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Leituras Partilhadas 5.º C

O CARANGUEJO VERDE

No grande mar azul, junto às grandes rochas roídas pelas ondas e pelo vento, vivia um pequeno caranguejo verde. Gastava o dia a trepar pelas muralhas de pedra, em correrias desengonçadas. De tão desajeitado, todos troçavam dele. Voavam as brancas gaivotas no ar e no seu voo liso, pareciam preguiçosas bailarinas cansadas de dançar. Às vezes pousavam nas rochas negras; o pequeno caranguejo ficava a olhá-las, enquanto penteavam as longas penas finas, brancas, com a vaidade de quem se sente belo e admirado. As penas velhas caíam sobre as pedras, mas mesmo essas eram ainda tão leves e macias que o caranguejo verde, de casca dura, rugosa sonhava ter um vestido assim lindo, leve, branco como uma espuma, um vestido que o fizesse voar. Então, em segredo, todas as noites, quando os bichos dormiam e as próprias estrelas piscavam os olhos de sono, o pequeno caranguejo saía da sua toca para apanhar as penas caídas. Tantas foi juntando, tantas

pássaros. Já ninguém agora via o caranguejo trepar pelos rochedos, arrastado e triste, pois o seu prazer era unir as penas, de forma a arranjar

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e tão belas, que o feio esconderijo de pedra mais parecia um ninho de

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GRUPO A


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um vestido da mais fina penugem, com longas asas brancas como as das

ia deixando cair, de espanto, na praia. Pararam as ondas, com as cristas

gaivotas, para parecer uma delas.

erguidas. Os peixes ficaram com as bocas abertas. E o vento, mais

— Que será feito do caranguejo verde? — perguntavam as algas.

atrevido, soprou de mansinho, que era essa a sua maneira de

— Nunca mais se viu... Terá fugido com vergonha de ser tão feio.

cumprimentar. Com a saudação, o caranguejo, de tão leve, voou pelo ar,

Caranguejo

ondejando lentamente, admirado e trémulo com a sua proeza. Quando

não te vejo

tornou a cair nas rochas já os polvos, os ouriços, os mexilhões, as algas

caranguejo

estavam atónitos, a admirá-lo e as próprias gaivotas vinham descendo

não te vejo.

dos seus passeios pelas nuvens.

disfarce. Faltava-lhe só uma touca de penas. Os polvos peganhentos e senhores de tantos braços, que viviam também nas rochas, andavam intrigados, censurando entre si: — Ora esta, ir-se embora sem avisar os vizinhos! Este caranguejo, afinal, não presta para nada e ainda por cima é malcriado! O caranguejo ria, ria sozinho ao escutar tais conversas, no seu buraco, mascarado de gaivota.

— Que belo! Que gentil! Que pássaro maravilhoso! — exclamavam uns e outros. — Que brancura! Que ligeireza! Que graça! O pequeno caranguejo verde agradecia tanta simpatia, por baixo do seu disfarce, sorrindo. Assim começou para ele uma nova vida. Já não precisava de se esconder pelos buracos, com vergonha do seu corpo atarracado, das suas patas tortas, peludas, da boca enorme, a espumar, a espumar. As penas

Até que um dia, quando o sol ia bem alto no céu, com a cara

tudo encobriam e, quando o vento soprava, abria devagar as asas,

redonda e quente toda a faiscar labaredas, voltada para o negro castelo

deixava-se levar sem destino, fingindo que voava. Rodopiava por cima das

de rochas, o caranguejo saiu, majestosamente, do esconderijo, branco

ondas, das praias desertas, viajava nos longos comboios de nuvens e um

como um nenúfar, uma noiva, uma espuma, uma gaivota. O próprio sol se

dia tão longe foi parar que já nem o alto castelo de rochedos se avistava.

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O caranguejo fingia nada ouvir, continuando a trabalhar no seu

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— respondiam os peixes, e as ondas brincalhonas ficavam a cantarolar:


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Caía uma chuva triste, tão gelada que o caranguejo, de penas encharcadas, resolveu refugiar-se nuns arbustos que salpicavam a areia. Não fora ele o primeiro a ter essa ideia. Já pardais e borboletas, zumbidoras abelhas aí se tinham acolhido e, espantados, receberam o estranho animal. — Também vens para a grande festa da bicharada? — Qual festa? Então um dos pardais contou: — Há muito tempo que os bichos do mar e da terra andam em grandes discussões. Todos pretendem ser os mais belos, os mais capazes, os mais fortes, mais poderosos e amanhã, perante a bicharada aqui reunida, cada um mostrará aquilo que vale. Foi uma algazarra, aquela noite. Os bichos da terra surgiam. de todos os cantos e o litoral ena crespava-se de vida marinha. Ao romper da manhã, já passado o temporal, saiu o caranguejo do seu arbusto e aproximou-se da beira-mar. Andorinhas, com flores no bico, vinham enfeitar o areal e os peixes do largo tinham trazido as mais lindas algas, que formavam jardins fantásticos sob a transparência das águas.

