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Pesquisa e coordenação

Márcio Mattos

Entrevistas e informações técnicas

Luthiers do Cariri Cearense


Luthiers do Cariri Cearense


Pesquisa e coordenação

Márcio Mattos

Entrevistas e informações técnicas

Universidade Federal do Cariri 2017 Luthiers do Cariri Cearense


Dados Internacionais de Catalogação na Publicação

M444l

Mattos, Márcio. Luthiers do Cariri Cearense: entrevistas e informações técnicas / Márcio Mattos. Juazeiro do Norte: Universidade Federal do Cariri, 2017. 90 p., enc. il.; 30 cm. ISBN 978-85-67915-31-9 1. Lutheria. 2. Instrumentos musicais-construção. 3. Cariri cearense-instrumentos. I. Título.

CDD 784.192

Luthiers do Cariri Cearense


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Luthiers do Cariri Cearense


Ficha do Projeto Projeto original, pesquisa e coordenação do projeto – MÁRCIO MATTOS Transcrição das entrevistas e organização final do texto – MÁRCIO MATTOS Registros das entrevistas em vídeo e fotografias – HÉLIO FILHO Registro das entrevistas em áudio – AÉCIO DINIZ Produção dos registros – FABIANA BARBOSA Identidade visual do projeto Luthiers do Cariri cearense – AGLAÍZE DAMASCENO e RÔMULO ARAGÃO Página Web – CLÁUDIO WILBRANTZ Diagramação – MÁRCIO MATTOS

Luthiers do Cariri Cearense


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Agradecimentos Ao Itaú Cultural pelo apoio ao projeto por meio do Programa Rumos. A Hélio Filho, Aécio Diniz e Fabiana Barbosa pelo profissionalismo e parceria durante todo o projeto. Ao Cláudio Wilbrantz pelo belo trabalho na criação da página web. À Aglaíze Damasceno e ao Rômulo Aragão pela criatividade e bonito trabalho com a identidade visual do projeto. Ao músico Weber dos Anjos pela música “Ventana”1 e companhia no registro da entrevista com Ciderley Bezerra. Ao músico Cleyton Fernandes pelos “Improvisos”2 com a rabeca. À Bianca Barbosa Costa e ao Edson Natale do Itaú Cultural pelo excelente acompanhamento do projeto. Sempre prestativos. Ao Wagner Layb pela força de sempre. Parabéns por seus projetos em Aurora, Ceará. À Tereza Neusa pela disposição de sempre. Ao Saulo Gomes pelo contato inicial com o Mestre Totonho e pelo acompanhamento e incentivo constante ao projeto. Ao Fábio Castro pela participação em muitas etapas do projeto. À Pró-reitoria de Cultura / PROCULT, Pró-reitoria de Extensão / PROEX e Pró-reitoria de Pesquisa e Inovação / PRPI da Universidade Federal do Cariri / UFCA pelo apoio. Aos luthiers João Nicodemos, Jhonny Almeida, Antonio Pinto, Gil Chagas, Aécio Ramos, DiFreitas, Totonho, Ciderly Bezerra, Raimundo Aniceto e Fábio Castro. 1 2

Música presente no vídeo de Ciderly Bezerra. Música presente no vídeo do Mestre Totonho.

Luthiers do Cariri Cearense


Luthiers do Cariri Cearense


Mestre Raimundo Aniceto ........................................................................................................................................... 79

Sumário

Mestre Totonho ............................................................................................................................................................................ 85

Índice de fotografias ............................................................................................................................................................... 13 O projeto ....................................................................................................................................................................................................17 Os personagens ............................................................................................................................................................................ 19 Aécio Ramos.................................................................................................................................................................................... 23 Mestre Antônio Pinto ............................................................................................................................................................... 31 Ciderly Bezerra ............................................................................................................................................................................. 37 Di Freitas ................................................................................................................................................................................................. 43 Fábio Castro ...................................................................................................................................................................................... 49 Gil Chagas ............................................................................................................................................................................................. 55 Jhonny Almeida .............................................................................................................................................................................. 61 João Nicodemos .......................................................................................................................................................................... 69

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Fotografia 1 - Rabeca em fase de construção sendo confeccionada pelo Mestre Antônio Pinto. Aurora Ceará, 02 de abril de 2015.


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Índice de fotografias Fotografia 1 - Rabeca em fase de construção sendo confeccionada pelo Mestre Antônio Pinto. Aurora - Ceará, 02 de abril de 2015. ............... 11 Fotografia 2 - Aécio Ramos com uma Kalimba. Lameiro, Crato - Ceará, em 03 de abril de 2015. ..................................................................... 23 Fotografia 3 - Aécio Ramos tocando um vibrafone de vidro. Lameiro, Crato - Ceará, em 03 de abril de 2015. ............................................. 24 Fotografia 4 - Registro de diversos instrumentos musicais confeccionados por Aécio Ramos. Lameiro, Crato - Ceará, em 03 de abril de 2015...................................................................................... 24

Fotografia 10 - Violão confeccionado por Ciderly Bezerra. Aldeota, Brejo Santo - Ceará, em 04 de agosto de 2015. ................................ 40 Fotografia 11 - DiFreitas com a sua lira. Horto, Juazeiro do Norte Ceará, em 19 de julho de 2015. ........................................................ 43 Fotografia 12 - DiFreitas tocando uma rabeca feita de cabaça. Horto, Juazeiro do Norte - Ceará, 19 de junho de 2015. ............................. 45 Fotografia 13 - Fábio Castro com uma flauta de bambu. Sossego, Crato - Ceará, em 18 de novembro de 2015. ............................................. 49 Fotografia 14 - Flauta de bambu confeccionada por Fábio Castro. Sossego, Crato - Ceará, em 18 de novembro de 2015. .................... 51 Fotografia 15 - Gil Chagas tocando em sua oficina. Aurora - Ceará, em 02 de abril de 2015. .......................................................................... 55

Fotografia 5 - Mestre Antônio Pinto com uma rabeca confeccionada por ele. Aurora - Ceará, 02 de abril de 2015. ........................................... 31

Fotografia 16 - Rabeca confeccionada por Gil Chagas, com desenho do rosto de Pe. Cícero. Aurora - Ceará, em 02 de abril de 2015............ 56

Fotografia 6 - Mestre Antônio Pinto com um arco de rabeca. Aurora Ceará, 02 de abril de 2015. ............................................................... 32

Fotografia 17 - Jhonny Almeida tocando uma fujara. Horto, Juazeiro do Norte - Ceará, em 29 de março de 2015.......................................... 61

Fotografia 7 - Rabecas do Mestre Antônio Pinto. Aurora - Ceará, 02 de abril de 2015...................................................................................... 33

Fotografia 18 - Detalhe de Jhonny Almeida tocando sua fujara. Horto, Juazeiro do Norte - Ceará, em 29 de março de 2015. ...................... 62

Fotografia 8 - Ciderly Bezerra com um de seus violões. Aldeota, Brejo Santo - Ceará, em 04 de agosto de 2015. .......................................... 37

Fotografia 19 - Jhonny Almeida tocando um tank drum. Horto, Juazeiro do Norte - Ceará, em 29 de março de 2015. ................................... 63

Fotografia 9 - Ciderly Bezerra em sua oficina. Aldeota, Brejo Santo Ceará, em 04 de agosto de 2015. ...................................................... 38

Fotografia 20 - Jhonny Almeida com uma gaita-de-foles. Ao fundo a cidade de Juazeiro do Norte. Horto, Juazeiro do Norte - Ceará, em 29 de março de 2015. ............................................................................ 65

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Fotografia 21 - João Nicodemos tocando uma rabeca. Lameiro, Crato Ceará, em 29 de janeiro de 2015. ..................................................... 69 Fotografia 22 - João Nicodemos com rabecas confeccionadas por ele. Lameiro, Crato - Ceará, em 29 de janeiro de 2015. .......................... 70 Fotografia 23 - Três modelos diferentes de rabecas de João Nicodemos. Lameiro, Crato - Ceará, em 29 de janeiro de 2015. .......................... 71 Fotografia 24 - Detalhe de rabeca envernizada de João Nicodemos. Lameiro, Crato - Ceará, em 29 de janeiro de 2015. .......................... 73 Fotografia 25 - Rabeca de João Nicodemos. Lameiro, Crato - Ceará, em 29 de janeiro de 2015.................................................................. 75 Fotografia 26 - Mestre Raimundo Aniceto com um pífano. Seminário, Crato - Ceará, em 08 de novembro de 2015. ................................... 79 Fotografia 27 - Zabumba e caixa confeccionadas pelo Mestre Raimundo Aniceto. Seminário, Crato - Ceará, em 08 de novembro de 2015. .... 82 Fotografia 28 - Mestre Totonho com um violino. São Félix, Mauriti Ceará, em 23 de agosto de 2015. ...................................................... 85 Fotografia 29 - Detalhes de instrumentos confeccionados pelo Mestre Totonho. São Félix, Mauriti - Ceará, em 23 de agosto de 2015. ......... 86

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Luthiers do Cariri Cearense – O projeto


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O projeto

importância. Os integrantes destes agrupamentos musicais tradicionais são pessoas comuns, ou seja, não são grandes artistas conhecidos nos meios de comunicação, embora sejam artistas pela arte que produzem,

Em 2010, por ocasião do meu ingresso como professor do curso

sem a necessidade de terceiros para que os rotulem. Curioso é que, ainda

de Música na Universidade Federal do Cariri / UFCA passei a residir em

hoje, mesmo com a influência cultural que sofrem, esses agrupamentos

Crato, no sul do Estado do Ceará, na região conhecida como Cariri

mantêm muitas de suas características mais elementares, que dignificam a

cearense. Sempre em consonância com as minhas atividades acadêmicas

cultura tradicional local/regional e carregam elementos intrínsecos e

agucei minha curiosidade como pesquisador com o intuito de conhecer

extrínsecos que os identificam.

os agrupamentos musicais tradicionais da região. Desde então, venho

Os instrumentos musicais utilizados nestas manifestações são

desenvolvendo diversas atividades musicais relacionadas ao ensino, à

construídos, em sua maioria, pelas pessoas que as integram. São

pesquisa e à extensão no Cariri, a partir do Centro de Estudos Musicais

instrumentos rústicos, construídos a partir de técnicas as mais diversas,

do Cariri – CEMUC (www.cemuc.com.br) e do Programa MAPEAMUS

utilizando matéria prima local, mas que cumprem consideravelmente seu

(www.mapeamus.com). Os resultados têm sido aproveitados e aplicados

papel dentro do grupo. Sua importância não está relacionada apenas aos

não apenas na academia, mas também junto à comunidade, por meio de

sons que podem produzir, ou seja, à música. Esses instrumentos dizem

atividades de extensão universitária, tais como oficinas, palestras, recitais

muito sobre esses agrupamentos e também sobre as pessoas que com

didáticos, seminários etc.

eles se relacionam.

