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edição

85 mar

Ele sabe o que diz Antonio Delfim Netto Com sua habitual inteligência e capacidade de síntese, o ex-ministro da Fazenda esbanja mordacidade ao fazer uma acurada análise da conjuntura do Brasil

Montadoras apostam no crédito para ter sucesso em 2014


2 financeiro marรงo 2014


conteúdofinanceiro

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Páginas Azuis

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Crédito

40 Cultura

O ex-ministro Antonio Delfim Netto faz uma análise acurada sobre aspectos econômicos e políticos do Brasil

Casa das Rosas, espaço para a poesia e a literatura em São Paulo

44 Educação

O escritor Pedro Bandeira fala como os pais podem estimular o hábito da leitura entre os filhos

O financiamento é a grande esperança da indústria automobilística para 2014

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Novo Associado Banco CNH Capital, 62º integrante da Acrefi

34

Terceiro Setor Fundação Gol de Letra comemora 15 anos e já atende 1.300 crianças e jovens

Artigos 14

Aquiles Diniz

19

Jairo Saddi

21

Dorival Dourado

25

Igor Tamasauskas e Pierpaolo Bottini

Planos Econômicos Crédito Crédito2

Anticorrupção

40

36

Fora do Expediente Louis Bazire, presidente do BNP Paribas Brasil, é um mecenas das artes na melhor acepção da palavra

55

Alberto Borges Matias Análise e Perspectiva

66

Nicola Tingas Palavra Final

março 2014 financeiro

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expediente ISSN 1809-8843 Publicação da acrefi – Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento Rua Libero Badaró, 425 – 28°andar – São Paulo – SP Tel: (11) 3107-7177 fax: (11) 3106-6082 – www.acrefi.org.br Presidente Érico Sodré Quirino Ferreira Vice-presidentes Aquiles Diniz, Carlos Alberto Samogin, Claudio Messias Ferro, Décio Carbonari de Almeida, Élcio Azevedo, Felicitas Renner e Mauro Roberto Vasconcellos Gouvêa Tesoureiro Alexandre Teixeira Diretores regionais José Agnelo Seger, Leonardo Dadauto, Luiz Carlos do Nascimento, Paulo Dalla Nora, Paulo Henrique Pentagna Guimarães, Pedro da Costa Carvalho e Sebastião Cunha Diretores executivos João dos Santos Caritá Júnior e Rubens Bution Montadoras Edson Froes, Edson Ueda, Eduardo Varella, Gunnar Murilo, Joelcyr Carmello e Nelson Aguiar Diretores conselheiros José Carlos Alves e Victor Loyola Conselho consultivo Alkindar de Toledo, Manoel de Oliveira Franco e Ricardo Malcon (membros natos); Décio Carbonari de Almeida, Flávio Antonio Meneghetti, Ilídio Gonçalves dos Santos, Miguel José Ribeiro de Oliveira, Ricardo Loureiro e Rogério Pinto Coelho Amato (membros) Conselho fiscal Domingos Spina e Sérgio Darcy (efetivos), Geraldo Lima Wandalsen e Marcus André de Oliveira (suplentes) Diretor superintendente Antonio Augusto de Almeida Leite (Pancho) Controller Carlos Alberto Marcondes Machado Consultora Jurídica Lívia Esteves Economista-chefe Nicola Tingas Auditoria Deloitte Touche Tohmatsu Assessoria contábil AG Silveira Contabilidade Assessoria de imprensa Tamer Comunicação Empresarial

Av. Brigadeiro Faria Lima, 1912, cj. 12b - Jardim Paulistano - São Paulo - SP Tel.: (55.11) 3031.2388 - CEP: 01451-000 – www.tamer.com.br Publisher Sergio Tamer Redação Editores Theo Carnier e Gilberto de Almeida Editor assistente Gustavo Girotto Repórteres Eliane Santos, Elisa Polonio, Evandro Ribeiro, Geyse Alencar e Liliana Liberato Fotografia Régis Filho e Gabriel Kosman Arte Moacyr MW, Rafael Pascoal e Evaldo Bragança Revisor Vicente dos Anjos Impressão Eskenazi Gráfica

4 financeiro março 2014


editorial

Copo meio cheio, meio vazio O ano começou sob o espectro de incertezas

sipada, mas não há dúvidas de que foi um passo na direção correta.

e previsões de marasmo na economia, tendo em

Da mesma forma, foi muito bem recebida a decisão da presidente Dilma

vista principalmente a Copa do Mundo que teremos

Rousseff de comparecer, nos primeiros meses deste ano, a eventos como

em breve e as eleições de outubro. Os primeiros

a reunião anual do Fórum Econômico Mundial, em Davos, e ao encontro do

meses mostraram, no entanto, que os negócios

Mercosul com a União Europeia, em Bruxelas. Foi outra sinalização importante,

estão mais aquecidos do que se previa, o que levou

que mostrou na prática a disposição do governo de se abrir mais para o mundo

a questionamentos: será que as estimativas foram

de uma maneira estrategicamente correta.

pessimistas demais? A economia brasileira criou

Há outras indicações de que o governo está disposto a adotar as medidas

resiliência suficiente para se manter ativa em que

necessárias para reforçar a confiança do empresariado nos rumos da política

pesem as expectativas pessimistas?

econômica, entre as quais destacam-se a prioridade do combate à inflação

As respostas a essas questões nos remetem à

(com a elevação dos juros básicos mesmo em um ano eleitoral) e a aproxima-

figura do “copo meio cheio, copo meio vazio”. Em

ção mais estreita com o Congresso para evitar que se leve o País a viver uma

outras palavras, as diferentes situações podem ser

indesejável “farra fiscal”.

vistas de um ponto de vista pessimista ou de uma

Evidente que essas posturas, mesmo que positivas, estão longe de eliminar

perspectiva otimista, a depender do viés que dire-

focos de apreensão com o comportamento da economia (o copo “meio vazio”).

ciona essas visões.

Mesmo levando em conta essas incertezas, no entanto, o panorama está longe

Sob essa óptica, é possível dizer que, sim, o

de ser desalentador. Temos motivos para continuar apreensivos, mas temos

copo está “meio vazio” já que o Brasil enfrenta um

também fatos que nos levam a pender para o otimismo. Pode-se até considerar

período de grandes desafios e a economia certa-

que o copo está meio vazio, mas parece haver ainda mais razões para que se

mente sente os efeitos desse cenário, ao qual se

veja que o copo está meio cheio. O que não pode haver é paralisia. Mas quem

somam eventos do porte da Copa do Mundo e das

vive na economia brasileira sabe muito bem que é preciso ser dinâmico e que

eleições, que têm potencial de “paralisar” par-

se deve trabalhar sempre com muito otimismo.

cialmente o País por um período. Mas, ao mesmo cheio” –, que nos animam a tocar nossos negócios e renovar a esperança de dias melhores. Um exemplo que nos leva a considerar que o copo está “meio cheio” foi o anúncio, pelo governo, da meta de alcançar superávit primário equivalente a 1,9% do PIB este ano. Trata-se de uma iniciativa mais do que bem-vinda, principalmente por se tratar de uma sinalização de que o governo está empenhado em melhorar a situação fiscal. Claro

Érico Sodré Quirino Ferreira, Presidente da Acrefi

Foto: Flávio Roberto Guarnieri

tempo, há também sinais positivos – o copo “meio

que há alguns reparos e que a desconfiança dos agentes econômicos ainda não está totalmente dismarço 2014 financeiro

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nossasassociadas ACFI - Aymoré Crédito, Financiamento e Investimento S.A.

Banco Safra S.A.

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Cred Capixaba S/A Soc. Crédito, Financiamento e Investimento

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Banco GMAC S.A. Banco Honda S.A. Banco Intermedium S.A.

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Banco Itaú S.A. Financeira BRB

Santana S.A. - Crédito, Financiamento e Investimento Sax S.A. Crédito, Financiamento e Investimento Socinal S.A. Crédito, Financiamento e Investimento Sorocred Crédito, Financiamento e Investimento S.A.

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6 financeiro março 2014

HSBC Bank Brasil S.A. Banco Múltiplo

Sul Financeira S.A. - Crédito, Financiamento e Investimento Todescredi S/A - Crédito, Financiamento e Investimento


marรงo 2014 financeiro

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entrevistadomês

“O homem nasceu para o ócio!” Há tempos Antonio Delfim Netto deixou de ser ministro, deputado federal e professor da USP. Mas ele é um caso clássico de rei que não perdeu a majestade: continua trabalhando a pleno vapor em um casarão no Pacaembu, bairro nobre de São Paulo, e sua palavra é considerada uma das mais acuradas na análise do Brasil. Foi em seu escritório que Delfim recebeu a revista “Financeiro” para uma conversa em que, bem ao seu estilo mordaz, falou praticamente sobre tudo relacionado à economia e à política. Por Theo Carnier e Gustavo Girotto Fotos: Régis Filho

8 financeiro março 2014

Revista Financeiro: Os dados da economia sinalizam que o Brasil vive uma intitulada ‘recessão técnica’ em 2014. O que o governo deveria fazer para recuperar a confiança dos agentes econômicos? Delfim Netto - Na verdade não sei se estamos em uma recessão técnica. Ainda é preciso esperar um pouco mais para avaliar. No fundo, é uma convenção imaginar que dois trimestres negativos constituem uma recessão. É uma coisa desagradável, mas não é nenhuma tragédia e a recuperação é possível. Acho que hoje realmente há uma grande desconfiança entre o setor empresarial privado e governo, que foi construída ao longo de três ou quatro anos – por incompreensão dos dois lados. Quando o governo fez as intervenções no setor elétrico, depois nos portos e o fracasso dos leilões de concessão, deu a impressão que ele [governo] era contra o lucro, ou seja, no fundo também o setor privado entendeu que a modicidade tarifária sinalizava um lucro zero. O setor privado ficou horrorizado com o governo que, por sua vez, também ficou horrorizado com o setor privado – que o considerou um bando de egoístas. Foi um erro de comunicação! Financeiro - Mas o senhor acredita que controle tarifário ou essa intervenção são necessários? Delfim Netto - Modicidade tarifária ou controle são necessários em qualquer concessão. Porque a concessão transfere o monopólio público para o privado. Nós sabemos que o monopólio do governo é frouxo. Já o monopólio privado é cruel mesmo e, quando você transfere o público para o privado, é preciso manter a integridade de contratos bem elaborados. É necessário manter a estabilidade financeira do contrato e, para isso, é preciso de agências que não sejam aparelhadas por companheiros de passeata, mas, por gente absolutamente competente. São instituições de Estado e não do governo de plantão. Como o aparelhamento dessas agências não foi da melhor qualidade, não se deu muita confiança; acabaram cortando-se verbas de funcionamento. Daí o setor privado percebeu que os projetos não são de boa qualidade, não têm garantias de que emergências sejam levadas em conta no equilíbrio econômico


e financeiro do contrato, e ele respondeu: não vamos entrar nesse negócio. Essa é a opinião deles! Por outro lado, o governo entendeu que a forma de fazer estava correta, mas o método de como fazer, não. Nesse sistema você pode fixar prioridades, exemplo: eu quero uma AutoBan no estilo alemão, por 25 anos, que vai atender ao aumento da demanda de tráfego e, depois do tempo concedido, você vai me devolver intacta e atendendo a toda a demanda – só que é preciso ter um projeto correto. Para que isso ocorra, é preciso atrair um número viável de competidores e decidir quem vai ganhar por meio de um leilão, que foi onde a teoria econômica mais avançou. Não é coisa de amador, é coisa de profissional e o governo demorou para entender.

Financeiro - Então, qual a saída honrosa para esse imbróglio entre público e privado? Delfim Netto - No início, quando o governo fixava a taxa de retorno, a resposta do setor privado era: “com essa taxa de retorno é somente essa porcaria que eu lhe posso apresentar”. Felizmente isso foi superado no ano passado, na segunda metade do ano, e graças a uma intervenção dos Ministros Gleisi Hoffmann, Guido Mantega e César Borges, isso foi superado. Financeiro - Empresários e investidores reclamam que não conseguem ver um horizonte de longo prazo na política econômica. Qual é a sua opinião sobre isso? Delfim Netto - O que qualquer país deseja? O nosso, está na nossa Constituição: queremos uma república, uma democracia em que a igualdade de oportunidades continue crescendo. Ela [constituição] diz que basicamente faremos isso através dos mercados, do uso dos mercados. Eles são construções humanas, não foram inventadas por ninguém, é uma forma de conciliar objetivos contraditórios. O homem deseja liberdade, igualdade, e precisa de eficiência produtiva, por quê? O homem não nasceu para produzir, nasceu para o ócio! Quanto mais eficiente ele for em produção, mais tempo terá para ser homem e realizar sua humanidade. O homem saiu da África há 140 mil anos e foi procurando uma for-

ma de organização que combinasse esses três objetivos não combináveis, que são contraditórios, e o mercado é o pior de todos os sistemas – tirando todos os outros. Cada vez que um cérebro peregrino inventou um curto-circuito, terminou na Rússia, na China no Pol Pot (revolucionário comunista que liderou o Khmer Vermelho, governante do Camboja, responsável pelo genocídio cambojano), o que acontece? É um processo de evolução quase natural. Esse sistema que está vai continuar, ele nunca é permanente. O capitalismo não é uma coisa, é um processo histórico, que vai passar por que o homem continuará procurando organizações capazes de produzir esses valores de forma razoável. Quando não há perspectivas, é por que nós mesmos as destruímos. Esse desentendimento entre o setor empresarial privado e o governo criou uma dúvida muito grande e, mais, os fatos ocorridos em que você teve uma inclusão social muito importante criaram uma diferença do que pensa esse setor empresarial e os que foram beneficiados nesse processo distributivo.

Financeiro - O senhor falou do problema nas tarifas públicas, mas um exemplo foram as de ônibus, vistas pela sociedade como um dispositivo arbitrário? Delfim Netto - Isso tudo é uma incompreensão, pois as pessoas querem coisas gratuitas. A gratuidade só pode ser para o indivíduo, pois para sociedade não há nada gratuito. Eu sempre dizia ao Montoro (André Franco Montoro, governador de São Paulo falecido em 1999), que foi meu professor de Direito Privado e grande amigo, que esse negócio de colocar nos ônibus “Transporte: um direito do cidadão e um dever do Estado” estava errado. Transporte é um direito do Pedro, pago pelo Mário. Para a sociedade não tem lanche grátis, para um indivíduo até pode ter. Quando você faz um movimento como esse, é preciso decidir. Ou põe no tesouro e aumenta impostos e todos pagam para o João andar de graça, ou o mesmo João terá que pagar. Os dois sistemas são eticamente discutíveis, mas é mais razoável o João pagar, do que todos pagarem para o João.

Financeiro - Alguns economistas afirmam que a inflação subirá ainda mais nos meses da Copa do Mundo. O senhor também tem falado que o brasileiro precisa começar a pagar o preço real da energia, dos combustíveis e do transporte. O que falta para isso acontecer? Delfim Netto - Isso significa que a inflação dará um pulo e voltará ao normal. Se tivéssemos uma indexação plena seria muito grave. O que quer dizer: no mês de julho explodiria, em agosto subiriam todos os salários, mas já não é mais março 2014 financeiro

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entrevistadomês assim... Essas posições, digamos, do Ministério da Justiça, de que você tem que tabelar, não funcionam. Ela é até demonstrável fisicamente, um exemplo é aqui em São Paulo e nós assistimos isso. Um bom programa do atual prefeito convenceu alguns consumidores de crack a trabalhar – deram uniforme, um pouco de instrução, eles trabalharam e no fim de semana receberam uma ‘graninha’. No dia seguinte, o preço do crack tinha dobrado. Por que isso? Porque a oferta não tinha se preparado para o aumento de demanda. O que parece é que estamos iludidos sobre a possibilidade de fazermos algumas coisas e esquecemos que o politicamente correto é o fisicamente impossível.

Financeiro - O que o senhor acha que vai acontecer durante a Copa? Delfim Netto - O povão vai assistir à Copa de casa, dos bares. No estádio é para gringos e uma minoria que tem renda, mas eu pergunto: há outra saída? Não! Se não existisse televisão seria algo brutal, pois o povão que pagou teria que ficar chupando o dedo do lado de fora dos estádios para ouvir se era tiro ou gol. O avanço tecnológico acalma um pouco com a injustiça desse processo, mas, de qualquer forma, o que estamos com dificuldade de entender é que esse sistema que está aí não foi inventado por ninguém. Ele é um sistema muito eficiente para alocação dos fatores, mas ele tem defeitos: é muito competitivo, cria desigualdades. Por isso que na Constituição diz “igualdade de oportunidades”, ou seja, nessa corrida – que é o sistema – todo mundo precisa sair do mesmo lugar. A justiça é na saída, não na chegada. Não importa se você nasceu em uma família muito rica ou se foi fabricado em uma noite de sábado, no Museu do Ipiranga. Depois de concebido você precisa ter direito à saúde e à educação – para o ponto de partida, ou seja, precisa ser equivalente àquele que nasceu em berço de ouro. Sua chegada dependerá de sua sorte, do seu DNA, mas o importante é que você tenha o mesmo ponto de partida. É por isso que a Constituição Brasileira tem um negócio, que parece utópico, como “saúde e educação universais e gratuitas”. O Brasil não possui nenhuma das duas, mas esse é um objetivo absolutamente importante para produzir igualdades e oportunidades.

Financeiro - O senhor acredita que o Brasil será um país desenvolvido? Delfim Netto - É claro que chega, o Brasil melhorou dramaticamente, não vamos ter ilusão. Pergunto: por que a Dilma tem 47% de aprovação? Se ela fosse ter voto na classe empresarial privada teria 2%. São dois mundos distintos e é aquilo que o jornalista Elio Gaspari chama, com muita graça, de “andar de baixo”. O andar de baixo melhorou demais, não só em ascensão econômica e social, ele mudou sua forma de pensar. Quando você vê uma empregada doméstica se sacrificando para educar seus filhos, é por que ela entendeu que só existe um mecanismo de ascensão social que, como sempre digo – é o pior de todos, com exceção de todas as outras, que é a educação. Esse mundo está mudando, criou-se uma classe média importante – que hoje constitui um mercado que dá suporte para o crescimento. Ou entendemos isso, ou não vamos para lugar algum. Quando o sujeito melhora, principalmente em educação, ele quer mais. Tudo isso – esses movimentos na rua – tem gosto de quero mais. O que acontece? Vai mesmo mudar a estrutura de poder, não tem remédio. Isso tudo é um aperfeiçoamento do processo. O governo escolheu mal as prioridades! As pessoas entenderam, porque estão mais educadas, que com o mesmo cimento e ferro que se constroem um estádio, também se faz um metrô e um hospital. Isso é um progresso espetacular e que vai ter consequências...

“Não importa se você nasceu em uma família rica ou se foi fabricado em uma noite no Museu do Ipiranga. Depois de concebido você precisa ter direito à saúde e à educação.”

10 financeiro março 2014

Financeiro - Até que ponto lhe preocupa a economia do País da forma como está sendo conduzida?

Delfim Netto - Não há nenhuma indicação do ponto

de vista social de que estamos piorando, mas do ponto de vista econômico nossa situação é desconfortável, embora não estejamos às vésperas de um apocalipse, ele não está na esquina. O déficit público é alto, em torno de 58% do PIB. Ele é muito maior que o dos países emergentes, com nosso nível de renda. 60% maior praticamente! Mas por que ele é desconfortável? Primeiro porque exige mais juros, porque ele valoriza o câmbio e a demanda excedente produz uma porção de problemas. A maior importância é que se houver uma crise de verdade, e você tiver que usar outra vez uma política pública em um sistema anticíclico, não há mais espaço. É uma coisa devastadora? Não! Nos últimos 10 anos, praticamente, a relação dívida bruta PIB ficou constante. Mesmo com todos os erros do governo em 2002, aquela cooperação brutal de alquimia, os erros de previsão do governo em relação a ter um superávit primário de 2,5%, depois baixa para 1,9%, em seguida 1,5%. Ou seja, não causamos nenhum desastre. O déficit público também cresceu um pouquinho agora no final, mas está em torno de 3 a 3,5%, o que é perfeitamente razoável quando o País cresce. Ela é desconfortável sim, mas não produz uma tragédia. O que produz um efeito muito ruim é a acumulação dessas armas de destruição de política fiscal que estão acumuladas no Congresso...

