA VALLE COSTA/BÁRBARA LUZ – JOANA BRITES/ANA FILIPA SANTOS 6-2, 6-3


Fernando Correia FPT

Pares mistos JOANA VALLE COSTA/ GONÇALO FALCÃO – MARIANA CARREIRA/FELIPE CUNHA E SILVA 7-5, 7-6 (7/5)

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Campeonato nacional

Fernando Correia FPT

Campeonato Nacional Ténis em Cadeira de Rodas/TAÇA ANGELINI

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CARLOS LEITÃO – JOÃO SANONA 7-5, 4-6 [12/10]


Court & Costura

Campeonato Nacional recupera dignidade Durante quatro anos critiquei negativamente a Federação Portuguesa de Ténis (FPT), em artigos de opinião que assino no Diário de Notícias, por deixar de atribuir prémios monetários ao Campeonato Nacional (CN), mesmo que simbólicos. Também durante anos escrevi que fazer coincidir o CN com o US Open impedia, naturalmente, alguns dos melhores portugueses de participar no torneio português, ao mesmo tempo que lhe retirava mediatismo, dada a concorrência de uma etapa do Grand Slam. É, portanto, justo que venha, desta feita, elogiar a FPT por ter organizado o CN já depois do US Open e da Taça Davis, distribuindo, ao mesmo tempo, 20 mil euros em prémios, verba que, nos dias de hoje, é tudo menos simbólica. O regresso aos prémios deve-se, sobretudo, ao patrocínio pessoal de José Basílio Pinto Basto, vice-presidente da FPT, razão pela qual o torneio recebeu também a designação de Troféu Guilherme Pinto Basto, o seu antepassado e primeiro presidente da FPT, em 1925. “PB” é um amigo de longa data e um dos patrocinadores da MatchPoint Portugal, mas não é por isso que elogio o seu gesto. O apoio do banco BIC e do ex-ministro Mira Amaral (que não conheço) foi igualmente relevante. Numa altura em que temos, pelo menos, oito jogadores e três jogadoras profissionais, era uma falta de respeito o CN não compreender uma retribuição a quem trabalha. A participação poderá não ter sido a desejada, mas foram coroados Maria João Koehler e Rui Machado, dois dos melhores tenistas portugueses de sempre.

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Hugo Ribeiro


Malaysian Open

NO CIRCUITO

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JOテグ SOUSA

Condado Portucalense


Foi na Cidade Berço que nasceu o primeiro português a conquistar um título do ATP World Tour e a intrometer-se no top 50 mundial. De uma assentada, ficaram estabelecidos dois marcos históricos para o ténis luso com a assinatura do mesmo protagonista: João Sousa – o guerreiro do Minho que, ao invés do antecessor Afonso Henriques, se apoiou em nuestros hermanos para forjar a sua carreira profissional. Miguel Seabra O ranking ATP celebrou este ano o seu 40º aniversário. E, pela primeira vez em 40 anos, houve um português a imiscuir-se no top 50 da hierarquia mundial: na sequência de uma inolvidável quinzena que o levou às meias-finais de São Petersburgo e ao título de Kuala Lumpur, João Sousa ultrapassou o anterior recorde nacional em oito posições para figurar no 51º posto e uma semana depois (curiosamente sem jogar) beneficiou de acertos na classificação para elevar a fasquia até ao 49º lugar. Mais do que o inédito registo estatístico, o feito de João Sousa poderá ter o efeito de um corte epistemológico. O ténis nacional está agora perante uma nova realidade, há uma nova bitola pela qual todos os outros tenistas lusos se devem reger. É essa a nova responsabilidade de João Sousa, é esse o peso do seu legado – mas também passa a ser essa a responsabilidade do ténis português: mostrar que não se trata de um acaso, provar que há uma consequência positiva e que o élan gerado por uma tal proeza foi devidamente aproveitado.

Quando os astros se alinham A eclosão de João Sousa rumo a um novo patamar na sua carreira foi algo inesperada mas sucedeu com todo o mérito – e os indícios de que poderia surgir em 2013 foram-se tornando cada vez mais consistentes. Logo no arranque da temporada, a passagem de uma ronda no Open da Austrália e a prestação desinibida diante de Andy Murray; a meio do ano, a suprema pressão de ter de corresponder às enormes expectativas de um torneio criado em Guimarães à sua medida para chegar ao título perante a sua família, os seus amigos, o seu público; e depois a grande catapulta que foi o Open dos Estados Unidos, com vitórias em cinco sets sobre duros adversários de gerações e estilos diferentes como Grigor

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NO CIRCUITO Dimitrov e Jarkko Nieminen, seguidas de uma boa exibição em prime-time face ao número um mundial Novak Djokovic num Arthur Ashe Stadium completamente lotado. Em Nova Iorque e de uma assentada, o vimaranense igualava o melhor registo de sempre de um português em torneios do Grand Slam e dava o mote para o trimestre final. Mesmo que logo de seguida tivesse havido uma contrariedade, que até pode ter servido como lenitivo: o desaire em cinco sets na Moldávia perante um adversário em estado de graça e aparentemente fora de si, o nacionalismo exacerbado vindo das bancadas e uma equipa de arbitragem demasiado caseira têm o condão de indignar qualquer um. E o certo é que, logo na semana seguinte, João Sousa exorcizou da melhor maneira esse amargo de boca ao aceder às meias-finais de São Petersburgo e receber um visto para a glória: o facto de marcar presença no fim-desemana decisivo valeu-lhe um special exempt que o isentou de jogar o qualifying de Kuala Lumpur e o colocou a jogar o quadro principal do torneio que o pôs na história.

Em Nova Iorque, o vimaranense igualou o melhor registo de sempre de um português nos majors 24

Dos clichés ao que interessa

Já quase tudo se escreveu sobre a conquista do título, para mais depois do périplo de imprensa dada por João Sousa desde o seu regresso a Portugal – desde uma conferência de imprensa na sede do Comité Olímpico Português até uma entrevista na TVI 24 em que o entrevistador lhe estava sempre a cortar a resposta. E tornouse fácil arranjar clichés, a começar pelos que estão relacionados com a sua origem: oriundo da cidade que deu o primeiro Rei de Portugal, o Conquistador ganhou o primeiro título ATP para Portugal; o Tigre da Malásia (dos mais velhos, quem não se recorda de Sandokan?) tomou mesmo de assalto Kuala Lumpur; o Guerreiro do Minho fez jus ao nome do seu clube do coração. Até o seu infeliz adversário da final, Julien Benneteau, é um sósia perfeito de Lannick Gautry, o actor francês que se apaixona pela luso-descendente filha de emigrantes no filme “Gaiola Dourada”! No decurso de duas semanas em que só perdeu, por parciais pesados, com Guillermo Garcia-Lopez em São Petersburgo (que assim vingou o desaire face a Frederico Gil e um público do Centralito em


United Colors of Benneteau Na sua nona final e mais favorito do que nunca perante um adversário português a navegar em águas desconhecidas, Julien Benneteau colocou-se em vantagem jogando sempre de modo versátil e agressivo – respondendo sobretudo bem de esquerda e muito afoito no jogo de rede. Mas, mesmo que o gaulês tenha melhorado muito a sua direita, já se sabe que quando a tensão aumenta ela se torna mais presa… e aquele approach de direita no seu match-point saíu curto e bateu antes da linha de serviço, mas também o rapaz de Guimarães teve todo o mérito em adivinhar a direcção do ataque e apareceu no sítio certo para aplicar um passing-shot paralelo de direita que virou o encontro do avesso e lhe permitiu dobrar o Cabo das Tormentas. A partir daí, e enquanto João se galvanizava, o francês começou a soçobrar perante a síndrome da oportunidade desperdiçada e acabou por ter o mesmo destino do irmão Antoine Benneteau, que teve quatro match-points

João Sousa teve de salvar um matchpoint antes de celebrar o seu primeiro título no ATP World Tour

Malaysian Open

polvorosa nas meias-finais do Estoril Open de 2010), João Sousa derrotou oito adversários de gabarito – sobretudo o número quatro mundial David Ferrer, actualmente promovido a número três pela ausência do lesionado Andy Murray, mas sem mostrar grande confiança desde Roland Garros. E não poderia ter havido adversário mais a jeito na decisão do título de Kuala Lumpur: Julien Benneteau tinha perdido oito finais anteriormente, mas sempre diante de opositores claramente mais cotados ou pelo menos experientes.

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NO CIRCUITO

Filho pródigo Por sua vez, João Sousa tem 24 anos. Com apenas 27 encontros no escalão superior já tem um título ATP, depois de anos a fio Malaysian Open

O vimaranense deu-se conhecer no Estoril Open de 2008, quando passou o qualifying e só perdeu nos quartos-definal.

diante de Sousa na primeira ronda do Challenger de Guimarães dois meses antes – o que significa que a família United Colors of Benneteau dispôs de uma mão cheia de pontos para o derrotar sem o conseguir. Seguramente que Antoine e Julien nunca escolherão a localidade de Souselas para passarem férias. E que a frequente confusão com o brasileiro João Souza ou com o português Pedro Sousa passará a ser bem mais rara. Julien Benneteau poderá inspirar-se no seu compatriota Cédric Pioline, que perdeu as suas primeiras nove finais até encarrilar e somar cinco troféus individuais, mas quebrou a malapata mais cedo (aos 28 anos) e era um jogador de outra estirpe: jogou duas finais de torneios do Grand Slam e ganhou a Taça Davis. Para azar de Benneteau, o torneio de Copenhaga onde Pioline matou o borrego já não consta do calendário do ATP World Tour. E já tem 31 anos.