Rotineiramente nos deparamos na região do Cariri com

Apesar do projeto Luthiers do Cariri cearense ter sido gestado

manifestações culturais tradicionais de diversos tipos e, na maioria delas,

com o intuito de conhecer essas pessoas e suas criações, a ideia inicial

a música é um dos elementos constitutivos de maior recorrência e

tomou maior impulso em 2014, quando passei a notar que havia na

Luthiers do Cariri Cearense – O projeto


região do Cariri cearense outros construtores de instrumentos, artesãos,

reconhecemos aqui a sua importância para o desenvolvimento de

artífices, artistas na sua profissão, que confeccionavam instrumentos

dezenas de projetos culturais e artísticos em atividade em todo o Brasil, a

musicais, mas não eram integrantes dos agrupamentos mencionados.

partir das várias edições do Programa desde o seu lançamento. O Rumos

Além

estavam

é, portanto, sem dúvida, uma proposta a ser seguida por todas as

necessariamente relacionados a esses grupos e, o que é mais importante,

instituições que têm condições e interesse de contribuir e apoiar a arte e

os instrumentos tinham qualidade e refinamento característicos do

a cultura brasileira.

disso,

os

instrumentos

que

produziam

não

trabalho de luthiers. Descobri, então, que o Cariri, entre outras coisas é, também, um lugar de grandes construtores de instrumentos musicais e, por este motivo, deveria conhece-los, mas não apenas isso, deveria divulgar seus trabalhos para que recebessem a atenção que merecem. Assim, hoje posso afirmar que no Cariri cearense há pessoas que constroem flautas, pífanos, rabecas, violinos, violas, violoncelos, contrabaixos, violões, bandolins, guitarras elétricas, contrabaixos elétricos, zabumbas, caixas, (tarol), xilofones, instrumentos de percussão variados, além de outros não tão comuns e de qualidade indiscutível, tais como flauta bansuri, fujara, gaita de foles, tank drum entre outros. Encontrar tudo isso e registrar as atividades de tantos artistas foi possível graças ao Programa Rumos do Itaú Cultural. Portanto,

Luthiers do Cariri Cearense – O projeto

Márcio Mattos No calor de Crato, Ceará, em 16 de dezembro de 2015


(www.luthiersdocariricearense.com.br). Ao longo deste texto é possível

Os personagens

conhecer sobre a vida pessoal e profissional de cada um deles, mas não apenas isso, damos informações a respeito da profissão de luthier e sobre

O que apresentamos aqui é resultado de um trabalho de campo de quase doze (12) meses realizado nas cidades de Crato, Juazeiro do Norte, Aurora, Brejo Santo e Mauriti, todas no Cariri, no sul do Estado do Ceará, Brasil. Durante estes meses mantivemos contato com dez (10) artesãos-construtores de instrumentos musicais variados, com o intuito de entrevistá-los para conhecer um pouco sobre suas vidas, mais especificamente sobre seus trabalhos como luthiers. Vale ressaltar que, essa é apenas uma amostra, pois nesta região há ainda muitos outros

luthiers, mas que infelizmente não estão aqui contemplados. Certamente continuaremos a pesquisa. O projeto Luthiers do Cariri cearense registrou em vídeo e fotografias um pouco do trabalho de Aécio Ramos, Mestre Antônio Pinto, Ciderly Bezerra, Di Freitas, Fábio Castro, Gil Chagas, Jhonny Almeida, João Nicodemos, Mestre Raimundo Aniceto e Mestre Totonho. Todos os vídeos do projeto, bem como as fotografias podem ser acessadas gratuitamente

na

página

Luthiers do Cariri Cearense – Os personagens

web

do

projeto

a construção de instrumentos musicais no Cariri cearense, sobre as técnicas utilizadas por eles para a confecção de instrumentos, além da matéria prima utilizada por cada artesão-construtor para dar vida às suas criações. É necessário esclarecer que não é um texto resultado de pesquisa científica, mas apenas ilustrativo do projeto. É uma apresentação em outro formato, diferente dos vídeos e fotografias, pois consideramos necessário enfatizar alguns aspectos que só são possíveis através do texto. Isso quer dizer que não se apresentam discussões teóricas, apenas descrevemos parte do que registramos ao longo do ano de 2015. Em alguns momentos o texto é ipsis litteris o que foi dito pelos entrevistados. Ao mesmo tempo, utilizamos uma narrativa em terceira pessoa, buscando mesclar os depoimentos dos luthiers e nossa percepção visual e física de todos os momentos do trabalho de campo. Apesar da palavra luthier estar historicamente associada aqueles que confeccionam instrumentos de cordas, a sua utilização no título do


projeto denomina de forma genérica todos aqueles que se dedicam ao ofício de construir instrumentos musicais, mesmo que o produto do seu trabalho seja uma flauta, uma gaita de foles e até um instrumento de percussão. Feita a escolha, da mesma forma nos referimos em vários momentos no texto, genericamente, ao artesão ou artífice, quer dizer, aos construtores de instrumentos musicais como luthiers. O projeto Luthiers do Cariri cearense pode ser apreciado também

no

Facebook

(https://www.facebook.com/luthiersdocariricearense/), que é um espaço para atualizações rápidas sobre informações do projeto, que está em constante movimento, já que não encerrará suas atividades neste ano de 2015. É também, sem dúvida, uma ferramenta de grande alcance paraa divulgação das atividades do projeto.

Luthiers do Cariri Cearense – Os personagens


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Aécio Ramos

Luthiers do Cariri Cearense – Aécio Ramos


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Luthiers do Cariri Cearense – Aécio Ramos


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Aécio Ramos Nome: Aécio Rodrigues de Oliveira. Nascimento: 30 de outubro de 1956. Naturalidade: Crato, Ceará. Residência: Lameiro, Crato, Ceará. Instrumentos que constrói: Instrumentos diversos, principalmente, percussão e de efeitos. Ocupação: Músico, ator, pedreiro etc. Formação como luthier: autodidata. Aécio Rodrigues de Oliveira é conhecido em Crato como Aécio Ramos. Segundo ele este é o seu nome fantasia. Nasceu em 30 de outubro de 1956. Filho de Josefa Rodrigues da Conceição e Valdemiro Apolinário de Oliveira. Como ele mesmo conta, sua mãe é cantora, atriz e enfermeira. Seu pai, um músico de berimbau. Aécio é o terceiro filho dos dez que o casal teve. A influência artística vem da sua mãe. Segundo Aécio desde cedo “[...] ela ensinou a gente fazer esses trabalhos com argila, com instrumento. Aos sete anos ela me ensinou fazer esse instrumento (mostra um instrumento feito de palha e coqueiro).” Como conta Aécio “as pessoas tiravam as palhas para cobrir as casas, inclusive a minha casa era de palha. Sobrava essa parte e a minha mãe ensinava.” Conforme ele “o som era baixo, mas a gente tinha os ouvidos bem baixim na época. Era assim, coisa de criança.”

Luthiers do Cariri Cearense – Aécio Ramos

Com seu pai e sua mãe aprendeu a cantar, mas a partir dos dez anos seu interesse passou a ser o futebol, que logo também deixou de lado e voltou a “[...] ficar só ligado em música.” Na época do serviço militar fez o “tiro de guerra” e passou uma temporada fora do Crato, mas logo voltou para tentar realizar um sonho que tinha desde os doze anos de idade: montar um orfanato. Assim ele conta: [...] Quando eu tinha na faixa de doze anos eu trabalhava com as freiras no Convento Monsenhor Rocha, aqui no Crato. Eu cuidava Fotografia 2 - Aécio Ramos da plantação de pimenta do reino delas. Aí com uma Kalimba. Lameiro, Crato - Ceará, em 03 de abril todos os dias elas me davam uma de 2015. contribuição. Eu percebi que cada freira só tinha um copo, uma colher, um prato, uma rede e um banco. Só tinha isso. E eu achava que era pouco demais para uma pessoa, né?” Aécio sempre quis ajudar as pessoas, desde a infância, mas cresceu e não conseguiu construir o orfanato. Foi daí que surgiu o PROCEM (Projeto Cultural Edite Mariano) que, segundo ele “[...] é o projeto que a gente tem voluntário aqui, há mais de quinze anos. Eu juntamente com a minha companheira, a Teresa e uns amigos que trabalham aqui com a gente, dando essa força. É um trabalho voluntário.” Um dos objetivos é limpar o Rio Grangeiro, como ele mesmo conta “[...] limpar todo o material, essa sujeira que tem dentro a gente traz e constrói alguma coisa. Instrumento de percussão, instrumento de corda. E ensina pra essa garotada construir essas coisas artesanais.”


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Segundo Aécio, o PROCEM não é uma escola de música, “nós temos uma parte inicial da arte da música. Através desse trabalho da gente aqui eles vão se encaminhar para as escolas, para a Fotografia 3 - Aécio Ramos tocando um vibrafone Universidade. E de vidro. Lameiro, Crato - Ceará, em 03 de abril de esses instrumentos que 2015. a gente constrói desse material que a gente encontra a gente vende alguns também, até para a manutenção do projeto. Porque o trabalho aqui é tudo voluntário.” Aécio, seus colaboradores e seus alunos constroem instrumentos de percussão, de corda e instrumentos de efeito. Em suas apresentações musicais ele utiliza esses instrumentos que ele mesmo constrói. Segundo ele “[...] tudo sai som direitinho.” Aécio conta que a partir de 2005 voltou “[...] a fabricar os instrumentos mesmo. Eu fabricava antes algumas coisinhas pequenas. Eu comecei há uns 10 anos atrás. Eu comecei por instrumento de percussão. Comecei fazer zabumba, essas coisas. Comecei a fazer um trabalho com couro. Mas, como couro se tornava mais difícil, se tornava mais caro, aí eu tive a ideia de fabricar os instrumentos sem usar couro. Usando a própria madeira para servir como a pele. Através deste instrumento de percussão eu comecei a fabricar instrumento de efeito.

Luthiers do Cariri Cearense – Aécio Ramos

O músico também constrói instrumentos de cordas, como ele mesmo conta: “Comecei a fabricar instrumento de corda, algum Fotografia 4 - Registro de diversos instrumentos musicais tipo de rabeca feita de bambu, confeccionados por Aécio Ramos. Lameiro, Crato Ceará, em 03 de abril de 2015. feito de PVC. Aí violões, banjos, essas coisinhas. Comecei fabricando desde uns dez anos pra cá. Aí depois comecei a fabricar uma harpa, que ainda tá em construção também. Projetei uma sanfona, que eu estou trabalhando também.” Aécio na verdade fabrico muitos instrumentos de percussão pois “é mais fácil para [...] fabricar, gasta pouca coisa. Para tocar também se torna mais. E que a moçada aprende a fazer na oficina também. Oficina rápida, barata. Porque instrumento que tem corda tudo é mais difícil. Tem a parte de colagem, das cordas, tarraxas, essas coisas. Torna-se muito mais fácil esses instrumentos de percussão.” O material utilizado por Aécio Ramos para a construção dos instrumentos é todo de reaproveitamento. Ele diz: “A gente aproveita muita coisa: alumínio, metal, ferro, lata. Todo esse material a gente


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transforma em algum tipo de instrumento. Até porque a criança também tudo que ele bate para ela é instrumento [...], né?”

farmácia. E eu era contratado, eu tocava com o finado Elaide, que era um músico que tinha lá do Padre Ágio, da Solibel. Aí ele cantava, eu tocava.”

O instrumento que sempre acompanha Aécio Ramos em suas apresentações artísticas é o violão, embora se dedique bastante a confecção de instrumentos de percussão, que aprendeu a construir quando morou em São Paulo e fez parte de uma escola de samba. Começou aprendendo a tocar chocalhos, depois passou para o maracá, o pandeiro e tocou até o “treme terra”. Aécio conta que aprendeu “[...] um pouquinho de cada coisa, pra mim mesmo.” O músico conta ainda que quando voltou de São Paulo para o Crato não conhecia “ninguém que fazia essas coisas assim não.” E diz: “quando eu cheguei eu trabalhava de marceneiro, mas eu não conheci ninguém na parte de luteria não. Só quem eu conhecia era eu mesmo. Não conhecia ninguém no Crato. Depois com muito tempo, quando eu já construía foi que eu vim conhecer Difreitas (músico que vive em Juazeiro do Norte). Já construía muitas coisinhas. Depois conheci o Mestre Antônio das rabecas, lá de Mauriti. Até porque a divulgação devia existir, mas era praticamente quase zero. Hoje em dia existe a divulgação, mas ainda existe muita pessoa escondida aí.”

Aécio Ramos é um artista eclético. Compõe, canta, confecciona instrumentos musicais e é ator. Orgulha-se também da profissão de pedreiro. Aécio Ramos é um luthier de Crato.

Para Aécio Ramos “tem luthier que às vezes é difícil ele mostrar o trabalho dele. Tem deles também que é tipo um Patativa do Assaré, que não liga. Aí quando vem para mostrar já é assim quase pro final da vida, né?” Como músico Aécio tocou nas bandas Baby Som, Herdeiros do Rei (três anos) e “um grupo de improviso que tinha aqui.” Tocava na noite também. Segundo ele “o primeiro bar que tinha música ao vivo no Crato se chamava “Bar Social”, ficava na praça dos pombos, onde é uma

Luthiers do Cariri Cearense – Aécio Ramos


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Luthiers do Cariri Cearense – Aécio Ramos


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Luthiers do Cariri Cearense – Aécio Ramos


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Luthiers do Cariri Cearense – Aécio Ramos


Mestre AntĂ´nio Pinto


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Luthiers do Cariri Cearense – Mestre Antônio Pinto


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Mestre Antônio Pinto Nome: Antonio Pinto Fernandes. Nascimento: 18 de outubro de 1922. Naturalidade: Sítio Cobra, Aurora, Ceará. Residência: Aurora, Ceará. Instrumentos que constrói: Rabecas. Ocupação: Pedreiro, carpinteiro e músico de rabeca (aposentado). Formação como luthier: autodidata. O senhor Antônio Pinto Fernandes nasceu no Sítio Cobra, município de Aurora, Riacho do Tipi, em 18 de outubro de 1922. É conhecido como Mestre Antônio Pinto. Esse título de “mestre” foi dado pela Secretaria da Cultura do Estado do Ceará/SECULT, em reconhecimento por sua contribuição na área cultural.3 Mestre Antônio Pinto começou a fazer rabeca com oito anos de idade. Conta que fazia “[...] por trás de casa [onde havia] uma moita de mufunbo.”4 Utilizava um serrote velho e uma grosa. Seu pai tinha um molde velho de uma rabeca e foi assim que iniciou o ofício. Para o mestre, ele “era pequeno, só com oito anos, mas mesmo assim fez.” E depois foi “aprender a tocar. Aí não tinha quem tocasse lá.” Iniciou tudo sozinho. Logo que aprendeu a tocar passou a se apresentar em algumas festas. Na primeira festa tocou a noite todinha. Segundo ele tocava em

A Secretaria da Cultura do Estado do Ceará / SECULT outorga este título já há alguns anos, para aqueles personagens da cultura tradicional reconhecidos pela comunidade como “tesouros vivos”, detentores de conhecimentos populares em diversas áreas. 3

Luthiers do Cariri Cearense – Mestre Antônio Pinto

“leilão, festa de casamento, aniversário.” Nesta época e por muito tempo depois trabalhou como pedreiro e carpinteiro. Durante a sua vida profissional, conta o mestre, montou “engenho, motor, construí edifício, prédio de todo jeito. Até em Salvador. Eu tive que fugir. Era o povo em riba deu pra ir trabalhar lá. Aí eu deixei de tocar rabeca. Quando chegou a época da ‘cultura’, já morando em Aurora.” O senhor Antônio Pinto refere-se ao reconhecimento como mestre, pelo qual recebe atualmente um salário do governo do Estado do Ceará.