Financeiro - O Senado disse na grande imprensa que começou a se movimentar contra a chamada “contabilidade criativa” nas contas públicas. O que de prático pode ser feito? Delfim Netto - O governo abdicou disso. A visita da Dilma a Davos e à União Europeia significa uma mudança profunda no comportamento do governo. A reunião do ministro Guido Mantega com analistas financeiros mostra que o governo Dilma se comprometeu a fazer um superávit primário de 1,9%. Que é mais que o


suficiente para reduzir ligeiramente a dívida pública e mantê-la sob controle. No fundo não podemos dar nenhuma demonstração de que não estamos cuidando, de forma absoluta, do equilíbrio fiscal. Estamos sob ameaça de uma redução do nosso rating e, nesse momento, isso seria uma tragédia...

Financeiro - O senhor falou da importância de a presidente Dilma ter ido a Davos e a Bruxelas. Mas o Brasil não está cometendo erros estratégicos em sua política internacional? Delfim Netto - Nós apostamos no Atlântico Sul, que hoje é um cemitério. O Atlântico Sul, atualmente, somos apenas nós e a África. Nós precisamos renovar esse sistema e nos ligar ao mundo outra vez. Perdemos aquela ousadia que tivemos no passado, de ampliar as exportações e fazer um trabalho de verdade. Basta ver o seguinte: de 1981 a 1984, Brasil, Coreia do Sul e China exportavam a mesma coisa, 1,2% das exportações do mundo. Hoje, o Brasil exporta 1,3%, a Coreia 3,5% e a China, 12%.

Financeiro - Por que a inflação está desde 2008 no nível de 6% ao ano? Delfim Netto - Cada vez que você tem meta inflacionária com banda, o Banco Central namora com a banda de cima. E não é só no Brasil. Mas é preciso lembrar que esse processo de valorização excessiva do câmbio foi feito com um enorme aumento do salário nominal e com uma enorme compressão do câmbio nominal. Isso tinha que desabar em algum lugar – ou em inflação ou em déficit de contas-correntes. A inflação de 5%, 6% ao ano não é nada trágico. Ela não vai explodir, não vai acontecer nada. Mas ela é desagradável, é o dobro do nível de muitos dos nossos competidores. Mas não tem nada dessa história de que a inflação vai explodir, vai voltar a níveis de 30 anos atrás.

Financeiro - Então, por que a inflação se mantém nesse nível? Delfim Netto - A rigor, nunca terminamos o Plano Real. Nunca fizemos o ajuste necessário da política fiscal. Todos os governos depois de 1988 se recusaram a ajustar as finanças públicas às exigências da Constituição, que persegue o tempo todo o vetor de igualdade de oportunidades.

Financeiro - O panorama externo parece estar melhorando, com a retomada dos Estados Unidos. O Brasil não ganha com isso?

Delfim Netto - O Brasil vai se beneficiar sim. Somos parte do mundo, e temos os ônus e os bônus de fazer parte do mundo. O grande problema hoje é a Argentina, principalmente para a indústria automobilística brasileira. Se você não achar um mecanismo para ajustar isso, só esse problema já vai tomar mais ou menos 0,5% do PIB brasileiro este ano.

Financeiro - O que falta para o Brasil liderar esse bloco do Mercosul? Delfim Netto - Na verdade isso não é um bloco. É uma mixórdia. O Mercosul teve um papel muito importante, foi um fator decisivo para eliminar a maior tensão entre Brasil e Argentina, uma tensão militar enorme. Mas hoje não tem mais. O Mercosul não é um mal em si. Ele nunca deveria ter sido o que foi, deveria ter sido um tratado de livre comércio, eliminar as tarifas entre nós e cada um levar sua vida.

Financeiro - Os acordos bilaterais do Brasil não são lá algo para se orgulhar... Delfim Netto - Temos três acordos bilaterais e quando se olha para eles é fácil ver o ridículo: com o Egito, com a Autoridade Palestina e com Israel. Fica claro que o Brasil não entendeu as mudanças do sistema produtivo que ocorreram a partir de 2002. Ninguém mais produz tudo sozinho. Financeiro - Como foi essa mudança do sistema produtivo?

Delfim Netto - Você pega, por exemplo, uma caneta. A tinta é produzida na Indonésia, a ponta na China, o plástico nos Estados Unidos. A caneta é apenas montada na China. Jogamos fora três coisas que tínhamos, fora um câmbio relativamente desvalorizado, um sistema em que crescia o valor adicionado e um sistema de draw back verde-amarelo que permitia a importação de praticamente tudo o que você quisesse importar. O Brasil não foi perseguido por ninguém, foi perseguido por si mesmo. Financeiro - A presidente Dilma é favorita nas pesquisas para vencer as próximas eleições presidenciais. O senhor considera que, se ela for realmente eleita, a tendência é de mudanças estruturais na política econômica? Delfim Netto - A mudança já está acontecendo sob os nossos olhos. Obviamente demorou para se entender o processo, mas está acontecendo. Ninguém pode insistir no que não deu certo. março 2014 financeiro

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entrevistadomês Financeiro - Se o senhor tivesse que sugerir medidas microeconômicas, quais seriam suas sugestões? Delfim Netto - Não tem que sugerir nada. O Brasil tem pouca sugestão e pouca “fazeção”. Financeiro - O senhor tem uma ligação muito próxima com a presidente... Delfim Netto - Não tem nada isso. Por acaso você acredita na imprensa? Isso é um mito. Tenho grande admiração pela presidente Dilma. Acho que ela é profundamente correta, tem uma extraordinária boa vontade, com ideias muito firmes, faz tudo certo, de maneira errada.

Financeiro - O que falta para fazer da maneira certa? Delfim Netto - No fundo é uma angústia de fazer depressa. Financeiro - É uma questão de personalidade, de formação? Delfim Netto - Não acredito. Veja a questão da energia, em que ela fez tudo certo, não houve violação nenhuma de contrato. Três empresas não aceitaram e tinham o direito de não aceitar. Mas a execução... é claro que ficaram uma porção de problemas no meio do caminho e agora, ainda por cima, o clima não ajuda. Mas não tenha dúvida de que a baixa do custo de energia era fundamental e infelizmente não aconteceu.

Financeiro - Ministro, o Copom marcou duas reuniões para o período pós-eleição, o que é raro. O senhor enxerga alguma intenção de elevar os juros nessa decisão?

Delfim Netto - Não, não tem nada a ver. O Copom sinalizou que vai continuar mantendo seu calendário, de reuniões a cada 45 dias. O Brasil está em condições normais de pressão e temperatura.

Financeiro - O senhor considera que será melhor se a presidente Dilma for reeleita?

Delfim Netto - Eu confio na presidente Dilma. Ela tem muito boas intenções, tem disposição. Essas últimas manifestações dela estão na direção correta. É só verificar, por exemplo, que no segundo semestre de 2013 correram muito bem as concessões. Há uma compreensão muito maior do setor privado sobre ela e dela em relação ao setor privado.

Financeiro - Mas parece que a compreensão está em estágio muito inicial. E há a base aliada no Congresso. Delfim Netto - Só quem está sentado lá, naquela cadeira da presidência, é que sabe. E existe uma verdade, os inimigos estão sempre dentro de casa. Os inimigos que estão fora de casa não trazem nenhuma amolação. Financeiro - Em relação à balança comercial, como fica a situação do Brasil? Delfim Netto - Essa foi uma escolha nossa. Agora, a exportação do agronegócio não é um mal. Pelo contrário, é um grande bem. Mal foi termos abandonado a indústria. O agronegócio resistiu aos erros do governo. Resistiu, por exemplo, ao erro de não se corrigir o preço do petróleo, que destruiu o setor de etanol, acabou com o biodiesel, e não aproveitou até agora toda a energia que está acumulada nas usinas de São Paulo, que são maiores que a de uma hidrelétrica. E, além disso, tem custo muito pequeno porque basta ligar na rede.

Financeiro - O senhor tem dito que o brasileiro precisa pagar os preços das coisas, como combustível, energia... Delfim Netto - Você tem que respeitar o sistema de preços. Queremos liber12 financeiro março 2014

dade de ação e condições isonômicas para funcionar. Agora, está-se começando a entregar de volta as condições isonômicas. Destruímos a infraestrutura do Brasil nos últimos 30 anos. Não houve investimento. Quando o Brasil crescia, a carga tributária era de 24% do PIB e o investimento do governo era 5% do PIB. Hoje, a carga é 36% e o investimento não chega a 2%.

Financeiro -No começo do governo Dilma, a presidente deu sinalizações que foram elogiadas por economistas. Depois, é que mudou, o que aconteceu? Delfim Netto - Quando assumiu, a presidente fez o que era correto, por que estávamos em uma expansão que era insustentável. Depois, acho que o governo errou, ela teve que corrigir. Agora, não precisava ter desenvolvido essa diferença entre o setor empresarial privado e o governo. Isso foi criado pelo próprio governo. Durante anos, o que ele queria era taxa de retorno que produzisse modicidade tarifária. O objetivo era absolutamente legítimo, só que a diretriz era absolutamente errada. Demorou até que as coisas andassem. Voltamos ao problema: quando você tem duas variáveis ligadas, é preciso fixar uma, outra sai da ligação. Nesse caso você tinha duas variáveis, que eram a taxa de retorno e a qualidade do investimento. Agora, isso está superado. Veja o leilão de Libra. Alguns dizem que foi um fracasso. Fracasso coisa nenhuma: aconteceu exatamente o que o governo gostaria que acontecesse. Financeiro - Por que o senhor avalia que o leilão de Libra foi um sucesso? Delfim Netto - É simples. Alguém pode imaginar, quando se coloca a Petrobras no meio de um leilão desses, e é obrigatório ela ter 30% de qualquer um dos projetos e escolhe alguns dos parceiros, que alguém vai entrar contra o consórcio? Só se for louco, porque vai ser vítima da maldição do vencedor. A Petrobras sabe muito, muito mais sobre nossa geologia do que todos os outros juntos. Cometeram-se muito erros em relação à Petrobras, mas está sendo feita agora uma arrumação. Tenho admiração pela presidente da Petrobras, Maria das Graças Forster. Ela é correta, honesta, não fala uma mentira. A Petrobras é uma instituição de alta qualidade. A política de preços do Executivo é que foi um equívoco. Financeiro - O senhor critica muito essa política de preços de combustíveis.

Delfim Netto - Não se poderia fazer uma política dessas sob a justificativa de ganhar alguns pontinhos na inflação. Ora, não ganha esses pontinhos. Ninguém consegue, com truques, baixar a inflação.


Financeiro - Qual é a sua previsão para crescimento do PIB em 2014? Delfim Netto - Acho que em 2014 teremos crescimento abaixo de 2%. É um ano de transição. Espero que o acordo fiscal feito pela presidente junto com o Congresso funcione, e que o Congresso não vote nenhum aumento de despesa e nenhuma redução de receita. É dar tempo para que não se perca o nível de rating e para que, depois da eleição – haja o que houver, ganhe quem ganhar – se ponha um ponto final em tudo isso. Vai ter que, de fato, construir uma sociedade em que a liberdade de iniciativa seja mais plena, em que a intervenção econômica seja menor, e assim por diante. Mas eu insisto: o Brasil não está à beira de um precipício, não está para enfrentar o apocalipse.

Financeiro - O Brasil caminha para se tornar um país desenvolvido? Delfim Netto - Não tenho a menor dúvida. Estamos caminhando obviamente para ter uma sociedade mais civilizada. A despeito de tudo o que acontece na rua, o processo civilizatório está em marcha, a ascensão social é visível. O mais humilde cidadão entendeu que só há um mecanismo de ascensão social, a educação. Isso é uma mudança muito profunda, que está funcionando. Só o Estado de São Paulo tem hoje mais de 400 universidades. Não são iguais à USP, nem ao MIT, mas representam um upgrade fundamental.

“O mais humilde cidadão entendeu que só há um mecanismo de ascensão social, a educação.”

Financeiro - As pesquisas mostram que o brasileiro quer mudanças na próxima eleição, mas com Dilma no governo. Delfim Netto - A presidente Dilma tem a confiança do andar de baixo. O nosso sistema é um jogo dialético, entre a urna e o mercado. Quando o mercado exagera em seu economicismo, a urna vem e corrige. E quando a urna exagera em seu otimismo, o mercado vem e corrige. O tempo para essa correção é que é o problema. Não chegou o momento ainda. A urna ainda vai falar: “Eu quero esse processo distributivo feito de forma mais inteligente”. É isso que a oposição não está entendendo. O sentimento é “não quero a volta ao passado, quero isso que está aí, só que mais bem feito”. Financeiro - Se a presidente Dilma realmente vencer, ela terá logo que dar um choque, trocar talvez um ministro, não é?

Você apenas transfere a data em que a inflação vai aparecer. O velho Eugenio Gudin dizia uma coisa muito boa sobre isso: inflação é igual gravidez; um dia, inexoravelmente, ela aparece. Então, vai ter que enfrentá-la em 2015, 2017, quando for. Não valeu a pena gastar mais de 1% do PIB para economizar, talvez, 0,1% de inflação ao longo de quatro ou cinco anos.

Financeiro - Onde foi o maior erro? Delfim Netto - Foi um erro de avaliação. Não é só um problema da Petrobras. É uma questão também do que fizemos com a energia alternativa. Nós jogamos fora uma ideia. O etanol é uma invenção praticamente brasileira, a tecnologia do etanol, a tecnologia do flex fuel, é tudo nacional. Causamos prejuízos monumentais a investidores que acreditaram no governo. Já fizemos isso com o Proálcool no passado. A verdade é que o empresário, apesar de tudo o que se diz dele, não resiste à tentação de tentar de novo.

Delfim Netto - Nesse negócio de choque, nem a Eletrobras funciona. Mas, acho irrelevante discutir troca de ministros. Pelo contrário, acho Guido Mantega um bom ministro. Repito, o importante é o que a urna está dizendo: “Presidente Dilma, um pouco mais, mas com menos”.

Financeiro - Falando sobre o setor automobilístico, ele é motivo de preocupação nos últimos tempos. O senhor acha necessário um mecanismo de crédito para esse setor. Delfim Netto - O setor está muito bem protegido. Tanto é verdade que temos 20 montadoras atualmente no País. O mais importante é que haja concorrência. O grande problema do Brasil, o erro fundamental, foi criar oligopólios, a tal teoria de “vencedores globais”. É tudo empulhação, para a criação de oligopólios, que são menos voltados para a eficiência e exercem poder econômico descabido.

Financeiro - Mas a criação de oligopólio vem de anos, por exemplo, do “milagre” econômico.

Delfim Netto - Não, não. Você tinha câmbio razoável, tarifa razoável. Há oligopólios naturais. Ninguém produz, por exemplo, 150 toneladas de aço por dia. O que você não pode é construir a sociedade em cima dos oligopólios. Você fica muito vulnerável. março 2014 financeiro 13


artigoplanoseconômicos

Fantasmas dos Planos Collor, Bresser e Verão Por Aquiles Diniz

A hipótese de tirar o amparo constitucional das leis, que deram sustentação jurídica aos planos econômicos criados nas décadas de 1980 e 90 para combater a inflação, representa um risco sistêmico aos bancos públicos e privados e pode provocar grande turbulência na economia brasileira. Quase 400 mil ações questionam a correção monetária e pedem ressarcimento por supostas perdas na caderneta de poupança, já que as medidas congelaram e tabelaram preços. As pessoas que entraram com ações individuais pedem que a correção seja feita com base na inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor (IPC). Entidades também ingressaram com ações coletivas (ações civis públicas), que podem beneficiar os poupadores que fazem parte dessas ações. Caso seja votada, a mudança pode colocar em cheque marcos regulatórios importantes, com perda da segurança Aquiles Diniz: jurídica e gerar descrédito invice-presidente da ternacional. Até mesmo o rating Acrefi do crédito soberano brasileiro pode ser rebaixado, perdendo o País o tão sonhado “investment grade”. Com isso, o custo internacional aumenta e o dólar dispara, dificultando a captação de recursos, trazendo pressão inflacionária. O prejuízo causado às instituições financeiras pode chegar a R$ 150 bilhões, segundo estimativa do Banco Central. O custo final, porém, com a adesão de novos poupadores animados com uma eventual vitória pode chegar a 600 bilhões de reais. Com esse rombo, a oferta de crédito no Brasil diminuiria em pelo menos nove vezes o valor perdido, cerca de R$ 5 trilhões, e, consequentemente, haveria a

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redução da atividade econômica e impacto no emprego e na renda. Até que Supremo Tribunal Federal (STF) julgue os processos, o cenário econômico brasileiro ficará em suspense. Dependendo dessa decisão, reflexos negativos surgirão nas áreas fiscais e monetárias, tendo a mesma magnitude daquelas desencadeadas pelos mais violentos choques externos, podendo levar à insolvência instituições de porte. Enfrentar ameaças à estabilidade da economia no presente e no futuro faz parte do jogo, mas, buscar no passado uma crise desestabilizadora, é desmoralizar a sociedade. Como constatou Pedro Malan, ministro da Fazenda do governo Fernando Henrique Cardoso: “No Brasil até o passado é incerto”. Caso os bancos sejam derrotados no julgamento sobre a correção, o governo pode ser levado a aumentar impostos ou criar novas contribuições, é o que adverte a Advocacia-Geral da União (AGU). Nesse contexto, a União terá que agir para garantir a estabilidade econômica, com a certeza de que os contribuintes terão que arcar com esta conta. Em 2000, o STF determinou a correção dos saldos do FGTS em apenas dois planos e, após aquela decisão, foi criada a multa de 10% desse fundo para os casos de demissões sem justa causa dos trabalhadores, para pagar os correntistas beneficiados com essa decisão. Esse cenário negativo faria desabar a bolsa de valores e desvalorizar outros ativos financeiros desses mesmos poupadores que recorreram à justiça. Neste momento, o que o Brasil mais precisa é de um choque positivo de credibilidade, gerando estabilidade e equilíbrio. Fazer o contrário é dar com os burros n’água. f


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análisedemercado

Montadoras apostam no crédito A expectativa é de que o financiamento de veículos impulsione os licenciamentos em 1,1%, levando as vendas para 3,81 milhões de unidades O crédito é a grande esperança da indústria automobilística para que 2014 seja um ano favorável ao setor. Em um ambiente em que a produção deve crescer 0,7%, na estimativa da Anfavea (a associação das montadoras), e depois da queda de 0,9% nas vendas em 2013, para 3,77 milhões de veículos novos – primeiro recuo em 10 anos – a expectativa é de que o financiamento de veículos impulsione os licenciamentos em 1,1%, levando as vendas para um total de 3,81 milhões de unidades. O presidente da Anfavea, Luiz Moan, não deixa dúvidas de que as esperanças das montadoras repousam sobre um crescimento do crédito para compra de veículos: “Tenho convicção de que em 2014 o estoque de crédito vai aumentar entre 4% e 5%, representando um estímulo para a nossa atividade”, prevê Moan. Se a previsão se confirmar, as concessões deverão superar R$ 180 bilhões este ano, já que somaram R$ 173,3 bilhões em 2013, de acordo com levantamento da Cetip. Um dos motivos para o otimismo dos fabricantes

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é a queda da inadimplência, que se mostrou consistente ao longo do ano passado e deve ter comportamento semelhante em 2014. No ano passado, a inadimplência dos compradores de veículos recuou para 5,2%, depois de registrar 6,4% em 2012, de acordo com dados do Banco Central. Para Túlio Maciel, chefe do Departamento Econômico do BC, o recuo da inadimplência deve continuar, em consequência de fatores como educação financeira e aumento da renda, embora a queda deva ser mais moderada este ano. Assim, os financiamentos seriam a alternativa para que as vendas de veículos tenham crescimento, compensando variáveis menos positivas para o setor, como a redução do incentivo via IPI e a previsão de crescimento modesto (entre 1,5% e 2%) do PIB este ano. As montadoras contam com esse aumento no volume de empréstimos também para que se confirme a estimativa de produção na casa de 5 milhões de veículos novos em 2018. Os volumes de concessão de crédito para compra de veículos justificam essa aposta das montadoras. O Banco Central constatou que o volume dessas operações para pessoas físicas cresceu de R$ 7,7 bilhões em janeiro do ano passado para R$ 9,4 bilhões em dezembro (veja gráfico). Além disso, as taxas médias de juros anuais nesses empréstimos, que chegaram a 21,6% em setembro, fecharam o ano em 21,3%. A perspectiva é positiva também para o financiamento de veículos usados. A