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nos Futures e em Challengers – mas a subir de modo constante desde que se deu melhor a conhecer diante dos adeptos nacionais, no Estoril Open de 2008, quando passou a fase de qualificação e só perdeu num duelo nervoso com Frederico Gil que tinha como recompensa um embate com Roger Federer nos quartos-de-final. Ultrapassaria mais duas vezes a fasquia da primeira ronda no Jamor, curiosamente em ambos os casos às custas do amigo e velho rival Gastão Elias, sendo que em 2012 ganharia um outro encontro que o colocou pela primeira vez nos quartos-de-final de um evento do ATP World Tour. É uma pena que a controvérsia gerada com a atribuição de um wild-card para a edição deste ano do Portugal Open esteja a ter repercussões menos positivas e interpretações erradas por parte de muita gente. A entrega do convite a David Ferrer na sequência da desistência de última hora por parte do adoentado Juan Martin del Potro foi uma pura medida de gestão de João Lagos, que é compreensível para quem está no meio e que é frequente no circuito, na maior parte dos casos com episódios até rocambolescos (como sucedeu recentemente no torneio de Linz, sendo que aí, o sorteio já tinha sido feito e o wild-card atribuído à local austríaca Lisa-Maria Moser foi depois ‘reencaminhado’ para a top 10 alemã Angelique Kerber). O certo é que o episódio foi potenciado por reacções intempestivas e mirabolantes nas redes sociais, desde acusações de preconceito regional até teorias de conspiração. O importante é que essa cicatriz fique rapidamente sarada e os homónimos resolvam o aparente impasse. Porque João Lagos, apesar do que sucedeu, fundou o torneio sobretudo para os portugueses. E porque João Sousa merece um lugar de destaque na principal sala de visitas do ténis luso – e nem pode ser considerado um filho pródigo, apesar da celeuma do wild-card e de há muito estar radicado em Barcelona, onde forjou o seu jogo e temperou o seu carácter de competidor.

No meio está a virtude João Sousa tem juventude, tem garra, tem margem de progressão – assenta o seu jogo na qualidade da sua pancada de direita e na sua intensidade, tipicamente à maneira espanhola; o serviço melhorou e o saque à figura foi criteriosamente utilizado na histórica final de Kuala Lumpur, sendo que também o jogo de rede se tornou mais fluído e seguro apesar de continuar perfectível.

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NO CIRCUITO

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Mas, para um jogador que até se sentia mais como um tenista de terra batida até às suas proezas dos últimos meses e sobretudo das últimas semanas, foram os progressos no jogo do meio court para a frente que o içaram até ao patamar seguinte. Esse salto demorou: começou por ser dado há dois anos e num nível inferior, com a conquista do seu primeiro título Challenger em hardcourts e fora de Espanha no torneio alemão de Fürth que simultaneamente lhe permitiu aceder ao top 200 mundial. Então acompanhado pelo seleccionador nacional Pedro Cordeiro, foi nessa semana que mostrou maior qualidade nas transições e maior segurança na gestão daquelas bolas a meio court que lhe permitiam concluir pontos nos quais se encontrava em posição dominante – um tipo de jogada que antes perdia frequentemente de maneira inglória, afectando-o psicologicamente. E depois, já com a companhia de Frederico Marques, transportou essa melhoria para os torneios de nível superior; o modo como ganhou o match-point com um acrobático vólei alto de esquerda, cruzado, nas meias-finais de Kuala Lumpur diante de Jurgen Melzer foi emblemático. Mas que não se pense que ele chegou a um patamar estanque no qual vai permanecer. Espera-se que suba, mas pode descer – o ar no top 50 é mais rarefeito. E o público português mais alheado das especificidades do ténis não pode exigir em demasia, porque um tenista não é como um nadador ou um velocista que baixa o seu tempo na respectiva disciplina e por lá fica de modo consistente; um tenista está sujeito a uma enorme diversidade de circunstâncias que vão desde o confronto directo com adversários dotados dos mais diferentes estilos até às condições de jogo distintas de torneio para torneio. E que, semana após semana, tem de conviver frequentemente com a derrota… a não ser que se chame actualmente Rafael Nadal. Ou Novak Djokovic. Basta recordar que, em 2013, João Sousa perdeu cinco vezes contra adversários fora do top 100 e quatro perante opositores fora do top 200. Apanhou a carruagem no momento certo, vamos ver a que novas paragens ela o vai levar.

O público português não pode exigir em demasia


Malaysian Open

O testemunho do formador O Conquistador deu novos mundos ao pequeno mundo do ténis português, as fronteiras estão mais alargadas. Com a ajuda de um núcleo restrito de personalidades marcantes: os pais, evidentemente, que tantos sacrifícios fizeram para lhe financiar a carreira; o irmão, que aceitou a situação e esteve sempre com ele; o próprio Francis Roig, que – como responsável da Academia Barcelona Total Ténis onde se radicou aos 15 anos – lhe deu uma lição que nunca mais esquecerá ao castigar a sua atitude deixando-o sozinho em vez de o trazer de volta a casa com os outros pupilos; Pedro Cordeiro, seu capitão no âmbito da Taça Davis mas também seu técnico durante vários períodos; Frederico Marques, que se juntou a ele em Barcelona, mas que entretanto abraçou a carreira de treinador e o acompanhou nos momentos de glória; e o técnico que lhe deu as primeiras bases técnicas no Clube de Ténis de Guimarães e alimentou a sua paixão pela modalidade, Luís Miguel Coutinho. Que teve a mais sentida de todas as declarações públicas efectuadas à volta da efeméride no dia em que o pupilo fez história:

João Sousa não teria conseguido chegar tão alto sem a ajuda de um núcleo restrito de personalidades

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NO CIRCUITO JOÃO, Hoje é um dia dos mais felizes da minha vida...

Malaysian Open

– lembro-me de quando tinhas cinco anos e pegavas na raquete do teu pai e batias contra as escadas do clube e nos deixavas surpreendidos com a tua destreza e descontracção – lembro-me das primeiras aulas, da tua alegria em aprender, dos primeiros golpes, e da surpresa que criavas nos teus colegas de turma com a facilidade com que executavas – lembro-me de que, com 8 anos, te coloquei a treinar com os mais velhos e tu, pequenino, já lhes punhas a cabeça em água, com os teus golpes de fundo do campo – lembro-me de não ires ao Campeonato Nacional de Iniciados e tu, triste, aceitaste sem nenhum desconforto e descortesia que mudássemos a tua pega da direita – lembro-me que no ano seguinte conquistaste o campeonato nacional de iniciados, derrotando nas meias-finais o teu amigo Gastão, que era na altura invencível, e da semana que passámos com o teu pai, em Lisboa – lembro-me do teu primeiro torneio internacional na Córsega, quando chegaste ao clube, com o troféu na mão, ainda tímido, sem te dar conta do que tinhas conseguido – lembro-me das imensas horas que passámos no campo 4, no pavilhão, entregues a nós próprios – lembro-me de que quando eu ou o teu pai éramos um bocado

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CMGuimaraes Paulo Pacheco

BOA SORTE E FELICIDADES. TU MERECES. Merece mesmo. Foi Conquistador.

CMGuimaraes Paulo Pacheco

incisivos, e exigentes, nunca reagiste mal, sempre educado, nunca fizeste um gesto de reprovação e aceitavas tudo com humildade ­– lembro-me que quando jogavas, com o teu jogo irreverente, corajoso, destemido, já eras um exemplo para todos, e te vinham ver jogar – lembro-me da decisão difícil e da viagem que fizemos a Barcelona com o Hélder Carvalho e o teu pai, em que percorremos cerca de 3000 km num fim-desemana, para decidirmos em qual academia ficarias – lembro-me dos teus primeiros pontos ATP – lembro-me das horas e horas entusiásticas que passei e passo a conversar com o teu pai – lembro-me do primeiro jogo, no Estoril Open, em que ganhaste ao Golubev, então 102º mundial – lembro-me das tuas primeiras vitórias sobre adversários do top 100 ­– lembro-me de Roland Garros, Open da Austrália, US Open – lembro-me de estar em tua casa, com o teu pai, a tua mãe, o teu irmão Luís, a vermos, estarrecidos e felizes, o teu jogo com o Djokovic no maior estádio do mundo, completamente cheio – lembro-me de vir para casa esta semana e estar em frente ao PC, andar aos gritos de entusiasmo com as tuas jogadas estonteantes – lembro-me das lágrimas que me assaltaram o rosto quando te vi erguer o troféu, que parecia impossível a um português, a um vimaranense... – lembro-me de que, sempre que vens a Guimarâes, nunca deixaste de me visitar e de conversarmos um bocadinho, e de que, apesar dos teus afazeres, respondes sempre prontamente às minhas mensagens BEM HAJAS, CAMPEÃO. É um orgulho para mim ser teu amigo e um fã incondicional.

Sousa foi completamente apanhado de surpresa pela recepção que a Câmara Municipal de Guimarães lhe reservou

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VANTAGEM DE…

E pronto, não há 2 sem 3!