Fotografia 5 - Mestre Antônio Pinto com uma rabeca confeccionada por ele. Aurora - Ceará, 02 de abril de 2015.

O luthier conta que não estudou porque não podia: “aprendi a assinar o nome porque tinha memória.” E lamenta, dizendo que não estudou porque “tinha que comprar o tinteiro, comprar lápis. A merenda se não tivesse tinha que comprar também. Aí estudei um mês mais ou menos.” Para construir as rabecas usa cedro e pinho, mas geralmente faz o instrumento todo de cedro. Comenta e elogia as rabecas do Mestre Totonho (de Mauriti), mas ressalta que a sua é diferente, pois, segundo ele, este último faz a rabeca de pedaços e a sua é inteira. O seu arco 4

Mufumbo é uma árvore nativa da caatinga, no Nordeste.


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também é uma peça só. O instrumento é cavado por dentro e por fora para “ficar bem corcundinha.”

é de violão. Perde duas e bota quatro. A da rabeca já vem pronta, as quatro cordas.”

Para ele, o difícil da rabeca é a voluta, que ele se orgulha de fazer toda esculpida em forma de parafuso em uma peça só. Conta também que demora uns trinta dias para fazer todo o instrumento, sempre “começando cedo e aproveitando tudo.” Alerta que “ninguém pode bater com força” na madeira.

Atualmente, o senhor Antônio Pinto não toca mais a sua rabeca. E lamenta: “Hoje eu não toco porque não tem mais oiça. Faz muitos anos que eu toquei.” O mestre rabequeiro é um luthier de Aurora.

Apesar de construir outros instrumentos (clarinete, pandeiro) dedicou-se sempre às rabecas. Além disso, segundo relata, “a cultura não exige”, ou seja, a Secretaria de Cultura não cobra isso dele. Ressalta também que, geralmente, vende as suas rabecas naturais, ou seja, sem pintura. As pessoas preferem o instrumento rústico. Informa que “as tarraxas não são de cedro. Uso verniz com tinta. Misturado.” Para ele a estrutura da rabeca é feita assim: “Divide a rabeca em três partes... duas da rabeca e uma do braço. De três tira uma.... A pestana... o espelho. O cavalete de pegar as cordas... E tem a aranha. O cavalete é de chifre. E a aranha é de pau-d’arco. A pestana é de pau-d’arco. E as tarraxas de pau-d’arco. De chifre é forte e pode ser bem finim. As cordas eram de Fotografia 6 - Mestre Antônio Pinto com um tripa...hoje eu não sei arco de rabeca. Aurora - Ceará, 02 de abril de não. As cordas que eu uso 2015.

Luthiers do Cariri Cearense – Mestre Antônio Pinto


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Luthiers do Cariri Cearense – Mestre Antônio Pinto

Fotografia 7 - Rabecas do Mestre Antônio Pinto. Aurora - Ceará, 02 de abril de 2015.


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Ciderly Bezerra


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Luthiers do Cariri Cearense – Ciderly Bezerra


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Ciderly Bezerra

As aventuras de Ciderly

como

construtor Nome: Cícero Ciderly Bezerra Cabral. Nascimento: 20 de setembro de 1970. Naturalidade: Brejo Santo, Ceará. Residência: Aldeota, Brejo Santo, Ceará. Instrumentos que constrói: Violão, bandolim e guitarra. Ocupação: Funcionário público municipal de Brejo Santo. Formação como luthier: autodidata.

de

instrumentos parece ter começado

naquele

momento. Assim ele conta: “O mais novo [entre os primos] tinha um

violãozinho

mais

Fotografia 8 - Ciderly Bezerra com um de seus violões. Aldeota, Brejo Santo - Ceará, em 04 de agosto de 2015.

Cícero Ciderly Bezerra Cabral é natural de Brejo Santo, no

simples. Eu disse: vamo dar um trato nesse violão? Vamos tirar as cordas,

Ceará. Sua experiência com madeira vem de família. Assim conta: “meu

vamos pintar ele. Vamos deixar ele mais bonito? A semente da luteria foi

avô foi um dos primeiros a trabalhar como carpinteiro aqui na nossa

germinada ali.” Aprendeu a tocar vendo os primos e “[...] folheando uma

cidade. Socorria os enterros fazendo caixões de última hora.” Além do

revista que ensinava [a construir], existia umas figuras do processo de

seu avô tem “muitos tios que trabalham com marcenaria e carpintaria.”

construção do violão. Aquilo ali foi outra centelha.”

Porém, esse tipo de atividade – como marceneiro ou carpinteiro – nunca lhe despertou interesse: “Eu nunca tive interesse nessa área.” Seu contato com violão foi através de uns “primos que vieram de São Paulo”. O luthier declara: “aquilo dali me arrebatou. Eu fiquei completamente apaixonado pelo formato do instrumento.”

Luthiers do Cariri Cearense – Ciderly Bezerra

A primeira pessoa que lhe ajudou na tarefa de confeccionar instrumentos musicais foi Raimundo Cabral, “um grande carpinteiro aqui da nossa cidade. Eu disse: me ajude a construir um violão. E agora eu quero que você me guie nessa empreitada.”


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A partir do primeiro violão começou a estudar o “processo de

pinho alemão.” Finalmente, “mandou uma planta de violão e disse:

construção dos instrumentos, com madeiras que realmente fossem

Pronto! Eu já lhe dei as ferramentas, agora você desenvolve. E a partir

interessantes.” Nessa época Ciderly Bezerra já “tinha acesso a internet no

desse momento que eu comecei a levar a sério.”

[...] trabalho. Só que tudo que eu encontrava era em inglês.”

Apesar de toda a dedicação Bezerra conta que “isso pra mim

Buscou ajuda com alguns luthiers, mas sempre ouvia a mesma

nunca foi uma profissão. Eu tenho um trabalho estável na prefeitura local,

coisa: “Rapaz: vai fazendo que tu aprende. Quer dizer, não abriam a caixa

há mais de vinte anos. É uma paixão que não tem como largar. Às vezes

por nada. Até que eu encontrei um luthier chamado Antônio Pádua. Ele

eu me afasto um pouco por causa das problemáticas da vida, mas eu

é de Minas Gerais. Um cara sensacional. Antônio ele começou a me

comecei há uns dez, doze anos atrás eu fiz o meu primeiro violão

doutrinar pelo telefone.” A partir deste momento Ciderly Bezerra passou

clássico.” Atualmente mantém contato com músicos e luthiers através de

a confeccionar instrumentos com mais informação. Seu novo tutor lhe

fóruns na internet.”

mandou livros e

“madeiras

tenho instrumentos no Rio de Grande Sul, Minas Gerais, São Paulo, Rio

específicas

de Janeiro, no Pernambuco, na Paraíba. Aqui no Ceará, em Fortaleza, em

para

a

Juazeiro do Norte. Eu acho que eu tenho quatro instrumentos lá no Paiuí.

construção do

Eu comecei mexer também com instrumentos elétricos. Mas, eu venho

violão, que no

sempre num ritmo mais lento.”

caso

Fotografia 9 - Ciderly Bezerra em sua oficina. Aldeota, Brejo Santo - Ceará, em 04 de agosto de 2015.

Luthiers do Cariri Cearense – Ciderly Bezerra

Ciderly conta: “tive anos de construir oito instrumentos. Hoje eu

eram

jacarandá,

o

ébano,

o

Pelas suas contas começou a construir instrumentos no final da década de 1990. Um dos seus violões tem a data de 1997. Segundo ele: “acho que com cinco ou seis anos depois é que eu comecei a tocar violão


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mesmo.” Porém, conta que somente “a partir de 2000 é que eu comecei a construir de uma maneira mais profissional. Com matéria prima selecionada. Com resultados sonoros bem mais profissionais.” O luthier sempre se aventura na confecção de novos instrumentos: violão de oito cordas, guitarra de dois braços, cavaquinho de cinco cordas, bandolim de dez cordas. E, apesar de confeccionar instrumentos acústicos sua paixão maior parece ser pela guitarra elétrica. De toda forma, como ele mesmo diz, gosta de dar “os dois passos.” Ciderly Bezerra é um luthier do Cariri, de Brejo Santo.

Luthiers do Cariri Cearense – Ciderly Bezerra


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Luthiers do Cariri Cearense – Ciderly Bezerra Fotografia 10 - Violão confeccionado por Ciderly Bezerra. Aldeota, Brejo Santo - Ceará, em 04 de agosto de 2015.


Di Freitas


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Luthiers do Cariri Cearense – Di Freitas


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Di Freitas Nome: Francisco Ferreira de Freitas. Nascimento: 18 de agosto de 1965. Naturalidade: Mucuripe, Fortaleza, Ceará. Residência: Horto, Juazeiro do Norte, Ceará. Instrumentos que constrói: Rabecas, violoncelo, lira, violão. Ocupação: Músico, educador musical, produtor musical. Formação como luthier: autodidata. O músico Francisco Ferreira de Freitas é mais conhecido como DiFreitas. Nasceu em Fortaleza, no bairro do Mucuripe, no Estado do Ceará, mas atualmente vive no Horto, em Juazeiro do Norte. Provém de uma família de músicos: avô e primos. Segundo conta iniciou seus estudos com o violão e, posteriormente, tocou clarinete “na banda de música da igreja, do bairro lá, Nossa Senhora da Saúde.” Seu despertar pela música erudita aconteceu “um dia assistindo televisão” vendo o “programa: Concertos para Juventude. Onde passava uma coisa mais didática. Tipo convidando as pessoas para estudar música de orquestra. Então, eu vi o fagote lá. Fagote foi o instrumento que eu vi e gostei dele. E fui atrás e descobri que no SESI da Barra do Ceará tinha a escola, que tinha o fagote e tinha a orquestra de cordas. Então eu comecei a estudar violoncelo na orquestra e paralelo a isso eu estudava escondido do maestro violão clássico, com o professor Tarcísio Lima. E clarone na banda, com o Maestro Márcio.”

Luthiers do Cariri Cearense – Di Freitas

Seu interesse pela música erudita acabou se ampliando, pois na orquestra “tinha a possibilidade de me profissionalizar como músico de orquestra: violoncelista. Então, eu fiquei tocando em orquestras. Recebi bolsa para ir pro Rio, São Paulo.” Conta que ia “muito para São Paulo, na época do maestro Eleazar de Carvalho.” Tocou também em “Goiânia [...] na Filarmônica do Estado de Goiás. Nesse período eu tive tendinite, devido ao estudo do instrumento e passei um ano sem estudar, parado e fui pro Matogrosso.”

Fotografia 11 - DiFreitas com a sua lira. Horto, Juazeiro do Norte - Ceará, em 19 de julho de 2015.

Como não podia tocar o violoncelo começou a “estudar flauta nesse período. E lá eu e minha esposa resolvemos morar no Ceará, mas a gente não queria mais Fortaleza. Uma cidade muito grande, violenta. A gente queria uma coisa mais tranquila. E como eu já conhecia o Cariri dos festivais de música, que eu vinha pra cá tocar, então a gente resolveu vir para o Juazeiro do Norte.” Tocou também “em grupo de música antiga, em Fortaleza. Eu tocava a viola da gamba.” O grupo a qual ser refere é o Syntagma. Segundo conta DiFreitas “tem uma ação muito forte ligada à música nordestina, à música Armorial. O repertório sempre tem alguma coisa nordestina. O Liduíno Pitombeira ele era o arranjador e músico do grupo Syntagma.”


