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MUSEU MUNICIPAL S E V E R D O VO U G A


FICHA TÉCNICA

VÍDEO E MULTIMÉDIA CONSÓRCIO

Glorybox, Lda. Eon, Indústrias Criativas, Lda. MUSEOLOGIA

Glorybox, Lda. Eon, Indústrias Criativas, Lda. ARQUITETURA E MUSEOGRAFIA

Spaceworkers Paulo Passos Gisela Patronilo António Lopes

DESIGN GRÁFICO

Paulo Passos

INVESTIGAÇÃO HISTÓRICA E PRODUÇÃO DE CONTEÚDOS

Pedro Sobral de Carvalho Paulo Celso Fernandes Monteiro Lara Bacelar João Luís Inês Vaz António Lima Carlos Alves Maria Lucinda Tavares Santos Maria Manuela de Bastos T. Ribeiro Pedro Ribeiro Sérgio Rodrigues PRODUÇÃO DE CONTEÚDOS FOTOGRÁFICOS

Paulo Celso Monteiro Pedro Sobral de Carvalho João Cosme MUSEU MUNICIPAL DE SEVER DO VOUGA PROMOTOR

Câmara Municipal de Sever do Vouga COORDENAÇÃO GERAL

António José Martins Coutinho COORDENAÇÃO TÉCNICA

José Manuel Almeida e Costa Raul Alberto Conceição Duarte Graciela Henriques Bastos Figueiredo Fernando Marques de Sá Marinheiro

MONTAGEM

Glorybox, Lda. Eon, Indústrias Criativas, Lda. RECOLHA DOCUMENTAL E OBJETOS

Pedro Sobral de Carvalho Fátima Beja e Costa Paulo Celso Fernandes Monteiro CONSULTORIA

Raquel Vilaça Sérgio Rodrigues ILUSTRAÇÕES

[Rodo] Luís Tacklim [Vitrinas] Paulo Passos CONSERVAÇÃO E RESTAURO DO ESPÓLIO

Vera Moreira Caetano

RÉPLICAS DO TORQUES DA MALHADA

Archeofactu

CONCEÇÃO, IDEIA E GUIÕES

Paulo Celso Fernandes Monteiro Sérgio Pereira RECOLHA DE IMAGENS

Sérgio Pereira Bruno Baessa José Pereira Paulo Celso Monteiro MONTAGEM E EDIÇÃO

Sérgio Pereira

SONORIZAÇÃO

Bruno Baessa Sérgio Pereira

BANDA SONORA ORIGINAL

Dreamsfall - Chasing The Wind Matt Aune (Romantic Cinematic Pack) Dreamscape Movie Theme - End Credits, New Beginning, Passage to Other Worlds, The Odyssey. PÓS- PRODUÇÃO

Sérgio Pereira REALIZAÇÃO

Sérgio Pereira APLICAÇÕES MULTIMÉDIA

Eon, Indústrias Criativas, Lda. Glorybox, Lda. M&A Digital, Lda. AGRADECIMENTOS

Alicia Ameijenda, Carmen Manzano, Jorge Fonseca, Sérgio Gomes (Arqueologia e Património - Ricardo Teixeira & Vítor Fonseca); Andreia Fonseca (Vougapark); Catarina Martins Gonçalves; Centro Regional das Beiras/ Universidade Católica de Viseu; Cooperativa Agrícola de Sanfins; Direção Regional de Cultura, Museu de Aveiro; EDP; Elisabete Henriques; Evasion Time – Desafio, Aventura e Formação; Fausto Macedo Silva; Felismina Coutinho; Liga dos Amigos do Folharido e Braçal; Márcio Martins; Maria Fernanda Vidal; Museu D. Diogo de Sousa; Museu de Jazigos Minerais Portugueses /LNEG - Laboratório Nacional de Energia e Geologia, I.P; Toni Martins de Lemos; União de Freguesia de Silva Escura e Dornelas.


MUSEU MUNICIPAL S E V E R D O VO U G A


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UM MUSEU PA R A S E V E R ANTÓNIO JOSÉ MARTINS COUTINHO P R E S I D E N T E D A C Â M A R A M U N I C I PA L D E S E V E R D O V O U G A

Sever do Vouga que te acolhe! Que diz este Povo que de ti fez sua casa? Que és terra acolhedora e farta, de natureza caprichosa, desenhada nos socalcos e terras de cultivo, recortados pelas florestas, rios e quedas de água… Que por tudo isto, desde tempos áureos, encantaste o homem que por estas terras vagueou… Até que um dia, reza a lenda, uma linda moura que se penteava nas margens do rio Vouga, ao ver refletida a sua linda imagem, dizia para todos que ia SE VER no Vouga!”… a esta lenda, podemos juntar outras mais que fazem parte da história e da cultura popular deste concelho. Este território encaixado entre a Serra e o Mar, tem agora mais um espaço cultural que fala de longas viagens e feitos dos seus antepassados mais remotos. Desde sempre, este território encantou e cativou o homem, existindo registos patrimoniais da sua presença.

M U S E U M U N I C I PA L S E V E R D O V O U G A

Desde o Paleolítico inferior (com as recentes descobertas na praia do Rodo, no Couto de Esteves, fruto das escavações arqueológicas, nas obras da Barragem de Ribeiradio/ Ermida), passando pelo Neolítico, Idade do Bronze e do Ferro, Romanização, Idade Medieval, vindo até à contemporaneidade, com a Industrialização e todas as manifestações de Fé e Tradição, este espaço cultural e museológico é de facto, um Museu de território que fala da Alma do Povo! Nele, é tangido subtilmente e de modo atrativo, as heranças patrimoniais e culturais mais paradigmáticas do concelho, não podendo, todavia, comportar em simultâneo e de modo expositivo, todas! Ciclicamente, através das exposições temporárias e dos serviços educativos, serão oportunamente, temas a aflorar e a oferecer a todos os que o visitarem.

Agora este museu que inauguramos é a casa das nossas memórias, da nossa história, dos Severenses. É um sonho concretizado. Uma viagem pela Alma de um Povo! O presente catálogo vem dar fundamento documental ao espólio existente no Museu e presta-se a ser um referencial de consulta do património concelhio. Por todas estas razões, é para o Município de Sever do Vouga e Severenses, motivo de grande orgulho e de satisfação, tornando-se num espaço de convergência de todos os patrimónios do concelho de Sever do Vouga! Deixo assim aqui expresso o meu convite a todos os severenses e visitantes, a participarem connosco, nesta viagem à história e à Alma do Povo deste concelho (lindo) de Se Ver: Sever do Vouga!

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UM MUSEU PA R A C O N TA R ! PA U L O C E L S O M O N T E I R O GLORYBOX

Um Museu Municipal não se faz todos os dias e em Sever do Vouga a criação deste Museu foi, desde logo, um marco na história de como uma comunidade se relaciona com as suas memórias e passado. Por isso este museu não é um espaço onde se colocam umas peças dentro de umas vitrinas, num ambiente austero, com conteúdos feitos por alguns e só para alguns. Hoje, todos sabemos que os museus mudaram. Democratizaram-se, tornaram-se espaços informais, próximos do público, fontes de conhecimento e pontos de encontro de toda uma comunidade. Atualmente, um Museu é um local que disponibiliza informação, que cria experiências e envolve, que educa, debate e possibilita encontros. Assim, o Museu Municipal de Sever do Vouga é produto de uma nova estratégia museológica e museográfica, centrando-se nos objetos que expõem, usa novas ferramentas, metodologias e estratégias que se centram na interpretação dos mesmos e colocam o visitante no centro das atenções. Os museus não são peças, mas pessoas. Sem elas, não teríamos objetos para mostrarmos, nem histórias para contar. As pessoas são por tudo isto a nossa maior preocupação no Museu Municipal de Sever do Vouga. São o centro da nossa exposição!