Fenauto (Federação Nacional das Associações de Revendedores de Veículos Automotores) prevê que este será o ano do carro usado. Com o IPI mais alto para os carros zero quilômetro e a redução da inadimplência (que deve resultar em maior flexibilidade na concessão de crédito), a entidade espera que as vendas cresçam entre 4,5% e 5% em 2014, o que significa algo em torno de 13 milhões de unidades. Ao contrário do que aconteceu com os novos, o segmento de usados fechou 2013 com elevação das vendas: foram comercializadas 12,4 milhões de unidades, total 4,7% acima do registrado no ano anterior. Para confirmar esse otimismo, 2014 começou com números animadores: em janeiro foram vendidas 299.768 unidades (ou mais de 13.600 por dia, incluindo automóveis e comerciais leves), recorde para o mês e 1% mais do que em janeiro de 2013. É certo que a maior parte desses carros foi fabricada no ano passado, quando o IPI era menor e portanto o preço era mais baixo. Mesmo assim, e apesar das incertezas do cenário econômico e da renda do consumidor, o mercado animou-se também com os dados da Fenabrave (Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores), que reúne cerca de 7.600 concessionárias, segundo as quais foram emplacados 463.233 veículos em janeiro, em comparação a 456.068 unidades no mesmo mês do ano passado, levando em conta todos os segmentos (automóveis, comerciais leves, caminhões, ônibus, motocicletas e implementos rodoviários). Na avaliação de Aleciana Gusmão, técnica da coordenação de serviços e comércio do IBGE, é preciso lembrar as características do setor de veículos para se chegar a uma conclusão mais acurada sobre as tendências: “Os veículos são um bem durável, não se troca de carro a toda hora. Além disso, o consumidor foi se acostumando desde 2008 com a redução do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados). Dessa forma, o efeito da medida foi se dissipando com o tempo”. Ela ressalta também o quadro referente ao crédito para a compra de veículos: “As condições de crédito estão facilitadas, embora atualmente o período de financiamento esteja menor e os juros estejam maiores do que há alguns meses”. Feitas as ressalvas, os dados mostraram que a produção de veículos também trouxe indicadores positivos. Embora a indústria em geral tenha mostrado desempenho negativo em dezembro do ano passado, de acordo com dados do IBGE, divulgados em janei-

ro, a produção de veículos foi na contramão, com crescimento de 7,2% no ano, puxada principalmente por caminhões e outros veículos de transporte de mercadorias. Estudos do Iedi (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial) mostraram que o setor puxou a alta da produção no ano passado. Segundo os dados do instituto, a produção industrial cresceu 1,2% no período, e a atividade que puxou a expansão foi a produção de veículos automotores, graças ao aumento da produção, na maioria, dos produtos pesquisados no setor (63%).

Na expectativa

2014 começou com números animadores: em janeiro foram vendidas 299.768 unidades

Na análise de Letícia Costa, especialista no setor automotivo e Diretora de Pós-Graduação Lato Sensu do Insper, os indicadores referentes a veículos deverão, este ano, ser semelhantes aos de 2013, tanto em produção quanto em vendas. “A previsão é de que os volumes fiquem no mesmo nível do ano passado, com pequena variação de 1% tanto para cima como para baixo. A demanda não deverá crescer acentuadamente, até porque o PIB também terá crescimento modesto”. A especialista recorda que o crédito vai continuar exercendo papel fundamental no desempenho do

Dados de setor de veículos em janeiro de 2014

1,531 milhão de unidades vendidas

557.637 financiados

36,4%

fatia de financiados em relação aos vendidos

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análisedemercado setor este ano e lembra que a demanda por empréstimos não deve ser muito aquecida, em vista do nível de endividamento das famílias, dos juros em alta e da possibilidade de inflação elevada. No entanto, ela considera que os preços dos veículos não terão a alta prevista pelas montadoras, até pela competição acirrada para conquistar a preferência do consumidor. Ela prevê também que em 2014 produção e vendas de veículos deverão “estar mais sincronizados”, depois de, no ano passado, a produção ter crescido em ritmo mais acelerado. Quanto aos resultados de janeiro, ela afirma que é preciso fazer uma análise cuidadosa já que o mês foi atípico, mas ressalta: “Este ano será atípico, de maneira geral, e não apenas no setor automobilístico. Teremos a Copa do Mundo e eleições presidenciais, que se somarão a oscilações em geral no quadro econômico”. Na mesma linha, René Martinez, sócio da EY (antiga Ernst & Young) especializado no mercado automobilístico, enfatiza que, em vista dos grandes eventos deste ano, as montadoras estão especialmente atentas às margens e ao volume de vendas que esteja em linha, entre outros pontos, com o “novo consumidor”, ou seja, os compradores e potenciais consumidores de veículos que ascenderam socialmente e que continuarão nessa trajetória nos próximos dez anos. “O desejo do consumidor mudou nos últimos anos e vai continuar mudando. Ele está mais atento a itens como segurança, conforto e conectividade”, lembra Martinez. Nessa faixa, o financiamento é ainda mais importante para o setor, afirma o especialista: “O crédito é fundamental para os carros de entrada e para os veículos médios. Como a renda das famílias está com crescimento modesto e os juros subiram, será preciso que a indústria redobre sua atenção para atender essa faixa sem perder rentabilidade”. Ele recorda que os compradores desses veículos levam em conta principalmente “se a prestação cabe no bolso”. René Martinez acredita que as montadoras farão um esforço nessa direção e que poderão ser bem-sucedidas: “O histórico da indústria é favorável. Mesmo trabalhando com itens como alta carga tributária, o Brasil se colocou em lugar de destaque no cenário automobilístico mundial”. Essa também é a avaliação de Letícia Costa, do Insper, para quem, apesar de todas as dificuldades, o mercado brasileiro ainda é relevante para o setor automotivo global e continuará a atrair

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mais montadoras. Mesmo com essa atratividade, no entanto, o desafio do setor é grande, segundo ela: “A indústria busca encontrar meios para voltar a ter crescimento vigoroso no setor automotivo. Tivemos, em 2011 e em 2012, anos favoráveis às montadoras, mas 2013 foi mais de acomodação. Para alcançar essa meta de retomada vigorosa, entretanto, o grande desafio é aumentar a competitividade”. Quanto às exportações, Letícia Costa aponta como principal incerteza a situação da Argentina, que viveu um início de ano agitado na área econômica, cujos desdobramentos ainda se observarão nos próximos meses. Pelo lado da importação, na avaliação dela, o quadro é mais favorável para o setor automotivo, tendo em vista o efeito cambial que tem levado à desvalorização do real em relação ao dólar. No cenário externo, a especialista lembra que a economia dos Estados Unidos deve manter a tendência de retomada econômica e que a Europa continuará dando sinais de recuperação, o que torna a disputa por mercados ainda mais difícil: “O desafio da indústria automobilística instalada no Brasil é ser mais competitiva. Isso depende também da promoção de reformas macroeconômicas, que se reflitam no mercado automobilístico”. f

Mais recursos para financiamentos Concessões de crédito com recursos livres para pessoa física – R$ bilhões - 2013 10.000 9.000 8.000 7.000 6.000 5.000 4.000 3.000 2.000 1.000

jan fev mar abr mai jun jul ago set out nov dez


artigocrédito

A importância do FGC e o aumento do limite de cobertura Por Jairo Saddi

Artigo enviado em 05/02/2014

Jairo Saddi membro do Conselho de Administração do FGC

A criação do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) veio preencher uma lacuna da política de saneamento do sistema financeiro. Por meio da criação do “seguro depósito”, foram, pela primeira vez, estabelecidos os limites da proteção, permitindo assim uma nova etapa no desenvolvimento financeiro nacional, muito diferente da proteção que prevalecia à época da reserva monetária, que, na Carta de 1988, transformou o IOF num imposto arrecadatório de transações financeiras. Ademais, a proteção do depositante passou a ser custeada pelas próprias instituições, sem a utilização de recursos públicos, como estava estabelecido pelo texto constitucional (inciso VI do artigo 192), mais tarde alterado pela Emenda Constitucional nº 40, de 29 de maio de 2003. O FGC protege 99,73% de todos os depositantes brasileiros, pequenos e grandes investidores, com depósitos e investimentos em conta-corrente, poupança, depósitos a prazo, letras de câmbio, letras de crédito do agronegócio, letras imobiliárias, letras de crédito imobiliário e letras hipotecárias, até o limite da garantia ordinária, R$ 20 mil à época da sua criação, e, hoje, R$ 250 mil por CPF. Esse aumento de cobertura foi fundamental para o FGC cumprir seu papel, ainda que não tenha havido aumento na contribuição mensal das instituições financeiras, que se mantém no percentual de 0,0125%, aplicado sobre o montante dos saldos das contas correspondentes aos objetos da garantia. Três aspectos justificam o aumento. Primeiro, dar maior segurança aos depositantes e aos demais credores das instituições financeiras, alinhando esse valor aos limites praticados em países de economias desenvolvidas. Esse é o principal objetivo do FGC: facilitar a estabilidade monetária à medida que reduz impactos potenciais na base monetária decorrentes das quebras de instituições financeiras,

bem como dos efeitos da contaminação e da propagação do pânico bancário em virtude das corridas aos bancos. Mas o aumento da cobertura também permite uma competição mais eficiente entre as instituições financeiras. Na ausência de um sistema garantidor de créditos bancários, instituições maiores tendem a ser avaliadas como mais seguras; podendo ocorrer o mesmo com as mais antigas, ou, ainda, com instituições estrangeiras perante as nacionais. Na presença de um sistema de garantia, os depositantes tendem a nivelar sua percepção de risco, facilitando a distribuição de recursos e agilizando a competição entre as instituições financeiras. Finalmente, os institutos garantidores de depósitos protegem os depositantes, mormente os pequenos, ou aqueles cujo custo de informação e avaliação do risco é maior, tendo em vista que não dispõem de condições para avaliar ou obter corretamente todos os dados necessários para a tomada de decisão. Dito de outra forma, funcionam para aqueles agentes econômicos que não podem (ou não querem) arcar com maiores custos de transação. A ampliação da cobertura para R$ 250 mil faz com que o FGC seja de fato um bom sistema de seguro-garantia para a economia brasileira. Ao ampliar a confiança do público e contribuir para a formação da poupança e o desenvolvimento de um sistema financeiro estável, o FGC cumpre sua função pública de participar na construção de um melhor e maior sistema financeiro. Assim, o mecanismo de seguro-garantia de créditos bancários e financeiros concorre decisivamente para a segurança do sistema financeiro, uma vez que tranquiliza os agentes econômicos quanto ao destino de seus recursos, vale dizer, onde seus recursos estão sendo aplicados. f março 2014 financeiro 19


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Após alta volatilidade, inadimplência tende a se estabilizar Por Dorival Dourado

Artigo enviado em 26/02/2014

A despeito da piora em boa parte dos fundamentos da economia em 2013, crédito dos consumidores, com reflexos inclusive soo mercado de crédito teve um ano razoável. De fato, o ano passado pode ser bre o ritmo de crescimento da demanda das famílias. considerado mais como um ano de ajustes, em virtude do elevado crescimento Ademais, bancos mais seletivos na aprovação de crédos indicadores de inadimplência no passado recente. Os ofertantes de crédito dito continuarão priorizando modalidades de menor mantiveram maior seletividade nas concessões (principalmente para o consu- risco, levando a uma melhora na composição da carmo) e as modalidades com menor risco, como o financiamento imobiliário e o teira das pessoas físicas no curto e no médio prazos, crédito consignado, passaram a ter maior atenção tanto dos bancos privados contribuindo para a redução dos não pagamentos. Por outro lado, a retomada do aperto quanto dos públicos. monetário e a desaceleração da atividaAjustes costumam ser dolorosos e tendem a mudar de econômica costumam impactar negao comportamento dos agentes, mesmo que por um curtivamente na capacidade de pagamento to espaço de tempo. Mas, ao mesmo tempo, ajustes condos consumidores. A elevação dos juros tribuem, em geral, para a geração de um novo equilíbrio, básicos já vem pressionando os juros mais sólido e eficiente. finais ao consumidor, em todas as moDe fato, tais ajustes trouxeram uma boa notícia: o redalidades de crédito, e seus efeitos socuo da inadimplência. Tanto nos indicadores absolutos de bre a inadimplência são uma questão de novos registros de inadimplentes quanto nos indicadores tempo. A redução do ritmo da atividade do Banco Central (que medem a taxa de inadimplência) econômica, da mesma forma, afeta a observamos significativa melhora. Depois de anos de alta capacidade de pagamento dos consuvolatilidade, estamos prestes a assistir a um período de midores na medida em que traz efeitos estabilidade nos níveis de inadimplência para pessoa físisobre o mercado de trabalho. Depois de ca em 2014. A última vez em que observamos taxas mais anos de crescimento da renda real e de estáveis foi entre março de 2007 e abril de 2008, período queda nas taxas de desemprego, a acopré-crise financeira. Naquele período, as taxas variaram modação parece inevitável. muito pouco, em valores próximos a 7%, ligeiramente suDorival Dourado, Independentemente do resultado a periores aos valores observados hoje. Ciclos de crescipresidente da Boa Vista ser consolidado, a combinação desses mento e recuo têm sido a regra da série histórica do Banco Serviços fatores nos permite traçar perspectivas, Central (veja gráfico a seguir) . que, se não são favoráveis por não conE por que acreditamos que deva ser diferente neste ano? Temos presentes fatores que têm contribuído para a queda da inadimplên- tarem com maiores recuos das taxas de inadimplência, pelo menos apresentam-se mais estáveis e precia e outros que devem pressionar o seu crescimento. De um lado a maior seletividade na oferta do crédito e a maior cautela do visíveis. Por si só, já é uma boa notícia para aqueles consumidor devem continuar moldando a concessão e reduzindo a demanda por que respiram o mercado de crédito. f

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análisedemercado

Foto: Divulgação

Próximos desafios da indústria automotiva O mercado de automóveis passa por um período que exige muita atenção e flexibilidade de todos os que compõem o setor, incluindo a concessão de crédito. Esse foi o principal tema do seminário “Economia e Negócios – A Indústria Automobilística em Discussão”, realizado em 24 de fevereiro pela Acrefi, em São Paulo. O quadro para esse segmento é influenciado tanto por fatores macroeconômicos quanto por questões ligadas diretamente ao setor. Como lembrou Tereza Fernandez, especialista em indústria automobilística da MB Associados, em palestra durante o evento, concorrentes do Brasil, como o México, têm previsão de contar com quatro novas fábricas de veículos nos próximos anos, o que deve aumentar as exportações mexicanas para os Estados Unidos, com a vantagem de acompanhar a evolução tecnológica exigida pelo mercado norte-americano. Ela recordou que deverá haver excesso de Tereza Fernandez, produção no Brasil pelo menos até o final consultora da MB da década, e, com isso, fica uma dúvida: o Associados que fazer com esse excedente. Para ela, provavelmente as fábricas passarão a rodar em apenas um turno e não mais em dois, e as montadoras poderão postergar o início das operações. Outra mudança, lembrada por Tereza Fernandez, foi a entrada de várias marcas no mercado, “o que traz uma grande alteração estrutural”. Entre os desafios trazidos por esse novo quadro, ela lembrou a necessidade de o varejo mudar as regras de financiamento, com diminuição do repasse do spread e queda na margem de comercialização. Apesar desses desafios, o mercado ainda é atraente, na avaliação de Fernandez.

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Na mesma linha, Rodrigo Amâncio, gerente de Produtos da Cetip, disse em sua palestra no evento que o quadro é novo também no financiamento de veículos: “O volume de crédito para compra de veículos cresceu bastante até 2008, depois se retraiu e ensaia um retorno de aquecimento, embora em níveis menos elevados”, afirmou. “A boa notícia é que a inadimplência, depois de alcançar 7,22%, recuou para o nível atual de 5,17%.” Ele considera que, com base nos dados da Cetip, as instituições financeiras deixaram de ter como foco principal a participação de mercado e passaram a privilegiar a eficiência “com menos custos, melhores processos e mais informações para tomar decisão de concessão de crédito”. Na estimativa de Rodrigo Amâncio, o mercado de automóveis usados deve ter aquecimento este ano, até como recuperação desse segmento, “já que em 2004 para cada veículo novo eram financiados cinco usados, nível que caiu de um novo para 2,6 usados em 2013”. O varejo de automóveis também está mais competitivo e com as alterações nas regras de financiamentos e a diminuição do repasse para essas empresas do spread concedido ao “correspondente bancário”, assim como da queda de margem na comercialização de automóveis novos, as empresas têm perdido margem de rentabilidade. A meta é recuperar esses valores. O resultado da comercialização de automóveis em 2013, que apresentou uma queda de 3,0%, não deveria surpreender. Nos últimos dez anos, o crescimento de vendas nesse segmento do setor automotivo vinha apresentando evoluções fortes, tendo crescido 119% nesse período. Um ano mais fraco depois de desempenhos tão bons é absolutamente normal. O importante é pensar o que será esse mercado a partir de agora, quando as projeções para 2014 e 2015 in-


dicam anos mais fracos, em um momento em que investimentos estão sendo concluídos, novos investimentos estão sendo anunciados e se projeta uma capacidade de produção de aproximadamente 4,5 milhões de automóveis no Brasil até 2017. Nas nossas projeções de demanda doméstica, com um crescimento médio de 3% ao ano, em 2017 teremos um excedente de automóveis que pode atingir 1,5 milhão de unidades. A primeira constatação que fazemos é que há um acirramento na tentativa de conquista de mercado pelas chamadas “newcomers”, o que naturalmente derruba a participação das quatro marcas mais tradicionais no Brasil (gráfico), uma tendência que veio para ficar. O segundo ponto importante para ser avaliado é referente à possibilidade de excesso de produção, a partir de 2017. A exportação do excedente será limitada, levando-se em consideração o tipo de automóveis que estaremos produzindo naquele momento e a demanda do mercado mundial. A América Latina, com certeza, será o nosso grande mercado, lembrando que, à exceção da Argentina, os demais países demandam poucos automóveis. O atraso ou desistência de alguns investimentos já anunciados poderá alterar o cenário, tornando a vida das montadoras aqui instaladas, bem como das concessionárias, mais fáceis. Aliás, o segmento das concessionárias está passando por um momento de desafios. Além de estabelecer um novo relacionamento com as montadoras quanto a transferência de carros para os seus pátios e negociar uma margem melhor para as vendas dos veículos novos, os concessionários precisam avançar de forma profissional na sucessão, bem como no ajuste das empresas no que se refere a custos, na qualificação contínua de pessoal e na utilização correta da internet como instrumento de resultados, associada à utilização de TI em geral. Mais que o citado acima, é importante uma definição da estratégia de médio e longo prazos em multifranquias, como forma de minimizar riscos com as mudanças previstas de market share no Brasil. A escolha das marcas não é uma decisão simples, assim como a decisão de nova oportunidade de concessão ou aquisição de uma marca já em operação também não é tão simples neste momento, pois as oportunidades estão em ambos os casos. Não esquecer, no caso de aumento de in-

Seminário promovido pela Acrefi mostra que o setor de automóveis passa por um período que exige muita atenção e flexibilidade vestimentos, da adequação desses valores à capacidade de geração de caixa para evitar endividamento que comprometa a operação. O mercado de automóveis vai apresentar mudanças importantes nos próximos anos. Os agentes que operam nesse mercado, inclusive na concessão de crédito, deverão estar atentos às mesmas, em um momento em que os juros estão subindo, o câmbio se desvalorizando, a economia crescendo menos e, em especial, uma massa salarial com variações inferiores às que tivemos nos últimos anos. O desafio é interessante e – como em todos os cenários – virão novas oportunidades. f