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Desde a sua participação no grupo DiFreitas conta “fiquei com isso da música antiga. Dessa sonoridade dos instrumentos. E no Cariri eu comecei a reconhecer na música, na cultura local, tudo aquilo que eu tinha visto antes. Que eu tinha tocado, que eu tinha estudado. E isso me atraiu, né? Essa cultura daqui, da região, da cidade de Juazeiro do Norte.” Di Freitas conta: “Um dia eu jantando, passou uma banda cabaçal e eu passei a seguir ela pela cidade.” Era a banda do “Mestre Ciço de Missão Velha. No Natal. O Mestre Ciço tava andando nas ruas tocando. E desde esse dia eu não parei mais de admirar e de seguir esses músicos da cultura. Bandas cabaçais e reisados. Eu não parei mais. Eu me identifiquei muito com esse pessoal. Com a habilidade deles de construir instrumentos e de fazer música.” O luthier conta sobre seu encontro com um dos maiores personagens, músico rabequeiro do Cariri. Assim relata: “E um dia eu tava num teatro, no Memorial [do Padre Cícero] e tava lá o Mestre Cego Oliveira. Seu Zé Oliveira tocando rabeca. E aquilo me soou muito estranho. A maneira que ele tocava, o som que ele tirava. Aquilo ia totalmente oposto aquilo que a academia que eu tinha feito. A maneira dele tocar. Mas este estranhamento fez com que eu fosse atrás dele depois. Fiz amizade com ele. Passei a tocar com ele. A gente viajou muito para eventos. E a partir daí eu comecei a me dedicar a rabeca.” Di Freitas conta que “devido ao estado de saúde” do Mestre Cego Oliveira, pois “ele estava muito doente naquela época e só tinha ele tocando rabeca na cidade, eu comecei a conviver com ele.” Como forma de conhecer mais sobre este instrumento, conta que fez “um projeto pro governo do Estado pra ir atrás de rabequeiros. E fui atrás deles. De rabequeiros que eu já tinha informações que existia, em Quixadá, Itapipoca, Aurora e Juazeiro do Norte.”

Luthiers do Cariri Cearense – Di Freitas

Sua atividade como luthier e como rabequeiro começou a partir daí. E continua: “Aí passei a conviver com esses mestres, fazer amizade com eles, conhecer o trabalho deles, a maneira deles tocarem e de construir instrumentos. E apliquei isso aqui em Juazeiro. Lá no Lar Assistencial. Lá é uma associação que trata de crianças que tem problema em casa. Reforço escolar. Eu propus para eles uma escola de rabeca, em 2001. Aí a partir daí eu comecei a construir os instrumentos.” Tudo isso começou porque “o projeto não tinha dinheiro para comprar instrumentos. Então, a opção foi eu começar a construir as rabecas. Aí nesse processo eu encontrei a cabaça, que era o objeto mais próximo, simples e barato que tinha em mãos. Aí a gente começou com cinco alunos.” Nesta época “o SESC adotou o projeto por vários anos, o Dragão do Mar adotou a gente e os meninos, aí o projeto cresceu para 20, 25 pessoas. Os mestres começaram a participação nos grupos com os meninos. Então essa coisa da luteria nasceu por essa necessidade de ter instrumentos, para poder manter a tradição da rabeca. Então, como não tinha onde, nem como comprar, eu tive que aprender a fazer.” Segundo Di Freitas “como já tinha escola de violoncelo”, tinha a pegada do arco, de postura, de dedilhado da mão. Foi uma questão de me adaptar ao instrumento. De me adaptar a rabeca mesmo.” E nessas viagens pelo estado “[...] eu escolhi quatro cidades para conhecer rabequeiros. Então eu conheci pessoas que trabalham com o que tem em mãos. Ao que o artesão tem em mãos. Então ele usa o que tá próximo a ele.” Para Di Freitas “a rabeca é um depoimento do artista, do artesão. A rabeca fala do que ele tem em mãos, de onde ele mora, questão social. É um instrumento que se adapta a tudo isso. O artesão ele usa o que ele tem em mãos.” Há mais de dez anos na região, convivendo com os mestres da cultura, Di Freitas é um luthier do Cariri.


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Luthiers do Cariri Cearense – Di Freitas

Fotografia 12 - DiFreitas tocando uma rabeca feita de cabaça. Horto, Juazeiro do Norte - Ceará, 19 de junho de 2015.


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Luthiers do Cariri Cearense – Di Freitas


Fรกbio Castro


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Luthiers do Cariri Cearense – Fábio Castro


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Fábio Castro Nome: Fábio Alcântara de Castro. Nascimento: 24 de novembro de 1963. Naturalidade: São Luís, Maranhão. Residência: Sossego, Crato, Ceará. Instrumentos que constrói: Flautas e pífanos. Ocupação: Músico e educador musical. Graduado em História. Formação como luthier: autodidata. Fábio Alcântara de Castro nasceu em São Luís, Maranhão, em 1963. É filho de cearenses. Conta que seu “pai teve que trabalhar e foi com [sua] mãe para São Luís [...].” Por isso nasceu nessa cidade. Quando tinha nove anos sua família retornou “para o Ceará” e, como explica o luthier “desde então permaneço aqui.” E “aos onze anos de idade nós viemos morar aqui na região do Cariri, no Crato, onde eu iniciei toda a minha vivência musical.” O Cariri foi e tem sido a sua inspiração para a música. Assim conta Fábio Castro: “Naquela época, menino, eu via sempre os irmãos Aniceto descendo a ladeira tocando aquelas flautinhas, batendo aquele tambor e eu ficava encantado com aquilo. E pedia sempre para que minha mãe ela me desse uma flauta daquelas. E eu queria tocar, eu queria aprender. Achava aquilo fácil de tocar, assim eu imaginava. Mas, minha mãe não sei por que motivo, nunca quis me dar uma flauta daquela. E eu fiquei com aquilo na memória. E fui crescendo. Aos doze, treze anos de idade nós

Luthiers do Cariri Cearense – Fábio Castro

tivemos que voltar para Fortaleza e daí esqueci essa vontade, né, de fazer música. Essa vontade de tocar essa flauta. Mas, como a vontade não deixa a gente, né, você quando nasce pra ser músico você acaba sendo músico. Eu via as pessoas tocando violão, um instrumento e eu sentia aquela vontade de tocar, até que eu tive a iniciativa de comprar as cordas de violão. Isso era vontade tão grande de poder tocar, que primeiro eu comprei as cordas. Aquilo Fotografia 13 - Fábio Castro com uma flauta de bambu. Sossego, Crato eu ficava pressionando a minha mãe todos os dias por um - Ceará, em 18 de novembro de 2015. violão. Até que minha mãe atendeu o meu pedido e comprou um violão. Eu passei a tocar.” E continua: “Com dezoito anos de idade eu conheci alguns amigos. Hoje esses amigos são grandes na área da música, são professores universitários. Nós formamos aquela que foi a minha primeira banda: Banda Oficina. Na época era Eu, Ocelo Mendonça, Liduíno Pitombeira e Dennis Bentes, na bateria. E daí nós iniciamos esse trabalho,


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até que eu resolvi ingressar na minha vida religiosa. Foram trinta anos que eu passei longe da música e, com o passar do tempo, já casado, eu e minha esposa, nós, devido a correria do dia-a-dia, da violência, da agitação da capital, no caso Fortaleza, nós tomamos a iniciativa de escolher um lugar para que a gente pudesse vier com mais tranquilidade. Com mais qualidade de vida. Então, minha esposa teve a ideia de que nós viéssemos morar aqui no Crato, na região do Cariri. E por coincidência, eu não havia falado nada dessa história para ela, ela escolheu esse lugar.” Fábio Castro explica a sua retomada nas atividades musicais: “Então, chegando aqui, todo aquele sentimento, toda aquela memória quando era criança ela começou de novo a existir. Então, lembrei dos Irmãos Aniceto, comecei a entrar em contato. Conheci muitas pessoas na área da música e aquela vontade de ter aquela flautinha ela começou a existir uma outra vez. Resolvi partir pra ação. Peguei um pedaço de cano e comecei a construir a flauta. Só que eu não tinha tamanho, dimensões, como é que eu faria essa flauta. Eu comprei um cano, duas varas de cano de seis metros e a cada dia eu ia ali tentando conseguir uma flauta que fosse mais perfeita. Tivesse a melhor afinação. E até que foi dando certo. Até que consegui construir uma, né? E assim, conhecendo outras pessoas que construíam comecei a ter algumas informações e fui construindo a primeira flauta chamada pífano.” Sobre a sua formação musical Castro conta: “Eu sou formado em história. E quando vim aqui para o Cariri, como eu entrei em contato com muitos artistas aqui e toda aquela vontade que eu tinha no passado, e que não dei vasão, eu resolvi, então, agora nesse momento, dar vasão a esse desejo. Então, me inscrevi na UFCA, na Universidade Federal do Cariri,

Luthiers do Cariri Cearense – Fábio Castro

no curso de música. Já estou terminando o curso de música, no próximo ano (2016). E escolhi um instrumento diferente do instrumento que eu fabrico, que é o contrabaixo. O baixo acústico. Eu tenho uma formação erudita, em Fortaleza eu fui aluno do SESI, com o maestro Vasquen Fermanian, tocando na Orquestra do SESI, por algum tempo. E daí escolhi esse instrumento para que eu pudesse dar continuidade a ele. E resolvi, nesse meio tempo, construir esses instrumentos, incentivado pelo meio. Eu fui incentivado – por esse inconsciente coletivo, por esse ambiente musical existente aqui no Cariri, que é muito forte – a construir esses instrumentos. Inclusive tenho dado, feito oficinas, tenho ensinado alguns jovens a tocar esse instrumento. E comecei a construir pífano com o material mais simples, com o material encontrado com mais facilidade, que é o cano de PVC. E cada pífano ele tem uma sonoridade diferente.” Fábio Castro, apesar de ter nascido em São Luís, no Maranhão já está familiarizado com a “linguagem musical” do Cariri. Portanto, é um luthier do Cariri cearense. De Crato. Como educador musical deixa sua motivação para aqueles que desejam estudar música. Diz: “Eu tive quando criança um sonho de aprender a construir esse instrumento [a flauta]. E esse sonho não morreu. Ele continuou vivo. Até que hoje eu posso construir a minha flauta.”


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Luthiers do Cariri Cearense – Fábio Castro

Fotografia 14 - Flauta de bambu confeccionada por Fábio Castro. Sossego, Crato - Ceará, em 18 de novembro de 2015.


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Gil Chagas


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Luthiers do Cariri Cearense – Gil Chagas


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Gil Chagas Nome: Francisco Gildamir de Souza Chagas. Nascimento: 18 de março de 1958. Naturalidade: Juazeiro do Norte, Ceará. Residência: Aurora, Ceará. Instrumentos que constrói: Rabeca, violino, violoncelo. Ocupação: Artesão, marceneiro e luthier. Formação como luthier: autodidata. Gil Chagas mora em Aurora há cinquenta e seis anos e nove meses. É natural de Juazeiro do Norte, Ceará, mas, considera-se aurorense. Como ele mesmo diz: “Sou eleitor aurorense”. O luthier começou a profissão de escultor/marceneiro aos doze anos de idade. Sua primeira atividade “foi trabalhando como escultor. Em 1977, eu fui esculpir o trono de Dom Vicente de Matos, na cidade do Crato. Foi quando daí eu percebi que eu tinha que seguir a carreira artística.” Com o interesse na área foi se aprofundar em Salvador, na Bahia, buscando mais informações sobre as técnicas das artes plásticas. E, como ele mesmo salienta: “[...] hoje trabalho como escultor e luthier. Tenho aqui a carteira hoje. Às vezes a pessoa tem que mostrar. Matar a cobra e mostrar o pau.” A luteria para Gil surgiu de uma paixão antiga que ele tinha desde criança por instrumentos, mas, segundo nos conta “[...] num partia para fazer os instrumentos, que eu já tinha profissão demais. Não me botava

Luthiers do Cariri Cearense – Gil Chagas

para fazer os instrumentos.” Porém, Gil Chagas após receber tantas cobranças – de que deveria construir instrumentos musicais – decidiu: “Sabe que eu vou fazer Fotografia 15 - Gil Chagas tocando em sua oficina. instrumento?” O Aurora - Ceará, em 02 de abril de 2015. incentivo maior foi dado pelo pesquisador e professor da Universidade Federal do Ceará / UFC, o Dr. Gilmar de Carvalho. E quando foi um belo dia ele chegou em Aurora. “Ora: aí eu já tinha aquela paixão por instrumento. Vou tentar fazer instrumento. Quando foi no dia seguinte eu fui lá na casa do Sr. Antônio Pinto” para conversar com ele sobre isso. Chagas, com intensão de conseguir uma opinião e, ao mesmo tempo, questionando a sua própria capacidade, disse: “Eu tenho vontade de fazer rabeca”. E o senhor Antônio Pinto respondeu: “Faz! Porque você é um cara que domina bem a sua profissão. [...] Você domina muito bem as talhas, as esculturas. O senhor Antônio meu deu força. Peguei umas madeirinhas que eu tinha. Eu fui fazer a primeira rabeca.” A sua primeira rabeca foi apenas um experimento inicial, mas, a segunda ele próprio já considerou melhor. Partiu novamente para a casa do senhor Antônio Pinto para pedir uma opinião. Assim ele conta: “eu acho que essa aqui já tá boa. Coloquei dentro de um saco. Eu vou lá em


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senhor Antônio, para saber o que ele vai me dizer. O professor aqui nessa área é ele. Que era para eu fazer certa. Eu vou levar lá para ele dar uma olhada. Eu vou procurar fazer certa a terceira. Quando eu Fotografia 16 - Rabeca confeccionada por Gil cheguei lá eu disse: Chagas, com desenho do rosto de Pe. Cícero. senhor Antônio. Eu fui Aurora - Ceará, em 02 de abril de 2015. abrir o saco tirei. A esposa dele disse assim: - Mas bem-feita que as tuas. Me deu aquele conforto. Já sei que eu tenho que ficar na luteria.”

