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Lupa confirma nesse espetáculo seu trabalho rigoroso na direção de atores, sutil na exploração quase expressionista de uma espécie difícil de hiper-realismo e fruto da manutenção de sua pesquisa. Ainda que sua trajetória esteja ligada à possibilidade de construção de um método de trabalho, algo característico do contexto polonês, marcado por nomes como Jerzy Grotowski e Tadeusz Kantor, vemos em Lupa uma constante recusa de metodologias que encaminhem o ator a ser mero executor de modelos predefinidos: Eu acredito mais em personalidades que em métodos, que só faziam sentido quando estavam relacionados a seus criadores. Em cada método há uma enorme bagagem de descobertas, a que cada um deve chegar com sua imaginação. Ninguém pode recorrer a eles como se fossem uma receita. Parece-me um caminho errado de alguns criadores escravizar-se a métodos que, usados ​​de forma rigorosa, sem críticas, uniformizam o ator, que se torna um portador-padrão de algo que impede o desenvolvimento de sua personalidade. (LLORENTE, 2007)

A busca pelo caráter autoral e o apontamento que Lupa faz nessa entrevista, concedida em 2007 viriam a causar certo escândalo dois anos depois, quando no discurso no recebimento do Prêmio Europa para o Teatro, em Breslávia (Wroclaw), defendeu que até o método desenvolvido por Grotowski seria uma farsa. A polêmica envolvendo o nome de uma das figuras centrais do teatro no século XX, levantada por um artista que, para muitos, é considerado seu discípulo, foi esclarecida posteriormente sob a alegação de ser impossível acreditar em um teatro “que possa existir sem que as pessoas estejam realmente presentes”, uma vez que “os atores não podem achar que a personagem não lhes pertence”. (COSTA, 2011) O que se evidencia na prática artística preconizada por Lupa é o processo de interpretação “invisível” ou “transparente”. Como bem esclarece, “o que eu faço no teatro e na minha escola também tem algum método, embora eu tente lutar contra ele”. (LLORENTE, 2007) O trabalho com seus atores está pautado em três pilares centrais: a imaginação, a atenção e a improvisação. A imaginação os leva a trabalhar com todos os sentidos, com imagens interiores, com pequenas recordações que se combinam, além da observação da realidade externa. A atenção permite ter em conta como o personagem se relaciona com os objetos, o espaço, os estímulos dos companheiros, e com o que vê e escuta sobre a cena. A improvisação, por sua vez, é provedora do estimulo à criação diária, evitando a rotina e impedindo a instalação de um terreno seguro, detestado por Lupa. Negando-se a desenvolver um esboço dramatúrgico prévio ao contato dos atores com o romance, é através de improvisações que surge a adaptação das obras literárias. Segundo o diretor, “não se muda apenas uma literatura para outra literatura”. Logo, durante as improvisações “esses personagens emergentes emergem. Eles atravessam as paisagens desenhadas pelo autor do romance”. (PERRIER, 2016) Capturado não por um indivíduo determinado, mas pela natureza humana – segundo expressão de Lupa –, o abstrato, o universal dos personagens se concretizará à medida que se relacionar com o espaço, com os outros personagens e com as circunstâncias dadas. O ator, portanto, não abarca o papel, é o papel que abarca o ator, aspecto que devemos entender como um tipo de relação estabelecida a partir da prática livre das improvisações.

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Catalogo Mitsp 2018  

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