Nuno Boavida Mafalda Batalha Maria João Filipe | Mar 2010

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GRUPO B

Quando a orquestra das ondas começou a tocar, acompanhando o canto dos rouxinóis, o sol avançou por trás do reposteiro das nuvens, falando assim: — Animais aqui reunidos, chegou o tempo de decidir se são melhores os bichos da terra ou do mar. É favor apresentarem-se os concorrentes. Ergueu-se pesadamente o elefante que, depois de dar os bons dias, estendendo a grande tromba, abanando as orelhas, disse: — Devo ser eu o rei da criação, pois sou o mais forte animal da terra. Mas logo a baleia, erguendo um repuxo de água a muitos metros de altura em sinal de protesto, reclamou: — Cabe-me a mim esse lugar, pois animal maior ou mais forte que eu não existe. Então o sol ordenou:

encalhar, nem o elefante se arriscava a perder o pé entre as ondas.

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Mas nem a baleia podia avançar até à praia, sob perigo de

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— Aproximem-se e meçam as vossas forças.


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Saltou o veado de trás duma moita, escavando a terra com as suas finas patas nervosas e propôs:

— É este o mais belo!

E os bichos da terra: — É o pavão!

— Bata-me algum peixe nas minhas correrias, se for capaz.

— Aproximem-se um do outro — mandou o sol.

— Experimente o veado ultrapassar-me a nadar — disse o salmão.

Como, porém?

Mas nem o veado se atreveu a molhar os cascos, nem o salmão a

Estava o caranguejo verde de boca aberta com o que via, quando

pôr as barbatanas em terra.

o macaco pulou, chiando:

— Passemos a novas propostas — ordenou o sol.

— Onde se encontrará animal que trepe melhor que eu?

— Não há quem voe mais alto que eu — ex clamou a águia real

— Trepa o polvo, ora essa — respondeu o carapau. — Tu tens

— Quem muito sobe, muito desce. Serás tu capaz de pousar nas profundezas do oceano? — perguntou o linguado. Calou-se a águia e, mais uma vez, teve o sol de suspender o concurso. Avançou então o pavão, com a cauda aberta em leque, pintado das mais lindas cores e, vaidoso, indagou: — Não serei o mais belo animal do mundo? Haverá no mar um bicho assim? Logo avançou um peixe tropical, riscado como um arco-íris fluorescente.

quatro patas, ele tem oito, todas cheias de ventosas, que se prendem às rochas com tanta força que ninguém o consegue arrancar. Serás tu capaz de subir pelos rochedos quando as ondas batem de todos os lados e os remoinhos puxam os bichos para o fundo do mar? Calou-se o macaco e o próprio polvo se encolheu, pensando que o sol o iria fazer subir às palmeiras. — Parece-me que também estes concorrentes não podem medir forças, pois o macaco da água tem medo e o polvo nem pode ouvir falar em florestas. Os bichos do mar e da terra não se podem comparar, pois os que num lado são bons, no outro não valem nada.

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primeira parte do concurso. Veremos agora qual o mais ágil e Iadino.

Gritavam os peixes:

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— Como não podem mostrar o que valem, dou por encerrada a


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Então o pequeno caranguejo verde, envergonhado, levantou-se do seu lugar, murmurando:

O sol ria à gargalhada ao ver o espanto da bicharada.

— Tu?! — exclamaram todos. — Um pássaro... — Não sou pássaro, mas caranguejo — e, dizendo isto, deitou fora

— E fraco. — lembrava a baleia. — Andas para trás em vez de correres para a frente — continuava o veado.

o branco vestido de penas, avançou pela areia, meteu-se pelo mar. Ao

— Que desajeitado a trepar! — troçava o macaco.

voltar à praia trazia a casca luzidia, tão verde, brilhante que, ao sol,

— Mas, bem ou mal, faço tudo em qualquer parte. Sempre valho

faiscava como uma esmeralda.

mais que vocês.

— Não serei o mais lindo, mas a minha beleza pode comparar-se

— Assim é — concordou o sol. — E à falta de quem tudo faça

com a de qualquer bicho. Não serei o mais ligeiro, mas corro em qualquer

melhor do que tu, pequeno bicho do mar e da terra, te considero o rei

par- te. Não serei o melhor trepador, mas trepo pelo que encontrar à

dos animais.

minha frente, ou nas minhas costas, pois a andar para trás é que ninguém

Recuando, recuando sempre, com a feia boca verde a espumar de

me vence. O mais forte também não serei, mas se me vierem atacar em

contentamento, o caranguejo agradecia, confuso, ainda mal acreditando

terra, fujo para o mar, e se no mar alguém me quiser mal, em terreno

no que acabava de acontecer. Redondo, duro, lustroso como um seixo da

firme não me apanhará. Em qualquer buraco ao ar me enfio, e por baixo

praia, raspando com as tortas patas peludas os grãos de areia, ele olhava

da própria areia tão tapadinho me escondo que ninguém será capaz de

o seu disfarce de pássaro caído no chão, tão branco, tão leve, tão fino

me encontrar. Serei eu, afinal, o melhor bicho do mundo?

como um nenúfar, uma noiva, uma gaivota.

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ando em terra como ando no mar.

— Mas és feio... — dizia o pavão.

Nuno Boavida Mafalda Batalha Maria João Filipe | Mar 2010

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— Mas eu consigo fazer o que mais ninguém consegue. Tanto


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5.ยบ C

Histórias de bichos - o caranguejo verde  

Histórias de Luísa Ducla Soares

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