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A Liederabend como dispositivo Recuemos um instante para tentar cultivar o pensamento que o espetáculo de Marthaler abre, e fazer do pensar em si uma ação multivetorial. King Size explora uma estrutura aparentemente simples. Ao articular as canções que atravessam essa obra, que incluem compositores tão distintos quanto Gustav Mahler, Erik Satie e Richard Wagner, Marthaler resgata, de certa forma, o formato da Liederabend, termo que pode ser traduzido literalmente como “noite de canções”.3 Trata-se de uma prática surgida no século XIX, sobretudo na Alemanha e na Áustria, em que musicistas e amantes da música se reuniam, muitas vezes em casas privadas, para apreciar o desempenho de um ou mais cantores que executavam obras de compositores em voga no momento. Canções poderiam ainda ser escolhidas em torno a um tema ou ideia, articulando assim obras de diferentes compositores. No caso de King Size alguns temas são recorrentes, como o sono, os sonhos e o amor, percebidos também através do universo infantil. Mas limitarmo-nos a perceber esse espetáculo como um recital de canções que se restringem a um horizonte específico de significação é abrir mão de suas camadas expressivas mais potentes, camadas que parecem, exatamente, singularizá-lo. Ao “espectar” King Size é possível reconhecer tensionamentos que permeiam a relação entre as canções selecionadas e a encenação em vários níveis. Os conteúdos, ou mesmo a atmosfera produzida pelas canções, não são reiterados pelo que acontece em cena, fato que se dá não somente em função da atuação dos performers-cantores, mas também como fruto da exploração de espacialidades e temporalidades deslizantes. Se inicialmente somos colocados diante de um quarto, supostamente de hotel – que remete a um universo que beira o kitsch, com seu tom azulado bebê e a decoração de gosto duvidoso –, aos poucos nos deparamos com armários que se transformam em lugares de passagem e que nos fazem imaginar um entrelaçamento de situações e realidades. Os Enarmônicos: Pontes Latentes, Invisíveis… Além de diretor atuante no teatro e no mundo da ópera e musicista – estudou oboé e flauta, além de composição – Marthaler agrega em sua formação experiências variadas, como aquela vivida na Escola de Jacques Lecoq, em Paris. Percebe-se a herança de Lecoq em King Size, sobretudo na exploração de rupturas poéticas, que produzem uma espécie de vertigem, perturbando o pretenso realismo proposto inicialmente. Mas o aspecto a ser apontado aqui envolve a maneira extremamente ampliada como o diretor suíço parece perceber a música. Em contraste com John Cage, Marthaler não parece ver a música como dimensão redutora das potencialidades do som, mas como canal através do qual essas potencialidades podem se manifestar e incidir profundamente sobre nós, seres humanos, nos afetando e gerando diferentes dinâmicas relacionais. Essa percepção parece ficar clara quando ele comenta sobre a função dos sons enarmônicos, tal como descrito no Programa de King Size, por ocasião 3 Fazem parte da obra as canções “Bilitis”, de Francis Lai; “Wachet auf, wachet auf es krähte der Hahn”, de Johann Joachim Wachsmann; “Die güldne Sonne”, de Johann Georg Ebeling; “I go to sleep”, de The Kinks; “Seit ich ihn gesehen”, de Robert Schumann; “Le Chapelier”, de Erik Satie; “Ouvre”, de Suzy Solidor; “Tristan und Isolde”, de Richard Wagner; “I ́ll be there”, de The Jackson 5; “Mélie Mélodie”, de Boby Lapointe; “Le nozze di Figaro”, de Wolfgang Amadeus. Mozart; “You could drive a person crazy”, de Stephen Sondheim; “Übre Gotthard füget Bräme”, de Geschwister Schmid; “Stille Liebe”, de Robert Schumann; “Dein Angesicht”, de Robert Schumann; “Des Sennen Abschied”, de Robert Schumann; “Titelmelodie Schwarzwaldklinik”, de Hans Hammerschmid, “Biene Maja”, de Karel Svoboda; “Solang man Träume noch leben kann”, de Münchener Freiheit; “Andante per pianoforte”, de Ludwig V. Beethoven; “Tout pour ma chérie”, de Michel Polnareff; “Abbigsternli”, Schweizer; “Come heavy sleep”, de John Dowland; “Fångad av en stormvind”, de Carola; “Sonny Boy”, de Al Jolson; “Abendlied”, de Robert Schumann; “Adagietto”, de Gustav Mahler, Quinta Sinfonia e “Die Wut über den verlorenen Groschen”, de Ludwig V. Beethoven.

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Catalogo Mitsp 2018  

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