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Depois de duas tentativas falhadas, eis que surge pela mão da Federação Portuguesa de Ténis (FPT) a versão III do Centro PEDRO BiVAR de Alto Rendimento Treinador Nível III da FPT/ (CAR). Desta vez a FPT Presidente do Conselho teve a originalidade Técnico da ATL/ Director Técnico de “convidar” todas as do Ace Team “Associações, Clubes, treinadores e demais agentes ligados à modalidade, a contribuir com as suas importantes opiniões e sugestões para que sejam analisadas com toda a atenção”. O convite foi endereçado a 6 de Setembro para ser respondido até ao dia 18 do mesmo mês. Num tema desta relevância e com o país tenístico meio paralisado pelas férias de Verão, pretende-se que em 12 dias todas aquelas entidades contribuam com as “suas importantes opiniões e sugestões”. Se fossemos cépticos e cínicos diríamos que tal proposta ou é uma brincadeira, ou o que a FPT pretende com isto é que não se discuta nada e que é apenas “para inglês ver” que a FPT quer avançar, tal como no defunto CAR II, rapidamente e em força, sem dar nem tempo nem reais possibilidades para que haja um amplo debate sobre o assunto. Mas não é uma brincadeira. É mesmo uma vergonha e vai prejudicar os do costume, ou seja: atletas, clubes formadores desses atletas e seus treinadores. Este negócio, mais uma vez, só vai beneficiar a FPT, já

que vai meter ao bolso o chorudo cheque que o Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ) atribui às federações que põem de pé um CAR. Não interessa como, nem com quem, nem porquê, o que interessa é pô-lo rapidamente a funcionar, não vá aquele organismo do Estado fechar a torneira e enviar o cheque a outra federação mais expedita. E contudo, o tema é demasiado importante e fundamental para o futuro do Ténis de Alta Competição em Portugal para que seja discutido e analisado desta forma, sem que a FPT tenha enviado previamente às entidades a quem está a pedir opinião, uma linha sequer sobre as suas intenções, sobre o modo como tal estrutura vai funcionar, com que corpo técnico, dirigida a que faixa etária, como vai resolver a questão dos estudos e a questão da estadia dos atletas fora de Lisboa, como vai ser o relacionamento com os Clubes/Treinadores fornecedores de atletas, etc… Acresce que, decorridos 8 meses da última experiência falhada de CAR II, não veio ninguém da FPT ou daquela estrutura, fazer um balanço, uma reflexão, do que correu bem ou mal, ou seja, a razão pela qual encerrou uma estrutura aparentemente bem dirigida tecnicamente, com condições ímpares no país e com fundos generosos do IDPJ para o seu funcionamento logístico e deslocações a torneios internacionais. E faliu, não financeiramente, mas tecnicamente. Porque é que, com uma estrutura de


VANTAGEM DE…

excelência com estas características e ainda para mais grátis, os atletas a abandonaram, regressando aos seus clubes, mesmo pagando? Ninguém ponderar nestas questões é quase uma garantia de que se vão cometer os mesmos erros. Acresce ainda que se sabe nos bastidores da modalidade que o modelo a implementar do novo CAR está definido, que já se conhece praticamente o seu corpo técnico, e que inclusivamente alguns dos seus elementos, nos recentes Campeonatos Nacionais de sub-16 e sub-18, andaram a sondar atletas da possibilidade de integrarem a nova estrutura federativa. É grave, deontologicamente errado e uma vergonha! Venho pois sugerir que se conceda uma moratória sobre a implementação desta

terceira tentativa de CAR, de pelo menos alguns meses, por forma a permitir uma ampla reflexão e participação de todos os interessados. Só assim poderemos construir um CAR interessante e desejado por todos, que responda às necessidades do país e à produção de jogadores profissionais de alto nível. 33


ENTREVISTA

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Frederico Silva, “JÁ NÃO ESTAVA NOS JUNIORES A CEM POR CENTO PREOCUPAVAM-ME OUTRAS COISAS”

Hugo Ribeiro, com Pedro Keul


Conheci o Frederico Silva em Março de 2010. É curioso que nesta entrevista à MatchPoint Portugal o nosso primeiro Já era um jovem famoso, com prestações tenista a conquistar um título do Grand importantes em Campeonatos da Europa Slam tenha admitido essa reserva que lhe juvenis e, ainda cadete, iniciava-se em é característica, comparando-se nesse torneios profissionais. aspecto a Rafael Nadal. Foi no Future de Albufeira, em Montechoro, Três anos depois, voltei a conviver um onde eu desempenhava o cargo de Press pouco mais de perto com ele no torneio Officer e lembro-me, sobretudo, de de Roland Garros. Veio várias vezes à considerá-lo inicialmente tímido e de, no final da semana, ter mudado de ideia. Afinal, cabine do Eurosport em Paris, comentou com o Miguel Seabra e comigo parte de tímido não era a palavra certa, era antes alguns dos encontros mais importantes do reservado. Quando lhe pedi uma entrevista para a RTP-2 gostei do modo directo, sintético mas profundo, Frederico Ferreira Silva globalmente maduro para alguém tão novo e logo percebi Alcunha: Kiko que de tímido não tinha nada. Data nascimento: 18 de Março de 1995 Sabia de onde vinha e para Naturalidade: Caldas da Rainha onde queria ir – tal como, aliás, Residência: Foz do Arelho o seu treinador Pedro Felner, Clubes: CT Caldas da Rainha entrevistado para o mesmo Treinadores: Pedro Felner programa –, tinha consciência Habilitações literárias: 12.º ano completo das atenções que já começava Ídolos de infância: Andre Agassi e Roger Federer Melhor ranking ATP: 717.º a despertar mas não se deixava Melhor ranking ITF (sub-18): 6.º esmagar por elas. Aliás, foi logo finalista de pares ao lado de Títulos: Campeão nacional de sub-12 em 2007, Diogo Soares. de sub-14 em 2009, de sub-16 em 2010, campeão Mas ao contrário de outros nacional de pares em 2010 (com Vasco Mensurado), jogadores, não era fácil, em campeão europeu de pares masculinos sub-16 em privado, levar o Frederico 2010 (com Vasco Mensurado), campeão europeu de a abrir-se, embora sempre pares masculinos em sub-14 em 2009 (com Gonçalo educado, afável, simpático Loureiro), vice-campeão europeu de sub-18 em 2012, mesmo, como quando o torneio campeão do Open dos Estados Unidos (2012) e de lhe organizou uma festa de Roland Garros (2013) em juniores pares masculinos aniversário, com a família (com Kyle Edmund). Títulos singulares sub-18 na ITF: presente, e ele andou todo Istambul 2010, Vila do Conde 2011. Títulos Futures ITF: sorridente a distribuir fatias de Monfortinho, em 2013 (singulares); Vigo, em 2013 (em bolo a todos quantos estava no pares, com David Perez-Sanz). clube, umas largas dezenas.

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torneio e voltei a gostar da sua maturidade, seriedade e até de algum humor, por vezes velado e subentendido. Apreciei sobretudo o seu conhecimento do jogo. Nota-se que pensa a modalidade, não é só bom a bater na bola. Há uma evidente boa, próxima, saudável e respeitosa relação entre Frederico Silva e Pedro Felner. Não os conheço suficientemente bem para assegurar que o treinador é quase um segundo pai como era, por exemplo, Larri Passos para Gustavo “Guga” Kuerten, mas é notório que o mais velho inspira o mais novo. Para esta entrevista, recebeu-nos na sua terra, nas Caldas da Rainha, onde percebemos que se sente verdadeiramente em casa. Estivemos no seu clube de sempre, passámos pelas escolas onde estudou, falounos dos amigos que cativou antes de ser famoso no ténis e da família que continua a apoiá-lo. Não admira que admita que, para ele, abandonar tudo para ir solitariamente para uma academia na Florida possa não ser a melhor solução. E Pedro Felner tem planeado bem a crescente autonomização do seu jogador. Regressando àquele torneio de Montechoro em 2010, foi uma semana memorável porque em singulares foi conquistado pelo inigualável Benoit Paire e em pares o “Kiko” esteve na final. O português bem mais jovem e muito mais maduro do que o francês e ambos predestinados para a grandeza com uma raquete na mão.

PP:Qual a primeira vez em que pegaste numa raquete?

RR:Com um tio, tinha uns seis ou sete anos. Foi com essa idade que comecei a jogar ali no parque das Caldas da Rainha. Levou-me para jogar com ele uma vez, achei muita piada ao desporto, ele achou que eu tinha algum jeito e passado algum tempo matriculei-me na escola, comecei a ter um ou dois treinos por semana. Fui progredindo, passei para três ou quatro treinos por semana, depois todos os dias e agora também todos os dias mas bidiário. O ténis apareceu-me por acaso, como poderia ter aparecido outro desporto qualquer. Na altura eu praticava natação e ginástica e só a partir dos 10 ou 11 anos me dediquei só ao ténis. PP:O ténis tem uma enorme tradição nas Caldas da Rainha com bons jogadores de todos os escalões etários, dos juvenis aos veteranos, a virem daqui. Era algo de que tinhas consciência?   RR:Não sabia na altura. A primeira vez que joguei nem conhecia o desporto. Não sabia jogar, as regras, não sabia nada, nunca tinha visto na televisão, quando me disseram que tinha havido bons jogadores nas Caldas, como o Gastão Elias, o Hugo Anão, não fazia ideia e achei curioso.   PP:E as Caldas da Rainha teve durante muitos anos um grande torneio que fazia parte do circuito nacional, ainda antes de haver Circuito TMN e Circuito CIMA.   RR:Lembro-me de ver o Bernardo Mota a jogar aqui quando ainda tinha pontos ATP.


Fernando Correia/FPT

Nunca o tinha visto jogar e lembro-me de vê-lo nesse torneio. PP:Mas voltemos à tua história, a relação com o Pedro Felner vem de longa data. É meramente profissional ou começa a haver uma ligação pessoal?   RR:São muitos anos, mais de dez a trabalhar juntos, desde os sete, sempre nos demos muito bem, quer dentro, quer fora do campo. Conseguimos distinguir bem as duas facetas, dentro do campo somos muito mais profissionais, mas somos praticamente amigos porque passamos muito tempo juntos, há muitos torneios em que somos só nós os dois e por isso nem sempre é fácil sermos só jogador e treinador. Temos mais confiança um com o outro e conhecemo-nos bem.   PP:Este ano apostaste no profissionalismo, irás viajar cada vez mais, ele tem uma academia para gerir… já falaram sobre isso? É conciliável?   RR:Sim, o Pedro já tinha falado comigo, ele tem a academia e não poderá viajar comigo todas as semanas – e eu viajo mesmo muito – mas ele irá viajar nas que puder e nas que não puder há outros treinadores cá no clube que o farão e isso deixa-me tranquilo, não fico muito preocupado.  