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Deste modo, a narrativa museográfica que apresentamos propõe um modelo de conteúdos que se baseia na interdisciplinaridade, nos conteúdos, no design museográfico, na tecnologia e no diálogo com o público ativo, potencial e virtual. Procuramos na construção desta identidade, um paradigma que inclui uma coleção composta por objetos com as suas características técnicas, sociais, económicas e patrimoniais, ao qual se adicionam emoções, valores, processos de identificação comunitária, visões e sobretudo interações e inovações com os diversos públicos. Inovar não se faz por decreto ou copiando, mas conjugando novas disciplinas, cruzando saberes, metodologias, usando novas técnicas de comunicação sem nunca perdermos o nosso foco com o público que visita a nossa exposição. Foi isso que fizemos no Museu Municipal de Sever. Aproveitando novos suportes como a ilustração, com conteúdos científicos adaptados ao grande público, com tecnologias que permitem contextualizar e preservar as memórias de uma comunidade.

O Museu Municipal de Sever do Vouga conta uma história de uma comunidade através dos conteúdos apresentados, da museografia e dos objetos expostos, mas também proporciona o diálogo inter-geracional, uma educação não formal e um conhecimento de episódios desconhecidos. É a história do Homem, mas também das transformações que ele produziu no território, no modo em que o mutou e usou-o no seu caminho evolutivo. Ao longo de 15 mil anos, caçamos, pescamos, criamos os nossos objetos, construímos os nossos lugares sagrados, demos sepultura aos nossos entes queridos, domesticamos animais, trabalhamos a terra, criamos tecnologias e mudamos este território. São estas vivências e ensinamentos que a nossa viagem pela História nos conta. É neste caminho pelo tempo que continuamos hoje, mas que só o fazemos porque temos um passado que não esquecemos e um futuro que desejamos construir.

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UM MUSEU PA R A DESCOBRIR P E D R O S O B R A L D E C A R VA L H O EON

Um dos principais desafios que se coloca quando se idealiza um espaço expositivo é a definição de critérios que nos permitam estruturar o discurso museográfico. Assim, o primeiro passo é saber por que se elegem determinados temas ou peças e não outros que podem ser igualmente importantes. Podemos dizer, por exemplo, que se mostram as peças mais significativas... mas para quem? É por isso crucial ter em conta os diversos públicos alvo. Sabemos que, por exemplo, para um público mais “científico”, no caso concreto arqueólogos, pode haver um interesse redobrado na magnífica “ponta azilense” proveniente do sítio do Rôdo, recentemente descoberto, ou no vaso “troncocónico” do Castêlo de Cedrim. Mas, para a maioria dos visitantes “azilense” e “troncocónico” são apenas palavras de difícil pronunciação. É, por isso, que se deve descodificar todo este conjunto de informação e torná-la acessível a todos. Claro que também é muito importante não descuidarmos o aspeto científico, mas, “os mais entendidos” não precisam necessariamente de aprender nos espaços museológicos, pelos menos os conceitos.

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Por tudo isto, quisemos fazer o Museu Municipal de Sever do Vouga a pensar em todos vós, os que aqui vivem, os que vêm de fora, os mais pequenos, os mais idosos, os que têm menos estudos, os mais conhecedores, enfim, todos. O museu inicia com a apresentação do território de Sever do Vouga, os seus aspetos naturais e humanos. É a sala de visitas, o primeiro impacto. Um espaço cuidado com uma instalação cénica numa das paredes e onde se pode assistir a um filme em grande formato. Daqui, entra-se no corredor do Tempo, tendo-se privilegiado uma evolução cronológica da passagem do Homem por Sever do Vouga, desde as origens à Idade Média. Recorrendo a um ambiente gráfico cativante, onde a ilustração é um elemento importante, conta-se a história do Homem e mostram-se algumas das mais significativas peças que marcaram os diferentes períodos. Entra-se, de seguida, num espaço dedicado à fé, numa sinfonia de imagens de alminhas e igrejas que proliferam no concelho. Este é o momento em que se percebe o abandono progressivo dos conteúdos sobre a his-

tória do Homem para se entrar numa nova etapa do museu onde se fala da identidade de Sever, das suas gentes e dos modos de vida. Assim, podemos absorver muita informação sobre as diferentes atividades económicas que têm moldado este território, como a agricultura e os seus característicos espigueiros, a produção de leite, a chegada do comboio, da iluminação pública, etc. Utiliza-se uma museografia apelativa onde as peças fazem parte de um todo, em perfeita união com o design expositivo, aliado às soluções multimédia, com o recurso a uma mesa interativa. Quase no final, surge um dos temas mais queridos do museu: as minas do Braçal/Malhada. Criou-se o ambiente das minas, colocaram-se as vitrinas encastradas nas entivações das paredes, em madeira, as fotos da época que falam por si, das pessoas e do seu sofrimento. Um filme passa ao fundo desta sala onde podemos ver e ouvir alguns depoimentos de algumas pessoas que ainda lá trabalharam, as suas memórias e as emoções que sentem quando recordam esses momentos. Por último, passamos por uma área dedicada a um dos ícones de Sever do Vouga: o mirtilo! Sublinha-se a cor, a textura e a luz.

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TE RRI TÓ RIO 10


TERRITÓRIO PEDRO RIBEIRO

O concelho de Sever do Vouga localiza-se no limite oriental do distrito de Aveiro e confronta, a norte, com o município de Vale de Cambra; a oeste, com os de Oliveira de Azeméis e Albergaria-a-Velha; a sul, com o de Águeda, concelhos todos pertencentes ao mesmo distrito; a este, com o de Oliveira de Frades, pertencente ao distrito de Viseu. Beneficia da proximidade de alguns centros urbanos importantes, tais como Aveiro, Porto, Viseu e Coimbra, e de dois dos principais eixos rodoviários portugueses: a A1 e a A25. Do ponto de vista administrativo e relativamente ao nível II da Nomenclatura das Unidades Territoriais (NUT), o município situa-se na Região Centro. Na delimitação de nível III da NUT, integra-se no conjunto de municípios que fazem parte do Baixo Vouga, juntamente com Aveiro, Ílhavo, Vagos, Águeda, Oliveira do Bairro, Estarreja, Ovar, Murtosa, Albergaria-a-Velha e Anadia. A Sub-Região do Baixo Vouga é paisagisticamente marcada pela bacia do Vouga e pela Ria de Aveiro, elementos importantes na construção da identidade territorial.

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Segundo a classificação climática de Köppen, o clima no Baixo Vouga é classificado como temperado (mesotérmico) húmido, com o verão e o inverno bem definidos e em que a estação seca é pouco quente e ocorre no verão. A temperatura média do ar, nos meses mais frios, está compreendida entre -3ºC e 14ºC e, nos meses mais quentes, é superior a 10ºC. Composto por sete freguesias (União de Freguesias de Cedrim e Paradela, Couto de Esteves, Pessegueiro do Vouga, Rocas do Vouga, Sever do Vouga, União de Freguesias de Silva Escura e Dornelas, Talhadas), o concelho ocupa uma área de 130 km2, sendo a vila de Sever do Vouga a sede do município. Talhadas é a freguesia com maior área (28,64 km2), enquanto Sever do Vouga é a de menor dimensão (11,58 km2). No censo de 2011 do Instituto Nacional de Estatística, o concelho de Sever do Vouga registava 12356 habitantes, o que representa um decréscimo na população residente de 6,3% relativamente a 2001 e uma média densidade populacional de 95,1 hab./km2. Com efeito, tem-se verificado, neste território, uma progressiva perda de população desde a década de 50 do século XX até aos nossos dias. Após 1960, a redução populacional é muito acentuada na faixa etária dos 0 aos 24 anos. Por outro lado, a população com mais de 64 anos aumentou consideravelmente, conduzindo a um acelerado envelhecimento populacional.