Do ponto de vista da oferta, a participação das quatro grandes vem decrescendo

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artigoanticorrupção

Primeiras impressões sobre a nova lei anticorrupção Fotos: Divulgação

Por Pierpaolo Cruz Bottini e Igor Sant´Anna Tamasauskas

Artigo enviado em 30/01/2014

Pierpaolo Bottini e Igor Tamasauskas: sócios do escritório Bottini & Tamasauskas Advogados

Mês passado entrou em vigor a Lei 12.846/13, a chamada Lei de Combate à Corrupção, talvez uma das iniciativas mais importantes do Poder Legislativo nos últimos tempos. Os menos avisados podem se perguntar sobre o que há de novo nessa lei, uma vez que a corrupção já era proibida em nosso ordenamento. Mas há uma diferença: as regras anteriores puniam apenas as pessoas físicas que cometiam a corrupção, deixando de lado a empresa, em regra a mais favorecida com o ato. Punia-se o particular, impune ficava a instituição beneficiada. Agora as empresas também serão responsabilizadas por atos de corrupção e outros similares praticados em seu benefício. A lei prevê penas duras, como multas de 0,1 a 20% do faturamento bruto, vedação de contratar com o poder público, e até a dissolução compulsória, uma espécie de pena de morte empresarial. Talvez a inovação mais significativa – e polêmica – seja a previsão da responsabilidade objetiva da empresa. Com isso, a corporação será punida mesmo que seus dirigentes não tenham autorizado o ato ilícito. Basta que um funcionário, parceiro, contratado ou consorciado tenha oferecido ou pago vantagem indevida a funcionário público, e as penas serão aplicadas. Desde, claro,

“A ideia do legislador é que a empresa cuide não apenas de sua probidade, mas também se assegure do comportamento ético daqueles com os quais trabalha” que a empresa seja beneficiada pelo ato. Assim, se uma corporação contrata um serviço de terceiro para obter licença ambiental, e esse pague propina para obter o resultado, ambos serão punidos, contratante e contratado. A ideia do legislador é que a empresa cuide não apenas de sua probidade, mas também se assegure do comportamento ético daqueles com os quais trabalha. Claro que isso tem o limite do bom senso, dada a impossibilidade de se conhecer integralmente o caráter de seus parceiros ou empregados. Mas a ideia é incentivar a corporação a desenvolver sistemas de controle internos que façam checagens periódicas sobre seus colaboradores, assegurando-se de que todos mantêm uma postura correta em suas relações com o poder público. Nessa linha, a lei prevê a redução da sanção para a empresa que mantiver mecanismos internos de prevenção a atos ilícitos, códigos de ética, auditorias regulares e canais para denúncias. Bus-

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artigoanticorrupção ca-se, com isso, estimular o compromisso empresarial com uma cultura ética. Busca-se, ainda, evitar que a organização empresarial trate seus dirigentes como material fungível, substituindo-os como se fossem mais um insumo de sua cadeia produtiva. A partir dessa nova lei, a entidade empresarial será responsabilizada pelos atos, inclusive com a possibilidade de dissolução, como acima destacado. Os impactos da lei já foram sentidos. É notável como boa parte das corporações revisou ou criou regras de boas condutas, estabeleceu padrões rígidos de comportamento, e passou a colaborar com investigações sobre atos ilícitos praticados em suas dependências. Ao contrário de tantas leis que “não pegam”, esta já surtiu efeitos mesmo antes de entrar em vigor. É claro que existem problemas. O primeiro diz respeito à amplitude dos órgãos com competência para apurar os atos de corrupção das empresas e para aplicar sanções. Pelo texto da lei, a instauração e o julgamento de processo administrativo para a apuração da responsabilidade das empresas cabem à autoridade máxima de cada órgão ou entidade dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Ou seja, os poderes da União, Estados e Municípios terão competência para determinar penas de multas, cujos espaços variam de 0,1% a 20% do faturamento bruto das empresas. Ou seja, uma enormidade de servidores com capacidade de investigar, fazer acordos de leniência, julgar administrativamente e determinar o valor das sanções.

Nessa seara, excessos, arbítrios e conflitos de competência podem ocorrer. Por isso, é importante que a CGU (Controladoria-Geral da União) – órgão designado pelo legislador para expedir o decreto regulamentar da lei – fixe critérios precisos para a dosimetria da multa, do contrário, a confusão reinante poderá afetar toda a racionalidade que se espera na aplicação do novo texto legal. Uma segunda questão diz respeito ao bis in idem. A lei em análise aponta que sua incidência não afasta a improbidade administrativa (Lei 8.429/92) nem a responsabilidade pelos ilícitos em licitações (Lei 8.666/93). Isso significa que será necessário um esforço para identificar quando tais normas têm seu espaço autônomo de aplicação e quando existirá superposição, caso em que haverá um conflito aparente de normas a ser solucionado pelos mecanismos próprios de interpretação. Criticas à parte, a lei é boa. Vale sempre lembrar que não se trata de norma penal. Não tem a contundência inútil da ameaça de prisão, mas a racionalidade de identificar os reais beneficiários do ato de corrupção e puni-los, afetando seu setor mais sensível: o faturamento. Ademais, ao prever a colaboração das empresas na identificação ou na repressão aos ilícitos que possam ser praticados em seu benefício, o poder público faz uma espécie de prevenção geral positiva, forçando a incorporação de novos valores na organização corporativa. Se tal estratégia é adequada, o tempo dirá. Mas criar dispositivos que incentivem a cooperação dos agentes privados na prevenção ao ilícito parece mais eficiente do que a velha e fracassada política de aumentar penas ou transformar tudo o que incomoda em crime hediondo, como se isso, num passe de mágica, reduzisse a pó o crime organizado. f

Ilustração: Rafael Pascoal

“Ao contrário de tantas leis que ‘não pegam’, a Lei de Combate à Corrupção já surtiu efeitos mesmo antes de entrar em vigor.”

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realidadedigital

Judiciário on-line

Não há como retroceder. O Poder Judiciário finalmente ingressou na era digital. Em 17 de dezembro do ano passado, o Conselho Nacional de Justiça aprovou a regulamentação do Processo Judicial Eletrônico (PJe), que exige que tribunais de todo o País, a partir de agora, adotem o sistema digital, em substituição ao processo físico. Ou seja, aquelas pastas recheadas de documentos podem um dia se transformar em relíquias no arquivo morto dos Estados. Os burocráticos despachos e petições ganham celeridade com o uso da assinatura eletrônica. Uma das mais entusiasmadas com a informatização dos processos judiciários é a advogada Elizete Scatigna, sócia da Carvalho e Advogados Associados, que desde 2004 aboliu o papel nos milhares de processos em que o escritório atua. “O que antes precisávamos de 24 horas para dar andamento, hoje gastamos no máximo 10 minutos”, afirma Elizete. “Como a documentação dos bancos também já está digitalizada, os processos ganham no trâmite processual cerca de 30 dias”, garante a especialista em cobrança de crédito. Assim como em toda mudança, haverá sempre resistências naturais à modernização. Mas, essa “oposição” pode perder força diante da redução de custos financeiros, com a redução de horas dedicadas ao andamento do processo, com eliminação dos gastos para locomoção do advogado até o fó-

rum, com cópias das peças processuais, entre outras despesas. Além disso, ainda há o ganho real de tempo, com as audiências podendo ser realizadas via Skype – tecnologia que já é adotada com sucesso pela ministra Nancy Andrighi, do Superior Tribunal de Justiça, que despacha com os advogados por meio do programa de telefonia com vídeo pela internet. A ministra reúne em sua mesa, no gabinete, aproximadamente 15 petições e memoriais, discutidos em audiências virtuais com os advogados. Na hora marcada, ela se “encontra” com o representante legal e dá início à audiência. Tudo pode ser filmado e gravado. “Ao comparar com os anos anteriores, fomos da petição manuscrita à máquina de escrever, à máquina elétrica, ao computador, à internet, e o processo Elizete Scatigna: judicial eletrônico é uma consequência “Antes precisávamos de 24 natural da evolução”, pondera Elizete horas para dar andamento no Scatigna. “É evidente que é novo, que processo, hoje gastamos apenas exigirá um período de adaptação. No 10 minutos” entanto, as dificuldades e as eventuais falhas serão superadas durante a transição gradativa. Não podemos, porém, deixar a estagnação tecnológica tomar conta do Poder Judiciário”, avalia a sócia do escritório Carvalho e Advogados Associados. f

Foto: Divulgação

Conselho Nacional de Justiça aprova regulamentação do Processo Judicial Eletrônico, que exige que tribunais de todo o País adotem o sistema digital, em substituição ao processo físico

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perfil

Pronta para

o futuro A gestão do Grupo Herval é focada na estratégia de diversificação de negócios, por meio da sinergia entre as suas marcas. Uma das necessidades era de inserir no conjunto de operações uma instituição do sistema financeiro para se integrar à administradora de consórcios, que já alavancava vendas e trazia rentabilidade para o grupo. Era o que faltava para um negócio “apoiar” o outro dentro do mesmo guarda-chuva. Assim, a HS Financeira nasce em 2007, a partir de oportunidade de expansão dos negócios. A criação de uma financeira também serviria para facilitar as vendas de colchões, móveis, computadores e outros produtos comercializados pelo conglomerado de empresas, sediado em Dois Irmãos (RS), município a 58 quilômetros de Porto Alegre. “Em pouco tempo, percebemos que o serviço de uma financeira seria essencial para atender os nossos clientes de forma mais abrangente”, conta a gestora Dilvânia Airoldi. A ideia inicial foi estabelecer uma parceria com um banco especializado em operações de crédito. Mas a proposta evoluiu e o Grupo Herval optou por criar sua própria financeira. “Não foi um caminho fácil de trilhar, mas os resultados foram extremante satisfatórios”, lembra Dilvânia. Isso por que o Grupo manteve em suas mãos um dos maiores patrimônios construído em seus 54 anos de trabalho: a carteira de clientes – atualmente um de seus ativos mais valiosos.

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Atenta às oportunidades apresentadas pelo mercado, a HS Financeira procura oferecer seus produtos (letras de câmbio, capital de giro, créditos pessoal e consignado, CDC, autocrédito, seguros e cartão de crédito HS Card) com taxas e prazos competitivos em relação aos índices praticados pelo mercado. “O nosso principal diferencial é trazer para o pequeno e médio varejista a mesma possibilidade de recursos na área financeira que, hoje, os grandes lojistas têm, visando, ainda em 2014 expandir a emissão de novos cartões HS Card”, destaca a gestora da HS Financeira. Dilvânia Airoldi, Também, com sinergia, a IF Solugestora do Grupo Herval ções Planejadas, empresa de móveis planejados do Grupo Herval, atua com a HS Financeira para atender as lojas espalhadas em todo o País, oferecendo à marca um diferencial competitivo, pois são poucos os concorrentes deste segmento que possuem sua própria financeira para favorecer as vendas. Em 2013, a HS Financeira obteve uma receita bruta de R$ 55 milhões, 10,67% maior do que o resultado obtido no ano anterior. São números que demonstram seu potencial crescimento nos próximos anos. f

Foto: Divulgação

Fundada há sete anos, a HS Financeira ganha espaço no plano de crescimento do grupo gaúcho Herval


associadoacrefi

CNH Capital, seja bem-vindo! Com sede em Curitiba, o 62º associado da Acrefi inaugura unidade em Belo Horizonte e passa a atender à montadora Iveco

Brett Davis, presidente do CNH Capital

excelentes resultados e iniciar 2014 atendendo mais uma grande marca, a Iveco “, avalia Davis. Com o mercado aquecido, a demanda por crédito deve seguir estável. Diante dessa perspectiva, Brett Davis projeta incrementar ainda mais neste ano suas ações voltadas ao agronegócio, aos investimentos em obras civis e de infraestrutura e aos veículos de transporte. f

Fotos: Divulgação

A Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi) comemora a adesão do seu 62º associado: o Banco CNH Capital. Essa conquista acontece em sintonia com a recente notícia de que a instituição passou a atender, em 2014, a marca Iveco, tradicional montadora de caminhões e ônibus, que tem fábrica em Sete Lagoas e sede em Nova Lima, ambas em Minas Gerais. Para administrar as novas demandas, o Banco CNH acaba de inaugurar em Belo Horizonte uma unidade que cuidará, no início, das operações de retail (financiamento a clientes finais) e, depois, de wholesale (financiamento direto aos concessionários). Fundado há quatro décadas e com presença no Brasil há mais de 14 anos, o Banco CNH Capital possui uma carteira de 25 mil clientes ativos, sem contar a carteira de clientes da marca Iveco. Atualmente suas operações são voltadas ao financiamento de máquinas agrícolas e equipamentos de construção da CNH Industrial e veículos de transporte. Com sede em Curitiba, o banco tem, além da nova unidade na capital mineira, representantes comerciais distribuídos em todo o Brasil. “É com enorme satisfação que acolhemos o Banco CNH Capital entre os nossos associados. Isso se torna ainda mais importante quando sabemos que a instituição passa por período de expansão”, festeja o presidente da Acrefi, Érico Sodré Quirino Ferreira. Para Brett Davis, presidente do CNH Capital, os recentes êxitos do banco fazem parte do momento promissor vivido pelo Brasil, que cada vez mais ganha representatividade na economia mundial, e são também, resultados do trabalho realizado nos últimos anos por todo o grupo. “O trabalho de todo o time do banco resultou no atual momento que vivemos, é uma enorme satisfação para mim encerrar o ano de 2013 com

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panoramacetip

6,7 milhões de veículos foram financiados em 2013 Como faz regularmente, a Cetip acaba de consolidar os dados acumulados em 2013 relacionados ao financiamento de veículos. Segundo Marcus Lavorato, gerente de relações institucionais da Unidade de Financiamentos da Cetip, as concessões de crédito para a compra de veículos subiram de R$ 170 milhões, em 2012, para R$ 173 milhões no ano passado. Em 2013, foram financiados 6,7 milhões de veículos, entre automóveis de passeio e comerciais leves, motocicletas e pesados. Os números são do Sistema Nacional de Gravames (SNG), base privada de informações, que reúne o cadastro das restrições financeiras de veículos, utilizada como garantia em operações de crédito em todo o Brasil. O SNG impede que o processo de financiamento de veículos seja suscetível a fraudes. São levados em consideração financiamentos por meio de crédito direto ao consumidor (CDC), leasing e

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autofinanciamento (consórcio). A Cetip adota alguns critérios para calcular o montante liberado para financiamentos de veículos. Para o cálculo do volume financiado são consideradas apenas inclusões de gravames de automóveis leves com financiamento de até R$ 200 mil e cujos prazos não sejam superiores a 120 meses; para motocicletas, o montante limite é de R$ 50 mil. A metodologia também restringe em R$ 500 mil as inclusões de gravames de pesados. Dessa forma, a Cetip desconsidera operações com valores e prazos destoantes com as práticas do mercado. Além disso, o cálculo considera repasses do BNDES via Finame. É importante salientar que os números não são diretamente comparáveis com os divulgados pelo Banco Central, pois a instituição contempla apenas operações de CDC e de arrendamento mercantil.


Marcus Lavorato gerente de Relações Institucionais da Cetip Foto: Divulgação

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tecnologia&inovação

Ninguém inova por que gosta Silvio Meira, pesquisador em engenharia de software no Brasil, diz que os investimentos em tecnologia são essenciais para as instituições que pretendem sobreviver à competição global Por Gustavo Girotto

O primeiro-ministro chinês, Li Keqiang, em um de seus discursos no Fórum Econômico Mundial, em Davos, afirmou que “a reforma e a inovação fornecem uma força propulsora inexaurível para o desenvolvimento do país”. Essa evolução que transita pelos inúmeros aspectos relacionados à criatividade humana, em momentos de instabilidade econômica, pode alterar os ventos de uma dificuldade interna. As inovações possibilitam o aumento dos níveis de emprego e de renda, além do acesso ao mundo globalizado, contribuindo de maneira direta com momentos favoráveis de crescimento de riquezas. Para o cientista chefe do C.E.S.A.R (Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife), Silvio Meira, notável pesquisador na área de engenharia de software no Brasil, o mercado brasileiro é um dos mais regulamentados do mundo. “Isso evitou que entrássemos na crise de 2008. Por outro lado, esse cuidado excessivo cria um atraso estrutural no desenvolvimento de mecanismos de inovação”, alertou Meira. Um exemplo de praticidade, segundo ele, é o banco norte-americano Simple, que nasceu para facilitar os serviços dos usuários. Transferências para pessoas, compras com um cartão de débito ou ainda creditar um cheque apenas tirando uma foto dele com

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o celular é possível nesse novo conceito de operação. “É um banco no qual você começa a se registrar pelo Facebook. Ele existe on-line e é uma das coisas mais maravilhosas que alguém já fez”, exemplificou. No movimento do mobile payment, a empresa Dwolla que permite transferências de dinheiro ou pagamentos pelo celular, também é vista positivamente pelo especialista. “Você deposita um valor na conta da empresa e, por meio de um software, é possível efetuar pagamentos de consumo como café, táxis e coisas do dia a dia. Dinheiro é informação sobre poder de compra. Os sistemas podem evoluir em velocidade muito grande ou catastrófica, uma vez que não se deve limitar seu desenvolvimento natural”, afirmou Meira. Outra novidade citada é a M-Pesa, lançada no Quênia, onde o dinheiro é transferido de uma pessoa para outra por meio de um sistema telemóvel. “Um elemento importante dessa inovação é a capacidade de adaptação às especificidades locais, uma vez que o regulador financeiro não interfere em seu desenvolvimento. Isso simplifica a vida das pessoas”, considera o especialista. Quando o assunto é Brasil, Meira não esconde sua inquietação com o atraso dos meios de evolução por excesso de regulamentação. “Os Estados Unidos e a China sobressaem-se em todas essas frentes, até por que o desenvolvimento de seus marcos regulatórios transita em sintonia com as necessidade locais. No Brasil, o sistema financeiro age dentro de um escopo em que tudo precisa ser explicitamente permitido. Se algo não está dentro de uma regulamentação, o resultado é que não pode ser feito. Já nos Estados Unidos e em


Em contrapartida, ele classifica a Embraer como uma empresa de ponta com olhares voltados para o mundo. “O Brasil importa 15% do seu Produto Interno Bruto (PIB). A média da América Latina é 25%; a China é 29%. A nossa Embraer é uma das nossas maiores importadoras e exportadoras, faz parte das duas listas, por isso a classifico como uma grande empresa inovadora”, elogiou Meira, lembrando que “o setor de eletroeletrônicos – que é todo fechado e com reserva de mercado – tem deixado um déficit na balança comercial acima de 35 milhões de dólares, nos últimos Silvio Meira, cientista chefe do dois anos. Ele não importa para C.E.S.A.R (Centro de Estudos e exportar, mas sim para consumir Sistemas Avançados do Recife) e isso traz reflexos”. Uma solução mediante o problema, segundo ele, seria criar bases nacionais para competir internacionalmente. “Esse é o nosso principal problema. A Embrapa é extremamente competente, mas não é ela que planta e cole a soja. O problema não é ter a competência nos institutos de pesquisa e nas universidades, pois é preciso ter competência na economia. Quando olhamos para grandes sistemas, como o financeiro, agropecuário e o industrial – a competitividade é uma parte do que o produtor ou o agente de mercado faz. A outra, é tão somente o que o sistema permite”, analisou Meira. Em termos de controle de um sistema, no mundo atual, o especialista considera um entrave. “Hoje é preciso pensar globalmente. Não estamos isolados do mundo e precisamos pensar em liderar algumas frentes, aumentando fluidez em nossas nas transações”, disse Meira. Para ele, é preciso localizar-se, observando dados como os de grandes economias de primeiro mundo. “Em 1960, a produtividade em serviços dos Estados Unidos era três vezes maior que no Brasil. Em 2010, o País ficou cinco vezes mais produtivo. Vamos mudar realmente de patamar quando, em vez de montar produtos, o Brasil possa ter a capacidade própria de desenvolvê-los e conseguir baixar seus custos nessa cadeia produtiva”, finalizou. f

Foto: Gabriel Kosman

parte da China só não há sequência quando, efetivamente, algo é proibido. Isso cria um grau de liberdade extra para os agentes de mercado, uma vez que podem ir avançando e, se algo sair fora do contexto macro ou legal, ocorre uma interferência espontânea dos agentes”, defendeu Meira. Para ele, é preciso que o sistema financeiro da América Latina olhe os exemplos de sucesso de outros países. “É um problema da região, uma vez que não se vê uma consolidação de bancos na América Latina. Os que temos no Brasil, praticamente, só existem por aqui – além das instituições estatais quem têm capilaridade no setor – já o resto são bancos europeus. Não vemos bancos brasileiros consolidando o segmento bancário da América Latina, nem à mão inversa. À medida que o mundo se globaliza, vamos ficando isolados”, pondera Meira. Ele avalia que há sempre razões para inovar e isso faz parte de decisões. “Ninguém inova por que é gostoso e, muitas vezes, é até parte de uma decisão dramática. Custa o envolvimento continuado de instituições inteiras, em períodos longos de tempo, sendo que depende da profundidade da inovação que se vai fazer. Ninguém inova por que gosta, na verdade, é a combinação de duas coisas: ser forçado ou puxado. O primeiro exemplo é aquele em que se muda por que todos o estão fazendo, ou seja, se eu não fizer, tão logo desapareço. Já ser puxado é quando ninguém mudou e você vislumbrou uma oportunidade de mudar: isso lhe move e lhe coloca em um patamar diferenciado”, disse o especialista, citando Peter Drucker, que diz: “inovação é uma fonte de vantagem competitiva sustentável”. Ainda em relação ao grande dragão asiático, Meira lembra que o China Construction Bank (CCB) adquiriu o banco brasileiro BicBanco, instituição financeira voltada ao segmento de pequenas e médias empresas. “Eles o compraram para aprender sobre o mercado nacional, uma vez que é uma economia com grande liquidez. O que custa para eles se estabelecerem como um grande banco no Brasil, até por que são os nossos maiores compradores de commodities?!”, questionou-se o especialista, afirmando que “em um sistema internacional todo conectado, não adianta muito se proteger da inovação sistêmica, pois é impossível controlar tudo e precisamos acordar para o mundo”.