PP:Quais foram os teus ídolos de infância? Eram nacionais? Internacionais? RR:Quando comecei a ver ténis foi o Agassi a despertar-me mais interesse. Entretanto apareceu o Federer e desde aí tem sido o meu ídolo. Mas neste momento há muitos jogadores de que gosto muito e tento retirar de cada um deles as suas melhores coisas. Os meus preferidos são o Federer, Nadal e Djokovic. Vejo-os sempre que posso. Houve uma altura em que via mais ténis na televisão, agora não vejo tanto, gosto de ver os jogos bons. Nos torneios do Grand Slam já não vejo se considerar que serão demasiado fáceis. São os mais equilibrados que me interessam, entre eles, mas gosto muito de ver ténis na televisão. Já vê-los ao vivo é completamente diferente, sobretudo vê-los treinar, mais do que a competir. Para vê-los competir até é melhor na televisão, onde estamos mais tranquilos, vemos as repetições. Mas ver a maneira como treinam é diferente. O enquadramento deles no treino é, para mim, bastante importante.   PP:Já tiveste oportunidade de treinar com alguns dos melhores jogadores da história do ténis. Conta-nos lá essas experiências.  

“Os meus preferidos são o Federer, Nadal e Djokovic. Vejo-os sempre que posso”

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RR:Treinei com o Federer no ano passado antes do encontro dele com o Nadal no Open da Austrália. Foi meramente um aquecimento para o jogo dessa tarde. Ele queria preparar-se e pediu-me para aquecer um pouco. Foi rápido, foi meia-hora, jogámos um pouco frente a frente, uns vóleis e uns serviços, mas, embora tão curto, o que me ficou desse treino foi que ele estava a pensar no jogo e teve a preocupação de pedir à organização que lhe arranjasse um jogador canhoto por ir jogar com o Nadal. Falaram comigo e eu estive ali a aquecer coisas que são específicas de canhoto para destro. Servi muito o serviço de canhoto para a esquerda do destro. Ele não falava tanto, mas o treinador dele pedia coisas mais específicas. O mesmo passou-se este ano com o Wawrinka em Roland Garros, também aqueci com ele antes de defrontar o Nadal. Ah, estava a esquecer-me, no US Open também treinei com o Gasquet antes de ele ir jogar com o Nadal. (Risos) tenho a sorte de ser canhoto e sou dos poucos juniores canhotos e é por isso que falam comigo. Mas é curioso que todos eles pediam a mesma coisa, os serviços na esquerda, para jogar a bola um pouco mais alto sobre a esquerda, sabem que é o que vão apanhar contra o Nadal e eu, de certa forma, tenho de fazer parecido. Nestes treinos foi apenas jogar porque eles iam ter jogo. Pessoalmente, não gosto muito de ter grandes conversas

Cirilo Vale

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a treinar e imagino que eles também devem fechar-se ainda mais antes dos jogos. Foi só mesmo aquecer, todos eles agradeceram e foram bastante simpáticos. O Wawrinka voltei a vê-lo no US Open e cumprimentámonos. O treinador dele também trabalha com o melhor júnior sueco que já conhecia e também falou um pouco comigo. PP:Mesmo sendo aquecimentos breves, permitiram-te perceber ao nível a que eles estão, que é, obviamente, diferente do teu?  


RR:Sim, a velocidade de bola é diferente. Podemos sentir isso no treino e acaba por ser importante. O peso da bola do Wawrinka, por exemplo, é completamente diferente de um júnior que jogue comigo quase todos os dias. É importante para mim ter esse estímulo diferente, essa percepção do que é um jogador de topo. PP:Falando agora de jogadores portugueses, houve algum que te tenha marcado quando eras mais novo?   RR:Leio e sigo bastante o ténis cá em Portugal. O Frederico Gil, o Rui Machado, sigo todos e bastante. Sempre admirei muito o Gastão e agora, nesta fase em que ele subiu muito, veio um pouco abaixo e subiu de novo, isso tem muito valor, não é fácil. Agora também o João [Sousa] com óptimos resultados. Todos eles têm bastante mérito. Sempre que posso também vejo os jogos deles. Termos um jogador mais velho – neste caso vários – que tenha tido bons resultados, até mesmo quando era júnior, como aconteceu com o Gastão, é importante para mim, porque tenho a noção do que é que pode dar no futuro tudo aquilo que já fiz. É, obviamente, tudo muito incerto, vejase o Gastão, os resultados juniores que teve, depois com pontos ATP e de repente desceu. A experiência que eles tiveram de certa forma também me dá “estaleca”. Quem são para mim os mais antigos? É o Frederico Gil. Não me lembro de ver jogar o Nuno Marques ou o Cunha e Silva.   PP:Falemos agora do circuito juvenil, no qual tiveste um percurso que fez

lembrar o do Gastão, na medida em que foste um dos melhores, chegaste a terminar a época como 6.º do ranking mundial de sub-18. RR:O circuito júnior teve coisas bastante boas. Tive oportunidade de jogar os torneios do Grand Slam, que são coisas especiais, dão-nos uma experiência fundamental. Essa foi a contribuição principal, foi darme várias experiências diferentes. E, claro os meus maiores títulos foram os do US Open e Roland Garros, em pares, e ser vicecampeão da Europa em singulares. Tive alguns resultados que superaram as minhas expectativas. Já fui 6.º ou 7.º e agora estou a 30.º, 40.º ou 50.º, nem sei bem (45.º). Deixei de jogar os torneios deste escalão. Às vezes as pessoas pensam que são só os resultados que interessam mas a verdade é que dediquei-me entretanto mais aos torneios profissionais, deixei os juniores e é por isso que os resultados não têm aparecido tanto agora. Não tem sido uma fase fácil ou uma transição fácil, de júnior para sénior. Tenho tido coisas mais difíceis, tenho até perdido mais jogos do que os que tenho ganho e não é fácil porque estava habituado a jogar torneios de juniores em que muitas vezes na primeira ou na segunda ronda tinha jogos mais fáceis e que me deixavam ganhar o ritmo do torneio. Nos seniores são logo primeiras rondas bastante difíceis e há muitas semanas em que se joga um jogo e vamos embora, outro jogo e embora. Isso não nos dá ritmo. Mas sinto-me bem e acho que isto vai mudar dentro de pouco tempo.   PP:Há pouco admitiste que houve resultados positivos que te

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surpreenderam. Foi nessa altura que começaste a acreditar que o profissionalismo seria possível? RR:Não fui daqueles que achou desde muito cedo que poderia seguir o ténis. Fui progredindo com calma, sem grandes expectativas, e só a partir dos 14 ou 15 anos é que comecei a perceber que se me empenhasse a sério poderia vir a ter bons resultados. Foi nessa altura que eles vieram e isso deu-me maior motivação. Comecei a jogar mais torneios ITF e apercebi-me que poderia seguir o ténis como profissão, como carreira de futuro.   PP:E o que te dizia o Pedro Felner nessa altura? Para apostares a cem por cento no ténis. Para continuares a estudar?   RR:O Pedro sempre foi da opinião de que eu deveria, pelo menos, terminar o 12.º ano. Tanto o Pedro, como os meus pais e eu próprio. Era a melhor solução e a partir daí ficar mais à vontade, mas sempre com uma bengala atrás caso algo corresse mal. O Pedro sempre foi da opinião de que eu deveria ter calma, pensar no futuro e quando eu tinha 13, 14 anos quis começar a trabalhar naquilo que ele considerava as bases mais importantes para o futuro, caso houvesse possibilidades de tornar-me profissional. Acho que foi o caminho certo que tomámos até agora e isso permite-me apostar agora cem por cento no ténis.   PP:Como está a tua vida académica?  

RR:Acabei o 12.º ano em economia, este ano matriculei-me na universidade, para uma faculdade de Economia, mas vou deixar em aberto pelo menos um ano e para o ano logo se verá. Agora vai ficar um pouco pendente. Este ano que vem, vou jogar ténis a cem por cento. PP:Foi difícil a opção entre ir estudar para uma universidade estrangeira onde também pudesses competir, como outros fizeram, e ir já para o profissionalismo, ou dados os bons resultados juvenis até foi uma decisão fácil?   RR:Foi fácil. Sempre tive essa hipótese de ir estudar para os Estados Unidos mas nunca foi muito forte. Tive alguns convites, mas a minha ideia era sempre acabar o 12.º ano e estar à vontade no ténis, congelando a matrícula durante algum tempo e ver no que irá dar.   PP:Quais são, para ti, os teus principais títulos?   RR:Os primeiros torneios internacionais que joguei foram de sub-12 por equipas, ficámos em 5.º lugar no Europeu, fomos vice-campeões da Europa e do Mundo em sub-14 por equipas, fui campeão europeu de pares de sub-14 e sub-16, fui vicecampeão da Europa de sub-18 e agora mais recentemente ganhei o US Open e Roland Garros em pares sub-18.   PP:Perguntámos ao Gastão se ele tinha ficado “cabeçudo” por ter sido top-ten mundial de sub-18. Isso pode


Cirilo Vale

mexer com a cabeça de um jovem. Como foi contigo, por exemplo, ao iniciares este ano como n.º6 mundial? RR:É uma sensação muito boa. Foi espectacular ter sido cabeça-de-série nos torneios do Grand Slam, dá-nos outra moral, obviamente, mas vivi isso de forma natural. Não estava à espera de acabar o ano nesse ranking porque não tinha jogado muitos torneios, mas houve alguns que me correram bem e que me deixaram nessa posição. Fiquei tranquilo e sabia que mais cedo ou mais tarde iria descer porque iria deixar de jogar torneios de juniores. Sabia que estar no top-ten seria uma coisa rápida.   PP:Agora que estamos no final da época, estás arrependido dessa decisão de jogar poucos torneios juniores? Isso não te terá impedido de ter uma época de sub-18 que poderia ter sido histórica? Ou, pelo contrário, olhas mais para o longo prazo e não ligas tanto ao que poderia ter sido e não foi esta temporada?   RR:A longo prazo, a opção que tomámos foi a melhor. Mas de facto acho que se quisesse obter melhores resultados nos juniores, nomeadamente nos torneios do

DR

Grand Slam, deveria ter feito mais alguns torneios juniores de preparação porque isso ter-me-ia dado outra competitividade, mais jogos, mais confiança. O facto de só ter jogado torneios de seniores fez com que não estivesse com tanta confiança quando ia para os de juniores. Passou-se algo que nunca tinha vivido antes que foi ir para os torneios do Grand Slam e não conhecer alguns jogadores. Ainda agora no US Open apanhei com um jogador russo que não conhecia, do qual nem sequer ouvira falar e que era n.º10 do mundo. Isto demonstra que eu não estava dentro dos juniores e embora soubesse que tinha nível para lá estar parecia que já não era tanto o ambiente em que me sentia à vontade. Mentalmente já não estava ali a cem por cento, estava mais preocupado com outras coisas e isso talvez me tenha impedido de ter outros resultados nos torneios do Grand Slam, que eram um objectivo para este ano.