Atualmente, além da rabeca Gil Chagas tem se dedicado a construir outros instrumentos, como o violino e violoncelo. E diz: “eu acho que eu vou mais além. Porque eu quando eu boto na minha cabeça para eu fazer. É eu querer. Aquele lá de cima ele vem me deixar de presente. Ele me mostra nos sonhos. Que eu passo três ou quatros noites sem dormir. Ele vem trazer pra mim.”

Empolgado com o resultado e com a opinião que obteve o novo luthier tirou uma fotografia da rabeca e enviou para Gilmar de Carvalho que, segundo ele, “tinha que saber da existência das rabecas que eu tava fazendo.” Pela análise do pesquisador Gil Chagas já estava no caminho certo, mas ainda faltavam detalhes para melhorar a qualidade sonora do instrumento. Assim, orientou-o a procurar auxílio com o Mestre Totonho, em Mauriti.

Diferente de outros luthiers Gil Chagas não enveredou nesta profissão com a intenção de ter um instrumento para tocar, ou seja, não foi uma vontade como músico, mas como um artista na arte de esculpir e lidar com madeiras. Este artesão-escultor nascido em Juazeiro do Norte, mas de coração aurorense é um luthier do Cariri.

Segundo Gil o encontro com o luthier foi ótimo, pois lhe ajudou muito. Como ele mesmo explica, as observações foram as seguintes: o cavalete que “botei colado”, ou seja, “eu fiz certo e fiz errado. O cavalete é solto.”

Luthiers do Cariri Cearense – Gil Chagas

O luthier diz que a espinha dorsal do instrumento é o centro de tudo. “Esse risquinho é o pivô de tudo. É onde vai fazer o esqueleto da rabeca. A centralização. [...] O corpo todinho é montado na espinha dorsal. Esse risco do meio. A base do meio.” Outra sugestão do Mestre Totonho para ele foi sobre o tampo, para que “um instrumento também tenha muito recurso em som [...] ele fique bem fininho. Bem flexível. Ele não vai ter volume de som. Vai ficar um som fofo. O fundo ele tem que ser um pouco mais grosso. Que é para ele receber aqui a alma.”


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Luthiers do Cariri Cearense – Gil Chagas


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Luthiers do Cariri Cearense – Gil Chagas


Jhonny Almeida


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Luthiers do Cariri Cearense – Jhonny Almeida


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Jhonny Almeida Nome: João Batista de Almeida Nascimento: 08 de julho de 1972. Naturalidade: Marechal Hermes, Rio de Janeiro. Residência: Centro, Juazeiro do Norte, Ceará. Instrumentos que constrói: Flautas, pífanos, gaita de foles, tank drum. Ocupação: músico e luthier. Formação como luthier: autodidata. João Batista de Almeida é conhecido pelos amigos como Jhonny e conheceu o Cariri em 1989. Seu pai nasceu em Juazeiro do Norte e a sua avó em Crato. Este luthier que embora não tenha nascido no Cariri, mas em Marechal Hermes foi criado pelos avós paternos viajando muito com eles pelo Brasil, viveu por muitos anos na região e agora está de volta. Jhonny viveu em Planaltina de Goiás, no Distrito Federal, em Sobradinho, no Gama, no Plano Piloto, em Fercal (zona rural), em Itapecuru Mirim e São Luís, no Maranhão. Em 1989 chegou em Juazeiro do Norte e foi lá que conheceu sua esposa (naquela época), porém, mudaram para o Rio de Janeiro em 1994. Acabou retornando ao Cariri, onde vive até hoje. Segundo nos conta “sempre sonhava em voltar para o Cariri. Não sabe se por causa de raízes, essa coisa. Às vezes, eu sonhava que eu tava 5

Na esquina da Padre Cícero com a rua São Francisco, em Juazeiro do Norte.

Luthiers do Cariri Cearense – Jhonny Almeida

reencontrando os amigos, chorando, aquela felicidade e tal. Acordava e ficava. Poxa! Caramba! Era só um sonho? Mas aí, tanto que quando eu cheguei aqui [...] às vezes eu saia para comprar pão, passava ali pelo memorial. Ficava olhando a igreja do Socorro, para o Horto. Eu tô aqui mesmo?! Tô aqui mesmo! Sei lá.” Jhonny acredita que tenha uma ligação muito forte com essa terra. Na luteria a coisa começou pela necessidade de ter um bom Fotografia 17 - Jhonny instrumento e não poder comprar. Jhonny “tocava na noite (cantava e tocava Almeida tocando uma fujara. Horto, Juazeiro do Norte violão) em um lugarzinho chamado chap Ceará, em 29 de março de chap. 5 Comecei essa coisa de tocar na 2015. noite aqui, em Juazeiro. E lá no Rio eu dei continuidade a isso.” Segundo conta “[...] tinha necessidade de ter um bom instrumento, um bom violão e não podia comprar.” Jhonny sempre agiu assim “[...] desde moleque. Fazia meus brinquedinhos, meus caminhõezinhos. Quando eu tinha meus oito anos.” Desde criança fazia os próprios brinquedos. Seu primeiro violão construiu ainda criança, com uma lata de baygon. O luthier relata que “[...] botava uma cravelha. Só uma linha de pesca. Eu acho até que por isso quando eu vou tocar um instrumento não temperado, um violino, alguma coisa assim, eu sinto uma certa facilidade. Isso já vem de longe.”


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Para confeccionar o seu primeiro violão comprou um grande pedaço de madeira, “uma madeira maciça assim, grande.” Decidiu fazer o seu primeiro violão em formato de craviola. Para completar “peguei um caibro que tinha jogado lá no fundo do quintal do meu pai. Com um cutelo do meu avô fui fazendo o formato do instrumento, e depois raspando com caco de vidro – raspa, raspa – para dar o acabamento.” Segundo ele o “violão ficou fantástico. Coloquei captador, fiz toda a parte elétrica. Toquei muito tempo com esse violão. Eu alimentei meus filhos e minha esposa e me alimentei muito tempo com esse instrumento.” Num período em que estava terminando esse violão, um amigo lhe apresentou o senhor Carlos Nascimento, um luthier que fazia bandolins, violões, cavaquinho. Embora não tivesse feito o acabamento do violão ainda, levou-o para receber uma opinião e algumas dicas. Jhonny relata que o “senhor Carlos Fotografia 18 - Detalhe de Jhonny Almeida tocando sua fujara. Horto, Juazeiro do Norte - Ceará, em 29 de março de 2015. achou

Luthiers do Cariri Cearense – Jhonny Almeida

interessante uma pessoa que tinha não tinha nenhuma orientação na área da lutheria” construir um instrumento. Como tantos outros, Jhonny quando começou a fazer o seu instrumento ainda não tinha noções de confecção, mas “ele foi me dando uns toques [...] ensinou fazer a roseta e [...] depois eu construí um bandolim com ele, para um músico do Rio de Janeiro chamado Marcos de Pina.” Jhonny aprendeu muita coisa lá e quando terminou o seu violão passou por sua maior prova. O mesmo senhor Carlos apresentou-o ao senhor “Dario, que era o mestre do senhor Carlos. O senhor Dario já estava com quase noventa anos. O senhor Darinho, com era conhecido. Trabalhou na bandolim de ouro, no Rio de Janeiro.” Relata que o “coração ficou acelerado. Aquela tensão. O mestre dele que ia olhar o violão. Aí ele pegou o meu violão e ficou olhando um tempo calado. E eu fiquei tenso, esperando a reação. Ele disse assim: - “É! Bem-vindo ao clube.” Para Jhonny “a partir daquele momento [tornou-se] um luthier.” Na verdade, Jhonny se considera um luthier e um artífice. Para ele o primeiro confecciona instrumentos de cordas, já o segundo, instrumentos de sopro. Assim, como constrói os dois acha que desta maneira está contemplado de ambas as formas. Em sua opinião, a dificuldade das pessoas em relacionar a palavra “luthier” com a profissão (quem constrói instrumentos) é culpa dos próprios profissionais, ou seja, “vem também do comportamento da maioria dos luthiers. Essa coisa da luteria é quase uma coisa de ‘sociedade anônima’. Os caras são meio fechados. Você não vê os caras dando cabeçadas no meio da rua. Acha que o cara vai lá roubar informações, mas isso tem mudado bastante.” Também considera que acabou “[...] ficando assim meio que em cima do muro. Acho que não sou nem uma coisa nem outra. Ou talvez as duas, eu não sei. Porque independente do instrumento ser de corda


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ou sopro eu gosto mais dos

Fotografia 19 - Jhonny Almeida tocando um tank drum. Horto, Juazeiro do Norte - Ceará, em 29 de março de 2015.

instrumentos antigos, né? Acho que eu gosto mais de instrumentos antigos do que da música antiga. Daí, eu comecei numa busca por instrumentos antigos.” Jhonny é conhecido no Cariri e em outros lugares por confeccionar instrumentos incomuns. Na verdade, não tão incomuns os instrumentos, mas sim que os confeccione. Assim ele relata: “A gaita de foles é um instrumento que desde menino eu sou apaixonado. No cinema... Eu era molecote, devia ter uns oito ou nove anos. Eu falei pro meu primo assim: ‘Um dia eu vou fazer uma dessa pra mim’. Curioso que décadas depois eu confeccionei uma gaita de foles. Tem a bansuri, que é uma flauta indiana. Muita gente me pergunta porque eu fabrico instrumentos assim, instrumentos muito inusitados. Você não acha instrumentos desse numa loja. Isso também foi necessidade.”

Luthiers do Cariri Cearense – Jhonny Almeida

Lamenta que “o mercado chinês [tenha tomado] conta de várias áreas, inclusive dessa parte da luteria, da fabricação de instrumentos musicais. Marcas altamente famosas estão terceirizando mão de obra chinesa. Você hoje compra violões nacionais – do Brasil – fabricados na china. E não dá pra competir. Tem qualidade? Não! Não tem qualidade. Só o cara que sabe da qualidade é que exige, que é músico mesmo. Nem todo mundo tem essa paixão louca por instrumento ou a grana. As vezes o cara é apaixonado, mas não tem a grana. Aí tem que virar luthier (risos).” A diversidade de instrumentos diferentes que constrói “acontece primeiro pela paixão. Cada instrumento antigo que eu vejo, que eu me apaixono pelo som eu quero fazer. Quero entender como se faz. Mas isso vem também de uma consciência que eu criei, não sei se boa ou ruim, mas chegou um momento da minha vida que disse: - Acho que eu nunca vou ser músico.” Jhonny explica que nunca teve paciência (ou vontade) de se dedicar a um único instrumento, para estuda-lo a ponto de se tornar um instrumentista, um músico mesmo. Diz: “eu nunca consegui fazer isso. O meu avô ele reclamava muito comigo, porque ele falava. ‘Você nunca termina nada do que você começa.’ Mais nesse sentido, mas não na confecção do instrumento. Por exemplo, eu ser gaiteiro, estudar gaita de foles. É uma turbulência muito grande. Uma fome mesmo. Eu queria viver três mil anos para construir todos os instrumentos que pudesse.” Neste sentido Jhonny confessa: “Eu não me vejo viver na eternidade sem fazer instrumento. Por causa dessa fome.” Além disso, Jhonny explica que não constrói instrumentos por dinheiro, “primeiro porque o dinheiro nunca foi o foco. E acho que nunca será. Tem gente que vira pra mim e diz: “Tu era pra ‘tar rico.” Não era. Se fosse eu seria, né? E rico é algo muito.... Que que é ser rico? É ter muito dinheiro, né? Conheço pessoas que tem um mundo de dinheiro e


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são extremamente pobres de muitas outras coisas importantes. De coisas que eu acho que o ser humano precisa ter. Eu faço porque eu amo. Às vezes me traz muito mais satisfação fazer um instrumento pra presentear um amigo que pra vender. Quando fala pra vender me dá uma agonia quando alguém me encomenda um instrumento. Eu comercializo, mas é difícil. Não tenho nem o mesmo prazer pra fazer. Só se eu conhecer a pessoa. Se eu sei que o meu instrumento vai pra mão de uma pessoa que vai tratar com o mesmo carinho que eu fiz, aí eu faço.” O sotaque da voz de Jhonny Almeida lhe denuncia no primeiro momento: é do Rio de Janeiro. Porém, este luthier é do Cariri, pois sua “alma musical” está mais próxima dos pífanos das bandas cabaçais, do que dos violões da bossa nova.