Entre 2001 e 2011, todas as freguesias sofreram um decréscimo de população, à exceção de Sever do Vouga, que registou um ligeiro aumento. Apesar de não se tratar de um concelho com uma vasta área geográfica, os aglomerados populacionais distribuem-se de modo disperso pelo território. Os maiores aglomerados situam-se nas freguesias de Sever do Vouga (2777 habitantes, em 2011) e de Silva Escura/ Dornelas (2318 habitantes, em 2011), enquanto Couto de Esteves apresenta o menor número de habitantes das sete freguesias (890 habitantes, em 2011). Relativamente à área do Baixo Vouga, evidencia-se um claro contraste entre os concelhos mais próximos do litoral, mais densamente povoados, e os concelhos mais interiores. Em 2011, salientam-se Ílhavo (525 hab./Km2) e Aveiro (397 hab./Km2), por oposição a Sever do Vouga (95 hab./Km2). Também ao nível da variação da população é possível verificar a dicotomia litoral/ interior. Nos últimos anos, o decréscimo populacional ocorreu nos municípios mais interiores (Sever do Vouga, Águeda e Anadia), enquanto Aveiro, Ílhavo, Murtosa, Ovar e Vagos registaram acréscimos.

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Em 2011, cerca de 49% da população ativa do concelho trabalhava no setor dos serviços (terciário) e apenas 4,2% no setor primário (agricultura, silvicultura e pescas), contra 70,2%, em 1960. Face a 2001, assistiu-se a uma evolução significativa do setor terciário, a par da perda de importância do setor agrícola, tendência que também se verificou a nível nacional. O setor secundário (indústria e construção) passou de 53% para 46,5% da população ativa, entre 2001 e 2011. Apesar desta diminuição, continua a ser patente a tradição industrial da região, se compararmos a estrutura da economia do concelho com a nacional. Na economia portuguesa, em 2011, os serviços tinham um peso maior (70%) e o setor secundário e a agricultura um peso menor (26,5% e 3,1%, respetivamente). As seis zonas industriais (Talhadas, Irijó, Padrões, Cedrim, Dornelas e Gândara) indicam que o setor secundário tem tido grande influência no desenvolvimento económico e social de Sever do Vouga. A agricultura, afetada pelo aumento da emigração e pelo domínio crescente da floresta, foi potenciada, na década de 90, pela introdução bem-sucedida da cultura do mirtilo, espécie que se tornou imagem de marca do concelho. A substituição de culturas tradicionais pelo mirtilo acabou por alterar um pouco o espaço dedicado ao setor primário, composto, predominantemente, por explorações de minifúndio, associado à utilização de técnicas agrícolas tradicionais e com

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um caráter meramente de subsistência. O fruto impulsionou a agricultura (exportação de 80% da produção para mercados internacionais), a gastronomia (licor e compota de mirtilo, doçaria, sopas) e o turismo (Feira do Mirtilo), tendo concedido a Sever do Vouga o título de “Capital do Mirtilo”. Os produtos tradicionalmente locais, como a vitela e a lampreia, continuam a ocupar um lugar de destaque no património gastronómico. De cunho geomorfológico e cultural típico de uma região do interior, o território de Sever do Vouga situa-se na transição entre as áreas planas do litoral e o interior montanhoso. A paisagem é indelevelmente marcada pelas serras do Arestal (a norte) e de Talhadas (a sul) e também pelo rio Vouga, cujo percurso, no concelho, se estende por 19 km. O Homem teve um papel preponderante na definição destas paisagens. Socalcos, muros de suporte de terras, açudes e levadas são alguns dos elementos da paisagem humanizada mais comuns no vale do Vouga. Se o relevo acidentado sobressai na paisagem, a elevada densidade hidrográfica é uma característica marcante. Os principais cursos de água que atravessam o concelho são o rio Alfusqueiro, o rio Fílveda, o rio Vouga e os seus afluentes: Teixeira, Lordelo, Gresso, Mau e Bom.

Rio que dá, parcialmente, nome ao concelho, o Vouga nasce na serra da Lapa, a cerca de 930 m de altitude, trilha um percurso de 148 km e desagua na zona lagunar de Aveiro. No início do seu curso, é um rio de planalto, de caráter torrencial, enquanto na parte média, entre São Pedro do Sul e Angeja, entra numa zona de relevo mais acentuado, de vales encaixados. Na secção inferior, é um rio de planície e desagua na Ria de Aveiro pelo canal do Espinheiro, constituindo o principal curso de água que alimenta a Ria. A serra do Arestal, situada na margem direita do Vouga, tem cerca de 20 km de extensão e uma altitude máxima de 830 m. Orientada no sentido NE-SW, é considerada um contraforte da serra da Arada e, conjuntamente com esta e com a serra da Freita, formam o maciço da Gralheira. Em termos geológicos, a serra é constituída, maioritariamente por xistos, quartzitos e granitos e o subsolo rico em cobre, chumbo, estanho e volfrâmio. Entre os rios Vouga e Alfusqueiro, encontramos uma elevação conhecida como serra das Talhadas (681 m) que, de acordo com Girão (1922), deve incluir-se na Serra do Caramulo, embora este enquadramento não seja consensual. Com uma orientação NE-SW, a serra das Talhadas é constituída, maioritariamente, por granitos e xistos.

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Nestas serras, o aproveitamento de recursos minerais metálicos tem estado presente ao longo dos tempos e remonta, pelo menos, ao período dos romanos, de acordo com os vestígios encontrados. O complexo mineiro do Braçal, localizado nas freguesias de Sever do Vouga e de Silva Escura/ Dornelas, nas margens do rio Mau, obteve concessão para exploração em 1836. As minas de chumbo do Braçal (mais antiga concessão mineira portuguesa), da Malhada e do Coval da Mó constituíram um dos mais importantes centros mineiros do norte do país. A desvalorização do chumbo no mercado

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internacional levou, porém, ao abandono da exploração do minério, em 1958, e ao definitivo encerramento do complexo mineiro, em 1972. As minas de cobre e chumbo do Vale do Vouga, vulgarmente conhecidas por "Minas das Talhadas", tinham a maioria das concessões implantadas na freguesia de Talhadas e laboraram entre 1889 e 1931. Atualmente, a paisagem florestal em Sever do Vouga é dominada por monoculturas de pinheiro bravo (Pinus pinaster) e, principalmente, de eucalipto (Eucalyptus globulus). Espécies nativas como o carvalho-alvarinho (Quercus robur), o carvalho-negral