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PP:A vitória no US Open no ano passado foi o primeiro grande momento mediático da tua vida. Como viveste essa novidade? RR:Esse título teve, de facto, uma importância que eu não estava à espera. É evidente que um torneio do Grand Slam é o que é, mas são juniores e num torneio de pares, não tiro importância, mas não é tão importante como se fosse em singulares. Ter sido vice-campeão da Europa de singulares para mim teve mais importância do que esse título de pares. É óbvio que foi num Grand Slam, mas foi em pares, éramos dois, foram dois a ganhar, foi repartido, como fomos agora dois a perder na final deste ano. Mas percebi que foi muito importante para mim, vi o meu nome aparecer em mais sítios do que era costume e tive mais convites para entrevistas, para aparecer em situações em que não estava habituado. Mesmo este ano no US Open não ganhei, mas a final teve alguma importância e senti que em Portugal foi bastante importante.   PP:Para mim, foi mais importante teres ganho os pares este ano em Roland Garros e até mesmo teres repetido a presença na final de pares do US Open, porque uma vitória pode acontecer, mas no ano seguinte ser capaz de repetir, de mostrar que não foi por acaso já é sinal de outra maturidade e estabilidade competitiva.

RR:Agora que me fala disso, posso dizer que foi bem diferente jogar a final do US Open no ano passado e este ano. No ano passado estávamos a jogar juntos pela primeira vez, não estávamos à espera de ir à final e de ganhar, jogámos todos os jogos descontraídos. Este ano, embora tenha sido com um parceiro diferente, parece que senti outra obrigação: já ganhei no ano passado, este ano também posso ganhar. Correu bem até à final, fizemos bons jogos mas depois, na final, tanto eu como ele… ele porque estava nervoso porque era a sua primeira final e comentou isso comigo, e eu porque era a minha segunda final no torneio e


estava mais nervoso do que é costume. Não foi fácil e talvez tenha sido por isso que não jogámos, nem de perto, nem de longe, tão bem como nos outros encontros do torneio. PP:Foi mesmo o teu último torneio de sub-18?   RR:Foi. No ano passado o Pedro e eu tínhamos posto a hipótese de irmos ao México em Dezembro se tivesse corrido melhor este ano e tivesse a possibilidade de terminar o ano no top-5 ou top-10 ITF. Isso daria alguns bónus para o próximo ano, convites para Futures e também bónus de patrocinadores, mas visto que estou longe desse top-10 não faz grande sentido.   PP:Já falaste de alguma surpresa em ter tido tão bons resultados nos sub-18. E teres ganho tão cedo um torneio de profissionais, um Future?   RR:Sim, foi uma grande surpresa. Até porque este ano não foi fácil para mim. Estive muito tempo parado no início… não foi assim tanto tempo mas eu nunca tinha estado tanto tempo parado, dois meses por causa da lesão no joelho esquerdo. Isso alterou a pré-época, tive de começála mais tarde, fiz muito poucos torneios até esse de Monfortinho e todos os outros anteriores tinham-me corrido bastante mal. Para mim, ter jogado bem nesse torneio e tê-lo ganho foi uma enorme surpresa, não estava à espera de fazer um bom resultado num Future e em Portugal foi ainda mais especial, porque os primeiros torneios que me correram bem, desde miúdo, foram sempre em Portugal. Foi curioso o primeiro

título profissional ser também em Portugal. PP:De certa forma esse título terte-á libertado daquela pressão de seres um grande júnior e teres de provar algo na transição para o profissionalismo?   RR:Sim, não digo que não. Mais até por causa do ranking. Eu tinha um objectivo este ano de acabar no top-750 e esse torneio deixou-me muito mais à vontade para o próximo ano. Esse título foi em Abril e fiquei logo com esse ranking (750.º na data da entrevista, o 8.º português no ATP World Tour), porque subi para 720.º após o torneio. Não é que eu não quisesse mais, mas o objectivo para este ano foi cumprido, tirou-me pressão para os outros torneios e tenho estado bastante mais à vontade.   PP:A vitória nesse Future não te deixou com mais expectativas para os juniores, no sentido em que se pensa que se ganhas torneios profissionais, já vês os sub-18 com mais facilidade?   RR:É um bocado relativo porque joguei bem nesse torneio e se tivesse jogado dessa forma num torneio júnior do Grand Slam poderia ganhar… ou não, mas nos Majors, os melhores jogadores também já ganham Futures. Às vezes, os torneios de sub-18 do Grand Slam são mais fortes a partir dos oitavos-de-final do que os Futures. Não foi uma coisa que me tivesse chocado muito ganhar um Future e depois ter jogado mal nos torneios do Grand Slam (em singulares).  

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PP:Já nos disseste que apesar da vitória em Monfortinho a transição dos juniores para o profissionalismo não tem sido fácil. Mas isso era, de certa forma, expectável. Hoje em dia não é nada fácil. Concordas? RR:Sim, hoje em dia essa transição fazse mais tarde. São muitos jogadores a quererem o mesmo, muitos a jogarem Futures. Vejo, por exemplo, uma diferença dos Futures que joguei há três anos. A média de idades era 25, 26 ou 27 anos, todos jogavam bem mas já não tinham grandes hipóteses de evoluir muito mais. Agora parece que nos Futures se vêm muitos jogadores novos. Joguei agora um em Espanha em que uns dez jogadores ou mais tinham entre a minha idade e mais um ou dois anos. O nível nos Futures também tem tido uma evolução muito grande, o que faz com que seja ainda mais difícil ter bons resultados. Mas, por outro lado, isso é bom porque saímos desse nível e vamos para os Challengers a diferença não será tão grande. Quando conseguir ter bons resultados nos Futures e ter ranking para entrar nos Challengers vai ser mais fácil a progressão.   PP:Muitas gerações de jogadores portugueses beneficiaram de haver muitos torneios em Portugal. É algo que não podes usufruir neste momento. Há apenas alguns. Isso torna mais difícil para ti este início de carreira? E não falo só de Futures e Challengers, mas até mesmo dos extintos Circuito TMN e Circuito CIMA, onde os jovens profissionais

tinham de lidar com a “ratice” dos mais velhos. RR:É verdade (risos), é uma pena, dantes havia tantos prize-money, com tão bom nível, e hoje, nos poucos que existem, parece que os melhores jogadores não se interessam tanto por esses torneios e são sempre os mesmos a jogar. Nós que queremos evoluir e desejamos um nível superior a esse temos de procurar alternativas lá fora. Não é que seja mau ir jogar torneios a Espanha, não é que seja longe, mas não é tão bom como estar em casa, temos sempre de apanhar um avião ou de conduzir cinco ou seis horas e a pressão é sempre diferente porque aqui estamos a uma hora de casa e se perdermos estamos perto de casa. Lá, se formos de carro, são seis horas de viagem, perdemos e depois mais seis horas de volta. Coloca um pouquinho de pressão. Mesmo assim, este ano já tivemos mais torneios Future em Portugal. Guimarães, por exemplo, tem tido muitos, os do Algarve, do Porto, tem havido uma evolução em Portugal. A FPT parece preocupada com isso e os clubes também têm dado mais apoio. Muitos dos pontos que tenho foram de torneios que joguei em Portugal e só isso mostra a ajuda que estes torneios têm dado aos jogadores portugueses.   PP:Falando de torneios portugueses, vi que tiveste a preocupação de jogar o Campeonato Nacional Troféu Pinto Basto.   RR:Tenho tido sempre a preocupação de jogar, em todos os escalões, e aqueles que


não joguei foi por não poder. O último Nacional de Cadetes que joguei foi em 2010, não joguei em 2011 porque a data coincidia com o US Open e aconteceu de novo no ano passado e este ano. Acaba por ser uma pena para mim, gostava muito de ter jogado todos os Nacionais. Mas agora joguei o de seniores e logo como 3.º cabeça-de-série. Perdi com o Francisco Ramos, um adversário que não é fácil para uma primeira ronda, o tempo não estava nada favorável para se jogar ténis, ele conseguiu lidar com o vento muito melhor do que eu… nessas circunstâncias, quando as condições não são as mais favoráveis e quando não estamos no topo da forma e um adversário que não é nada fácil, o jogo torna-se equilibrado e pode cair para o outro lado. Mas foi pena, gostava de ter feito um melhor resultado no Campeonato Nacional, gostaria muito de ter jogado contra o Rui (Machado) na final, ter-me-ia dado uma grande “pica” para fazer um bom resultado. PP:E os pares? Perdeste uma final que ia bem encaminhada.   RR:Estava a correr bem, mas nos pares nunca podemos estar à vontade porque pode virar de um momento para o outro. É com “ponto de ouro” e “super tiebreak”. Estavamos a ganhar 6-2 e 3-1, mas de repente perdemos três pontos de

ouro, perdemos o break que tínhamos de vantagem, sofremos outro break em “ponto de ouro” e aquilo virou. A um set igual o “super tie-break” é aquela lotaria. Estivemos a ganhar 7-5, um ou outro ponto correu mal e ficou arrumado. Mas é também por isso que gosto de jogar pares, tem piada por isso. PP:Gostas do “ponto de ouro”? E do Super ou Match Tie-break?   RR:Gosto. É uma forma diferente de ver o ténis em relação aos singulares. É claro que gosto mais do ponto de ouro quando ganhoos, mas fazem bem em mantê-los porque os pares é um jogo de coragem e o “ponto de ouro” e o “super tie-break” realça essa coragem. Quem arrisca mais, é mais pró-activo, acaba por ganhar e ainda mais nesses pontos importantes.   PP:E assim torna-se mais fácil decidires jogar singulares e pares, o desgaste físico é menor.   RR:O “ponto de ouro” e o “super tie-break” foram criados na expectativa de diminuir a duração do jogo, mesmo assim já é às vezes fisicamente duro ter um jogo de singulares e depois outro de pares, se fossem três sets normais seria muito mais desgastante.   PP:Pelos resultados que tens feito no Campeonato Nacional e nos torneios