Luthiers do Cariri Cearense – Jhonny Almeida


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Luthiers do Cariri Cearense – Jhonny Almeida

Fotografia 20 - Jhonny Almeida com uma gaita-de-foles. Ao fundo a cidade de Juazeiro do Norte. Horto, Juazeiro do Norte - Ceará, em 29 de março de 2015.


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João Nicodemos

Luthiers do Cariri Cearense – João Nicodemos


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Luthiers do Cariri Cearense – João Nicodemos


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João Nicodemos Nome: João Nicodemos Araújo. Nascimento: 29 de março de 1960. Naturalidade: Tupã, São Paulo. Residência: João Pessoa, Paraíba. Instrumentos que constrói: Rabecas. Ocupação: Cordelista (poeta), músico, luthier. Formação como luthier: autodidata. Nicodemos nos explica: “Eu aprendi com algum grego que a poesia é uma energia que paira sobre o mundo, sobre as coisas e o poeta é quem consegue captar essa poesia de alguma forma. Essa poesia pode ser transformada em poemas através de palavras, ou em música, através dos sons. Ou em pintura. Enfim, qualquer forma de expressão artística. Pensando nisso em fui aprendendo algumas técnicas dessa linguagem. Fui exercitando um pouco disso. Inevitavelmente eu comecei pela música, porque meu pai cantava, minha mãe cantava. Eu ouvia muita música em casa. Ouvia muito rádio. E a música foi o primeiro canal. É o canal mais forte mesmo de transcendência. E na música eu toquei, estudei um pouco alguns instrumentos. Toco alguns. Menos do que eu gostaria, mas, mais do que eu posso pelo tempo de prática, né?” Este luthier opina: “Considero a música uma necessidade humana. Uma necessidade tão forte que onde não tem instrumento a gente inventa. A gente dá um jeito. O ser humano inventa um jeito de fazer música com instrumento. Fazer instrumento de couro, de osso, de

Luthiers do Cariri Cearense – João Nicodemos

pedra, de madeira, de bambu. Qualquer material que tiver o homem dá um jeito de fazer música. E eu quando menino era raro naquele tempo alguém tocando violino ao vivo. E na minha escola apareceu um professor que tocava violino. Aquilo me impressionou muito.” João Nicodemos nos confessa: “Eu tentei fazer um jeito de um instrumento parecido com aquele. Estiquei um elástico numa tábua e fiquei tentando tocar Asa branca. E foi o meu primeiro instrumento, que eu fiz e tal. Foi uma Fotografia 21 - João Nicodemos tentativa. Nem sabia que teria um tocando uma rabeca. Lameiro, Crato nome esse instrumento, que seria - Ceará, em 29 de janeiro de 2015. uma rabeca e tal. Hoje eu faço rabeca, estudo a forma de fazer rabeca, conheço um pouco da técnica de construção do instrumento, um pouco da história do instrumento. E eu acho uma dádiva mesmo. Uma coisa maravilhosa alguém poder pegar alguns pedaços de madeira, trabalhar essa madeira que muitas vezes seria lixo e transformar num instrumento que faça música, e que possa toca o coração das pessoas. Eu considero isso uma graça e procuro exercitar isso fazendo o instrumento, tocando e ensinando. Eu também ensino as pessoas a fazerem rabeca, pífano, enfim. Alguns instrumentos.


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E dentro dessa área de transcendência que é a arte, para mim, eu passei pela poesia visual, pela poesia moderna, cheguei na poesia popular. Hoje eu sou cordelista também. Participo da academia dos cordelistas do Crato. E faço poemas nas formas clássicas, sonetos, poema visual, faço versos livres. Dentro da literatura.” Nicodemos busca se expressar artisticamente de diversas formas. Assim ele relata: “Na música componho algumas – menos canções – mais música instrumental. Forrozinho. Música assim para dançar. Eu toco como um ritual. Pra mim, tocar é uma coisa quase religiosa. Aliás, religiosa mesmo, no sentido de transcendência. Porque quando eu começo a tocar, eu toco e eu tô sozinho sem incomodar ninguém, eu toco até sentir um tipo de êxtase, né? Uma transcendência mesmo. Que outras pessoas conseguem de outras formas. E eu consigo isso tocando, principalmente, tocando. A minha ligação com a cultura nordestina é atávica.”

Ceará. Porque o Ceará também não é só um lugar geográfico pra mim. É um lugar mitológico também. De um certo modo eu ainda estou indo pro Ceará. Pra um Ceará que é um mítico. Mesmo estando fisicamente aqui já, eu continuo indo para um Ceará que é um mito na minha cabeça. Um tipo de paraíso, né? Bom, enfim, quando eu cheguei no Ceará a minha identificação foi imediata. Fiz logo amigos e me identifiquei com tudo, com a cultura toda. Com a religiosidade, com a musicalidade, com a poesia, enfim. E vivo já há muitos anos. Vivi no Ceará durante muitos anos.”

Por sua ligação com este Estado do Nordeste, o luthier acabou se envolvendo também academicamente. E Fotografia 22 - João explica: “Agora faço parte de um pessoal que está Nicodemos com rabecas estudando em João Pessoa, mas o meu coração está aqui no confeccionadas por ele. Ceará, sem dúvida. A influência da cultura cearense na minha Lameiro, Crato - Ceará, em vida, como eu disse, desde a infância e de alguma forma 29 de janeiro de 2015. quando eu escolhi morar aqui eu também venho compartilhando o meu aprendizado com as pessoas aqui. Ensinando Sobre a sua relação com o Ceará e a música nordestina algumas coisas que eu já aprendi. Ensinando e aprendendo. E enfim, Nicodemos explica assim: “Meu pai é cearense e eu nasci no interior de transformando, me transformando. A cultura cearense pra mim e a São Paulo (Tupã), mas eu sempre admirei o jeito dele, o sotaque que ele cultura nordestina é uma cultura muito rica que me alimenta e alimenta a nunca perdeu também. A valorização de, enfim, algumas características cultura brasileira de uma forma umbilical. Não tem como a gente separar do cearense. Eu herdei isso na cultura que eu recebi em casa, do meu essa cultura da cultura brasileira. É uma coisa muito forte. Cheguei aqui pai e do repertório que ele cantava, minha mãe cantava também. Que é, assim, querendo vir pra cá. E como disse, ainda estou indo pro Ceará.” principalmente, as músicas dos anos [19]50, da Era do Rádio, Luiz Gonzaga. E eu cresci assim, durante uma fase da minha infância eu cresci dizendo que eu ia pro Ceará. Ia crescer e ia pro Ceará. Quando eu crescesse, né? Eu nem sei se eu já cresci e nem sei se eu já cheguei no

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Sua relação com o fazer musical e a confecção de instrumentos musicais vem desde a época que ainda era criança. Nicodemos conta: “Na minha infância eu tive a felicidade de não ter brinquedos. Naquele


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tempo brinquedo a gente fabricava. Então, eu ia pra cozinha pegava uma faca da cozinha, pegava um pedaço de pau no quintal e Fotografia 23 - Três modelos diferentes de rabecas de fabricava um João Nicodemos. Lameiro, Crato - Ceará, em 29 de brinquedo. Logo janeiro de 2015. os colegas queriam também e eu fabricasse pra eles. Era carrinho, era arco e flecha ou era lança. Inventava as brincadeiras. E com isso eu desenvolvi já desde cedo a habilidade manual. Gostava de desenhar, enfim, esse tipo de coisa. E daí a construir um instrumento foi um passo, né? Questão de necessidade. Quando eu quis imitar o som do violino que eu ouvi de um professor na escola, eu estiquei um pedaço de elástico numa tábua e quis fazer um violino. Então, acho que ali já tinha um embrião de querer fazer um instrumento. A música já vinha de cultura. Agora quando eu comecei a fazer rabeca foi aqui no Ceará e foi por um caso interessante. Eu tinha uma rabeca comprada do senhor Nelson da Rabeca, Nelson dos Santos. Bom, eu sofri um acidente com ela, eu refiz a rabeca e ficou mais ao meu gosto e tal. Mas não tinha feito, eu tinha refeito. E sempre que eu tava tocando, aparecia um menino, aparecia alguém e dizia: - Ô tio foi o senhor que fez é? Eu ficava com aquela coisa, né? Eu só refiz, porque

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quebrou e tal. E parece que eu me devia fazer uma rabeca. Até o dia que eu ganhei um pedaço de madeira. Tive uma febre de dez dias e fiz a minha primeira rabeca. Aí, dali pra frente eu senti que nasceu uma outra pessoa, porque é como um rito de passagem, uma iniciação. Até então eu tocava um pouco, mas nunca tinha feito. No momento que fiz a rabeca, a primeira rabeca, eu já me senti outra pessoa. E por essa magia mesmo, de transformar um material, um pedaço de madeira, algumas madeiras num instrumento musical e esse instrumento fazer música e me transformar com a música. E transformar pessoas com a música. Passar a emoção. Sentir emoção. Então, isso é um xamanismo. É uma bruxaria. É uma dádiva. E de lá eu comecei a exercitar e fazer mais. E algumas pessoas quiseram aprender e eu tenho dado oficinas ensinando algumas pessoas a fazer. E tá sendo muito bom isso.” A sua opinião é de que “a rabeca no Brasil tá crescendo, tem muita gente fazendo rabeca, já. Tem alguns pontos, principalmente o Nordeste é muito rico em rabeca. E a minha ideia é quanto mais pessoas fazendo rabeca e tocando melhor. Mais a gente vai ter rabequeiros bons. A rabeca é um instrumento muito antigo. Muito antigo mesmo. Corda tangida, que é a família que ela pertence. No século XII já tem ilustrações, já tem imagens. E muito antes disso ela já existia. Então, a forma de ensinar a fazer rabeca é uma coisa também de herança cultural. Hoje, atualmente é que existem pessoas que ensinam a fazer rabeca de algumas formas. Mas, geralmente, a rabeca, alguém que fazia rabeca porque precisava de um instrumento. Alguém precisava de um instrumento, alguém com habilidade fazia. E fazia com a madeira que tinha, com a madeira que encontrava. Enfim, a corda feita de tripa de animal. Coisas assim: da necessidade. Tem necessidade do instrumento, o que é que eu tenho pra fazer? Tenho isso! Então, vou fazer desse tamanho, desse jeito. E


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assim a rabeca chegou até os dias de hoje. Transmissão de continuidade, por herança cultural, por necessidade.” Nicodemos se envolvendo de tal maneira que “ensinar alguém a fazer hoje já é uma coisa assim por criar um método, um padrão, fazer um molde, um modelo. E isso não é muito da tradição da rabeca. Então, quando eu ensino fazer rabeca, pra quem eu ensino, eu não ensino através de gabarito, nem de medidas prontas, nem de moldes. Eu vejo o tamanho da madeira, vejo qual é a madeira que tem. Então, eu pego a madeira que estiver disponível. Normalmente madeira de reaproveitamento. Vejo o tamanho que é possível fazer a rabeca e a gente desenha junto. Peço ideia do aluno, porque eu quero ele aprendendo a fazer. Ele ajudando a criar. O desenho da cravelha, o desenho do próprio instrumento. A gente vai criando. De maneira que eu não tenha um molde para fazer tantas rabecas daquele mesmo jeito. Eu fujo disso, mas por uma questão de tradição. Mas, há quem fabrique rabeca assim, mas nesse termo mais de fabricar. Não tenho nada contra. É só jeito diferente de fazer.” Sua atividade como luthier se confunde com a de educador musical. Segundo ele “para ensinar a tocar não existe um método, porque não existe escola disso, porque não existe padronização, como tem o violino, como tem a música erudita. Mesmo a música popular e tal. Então, se a pessoa sabe ler música eu procuro ensinar para uma pessoa que sabe ler música. Então eu escrevo frases, escrevo exercícios e tal. Mas isso é raro. Mas, quando a pessoa nunca pegou no instrumento, eu parto do princípio do prazer. Ninguém toca instrumento para sofre, ou pelo menos ninguém deve tocar música e instrumento pra sofrer. Então, vamos fazer amizade com o instrumento. Pega o instrumento, brinca, busca um prazer no som. Depois a gente vai dar nome para esse som.