(Quercus pyrenaica) e o castanheiro (Castanea sativa) perduram apenas em áreas reliquiais. Foram várias as razões para a progressiva diminuição dos bosques caducifólios na paisagem do NW peninsular e para o aumento das monoculturas referidas. Num contexto ibérico e ocidental mediterrânico, após a última fase glaciar, o clima tornou-se progressivamente mais ameno, com características de temperado ou mesmo um pouco quente; consequentemente, nos últimos 10000 anos (Holoceno), os bosques temperados da Europa começaram a recuperar. Na Península Ibérica,


a propagação dos carvalhos (Quercus spp.), principalmente caducifólios, terá tido início entre os 10000 e os 13000 anos atrás (Costa Tenório et al., 2001). Se, inicialmente, a ação do Homem sobre o meio não causou grandes danos ao coberto vegetal, ao dedicar-se às práticas agro-pastoris, os processos de desflorestação aumentaram, sentindo-se um maior impacte desde há cerca de 3000 anos (Van Der Knaap & Van Leeuwen, 1994). Na Idade Média, a agricultura, a pastorícia, a carvoaria e a construção naval reduziram os bosques caducifólios a pequenas manchas, sendo parcialmente substituídos pelo pinheiro bravo. O aumento da população, as crescentes necessidades de madeira e lenhas, a ausência de replantação, o avanço das arroteias sobre espaços que antes tinham arvoredos e o desleixo foram causas apontadas por diversos autores para o progressivo desaparecimento dos bosques e o aumento dos incultos, nos séculos XVIII e XIX em Portugal. O pinheiro bravo foi usado para a reflorestação, particularmente a partir do século XIX, com o objetivo de incrementar a produtividade da floresta e proteger as bacias hidrográficas. Se, na primeira metade do século XX, o forte crescimento demográfico e o grande impulso da economia agrária conduziram à sistemática utilização do fogo para regeneração dos pastos, degradando os espaços florestais de montanha, na segunda metade desse século, o despovoamento rural e o drástico abandono das terras conduziram a uma acumulação de combustível nas florestas, que favoreceu o aumento significativo do número de fogos e da superfície ardida. Paralelamente ao declínio da população e das atividades agrícolas, várias medidas políticas para promover a florestação entraram em

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vigor, reconvertendo a área de pastagens e incultos para terrenos de povoamento florestal, sobretudo pinhal. Segundo Goes (1977), as primeiras introduções de eucaliptos em Portugal começam em 1829, enquanto os primeiros repovoamentos em grande escala datam de 1875. De acordo com o autor, os propósitos para a introdução dos eucaliptos teriam sido [I] ornamentais, [II] sanear terrenos alagadiços e [III] produzir material lenhoso para usar principalmente como combustível. Em 1953, com a implantação da fábrica de pasta de papel de Cacia e, sobretudo, após a década de 1970, procedeu-se à extensa reflorestação com Eucalyptus globulus, substituindo, principalmente, áreas de pinheiro bravo. Em síntese, a exploração dos sistemas agro-silvo-pastoris no concelho de Sever do Vouga favoreceu a uniformização do coberto vegetal e a localização de espécies nativas como os carvalhos e os castanheiros em refúgios, maioritariamente junto às margens dos cursos de água, onde se observam também amieiros (Alnus glutinosa), salgueiros (Salix atrocinerea, Salix salviifolia), freixos (Fraxinus angustifolia) e ulmeiros (Ulmus minor), formando bosques (galerias) ripícolas que, no caso do rio Vouga, determinaram a sua classificação como Sítio de Importância Comunitária. A Rede Natura 2000, uma rede europeia de áreas de interesse para a conservação, é o principal instrumento para assegurar a proteção, a longo prazo, das espécies e dos habitats mais ameaçados na União Europeia. Neste âmbito, parte do rio Vouga foi classificado como Zona Especial de Conservação ou Sítio de Interesse Comunitário (SIC), mais concretamente o curso do rio que abrange os municípios de Sever do Vouga, Águeda e Albergaria-a-Velha.

Sever do Vouga integra, nos seus limites, 706 ha de área classificada que correspondem a 25% do SIC Rio Vouga e, apesar de se observar a expansão de duas espécies de acácias invasoras nas suas margens, a mimosa (Acacia dealbata) e a austrália (Acacia melanoxylon), podemos encontrar uma galeria ripícola bem preservada que proporciona habitats para a ocorrência de muitas espécies consideradas prioritárias e de uma importante diversidade faunística. A vegetação ribeirinha contribui de forma marcante para a estabilidade morfológica e ecológica dos cursos de água, refletindo-se na manutenção da qualidade da água. O rio Vouga é um curso de água relevante para a conservação de espécies piscícolas migradoras, como o sável (Alosa alosa) e a savelha (Alosa fallax), e ainda um dos poucos locais de ocorrência confirmada da lampreia-de-riacho (Lampetra planeri). Juntamente com muitas das linhas de água do concelho, possibilitam a presença de outras espécies com estatuto de proteção, tais como a boga (Chondrostoma polylepis), o bordalo (Rutilus alburnoides), o ruivaco (Rutilus macrolepidotus), a lampreia (Petromyzon marinus), bem como de répteis e anfíbios que só existem na Península Ibérica, como é o caso do lagarto-de-água (Lacerta schreiberi), da rã-castanha (Rana iberica), do sapo-parteiro (Alytes obstetricans), do tritão-de-ventre-laranja (Triturus boscai) e da singular salamandra-lusitânica (Chioglossa lusitanica). Nas áreas húmidas adjacentes ao rio, surgem espécies de mamíferos como a lontra (Lutra lutra) e a menos conhecida toupeira-de-água (Galemys pyrenaicus). Já algumas espécies de morcegos, únicos mamíferos com voo ativo, escolhem como locais de abrigo os moinhos abandonados da bacia do Vouga. Tipicamente ribeirinhas, aves

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como o guarda-rios (Alcedo atthis), a alvéola cinzenta (Motacilla cinerea) e o melro-d’água (Cinclus cinclus) dependem dos rios para se alimentarem e reproduzirem. Naturalmente que, num concelho com 130 km2 de área e com uma grande heterogeneidade de fatores ambientais, muito mais biodiversidade pode ser encontrada. Afloramentos rochosos, bosques mistos, corredores ripícolas e jardins, constituem exemplos de importantes locais de abrigo, reprodução e alimentação para aves residentes e migradoras. Só na área das minas do Braçal foram registadas mais de 30 espécies. Relativamente às plantas, apesar da uniformidade do coberto arbóreo e da expansão de algumas invasoras, observam-se ainda espécies com estatuto de proteção, tais como o narciso martelinho (Narcissus cyclamineus), o azevinho (Ilex aquifolium) e a gilbardeira (Ruscus aculeatus), endemismos ibéricos, entre os quais a paradísea (Paradisea lusitanica) e o tojo-gatunho (Ulex micranthus), e mesmo endemismos lusitanos como, por exemplo, Anar-

rhinum longipedicellatum. Interessantes por terem uma distribuição restrita no nosso país são também o feto-do-botão (Woodwardia radicans), a carnívora pinguícola (Pinguicula lusitanica), o hipericão-do-gerês (Hypericum androsaemum) e o selo-de-salomão (Polygonatum odoratum). As potencialidades naturais que este território encerra constituem fatores de desenvolvimento por promoverem a procura de atividades ligadas ao lazer, ao turismo de natureza, desportivo, científico e cultural. Destaca-se também o vasto e rico património da região, patente nos monumentos, nas manifestações religiosas (festas e romarias), nas feiras, nos diversos tipos de artesanato, na gastronomia típica e em outras práticas culturais. Moinhos, levadas, pisões, pontes ferroviárias e rodoviárias, pontões, poldras, muros, açudes, túneis, locais de culto, pelourinhos, cruzeiros, minas antigas e pequenas embarcações (bateiras), merecem um olhar atento de quem percorre os percursos pedestres do concelho ou de quem visita Sever do Vouga.

REFE RÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Costa Tenório, M., Morla, C. & Sainz Ollero, H. (Ed.s). (2001). Los bosques ibéricos - Una interpretación geobotánica.

Editorial Planeta. Barcelona.

Girão, A. A. (1922). A bacia do Vouga. Coimbra : Imp. da Universidade. Goes, E. (1977). Os eucaliptos (Ecologia, Cultura, Produções e Rentabilidade).

Portucel. Centro de Produção Florestal. Lisboa.

Van Der Knaap, W. & Van Leeuwen, J. (1994). Holocene vegetation, human impact,

and climatic change in the Serra da Estrela, Portugal. Dissertaciones Botanicae, 234: 497-535.

Vitorino, F. (2000). Agricultura e mineração. Uma coexistência difícil. As minas do Vale do Vouga

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e as comunidades do Vale do Rio Águeda, 1889-1924, Gestão e Desenvolvimento, 9: 255-299.