“Mas tenho dito em todas as oportunidades que a minha prioridade é para os singulares”

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do Grand Slam, começa a ouvir-se algumas pessoas, talvez não tão ligadas à modalidade, mas interessadas nela, dizerem que estás a tornar-te num especialista de pares. Isso magoa-te? RR:Já ouvi bastante essas “bocas”. Não acho que as pessoas digam isso de uma forma negativa ou para serem más. É simplesmente porque, de facto, os resultados têm aparecido mais em pares do que em singulares e isso é óbvio para toda a gente que segue o ténis. Mas tenho dito em todas as oportunidades que a minha prioridade é para os singulares. Os pares têm sido um complemento. São mais jogos que faço, mais serviços, mais respostas, mais vóleis, mais confiança que vem, são mais bolas jogadas, no fundo. Para nós, jovens, termos oportunidade de jogar mais é bom. E jogar pares, sobretudo em torneios do Grand Slam, tem sempre algum valor. Mas nos Futures vou começar a jogar praticamente só singulares. Em Portugal não porque estou perto de casa, como disse há pouco. Mas, digamos que vou a Barcelona, se nos singulares as coisas não me correrem tão bem, venho para casa logo na segunda-feira e não fico lá a semana toda só por causa dos pares. Quero impedir que os pares me atrasem, por exemplo, o que pode ser uma boa semana de treinos. Não seria mau estar em contacto com os outros jogadores, mas já não faz muito

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sentido estar num Future só por causa dos pares. PP:Como financias a tua carreira, numa fase em que gastas mais do que ganhas?   RR:Tenho apoios importantes da Prince, Nike, já há algum tempo, e este ano do BES. Prince e Nike são contratos internacionais, já envolvem verbas. Desde os sub-14 que tenho apoio da Prince, desde os sub-16 da Nike e têm sido indispensáveis. Não teria havido hipótese de continuar a jogar sem esses apoios.   PP:Tens uma noção de quanto te custa uma época competitiva?   RR:Sinceramente não, mas sei que depende da escolha dos torneios e sei que esta época tem sido mais económica do que a do ano passado. Este ano não fui à Austrália. É um exagero, só em viagens para duas pessoas


para a Austrália gasto mais do que em 10 torneios Futures na Europa. O torneio mais longe que joguei este ano foi no Open dos Estados Unidos. De resto, tenho jogado à volta, em Espanha e cá em Portugal. Isso é bom para me sentir mais à vontade. PP:Quem gere então a tua carreira?   RR:Tenho um gestor do IMG, mas não é ele quem me marca voos e quem está em cima dessas coisas. É o meu pai quem gere isso, que faz os pagamentos. Eu tenho alguma noção, mas os meus pais é que tratam dessas coisas. O meu contrato com o IMG acaba por ser mais para os acordos que eles fazem com a Nike e a Prince.   PP:O IMG, que gere a carreira de tantas estrelas, já influiu directamente na tua vida desportiva, arranjando wild cards ou algo assim?   RR:Wild cards até agora não, mas têmme proporcionado boas academias. Este ano não foi preciso, mas no ano passado, quando fui jogar o Orange Bowl nos Estados Unidos deixaram-me estar duas semanas na Academia Bollettieri, no ano passado também estive na Academia Sanchez-Casal em Espanha, sem ter nenhum custo. Na Bollettieri estavam muitos jogadores. Não é a minha academia preferida, não é para onde iria viver e treinar, mas acho que tem o seu valor, é enorme, tem imensos jogadores para treinar. Quando lá fui estavam o Isner, Haas, Sharapova, muitos nem estão lá a tempo inteiro mas vão fazer algumas temporadas. Foi bom, consegui treinar uma ou outra vez com o Isner – é de facto um serviço diferente,

é uma coisa estrondosa. PP:Mas não trocavas essa experiência por uma semana com o Nadal em Maiorca?   RR:Isso do Nadal também foi através do IMG. O agente do Nadal dá-se bem com o meu e acabei por ir para lá treinar com ele. Treinei duas vezes diferentes com ele em Manacor, uma vez no Open da Austrália e outra em Roland Garros.   PP:No caso dele não foi para preparar duelos com canhotos…   RR:… No caso dele, acho que não se preocupa muito com isso (risos).   PP:Há pouco dizias que pouco contacto tiveste com o Federer, o Gasquet, mas com o Nadal sim, estiveste muito mais tempo. Como foi essa relação?   RR:Vê-lo na televisão e depois ter oportunidade de conhecê-lo melhor, mais de perto… fiquei a gostar ainda mais dele. É uma pessoa espectacular e só quando o vemos a treinar é que nos apercebemos porque é que tem os resultados que tem, jogando daquela forma que parece tão forçada. É à base de muita repetição. Nos treinos, isso é notório.   PP:Tu consideras-te reservado, e ele?   RR:Ele também. É muito simpático com as pessoas que iam ver os treinos, não acabava treino nenhum sem dar-lhes

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ENTREVISTA

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autógrafos, mas é reservado. Fecha-se no grupo de amigos que tem, o tio, o treinador, o preparador físico, dois ou três amigos que costumam estar com ele. Com outras pessoas não dá tanta confiança. Ele tem de fazer isso por princípio, para se resguardar. Eu também sou assim, sempre fui assim, também gosto do meu grupo de amigos. PP:Fazer uma pré-temporada com ele assustou-te? Por veres o que é preciso fazer e sofrer para se chegar ao topo?   RR:Não me assustou, eu até estava à espera que fosse mais difícil. Eu não sabia, mas o treino dele baseia-se muito em bater frentea-frente, depois umas bolas cruzadas, um pouco de serviços e uns pontos. Para mim foi desgastante, eu fui ao limite, mas estava à espera que fosse ainda mais puxado, porque ele não me fez correr tanto quanto eu estaria à espera. Foi bom para mim, senão iria mesmo rebentar.   PP:É verdade que a primeira impressão que tiveste foi que não conseguias responder àquele topspin super pesado?   RR:Muito, é muito, é um exagero, nem sei como ele consegue fazer aquilo porque parece impossível. A velocidade que a bola dele traz, mais o spin que ele imprime na bola e que se sente quando a bola bate no chão… as primeiras horas foram duras para me habituar. A bola vinha muito rápida e quando batia no chão não perdia velocidade, parecia que ganhava ainda mais… não foi nada fácil habituar-me. Isso

colocou-me ainda mais pressão. Estou ali a treinar com o Nadal, sinto-me aflito por não aguentar o ritmo, quero dar sempre boa imagem à frente dele, mas depois, felizmente, isso passou e consegui fazer bons treinos com ele. PP:É verdade que houve uma altura em que tiveste de escolher entre ele e o Federer?   RR:Em termos de treinos não. Houve uma história no Open da Austrália em que o Federer calhou com o Nadal nas meiasfinais. O Federer pediu-me para aquecer com ele mas eu, no dia anterior, já tinha combinado com o Nadal… não tinha combinado, tinha pedido dois bilhetes para ir ver o jogo e ele deu-me dois para o camarote dele. Ora eu ia aquecer o adversário dele (risos). Tememos que isso pudesse dar confusão, mas fui treinar com o Federer e fui para o camarote do Nadal. O Pedro teve a preocupação de falar com o fisioterapeuta do Nadal para perguntar-lhe se ele não se importaria que eu aquecesse com o Federer e eles disseram que não havia problema nenhum e ele até disse para aproveitar porque treinar com o Federer não é todos os dias.   PP:E tu que és um fã de Federer…   RR:… Mesmo assim estava ali na box do Nadal e não posso dizer que estivesse pelo Federer mas foi uma situação curiosa.   PP:Como te defines como jogador, em todos os domínios do ténis?  


RR:Sou canhoto, logo, o meu jogo tem de ter alguns padrões diferentes dos destros. O meu jogo baseia-se muito na minha direita, depende do adversário mas tendo a jogar a direita em cima da esquerda do adversário e a partir daí ser eu a comandar o ponto. Desde miúdo que tenho tido a preocupação de impor esse jogo de forma agressiva, mas consistente em que sou eu a comandar os pontos e evitar que seja o meu adversário a tomar a iniciativa. É preciso ter algumas noções tácticas importantes de canhoto, por exemplo, saber que para termos a bola na nossa direita temos de jogar muitas vezes a esquerda paralela, temos de fazer aquele serviço cortado aberto na esquerda do adversário, são padrões que ao longo dos anos tenho aperfeiçoado todos os dias, para que nos momentos importantes possa recorrer a eles com confiança. Considero-me mentalmente forte, bastante competitivo, consigo manter a calma nos momentos mais

difíceis, é uma qualidade que tem sido muito elogiada por outros. Fisicamente sinto-me um jogador normal, Não sou muito rápido nem muito lento, tenho as qualidades necessárias para ser um bom jogador de ténis. Não sou dos mais altos do circuito, o que é obviamente uma desvantagem mas consigo contrariar isso. Os mais altos servem muito melhor mas não são tão rápidos como eu e isso é uma vantagem ao fundo do court. Já que não posso alterar a minha estatura, tento aperfeiçoar o resto das minhas pancadas para contrariar os problemas. PP:Lembro-me de em Roland Garros me teres sublinhado que és mais alto do que o David Ferrer e que se ele chegou onde chegou…   RR:Não é uma coisa impeditiva, não sermos tão altos como os outros, mas o Ferrer acaba por ser uma referência em termos de movimentação ao fundo do court, de força mental, porque o jogo dele tem de ser diferente de atletas que têm dois metros de altura. Vejo algumas das suas pancadas e de como ele anda ali de um lado para o outro.   PP:O Mats Wilander diz muitas vezes nos seus comentários no Eurosport que ele viveu uma altura em que o