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terceiro

Fazer o bem faz bem! Por Elisa Polonio

O diretor-geral da Fundação Gol de Letra, Sóstenes de Oliveira, fala sobre os avanços conquistados pela entidade fundada há 15 anos pelos ex-jogadores Raí e Leonardo – e como as empresas podem colaborar com os seus projetos sociais Usar o esporte como forma de inclusão social, fomentando a participação da comunidade como multiplicadora do conhecimento e da prática socioeducativas e, ao mesmo tempo, participar do desenvolvimento do jovem. Esse conceito não é apenas um discurso ilustrativo. Ele é levado à risca diariamente por toda a equipe da Fundação Gol de Letra. A entidade, que acaba de completar 15 anos de atividades,

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atende a 1.300 crianças e jovens em São Paulo e no Rio de Janeiro. Sóstenes de Oliveira, irmão de Raí e diretor-geral da entidade, lembra que os avanços obtidos pela entidade nos últimos anos permitem projetar um futuro promissor para a organização. “Em 2010, criamos o Programa de Disseminação, que nos possibilitou dar saltos no relacionamento com comunidades do Brasil afo-

ra. Chegamos a atender 1.000 crianças e jovens”, conta Sóstenes. Um dos exemplos de ação de sucesso é o Projeto Ginga Social, realizado em parceria com a Adidas, que busca por meio do esporte oferecer formação e capacitação a agentes educacionais e a jovens carentes de comunidades em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte, Salvador e, em breve, Brasília.


Outra grande conquista foi a formação de monitores esportivos, desenvolvida nos programas da fundação. Nessa dinâmica, jovens da comunidade, que normalmente já passaram pelos programas, voltam à quadra esportiva: porém, dessa vez, recebendo capacitação em diferentes áreas e ajudando os educadores nas atividades. Desse modo, eles se tornam referências para os mais novos, gerando mais responsabilidade e fazendo com que a missão da entidade seja cumprida: a de contribuir para a formação cultural e educacional de crianças e jovens para atuar com autonomia na transformação de suas realidades. As experiências bem-sucedidas na atuação social renderam recentemente o prêmio Itaú-Unicef de Educação Integral à Fundação, em função de seu programa Virando o Jogo, que promove atividades artísticas, culturais e corporais a 240 crianças e jovens de São Paulo. Além disso, em 2001, a Fundação Gol de Letra havia sido reconhecida pela UNESCO como modelo de atendimento às crianças em

situação de vulnerabilidade social. Captação de recursos – O orçamento anual da entidade é de R$ 5 milhões, captados, principalmente, por meio de empresas parceiras (25%), eventos (24%) e doações via Lei de Incentivo Fiscal (22%). “As empresas passaram a fragmentar seu investimento social, e isso, além de ser benéfico a elas por proporcionar uma inclusão social na comunidade de atuação, é uma grande mola propulsora para as atuações das entidades”, destaca Sóstenes, acrescentando que as empresas podem contribuir para a Fundação Gol de Letra por quatro maneiras: doações diretas, doações via Lei de Incentivo Fiscal, campanhas de mobilização de produtos e serviços – em que uma porcentagem é doada à Fundação – e até mesmo em torneios promovidos pela entidade. Na última modalidade, ganha destaque o Torneio Gol de Letra: trata-se não somente de uma via de captação de recursos, mas também uma ação de RH das empresas com os seus colaboradores. No campeonato, que em 2014 vai

para sua 11ª edição, empresas diversas inscrevem seu time de colaboradores, que disputam entre si o título que costuma ser decidido em grandes finais no Morumbi (SP) e no Maracanã (RJ). Realizado anualmente, o torneio reúne também atletas, ex-atletas e personalidades, proporcionando dois fins de semana de plena interação, descontração, e, claro, networking entre as empresas participantes. “Para as empresas que querem colaborar com a Fundação Gol de Letra, as portas estão abertas. Recebemos cada empresário individualmente, mostramos a entidade, e, caso a caso, discorremos sobre as possibilidades de doação”, declara Sóstenes, acrescentando que a Fundação também recebe doações de pessoa física. “Muitas empresas parceiras promovem campanhas entre seus funcionários, o que também é uma forma de captação de recursos”. A Fundação Gol de Letra é auditada pela KPMG e apresenta, anualmente, às empresas parceiras o balanço da entidade. f Fotos: Divulgação

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Foto: Luciana Prezia

foradoexpediente

Semeador das artes Louis Bazire, presidente do Banco BNP Paribas Brasil, usa seu olhar refinado para revelar o talento de artistas brasileiros que ainda são desconhecidos do grande público Por Gilberto de Almeida

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Num fim de tarde, um motorista e seu patrão trocam impressões sobre arte contemporânea, enquanto estão presos no trânsito de uma grande metrópole. A cena, aparentemente incomum, poderia fazer parte do roteiro de um filme do diretor franco-suíço Jean-Luc Godard. No entanto, essa situação é real e faz parte do cotidiano de dois brasileiros: o motorista chama-se Wagner Gregório e seu patrão é Louis Bazire, presidente no Brasil do Banco BNP Paribas, uma das maiores instituições bancárias do mundo. Esse interesse de Wagner pelas artes plásticas é apenas uma pequena amostra do resultado do trabalho realizado há dez anos no Brasil pela Fundação BNP Paribas. Porém, o empenho de Bazire na difusão das artes vai muito além do bate-papo cultural com seu motorista. Ele mergulha nessa atividade de corpo e alma. É um mecenas na melhor acepção da palavra, aquele que é capaz de identificar artistas e projetos que só ganham a merecida atenção se tiver a sua dedicação pessoal e o respaldo do banco. “A nossa fundação está presente em vários países e tem critérios para definir os projetos que receberão o apoio do banco, mas eu faço questão de participar pessoalmente de todas as etapas de seleção”, conta Bazire. “Se você quer fazer um a trabalho consistente, precisa traçar uma diretriz forte e segui-la à risca.” Esse trabalho consistente começa por uma sólida parceria que a Fundação Cultural BNP Paribas mantém há anos com o MAM (Museu de Arte Mo-

derna de São Paulo), que permite não só que o banco realize eventos reservados para clientes e amigos nas dependências do museu, como também franquia a entrada de seus funcionários e familiares em qualquer exposição montada no prestigiado espaço da marquise do Parque do Ibirapuera. Basta apresentar o crachá e entrar. Foi aí, provavelmente, que Bazire semeou o interesse de Wagner pelas artes. Bazire sabe perfeitamente o poder transformador que uma visita a um museu pode provocar na vida das pessoas. Nascido no Rio de Janeiro, filho de pai francês e mãe americana, ele não se esquece da primeira vez que entrou num museu, aos 12 anos de idade. Foi no Louvre, em Paris, logo após mudar-se para a França com seus pais. De lá para cá, essa paixão pelas artes só cresceu. Embora não tenha conquistado habilidade com os pincéis e as tintas, desenvolveu um olhar certeiro para identificar novos talentos e abrir portas para artistas que ainda não tiveram sua real oportunidade no mercado das artes. “Como se faz para ‘fabricar’ esse olhar, eu não tenho ideia. Quem sabe vendo muitas coisas. Tudo é muito subjetivo”, tenta explicar Bazire. “Eu olho não só a obra de arte, mas o jeito como ela é feita, depois é uma questão de sensibilidade.” Foi assim que Bazire encantou-se com o trabalho da artista plástica Lara Donatoni Matana, que

“Se você quer fazer um a trabalho consistente, é preciso traçar uma diretriz forte e segui-la à risca.”

Foto: Divulgação

Museu de Arte Moderna de São Paulo: parceria do BNP Paribas que permite que os funcionários do banco e seus familiares entrem gratuitamente em qualquer exposição montada no espaço

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foradoexpediente cria painéis cubistas a partir de finas lâminas de madeira reflorestada, provocando sensação de movimento, profundidade, ondulação, etc. Aliás, a obra da artista “Expansão em Perspectiva” atrai a atenção daqueles que, por alguns minutos, aguardam na recepção do salão de almoço do banco. Outro artista capaz de magnetizar o olhar de quem visita a sede do BNP Paribas, em São Paulo, é o capixaba Hilal Sami Hilal, que, com uma delicada escultura em papel artesanal provoca instigantes efeitos cinéticos, como definiu, em 1998, a crítica de arte Angélica de Moraes. Esses são apenas dois exemplos de trabalhos que fazem parte da coleção do BNP Paribas no Brasil que merecem destaque na decoração do escritório do banco. A proximidade de Louis Bazire às criações de Hilal aconteceu por meio de outra parceria que o banco mantém com a galerista Marilia Razuk, que cuida da carreira do escultor capixaba. “O Bazire é um apaixonado por arte. Ele tem uma visão diferenciada sobre o que está acontecendo no mercado”, destaca Marilia. “Se fica encantado com o trabalho de um artista, ele leva catálogos para o exterior, mostra e fala para os amigos. Ou seja, ele faz acontecer, tudo motivado pela paixão que tem pelas artes”, lembra a marchand. Esse entusiasmo faz com que aproveite cada instante livre da sua pesada agenda de executivo para pingar nos olhos novas gotas de conhecimento. No entanto, às vezes, chega até a perder a noção do tempo diante de tantas atrações. Em janeiro deste ano, por exemplo, depois de participar de um seminário do banco em Lisboa, aproveitou para ficar mais um dia na cidade apenas para apreciar a coleção do Museu Berardo, próximo do Centro Cultural de Belém. “Achei tudo tão legal e atraente que por pouco não perdi o avião de volta para o Brasil”, conta Bazire. A pressa, porém, não o impediu de trazer na bagagem mais catálogo para a sua coleção particular. “Sei que a minha mulher fica chateada com essas compras. Não temos mais espaço em casa para essas coisas. Ainda bem que, desta vez, eu trouxe apenas um catálogo e não um quadro novo”, brinca ele. Mesmo quando não resiste e compra uma nova obra para o seu acervo particular, Bazire nunca faz a aquisição de olho no lucro que a peça que possa render no futuro. “Compro porque gosto; detesto falar em arte como moeda de negociação”, afirma

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Louis Basire: diante de uma das obras da artista plástica Lara Donatoni Matana

o executivo acostumado a tomar decisões profissionais com base nos frios números do setor financeiro. “Não me desfaço de nada, nem acompanho o sobe e desce dos artistas no mercado internacional.” Com lágrima nos olhos, sensibilidade rara entre os banqueiros, ele diz: “Pode ser que eu tenha comprado quadros há 20 anos que hoje valem muito mais, mas não quero me desfazer. Eles são a minha paixão e espero deixá-los para as minhas filhas. Embora elas não morem no Brasil, assim que chegam aqui pedem logo para conhecer as novidades.” Com o mesmo carinho que dedica à sua coleção particular, Bazire participa ativamente da seleção de quatro a seis projetos que a Fundação BNP Paribas Brasil apoia anualmente entre mais de 300 propostas recebidas. Além de enquadrados na Lei Rouanet, os projetos devem estar focados na preservação do patrimônio cultural brasileiro, por meio de exposições, publicações de livros, concertos ou recitais. Para 2014, a programação da Fundação BNP Paribas no Brasil já está praticamente fechada, com a realização de um concerto, em parceria com o Centro da Cultura Judaica, do pianista israelense Boris Giltburg, vencedor do disputado Concurso Internacional Rainha Elisabeth, organizado na Bélgica em 2013; a exposição de Marcos Bretas, pintor brasileiro radicado em Paris e ainda pouco conhecido por aqui; a exposição


Foto: Luciana Prezia

Foto: Divulgação

Hilal Sami Hilal: um dos artistas que recebeu apoio da Fundação BNP Pariba Brasil

de Lucia Mindlin Loeb – neta do bibliófilo José Mindlin, falecido em 2010 –; a publicação do livro “A Flor da Floresta Amazônica”, do fotógrafo paulista Rodrigo Petrella; e a publicação de um guia inédito sobre os museus da São Paulo. Por meio de iniciativas semelhantes a essas, há dois anos, a fundação também bancou a edição do livro “Villa de Paraty”, com fotos de Dom João de Orleans e Bragança. “Tudo aconteceu muito rápido. O editor Pedro Corrêa do Lago me procurou e disse que não tínhamos, até então, um bom livro sobre a história de Paraty. Avaliei o projeto e achei que ele estava dentro dos objetivos da fundação”, conta Bazire. Algo semelhante aconteceu com Ângela Gutierrez, fundadora do Museu do Oratório de Ouro Preto, que precisava do nosso incentivo para renovar o catálogo da instituição. “Existem pessoas que gostam de carros antigos, eu tenho predileção por pintura, fotografia e música”, compara o executivo. “Às vezes, chego um pouco mais tarde em casa por que estou envolvido com os projetos da fundação, mas esse esforço é totalmente recompensado quando consigo surpreender alguém com o trabalho de um artista ainda desconhecido do grande público”, completa Bazire. f março 2014 financeiro 39


cultura

Casarão

dos versos Reinaugurada em 2004, a Casa das Rosas ganhou a designação Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, em homenagem a um dos mais importantes poetas brasileiros e coautor do movimento concretista. A coleção de livros do ensaísta e tradutor faz parte do valioso acervo do museu Por Eliane Santos Fotos: Gabriel Kosman

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Encravada no coração financeiro de São Paulo, uma imponente mansão do século passado sobrevive em meio aos grandes edifícios comerciais. Emoldurada pelo quadrilátero formado pela Avenida Paulista, Alameda Santos e as ruas Leôncio de Carvalho e Doutor Rafael de Barros, o casarão de quatro andares, que foi ponto de encontro da oligarquia dos barões do café, – hoje tombado pelo Patrimônio Histórico em 1985 e reinaugurada em 1991 – abriga o rico acervo da Casa das Rosas, um mais importantes espaços culturais da cidade, dedicado à difusão da poesia e da literatura. Pela entrada da Avenida Paulista, a fachada do Museu Casa das Rosas mescla, em perfeita harmonia, os contrastes de dois períodos arquitetônicos: o novo e o velho. Na frente, destaca-se um sobrado de 1935 e um lindo jardim; na parte de trás do terreno, um moderno prédio recoberto por vidro espelhado. Embora antagônico, o projeto valoriza os contornos do casarão, criado pelo arquiteto Ramos de Azevedo e oferecido de presente de casamento à filha Lucia e ao genro Ernesto Dias de Castro, que por ali viveram com seus herdeiros por duas gerações. Após uma crise financeira, em 1985, a família vendeu o imóvel e o terreno ao empreendedor Mário Pimenta Camargo e ao arquiteto Júlio Neves, que tinham planos mais ousados que contrastavam com a urbanização daquela região. Naquele período, o casarão foi tombado pelo CONDEPHAAT (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico Arqueológico, Artístico e Turístico) e tornou-se um bem cultural da cidade. Mas, por meio de projeto de lei criado na época, que permite destinar as áreas não construídas do terreno de um imóvel tombado a novos projetos imobiliários, o projeto foi dividido em duas partes. A casa foi restaurada e o seu famoso jardim foi conservado. A parte livre do terreno de 5.500 metros quadrados, que tem saída para a Alameda Santos, abriu espaço para uma torre de 21 andares. Depois de funcionar como galeria de arte por quase dez anos, a casa fechou para restauro e foi reinaugurada em dezembro de 2004. Com o mesmo nome, mas com uma nova designação, ela passou a se chamar Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura. O nome é uma homenagem ao tradutor, poeta e ensaísta brasileiro, Haroldo de Campos. “A casa passou a funcionar como um espaço dedicado à poesia e à literatura, abrigando toda a coleção de

O acervo da biblioteca abriga mais de 20 mil títulos da coleção do poeta Haroldo de Campos

Integração: Espigão de 21 andares que fica ao fundo da Casa das Rosas

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cultura

Cerca de 85 mil visitantes por ano participam dos eventos culturais promovidos pela casa

Frederico Barbosa: diretor da Casa das Rosas

livros do poeta”, conta o diretor do Museu, Frederico Barbosa. À frente da instituição desde a inauguração, Barbosa relembra com orgulho como participou de cada detalhe desse projeto. “Quando assumi, a casa estava necessitando de manutenção. As portas foram arrancadas para reforma e eu mesmo fiz a recolocação. Recebemos a ajuda de seis voluntários que trabalharam, gratuitamente, por seis meses”. Em 2008, esses e outros voluntários, fundaram a organização social POIESIS – Instituto de Apoio à Cultura, à Língua e à Literatura. A Casa das Rosas, que recebe em média 85 mil visitantes por ano e abre espaço para diversas manifestações culturais, exposições intermitentes de arte contemporânea e uma exposição permanente, intitulada ‘Bibliocasa’, com

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mais de 20 mil títulos de livros de Haroldo de Campos. Os livros são expostos por temas, atualizados a cada três meses. Todo o acervo doado pela família do poeta foi catalogado e está disponível para visitação on-line, por meio do site da instituição (www.casadasrosas.org.br). Quem visita o centro de poesia e literatura tem acesso a saraus, eventos literários, seminários, festivais, cursos e um núcleo voltado para formação de escritores, o Centro de Apoio ao Escritor (CAE). O projeto oferece uma série de atividades educativas, palestras e projetos culturais. Só o Curso Livre de Preparação do Escritor recebe aproximadamente 500 inscrições para 30 vagas oferecidas anualmente. Segundo o diretor, o espaço ainda recebe muitos pedidos para realização de lançamentos de livros e exposições. “É bacana você ter uma casa, em um ponto bem localizado, que foi construída para a elite e hoje esse espaço ser compartilhado por diferentes classes sociais”, completou Frederico Barbosa. f


artigoexterior

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educação

“Deixe seu filho subir a escada do conhecimento com os próprios pés” Por Gilberto de Almeida Fotos: Divulgação

Pedro Bandeira é um escritor para quem a conversa flui tranquila, como água que nasce na fonte. Aos 72 anos, com 80 títulos dedicados ao público infanto-juvenil, ele fala sobre o papel dos pais em estimular o hábito da leitura entre as crianças Revista Financeiro: A que você atribui a sua afinidade e o seu sucesso com o público infanto-juvenil? Pedro Bandeira: Quando você escreve para um público mais jovem é preciso partir do pressuposto de que ele não sabe nada sobre aquilo. Ele desconhece o que foi a época de Getúlio Vargas ou a de Juscelino Kubitschek, muito menos o que significou o assassinato de John Kennedy, em 1963. Ele não sabe nada, está chegando agora. Então o encaminhe, não venha com desafios. Pouquíssimos meninos podem se interessar por um assunto tão distante deles. Quando eu era criança, Washington Luís era tão distante de mim quanto Álvares Cabral. Ou seja, é preciso inseri-lo no contexto da história. RF: Mas, existe também uma preocupação com a linguagem? Pedro Bandeira: Você adapta a sua linguagem de acordo com o seu interlocutor. Se entrar aqui

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uma criança, você vai dizer que gracinha, que belezinha. Você vai falar como um bobo para ela. Agora, se entrar aqui o embaixador do Reino Unido, você vai dirigir-se a ele como excelência e provavelmente ficará de pé. É a mesma coisa quando você escreve. Isso foi uma coisa que aprendi quando ainda era jornalista. Se eu estou trabalhando na revista Claudia, eu sei que a minha leitora é uma dona de casa, uma mulher bem enfatizada, mas não necessariamente uma intelectual. Eu levo tudo isso em conta quando estou escrevendo. RF: Quais foram outros benefícios que você trouxe do jornalismo? Pedro Bandeira: O jornalismo foi uma escola perfeita para mim. Isso porque o repórter é obrigado a não ter uma maneira de escrever. A não ser quando você fica velho, torna-se o bacana, conquista seu espaço de cronista e passa a escrever do seu jeito. Até lá, esses jornalistas comeram muita poeira. Eu tive que trabalhar nas editorias de esportes, polícia, política, fiz até horóscopo durante as férias de um colega. Além disso, você aprende no jornalismo a respeitar uma coisa sagrada que é o prazo. O horário do fechamento ninguém discute. Outra coisa, você é levado a escrever sobre diferentes assuntos. Você ganha um cultura geral que lhe permite saber um pouco de tudo. Depois de 10 anos de jornalismo, você fala sobre qualquer assunto, até culinária, se for o caso.