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ORIGENS P E D R O S O B R A L D E C A R VA L H O

AS PRIMEIRAS COMUNIDADES Os mais antigos vestígios da presença humana no vale do rio Vouga remontam ao chamado Paleolítico Inferior, isto é, a um período que deverá rondar os 250 / 300 mil anos. Estes vestígios consistem em utensílios feitos a partir de pedra lascada. Nesta época, os nossos antepassados, ainda muito diferentes do Homem atual (Homo sapiens sapiens), talhavam frequentemente seixos rolados de quartzito para fabricar ferramentas, que tinham funções muito diversificadas. Como ainda não praticavam a agricultura, é provável que estas ferramentas fossem usadas para desenterrar raízes ou tubérculos de plantas comestíveis e, sobretudo, para desmanchar animais já mortos para serem consumidos. Num momento bastante mais recente, entre cerca de 14.000 e 10.000 anos (Paleolítico Superior), encontramos novos testemunhos da presença do Homem na região, desta vez atribuídos ao Homo sapiens sapiens. Aparentemente, as comunidades humanas desta fase terão frequentado, pelo menos, as zonas ribeirinhas. Aqui não só tinham acesso à água, como podiam pescar, caçar, recolher alimentos vegetais e obter diversas rochas e minerais para produzir utensílios. Por vezes, estas comunidades construíam cabanas e faziam lareiras nestes locais, onde tendiam a permanecer algum tempo. As cabanas e as lareiras, a par do vestuário

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feito a partir de peles de animais, terão sido fundamentais para a superação do intenso frio que se fazia sentir na época. A presença de vestígios do Paleolítico Superior ao longo dos vales sugere que o Homem os utilizava como “vias” de circulação, que permitiam ligar, por exemplo, os territórios do interior aos do litoral. Os trabalhos arqueológicos efetuados no âmbito do aproveitamento hidroeléctrico de Ribeiradio – Ermida, permitiram a identificação dos mais antigos vestígios do Homem na região e, concretamente, no concelho de Sever do Vouga. Há mais de 10.000 anos, o sítio do Rôdo foi frequentado por grupos humanos que viviam da caça, da pesca e da recoleção de plantas silvestres. As escavações arqueológicas realizadas no sítio do Rôdo permitiram identificar utensílios de pedra lascada e algumas lareiras, que terão servido para cozinhar ou aquecer o Homem. É muito provável que tenham sido também construídas cabanas, mas delas não há grandes evidências. Estes grupos humanos escolheram este local para permanecer algum tempo devido, possivelmente, à presença da água, à abundância de rochas e minerais para o fabrico de utensílios e à existência de recursos alimentares (mamíferos, peixe e produtos vegetais).

  NEOLÍTICO: APROPRIAÇÃO DO TERRITÓRIO As comunidades humanas do neolítico que viveram no território de Sever do Vouga são ainda muito mal conhecidas. De facto, do longo período genericamente englobado pelos finais do vi milénio a.C. e os princípios do iii milénio aC, apenas possuímos vestígios da sua fase final que se deverá situar entre os 4.500 e os 3.700 a.C. Os sinais desse passado são-nos transmitidos pelos imponentes sepulcros megalíticos, os dólmens ou antas, edificados sobretudo nos planaltos da Serra do Arestal e das Talhadas. As comunidades humanas deste período seriam formadas por pequenos grupos de agricultores e pastores que completavam a sua economia com a caça e a recoleção de frutos dependendo, deste modo, do que o território lhes proporcionava.

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DÓLMENS E MENIRES: MARCAS DE IDENTIDADE No concelho de Sever do Vouga são conhecidos quase meia centena de monumentos funerários pré-históricos. Embora não haja datações absolutas que atestem com exatidão as cronologias destes monumentos, podemos adiantar que os mais antigos dólmens terão sido edificados há cerca de 6500 anos. A principal característica deste fenómeno é, no entanto, a enorme variedade de soluções arquitetónicas destes sepulcros. Temos um primeiro momento, provavelmente datado dos finais do v milénio / inícios do iv milénio a.C., marcado por dólmens de câmaras simples, de corredores indiferenciados e com corredores bem demarcados. Estamos certos que, a dado momento, terão coexistido, assim, várias arquiteturas num mesmo espaço. As principais necrópoles deste concelho encontram-se na Serra das Talhadas e na Serra do Arestal, onde podemos igualmente observar um raro menir, o Menir dos Lameirinhos, junto à capela de S. Tiago do Arestal. Todos estes monumentos eram locais essenciais na coesão social, onde as comunidades ainda errantes de pastores e agricultores, encontravam um elemento aglutinador: a fé numa vida além da morte.

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AS IDADES DO BRONZE E DO FERRO: O INÍCIO DAS HOSTILIDADES  

A M E TA L U R G I A E O INÍCIO DE UMA N O VA E R A O domínio gradual da metalurgia acarretou impactos sócioeconómicos que viriam a transformar substancialmente o modo de vida das comunidades humanas. Dos inícios da era dos metais, do Calcolítico ou Idade do Cobre (iii milénio a.C.), não existem vestígios conhecidos no concelho de Sever do Vouga, mas já dos períodos subsequentes, Idades do Bronze (ii/i milénio a.C.) e do Ferro (finais do i milénio a.C.) conhecemos algumas manifestações. Agora, interessava essencialmente controlar as vias por onde circulavam os bens e as matérias-primas que iam e vinham de longe. Implantaram-se, assim, nos finais da Idade do Bronze, povoados amuralhados no cume dos montes como o Castêlo de Cedrim, o Cabeço do Aro ou o Castro de Parada. O território de Sever do Vouga parece ter beneficiado da proximidade ao litoral onde se desenvolviam populações de origem fenícia.

Embora a agricultura continuasse a ser a base de sustento destas populações, assiste-se a uma crescente especialização artesanal em que a produção do bronze (estanho + cobre) virá a criar uma diferenciação social do trabalho. O artesão coabitava junto dos seus, mas a sua capacidade técnica tornava-o um indivíduo especial, trazendo-lhe prestígio. Com a passagem da Idade do Bronze para a Idade do Ferro, aumentam as desigualdades, denunciadas numa hierarquização social atestada nos bens de prestígio, dos quais o torques da Malhada é um bom exemplo. Desenvolvem-se muralhas nos povoados que refletem uma instabilidade sócio-política resultante dos crescentes conflitos regionais. A morte era agora encarada de modo diferente, havendo rituais muito diversos que compreendiam a inumação individual, como aconteceu na Sepultura do Rei, e a incineração, já nos finais da Idade do Bronze, há cerca de 3000 anos. As grandes construções megalíticas deram lugar a pequenos montículos nada monumentais que hoje passam despercebidos na paisagem.

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A ARTE RUPESTRE: O IMAGINÁRIO G R AVA D O L A R A B A C E L A R A LV E S

Entre o iv e o ii milénio a.C., a arte fixa-se na paisagem, ocupando o espaço vivido, no quotidiano, pelas comunidades humanas. Porém, também surge enclausurada no interior de monumentos funerários que eram visitados, apenas por alguns, em ocasiões especiais. Sever do Vouga guarda notáveis exemplares quer da arte pública – gravuras ao ar livre –, quer dessa arte privada e mais intimista – arte megalítica – datadas do período Neolítico. Nessa época, as comunidades pré-históricas desta região adotaram uma linguagem simbólica abstrata que era partilhada por outras ao longo da fachada Atlântica europeia. Embora não possamos decifrar as mensagens transmitidas pelas coreografias de círculos, covinhas, espirais, linhas quebradas ou sinuosas gravadas nas rochas, é de crer que serviriam como um meio de comunicação não só entre os diferentes grupos humanos, mas também talvez entre o universo da realidade visível e mundos imaginários. Contadas de geração em geração, e ainda conhecidas por muitos, lendas antigas relatam histórias de mouras encantadas -seres sobrenaturais que ‘viviam’ no interior dos penedos gravados. Estas lendas transportam para o presente a memória e relevância destes lugares para as comunidades que herdaram este mesmo território e que também nele gravaram sinais em pedras para delimitar o seu termo.