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Vai passando um exercício, mais outro. Pego uma música que a pessoa já tenha na memória, que já seja do repertório dela. E aí vai colocando no instrumento e assim vai chegando o prazer pra tocar. E, normalmente as pessoas que começam por aí elas aprendem. Tocam e gostam. Enfim, acabam se desenvolvendo. Esse é caminho que eu uso para ensinar a rabeca. Pra ensinar a tocar a rabeca. Não tem um método, mas tem formas para afinar, tem formas de segurar o arco e tal, que podem ser melhores pra mim e pra outras não ser melhor, já que o objetivo não é padronização. Não é como o violino, que tem as posturas, as técnicas definidas. Rabeca tem essa liberdade. Segura no peito, segura no ombro, no queixo. Dança com ela na mão. Faz percussão nela. É um instrumento livre. Por esse caminho da liberdade e do prazer é que eu busco ensinar alguma coisa sobre o tocar rabeca.” João Nicodemos explica sua relação com este instrumento e com a atividade de confecção assim: “Pra um pouco mais além da matéria. A música pra mim é uma busca de transcendência. Então, buscando transcendência, que é ir além da nossa condição humana, da nossa condição mais material (materialista), eu gosto de pensar a rabeca como o ser humano. Porque cada ser humano e cada rabeca tem uma voz específica. Tem um jeito certo de tratar. Tem um jeito certo de responder. Cada rabeca tem uma medida. Por isso eu não gosto do padrão. Porque o ser humano não tem padrão também, em certo sentido. E aí eu gosto da rabeca com a sua própria voz, com o seu próprio timbre, o seu próprio jeito de tocar e muitas vezes a sua própria afinação. E partindo de uma afinação específica, fazer música para aquela rabeca, como o Eduardo Gramani fazia. Que é um grande pesquisador da rabeca e fazia isso. Ele compunha para determinada rabeca, partindo do timbre dela e tal. Então, eu gosto de fazer esse paralelo, entre o ser humano e a rabeca. Então nesse sentido, nós também estamos aqui aprendendo,


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ensaiando, desenvolvendo. Sendo um pouquinho melhor hoje, um sinto bem. É uma religião quase. Neste sentido. Religião neste sentido de pouquinho melhor amanhã. E isso é mais ou menos o caminho de me ligar com a música. A música é uma coisa superior a nós todos. A evolução da rabeca, que é um instrumento menos acabado, né? Mais música tá aí independente da gente. Tá aí ó. Tá tocando. Se a gente ouvir, tosco. Feito de uma maneira assim menos elaborada e tal, e que pode vir tem o vento e no vento tem a música. No ar tem o som. E o instrumento se afinando e tal, até que pode chegar a ser um dia um violino afinado. Eu é o meio de captar esse som e transformar em algo que possa emocionar. gosto dessa metáfora comparando o ser humano. Nós também somos Que possa fazer a gente transcender neste sentido. Ir além desse óbvio mais ou menos assim. E a minha rabeca, eu faço essa rabeca querendo das coisas visíveis, táteis. E passar um sentido, um sentimento melhor, né? ser violino. Não quero imitar um violino, Resolvi voltar. Por que que eu voltei? Eu mas eu faço uma rabeca intermediária. sou, principalmente, um autodidata. No Entre a rabeca que eu chamo de “rabeca seguinte sentido. Eu passei mais de trinta rural”, que é aquela rabeca com o som mais anos fora da universidade, por questões da rouco, com a afinação mais baixa, com mais minha vida mesmo. Fui trabalhar no interior ruído e faço uma rabeca com um som um e curso superior não era uma coisa tão pouco mais limpo, o som um pouco mais comum como é hoje, tem em todo lugar. limpo, quer dizer, com mais harmônicos. E Mas não deixei de estudar. Autodidata com uma resposta de afinação um pouco neste sentido. Eu li sobre vários assuntos, mais adequada. Uma tocabilidade, uma me interesso por muito assuntos. Passei a possibilidade de tocar melhor. Não estou conhecer uma série de coisas por leitura, falando de qualidade, entre melhor e pior por conversas com pessoas interessantes, não. É questão mesmo de caminho. É um mas depois de um certo tempo eu voltei a meio caminho entre a “rabeca rural” e o estudar. Eu achei bom voltar a estudar. E violino. É uma rabeca que tem um som. E eu descobri que tem uma disciplina que eu 24 - Detalhe de rabeca envernizada de João Nicodemos. tem outros construtores que fazem isso Fotografia já estudava desde menino, sem saber. E o Lameiro, Crato - Ceará, em 29 de janeiro de 2015. também, não sei se pensam com essa nome dessa disciplina é etnomusicologia. É um intenção, mas fazem isso também. Fazem uma rabeca um pouco mais nome bonito, né? refinada, com um som mais limpo e tal.” E essa disciplina estuda a música e o ser humano. O ser humano E continua: “E é um caminho que eu acho interessante. É minha forma de expressão. Nem tanto para os outros, é uma coisa comigo mesmo. Um certo momento do dia que eu pego e toco rabeca, eu me

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e a música. A relação entre o homem e a música. E isso é uma coisa que eu já vinha buscando, empiricamente. Só descobri isso depois que eu entrei no curso. Então são coisas que acontecem que a gente não sabe


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como explicar. Eu entrei no curso e de repente eu falei: Essa é a disciplina que eu devia ter estudado a minha vida toda e de certo modo eu estudei. Então, hoje, eu estou concluindo de certo modo tardiamente, para algumas pessoas, mas pra mim tá num tempo bom, concluindo o mestrado em etnomusicologia. E a minha pesquisa ela trata justamente da construção de rabeca, né? Minha pesquisa é com um construtor de rabeca, o senhor Antonio Merengue. É natural de Pernambuco, mora na Paraíba e tem 86 anos de idade, uma vitalidade de menino. E com ele eu aprendi algumas técnicas, que ele utiliza e vou fazer a descrição etnográfica dessa técnica, das técnicas dele e pretendo continuar essa pesquisa com outros construtores, até publicar algum trabalho consistente, com relação a construção de rabeca, num universo cada vez maior, sempre ampliando.” A perspectiva é que sua pesquisa sobre a rabeca e sobre os rabequeiros se amplie. Assim Nicodemos explica: “Comecei na Paraíba com um, mas eu tenho outros em vista e a ideia é continuar isso, de maneira que a construção do instrumento possa ser avaliada dentro da academia também, que possa ser perenizada de certo modo. Futuramente alguém pode consultar um livro e ver como é que o senhor Nelson da Rabeca fazia a rabeca dele, de forma bem clara e descrita. Esse é meu trabalho na Universidade. Pretendo continuar esse trabalho e ainda ampliar com outros construtores, né? Na Universidade, isso sempre foi uma briga minha, a gente tem que focar. E eu sempre gostei de ser meio, mais holístico. No sentido de olhar de longe com a câmera grande angular. Mas, minha proposta agora é focar na construção da rabeca, descrever e comentar, enfim, possibilitar que outras pessoas possam ter esse conhecimento. Mesmo que não sejam filhos de um mestre de rabeca, vizinhos. Compartilhar esse conhecimento na forma acadêmica.”

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Especificamente sobre a confecção do instrumento o luthier João Nicodemos diz o seguinte: “A construção da rabeca, desde os primórdios, se faz, se contrói, se construía, com o material disponível. Nós temos instrumentos que tem o tampo de couro e a corda de tripa, tangida também com arco. E esse tipo de instrumento é encontrado na África, na Arabia, na Índia, enfim, no mundo Antigo. Em todo lugar se encontra instrumento desse tipo, dessa família. Sendo assim, a gente pode fazer rabeca de vários materiais. Eu já vi rabeca feita de panela, de frigideira, de caixa de charuto. Com o que se tem à mão, também com o que tem a mão. Eu prefiro fazer com a madeira. Embora essa por exemplo eu fiz com cabaça. É uma rabeca praticamente para iniciação, para musicalização infantil, tem um motivo mais ou menos infantil. A gente procura adequar para quem vai utilizar o instrumento. Ela tem o seu sonzinho. A rabeca ela tem tanta liberdade nessa construção, proporção, número de cordas, material que é utiliza. Existem rabecas com três, com outro nome, mas semelhante com duas cordas. O orocongo que é com uma corda só. Tem com cinco cordas, com seis cordas. Existe uma liberdade muito grande com a construção da rabeca. Mas é como encontrar a afinação em quintas. Seria sempre uma quinta entre uma corda e outra. A afinação do violino, do bandolim. Facilita a construção de melodia. Essa aqui por exemplo é cabaça, aqui é pau-d’arco. Aqui é pinus. Essa outra rabeca aqui é talvez a segunda rabeca que eu fiz. Ela tá toda judiadinha. De tanto andar comigo.” Apesar de ter nascido no interior de São Paulo Nicodemos é um cearense, um nordestino. É rabequeiro e cordelista. Um artista popular. Um luthier do Cariri cearense.


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Fotografia 25 - Rabeca de João Nicodemos. Lameiro, Crato - Ceará, em 29 de janeiro de 2015.


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Mestre Raimundo Aniceto Nome: Raimundo José da Silva. Nascimento: 14 de fevereiro de 1934. Naturalidade: Crato, Ceará. Residência: Seminário, Crato, Ceará. Instrumentos que constrói: Pífanos, caixa (tarol) e zabumba. Ocupação: Músico, brincante, luthier, agricultor e feirante. Formação como luthier: autodidata.

O Mestre Raimundo da Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto é de Crato. Gravamos o seu depoimento para o projeto em seu terreiro. Na sua casa. Na ocasião nos contou: “O primeiro zabumba do Cariri foi o meu pai que fundou. Hoje o Brasil tá cheio de zabumba, aplaude o meu pai e os meus irmãos que foi o fundador da Banda Cabaçal dos Irmaãos Anicete, de Crato.” Segundo ele “essa banda criou-se dentro do Crato. É filha natural do Crato” e, completa: “as minhas raiz tudo é do Crato. O meu pai era dos índios Kariri, daqui do Crato. Ele contou bem a nóis a situação do Crato com era antigamente. Aí se formou a banda. A banda dos Irmãos Anicete, do meu pai.” [...] isso é uma raiz que a gente não quer deixar se acabar mais nunca. Só se o mundo se acabar de uma vez só. Mas a gente não quer deixar essa raiz se acabar. Isso é uma alegria.” O Mestre Raimundo, assim como o Mestre Antonio Pinto (de Aurora) recebeu o título da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará. Assim ele explica: “A cultura conta que sou mestre e meu pai ensinou como era a cultura. Mais não é

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todo conjunto que sabe o que é cultura não. Dentro do nosso Crato, dentro do nosso Brasil. A cultura é coisa séria. A cultura é onde tá nossa vida, onde tá nossa coragem. Você sendo um Fotografia 26 - Mestre Raimundo Aniceto com um componente pífano. Seminário, Crato - Ceará, em 08 de novembro trabalhador de 2015. honesto, você está com a cultura na mão. [...] Não é todo conjunto que sabe o que é cultura, não. Viu? Sabe que já estou com oitenta e dois anos puxando cobra pros pe. Quem é que quer hoje? Não tem quem queira, não. Só o meu conjunto, porque é da roça.” O Mestre Raimundo é o filho caçula entre todos os músicos irmãos que integraram a Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto. Dá seus dados completos: “meu nome completo é Raimundo José da Silva. Em apelido Raimundo Anicete, da Banda Cabaçal do Crato. É uma banda alegre. É uma jóia viu? Eu nasci no dia 14 de fevereiro de 1934, eu já sou vei que só a serra do Araripe. Já chupei muito pequi com feijão aqui do nosso Cariri. É coisa boa. Eu gosto.” Em seu relato diz: “O instrumento, o primeiro instrumento foi meu pai quem fundou. Depois vem em família, né? Ficou com um irmão mais velho. Aí ficou nas mãos do meu irmão Francisco. Ele ficou fazendo os instrumentos. Aí passou, o Francisco morreu. Aí passou pro finado João. O finado João ficou fazendo os instrumento. Tudo direitinho. Pife, zabumba, tarol. Já hoje passou pra mim. Como caçula do meu pai. Meu pai criou dez filho. Eu sou o caçula, eu sou do derradeiro.