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ENTREVISTA serviço era a pancada que marcava a diferença, depois apareceu outra fase em que foi a resposta ao serviço a destacar-se e agora ele acha que os melhores jogadores do Mundo são sobretudo grandes atletas, com enorme capacidade de movimentação. Concordas com essa visão de enfatizar tanto o jogo de pés? RR:Ainda me lembro bem dessa fase em que a resposta sobressaía muito e neste momento vemos que os grandes jogadores que respondem muito bem, como o Djokovic ou o Ferrer, continuam a ter uma vantagem face aos jogadores que servem muito bem, como Isner. Se formos ver, um jogador que responda bem ao serviço, jogue bem ao fundo do court e tenha boa movimentação, mais cedo ou mais tarde acabará por fazer o break e depois poderá mostrar que tem um jogo superior em vários domínios. Por isso, acho que sim, que a movimentação é neste momento muito importante.   PP:Quando te vejo jogar, é notório que tens um estilo completo. Que áreas do teu jogo gostarias de melhorar?   RR:O vólei é uma pancada onde tenho evoluído bastante e, não por acaso, os pares têm-me ajudado bastante, porque faço muito mais vóleis do que se jogasse

apenas singulares. Sinto que, quando jogo singulares, o meu vólei está muito melhor do que antigamente. Mas sim, acho que sou um jogador completo. Sirvo bem, tenho boas pancadas ao fundo, movimento-me bem, jogo bem na rede, portanto, o trabalho agora é melhorar tudo isto um pouco. É aperfeiçoar e tentar, em vez de ser bom em tudo, ser muito bom em tudo. A partir daí os resultados irão melhorar. PP:Há uma dimensão estética no teu ténis. Tens aquilo a que se chama um ténis bonito, natural, fluído. Isso foi uma preocupação tua desde jovem ou foi algo que surgiu naturalmente, talvez por imitares outros jogadores?   RR:Não é uma preocupação, mas gosto da formo como jogo, das minhas pancadas. O Pedro (Felner), desde muito cedo, desde que comecei a jogar, procurou que eu tivesse boa técnica, fluida, com movimentos fáceis, e eu também tentei sempre imitar a forma como ele próprio faz as pancadas. Ele, como treinador, tem muito boa noção do que é o ténis e executa pancadas de forma perfeita e eu desde pequeno que o imitava e saiu-me bem.   PP:Já nos falaste do teu objectivo mais a curto prazo de ir saindo dos Futures para os Challengers, mas fala-nos um pouco da visão a longo prazo. Porque és profissional de ténis? Qual é o sonho?  

O objectivo, em três ou quatro anos, é entrar no top-100

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RR:O objectivo a curto prazo é, de facto, ter bons resultados nos Futures e ter ranking para entrar em Challengers, a médio prazo, em três ou quatro anos, é entrar no top-100 mundial, o objectivo de sonho, vá lá, é estar no top-10, vencer um Grand Slam. PP:Falemos de selecções nacionais. A selecção da Taça Davis é hoje em dia uma equipa forte, bons jogadores, não é fácil para um jovem como tu entrar. Segues o que vai fazendo a selecção? Há a ilusão de um dia jogares a Taça Davis?   RR:Sim, ainda agora segui atentamente esta eliminatória com a Moldávia. Fui suplente e no caso de um deles não poder jogar seria eu a substituí-lo, mas, de facto, não está nada fácil agora jogar a Taça Davis. Os jogadores que lá estão agora são jogadores de top-250 mundial, não é fácil meter-me no meio. Estou contente com os resultados que eles têm conseguido e vou aguardar a minha oportunidade e darei o meu melhor. É uma coisa que não depende totalmente de mim. Claro que depende dos meus resultados e do meu ranking, mas neste caso até depende mais dos outros.   PP:Tens falado com o capitão Pedro Cordeiro para saber qual a sensibilidade dele?   RR:Tenho falado com o Pedro, estive agora com ele no Campeonato Nacional e ele está a observar-me, tal como anda a fazer com outros jogadores mais jovens, como foi o caso do André Murta. Somos jogadores a iniciar a carreira nos seniores, estamos

a evoluir e seremos opções assim que os outros não estiverem nas suas melhores condições. PP:Uma pergunta sobre o CAR. Não se sabe ainda muito bem como irá funcionar mas poderá eventualmente vir a ser aberto a todos os jogadores de alta competição, sem os limites etários de outros tempos. Parece-te bem? Em Roland Garros, por exemplo, onde estiveste, o Centro Nacional de Treino tem facilidades para todos os jogadores franceses de elite.   RR:Não estou bem por dentro desse assunto mas acho que acaba sempre por ser bom se for aberto a todos. Para mim, pessoalmente, é muito melhor porque já não estou enquadrado em faixas etárias juvenis.   PP:Finalmente, és conhecido por Kiko. Tens alguma outra alcunha?   RR:Não (risos).   PP:E preferes Frederico ou Kiko?   RR:É-me indiferente. As pessoas chamamme Frederico, Kiko, Fred… no ténis chamamme Kiko, os meus amigos na escola e fora do ténis é mais Fred.

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US OPEN em imagens Fotos: JosĂŠ Sxxxx


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A VITÓRIA DE TODAS AS MULHERES


Inicialmente criado como um espectáculo, o encontro que opôs Bobby Riggs a Billie Jean King acabou por ser histórico, pois acabou por dar uma enorme visibilidade ao ténis feminino e cimentou a posição das atletas no mundo do desporto. Pedro Keul Bobby Riggs atingiu o seu auge no final dos anos 30, quando ganhou o torneio de Wimbledon. Conhecido pela inteligência com que competia com jogadores fisicamente mais possantes, o norteamericano chegou a Londres em 1939 como segundo na lista de favoritos. Como amador, a única possibilidade de ganhar dinheiro era na casa de apostas e Riggs apostou 115 libras em si mesmo, de forma combinada para potenciar os ganhos: em singulares (cotação 3-1), pares masculinos (6-1) e mistos (12-1). E, contra todas as probabilidades, saiu de Wimbledon com os três títulos e quase 25 mil libras! A sua propensão de apostador e feitio de provocador levou-o a desafiar Margaret Smith Court, vencedora de três torneios do Grand Slam, de um total de 18 títulos nesse ano. Riggs proclamava que as mulheres eram atletas inferiores e que um homem, já depois do seu auge e “com um pé para a cova”, podia derrotar uma jogadora que estivesse no topo do seu desporto. E, a 13 de Maio de 1973, Dia da Mãe nos EUA, na localidade de Romana (Califórnia), Riggs venceu Court, por 6-2, 6-1, em apenas 51 minutos – no que ficou conhecido como o “Massacre do Dia da Mãe”. A vitória rendeu 10 mil dólares para Riggs, que se apelidou de “O maior agitador de todos os tempos”, mas passou um pouco despercebida à maioria do público. “Esta vitória foi o último e talvez o mais espantoso capítulo da carreira colorida de um dos mais subestimados jogadores da modalidade e um dos mais bem sucedidos provocadores do desporto”, escreveu Neil Amdur no New York Times. Mas esse não foi o derradeiro capítulo. Aquilo que poderia ser apenas um episódio curioso do desporto, acabou por tornar-se no rastilho de um acontecimento que revolucionou o mundo do desporto e tornou-se num marco na história da igualdade entre géneros. Tudo por culpa do próprio Riggs que, de seguida, desafiou Billie Jean King, então número dois do ranking. “Quero-a a ela, que é a líder dos direitos das mulheres. Pode determinar qual o local, court

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EFEMÉRIDE e horas, desde que o preço seja o certo”, disse de forma arrogante. O desafio foi prontamente aceite por King em nome de todas as mulheres e tomou um mediatismo impensável para a altura.

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Batalha dos Sexos II A personalidade de showman de Riggs ajudou a elevar as expectativas do confronto: em todas as oportunidades, rebaixava as mulheres, remetendo o seu papel para os deveres de casa e família Mas King viu a oportunidade de promover o ténis feminino e nunca deu parte de fraca e aguentou as investidas do desafiador. Com 100 mil dólares de prémio para o vencedor, a renovada Batalha dos Sexos foi marcada para o dia 20 de Setembro de 1973, no Houston Astrodome, no estado do Texas. A lotação de 30.492 espectadores (um recorde de assistência para um jogo de ténis que perdurou até 2011) esgotou e quase 48 milhões em 37 países acompanharam pela televisão. De um lado, Billie Jean King, de 29 anos, defensora de direitos das mulheres, fundadora da Associação de Tenistas Profissionais (WTA), três meses antes, e do primeiro circuito profissional feminino (Virginia Slims Series); do outro, Bobby Riggs, já com 55 anos, campeão de Wimbledon (1939) e Open dos EUA (1939 e 1941), entronizado no Panteão do Ténis (Hall Tennis of Fame) em 1967 e auto-intitulado “o rei dos porcos chauvinistas”. Num ambiente mais parecido com o de um autêntico circo, King entrou na arena ao estilo de Cleópatra, sentada numa liteira, carregada por cinco homens musculados, vestidos como escravos, recrutados na equipa de atletismo da Universidade de Rice – um deles, Dave Roberts, viria a ganhar a medalha de bronze em salto com vara nos Jogos Olímpicos de 1976. Por sua vez, Riggs surgiu num riquexó, puxado por seis raparigas, modelos de profissão, com vestidos sexy, com a inscrição “Sugar Daddy”, a quem lhes chamavam de “Amigas do Peito de Bobby”. O duelo foi disputado à melhor de cinco sets, o que desfavorecia King, sempre habituada a jogar três sets no máximo. Mas desde


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cedo que Riggs percebeu que não ia ser tão fácil como o anterior encontro com Court. Logo a 1-2, um longo ponto, em que King devolveu tudo menos a última pancada, deixou Riggs dobrado a recuperar o fôlego. King era uma excelente intérprete do ténis ofensivo, baseado no serviço e jogo de rede, mais comum, então, no ténis masculino. Mas neste duelo foi igualmente superior no fundo do court, nos pontos mais longos, que deixaram Riggs exausto – no terceiro set, a 2-4, Riggs teve cãibras na mão – e no domínio dos nervos nos pontos mais importantes. O homem que, dias antes, dizia, entre muitas outras coisas, que não tinha nervos, fraquejou nos momentos cruciais. A 4-5, 30-40, cometeu uma dupla-falta e perdeu o set inicial. King nunca mais perdeu o ascendente sobre o adversário mas, após o encontro, admitiu que também sentiu cãibras na perna, no sexto jogo do último set. “Foi uma combinação de nervos e de correr muito. Quando senti a primeira pontada, pensei ‘Oh meu Deus, agora não, que estou tão perto’. Fiquei mesmo preocupada”. No nono jogo do terceiro set, outra dupla-falta de Riggs deu um terceiro match-point a King. Quando o vólei de esquerda ficou na rede, seguiu-se uma ovação: King tinha ganho por 6-4, 6-3 e 6-3, em duas horas e quatro minutos.