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ROMA, A Q U I TÃ O PERTO J O Ã O L . I N Ê S VA Z

Os primeiros contactos entre os Romanos invasores e os habitantes do território de Sever terão ocorrido por altura das campanhas de Décimo Júnio Bruto na Península Ibérica. Nomeado pro-cônsul para a província da Lusitânia em 138 aC, logo a seguir à morte de Viriato, o general romano lançou-se à conquista dos Calaicos seguindo, certamente, uma via atlântica passando muito próximo do atual concelho ou atravessando-o mesmo.

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A ocupação do território que se deu a seguir levou à manutenção ou abandono dos castros existentes – Cedrim, Rocas, Cabeço do Aro (Espinheiro), Outeiro (Serra do Arestal), Cabreia (Vila Fria), Quinta da Gândara (Silva Escura) e Pisões/Levada (Amiais) – e à adaptação aos novos hábitos e nova cultura introduzidos pelos Romanos, tanto na arquitetura como na agricultura ou no planeamento do espaço.

As vias que atravessavam o atual concelho e que ligavam à grande espinha dorsal atlântica que era a via Olisipo (Lisboa) – Bracara Augusta (Braga), escoavam o chumbo, a prata, o estanho e o cobre que eram explorados nas minas do Braçal, Malhada e Talhadas. Nestas minas apareceram lucernas, baldes, uma taça de sigillata (cerâmica fina da época) e outros objetos que, com as vias, constituem os vestígios mais importantes e visíveis de há dois mil anos.

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SEVER DO VOUGA: TEMPOS MEDIEVOS ANTÓNIO LIMA

A construção da identidade de Sever do Vouga é um processo de longa duração que se inicia na Idade Média durante a “Reconquista”. A região foi disputada pelo poder civil (terras de Santa Maria, Lafões e Vouga), monástico (entre os poderosos mosteiros medievais de Vacariça e Lorvão) e diocesano. Embora todos os lugares que hoje constituem sede de freguesia já se encontrem referenciados nos séculos x a xiii, houve, ao longo dos últimos séculos, frequentes alterações na configuração, na integração administrativa e até na sua designação. Entre as que se revelaram mais estáveis desde a sua formação, provavelmente ainda no século xii, contam-se Santa Maria de Sever, Santa Maria de Pessegueiro e São João de Silva Escura.

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A criação da villa Severi e seu mosteiro, na sequência da integração destas terras nos domínios da monarquia asturiana em finais do século ix, constituiu um passo decisivo na construção dessa identidade. Quando as circunstâncias políticas o exigiram, a partir da reconquista cristã de Coimbra em 1064, o centro de poder ter-se-á transferido para uma fortificação vizinha da villa, fortificação essa que as inquirições régias do século xiii ainda recordam vivamente: o “Crasto que chamam de pena de Sever” que então ainda era “del Rey”.

No século xiii, uma vez ultrapassada a instabilidade e consolidado o poder da monarquia portuguesa, o exercício do poder judicial e administrativo regressa a uma sede civil e aquela que era então chamada “aldeia de Sever” passou a ser a sede do “julgado de Sever de par do Vouga”, do qual a vila e o município atuais são herdeiros diretos.

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FÉ C A R L O S A LV E S

A FÉ Monumentos de fé, assim são as igrejas, as capelas, os cruzeiros e as alminhas que proliferam pelo concelho de Sever do Vouga. A força da sua religiosidade manifesta-se na simplicidade das linhas que definem a arquitetura da igreja matriz de Sever do Vouga ou na exuberância decorativa da fachada da igreja de Cedrim. Por outro lado, as capelas, isoladas ou anexas às casas senhoriais, são o convite à vivência da fé de uma forma mais íntima, sem, contudo, deixar de apostar na sua decoração arquitetónica. Os cruzeiros ornamentam os adros e praças do concelho, e recordam os passos da Paixão de Cristo representada, principalmente, na decoração do cruzeiro de Silva Escura. A relação das gentes de Sever com a morte ficou exposta nas alminhas que proliferam nos caminhos e encruzilhadas do concelho, incitando à oração das almas do purgatório. Estas manifestações de arte são uma profissão de fé, renovada em cada esquina, em cada pedra, em cada imagem que anunciam a crença do povo de Sever do Vouga.

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“Ó VÓS QUE IDES PASSANDO LEMVRAIVOS DE NOS QUE ISTAMOS PENANDO” ALMINHAS Este é o apelo que surge nas Alminhas da Cruz, em Rocas do Vouga dirigido, essencialmente, a todos os caminhantes, viajantes ou residentes para rezarem pelas almas do purgatório. Assim se definem as centenas de alminhas que proliferam por Sever do Vouga: monumentos de dimensões variáveis que apelam ao culto das almas, difundido no séc. xvi. As primeiras alminhas do concelho de Sever do Vouga remontam ao século xviii, generalizando-se, posteriormente, nos séculos xix e xx. Localizadas no curso de caminhos e encruzilhadas, as alminhas são geralmente em pedra de formato retangular ou semicircular. A parte inferior apresenta normalmente um nicho onde se encontra uma pintura ou escultura alusiva ao culto das almas do purgatório e a superior um remate de uma cruz. É recorrente, ainda, surgirem gravados os instrumentos da paixão de Cristo.

C R U Z-D E-H O M E M-M O R T O As cruzes de homem-morto são monumentos à memória de homens e mulheres que no cumprimento das suas tarefas diárias faleceram num determinado local. Geralmente confundidas com as alminhas, as cruzes de homem-morto, ao invés de apresentarem um nicho perfeitamente definido onde surgem as representações iconográficas do purgatório, tem gravado em epígrafe o nome do falecido e a data da sua morte. Uma vez mais, a fé e a vontade de perpetuar, no tempo e no espaço, a memória daqueles que partiram foi, e é, um dos traços característicos das gentes de Sever do Vouga.

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ME MÓ RIA 36


OS SÉCULOS DA MEMÓRIA A VIDA NO CAMPO O respeito e amor pela terra fez com que esta comunidade criasse uma relação de simbiose, aproveitando os seus recursos através de atividades como: a agricultura, silvicultura, criação de animais, entre outras. Dedicados aos ciclos da terra, os Severenses dedicavam-se ao cultivo dos cereais, com particular destaque do milho, vinha e leguminosas. Em campos retalhados pelas encostas deste concelho, construíram varias unidades de apoio que ainda hoje são a marca da paisagem. Espigueiros, eiras e moinhos são uma constante nestes horizontes e ocupavam um papel preponderante no ciclo do milho. Se nas primeiras se guardavam e secavam as maçarocas e o grão, nas segundas transformava-se o cereal em farinha. As elevadas linhas de água e um relevo acentuado levaram o Homem a construir neste território de Sever do Vouga um impressionante número destes moinhos de água, que ainda hoje não possuem paralelo na região. A criação de animais tinha também um papel preponderante com ovelhas, cabras e vacas a serem uma das principais fontes de riqueza destas gentes.

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A pesca e o transporte de mercadorias pelo Vouga eram também atividades das populações ribeirinhas, enquanto nas áreas mais elevadas aproveitavam-se os recursos florestais. Era uma vida de trabalho, em que os escassos meios disponíveis levaram muitas pessoas a procurarem novos meios de vida em outras paragens. Mas esses novos tempos deram também origem a um novo patamar na produção agrícola em que os velhos saberes são otimizados em novas industrias agroalimentares como os lacticínios, as massas alimentícias entre outras. A identidade de outrora mudou e desses tempos já restam muitas memórias e algumas fotografias.