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Hoje tô por conta da banda. Já passei a mestre. No Brasil eu sou o Mestre da Banda. Fui tombado. Graças a Deus hoje eu conto como mestre da Banda. Ando lutando com os meus componentes [integrantes da banda]. Com os meus sobrinhos a banda hoje tá composta mais de sobrinho. Dos irmãos mais velho só tem eu. Uma menina que mora em Fortaleza, mas velha do que eu. Mas da banda só tô contando com eu. Tô sustentando a banda. Era eu e o Antonio meu irmão. O primeiro pife do Brasil. Morreu agora há pouco (janeiro de 2015). Aí eu tomei de conta. Toda vida eu fui o segundo pife.” Sobre a confecção de instrumentos o Mestre Raimundo conta: “O primeiro instrumento que eu possuí foi um zabumba e um tarol. E fui e vendi. Para comprar uma coisa pra mastigar, né? Fui e vendi. Como hoje eu tô vendendo, né? Quando me pede, faz o pedido eu faço a banda. O tarol, a caixa, um casal de pife. Vai tudo prontinho. Isso não para não. Tanto eu faça quanto o povo compra. [Já] esse bumba aqui foi o meu pai que deixou. Isso tem mais de 100 anos. É de Timbaúba. É o que nós faz representação nos palco. É esse bumba aqui. É antigo. Isso nos não damos por dinheiro nenhum. Pode botar o Crato nesse bumba que eu não dou ainda. É o nosso presente. E aqui é que se chama o nosso ganha pão. É esse zabumba. Foi a caneta que meu pai deixou. Foi esse zabumba e uma enxada de três libras pra nos trabalhar na roça. E a gente fica satisfeito. Que tamo bem, né? Com os nossos instrumentos, com a nossa alegria.” Segundo o senhor Raimundo seu pai disse: “Meu filho: quando fizer uma festa, faça uma festa alegre. Onde tiver uma pessoa chorando vocês tocam um bendito que a pessoa fica achando graça. E é assim mesmo. Nos toca um choro, toca uma valsa, um chote. E tamo animando a rapaziada. Isso é uma alegria do nosso Brasil. De longe com duas ou três léguas, não é de pertim não, você vê o tom desse instrumento. Aquilo é os Irmãos Aniceto que vem acolá. Vamos botar uma panela no fogo com franco pra eles comer. E nos chega lá e come mesmo. Toca a noite, toca um pedaço. Onde nós chega parece que nosso senhor ajuda a gente. É aquela alegriona. Nós todos têm que morrer assim alegre, até acabar o mundo.”

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Ainda sobre a confecção dos instrumentos o Mestre Raimundo Aniceto explica: “Esses instrumento antigamente, o primeiro zabumba foi de cabaças da roça. Essa origem está no mundo geral. É nossa. É do meu pai. Se chama bandas cabaçal, porque o primeiro zabumba que meu pai fez foi de cabaças da roça. Essa origem tá no mundo. A origem é nossa. Foi do meu pai que deixou. Nos plantava cabaça era trinta, quarenta litros d´água que pegava uma cabaça. Nesse tempo as água era pouca. As mulher carregava água na cabaça. Aí meu pai serrava dum lado e serrava do outro, botava uns couro de bicho do mato (de veado, de tamanduá). Aí sai reboando aqui dentro do Crato, nesse pé-de-serra. Sai reboando. Aí terminou a cabaça. Não plantemo. Perdemos as semente.” Teve uma época que o zabumba era feito de madeira de Timbaúba, mas “ninguém hoje não derruba uma Timbaúba mais, porque o Ibama não deixa. Nos ainda tem esse bumba aqui porque é muito antigo. Eu ainda andei fazendo de Timbaúba, mas depois trancaram. Hoje nós tamos fazendo de compensado. Isso aqui é compensado. Aí facilitou mais também. Porque antigamente nos passava um mês, dois meses para entregar uma banda. Porque era troco igual uma mangueira para furar no meio. Até ele ficar com peso de 3 a 4 kilo. Aquilo era uma mão de obra grande. Que era mais alta do que um homem uma tora de pau, para fazer um zabumba. Aí entrou agora o compensado. Aí facilitou o negócio pra gente. A gente numa semana faz, dois ou três zabumba. É bem facim fazer com o compensado. É só comprar as folhas e ir passando a cola, ajeitando. Num instante monta um zabumba.” Já o pife é o seguinte: “o pife foi os índios que plantaram nesse pé-de-serra. Daqui pra Nova Olinda tudo tem essa taboca. Essa taboca se chama de Taboca boio. Só tem aqui no nosso Cariri. Fora não tem dessa aqui não. Tem a taquara. A taquara é no sul. Outra qualidade de taboca. Talvez que ainda de som melhor que essa aqui. O casco da taquara é bem finim, mas a regional é essa taboca nossa aqui que foi plantada pelos índios. Aqui acola uma touceira. Essa taboca aqui é a regional. Isso aqui tudo é na escala.


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O senhor Raimundo é conhecido como o Mestre Raimundo Aniceto da Banda Cabaçal dos Irmaõs Aniceto, de Crato. É um luthier do Cariri. Um integrante de um agrupamento musical tradicional centenário que confecciona os seus próprios instrumentos musicais.

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Fotografia 27 - Zabumba e caixa confeccionadas pelo Mestre Raimundo Aniceto. Seminário, Crato - Ceará, em 08 de novembro de 2015.


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Mestre Totonho Nome: Antônio Gomes da Silva Nascimento: 13 de fevereiro de 1960. Naturalidade: São Félix, Mauriti, Ceará. Residência: São Félix, Mauriti, Ceará. Instrumentos que constrói: Rabeca, violino, viola, violoncelo e contrabaixo. Ocupação: Luthier. Formação como luthier: Iniciou-se como autodidata, posteriormente estou com Augusto Lombardi.

“Meu nome é Mestre Totonho, como apelido pela Secretaria da Cultura, agora meu nome normal mesmo é Antonio Gomes da Silva.” Mestre Totonho confecciona rabeca, violino, viola, violoncelo e até contrabaixo acústico. Começou a trabalhar nesta arte há muitos anos, por influência da família. Seu pai era cantador de viola e repentista e fazia os seus próprios instrumentos. Assim ele acredita que “fazer instrumentos já está no sangue.” Conta que é descendente de italiano e admira muito a música clássica, por isso resolveu estudar música. Segundo conta, “como em Mauriti não tinha quem ensinasse” acabou mudando-se para São Paulo. Lá conheceu um italiano que era construtor de violino e também ensinava música, onde estudou “o método Pascoal Bona”. Modestamente o Mestre Totonho declara que não aprendeu música, mas aprendeu fazer violinos. Assim ele se define: “sou uma negação na música, mas meus instrumentos graças a Deus têm sido bemsucedidos [...] tenho vendido para outros países também, para orquestras famosas. Estou aqui num lugar bem humilde, pobre, aqui no distrito de São Félix, na cidade de Mauriti, no Estado do Ceará. Tenho esse privilégio de construir esses instrumentos conforme a natureza própria me ensinou.”

Luthiers do Cariri Cearense – Mestre Totonho

Mestre Totonho conta que começou a confeccionar os instrumentos nos anos de 1980, por volta de 1985 e 1986. “Foi aonde eu comecei a fazer os primeiros instrumentos, o qual eu tenho eles guardados comigo até o dia de hoje.” Conta que começou a construir em São Paulo “no atelier de um homem italiano de nome Augusto Lombardi. Foi ele que passou as primeiras dicas para mim, depois disso eu comprei um livro sobre luteria e comecei a estudar este livro. Adquiri também outras apostilas e, através disso, eu consegui aprender a confeccionar os instrumentos nas medidas corretas, tamanho, espessura e tudo como pede a estética da construção do violino.”

Fotografia 28 - Mestre Totonho com um violino. São Félix, Mauriti - Ceará, em 23 de agosto de 2015.

Ainda em Mauriti, Mestre Totonho desenvolvia outras atividades, conta que “antes de ir para São Paulo trabalhava na agricultura. Então, aquilo não saia da minha mente. Quando eu via as chuvas, lá no Sul e aqui uma escassez muito grande chuva, trovão, relâmpago e eu comecei a lembrar dos plantios das roças que a gente tinha por aqui. Então, eu comecei a não me sentir bem mais lá em São Paulo, e resolvi vir pra cá, nos anos de 1989 para 1990. Eu vim embora pra cá e cheguei aqui já trabalhando nos instrumentos. Eu comecei a trabalhar e fui adquirindo conhecimento dentro do Ceará, de Pernambuco, Alagoas. Nestes Estados aqui mais próximos. Então, eu consegui arrumar um pequeno comércio de venda de violino. Eu fui vendendo os violinos.”


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Além da sua renda obtida através da venda dos violinos tem também algumas pessoas trabalhando em pequenas porções de terras e, como ele diz: “a gente bota uma tarefinha pequenininha com o dinheiro que a gente ganha da oficina. A gente trabalhava [na roça] quando tinha coragem. Hoje eu não tenho mais vontade de enfrentar a roça. Então, a minha vinda para cá, o motivo maior foi a lembrança da pamonha, do feijão verde, da canjica.” Segundo relata “a comida é toda diferente do nosso ritual nordestino e foi por isso que eu vim para cá.” Para a confecção dos instrumentos o Mestre Totonho utiliza madeira de cedro. Informa que “esse tipo de madeira ela é adquirida por aqui mesmo. Aqui na nossa região. Também quando está faltando aqui eu adquiro em Juazeiro do Norte, para fazer rabeca e para fazer alguns violinos com madeira nacional. O cedro é muito influente no som. Ele dá uma acústica muito boa. Tirando isso tem a madeira que a gente faz violinos de primeira linha. É madeira de maple – importada da Alemanha, de Cremona na Itália – para fazer o braço do violino, por exemplo. O abeto é um tipo de pinho bem macio, para se fazer a frente do violino, muito boa de som, muito apropriada para orquestra. E o maple também é apropriada para fazer violino ou viola. Esse material não é apropriado para fazer rabeca, porque ela é uma madeira muito cara, usada para fazer um violino de boa qualidade. Ela é cortada arredondada, tipo fatia de bolo e aberta no meio. Já vem pré-aberta.” Explica um pouco do feito do instrumento da seguinte forma: “A gente modela o gabarito, modela o tipo de instrumento que vai fazer, se viola ou violino e aí é só manusear. Deixar ela na posição. Então, o braço do violino de madeira nacional é idêntico da rabeca. É muito parecido com alguns detalhes diferentes, mas pouca coisa. Com madeira nacional de nim indiano. Uma madeira que não é muito conhecida, mas em muitas partes do Nordeste tem ela. Na índia eles trabalham muito para fazer escultura, para fazer tipo de artesanato. E aqui a gente aproveitou para fazer braço de rabeca. É boa, reforçada. O violino pode ser feito de aroeira, que é uma madeira escura. A queixeira pode ser feita de pau d´arco ou de ipê. As cravelhas também podem ser feitas de aroeira. A voluta pode ser feita de nim indiano ou de cachaceiro (uma madeira do Pará), uma madeira fedorenta, mas boa

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de trabalhar. O corpo pode ser feito de caxeta. A frente dele é de marupá. O cavalete é de açoita cavalo. Diversas madeiras são aproveitadas.” Segundo o luthier para os instrumentos para tocar em orquestra ele “utiliza madeiras melhores, porque as madeiras mais comuns na região são para estudar. Sobre a pintura dos instrumentos ele explica: “Eu usos os vernizes que vem prontos, já próprios para violino. E uso também um que eu faço de resina de jatobá. Pego a resina, dissolvo ela e faço o preparativo que precisa para ela. Aí fica um verniz muito bom, muito resistente, muito bom para som. E fácil de remover, caso a pessoa queira trocar a tinta. É fácil de remover, porque a resina é como um tipo de breu, porque ela raspa fácil. Ela não é como verniz sintético, que tem aquela película por cima. É um verniz que sai o pó em vez de película.” A confecção de um instrumento de qualidade tem alguns segredos que não são adquiridos ou descobertos facilmente. Totonho explica que voltou “para Indaiatuba, aonde foi lá que eu consegui as medidas corretas. Porque onde eu comecei em São Paulo, na vila Pompéia, ele [Lombardi] me deu todos os formatos, mas as espessuras ele não me deu. É onde está o segredo dos instrumentos. É o que se chama de harmonização do instrumento. Isso ele não me forneceu. Em Indaiatuba eu consegui com um luthier as espessuras e aprendi a harmonizar o instrumento para que ele tenha um bom volume de som e a qualidade do som. Ele tem que ter um volume e qualidade. Metre Totonho é possivelmente a maior referência como luthier de instrumentos de cordas friccionadas no Ceará. Vive num pequeno distrito chamado São Félix, no município de Mauriti, no Cariri cearense.


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Fotografia 29 - Detalhes de instrumentos confeccionados pelo Mestre Totonho. São Félix, Mauriti - Ceará, em 23 de agosto de 2015.


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Luthiers do cariri cearense: entrevistas e informações técnicas  

Entrevistas com dez luthiers do Cariri cearense e informações técnicas sobre os instrumentos construídos artesanalmente por eles.

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