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Ontem acordei e estava um dia cinzento. Sabia-o, ainda que por detrás das cortinas nada se visse, porque se sombreavam em tons de cinzento os contornos da janela do meu quarto. Um cinza escuro e desprovido de luz, que me fazia antever mais um dia semelhante à noite, igual aquela noite fria e escura em que me havia deitado anteriormente. Foi assim que acordei hoje de manhã, mais um dia como tantos outros, onde capaz de imaginar o frio que lá fora fazia, imaginava tão-somente como seria o gelo de acordar sozinho. E eu acordara. Quanta gente teria acordado, nessa noite, só e desamparada, sem chão que as pudesse sustentar, que suportasse o seu peso, um peso que as carregava para baixo uma e outra vez, às vezes tão baixo, que as impedia de se levantarem. Velhos, mendigos, doentes, perdidos e incompreendidos, poderiam hoje quantos deles dizer, que um prato de sopa quente, seria o único conforto que lhes aqueceria o coração? E porque estaria eu a perguntar-me isto, se nunca o fizera antes? Esta introspecção ecoara no meu pensamento desde o primeiro minuto que em acordara e sem saber porquê, mantinha-me ali sentado na cama, estático, pensativo e a olhando para o nada, à espera que algo me fizesse erguer da cama, ainda quente. Foi então que algo chamou a minha atenção. Suaves pancadas na janela, despertaramme daquele estado vegetativo e num rompante dirigi-me à janela, onde ao arrastar os cortinados para ambos os lados me deparei com um cenário branco e espesso, carregado de neve. De repente toda aquela escuridão que envolvia o meu quarto, desaparecera e encontrava-se agora cheio de luz. Cada pedaço de neve que batia no vidro, fazia-o com uma delicadeza, só comparável com o silêncio que então se fazia lá fora. Observei tranquilamente e com admiração aquela linda paisagem gelada, onde algumas luzes ainda acesas, piscavam nos ornamentos das casas, em que um cão vadio tremendo de frio se aconchegava em si próprio, tentando aquecer-se por baixo de uma velha arvore, um carro que cuidadosamente passava e um jovem rapaz ao longe, que curiosamente bracejava com a sua namorada à porta de casa, em tom de discussão. Não fora a neve e este seria um dia igual a tantos outros dias de Inverno, mas ainda assim, pensando bem, este era um dia especial. Deixei o cenário branco para trás e dirigi-me para a cozinha. Na mesa, pouco composta, estavam duas fatias de rabanadas, um bolo-rei e meia dúzia de sonhos. Cortei uma fatia de bolo-rei e dirigi-me para a sala. Liguei as luzes da árvore, e sentei-me no sofá a observar os lindos efeitos do piscar das luzes sobre as bolas coloridas que a decoravam. Pus-me a pensar novamente nas coisas que vira lá fora e nas preocupações que me assolaram ao acordar. Levantei-me novamente e fui à janela da sala desta vez. Já não passava um único carro na estrada ao longe, as luzes das casas já se haviam desligado, o cão ainda lá permanecia no mesmo local e do jovem casal, já só restava o rapaz, que sentado nas escadas em frente da porta da sua casa, e com as mãos na cabeça, observava o céu com desolação. Já imaginado o desfecho daquele par, tentei imaginar o que os havia separado. Qual teria sido a razão da discórdia? O que pode fazer com que duas pessoas que se amam, se afastem voluntariamente e para sempre? Era Natal, e no Natal as pessoas não se deveriam afastar. Não era certo. O correcto seria que se encontrassem, que conversassem e fizessem as pazes. O correcto era que as famílias se juntassem, que confraternizassem, e aproveitassem aquele momento para se tornarem mais próximas, mais solidárias e mais amáveis. O correcto era que da noite surgisse luz, a luz de uma árvore ornamentada, a luz de uma fogueira quente, a luz de um raio de sol tranquilizante, a luz de uma paz de espírito. O correcto seria que depois do Natal, o mundo pudesse encontrar a felicidade de que tanto precisa. Vesti algumas peças de roupa quentes, coloquei um gorro, umas luvas e saí de casa. Tinha colocado previamente, numa embalagem de plástico, alguns pedaços de carne do


jantar do dia anterior que aquecera e caminhei para os dar ao pobre cão. À medida que me aproximava do animal, este esforçava-se por abrir as pálpebras dos olhos geladas, para olhar para mim, talvez numa tentativa de me suplicar ajuda, com o seu olhar triste. Aquele cenário esfriou-me o coração, mas mantive a postura e caminhei os últimos metros que me separavam dele. Já na presença do cão, agachei-me e pousei a sua comida sobre o chão. Afaguei o seu focinho com as minhas mãos quentes, tentando confortá-lo o mais que podia, depois, tirei a tampa da embalagem e esperei que ele comesse. A princípio, o pobre animal, parecia incapaz de se levantar para comer, mas esforçadamente, lá conseguiu e iniciou o seu festim. Com as minhas mãos acariciei o seu pêlo gelado para o aquecer e tranquilizar, quando reparo que tem uma coleira com uma pequena chapa reluzente onde está gravado o seu nome, Pepe.

Uma história incompleta  

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