L AT I C Í N I O S O Visconde de Nandufe António Caetano Rodrigues Viana comprou em 1893 uma desnatadeira centrífuga em França, que instalou em Sanfins, fundando a primeira fábrica de laticínios do país, que funcionou até Março de 1924. Surgiu então a Cooperativa Agrícola de Laticínios que sofreu várias privações financeiras e ataques dos industriais de laticínios. De Março de 1924 a Fevereiro de 1937, funcionou como Sociedade Industrial, até que em 1937, por Alvará foi oficialmente criada como Cooperativa, sendo a mais antiga do país.

Nos primeiros tempos, a Cooperativa só separava a nata do leite. Esta era transportada em latas, por mulheres para ser vendida aos industriais, Martins e Rebelo, de Vale de Cambra, e a Custódio Pereira Dias, de Catives (Couto de Esteves) onde era usada no fabrico da Manteiga “Beleza”. Mais tarde adquiriu um pipo e um malaxador e passou a fabricar a sua própria manteiga, da marca “Delícia”. Grande parte da produção de manteiga era vendida para a região de Lisboa, sendo as caixas transportadas à cabeça por mulheres, para a estação de caminho-de-ferro de Paradela. Em 1962 formou-se a União de Cooperativas da Laticínios de Entre Douro e Vouga, composta pela Cooperativa Agrícola de Laticínios de Sanfins, a Cooperativa Agrícola de Laticínios do Vale do Vouga e a Cooperativa Agrícola de Laticínios de Arouca. Em 1967 inicia-se o fabrico de queijo e a recolha total do leite, bem como o processo de arrefecimento e pasteurização. A extinção dos Grémios da Lavoura, em 1977, levou a que a “Cooperativa Agrícola de Sanfins, SCRL” tomasse conta das instalações e da parte comercial, até aí exercida pelo Grémio da Lavoura de Sever do Vouga.

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A L I N H A D O VA L L E DO VOUGA Datam de 1877, os primeiros projetos para uma linha ferroviária nesta região que unisse o litoral ao interior passando por Sever do Vouga. Após alguns anos de discussões e atrasos este projeto iniciou-se com a assinatura do contrato a 5 de fevereiro de 1907. Construída pela Compagnie Française pour la Construction et Exploitation des Chemins de Fer à l'Étranger, esta linha, que ligava Espinho a Viseu, de tipologia estreita (1 metro de distância entre os dois carris (bitola), foi aberta faseadamente. A 5 de Maio de 1913 entrou ao serviço a ligação Sernada - Rio Mau e em 4 de Novembro a etapa entre Rio Mau a Ribeiradio, tendo ficado totalmente operacional a 5 de Fevereiro de 1914. A construção desta linha permitiu uma nova condição para a circulação de pessoas e mercadorias no Vale do Vouga, feito até então com grande dificuldade por via fluvial. A 7 de Julho de 1923, nacionalizou-se a Compagnie Française pour la Construction et Exploitation des Chemins de Fer à l'Étrangere a 1 de abril de 1924 esta linha passou a ser gerida pela Companhia Portuguesa para a Construção e Exploração de Caminhos-de-Ferro. A 1 de janeiro de 1947, a linha do Vouga muda novamente de mãos e passa a ser explorada pela Companhia dos Caminhos-de-Ferro Portugueses.

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Com a abertura de novas vias e o aumento do tráfego automóvel esta ligação começou a entrar em decadência e a perder passageiros e mercadorias. Nos inícios da década de 70, do século XX, existiam 6 ligações diárias entre Espinho e Aveiro e as viagens mais rápidas entre estes dois destinos demoravam cerca de 3h30min. A 25 de agosto de 1972 fez-se a última viagem em comboio a vapor na linha do Vouga, pois o troço entre Sernada do Vouga e Viseu acabou sendo encerrado por causa dos incêndios que estas locomotivas provocavam nas florestas circundantes. Contudo, em 1975 a linha foi novamente reativada e passou a usar material circulante a gasóleo (automotoras). A 1 de Janeiro de 1990 deu-se a ultima viagem de automotora entre Sernada e Viseu.

PONTE DO POÇO DE S. TIAGO Sendo o projeto da autoria do Eng. Paul Sejourné, a direção da sua construção coube ao Eng. François Mercier tendo sido construída com a finalidade de servir de passagem aos comboios da linha do Vouga. Na sua edificação usou-se alvenaria emparelhada e adotaram-se os vãos de grandes dimensões, o maior deles com 70 metros. A sua altura é de 28 metros, o que faz dela a mais alta ponte construída em Pedra do país. Foi edificada, dentro do prazo previsto ficando concluída em 1913, mas mesmo assim importa referir que se demorou mais tempo a aprovar o projeto desta ponte do que a concluir a sua construção.

ILUMINAÇÃO PÚBLICA A primeira notícia da iluminação elétrica do concelho data de 1919 e a autorização para instalar uma rede em baixa tensão deve-se a João Martins Pereira Amaral em 1923. Todavia, a Câmara não acedeu à solicitação e só em 1926 se concretizou a rede de energia elétrica na vila, sujeita a uma remodelação em 1934. O fornecimento fazia-se a partir da hidroelétrica de Sever do Vouga, instalada na Ribeira de Sever, na Arrota, propriedade de João Martins Pereira Amaral. Tratava-se de uma central hidroelétrica que possuía uma reserva térmica com a potência máxima de 15 KW. Em 1926 surge então a primeira iluminação pública, em Sever, com apenas 10 lâmpadas. Posteriormente, em 1928, a Sociedade Industrial do Vouga instala no Rio Vouga, em Pessegueiro do Vouga, uma central hidroelétrica com uma potência máxima de 602 KW. A eletrificação do concelho concretiza-se a partir do contrato com a União Elétrica Portuguesa em 1948 e durante a década de 1950 estendeu-se às várias freguesias do concelho por decisão da Câmara Municipal. Contudo, em Sever do Vouga, a Companhia Mineira e Metalúrgica do Braçal e a Sociedade Industrial do Vouga, construíram as suas próprias centrais elétricas para a execução das suas atividades produtivas. A primeira, instalou três hidroelétricas duas nas Minas do Braçal e uma nas Talhadas, enquanto a segunda implementou uma central no rio Vouga, junto a Pessegueiro do Vouga.

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TRANSPORTES; VIAS E TELECOMUNICAÇÕES

PROJETO SHELL A "Experiência Agrícola de Sever do Vouga", decorrente do projeto Shell, ocorreu entre 1958 e 1968 e durante esse período a Shell colocou neste município o Eng.º Agrónomo Reinaldo Jorge Vital Rodrigues com o objetivo de aconselhar os agricultores. Porquê Sever do Vouga? Precisamente por se tratar de um concelho muito acidentado em termos topográficos, com uma propriedade agrícola extremamente fragmentada e uma população com muito baixo nível de escolaridade. Deste modo, procurava-se incrementar e realizar extensão agrícola e elevar o nível de conhecimentos dos agricultores do concelho. Releve-se ainda a importância deste projeto em iniciativas de caráter social, de formação profissional e no apoio aos cuidados maternos.

S A N TA C A S A DA MISERICÓRDIA Deve-se ao Comendador Augusto Martins Pereira a fundação desta obra de Assistência Social. Datada de 1950, por iniciativa de uma Comissão Instaladora, a denominada Casa dos Pobres, que tinha como objetivo acabar com a mendicidade nas ruas. Depois da construção do Cine Alba em 30 de setembro de 1951, Augusto Martins Pereira inaugura a nova Casa dos Pobres, o Asilo dos Pobres e o Posto Hospitalar, para obviar às condições precárias de uma vasta camada da população do Concelho.