King aceitou prontamente o desafio em nome de todas as mulheres

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EFEMÉRIDE “Ela foi demasiado boa, jogou muito bem, fez o seu jogo e eu não consegui tirar o melhor do meu. Terminou muito rapidamente”, admitiu Riggs, que trouxe 75 mil dólares, prémio já garantido a quem perdesse, mas outros contratos paralelos ao evento com patrocinadores terão lhe rendido mais de 300 mil dólares. Para King, mais importante que os 100 mil dólares foi o reconhecimento do valor do ténis feminino e das mulheres em geral. “O orgulho é muito mais importante que o dinheiro!”, frisou.

Jogo viciado

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Este Verão, uma reportagem de Don Van Natta da estação ESPN levantou a hipótese de o jogo ter sido viciado. A suspeita tem por base o testemunho de Hal Shaw, um treinador de golfe em Tampa (Florida), que teria ouvido uma conversa entre pessoas ligadas à máfia sobre a possibilidade de viciarem o resultado do encontro. Segundo Shaw, Riggs teria prometido que ia perder o encontro de propósito e assim poder cobrar a dívida de jogo, cujas probabilidades favoreciam-no, após derrotar Court, a então número um mundial. “Pude ver nos olhos e linguagem corporal dele que queria ganhar. As pessoas têm que aceitar que ele teve um mau dia, tal como Margaret Court teve quando defrontou Bobby”, recordou King. A contrariar esta hipótese de manipulação do resultado está o facto da dívida de Riggs ser de 100 mil dólares, exactamente o prémio para o vencedor. Uma suspeita que nunca irá ser esclarecida já que Riggs faleceu em 1995. Mas para Gail Collins do New York Times não há dúvidas. “Honestamente, não esperava perder tempo em 2013 a discutir se Billie Jean King bateu Bobby Riggs”, disse apoiado nos conhecimentos de Nicholas Pileggi, argumentista do filme Tudo Bons Rapazes (Good Fellas), que apelida a hipótese de os mafiosos se reunirem num balneário público de “ultrajante”.


Vitória de todas as mulheres A história do ténis nos últimos 40 anos acabaria por confirmar que a vitória de King foi mais marcante do que os 39 títulos do Grand Slam, conquistados entre 1961 e 1980 – algo impensável quando começou a jogar aos 12 anos nos courts públicos em Long Beach (Califórnia). No total, venceu 67 títulos de singulares e 101 em pares, tornou-se na primeira mulher a ganhar mais 100 mil dólares em prémios oficiais numa só época (117 mil em 1971), fundou a Women’s Sports Foundation e a revista Women’s Sports e a sua acção na defesa da igualdade no desporto ajudou a abrir muitas portas às mulheres no desporto mundial. Muito naturalmente, King acabaria por ser considerada a mais importante atleta do século XX, foi entronizada no Hall Tennis of Fame em 1987 e foi a ser primeira mulher atleta a ser condecorada pelo presidente dos EUA com a medalha da Liberdade.

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ARBITRAGEM

Mudança de bolas

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Antes do início de um torneio, deve a organização providenciar informação sobre a marca das bolas JORGE CARDOSO Árbitro a utilizar durante o evento, bem como o critério de mudança das mesmas caso exista. As bolas devem ser de uma marca homologada pela Federação Internacional de Ténis (ITF). Deve também ser anunciado o número de bolas em jogo. Habitualmente com o mínimo de 3, 4 ou 6. As mudanças de bolas podem ser feitas no início de um set, ou em alternativa, depois de um determinado número de jogos ímpar. A primeira mudança de bolas deve ser feita dois jogos antes que no resto do encontro, por exemplo, 7/9, 9/11, 11/13, 13/15. Este facto é devido ao aquecimento, em que se estabelece um desgaste de bolas semelhante a dois jogos. Um tie-break conta como um jogo para efeitos de troca de bolas. Não deverá ser feita uma mudança antes do inicio de um tiebreak. Se durante uma partida uma bola se deteriorar deve ser substituída. Acontece por vezes, ser o próprio jogador que apercebendo-se da anomalia interrompe a jogada. Aqui cabe ao Árbitro a decisão sobre o que fazer.

Uma bola sem pressão mas que não tenha perdida a sua estrutura, nem tenha passagem de ar entre o interior e o exterior deve manter o ponto como jogado. Se a bola se romper, perder o seu formato e estrutura, deixando passar completamente o ar, então o ponto deve ser repetido.


Equipamento

De heróis a ícones Um dos mais interessantes conceitos tenísticos aplicados a t-shirts nos últimos tempos está bem patente na colecção de uma companhia californiana fundada por um fanático da modalidade – Joe Durica, que é também designer. Nas t-shirts e blusões Stick It Wear, Joe Durica presta homenagem ao imaginário dos adeptos e a movimentos/momentos de grandes campeões que perduram na nossa memória. Muitas das figuras são representações estilizadas de pictogramas que simplificam as nossas recordações enquanto as gerações de campeões se vão sucedendo. A colecção inclui referências aos anos 70 e 80 de John McEnroe, Bjorn Borg e Ivan Lendl, mas também à decada de 90 com o slam dunk de Pete Sampras e a versão punk de Andre Agassi, e ainda ao típico partir de raquetas de Marat Safin ou a gestos fortes da geração contemporânea – a bola por baixo das pernas de Roger Federer, o cerrar de punho

de Rafael Nadal, a espargata defensiva de Novak Djokovic, os polegares nas costas de Jo-Wilfried Tsonga, e ainda Serena Williams, Maria Sharapova e muitas outras figuras heróicas da modalidade transformadas em ícones. Ah, e também há uma secção de futebol com ícones de um certo português famoso pelos seus step overs! Preços das t-shirts entre 22 e 27 dólares, vale a pena ver a colecção em www.stickitwear.com.

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MEDICAL TIMEOUT

Uma questão superficial Na última edição foi iniciada uma análise da importância das superfícies de jogo no ténis. A variabilidade destas é, aliás, bastante específica deste desporto, pelo que importa ter em conta as suas diferenças. Naturalmente, e descontando as alterações impostas por diferentes estilos de jogo, as maiores diferenças estão relacionadas com os membros inferiores. Na terra batida, ocorre um maior tempo de contacto entre o pé e o solo em cada apoio e a distribuição de pressões é mais generalizada ao longo de toda a superfície plantar. Por outro lado, em piso rápido verifica-se um menor tempo de contacto e maiores picos de pressão plantar durante o apoio. A distribuição destas pressões é também mais desigual, centrandose na região mais próxima dos dedos. Esta maior concentração de pressões contribui para um maior risco de lesões cutâneas. Considerando o que aconteceu na última edição de Wimbledon, não deixa de ser interessante verificar que uma análise ao número de encontros incompletos mostrou que em relva se registaram menos desistências do que em piso rápido, tanto para praticantes masculinos como femininos. Contudo, convém também salientar que em relva se registou um maior número de pedidos de assistência. O número já foi menor em encontros disputados em terra batida. É bastante importante referir também que, dadas estas diferenças, a transição entre superfícies apresenta um especial risco. O atleta precisa de um período de treino para que ocorra uma adaptação ideal em termos de padrões de movimento e actividade muscular durante as deslocações. Ficam assim, de uma forma resumida, alguns aspectos importantes sobre as superfícies de jogo no ténis. Conhecer estas diferenças é um passo importante para melhor preparar e optimizar a prática desportiva.

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JOSÉ PEDRO CORREIA Fisioterapeuta


BOLA NA TELA

Bernardo Bertolucci João Carlos Silva

O Último Imperador

A biografia épica do último imperador chinês já vai bem avançada quando ele surge a jogar ténis num pátio da Cidade Proibida. É um jogo de pares mistos e estão todos irrepreensivelmente vestidos de branco, com as suas raquetes de madeira. O tutor escocês Reginald R.J. Johnston, que é Peter O’Toole, faz de árbitro, sentado no alto da cadeira, e há apanha-bolas e criados a servir chá. De repente, tiros. Umas bolas trocadas. Soldados que chegam e cercam o court, o criado com tanto medo que treme e faz com que as chávenas de chá batam umas nas outras. Além das botas dos soldados, é o único som que se ouve. É assim, à volta de um campo de ténis, que se consuma o golpe militar de 1924 em Pequim. Pu Yi, que já não era imperador, mas sim monarca não soberano, tem uma hora para abandonar a Cidade Proibida, de onde nunca saiu. É vestido de branco, de raquete e bola na mão que passa sozinho entre duas alas compactas de soldados e sobe as escadarias do palácio, para fazer as malas e partir para um destino incerto. O pecado de ser ocidentalizado é um dos muitos que lhe são apontados e não é um

acaso que este momento de desgraça o apanhe a meio de um jogo que, na China, era um símbolo do Ocidente.

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O Último Imperador, 1987 Realizador: Bernardo Bertolucci Ganhou 9 Oscares, incluindo Melhor Filme e Melhor Argumento


Revista Ténis - MatchPoint Portugal Setembro/Outubro 2013  

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