RF: Como os pais podem instigar nos filhos o hábito da leitura? Pedro Bandeira: É importante que esse pai mostre as coisas que ele considera boas para o filho ler? Não, o filho tem que ler o que ele quiser ler. Será bom aquilo que ele achar bom, não aquilo que você acha bom. Não, meu filho tem que ler “Memórias Póstumas de Pedro Bandeira: Brás Cubas”. Não. É um ” Nos países adiantados, livro maravilhoso, mas não existe adoção de livros você acha que um garoto de literatura nas escolas. de 14, 15 anos vai gostar Por quê? Não precisa de “Memórias Póstumas porque o papai, a mamãe, a de Brás Cubas”? Nunca, madrinha compram livros jamais. Então o deixe ler o que ele quiser. Para você, para as crianças. a escolha dele pode ser uma porcaria. Ele está numa escala de conhecimento. Não adianta puxá-lo para um degrau acima. Deixe-o subir a escada com os próprios pés. Não faça com que ele trilhe os caminhos que você trilhou. Ele não tem a sua biografia. O seu DNA não significa que ele tenha a sua biografia. Se ele tiver liberdade de acesso ao conhecimento, ele gostará de ler.

gem telegráfica. É extremamente humano, perfeito... Por que não? Agora, quando ele quer mergulhar num pensamento, passará a aceitar naturalmente a forma culta. Eu só uso norma culta e tenho livros publicados há 30 anos, desde quando lancei, em agosto de 1984, a minha série de maior sucesso, “Os Karas”, com K. Na época não havia internet, não havia celular, não havia nada nesse sentido. Hoje, o livro vende mais do que quando foi lançado. Isso se explica, porque a literatura não tem tempo. O livro não precisa ser igual à vida que a criança leva? Não, o livro tem que ser igual ao sonho que ela tem.

RF: E qual é o papel do professor em estimular o prazer da leitura nos alunos? Pedro Bandeira: Nos países adiantados, não existe adoção de livros de literatura nas escolas. Por quê? Não precisa porque o papai, a mamãe, a madrinha compram livros para as crianças. Elas têm em casa o exemplo do pai lendo um livro. Como não existe isso no Brasil, coube à escola essa tarefa. Em minha opinião, a escola pode fazer muitas coisas, mas não pode suprir um papel que a família não cumpriu. Existem pais que preferem gastar R$ 1 mil em um tênis para o filho do que pagar R$ 30 num livro.

RF: Como o legado cultural dos pais pode ser repassado para os filhos? Pedro Bandeira: Não duvide da capacidade do seu filho. Não tente amarrá-lo, pois estará limitando a capacidade dele de assimilar coisas novas. Você pode até orientar, sugerir... se ele não gostou da sugestão, recue. Deixe-o não gostar da sua sugestão. Hoje não dá para uma criança ler Monteiro Lobato. São personagens que moram num sítio, com jabuticabeira. Para um menino de hoje, a jabuticaba é no máximo a fruta que a mãe traz dentro de um saquinho do supermercado. 90% da população brasileira é urbana. É difícil sentir-se atraído por um ambiente que tem vaca, porco, sabugo de milho. Isso não faz parte da realidade deles. Hoje, o menino mora em um prédio e não quer ouvir falar em vaca mocha ou burro falante. Pode ser que você queira que o seu filho assista o “Grande Ditador”, do Chaplin. Para o menino, o filme pode ser chato. É claro que é uma grande obra-prima. Um dia, já adulto, ele vai ver o filme e descobrirá que é uma obra-prima. Mas, não force o seu filho a odiar o Chaplin. f

RF: O que você diria para os pais que ficam apavorados quando veem seus filhos escrevendo cifrado na internet? Pedro Bandeira: Antigamente, os telegramas eram cobrados por letra. Usava-se a linguagem cifrada para pagar menos. Você era VC. Era a chamada linguagem telegráfica. Então as crianças, para andarem depressa na internet, usam essa mesma lingua-

RF: Por falar nisso, como nascem os seus livros? Pedro Bandeira: Eu sou muito instintivo na entrada. Você descobre alguma coisa que é importante contar, só que a partir daí começa o trabalho. É costurar, é virar até que a ideia fique de pé. Um livro bem antigo surgiu da cadelinha de um amigo. Ela teve cinco cachorrinhos, que vinham pedir agrado. E um deles fazia aquele ganido para pedir carinho, que parecia um miado de gato. Pensei: ‘que engraçado, um cachorro que mia’. Era uma situação que poderia ser explorada para falar de preconceito. Essa era a entrada do livro. O resto é desenvolvimento. O cachorrinho miou porque era amigo de um gato. O que o pai dele, um cachorrão machão, vai achar disso? Só por que ele está miando poderia ser chamado de gay? Pronto, aí é trabalho. Eu vou precisar de um pouco de humor no começo, depois uma dose de suspense, para depois a criança refletir sobre uma situação diferente. Por que um cachorro não pode miar? Por que meu colega de escola não pode ser gordinho? Eu estou tratando, de forma indireta, do bullying. A eventual adequação educacional do livro passa a ser um papel do professor ou do pai. Eu só instigo.

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Refúgio das

águas O Grande Hotel São Pedro se reinventa sem perder o charme e se mantém como uma das principais referências turísticas do interior paulista, desde a época dos cassinos Por Evandro Ribeiro

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Fotos: Divulgação


Imagine só. Você faz uma reserva em um hotel e, antes de sua “As vilas do estadia, um mordomo liga para saber qual é golfe são os seu tipo de travesseiro nossos produtos preferido, qual é a texpremium. É o tura ideal da sua roupa de cama, se tem alguque de melhor ma restrição alimenpodemos tar, qual o seu jornal predileto, o seu vinho oferecer aos favorito, entre outros hóspedes”. mimos. Ao chegar ao Graziela Zanin, hotel, em vez daquela gerente geral experiência protocolar e burocrática, o hóspede é recepcionado com uma taça de champanhe, pelo mesmo mordomo que, alguns dias antes, quis saber das suas preferências pessoais. Essas são sutilezas que tornam o Grande Hotel São Pedro – Escola Senac, em Águas de São Pedro, a 180 km da capital paulista, uma das principais referências turísticas do Estado desde a época dos cassinos. O cliente que gosta de exclusividade e não abre mão da privacidade, a sugestão é optar por um dos confortáveis e espaçosos bangalôs (chamados de vilas), no refúgio da Vila do Golfe, em área reservada em torno de um campo de golfe de 9 mil metros quadrados. Quem se hospeda lá tem direito à atenção de um mordomo ao longo da estadia, café da manhã no quarto até ao meio-dia, menu de filmes – acompanhados de pipoca –, miniadega climatizada, ofurô, entre outros cuidados. “As vilas do golfe são os nossos produtos premium. É o que de melhor podemos oferecer aos hóspedes”, garante Graziela Zanin, gerente geral do hotel. As regalias são tantas que o cliente não precisa nem desfazer as malas. As outras suítes do hotel, apesar de não contarem com todos esses serviços, também são confortáveis, charmosas e tranquilas. Rodeado por jardins e bosques e com instalações em estilo art déco, o hotel foi inaugurado, em 1940, pelo empreendedor Octávio de Moura Andrade, um visionário que apostou no potencial turístico das fontes termais da região. A cidade naquela época nem existia, as primeiras casas surgiram só depois da fundação do hotel. Hoje, o Grande Hotel evoluiu, está supermoderno, sem perder a tradição. O poder medicinal das águas foi ampliado e agora oferece um spa completo para cuidados com a

Foto: Gabriel Kosman

Bangalô: Vila do Golfe, área em torno de um campo de golfe de 9 mil m² Foto: Gabriel Kosman

Jardim de inverno: Momentos de leitura e descontração

Fotos: Divulgação

Interior: Preservação do estilo art déco março 2014 financeiro 47


negócio&lazer Sob a administração do Senac São Paulo, o Grande Hotel São Pedro tornou-se uma das referências nacionais na formação de profissionais voltados para hotelaria e alta gastronomia

Foto: Gabriel Kosman

Bosque: Ar puro e tranquilidade

saúde e com a beleza. Além das três piscinas distribuídas na área comum do hotel, o hóspede pode se energizar com o clássico banho de imersão em águas sulfurosas, fazer massagens terapêuticas e tratamentos estéticos faciais e corporais. Se ainda sobrar disposição, ele pode movimentar-se nas quadras de tênis, vôlei e basquete. Sob a administração do Senac São Paulo, o Grande Hotel São Pedro tornou-se também uma das primeiras referências nacionais na formação de profissionais voltados para hotelaria e para a alta gastronomia. Esse perfil educacional foi uma das estratégias usadas para manter o glamour dos anos 40, quando o hotel abrigava em seus salões um concorrido cassino, que atraía artistas e a aristocracia paulista. Contudo, em 1946, com a proibição do jogo no Brasil, o Grande Hotel buscou algumas alternativas e o conceito hotel/escola, já em 1969, foi o que se mostrou mais atraente e lucrativo. Segundo Graziela Zanin, 80% dos funcionários saíram dos cursos profissionalizantes ministrados ali, inclusive ela. Com um quadro de colaboradores tão preparado, o restaurante do hotel oferece aos hóspedes diversas alternativas gastronômicas. No Engenho das Águas, ele pode experimentar o Cabra Safado, guisado de bode com massapê de mandioca, purê que faz alusão ao barro tí-

Foto: Gabriel Kosman

Arquitetura: Atmosfera dos anos 40

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Foto: Divulgação

pico do Ceará. Também conhecer ingredientes típicos nacionais, como maxixe, pirarucu, priprioca (erva da região amazônica) e aviú (microcamarão abundante nas águas dos rios do Pará). Para variar, no dia seguinte, o hóspede pode optar por capeletti de codorna com creme de abóbora. Na seleção dos doces, o chef Jorge da Hora sugere um petit gâteau, preparado com cacau 70% da Bahia, acompanhado de sorvete de maracujá. Além disso, o menu tem outras tentações: quindim, arroz-doce com aroma de capim cidreira, manjar de coco com calda de ameixa, torta de castanha e sorvete de tapioca. Como Águas de São Pedro é uma cidade muito pacata, o hotel tem uma programação de lazer organizada de acordo com as faixas etárias dos hóspedes. “As nossas atividades são divididas por segmentação. Temos o miniclube, que reúne a criançada de 3 a 6 anos, o grupo dos pré-adolescentes, de 6 a 12 anos, depois o dos adolescentes e dos jovens, o pessoal adulto e os clientes mais experientes, conhecidos carinhosamente como da melhor idade, explica Graziela Zanin, gerente geral do hotel. A área de lazer tem opção para todo mundo, para quem não quer fazer nada o dia inteiro e para quem quer praticar esporte o tempo todo. Pensamos até naqueles que desejam ficar abraçando uma das 1,2 milhão árvores espalhadas no nosso parque”, brinca Graziela. São tantos os encantos do Grande Hotel São Pedro que o livro Gastronomia & História revela que a música Café da Manhã, sucesso de Roberto Carlos, foi composta, em 1978, entre os lençóis de uma das suítes. Já o escritor Ignácio de Loyola Brandão fez do lugar o cenário ideal da lua de mel de Rosa e José, protagonistas no romance Zero. Se gostou da dica, faça as malas e venha viver a sua história nesse ambiente cheio recordações, beleza e conforto. f

Spa personalizado: Além das três piscinas, o hóspede pode se energizar com o banho de imersão em águas sulfurosas

Serviço Grande Hotel São Pedro Parque Dr. Octávio de Moura Andrade, s/n Águas de São Pedro – SP www.grandehotelsenac.com.br Tel. (19) 3482-7600 março 2014 financeiro 49


happyhour

Cheers!

Um brinde ao verão Nas happy hours ou nos encontros informais de negócios, os drinques refrescantes são ótimas opções para tornar o bate-papo mais agradável

Foto: Gabriel Kosman e Mauro Holanda

Por Liliana Liberato

Que tal substituir o uísque ou até mesmo a cerveja – uma das paixões nacionais nesses dias quentes de verão – por um drinque que possui um mix de sabores das frutas típicas da estação, com bebidas que relaxam e também refrescam? Os dias mais longos e de temperaturas mais elevadas são convidativos a essa experiência. Para vivenciá-la, bares e restaurantes dispõem de muitas opções que, seguindo algumas recomendações, podem ser feitas e saboreadas com a família e com os amigos, nos momentos de descontração e lazer. Quem desvenda os segredos desses drinques é o tarimbado barman Derivan Ferreira de Souza, titular do Bar Número, em São Paulo, que soma 42 anos de profissão, oito publicações sobre o tema e muitos prêmios, como o Mundial de Coquetelaria. “Os drinques de verão têm um apelo especial, tanto no preparo quanto no

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Mestre Derivan: barman de Frank Sinatra, Bono Vox, Hebe e Pelé Serviço Bar Número – Rua da Consolação, 3585 – Cerqueira César – São Paulo (SP), tel.: 55 11 3161-3995.

modo de servir. A estação pede frutas frescas, bebidas de baixo teor alcoólico, água gaseificada e sucos. Antes da escolha, no entanto, é preciso identificar o momento a ser servido. Para cada ocasião há um momento que harmoniza. Os aperitivos para antes das refeições. Os digestivos após. Os long drinks nas horas de distração e os hot drinks nos dias frios”, revela. Outro segredo – compartilhado por quem já preparou drinques para Frank Sinatra, Bono Vox, Hebe Camargo, Pelé e Adoniran Barbosa – é o ato de preparar e servir. “Ao descrever os ingredientes e o modo de preparo aos nossos convidados, temos que buscar surpreender o paladar, despertar os sentidos, aguçar a saliva, a vontade de provar”, complementa Derivan.


Clássicos & Contemporâneos É também no verão que muitos drinques clássicos e atemporais ganham uma releitura e voltam ao topo dos mais pedidos. A caipirinha é um deles que, na repaginação do Mestre Derivan, recebeu o nome de Caipiry. Todo verão também tem uma novidade. Em 2014, a novidade coube ao Café Oden Spritz, concebido em um dos bares da histórica Plaza San Marco, em Veneza, na Itália. De lá, já ganhou fama mundial e, atualmente, está entre os mais pedidos aqui no Brasil. Outras sugestões do barman são o Clericot, com baixo teor alcoólico; o Rouge, para quem não consome bebida alcoólica, e o Mosaico, para os que fazem questão de acompanhar as tendências. Entre os clássicos, mantém-se o Sex on the Beach, além do Dry Martini, do Manhattan, do Blood Mary e do Negroni. De acordo com o barman, seguir as recomendações indicadas é certeza de elogios. Então, escolha o seu, prepare, e confira se, de fato, tem razão. Cheers! f

Café Oden Spritz

Caipiry

40 ml de Aperol 60 ml de espumante brut 20 ml de água com gás

40 ml de cachaça 1 tangerina em cubos 1 colher de açúcar 15 ml de St. Rémy

Modo de preparo Em um copo para vinho Bordeaux, coloque gelo. Quando mais gelo, mais refrescante. Em seguida, coloque os ingredientes. Misture bem e decore com uma fatia de laranja.

Rouge 3 morangos 3 amoras 2 cerejas em conserva Complete com água tônica Modo de preparo Em um copo long, coloque as frutas e amasse bem. Em seguida, coloque bastante gelo. Complete com água tônica.

Modo de preparo Em um copo para caipirinha, coloque a tangerina e o açúcar. Pressione delicadamente. Em seguida, coloque a cachaça e complete com gelo. Decore com fatias de tangerina no copo.

Sex on the Beach 40 ml de vodca 15 ml de Peach Stock 80 ml de suco de laranja 1 lance de Kaly Grenadine Modo de preparo Em um copo long drink, coloque gelo e em seguida a vodca, o licor e o suco de laranja. Misture bem. Decore com uma fatia de laranja e uma cereja, finalize com o Kaly Grenadine.

Clericot 1 maçã-verde picada com casca sem sementes 2 rodelas de abacaxi picadas 1 carambola pequena fatiada 1 laranja picada sem pele e sem sementes 20 ml de licor Curaçau 300 ml de soda limonada 500 ml de vinho branco Açúcar a gosto

Modo de preparo Em uma jarra de 2 litros, coloque as frutas, o licor e os outros ingredientes. Em seguida, gelo à vontade. Misture tudo e sirva em copos de vinho branco.

Mosaico 1 cubo pequeno de gelatina de limão com vodca 1 cubo pequeno de gelatina de cereja com cassis 1 cubo pequeno de gelatina neutra com curaçau blue 1 cubo pequeno de gelatina de uva simples Espumante gelado para completar 1 fatia de carambola para decorar Modo de preparo Siga as instruções de preparo da gelatina e, na finalização, acrescente a cada uma o correspondente a 100 ml de cada bebida solicitada. Conserve-a na geladeira e, no momento de usar, corte em cubos ou utilize uma colher de chá para enformar. Em uma taça flute, previamente gelada, coloque as gelatinas e em seguida complete com o espumante brut. Decore com a carambola.