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Para o transporte de pessoas, mercadorias e correio foi criado um serviço de diligência, pertença da “Companhia Industrial Provinciana” fundada em 1885, pelo Comendador António Martins Henriques, sediada na Grela. Porém, após a inauguração da linha de circulação do Vale do Vouga, troço Sernada-Viseu, aquele transporte caiu em desuso em 1914. O troço Sernada-Viseu veio, também, a ser suspenso em 1972.

AS BARCAS DO VOUGA Considerado porto fluvial, no lugar do Poço de S. Tiago, embora não tivessem sido feitas obras para tal, o Rio Vouga era navegável de Pessegueiro do Vouga até à Ria de Aveiro, permitindo, assim, desenvolver trocas comerciais. Os barqueiros eram essencialmente de Sóligo e levavam para Aveiro lenha, carqueja, laranja, etc., trazendo de Aveiro sal, peixe, tijolo, telha e as novidades.

PONTE DE PESSEGUEIRO DO VOUGA Outra ponte de grande valor arquitetónico é a ponte sobre o rio Vouga, que liga as freguesias de Paradela a Pessegueiro do Vouga. A travessia e ligação entre as duas freguesias fazia-se atravessando o rio numa pequena barca poucos metros a jusante da referida ponte. Fazia-se, quando o rio o permitia. No Inverno, quando as cheias eram mais frequentes, a situação complicava-se. Esta ponte foi construída no local onde as margens

mais se aproximavam. Esta obra deve-se ao dinamismo do abade Manuel António Dias Santiago, de Pessegueiro, o qual disponibilizou 8000 cruzados. Posteriormente, com a construção entre 1872 e 1874 da estrada de acesso a Sever do Vouga esta ponte foi usada para proporcionar uma mais eficaz circulação de pessoas e de mercadorias com a sede do concelho. Na década de 30 do século XX, esta ponte passou a estar inserida na rede nacional de estradas criada pela Junta Autónoma de Estradas com o nome de EN16.

CORREIOS E TELEFONES O transporte da correspondência, que data de 1844, competia a um homem contratado para o efeito, tendo apenas sido arrematado o transporte das malas do correio entre a Vila e a estação dos caminhos-de-ferro em Paradela, em 1918. Quanto às ligações telefónicas em 1931 foi solicitado à administração a montagem de uma cabina telefónica em Rocas. Em 1940, apesar de todos os pedidos insistentes, ainda não havia um posto telefónico na Vila. Porém, a 14 de junho de 1940 é colocado o primeiro telefone público no Concelho de Sever do Vouga, nomeadamente na freguesia de Pessegueiro do Vouga.

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MINAS DO BRAÇAL A segunda fase da exploração de Galena nas Minas do Braçal iniciou-se no segundo quartel do século XIX, através de uma concessão a José Bernardo Michelis, por portaria de 6 de agosto de 1836. Em 1840 esta licença passa para o alemão Diederich Mathias Fewerheerd, radicado na cidade do Porto, que impulsionou a exploração mineira através de técnicos e tecnologia alemã. Em 1850 foi descoberta a mina da Malhada e logo de seguida em 1856 as minas do Coval da Mó. Pelo seu sucesso, o Governo concedeu a isenção de impostos durante 10 anos, por portaria de 30 de janeiro de 1854. As obras em 1851 já tinham mudado o curso do rio Mau e instalado três rodas hidráulicas e uma turbina que serviam para a extração de galena, sulfato de chumbo e pirite de ferro. Em 1862 uma multidão, especialmente de Ribeira de Fráguas e de Silva Escura, entra pelas instalações mineiras destruindo-as, uma vez que o fumo das fornalhas das minas estava a prejudicar as suas vinhas causando grandes prejuízos à produção agrícola.

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O Governo sentiu-se na obrigação de indemnizar a empresa, autorizando a construção de uma linha férrea do sistema americano que ligasse as explorações do Braçal, Malhada e Coval da Mó, pelo Rio Mau até ao Vouga. A construção da linha teve início em 1864 e foram transportados por ela grandes quantidades de minério para dois barcos que a empresa possuía no Vouga tendo, cada um, a capacidade de transportar 10 toneladas. Daqui seguiam para Aveiro tendo como destino Inglaterra e Alemanha Estes barcos traziam produtos e artigos para consumo e aplicação na exploração mineira, sendo transportadas em vagões para o Braçal puxados por duas ou mais juntas de bois. Em 1863, a empresa mandou construir uma oficina de fundição no Braçal, na margem esquerda do Rio Mau, à qual deu o nome de D. Fernando, marido da Rainha D. Maria II, denominação que foi autorizada em 24 de maio de 1862. Esta oficina utilizou o mesmo modelo das fundições de Stolberg, na Prússia. Entretanto, Diederich Mathias Fewerheerd morre no Porto em 1874. Como grande e reconhecido empresário, foi condecorado pelo rei D. Pedro V com o grau de Cavaleiro da Ordem de Cristo e agraciado pelo Rei D. Luís com a Comenda da Conceição.

Depois da sua morte procede-se à reestruturação da empresa constituindo-se uma sociedade com o nome de Administração das minas do Braçal. Dela faziam parte a viúva, D. Sofia Fewerheerd e outros herdeiros, mantendo-se a exploração até 1882. Os grandes melhoramentos realizados neste complexo, conduziram a Companhia a uma crise financeira, que ameaçava fechar, o que contribuiu para a constituição de uma nova Sociedade em 14 de janeiro de 1882, aprovada por alvará de 28 de junho do referido ano, com capitais luso-germânicos. Estava criada a Companhia Mineira e Metalúrgica do Braçal. Foi nomeado seu administrador-delegado o Dr. António Lopes da Gama. Esta sociedade manteve-se até 1880 e faziam parte dela as três áreas de exploração – Braçal, Malhada e Coval da Mó – os escritórios, a oficina de fundição D. Fernando, a Serralharia, a Caldeiraria, a Fundição de Ferro e Bronze, a Carpintaria e um laboratório devidamente apetrechado para a avaliação da pureza dos metais extraídos e da sua composição. Em 1904, as minas fecharam devido à falência do seu proprietário, voltando a ser reabertas anos mais tarde, tendo sido encerrada a exploração mineira em a 31 de Dezembro de 1958. Contudo, o desmantelamento da mina continuou por vários meses até que na década de 60, do século XX, foram dispensados os últimos trabalhadores.

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MIR TI LO 46


MIRTILO

O mirtilo (Vaccinium corymbosum), também conhecido por arando ou uva-do-monte, é um pequeno arbusto da família das urzes, do loendro e do medronheiro. Cresce espontaneamente nas montanhas e florestas da América do Norte e da Europa (em Portugal, apenas no norte). O fruto é uma baga azul escura e sumarenta, usado, há séculos, como alimento devido ao elevado valor nutritivo. O herbalismo do século XVI documentou o uso medicinal da planta no tratamento de pedras na bexiga, desordens biliares, escorbuto, tosse e tuberculose. Atualmente, a investigação no mirtilo (fruto e folha) está direcionada para o tratamento de desordens oculares, vasculares e diabetes mellitus.

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Introduzido em Portugal na década de 90, em Sever do Vouga, este fruto possui hoje um papel muito importante na economia local, tendo Sever do Vouga adquirido a marca 'Capital do Mirtilo'.

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SEVER DO VOUGA. 2016

Catálogo da Exposição Permanente  

Catálogo da Exposição Permanente do Museu Municipal de Sever do Vouga

Catálogo da Exposição Permanente  

Catálogo da Exposição Permanente do Museu Municipal de Sever do Vouga

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