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qualidadedevida

É preciso saber viver Por Geyse Alencar

Imagine as situações. Você faz uma ligação e, minutos depois, o motoboy entrega seu jantar, enquanto perde horas a fio no trânsito de São Paulo. Um jovem workaholic infarta, aos 27 anos, e cai no chão impecavelmente vestido com sua camisa de algodão egípcio. Um profissional heavy user em tecnologia saca do bolso sua caneta digital que detecta, na hora, a necessidade diária de minerais do organismo. Caso a taxa esteja insuficiente, o acessório alerta e indica a pílula que deve ser ingerida imediatamente. Essas situações fictícias, que chamam a atenção para o ritmo frenético em que mundo está caminhando, é o ponto de partida do livro “Desacelera, Mundo! Na contramão para viver melhor”, terceira obra do advogado, administrador e consultor tributário Mário Shingaki e a primeira voltada para as questões ligadas à qualidade de vida. O livro está dividido em áreas, como tecnolo-

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gia, comportamento, consumo e sustentabilidade. Com uma proposta de leitura leve e descontraída, Shingaki faz questionamentos sobre estilo de vida e a busca da tão almejada felicidade. Ao mesmo tempo, sugere estratégias para pequenas mudanças na rotina diária que resultarão em ótimos benefícios. “Muitas vezes, a correria para dar conta de todos os afazeres não permite desacelerar para perceber os pequenos prazeres e ‘viver melhor’”, explica Shingaki. “Em uma tarde de segunda-feira chuvosa, comecei a fazer alguns questionamentos sobre meu estilo de vida, a forma como conduzo meu dia e se isso me deixa feliz ou triste. A partir dessa análise, surgiu a ideia de escrever sobre o assunto”, conta Shingaki, num tom de voz calmo e pausa-

Mario Shingaki: “dar conta de todos os afazeres não permite desacelerar para perceber os pequenos prazeres”

Foto: Divulgação

Livro “Desacelera, Mundo!” desafia os leitores a uma revisão do seu estilo de vida


do, características que lhe são naturais e que O segredo procura levar para todas as situações da vida. O infarto fulminante de um amigo durante o da qualidade expediente foi o gatilho que despertou a consde vida está ciência de Vinicius Branco, 57 anos, advogado e no equilíbrio: sócio do escritório Levy & Salomão, em relação profissional, à qualidade de vida. “Eu sempre tive vontade de fazer um ano sabático, mas depois desse inci- social, saúde, dente, eu percebi que o mesmo poderia aconteespiritual e cer comigo, a qualquer momento, em função do familiar ritmo de trabalho: doze horas por dia, sete dias por semana. Eu tinha vontade, tinha dinheiro, mas me sentia refém do das atividades profissionais”, relembra. “No mundo, tempo é dinheiro. No mercado financeiro, isso é ainda mais intenso”, define Branco, que também foi executivo do Citibank e do Bank of Boston. Esse fato traumático foi um divisor de águas e mudou o rumo da vida de Branco. Ele pediu licença do trabalho e, ao lado da esposa, tirou um período sabático de um ano e foi para o Alasca de carro. Todas Trilha da longevidade as experiências dessa aventura podem ser conferidas no site www.vbranco.com.br. Depois deste tempo de tranquilidade, o retorno A comunidade médica, de forma uníssona, recomenda a prática ao mercado foi bem diferente. As longas jornadas regular de exercícios físicos. É notório que a atividade libera de trabalho foram substituídas por uma programaendorfina, que gera bem-estar. Além disso, há outras dicas ção mais organizada e equilibrada do tempo dedipráticas e realistas que podem ajudar no aperfeiçoamento da cado ao expediente profissional. “Continuo trabaqualidade de vida: lhando com a mesma eficiência, mas parei de levar para casa projetos que ocupam parte dos meus fins de semana. Sigo em frente, mas não no mesmo • Alimentar-se de forma saudável: “Comer como rainha no café da manhã, como princesa no almoço e como mendigo à ritmo”, alegra-se Branco. noite”, segundo Kofhiro Otoni. “As doenças relacionadas ao esforço repetitivo • Ter vida afetiva satisfatória (família, amigos, colegas). e aos transtornos mentais, como depressão e sín• Analisar itens de consu mo: será realmente necessário drome do pânico, lideram os afastamentos do tratrocar de celular ou de carro? balho protocolados na Previdência Social”, conta o • Aprender a dizer não. • Delegar mais ao time de trabalho. médico sanitarista e do trabalho, Koshiro Otani, 64 • Estabelecer agenda de compromissos culturais. “Comprar anos, sendo 38 dedicados à medicina. ingressos para temporadas é uma boa dica”, sugere Otani analisa o estilo da sociedade contemporâVinicius Branco. nea: “Vivemos de forma apressada. As pessoas não • Repensar seus sonhos. Estão distantes? Encurte-os. estão na correria apenas para conquistar um salário • Ajudar mais o próximo com tempo e trabalho e não com no fim do mês, mas pelo simples fato de correr e se dinheiro. “Realizar uma atividade pro bono por ano. É compensador”, garante Mário Shingaki. acostumam a isso. Longas jornadas comprometem o • Fazer curso sobre assuntos que não estão relacionados bem-estar físico e mental, prejuízos que podem levar à sua profissão. Aumentar o repertório em outras áreas a doenças físicas e emocionais”. do conhecimento oxigena a rotina e contribui para a O segredo da tão esperada qualidade de vida criatividade. está no equilíbrio: profissional, social, saúde, espi• Lutar pela felicidade de quem você ama, sem egoísmo. ritual e familiar. Como diz a composição de Roberto e Erasmo Carlos e, posteriormente também interpretada pelo grupo Titãs, “É preciso saber viver”. f março 2014 financeiro 53


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bancodedadosinepad

Incertezas ou oportunidades O mercado de crédito brasileiro está em foco devido à sua alta expansão nos últimos anos. Principalmente, após a crise de 2008, quando o estímulo ao crédito foi utilizado pelo governo como medida de resgate ou fortalecimento da economia frente às ameaças externas. Nota-se que o crescimento da carteira das pessoas físicas (PF) foi superior ao das pessoas jurídicas (PJ) nos anos de 2009 e 2010, considerando-se as medidas de estímulo à demanda e a desaceleração das atividades empresariais em decorrência do cenário internacional pessimista. Porém, com um cenário já mais otimista a partir de 2011 e 2012, ocorreu um maior crescimento da carteira das PJ, como pode ser visto no gráfico 2. Contudo, ao analisar o período que vai de dez/07 a dez/13 (gráfico 1), percebe-se que há um maior crescimento da carteira de PF, passando de R$ 432,4 bilhões para R$ 1,25 trilhão, ou seja, um crescimento real de 108%. Já a carteira de PJ passou de R$ 511,5 bilhões para R$ 1,46 trilhão, crescimento de 105%. Há, também, de se levar em consideração o crescimento total da carteira, que passou de R$ 944 bilhões em dez/07 para R$ 2,7 trilhões em dez/13, o que representa um crescimento real de 106%. Porém, mesmo com esse crescimento, a relação crédito/PIB brasileira, de 68%, ainda é inferior ao de países como Espanha,

Alemanha, Estados Unidos e China que apresentam, todos, relações crédito/ PIB superiores a 100% em 2012, segundo dados do WorldBank. Também se notam menores índices de crescimento do mercado de crédito nos anos de 2012 e 2013, sendo 2013 o ano com menores índices para as carteiras de PF e PJ. Isso remete a uma indicação do mercado, uma vez que o governo manifestou preocupação com o fechamento fiscal dos bancos públicos. Dessa forma, essas instituições, que foram vitais para a expansão do mercado de crédito, passariam a ter uma atuação mais conservadora no mercado, levando, talvez, a uma retração no mercado de crédito.

Foto: Divulgação

no mercado de crédito brasileiro

Por Prof. Dr. Alberto Borges Matias, com colaboração de João Gabriel Sehn

Gráfico 1 – Saldo das Carteiras de PF e PJ

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bancodedadosinepad Gráfico 1 – Saldo das Carteiras de PF e PJ

Elaborado pelo Centro de Pesquisas do INEPAD - Núcleo CEPEFIN Elaboração:

Agora, com o foco para o crédito pessoal, percebe-se uma evolução de 112% na carteira total entre dez/07 e dez/13, passando de R$ 88 bilhões para R$ 319 bilhões. Crescimento, em suma, devido à expansão do consignado, que apresentou 133% de crescimento real no seu volume no mesmo período, passando de R$ 54 bilhões para R$ 222 bilhões. Já o crédito pessoal não consignado apresentou variação mais modesta, de 76%, passando de R$ 35 bilhões para R$ 98 bilhões. Gráfico 1 – Saldo das Carteiras de PF e PJ

Alberto Borges Matias – Diretor Presidente do INEPAD. Professor titular do Departamento de Administração da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo no campus de Ribeirão Preto. Livre docente em Finanças, atuando nos programas de graduação, pós-graduação e MBAs da Universidade

Apoio:

João Gabriel Sehn – Pesquisador do Centro de Pesquisas do INEPAD – Núcleo CEPEFIN. Graduando em Economia Empresarial e Controladoria pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo no Campus de Ribeirão Preto Um bom reflexo dessa expansão do crédito é o maior acesso a linhas de crédito por parte dos consumidores, assim tendo reflexo nos indicadores de endividamento das famílias. Nota-se que os níveis de endividamento, quando considerado o crédito habitacional, passaram de 29,2% em nov/07 para 45,5% em nov/13. Já quando é desconsiderado o crédito habitacional, os níveis são menores, passando de 25,2% para 30% no mesmo período. Nota-se que o crescimento da série com o crédito habitacional é de 16,3 p.p., sendo,

56 financeiro março 2014


então, maior que o crescimento de 4,8 p.p. da série que exclui o crédito habitacional. Com isso percebe-se um perfil positivo do endividamento, com crescimento do crédito voltado para a aquisição da casa própria, por exemplo.

Gráfico 1 – Saldo das Carteiras de PF e PJ

Também se notam menores índices de crescimento do mercado de crédito nos anos de 2012 e 2013, sendo 2013 o ano com menores índices para as carteiras de PF e PJ

Já no lado da oferta, o reflexo da expansão de crédito está no crescimento das vendas (gráfico 5). O índice de volume de vendas no varejo passou de 103,2 em dez/07 para 150,1 em dez/13. Vale ressaltar que os níveis de dezembro são sazonais devido às compras de fim de ano. Porém, mesmo as médias anuais aumentaram bastante, passando de 73,2 em 2007 para 113 em 2013. f

Gráfico 1 – Saldo das Carteiras de PF e PJ

março 2014 financeiro 57


bancodedadosinepad Taxas Médias: geral DATA

Aplicações

Var. p.p.

Captações

Var. p.p.

Spread

Var. p.p.

dez/12 jan/13 fev/13 mar/13 abr/13 mai/13 jun/13 jul/13 ago/13 set/13 out/13 nov/13 dez/13

18,0 18,6 18,7 18,5 18,5 18,1 18,5 19,1 19,3 19,5 19,8 20,0 19,7

-0,9 0,6 0,1 -0,2 0,0 -0,4 0,4 0,6 0,2 0,2 0,3 0,2 -0,3

6,5 6,4 6,7 6,8 6,8 6,9 7,6 7,7 8,0 8,2 8,2 8,5 8,6

-0,1 -0,1 0,3 0,1 0,0 0,1 0,7 0,1 0,3 0,2 0,0 0,3 0,1

11,5 12,2 12,0 11,7 11,7 11,2 10,9 11,4 11,3 11,3 11,6 11,5 11,1

-0,8 0,7 -0,2 -0,3 0,0 -0,5 -0,3 0,5 -0,1 0,0 0,3 -0,1 -0,4

Variação dez-dez

1,7

2,1

-0,4 Fonte: BC / INEPAD

Taxas Médias: Pessoa física DATA dez/12 jan/13 fev/13 mar/13 abr/13 mai/13 jun/13 jul/13 ago/13 set/13 out/13 nov/13 dez/13 Variação dez-dez

Aplicações

Var. p.p.

Captações

Var. p.p.

Spread

Var. p.p.

24,3 24,7 24,9 24,5 24,3 24,0 24,2 25,1 25,2 25,6 26,2 26,1 25,6

-0,8 0,4 0,2 -0,4 -0,2 -0,3 0,2 0,9 0,1 0,4 0,6 -0,1 -0,5

6,6 6,7 7,0 7,1 7,0 7,1 8,0 8,2 8,6 8,8 8,8 9,1 9,2

-0,2 0,1 0,3 0,1 -0,1 0,1 0,9 0,2 0,4 0,2 0,0 0,3 0,1

17,7 18,0 17,9 17,4 17,3 16,9 16,2 16,9 16,6 16,8 17,4 17,0 16,4

-0,6 0,3 -0,1 -0,5 -0,1 -0,4 -0,7 0,7 -0,3 0,2 0,6 -0,4 -0,6

1,3

2,6

-1,3 Fonte: BC / INEPAD

Taxas Médias: Pessoa física DATA dez/12 jan/13 fev/13 mar/13 abr/13 mai/13 jun/13 jul/13 ago/13 set/13 out/13 nov/13 dez/13 Variação dez-dez

Aplicações

Var. p.p.

Captações

Var. p.p.

Spread

Var. p.p.

13,3 14,0 14,0 14,0 14,0 13,5 14,1 14,4 14,7 14,7 14,8 15,2 15,1

-0,9 0,7 0,0 0,0 0,0 -0,5 0,6 0,3 0,3 0,0 0,1 0,4 -0,1

6,3 6,2 6,4 6,5 6,6 6,7 7,3 7,3 7,5 7,7 7,8 8,1 8,2

-0,1 -0,1 0,2 0,1 0,1 0,1 0,6 0,0 0,2 0,2 0,1 0,3 0,1

7,0 7,8 7,6 7,5 7,4 6,8 6,8 7,1 7,2 7,0 7,0 7,1 6,9

-0,8 0,8 -0,2 -0,1 -0,1 -0,6 0,0 0,3 0,1 -0,2 0,0 0,1 -0,2

58 financeiro março 2014

1,8

1,9

-0,1 Fonte: BC / INEPAD


Consignados: saldo de operações de crédito crédito consignado (R$ milhões) Crédito pessoal Mês/Ano

Não consignado

dez/12 jan/13 fev/13 mar/13 abr/13 mai/13 jun/13 jul/13 ago/13 set/13 out/13 nov/13 dez/13

90.225 91.079 91.627 92.940 94.042 94.904 95.634 95.736 96.486 97.579 98.605 99 391 97 614

Fonte: BC / INEPAD

Taxa de Juros %a.a. Total

Consignado 116.039 117.713 119.680 121.674 124.091 126.450 128.603 130.421 132.123 133.439 134.936 136 349 137 157

16.244 16.391 16.535 16.811 16.964 17.223 17.401 17.504 17.727 17.860 17.950 17 965 17 941

56.595 58.062 59.219 60.356 61.412 62.706 63.386 64.181 65.102 65.536 65.893 66 314 66 743

188.878 192.166 195.434 198.841 202.467 206.379 209.390 212.106 214.952 216.835 218.779 220 628 221 841

279.103 283.245 287.061 291.781 296.509 301.283 305.024 307.842 311.438 314.414 317.384 320 019 319 455

Consignado 24,5 24,5 24,7 24,6 24,3 24,2 24,2 24,4 24,5 24,3 24,6 24,5 24,4

Crédito Diferença Pessoal 36,9 37,3 37,9 37,2 36,8 36,7 38,0 39,8 39,7 40,3 42,2 41,7 41,3

12,4 12,8 13,2 12,6 12,5 12,5 13,8 15,4 15,2 16,0 17,6 17,2 16,9

março 2014 financeiro 59


bancodedadosinepad Saldo da carteira de crédito - pessoa física

18.288 20.046 20.800 20.244 21.220 21.118 20.478 20.962 21.086 22.025 22.058 21.244 20.154

-8,4 9,6 3,8 -2,7 4,8 -0,5 -3,0 2,4 0,6 4,5 0,1 -3,7 -5,1

126.614 126.273 122.107 122.141 123.598 126.433 125.372 129.369 130.019 131.437 133.682 135.236 144.738

CRÉDITO PESSOAL NÃO CONSIGNADO VINCULADO À DÍVIDA

6,0 -0,3 -3,3 0,0 1,2 2,3 -0,8 3,2 0,5 1,1 1,7 1,2 7,0

21.480 21.551 21.562 21.609 21.662 21.773 21.764 21.721 21.739 21.558 21.500 21.416 21.195

CRÉDITO PESSOAL VARIAÇÃO Crédito Variação Crédito pessoTOTAL EM % pessoal não al consignado Variação em % em % total consignado 2,4 0,3 0,1 0,2 0,2 0,5 0,0 -0,2 0,1 -0,8 -0,3 -0,4 -1,0

90.225 91.079 91.627 92.916 93.944 94.945 95.663 95.736 96.787 97.579 98.605 99.391 97.614

-0,9 0,9 0,6 1,4 1,1 1,1 0,8 0,1 1,1 0,8 1,1 0,8 -1,8

188.879 192.166 195.434 198.825 202.469 206.309 209.304 212.106 214.728 216.835 218.779 220.628 221.842

0,6 1,7 1,7 1,7 1,8 1,9 1,5 1,3 1,2 1,0 0,9 0,8 0,6

279.104 0,1 283.245 1,5 287.061 1,3 291.741 1,6 296.412 1,6 301.254 1,6 304.967 1,2 307.842 0,9 311.515 1,2 314.414 0,9 317.384 0,9 320.019 0,8 319.456 -0,2

Fonte: BC / INEPAD

dez/12 jan/13 fev/13 mar/13 abr/13 mai/13 jun/13 jul/13 ago/13 set/13 out/13 nov/13 dez/13

CHEQUE VARIAÇÃO CARTÃO DE VARIAÇÃO CRÉDITO EM % EM % ESPECIAL

VARIAÇÃO EM %

MÊS / ANO

recursos livres - (R$ milhões)

Saldo da carteira de crédito - pessoa física ARRENDAMENTO MERCANTIL

Veículos 193.215 193.474 192.763 192.795 192.490 192.060 191.979 193.946 194.008 193.106 193.026 193.078 192.816

Variação em % 1,3 0,1 -0,4 0,0 -0,2 -0,2 0,0 1,0 0,0 -0,5 0,0 0,0 -0,1

203.665 203.968 203.185 203.225 202.988 202.717 202.783 204.825 205.078 204.029 204.133 204.246 204.237

1,4 0,1 -0,4 0,0 -0,1 -0,1 0,0 1,0 0,1 -0,5 0,1 0,1 0,0

17.913 16.762 15.738 14.746 13.732 12.809 12.040 11.167 10.410 9.724 9.064 8.498 7.906

Outros bens Variação em % 10.450 10.494 10.422 10.430 10.498 10.657 10.804 10.879 11.070 10.923 11.107 11.168 11.421

2,8 0,4 -0,7 0,1 0,7 1,5 1,4 0,7 1,8 -1,3 1,7 0,5 2,3

VARIAÇÃO EM % -6,1 -6,4 -6,1 -6,3 -6,9 -6,7 -6,0 -7,3 -6,8 -6,6 -6,8 -6,2 -7,0

DESCONTO DE CHEQUES 1.673 1.637 1.650 1.634 1.590 1.583 1.587 1.525 1.553 1.538 1.524 1.575 1.550

-0,7 -2,2 0,8 -1,0 -2,7 -0,4 0,3 -3,9 1,8 -1,0 -0,9 3,3 -1,6

OUTROS CRÉDITOS LIVRES 23.870 24.053 24.635 25.032 25.941 25.923 26.250 26.279 26.417 25.700 25.167 25.699 25.988

0,6 0,8 2,4 1,6 3,6 -0,1 1,3 0,9 0,5 -2,7 -2,1 2,1 1,1

Fonte: BC / INEPAD

VARIAÇÃO EM %

VARIAÇÃO EM %

dez/12 jan/13 fev/13 mar/13 abr/13 mai/13 jun/13 jul/13 ago/13 set/13 out/13 nov/13 dez/13

TOTAL

AQUISIÇÃO

VARIAÇÃO EM %

MÊS / ANO

recursos livres - (R$ milhões)

recursos direcionados - (R$ milhões) VARIAÇÃO - FINANC. IMOBILIVARIAÇÃO MÊS / CRÉDITO RURECURSOS LIVRES (R$ Milhões) ANO

dez/12 jan/13 fev/13 mar/13 abr/13 mai/13 jun/13 jul/13 ago/13 set/13 out/13 nov/13 dez/13

RAL TOTAL

EM %

ÁRIO TOTAL

EM %

FINANC. RECURSOS DO BNDES

VARIAÇÃO EM %

MICROCRÉDITO TOTAL

VARIAÇÃO EM %

OUTROS CRÉDITOS DIRECIONADOS

VARIAÇÃO EM %

90.655 90.480 90.964 92.705 94.192 97.014 101.736 99.448 103.181 105.950 108.036 110.966 115.354

4,9 -0,2 0,5 1,9 1,6 3,0 4,9 -2,2 3,8 2,7 2,0 2,7 4,0

255.367 261.344 266.577 273.917 281.343 289.652 298.396 306.493 314.896 319.441 326.403 333.878 341.466

2,7 2,3 2,0 2,8 2,7 3,0 3,0 2,7 2,7 1,4 2,2 2,3 2,3

29.172 30.221 31.156 32.146 32.991 32.839 33.119 33.527 34.086 34.504 35.026 35.688 37.149

2,5 3,6 3,1 3,2 2,6 -0,5 0,9 1,2 1,7 1,2 1,5 1,9 4,1

3.798 3.823 3.824 3.879 3.936 4.027 4.170 4.116 4.158 4.188 4.423 4.873 5.395

6,4 0,7 0,0 1,4 1,5 2,3 3,6 -1,3 1,0 0,7 5,6 10,2 10,7

4.174 3.937 4.039 4.454 4.491 4.573 4.755 5.109 5.314 6.074 6.169 6.343 6.708

5,0 -5,7 2,6 10,3 0,8 1,8 4,0 7,4 4,0 14,3 1,6 2,8 5,8

Fonte: BC / INEPAD

60 financeiro março 2014

Fonte: BC / INEPAD

Saldo da carteira de crédito - pessoa física


Gráfico do crédito pessoal Data jun/07 jul/07 ago/07 set/07 out/07 nov/07 dez/07 jan/08 fev/08 mar/08 abr/08 mai/08 jun/08 jul/08 ago/08 set/08 out/08 nov/08 dez/08 jan/09 fev/09 mar/09 abr/09 mai/09 jun/09 jul/09

Saldo 59.085 61.639 63.483 64.990 66.842 67.089 68.259 69.758 71.083 72.900 74.510 75.967 76.744 77.987 79.161 80.137 81.916 81.761 82.853 83.203 81.393 83.665 87.384 89.592 91.998 94.475

Taxa de Juros 51,06 50,61 49,89 49,43 48,88 46,75 45,80 53,08 52,59 50,48 50,60 48,39 51,39 53,59 54,49 56,31 57,42 59,88 60,44 56,51 54,49 50,84 48,78 46,62 45,64 44,78

Data ago/09 set/09 out/09 nov/09 dez/09 jan/10 fev/10 mar/10 abr/10 mai/10 jun/10 jul/10 ago/10 set/10 out/10 nov/10 dez/10 jan/11 fev/11 mar/11 abr/11 mai/11 jun/11 jul/11 ago/11 set/11

Saldo 97.297 99.518 101.735 103.450 107.283 109.248 111.396 115.128 117.580 119.875 121.546 123.631 126.750 128.691 131.057 133.419 136.312 139.246 141.840 142.150 143.935 145.738 147.892 150.587 154.027 155.626

Data out/11 nov/11 dez/11 jan/12 fev/12 mar/12 abr/12 mai/12 jun/12 jul/12 ago/12 set/12 out/12 nov/12 dez/12 jan/13 fev/13 mar/13 abr/13 mai/13 jun/13 jul/13 ago/13 set/13 out/13 nov/13 dez/13

Taxa de Juros 44,29 44,71 45,74 43,64 44,35 44,83 43,81 42,69 42,87 43,04 41,97 42,21 41,96 41,63 43,55 41,99 44,11 48,32 47,96 43,01 44,34 44,56 44,52 45,01 44,52 44,64

Fonte: BC / INEPAD

Saldo 157.277 159.117 159.349 161.858 164.769 167.349 170.256 174.031 177.161 179.884 183.040 182.506 185.434 187.712 188.879 192.166 195.434 198.825 202.469 206.309 209.304 212.106 214.728 216.815 218.958 220.628 221.842

Taxa de Juros 45,34 43,64 42,4 44,8 45,2 43,9 41,4 39,3 38,2 38,6 38 37,7 37,8 37,1 36,9 37,3 37,9 37,2 36,8 36,7 38,1 39,8 39,7 40,4 42,2 41,7 41,3

Fonte: BC / INEPAD

Saldo da carteira de crédito - pessoa física MÊS / ANO

Saldo (R$ milhões) e percentual (%) da carteira de crédito com recursos livres PF Total e com atraso entre 15 e 90 dias

dez/12 jan/13 fev/13 mar/13 abr/13 mai/13 jun/13 jul/13 ago/13 set/13 out/13 nov/13 dez/13

CRÉDITO PESSOAL Saldo total 271.628 275.565 278.776 279.104 283.245 287.061 291.741 296.412 301.254 304.967 307.842 311.515 314.414

AQUISIÇÃO DE VEÍCULOS

Com atraso de % sobre saldo da carteira 15 a 90 dias 10.811 12.097 12.155 12.141 12.774 11.655 11.465 11.797 11.719 12.656 12.375 11.869 13.425

3,98% 4,39% 4,36% 4,35% 4,51% 4,06% 3,93% 3,98% 3,89% 4,15% 4,02% 3,81% 4,27%

Saldo total 190.167 190.419 190.778 193.215 193.474 192.763 192.795 192.490 192.060 191.979 193.946 194.008 193.106

AQUISIÇÃO DE OUTROS BENSSOAL

Com atraso de % sobre saldo da carteira 15 a 90 dias 16.012 15.843 16.064 17.351 16.736 16.539 15.925 15.707 15.000 15.704 15.768 15.424 14.946

8,42% 8,32% 8,42% 8,98% 8,65% 8,58% 8,26% 8,16% 7,81% 8,18% 8,13% 7,95% 7,74%

Saldo total 9.794 9.982 10.162 10.450 10.494 10.422 10.430 10.498 10.657 10.804 10.879 11.070 10.923

Com atraso de % sobre saldo da carteira 15 a 90 dias 672 732 802 874 855 810 787 785 764 756 780 782 720

6,86% 7,33% 7,89% 8,36% 8,15% 7,77% 7,55% 7,48% 7,17% 7,00% 7,17% 7,06% 6,59%

março 2014 financeiro 61


bancodedadosinepad

Fonte: BC / INEPAD

Juros Taxa média de juros das operações de crédito com recursos livres - Pessoa Física AQUISIÇÃO DE BENS - VEÍCULOS

AQUISIÇÃO DE BENS - OUTROS

MÊS / ANO

CRÉDITO PESSOAL

R$ Milhões

% am

Varição p.p

dez/12

188.879

2,65

-0,01

36,90

-0,20

193.215

1,51

-0,05

19,75

-0,72

10.450

4,74

0,17

74,36

3,42

jan/13

192.166

2,68

0,02

37,30

0,40

193.474

1,57

0,05

20,53

0,78

10.494

4,55

-0,19

70,57

-3,79

Saldo total

Saldo total

Taxa de juros % aa

Varição p.p

R$ Milhões

Saldo total

Taxa de juros % am

Varição p.p

Taxa de juros

% aa

Varição p.p

R$ Milhões

% am

Varição p.p

% aa

Varição p.p

fev/13

195.434

2,71

0,04

37,90

0,60

192.763

1,56

0,00

20,46

-0,07

10.422

4,49

-0,07

69,30

-1,27

mar/13

198.825

2,67

-0,04

37,20

-0,70

192.795

1,51

-0,05

19,73

-0,73

10.430

4,45

-0,03

68,63

-0,67

abr/13

202.469

2,65

-0,02

36,80

-0,40

192.500

1,53

0,01

19,92

0,19

10.503

4,43

-0,02

68,25

-0,38

mai/13

206.309

2,64

-0,01

36,70

-0,10

192.060

1,51

-0,01

19,73

-0,19

10.657

4,32

-0,11

66,20

-2,05

jun/13

209.304

2,72

0,08

38,00

1,30

191.979

1,49

-0,02

19,47

-0,26

10.804

4,33

0,01

66,40

0,20

jul/13

212.106

2,83

0,11

39,80

1,80

193.946

1,55

0,06

20,28

0,81

10.879

4,39

0,06

67,49

1,09

ago/13

214.728

2,83

-0,01

39,70

-0,10

194.008

1,60

0,04

20,92

0,64

11.070

4,39

0,00

67,55

0,06

set/13

314.414

2,86

0,04

40,34

0,64

193.106

1,64

0,05

21,60

0,68

10.923

4,43

0,03

68,17

0,62

out/13

317.384

2,98

0,11

42,23

1,89

193.026

1,59

-0,05

20,83

-0,77

11.107

4,58

0,16

71,19

3,02

nov/13

320.019

2,95

-0,03

41,72

-0,51

193.078

1,62

0,03

21,28

0,45

11.168

4,65

0,07

72,57

1,38

dez/13

319.456

2,92

-0,02

41,32

-0,40

192.816

1,62

0,00

21,29

0,01

11.421

4,93

0,28

78,13

5,56

Fonte: BC / INEPAD

Atividade Econômica DATA

"Taxa da Utilização da Capacidade Instalada"

Var. p.p.

DATA

"Índice de Produção Física Média Móvel Trimestral"

Var. %

dez/12 jan/13 fev/13 mar/13 abr/13 mai/13 jun/13 jul/13 ago/13 set/13 out/13 nov/13 dez/13

81,7 83,1 82,7 82,4 83,0 82,3 82,3 82,3 82,1 81,9 82,1 81,9 81,4

-1,20 1,40 -0,40 -0,30 0,60 -0,70 0,00 0,00 -0,20 -0,20 0,20 -0,2 -0,5

dez/12 jan/13 fev/13 mar/13 abr/13 mai/13 jun/13 jul/13 ago/13 set/13 out/13 nov/13 dez/13

125,91 127,12 127,62 128,0 127,74 127,87 128,39 127,38 127,26 126,66 127,06 127,17 125,6

-0,25% 0,96% 0,39% 0,31% -0,22% 0,10% 0,41% -0,79% -0,09% -0,47% 0,32% 0,09% -1,23%

-0,3

Variação Dez-Dez

Variação Dez-Dez

62 financeiro março 2014

-0,31


Taxa de Desemprego

Rendimento

Inepad & IBGE

Taxa de Desemprego (%) DATA jan/13 fev/13 mar/13 abr/13 mai/13 jun/13 jul/13 ago/13 set/13 out/13 nov/13 dez/13 jan/14

10% 9% 8% Brasil Var. p.p. 7% 6% 5,4% 0,8 5,6% 0,2 5% 5,7% 0,1 4% 5,8% 0,1 3% 5,8% 0,0 6,0% 0,2 2% 5,6% -0,4 1% 5,3% -0,3 0% 5,4% 0,1 4,0 5,2% jan/13 fev/13 -0,2 mar/13 4,6% -0,6 4,30% -0,3 3,5 4,80% 0,5

1,0 0,8 SP

Var. p.p.

0,6

Taxa de Desemprego 0,4

6,4% 1,200 Inepad & IBGE 0,2 6,5% 0,100 10% 6,3% -0,200 0,0 9% 6,70% 0,400 8% -0,2 6,30% -0,400 7% 6,60% 0,300 -0,4 6% 5,80% -0,800 5% -0,6 4% 5,40% -0,400 3% -0,8 5,80% 0,400 2% 5,60% mai/13 -0,200 abr/13 jun/13 jul/13 1%ago/13 set/13 out/13 nov/13 dez/13 jan/14 4,70% -0,900 0% 4,40% -0,3 jan/13 fev/13 mar/13 abr/13 mai/13 jun/13 jul/13 ago/13 set/13 out/13 5,00% 0,6

Brasil

Rendimento Médio Real Habitualmente Recebido - B SP - (mil R$) In São Paulo Var. p.p.

0,2

IBGE

jan/13 fev/13 mar/13 abr/13 mai/13 jun/13 jul/13 ago/13 set/13 out/13 nov/13 dez/13 jan/14

1,9 1,9 2,0 2,0 2,0 1,9 1,7 1,8 1,8 1,9 1,9 1,9 1,9

Var. p.p.

1,5

-0,10

1,00,00 0,10

0,00 0,50,00

-0,10

-0,20 0,0 0,10 0,00 0,10 0,00 0,00 0,00

SP 3,5 3,3 3,7 3,7 3,6 3,5 3,2 3,4 3,4 3,5 3,4 3,4 3,50

-0,10 -0,20 0,40 0,00 -0,10 -0,10 -0,30 0,20 0,00 0,10 -0,10 0,00 0,10

IBGE

4,0 3,5 3,0

2,5 2,0 1,5 1,0

0,5 0,0

SP

SP

Brasil

Brasil

Anfavea Produção - Automóveis de Passageiros, Mistos, Veículos Comerciais, Leves e Pesados (em unidades) Produção

Média Trim.

Var. Mensal

jan/13 fev/13 mar/13 abr/13 mai/13 jun/13 jul/13 ago/13 set/13 out/13 nov/13 dez/13 jan/14 Variação Jan-Jan

292.152 240.796 329.093 352.355 344.547 323.880 317.855 342.757 322.350 322.514 293.189 230.892 237.491

284.398 264.104 287.347 307.415 341.998 340.261 328.761 328.164 327.654 329.207 312.684 282.198 253.857

32.788 -51.356 88.297 23.262 -7.808 -20.667 -6.025 24.902 -20.407 164 -29.325 -62.297 6.599

Var. Mensal (%) 12,6% -17,6% 36,7% 7,1% -2,2% -6,0% -1,9% 7,8% -6,0% 0,1% -9,1% -21,2% 2,9% -18,71%

Produção - Automóveis Leves e Pesados Inepad & Anfavea 400.000 350.000

300.000 Unidades

Data

250.000

200.000 150.000

100.000 50.000 0

jan/13 fev/13 mar/13 abr/13 mai/13 jun/13

Var. p

-0,6

Rendimento Médio Real Habitualmente Recebido - Brasil e Inepad & SP - (mil R$)

Var. p.p.

São Pa

-0,2

-0,8 nov/13 dez/13 jan/14

jul/13 ago/13 set/13 out/13 nov/13 dez/13 jan/14

março 2014 financeiro 63

Brasil

0,0 -0,4

2,5 Rendimento Médio Real Habitualmente Recebido (R$) 2,0 Brasil

0,6

0,4

3,0

DATA

1,0

0,8


bancodedadosinepad Exportação de Autoveículos montados (em unidades) Data

Exportações

jan/13 fev/13 mar/13 abr/13 mai/13 jun/13 jul/13 ago/13 set/13 out/13 nov/13 dez/13 jan/14 Variação Jan-Jan

Média Trim.

36.233 31.743 43.529 52.771 48.620 49.444 54.096 64.071 45.441 51.819 45.234 43.298 25.779

38.865 41.194 36.233 31.743 43.529 52.771 48.620 49.444 54.096 64.071 45.441 51.819 45.234

Var. Mensal

Var. Mensal (%)

-4.961 -4.490 11.786 9.242 -4.151 824 4.652 9.975 -18.630 6.378 -6.585 -1.936 -17.519

Exportação de Autoveículos Montados

Fonte:

Inepad & Anfavea

-12,04% -12,39% 37,13% 21,23% -7,87% 1,69% 9,41% 18,44% -29,08% 14,04% -12,71% -4,28% -40,46% -28,85%

70.000 60.000 50.000 40.000 30.000 20.000 10.000 0

Exportações

Média Trimestral

Fonte: Anfavea / INEPAD

Licenciamento por Categoria Automóveis Fonte: Inepad & Anfavea

Licenciamento de Automóveis Nacionais e180.000 Importados - (em unidades) 160.000 Data

Total

1000cc

% no Total

+1000cc a 2000cc

% no total

jan/13 fev/13 mar/13 abr/13 mai/13 jun/13 jul/13 ago/13 set/13 out/13 nov/13 dez/13 jan/14

231.343 172.080 209.797 246.379 232.974 233.277 250.685 242.479 222.155 239.590 223.748 259.211 228.670

97.475 68.814 85.683 98.563 93.970 96.715 99.838 94.689 85.937 89.442 88.745 101.512 86.481

42,1% 40,0% 40,8% 40,0% 40,3% 41,5% 39,8% 39,1% 38,7% 37,3% 39,7% 39,2% 37,8%

132.707 102.250 122.993 146.066 137.426 135.298 149.235 146.205 134.794 148.753 133.291 155.889 140.452

57,4% 59,4% 58,6% 59,3% 59,0% 58,0% 59,5% 60,3% 60,7% 62,1% 59,6% 60,1% 61,42%

Licenciamento por Categoria Automóveis

140.000

% no +2000cc 120.000 total

100.000 1.161 1.016 1.121 1.750 1.578 1.264 1.612 1.585 1.424 1.395 1.712 1.810 1.737

0,5% 80.000

0,6% 60.000 0,5% 0,7% 40.000 0,7% 20.000 0,5% 0,6% 0 0,7% 0,6% 0,6% 0,8% 0,7% 0,76%

Fonte: Inepad & Anfavea 180.000 160.000

140.000 120.000 100.000

80.000 60.000 40.000

20.000 0

1000cc

1000cc

+1000cc a 2000cc

+2000cc

+1000cc a 2000cc

+2000cc

Fonte: Anfavea / INEPAD

Macro

64 financeiro março 2014


Previsões Econômicas Ano de 2014

"PIB Total % a.a."

"PIB Agropecuário % a.a."

"PIB Indústria % a.a."

"PIB Serviço % a.a."

"Produção Industrial % a.a."

Previsão 21/02/2014 (2014/2014)

3,29

1,82

1,93

1,74

1,74

1 semana antes 14/02

3,44

1,89

1,95

1,81

1,85

1 mês antes 21/01/2014

2,88

1,87

1,97

1,99

2,09

Ano de 2014

"Selic Taxa anual"

"IGP-DI % a.a."

"IPCA % a.a."

"Taxa de Cãmbio R$ / US$"

"Saldo Comercial US$ bilhões"

Previsão 21/02/2014 (2014/2014)

11,20

5,89

5,98

2,49

250,02

1 semana antes 14/02

11,21

5,81

5,92

2,49

249,97

1 mês antes 21/01/2014

10,83

5,93

6

2,47

252,98

março 2014 financeiro 65


artigopalavrafinal

Desalavancagem do Crédito ao Consumo Por Nicola Tingas Com a divulgação pelo IBGE do crescimento de 2,3% do PIB em 2013, evidenciou-se o fim do ciclo de crescimento liderado pelo consumo das famílias. Atualmente, as famílias devem manter ritmo mais moderado de consumo, deixando parte da propulsão do PIB para ser realizada por investimento e exportações. Também não será o consumo do governo que poderá impulsionar significativamente o ritmo de crescimento, dadas as crescentes restrições orçamentárias e fiscais que ele tem de normalizar. Tem ocorrido gradual redução de oferta e demanda do crédito à pessoa física, evidenciando um processo de desalavancagem do crédito ao consumo. No gráfico 1 pode-se verificar uma queda no ritmo de consumo no varejo e uma redução no crédito total do Sistema Financeiro Nacional (pessoa jurídica e pessoa física) expressivas em termos de redução na demanda por crédito ao consumo. Gráfico 1 - Evolução Crédito Total e Vendas ao Varejo

comprometimento da renda (ampliação acima do habitual no endividamento, carga tributária crescente, novos hábitos de consumo, sobretudo de maior utilização de serviços); e redução do poder aquisitivo (aumento e persistência de inflação elevada, com maior efeito para o orçamento das famílias de baixa renda, dada a diferente composição de sua cesta de consumo). O orçamento de muitas famílias não foi capaz de suportar o conjunto de restrições financeiras vis-à-vis à sua renda líquida, resultando em crescimento expressivo da inadimplência a partir de 2011. Como consequência, desde 2012 tem havido intenso esforço das famílias em buscar saídas Por Nicola Tingas, para a deterioração de suas finanças pessoais; Economista-chefe movimento acompanhado pelo sistema financeiro da Acrefi nacional na busca de solução para os extremanicolatingas@acrefi.org.br mente endividados, inicialmente na forma de mutirões de reestruturação de dívida, depois diretamente nos bancos e financeiras. Ocorreu também a utilização de outras formas de financiamento de prazo mais longo (crédito consignado, crédito pessoal com lastro imobiliário), além da maior oferta de recursos pelos bancos públicos. Como resultado desses esforços, a taxa de inadimplência tem recuado substancialmente, como ilustra o gráfico 2. Esse movimento gradual, mas de firme proposição dos tomadores em reduzir seu comprometimento de renda, resultou na demanda por linhas de crédito de liquidez para sanear seus passivos ou alongar seu fluxo de caixa familiar em detrimento das linhas de consumo. f

Essa perda de robustez do consumo e, por consequência, da demanda por crédito tem sido causada por vários fatores: fim do ciclo de expansão da renda real (salário mínimo maior, aumentos salariais expressivos, aumento da oferta de emprego, benefícios de renda social e isenções tributárias que expandem renda direta ou indiretamente); maior

66 financeiro março 2014

Artigo enviado em 28/2/2014

Gráfico 2 – Inadimplência Total Recursos Livres Pessoa Física


marรงo 2014 financeiro 67


68 financeiro marรงo 2014


Revista Financeiro Ed 85 - Cliente: ACREFI - Agência: Tamer Comunicação  

Direção de Arte: Publicação da ACREFI – Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento, - Tamer Comunicação....

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